17 de janeiro de 2005

Conheça o Tio Sam sem roupas

Em 23 de fevereiro, André Gunder Frank, renomado acadêmico, escritor e ativista de esquerda, faleceu após uma longa batalha contra o câncer. Uma vez apontado como possível ministro da economia cubano por Che Guevara, Frank embalou seus 76 anos de vida com o apoio para a luta progressista e uma saída formidável para a análise econômica e social. No momento da sua morte, ele estava negociando com a Green Left Weekly para publicar seu último texto, escrito em 18 de janeiro, na íntegra. Aqui está.

André Gunder Frank


Tradução / O Tio Sam renegou e não cumpriu mais de 40% do seu trilhão (10¹²) de dólares de dívida externa, e ninguém disse uma palavra exceto uma linha no The Economist. Em bom inglês isto significa que o Tio Sam frauda o mundo inteiro com o dólar que ele fabrica baseado na confiança pedida e recebida dos outros espalhados por todo o planeta, e é também um caloteiro (deadbeat) pois não honra nem devolve o dinheiro que recebeu.

Quanto da nossa aposta em dólar perdemos depende de quanto originalmente pagamos por ele. O Tio Sam deixou o seu dólar cair, ou melhor, através das suas políticas econômicas deliberadas levou-o a cair, em 40%, de 80 centavos por euro para 133 centavos. O dólar está baixo numa proporção semelhante em relação ao yen, ao yuan e a outras divisas. E ainda está a declinar. Na verdade, tende a mergulhar totalmente.
Também houve um dilúvio de desvalorizações competitivas na década de 1930, denominadas "enfraquece a posição do teu vizinho", com a transposição de custos para as costas dos vizinhos. Na verdade, como o dólar tem declinado, também declina o valor real que os estrangeiros pagam pelo serviço da sua dívida ao Tio Sam. Mas isto funciona só se eles próprios puderem ganhar em divisas que aumentaram de valor em relação ao dólar. Caso contrário, os estrangeiros ganham e pagam nos mesmos dólares desvalorizados, e mesmo assim com alguma perda devido à desvalorização entre o momento em que obtiveram os seus dólares e o momento em que tiveram de repagá-los ao Tio Sam. A China e outros países do Extremo Oriente ganham em dólares, ao quais estão ligadas (pegged) as suas respectivas divisas, de modo que eles já perderam uma porção substancial da sua aposta em dólares, de longe a maior do mundo.

E, tal como todo os outros, eles também perderão o resto. Pois a dívida do Tio Sam para com o resto do mundo já monta a mais de um terço da sua produção interna anual e continua a crescer. Isto só por si já faz com que a sua dívida seja economicamente e politicamente impagável, mesmo se ele quisesse — o que não acontece. A dívida interna do Tio Sam, ex.: cartões de crédito, é quase 100% do produto interno bruto (PIB) e do consumo, incluindo o da China. A dívida federal do Tio Sam é agora de US$ 7,5 triliões, dos quais quase US$ 1 trilião foi erguida nas últimas três décadas, os últimos US$ 2 trilhões nos últimos oito anos, e o último US$ 1 trilhão nos últimos dois anos. Infelizmente, isto custa mais de US$ 300 bilhões por ano em juros, o que pode ser comparado com, por exemplo, os US$ 15 bilhões gastos anualmente com a National Aeronautics and Space Administration (NASA). Mas não se preocupem: o Congresso acaba de aumentar o teto da dívida para US$ 8,2 trilhões. Para ajudar-nos a visualizar isto, US$ 1 trilhão atados de forma bem compacta em notas de US$ 1000 formaria uma pilha com 100 km de altura.

Mas cerca da metade é possuída por estrangeiros. Toda a dívida do Tio Sam, incluindo o consumo doméstico privado, os cartões de crédito, as hipotecas, etc de cerca de US$ 10 triliões, mais as corporativa e financeiras, com opções, derivativos e semelhantes, e a do Estado e governos locais chegam a um montante não visualizável, na verdade inimaginável, de US$ 37 triliões, o que corresponde a aproximadamente quatro vezes do PIB do Tio Sam. Somente alguma dela pode ser administrada internamente, mas com perigosas limitações para o Tio Sam como se observa abaixo. Esta é a única razão porque quero apresentá-lo ao Tio Sam, o caloteiro, o qual pode recorda-lo do filme Meet Joe Black¹; mas quando nós o conhecermos melhor, mais abaixo, descobriremos que ele também é um Shylock², além de corrupto.

A Guerra Fria por procuração do Tio Sam

Os Estados Unidos são o país mais privilegiado do mundo por terem o monopólio de imprimir a divisa de reserva mundial à vontade e a um custo nulo excepto quanto ao papel e à tinta de impressão. Além disso, ao fazer isto, o Tio Sam pode exportar para fora a inflação que ele gera através dos dólares extra que imprime, dos quais já há pelo menos mais três vezes a circularem no mundo do que aqueles que Tio Sam tem dentro de casa. Adicionalmente, o seu país é também o único cuja dívida "estrangeira" é denominada principalmente na própria divisa mundial que ele pode imprimir à vontade, ao passo que a maior parte da dívida externa dos estrangeiros também é denominada nos mesmos dólares, mas eles têm de ser comprados ao Tio Sam com a sua própria divisa e bens reais. Assim, ele simplesmente paga aos chineses e aos outros fundamentalmente com estes dólares que já principiam a não ter qualquer valor real além do seu papel e da sua tinta. De modo que, especialmente a pobre China, entrega por nada ao rico Tio Sam centenas de milhares de milhões de dólares em bens reais produzidos internamente e consumidos pelo Tio Sam. A seguir a China volta outra vez a comerciar estes mesmos dólares de papel por mais papeis do Tio Sam, chamados títulos Certificados do Tesouro (Treasury Certificate), os quais são ainda mais sem valor excepto pelo facto de pagarem uma taxa de juros. Pois como notamos, eles nunca poderão ser plenamente ou mesmo parcialmente resgatados, e de qualquer forma já terão perdido muito do seu valor para o Tio Sam.

Num ensaio anterior argumentei que o poder do Tio Sam repousa apenas sobre dois pilares: o dólar de papel e o Pentágono. Um apoia o outro, mas a vulnerabilidade de cada um é também um calcanhar de Aquiles que ameaça a viabilidade do outro. Desde então, o Iraque, para não mencionar o Afeganistão, tem mostrado que a confiança no Pentágono não é inabalável, assim como a confiança na capacidade do Tio Sam para utilizá-lo no financiamento das aventuras estrangeiras do Pentágono (ver Coup d'Etat and Paper Tiger in Washington, Fiery Dragon in the Pacific, que também destaca o crescimento produtivo da China). Adicionalmente, devemos perceber que todos os números do Tio Sam, acima e abaixo, também são literalmente relativos. Até agora as relações com outros países, em particular com a China, ainda favorecem o Tio Sam, mas elas também ajudam a manter uma imagem que é enganadora. Considere-se o seguinte:

Um brinquedo de US$ 2 ao sair de uma fábrica possuída pelos EUA na China é um carregamento de US$ 3 a chegar a San Diego. Quando um consumidor americano compra-o por US$ 10 na cadeia Wal-Mart, a economia americana regista US$ 10 em vendas finais, menos US$ 3 do custo de importação, com uma adição de US$ 7 ao PIB americano (Blaming "undervalued" yuan wins votes, Asia Times Online, 26 de fevereiro de 2004)

Além disso, o sempre esperto Tio Sam arranjou as coisas de modo a ganhar 9% dos seus haveres econômicos e financeiros no exterior, enquanto os estrangeiros podem ganhar apenas 3% sobre os seus, e entre eles sobre os seus Certificados do Tesouro há apenas 1% de retorno real. Note-se que esta diferença de 6 pontos percentuais já é o dobro do que o Tio Sam paga para fora, e o total de 9% que toma é o triplo dos 3% que ele dá de volta. Portanto, embora os haveres estrangeiros e os do Tio Sam sejam agora aproximadamente iguais, o Tio Sam ainda é o grande vencedor líquido, tal como qualquer Shylock, mas nenhum outro fez alguma vez tão grande negócio.

Mas o Tio Sam também ganha bastante bem, obrigado, dos outros haveres no exterior, ex.: pelo pagamentos de serviços da maior parte dos pobres devedores estrangeiros. As somas envolvidas não são amendoins nem mesmo batatinhas. Só dos seus investimentos diretos em propriedade estrangeira os lucros do Tio Sam agora equivalem a 50%, e incluindo as suas receitas dos outros haveres no exterior agora são plenos 100% dos lucros derivados de todas as suas atividades internas próprias combinadas. Estas receitas estrangeiras acrescentam mais de 4% ao produto nacional do Tio Sam. Isto ajuda lindamente a compensar o fracasso dos lucros internos ainda por recuperar do seu nível de 1972, porque o Tio Sam fracassou em promover suficientemente a produtividade dentro de casa.

O alarde sobre a produtividade da "nova economia" do presidente Bill Clinton na década de 1990 estava limitado a computadores e tecnologia da informação (TI), e mesmo isso demonstrou-se ser uma impostura quando estourou a bolha das dot-com. Além disso, não só o aumento aparente dos "lucros" como também o da "produtividade" repousavam, na base, nas costas dos do chão da fábrica, dos escritórios e dos trabalhadores em vendas a laborarem mais arduamente e durante mais horas e, no topo, resultou na contabilidade criativa trapaceada pela Enron e assemelhadas. Tais factores ainda compensam e permite grande parte do défice comercial de US$ 600 mil milhões do Tio Sam, que continua a aumentar, e o excesso de consumo interno em relação ao que ele próprio produz. Foi isto que resultou da dívida multitrilionária. O Tio Sam é relutante em revelar quanto é exatamente esta dívida, mas o que é seguro é que ela é de longe a maior do mundo, mesmo considerando a dívida líquida dos estrangeiros, depois de o seu débito para com ele ser deduzido.

Tio Sam não pode salvar-se por si próprio: está viciado no consumo e em outras drogas

A resposta simples é que o Tio Sam, que está cada vez mais viciado no consumo, sem mencionar o vício nas drogas duras, não poupa mais do que 0,2% do seu próprio rendimento. O guru da Reserva Federal. Alan Greenspan, observou recentemente que isto é assim porque os 20% dos americanos mais ricos, que são os únicos que fazem poupança, reduziram as suas poupanças para 2%. Ainda assim, estas miseráveis poupanças (outros, países mais pobres, poupam e até investem 20%, 30% e mesmo 40% do seu rendimento) são mais do que contra-balançadas pelos 6% de défice gastos pelo governo. É isto que traz a taxa de poupança média para 0,2%. Para manter este défice orçamental de mais de US$ 400 mil milhões (mais de 3% do produto interno nacional), que na realidade é de mais de US$ 600 mil milhões se contarmos, como devemos, os mais de US$ 200 mil milhões que o Tio Sam "empresta" dos excedentes temporários do seu próprio fundo Federal de Segurança Social, que também está em bancarrota. (Mas não importa, o presidente George W. Bush acaba de prometer privatizar muito disto e deixar as pessoas comprarem a sua própria "segurança" para a velhice no mercado cada vez mais inseguro).

Assim, com estes mais de US$ 600 mil milhões de défice orçamental e o défice já mencionado de mais de US$ 600 mil milhões, o rico Tio Sam, e primariamente os seus mais altos ganhadores e maiores consumidores, bem como, naturalmente, o próprio Tio Grande, vivem da gordura das terras do resto do mundo. O Tio Sam absorve as poupanças dos outros que muitas vezes são muito mais pobres, particularmente quando os seus bancos centrais colocam muitas das suas reservas na divisa mundial dos dólares e portanto dentro das mãos do Tio Sam em Washington, e alguns também em dólares internamente. Os seus investidores privados enviam dólares ou compram ativos em dólares na Wall Street, sempre com a confiança de que estão as colocar os seus recursos no paraíso mais seguro do mundo (e isto, naturalmente, faz parte da já mencionada fraude na confiança). Só da parte dos bancos centrais, estamos a olhar para quantias anuais de mais de US$ 100 mil milhões da Europa, mais de US$ 100 mil milhões da pobre China, US$ 140 mil milhões do Japão super-poupador, e muitas dezenas de milhares de milhões de muitos outros por todo o globo, incluindo o Terceiro Mundo. Mas além disso o Tio Sam obriga-os, através dos bons ofícios dos seus próprios estados, a enviar deste modo literalmente poupanças forçadas para o Tio Sam bem como na forma do seu "serviço" da sua dívida predominantemente em dólares para com eles.

Como o Tio Sam cria e recebe a dívida do Terceiro Mundo

O seu secretário do Tesouro e o seu criado Fundo Monetário Internacional (FMI) continuam alegremente a pavonear-se por todo o mundo a insistir em que o Terceiro — e o ex-Segundo, agora também Terceiro — Mundo continuem o serviço das suas dívidas externas, especialmente para com ele. Não importa que com as taxas de juro multiplicadas várias vezes pelo próprio Tio Sam depois do golpe de Paul Volcker em outubro de 1979, a maior parte da qual já foi paga três a cinco vezes em relação ao seu empréstimo original. Para pagar tudo às taxas de juro que Volcker disparou para 20% eles têm de emprestar ainda mais a taxas ainda mais altas até com isso a sua considerável dívida externa ter duplicado e triplicado, sem mencionar a sua dívida interna da qual parte dos pagamentos estrangeiros foram elevados, particularmente no Brasil. A privatização é o nome do jogo ali e por toda a parte, exceto quanto à dívida. A dívida foi socializada depois de ser sido assumida principalmente pelos negócios privados, mas só o Estado tem o poder suficiente para espremer o grande volume de pagamentos atrasados dos esconderijos dos pobres e das camadas médias e transferi-los como "pagamento do serviço de invisíveis" para o Tio Sam.

Quando disseram aos mexicanos para apertarem os cintos mais uma vez, eles responderam que não podiam porque já haviam comido os seus cintos. Só a Argentina e por um momento a Rússia declararam uma moratória efetiva no seu "serviço" da dívida, e isto só depois de políticas econômicas que destruíram as suas sociedades, graças aos conselheiros do Tio Sam e ao braço forte do FMI. Desde então, o próprio Tio Sam tem estado alegremente a incumprir (defaulting) a sua própria dívida externa, tal como já aconteceu várias vezes antes durante o século XIX.

Por falar nisso, é bom recordar pelo menos dois conselhos dados naquele tempo: Lord Cromer, que administrou o Egito para os interesses imperiais britânicos então dominantes, disse que o seu mais importante instrumento para fazer isso foram as dívidas do Egito para com a Grã-Bretanha. Estas haviam-se simplesmente multiplicado quando o Egito foi obrigado a vender as suas ações do Canal de Suez à Grã-Bretanha a fim de pagar as suas dívidas anteriores e o primeiro-ministro britânico Benjamin Disraeli explicou e justificou a compra do mesmo com o argumento de que fortaleceria os interesses imperiais britânicos. Hoje, isto é chamado "debt-for-equity swaps", que é uma das políticas favoritas recentes do Tio Sam: usar a dívida para adquirir recursos reais lucrativos e/ou estrategicamente importantes, tal como era o canal no caminho da joia do Império Britânico, a Índia.

Outra peça de conselho prático veio do primeiro estrategista militar, Carl von Clausewitz: fazer com que as terras que você conquiste paguem a sua própria conquista e administração. É claro que foi exatamente o que fez a Grã-Bretanha na Índia através dos infames "Home Charges" remetidos para Londres como pagamento pela administração britânica na Índia, os quais mesmo os próprios britânicos reconheceram como "tributo" e como responsável por grande parte do "Drenagem" da Índia para a Grã-Bretanha. Torna-se mais eficiente ainda deixar os próprios estados dos países estrangeiros administrarem-se, mas através de um conjunto de regras impostas pelo FMI do Tio Sam e então efetuar um dreno do serviço da dívida. Realmente, também nisto os britânicos estabeleceram no século XIX o precedente de contar com o "imperialismo do livre comércio" com Estados "independentes" tanto quanto possível e por tanto tempo quanto possível, utilizando a diplomacia da canhoneira para fazer tal trabalho (o que o Tio Sam aprendeu a copiar no princípio do século XX); e se isto não fosse suficiente, simplesmente invadir, e se necessário ocupar — e então confiar na regra de Clausewitz.

Observaremos vários exemplos recentes disto, e especialmente o do Iraque, no segundo artigo desta série.

Depois de ter escrito o texto acima, recebi por email um excerto do sítio web Democracy Now! intitulado Confessions of an economic hit man: How the US uses globalization to cheat poor countries out of trillions. (Confissões de um assasino econômico: Como os EUA utilizam a globalização para trapacear países pobre em triliões de dólares).

"Falamos com John Perkins, um antigo e respeitado membro da comunidade bancária internacional. No seu livro "Confissões de um assasino econômico" (Confessions of an economic hit man) ele descreve como na qualidade de profissional muito bem pago ajudou os EUA a trapacearem países pobres por todo o globo em triliões de dólares emprestando-lhes mais dinheiro do que alguma vez poderiam repagar e a seguir tomando o controle das suas economias. 
John Perkins: Basicamente aquilo para que somos treinados e aquilo a que o nosso trabalho se destina é construir o império americano. Provocar — criar situações em que a maior parte possível dos recursos convirjam para este país, para as nossas companhias, e para o nosso governo e, na verdade, temos sido muito bem sucedidos. Construímos o maior império da história do mundo. [...] Fui recrutado inicialmente quando estava na business school, no fim da década de 60, pela National Security Agency, a maior e menos entendida organização de espionagem do país; e então eles nos enviaram para trabalhar em empresas privadas de consultoria, firmas de engineering, companhias de construção, de modo que se fossemos capturados não haveria qualquer conexão com o governo. 
Tornei-me economista-chefe. Acabei por ter 50 pessoas a trabalharem para mim. Mas o meu trabalho real era fazer negócios. Ela concedia empréstimos a outros países, empréstimos enormes, muito maiores do que eles possivelmente poderiam repagar. Uma das condições do empréstimo — digamos US$ 1000 milhões para um país como a Indonésia ou o Equador — e este país teria então de dar 90% daquele empréstimo de volta a uma companhia americana, ou a companhias americanas — uma Halliburtou ou uma Bechtel. [...] Hoje um país como o Equador dedica mais de 50% do seu orçamento nacional só para pagar a sua dívida. E ele realmente não pode fazê-lo. Assim nós literalmente os temos sobre um barril. De modo que quando queremos mais petróleo vamos ao Equador e dizemos: 'Olhe, você não é capaz de repagar suas dívidas, portanto dê as suas companhias de petróleo, a sua Amazônia, que estão cheias de petróleo'. E hoje estamos a destruir as florestas chuvosas da Amazônia, forçando o Equador a dá-las para nós porque eles acumularam toda esta dívida. [...] [Trabalhamos] muito, muito estreitamente com o Banco Mundial. O Banco Mundial providencia a maior parte do dinheiro que é utilizado pelo pistoleiros econômicos, ele e o FMI."

Tio Sam consome e controla o petróleo

Finalmente mas não menos importante, os produtores de petróleo também colocam as suas poupanças no Tio Sam. Como o "choque" petrolífero que restaurou o seu preço real depois de o valor do dólar ter caído em 1973, o sempre hábil pela metade Henry Kissinger fez um negócio com o maior exportadores de petróleo do mundo, a Arábia Saudita, que continuaria a apreçar o petróleo em dólares, e estes rendimentos seriam depositado com o Tio Sam e parcialmente compensados por equipamento militar. Aquele trato estendeu-se de facto a toda a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) e ainda está de pé, excepto que antes da guerra contra o Iraque aquele país subitamente optou por comutar o apreçamento do seu petróleo por euros, e o Irão ameaçou fazer o mesmo. A Coreia do Norte, o terceiro membro do "eixo do mal", não tem petróleo mas comercia inteiramente em euros. (a Venezuela é um grande fornecedor de petróleo do Tio Sam e também fornece algum a taxas preferenciais como comércio de permuta sem dólares a países pobres como Cuba. Assim, Tio Sam patrocionou e financiou comandos militares do seu Plano Colômbia do vizinho, promoveu um golpe ilegal e, quando fracassou, pressionou por um referendo na sua tentativa de uma outra "mudança de regime!, e agora juntamente com o Brasil todos os três estão a ser baptizados como um outro "eixo do mal").

Depois de escrever isto descobri que o bom pistoleiro, o sr. Perkins, também esteve na Arábia Saudita:

"Amy Goodman: No seu livro, fala de como ajudou a implementar um esquema secreto para recambiar para a economia americana bilhões de dólares dos petrodólares da Arábia Saudita, e para posteriormente cimentar a estreita relação entre a Casa de Saud e as sucessivas administrações dos Estados Unidos. Explique isto. 
John Perkins: Sim, foi uma época fascinante. Lembro-me bem — o Departamento do Tesouro, contrataram-me a mim e a outros homens de golpe econômico. Fomos para a Arábia Saudita. [...] E trabalhamos nesse negócio segundo o qual a Casa Real de Saud concordava em enviar a maior parte dos seus petrodólares para os Estados Unidos e investi-los nas ações do governo dos Estados Unidos. O Departamento do Tesouro utilizava os juros destas ações para contratar companhias americanas para a construção de novas cidades na Arábia Saudita, de novas infra-estruturas — o que cumprimos. E a Casa de Saud concordava em manter o preço do petróleo dentro de limites aceitáveis para nós, o que eles têm feito durante todos estes anos, e nós concordávamos em manter a Casa de Saud no poder enquanto eles cumprissem isso, o que cumprimos, e que é uma das principais razões por que entramos em guerra com o Iraque. E no Iraque tentamos implementar a mesma política que tinha sido tão bem sucedida na Arábia Saudita, mas Saddam Hussein não foi na conversa. Quando os homens de golpe econômico falham neste cenário, o passo seguinte são os chacais, como lhes chamamos. Os chacais são pessoas sancionadas pela CIA que chegam e tentam fomentar um golpe ou uma revolução. Se isso não resultar, passam aos assassinatos ou tentam fazê-lo. No caso do Iraque, não conseguiram chegar até Saddam Hussein. Ele tinha — Os guarda costas eram bons demais. Ele tinha duplos. Não conseguiram chegar até ele. Então, quando os homens de golpe econômico e os chacais falham, a terceira linha de defesa, a linha de defesa seguinte são os nossos rapazes e raparigas que são enviados para morrer e para matar, que é sem dúvida o que estamos a fazer no Iraque."

O maior esquema ponzi do mundo, a defraudação da confiança

Para retornar à questão principal e chamar as coisas pelo seu nome, todo o acima é parte e parcela do maior esquema de Ponzi [3] do mundo desde sempre, uma fraude. Tal como todos os outros, a sua característica mais essencial é que isto só pode continuar a pagar dólares e ser mantido a flutuar enquanto continuar a receber novos dólares na base, voluntariamente através da confiança se possível e pela força em caso contrário. (Naturalmente, as fórmulas de Clausewitz e Cromer resultam em os mais pobres pagarem a maior parte, uma vez que eles também são os mais indefesos: assim aqueles que se sentam sobre eles passam muito do custo e do sofrimento para baixo, para eles.)

O que acontece se a confiança no dólar se esgotar? As coisas já estão a ficar mais instáveis na Casa do Tio Sam. O declínio do dólar reduz o necessário influxo de dólares, assim Greenspan precisa elevar as taxas de juros para manter alguma atractividade para os dólares estrangeiros de que ele precisa para colmatar a disparidade (gap) comercial. Como compensação por ser renomeado pelo presidente George W. Bush, ele prometeu fazer isto só após a eleição. Este momento chegou agora, mas ao fazer assim ameaça colapsar a bolha interna que foi construída com base em taxas de juros baixas e hipotecas — e rehipotecas.

Mas é nos valores das suas casas que a maior parte dos americanos têm as suas poupanças, se é que eles têm alguma. Eles e este efeito de riqueza imaginária apoiado no sobreconsumo e na dívida aproximadamente tão alta quanto o PIB interno, e um colapso da bolha dos preços imobiliários com taxas de juros e de hipotecas acrescidas não só desvalorizaria os preços das casas, pois através disso teria um efeito dominó sobre as enormes segundas e terceiras rehipotecas dos seus proprietários e dos seu cartões de crédito e outras dívidas, no seu consumo, dívida corporativa e lucro, e no investimento. De facto, tais factores seriam suficientes para mergulhar o Tio Sam dentro de uma recessão profunda, se não uma depressão, e uma outra deflação Big Bear das acções e de facto dos outros preços, tornando o serviço da dívida ainda mais oneroso. (Se o dólar declina, mesmo a inflação interna dos preços é de fato deflacionária contra outras divisas, o que os russos e latino-americanos descobriram à sua própria custa, e que nós observamos abaixo).

Um ainda mais baixo investimento real americano reduziria ainda mais a sua produtividade industrial e a sua competitividade — provavelmente para um grau mais baixo do que pode ser compensado por nova desvalorização do dólar que tornassem as exportações americanas mais baratas, como é a esperança confiante de muitos, provavelmente incluindo o bom Doutor. Até agora, a aparente inflação de preços no exterior e rublos e em pesos e suas consequentes desvalorizações foram de facto deflação em termos do dólar como divisa mundial. O Tio Sam imprimiu então dólares para comprar a preços de pechincha recursos naturais na Rússia (cuja economia era então movimentada com notas de US$ 100), em companhias e até bancos, como na Coreia do Sul. Na verdade, agora Greenspan e o Tio Sam estão a tentar outra vez conseguir que bancos centrais ascendam as suas próprias taxas de juro e mergulhem os seus próprios povos dentro mesmo de uma depressão mais profunda.

Mas mesmo que eles possam, com isso eliminando também a relativa atractividade do seu próprio aumento da taxa de juro, como poderia isto salvar o Tio Sam? Aquilo que permanece a grande incógnita e talvez ainda não possa ser conhecido é como um Tio Sam mais ferido com a perda do esquema Ponzi reagiria com mais actos "patrióticos" internamente, e no exterior com as armas — incluindo as agora quase prontas "pequenas" ogivas nucleares — que ele ainda teria, mesmo que as suas vítimas estrangeiras não pudessem mais pagar por novas. Assim, para compensar por menos pão e menos direitos civis internamente, e mesmo mais patrióticos, mais ainda chauvinista, o circo à custa dos outros lá fora é o perigo real das actuais políticas de "defesa da liberdade e da civilização".

Assim, muito além de Osama bin Laden, da al-Qaeda e de todos os terroristas juntos, a maior ameaça do mundo real para o Tio Sam é que seque o influxo de dólares. Exemplo: bancos centrais estrangeiros e investidores privados (diz-se que os "chineses do ultramar" têm um trilião de dólares limpos) poderiam um dia destes decidir colocar mais do seu dinheiro alhures ao invés do dólar declinante e abandonar o pobre Tio Sam ao seu destino. A China poderia duplicar o seu rendimento per capita muito rapidamente se efectuasse investimentos reais internos ao invés de financeiros com o Tio Sam. Bancos centrais, europeus e outros, podem agora colocar as suas reservas em euros (em ascensão!) ou mesmo no yuan chinês, prestes a ser revalorizado. Não muito adiante na estrada, poderá haver uma divisa do Extremo Oriente, como por exemplo um cabaz dos primeiros da ASEAN + 3 (China, Japão, Coreia do Sul) — e a seguir + 4 (Índia). Enquanto o total das exportações da Índia nos últimos cinco anos aumentou 73%, o da Associação dos Países do Sudeste Asiático (ASEAN) aumentou o dobro daquela taxa e seis vezes para a China. A Índia tornou-se uma parceiro cimeiro da ASEAN e suas ambições estendem-se ainda mais em direcção a uma zona económica que vai desde a Índia até o Japão. Não é por acaso que, na crise de divisas seguida de crise económica plena verificada em 1997 no Leste da Ásia, o Tio Sam advertiu fortemente o Japão para que não aceitasse um fundo de divisas do Leste Asiático que fora proposto e que teria pelos menos evitado o pior da crise. Tio Sam beneficiou-se com isto ao comprar divisas desvalorizadas do Leste Asiático e utilizá-las para comprar recursos reais nestes países, e na Coreia do Sul também bancos, numa base de preços de verdadeira liquidação. Mas agora a China já dá passos em direcção a um tal acordo, só que com muito mais grandeza financeira e agora também com escala económica.

Depois de ter escrito o texto acima li em The Economist (11-17/Dezembro/2004) um relato acerca da cimeira do ASEAN +3 na semana anterior, na Malásia. O primeiro-ministro daquele país anunciou que esta cimeira deveria estabelecer o terreno para uma Comunidade do Leste Asiático (East Asian Community, EAC) que "construiria uma área de livre comércio, cooperaria em finanças e assinaria um pacto de segurança ... o que transformaria o Leste Asiático num bloco económico coeso ... De facto, alguns destes esquemas já estão em movimento ... A China, como a potência económica e militar proeminente da região, irá sem dúvida dominar ... e abrigará a segunda Cimeira do Leste Asiático". O relato avança para recordar que em 1990 o Tio Sam derrubou uma iniciativa semelhante por temer perder influência na região. Agora é um caso de "Ianque fica em casa".

Ou o que aconteceria se, muito antes disto acontecer, os exportadores de petróleo simplesmente cessarem de apreçar em dólares sempre a desvalorizar e, ao invés disso, efectuarem uma mudança comutando para o euro em ascensão e/ou um cabaz de divisas do Leste Asiático? Isto de repente diminuiria muito a procura mundial por dólares e o preço dos dólares ao obrigar quem quisesse comprar petróleo a comprar e a aumentar o preço de procura do euro ou do yen/yuan ao invés do dólar. Isto esmagaria o dólar e derrubaria o Tio Sam numa queda fatal, pois os possuidores estrangeiros -- e mesmo internos -- de dólares venderiam tanto quanto pudessem e tão rápido quanto possível, e bancos centrais de outros países substituiriam as suas reservas em dólares e não mais considerariam o Tio Sam como um abrigo seguro. Isto levaria o dólar a cair ainda mais e, naturalmente, a interromper qualquer influxo de mais dólares para o Tio Sam por parte dos estrangeiros que têm estado a financiar a sua farra de consumo. Uma vez que vender petróleo por dólares em queda ao invés de euros em ascensão é evidentemente um mau negócio, os maiores exportadores de petróleo na Rússia e na OPEP têm estado a considerar exactamente isso. Nesse ínterim, eles apenas aumentaram o preço em dólar do petróleo, de modo que em termos de euros ele tem permanecido aproximadamente estável desde 2000. Até agora, muitos exportadores de petróleo e outros ainda colocam o seu montante acrescido de dólares no Tio Sam, apesar de agora ele oferecer um abrigo cada vez menos atraente e menos seguro, mas a Rússia agora está a comprar mais euros com alguns dos seus dólares.

Assim, bancos centrais de muitos países também começaram a colocar cada vez mais das suas reservas no euro e em outras divisas que não sejam o dólar do Tio Sam. Agora mesmo o Banco Central da China, o maior amigo do Tio Sam em necessidade, começou a comprar alguns euros. A própria China também começou a utilizar alguns dos seus dólares — enquanto eles ainda são aceitos — na compra de bens reais de outros países asiáticos e milhares de toneladas de minério de ferro e aço do Brasil, etc. (o presidente do Brasil levou recentemente uma enorme delegação de negócios à China e uma delegação chinesa acaba de ir à Argentina. Eles estão a ir aos minerais da África do Sul também).

Assim, o que acontecerá aos ricos do topo do esquema Ponzi do Tio Sam quando a confiança dos bancos centrais mais pobres e dos exportadores de petróleo se esgotar, e os mais destituídos em todo o mundo, confiantes ou não, não mais puderem fazer os seus pagamentos na base? A fraude da confiança neste Esquema de Ponzi do Tio Sam levaria — ou levará — ao seu estilhaçamento, tal como todos os esquema como esse antes, só que desta vez com uma explosão em escala mundial. Isto reduziria a atual procura americana por bens de consumo a uma dimensão realista e prejudicaria muitos exportadores e produtores em outras partes do mundo. De facto, isto pode envolver uma reorganização fundamental em grande escala da política mundial agora dirigida pelo Tio Sam.

15 de janeiro de 2005

Em defesa da história

Está na moda dizer "minha verdade é tão válida quanto a sua". Mas não é verdade.

Eric J. Hobsbawm

The Guardian

"Os filósofos até agora apenas interpretaram o mundo: trata-se, agora, de transformá-lo”. A história marxista se desenvolveu por linhas paralelas correspondendo às duas metades da famosa tese de Marx. A maioria dos intelectuais que se tornou marxista depois da década de 1880, inclusive os historiadores, o fez porque queria transformar o mundo em associação com os movimentos sindical e socialista. Essa motivação permaneceu forte até os anos 1970, quando começou a reação política e ideológica maciça contra o marxismo. Seu principal efeito tem sido o de destruir a crença de que o sucesso de uma maneira particular de organizar sociedades humanas pode ser previsto e assistido pela análise histórica.

Enquanto isso, o que houve com o “interpretar o mundo”? O caso aqui é de um duplo movimento. Ele desafiou a crença positivista de que a estrutura objetiva da realidade se autoexplicava – bastava aplicar a metodologia da ciência a ela. Ao mesmo tempo, foi um movimento para trazer a história para mais perto das ciências sociais, e torná-la parte de uma disciplina generalizante capaz de explicar as transformações da sociedade humana. A história deveria tratar de “perguntar os grandes por quês”?

O marxismo contribuiu para esses dois movimentos – embora tenha sido erroneamente atacado por um alegado objetivismo cego. Mas o impacto mais familiar das ideias marxistas, a ênfase nos fatores econômicos e sociais, não era especificamente marxista; era parte de um movimento historiográfico geral que viria a atingir seu auge nos anos 1950 e 1960. O interesse histórico da maioria dos historiadores marxistas não estava tanto na base – a infraestrutura econômica – quanto nas relações da base com a superestrutura. Essa corrente socioeconômica era mais ampla que o marxismo. Esses modernizadores históricos faziam as mesmas perguntas e viam-se engajados nas mesmas batalhas intelectuais, fossem eles inspirados pela geografia humana, a sociologia weberiana ou o marxismo dos historiadores comunistas que se tornaram os portadores da modernização histórica na Grã-Bretanha.

Todos eles viam os outros como aliados contra o conservadorismo historiográfico, mesmo quando representavam posições mutuamente hostis. Esse front de progresso avançou da Segunda Guerra Mundial até os anos 1970. Seguiu-se uma transição dos estudos quantitativos para os qualitativos, da macro-história para a micro-história, da análise estrutural para a narrativa, do social para o cultural.

Desde aquela época, a coalizão modernizadora tem estado na defensiva. E, no entanto, a necessidade de insistir no que o marxismo pode trazer para a historiografia é maior do que foi por um longo tempo. A história precisa ser defendida contra aqueles que negam sua capacidade de nos ajudar a compreender o mundo, e porque novos desdobramentos nas ciências transformaram a agenda historiográfica.

Metodologicamente, o principal desenvolvimento negativo tem sido a construção de um conjunto de barreiras entre o que aconteceu na história e nossa capacidade de observá-lo e compreendê-lo. Nega-se a existência de qualquer realidade que esteja objetivamente ali e não tenha sido construída pelo observador para fins diferentes e mutáveis. Alega-se que jamais poderemos ir além das limitações da linguagem.

Enquanto isso, historiadores menos voltados para o teórico argumentam que o curso do passado é demasiado contingente para uma explicação causal, porque as opções na história são infinitas. Quase nada poderia acontecer ou poderia ter acontecido. Implicitamente, esses são argumentos contrários a qualquer ciência. Não os aborrecerei com tentativas mais triviais de volta ao passado: a tentativa de devolver os rumos da história a altos dirigentes políticos ou militares, ou à onipotência de ideias ou “valores”, ou a reduzir o conhecimento histórico à busca de empatia com o passado.

O maior perigo político imediato para a historiografia é hoje o “antiuniversalismo” ou “a minha verdade vale tanto quanto a sua, a despeito das evidências”. Isso interessa a várias formas de história de grupos de identidade, para a qual a questão central da história não foi o que aconteceu, mas como isso interessa aos membros de um determinado grupo. O importante nesse tipo de história não é a explicação racional, mas o “significado”; não o que aconteceu, mas o que os membros de um grupo coletivo que define a si mesmo contra os de fora do grupo – religioso, étnico, nacional, por gênero ou estilo de vida – sentem a seu respeito.

Os últimos 30 anos foram uma era de ouro para a invenção em massa de inverdades e mitos históricos emocionalmente torcidos. Alguns são um perigo público: estou pensando em países como a Índia sob o BJP, os Estados Unidos, a Itália de Silvio Berlusconi, para não falar de muitos novos nacionalismos, com ou sem o reforço de religiões fundamentalistas.

Isso produz um interminável palavrório nas franjas das histórias de nacionalistas, feministas, gay, negros e outros grupos de interesses, mas também estimulou novos desenvolvimentos históricos interessantes em estudos culturais, como os que têm sido chamados de “boom da memória” em história.

Já é hora de restabelecer a coalizão daqueles que acreditam na história como uma investigação racional do curso das transformações humanas, contra aqueles que distorcem a história para fins políticos – e, mais em geral, contra relativistas e pós-modernistas que negam sua possibilidade. Como alguns dos últimos se consideram na esquerda, isto poderá rachar os historiadores de maneiras politicamente inesperadas.

A abordagem marxista é um componente necessário dessa reconstrução do front da razão. Enquanto os pós-modernistas têm negado a possibilidade da compreensão histórica, alguns desenvolvimentos nas ciências naturais recolocaram na agenda uma história evolucionista da humanidade. Em primeiro lugar, a análise do DNA estabeleceu uma cronologia mais precisa da disseminação da espécie pelo mundo desde sua origem inicial africana, antes do surgimento de fontes escritas. Isso tanto estabeleceu a espantosa brevidade da história humana como eliminou a solução reducionista da sociobiologia neodarwinista.

As mudanças na vida humana nos últimos 10 mil anos, e mesmo nas últimas dez gerações, são grandes demais para serem explicadas por um mecanismo inteiramente darwinista de evolução via genes. Elas têm a ver com a aceleração da herança de características adquiridas por mecanismos culturais e não genéticos.

Em suma, a revolução do DNA exige um método específico, histórico, para estudar a evolução da espécie humana. Ela nos oferece também um arcabouço conceitual para a história mundial. A história é a continuação da evolução biológica do homo sapiens por outros meios.

Em segundo lugar, a nova biologia evolucionista elimina a distinção entre história e as ciências naturais e contorna os falsos debates sobre se a história é ou não uma ciência.

Em terceiro, ela nos devolve a abordagem básica da evolução humana adotada pelos pré-historiadores, que é a de estudar os modos de interação entre nossa espécie e seu ambiente, e nosso controle crescente sobre ele. Isso significa fazer as perguntas que Marx fazia. Os “modos de produção”, baseados em grandes inovações na tecnologia produtiva, nas comunicações, e na organização social – mas também no poderio militar – têm sido fundamentais para a evolução humana? Essas inovações, como Marx percebia, não se faziam e não se fazem por si mesmas. São atividades de homens e mulheres em situações históricas que eles não criaram agindo e tomando decisões, mas não num vazio.

Entretanto, as novas perspectivas na história deveriam também nos remeter àquele objetivo essencial, ainda que nunca totalmente realizável, dos que estudam o passado: a “história total”. Não uma “história de tudo”, mas a história como uma malha indivisível em que todas as atividades humanas estão inter-relacionadas. Os marxistas não são os únicos que têm essa meta, mas eles têm sido seus mais persistentes perseguidores.

Um dos problemas, para o qual a perspectiva da história como interação é fundamental, é crucial para o entendimento da evolução histórica do homo sapiens. Trata-se do conflito entre as forças que agem no sentido da transformação do homo sapiens da humanidade neolítica para a nuclear e as forças cuja finalidade é a manutenção da reprodução inalterada e da estabilidade nos ambientes sociais humanos. Durante a maior parte da história, as forças inibidoras da mudança geralmente se opuseram com eficácia a uma mudança ilimitada.

Hoje, esse equilíbrio foi decisivamente inclinado numa direção. E o desequilíbrio está quase certamente fora da capacidade de controle das instituições sociais e políticas humanas. Talvez os historiadores marxistas, que tiveram a oportunidade de refletir sobre as consequências, inesperadas e indesejadas, dos projetos humanos coletivos do século XX, possam ao menos nos ajudar a compreender como isso aconteceu.

1 de janeiro de 2005

Lembranças tropicais: Gabriel García Márquez

Perry Anderson

Blog da Boitempo

Como formas de escrever sobre o passado, memórias e autobiografias são empreitadas diferentes, apesar de na prática não se sobreporem. No limite, um livro de memórias pode recriar um mundo ricamente povoado por pessoas, sem contudo falar muito sobre o próprio autor. Uma autobiografia, em compensação, pode assumir a forma de um retrato puro de si, no qual o mundo e os outros aparecem apenas como uma mise-en-scène para a aventura íntima do narrador. Ao recontar sua vida, romancistas já produziram atos de bravura em ambos os gêneros. Entre as obras modernas, To Keep the Ball Rolling [Para Manter a Bola Rolando], de Anthony Powell – quatro volumes agradáveis, embora lacônicos –, é uma obra-prima do primeiro gênero. O breve As Palavras, de Sartre, é talvez o maior exemplo do segundo. Viver para Contar, de Gabriel García Márquez, é classificado como livro de memórias por seus editores, mas há certa dúvida de que, no conjunto, se enquadre nessa categoria. Márquez é, obviamente, um lendário contador de histórias. Além disso, possui uma aguda inteligência autorreflexiva, como podemos observar em Cheiro de Goiaba, em que reproduz suas conversas biográficas com Plinio Apuleyo Mendoza.

Em Viver para Contar, Márquez exerce com comedimento esse outro lado de seus dons. Por opção artística, construiu um livro de memórias mais próximo, na forma, de um romance do que jamais se tenha escrito. Começa com a chegada de sua mãe a Barranquilla, a fim de levar o filho – então com 22 anos – para vender a casa da família em Aracataca, viagem que fez com que se tornasse o escritor que é hoje; e termina com o ultimato escrito por ele durante um voo para Genebra, cinco anos depois, e que transformou uma paixão esquiva de adolescência em sua futura esposa. Entre esses dois coups de théâtre paralelos, o autor rememora sua vida até o momento em que deixou a Colômbia, em 1955, numa narrativa que obedece não aos padrões desordenados da experiência ou da memória, com toda a sua irregularidade, mas às regras de uma composição perfeitamente simétrica. O livro é dividido em oito capítulos de tamanhos praticamente idênticos – um arranjo que corresponde menos ainda à maneira como qualquer vida poderia ser de fato vivida, como que para sublinhar o fato de estarmos diante de outro artifício supremo.


Desde o início de sua carreira, Márquez vem praticando dois estilos de escrita relativamente distintos: a prosa figurativamente carregada, já visível de maneira brilhante em seu primeiro livro de ficção, A Revoada: O Enterro do Diabo, que teve sua publicação rejeitada na época, com a concessão de que era “poética”; e a concisão objetiva de histórias como Ninguém Escreve ao Coronel ou reportagens como Notícia de um Sequestro. Se, tecnicamente, o registro de Viver para Contar fica entre os dois, o tom e o efeito do conjunto – e isso decorre da concepção das memórias – têm a grandeza viva e suntuosa de seus grandes romances. Estamos ali no mundo de Cem Anos de Solidão ou de O General em seu Labirinto, com sua densidade metafórica e seus diálogos típicos: sentenças curtas e sublimes, que funcionam quase como epigramas, de pungência inimitável e ironia bem-humorada.

O que o livro conta é a história da juventude de Márquez na Colômbia. Retratos vívidos de seus pais e avós criam um ambiente familiar dos mais estranhos. Então é mostrada sua infância, até os 8 anos, com o avô na zona bananeira da costa do Caribe; os primeiros dias de escola e a pobreza em Barranquilla, as férias num interior paradisíaco; a subida do rio Magdalena até um liceu nos Andes; o ingresso na universidade em Bogotá; uma descrição em primeira mão dos tumultos apocalípticos na capital após o assassinato do principal político populista do país, Jorge Eliécer Gaitán; o retorno à costa para fugir dos distúrbios; os primeiros anos como jornalista em Cartagena; o entusiasmo literário e a dissipação boêmia em Barranquilla; e, por fim, o trabalho regular como repórter em Bogotá e a ida ao exterior para cobrir a conferência de Genebra, em 1955. Tudo isso com uma grande variedade de incidentes impressionantes, detalhes intrigantes e uma sorte extravagante que poucas obras de ficção seriam capazes de igualar.

No entanto, o resultado não é um Bildungsroman [romance de formação] do autor, cuja personalidade raramente está em foco, mas a recriação de um universo assombroso, a costa caribenha da Colômbia na primeira metade do século XX. Quem acha que a contraparte factual da ficção de Márquez é, na melhor das hipóteses, uma pálida cópia dela pode ficar tranquilo. Uma cena impressionante atrás da outra, um personagem inesquecível atrás do outro, cascatas de gestos que vão além da lógica e coincidências que vão além da razão fazem de Viver para Contar um primo dos grandes romances. Esse primeiro volume é um grande e bem planejado edifício de imaginação literária. É tentador, assim, lê-lo apenas como uma obra de arte, independentemente de seu status de documento biográfico.

Isso, contudo, seria diminuir seu interesse. Para entender o porquê, pode-se compará-lo com as memórias do escritor latino-americano ao qual é mais comumente associado, e que perde somente para ele em fama. Peixe na Água, de Mario Vargas Llosa, publicado há mais de uma década, tem uma estrutura menos convencional. Escrito após a derrota de sua candidatura à Presidência do Peru, em 1990, alterna capítulos sobre a sua infância e a adolescência, e a campanha para liderar o país quando tinha mais de 50 anos – um recurso de contraponto que ele usou mais de uma vez em seus livros de ficção, de Tia Julia e o Escrevinhador até O Paraíso na Outra Esquina. Nesse formato, os três anos de campanha presidencial ocupam mais espaço do que os 22 anos até a idade adulta. Só isso já faz desse um livro de memórias muito diferente do de Márquez. Ainda mais impressionantes, então, são as semelhanças entre suas primeiras experiências, misteriosamente próximas em muitos aspectos.

Ambos os escritores passaram os primeiros anos cruciais da meninice sob o teto de um avô que os adorava, o patriarca da família – um deles um veterano da guerra civil na Colômbia, o outro um fazendeiro e prefeito na Bolívia e no Peru. Os pais, que tinham empregos semelhantes (um era operador de telégrafo, o outro era operador de rádio) e fizeram casamentos semelhantes (contra a vontade da família da noiva, de classe social superior), eram ausentes: um vazio na estrutura emocional da infância, em que mesmo as mães desempenhavam papel secundário. A iniciação sexual veio cedo, em bordéis sobre os quais escrevem com afeição maliciosa. Mais tarde, casaram-se ambos com moças de sua cidade natal. Quando adolescentes, foram enviados contra a vontade para colégios internos pelos pais. Formaram-se com alegria nas províncias e experimentaram a chegada à capital como um infortúnio.

Na universidade, mergulharam numa vida paralela de jornalismo e farras noturnas. Os dois mostraram habilidade para novelas de rádio, inspirados pelo mesmo dramalhão – El Derecho de Nacer, de Félix B. Caignet (sem conotações anacrônicas antiaborto) [No Brasil, exibida no formato de radionovela e telenovela, em diferentes versões, com o título O Direito de Nascer]. Em ambos os casos, a grande descoberta literária da juventude foi Faulkner, cujos romances eles dizem que os marcaram mais fundo do que qualquer outro. Cada um encerra suas memórias no mesmo ponto decisivo, quando o escritor – logo depois de descobrir alguma coisa sobre o interior desconhecido de sua terra (El Chocó e Amazonas) – deixa o país natal em direção à Europa, para nunca mais voltar a fixar residência ali.

Uma série de paralelos desse tipo é um convite para algum futuro Plutarco das letras latino-americanas. Mas o que eles evidenciam, afinal, são os contrastes dos dois romancistas e de suas memórias. Apesar de todas as semelhanças entre as constelações familiares, Vargas Llosa tem – pelo lado materno – uma herança social mais privilegiada, um clã da elite de Arequipa que produziu o primeiro presidente peruano do pós-guerra, Bustamante y Rivero. Classe e cor o situavam mais alto na escala social, naquela que era uma sociedade rigidamente racista, do que um menino mestiço da Colômbia poderia chegar. A educação formal também os separou. Márquez explica quão desafeiçoado era dos estudos na universidade, onde seu pai insistira que cursasse direito e a qual acabou por abandonar. Vargas Llosa, ao contrário, teve um brilhante cursus estudantil e tornou-se assistente do maior historiador de Lima antes mesmo de se formar. A universidade foi uma experiência central para ele, enquanto para Márquez não significou nada. Essa diferença explica por que ele foi para a Europa muito mais cedo, com uma bolsa de estudos em Madri. E também por que, uma vez na Europa, nunca mais a deixou, tendo vivido essencialmente em Paris, Londres e Madri, viajando a passeio para Lima. Márquez, ao contrário, logo retornou à América Latina, terminando por se estabelecer no México.

As trajetórias divergentes têm seus correlatos atmosféricos no trabalho de cada um. Na vida dos autores, a história de seu país – medida em termos de matança, repressão, frustração, corrupção – dificilmente poderia ser mais sinistra, e isso, é claro, encontra expressão em seus romances. Mas os retratos que Márquez faz de sua terra natal, mesmo em seus piores momentos, são repletos de um afeto lírico, um amor imutável, que não têm equivalentes no mundo de Vargas Llosa, no qual a relação do escritor com sua terra de origem é sempre tensa e ambígua.

A razão dessa diferença pode ser encontrada em parte em suas situações individuais. Se, por um lado, a configuração das famílias de origem era de uma similaridade impressionante, a voltagem emocional era oposta. A mãe de Márquez, retratada de forma adorável por ele, era claramente uma mulher de grande força de caráter, capaz de administrar um marido determinado, ainda que inconstante, e onze crianças, tanto na prosperidade como na penúria. O pai de Vargas Llosa, que sem uma palavra abandonou a esposa no quinto mês de gestação e, dez anos depois, apareceu inesperadamente para retomá-la e cooptá-lo, foi, em contraste, um pesadelo traumático: temido pela esposa e odiado pelo filho. Sem nenhum apego por sua terra natal, acabou por emigrar para os Estados Unidos e morreu como faxineiro em Pasadena.

Mesmo o melodrama da primeira experiência sexual dos dois escritores, com roteiros conhecidos de honra e ultraje latinos, reflete esse contraste. Quando Vargas Llosa se casou com a tia – naquela família semidesenraizada, não por coincidência uma boliviana –, seu pai sacou um revólver, denunciou-o à polícia em Lima e ameaçou matá-lo com cinco tiros, como um cão raivoso. García Márquez, apanhado in flagrante com a esposa negra de um policial do interior, também teve de encarar uma pistola, assim como as palavras: “Traição na cama se resolve na bala.” Mas o sargento que sofreu a afronta deixou o menino apavorado escapar com a humilhação – em gratidão a um serviço médico prestado pelo pai de Márquez, e quando vistos pela última vez, bebiam juntos.

As duas cenas, composições de um machismo teatral, ilustram duas sociedades diferentes. A poesia e a humanidade do episódio colombiano capturam o espírito geral de Viver para Contar, assim como os laços de seu autor com a comunidade em que cresceu. Já o título de Peixe na Água inverte a história que na verdade conta. Isso é expresso de maneira mais precisa na primeira edição, intitulada Um Peixe Fora d’Água – uma inversão que não é a menos importante das estranhezas das memórias de Vargas Llosa como um todo. Embora escrito num momento de aguda decepção política, e inevitavelmente um tanto descolorido por ela, o livro é atravessado pelo horror a boa parte da vida peruana – social e cultural, bem como política –, que expressa de modo claro sentimentos havia muito existentes.

As consequências literárias dessa diferença não são as que se esperam. O rótulo de “realismo fantástico” – hoje desgastado pelo uso – é habitualmente atribuído aos romances de Márquez. Nunca se ajustou bem a Vargas Llosa, que não reconhece o adjetivo. “Tenho uma fraqueza invencível pelo assim chamado realismo”, observa ele em Peixe na Água. Um dos contrastes mais significativos da ficção de ambos decorre dessas opções distintas – ou talvez as dite. O grosso do trabalho de Vargas Llosa situa-se no presente peruano, contemporâneo à sua própria experiência. A principal exceção são os deslocamentos, não apenas no tempo, como também no espaço – o Brasil de A Guerra do Fim do Mundo ou a França e os mares do sul de O Paraíso na Outra Esquina.

Em compensação, nenhum dos grandes romances de García Márquez representa a época em que ele próprio se tornou escritor. Macondo desaparece na Grande Depressão. O patriarca pertence ao mundo rústico de Juan Vicente Gómez. Os tempos do cólera são vitorianos. O general expira com o fim da Restauração. A modernidade é alérgica à mágica. Os poderes de Márquez sempre necessitaram de uma volta ao passado para serem exercidos com plena liberdade.

É claro que, na mente do público, o que provavelmente distingue os dois escritores é a imagem convencional de suas posições políticas – García Márquez como amigo de Fidel Castro, Vargas Llosa como devoto de Margaret Thatcher, figuras respectivamente da esquerda ecumênica e da direita liberal. Tal polaridade existe, é claro. Mas, ao olhar para a escrita em vez de para as filiações, percebemos um contraste mais impressionante. Vargas Llosa foi desde cedo, e assim permanece, um animal político. Como estudante em Lima durante a ditadura de Odría, foi um ativo militante comunista, levado para o partido por Héctor Béjar, que mais tarde, nos anos 60, comandaria a primeira guerrilha peruana; ao chegar à Europa, mergulhou na teoria marxista na qualidade de entusiasta da Revolução Cubana. No começo dos anos 70, quando rompeu com a esquerda por causa de Cuba, não se recolheu à literatura simplesmente, como outros, mas tornou-se um admirador apaixonado de Hayek e Friedman, e um dos principais defensores do capitalismo de livre mercado na América Latina. Sua candidatura à Presidência do Peru, com o apoio da direita tradicional, não foi um capricho repentino, mas consequência de uma década de atividade pública consistente. Logicamente, sua ficção – desde o primeiro retrato da academia militar em A Cidade e os Cachorros, passando pelas conspirações revolucionárias em Conversa na Catedral e História de Mayta, até A Festa do Bode – usa os conflitos políticos contemporâneos diretamente como tema organizador.

Esse nunca foi o caso de García Márquez, e Viver para Contar ajuda a explicar o porquê, apesar de permanecer algum mistério. Ele retrata um jovem, vindo da costa para o altiplano durante a adolescência, tão absorvido pelos temas literários – primeiro e acima de tudo pela poesia – a ponto de não ter praticamente nenhum interesse pelos assuntos públicos. A Colômbia já se encontrava num estado de grande tensão política em seus últimos anos de escola e, assim que chegou à universidade, o país sucumbiu à guerra civil. Em seu capítulo mais poderoso, Viver para Contarpinta um panoramaao estilo de Goya do terremoto social que engolfou Bogotá quando Gaitán, seu político mais popular, foi assassinado, em 1948. De sua pensión a três quarteirões de distância, García Márquez correu para a cena, chegando a tempo de presenciar o linchamento do assassino e a irrupção de uma maré de tumultos e saques que varreu a cidade. Mas sua reação, tal como se recorda, foi simplesmente voltar à pensão para terminar o almoço. Encontrando-o na rua, um parente mais velho – o qual se tornou um dos líderes da junta revolucionária que tentou direcionar os tumultos para um levante contra o governo conservador – instigou-o a participar dos protestos estudantis contra o assassinato. Em vão. Aterrorizado com a destruição e as mortes em massa nos dias seguintes, quando o Exército entrou na cidade para restaurar a ordem, seu único desejo era fugir.

A violênci aque devastou a Colômbia na década seguinte, opondo os liberais aos conservadores que se mantinham no poder, ceifou 300 mil vidas – uma catástrofe pior do que qualquer outra que o Peru tenha sofrido. Esse foi o pano de fundo histórico do início da carreira de Márquez como jornalista e escritor. Mas ele parece ter continuado misteriosamente intacto. Apesar de ser colunista regular de um diário de Cartagena, escreve que “no meu ofuscamento político da época, eu nem sabia que a lei marcial havia sido imposta de novo no país”. Em Barranquilla, pouco depois, “a verdade de minha alma era que o drama da Colômbia me atingia como um eco remoto, e me comoveu apenas quando transbordou em rios de sangue”. Essa confissão nos desarma, mas a distinção não se sustenta: o drama da Colômbia era o derramamento de sangue. Parece que a realidade foi que o jovem literato, inteiramente envolvido em descobertas e experimentos da imaginação, de fato ignorava o destino de seu país naqueles anos.

Era mais fácil agir assim nas cidades costeiras, já que o litoral do Caribe, embora não estivesse imune às chacinas sectárias, foi poupado do pior da violência que grassava nas fronteiras cafeeiras das terras altas. A identificação de Márquez com sua região – “o único lugar em que realmente me sinto em casa” – conferiu à sua escrita uma intensidade luminosa, mas parece também tê-lo protegido, ou cegado, dos padrões e forças mais amplos da nação. “A Colômbia sempre foi um país com uma identidade caribenha que se abria para o mundo pelo cordão umbilical do Panamá”, escreve. “Sua amputação forçada nos condenou ao que somos hoje: uma nação com uma mentalidade andina, cujas circunstâncias favorecem que o canal entre os dois oceanos pertença não a nós, mas aos Estados Unidos.”

O lamento é palpável e significativo. Não é exagero dizer que as terras elevadas dos Andes, que formam o cerne da sociedade colombiana, permanecem uma espécie de livro fechado para Márquez. Não há dúvida de que vem daí, em parte, o silêncio em Viver para Contar a respeito da guerra civil durante a qual se passa boa parte da história.

A única aventura de Márquez na história contemporânea, Notícia de um Sequestro, humana e cativante como relato do episódio final da carreira de Pablo Escobar, confirma certo mal de altitude intelectual. Falta-lhe a compreensão do contexto social da guerra da droga na Colômbia ou mesmo uma visão crítica da oligarquia que a comandava. Lendo o livro, ficamos tentados a achar que, no fundo, Márquez permanece tão apolítico quanto era no início.

Isso é um erro, como mostra a sequência de Viver para Contar. Mas tanto suas memórias quanto sua ficção sugerem uma mente com uma maravilhosa sensibilidade intuitiva para o temperamento, as cores e os detalhes do mundo em que cresceu, sem muita consideração pela definição de suas relações ou estruturas. Por esse relato, é difícil situar com precisão a família de Márquez na escala social. Seu avô, apesar de ser representado como um patriarca com alguma substância, parece não ter sido originalmente mais do que um artesão, ainda que ourives; a base econômica da lendária casa de Aracataca – o pai é descrito como alguém que pediu a mão de uma “filha de família rica” – é obscura. Os altos e baixos das venturas do pai, da extrema pobreza ao conforto modesto – aparentemente sem relação com a proliferação dos onze filhos –, são apenas um pouco menos incompreensíveis. Com o passar do tempo, as conexões entre o clã se revelam: um tio na polícia de Cartagena, capaz de arranjar empregos; um professor em Bogotá, dono de uma grande livraria. Cabe a nós tentar adivinhar como se encaixava o jovem Gabito nessa hierarquia complicada de classe e cor.

O que dizer, finalmente, do autorretrato que emerge dessas memórias? Ele é curiosamente oblíquo. Márquez oferece um relato abrangente do desenvolvimento de sua vocação literária, do tempo de escola até mais ou menos seus 20 anos, e muitos incidentes cativantes ou encontros arrebatadores em sua jornada rumo à maturidade. Mas não está tão claro como ele era enquanto menino ou jovem. A autoconfiança que seu avô lhe deu na infância parece nunca tê-lo abandonado, salvo nas brevíssimas turbulências da adolescência. Mas há poucos sinais de ambição deliberada. Ele se fecha em sua timidez, mas obviamente era companhia animada, já que nunca lhe faltaram amigos. Mas não revela o quanto se empenhou em procurá-los ou até que ponto era visto apenas como um boêmio inconsequente.

Nas transações com o sexo oposto, as iniciativas de sedução partem na maioria das vezes das mulheres. Apesar de dizer que quando voltou a Barranquilla “tinha a timidez de uma codorna, que eu tentei contrabalançar com arrogância insuportável e franqueza brutal”, ele parece ter se dado bem em geral com parentes mais velhos e amigos, em todos os lugares por que passou. Com exceção de um conflito com o pai sobre a escolha de sua carreira, nenhuma grande discussão marca esse progresso. Ele cita apenas ocasionalmente os lados mais vulcânicos de sua personalidade – “acessos de raiva sem nenhum motivo”, “birras pueris” –, mas não oferece mais detalhes.

Em vez de fazer uma autoanálise detida, Márquez oferece um espelho generoso aos seus contemporâneos. Viver para Contar contém uma abundante galeria de parentes, amantes, colegas, mentores e aliados, capturados num parágrafo ou em uma ou duas páginas. Isso basta para deixar impacientes os leitores anglo-saxões, mas é uma lealdade atraente, que distingue suas memórias das de Vargas Llosa. Um Peixe na Água, pensado desde o início para um público internacional, é mais tênue nesse sentido. As memórias de Márquez são destinadas aos leitores colombianos antes de tudo.

Elas anunciam seu princípio de construção no início, num manifesto gravado como epígrafe na abertura do livro: “A vida não é o que se viveu, mas o que se lembra, e como isso é lembrado para ser contado.” Tomado literalmente, é um convite à memória seletiva, com todas as facilidades de uma amnésia conveniente. Não há motivo para supor que Márquez tenha abusado de sua máxima. Mas é sempre legítimo perguntar em que medida as memórias correspondem aos fatos. Independentemente de quanta licença concedamos a um artista em sua reconstrução do passado, não valorizaríamos do mesmo modo o resultado se tudo se revelasse imaginário.

Nesse caso, a narrativa dá ensejo a alguns pontos de interrogação na margem. Sexo, política, literatura: cada um deixa uma penumbra de incerteza em seu entorno. Comentando “os modos de caçador furtivo” de seu pai, Márquez diz que houve um período em que ficou tentado a imitá-lo, mas logo descobriu que se tratava da “mais árida forma de solidão”. Nada em seu relato corresponde a essa breve afirmação. Em Cheiro de Goiaba, ele diz que, quando estava na universidade, pertenceu a uma célula do Partido Comunista Colombiano. Não há vestígio disso emViver para Contar.

Entre os autores que o formaram, ele enfatiza Faulkner. Mas a afirmação de que “cada sentença deve ser responsável pela estrutura toda” e o uso celestial do adjetivo (ele diz ter aversão a advérbios), que é a marca de sua prosa, derivam de Borges, que ele pouco menciona. A saída do grupo de Barranquilla que produzia a revista literária Crónica, cadinho de seu primeiro florescimento como escritor, é apresentada como uma partida amigável, sem dificuldades ou ressentimentos. No entanto, entrega que renunciou ao cargo de editor num acesso de raiva algum tempo antes, por razões não especificadas. A ruptura pode ter sido mais dolorosa do que ele sugere.

Tais discrepâncias têm importância? A epígrafe as absolve. Mas uma vida e uma história nunca são a mesma coisa, e os interstícios entre elas – mais largos ou mais estreitos – são inevitavelmente parte do interesse de cada uma. Na luz resplandecente dessas memórias, há um brilho tênue à distância, próprio da latitude.

Perry Anderson é um historiador inglês nascido em 1938. Professor da University of California, Los Angeles (UCLA), Estados Unidos, foi editor da New Left Review, a principal revista de esquerda do mundo anglófono. Ensaista político, Perry Anderson é conhecido por seu trabalho em história intelectual, e filia-se à tradição do Marxismo Ocidental do pós-1956. É autor, entre outros, de Espectro: da Direita à Esquerda no Mundo das Ideias e Afinidades Seletivas, ambos publicados pela Boitempo Editorial.

Perry Anderson, Spectrum: from Right to Left in the World of Ideas, Londres, Verso, 2005.