29 de abril de 2014

Como os EUA criaram a guerra do Afeganistão - e depois a perderam

A história não divulgada de como a rede Haqqani se tornou o maior inimigo da América

Anand Gopal

The Huffington Post

Era uma manhã típica em Cabul. A Praça Malik Ashgar fervia de táxis Corolla, jipes verdes da Polícia, minivans barulhentas e motociclistas irritados. Havia meninos vendendo cartões de telefone e cambistas sacudindo maços de dinheiro para trocar, todos circulando entre os veículos e a fumaça dos escapamentos. Junto ao portão do Liceu Esteqial, uma das escolas de maior prestígio do país, estudantes chutavam uma bola de futebol. No Ministério da Educação, um antigo prédio de estilo soviético, à frente da escola, uma fila de funcionários saía para a calçada. Eu caminhava cruzando a praça, em direção ao ministério, quando vi o suicida-atirador.

Tinha feições escandinavas. Estava vestido com calça jeans e camiseta branca, carregando uma mochila grande. E pôs-se a atirar indiscriminadamente na direção do prédio do ministério. De onde eu estava, distante cerca de 50 metros, não podia ver a expressão dele, mas não parecia frenético nem em pânico. Procurei cobertura por trás de um táxi estacionado. Foi pouco antes de a polícia aparecer e a praça ficar deserta.

Vinte e oito pessoas, a maioria civil, morreram nos ataques no Ministério da Educação, Ministério da Justiça e em outros pontos da cidade naquele dia, em 2009. Posteriormente, autoridades americanas acusaram a Rede Haqqani – grupo nebuloso que operava a partir do Paquistão e que inaugurara a tática de usar vários homens-bombas em ataques urbanos que estiveram em todas as manchetes. Diferente de outros grupos Talibã, a abordagem dos Haqqanis era “global” e sofisticada: recrutavam árabes, paquistaneses e até europeus, influenciados pelo pensamento islâmico mais radical. O líder deles, o septuagenário senhor da guerra Jalaluddin Haqqani, era uma espécie de Osama bin Laden e Al Capone reunidos numa só pessoa, tão ferozmente ideológico quanto cruelmente pragmático.

Tanto que, muitos anos depois, seus seguidores continuam a lutar. Mesmo com os EUA retirando a maior parte de seus soldados esse ano, ainda assim 10 mil agentes das Forças Especiais, paramilitares da CIA e seus agregados lá permanecerão, para dar combate aos Haqqanis, aos Talibã e a grupos semelhantes, numa guerra que parece não ter fim. Com inimigos assim tão entrincheirados, o conflito ganhou hoje ares de inevitabilidade. Mas as coisas poderiam ter tomado rumo completamente diferente.

Hoje já é difícil imaginar, mas em meados de 2002 não havia insurgência alguma no Afeganistão: a al-Qaeda fugira do país e os Talibã já não existiam como movimento militar. Jalaluddin Haqqani e outras altas figuras dos Talibã estavam tentando contacto com o outro lado para firmar acordos e depor armas. Mas centenas de milhares de soldados dos EUA já haviam chegado a solo afegão, depois do 9/11, com um único objetivo: fazer guerra ao terror.

Como eu relato no meu novo livro, No good men among the living: America, the Talibã, and the war through Afghan eyes, os EUA fariam aquela guerra em qualquer caso, mesmo que não houvesse inimigo a combater. Para compreender como a guerra dos EUA no Afeganistão deu tão errado, por tanto tempo, é indispensável conhecer um pouco da história (não divulgada) daqueles dias. Nos primeiros anos depois de 2001, movida pela ideia fixa de que o mundo dividia-se rigidamente entre terroristas e não terroristas, Washington aliou-se a senhores da guerra e chefes de grupos armados afegãos. Os inimigos deles passaram a ser inimigos dos EUA e, com inteligência sempre precária e insuficiente, a luta comum desses todos foi reembalada sob o rótulo de “contraterrorismo”. A história de Jalaluddin Haqqani, que se converteu, de aliado potencial dos EUA, em seu principal inimigo, é um caso paradigmático de como a guerra ao terror gerou os próprios inimigos que ela visou a erradicar.

A campanha para erradicar os Haqqani: 2001

Jalaluddin Haqqani é um homem de peso médio, sobrancelhas grossas, nariz fino, sorriso largo e barba longa, a qual, se deixada luzir em toda sua glória, quase engole metade do rosto dele. Na terra onde nasceu, Loya Paktia – a área das três províncias do sudeste do Afeganistão – Jalaluddin Haqqani é um herói de guerra, mujahedeen que lutou contra os soviéticos, homem de bravura narrada em histórias que circulam de boca em boca e fama de resistência e de fé quase míticas (uma vez, ferido à bala, recusou analgésicos, porque estava jejuando). Nos anos finais da Guerra Fria, Jalaluddin Haqqani era adorado pelos americanos – o senador Charlie Wilson, texano, descrevia-o como “a bondade personificada” – e também por Osama bin Laden. Na década de 1980, os EUA o abasteceram com dinheiro e armas na batalha contra o governo que os russos apoiavam; e os grupos árabes radicais garantiam fluxo regular de recrutas para reforçar sua formidável força afegã.

As autoridades americanas tinham tudo isso em mente, quando começou a segunda Guerra do Afeganistão, em outubro de 2001. Na esperança de convencer Haqqani (que passara a apoiar os Talibã e a al-Qaeda nos anos pós-soviéticos) a mudar de lado, os EUA não atacaram o território dele em Loya Paktia, o qual foi preservado, no intenso bombardeio que os EUA lançaram contra todo o resto do país. E os Talibã, por sua vez, puseram-no no comando de toda a força militar deles; os dois lados mostraram que viam Jalaluddin Haqqani como o fator capaz de decidir o destino daquela guerra. Haqqani reuniu-se com altos comandantes dos Talibã e com Osama bin Laden e partiu para o Paquistão onde participou de incontáveis reuniões com paquistaneses e com afegãos patrocinados pelos EUA.

Representantes seus também começaram a reunir-se com funcionários americanos em Islamabad, capital do Paquistão, e nos Emirados Árabes Unidos; até que os EUA afinal lhe fizeram uma proposta: ele se entregaria, seria preso, cooperaria com as novas autoridades militares afegãs e, depois de tempo “razoável” de prisão, estaria liberado para partir para onde desejasse ir. Para Haqqani, um dos nomes mais conhecidos e respeitados de toda a Loya Paktia, a ideia de ser exposto preso, sentado atrás das grades, era absolutamente inaceitável. Arsala Rahmani, que acompanhava Haqqani naquele período, e seria senador no governo afegão, contou-me: "Ele queria ter posição destacada em Loya Paktia, e a “proposta” deles foi prendê-lo. Haqqani não acreditou no que ouviu dos americanos. Você pode imaginar insulto semelhante?"

Haqqani recusou a oferta americana, mas deixou a porta aberta para negociações futuras. Os EUA, contudo, já estavam completamente dominados pelo ethos do “ou conosco, ou contra nós”. "Eu, pessoalmente, sempre acreditei que Haqqani era um homem com o qual poderíamos ter trabalhado", um ex-funcionário da inteligência dos EUA disse ao jornalista Joby Warrick. "Mas naquele momento ninguém estava olhando além do horizonte, para onde estaríamos dali a cinco anos. Para os diplomatas e políticos dos EUA, a coisa sempre era 'fodam-se os barbudos de pele escura'."

No início de novembro, os EUA começaram a bombardear Loya Paktia. Duas noites depois, aviões bombardearam a casa de Haqqani na cidade de Gardez, perto da fronteira do Paquistão. Ele não estava ali, mas seu cunhado e um empregado da família morreram no ataque. Na noite seguinte, aviões dos EUA atacaram uma escola religiosa na vila de Mata China, uma das muitas escolas que Haqqani fizera construir no Afeganistão e no Paquistão, que ofereciam moradia, comida e educação a crianças pobres. Malem Jan, amigo da família Haqqani, foi um dos primeiros a chegar ao local. "Nunca vi nada semelhante", disse ele. "Eram muitos corpos. O teto desabara quase inteiro sobre as crianças. Vi uma criança ainda viva, mas foi impossível tirá-la a tempo." Trinta e quatro pessoas, quase todas crianças, perderam suas vidas.

Haqqani estava em sua residência principal, na vila próxima de Zani Khel, conjunto poeirento de casas de barro que tinha servido como fortaleza anti-soviética. "Ouvimos a explosão, depois o barulho dos aviões no céu", contou um primo, que vivia próximo dali. "Ficamos com muito medo." Haqqani mudou-se para a casa de Mawlawi Sirajuddin, um chefe local. Pouco depois, a casa foi sacudida, atingida diretamente por ataque aéreo. Haqqani foi ferido, mas conseguiu escalar a pilha de escombros e escapou. Sirajuddin teve menos sorte: naquele ataque perdeu a esposa Fatima, três netos, seis netas e dez outros parentes.

Na manhã seguinte, Haqqani enviou uma mensagem a seus subordinados e ex-subcomandantes, aconselhando-os que se rendessem. Mas os EUA já haviam localizado o aliado local em Loya Paktia que procuravam há tempos, Pacha Khan Zadran, suposto senhor-da-guerra e apoiador do rei afegão exilado. De sobrancelha cerrada e vastos bigodes, “PKZ” (como seria conhecido entre os americanos) fazia lembrar um Saddam Hussein afegão. Agitado, analfabeto e irritadiço, PKZ era, em vários sentidos, o oposto de Haqqani, sob cujo comando havia lutado durante algum tempo na jihad anti-soviéticos. Chegara a Loya Paktia pouco depois de os Talibã terem partido em meados de novembro e imediatamente se autodeclarou governador das três províncias. Em pouco tempo selou laços com os americanos, prometendo entregar-lhes o homem que mais procuravam: Jalaluddin Haqqani.

"Na última vez que o vi", disse Malem Jan, "ele estava preocupado e agitado. Disse-me apenas que saísse e me salvasse, porque Pacha Khan não nos deixaria vivos." Numa manhã de novembro, de madrugada, Haqqani cruzou a fronteira para o Paquistão. Nunca mais foi visto em público.

Uma tentativa de reconciliação voa pelos ares: 2001

Em 20 de dezembro de 2001, Hamid Karzai, apoiado pelos EUA, preparava-se para tomar posse como presidente “interino” do Afeganistão. Cerca de 100 dos principais líderes tribais de Loya Paktia partiram em comboio, naquela tarde, rumo a Cabul para congratular-se com Karzai e declarar-lhe lealdade, gesto que muito ajudaria a legitimar seu governo, entre a população da região da fronteira. Do Paquistão, Haqqani enviou membros da família, amigos íntimos e aliados políticos para participarem da comitiva – um ramo de oliveira oferecido ao novo governo.

Eram cerca de 30 carros; o comboio viajou durante horas pelo deserto. No fim da tarde, início da noite, chegou a uma colina, e teve que parar: PKZ e centenas de seus homens, armados, bloqueavam a estrada. Malek Sardar, membro idoso da tribo Haqqani aproximou-se dele. “Ele queria que os idosos o aceitassem como líder de Loya Paktia”, Sardar me contou-me. “Queria nosso sinal de aprovação e que assinássemos, ali, naquele momento”. Sardar prometeu voltar depois da posse, para discutir o assunto, mas PKZ continuou a bloquear a estrada. A caravana fez meia volta e partiu por outra rota, para Cabul.

Em seu telefone via satélite, Sardar entrou em contato com funcionários na capital afegã e com o consulado dos EUA em Peshawar, Paquistão, procurando ajuda. Mas já era tarde demais: PKZ, que estava em contato direto com figuras chaves do comando militar dos EUA, já havia lhes informado que “uma caravana ‘Haqqani-al Qaeda’ estava indo na direção de Cabul. Imediatamente, entre explosões ensurdecedoras, os carros começaram a explodir em chamas. “Viam-se as luzes no céu, fogo por todos os lados. As pessoas gritavam. E nós corremos”, contou Sardar. Os EUA bombardearam a caravana. Os ataques repetiram-se durante horas. Como Sardar e outros correram para duas vilas próximas, os aviões rodearam do alto e atacaram as vilas; destruíram quase 20 casas e mataram muitos moradores. Ao todo, cinquenta mortos; vários líderes proeminentes morreram naquele ataque.

Era final de dezembro, e em Qale Niazi, vila que servira de fortaleza dos Haqqani na década de 1980, o bombardeio levara alguns anciãos preocupados, a assumir o controle de um velho arsenal que havia ali. "Não queríamos que Pacha Khan pusesse as mãos naquelas armas, nem que as usasse; aquelas armas tinham de ser entregues ao governo de Karzai. E tomamos conta delas até o governo de Karzai chegar", disse o velho Fazel Muhammad.

Uma noite, Muhammad caminhava para a vila, para uma festa de casamento, quando ouviu os aviões dos EUA. Num segundo, as casas de barro que ele via à sua frente, explodiram. Um segundo ataque acertou o depósito de armas, detonando uma sequência de explosões. O céu clareou no meio da noite, mostrando mulheres e crianças que tentavam fugir. “Então vieram os helicópteros”, contou Muhammad, “e todas aquelas pessoas foram pulverizadas”.

Pela manhã, Fazel Muhammad correu à casa dos parentes, onde acontecera a festa de casamento, mas só encontrou tijolos de barro pulverizados, molduras de retratos retorcidos, panelas e vasilhas deformadas, um sapato de criança, um escalpo com uma trança e vários dedos humanos. Adiante, comissão tribal encarregada de investigar o massacre descobriu que PKZ fornecera à “inteligência” norte-americana a informação de que Qale Niazi seria fortaleza dos Haqqani. Segundo investigação conduzida pela ONU, 52 pessoas morreram naquela festa de casamento: 17 homens, 10 mulheres e 25 crianças.

Reconciliação e chamas: 2002

Em seis semana, a campanha norte-americana para matar Jalaluddin Haqqani resultara em 159 civis mortos, uma vila varrida do mapa, 37 lares destruídos, uma liderança tribal fraturada e a ascensão de um homem, Pacha Khan Zadran, como principal ator em Loya Paktia. Enquanto isso, Haqqani e seus seguidores viviam clandestinos no Paquistão, assistindo enquanto as três províncias onde haviam sido homens ricos e prestigiados lhes escapavam das mãos. A vida no Paquistão não melhorou. Enquando Haqqani continuava escondido em Peshawar, sua família retirou-se para um subúrbio de Miram Shah, capital da agência tribal do Waziristão Norte. Os militares paquistaneses, então, estavam trabalhando em íntima associação com Washington para cercar suspeitos de pertencerem à al-Qaeda ou de serem membros dos Talibã. Em dezembro, a casa da família em Miram Shah foi atacada, e Sirajuddin, filho de Jalaluddin Haqqani, foi preso. Semanas depois, invadiram o esconderijo em Peshawar. Jalaluddin Haqqani escapou por um triz.

Nos meses seguintes, equipes de Forças Especiais dos EUA fizeram várias incursões secretas no Paquistão, atacaram casas e escolas Haqqani, levando o terror à comunidade local. "Nunca permitiremos que destruam nossas instituições religiosas, disse Hajji Salam Wazir, líder tribal. Foi supresa, para mim, o modo como os norte-americanos usam os muçulmanos, acrescentou. Até ontem, Haqqani era herói e combatente da liberdade, para os EUA. Mandaram especialistas deles para treiná-lo. Hoje, virou “terrorista”."

Recolhido entre a ameaça de ser preso por paquistaneses e assassinado por norte-americanos, Haqqani decidiu recorrer outra vez ao novo governo afegão. Em março de 2002, mandou seu irmão, Ibrahim Omari, ao Afeganistão, com uma proposta de reconciliar-se com Karzai. Em cerimônia pública, da qual participaram centenas de anciãos líderes tribais e dignitários locais, Omari jurou fidelidade ao novo governo e conclamou os seguidores de Haqqani a voltar do Paquistão e trabalhar com o novo governo de Karzai. Foi nomeado chefe do conselho tribal da província de Paktia, instituição criada para reunir os anciãos das tribos e o governo de Cabul. Em pouco tempo, centenas de antigos subcomandantes de Haqqani, que viviam na clandestinidade, escondidos de PKZ, saíram do frio.

Entre eles, estava Malem Jan. De longos cílios escuros, olhos pintados com muitoKohl e unhas cuidadas, gostava de dançar e dançava muito, para deleite dos companheiros. Era também comandante de vastíssima experiência de combate; lutara, no início dos anos 1990s, sob comando de Haqqani, contra o governo soviético. Na primavera de 2002, reconvocou seus antigos combatentes e, em pouco tempo, todos estavam trabalhando a serviço da CIA como unidade paramilitar, encarregados da segurança de missões dos EUA que caçavam a al-Qaeda.

“Foram bons tempos” – Malem Jan relembrou. – “Trabalhávamos juntos, comíamos juntos, conversávamos muito”. – As milícias da CIA, das quais havia uma meia dúzia em Loya Paktia, rapidamente cresceram e transformaram-se num exército clandestino de 3 mil homens, chamados, em grupo de “Equipes de Perseguição de Contraterrorismo”, que opera até hoje fora da jurisdição do governo afegão e só recebe ordens das forças dos EUA.

Os contatos entre Haqqani e a CIA foram retomados, com seu irmão Omari servindo de intermediário. Planejou-se um encontro entre o próprio Haqqani e representantes da Agência. Na negociação, o ponto chave foi a garantia de que Haqqani poderia voltar ao Afeganistão e participar na política da província de Loya Paktia. O problema era PKZ, enciumado com tais manobras e sempre interessado em manter o controle sobre as três províncias. “Tenho de ser nomeado governador” – disse ao jornal Austin American-Statesman. “Se não for eu, será alguém da al-Qaeda”.

Quando Karzai nomeou um novo governador para a província Paktia, PKZ logo respondeu: cercou a casa do governador e matou 25 pessoas. Simultaneamente, convenceu os norte-americanos a fechar o cerco contra os Haqqanis. Uma noite, quando Omari estava visitando um funcionário do governo, perto de Cabul, apareceram forças das Operações Especiais dos EUA – sem conhecimento daCIA – e o prenderam. Na mesma semana, outros seguidores dos Haqqanis foram presos, em vários pontos da província Loya Paktia.

No instante em que percebeu o que estava acontecendo Malem Jan fugiu para o Paquistão, mas vários de seus subordinados foram presos e enviados para a nova prisão norte-americana na Base Aérea Bagram, centro militar de comando que estava em rápida expansão. Swat Khan, seu vice-comandante, contou que, no primeiro interrogatório, foi pendurado ao teto pelos pulsos. Depois, foi espancado. Finalmente o mandaram para Guantánamo, onde, alguns anos depois, tentou o suicídio. “Cada vez que fecho os olhos, tudo reaparece” – contou-me ele, depois que foi libertado. – “O pesadelo nunca sai de mim”.

A CIA demorou meses até dar-se conta de que Omari estava preso numa prisão dos EUA. Quando afinal foi libertado, parecia outro homem. Era um dia de outono, frio, numa colina perto da cidade de Khost, onde centenas de anciãos das tribos e funcionários do governo foram recebê-lo. Havia autoridades das tribos e das vilas atacadas e bombardeadas pelos aviões norte-americanos e pelas forças de PKZ, anciãos sobreviventes do ataque à caravana, agricultores cujos filhos haviam sido mandados para Guantanamo.

“Primeiro, nem o reconheci” – disse Malek Sardar, ancião de uma das tribos. – “Não falou sobre o que o fizeram passar, e pareceu-nos doloroso demais perguntar qualquer coisa”. Aos poucos, com voz fraca, Omari falou ao grupo ali reunido. Que ninguém nunca mais esperasse coisa alguma, nem do governo de Karzai, nem dos norte-americanos. Alguns velhos gritaram insultos a Karzai. Outros disseram que os norte-americanos eram iguais aos soviéticos. Omari jurou que não voltaria a pisar em terra afegã, enquanto não estivesse livre de “todos os infiéis”. Pouco depois, partiu para o Paquistão.

A Rede Haqqani: 2004-2014

No verão de 2004, Malem Jan estava sentado com Sirajuddin Haqqani, o segundo filho de Jalaluddin, em sua base no Paquistão, no Waziristão Norte, na cidade de Miram Shah, quando ouviram seus nomes na BBC. Os norte-americanos ofereciam recompensas, respectivamente, de US$250 mil e de US$200 mil, por qualquer informação que levasse à prisão deles. Introvertido, religioso e furiosamente inteligente, o mais jovem dos Haqqani imediatamente decidiu tomar as rédeas da depauperada rede de seu pai. Sorriu, ante a ideia de que seu porta-voz, Malem Jan, valesse recompensa maior que a oferecida por ele. E zombou: “Dizem que a cabeça que vale prêmio mais alto já está mais perto de Deus”.

A partir dali, os Haqqanis entraram em guerra declarada contra os norte-americanos. Enquanto seu pai comandara a Loya Paktia contando com apoio popular, Sirajuddin comandou das sombras, pelo medo – assassinatos, sequestros, extorsão, estradas minadas. Miram Shah tornara-se capital mundial da Jihad radical, lar da al-Qaeda e de sortimento variado de chechenos, uzbeques e europeus que, todos, combatiam sob a bandeira dos Haqqani. O ISI, serviço secreto do Paquistão, apoiava também os Haqqanis, como meio de influenciar nos eventos internos do Afeganistão, apesar de, publicamente, Islamabad apresentar-se como aliada de Washington.

Ao classificar alguns grupos como terroristas, e, na sequência, agir como se sua própria classificação fizesse algum sentido, os EUA, sem ver o que faziam, geraram as próprias condições de existência do que, em tese, estariam combatendo. Em 2010, a rede Haqqani já era a ala mais mortal de uma insurgência armada cada dia mais violenta, que matava civis sem conta, além de muitos soldados norte-americanos. Já era quase impossível, então, sequer recordar que, em meados de 2002, os EUA não tinham inimigos no Afeganistão: os remanescentes da al-Qaeda haviam fugido para o Paquistão, os Talibã haviam entrado em colapso, e os Haqqanis tentavam o acordo e a reconciliação.

Se Pacha Khan Zadran conseguiu convencer seus aliados norte-americanos do contrário disso, foi por causa da lógica da guerra ao terror. “Terrorismo” deixou de ser definido como um conjunto de táticas (captura de reféns, assassinatos, carros-bomba). E passou a ser entendido como algo que fazia parte da própria identidade dos perpetradores, como o peso, ou o temperamento. Significava que, uma vez declarado “terrorista”, Jalaluddin Haqqani nunca mais deixaria de ser terrorista, mesmo quando tentou a reconciliação. Por sua vez, quando, adiante, PKZ rompeu com o governo Karzai e tomou os norte-americanos como alvos, foi rotulado não como terrorista, mas como um “renegado”. (PKZ conseguiu fugir para o Paquistão, foi preso, entregue ao governo afegão, e, adiante, foi eleito para o Parlamento).

Em anos recentes, os EUA movem campanha intensa de ataques, por drones, contra os Haqqanis em sua fortaleza no Waziristão Norte. Dezenas de seus comandantes foram mortos, inclusive o principal comandante militar, Badruddin Haqqani. Muitos têm sido presos. Hoje, a rede Haqqani não é nem sombra do que foi. 

Mas a influência do grupo continua bem viva. Em 2012, recebi um telefonema da família de Arsala Rahmani, senador afegão do qual me tornei amigo. Naquela manhã, um atirador acompanhou o carro onde Rahmani viajava, parou ao lado dele num cruzando e o matou a queima roupa. Depois, ouvi que um ex-comandante dos Haqqanis, de nome Najibullah era o responsável por aquele assassinato; ele criara sua própria facção, Mahaz-e-Fedayeen, cuja violência faz os Haqqanis parecerem amadores. Hoje já tomado como inimigo das forças do contraterrorismo norte-americano, esse grupo é mais um – mas não o último – inimigo numa guerra que parece nunca acabar.

Eleições europeias: à procura do presidente ninguém

Patrick L. Young


Créditos: Francois Lenoir / Reuters.

O Parlamento Europeu está no período mais produtivo do seu ciclo de quatro anos. Ao invés de continuar a acrescentar mais regras opressivas, muitos políticos agora estão em campo à procura da reeleição para o ridículo comboio da alegria entre Bruxelas e Estrasburgo.

Assim, durante pelo menos dois meses a cada quatro anos, os europeus são poupados à indignidade de mais regulamentações meticulosas e inúteis que destroem o emprego e a economia.

Milhares de candidatos nos 28 países estão a caçar uma oportunidade rica em recursos (isto é, sobrecarregada com despesas) para administrar meticulosamente a indigência da Europa. A apatia da UE continua a acelerar-se: desde a introdução de eleições diretas, em 1979, o comparecimento de eleitores tem estado em declínio contínuo.

As eleições pan-europeias do fim de Maio verão um vasto panorama de apatia de leste a oeste, apesar de desesperadas tentativas federalistas para despertar interesse. Num estratagema oco para criar impulso eleitoral, os três principais grupos políticos nomearam candidatos para um dos postos designado como "presidente" dentro da estarrecedora burocracia irresponsável de Bruxelas (os outros grupos parlamentares sensatamente ridicularizaram a ideia).

Pelo menos uma forma de euro-harmonização já foi alcançada. Todos os três iludidos candidatos "presidenciais" são basicamente impossíveis de distinguir entre si. Como demonstram numerosos vídeos online, a maior parte dos europeus não consegue reconhecer qualquer deles.

Serão o mesmo homem?

Portanto uma forma de falsa eleição presidencial está a ser combatida por três pessoas que, francamente (nunca os tendo visto juntos na mesma sala), suspeito serem o mesmo homem. Estes tediosos e insípidos candidatos fazem uma cara alegre ao fato de ninguém alguma vez ter ouvido deles falar. São tão semelhantes que a diferença entre si é da espessura de um papel de cigarro. (N.B. A sentença anterior está em clara violação das ordenações da UE pois poderia ser interpretada como promoção do tabaco e também, horrendamente, o endosso a uma mensuração alternativa ao sistema métrico). Quanto a políticos clássicos das terras baixas Europa, seja qual for a sua posição numa escala esquerda-direita, são incluídos na categoria comum da Eurofilia (são todos corporativos: acrescentam um "grande" a qualquer coisa. Bem, exceto "crescimento" ).

Credo totalitário

E, sobretudo, todos eles subscrevem um credo totalitário abrangente: seja qual for a questão em causa, a única solução é mais Europa.

Uma vez que esta eurofilia cada vez mais demente proporcionou duas décadas de desempenho europeu inferior ao da Ásia ou da América do Norte, aqueles a quem resta um pouco de sanidade econômica só podem encarar a necessidade de uma mudança de plano. Contudo, apesar disso, a única solução gravada firmemente nas células cerebrais dos eurófilos é: mais Europa. A resistência é fútil.

Ou talvez não.

De modo não surpreendente, muitos eleitores, atolados no imobilismo da UE do norte ou na depressão do Euro no sul, consideram que a Europa não está a funcionar.

Deste trio de candidatos à presidência o principal é Martin Schulz, um desvairado eurófilo de centro-esquerda da velha escola das tradições socialistas, o qual, como o comprovadamente liberal ainda mais fundamentalista Guy Verhofstadt, está continuamente a combater uma guerra que só ele percebe contra a intolerância nacionalista. A parte complicada é quão intolerantes são quando se deparam com qualquer das muitas críticas justificáveis contra a fétida e corrupta máquina do Euro. Se isso soa semelhante a uma descida a memoráveis dogmas totalitários, então longe de mim discordar.

Ao longo do Sarre alemão temos o (quase obrigatório) alinhamento dos antigos primeiros-ministros belga e luxemburguês: Guy Verhofstadt e Jean-Claude Juncker respectivamente. Cada um deles está no centro de uma charada/presunção eleitoral: a ziguezaguear pela Europa em campanha por uma presidência que será finalmente decidida num daqueles opulentos jantares em que líderes nacionais tradicionalmente suspendem a democracia e é instalado o sistema Buggins'turn de representação proporcional a fim de distribuir os postos chave.

A meritocracia é muitíssimo secundária para a eurofilia de Bruxelas, como se verifica através de Cathy Ashdown da Grã-Bretanha, cuja ocupação da pasta das relações exteriores foi uma piada. Ignorando o voto "popular", espera-se que os vários presidentes sejam escolhidos por trás das habituais portas fechadas, como a sra. Merkel já sugeriu claramente.

Os leitores perspicazes poderão perguntar-se como o crescente euroceticismo influenciará o novo parlamento. Numa pancada direta contra a democracia, aplicar-se-ão as regras habituais da UE: ignorar o problema, ridicularizar as queixas e pressionar por mais Europa! Uma vez que a resposta é sempre "Mais Europa!", os três partidos principais suspenderão diferenças ideológicas esquerda-direita para concentrarem-se no seu estado único de ilusão.

Uma vez que o Parlamento Europeu poderia ser 25%, ou mesmo 30%, explicitamente crítico – se não absolutamente cético – dos enormes fracassos da UE, os leitores podem perguntar como é que a UE afirma ter alguma ligação remota com a democracia que pretende impingir aos outros quando o seu próprio processo tornou-se uma falsidade.

Enquanto isso a Europa continua a desbaratar dinheiro dos contribuintes na busca do Presidente Ninguém.

28 de abril de 2014

"O Capital" de Thomas Piketty: tudo o que você precisa saber sobre o surpreendente best-seller

The radical economist's book Capital in the Twenty-First Century has angered the right with its powerful argument about wealth, democracy and why capitalism will always create inequality. Not read it yet? Here's what it means.

Paul Mason

The Guardian

O seu livro – intitulado “Capital in the Twenty-First Century” – disparou na lista entre os mais vendidos no site Amazon. Tê-lo consigo, em alguns ambientes de Manhattan, se tornou a mais nova ferramenta para se conectar socialmente com jovens progressistas. Ao mesmo tempo, seu autor vem sendo condenado como neomarxista por comentaristas de direita. Afinal, qual a causa de tudo isso?

O argumento de Piketty é que, numa economia onde a taxa de rendimento sobre o capital supera a taxa de crescimento, a riqueza herdada sempre crescerá mais rapidamente do que a riqueza conquistada. Assim, o fato de que filhos ricos podem passar de um ano sabático sem rumo a um emprego no banco, na rede de televisão, etc., do pai – enquanto os filhos pobres continuam transpirando dentro de seus uniformes – não é acidental: é o sistema funcionando normalmente.

Se se tem um crescimento lento junto de rendimentos financeiros melhores, então a riqueza herdada irá, na média, “superar a riqueza acumulada de uma vida toda de trabalho por uma ampla margem”, diz Piketty. A riqueza irá se concentrar em níveis incompatíveis com a democracia, irá abandonar a justiça social. Em suma, o capitalismo cria automaticamente níveis de desigualdade que são insustentáveis. A crescente riqueza daquele 1% não é um episódio isolado nem mera retórica.

Para entender por que o sistema dominante acha esta proposição um tanto desagradável, é preciso compreender que se pensava ser o assunto “distribuição” – termo bonito para se referir à desigualdade – um tema acabado. Simon Kuznets, o bielorrusso emigrado que se tornou uma figura importante da economia americana, fez uso das informações disponíveis à época para mostrar que, embora as sociedades se tornassem mais desiguais nos primeiros estágios da industrialização, esta desigualdade diminuiria na medida em que elas alcançassem a maturidade. Tal “curva de Kuznets” fora aceita pela maioria dos profissionais de economia até Piketty e seus colaboradores produzirem as provas para mostrar que isso era falso.

Na verdade, a curva vai exatamente na direção oposta: o capitalismo começou desigual, achatou a desigualdade durante grande parte do século XX, mas atualmente está voltando em direção aos níveis dickensianos de desigualdade no mundo.

Piketty aceita a ideia de que os frutos da maturidade econômica – aptidões, formação e educação da força de trabalho – promovem, de fato, uma maior igualdade. Mas eles podem ser neutralizados por uma tendência mais fundamental no sentido da desigualdade, que é desencadeada onde quer que a demografia, a baixa taxação ou a fraca organização trabalhista permita. Grande parte das 700 páginas do livro são gastas mobilizando as provas de que o capitalismo do século XXI percorre um trajeto só de ida em direção à desigualdade – a menos que façamos alguma coisa.

Se Piketty estiver certo, haverá enormes implicações políticas, e a beleza do livro é que ele nunca se abstém de apontá-las. O pedido feito por Piketty de um imposto global “confiscatório” sobre a riqueza herdada faz outros economistas, em princípio radicais, parecerem familiares. Ele propõe um imposto de 80% sobre os rendimentos acima de 500 mil dólares ao ano nos EUA, assegurando a seus leitores que não haveria nem uma fuga de grandes executivos para o Canadá e tampouco uma desaceleração do crescimento, uma vez que o resultado seria simplesmente suprimir tais rendimentos.

Embora supere a agenda macroeconômica, os golpes colaterais do livro contra a moda microeconômica, muitas vezes trazidas em notas de rodapé, parecem uma piada interna contra a geração para a qual todos os problemas pareciam resolvidos, com exceção dos preços da cocaína vendida nas ruas de Georgetown.

Além disso, o livro hipnotizou os profissionais da economia por causa da forma como Piketty cria teoricamente o seu próprio mundo. Ele define as duas categorias básicas, riqueza e renda, de forma ampla e assertiva como ninguém antes tinha se preocupado em fazer. Os termos e as explicações da obra são extremamente simples; com uma infinidade de dados históricos, Piketty reduz a história do capitalismo a um claro arco narrativo. Para se desafiar a sua argumentação, é preciso rejeitar suas premissas e não sua elaboração.

Desde a primeira página ele ilustra com observações viscerais o mundo injusto no qual vivemos: começa com o massacre de Marikana e não esmorece. Ele apresenta não só os índices de juros do século XVIII como provas, mas também as obras de Jane Austen e Honoré de Balzac. Usa estes dois escritores para ilustrar como, no início do século XIX, era lógico desdenhar o trabalho a favor do casamento pela riqueza. Isso se tornou tão presente que fortaleceu o mito central do capitalismo e sua justificativa moral: aquela de que a riqueza é gerada pelo esforço, pela criatividade, pelo trabalho, pelo investimento correto, pelo risco assumido, etc.

Para Piketty, o período de meados do século XX marcado pelo aumento da igualdade foi um pontinho produzido pelas exigências da guerra, do poder do trabalho organizado, da necessidade de uma tributação alta, por fatores demográficos e pela inovação técnica.

Dito de forma direta, se o crescimento for alto e o rendimento do capital for suprimido, poder-se-á ter um capitalismo mais igualitário. Mas, diz Piketty, uma repetição da era keynesiana é improvável: o trabalho está enfraquecido, a inovação tecnológica está demasiado lenta, o poder global do capital está demasiado forte. Além disso, a legitimidade deste sistema desigual é alta, isso porque ele encontrou formas de estender a riqueza à classe empresarial de uma forma que não se conseguiu fazer no século XIX.

Se o autor estiver certo, as implicações para o capitalismo são bastante negativas: estamos diante de um capitalismo com baixo crescimento, combinado com altos níveis de desigualdade e baixos níveis de mobilidade social. Se o sujeito não nascer na riqueza, será bastante difícil enriquecer.

Seria Piketty o novo Karl Marx? Qualquer um que tenha lido este último saberá que ele não o é. A crítica de Marx ao capitalismo não era sobre a distribuição, mas sobre a produção: para Marx não seria o aumento da desigualdade, mas sim uma ruptura no mecanismo de lucro o que levaria o sistema a seu fim.

Onde Marx via relações sociais – entre trabalhadores e gerentes, proprietários de fábricas e a aristocracia rural –, Piketty vê apenas categorias sociais: riqueza e renda. A economia marxista vive num mundo onde as tendências interiores do capitalismo são contrariadas por sua experiência de superfície. O mundo de Piketty é feito somente de dados históricos concretos. Então, as acusações de um marxismo suave estão completamente equivocadas.

Mais precisamente, Piketty colocou uma bomba não detonada dentro da economia clássica, dominante. Se a causa subjacente da catástrofe bancária de 2008 foi a queda na renda ao lado de uma crescente riqueza financeira, então – diz Piketty – estas coisas não foram por acaso: não foram produtos de uma regulação frouxa ou de uma ganância simples. A crise é o produto do sistema funcionando normalmente, e devemos esperar mais.

Um dos capítulos mais interessantes é o debate proposto por Piketty do aumento quase universal daquilo que ele chama de “Estado social”. O crescimento contínuo na proporção da renda nacional consumida pelo Estado, gasto nos serviços universais, em pensões e benefícios, sustenta o autor, é uma característica irreversível do capitalismo moderno. Ele observa que tal distribuição se tornou uma questão de “direito” às coisas – de saúde e pensões – em lugar de simplesmente ser um problema dos índices de tributação. A sua solução é uma taxa específica, progressiva, sobre a riqueza privada: um imposto excepcional sobre o capital, possivelmente combinado com o utilização ostensiva da inflação.

A lógica política para a esquerda está clara. Durante grande parte do século XX a redistribuição fora feita através de imposto sobre os rendimentos. No século XXI, qualquer partido que queira redistribuir precisará confiscar a riqueza, e não somente a renda.

O poder da obra de Piketty é que ela também desafia a narrativa de centro-esquerda da globalização, que acreditava que a requalificação da força de trabalho, combinada com uma redistribuição amena, iria promover a justiça social. Isso, demonstra Piketty, é um engano. Tudo o que a social-democracia e o liberalismo podem produzir, com suas atuais políticas, é o iate do oligarca coexistindo com o banco de alimentos para todo o sempre.

A obra de Piketty, “Capital in the Twenty-First Century” (diferentemente de “O Capital”, de Marx) contém soluções no próprio terreno do capitalismo: os 15% de impostos sobre o capital, os 80% de impostos sobre os altos rendimentos, uma transparência obrigatória em todas as transações bancárias, uma utilização ostensiva da inflação para a redistribuição da riqueza. Ele considera algumas destas soluções “utópicas”, e está certo nisso. É mais fácil imaginar um colapso do capitalismo do que uma elite consentir com estas ideias.

Por que Putin está na alça de mira de Washington?

Ucrânia, Rússia e China

Mike Whitney

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

“Washington quer enfraquecer Moscou economicamente, cortando suas receitas do gás, erodindo assim sua capacidade de defender-se ou a seus interesses. Uma integração econômica entre Ásia e Europa não interessa aos Estados Unidos. Uma possível aliança de fato entre Rússia e União Européia seria uma ameaça direta à hegemonia global dos Estados.”

As provocações dos Estados Unidos na Ucrânia não podem ser entendidas sem se entender antes o “Pivoteamento para a Ásia” de Washington, que faz parte de um plano estratégico mais amplo para transferir a atenção do Oriente Médio para a Ásia. Atualmente, o assim chamado “reequilíbrio” é um projeto para controlar, de maneira compatível com as ambições hegemônicas dos Estados Unidos, o crescimento da China. Há várias correntes de pensamento sobre como se poderia conseguir isso, mas falando bem simplesmente, elas dividem-se em duas categorias: “matadores de dragões” e “amigos do panda”. Matadores de dragões são a favor de uma estratégia de contenção, enquanto os amigos do panda são a favor de uma espécie de noivado. Qual política será adotada ainda não foi objeto de escolha definitiva, mas já ficou claro, pelas hostilidades no Mar do Sul da China e Ilhas Senkaku, que o plano dependerá muito de força militar.

Então, o que é que controlar a China tem a ver com a poeira levantada na Ucrânia?

Tudo. Washington vê a Rússia como uma crescente ameaça a seus planos de dominação regional. Este é o problema: O problema é que Moscou está se fortalecendo cada vez mais com a expansão de sua rede de oleodutos e gasodutos para a Europa, através da Ásia Central. Não por outra razão, Washington decidiu usar a Ucrânia como o palco para um ataque à Rússia, porque uma Rússia forte e que esteja economicamente integrada com a Europa é uma ameaça à hegemonia dos Estados Unidos. Washington precisa de uma Rússia fraca e que não ameace sua presença na Ásia Central ou seus planos de controlar recursos energéticos vitais.

Atualmente a Rússia fornece cerca de 30% (trinta por cento) do gás natural usado na Europa Ocidental e Central, dos quais 60% (sessenta por cento) passa pela Ucrânia. O povo e as empresas da Europa necessitam desse gás para ou esquentar suas casas ou mover suas máquinas. O fortalecimento mútuo de vendedores e compradores é o que resulta das relações comerciais entre Rússia e União Européia. Os Estados Unidos nada ganham com a parceria entre União Européia e Rússia, sendo esta a causa que faz Washington querer bloquear o acesso de Moscou a mercados tão essenciais. Essa forma de sabotagem comercial é um ato de guerra.

Ao mesmo tempo, as grandes companhias petrolíferas ocidentais pensaram que poderiam competir com Moscou construindo gasodutos alternativos que significaria atender à prodigiosa demanda da União Européia por gás natural. Porém o plano falhou e então Washington resolveu apelar para o plano B; interpondo-se entre os dois parceiros comerciais, os Estados Unidos esperam supervisionar de perto a distribuição futura de suprimento de energia e controlar o crescimento econômico em dois continentes.

O problema que Obama & Co. vão ter será convencer as pessoas na União Européia que é do seu interesse pagar o dobro do que pagam em 2014 para aquecer suas casas em 2015, porque é isso o que vai acontecer se o plano de Washington for bem sucedido. No empenho de cumprir esta meta, os Estados Unidos empreendem todos os esforços para atrair Putin a uma confrontação e por isso a mídia o denuncia como um terrível agressor e uma ameaça enorme para a segurança da União Européia. Alcançariam a justificativa necessária para interromper o fluxo de gás da Rússia para a UE através da demonização de Putin, e ao mesmo tempo, estariam enfraquecendo a economia russa, enquanto providenciariam novas oportunidades à OTAN para estabelecer bases operacionais no perímetro ocidental da Rússia.

Para Obama não faz a menor diferença se as pessoas serão exploradas em relação ao preço do gás ou se simplesmente congelará até a morte no inverno. O que lhe importa mesmo é o “pivoteamento” para os mercados mais promissores e prósperos do próximo século. O que importa é destruir Moscou cortando fundo nas suas receitas do gás e reduzindo sua capacidade de autodefesa, bem como de seus interesses. O que importa é a hegemonia global e dominar o mundo. Isso é o que realmente importa. Todos sabem disso. Tentar acompanhar os acontecimentos da Ucrânia como se fossem isolados do panorama geral é simplesmente ridículo, porque eles fazem parte da mesma estratégia doentia. Parece um filme antigo sobre a segurança nacional dos Estados Unidos, narrado pelo conselheiro Zbigniew Brzezinski em discursos sobre política externa – no que diz respeito aos Estados Unidos, não faz sentido ter políticas separadas para Europa e Ásia:

“Com a Eurásia desempenhando atualmente um papel decisivo no tabuleiro de xadrez da geopolítica, não basta mais ter uma política para a Ásia e outra para Europa. No território da Eurásia, o que acontece com a distribuição do poder tem importância vital para a primazia global da América e seu legado histórico.” (“O perigo da guerra na Ásia”, World Socialist Web Site)

Tudo se resume ao “pivoteamento” para a Ásia e ao futuro do Império. É por esse motivo que a CIA e o Departamento de Estado americano engenharam um golpe de estado com o fim de expulsar do poder o presidente Victor Yonuchovych, colocando em seu lugar um fantoche para obedecer as ordens de Obama. É por este motivo que o primeiro ministro imposto, Arseniy Yatsenyuk, ordenou duas “operações antiterror”: reprimir ativistas desarmados no oriente da Ucrânia que se opõem à Junta no poder em Kiev. É por este motivo que o governo Obama tem evitado travar com Putin um diálogo construtivo destinado a encontrar uma solução pacífica para a crise atual na Ucrânia. Tudo isso ocorre porque Obama quer atrair Putin para uma prolongada e desgastante guerra civil que enfraquecerá a Rússia, colocará Putin em descrédito e fará a opinião pública pender para o lado dos Estados Unidos e da OTAN. Por que Washington afasta enfaticamente uma política que certamente faria alcançar o objetivo que se busca? Porque sim. Leiam um trecho de um artigo publicado no site antiwar.com:

“Relatórios oriundos de Moscou dizem que o Presidente Putin 'encerrou' todas as negociações com o Presidente Obama, e disse que 'não está interessado' em falar com os Estados Unidos novamente sobre o atual desenvolvimento da crise, de suas ameaças e atitudes hostis. 
Putin e Obama falaram regularmente por telefone sobre a Ucrânia em março e início de abril, mas Putin não tem conversas diretamente com o presidente Obama desde 14 de abril, e o Kremlin informa não ver mais nenhuma necessidade de mais negociações.” (“Putin suspende negociações em meio às ameaças de sanções”, antiwar.com)

Ele nada tem a ganhar em negociações com Obama. Putin já sabe o que Obama quer. Ele quer a guerra. Isso é assim porque o Departamento de Estado e a CIA querem derrubar seu governo. Não é por outro motivo que o diretor da CIA John Brennan surgiu em Kiev justamente um dia antes da ordem de Yatsenyuk determinando a primeira tentativa de reprimir os ativistas pró Rússia no leste. É também por isso que o vice presidente Joe Biden esteve em Kiev, “por coincidência” apenas horas antes de Yatsenyuk lançar a segunda tentativa de repressão aos ativistas no oriente da Ucrânia. Finalmente, é por esse motivo que Yatsenyuk promoveu o cerco à cidade oriental de Slavyanski enquanto prepara um ataque contra os ativistas pró Rússia. A causa de tudo isso é a crença dos Estados Unidos de que uma conflagração violenta serve aos seus interesses geopolíticos na área. É inútil conversar com esse pessoal sobre o assunto, o que levou Putin a parar de tentar.

Atualmente o governo Obama está forçando uma nova rodada de sanções contra a Rússia, mas os membros da União Européia estão arrastando os pés. Segundo a RT:

“'No momento, não há consenso entre os membros da União Européia sobre quais medidas contra a Rússia seriam aceitáveis, ou mesmo se são necessárias', disse uma fonte da diplomacia européia à agência Itar-Tass. 
Falando sob condição de anonimato, um diplomata afirmou que apenas uma invasão abertamente realizada pela Rússia contra a Ucrânia ou provas irrefutáveis de militares russos clandestinamente presentes na Ucrânia causariam uma mudança de posição da União Européia em relação às sanções econômicas. “Até agora, todas as supostas evidências tornadas públicas tanto por Kiev quanto por Washington sobre o alegado envolvimento de agentes russos na Ucrânia se revelaram inconclusivas ou mesmo falsas.” (“Estados Unidos falharam na imposição de sanções econômicas contra a Rússia através de seus aliados da União Européia”, RT)

Mais uma vez: o envolvimento de tropas russas no conflito é essencial para que Washington alcance seus objetivos.

No último domingo, a RT exibiu imagens de satélite mostrando forte acúmulo de tropas em torno da cidade ucraniana de Slavyansk. De acordo com o repórter da Rússia Today:

“160 tanques, 230 APCs (blindados de transporte) e BMDs (blindados para operações de infantaria) e pelo menos 150 peças de artilharia a lançadores de mísseis, incluindo “Grad” e “Smerch”, lança-mísseis múltiplos, foram deslocados para a área. Um total de 15.000 tropas se posicionam nas proximidades de Slavyansk, disse ele. 
Sergey Shoigu, Ministro da Defesa russo, afirmou que o grande incremento de tropas ucranianas, assim como os exercícios militares e desenvolvimento adicional de forças armadas da OTAN na região “forçaram” a Rússia a responder com seus próprios exercícios militares... “Se a opção de Kiev for a escalada de repressão aos insurgentes na Ucrânia oriental usando contra eles armas assim pesadas, então a Rússia se reserva o direito de usar seus próprios meios militares para deter a carnificina.” (“Tanks, APCs, 15,000 troops’: Satellite images show Kiev forces build-up near Slavyansk”, RT)

Putin tem afirmado repetidamente que vai responder caso cidadãos de etnia russa sejam mortos na Ucrânia. Essa é a linha vermelha. Sergey Lavrov, Ministro de Relações Exteriores da Rússia fez questão de reforçar esta mensagem na entrevista concedida na última semana para Sophie Shevardnaze, repórter da RT. Lavrov, normalmente calmo, condenou o ataque de Yatsenyuk a civis na Ucrânia como “criminoso” e avisou que qualquer ataque contra cidadãos russos será considerado um ataque contra a própria Federação Russa.

A declaração foi seguida de uma preocupante movimentação de tropas russas na fronteira da Ucrânia, o que indica que a Rússia pode estar se preparando para uma intervenção para conter a violência contra civis. De acordo com a agência russa de notícias Star Tass, “o Ministro da Defesa Sergey Shoigu afirmou que 'a partir de hoje, os exercícios dos grupos de batalhões táticos começarão nas áreas de fronteira com a Ucrânia.' Também a aviação efetuará vôos de simulação de ações militares perto da fronteira.”

Então, esta é a situação: no fim das contas, parece que Putin acabará sendo levado para a batalha, conduzido pelas provocações de Obama. Mas será que as coisas tomarão mesmo o rumo que Obama acha que tomarão?

Será que Putin seguirá mesmo o roteiro escrito por Washington e deixará suas tropas no leste, onde serão atormentadas por guerrilhas fundadas e apoiadas pelos Estados Unidos e por neonazistas, ou tem alguma outra carta na manga como, por exemplo, uma rápida blitz até Kiev com imediata remoção da Junta governamental, chamando em seguida forças de manutenção que impeçam qualquer violência adicional, voltando em seguida para suas próprias fronteiras, em segurança?

Seja qual for a estratégia não vamos demorar muito para vê-la implementada. Se o exército de Yatsenyuk atacar Slavyansk, Putin enviará seus tanques e será um jogo totalmente novo.

24 de abril de 2014

Deixem-nos reunir

Matthew Duss

The American Prospect

Créditos: Hatem Moussa / AP.

Tradução / Provavelmente é perspicaz enxergar com algum ceticismo o acordo entre as principais facções palestinas, Fatah e Hamas, anunciado na última quinta-feira (24/4). Ambos os grupos concordaram em criar um governo de consenso e realizar eleições ainda este ano. Anunciados com similar alarme, os acordos em Cairo, em 2011, e em Doha, 2012, não levaram a lugar algum. Naquelas ocasiões, nenhuma das partes acreditou que tinha mais a ganhar do que a perder, com um acordo de compartilhamento de poder.

Mas existem razões para acreditar que dessa vez será diferente. O acordo surgiu após o envio, à Faixa de Gaza, da primeira delegação da Organização pela Libertação da Palestina (OLP), desde a brutal guerra civil entre os dois grupos, em 2007. O acordo foi assinado na Palestina — na cidade de Gaza, para ser exato — ao invés de alguma outra capital estrangeira. Ainda mais, a reconciliação permanece amplamente popular entre palestinos. Em março de 2011, com protestos anti-governo se espalhando pela região, dezenas de milhares de pessoas saíram às ruas em Gaza e na Cisjordânia para pedir o fim da divisão. Uma pesquisa de abril de 2013, feita pelo Centro de Mídia e Comunicações de Jerusalém, descobriu que mais de 90% da população eram favoráveis à reconciliação entre as duas facções.

É importante compreender de que modo as dinâmicas políticas internas da Palestina ajudaram a produzir esta mudança, ao colocarem ambas as facções sob enorme pressão. Em meio ao que seus líderes proclamaram um “Despertar Islâmico” na região, o Hamas havia construído uma visão otimista sobre suas próprias perspectivas, assumindo que iria se beneficiar do advento de uma onda de governos dominados por islâmicos, no Oriente Médio. Mas viu sua sorte mudar drasticamente, ao longo do último ano. O golpe de Estado no Egito, em julho de 2013, removeu o governo de Mohammed Morsi, dominado por membros da Irmandade Muçulmana (o Hamas foi fundado como o braço palestino da Irmandade). O novo governo militar egípcio fechou a maior parte dos túneis que ligavam o país à Faixa de Gaza, e eram vitais para abastecimento desta região. Também removeu uma fonte-chave de receitas do Hamas, que tributava o comércio nos túneis.

Mas a situação da Fatah também era difícil. Com as negociações com Israel (nas quais ele entrou contra a vontade da maioria de seu próprio partido) na UTI, o presidente palestino Mahmoud Abbas viu claramente, na reconciliação, um trunfo para ampliar sua popularidade em um momento em que está em uma posição relativamente mais forte com o Hamas. O que falta saber é se ele vê este movimento como algo destinado a fortalecer sua posição, nas negociações com Israel; se o enxerga como um passo para deixar estas negociações de lado; ou se considera ambas as hipóteses.

A reação ultrajada de legisladores estadunidenses ilustra o desafio (ainda maior) diante do qual estará o governo Obama — em seus esforços já frágeis para facilitar um acordo final entre Israel e Palestina. Os EUA e a União Europeia tratam o Hamas como uma organização terrorista, acusando-o de múltiplos atos de assassinato, entre meados dos anos 1990 e o início dos anos 2000, e por frequentes ataques a Israel, realizados a partir de Gaza, por meio de foguetes. A carta do Hamas permanece como um documento profundamente ofensivo, que cita a justificativa religiosa para matar judeus. Outra questão importante é se este acordo, e a reincorporação do Hamas à Autoridade Palestina, significam que o grupo afastou-se daquele documento, abandonando seu objetivo de longa data de destruir Israel, e se aproximou da solução de dois Estados.

Jibril Rajoub, um dirigentes graduado do Fatah, insistiu ontem que o Hamas deu o passo. “Nós não estaríamos concordando em assinar um acordo de reconciliação sem estar claro a todas as facções que estamos impulsionando nossa nação para frente, para uma solução de dois Estados”, disse ele. “Eu espero que Israel permita a continuidade das negociações de paz, com base na ideia de dois Estados para dois povos.”

Mas isso será o suficiente para satisfazer a chamada “comunidade internacional”? Em respostas à vitória eleitoral do Hamas, em 2006, o quarteto liderado pelos EUA — que inclui a ONU, a União Europeia e a Rússia — impôs três condições ao grupo para se reunir ao governo palestino: renunciar ao terrorismo, reconhecer Israel e honrar os acordos passados assinados entre israelenses e palestinos. (Não se menciona, a respeito, o fato de o governo israelense incluir partidos que se opõem à existência do Estado palestino...)

O governo dos EUA respondeu negativamente às novidade. A porta-voz do Departamento de Estado, Jen Psaki, qualificou como “decepcionante” o acordo de unidade palestina e acrescentou que ele “levanta preocupações sobre nossos esforços para estender as negociações.” A União Europeia, por outro lado, deu boas-vindas ao acordo. “A UE clamou consistentemente por uma reconciliação intra-palestina por trás”, declarou o porta-voz Michael Mann, chamando o acordo de um “elemento importante para a unidade de um futuro Estado palestino e para alcançar a solução de dois Estados.”

Como já fez com os anúncios anteriores, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu rejeitou o movimento. “Esta noite, enquanto as conversas sobre paz estão começando a tomar rumo, o Abbas escolheu o Hamas, e não a paz” disse um comunicado divulgado por seu gabinete. “Quem quer que escolha o Hamas não quer paz”. É difícil imaginar que este apelo tenha peso junto a Abbas, dado que as conversas de paz mantidas no último ano pouco adiantaram, e foram acompanhadas por um aumento sem precedentes da construção de colônias de ocupação israelenses.

O gabinete de segurança de Israel decidiu, na semana passada, suspender as negociações com os palestinos. Mas diversos analistas israelenses foram rápidos em afirmar que o acordo Fatah-Hamas representa uma oportunidade para seu país. Críticos das negociações notaram que a desunião entre a Cisjordânia e Gaza — uma, governada pela Autoridade Palestina controlada pelo Fatah, outra, dirigida pelo Hamas — torna sempre mais difícil um acordo de paz. Os líderes israelenses “argumentaram que Abbas não representa, na verdade, o povo palestino e que nenhum progresso poderia ser feito enquanto o Autoridade Palestina não controlar Gaza”, escreveu Barak Ravid no diário israelense Haaretz. “O acordo de reconciliação, se implementado, poderia prover uma resposta para estes argumentos, criando um governo que representasse todos os palestinos.”

“Seria incorreto apresentar um ultimato à OLP, embora seja preciso escolher entre negociações com Israel e uma reaproximação com o Hamas, escreveu Ildo Zelkovitz, ligado ao think-tank israelense Mitvin. “A possível estabilidade do sistema político palestino pode favorecer Israel, e se a reconciliação for alcançada, qualquer processo político iniciado por Abbas com Israel pode envolver também o Hamas.

Falta saber se os EUA terminarão optando por este ponto de vista. Para o secretário de Estado, John Kerry, que vê um acordo entre Israel e Palestinos como uma prioridade de sua passagem pelo posto, o anúncio da reconciliação Fatah-Hamas complica um processo já difícil. Mas apesar das dificuldades das últimas semanas, e como já notei, ele pode agir com criatividade. A questão é se se será suficientemente criativo para converter os fatos recentes numa oportunidade.

23 de abril de 2014

Alguns traços do oportunismo na América

Pável Blanco Cabrera [*] e Héctor Colío Galindo [**]

Revista Comunista Internacional

Tradução / O oportunismo, reformismo e revisionismo procuram atualmente, num discurso renovado, os velhos objetivos de separar a classe operária e os seus partidos comunistas dos fundamentos do marxismo, da luta revolucionária contra o capitalismo, do princípio da ditadura do proletariado, do papel revolucionário da classe operária e o seu partido de vanguarda na revolução socialista e na construção do socialismo-comunismo.

Constitui uma grande lição a luta contra o oportunismo e a degeneração da II Internacional a iniciativa liderada pelos bolcheviques e outros marxistas que se agruparam na esquerda de Zimmerwald, os espartaquistas na Alemanha e de muitos partidos, tendências e grupos que estiveram na base da III Internacional, a Internacional Comunista.

Historicamente, o oportunismo procurou deformar, caluniar, suavizar, domesticar o marxismo, submetendo-o ao ataque direto, tergiversando sobre os clássicos, chegando até à mutilação grosseira dos textos [1] para apresentar versões úteis à política do gradualismo, do parlamentarismo, à coexistência com o capitalismo e abandono da luta pelo poder. O oportunismo levou os partidos da II Internacional a uma posição claudicante e assumiu cumplicidade criminosa com o imperialismo durante a I Guerra Mundial; serviu diretamente como aparelho de repressão do capital contra a revolução alemã e foi responsável pelo assassínio de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht.

Todas as forças do oportunismo se voltaram contra a Grande Revolução Socialista de Outubro e apoiaram a contra-revolução que procurou derrubar o poder soviético dos operários e camponeses, justificando a intervenção imperialista, o cerco sanitário.

A experiência veio demonstrar que a luta contra o oportunismo, reformismo e revisionismo é de grande importância ideológica, visto ser um problema de vida ou morte para a existência do partido da classe operária, para a revolução proletária e para a construção do poder operário. Vladimir Illich Lenin insistiu em várias obras que a luta pelo socialismo é incompleta sem a luta contra o oportunismo, e isso foi o traço de identidade dos novos partidos construídos pela Internacional Comunista, como se reflete em vários dos seus documentos, que falam da luta constante e implacável contra os "auxiliares da burguesia", em reconhecer a necessidade de um ruptura total e absoluta com o reformismo "já que sem isso é impossível uma política comunista consequente" [2], senão a III Internacional acabaria — alertava — por se assemelhar muito à II Internacional.

E esta frente ideológica não se pode considerar temporal, concluída ou reduzida a uma etapa que ficou no passado da história do movimento comunista.

O oportunismo é uma força auxiliar da burguesia para atrasar os processos de incremento na luta de classes, conter a vaga revolucionária e fomentar a contra-revolução, mas não devemos subestimar que a sua actuação é constante e em todos os períodos, mas com uma periculosidade crescente quando é possível que, pelo ciclo do capital, entre a classe trabalhadora haja condições para a radicalização da consciência. Hoje mesmo, na Europa e na América, é um suporte fundamental do imperialismo, recebendo inclusive financiamento dos monopólios para a acção política, desde ONG's, actividades ideológicas e, sobretudo, promoção de formas alternativas da gestão capitalista de "rosto humano". Este é o papel do Partido da Esquerda Europeia, a que perigosamente se liga cada vez mais o Foro de São Paulo [3] , apesar de uma retórica que critica a gestão neoliberal e que promove políticas públicas assistencialistas [4]

As manifestações do oportunismo existem hoje em nível duplo. O primeiro, solapando internamente os partidos comunistas e operários para perderem os seus traços de identidade, as suas características revolucionárias e acabarem transformados em partidos formalmente comunistas, mas na verdade social-democratas, transformando-se em organizações oportunistas. O segundo é a promoção de agrupamentos directamente com esse carácter, integradas por ex-comunistas, maoístas, trotskistas, social-democratas, como o Bloco de Esquerda em Portugal e o Syriza na Grécia.

A frente ideológica contra o oportunismo é uma necessidade: não estar atento a ele, desdenhá-lo, omiti-lo, leva à liquidação dos partidos comunistas. Por exemplo, o PCM abraçou a tendência browderista, como outros partidos da América Latina (como sabemos, o PC dos Estados Unidos esteve a um passo da dissolução com a intentona de o transformar numa associação, uma espécie de clube ideológico). No México, esse modelo era a Liga Socialista, onde deveria dissolver-se o PCM. Os partidos colombiano, cubano e dominicano mudaram de nome inscritos naquela corrente. O PCM dissolveu as suas células na indústria e sindicatos e renunciou provisoriamente ao centralismo democrático, e mudou de nome de Partido Comunista do México para Partido Comunista Mexicano; além das graves lesões à estrutura leninista, adoptaram-se políticas de coexistência com secções da burguesia a que se chamou "nacional" e "progressista" e se renunciou à via revolucionária para a conquista do poder. A Carta de J. Duclos, assim como as críticas de outros partidos, geraram reacções de reagrupamento militante dos comunistas para evitar a liquidação e reconstruir os partidos.

A frente ideológica contra o oportunismo é uma necessidade; descuidá-la, desdenhá-la, omiti-la, leva à liquidação dos partidos comunistas.

Em documentos posteriores, [5] o PCM reconhecia que a condenação ao browderismo foi apenas formal e isso repercutiu-se nos anos seguintes, pois não se ligou a certas políticas de orientação oportunista promovidas a partir do XX Congresso do PCUS, como o caso das chamadas "vias nacionais" para o socialismo, a possibilidade do caminho pacífico, adoptando-a não como uma excepção, mas sim como uma generalidade para o movimento comunista, apoiado nas políticas dos partidos francês e italiano.

O PCM deixou-se permear e começou a corroer-se até à sua dissolução em 1981, para se transformar, primeiro, num partido socialista e, logo depois, no Partido da Revolução Democrática (filiado na Internacional Socialista, promotor da gestão keynesiana e repressor do movimento operário e popular), um partido da classe dominante propagandeado como o partido da esquerda no México. As condições difíceis de reconstrução do PCM e o nível de desenvolvimento político da classe operária na luta mostram que o objectivo de liquidar nos anos 80 o PCM era o de assestar um golpe demolidor na luta proletária, atrasá-la em décadas.

É tão actual este assunto que hoje mesmo, nos Estados Unidos, o Partido Comunista enfrenta um problema semelhante ao que teve com Earl Browder, quando a corrente oportunista chefiada por Sam Webb, o Presidente do Partido, propôs uma plataforma para o despojar das suas características, liquidá-lo e transformá-lo numa força auxiliar do Partido Democrata. Essa plataforma contém muitos elementos promovidos pelo eurocomunismo, pelo processo que levou à liquidação do PCM, e que hoje corroem vários partidos comunistas, incluindo alguns da América.

Insistimos na importância de combater as tendências oportunistas; enunciar os traços que manifesta na América vai mostrar-nos que, para além de algumas especificidades, é geral o oportunismo internacional.

O geral e o específico, e o desvio que implica acentuar as particularidades

O marxismo-leninismo, base ideológica dos partidos comunistas, teoria revolucionária da classe operária, apoia-se no materialismo dialéctico, o materialismo histórico e a economia política. Procura extrair o que é mais geral da realidade ao estudar o desenvolvimento da história, os modos de produção, o conflito socio-classista, as regularidades na sociedade, as leis que regem as mudanças e revoluções.

As particularidades, o específico, devem levar-se em conta, pois o marxismo-leninismo enriquece-se criativamente, mas não podem ser o determinante nos pontos essenciais, na análise.

Com o argumento de se demarcar do dogmatismo e da análise alheia à realidade produz-se um apelo à adulteração do marxismo, reproduzindo a crítica academicista que assume como objectivo dissociar Engels de Marx e Lenine de Marx. Alguns partidos latino-americanos, demarcam-se do leninismo – hoje mesmo, o PC dos Estados Unidos tem essa posição – que, afirmam, corresponde às particularidades da Rússia e a outra etapa histórica. No fundo, trata-se da renúncia às posições revolucionárias do marxismo o que, do ponto de vista teórico, é insustentável. É também uma fonte de desvios políticos que levam ao movimentismo, desvirtuam o papel do partido e o papel da classe operária.

A chamada latino-americanização do marxismo tem muito em comum com operações corrosivas anteriores, como as de Santiago Carrillo e dos eurocomunistas e o "marxismo ocidental", já que recusa abertamente o materialismo dialéctico, a ditadura do proletariado e dirige um ataque à história dos partidos comunistas.

É notável como alguns partidos comunistas se deixam assimilar acriticamente por essas posições e as promovem, por exemplo ao assumir a distribuição da editora Ocean Sur de origem trotskista, em cujo catálogo de publicações predomina o ataque ao socialismo construído no século XX, e se difundem críticas ao marxismo-leninismo chamando-lhe "ideologia estatal soviética"; tudo isso, apoiado na promoção editorial de materiais relativos à Revolução Cubana.

Aspectos essenciais do materialismo dialéctico e o ateísmo filosófico, são postos de lado pela pressão de correntes como a teologia da libertação.

É da mesma fonte o argumento de que o marxismo é eurocêntrico; mas uma mescla eclética de verniz místico é alcandorada ao latino-americano como o alfa e o ómega.

Não há preocupação com a reedição dos clássicos, mas sim com a divulgação destes deformadores modernos que, por estarem delimitados ao claustro universitário colocamo-los no folclore, mas que exercem grande influência em alguns partidos comunistas. A debilidade na frente ideológica, o desenvolvimento limitado de investigações e trabalhos teórico-científicos a partir das nossas posições de classe leva alguns partidos a serem surpreendidos pelo contrabando ideológico dos que atacam o marxismo apresentando-se como "marxistas". Como exemplo, recordamos o caso ocorrido não há muitos anos de H. Dieterich, um dos ideólogos do "socialismo do século XXI", a que a imprensa de alguns partidos comunistas dava algum espaço.

O desvio ideológico, o ecletismo, o acento pela especificidade, estão na base de novas revisões do marxismo.

Outro traço negativo é o que deixa de lado as leis gerais da revolução, apelando à "originalidade" de processos sociais anteriores e em curso. Uma premissa do movimento comunista internacional sustentada desde o triunfo da Grande Revolução Socialista de Outubro é o carácter da época, que situamos como a do imperialismo e das revoluções proletárias, a da transição do capitalismo ao socialismo; nós consideramos que o triunfo intemporal da contra-revolução não altera a premissa.

Programaticamente, o oportunismo introduz um debate e uma estratégia sobre a transição, que deixam para trás as tarefas da classe operária e do seu partido comunista. Qual é o argumento? Sobretudo a partir do triunfo da Revolução Chinesa, nova recepção das ideias de Mao Tse Tung sobre as contradições no seio da burguesia e a existência de um "sector nacional" desta em antagonismo com o imperialismo. Esta burguesia nacional transforma-se, segundo aquela perspectiva, numa aliada estratégica da classe operária na luta anti-imperialista e para alcançar a meta programática de romper os grilhões da dependência com o imperialismo norte-americano. Existem matizes em torno das causas da dependência; alguns defendem a concepção errada que o colonialismo é idêntico às relações feudais ou semifeudais; outros defendem a caracterização de um capitalismo deformado e incompleto, o que coloca uma série de questões a uma política de classe marxismo-leninista e às tarefas dos partidos comunistas.

Em primeiro lugar, as do próprio desenvolvimento das relações capitalistas mostram que o posicionamento sobre dependência não é dialéctico. Os processos de acumulação, concentração e centralização levam ao aparecimento dos monopólios, que acabam por predominar na economia e na política, independentemente de fronteiras ou nacionalidades. O que existe é uma relação de interdependência que coloca de um lado os monopólios e do outro a classe operária; ou seja, a contradição capital-trabalho. Vejamos:

Aqueles que no México afirmam que a principal tarefa é conquistar a independência em relação aos Estados Unidos e trabalham para uma aliança pluriclassista com sectores da burguesia interessados, esquecem que o que chamam burguesia nacional subentende hoje monopólios que fazem já parte do imperialismo, que exportam capitais e exploram trabalhadores em vários países [6] . Alguns desses monopólios mexicanos são dominantes a nível continental e, inclusive no interior dos Estados Unidos (como o caso das telecomunicações e algumas mineradoras).

A luta pela independência assim concebida não é nada mais do que a procura de uma nova forma de gestão do capitalismo com aliados demasiado fictícios.

De resto, é incompleta a apreciação de que o imperialismo só existe nos Estados Unidos. O imperialismo é o capitalismo dos monopólios e tem um dos seus centros nos Estados Unidos, mas também os tem na União Europeia e em toda a acção dos monopólios e relações inter-estatais. Damos como exemplo o sul do continente, onde a expansão dos monopólios brasileiros é uma realidade; ou o Mercosul, que é uma aliança inter-estatal de carácter capitalista e tem relações de interdependência cada dia mais estreitas com a União Europeia [7]

Esta concepção de alianças com sectores da burguesia foi rebaptizada contemporaneamente como "progressismo", e vários partidos comunistas colaboram com eles na formação de governos que não ocultam a sua natureza de classe e praticam políticas de superlucros dos monopólios, de que o Brasil é exemplo evidente.

Numa tal política de alianças, o papel da classe operária e dos partidos comunistas é secundário; é um problema perigoso, pois a independência de classe e a autonomia do partido deixam de ser as tarefas prioritárias, o dever absoluto; deixam de ser organizações de militantes e transformam-se em agrupamentos de filiados, para quem o socialismo se torna uma opção distante, e ao fixarem uma etapa intermédia de longa duração coloca-as na colaboração de classes, nos pactos sociais e num parlamentarismo funcional ao progressismo, que é uma forma de gestão do capitalismo.

O imperialismo é o capitalismo dos monopólios e tem como um dos seus centros os Estados Unidos mas também a União Europeia

Os processos da Venezuela, Equador e Bolívia apresentam uma problemática diferente devido à posição de alguns partidos que renunciam à teoria marxista do Estado. O processo social venezuelano é muito importante, mas ainda não é uma revolução, como chamar revolução a um processo de onde não surgiu um novo Estado, onde o anterior não foi destruído e constitui a estrutura com que se continua a governar? Onde não se socializaram os meios de produção nem se impulsionou o sector primário e secundário da economia? Reconhecemos que é uma disjuntiva com tensões e conflitos, onde ainda está por resolver o rumo definitivo, onde hoje predominam as posições das camadas médias, e sujeito a ataques financiados pelos monopólios. Não temos uma posição neutra, colocamo-nos solidários com as forças mais avançadas, a começar pelo PCV. Mas é inexacto e erróneo promove-la como caminho, chamando revolução ao que ainda o não é.

O ataque ao socialismo construído no século XX, argumento do oportunismo

Um dos traços distintivos do oportunismo é o ataque à experiência da construção socialista na URSS e outros países, a quem injuria, retomando argumentos do trotskismo e do anticomunismo.

Os oportunistas resumem as suas posições na ausência de condições objectivas para o socialismo, como o fez Kautski na sua época, em supostas tendências antidemocráticas e burocráticas, atacando a planificação da economia e propondo a coexistência de diversos tipos de propriedade, assim como das relações mercantis.

Toda a artilharia acumulada pelo capital é apresentada em novas versões. Alguns partidos comunistas confrontam esta situação, outros omitem o tema e outros ainda, juntam-se a tais posições. Por isso, vários partidos comunistas incorporam, não apenas a nível de propaganda mas como concepção programática, a proposta do "socialismo do século XXI" que, como já alertaram os marxistas-leninistas é uma manifestação contra a revolução socialista e o trabalho dos comunistas.

Estes indícios do oportunismo no continente não são desconexos, e embora não se expressem com coerência, nitidez e em certas ocasiões procurem misturar-se com o marxismo-leninismo, colocam o movimento comunista perante sérios problemas.

Inclusive, certos indícios de beligerância com uma preocupante tendência oportunista foram expressos pelo PC do B durante o último Encontro dos Partidos Comunistas e Operários efectuado em Atenas, em Dezembro de 2011, quando eufemisticamente afirmou que a participação dos comunistas em governos progressistas é uma demonstração de maturidade, e que a crítica a isso é uma posição sectária e afastada das massas; a colaboração de classes será assim o correcto, enquanto a independência de classe e autonomia do Partido Comunista seriam o incorrecto. É evidente que as posições oportunistas minam o PC do B.

Numa apreciação muito geral, na América – excepção feita a Cuba – predominam as relações capitalistas, independentemente de em alguns países se afirmarem ainda relações pré-capitalistas no campo. Está definido o antagonismo entre capital e trabalho, e a tendência para a proletarização, aumenta entre as camadas médias. Como em todo o mundo, os limites históricos do capitalismo situam o impostergável objectivo para a classe operária de lutar pelo derrubamento da burguesia e a construção do socialismo-comunismo. O oportunismo, como força de choque do capital, procura evitá-lo. É necessário que os partidos comunistas estejam em guarda e o combatam permanentemente.

Notas:

[1] Por exemplo, a Introdução à luta de classes em França de 1895, de F. Engels.
[2] Por exemplo, Condições de Ingresso na Internacional Comunista, redigido por Lenin para o Congresso Mundial do Comintern.
(3) Base objectiva disso é a maior interdependência do Mercosul com a União Europeia, o aumento das relações económicas.
(4) O anti-neoliberalismo questiona uma forma de gestão do capitalismo, mas a alternativa não é necessariamente anticapitalista, socialista-comunista, mas em muitos casos opta por outras gestões, como o keynesianismo, tal como o demonstram os processos "progressistas" na Argentina, Uruguai e Brasil.
(5) A luta interna no Partido durante os anos de 1939 a 1948. Características principais, Comité Central do Partido Comunista Mexicano.
(6) Por exemplo, América Móvil, Industrial Minera México, Cemex, Grupo Bimbo.
(7) Não há que ignorar que o chamado "progressismo", predominante no Forum de São Paulo e em outros governantes no Brasil, Argentina e Uruguai, é o que impulsiona a internacionalização do Forum de São Paulo, sobretudo baseado em fortes ligações ao Partido da Esquerda Europeia.

[*] Primeiro-Secretário do Partido Comunista do México.
[**] Membro do Bureau Político do PCM. 

22 de abril de 2014

Ucrânia: Da crise à catástrofe

Os perigos da intervenção

Patrick Cockburn


"No curto instante que nos sobra entre a crise e a catástrofe, bem podemos beber uma taça de champanhe", disse Paul Claudel, o poeta francês, dramaturgo e embaixador nos Estados Unidos no princípio dos anos 30 do século XX, referindo-se às poucas esperanças de evitar um desastre financeiro. Mas as suas palavras parecem ser bons conselhos, apesar de desesperados, para a Ucrânia nos últimos dias, quando se aproxima o seu "momento de champanhe".

Uma catástrofe na forma de guerra civil, de invasão russa e de divisão do país, não é inevitável, mas está ao virar da esquina. O acordo alcançado entre a Rússia, os EUA, a União Europeia e a Ucrânia no dia 17 de abril de 2014, segundo o qual os manifestantes no leste da Ucrânia poderiam desocupar os edifícios públicos ocupados e entregar as armas em troca de uma maior autonomia dos distritos pró-russos, pouco diminuiu o impulso para a guerra civil. Os manifestantes insistem que têm tanta legitimidade quanto o que chamam de "a junta Kiev", que chegou ao poder através das manifestações de rua que derrubaram um governo eleito, mas corrupto e incompetente.

Os meios de comunicação ocidentais centraram-se obsessivamente na questão de saber em que medida os milicianos pró-russos no leste da Ucrânia obedecem as ordens do Kremlin, mas essa atenção obscurece uma característica mais significativa do panorama político ucraniano. Todas as eleições na Ucrânia desde a queda da União Soviética em 1991, mostraram que o país se divide quase por igual entre pró-russos e pró-ocidentais, em que cada lado tem a capacidade de vencer as renhidas eleições. Pretender que a rebelião no leste da Ucrânia é falsa e orquestrada pela Rússia é uma ilusão perigosa.

Ainda que a Ucrânia seja diferente do Iraque e do Afeganistão, há algumas fatídicas semelhanças no envolvimento ocidental nos três países. A caraterística comum mais importante é que cada país está profundamente dividido, e afirmar o contrário é um convite ao desastre. Em 2001, a maioria dos afegãos gostou de ver a fuga dos talibã, mas estes e a comunidade pashtun – cerca de 42% da população afegã – na qual os talibã têm as suas raízes, não podiam ser ignorados ou marginalizados com sucesso. A criação de um governo dominado pelos velhos líderes anti-talibã da Aliança do Norte desestabilizou automaticamente o país.

Algo semelhante ocorreu no Iraque. No tempo de Saddam Hussein e dos seus antecessores, a comunidade sunita, cerca de 20% dos iraquianos, detinha as alavancas fundamentais do poder à custa dos árabes xiitas e dos curdos, que representam quatro quintos da população. A queda de Saddam significou que uma revolução étnica e sectária era inevitável, mas a crença dos EUA e da Grã-Bretanha de que os únicos descontentes no Iraque de 2003 eram os remanescentes do antigo regime, subestimava totalmente o perigo de uma revolta sunita.

Tony Blair afirmou recentemente que tudo teria corrido bem, no Iraque ocupado, se não tivesse havido uma interferência perversa de forças externas como o Irã e a Síria. Mas os estados soberanos não existem de forma isolada. Ocupá-los – como ocorreu em Cabul e Bagdá – ou conquistar uma influência predominante, como os EUA e a UE têm estado a fazer em Kiev, transforma a geografia política de toda uma região. Era uma ingenuidade absurda por parte das autoridades dos EUA imaginar que o Paquistão, ou mais precisamente, o exército do Paquistão, aceitaria filosoficamente o colapso de décadas de esforço para controlar o Afeganistão após 2001. Da mesma forma, no Iraque, a administração Bush, eufórica com a vitória sobre Saddam, apregoava alegremente a sua intenção de promover a mudança de regime em Teerã e Damasco. Como era de esperar, os iranianos e os sírios fizeram esforços determinados para garantir que os EUA nunca conseguissem estabilizar o seu controle sobre o Iraque.

Levar a Ucrânia no seu conjunto a passar de pró-russa para anti-russa é uma derrota estratégica devastadora para a Rússia que esta nunca aceitaria sem reagir. Uma Ucrânia hostil reduziria de forma permanente o estatuto da Rússia como grande potência e empurraria a sua influência para o extremo oriente da Europa. Ora, se a Ucrânia tinha tanta importância para a Rússia, foi uma imprudência dos seus dirigentes confiarem no presidente Viktor Ianukovich e na sua gangue de escroques cujo poder se evaporou tão rapidamente. Mas também foi ilusório e irresponsável por parte da UE e dos Estados Unidos não ver ou não se importar com as consequências explosivas de apoiar a subida ao poder de um governo pró-ocidental não eleito em Kiev, levando para o gabinete grupos extremistas ultra-nacionalistas, e depois tratá-lo como se tivesse total legitimidade.

Mas não são só os diplomatas e políticos ocidentais que cometem erros. A imprensa estrangeira apresentou uma visão simplista do que está a acontecer na Ucrânia, tal como o fez no Afeganistão, no Iraque, na Líbia e na Síria. O antigo regime foi, em todos estes casos, demonizado e os seus opositores glorificados, de tal forma que a imagem dos acontecimentos apresentada ao público se aproxima com frequência da fantasia.

O mesmo está a acontecer na Ucrânia. Os meios de comunicação concentram-se sobretudo na credibilidade, ou na falta dela, dos separatistas do leste da Ucrânia, e muito pouco no novo governo de Kiev. De fato, o que mais chama a atenção em ambos os lados é a sua ineficácia quase cômica: há três meses, Ianukovich atuou como se tivesse a força política e militar para esmagar a oposição só para se ver obrigado depois a fugir quase sozinho através da fronteira com a Rússia. Na semana passada, Kiev enviava confiantemente tropas para esmagar "terroristas" e restabelecer a sua autoridade no leste, apenas para ver as suas forças abandonarem calmamente os veículos e desertarem. Quando as forças de segurança do governo mataram manifestantes em Mariupol, ficou claro que pertenciam a unidades da recém-formada Guarda Nacional recrutadas entre os manifestantes ultra-nacionalistas.

O resultado desta falta de apoio organizado, diante das profundas e reais divisões populares, é que se desenvolvem os vazios de poder que são preenchidos por sombrias milícias. Este é em grande medida o padrão das guerras recentes no Oriente Médio. No Afeganistão, por exemplo, o que chama a atenção não é a força dos talibã, mas a debilidade e a impopularidade do governo. No Iraque, o governo tem uma força de segurança de 900.000 membros e rendimentos do petróleo de 100 bilhões de dólares por ano, mas, nos últimos três meses, o Estado Islâmico do Iraque e do Levante, uma organização criticada pela al-Qaeda pela sua excessiva violência, governou Fallujah, 40 milhas a oeste de Bagdá.

A catástrofe na Ucrânia ainda se pode evitar através do compromisso e da moderação, mas o mesmo valia para o Afeganistão, o Iraque e a Síria. Estes países foram dilacerados pelas guerras porque as potências estrangeiras tinham a falsa crença de que podiam obter vitórias fáceis, e uma apreciação errada na escolha do sócio a nível local, uma fação de interesses próprios e com muitos inimigos. Na Síria, por exemplo, os EUA e os seus aliados afirmam há três anos que os verdadeiros representantes do povo sírio são exilados desacreditados, mas bem financiados, que não se atrevem a visitar nem as áreas controladas pelo governo nem as controladas pelos rebeldes.

O que torna a Ucrânia tão perigosa é que todas as partes exageram o seu apoio, subestimam o dos seus opositores, e depois exageram as suas ações. Aceitando um governo legítimo em Kiev instalado por ação direta, os EUA e a UE desestabilizaram irresponsavelmente uma extensão da Europa, algo que deveria ter sido óbvio nesse momento. Para citar Paul Claudel novamente: "É uma sorte que os diplomatas tenham o nariz grande, já que em geral não conseguem ver para além dele".

Plano de ação da OTAN na Ucrânia direto do Dr. Strangelove

John Pilger

The Guardian

Há poucos dias assisti de novo o filme Dr. Strangelove. Já o assisti talvez uma dúzia de vezes; dá sentido a notícias sem sentido. Quando o major T.J. 'King' Kong entra em conflito com os russos e envia o bombardeiro nuclear B52 contra um alvo na Rússia, quem tem que tranquilizar o Presidente é o general 'Buck' Turgidson. Ataque primeiro, diz o general, afinal "são apenas 10 a 20 milhões de mortos, no máximo". Presidente Merkin Muffley: "Não vou ficar na história como o maior assassino de massas desde Adolf Hitler". General Turgidson: "Talvez fosse melhor, senhor Presidente, que se preocupasse mais com o povo americano do que com a sua imagem nos livros de história".

O gênio do filme de Stanley Kubrick é que representa com rigor a loucura e os perigos da guerra-fria. A maior parte dos personagens baseia-se em pessoas reais e em maníacos reais. Não há hoje ninguém equivalente a Strangelove, porque a cultura popular está dirigida quase totalmente para as nossas vidas interiores, como se a identidade seja o zeitgeist moral e a verdadeira sátira seja redundante; mas os perigos são os mesmos. O relógio nuclear parou às cinco para a meia-noite; as mesmas bandeiras falsas estão hasteadas sobre os mesmos alvos pelo mesmo "governo invisível", como Edward Bernays, o inventor das relações públicas, descreveu a propaganda moderna.

Em 1964, o ano em que foi realizado Strangelove, "a diferença de mísseis" era a falsa bandeira. A fim de construir mais armas nucleares, e maiores, e de prosseguir uma política de dominação não declarada, o presidente John Kennedy aprovou a propaganda da CIA de que a União Soviética estava mais avançada do que os EUA na produção de Mísseis Balísticos Intercontinentais. Isso encheu primeiras páginas como a "ameaça russa". Na realidade, os americanos estavam muito à frente na produção de ICBMs, os russos nunca estiveram perto deles. A guerra-fria baseou-se em grande parte nesta mentira.

Desde o colapso da União Soviética, os EUA têm cercado a Rússia com bases militares, aviões nucleares e mísseis, ao abrigo do "Projeto de Ampliação da OTAN". Renegando uma promessa dos EUA feita ao presidente soviético Mikhail Gorbachev em 1990 de que a NATO não avançaria "nem um centímetro para Leste", a NATO entrou à grande na Europa de Leste. No antigo Cáucaso soviético, a ocupação militar da NATO é a mais ampla desde a segunda guerra mundial.

Em fevereiro, os Estados Unidos montaram um dos seus golpes "coloridos" contra o governo eleito da Ucrânia; as tropas de choque eram fascistas. Pela primeira vez, desde 1945, um partido pró-nazista, abertamente anti-semita controla áreas chave do poder estatal numa capital europeia. Nenhum líder da Europa ocidental condenou este renascimento do fascismo na fronteira com a Rússia. Morreram cerca de 30 milhões de russos na invasão do seu país pelos nazistas de Hitler, que foram apoiados pelo Exército Insurgente Ucraniano, o UPA, responsável por inúmeros massacres de judeus e polacos. O UPA era a ala militar, que inspira o atual partido Svoboda.

Desde o golpe de Washington em Kiev – e da reação inevitável de Moscou na Crimeia russa, para proteger a sua Frota do Mar Negro – a provocação e o isolamento da Rússia têm sido invertidos nos noticiários como uma "ameaça russa". Isto é uma propaganda fossilizada. O general da Força Aérea americana que chefia as forças da OTAN na Europa – nada mais nada menos que o general Breedlove – afirmou há mais de duas semanas que tinha fotos que mostravam 40 mil tropas russas a "concentrarem-se" na fronteira com a Ucrânia. Colin Powell também afirmou ter fotos de armas de destruição em massa no Iraque. O que é certo é que o golpe temerário e predatório de Obama na Ucrânia desencadeou uma guerra civil e Vladimir Putin está sendo atraído para uma armadilha.

Na sequência dos conflitos de 13 anos que começaram no Afeganistão muito depois de Osama bin Laden ter fugido, de terem destruído o Iraque sob uma falsa bandeira, depois de inventarem um "inimigo nuclear" no Irã, de enviarem a Líbia para uma anarquia hobbesiana e de apoiaram os jihadistas na Síria, os EUA têm finalmente uma nova guerra fria para complementar a sua campanha mundial de morte e terrorismo com aviões telecomandados.

Um Plano de Ação para Adesão à OTAN (MAP) – diretamente da sala de guerra de Strangelove – é o presente do general Breedlove à nova ditadura na Ucrânia. "Rapid Trident" vai instalar tropas americanas na fronteira com a Rússia e "Sea Breeze" vai colocar navios de guerra americanos à vista de portos russos. Simultaneamente, os exercícios de guerra da OTAN por toda a Europa de Leste destinam-se a intimidar a Rússia. Imaginem qual seria a resposta se esta loucura se invertesse e acontecesse nas fronteiras da América. É ver o general 'Buck' Turgidson.

E ainda há a China. Em 24 de abril, o presidente Obama vai iniciar uma visita à Ásia para promover a sua "Campanha para a China". O objetivo é convencer os seus "aliados" na região, em especial o Japão, a rearmarem-se e prepararem-se para a eventual possibilidade de guerra com a China. Em 2020, quase dois terços de todas as forças navais no mundo estarão concentradas na área Ásia-Pacífico. É a maior concentração militar naquela grande região desde a II Guerra Mundial.

Em um arco que se estende desde a Austrália até o Japão, a China enfrentará os mísseis e os bombardeiros nucleares americanos. Está a ser construída uma base naval estratégica na ilha coreana de Jeju a menos de 640 km da metrópole chinesa de Xangai, centro industrial do único país cujo poder econômico vai provavelmente ultrapassar o dos EUA. A "campanha" de Obama destina-se a minar a influência da China naquela região. É como se uma guerra mundial tivesse começado por outros meios.

Isto não é uma fantasia Strangelove. O secretário da Defesa de Obama, Charles 'Chuck' Hagel, esteve em Beijing na semana passada para entregar um aviso ameaçador de que a China, tal como a Rússia, pode vir a conhecer o isolamento e a guerra se não se submeter às exigências dos EUA. Comparou a anexação da Crimeia à complexa disputa territorial da China com o Japão sobre as ilhas desabitadas no Mar da China Oriental. "Não podem ir pelo mundo afora", disse Hagel descaradamente, "e violar a soberania das nações pela força, coerção e intimidação". Quanto ao movimento maciço de forças navais e de armas nucleares da América para a Ásia, isso é "um sinal da ajuda humanitária que as forças armadas americanas podem proporcionar".

Obama está neste momento à procura de um orçamento para armas nucleares, maior do que no pico histórico durante a guerra-fria, a era de Strangelove. Os Estados Unidos estão avançando na sua antiga ambição de dominar o continente eurasiano, estendendo-se da China à Europa: um "destino manifesto" assegurado pelo poder. (Este artigo foi alterado em 22 de abril de 2014 para esclarecer uma referência a uma promessa dos EUA de que a OTAN não iria expandir para o Leste.)