30 de junho de 2017

Pela primeira vez na minha vida, não sinto como se as coisas só pudessem piorar

Juliet Jacques

Repeater Books

Ao contrário de muitos amigos de esquerda em Londres, que têm sido melhores do que eu na participação em manifestações, nunca conheci Jeremy Corbyn. Para minha vergonha – e talvez porque minha ansiedade e depressão me impediram de viajar de Manchester para Londres para a manifestação anti-guerra em fevereiro de 2003– eu nunca tinha ouvido falar dele antes de ele concorrer à liderança do Partido Trabalhista há dois anos.

Mas eu já havia conhecido o John McDonnell – no evento do “Parlamento Popular” [“People’s Parliament”, no original] que ele organizou com a (antiga) Zero Books na Câmara dos Comuns, em março de 2014. McDonnell explicou que ele convocou as sessões para receber diferentes vozes no Parlamento, onde os deputados poderiam ouvi-las. Ele realizava painéis mensais sobre vários assuntos; embora muitos fossem para trabalhadores e sindicalistas, muitas vezes ele abria espaço para escritores e ativistas. Dessa vez, esses escritores eram Mark Fisher, Rhian Jones e Alex Niven – todos pessoas que conheci em Londres, e que considerava amigas, depois de passar dois anos vagando pelos círculos de escritores e jornalistas até encontrar aquele que mais me entusiasmava, centrado em torno da Zero (agora Repeater) e da Verso Books. (J. D. Taylor, a quem eu não conhecia, apresentou o painel final).

McDonnell estava interessado nas idéias do grupo: na análise de Mark sobre o “realismo capitalista” e a necessidade de se imaginar um futuro melhor, apesar daqueles que insistiam que “não há alternativa” e que o pensamento utópico era inútil; na “Oposição Popular” [no original, “Folk Opposition”] de Alex, sobre histórias e possibilidades da cultura popular de oposição, enquanto comentaristas perplexos constantemente perguntavam “o que aconteceu com a música política?”; e na “Repressão” [no original, ‘Clampdown’] de Rhian, uma interrogação sobre classe, gênero e política racial no Britpop, que ainda dominava a imaginação dos nostálgicos picaretas do “Novo Trabalhismo”, e do “indie” conservador e estupefaciente que o seguiu.

Todos esses autores defendiam mudanças abrangentes na relação entre política, cultura, e o clima ideológico em que operavam. Eu havia atingido um pico de desespero com a política parlamentar, especialmente com a forma como a imprensa de direita ditava seu tom, mesmo depois do inquérito Leveson. Sob Ed Miliband, o projeto do Novo Trabalhismo parecia completamente esvaziado, e o Partido Trabalhista Parlamentar me parecia (e a muitos outros) dominado por um comitê sem alma, pensando e se rendendo aos termos que os Tories, os tablóides e seus patrocinadores queriam impor à sociedade britânica. (Na verdade, eu havia estado a menos de dois metros de Miliband na festa do centenário da New Statesman em 2013, quando eu publicava um blog para a revista, em uma tentativa desesperada e, enfim, condenada de trazer uma perspectiva política e cultural mais à esquerda para o seu site. Eu decidi não me apresentar e não incomodar.) Eu não percebia que o Partido Trabalhista ainda abrigava gente como McDonnell: eu assumia que todos abandonaram o navio ou foram purgados durante os anos de Blair e que não haviam sido atraídos de volta por eventos como o protesto anti-austeridade da TUC em março de 2011 – uma marcha com bastante comparecimento (mas estranhamente sem vida) para ver Miliband e, possivelmente, Billy Bragg – nem me lembro.

Gostei do evento, mas saí de lá com o mesmo sentimento de melancolia que eu costumava ter depois de tais discursos. Eu tinha ouvido algumas provocações interessantes, mas muitas das nossas conclusões tinham uma sensação similar: nós identificávamos os problemas, mas frases como “precisamos encontrar uma maneira de mudar o discurso” sobre [digamos] refugiados buscando asilo, requerentes de programas sociais ou sobre s cortes no setor público raramente mascaravam nosso senso de impotência. Sem um movimento sindical ou um partido político que parecesse poder ser um veículo de mudança, estávamos cuspindo no vento: algumas pessoas estavam ouvindo, mas não o suficiente, e muito poucas com influência.

Mais tarde naquele ano, em um painel organizado pelo think tank CLASS na TUC, falei sobre o “potencial da arte e da cultura” – discutindo como o valor da arte hoje parecia ser considerado apenas em termos financeiros, com o financiamento cortado para qualquer coisa que possa não gerar dinheiro, sem qualquer pensamento sobre mérito artístico ou sobre como idéias que inicialmente atingem apenas um punhado de pessoas podem ser transformadoras para aquele punhado e, em última instância, para todos. Com uma eleição geral se aproximando, um amigo expressava seus temores de que “o Partido Trabalhista agora não passava de um bando de bitolados” – tecnocratas com quem ninguém se identifica, que afastavam inúmeras pessoas do partido. Não me esqueci de McDonnell, mas, até onde eu via, os deputados mais jovens pensavam quase exclusivamente que a ordem existente precisava apenas de pequenos ajustes – sem possibilidades para nada mais ambicioso – e não entendiam que, se não havia nenhum tema sobre a qual eles não cederiam, então eles não estavam fazendo concessões, mas capitulando.

Eu não conhecia nada além do Novo Trabalhismo, conforme me aproximava da meia idade: eu tinha 33 anos quando a eleição geral de 2015 foi realizada. Nunca votei no Partido Trabalhista. Em 2010, vivendo em Brighton Pavilion, me deleitei quando meu voto para Caroline Lucas contribui para uma vitória sem precedentes pelo Partido Verde, mas eu sabia que nunca iria muito além desse assento (e que os Verdes haviam dedicado pouco tempo para fazer campanha em áreas mais de classe-trabalhadora, como Hollingdean). Embora gostasse da minha deputada, Diane Abbott, não conseguia engolir o Partido Trabalhista como era. Devido a um erro burocrático em Hackney, demorou duas horas e meia para votar: o pessoal da zona eleitoral me mandou para a Câmara Municipal de Hackney, onde entrei numa longa fila de pessoas, lívida com a sensação de privação dos meus direitos. Eu estava mais deprimida do que ansiosa ou irritada e, eventualmente, marquei meu xis na Liga Comunista – um protesto fútil contra a hegemonia pós-Thatcher e pós-Blair de austeridade e autoritarismo – e contra o apelo para qualquer um na esquerda aceitar o ‘mal menor’ do ‘centrismo’. (Eles tiveram 102 votos.)

A coisa toda parecia desesperadora, mas o pior ainda estava por vir. Eu terminei num evento na Close-Up Cinema, onde planejamos assistir juntos a cobertura da noite da eleição da BBC. Então vimos que a pesquisa de boca de urna previa uma maioria Tory – algo que eu tinha previsto antes do início da campanha, mas que eu tinha deixado para trás quando as pesquisas de opinião sugeriram um parlamento suspenso ou uma vitória estreita dos Trabalhistas – e fui para casa. Voltei para encontrar meus companheiros de quarto em um silêncio atordoado, tendo chorado antes, mas eu simplesmente me sentia entorpecida. Eu queria uma vitória dos Trabalhistas – cinco anos de cortes Tory e uma cultura cada vez mais autoritária tinham esgotado a mim e a muitos dos meus amigos -, mas não podia sentir que o fracasso de Miliband em se tornar primeiro-ministro fosse uma verdadeira tragédia. O fundo do poço foi a resposta de grandes nomes do Partido Trabalhista insistindo que sua derrota se devia ao Miliband ter “levado o partido demais para a esquerda” – mesmo depois de perder toda a Escócia para um movimento anti-austeridade. Como James Butler disse: a tragédia para a maioria das pessoas não era a falta de um governo trabalhista, mas que a política simplesmente continuasse daquele jeito.

Quando Miliband renunciou e Corbyn entrou na disputa pela liderança, ousei imaginar se o Partido Trabalhista poderia ser algo diferente – algo mais emocionante, aproveitando a dignidade e a solidariedade dos antigos movimentos sindicais e as conquistas socialistas, enquanto que usando novas mídias para comunicar um forte desejo por um “novo tipo de política”, em contraste com o vazio nos discursos cuidadosamente trabalhados de seus três adversários, projetados mais para televisão do que para o Twitter, presos em um presente perpétuo que nem sequer lembrava o otimismo da campanha de Tony Blair em 1997, mas a resignação e a exaustão de Gordon Brown em 2010.

Foi a presença de McDonnell que mais me animou. Na década seguinte à minha entrada no jornalismo, eu me sentia sozinha, apoiada apenas por uma pequeno grupo de amigos. Eu tinha finalmente deixado a New Statesman, esgotada e amargurada pela forma como meus esforços para trazer uma perspectiva socialista, queer e trans havia terminado, mas satisfeita por ter me dissociado antes da campanha anti-Corbyn deles ter passado dos limites. O Guardian parecia grande o bastante para sustentar um espectro mais amplo de opiniões, mas sua posição editorial parecia estar veementemente em oposição a qualquer tentativa de tornar o Partido Trabalhista em um movimento baseado nos membros, e de esquerda, não percebendo (como nós havíamos percebido) que não era apenas a ideologia do Novo Trabalhismo que estava acabada, mas também sua metodologia.

Minha exaustão começou a melhorar. Finalmente, eu conseguiria investir energia em algo maior do que eu mesma – e me energizar com isso. A aliança desengonçada entre liberais, socialistas e radicais durante a coalizão, quando era difícil ser tribal com relação ao Partido Trabalhista ou aos Liberais Democratas, colapsou na medida em que a ascensão de Corbyn tornou as linhas divisórias mais claras – mas não me importei. Senti que estávamos no lado certo da história, e que os ‘centristas’ estavam errados. Eventualmente, pensei, o mundo lá fora iria acabar concordando – se apenas Corbyn e McDonnell pudessem receber uma cobertura justa.

Os dois anos desde a eleição de Corbyn para líder foram difíceis. Eu não estava sozinha nas minhas dúvidas com relação à maneira que Corbyn estava lidando com o referendo sobre a União Européia. Muitas das críticas por aí eram desonestas, e fazia tempo que tinha parado de dar ouvidos aos seus detratores na mídia tradicional, mas não estava segura de que ele havia entendido que a maior questão não era a União Européia em si, mas as consequências de um voto Leave para os imigrantes, as pessoas de cor e qualquer um que não se encaixasse no perfil imposto por um nacionalismo inglês recrudescente, com seu militarismo, monarquismo e nostalgia imperialista. Com frequência, me sentia frustrada com como a energia e o entusiasmo das campanhas de Corbyn para a liderança – que quebraram todos os recordes – se dissiparam depois de suas vitórias avassaladoras. Sentia que uma boa parte era culpa do conluio entre a mídia e os parlamentares trabalhistas rebeldes, mas não toda, e ficava imaginando se não havia sido delirante da minha parte colocar qualquer fé que seja na política parlamentar, e no Partido Trabalhista em particular.

Pensei em cancelar minha filiação ao Partido, mas algo me impediu. Inicialmente, era o quanto eu detestava os inimigos do Corbyn, entoando sua cantilena presunçosa e paternalista de como eles estavam certos sobre Corbyn ser “inelegível” – como se isso fosse um fato objetivo, e eles fossem mero observadores externos do discurso político britânico, e não agentes influentes no interior dele. Rotulando aqueles que apoiavam as ideias de Corbyn para o futuro do Partido Trabalhista como “trotskistas” infiltrados, vândalos homofóbicos, anti-semitas raivosos e apoiadores do IRA, o equivalente britânico a uma alt-right apoiadora de Donald Trump (assisti-los agora comer uma bela torta de humildade, particularmente na forma de seus próprios livros, tem sido uma diversão). Mas não era apenas a raiva que me motivava: nunca perdi a memória de McDonnell, ou a sensação de que ele oferecia a possibilidade de uma política que fosse mais do que falatório dos deputados no parlamento, e que partidos políticos poderiam tomar inspiração não apenas de think tanks, mas também da história e da filosofia acadêmicas, da arte e da música, da literatura e da poesia. Me lembrava de como Corbyn me inspirou a assistir pela primeira uma transmissão ao vivo da Casa dos Comuns pela primeira vez, em 6 de julho de 2016, quando ele desafiou o chamado, vindo do banco de trás do Partido Trabalhista, para “sentar-se e calar-se”, e, ao contrário, fez um discurso sobre o Inquérito de Chilcot sobre a guerra do Iraque. Tremia ao longo de todo o discurso, frente à fúria calma e controlada das palavras de Corbyn, sua recusa em deixar pra lá as motivações imperiais da guerra e as consequências desastrosas da invasão e ocupação, e sua convicção de que os milhões, em todo o mundo, que se opuseram a guerra agora estavam sendo provados certos.

Então, quando eu e meus amigos do no.w.here film lab vimos a pesquisa de boca de urna – muito melhor do que minha previsão de que Cobyn perdia “apenas” por 20 ou 30 cadeiras – aquela quinta a noite pareceu uma vindicação. Não apenas pelo nosso apoio ao Corbyn, mas pelas ideias que nós na esquerda estávamos explorando pela última década, e todos os seminários nos quais tentamos estabelecer algum terreno comum intelectual. Como a muitos, me fez pensar na trágica morte de Mark Fisher mais cedo esse ano, logo depois do Brexit e da ascensão de Trump, quando parecia que a ortodoxia neoliberal seria simderrubada – mas por um afundamento no fascismo, forçando aqueles de nós que passamos anos plantando as sementes para um futuro melhor agora a ter que batalhar para salvar as instituições neoliberais que haviam nos excluído, nos ridicularizado e nos combatido, com a preservação do status quo do establishment (que depois retornaria para nos esmagar) parecendo o melhor cenário possível.

Imagino o que Mark faria com esse resultado. Como Corbyn foi ridicularizado como “inelegível” por aqueles que se aferravam ao velho modo de fazer política do “Novo Trabalhismo”, e então lançou uma espetacular campanha que foi capaz de dar um novo propósito e reavivar os princípios social-democratas do partido; conseguiu a maior subida nas pesquisas na memória recente, o que se traduziu na maior ampliação da votação dos trabalhistas desde 1945, e evitou assim a formação de uma maioria conservadora em uma eleição que Therese May convocou porque pensou que poderia arrasar com o Partido Trabalhista e com qualquer oposição de esquerda – pra sempre.

Penso com frequência no incrível entusiasmo do Mark com qualquer coisa que pudesse desgastar a ideologia dominante, mesmo quando não o compartilhava, ou concordava com as posições que resultavam desse entusiasmo. E penso com frequência também em quantas amizades devo a ele, por meio do círculo de blogueiros no qual ele era central, no seu papel na fundação da Zero e depois da Repeater Books, através das quais conheci tantos camaradas – muitos dos quais, como eu, foram inspirados a se filiar no Partido Trabalhista quando o movimento de Corbyn e McDonnell desabrochou. Se você olhar apenas para os número, então sim, nós perdemos – dessa vez. Mas se você olhar para o quadro mais amplo, para as possibilidades que agora se sente que eles abriram para qualquer um com sonhos, um coração e uma alma – então, estamos ganhando. Hoje eu não me sinto ansiosa, eu não me sinto deprimida. Sinto que podemos barrar aquilo que parecia antes como uma onda avassaladora de direita na cultura britânica, quebrar a dominância de figuras como Lynton Crosby, Paul Dacre e Rupert Murdoch sobre o discurso público, assim como o estrangulamento – por parte dos auto-proclamados analistas “sensatos” ligados ao trabalhismo – das conversas sobre o que uma política de esquerda pode ser. Sinto que podemos construir uma contra-cultura revigorada a partir da energia jovem de movimentos como o #grime4corbyn, muito mais excitantes do que a carcassa de um Britpop musicalmente reacionário e politicamente retrógrado. Pela primeira vez na minha vida, eu não sinto como se as coisas só pudessem piorar. Tenho certeza que John McDonnell compartilha do meu otimismo, e gosto de pensar que o Mark também compartilharia.

27 de junho de 2017

A estratégia de tensão da OTAN

Manlio Dinucci


O que aconteceria se o avião do secretário de Defesa dos Estados Unidos Jim Mattis, em voo da Califórnia ao Alasca ao longo de um corredor aéreo sobre o Pacífico, fosse interceptado por um caça russo da aeronáutica cubana? A notícia ocuparia as primeiras páginas, suscitando uma onda de preocupadas reações políticas. Inversamente, não se mexeu sequer uma folha quando em 21 de junho o avião do ministro russo da Defesa Sergei Shoigu, em voo de Moscou ao enclave russo de Caliningrado pelo corredor sobre o Mar Báltico, foi interceptado por um caça F-16 estadunidense da aviação polonesa que, depois de se aproximar ameaçadoramente, teve que se afastar com a intervenção de um caça Sukhoi SU-27 russo. 

Uma provocação programada, que faz parte da estratégia da OTAN visando a aumentar na Europa, dia após dia, a tensão com a Rússia. De 1º a 16 de junho se desenvolveu no Mar Báltico, perto da costa russa e com a motivação oficial de defender a região da “ameaça russa”, o exercício da OTAN “Baltops” com a participação de mais de 50 navios e 50 aeronaves de guerra dos Estados Unidos, França, Alemanha, Grã Bretanha, Polônia e outros países como Suécia e Finlândia, não membros, mas parceiros da Aliança. 

Enquanto isso, de 12 a 23 de junho, realizou-se na Lituânia o exercício Iron Wolf que viu empenhados, pela primeira vez, dois grupos de batalha da OTAN “com presença avançada potenciada”: o da Lituânia sob comando alemão, compreendendo tropas belgas, holandesas e norueguesas e, a partir de 2018, também francesas, croatas e tchecas; e o da Polônia, sob comando americanas, incluindo tropas britânicas e romenas.

Tanques Abrams da 3ª Brigada blindada dos EUA, transferida à Polônia em janeiro último, entraram na Lituânia através do Suwalki Gap, um trecho de terreno plano ao longo de uma centena de quilômetros entre Caliningrado e a Bielorrússia, unindo-se aos blindados Leopard do batalhão alemão 122 de infantaria mecanizada. O Suwalki Gap, adverte a OTAN exumando o aparato propagandístico da velha guerra fria, “seria uma passagem perfeita através da qual os blindados russos poderiam invadir a Europa”. 

Em plena atividade estão também os outros dois grupos de batalha da OTAN: o da Letônia sob comando canadense, que inclui tropas italianas, espanholas, polonesas, eslovenas e albanesas; e o da Estônia sob comando britânico, com tropas francesas e, a partir de 2018, também dinamarquesas. 

“As nossas forças estão prontas e posicionadas no caso em que seja necessário para enfrentar a agressão russa”, assegura o general Curtis Scaparrotti, chefe do Comando europeu dos Estados Unidos e ao mesmo tempo Comandante supremo aliado na Europa. Não são apenas os grupos de batalha da OTAN “com presença avançada potenciada” que estão por ser mobilizados. 

De 12 a 29 de junho se desenvolve no Centro da OTAN de treinamento das forças conjuntas, na Polônia, o exercício “Coalition Warrior” cujo escopo é experimentar a mais avançada tecnologia para dar à OTAN a máxima prontidão e interoperatividade, em particular no confronto com a Rússia. 

Participam mais de mil cientistas e engenheiros de 26 países, entre os quais os do Centro da OTAN para a pesquisa marítima e experimentação com sede em La Spezia. Obviamente, Moscou não está com as mãos abanando. Depois que o presidente Trump visitar a Polônia em seis de julho, a Rússia terá no Mar Báltico um grande exercício naval conjunto com a China. Talvez conheçam em Washington o antigo provérbio: “Quem semeia ventos, colhe tempestade”.

O trabalho italiano

Michael Roberts


Tradução / O governo italiano está gastando US $ 17 bilhões em dinheiro público (da "árvore do dinheiro mágico") para resgatar dois bancos venezianos. Os bancos não serão nacionalizados, mas, em vez disso, entregues ao Intesa Sanpaolo Spa, o maior banco da Itália, pela soma irreal de um euro! O Intesa garantirá os depósitos em dinheiro dos bancos venezianos, mas vai demitir vários milhares de funcionários dos bancos, enquanto obtém 900 novas agências e bilhões em garantias financeiras do governo. O Intesa assumirá todos os empréstimos de execução dos bancos venezianos, enquanto o Estado ficará com todas as dívidas incobráveis que deve ou cancelar ou tentar receber ao longo do tempo.

Então, mais uma vez, as atividades imprudentes de alguns bancos e a estagnação da economia que fizeram muitas empresas incapazes de pagar suas dívidas devem ser "resolvidos" pelo Estado. O resgate é equivalente a 1% do PIB da Itália, e a dívida do setor público já alcança 135% do PIB. O Intesa recebe alguns bancos limpos por apenas um euro, assim como o JP Morgan obteve a rede bancária da Bear Stearns no crash financeiro global por um dólar - tudo pago por impostos ou empréstimos do governo. O Estado e as pessoas não levam nada por seus 17 bilhões de euros.

O que é ainda mais irônico é que o acordo italiano rompe as próprias regras bancárias estabelecidas pelos governos da UE após o colapso financeiro global para evitar que os investidores bancários (detentores de títulos) sejam socorridos às custas dos contribuintes. De acordo com a Diretiva de Resgate e Resolução de Bancos (BRRD) da UE, esses resgates devem primeiro ser financiados pelos detentores de títulos bancários, incluindo os chamados títulos seniores, e somente depois disso, no extremo, por fundos da UE. Mas o Conselho de Resolução Única da UE aceitou, sob pressão do governo italiano, que não havia uma "crise bancária" real que exigisse intervenção da UE e que a Itália sozinha poderia dar conta.

Afinal, os bancos venezianos tinham apenas 2% do sistema bancário. Mas o que não foi levado em consideração foi a enorme perda de outros bancos italianos, como o Monte dei Paschi. Na verdade, a Itália tem 300 bilhões de euros em empréstimos inadimplentes em seus livros bancários, ou cerca de 20% do PIB. Uma resolução ao abrigo das regras da UE exigiria que a Itália encontrasse mais 12 bilhões de euros para o fundo de garantia de depósito do país. E UniCredit, Monte dei Paschi di Siena e UBI Banca teriam que fazer mais chamadas de capital, o afastaria os investidores.

O acordo foi mal visto pela Alemanha, já que ele burla as novas regras bancárias para torná-las irrelevantes - mas o chefe do BCE, Mario Draghi, é um italiano e ex-chefe do banco central da Itália. Para os alemães, é um sinal de que uma maior integração financeira na área do euro é impossível se os estados-nação quebram as regras de forma flagrante.

Politicamente, ajuda os democratas do centro-esquerda e seu líder Matteo Renzi na disputa para recuperar seu cargo de primeiro-ministro em qualquer eleição que venha até maio. Se os bancos tivessem quebrados, os depósitos podem ter sido perdidos e os detentores de títulos liquidados - o que é eleitoralmente negativo, já que muitos detentores de títulos são pessoas de pequenas empresas persuadidas pelos bancos a investir em títulos bancários. A notícia do negócio foi recebida com êxtase pelo mercado acionário.

Assim, temos outro resgate bancário, nove anos desde o colapso financeiro global, que nacionaliza as perdas causadas pelos banqueiros e privatiza ganhos para os banqueiros restantes: exatamente o que as regras da União Bancária da UE deveriam evitar. Milhares de funcionários dos bancos ficarão sem trabalho; mas os investidores bancários estão rindo à toa, a caminho do novo banco. O Estado contrai mais dívidas e, assim, aumenta a pressão para introduzir mais austeridade para atender a dívida. E outros banqueiros sabem disso, se eles fizerem uma bagunça, eles podem escapar com um resgate do Estado e continuar como antes.

Não se pensou com este acordo que o povo, através do Estado, poderia levar esses bancos (e os outros grandes bancos) à propriedade pública e fazer do banco um serviço público para famílias e pequenas empresas e não ser usado como veículos para especulação imprudente, ganância e corrupção. Pelo contrário, este trabalho italiano é um negócio como de costume.

26 de junho de 2017

Os dedo-duros enfrentam ataques

John Kiriakou



Tradução / O Wall Street Journal informou na semana passada que as autoridades federais estão preocupadas com o fato de seus ratos e dedo-duros enfrentarem cada vez mais ataques na prisão por causa da disponibilidade gratuita de documentos judiciais identificando-os como informantes. Em resposta, os tribunais federais estão considerando formas de tornar o processo judicial criminal mais secreto, suscitando preocupação entre advogados de defesa e ativistas das liberdades civis.

As autoridades judiciais federais afirmam que, nos últimos três anos, cerca de 700 "testemunhas e informantes" foram ameaçadas ou feridas, e 61 foram mortas por outros prisioneiros por testemunhar contra ou delatar outros prisioneiros.

Claro que há poderoso incentivo para virar alcaguete. Procuradores podem reduzir sentenças em anos inteiros, em troca de informação. Alguns informantes sequer são presos. Outros são enviados para prisões de segurança máxima para cumprir pena, mas também há os que são mandados para campos de trabalho sob mínima vigilância. Os Procuradores, por sua vez, conseguem condenar em 98,2% dos respectivos casos, segundo ProPublica, sentenças que praticamente sempre são resultados de acordos. Ante o depoimento de uma seleção de alcaguetes, o acusado absolutamente não tem qualquer chance.

Mas o sujo segredo do sistema judicial nos EUA é que poucos acusados sequer ficam sabendo quem os acusou num tribunal, e tampouco são julgados por júri formado de seus pares. Como ideia, é linda. Mas nunca acontece.

Não é difícil saber que alguém testemunhou contra você, mesmo que você esteja preso e sem acesso à internet. Todas as prisões federais nos EUA são obrigadas, por lei, a manter uma biblioteca de livros de Direito. Essas bibliotecas, também por lei, têm de garantir acesso aos registros LexisNexis dos julgamentos. Mas mesmo que não haja informação detalhada sobre informantes no LexisNexis, qualquer prisioneiro pode pedir que alguém do lado de fora entre no portal PACER, portal pay-per-page administrado pelos tribunais, e procure literalmente qualquer arquivo arquivado de qualquer caso. Inclusive, claro, os nomes de informantes e uma resenha da informação que o informante forneceu.

Não posso deixar de dizer aqui que NÃO concordo com nenhuma violência contra seja quem for. Não acho que informantes devam ser atacados como algum tipo de 'revide', em nenhum caso, seja como for. Mas entendo que aconteça. Dou-lhes um exemplo pessoal.

Quando fui preso pela primeira vez em 2013, depois de alertar para a existência de um programa de tortura da CIA, meus advogados me preveniram de que o FBI e o Departamento de Justiça estavam furiosos com a pena (curta) de 30 meses, que recebi. Inicialmente haviam pedido condenação a 45 anos de cadeia, mas o muito que eu sabia da roupa suja da CIA e a minha disposição para testemunhar a meu favor forçaram o governo a sentar à mesa de negociações. Os advogados disseram que o FBI e o Departamento de Justiça fariam quase absolutamente qualquer coisa para me acusarem de qualquer outra coisa, servindo-se eles, para isso, de informantes dentro da prisão, e que em seguida usariam o que conseguissem para aumentar minha pena. Os advogados disseram que eu não confiasse em ninguém. Eu estava portanto perfeitamente alertado.

Poucas semanas depois, um prisioneiro aproximou-se de mim na nossa unidade de habitação e disse, "Ei, John. Há um sujeito novo aqui, que quer encontrar você. Diz que foi porta-voz dos Talibã nos EUA." Eu lembrava vagamente de um afegão-norte-americano que vivia em New Jersey e que trabalhara para os Talibã, e lembrava que ele se dera mal, acusado de ter feito alguma coisa com armas. "Não, obrigado," disse eu. "Não estou interessado." Pena federal mínima para acusação que envolva armas ilegais é cinco anos.

Três ou quatro dias depois eu caminhava pelo corredor da prisão, quando um homem obviamente afegão caminhou na minha direção com a mão estendida para me cumprimentar. Eu imediatamente levantei os dois braços, prevendo, corretamente, que os guardas da prisão estavam atentos, prontos para me fotografar quando abraçasse o rato do FBI. Disse a ele que sumisse da minha frente (em palavras menos bem educadas). "Oh, cara, calma" – disse ele. – "Temos tanta coisa em comum". "Não temos nada em comum", respondi, já me afastando. "Não faça isso", ele voltou a tentar me cercar. "Você é um rato. Não há nenhuma dúvida disso. Nunca mais fale comigo." Três ou quatro dias depois o homem foi "transferido", depois de ter passado apenas uma semana na minha prisão. Ou foi posto lá pelo FBI para me 'ratear', ou recebeu a sentença federal mais curta de toda a história dos EUA.

Não há solução fácil para o problema da proteção de ratos. Mas na verdade não é esse o problema. A questão é que o governo não deve ter que confiar em ratos para fazer instruir os processos. O governo deve confiar em provas. Todo réu deve ter seu dia no tribunal. Todo arguido deve ter uma chance realista de um julgamento pelo júri, não apenas um teórico. Eu garanto-lhe que a grande maioria dos ratos diria literalmente qualquer coisa sobre outro prisioneiro para reduzir sua própria sentença. Esse é o único objetivo deles, afinal. Onde está a justiça nisso?

A crise do Catar

A batalha entre a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos contra o Qatar é uma luta pelo poder regional, sem heróis a serem elogiados.

Adam Hanieh*


Porto Arábia, Qatar. Abraham Puthoor / Flickr

Tradução / A decisão de 5 de junho da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes Unidos (EAU), do Bahrein e do Egito em suspender as relações diplomáticas com o Qatar enviou ondas de choque pelo Oriente Médio.

O bloqueio que se seguiu encerrou grande parte do comércio marítimo e terrestre do Golfo com o Qatar, provocando receios de que o pequeno estado logo enfrentaria uma escassez de alimentos. As principais transportadoras aéreas, incluindo a Emirates, a Gulf Air, a Flydubai e a Etihad Airways, cancelaram os voos e os cidadãos do Qatar que viviam nas nações participantes tiveram apenas duas semanas para voltar para suas casas. Mesmo os imigrantes com permissões de residência do Qatar seriam alvos de expulsão.

Os Emirados Árabes Unidos proibiram qualquer expressão de solidariedade para com o Qatar – até mesmo através do Twitter – e ameaçaram os infratores com penas de prisões de até quinze anos.

Os governos estreitamente ligados à Arábia Saudita e aos Emirados Árabes Unidos expressaram rapidamente o apoio ao bloqueio, incluindo a Câmara dos Deputados na Líbia com base em Tobruk (uma das facções governamentais em conflito do país), o governo de Abed Rabbo Mansour Hadi no Iêmen, apoiado pelos sauditas, bem como Comores, a Mauritânia e as Maldivas.

O movimento contra o Qatar veio após meses de publicidade negativa na mídia americana e no Golfo, em que autoridades estatais alegaram repetidamente que o Qatar estava financiando grupos islâmicos e se aproximando do Irã.

Yousef Al Otaiba, embaixador dos Emirados Árabes Unidos nos Estados Unidos, desempenhou um papel importante nesta campanha. Desde o início das revoltas árabes em 2010, Otaiba tem percorrido os corredores do poder em Washington, alertando que essas revoltas populares ameaçam a ordem estabelecida da região e afirmando também que o Qatar apoia movimentos e indivíduos hostis tanto à Arábia Saudita como aos Emirados Árabes Unidos.

Ex-funcionários do governo americano e think tanks[1] – notadamente a neoconservadora Fundação Pró-Israel para a Defesa das Democracias (FDD), uma apoiadora proeminente na invasão do Iraque em 2003 – assumiram essa cruzada anti-Qatar. Em 23 de maio, a FDD convocou um seminário de alto nível para discutir o relacionamento do país do Golfo com a Irmandade Muçulmana e como a administração de Trump deveria responder. Ali, o ex-secretário de defesa, Robert Gates, pediu ao governo americano que deslocasse sua maciça base aérea no Qatar, a menos que o país cortasse relações com esses grupos.

De acordo com e-mails divulgados logo após a conferência, Otaiba supostamente revisou e encorajou os comentários de Gates. Na verdade, esse vazamento supostamente ajudou a desencadear o bloqueio, revelando a confortável relação do embaixador com Gates, com a FDD, e com outras figuras próximas à administração Trump.

Tanto os Emirados Árabes Unidos quanto a Arábia Saudita também alegaram que o Qatar tem procurado fortalecer os laços com o Irã nos últimos meses. Uma evidência oferecida para isso é a alegação de que o Qatar pagou recentemente US$ 700 milhões ao Irã para garantir a libertação de vinte e seis membros da realeza do Qatar, que haviam sido sequestrados no Iraque em 2015, e haviam sido mantidas no Irã por um ano e meio. Esta história – que também alegadamente envolveu um pagamento à parte de até US$ 300 milhões para grupos alinhados com a Al Qaeda na Síria – foi negada pelo primeiro-ministro iraquiano Haider al-Abadi, que declarou em 11 de junho que o dinheiro permanece no banco central iraquiano.

Por sua parte, a Arábia Saudita criticou uma declaração atribuída ao Emir do Qatar, Tamim bin Hamad Al Thani, publicada na Agência Estatal de Notícias do Qatar. Durante um discurso de graduação para oficiais da guarda nacional na base de Al Udeid, Al Thani supostamente elogiou o Irã e criticou os estados do Golfo que veem a Irmandade Muçulmana como uma organização terrorista. Qatar explicou que o site havia sido pirateado – uma afirmação que mais tarde teve o apoio do FBI – e que Al Thani não havia feito tais declarações.

Em meio a todas essas declarações conflitantes, alguns observadores argumentam que a visita de Donald Trump à Arábia Saudita em 20 de maio representou um momento-chave na campanha contra o Qatar, alegando que Trump deu à Arábia Saudita e aos Emirados Árabes Unidos o sinal verde. Na verdade, um de seus caracteristicamente eloquentes tweets parece confirmar isso, enquanto o presidente se gabava de que o bloqueio saiu a partir de suas reuniões em Riyadh.

Nem todos em Washington, no entanto, apoiam totalmente a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos. Outros funcionários – notadamente Rex Tillerson – estão pedindo uma flexibilização do bloqueio e uma solução pacífica. O secretário de relações exteriores do Reino Unido, Boris Johnson, também opinou, pedindo o fim do conflito, ao mesmo tempo que afirmou que o Qatar “precisa urgentemente fazer mais para resolver o tema do apoio a grupos extremistas”.

Disputas intestinas não são novidade para as turbulentas famílias governantes do Golfo, mas a decisão de isolar o Qatar marca uma escalada significativa. Como devemos entender o bloqueio no contexto de desenvolvimentos mais amplos no Oriente Médio, particularmente na sequência das revoltas árabes? Esses eventos marcam um cisma irreconciliável na política do Golfo ou uma mudança fundamental nos padrões históricos das alianças americanas na região?

Interesses e rivalidades compartilhados

Não podemos entender o conflito atual sem analisar o projeto mais amplo de integração regional, incorporado ao Conselho de Cooperação do Golfo (GCC). Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Qatar, Bahrein e Omã estabeleceram esta organização dois anos após a revolução iraniana de 1979 e no início da guerra entre o Iraque e o Irã que duraria até 1988.

Na época, o GCC era amplamente visto como uma resposta apoiada pelos Estados Unidos para esses distúrbios regionais, projetado para estabelecer um guarda-chuva de segurança nos seis Estados membros, que os Estados Unidos iriam encorajar, equipar e supervisionar.

Não só esses estados possuem recursos ricos em petróleo e gás – a explicação definitiva para o interesse dos Estados Unidos em tal aliança -, mas também compartilham estruturas semelhantes, marcadas por famílias governantes autoritárias e uma força de trabalho que consiste principalmente de migrantes temporários, em grande parte sem direitos trabalhistas – uma característica muitas vezes esquecida na enxurrada de discussões na mídia sobre o Golfo nas últimas semanas. O projeto de integração do GCC refletiu os interesses coletivos desses estados, que estão alinhados, de forma singular, com as potências ocidentais.

A relação entre os Estados Unidos, outras potências ocidentais e o GCC tem se fortalecido consideravelmente desde 1981, como demonstra a base aérea Al Udeid do Qatar.

Agora, com mais de 14 anos de idade, Al Udeid hospeda mais de dez mil soldados norte-americanos e é a maior base aérea no exterior dos Estados Unidos. Como a sede do quartel-general avançado do Comando Central das Operações Especiais e do Comando Central das Forças Aéreas, o Qatar ajuda a coordenar a presença militar dos Estados Unidos em toda a região, inclusive no Iraque e no Afeganistão.

Os Estados Unidos também controlam sua principal base naval a partir do Bahrein, sede do Comando Central das Forças Navais e da Quinta Frota. Mais de vinte mil militares americanos estão estacionados em todo o resto do Golfo.

A venda de equipamentos militares ao Golfo pelos Estados Unidos e por nações europeias, particularmente o Reino Unido e a França, está intimamente ligada a essa presença militar. A recente visita de Trump à Arábia Saudita colocou esse aspecto da relação EUA- Arábia Saudita em destaque: o negociador-em- chefe teria assinado contratos de mais de cem bilhões de dólares. (Os valores precisos continuam a ser contestados, pois são centralmente baseados em cartas de intenções e incluem ofertas acordadas com a administração de Obama).

De acordo com o Programa de Despesas Militares e com Armamento do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo, cerca de 20% das importações militares mundiais foram para países do CCG em 2015; A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos ocuparam o primeiro e o quinto lugar. A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos representaram 80% de todas as importações militares do GCC naquele ano, mas o Qatar, o Kuwait e o Omã também aparecem na lista dos primeiros quarenta países que mais importam armas do mundo. A participação do GCC no mercado global mais do que duplicou desde 2011 e tornou-se o maior mercado de armas do mundo.

Essas compras reciclam uma parte dos excedentes de petrodólares do Golfo para as empresas que produzem o hardware militar mundial. O GCC não só hospeda as forças americanas, mas também paga generosamente por esse privilégio.

A economia política do Golfo

Mas o significado do projeto do GCC se estende para além de proteger um clube exclusivo de monarquias ricas em petróleo e manter o papel da região como sede para o poder militar americano no Oriente Médio, Ásia Central e África Oriental.

Ao longo dos anos 1990 e 2000, o quadro institucional estabelecido pelo GCC encorajou os seis estados membros a elaborar um alinhamento político e econômico muito mais próximo, um acordo geralmente comparado com a União Europeia. As duas últimas décadas têm visto progressos consideráveis em direção a esse objetivo: aumento dos níveis de fluxos de capitais pan-GCC, um movimento em direção a impostos e tarifas padronizados para os produtos importados, políticas que incentivam a livre circulação de trabalhadores que são cidadãos dos distintos países membros, e instituições políticas mais unificadas. Até mesmo uma moeda comum, o khaleeji, foi proposta.

Este processo de integração regional dá suporte à forma específica do capitalismo que os Estados do GCC compartilham. Os grandes conglomerados do Golfo (estatais e privados) que dominam a economia política do Golfo operam nas fronteiras do Golfo e, como a União Europeia, também são marcados por uma interpenetração pronunciada das estruturas de propriedade do capital em diferentes estados do Golfo.

É importante ressaltar, no entanto – e isso nos ajuda a entender os últimos conflitos na região – este projeto de integração não extinguiu as rivalidades dos membros ou as tensões competitivas. Uma hierarquia acentuada do poder político e econômico marcou o GCC desde a sua criação, com o pivô principal girando em torno de um eixo Arábia Saudita-Emirados Árabes Unidos.

Estes dois países tornaram-se os principais locais de acumulação de capital e as empresas da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos dominam a economia do GCC nos setores de imóveis, finanças, comércio, logística, telecomunicações, petroquímica e indústria. Há também importantes investimentos trans-fronteiriços entre a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos.

Este eixo não existe sem suas tensões próprias – refletidas, por exemplo, na rejeição dos Emirados do projeto – apoiado pela Arábia Saudita – de moeda unificada em 2009 – mas seu alinhamento político se desenvolveu juntamente com seus laços econômicos.

O Bahrain está estreitamente integrado a esse eixo como um sócio minoritário. Sua monarquia governamental da Casa de Al Khalifa depende do apoio financeiro, político e militar saudita, como as revoltas de 2011 o demonstraram claramente.

Esta sub-aliança influencia como os outros estados do GCC se relacionam com o resto do mundo, uma característica claramente ilustrada pelos padrões comerciais da região. Devido a níveis relativamente baixos de produção de não-hidrocarbonetos e às pequenas dimensões dos setores agrícolas, o GCC depende fortemente das importações. O eixo Arábia Saudita – Emirados Árabes Unidos intermedia esse fluxo: eles trazem as mercadorias, em seguida as reexportam para outros estados, às vezes após o processamento de valor agregado.

As importações de alimentos são de particular importância. Os outros quatro estados do GCC importam mais alimentos da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos do que de qualquer outro país do mundo. Em 2015, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos classificaram-se como ou primeiro ou segundo exportador de alimentos para cada um dos outros estados do GCC.

Notavelmente – especialmente porque esses números incluem grandes exportadores de trigo e carne, incluindo os Estados Unidos, Índia, Brasil e Austrália – a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos foram responsáveis por 53% do valor total da exportação de alimentos para Omã, 36% para o Qatar, 34 % para o Bahrain e 24% para o Kuwait.

Essas tendências não só ressaltam a importância de colocar o eixo Arábia Saudita – Emirados Árabes Unidos no centro da nossa compreensão do resto do Golfo, mas também ajudam a explicar os potenciais efeitos do atual bloqueio.

A escala regional

Dominados por este eixo Arábia Saudita – Emirados Árabes Unidos, os outros Estados menores têm desempenhado um papel mais marginal na economia política do Golfo. Com uma pequena população cidadã (apenas 313 mil cidadãos de uma população total de 2,6 milhões, espantosos 12% do país) e uma enorme riqueza de suas vastas reservas de gás natural, o Qatar tem particularmente se irritado com essa estrutura hierárquica.

Em uma base per capita, o Qatar é o país mais rico do mundo – com 17,5% de suas famílias cidadãs com bens de mais de um milhão de dólares -, mas em grande parte tem sido negado ao Qatar um lugar nas estruturas políticas e econômicas mais amplas do GCC, dominadas pelos seus vizinhos maiores.

Limitados pelo tamanho dos seus mercados nacionais e inundados pelo capital excedente de quase quinze anos de crescentes preços de petróleo e gás, uma das principais consequências dessas hierarquias competitivas internas tem sido a tentativa por todos os Estados do Golfo de crescerem para além das fronteiras do GCC. Os grandes conglomerados privados e respaldados pelo estado têm expandido suas operações globalmente, investindo em imóveis, instituições financeiras, tecnologias emergentes, agronegócios e outros setores. Enquanto todos os estados do GCC têm participado deste processo, a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Qatar têm liderado esta corrida.

Embora os fluxos de capital do Golfo tenham se concentrado em grande parte na América do Norte e na Europa, o Oriente Médio também se tornou um alvo importante. A medida em que os estados árabes abriram seus mercados e liberalizaram setores econômicos fundamentais – um processo liderado pelo garoto-propaganda neoliberal do Banco Mundial, o Egito de Mubarak -o capital do Golfo teve um papel de liderança ao longo dos anos 2000, ao comprar os ativos privatizados (frequentemente através de acordos corruptos com as elites estatais) e ao se beneficiar com a abertura do mercado que se seguiu na esteira da reforma neoliberal.

De 2003 a 2015, os estados do GCC foram responsáveis por um notáveis 42,5% do total dos novos investimentos diretos estrangeiros (IDE) em outros países árabes. Neste período, cerca de metade de todos os investimentos estrangeiros na Jordânia, Egito, Líbia, Líbano, Palestina e Tunísia vieram do Golfo. Além disso, de 2010 a 2015, os investidores da Europa, do Golfo e da América do Norte gastaram pouco mais de vinte bilhões de euros em fusões e aquisições no mundo árabe. A participação do GCC representou quase metade, com 44,7%.

Por mais impressionantes que sejam esses números, eles realmente subestimam o nível de internacionalização. Eles não incluem, por exemplo, os níveis consideráveis de ajuda bilateral do Golfo, nem necessariamente incorporam investimentos de portfólio das empresas do Golfo em mercados de ações regionais.

À medida que este processo se desenrolava, o papel político do GCC tornava-se cada vez mais proeminente. O Golfo não só conduziu a construção de uma ordem regional marcada por estados autoritários e economias liberalizadas, mas também se beneficiou com isso. Tudo isso ocorreu sob os auspícios de potências ocidentais e instituições financeiras internacionais.

À medida que esse processo tornava os estados do GCC mais próximos entre si, também intensificava suas rivalidades. Uma das manifestações mais importantes dessa tensão ocorreu quando o Qatar tentou adotar uma política regional autônoma, relativamente independente da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos.

O Qatar começou a patrocinar diferentes forças políticas – a Irmandade Muçulmana, o Hamas e o Talibã – e a hospedar uma variedade de dissidentes exilados – o clérigo egípcio Sheikh Yusuf al-Qaradawi, que protagoniza programas populares nos canais de TV do Qatar e o intelectual palestino Azmi Bishara. O Qatar também usou sua ampla rede de mídia para se promover como uma força regional, nomeadamente através da Al Jazeera e de suas afiliadas e, mais recentemente, através do jornal e canal de televisão Al-Araby Al-Jadeed, lançado no início de 2015.

As revoltas árabes que começaram na Tunísia no final de 2010 acentuaram essas divisões, mas também enfatizaram os interesses compartilhados do Golfo. Ao ameaçar profundamente a ordem regional e seus regimes autoritários, as revoltas colocaram um agudo desafio aos estados do GCC: como evitar os movimentos populares e reconstituir a ordem autoritária e neoliberal? Cada estado teve um interesse comum neste processo contrarrevolucionário, mas suas respostas diferiram ao longo das linhas descritas acima.

O Qatar apoiou forças aliadas com a Irmandade Muçulmana, enquanto a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos inclinaram-se para pessoas como Abdel Fattah el-Sisi no Egito e o antigo agente da CIA, Khalifa Haftar, na Líbia. Uma constelação de alianças, contraditórias e em constante mudança, se formou em torno dos interesses comuns do GCC e suas rivalidades internas.

O Qatar apoiou a intervenção saudita no Bahrein, participou da guerra contra o Iêmen e, na Síria, se opôs ao seu suposto novo aliado, o Irã. No Egito, na Líbia, na Tunísia e na Palestina, no entanto, o Qatar tendeu a apoiar facções rivais. As linhas ficam desfocadas e tênues mesmo nesses casos: o Qatar expressou apoio a Sisi após o golpe de 2013, apesar de sua clara aliança com a Irmandade Muçulmana Egípcia.

Essas alianças divergentes também se estendem a outros participantes no atual bloqueio; o Egito de Sisi, por exemplo, apoia o regime de Assad na Síria, alinhando-se com o Irã, mas contra a Arábia Saudita, apesar de sua dependência quase completa do eixo Arábia Saudita – Emirados Árabes Unidos.

O ponto-chave, muitas vezes ignorado no comentário da mídia sobre o bloqueio, é que não existem posições políticas de princípios envolvidas nessas alianças – trata-se de uma conveniência calculada e de uma avaliação pragmática por cada estado sobre a melhor forma de promover sua influência regional, sempre dentro do quadro de reordenação da região de uma forma acessível ao seu poder político e econômico coletivo.

Precisamos manter ambas as tendências em mente quando avaliamos a situação atual. Uma forte unanimidade de interesses sustenta a posição dos Estados do Golfo sobre a ordem regional, uma situação plenamente apoiada por – e em pleno apoio às – potências ocidentais. Simultaneamente, o GCC é dividido por rivalidades e competições, refletidas nas diferentes visões dos membros em como manter seus interesses compartilhados.

A questão de Israel

Na esteira dos levantes árabes, agora estamos vendo uma afirmação de ambas as tendências. Especificamente, o bloqueio atual é uma jogada da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos para afirmar completamente sua hegemonia sobre a região e colocar o Qatar de volta ao seu lugar.

Mas não se trata apenas da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos; expressa fundamentalmente um processo contrarrevolucionário geral que tem estado presente desde o início dos levantes – restaurando o status quo dos estados autoritários neoliberais que atenderam os interesses do GCC como um todo (incluindo o Qatar) por várias décadas. Tudo isso também deve ser visto através do prisma da aliança contínua e sempre fortalecida do Golfo com os EUA e outras potências ocidentais.

Dentro desse processo, o lugar de Israel desempenha um papel fundamental. Desde a década de 1990, a política regional americana tem procurado aproximar o GCC e Israel, normalizando as relações econômicas e políticas entre os dois pilares do poder dos EUA na região. Desde a revolta árabe, essa aproximação pareceu cada vez mais provável.

Não é por acaso que a primeira viagem internacional de Trump o fez visitar a Arábia Saudita e depois Israel (voando diretamente entre os dois), uma agenda de viagem que ilustra perfeitamente as prioridades estratégicas dos Estados Unidos na região. Apesar do boicote de longa data da Liga Árabe às relações com Israel, a região do Golfo (particularmente o eixo Arábia Saudita – Emirados Árabes Unidos) e Israel concordam em questões políticas fundamentais, e ambas as partes estão ativamente buscando construir laços mais estreitos.

No final de março de 2017, o Haaretz informou que os Emirados Árabes Unidos e Israel participaram de exercícios militares conjuntos na Grécia ao lado dos Estados Unidos e de vários países europeus. Esta não foi a sua primeira colaboração: um ano antes, Israel, Emirados Árabes Unidos, Espanha e Paquistão participaram da Red Flag, um exercício de treinamento de combate aéreo que ocorreu em Nevada (EUA).

No final de novembro de 2015, Israel abriu um escritório diplomático na capital dos Emirados Árabes, Abu Dhabi, como parte da Agência Internacional de Energia Renovável – a primeira vez que uma presença diplomática israelense oficial apareceu nesse país. A Bloomberg Businessweek informou em fevereiro de 2017 que o escritório poderia atuar como uma embaixada para os laços crescentes de Israel no Golfo.

As empresas israelenses de segurança alegadamente instalaram equipamentos de infraestrutura e segurança no valor de mais de US $ 6 bilhões nos Emirados Árabes Unidos; isso ocorre depois de Israel ter vendido cerca de US $ 300 milhões de tecnologia militar para a nação do Golfo em 2011.

As empresas militares e de segurança de alta tecnologia israelenses também estão ativas na Arábia Saudita, onde elas estão supostamente ajudando a Saudi Aramco ([2])a estabelecer segurança cibernética, vender sistemas de mísseis avançados e até mesmo realizar pesquisas de opinião pública para a família real. A mídia israelense afirmou que o país ofereceu aos sauditas sua tecnologia militar Iron Dome para se defender contra os ataques do Iêmen.

Essas relações, outrora clandestinas, estão agora sendo comentadas abertamente. O The Times de Israel informou em junho de 2015 que a Arábia Saudita e Israel realizaram cinco reuniões secretas desde o início de 2014. Em maio de 2015, o então diretor-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros Israelense, Dore Gold, apareceu publicamente com o general saudita aposentado, Anwar Eshki. No ano seguinte, Eshki visitou Israel para se encontrar com o ex-porta-voz das Forças de Defesa de Israel e atual coordenador de atividades governamentais nos territórios ocupados, o Major-General, Yoav Mordechai.

Não deve ser uma surpresa, então, que Israel apoie o bloqueio contra o Qatar. Mas isso não significa que o Qatar também não tentou normalizar suas relações com Israel. Como os outros estados do GCC, o envolvimento do Qatar na Palestina foi projetado para garantir a si próprio um assento melhor na mesa – um objetivo que os israelenses têm apoiado alegremente quando atende a seus interesses.

Em 1996, o Qatar permitiu que Israel abrisse um escritório comercial em Doha, tornando-o o único estado do Golfo a manter relações oficiais com Israel naquela época. Embora o escritório tenha sido fechado após o bombardeio israelense em Gaza em 2008, o Qatar tem repetidamente se oferecido para restabelecer os laços em troca de ter permissão para fornecer ajuda financeira e material a Gaza. Uma delegação comercial israelense que visitou o Qatar em 2013 alegadamente descobriu, que o Qatar estava interessado em investir no setor de alta tecnologia israelense.

O Qatar é o único estado do GCC que admite visitantes israelenses e que tem permitido que atletas israelenses participem de eventos esportivos e culturais. Em 2013, o Qatar presidiu a reunião da Liga Árabe que mudou a iniciativa de paz de 2002 para permitir que Israel mantivesse seus blocos de assentamentos em qualquer acordo final. Tzipi Livni, então ministra da Justiça israelense, descreveu o desenvolvimento como “muito positivo”. E no início de fevereiro de 2017, Muhammad al-Imadi, chefe do comitê nacional de Doha para a reconstrução de Gaza, afirmou que “mantém laços excelentes” com os oficiais militares israelenses.

Todas essas tendências indicam que nenhum dos estados do Golfo – incluindo o Qatar – pode ser visto de alguma forma como aliado ou amigo confiável da luta palestina. Mas as atuais tensões no Golfo também possuem implicações potencialmente importantes para o poder político na Palestina.

A crescente influência política de Mohammed Dahlan dialoga com essa possibilidade. Alguns acreditam que Dahlan, líder de uma das frações da Al-Fatah (principal corrente da Organização para a Libertação da Palestina – n. da tradutora) irá substituir Abu Mazen – também conhecido como Mahmud Abbas, n. da tradutora – (o atual chefe da Autoridade Palestina baseada em Ramallah). Dahlan vive em Abu Dhabi, e os Emirados Árabes Unidos há muito o apoiam política e financeiramente. Ele tem laços estreitos com Israel e os Estados Unidos e tornou-se, para esses dois últimos, o candidato preferido para suceder o octogenário Mazen.

Embora as rivalidades dentro do Fatah possam cortar a ascensão de Dahlan, sua crescente importância aponta para a forma como as tensões atuais no Golfo podem realinhar o equilíbrio de poder nas áreas vizinhas.

Rumos futuros

Nem todos os Estados do GCC ou atores regionais apoiam o bloqueio atual. No momento da redação deste artigo, Omã permitiu que os navios vinculados ao Qatar usassem os seus portos, e o Kuwait tem se empenhado em frenéticos esforços diplomáticos para acalmar as tensões. Somente o Bahrein apoiou totalmente a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, em grande parte devido à longa dependência da monarquia de Al Khalifa para com a Arábia Saudita.

A Turquia ofereceu enviar tropas a uma base militar turca no Qatar e o Irã se comprometeu a enviar comida e água para superar o fechamento da única fronteira terrestre do Katar com a Arábia Saudita. Enquanto isso, as tentativas da Arábia Saudita em recrutar outros países com grandes populações muçulmanas – como Senegal, Níger, Djibouti e Indonésia – falharam em grande parte. Países árabes como Marrocos, Argélia e Tunísia também rejeitaram o bloqueio.

À luz dessas disputas, devemos lembrar o que o GCC representa como um todo. Este bloco de estados está totalmente integrado em uma estrutura de poder regional alinhada aos EUA, tem se beneficiado massivamente das reformas neoliberais no mundo árabe e tem se tornado cada vez mais interligado com a dinâmica política da região.

Esses estados compartilham o interesse em preservar sua posição regional e suas antigas estruturas políticas. Esses compromissos superam os potenciais benefícios da fratura do projeto. Do mesmo modo, o Ocidente e Israel querem ver o GCC juntos, já que o bloco tem servido muito bem a seus interesses nas últimas décadas.

Apesar dos cismas atuais, algum tipo de solução negociada que veja o Qatar aderindo ao eixo Arábia Saudita – Emirados Árabes Unidos e sua aceitação em ter uma influência regional diminuída é o resultado mais provável.

Este acordo acabaria por fortalecer o eixo Arábia Saudita – Emirados Árabes Unidos e ajudar a consolidar a contrarrevolução; também provavelmente precipitaria um realinhamento do poder político em lugares como Tunísia, Líbia e Palestina.

Mas a esquerda deve perceber que nenhum dos supostos aliados do Qatar – especificamente a Turquia e o Irã – representam uma alternativa progressiva para a região. Enquanto eles podem estar alinhados contra a frente Arábia Saudita – Emirados Árabes Unidos neste contexto, esses estados participaram do processo contrarrevolucionário pós-2011 tão entusiasticamente quanto seus rivais.

Talvez a lição mais importante da crise atual seja a de que devemos evitar leituras simplistas do Oriente Médio, especialmente aquelas baseadas na noção de que “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”.

Seria profundamente tolo considerar o Qatar, a Turquia ou o Irã como representantes de algum realinhamento progressivo apenas porque eles estão – pelo menos por enquanto – contra a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e Israel. A disputa feroz pelo poder regional provocou essas tensões e produziu todo tipo de alianças políticas contraditórias e instáveis, mas nenhum dos estados envolvidos representa qualquer tipo de alternativa política digna do apoio da Esquerda.

* Adam Hanieh é professor sênior na Escola de Estudos Orientais e Africanos (SOAS) da Universidade de Londres e autor de Lineages of Revolt: Issues of Contemporary Capitalism in the Middle East. (Linhagens da Revolta: Questões do capitalismo contemporâneo no Oriente Médio)

22 de junho de 2017

Os bolcheviques e o antissemitismo

O anti-semitismo pode ser encontrado em toda o espectro política no ano de revolução da Rússia.

Brendan McGeever

Jacobin

Membros do Bund judeu com corpos de seus companheiros mortos em Odessa durante a revolução russa de 1905. Wikimedia Commons

Tradução / Manhã, 25 de outubro de 1917. Os trabalhadores ocupam pontos estratégicos nas ruas fustigadas pelo vento de Petrogrado. No Palácio de Inverno, o líder do Governo Provisório, Alexander Kerensky, aguarda ansioso pelo seu carro de fuga. Do lado de fora, a Guarda Vermelha controla a estação telefônica central. A tomada de poder por parte dos bolcheviques é iminente.

Não há luz nem telefone no palácio. De sua janela, Kerensky consegue ver a Ponte do Palácio: ela está ocupada por marinheiros bolcheviques. Por fim, um carro da embaixada americana lhe é assegurado e Kerensky inicia sua fuga da Petrogrado vermelha. Enquanto virava uma das esquinas, ele observara algumas pichações recém escritas nos muros do palácio: “Fora o yid (judeu) Kerensky! Vida longa ao camarada Trotsky!”.

O absurdo dessa palavra de ordem mantém sua força um século depois: Kerensky, é claro, não era judeu, enquanto Trotsky, de fato, era. Todavia, o que ela aponta é justamente para o papel complicado e contraditório que o antissemitismo teve durante o processo revolucionário. Em boa parte da literatura existente sobre a Revolução Russa, o antissemitismo é entendido como uma forma “contrarrevolucionária”, como algo ligado a uma direita antibolchevique.

É fato que essa afirmação contém muito de verdade: o regime czarista era definido por seu antissemitismo e, diante da devastadora onda de violência contra os judeus que ocorreu nos anos posteriores à Revolução, em plena Guerra Civil (1918-1921), a maior parte das atrocidades foram tocadas pelo Exército Branco e por outras forças que se opunham ao nascente governo Soviético. Mas essa é apenas uma parte da história.

O antissemitismo atravessava as divisões políticas da Rússia revolucionária, encontrando adesão em praticamente todos os grupos sociais e lealdade políticas. Dentro do marxismo, o racismo e o radicalismo político geralmente são colocados em polos opostos; em 1917, contudo, antissemitismo e ressentimento de classe poderiam ser tanto visões de mundo concomitantes ou conflitantes.

Fevereiro: uma revolução na vida judaica

A Revolução de Fevereiro transformou a vida judaica. Nos primeiros dias após a abdicação do czar Nicolau II, todas as restrições legais sobre os judeus foram suspensas. Mais de 140 estatutos, totalizando milhares de páginas, foram removidos da noite para o dia. Para lembrar esse momento histórico de abolição, uma reunião especial foi marcada pelo Soviete de Petrogrado. Era a noite de Páscoa, 24 de março de 1917. O deputado judeu que se apresentara na reunião rapidamente estabeleceu a seguinte ligação: a Revolução de Fevereiro era comparável com a libertação dos judeus no cativeiro no Egito.

Porém, a emancipação formal não foi acompanhada do fim da violência contra os judeus. O antissemitismo tinha raízes profundas na Rússia, e sua persistência, em 1917, estava diretamente ligada ao fluxo e refluxo da própria Revolução. Ao longo do ano, pelo menos 235 ataques contra judeus foram registrados. Ainda que totalizassem meros 4,5% da população, eles foram vítimas de cerca de um em cada três atos de violência física contra minorias nacionais naquele ano.

A partir da Revolução de Fevereiro, rumores de iminentes pogroms contra os judeus circulavam nas ruas do país, tanto que, quando os sovietes de Petrogrado e Moscou organizaram seus primeiros encontros, a questão do antissemitismo estava no topo da agenda. A eclosão de violência direta foi rara naquelas primeiras semanas. Mas em junho, a imprensa judaica começava a relatar que “multidões de trabalhadores” estavam se reunindo nas esquinas para saudar discursos a favor dos pogroms, que afirmavam que o Soviete de Petrogrado estaria “nas mãos dos judeus”. Por vezes, os próprios líderes bolcheviques se depararam pela primeira vez com esse preconceito. Ao andar nas ruas no início de julho, Vladimir Bonch-Bruevich – o futuro secretário de Lênin – encontrou uma multidão que abertamente clamava por pogroms contra os judeus. Ele então abaixou a sua cabeça e apressou o seu passo. Mais e mais relatos surgiram a respeito de aglomerações similares.

Às vezes o ressentimento de classe e as representações antissemitas acerca do judaísmo se entrecruzavam: mais tarde, naquele mesmo mês, oradores num comício de rua em Petrogrado clamavam para a multidão para “esmagar os judeus e a burguesia!”. Enquanto no imediato momento após a Revolução de Fevereiro, tais discursos não conseguiriam ter adesão, eles agora estavam atraindo audiências cada vez maiores. E foi nesse contexto que se reuniu em Petrogrado o Primeiro Congresso dos Sovietes de Deputados Operários e Soldados de Toda a Rússia.

A questão do antissemitismo

O Primeiro Congresso dos Sovietes foi um encontro histórico. Mais de mil delegados de todos os partidos socialistas participaram do evento, representando centenas de Sovietes locais e cerca de 20 milhões de cidadãos russos. Em 22 de junho, enquanto chegavam várias notícias de cada vez mais incidentes antissemitas, o Congresso produziu a sentença mais autoritária do movimento socialista russo na questão do antissemitismo.

Elaborado pelo bolchevique Evgenii Preobrazhenskii, a resolução chamava-se “Na luta contra o antissemitismo”. Quando Preobrazhenskii terminou de lê-la em voz alta, um deputado judeu ficou de pé para demonstrar sua mais sincera aprovação, antes de acrescentar que mesmo que isso não trouxesse de volta os judeus assassinados nos pogroms de 1905, a resolução ajudaria a curar uma das feridas que continuavam a causar tanta dor na comunidade judaica. Ela foi aprovada por unanimidade pelo Congresso.

A resolução reafirmara a antiga visão socialdemocrata que concebia que o antissemitismo seria o equivalente à contrarrevolução. Contudo, ela continha uma importante admissão: o “grande perigo”, segundo Preobrazhenskii, seria “a tendência de disfarçar o antissemitismo sob palavras de ordem radicais”. Essa convergência entre política revolucionária e o antissemitismo, continuava a resolução, representava “uma enorme ameaça ao povo judeu e para o movimento revolucionário como um todo, uma vez que ameaça[va] banhar a liberação do povo com o sangue de nossos irmãos e cobrir com desgraça todo o movimento revolucionário”. Admitir que o antissemitismo e o radicalismo político poderiam caminhar lado a lado trouxe à tona um novo terreno de debates para o movimento socialista russo, que, até então, tendia a enquadrar o antissemitismo como um resquício vinculado à extrema-direita. Conforme o processo revolucionário se aprofundou na segunda metade de 1917, a presença do antissemitismo dentro de setores da classe trabalhadora e do movimento revolucionário se tornou um problema crescente que demandava uma resposta socialista.

A resposta dos Sovietes

Até o final do verão, os Sovietes tinham iniciado uma ampla e abrangente campanha contra o antissemitismo. O Soviete de Moscou, por exemplo, organizou palestras e encontros sobre este tema em fábricas, entre agosto e setembro. Na antiga zona de assentamento judeu na Rússia, os Sovietes locais eram instrumentos de prevenção à eclosão de crimes de ódio. Em Chernigov, na Ucrânia, em meados de agosto, os Centenas Negras acusaram os judeus de estarem armazenando pão, o que levou a uma série de violentos distúrbios antijudeus. Foi necessário enviar uma delegação do Soviete de Kiev para organizar um grupo de tropas locais para acabar com os tumultos.

O Governo Provisório tentou iniciar sua própria resposta ao antissemitismo. Em meados de setembro, o governo passou uma resolução que prometia tomar “as mais drásticas medidas contra todos os ‘pogromistas’”. Uma resolução semelhante, anunciada duas semanas depois, ordenava os ministros do governo a usar “todos os poderes à sua disposição” para acabar com os pogroms. Contudo, com a transferência do poder aos Sovietes já sendo encaminhada, a autoridade do Governo Provisório estava em processo de desintegração. Um editorial do jornal governista, Russkie Vedomosti, no dia 1º de outubro, capturou bem a situação: “a onda de pogroms cresce e se expande… inúmeros telegramas chegam diariamente… [e] o Governo Provisório está atolado… a administração local está sem poder de fazer qualquer coisa… os meios de coerção estão completamente esgotados.”.

Esse não era o caso dos Sovietes. Conforme a crise política se aprofundou e o processo de bolchevização continuou rapidamente, alguns sovietes provinciais estabeleceram suas próprias campanhas contra o antissemitismo. Em Vietbsk, uma cidade a cerca de 560 km a Oeste de Moscou, o Soviete local formou uma unidade militar no início de outubro para proteger a cidade dos ‘pogromistas’. Na semana seguinte, o Soviete de Orel aprovou uma resolução a fim de coibir todas as formas de violência antissemita.

No extremo-oriente da Rússia, um encontro dos Sovietes de Toda Sibéria publicou uma resolução contra o antissemitismo, declarando que o Exército revolucionário local deveria tomar “todas as medidas necessárias” para evitar novos ataques. Isso revela o quão enraizada estava a luta contra o antissemitismo entre os diferentes setores do movimento socialista organizado: mesmo no extremo-oriente, onde havia, em termos comparativos, menos judeus e até mesmo menos pogroms, os Sovietes locais identificavam-se com os judeus no lado ocidental que sofriam nas mãos dos antissemitas.

Sem dúvidas, em meados de 1917 os Sovietes tinham se tornado a principal oposição política ao antissemitismo na Rússia. O editorial do jornal Evreiskaia Nedelia (Semana Judaica) sintetizou bem: “Deve ser dito, e devemos dar-lhes os devidos créditos, que os sovietes encamparam uma enérgica luta contra [os pogroms]. Em muitos lugares, foi graças a sua força que a paz fora restaurada”.

Porém, convém observar que essas campanhas contra o antissemitismo eram direcionadas aos operários nas fábricas e, por vezes, também para militantes dentro do movimento socialista mais amplo. Em outras palavras, o antissemitismo era identificado como um problema dentro da base social da esquerda radical e mesmo em seções do próprio movimento revolucionário. O que isso revelava, é claro, é que o antissemitismo não emanava simplesmente “de cima para baixo”, como mero reflexo das instituições czaristas; ele possuía uma base orgânica em setores da classe trabalhadora e tinha de ser confrontado dessa maneira.

O inimigo interno

Para a liderança bolchevique, as políticas revolucionárias não eram apenas incompatíveis com o antissemitismo; elas eram a sua antítese. Assim afirmava a manchete da capa do Pravda, principal jornal do partido, em 1918: “Ser contra os judeus é ser a favor do Czar!”. Todavia, seria um erro levar em consideração as posições de Lenin e Trotsky e “deixar de lado” os pensamentos e sentimentos que emergiam da base. Como os acontecimentos de 1917 demonstravam, revolução e antissemitismo nem sempre estavam em conflito.

Notícias de jornal no verão e no outono de 1917 revelam que grupos locais de bolcheviques eram frequentemente acusados por outros socialistas de perpetuarem o antissemitismo, além de, por vezes, manter antissemitas dentro da base social do partido. Por exemplo, em meados de junho e de acordo com o jornal de Georgy Plekhanov, o Edinstvo, quando os Mencheviques tentaram falar nos quarteis moscovitas na região de Vyborg, em Petrogrado, soldados aparentemente incitados pelos bolcheviques, gritaram “Abaixo todos eles! São todos Judeus!”. É importante observar que Plekhanov era um antibolchevique obsessivo por volta de meados de 1917, então esta fonte tem que ser tratada com cautela.

Contudo, tais alegações eram bastante disseminadas. Mais ou menos na mesma época, o jornal Menchevique Vpered relatou que os bolcheviques em Moscou calaram os Mencheviques, sob a acusação de serem “judeus” que “exploravam o proletariado”. Quando centenas de milhares de trabalhadores tomaram as ruas de Petrogrado em 18 de junho, foi registrado que alguns bolcheviques derrubaram as bandeiras de grupos bundistas, gritando palavras de ordem antissemitas. Em resposta, o bundista Mark Liber acusou os bolcheviques de serem “pró-ataques aos judeus”.

Com a chegada do mês de outubro, essas acusações se tornaram mais frequentes. Na edição de 29 de outubro do Evreiskaia Nedelia, um editorial chegou ao ponto de alegar que o grupo antissemita “Centenas Negras” estava “entrando nas fileiras dos bolcheviques” em todo o país.

Tais alegações eram evidentemente exageradas. A liderança bolchevique se opôs ao antissemitismo e a maioria dos membros do partido participou do desenvolvimento da resposta pluripartidária contra o antissemitismo nas fábricas e nos Sovietes. Mesmo assim, a ideia de que o bolchevismo poderia ser atraente aos antissemitas de extrema-direita não era totalmente sem fundamento. Em 29 de outubro, um impactante editorial no veículo antissemita de extrema-direita, Groza (‘Tempestade’), declarou:

“Os Bolcheviques tomaram o poder. O judeu Kerensky, lacaio dos britânicos e dos banqueiros do mundo, tendo descaradamente assumido o título de comandante-chefe das forças armadas e se auto declarado Primeiro-Ministro do Império Ortodoxo Russo, será varrido do Palácio de Inverno, de onde profanou os resquícios do pacificador Alexandre III com sua presença. Em 25 de outubro, os bolcheviques unificaram todos os regimentos que se recusaram a submeter-se a um governo composto por banqueiros judeus, generais traiçoeiros, senhores de terra traidores e comerciantes ladrões”.

O jornal foi imediatamente fechado pelos bolcheviques, mas esse apoio indesejado alarmou a liderança do Partido.

O que preocupava os socialistas moderados acerca da capacidade do antissemitismo e da revolução se justaporem era a forma a qual os bolcheviques mobilizavam as massas e canalizavam o seu ressentimento de classe. Em 28 de outubro, quando a revolução estava em fluxo intenso, o Comitê Eleitoral dos Mencheviques de Petrogrado lançou um apelo desesperado aos trabalhadores da capital, alertando que os bolcheviques haviam seduzido os “trabalhadores e soldados ignorantes”, e que o apelo de “Todo poder aos Sovietes!” facilmente poderia se tornar “Acabem com os judeus, acabem com os lojistas”. Para o Menchevique Lvov-Rogachevskii, a “tragédia” da Revolução Russa estaria no fato aparente de que “as massas sombrias (temnota) são incapazes de distinguir um provocador de um revolucionário, ou um pogrom de uma revolução social”.

A imprensa judaica ecoava essas preocupações. De acordo com um artigo em destaque no Evreiskaia Nedelia, “o camarada Lênin e seus companheiros bolcheviques conclamam o proletariado para ‘transformar suas palavras em ações’ (pereiti ot slovo k delu), mas onde quer que se juntem os eslavos, o “transformar as palavras em ações”, significa, na verdade, ‘atacar todos os judeus’.”.

Entretanto, contrária a essas predições alarmistas, nas horas e nos dias que se seguiram após a tomada de poder dos bolcheviques, não houve nenhum grande pogrom no interior da Rússia. A insurreição não se voltou para a violência antissemita que se previa. O que os alertas citados acima revelam, contudo, é justamente o quão profundo era o medo das “massas sombrias” entre os setores da esquerda socialista que alegavam falar em seu nome. E isso é especialmente verdadeiro ao se falar da intelligentsia, que geralmente abordava a noção de levante proletário com horror, pois acreditavam que o seu resultado inevitável seria uma torrente de violência e barbárie.

O que definia os bolcheviques durante esse período era precisamente sua proximidade para com as massas de Petrogrado que eram tão temidas pela intelectualidade.

Contudo, as justaposições entre antissemitismo e política revolucionária eram reais. Dias após a Revolução de Outubro, o escritor Ilia Ehrenburg – que logo se tornaria o mais prolífico e famoso autor judeu na União Soviética – recolheu-se para registrar suas reflexões sobre os eventos atribulados que tinham ocorrido. Seu registro talvez seja a mais vívida descrição acerca da articulação entre o antissemitismo e o processo revolucionário de 1917:

“Ontem eu estava esperando na fila, aguardando para votar para a formação da Assembleia Constituinte. Pessoas estavam dizendo ‘Quem estiver contra os judeus, vote no número 5! [os bolcheviques]’, ‘Quem é a favor de uma revolução mundial, vote no número 5!’ O patriarca então passou, jogando água benta e todos tiraram seus chapéus. Um grupo de soldados que passava começou a entoar a Internacional em direção a ele. Onde estou? Ou será que esse é o inferno de verdade?”

Nessa assustadora recordação, a distinção entre bolchevismo revolucionário e antissemitismo contrarrevolucionário mostra-se embaçada. De fato, o relato de Ehrenburg antecipa a atormentadora questão que seria trazida posteriormente por Isaac Babel, em seus contos da Guerra Civil, reunidos no livro A cavalaria vermelha: “qual é a Revolução e qual é a contrarrevolução?”

Apesar da insistência bolchevique de enquadrar o antissemitismo como um fenômeno puramente contrarrevolucionário, ele escapava de categorizações simples e podia ser encontrado nas diferentes clivagens políticas, em formas altamente complexas e inesperadas. Isso seria melhor revelado seis meses depois, na primavera de 1918, quando os primeiros pogroms desde a Revolução de Outubro eclodiram na antiga zona de assentamento judeu de Pale. Nas aldeias e nas cidades do nordeste da Ucrânia, como Glukhov, o poder bolchevique se consolidou a partir da violência antijudaica advinda de quadros locais do partido e da Guarda Vermelha. O conflito dos bolcheviques com o antissemitismo em 1918, mostrava-se como um frequente conflito contra o antissemitismo de sua própria base social.

Conforme relembramos o centenário da Revolução de Outubro, nós acertadamente a celebramos como um momento de transformação social radical, quando um novo mundo pareceu ser possível. A revolução, porém, precisa também ser lembrada em todas as suas complicações.

O antirracismo precisa ser cultivado e renovado, em um processo contínuo. Um século depois, enquanto lutamos contra os danos feitos pelo racismo à política de classe, 1917 pode nos ensinar bastante sobre como ideias reacionárias podem assumir o controle, mas também como elas podem ser confrontadas.

20 de junho de 2017

Os Estados Unidos parecem mais interessados em atacar Assad na Síria do que em destruir o ISIS

É instrutivo que o Ocidente agora exprima mais indignação com o uso de gás - culpa o regime de Assad por isso, é claro - do que a continuada crueldade do ISIS

Robert Fisk


Um jato sírio (semelhante ao fotogrado em 23 de março de 2017) foi derrubado pelas forças dos EUA no domingo. Getty Images

Tradução / A extraordinária destruição de um avião de combate sírio por um avião americano no domingo, 18 de junho, tem muito pouco a ver com o alvo do avião sírio no deserto, perto de Rassafa, mas muito mais com o avanço do exército sírio perto das forças curdas apoiadas pelos Estados Unidos ao longo do Eufrates. Nos últimos meses, os sírios suspeitam cada vez mais que a maioria das forças curdas no norte da Síria – muitos delas aliados do governo de Assad até pouco tempo atrás – passou para o lado dos americanos.

De fato, os militares em Damasco não ocultam o fato de que terminaram o fornecimento de armas regulares e munições aos curdos – a quem, aparentemente, forneceram 14 mil rifles YAK-14 desde 2012 – e o regime sírio ficou indignado ao saber que as forças curdas receberam recentemente um enviado dos Emirados Árabes Unidos.

Há informações não confirmadas de que um enviado saudita também teria visitado os curdos. Isto, evidentemente, é posterior ao infame discurso de Trump em Riad, no qual o presidente dos Estados Unidos deu total apoio americano à monarquia saudita em suas políticas anti-iranianas e anti-sírias e depois apoiou o isolamento saudita do Catar.

No terreno, o exército sírio está realizando uma de suas operações mais ambiciosas desde o começo da guerra, avançando ao redor de Sueda no sul, na campina de Damasco e a leste de Palmira. Dirigem-se paralelamente ao Eufrates naquela que é, claramente, uma tentativa por parte do governo de “libertar” a circunscrita cidade de Deir fez-Azor, cujos 10 mil soldados sírios estiveram sitiados ali durante mais de quatro anos.

Caso puderem levantar o sítio, os sírios terão outros 10 mil soldados que poderiam se unir para recapturar mais territórios. No entanto, o mais importante é que o exército sírio suspeita que o Estado Islâmico – prestes a perder Raqua para os curdos e Mosul para os iraquianos, ambos apoiados pelos Estados Unidos – pode tentar assaltar a guarnição de Deir fez-Azor e declarar uma “capital” alternativa para si mesmo na Síria.

Neste contexto, o ataque americano da segunda-feira foi mais uma advertência aos sírios para se manterem afastados das chamadas Forças Democráticas Sírias – nome de fachada de um grande número de curdos e alguns combatentes árabes – já que agora estão muito próximos uns dos outros no deserto. Os curdos tomarão Raqua – pode ter havido um acordo entre Moscou e Washington sobre isso –, já que o exército sírio está muito mais interessado em aliviar Deir fez-Azor.

O mapa está literalmente mudando a cada dia. Mas o exército sírio segue ganhando contra o Estado Islâmico e suas milícias – com a ajuda da Rússia e de Hezbollah, evidentemente – embora relativamente poucos iranianos estejam envolvidos. Os Estados Unidos exageraram enormemente o tamanho das forças iranianas na Síria, talvez porque isto encaixa com os pesadelos sauditas e americanos de expansão iraniana. Mas o êxito do regime de Assad é certamente preocupante para os americanos e para os curdos.

Então, quem está lutando contra o Estado Islâmico? E quem não está lutando contra o Estado Islâmico? A Rússia afirma que matou o terrível e auto-denominado “califa do Estado Islâmico”, al-Baghdadi. A Rússia disse que está lançando mísseis cruzeiros contra o Estado Islâmico. O exército sírio, apoiado pelos russos, está lutando contra o Estado Islâmico. Presenciei isso com os meus próprios olhos.

Mas o que os Estados Unidos estão fazendo ao obstruírem, primeiro, a base aérea de Assad perto de Homs, depois os aliados do regime perto de Al Tan e agora um dos aviões de combate de Assad? Parece que Washington está agora mais disposto a atacar Assad – e seus partidários iranianos dentro da Síria – do que em destruir o Estado Islâmico. Isso seria seguir a política da Arábia Saudita, e talvez seja o que o regime de Trump quer fazer. De fato, os israelenses bombardearam tanto as forças do regime sírio como o Hezbollah e os iranianos, mas nunca o Estado Islâmico.

É ilustrativo ver que o Ocidente manifeste agora mais indignação pelo uso de gás – culpa o regime de Assad por isso, evidentemente – do que pela contínua crueldade do Estado Islâmico com os civis na maioria das áreas que o “califado” ainda ocupa na Síria e no Iraque. Se devemos acreditar no que todos os americanos agora dizem, que querem destruir o Estado Islâmico, por que estão muito dispostos a continuar a obstruir as forças do governo sírio que estão lutando contra o Estado Islâmico? Quer Washington simplesmente destruir a Síria e deixá-la como um estado fracassado? E pode ter sucesso se a Rússia estiver ameaçando atacar aviões americanos, caso voltarem a atacar os jatos sírios?

18 de junho de 2017

Cresce a resistência de classe à "globalização"

por Prabhat Patnaik


Tradução / O termo "globalização", embora muito utilizado, é extremamente enganoso, tal como o seu presumido "par", o "nacionalismo". Isto acontece porque ambos os termos são utilizados de modo abrangente sem qualquer referência ao seu conteúdo de classe, como se só pudesse haver uma espécie de "globalização" e só uma espécie de "nacionalismo". Utilizar conceitos destacados do seu conteúdo de classe é um dos truques favoritos da ideologia burguesa: o que equivale a conferir universalidade a conceitos que no essencial pertencem só ao discurso burguês, como se este fosse o único discurso possível do universo e todas as opções estivessem confinadas apenas a trajetórias alternativas dentro deste universo.

Esta utilização não-classista de palavras que servem para tudo torna possível estabelecer antinomias. Assim, seja o que for pode parecer melhor do que outra coisa, como se fosse algo razoável. Isso equivale a endossar o que disse o lado conservador de Hegel: "O real é a razão". Portanto é estabelecida uma antinomia entre "globalização" e "nacionalismo" onde a primeira parece progressista, aberta, democrática e transportadora da "modernidade", ao passo que a última parece reacionária, fechada anti-democrática ao ponto de ser fascista, e anti-"moderna". Qualquer oposição àquilo que existe (isto é, a "globalização") é então alcunhada, dentro desta disjuntiva binária, como um movimento reacionário, um afastamento da marcha rumo à "modernidade", em direção a um tradicionalismo opressivo e anti-democrático. A resistência contra a opressão dentro do atual regime de "globalização" é dessa forma desacreditada como uma regressão reacionária a um passado horrendo.

Uma vez que tal ideia também permeia certas seções da esquerda, estas também encaram a resistência a uma "globalização" opressiva (onde a opressão decorre devido ao conteúdo de classe desta globalização), como um recuo para um nacionalismo reacionário – e desenvolvem uma atitude distante em relação à mesma. Isto ironicamente serve para atuar como uma profecia auto-realizável: a própria frieza de segmentos da esquerda em relação à resistência contra a "globalização" dá uma oportunidade às forças reacionárias da direita e mesmo fascistas de se posicionarem como amigas de tal resistência – e isto realmente parece dar a esta resistência o caráter muito reacionário que estes segmentos da esquerda esperavam desde o começo.

Resistência cada vez mais liderada pela esquerda

A questão real portanto é encarar termos como "globalização" levando em conta o seu conteúdo de classe e também o conteúdo de classe da resistência a ela. E aqui emerge o fato inequívoco de que a atual "globalização" – a qual representa a hegemonia do capital financeiro internacional e tem provocado miséria aguda entre os trabalhadores por todo o mundo, ou seja, os trabalhadores nos países capitalistas avançados e os trabalhadores, camponeses, pequenos produtores e trabalhadores agrícolas nos países subdesenvolvidos – está a ser por eles desafiada por toda a parte. Uma resistência, tal como não se via desde há décadas, está a crescer, a qual, embora confinada dentro de países, tem no entanto uma ampla difusão entre os demais. E mais ainda, esta resistência está agora a ser cada vez mais conduzida pela esquerda, pois ela abstém-se por toda a parte da sua anterior ambivalência quanto à globalização liderada pelas finanças. 

As eleições presidenciais dos EUA trouxeram à tona um auto-proclamado socialista, Bernie Sanders, o qual tomou claramente uma posição reconhecendo a miséria aguda acumulada sobre os trabalhadores americanos pela globalização conduzida pelas finanças, e que se desempenhou extremamente bem na corrida eleitoral e poderia mesmo ter derrotado Donald Trump, até ter sido expulso da corrida pelo establishment do Partido Democrata (faltando-lhe infelizmente a coragem para combatê-lo). As eleições presidenciais francesas trouxeram à tona Jean-Luc Melenchon, candidato da esquerda (apoiado pelo PCF) que obteve quase 20 por cento dos votos (19,64), apenas um pouco menos do que Emmanuel Macron que obteve a vitória final no primeiro turno (23,75). E agora as eleições britânica trouxeram à tona um Partido Trabalhista liderado por um socialista, Jeremy Corbyn, que fora sistematicamente ridicularizado não só pelos conservadores como também pelos blairistas dentro do Partido que haviam capturado durante décadas e que eram ardentes advogados das políticas neoliberais promovidas pela globalizada conduzida pelas finanças.

Os resultados da eleição britânica, além de serem uma rejeição de Theresa May cujo governo conservador foi reduzido a uma minoria, e aos blairistas, também cortaram a dimensão do UKIP, o partido de direita anti-imigração que foi um destacado apoiante do Brexit. Ele obteve apenas 1,8 por cento dos votos e nem uma única cadeira, sua votação caiu muito abaixo do 10,8 por cento em comparação com a eleição geral anterior. Uma das afirmações da oposição liberal do establishment ao Brexit foi que era uma campanha da direita a partir da qual o UKIP venceria. Mas claramente a classe trabalhadora britânica, a qual esmagadoramente apoiou o Brexit, assim o fez por causa da opressão econômica da UE e não por qualquer simpatia pelo UKIP. Na verdade, ela tinha escassa consideração pelo UKIP e uma vez que o Partido Trabalhista se livrou da influência blairista na sua liderança, afluiu às bandeiras do Labour. Corbyn pode não ter vencido realmente a eleição, mas ele reconstruiu a ponte entre os sindicatos e o Partido Trabalhista a qual fortalecerá a intervenção da classe trabalhadora e a resistência contra a globalização conduzida pela finança.

Tudo isto são desenvolvimentos na arena eleitoral dos países capitalistas avançados, refletindo a oposição da classe trabalhadora à globalização. Mas mesmo na Índia, uma forte resistência do campesinato contra os apertos a que os levou o regime neoliberal sob a globalização liderada pela finança vieram agora à superfície após um período de tempo muito longo, embora seja demasiado cedo para encontrar reflexo disso na arena eleitoral. O movimento camponês emergiu em pelo menos três estados, Maharashtra, Madhya Pradesh e Rajasthan (todos dominados pelo partido BJP o qual é o instrumento atual para a imposição dos ditames da oligarquia corporativo-financeira ligada à finança internacional), cujas reivindicações incluem preços remunerativos e um cancelamento de dívida (debt-waiver). O movimento chega após um interregno de aproximadamente quatro décadas. Durante quatro décadas houve suicídios de camponeses mas não lutas camponesas em grande escala contra as políticas que levaram ao seu empobrecimento. Não há dúvida que têm sido lutas sobre questões específicas em bolsões específicos mas não movimentos generalizados e sincronizados.

Antecedentes do movimento camponês

Um movimento geral por todos os estados do país a exigir preços remunerativos havia ocorrido só no fim da década de 1970. Vale a pena recordar aqui os antecedentes daquele movimento. O fim dos anos 60 e princípios dos anos 70 foi um período de inflação maciça na Índia, com a taxa em 1973-74 chegando aos 30 por cento na sequência do primeiro choque petrolífero (embora o choque petrolífero tenha apenas se somado à fúria da inflação que tivera início). O drástico esmagamento da classe trabalhadora imposto por esta inflação foi um fator importante por trás da onda de lutas grevistas dos trabalhadores daquele tempo, dos quais a Greve Ferroviária de 1974 foi a mais importante. A insatisfação devida à inflação foi também responsável pelo fato de o [partido do] Congresso de Indira Gandhi perder as assembleias eleitorais em Gujarat.

Portanto, o governo Indira Gandhi estivera sob pressão para fazer algo acerca da inflação. Ele queria controlar esta inflação invertendo os termos de troca entre o setor agrícola e o não agrícola, contra os primeiros, o que significa efetivamente controlar a inflação pelo esmagamento dos camponeses e, através deles, dos trabalhadores agrícolas (uma vez que camponeses "transferem" suas desgraças para os trabalhadores). O período de Emergência foi digno de nota pela mudança dos termos de troca (terms-of-trade) a que deu lugar, tanto assim que muitos investigadores encararam a economia política da Emergência como consistindo na imposição de uma "política de estabilização" anti-camponesa para combater a inflação. Foi esta postura anti-campesinato que provocou manifestações maciças de camponeses (inclusive no Boat Club em Delhi) e um surto de lutas camponesas por todo o país no fim dos anos 70 e princípio dos 80.

Mas aquilo que o governo de Indira Gandhi fez num contexto específico dentro do regime dirigista agora tornou-se a norma dentro do regime neoliberal. As políticas neoliberais impostas pela globalização conduzida pela finança implicaram efetivamente a adoção permanente de um conjunto de políticas anti-camponesas, não apenas para manter baixa a inflação (a qual não está de modo algum tão alta como no princípio dos anos 70) mas para efetuar um processo de acumulação primitiva de capital para o enriquecimento dos monopolistas internos e estrangeiros.

Um tal processo de acumulação primitiva de capital a expensas dos pequenos produtores tradicionais também tem o efeito de esmagar a classe trabalhadora, incluindo seu segmento organizado. Os camponeses deslocados e pequenos produtores que afluem às cidades em busca de empregos, não os encontram. Quando muito, os empregos existentes são partilhados entre mais trabalhadores através de processos de precarização (casualisation), outsourcing, informalização e outros semelhantes, todos os quais contribuem para um inchaço do exército de reserva do trabalho. E tal inchaço mantém baixa a força negocial de todos os trabalhadores, incluindo mesmo a dos trabalhadores organizados. O que acontece aos trabalhadores numa economia como a nossa dentro de um regime neoliberal não é portanto independente do que acontece aos camponeses. Um processo de acumulação primitiva a expensas dos últimos também serve para esmagar os primeiros.

Entretanto, há um segundo meio ainda mais importante pelo qual a acumulação primitiva afeta os trabalhadores. Uma vez que o exército de reserva do trabalho exprime-se não em termos de uma simples dicotomia entre alguns que estão empregados e outros que estão no desemprego, mas antes através de fenômenos como "desemprego disfarçado" e precarização ou trabalhadores empregados intermitentemente, um inchaço das suas fileiras implica um aumento na fragmentação de trabalhadores e portanto um novo enfraquecimento da sua capacidade para resistir. E qualquer enfraquecimento na capacidade da classe trabalhadora para resistir propaga-se também a outros segmentos da população, levando a um rebaixamento geral da resistência de classe.

O que estamos a testemunhar por todo o mundo hoje em dia é uma reversão desta tendência. O capitalismo neoliberal atingiu agora o ponto onde sua tendência espontânea para manter baixa a resistência de classe, através da promoção da fragmentação, já não é mais suficiente para isso. E a resistência de classe, quando começa, tem meios para propagar-se de modo rápido e amplo.