26 de junho de 2017

A crise do Catar

A batalha entre a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos contra o Qatar é uma luta pelo poder regional, sem heróis a serem elogiados.

Adam Hanieh*


Porto Arábia, Qatar. Abraham Puthoor / Flickr

Tradução / A decisão de 5 de junho da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes Unidos (EAU), do Bahrein e do Egito em suspender as relações diplomáticas com o Qatar enviou ondas de choque pelo Oriente Médio.

O bloqueio que se seguiu encerrou grande parte do comércio marítimo e terrestre do Golfo com o Qatar, provocando receios de que o pequeno estado logo enfrentaria uma escassez de alimentos. As principais transportadoras aéreas, incluindo a Emirates, a Gulf Air, a Flydubai e a Etihad Airways, cancelaram os voos e os cidadãos do Qatar que viviam nas nações participantes tiveram apenas duas semanas para voltar para suas casas. Mesmo os imigrantes com permissões de residência do Qatar seriam alvos de expulsão.

Os Emirados Árabes Unidos proibiram qualquer expressão de solidariedade para com o Qatar – até mesmo através do Twitter – e ameaçaram os infratores com penas de prisões de até quinze anos.

Os governos estreitamente ligados à Arábia Saudita e aos Emirados Árabes Unidos expressaram rapidamente o apoio ao bloqueio, incluindo a Câmara dos Deputados na Líbia com base em Tobruk (uma das facções governamentais em conflito do país), o governo de Abed Rabbo Mansour Hadi no Iêmen, apoiado pelos sauditas, bem como Comores, a Mauritânia e as Maldivas.

O movimento contra o Qatar veio após meses de publicidade negativa na mídia americana e no Golfo, em que autoridades estatais alegaram repetidamente que o Qatar estava financiando grupos islâmicos e se aproximando do Irã.

Yousef Al Otaiba, embaixador dos Emirados Árabes Unidos nos Estados Unidos, desempenhou um papel importante nesta campanha. Desde o início das revoltas árabes em 2010, Otaiba tem percorrido os corredores do poder em Washington, alertando que essas revoltas populares ameaçam a ordem estabelecida da região e afirmando também que o Qatar apoia movimentos e indivíduos hostis tanto à Arábia Saudita como aos Emirados Árabes Unidos.

Ex-funcionários do governo americano e think tanks[1] – notadamente a neoconservadora Fundação Pró-Israel para a Defesa das Democracias (FDD), uma apoiadora proeminente na invasão do Iraque em 2003 – assumiram essa cruzada anti-Qatar. Em 23 de maio, a FDD convocou um seminário de alto nível para discutir o relacionamento do país do Golfo com a Irmandade Muçulmana e como a administração de Trump deveria responder. Ali, o ex-secretário de defesa, Robert Gates, pediu ao governo americano que deslocasse sua maciça base aérea no Qatar, a menos que o país cortasse relações com esses grupos.

De acordo com e-mails divulgados logo após a conferência, Otaiba supostamente revisou e encorajou os comentários de Gates. Na verdade, esse vazamento supostamente ajudou a desencadear o bloqueio, revelando a confortável relação do embaixador com Gates, com a FDD, e com outras figuras próximas à administração Trump.

Tanto os Emirados Árabes Unidos quanto a Arábia Saudita também alegaram que o Qatar tem procurado fortalecer os laços com o Irã nos últimos meses. Uma evidência oferecida para isso é a alegação de que o Qatar pagou recentemente US$ 700 milhões ao Irã para garantir a libertação de vinte e seis membros da realeza do Qatar, que haviam sido sequestrados no Iraque em 2015, e haviam sido mantidas no Irã por um ano e meio. Esta história – que também alegadamente envolveu um pagamento à parte de até US$ 300 milhões para grupos alinhados com a Al Qaeda na Síria – foi negada pelo primeiro-ministro iraquiano Haider al-Abadi, que declarou em 11 de junho que o dinheiro permanece no banco central iraquiano.

Por sua parte, a Arábia Saudita criticou uma declaração atribuída ao Emir do Qatar, Tamim bin Hamad Al Thani, publicada na Agência Estatal de Notícias do Qatar. Durante um discurso de graduação para oficiais da guarda nacional na base de Al Udeid, Al Thani supostamente elogiou o Irã e criticou os estados do Golfo que veem a Irmandade Muçulmana como uma organização terrorista. Qatar explicou que o site havia sido pirateado – uma afirmação que mais tarde teve o apoio do FBI – e que Al Thani não havia feito tais declarações.

Em meio a todas essas declarações conflitantes, alguns observadores argumentam que a visita de Donald Trump à Arábia Saudita em 20 de maio representou um momento-chave na campanha contra o Qatar, alegando que Trump deu à Arábia Saudita e aos Emirados Árabes Unidos o sinal verde. Na verdade, um de seus caracteristicamente eloquentes tweets parece confirmar isso, enquanto o presidente se gabava de que o bloqueio saiu a partir de suas reuniões em Riyadh.

Nem todos em Washington, no entanto, apoiam totalmente a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos. Outros funcionários – notadamente Rex Tillerson – estão pedindo uma flexibilização do bloqueio e uma solução pacífica. O secretário de relações exteriores do Reino Unido, Boris Johnson, também opinou, pedindo o fim do conflito, ao mesmo tempo que afirmou que o Qatar “precisa urgentemente fazer mais para resolver o tema do apoio a grupos extremistas”.

Disputas intestinas não são novidade para as turbulentas famílias governantes do Golfo, mas a decisão de isolar o Qatar marca uma escalada significativa. Como devemos entender o bloqueio no contexto de desenvolvimentos mais amplos no Oriente Médio, particularmente na sequência das revoltas árabes? Esses eventos marcam um cisma irreconciliável na política do Golfo ou uma mudança fundamental nos padrões históricos das alianças americanas na região?

Interesses e rivalidades compartilhados

Não podemos entender o conflito atual sem analisar o projeto mais amplo de integração regional, incorporado ao Conselho de Cooperação do Golfo (GCC). Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Qatar, Bahrein e Omã estabeleceram esta organização dois anos após a revolução iraniana de 1979 e no início da guerra entre o Iraque e o Irã que duraria até 1988.

Na época, o GCC era amplamente visto como uma resposta apoiada pelos Estados Unidos para esses distúrbios regionais, projetado para estabelecer um guarda-chuva de segurança nos seis Estados membros, que os Estados Unidos iriam encorajar, equipar e supervisionar.

Não só esses estados possuem recursos ricos em petróleo e gás – a explicação definitiva para o interesse dos Estados Unidos em tal aliança -, mas também compartilham estruturas semelhantes, marcadas por famílias governantes autoritárias e uma força de trabalho que consiste principalmente de migrantes temporários, em grande parte sem direitos trabalhistas – uma característica muitas vezes esquecida na enxurrada de discussões na mídia sobre o Golfo nas últimas semanas. O projeto de integração do GCC refletiu os interesses coletivos desses estados, que estão alinhados, de forma singular, com as potências ocidentais.

A relação entre os Estados Unidos, outras potências ocidentais e o GCC tem se fortalecido consideravelmente desde 1981, como demonstra a base aérea Al Udeid do Qatar.

Agora, com mais de 14 anos de idade, Al Udeid hospeda mais de dez mil soldados norte-americanos e é a maior base aérea no exterior dos Estados Unidos. Como a sede do quartel-general avançado do Comando Central das Operações Especiais e do Comando Central das Forças Aéreas, o Qatar ajuda a coordenar a presença militar dos Estados Unidos em toda a região, inclusive no Iraque e no Afeganistão.

Os Estados Unidos também controlam sua principal base naval a partir do Bahrein, sede do Comando Central das Forças Navais e da Quinta Frota. Mais de vinte mil militares americanos estão estacionados em todo o resto do Golfo.

A venda de equipamentos militares ao Golfo pelos Estados Unidos e por nações europeias, particularmente o Reino Unido e a França, está intimamente ligada a essa presença militar. A recente visita de Trump à Arábia Saudita colocou esse aspecto da relação EUA- Arábia Saudita em destaque: o negociador-em- chefe teria assinado contratos de mais de cem bilhões de dólares. (Os valores precisos continuam a ser contestados, pois são centralmente baseados em cartas de intenções e incluem ofertas acordadas com a administração de Obama).

De acordo com o Programa de Despesas Militares e com Armamento do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo, cerca de 20% das importações militares mundiais foram para países do CCG em 2015; A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos ocuparam o primeiro e o quinto lugar. A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos representaram 80% de todas as importações militares do GCC naquele ano, mas o Qatar, o Kuwait e o Omã também aparecem na lista dos primeiros quarenta países que mais importam armas do mundo. A participação do GCC no mercado global mais do que duplicou desde 2011 e tornou-se o maior mercado de armas do mundo.

Essas compras reciclam uma parte dos excedentes de petrodólares do Golfo para as empresas que produzem o hardware militar mundial. O GCC não só hospeda as forças americanas, mas também paga generosamente por esse privilégio.

A economia política do Golfo

Mas o significado do projeto do GCC se estende para além de proteger um clube exclusivo de monarquias ricas em petróleo e manter o papel da região como sede para o poder militar americano no Oriente Médio, Ásia Central e África Oriental.

Ao longo dos anos 1990 e 2000, o quadro institucional estabelecido pelo GCC encorajou os seis estados membros a elaborar um alinhamento político e econômico muito mais próximo, um acordo geralmente comparado com a União Europeia. As duas últimas décadas têm visto progressos consideráveis em direção a esse objetivo: aumento dos níveis de fluxos de capitais pan-GCC, um movimento em direção a impostos e tarifas padronizados para os produtos importados, políticas que incentivam a livre circulação de trabalhadores que são cidadãos dos distintos países membros, e instituições políticas mais unificadas. Até mesmo uma moeda comum, o khaleeji, foi proposta.

Este processo de integração regional dá suporte à forma específica do capitalismo que os Estados do GCC compartilham. Os grandes conglomerados do Golfo (estatais e privados) que dominam a economia política do Golfo operam nas fronteiras do Golfo e, como a União Europeia, também são marcados por uma interpenetração pronunciada das estruturas de propriedade do capital em diferentes estados do Golfo.

É importante ressaltar, no entanto – e isso nos ajuda a entender os últimos conflitos na região – este projeto de integração não extinguiu as rivalidades dos membros ou as tensões competitivas. Uma hierarquia acentuada do poder político e econômico marcou o GCC desde a sua criação, com o pivô principal girando em torno de um eixo Arábia Saudita-Emirados Árabes Unidos.

Estes dois países tornaram-se os principais locais de acumulação de capital e as empresas da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos dominam a economia do GCC nos setores de imóveis, finanças, comércio, logística, telecomunicações, petroquímica e indústria. Há também importantes investimentos trans-fronteiriços entre a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos.

Este eixo não existe sem suas tensões próprias – refletidas, por exemplo, na rejeição dos Emirados do projeto – apoiado pela Arábia Saudita – de moeda unificada em 2009 – mas seu alinhamento político se desenvolveu juntamente com seus laços econômicos.

O Bahrain está estreitamente integrado a esse eixo como um sócio minoritário. Sua monarquia governamental da Casa de Al Khalifa depende do apoio financeiro, político e militar saudita, como as revoltas de 2011 o demonstraram claramente.

Esta sub-aliança influencia como os outros estados do GCC se relacionam com o resto do mundo, uma característica claramente ilustrada pelos padrões comerciais da região. Devido a níveis relativamente baixos de produção de não-hidrocarbonetos e às pequenas dimensões dos setores agrícolas, o GCC depende fortemente das importações. O eixo Arábia Saudita – Emirados Árabes Unidos intermedia esse fluxo: eles trazem as mercadorias, em seguida as reexportam para outros estados, às vezes após o processamento de valor agregado.

As importações de alimentos são de particular importância. Os outros quatro estados do GCC importam mais alimentos da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos do que de qualquer outro país do mundo. Em 2015, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos classificaram-se como ou primeiro ou segundo exportador de alimentos para cada um dos outros estados do GCC.

Notavelmente – especialmente porque esses números incluem grandes exportadores de trigo e carne, incluindo os Estados Unidos, Índia, Brasil e Austrália – a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos foram responsáveis por 53% do valor total da exportação de alimentos para Omã, 36% para o Qatar, 34 % para o Bahrain e 24% para o Kuwait.

Essas tendências não só ressaltam a importância de colocar o eixo Arábia Saudita – Emirados Árabes Unidos no centro da nossa compreensão do resto do Golfo, mas também ajudam a explicar os potenciais efeitos do atual bloqueio.

A escala regional

Dominados por este eixo Arábia Saudita – Emirados Árabes Unidos, os outros Estados menores têm desempenhado um papel mais marginal na economia política do Golfo. Com uma pequena população cidadã (apenas 313 mil cidadãos de uma população total de 2,6 milhões, espantosos 12% do país) e uma enorme riqueza de suas vastas reservas de gás natural, o Qatar tem particularmente se irritado com essa estrutura hierárquica.

Em uma base per capita, o Qatar é o país mais rico do mundo – com 17,5% de suas famílias cidadãs com bens de mais de um milhão de dólares -, mas em grande parte tem sido negado ao Qatar um lugar nas estruturas políticas e econômicas mais amplas do GCC, dominadas pelos seus vizinhos maiores.

Limitados pelo tamanho dos seus mercados nacionais e inundados pelo capital excedente de quase quinze anos de crescentes preços de petróleo e gás, uma das principais consequências dessas hierarquias competitivas internas tem sido a tentativa por todos os Estados do Golfo de crescerem para além das fronteiras do GCC. Os grandes conglomerados privados e respaldados pelo estado têm expandido suas operações globalmente, investindo em imóveis, instituições financeiras, tecnologias emergentes, agronegócios e outros setores. Enquanto todos os estados do GCC têm participado deste processo, a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Qatar têm liderado esta corrida.

Embora os fluxos de capital do Golfo tenham se concentrado em grande parte na América do Norte e na Europa, o Oriente Médio também se tornou um alvo importante. A medida em que os estados árabes abriram seus mercados e liberalizaram setores econômicos fundamentais – um processo liderado pelo garoto-propaganda neoliberal do Banco Mundial, o Egito de Mubarak -o capital do Golfo teve um papel de liderança ao longo dos anos 2000, ao comprar os ativos privatizados (frequentemente através de acordos corruptos com as elites estatais) e ao se beneficiar com a abertura do mercado que se seguiu na esteira da reforma neoliberal.

De 2003 a 2015, os estados do GCC foram responsáveis por um notáveis 42,5% do total dos novos investimentos diretos estrangeiros (IDE) em outros países árabes. Neste período, cerca de metade de todos os investimentos estrangeiros na Jordânia, Egito, Líbia, Líbano, Palestina e Tunísia vieram do Golfo. Além disso, de 2010 a 2015, os investidores da Europa, do Golfo e da América do Norte gastaram pouco mais de vinte bilhões de euros em fusões e aquisições no mundo árabe. A participação do GCC representou quase metade, com 44,7%.

Por mais impressionantes que sejam esses números, eles realmente subestimam o nível de internacionalização. Eles não incluem, por exemplo, os níveis consideráveis de ajuda bilateral do Golfo, nem necessariamente incorporam investimentos de portfólio das empresas do Golfo em mercados de ações regionais.

À medida que este processo se desenrolava, o papel político do GCC tornava-se cada vez mais proeminente. O Golfo não só conduziu a construção de uma ordem regional marcada por estados autoritários e economias liberalizadas, mas também se beneficiou com isso. Tudo isso ocorreu sob os auspícios de potências ocidentais e instituições financeiras internacionais.

À medida que esse processo tornava os estados do GCC mais próximos entre si, também intensificava suas rivalidades. Uma das manifestações mais importantes dessa tensão ocorreu quando o Qatar tentou adotar uma política regional autônoma, relativamente independente da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos.

O Qatar começou a patrocinar diferentes forças políticas – a Irmandade Muçulmana, o Hamas e o Talibã – e a hospedar uma variedade de dissidentes exilados – o clérigo egípcio Sheikh Yusuf al-Qaradawi, que protagoniza programas populares nos canais de TV do Qatar e o intelectual palestino Azmi Bishara. O Qatar também usou sua ampla rede de mídia para se promover como uma força regional, nomeadamente através da Al Jazeera e de suas afiliadas e, mais recentemente, através do jornal e canal de televisão Al-Araby Al-Jadeed, lançado no início de 2015.

As revoltas árabes que começaram na Tunísia no final de 2010 acentuaram essas divisões, mas também enfatizaram os interesses compartilhados do Golfo. Ao ameaçar profundamente a ordem regional e seus regimes autoritários, as revoltas colocaram um agudo desafio aos estados do GCC: como evitar os movimentos populares e reconstituir a ordem autoritária e neoliberal? Cada estado teve um interesse comum neste processo contrarrevolucionário, mas suas respostas diferiram ao longo das linhas descritas acima.

O Qatar apoiou forças aliadas com a Irmandade Muçulmana, enquanto a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos inclinaram-se para pessoas como Abdel Fattah el-Sisi no Egito e o antigo agente da CIA, Khalifa Haftar, na Líbia. Uma constelação de alianças, contraditórias e em constante mudança, se formou em torno dos interesses comuns do GCC e suas rivalidades internas.

O Qatar apoiou a intervenção saudita no Bahrein, participou da guerra contra o Iêmen e, na Síria, se opôs ao seu suposto novo aliado, o Irã. No Egito, na Líbia, na Tunísia e na Palestina, no entanto, o Qatar tendeu a apoiar facções rivais. As linhas ficam desfocadas e tênues mesmo nesses casos: o Qatar expressou apoio a Sisi após o golpe de 2013, apesar de sua clara aliança com a Irmandade Muçulmana Egípcia.

Essas alianças divergentes também se estendem a outros participantes no atual bloqueio; o Egito de Sisi, por exemplo, apoia o regime de Assad na Síria, alinhando-se com o Irã, mas contra a Arábia Saudita, apesar de sua dependência quase completa do eixo Arábia Saudita – Emirados Árabes Unidos.

O ponto-chave, muitas vezes ignorado no comentário da mídia sobre o bloqueio, é que não existem posições políticas de princípios envolvidas nessas alianças – trata-se de uma conveniência calculada e de uma avaliação pragmática por cada estado sobre a melhor forma de promover sua influência regional, sempre dentro do quadro de reordenação da região de uma forma acessível ao seu poder político e econômico coletivo.

Precisamos manter ambas as tendências em mente quando avaliamos a situação atual. Uma forte unanimidade de interesses sustenta a posição dos Estados do Golfo sobre a ordem regional, uma situação plenamente apoiada por – e em pleno apoio às – potências ocidentais. Simultaneamente, o GCC é dividido por rivalidades e competições, refletidas nas diferentes visões dos membros em como manter seus interesses compartilhados.

A questão de Israel

Na esteira dos levantes árabes, agora estamos vendo uma afirmação de ambas as tendências. Especificamente, o bloqueio atual é uma jogada da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos para afirmar completamente sua hegemonia sobre a região e colocar o Qatar de volta ao seu lugar.

Mas não se trata apenas da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos; expressa fundamentalmente um processo contrarrevolucionário geral que tem estado presente desde o início dos levantes – restaurando o status quo dos estados autoritários neoliberais que atenderam os interesses do GCC como um todo (incluindo o Qatar) por várias décadas. Tudo isso também deve ser visto através do prisma da aliança contínua e sempre fortalecida do Golfo com os EUA e outras potências ocidentais.

Dentro desse processo, o lugar de Israel desempenha um papel fundamental. Desde a década de 1990, a política regional americana tem procurado aproximar o GCC e Israel, normalizando as relações econômicas e políticas entre os dois pilares do poder dos EUA na região. Desde a revolta árabe, essa aproximação pareceu cada vez mais provável.

Não é por acaso que a primeira viagem internacional de Trump o fez visitar a Arábia Saudita e depois Israel (voando diretamente entre os dois), uma agenda de viagem que ilustra perfeitamente as prioridades estratégicas dos Estados Unidos na região. Apesar do boicote de longa data da Liga Árabe às relações com Israel, a região do Golfo (particularmente o eixo Arábia Saudita – Emirados Árabes Unidos) e Israel concordam em questões políticas fundamentais, e ambas as partes estão ativamente buscando construir laços mais estreitos.

No final de março de 2017, o Haaretz informou que os Emirados Árabes Unidos e Israel participaram de exercícios militares conjuntos na Grécia ao lado dos Estados Unidos e de vários países europeus. Esta não foi a sua primeira colaboração: um ano antes, Israel, Emirados Árabes Unidos, Espanha e Paquistão participaram da Red Flag, um exercício de treinamento de combate aéreo que ocorreu em Nevada (EUA).

No final de novembro de 2015, Israel abriu um escritório diplomático na capital dos Emirados Árabes, Abu Dhabi, como parte da Agência Internacional de Energia Renovável – a primeira vez que uma presença diplomática israelense oficial apareceu nesse país. A Bloomberg Businessweek informou em fevereiro de 2017 que o escritório poderia atuar como uma embaixada para os laços crescentes de Israel no Golfo.

As empresas israelenses de segurança alegadamente instalaram equipamentos de infraestrutura e segurança no valor de mais de US $ 6 bilhões nos Emirados Árabes Unidos; isso ocorre depois de Israel ter vendido cerca de US $ 300 milhões de tecnologia militar para a nação do Golfo em 2011.

As empresas militares e de segurança de alta tecnologia israelenses também estão ativas na Arábia Saudita, onde elas estão supostamente ajudando a Saudi Aramco ([2])a estabelecer segurança cibernética, vender sistemas de mísseis avançados e até mesmo realizar pesquisas de opinião pública para a família real. A mídia israelense afirmou que o país ofereceu aos sauditas sua tecnologia militar Iron Dome para se defender contra os ataques do Iêmen.

Essas relações, outrora clandestinas, estão agora sendo comentadas abertamente. O The Times de Israel informou em junho de 2015 que a Arábia Saudita e Israel realizaram cinco reuniões secretas desde o início de 2014. Em maio de 2015, o então diretor-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros Israelense, Dore Gold, apareceu publicamente com o general saudita aposentado, Anwar Eshki. No ano seguinte, Eshki visitou Israel para se encontrar com o ex-porta-voz das Forças de Defesa de Israel e atual coordenador de atividades governamentais nos territórios ocupados, o Major-General, Yoav Mordechai.

Não deve ser uma surpresa, então, que Israel apoie o bloqueio contra o Qatar. Mas isso não significa que o Qatar também não tentou normalizar suas relações com Israel. Como os outros estados do GCC, o envolvimento do Qatar na Palestina foi projetado para garantir a si próprio um assento melhor na mesa – um objetivo que os israelenses têm apoiado alegremente quando atende a seus interesses.

Em 1996, o Qatar permitiu que Israel abrisse um escritório comercial em Doha, tornando-o o único estado do Golfo a manter relações oficiais com Israel naquela época. Embora o escritório tenha sido fechado após o bombardeio israelense em Gaza em 2008, o Qatar tem repetidamente se oferecido para restabelecer os laços em troca de ter permissão para fornecer ajuda financeira e material a Gaza. Uma delegação comercial israelense que visitou o Qatar em 2013 alegadamente descobriu, que o Qatar estava interessado em investir no setor de alta tecnologia israelense.

O Qatar é o único estado do GCC que admite visitantes israelenses e que tem permitido que atletas israelenses participem de eventos esportivos e culturais. Em 2013, o Qatar presidiu a reunião da Liga Árabe que mudou a iniciativa de paz de 2002 para permitir que Israel mantivesse seus blocos de assentamentos em qualquer acordo final. Tzipi Livni, então ministra da Justiça israelense, descreveu o desenvolvimento como “muito positivo”. E no início de fevereiro de 2017, Muhammad al-Imadi, chefe do comitê nacional de Doha para a reconstrução de Gaza, afirmou que “mantém laços excelentes” com os oficiais militares israelenses.

Todas essas tendências indicam que nenhum dos estados do Golfo – incluindo o Qatar – pode ser visto de alguma forma como aliado ou amigo confiável da luta palestina. Mas as atuais tensões no Golfo também possuem implicações potencialmente importantes para o poder político na Palestina.

A crescente influência política de Mohammed Dahlan dialoga com essa possibilidade. Alguns acreditam que Dahlan, líder de uma das frações da Al-Fatah (principal corrente da Organização para a Libertação da Palestina – n. da tradutora) irá substituir Abu Mazen – também conhecido como Mahmud Abbas, n. da tradutora – (o atual chefe da Autoridade Palestina baseada em Ramallah). Dahlan vive em Abu Dhabi, e os Emirados Árabes Unidos há muito o apoiam política e financeiramente. Ele tem laços estreitos com Israel e os Estados Unidos e tornou-se, para esses dois últimos, o candidato preferido para suceder o octogenário Mazen.

Embora as rivalidades dentro do Fatah possam cortar a ascensão de Dahlan, sua crescente importância aponta para a forma como as tensões atuais no Golfo podem realinhar o equilíbrio de poder nas áreas vizinhas.

Rumos futuros

Nem todos os Estados do GCC ou atores regionais apoiam o bloqueio atual. No momento da redação deste artigo, Omã permitiu que os navios vinculados ao Qatar usassem os seus portos, e o Kuwait tem se empenhado em frenéticos esforços diplomáticos para acalmar as tensões. Somente o Bahrein apoiou totalmente a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, em grande parte devido à longa dependência da monarquia de Al Khalifa para com a Arábia Saudita.

A Turquia ofereceu enviar tropas a uma base militar turca no Qatar e o Irã se comprometeu a enviar comida e água para superar o fechamento da única fronteira terrestre do Katar com a Arábia Saudita. Enquanto isso, as tentativas da Arábia Saudita em recrutar outros países com grandes populações muçulmanas – como Senegal, Níger, Djibouti e Indonésia – falharam em grande parte. Países árabes como Marrocos, Argélia e Tunísia também rejeitaram o bloqueio.

À luz dessas disputas, devemos lembrar o que o GCC representa como um todo. Este bloco de estados está totalmente integrado em uma estrutura de poder regional alinhada aos EUA, tem se beneficiado massivamente das reformas neoliberais no mundo árabe e tem se tornado cada vez mais interligado com a dinâmica política da região.

Esses estados compartilham o interesse em preservar sua posição regional e suas antigas estruturas políticas. Esses compromissos superam os potenciais benefícios da fratura do projeto. Do mesmo modo, o Ocidente e Israel querem ver o GCC juntos, já que o bloco tem servido muito bem a seus interesses nas últimas décadas.

Apesar dos cismas atuais, algum tipo de solução negociada que veja o Qatar aderindo ao eixo Arábia Saudita – Emirados Árabes Unidos e sua aceitação em ter uma influência regional diminuída é o resultado mais provável.

Este acordo acabaria por fortalecer o eixo Arábia Saudita – Emirados Árabes Unidos e ajudar a consolidar a contrarrevolução; também provavelmente precipitaria um realinhamento do poder político em lugares como Tunísia, Líbia e Palestina.

Mas a esquerda deve perceber que nenhum dos supostos aliados do Qatar – especificamente a Turquia e o Irã – representam uma alternativa progressiva para a região. Enquanto eles podem estar alinhados contra a frente Arábia Saudita – Emirados Árabes Unidos neste contexto, esses estados participaram do processo contrarrevolucionário pós-2011 tão entusiasticamente quanto seus rivais.

Talvez a lição mais importante da crise atual seja a de que devemos evitar leituras simplistas do Oriente Médio, especialmente aquelas baseadas na noção de que “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”.

Seria profundamente tolo considerar o Qatar, a Turquia ou o Irã como representantes de algum realinhamento progressivo apenas porque eles estão – pelo menos por enquanto – contra a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e Israel. A disputa feroz pelo poder regional provocou essas tensões e produziu todo tipo de alianças políticas contraditórias e instáveis, mas nenhum dos estados envolvidos representa qualquer tipo de alternativa política digna do apoio da Esquerda.

* Adam Hanieh é professor sênior na Escola de Estudos Orientais e Africanos (SOAS) da Universidade de Londres e autor de Lineages of Revolt: Issues of Contemporary Capitalism in the Middle East. (Linhagens da Revolta: Questões do capitalismo contemporâneo no Oriente Médio)

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