22 de dezembro de 2003

Balas com pontas

Chris Floyd

TMT Metropolis

Por vezes o menor caco de vidro reflete o brilho de toda a lua, cheia e resplandecente no céu da noite. E, de forma perfeita, uma simples notícia em um jornal pouco conhecido pode revelar o espírito de toda uma era, perfurando as trevas com um súbito flash de verdade lúgubre e dolorosa.

A essência brutal da Era Bushista foi posta a nu na semana passada num local tão improvável como o Army Times , um jornal militar de propriedade de uma corporação com sede em Washington. Num artigo em que pormenoriza a efectividade de uma nova espécie de munição, o jornal — de forma não intencional, supomos — jogou fora o papel de alumínio patriótico em que é embrulhada a indústria do armamento e desvendou o "patriotismo" como aquilo que ele realmente é: extorsão, brutalidade e criminalidade, uma ganância primitiva movida por ameaças — incluindo a ameaça de voltar as suas mercadorias da morte contra os americanos que eles dizem defender.

O artigo, de John Roos, trata da controvérsia acerca de uma nova bala fabricada por uma firma do Texas, a RBCD, e distribuída pela Le Mas Ltd. de Arkansas. Como explica Roos, a nova bala de 5,56 mm da Le Mas é "partível" ("frangible") — ela "penetrará o aço e outros alvos duros mas não passará através de um torso humano". Ao invés disso, ela efectivamente explode dentro de um corpo, destruindo tecidos em todas as direcções, "criando feridas intratáveis".

A munição ainda não foi adoptada pelos militares americanos, mas está a ser utilizada por alguns dos "consultores privados de segurança" contratados pela administração Bush para rondar as ruas do Iraque ocupado. Estes mercenários não estão limitados sempre pelas leis e códigos de honra que governam as forças militares, assim são livres para efectuar quaisquer trabalhos sujos que os bushistas queiram manter fora dos registos. Eles também são livres para executaram produtivos "experimentos em campo" da nova munição sobre alvos humanos, relata o jornal.

Roos escreve acerca do pistoleiro de aluguer Ben Thomas, que trabalha para uma companhia inominável na execução de tarefas não especificadas no Iraque para o Regime Bush. Thomas entusiasticamente relata o seu primeiro assassinato com a fabulosa munição partível da Le Mas, durante o que ele afirmou ter sido uma escaramuça com iraquianos armados numa aldeia rural próxima a Bagdad. "Ela entrou no seu traseiro e destruiu completamente tudo na secção inferior esquerda do seu estômago", afirmou Thomas, com uma única bala da sua carabina M4. "Tudo foi despedaçado. Ninguém [podia] acreditar que este sujeito tivesse morrido com um tiro no traseiro".

Thomas e os seus amigos irregulares tiveram o cuidado de examinar a sua obra quando acabou o combate, explorando o recto explodido do morto para estudar os efeitos da nova bala. O veredicto? A bala é uma beleza. "Não há comparação absolutamente nenhuma seja com o que for" em relação ao pequeno dano provocado por cartuchos inferiores a 5,56 mm, afirmou Thomas. E ele deve saber, pois Roos informou que já havia "atirado em pessoas com vários tipos de munição" no seu sombrio trabalho por todo o mundo. Ele está a acumular stocks do destruidor-de-alvos da Le Mas, acrescentou, e levará uma grande quantidade para os seus amigos privatizados quando retornar a Bagdad após um breve descanso na Florida.

Mas parece que há perturbação no paraíso dos atiradores. Apesar da maravilhosa capacidade deste destruidor-de-alvos para criar feridas intratáveis — garantindo uma morte agonizante para qualquer inimigo (ou espectador inocente, ou vítima de fogo amigo, etc) — o Exército ainda não fez uma encomenda à Le Mas. Peritos do Exército dizem que os testes anteriores mostravam que a bala não provocava mais destruições significativas por cortes de tecidos do que as munições já existentes. Embora mais testes tenham sido ordenados pelos bem engraxados deputados bushistas, as altas patentes do Exército continuam com dúvidas.

Mas nenhum dono do Inferno se enfurece tanto como um comerciante de armas desprezado. Le Mas afirma que os testes efectuados pelo Exército foram irremediavelmente imperfeitos. Eles dispararam as balas para gelatina fria, ao passo que a verdadeira eficácia da munição só pode ser medida através do despedaçamento de animais vivos (ou aldeões iraquianos). Responsáveis da companhia resmungam sombriamente acerca de uma conspiração entre altas patentes do Pentágono a fim de proteger os seus próprios programas favoritos de munições. Para romper o poder desta vil cabala, Le Mas contratou o lobbyista Bil Skipper para levar o combate a Washington. E Skipper tem uma mensagem simples: por dinheiro nas nossas palmas.

"Quando ouvi acerca das características balísticas desta munição, como oficial da reserva que sou percebi que ela tem de ficar nas mãos dos bons rapazes", disse Skipper ao Army Times . "Isto é uma questão de segurança nacional".

Vamos ponderar isto por um momento. Por que será a decisão do Exército neste assunto "uma questão de segurança nacional"? É óbvio: porque se os "bons rapazes" não comprarem a munição mastigadora de tripas da Le Mas, então eles a venderão aos maus rapazes — a qualquer um que esteja disposto a pagar o preço. Não há nenhuma outra forma de interpretar a posição da firma. Se o Exército não comprar comprar esta munição isso só poderia colocar a segurança da nação em risco se a Le Mas vendesse as balas aos inimigos da América. Se eles renegassem tal possibilidade, não haveria tal risco. Mas ao invés renegá-la eles fizeram deste ponto o eixo central da sua campanha para cavar dinheiro.

Aqui vemos a "moralidade" daqueles que traficam com a morte — desde os actores recentes como a Le Mas até os gabinetes bushistas dos conselhos de administração do Carlyle Group, da Boeing Corporation dilacerada pela corrupção, da BAE britânica praguejada por escândalos e todos os outros mestres da guerra que espartilham o planeta com sangue e com aço. Despojado da grandiloquência, da retórica auto-ilusória, a sua posição (pitch) reduz-se a isto. Pague-nos para ajudar a matar os seus inimigos — ou nós ajudaremos os seus inimigos a matarem você. O dinheiro é o que importa.

Arranque a máscara do patriotismo e esta é a realidade que se vê: uma caveira com os sinais do dólar a luzirem nos lugar dos olhos.

Referências:

"1-Shot Killer," Army Times, Nov. 24, 2003.

"Le Mas Ltd. Rebuttal of Blended-Metal Bullet Tests," Le Mas Ltd. website
http://www.lemasltd.com/1Shot/bDrGKrebuttal.htm

"The Privatisation of War," The Guardian, Dec. 10, 2003
http://www.guardian.co.uk/international/story/0,3604,1103566,00.html

"MoD Chief Refused to Sign e800 Million Hawk Order [With BAE]," The Guardian, Dec. 10, 2003
http://politics.guardian.co.uk/homeaffairs/story/0,11026,1103611,00.html

"Whistleblower Speaks: The Moral Sewer of Pentagon Procurement," NOW With Bill Moyers transcript, Dec. 5, 2003
http://www.pbs.org/now/transcript/transcript245_full.html

"Boeing's Pentagon Link in the Limelight," Financial Times, Dec. 7, 20003
http://news.ft.com/

"Air Force Pursued Boeing Deal Despite Concern of Rumsfeld," New York Times, Dec. 6, 2003
http://www.nytimes.com/2003/12/06/business/06BOEI.html?hp

"Boeing Has $20 Million Stake in Perle Fund", Financial Times, Dec. 3, 2003
http://news.ft.com/

"The Saudi Connection", US News, Dec. 15, 2003 edition
http://www.usnews.com/usnews/issue/031215/usnews/15terror.htm

"Britain Has Armed Both Sides in India and Pakistan Conflict", The Times, May 28, 2002-
http://www.timesonline.co.uk/article/0,,3-309678,00.html

"Settling Some Debts", Village Voice, Dec. 10, 2003
http://www.villagevoice.com/issues/0350/mondo1.php

"Carlyle: The Ex-President's Club", The Guardian, Oct. 31, 2001
http://www.guardian.co.uk/wtccrash/story/0,1300,583869,00.html

"Problems With a Globe-Trotting Father", Los Angeles Times, May 7, 2000
http://ahrc.com/old/HOAorg/Media/ma_050700_LAT_CHUBB.html

"Bush's Texas: Dark Heart of the American Dream", The Observer, June 16, 2002.