24 de abril de 2014

Capitalismo e nazismo

Da próxima vez que alguém lhe disser que os nazistas eram anti-capitalistas, mostre-lhe isso.

Corey Robin


De Adam Tooze, do livro The Wages of Destruction: The Making and Breaking of the Nazi Economy.

Tradução / Alguns comentadores no meu blog afirmam que o gráfico acima nada nos diz sobre a relação entre nazistas e o capitalismo; que ele apenas nos diz que a economia melhorou sob o comando do nazismoAssim como aconteceu com os Estados Unidos no governo de Franklin Delano Roosevelt. Então, talvez o gráfico mostre apenas as melhorias gerais da economia na década de 1930 enquanto um crescimento compartilhado pelo mundo industrializado?

Para a minha sorte, Suresh Naidu, uma excepcional economista em Columbia, me forneceu os seguintes gráficos.

O primeiro, retirado da obra de Thomas Piketty, O capital no século XXI, compara a parte da renda nacional destinada ao capital tanto nos Estados Unidos quanto na Alemanha entre 1929 e 1938. Suresh afirma que, a grosso modo, essa parte ajuda a entender a taxa de retorno que o capital possuía nessa época e nesses países.

Resumindo a história: o capital estava indo melhor na Alemanha nazista do que sob o governo Roosevelt. E isso não era decorrente do retorno do crescimento da performance econômica num país, mas sim graças às políticas econômicas do regime estabelecido. Ou ao menos é o que me diz Suresh (e geralmente acadêmicos deveriam reconhecer os méritos das contribuições de seus amigos e leitores, mas admitir todos os erros para si: nesse caso, estou colocando tudo na conta de Suresh).


O segundo gráfico – que vem de um fascinante artigo de Thomas Ferguson e Hans-Joachim Voth chamado “Betting on Hitler: The value of political connections in Nazi Germany” – consegue rastrear a performance da bolsa de valores na Grã-Bretanha, nos Estados Unidos, na França e na Alemanha entre janeiro de 1930 até novembro de 1933. Como vocês podem ver, nos primeiros meses em que Hitler esteve no poder, a performance das bolsas alemãs era bastante forte, superando todas as outras; é somente em julho que ela passa a ser rivalizada com a da Grã-Bretanha, a segunda mais competitiva.

De Thomas Ferguson e Hans-Joachim Voth, “Apostando em Hitler: O Valor das Conexões Políticas na Alemanha Nazista

No Twitter, Justin Paulson me mostrou este fascinante artigo do Journal of Economic Perspectives. Ele se chama “The coining of ‘privatization’ and Germany’s National Socialist Party”. Aparentemente, o primeiro uso da palavra ‘privatização’ (ou ‘reprivatização’) em língua inglesa ocorreu na década de 1930, no contexto em que se buscava explicar a política econômica do Terceiro Reich. De fato, a palavra inglesa (privatization) era uma tradução do termo alemão “reprivatisierung”, que recém tinha sido cunhado durante o regime nazista.

Depois que mandei esse artigo para ele, Phil Mirowski também me mandou o artigo de Germà Bell, “Against the mainstream: Nazi privatization in the 1930s”, da revista Economic History Review. Esse artigo também tem considerações interessantes, como essa em seu resumo:

“Na metade da década de 1930, o regime nazista transferiu patrimônio público para o setor privado. Ao fazer isso, eles foram contra a corrente política dominante da época nos países capitalistas ocidentais, sendo que nenhum deles reprivatizou empresas durante a década de 1930”.

Sobre o autor

Corey Robin é o autor de The Reactionary Mind: Conservatism from Edmund Burke to Sarah Palin e um editor contribuinte em Jacobin. 

17 de abril de 2014

Corrigindo a deformação do sistema político

Fábio Konder Comparato


A questão do financiamento das campanhas eleitorais, tão discutida nos últimos anos e nunca regulada, constitui um elemento central no sistema representativo de governo.

A Constituição Federal de 1988, ao proclamar que "todo poder emana do povo", acrescentou que este "o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente". O artigo 14 explicitou que a soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos.

Infelizmente, tais disposições solenes nada mais são do que a bela fachada do nosso edifício constitucional. Por trás dela, na triste realidade da vida política, o quadro é bem diverso. Os representantes do povo, salvo raras e honrosas exceções, exercem um mandato em causa própria ou atuam, dissimuladamente, como simples prepostos do grande empresariado.

Desde sempre, aliás, os potentados econômicos privados e os agentes políticos colaboram entre si, numa espécie de contrato bilateral.

O financiamento de campanhas eleitorais pelo empresariado constitui um entre os múltiplos objetos dessa troca de favores. Trata-se, bem pesadas as coisas, de uma modalidade de doação com encargo. Ou seja, o donatário sempre assume uma obrigação estipulada pelo doador.

Essa prática representa grosseira violação do princípio da soberania popular. As organizações empresariais não fazem parte do povo, que é o titular da soberania. Elas tampouco são registradas como partidos políticos, únicas entidades admitidas pela Constituição a arregimentar cidadãos para o exercício de seus direitos. É inadmissível, portanto, que elas possam dispor de uma influência determinante sobre as decisões do povo soberano, lançando mão de seu poder econômico.

Para se ter uma ideia do peso dessa influência, basta lembrar que a maior parte do financiamento de campanhas eleitorais origina-se de doações empresariais e que, entre 2009 e 2012, os três maiores partidos do país –PT, PMDB e PSDB– receberam de grandes empresas, fora das campanhas, nada menos do que R$ 1 bilhão de reais. Haverá algum ingênuo capaz de acreditar que tais recursos foram doados por pura liberalidade?

O Senado já aprovou o projeto que veda a doação de empresas ou pessoas jurídicas para campanhas eleitorais. Agora, cabe à Câmara dos Deputados analisar a proposta.

Há poucos dias a maioria dos ministros do Supremo Tribunal Federal votou pelo acolhimento da ação direta de inconstitucionalidade nº 4.650, proposta pelo Conselho Federal da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). Nessa demanda, a Ordem pede que sejam declaradas contrárias à Constituição algumas disposições da lei que autorizam a doação por pessoas jurídicas a campanhas eleitorais, bem como a realização de doações por pessoas jurídicas a partidos políticos.

Na mesma ação, o Conselho Federal pede que "seja instado o Congresso Nacional a editar legislação que estabeleça limite per capita uniforme para doações a campanha eleitoral ou a partido por pessoa natural, em patamar baixo o suficiente para não comprometer excessivamente a igualdade nas eleições". Pede igualmente que o Congresso "estabeleça limite para o uso de recursos próprios pelos candidatos em campanha eleitoral, no prazo de 18 meses, sob pena de, em não o fazendo, atribuir-se ao Tribunal Superior Eleitoral a competência para regular provisoriamente tal questão".

Para vencer a persistente deformação do nosso sistema político, é indispensável que o Judiciário reafirme peremptoriamente o ditado constitucional: só o povo brasileiro tem legitimidade para realizar a escolha de candidatos nas disputas eleitorais.

Sobre o autor

FÁBIO KONDER COMPARATO, 77, professor emérito da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, é doutor honoris causa da Universidade pela Coimbra (Portugal)

8 de abril de 2014

A pré-história dos shopping centers

Sam Wetherell


Tradução / A paisagem dos Estados Unidos está entulhada com centenas de shopping centers mortos. Em lugares como o vasto Buckingham Square Mall, em Aurora, Colorado, que permanece vazio desde 2007, as fontes d’água internas pararam de funcionar, mas as plantas artificiais no interior continuam sinistramente verdes. Muitos outros vão se unir a eles. Calcula-se que 15% dos shoppings americanos vão fechar nos próximos dez anos.

O maior shopping center do mundo, o New South China Mall, em Dongguan, é também um local morto. Inaugurado em 2005, orgulhava-se de ter sete áreas, cada uma inspirada em grandes cidades internacionais, incluindo até uma réplica do Arco do Triunfo e um canal veneziano completo, com gôndolas. No entanto, o shopping permanece 99% vazio desde sua abertura. Com exceção de um conjunto de restaurantes fast-food perto da entrada, a instalação é uma rede de átrios amplos e vazios, cinemas e montanhas-russas desativados.

Sem condições de competir com os shoppings on-line, com a queda do poder aquisitivo dos consumidores, preços dos combustíveis em alta e um mercado imobiliário volátil, os shopping centers estão perdendo terreno rapidamente. O CEO de uma empresa instalada em um grande shopping alertou recentemente que “dentro de 10 a 15 anos”, esse tipo de centro “será um anacronismo histórico – uma aberração de 60 anos que não atende mais às necessidades do público”.

Quando arqueólogos de um futuro distante escavarem as vastas ruínas dessas estruturas peculiares, eles terão dificuldade de encontrar manifestações concretas mais representativas de nossa condição no final do século XX. A ascensão global do shopping center nesse período de 60 anos levou à maior padronização do espaço já ocorrida em toda a história da humanidade.

Na era do shopping, amplas porções do mundo são aquecidas para ficar na temperatura de 22 graus centígrados e iluminadas adequadamente. Shopping centers vêm sendo usados como ferramentas para o desenvolvimento na Índia, como local de protestos no Brasil e alvo de terrorismo em Nairóbi. Para geógrafos e historiadores, esses locais têm sido vistos como a forma arquitetural mais precoce do neoliberalismo, instrumentos para murar e segregar o espaço público, para a fusão de lazer e consumo e aniquilação de pequenos lojistas independentes.

Não foi sempre assim. Os shopping centers têm uma pré-história socialista pouco conhecida – e que foi amplamente esquecida. O inventor do shopping center suburbano nos moldes americanos, Victor Gruen, era um arquiteto socialista de Viena, forçado a fugir para os Estados Unidos depois da ocupação da Áustria, em 1938. Gruen enxergou no shopping o potencial para recentralizar os esparramados subúrbios. Seus planos eram os de criar ágoras internas, de propriedade do Estado, que iriam literalmente conter as forças do mercado que corriam desenfreadas fora de suas paredes. Era uma visão modernista para a refundação da vida pública americana.

Muitos dos shoppings construídos por Gruen e sua empresa nos anos 1950 retinham elementos dessa promessa, como o Southdale Mall, em Edina, Minnesota, planejado no entorno de um enorme local de encontro da população, tendo como modelo uma piazza europeia.

Por volta dos anos 1960, Gruen estava horrorizado com suas criações. O shopping center, com a via expressa (freeway) e os baratos financiamentos habitacionais federais tinham se tornado parte da arquitetura da supremacia branca suburbana. Gruen retornou à Áustria em 1968 e furiosamente trabalhou em um projeto para tornar Viena uma cidade pedestre.

Dois anos antes de sua morte, em 1980, ele afirmou: “Sou frequentemente chamado de pai do shopping center. Gostaria de aproveitar esta oportunidade para negar a paternidade de uma vez por todas. Eu me recuso a pagar pensão alimentícia a esses empreendimentos bastardos. Eles destruíram nossas cidades”.

Na Grã-Bretanha, a pré-história do shopping center é ainda mais longa e estranha. Quando o planejador anarquista Ebenezer Howard esboçou sua visão utópica para as “cidades-jardins” britânicas em 1898, ele buscava criar em cada assentamento um “palácio de cristal” que iria combinar as funções das arcadas de compras de Londres com agradáveis jardins internos sob um telhado. Enquanto a estrutura seria financiada e construída pela autoridade municipal local, comerciantes individuais teriam permissão para operar livremente, mas seu número seria “limitado pelo princípio da opinião pública”.

Bastou a intervenção da Luftwaffe para que algo parecido com essa ideia fosse realizado na Grã-Bretanha. Coventry, uma pequena cidade na região inglesa de Midlands é um local improvável que, provavelmente, pode ter tido a primeira estrutura do tipo shopping center no mundo. A destruição total da cidade durante a II Guerra Mundial eliminou as densas e lotadas ruas comerciais medievais características da história da cidade.

Com a ajuda do governo britânico, o chefe dos arquitetos de Coventry, Donald Gibson, pôde usar uma nova legislação de emergência para efetivamente nacionalizar o centro da cidade, colocando mais de 200 hectares de terra sob o poder total da autoridade municipal. Lá, ele construiu um shopping center com múltiplas lojas, parcialmente murado e planejado holisticamente – indiscutivelmente, o primeiro do tipo no mundo. Enquanto a cidade detinha a posse da terra, provia a infraestrutura, pontes, estacionamentos e vegetação, os locatários se encarregavam do controle da temperatura, música, iluminação. As portas nunca eram fechadas.

Que o shopping center sofreria uma mutação para se tornar um dos marcos mais evidentes da cidade privatizada do século 20 não era algo que se previa nos anos 1940 e começo dos 1950. Essa história alternativa do consumo patrocinado pelo Estado, de massificação sem privatização, é incômoda para algumas das mais básicas dicotomias políticas de nossa era recente. Numa época em que as linhas políticas são delineadas entre a loja de comida orgânica e os grandes supermercados do subúrbio, os primeiros shoppings de Donald Gibson e Victor Gruen eram simultaneamente nenhum dos dois, e ambos.

Um manual dos anos 1970 para projetistas de shoppings é uma interessante janela para a violência coerciva à espreita sob o ruído do ar-condicionado – um lembrete de que sua expansão andou de mãos dadas com o crescimento dos tumultos urbanos e da violência política nas cidades interioranas cada vez mais segmentadas em guetos. O manual observa que “se parece que um grupo pode tornar-se violento, então o shopping deveria adotar medidas imediatas pra proteger certas áreas-chave” e que “a proteção contra incêndios é especialmente importante nesta década com a frequente ameaça de bombas incendiárias”.

A agressiva padronização e a privatização dos espaços dos shoppings no mundo teriam arrasado os socialistas pioneiros na construção desses empreendimentos. O vasto, quase imperial, Mall of America, em Minnesota, que já foi o maior shopping do mundo, fica a apenas dez minutos de carro da primeira criação de Victor Gruen em Edina, mas está separado por uma enorme ruptura histórica.

Como uma criança que cresceu em um subúrbio britânico, o shopping tornou-se parte central de minha vida. Muitas crianças primeiro visitavam o papai Noel na “praça da cidade”, um área gigante interna, do lado oposto ao supermercado, ou conseguiam seu primeiro emprego em uma das lojas. Meu primeiro beijo foi diante da Árvore, um carvalho gigante que se estende para fora de uma claraboia no teto do shopping. Na realidade, algumas das minhas primeiras experiências de protesto político foram contra a guerra no Iraque, junto com a coalizão política local, que banida do shopping center, foi forçada a protestar diante da estação ferroviária, normalmente deserta.

O declínio dos shoppings em decorrência do comércio on-line provocou uma certa tristeza em alguns comentaristas pela perda desse mundo social. Nos anos 1960, as pessoas reagiam à destruição das ruas de comércio britânicas e aos centros das cidades americanas por causa dos shopping centers com espasmos semelhantes de tristeza e nostalgia. Quem poderia ter previsto que esses shoppings iriam se tornar presas de uma forma de privatização ainda mais isoladora?

6 de abril de 2014

O homem capital

Thomas Piketty é a maior sensação da economia. Ele também é o mais feroz crítico do campo.

Emily Eakin


O economista francês Thomas Piketty chegou a Washington no domingo 13 de abril para uma semana de palestras em alguns dos mais importantes centros de pesquisa sobre políticas públicas dos Estados Unidos. Sua visita também poderia ter sido anunciada como uma volta olímpica pela Costa Leste. Lançada havia menos de cinco semanas, a tradução inglesa de seu novo livro, O Capital no Século XXI – 700 páginas de um rigor formidável sobre a história da riqueza –, tinha acabado de entrar para a lista dos mais vendidos do New York Times. Antes mesmo da publicação, um punhado de resenhas do livro e um grande burburinho na internet produziram uma transformação na imagem de Piketty: de pesquisador respeitado na área da distribuição de renda, ele virou um pensador de alto calibre que, armado de enorme quantidade de dados e gráficos – e de uma habilidade com as palavras incomum entre economistas –, se propunha a pôr abaixo décadas de sabedoria convencional sobre a desigualdade, por meio de uma análise inédita do passado.

A revista The Economist declarou que o livro de Piketty poderia “revolucionar o modo como as pessoas enxergam a história econômica dos últimos dois séculos”, e deu início a um grupo de leitura online, a fim de discuti-lo capítulo por capítulo. A também britânica Prospect acrescentou Piketty a sua lista anual de pensadores mais influentes do mundo ocidental, e comentou-se que seu livro circulava pelo gabinete de Ed Miliband, o líder do Partido Trabalhista inglês. Documentaristas começaram a competir pela oportunidade de transformar o livro em filme, e um compositor pediu a bênção do autor para transformá-lo numa ópera.

Agora, à maneira de um herdeiro de Tocqueville hábil no manejo de gráficos e fórmulas matemáticas, o francês de 43 anos tinha ido dizer aos americanos como salvar o que ele chamou de “ideal igualitário dos pioneiros” de uma “tendência à oligarquia” potencialmente devastadora. Sua unção foi tanto mais notável na medida em que, com seu livro, ele não pretendeu apenas apresentar um novo ponto de vista sobre a desigualdade, mas também repreender duramente a economia como disciplina, em particular em sua vertente norte-americana.

Na segunda-feira, dia 14, a agenda de Piketty incluía o Conselho Econômico da Casa Branca, o Government Accountability Office, órgão do Congresso americano que audita gastos do governo, e o gabinete do secretário do Tesouro, Jacob Lew, que o convocou para uma reunião particular com o intuito de discutir a proposta do francês de um imposto progressivo sobre a riqueza. Na terça, Piketty apareceu em companhia de dois prêmios Nobel de Economia: George Akerlof, que ao apresentá-lo a um grupo no Fundo Monetário Internacional declarou que ele era “o mais próximo que um economista pode chegar de uma estrela do rock”; e Robert Solow, que, no Instituto de Política Econômica – onde uma multidão de centenas de pessoas enfrentou um aguaceiro gelado para ouvi-lo falar –, louvou a originalidade da argumentação de Piketty e “a própria coleta, apresentação e análise” dos dados, prevendo que “vamos passar um bom tempo digerindo tudo isso”.

Piketty encarou o estardalhaço com um sorriso modesto. Vestia um paletó cinza, sem gravata, e, com seu cabelo escuro aparado, o rosto redondo e limpo e uma postura despretensiosa, sugeria menos um astro de rock que um estudante muito empenhado de pós-graduação. Falando por 45 minutos sem parar e sem a ajuda de notas, num inglês ágil, Piketty expôs com zelo suas descobertas. “Os mais ricos ficam de 6 a 7% mais ricos a cada ano, uma velocidade que é três vezes maior que a da economia mundial”, disse ele no Instituto de Política Econômica. “Ninguém sabe onde isso vai parar.”

A aparente simplicidade da tese de Piketty dissimula sua ousadia: a desigualdade é intrínseca ao capitalismo e, se não for combatida com vigor, é provável que ela cresça – e cresça a níveis que ameaçam nossa democracia e bloqueiam o crescimento econômico. Karl Marx fez previsões bem mais sombrias – a desigualdade largada à própria sorte conduziria, em última instância, ao colapso social –, e Piketty toma o cuidado de distanciar seu ponto de vista daquele do apocalipse previsto por Marx. Ainda assim, sua tese caminha na contramão da teoria econômica estabelecida, que postula que a desigualdade tende a diminuir, de acordo com um processo conhecido como “convergência”.

Segundo Piketty, que recolheu dados relativos a renda e riqueza que se estendem por três séculos e vinte países, as forças que propiciam a convergência (a disseminação do conhecimento e da qualificação, por exemplo) são consideráveis, mas, de modo geral, as que provocam divergência levaram a melhor. O cerne de seu argumento resume-se a uma fórmula de simplicidade enganosa: r > g – onde “r” representa a taxa média anual do retorno obtido pelo capital (ou seja, lucros, dividendos, juros e renda de imóveis) e “g”, a taxa de crescimento econômico. Ao longo de grande parte da história moderna, sustenta Piketty, a taxa de retorno obtida pelo capital ficou entre 4 e 5%, ao passo que a taxa de crescimento tem sido bem mais baixa, entre 1 e 2%. (Piketty é convincente ao argumentar ser improvável que o crescimento econômico, que depende em boa parte do crescimento populacional, venha a se acelerar radicalmente em qualquer outra parte do mundo que não seja a África, considerando-se as tendências demográficas atuais.) É daí que ele aduz “a principal força desestabilizadora do capitalismo”: sempre que r > g, “o capitalismo automaticamente gera desigualdades arbitrárias e insustentáveis, que minam de forma radical os valores meritocráticos nos quais se assentam as sociedades democráticas”.

Em outras palavras: numa economia de crescimento lento, a riqueza acumulada cresce mais depressa que a renda proveniente do trabalho. Assim, os ricos, já detentores da maior parte da riqueza, se tornarão mais ricos, enquanto o resto, que depende sobretudo da renda obtida com seus empregos, terá sorte se conseguir acompanhar a inflação. Hoje, r > g na maioria dos países do mundo desenvolvido, incluindo os Estados Unidos, onde os 10% mais ricos detêm mais de 50% da renda nacional. Se Piketty estiver certo, os Estados Unidos podem estar se tornando rapidamente o pior caso em escala mundial. Por todo o Ocidente, escreve ele, “os níveis de desigualdade crescem a uma taxa insustentável em longo prazo, o que deveria preocupar até os mais ardorosos defensores do mercado autorregulável”. (No quadro traçado por Piketty, o mercado autorregulável é, por definição, um regime do r > g: “Quanto mais perfeito o mercado de capitais” – como o entendem os economistas –, “maior é a probabilidade de r ser maior que g.”) Impressionado com essa justaposição de r e g, Solow comentou: “Que eu saiba, ninguém atentou para isso antes.”

A exceção digna de nota ao reinado do r > g é o período que se estende de 1945 a 1970, a chamada “época de ouro” do capitalismo, também conhecida como “a grande compressão”, em que as economias da Europa Ocidental e dos Estados Unidos se expandiram e a desigualdade diminuiu. Não é por acaso, Piketty sugere, que esse período deu origem ao credo otimista da disciplina econômica moderna: o livre mercado gera dividendos para todos. Esse mantra, ele insiste, baseia-se numa ilusão. Vista em seu contexto histórico, a “era de ouro” revela-se uma aberração – uma exceção passageira ao sombrio domínio do r > g. Duas guerras mundiais e a Grande Depressão, acompanhadas por uma tributação “confiscatória” imposta aos ricos para pagar pelo esforço da guerra, reduziram bastante muitas fortunas familiares, diminuindo, assim, temporariamente a diferença entre as classes alta e baixa. Enquanto a teoria da convergência afirmou que a desigualdade descreve uma curva em forma de sino, declinando à medida que a economia amadurece, Piketty descobriu que acontece o contrário: a desigualdade no século XX descreve uma curva de sino invertida – isto é, em forma de U –, cuja escalada íngreme não mostra agora nenhum sinal de arrefecimento.

Deslumbradas, ao que parece, com os argumentos apresentados no livro, poucas resenhas mencionaram o ataque que ele contém à economia como disciplina. O desdém de Piketty, no entanto, é inequívoco; ele se revela no lamento de um estudioso há muito afastado do núcleo central e estabelecido de sua profissão. “Há tempo demais”, escreve ele, “os economistas têm buscado se definir com base em seus métodos supostamente científicos. Na verdade, esses métodos se apoiam no emprego desmesurado de modelos matemáticos que, com frequência, nada mais são que uma desculpa para marcar terreno e mascarar o vazio do conteúdo. Um excesso de energia foi e continua sendo gasto em especulações puramente teóricas, sem uma demarcação clara dos fatos econômicos que se tenta explicar e dos problemas sociais e políticos que se tenta resolver.”


O primeiro artigo publicado por Piketty apareceu no Journal of Economic Theory em 1993, quando ele tinha 22 anos. O artigo consistia em um modelo matemático para a definição da melhor tabela possível de imposto de renda. Continha abundantes referências à teoria dos jogos, ao ótimo de Pareto e aos equilíbrios bayesianos. Estudante precoce de matemática, Piketty entrara para uma escola de elite, a École Normale Supérieure de Paris, aos 18 anos; ao fazer 22, tinha um PhD em economia e ofertas de emprego do MIT, de Harvard e da Universidade de Chicago. “Estavam muito entusiasmados porque eu era uma máquina de provar teoremas, e eles gostavam disso”, me disse. Escolheu o MIT e se mudou para Cambridge, no estado de Massachusetts, onde permaneceu apenas dois anos.

Piketty gostava de morar nos Estados Unidos e dos colegas do MIT, e achava estimulante dar aulas para estudantes de pós-graduação, a maioria mais velha que ele. “Eu estava muito feliz, mas, ao mesmo tempo, achava que tinha alguma coisa estranha acontecendo”, ele contou. O problema, Piketty logo concluiu, era que ele “não sabia coisa nenhuma de economia”.

Thomas Piketty continuou publicando fórmulas sobre distribuição de renda, mas se perguntava cada vez mais como era a desigualdade no mundo real. Como ela se desenvolvera ao longo do tempo? “Percebi que havia muitos dados à disposição que nunca tinham sido usados de forma sistemática”, conta. Como estudante, ele interessara-se tanto por história e sociologia como por economia, e admirava a obra de Pierre Bourdieu, Fernand Braudel e Claude Lévi-Strauss. Seus pais, que nunca terminaram o colégio, tinham participado dos protestos estudantis de 1968 e, ainda adolescente, Piketty passara um verão trabalhando para o avô, “um empresário com uma ética capitalista muito forte” que tinha uma pedreira nas proximidades de Paris. Mas influência ainda maior em seu desenvolvimento, ele acredita, veio dos acontecimentos dramáticos no Leste Europeu. No ano em que entrou na École Normale, caiu o Muro de Berlim, e, ao se formar, também a União Soviética já havia desmoronado. “Para mim, a pergunta natural e importante era: o que podemos dizer sobre desigualdade e justiça social e sobre a dinâmica da distribuição no regime capitalista? Por que é que em determinado momento as pessoas acharam que o comunismo era necessário?”

Os colegas de Piketty demonstravam pouco interesse pela pesquisa histórica. “O que achei bastante surpreendente no MIT foi que, às vezes, havia um nível de arrogância inacreditável em relação a outras disciplinas das ciências humanas”, afirma. “No caso da distribuição de renda, que era o que me interessava, quase não dispúnhamos de fatos históricos que conhecêssemos bem. Achava muito espantoso o abismo entre a autoconfiança dos economistas e os feitos reais de seu ofício.”

Ou, nas palavras de Branko Milanovic, entusiasta de primeira hora do livro de Piketty e especialista do Centro de Estudos de Renda da City University de Nova York (CUNY): “Os modelos matemáticos têm essa coisa estéril; não se baseiam na realidade, e sim naquilo que alguém imagina ser o comportamento das pessoas. A economia perdeu o gosto pelas grandes questões. Mergulhamos em questões minúsculas, e o exemplo extremo disso é o livro Freakonomics, que trata do comportamento de lutadores de sumô e da razão pela qual traficantes de drogas moram com a mãe. Temos 25% de desemprego na Espanha, e vamos discutir lutadores de sumô?”



Em certo sentido, críticas à disciplina não são nenhuma novidade. Economistas, uma gente muito falante, parecem ocupar espaço desproporcional na blogosfera e gastam um bocado de tempo em acalorados debates metodológicos. Em uma briga muito comentada ocorrida no mês de março, Paul Krugman e Lars P. Syll, economista da Universidade de Malmö, na Suécia, postaram visões divergentes sobre o modelo IS-LM, que há décadas tem sido o esteio da teoria macroeconômica. Syll descartou o modelo como um “dispositivo de uma tolice brilhante”. Krugman o defendeu como “uma simplificação da realidade, projetada para facilitar a compreensão de certas questões específicas, um modelo que, desde 2008, tem, sim, cumprido seu papel com brilhantismo”. (Numa postagem posterior a respeito do assunto, Krugman foi mais circunspecto: “A gente deve usar modelos, mas também deve se lembrar de que são modelos e sempre tomar cuidado com conclusões que dependam demais das premissas simplificadas.”)

Ainda assim, trocar farpas online é uma coisa; outra, bem diferente, é alguém apresentar suamagnum opus como ato de sublevação metodológica. Piketty deixa claro:O Capital no Século XXI é sua ideia de como um estudo de economia deveria ser, ou seja, é preciso combinar análises de questões macro (crescimento) e micro (distribuição de renda); o trabalho deve estar fundado em abundantes dados empíricos e entremeado de referências sociológicas, históricas e literárias; e deve, ainda, economizar na matemática. Em sua escala e em seu alcance, o livro lembra as obras fundadoras da economia clássica: Ricardo, Malthus e Marx, a cujo tratado sobre o capitalismo o título de Piketty alude. A extensa literatura recente sobre vários aspectos da desigualdade mal é mencionada. “Tem uma boa quantidade de trabalhos empíricos por aí”, diz James K. Galbraith, da Universidade do Texas, que estuda desigualdade salarial e publicou na revista Dissent uma das poucas resenhas céticas a respeito do livro de Piketty até o momento. “Ele tende a citar com deferência pensadores do mainstream e ignora as críticas já feitas a esses economistas.”

Romances de Jane Austen, Balzac e Henry James, por outro lado, têm um segmento só para si no livro. Piketty chega ao ponto de extrapolar de uma leitura atenta de um romance de Balzac, O Pai Goriot, um fenômeno que chama de “dilema de Rastignac”, referindo-se ao fato de que, ao longo de todo o século XIX, unir-se pela via do matrimônio a uma família detentora de riqueza herdada constituía rota muito mais segura para uma vida confortável que tentar subir na vida por meio do talento próprio, da educação e do trabalho duro. Hoje, escreve Piketty, séries de tevê em horário nobre, como House, Bones e The West Wing, “são estreladas por heróis e heroínas carregados de diplomas e altas qualificações” e parecem celebrar “uma desigualdade justa, baseada no mérito, na educação e na utilidade social das elites”. Mas isso, afirma ele, não passa da expressão fantasiosa de um desejo: o número das heranças gigantescas caiu desde a Belle Époque e, no entanto, na Europa – assim como, em menor grau, nos Estados Unidos – o montante da riqueza herdada retornou ao nível daquela época. Na visão de Piketty, isso tem o efeito de distorcer nossa democracia.

Não há dúvida de que a eloquência acessível do livro tem beneficiado sua recepção. Ao destacar-lhe a veia irônica, um crítico já comparou as notas de Piketty às do historiador inglês Edward Gibbon. (Um típico comentário: “Entre os membros desses grupos de maior renda estão acadêmicos e economistas norte-americanos, muitos dos quais acreditam que a economia dos Estados Unidos está funcionando razoavelmente bem e, em particular, que ela recompensa o talento e o mérito de maneira correta e precisa.”) Mas Piketty foi favorecido também por um timing excelente.


Depois de deixar o MIT, em 1995, ele voltou a Paris e passou os três anos seguintes nos arquivos que ficam no porão do Ministério das Finanças francês, coletando e selecionando dados relativos a renda, herança e legislação tributária em pastas caindo aos pedaços. O resultado dessa pesquisa foi o livro Les Hauts Revenus en France au XXe Siècle: Inégalités et Redistributions,1901–1998 [As rendas altas na França do século XX: desigualdades e redistribuição, 1901–1998]. Foi nele que, pela primeira vez, Piketty identificou a curva em forma de U que descreve a desigualdade na França do século passado. Ele diz que não teria escrito o livro se tivesse ficado no MIT, ou pelo menos não antes de obter uma cátedra vitalícia. “Eu quis voltar à França porque queria ficar mais perto de historiadores e sociólogos”, conta. “Meu sentimento era o de que, se ficasse no MIT, teria incentivos muito fortes para continuar fazendo aquilo em que eu era bom, ou seja, teoremas matemáticos.”

Piketty enviou esse primeiro livro a Anthony Atkinson, eminente estudioso da desigualdade de renda que trabalhava na Universidade de Oxford e é, desde então, seu colaborador. Atkinson propôs que ele estendesse seus estudos a outros países. Piketty retornou ao MIT por um semestre em 2000 e, enquanto estava lá, recrutou um então estudante de pós-graduação em economia, Emmanuel Saez, para colaborar com ele num estudo de dados de renda dos Estados Unidos. Outros estudiosos da distribuição de renda tendiam a se basear sobretudo em pesquisas domiciliares, em que o próprio pesquisado fornecia a informação. Piketty se valeu das declarações de imposto de renda, que, introduzidas em 1913, oferecem um quadro bem mais exato da renda no topo da pirâmide.

Ele não foi o primeiro a usar esses dados. Simon Kuznets, autor na década de 50 da influente teoria de que a desigualdade tendia a declinar, também se baseou em declarações de imposto de renda. Seus dados, porém, cobriam apenas o período de 1913 a 1948 – quando a desigualdade caiu. O próprio Kuznets foi mais cuidadoso quanto ao valor de sua “curva de Kuznets” – em forma de U invertido – do que muitos de seus seguidores, segundo Piketty influenciados pela geopolítica da Guerra Fria.

“Quando a competição entre os modelos soviético e capitalista era muito forte, as pessoas no Ocidente queriam muito acreditar que economias de mercado eram capazes de reduzir a desigualdade e equilibrar a distribuição de renda e da riqueza”, Piketty me disse.

Com modéstia característica, ele sugeriu que sua principal vantagem como economista foi ter pertencido a uma geração para a qual “o conflito entre comunismo e capitalismo na verdade não existe mais”. Contudo, para muitos dos discípulos de Kuznets o fim da União Soviética parece ter reforçado sua crença. Em 2011, um comitê de economistas de ponta elegeu o artigo de 1955, em que Kuznets apresentou sua famosa curva, um dos vinte textos mais influentes já publicados naAmerican Economic Review.

A inovação de Piketty foi expandir o trabalho de Kuznets para outras décadas e outros países, numa época em que a maioria dos economistas, quando se baseava em dados empíricos, concentrava-se em algumas poucas décadas e, de modo geral, em salários, e não em riqueza. Ou então obtinha seus dados por intermédio de amostras controladas, e não pela via da pesquisa histórica. “O que é de fato bastante estranho é que ninguém tenha feito isso antes”, diz Piketty sobre a abrangência de sua análise. “É história demais para os economistas, e economia demais para os historiadores. Uma espécie de terra de ninguém em termos acadêmicos.”

Em 2003, Piketty, então catedrático da École des Hautes Études en Sciences Sociales, e Emmanuel Saez publicaram suas descobertas sobre a desigualdade de renda nos Estados Unidos. Mais uma vez, os dados indicavam uma curva em U ao longo do século XX. (Se a análise de ambos subestimou alguma coisa, diz Piketty, foi a taxa de desigualdade atual, dado que muitos dos principais detentores de capital levam sua riqueza para paraísos fiscais, onde ela não é declarada).

De início, o trabalho ensejou poucos comentários. Naquele mesmo ano, Robert E. Lucas Jr., economista da Universidade de Chicago agraciado com o prêmio Nobel, declarava que “entre as tendências prejudiciais a uma ciência econômica sólida, a mais sedutora, e na minha opinião a mais insidiosa, é concentrar-se em questões de distribuição”. Lucas, um entusiasta da chamada economia de oferta – segundo a qual quanto menos impostos e regulação, maior o estímulo ao investimento e à produção –, pregava a fé nos benefícios de longo prazo do crescimento econômico. “O potencial de melhoria da vida dos pobres que deriva da busca de meios diferentes de distribuir a produção atual não é nada, se comparado ao potencial aparentemente ilimitado de aumentar a produção.”

Cinco anos depois, com o colapso do mercado imobiliário e as revelações das práticas de empréstimos predatórios e das recompensas estratosféricas pagas aos executivos dos bancos de investimentos, a desigualdade virou notícia. No início de 2009, num resumo do Orçamento que seria proposto ao Congresso, o governo Obama apresentou um gráfico extraído da pesquisa de Piketty e Saez, mostrando a íngreme escalada da renda nacional nas mãos do 1% mais rico. O Wall Street Journal batizou o gráfico de “a pedra de Roseta da mente do presidente Barack Obama”, ajudando, assim, a disseminar a ideia (sem dúvida exagerada) da influência de Piketty e Saez na Casa Branca.

Em maio de 2011, o economista da Universidade Columbia Joseph E. Stiglitz relatou à revistaVanity Fair que, nos Estados Unidos, o 1% mais rico controlava 40% da riqueza do país, tornando esse “1%” expressão corrente e um sonoro epíteto do movimento Occupy, que tomou impulso naquele outono. Dois anos depois, Robert Reich, ex-secretário do Trabalho e hoje catedrático em Berkeley, citou o trabalho de Piketty e Saez em seu famoso documentário Desigualdade para Todos (no qual Saez faz uma breve aparição).

Por volta de dezembro do ano passado, quando se começou a falar no livro de Piketty, então já publicado na França, a desigualdade como tópico político havia passado por sua própria transformação: de obsessão predileta da esquerda liberal americana tornou-se prioridade tanto para democratas como para republicanos. Naquele mês, Barack Obama dedicou um discurso importante ao tema, caracterizando a desigualdade como “o desafio decisivo de nossa época”. Republicanos proeminentes – incluindo-se aí o líder da maioria na Câmara, Eric Cantor, e o senador Marco Rubio – logo seguiram o exemplo e fizeram discursos que mencionavam, ainda que com cautela, a desigualdade de renda. A Comissão de Finanças do Senado promoveu uma audiência sobre o sofrimento da classe média.

Se O Capital no Século XXI vai sobreviver a seu lançamento espetacular e se tornar inspiração para futuros estudos – para não falar em futuras políticas públicas –, isso dependerá em parte de como os dados de Piketty e sua interpretação resistirão ao tempo. Os resmungos contra o livro que se ouvem aqui e ali ainda não se reuniram numa refutação de peso. (Kevin Hassett, economista do American Enterprise Institute, um centro de estudos conservador, participou de um painel com Piketty em Washington e argumentou que, quando se levam em conta as transferências governamentais feitas a grupos de menor renda nos últimos trinta anos – em comida e subsídios diversos –, essas transferências virtualmente compensariam o aumento de renda dos 20% mais ricos. Piketty respondeu: “É verdade que houve um grande aumento nas transferências. Mas me surpreende que alguém como o senhor, no AEI, fique feliz com a ideia de que transferências estejam diminuindo a desigualdade.”) Mesmo detratores concordam a respeito do valor inestimável da World Top Incomes Database, a base de dados sobre a concentração de renda no topo da pirâmide social que Piketty e seus colaboradores reuniram na Escola de Economia de Paris, onde ele agora leciona. No momento, ela cobre trinta países e é, de longe, a maior base de dados internacional sobre desigualdade.

Menor chance de sobrevivência tem o remédio proposto por Piketty para a desigualdade: um imposto progressivo global sobre a riqueza para fortunas acima de 1 milhão de euros, ou cerca de 3 milhões de reais.

Em Washington, cidade em que se definem políticas, os comentadores da obra de Piketty queriam discutir soluções, embora muitos tenham descartado a proposta dele e aproveitado a oportunidade para promover suas próprias ideias. Até mesmo Piketty reconhece que aplicar um imposto global sobre a riqueza exigiria níveis inéditos de cooperação internacional e, pelo menos nos Estados Unidos – onde muitos acreditam que impostos mais altos levam a um crescimento menor –, a superação de uma ferrenha oposição política. Ainda assim, em seu livro ele faz uma defesa apaixonada dessa proposta, assinalando que os Estados Unidos, afinal, inventaram a tributação confiscatória – em 1919, quando o Congresso aprovou uma alíquota máxima de 77% no imposto de renda, sob o argumento de que rendas e patrimônios gigantescos eram “inaceitáveis, do ponto de vista social, e economicamente improdutivos”. (Hoje, a alíquota máxima é de cerca de 40%.)

Recentemente, a ideia de Piketty ganhou o impulso indireto de um estudo publicado em fevereiro pelo Fundo Monetário Internacional, que está longe de ser uma instituição radical. Esse estudo, uma análise da desigualdade de renda que abrange diversos países, descobriu não apenas que há “pouca evidência de que medidas redistributivas típicas” – impostos e crédito – “tenham, em média, efeito adverso sobre o crescimento”, mas também que baixa desigualdade em geral se associa a crescimento mais rápido. Como me disse em um e-mail Jonathan D. Ostry, o principal autor desse estudo, “essa lógica de fato contribuiu para abrir nossos olhos”.


Na quarta-feira, dia 16, Piketty estava à noite em Nova York, onde participou de um painel na CUNY com mais ganhadores do Nobel: Joseph Stiglitz (que ganhou o prêmio duas vezes) e Paul Krugman, além de Steven Durlauf, economista da Universidade de Wisconsin-Madison. Duas dúzias de jornalistas estavam no auditório. O interesse da mídia por Piketty era tanto que uma parte dos assentos foi reservada a ela, e uma sala de imprensa foi preparada para que o entrevistassem ao final do evento.

Mais cedo, Piketty estivera no Conselho de Relações Exteriores e na ONU. Na CUNY, porém, estava entre seus pares: os acadêmicos. Parecia muito contente. “Os Estados Unidos inventaram a tributação progressiva em grande parte porque não queriam se parecer com a Europa, dominada por classes”, disse ele, enquanto, ainda sem gravata, mas com um sorriso largo, projetava para a plateia um gráfico feito em PowerPoint que mostrava as flutuações da alíquota máxima do imposto de renda.

Os demais membros do painel fizeram efusivos elogios. “É um livro fantástico!”, exultou Krugman. “Ele resolve problemas que vêm preocupando as pessoas há décadas.” Stiglitz, em tom de lamento, declarou: “Alguns de nós nos especializamos num momento particular da curva que ele apresenta, quando as coisas pareciam ir muito bem. Isso nos deu uma imagem distorcida do mundo.”

Eufóricos com as ideias de Piketty sobre desigualdade, os participantes chapinharam aqui e ali por terreno mais técnico – modelos estocásticos e a teoria da produtividade marginal foram invocados mais de uma vez. Mas estavam igualmente ansiosos para discutir o remédio proposto, o imposto global sobre a riqueza. “Nós tivemos aqui decisões da Suprema Corte que afirmam que as grandes empresas têm o mesmo direito que as pessoas quando se trata de financiar a política, mas não têm deveres equivalentes quando se trata de responderem pelo que fazem. Não vai ser uma batalha fácil”, observou Stiglitz. Krugman citou o discurso de Theodore Roosevelt “O novo nacionalismo”, de 1910, que clama por impostos progressivos sobre “grandes fortunas”. Esse discurso, sugeriu Krugman, é um motivo para se ter esperança de que os americanos venham, um dia, a retomar o combate à desigualdade. “A visão pessimista é a de que a diminuição da desigualdade no século XX foi, em sua totalidade, o resultado de guerras”, disse Krugman. “Mas, na verdade, Roosevelt fez esse discurso antes da guerra, o que significa que um sistema político democrático, que acredita em ideais, é capaz de se reformar também na ausência de catástrofes.”

Piketty ainda estava sorrindo quando deixou o palco. Uma sala cheia de jornalistas esperava por ele e, depois, um jantar chique. Em seguida, ele estaria na estrada - próxima parada, Boston.

4 de abril de 2014

A linha vermelha e a linha do rato

Seymour M. Hersh sobre Obama, Erdoğan e os rebeldes sírios

Seymour M. Hersh


Em 2011, Barack Obama comandou uma intervenção de aliados contra a Líbia, sem consultar o Congresso dos EUA. Em agosto do ano passado, depois de um ataque com gás sarín em Ghouta, subúrbio de Damasco, estava pronto para ordenar ataque aéreo de norte-americanos e aliados, dessa vez para castigar o governo da Síria por, supostamente, ter infringido uma “linha vermelha” que Obama demarcou em 2012 sobre uso de armas químicas. Então, faltando menos de dois dias para o planejado ataque, Obama anunciou que pediria a aprovação do Congresso para a intervenção. O ataque foi adiado para que o Congresso realizasse audiências e, na sequência, foi cancelado, quando Obama aceitou a oferta, por Assad, de entregar seu arsenal químico, em negociação intermediada pela Rússia. Por que Obama adiou e depois cancelou o ataque à Síria, se não teve cuidado algum no momento de atacar a Líbia? A resposta está na disputa dentro do governo Obama, entre os que queriam fazer valer a “linha vermelha” e os líderes militares que entendiam que ir à guerra seria ao mesmo tempo injustificável e potencialmente desastroso.

A mudança, em Obama, começou em Porton Down, o laboratório que a Defesa britânica mantém em Wiltshire, Inglaterra. A inteligência britânica tinha obtido uma amostra do gás sarín usado no ataque do dia 21, e análises demonstraram que o gás não era o mesmo que se sabia que existia no arsenal químico sírio. A mensagem de que os sírios não mentiam e que o caso contra o exército de Assad logo seria desmontado, chegou rapidamente aos chefes do Estado-Maior dos EUA. O relato britânico fez aumentar as dúvidas dentro do Pentágono; os chefes militares já preparavam para avisar Obama de que seus planos para atacar com mísseis e bombas a infraestrutura síria levaria a guerra muito mais ampla no Oriente Médio. Consequência da notícia recém-chegada, os militares norte-americanos apressaram-se a levar ao presidente mais aquele alerta de cuidado, o qual, na visão dos militares, levou o presidente a cancelar o ataque.

Durante meses houve preocupação entre o alto comando militar e a comunidade de inteligência com o papel da guerra na convivência com os vizinhos da Síria, especialmente o papel da Turquia. Sabia-se que o Primeiro-Ministro Recep Erdoğan estava apoiando a Frente al-Nusra, grupo jihadista incorporado à oposição rebelde, e a outros grupos rebeldes islamistas. "Sabíamos que havia alguns, no governo turco", disse-me um ex-alto funcionário da inteligência dos EUA, com acesso à inteligência atual, "que acreditavam que poderiam enredar Assad, provocando um ataque com gás sarín dentro da Síria – o que forçaria Obama a fazer valer a ameaça da linha vermelha."

O alto comando militar também sabia que o que o governo Obama andava dizendo, que só o exército sírio tinha acesso ao sarín, era falso. As comunidades de inteligência norte-americana e britânica já sabiam, desde a primavera de 2013, que algumas unidades rebeldes na Síria estavam desenvolvendo armas químicas. Em de maio de 2013, analistas da Agência de Inteligência da Defesa dos EUA [orig. DIA] distribuíram documento altamente secreto de cinco páginas, dos “pontos de conversa” [(orig. talking points): são os itens que podem ser falados à imprensa e discutidos em público e os que não podem], para atualizar o vice-diretor da Agência DIA, David Shedd, no qual se lê que a Frente al-Nusra mantinha célula de produção de gás sarín; o programa, dizia o documento, era "o plano mais avançado para uso de sarín desde o esforço da al-Qaeda antes de 11/9." (Segundo um consultor do Departamento de Defesa, a inteligência dos EUA sabia, há muito tempo, que a al-Qaeda estava trabalhando em testes com armas químicas, e tem um vídeo de um de seus testes, com cachorros). O documento da Inteligência da Defesa prosseguia: "Antes, o foco da comunidade de inteligência tinha se mantido quase completamente fixo sobre as armas químicas sírias; agora já sabemos dos esforços da Frente al-Nusra para produzir suas próprias armas químicas (...) A relativa liberdade de operação da Frente al-Nusra dentro da Síria nos leva a estimar que, no futuro, será difícil conter as ambições desse grupo." O documento reunia informação secreta de várias agências: "Agentes facilitadores baseados na Turquia e na Arábia Saudita", dizia o documento, "tentaram obter os precursores do sarín em grande quantidade, dezenas de quilos, antecipando o esforço para produção em grande escala na Síria." (Perguntado sobre o documento da Inteligência da Defesa, o porta-voz do diretor da Agência Nacional de Inteligência disse: "Tal documento jamais foi solicitado ou entregue pela comunidade de analistas de inteligência.")

Em maio do ano passado, mais de dez membros da Frente al-Nusra foram presos no sul da Turquia, com o que a polícia local informou a jornalistas que seriam dois quilos de sarín. Em documento de acusação de 130 páginas, o grupo foi acusado de tentar comprar pavios e detonadores para construção de morteiros e produtos químicos precursores do gás sarín. Cinco dos detidos foram libertados logo depois. Os demais, inclusive o líder, Haytham Qassab, para quem o procurador pediu sentença de 25 anos de prisão, foram postos em liberdade condicional à espera de julgamento. Ao mesmo tempo, a imprensa turca fervia com especulações sobre se o governo Erdoğan estaria ocultando a extensão de seu envolvimento com os rebeldes. Numa conferência de imprensa no verão passado, Aydin Sezgin, embaixador da Turquia em Moscou, não deu importância às prisões e disse aos jornalistas que o suposto gás sarín não passaria de “anticongelante”.

Segundo o documento da Inteligência da Defesa, as prisões seriam sinal de que a Frente al-Nusra estava expandindo seu acesso a armas químicas. Dizia que Qassab se “tinha de auto-identificado” como membro da Frente al-Nusra e que era diretamente conectado a Abd-al-Ghani, “o emir da Frente al-Nusra para produção de equipamento militar”. Qassab e seu associado Khalid Ousta haviam trabalhado com Halit Unalkaya, empregado de uma empresa turca, Zirve Export, que ofereceu “cotação para preços de grandes quantidades de precursores de sarín”. O plano de Abd-al-Ghani era que dois associados aperfeiçoassem a produção de sarín e, na sequência, fossem para a Síria para treinar outros e iniciar a produção em larga escala num laboratório não identificado, na Síria. O documento da Inteligência da Defesa dizia que um de seus operadores comprara um precursor no “mercado químico de Bagdá”, o qual “serviu de base a pelo menos sete esforços para produzir armas químicas desde 2004”.

Uma série de ataques com armas químicas em março e abril de 2013 foram investigados nos poucos meses seguintes, por uma comissão especial da ONU enviada à Síria. Uma pessoa com conhecimento bem próximo da atividade da ONU na Síria disse-me que havia provas que ligavam a oposição síria ao primeiro ataque com gás, dia 19 de março de 2013, em Khan Al-Assal, vila próxima de Aleppo. No relatório final, em dezembro, a missão disse que pelo menos 19 civis e um soldado sírio estavam entre as vítimas fatais, além de muitos feridos. A Comissão não tinha a atribuição de determinar a responsabilidade pelo ataque, mas a mesma pessoa, muito bem informada sobre a missão da ONU, disse: "Os investigadores da ONU entrevistaram o povo que estava lá, inclusive os médicos que atenderam as vítimas. Era perfeitamente claro que os rebeldes lançaram o gás. Não veio a público, porque ninguém quis saber."

Nos meses antes do início dos ataques, um ex alto funcionário do Departamento da Defesa contou-me que a Agência de Inteligência da Defesa estava fazendo circular um relatório secreto diário, conhecido como SYRUP com toda a inteligência relacionada ao conflito na Síria, incluindo material sobre armas químicas. Mas na primavera, a distribuição da parte do relatório sobre armas químicas foi suspensa, por ordens de Denis McDonough, Chefe de Gabinete da Casa Branca. “Havia alguma coisa ali que fez McDonough entrar em surto”, disse o ex-funcionário do Departamento da Defesa. “Num dia, era grande uma coisa. De repente, depois dos ataques com sarín em março e abril”, ele estalou os dedos, “não estava mais lá”. A decisão de restringir a distribuição de informações foi tomada quando o Estado-Maior dos comandantes militares ordenou intensa planificação de urgência para uma possível invasão por terra contra a Síria, cujo principal objetivo seria eliminar armas químicas.

Meu informante, o ex alto oficial da inteligência, disse que muitos, no establishment de segurança nacional dos EUA há muito tempo estavam tendo problemas com interpretar a tal “linha vermelha” do presidente: "Os comandantes militares perguntaram à Casa Branca “o que significa essa linha vermelha?”, “Como se traduz em termos de ordens para os militares? Coturnos em solo? Ataque massivo?Ataque limitado?”. A inteligência militar recebeu ordens de estudar um modo de cumprir a ameaça. Nunca obtiveram qualquer resposta sobre o que o presidente estaria pensando."

Logo depois do ataque de 21 de agosto, Obama ordenou que o Pentágono listasse os alvos a serem bombardeados. No início do processo, disse meu informante, “a Casa Branca rejeitou 35 alvos propostos pelos comandantes militares, por serem insuficientemente dolorosos para o regime de Assad”. Esses primeiros alvos só incluíam alvos militares e nada próximo da infraestrutura civil. Sob pressão da Casa Branca, o plano de ataque dos EUA evoluiu para um “ataque monstro”: dois bombardeiros B-52 e tripulações foram deslocadas para bases aéreas próximas à Síria, além de submarinos e outras naves da Marinha equipadas com mísseis Tomahawk. "A cada dia, a lista ficava mais longa – disse-me meu informante –Os estrategistas do Pentágono disseram “não se pode usar só Tomahawks para atacar os silos de mísseis na Síria, porque o equipamento está protegido muito fundo, no subsolo. Por isso foram designados para a missão os dois B-52, com bombas de uma tonelada. E precisaremos de equipes de resgate para pilotos derrubados, e de drones para alvos selecionados. Virou operação monstro”." As novas listas de alvos estavam pensadas para “erradicar qualquer capacidade militar que Assad tenha”, disse-me meu informante, o ex funcionário da Inteligência. Os principais alvos envolviam redes elétricas, depósitos de petróleo e gás, todos os depósitos conhecidos de armas e logística, todos os comandos e controles de instalações e todos os prédios conhecidos da estrutura militar e de inteligência.

Grã-Bretanha e França teriam ambas de participar. Dia 29 de agosto, dia em que o Parlamento britânico rejeitou o pedido de Cameron para que a Grã-Bretanha se integrasse ao ataque, o jornal The Guardian noticiou que Cameron já ordenara que seis jatos de combate RAF Typhoon fossem deslocados para Chipre e oferecera um submarino capaz de disparar mísseis Tomahawk. A Força Aérea francesa – que teve papel crucial em 2011 no ataque à Síria – estava também profundamente comprometida, segundo matéria publicada no Le Nouvel Observateur; François Hollande ordenara que vários jatos Rafale se unissem à força de ataque norte-americana. Seus alvos, segundo o noticiário, estavam no oeste da Síria.

Nos últimos dias de agosto, o presidente dera aos comandantes militares uma data final para o início do ataque. "A hora H estava marcada para algum momento antes da segunda-feira [2/9/2013] de manhã, o ataque massivo para neutralizar Assad– continua meu informante." Por isso, foi surpresa para muitos quando, em discurso no Jardim das Rosas na Casa Branca, dia 31/8, Obama disse que o ataque estava suspenso, e que ele pedira autorização do Congresso, a ser votada.

Naquela altura, a premissa de Obama – de que só o exército sírio tinha capacidade para usar sarín – já estava em farrapos. Em poucos dias depois do ataque de 21 de agosto, disse-me meu informante, agentes da inteligência militar russa já haviam recolhido amostras do agente químico, em Ghouta. Analisaram tudo e passaram as amostras para a inteligência militar britânica. Esse é o material recebido em Porton Down, Inglaterra. (Um porta-voz de Porton Down disse: “Muitas das amostras analisadas na Grã-Bretanha deram resultado positivo para o agente de efeito neurológico, sarín. O MI6 disse que não comenta assuntos de inteligência”).

O mesmo ex funcionário da inteligência dos EUA disse que o russo que entregou as amostras ao Reino Unido, era “fonte segura – alguém com acesso, conhecimento e currículo de confiabilidade”. Depois dos primeiros usos noticiados de armas químicas na Síria, ano passado, agências de inteligência norte-americanas e aliadas "fizeram um esforço para encontrar a resposta sobre o que fora usado, se algo tivesse sido usado – e a origem do material – disse-me meu informante. – Usamos a troca de dados como parte da Convenção sobre Armas Químicas." "A linha básica sobre a qual trabalhava a DIA consistia em conhecermos a composição de cada linhagem de armas químicas fabricadas pelos soviéticos. Mas não sabíamos que linhagens havia então nos arsenais do governo Assad. Poucos dias depois do incidente em Damasco, pedimos a uma fonte no governo sírio que fornecesse uma lista das armas químicas realmente existentes no arsenal sírio. Por isso conseguimos confirmar tão rapidamente que o sarín usado em Damasco não era do governo sírio."

Na primavera anterior o processo não dera muito certo, disse-me meu informante, porque os estudos da inteligência ocidental “eram inconclusivos para o tipo de gás. Ninguém, então, falou em “sarín”. Discutiu-se muito sobre isso, mas dado que não se podia concluir que gás fora usado, não se podia dizer que Assad tivesse cruzado a tal “linha vermelha” do presidente”. Em 21/8/2013, continuou meu informante, “a oposição síria com certeza já sabia disso e anunciou, antes de qualquer análise, que teria sido usado “sarín” do exército sírio. E a imprensa-empresa e a Casa Branca saltaram para apanhar aquela chance: se era sarín, então... “Foi Assad”.

A equipe de Defesa da Grã-Bretanha que divulgou os resultados das análises feitas em Porton Down para os comandantes militares estava, simultaneamente, mandando um “recado”, disse meu informante: “Nós estamos sendo enganados nessa história”. (Isso explica uma mensagem tensa, que um alto funcionário da CIA distribuiu no final de agosto: “Não é coisa do atual regime [sírio]. Grã-Bretanha e EUA sabem”.) Mas naquele momento, faltavam poucos dias para o ataque, e aviões, navios e submarinos dos EUA, Grã-Bretanha e França já estavam em prontidão.

O comandante responsável geral pelo planejamento e execução do ataque à Síria era o general Martin Dempsey, Comandante do Estado-Maior das forças conjuntas. "Desde o início da crise, disse meu informante, os Comandantes do Estado-Maior mantiveram sérias dúvidas quanto ao argumento do governo Obama de que havia fatos a confirmar sua certeza de que Assad era culpado. Pressionaram a Agência de Inteligência da Defesa e outras agências, para que apresentassem provas mais substanciais." "Não havia o que os convencesse de que a Síria teria usado gás sarín, porque sabiam que Assad estava vencendo a guerra – disse meu informante." Dempsey irritou muita gente no governo Obama, de tanto que repetiu, também no Congresso, sobre o risco de um envolvimento militar dos EUA na Síria. Em abril, depois de uma avaliação otimista sobre avanços dos rebeldes feita pelo secretário de Estado John Kerry diante da Comissão de Assuntos Estrangeiros da Câmara de Deputados, Dempsey disse à Comissão de Forças Armadas do Senado que “há risco de esse conflito estar em empate”.

A ideia inicial de Dempsey depois de 21 de agosto de 2013 era que um ataque dos EUA à Síria – baseado na certeza de que o governo Assad fosse responsável pelo ataque com sarín – seria completa estupidez, do ponto de vista militar, disse meu informante. Mas depois que chegaram as informações de Porton Down, os chefes militares viram-se obrigados a levar ao presidente uma preocupação ainda mais grave: que o ataque que a Casa Branca tanto estava querendo, seria injustificado e injustificável ato de agressão. Foram os chefes militares que levaram Obama a mudar completamente de curso. A explicação oficial da Casa Branca para dar meia volta – a história que a imprensa-empresa contou – foi que o presidente, em caminhada pelo Jardim das Rosas com seu chefe de Gabinete, Denis McDonough, repentinamente, decidiu buscar aprovação para o ataque, num Congresso ferozmente dividido, com o qual Obama vivia em conflito já há anos. Meu informante contou-me que a Casa Branca deu outra explicação, diferente, aos membros do comando civil do Pentágono: o bombardeio havia sido suspenso, porque haveria inteligência que informava que “o Oriente Médio pegaria fogo”, se o ataque acontecesse.

A decisão do presidente de ir ao Congresso foi vista inicialmente pelos principais assessores na Casa Branca − disse meu informante − como replay do gambito de George W. Bush no outono de 2002, antes da invasão do Iraque: "Quando ficou claro que não havia armas de destruição em massa no Iraque, o Congresso, que havia apoiado a guerra do Iraque, e a Casa Branca, ambos, partilharam a culpa e sempre falaram de inteligência errada. Se o atual Congresso fosse obrigado a votar para apoiar o ataque, a Casa Branca conseguiria o que queria, e ainda mais – varreria a Síria com ataque massivo e validaria a palavra do presidente sobre a tal “linha vermelha”; e o presidente ainda poderia atribuir metade da culpa ao Congresso, no caso de algum dia vir a público que o governo sírio nada tivera a ver com o uso de gás em Goutha." O “meia volta, volver” colheu de surpresa até as lideranças Democratas no Congresso. Em setembro, o Wall Street Journal noticiou que três dias antes do discurso do Jardim das Rosas, Obama telefonara a Nancy Pelosi, líder dos Democratas na Câmara de Deputados, “para discutir as opções”. Mais tarde, ela mesma disse a deputados, segundo o Wall Street Journal, que não sugeriu ao presidente que pusesse o bombardeio em votação no Congresso.

Rapidamente, o movimento de Obama de buscar a aprovação do Congresso chegou a um beco sem saída. "O Congresso não poderia deixar que aquilo prosseguisse – disse meu informante. O Congresso, então, decidiu que, diferente do que fora feito quando da autorização para guerra ao Iraque, dessa vez haveria uma série de audiências públicas." "Nesse ponto, a Casa Branca foi tomada por uma espécie de desespero − diz meu informante − e foi quando surgiu o Plano B. Não se fala mais de bombardear a Síria, e Assad concordaria em assinar unilateralmente o tratado sobre guerra química e aceitaria entregar seu arsenal químico para ser destruído sob supervisão da ONU." Numa conferência de imprensa em Londres, dia 9/9/2013, Kerry ainda falava sobre intervenção: “O risco de não agir é maior que o risco de agir”. Mas quando um repórter perguntou-lhe se haveria algo que Assad pudesse fazer para deter o bombardeio, Kerry disse: "Claro! Ele que entregue cada pedacinho [orig. every single bit] de seu arsenal químico à comunidade internacional semana que vem... Mas não vai acontecer, não pode ser feito, obviamente." Como o New York Times noticiou dia seguinte, o acordo negociado pelos russos que emergiu em seguida já teria sido discutido antes entre Obama e Putin, no verão (julho) de 2012. Mas embora os planos de ataque tivessem sido arquivados, o governo Obama não mudou sua versão pública da justificativa para ir à guerra. “Naquele nível, ninguém nunca erra” – disse o ex funcionário da inteligência com quem conversei, falando dos altos funcionários da Casa Branca. “Ninguém ali jamais declarará: Nós estávamos errados”. (O porta-voz da Inteligência Nacional da Defesa disse: “O regime Assad, e só o regime Assad, pode ter sido responsável pelo ataque químico que aconteceu dia 21 de agosto de 2013”).

***

Ainda demorará para que venha à luz a extensão da cooperação entre EUA, Turquia, Arábia Saudita e Qatar, na ajuda que deram e dão à oposição rebelde na Síria. O governo Obama jamais admitiu publicamente o papel que teve na criação do que a CIA chama “um caminho de rato” – um caminho clandestino, de fato, uma ampla rodovia, que leva direto à Síria. O caminho de rato, autorizado no início de 2012, foi usado para infiltrar armas e munições vindas da Líbia, pelo sul da Turquia e pela fronteira com a Síria, para a oposição síria. Muitos dos que, no fim da trilha, na Síria, receberam as armas eram jihadistas, alguns dos quais afiliados à al-Qaeda. (O porta-voz da Inteligência da Defesa disse: “A ideia de que os EUA forneceram a quem quer que fosse armas vindas da Líbia é falsa”).

Em janeiro, a Comissão de Inteligência do Senado distribuiu documento sobre o assalto, por uma milícia local, em setembro de 2012, ao consulado norte-americano e a uma instalação clandestina da CIA que funcionava na mesma área, em Benghazi, e que resultou na morte do embaixador Christopher Stevens dos EUA e três outros. A crítica que o documento fez ao Departamento de Estado, por não ter dado adequada segurança ao consulado; e à comunidade de inteligência, por não ter alertado os militares sobre a presença da CIA na mesma área, recebeu manchetes de primeira página e reacendeu animosidades em Washington, com os Republicanos acusando Obama e Hillary Clinton de operarem na clandestinidade. O documento divulgado veio acompanhado e um anexo, que não foi divulgado, e que informa sobre um acordo secreto, assinado no início de 2012, entre o governo Obama e o governo Erdoğan. É o acordo que criou a linha do rato. Pelos termos desse acordo, o dinheiro veio da Turquia, da Arábia Saudita e do Qatar; a CIA, com apoio do MI6, ficou responsável por infiltrar na Síria armas retiradas do arsenal de Gaddafi. Várias empresas de fachada foram criadas na Líbia, algumas criadas como se fossem entidades australianas. Soldados norte-americanos aposentados, que nem sempre souberam quem realmente os empregava, foram contratados para administrar despacho e embarque. Essa operação era comandada por David Petraeus, diretor da CIA que logo renunciaria, quando se divulgou que mantinha um affair com sua biógrafa. (Porta-voz de Petraeus negou que essa operação tenha algum dia existido).

Essa operação jamais foi informada, quando foi montada, às comissões de Inteligência do Senado e da Câmara de Deputados no Congresso, nem às lideranças do Congresso, como a lei exige, desde a década de 1970. O envolvimento do MI6 permitiu à CIA burlar a lei, apresentando a missão como operação de ligação. Meu informante explicou que durante muitos anos havia uma exceção reconhecida na lei que permite que a CIA não informe ao Congresso suas atividades de ligação, porque implicaria revelar atividade de terceiros. (Operações clandestinas da CIA [que não sejam operação de ligação] têm de ser informadas num documento escrito, chamado finding, submetido às lideranças no Congresso, e têm de ser aprovadas). Esse anexo só foi lido pelos redatores do documento e por oito pessoas no Congresso: os líderes Republicano e Democrata na Câmara, no Senado e nas Comissões de Inteligência da Câmara e do Senado. Não se pode dizer que haja aí alguma genuína prestação de informação ou possibilidade de controle: não há instância, no governo dos EUA, na qual esses oito líderes encontrem-se para discutir informação secreta que só eles, em todo o governo, recebem.

O anexo não conta toda a história do que aconteceu em Benghazi antes do ataque nem explica por que o consulado dos EUA foi atacado. "A única missão daquele consulado era dar cobertura ao movimento de armas – disse meu informante, ex funcionário da inteligência, que leu o anexo − não tinha nenhuma real função política."

Depois do ataque ao consulado, Washington pôs fim repentinamente ao trabalho da CIA na transferência de armas da Líbia para a Síria, mas a linha de rato continuou ativa. "Os EUA já não têm qualquer controle sobre o que os turcos estão entregando aos jihadistas – disse meu informante." Em poucas semanas, cerca de 40 lançadores portáteis de mísseis terra-ar, conhecidos como manpads, estavam em mãos de rebeldes sírios. No dia 28 de novembro de 2012, Joby Warrick do Washington Post noticiou que, na véspera, rebeldes na região de Aleppo haviam, quase com certeza, usado um manpads para derrubar um helicóptero de transporte sírio. "O governo Obama − escreveu Warrick − muito se opôs a que se armasse a oposição síria com esses equipamentos, alertando que essas armas facilmente cairiam em mãos de terroristas e poderiam a qualquer momento ser usadas para derrubar aviões comerciais." Dois funcionários da inteligência do Oriente Médio apontaram o Qatar como fonte das armas, e um ex-analista de inteligência dos EUA especulou que os manpadspoderiam ter sido roubados de depósitos de armas do exército sírio assaltados por rebeldes. Não há qualquer indicação de que a posse desse tipo de armamento pelos rebeldes possa ser algum tipo de consequência não desejada de alguma operação clandestina dos EUA que tenha escapado do controle dos EUA.

No final de 2012, toda a inteligência norte-americana entendia que os rebeldes estavam perdendo a guerra. "Erdoğan estava furioso – continua meu informante – Sentia-se deixado para trás, pendurado no galho. Era dinheiro dele. E a saída da CIA foi interpretada como traição." Na primavera de 2013, a inteligência dos EUA soube que o governo turco – usando elementos de sua agência nacional de inteligência, MIT, e a Gendarmerie, unidade policial militarizada – estava trabalhando diretamente com a Frente al-Nusra e seus aliados para desenvolver capacidade de armas químicas. "O MIT fazia a ligação política com os rebeldes, e a Gendarmeriecuidava da logística militar, aconselhamento e treinamento em campo – inclusive treinamento para guerra química. Ampliar o papel da Turquia na primavera de 2013 foi visto como movimento chave − disse meu informante." "Erdoğan sabia que, se ele suspendesse o apoio aos jihadistas, a coisa estaria acabada. Os sauditas não têm como apoiar diretamente a guerra na Síria, por causa da logística – as grandes distâncias envolvidas e a dificuldade para mover armas e suprimentos. A esperança de Erdoğan era criar um fato que forçasse os EUA a acionar a linha vermelha. Mas em março e abril, Obama não respondeu."

Não houve nenhum sinal público de discordância, quando Erdoğan e Obama encontraram-se, dia 16 de maio de 2013 na Casa Branca. Em conferência de imprensa, depois, Obama disse que os dois concordavam que “Assad tem de sair”. Perguntado sobre se entendia que a Síria tivesse cruzado a linha vermelha, Obama disse que havia evidência de que aquelas armas haviam sido usadas, mas acrescentou: “É importante para nós garantir que obtenhamos informação mais específica sobre o que, exatamente, está acontecendo lá”. A linha vermelha continuava ainda intacta.

Um especialista em política externa dos EUA, que fala regularmente com funcionários em Washington e Ancara contou-me sobre um jantar de trabalho que Obama ofereceu a Erdoğan, durante sua visita em maio. O jantar foi dominado pela insistência, dos turcos, de que a Síria já ultrapassara a linha vermelha, e suas reclamações de que Obama relutava em fazer alguma coisa quanto a isso. Obama estava acompanhado por John Kerry e Tom Donilon, o conselheiro de segurança nacional que pouco depois deixaria o cargo. Erdoğan estava com Ahmet Davutoglu, Ministro de Relações Exteriores da Turquia, e Hakan Fidan, chefe do MIT. Fidan é conhecido por ser fortemente leal a Erdoğan, e tem sido visto como dedicado apoiador da oposição rebelde na Síria.

Esse especialista em política externa dos EUA contou-me que o que ouviu ele ouviu de Donilon. (Adiante a informação foi confirmada por um ex-funcionário do governo dos EUA, que ouviu o mesmo relado de um alto diplomata turco). Segundo esse especialista, Erdoğan quis o encontro para demonstrar a Obama que a linha vermelha fora infringida, e levou Fidan para expor os detalhes de sua posição. Quando Erdoğan tentou introduzir Fidan na conversa e Fidan começou a falar, Obama o interrompeu: “Já sabemos”. Erdoğan tentou outra vez introduzir Fidan, uma segunda vez, e, pela segunda vez, Obama cortou-lhe a palavra: “Nós sabemos”. Nesse ponto, furioso, Erdoğan disse “Mas sua linha vermelha já foi ultrapassada!”, e Donilon contou ao especialista, meu informante: "aquele filho da puta do Erdoğan meteu o dedo no nariz do presidente, dentro da Casa Branca." Obama então se virou para Fidan e disse: “Nós sabemos o que você está fazendo com os radicais na Síria”. (Donilon, que passou a integrar o Conselho de Relações Exteriores em julho passado (2013) não responde perguntas sobre esse jantar. O Ministério de Relações Exteriores da Turquia não responde perguntas sobre esse jantar. Um porta-voz do Conselho de Segurança Nacional confirmou que o jantar aconteceu e enviou uma fotografia em que se vê Obama, Kerry, Donilon, Erdoğan, Fidan e Davutoglu à mesa. Disse que “além do que aí vai, não há detalhes das discussões”).

Nem por isso Erdoğan saiu de mãos abanando. Obama continua a permitir que a Turquia explore um furo numa ordem executiva do presidente que proíbe exportar ouro para o Irã, item do regime de sanções dos EUA contra o país. Em março de 2012, respondendo a sanções contra bancos iranianos impostas pela União Europeia, o sistema de pagamento eletrônico SWIFT, que facilita pagamentos trans-fronteiras, expulsou dúzias de instituições financeiras iranianas, o que restringiu severamente a capacidade do país para atuar no comércio internacional. Os EUA vieram logo depois, com a ordem executiva, em julho, mas deixaram aberta uma porta que viria a ser conhecida como “furo dourado”: podem continuar os embarques de ouro para entidades privadas iranianas. A Turquia é a maior compradora de petróleo e gás iranianos, e beneficia-se do “furo dourado”, depositando seus pagamentos pela energia que compra em liras turcas, numa conta iraniana na Turquia; esse dinheiro então é usado para comprar ouro turco que é exportado para empresas no Irã. Sabe-se que entraram US$13 bilhões em ouro, no Irã, por essa via, entre março de 2012 e julho de 2013.

Esse programa rapidamente se converteu em vaca de tetas fartas para políticos corruptos e comerciantes na Turquia, no Irã e nos Emirados Árabes Unidos. "Os intermediários fazem o que sempre fazem – disse o ex funcionário da inteligência, meu informante – Ficam com 15%. ACIA estimou em cerca de 2 bilhões de dólares a parte não oficial desses negócios. Ouro e liras turcas grudam nos dedos." O escândalo do “gás por ouro” veio a público na Turquia em dezembro, e resultou em denúncias criminais contra duas dúzias de pessoas, empresários conhecidos e familiares de altos funcionários do governo, além de ter gerado renúncia de três ministros, um dos quais exigiu que Erdoğan também renunciasse. O principal executivo de um banco estatal turco envolvido no escândalo insistiu que os mais de US$ 4,5 milhões em dinheiro que a polícia encontrou em sua casa, metidos em caixas de sapato, destinavam-se a doações para instituições de caridade.

No final do ano passado, Jonathan Schanzer e Mark Dubowitz em matéria para aForeign Policy noticiaram que o governo Obama fechara o “furo dourado” em janeiro de 2013, mas “trabalhou para garantir que a legislação só começasse a viger depois de seis meses”. Os autores especulam que o governo quis usar aquele tempo “extra” como “incentivo para trazer o Irã à mesa das barganhas sobre seu programa nuclear, ou para acalmar seu aliado turco na guerra civil síria. Os seis meses garantiram alguns bilhões a mais, em ouro, ao Irã, e minaram ainda mais o regime de sanções”.

***

A decisão dos EUA de pôr fim ao apoio da CIA ao embarque de armas para a Síria deixou Erdoğan exposto politicamente e militarmente. "Uma das questões da reunião de maio era o fato de que a Turquia é a única via para fazer chegar armas aos rebeldes na Síria – disse meu informante ex funcionário da inteligência. As armas não podem chegar pela Jordânia porque o terreno ao sul é aberto e há sírios por toda parte. Não podem ser deslocadas pelos vales e colinas do Líbano – porque ninguém nunca sabe o que encontrará do outro lado.” Sem o apoio militar dos EUA aos rebeldes – disse ele – o sonho de Erdoğan de ter na Síria um estado cliente está evaporando. Depois de a Síria vencer a guerra, Erdoğan sabe para onde irão aqueles milhares de rebeldes. E para onde iriam?! Erdogan está a um passo de ter milhares de radicais bem ali, no quintal dele."

Um consultor de inteligência dos EUA contou-me que poucas semanas antes de 21/8/2013, viu um documento altamente secreto preparado para Dempsey e o Secretário de Defesa, Chuck Hagel, que falava da “aguda ansiedade” do governo Erdoğan quanto às perspectivas sombrias para os rebeldes. A análise alertava que a liderança turca expressara “a necessidade de fazer alguma coisa que precipite uma resposta militar dos EUA”. No final do verão (agosto/setembro 2013), o exército sírio ainda estava em vantagem sobre os rebeldes, disse o ex funcionário da inteligência, e só o poder aéreo norte-americano conseguiria inverter a maré. No outono, prosseguiu ele, analistas de inteligência dos EUA que continuavam a trabalhar sobre os eventos de 21/8/2013, "já sentiam que a Síria não era responsável pelo ataque com sarín. Mas o gorila gigante continuava ali, diante deles: quem teria feito aquilo, em Goutha? Os suspeitos, de imediato, foram os turcos, porque só os turcos tinham todas as peças para fazer acontecer o que aconteceu. "Com mais dados e novas comunicações interceptadas relacionadas aos ataques de 21/8/2013, a comunidade de inteligência viu provas que apoiavam suas suspeitas. "Agora já sabemos que foi operação clandestina planejada por gente de Erdoğan, para forçar Obama a atacar, por “infração à linha vermelha” – disse-me meu informante, ex funcionário da inteligência dos EUA. – Eles tinham de escalar para um ataque a gás, em Damasco ou perto de Damasco, quando os inspetores da ONU (que chegaram a Damasco dia 18/8, para investigar ataques anteriores) – “estivessem lá”. Era indispensável fazer algo espetacular. Nossos mais altos funcionários militares foram informados pela Agência de Inteligência da Defesa e outras fontes de inteligência, de que o sarín chegou até lá através da Turquia – que só poderia ter chegado lá com apoio da Turquia. Os turcos também deram treinamento para produzirem e manusearem o gás sarín." Muita da informação que dá apoio a essa avaliação veio dos próprios turcos, através de conversas interceptadas logo depois do ataque. "A principal prova veio das muitas manifestações de alegria e felicitações mútuas, claras em numerosas conversas interceptadas. Operações secretas sempre são muito supersecretas durante o planejamento, mas milhares de moscas voam para todos os lados, na hora das comemorações. Não há vulnerabilidade maior que os autores, depois, quando começam a querer parabéns pelo sucesso, disse meu informante." "Para Erdoğan, seus problemas estariam, no dia seguinte, resolvidos: Soltem o gás, Obama declara “pisou na linha vermelha’, EUA atacam a Síria... Ou pelo menos, a ideia era essa. Mas não funcionou como o esperado, concluiu."

A inteligência sobre a Turquia, depois do ataque, não chegou à Casa Branca. "Ninguém quer falar sobre isso – disse o ex oficial de inteligência, meu informante. – Há muita relutância em contradizer o presidente, embora a comunidade de inteligência jamais tenha apoiado unanimemente a versão da culpa dos sírios. Jamais surgiu nem fiapo de prova posterior do envolvimento dos sírios no ataque com sarín que tenha sido apresentada pela Casa Branca, desde que o bombardeio foi cancelado. O governo de Obama nada pode dizer, porque eles mesmos agimos de modo muito irresponsável. Além do mais, já que culpamos Assad, agora não podemos nos desdizer e culpar Erdoğan."

A presteza com que a Turquia manipula os eventos na Síria na direção de seus próprios objetivos foi bem demonstrada no final do mês passado (março/2014), alguns dias antes de eleições locais na Turquia, quando a gravação de uma conversa, supostamente entre Erdoğan e seus associados, foi postada emYouTube. Incluía discussão sobre uma operação a ser atribuída a terceiros, que justificaria uma incursão de militares turcos na Síria. A operação girava em torno do túmulo Suleyman Shah, avô do reverenciado Osman I, fundador do Império Otomano, localizado perto de Aleppo, mas túmulo que foi cedido à Turquia em 1921, quando a Síria estava sob governo francês. Uma das facções islamistas rebeldes ameaçava destruir o túmulo, como local de idolatria, e o governo Erdoğan ameaçava publicamente retaliar, se o túmulo sofresse qualquer ataque. Segundo matéria distribuída pela Reuters, sobre a conversa que vazou, uma voz, que se suspeita seja Fidan, falava de criar uma provocação: "Olhe aqui, meu comandante [Erdoğan], se precisa de justificativa, a justificativa é eu mandar quatro homens até o outro lado. Mando dispararem oito mísseis em terra vazia [perto do túmulo].Isso não é problema. A justificativa, se cria." O governo turco reconheceu que houve uma reunião de segurança nacional, sobre ameaças vindas da Síria, mas disse que a gravação fora manipulada. Na sequência, o governo turco bloqueou completamente o acesso público ao canal YouTube.

Exceto essa ação, que foi barrada por Obama, o mais provável que a intromissão da Turquia na Síria prossiga. "Perguntei a colegas meus se há algum modo de vedar o continuado apoio de Erdoğan aos rebeldes, sobretudo agora, que tudo está tomando rumo tão ruim” – disse-me meu informante, ex funcionário da inteligência dos EUA. A resposta deles foi “Estamos ferrados”. Até poderíamos tentar ir a público, se fosse outro. Mas a Turquia é caso especial. A Turquia é aliada na OTAN. Os turcos não confiam no ocidente. Não continuariam conosco se adotássemos qualquer procedimento ativo contra interesses turcos. Se fôssemos a público com o que sabemos sobre o papel de Erdoğan no caso do gás, seria um desastre. Os turcos nos odiariam. Diriam: “Não nos digam o que podemos ou não podemos fazer.”

3 de abril de 2014

Rememorar 1964

Marcos Napolitano


Qual é o sentido de rememorarmos o meio século do golpe de Estado, militar ou, como o evento de 1964 vem sendo qualificado, civil-militar?

Em primeiro lugar, é preciso rememorar 1964 como ruptura histórica. Um dos objetivos mais claros do golpe era neutralizar uma elite política reformista que então se gestava. Com isso, os novos donos do poder isolaram por décadas o coração do Estado de uma pauta política de esquerda que tentava, apesar de seus eventuais erros políticos, corrigir os efeitos de uma exclusão social secular na sociedade.

Ademais, reprimiram duramente um conjunto incipiente de movimentos sociais e sindicais que se afirmavam como protagonistas da história. O golpe, portanto, destruiu uma frágil, porém inédita, experiência democrática entre nós, a "República de 46". Foi demais para a nossa tradição conservadora e autoritária.

Por outro lado, paradoxalmente, é preciso rememorar 1964 enquanto continuidade histórica. A heterogênea coalizão civil-militar conservadora que saiu vencedora convergia no anticomunismo visceral, o fantasma ameaçador da Guerra Fria. Também queria aprofundar o desenvolvimento capitalista dentro de um dado modelo associado ao grande capital internacional, modelo que, a rigor, foi consolidado por Juscelino Kubitschek.

O golpe, nesse sentido, reforçou tendências ideológicas, políticas de desenvolvimento e posições geopolíticas do Brasil que eram anteriores à tomada de poder pelos militares.

Finalmente, é preciso rememorar 1964 de maneira autorreflexiva, como marco de memória. Todo evento histórico, ainda mais com essa magnitude, conecta-se a outros eventos, anteriores e posteriores, produzindo várias memórias sociais, algumas dominantes e hegemônicas, outras marginalizadas. Nesse processo, grupos sociais veem sentidos diferentes para o mesmo evento.

As formas dominantes da memória social são sempre mutáveis. Lembrar 1964 hoje pode ter um sentido diferente de lembrar o golpe em 1974, em 1984, em 1994, ou em 2004.

O Brasil de 2014 experimenta uma situação paradoxal. A democracia institucional parece consolidada, apesar das fragilidades políticas de sempre, das histerias conservadoras em relação ao "projeto de poder" da esquerda e da incompetência das autoridades para superar problemas sociais graves.

Já os valores democráticos parecem cada vez mais ameaçados por uma opinião pública difusa, porém crescente, ganhando até expressão em setores da mídia. As vozes contra a extensão de direitos sociais e civis, sem falar na crítica pueril aos direitos humanos, estão agressivas e disseminadas mesmo entre a classe média escolarizada, ao contrário de outros aniversários do golpe.

O fantasma da ditadura, ao que parece, mudou de casa, cresceu e continua nos assombrando. Por isso é preciso rememorar, lembrar criticamente como 1964 começou. Nunca esquecer que palavras de ordem que parecem defender a coletividade como "segurança", "liberdade", "moralidade pública" e "família" podem estar preparando uma nova catástrofe se não forem acompanhadas de profunda reflexão do que significa a democracia: direito de manifestação crítica e discordância, igualdade perante a lei e dignidade da pessoa humana.

Sobre o autor


Marcos Napolitano, 51, é professor de história do Brasil da Universidade de São Paulo.

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