30 de abril de 2013

Como o subalterno fala?

Teoria pós-colonial desconsidera o valor duradouro do universalismo iluminista por sua própria conta e risco.

por Joan Birch


Ilustração original por Auguste Raffet, gravura por Hébert.

Nas décadas recentes, a teoria pós-colonial amplamente substituiu o marxismo como perspectiva dominante entre intelectuais engajados no projeto de examinar criticamente a relação entre o mundo ocidental e o mundo não-ocidental. Originada nas ciências humanas, a teoria pós-colonial subsequentemente se tornou crescentemente influente na história, antropologia e ciências sociais. Sua rejeição do universalismo e meta-narrativas associadas com o pensamento Iluminista se concatenou com uma virada mais ampla da esquerda intelectual durante os anos de 1980 e 1990.

O novo livro de Vivek Chibber, A Teoria Pós-Colonial e o Espectro do Capital, representa um desafio de grande alcance aos princípios centrais da teoria pós-colonial. Focando particularmente na vertente da teoria pós-colonial conhecido como estudos subalternos, Chibber advoga vigorosamente que podemos – devemos – conceituar o mundo não-ocidental através das mesmas lentes analíticas que usamos para entender o desenrolar no ocidente. Ele oferece uma defesa sustentada de abordagens teóricas que enfatizam categorias universais como capitalismo e classe. Seu trabalho constitui uma argumentação da continuidade da relevância do marxismo em face de alguns de seus mais severos críticos.

Chibber foi entrevistado pela Jacobin por Jonah Birch, um estudante de pós-graduação em sociologia pela Universidade de Nova York.

Na base da teoria pós-colonial está a noção que as categorias ocidentais não podem ser aplicadas a sociedade pós-coloniais como a Índia. No que se baseia tal alegação?

Esse é provavelmente o argumento isolado mais importante dos estudos pós-coloniais, e é inclusive o que torna tão importante se defrontar com eles. Não houve nenhum conjunto realmente proeminente de ideias associadas à esquerda nos últimos 150 anos que tenha insistido em negar o ethos científico e a aplicabilidade de categorias provenientes do iluminismo liberal e do iluminismo radical – categorias como capital, democracia, liberalismo, racionalidade e objetividade. Houve filósofos que criticaram tais orientações, mas eles raramente conquistaram qualquer atração relevante sobre a esquerda. Os teóricos pós-coloniais são os primeiros a fazê-lo.

Tal discurso vem, na verdade, sobre uma premissa sociológica de fundo: para que as categorias da economia política e do iluminismo tenham qualquer utilidade, o capitalismo deve se espalhar pelo mundo todo. Isso é chamado de “universalização do capital”.

O argumento segue assim: as categorias universalizantes associadas com o pensamento iluminista são apenas tão legítimas quanto as tendências universalizantes do capital. E os teóricos pós-coloniais negam que o capital tenha de fato se universalizado – ou, mais importante, que sequer fosse possível sua universalização ao redor do globo. Uma vez que o capitalismo não se universalizou e nem pode fazê-lo, as categorias que pessoas como Marx desenvolveram para entender o capitalismo também não podem ser universalizadas.

O que isso significa para a teoria pós-colonial é que as partes do globo onde a universalização do capital falhou precisam geral suas próprias categorias locais. E mais importante, significa que teorias como o marxismo, que tenta utilizar as categorias da economia política, não estão apenas erradas, mas são eurocêntricas, e não apenas eurocêntricas, mas são parte do impulso colonial e imperial do ocidente. Estão, portanto, implicadas no imperialismo. Novamente, esse é um argumento bastante inovador para a esquerda.

O que te fez decidir focar nos estudos subalternos como um caminho para a crítica da teoria pós-colonial de maneira mais geral?

A teoria pós-colonial é um conjunto de ideias bem difuso. Na verdade, provém dos estudos literários e culturais, e teve neles sua influência inicial. Então se espalhou para outras áreas de estudo, a história e a antropologia. Espalhou-se para tais campos por causa da influência da cultura e da teoria cultural de 1980 em diante. Então, ao fim de 1980 e no começo de 1990, disciplinas tais como a história, a antropologia, os estudos do oriente médio e os estudos do sul asiático foram infundidos com um giro brusco em direção ao que agora conhecemos como teoria pós-colonial.

Para atingir a teoria se enfrentam alguns problemas básicos: porque é tão difusa, é difícil definir quais são suas proposições centrais, então antes de tudo é difícil saber exatamente o que criticar. Inclusive, seus defensores são capazes de facilmente refutar qualquer crítica apontando outros aspectos que você pode ter deixado passar na teoria, dizendo que você focou nos aspectos errados. Por conta disso, eu tive que encontrar alguns componentes centrais da teoria – algum fluxo de teorização no interior dos estudos pós-coloniais – que fossem consistentes, coerentes e altamente influentes.

Eu também queria focar naquelas dimensões da teoria centradas na história, desenvolvimento histórico e estruturas sociais, e não na crítica literária. Os estudos subalternos encaixaram em todos esses três moldes: têm sido extremamente influentes nos estudos da área; é, sendo justo, consistente internamente e se foca sobre a história e a estrutura social. Como uma vertente da teoria, têm sido bastante influente em parte por conta de sua consistência interna, mas também parcialmente por seus maiores proponentes virem de uma base marxista e estarem todos baseados na Índia ou em partes do Terceiro Mundo. Isso os deu uma grande legitimidade e credibilidade, tanto como críticos do marxismo como expoente de um novo modo de entender o Sul Global. É através dos estudos dos subalternistas que essas noções sobre a falha na universalização do capital e a necessidade de categorias nativas tornaram-se respeitáveis.

De acordo com os teóricos dos estudos subalternos, porque a tendência universalizante do capitalismo se rompeu no mundo pós-colonial? O que há nessas sociedades que impediu o progresso do capitalismo?

Os estudos subalternos oferecem dois argumentos distintos para como e quando a universalização impulsionada pelo capital foi bloqueada. Um argumento vem de Ranajit Guha. Guha localiza o impulso universalizante do capital na habilidade de um agente particular – nomeadamente, a burguesia, a classe capitalista – de derrubar a ordem feudal e construir uma coalização de classes que inclui não apenas capitalistas e comerciantes, mas inclusive trabalhadores e camponeses. A através da aliança pavimentada, o capital deveria erigir uma nova ordem política, que não é apenas pró-capitalista nos termos da defesa dos direitos de propriedade dos capitalistas, mas é também uma ordem liberal, abrangente e consensual.

Então, para que o impulso universalizante do capital seja real, diz Guha, ele deve se expressar na emergência de uma classe capitalista que construa uma ordem consensual e liberal. Essa ordem substituiu o antigo regime, e em tal universalização ela expressa os interesses dos capitalistas como interesses universais. O capital, como diz Guha, obtém a habilidade de falar por toda a sociedade: não apenas como classe dominante, mas também hegemônica que não precisa da coerção para manter seu poder.

Então Guha localiza esse impulso universalizante na construção de uma cultura política abrangente. O ponto fulcral para Guha é que a burguesia no Ocidente foi capaz de atingir tal ordem enquanto a burguesia no Oriente falhou em fazê-lo. Ao invés de derrubar o feudalismo, realizou algum tipo de acordo com as classes feudais; ao invés de tornar-se a força hegemônica com uma coalização ampla de diversas classes, tentou ao máximo evitar o envolvimento dos camponeses e da classe trabalhadora. Ao invés de erigir uma ordem política consensual e abrangente, pôs em pé ordens políticas altamente instáveis e francamente autoritárias. Manteve o fosso entre a cultura das classes subalternas e a das elites.

Então, para Guha, enquanto no Ocidente a burguesia foi capaz de falar por todas as diversas classes, no Oriente ela falhou em tal objetivo, fazendo-se dominante, mas não hegemônica. Isso faz com que a modernidade nas duas partes do mundo seja fundamentalmente diferente, gerando dinâmicas políticas distintas no Oriente e no Ocidente, e isso significa que o impulso universalizante do capital falhou.

Então o argumento consiste em uma alegação sobre o papel da burguesia no Oriente, e a falha de sua contraparte nas sociedades pós-coloniais?

Para Guha, absolutamente, e os grupos de estudos subalternos aceitam esses argumentos, em grande parte sem maiores debates. Eles descrevem a situação – a condição do Oriente – como uma condição na qual a burguesia domina, mas carece de hegemonia, enquanto no Ocidente há tanto domínio como hegemonia.

Agora, o problema com isso é, como você disse, que o cerne do argumento é uma determinada descrição das conquistas da burguesia Ocidental. O argumento, infelizmente, tem pouca base histórica. Houve um tempo, no século XIX, no começo do século XX, mesmo até os anos 50 em que muitos historiadores aceitaram esse quadro da ascensão da burguesia no Ocidente. Nos últimos 30 ou 40 anos, porém, ele foi amplamente rejeitado, mesmo entre marxistas.

O que é estranho é que o livro de Guha e seu artigo foram escritos como se a crítica dessa abordagem nunca tivesse sido feita. E o que é ainda mais estranho é que a profissão da história – na qual os estudos subalternos têm sido tão influentes – nunca questionou esse fundamento do projeto dos estudos subalternos, ainda que todos eles anunciem que esse é o fundamento. A burguesia no Ocidente nunca aspirou aos objetivos que Guha lhe atribui: nunca tentou trazer à tona uma cultura política consensual ou representar os interesses da classe trabalhadora. Em verdade, lutou com unhas e dentes contra ela por séculos após as chamadas revoluções burguesas. Quando essas liberdades foram finalmente atingidas, foi através de uma luta bastante intensa dos despossuídos assalariados contra os heróis da narrativa de Guha, a burguesia. Então a ironia é que Guha realmente trabalha com uma noção incrivelmente ingênua, mesmo ideológica da experiência Ocidental. Ele não vê que os capitalistas foram, em todos os lugares e sempre, hostis à extensão dos direitos políticos ao povo trabalhador.

Então esse é um dos argumentos sobre a especificidade radical do mundo colonial e pós-colonial. Mas você disse antes que há um outro?

Sim, o segundo argumento vem principalmente do trabalho de Dipesh Chakrabarty. Suas dúvidas sobre a universalização do capital são distintas das de Guha. Guha localiza a tendência à universaliação do capital em um agente particular: a burguesia. Chakrabarty a localiza na habilidade do capitalismo de transformar todas as relações sociais aonde quer que ele vá. E ele conclui que ele falhou em tal prova, porque lhe parece que há várias práticas culturais, sociais e políticas no Oriente que não se conformam ao seu modelo de como a cultura e sistema político capitalista deveriam parecer.

Então, em sua visão, o teste para uma universalização bem-sucedida do capital é que todas as práticas sociais devem ser imersas na lógica do capital. Ele nunca especifica claramente o que é a lógica do capital, mas há alguns parâmetros amplos que ele tem em mente.

Parece uma meta bastante alta.

Sim, esse é o ponto: é uma meta impossível. Então se você descobre que na Índia práticas matrimoniais ainda usam antigos rituais; se você descobre que na África as pessoas ainda tendem a rezar enquanto estão trabalhando – esse tipo de prática representa uma falha da universalização do capital.

O que eu digo em meu livro é que isso é meio bizarro: tudo o que a universalização do capital requer é que a lógica econômica do capitalismo seja implantada em várias partes do mundo e que ele se reproduza com sucesso ao longo do tempo. Isso irá, é claro, gerar certas mudança culturais e política também. De qualquer modo, não se requer que tudo, ou quase tudo, das práticas culturais de uma região sejam transformadas de acordo com algum tipo de linha capitalista identificável.

Esse é o argumento teórico que você defende em seu livro quanto à universalização capitalista não requerer que se apague toda divisão social.

Certo.Uma manobra típica dos teóricos pós-coloniais é dizer algo como: o marxismo se baseia em categorias abstratas, universalizantes. Mas para essas categorias terem aplicação, a realidade deveria parecer exatamente com as descrições abstratas do capital, dos trabalhadores, do estado, etc. Mas, dizem os teóricos pós-coloniais, a realidade é muito mais diversa. Trabalhadores vestem roupas tão coloridas: rezam enquanto trabalham, capitalistas consultam astrólogos – isso não parece nada com o que Marx descreve no Capital. Então isso deve significar que as categorias do capital não são realmente aplicáveis aqui. O argumento acaba sendo que qualquer desvio da realidade concreta das descrições abstratas da teoria é um problema da teoria. Mas isso é tolo, indo além das palavras: isso significa que você não pode ter uma teoria. Porque deveria importar se os capitalistas consultam astrólogos contanto que eles são movidos a acumular lucros? Similarmente, não importa se os trabalhadores rezam no chão de fábrica contanto que eles trabalhem. Isso é tudo o que a teoria requer. Isso não é dizer que diferenças culturais desaparecerão; é dizer que essas diferenças não importam para a disseminação do capitalismo, contanto que os agentes obedeçam a compulsão que lhe inscreve sua posição nas estruturas capitalistas. Eu vou a distâncias consideráveis para explicar isso no livro.

Muito do apelo da teoria pós-colonial reflete o desejo disseminado de evitar o eurocentrismo e entender a importância das especificidades locais e culturais quanto às categorias, formas, identidades, e que é preciso entender as pessoas como elas eram, ou são, não apenas como abstrações. Mas eu pondero se não há inclusive um perigo nesse raciocínio sobre a especificidade cultural das culturas não-Ocidentais, e se isso não é uma forma de essencialismo cultural.

Absolutamente, esse é o perigo. E não é apenas um perigo; é algo em que os estudos subalternos e a teoria pós-colonial constantemente incorrem. Você vê isso mais frequentemente em seus argumentos sobre ação social e resistência. Está perfeitamente bem que as pessoas carreguem suas culturas e práticas locais quando elas estão resistindo ao capitalismo, ou quando elas resistem a vários agentes do capital. Mas é uma coisa bastante distinta dizer que não há aí nenhuma aspiração universal, ou nenhum interesse universal, que as pessoas devam ter.

Em verdade, uma das coisas que eu mostro em meu livro é que quando os historiadores dos estudos subalternos fazem trabalhos empíricos sobre a resistência camponesa, eles exibem nitidamente que os camponeses [na Índia], quando sem engajam em ações coletivas, estão mais ou menos agindo sob as mesmas aspirações e os mesmos impulsos que moviam os camponeses ocidentais. O que os separava do Ocidente eram formas culturais nas quais essas aspirações eram expressas, mas as aspirações tendem elas próprias a ser bastante consistentes.

E quando pensamos sobre isso, é realmente estranho dizer que camponeses indianos estavam dispostos a defender seu bem-estar; que eles não gostam de ser passados para trás; que eles gostariam de ser capazes de encontrar-se em certas condições nutricionais básicas; que quando eles entregavam rendas para os donos de terras eles tentavam manter o quanto pudessem para si próprios porque não gostavam de dar suas colheitas? Através de todos os séculos XIV e XX, esse foi na verdade o motivo das lutas dos camponeses.

Quando os teóricos subalternos erguem esse gigantesco muro separando o Oriente do Ocidente, e quando insistem que os agentes Orientais não são movidos pelo mesmo tipo de preocupações que os agentes Ocidentais, o que eles estão fazendo é endossar o tipo de essencialismo que as autoridades coloniais usavam para justificar sua depredação no século XIX. É o mesmo tipo de essencialismo que os chauvinistas dos EUA utilizaram quando bombardearam o Vietnã ou quando eles atacam o Oriente Médio. Ninguém na Esquerda pode estar tranquilo com esse tipo de argumentos.

Mas não seria possível responder dizendo que você está endossando algum tipo de essencialismo ao atribuir uma racionalidade comum a atores em contextos bastante diferentes?

Bom, isso não é exatamente essencialismo, mas eu endosso essa visão de que há alguns interesses em comum e necessidades que as pessoas têm através das culturas. Há alguns aspectos da nossa natureza humana que não são culturalmente construídos: assumem uma forma culturalmente, mas não são criados por ela. Minha visão é de que mesmo que haja enormes diferenças entre as pessoas no Oriente e no Ocidente, também há um núcleo de preocupações que as pessoas têm em comum, quer tenham nascido no Egito, na Índia, em Manchester ou em Nova York. Não são muitas, mas podemos enumerar ao menos duas ou três delas: dizem respeito ao bem-estar físico; há provavelmente uma preocupação com o grau de autonomia e auto-determinação; há uma preocupação com aquelas práticas que diretamente pertencem ao seu bem-estar. Isso não é muito, mas vocês ficaria surpreso com o quão longe isso o leva na explicação de transformações históricas realmente importantes.

Por dois séculos, qualquer um que se chamasse progressista abraçava esse tipo de universalismo. Era simplesmente entendido que a razão pela qual os trabalhadores ou camponeses poderiam se unir através dos limites nacionais é porque eles compartilham certos interesses materiais. Isso está sendo posto em questão agora pelos estudos subalternos, e é realmente marcante que tantas pessoas na Esquerda tenham aceitado isso. É ainda mais marcante que é que isso seja ainda aceito depois dos últimos 15 ou 20 anos em que vimos movimentos globais através das culturas e fronteiras nacionais contra o neoliberalismo, contra o capitalismo. Ainda assim, na universidade, ousar dizer que as pessoas compartilham, preocupações comuns em todas as culturas é de alguma forma visto como ser eurocêntrico. Isso demonstra o quão longe a cultura política e intelectual caiu nos últimos vinte anos.

Se você argumenta que o capitalismo não requer liberalismo burguês, e que a burguesia não desempenhou um papel histórico na liderança dessa luta popular pela democracia no Ocidente, como você explica o fato de que foi atingido o liberalismo e a democracia no Ocidente, e não se atingiram tais desfechos da mesma forma em boa parte do mundo pós-colonial?

Essa é a grande questão. A coisa interessante é que quando Guha escreveu seu ensaio original anunciando a agenda dos estudos subalternos, ele atribuiu a falha do liberalismo no Oriente à falha da sua burguesia. Mas ele também sugere que havia outra possibilidade histórica, nomeadamente que o movimento independentista na Índia e em outros países coloniais pudesse ter sido liderado por classes populares, as quais poderiam ter empurrado as coisas em direção diferente e, talvez, criar uma tipo diferente e ordem política. Ele traz isso à tona e depois ele esquece, e isso nunca mais aparece em qualquer trabalho seu.

Se ele tivesse tomado esse caminho, e se ele tivesse tomado-o com mais seriedade, poderia tê-lo levado a um entendimento mais preciso do que aconteceu no Ocidente não apenas no Oriente. O fato é que no Ocidente, quando uma ordem consensual, democrática e abrangente finalmente emergiu lentamente no século XIX e no começo do XX, não foi presente oferecido pelos capitalistas. Foi de fato um produto de lutas muito longas e concentradas da parte dos trabalhadores, agricultores e camponeses. Em outras palavras, foi trazido à tona por lutas de baixo.

Guha e os subalternistas ignoram isso inteiramente, porque insistem que a ascensão da ordem liberal foi um feito dos capitalistas. Porque descrevem mal isso no Ocidente, diagnosticam equivocadamente a falha de tal ordem no Oriente. No Oriente eles erroneamente atribuem essa falha aos atalho da burguesia.

Agora, se você quer um projeto de pesquisa histórico de precisão, explicando a fragilidade das instituições democráticas no Oriente e sua guinada rumo ao autoritarismo, a resposta não tem a ver com os atalhos da burguesia, mas com a fraqueza do movimento operário das organizações camponesas, e com os partidos representantes dessas classes. A fraqueza dessas forças políticas na tentativa de trazer algum tipo de disciplina à classe capitalista é a resposta à questão colocado pelos estudos subalternos. Essa questão é: “Por que a cultura política do Sul Global é tão diferente daquela do Norte Global?”. É para isso que deviam olhar: para as dinâmicas das organizações populares e os partidos das organizações populares; não para alguma falha putativa da classe capitalista, que no Oriente não era nada mais oligárquica e autoritária do que já foi no Ocidente.

Você é obviamente muito crítico da teoria pós-colonial. Mas não há algo válido ou valioso nessa acusação da ordem pós-colonial?

É, há algumas coisas valiosas, especialmente se você olhar para o trabalho de Guha. Em todo o seu trabalho, especialmente em “Domínio sem hegemonia“, eu penso que há um criticismo bastante saudável e um desprezo geral voltados aos poderes estabelecidos em um país como a Índia. E essa é uma alternativa tremendamente positiva ao tipo de historiografia nacionalista que tem sido posta de pé por décadas em países como a Índia, nos quais os líderes do movimento independentista eram vistos como algo próximo a salvadores. A insistência de Guha não apenas no fato de tal liderança não ser salvadora, mas que ela é de fato responsável por muitos dos atalhos da ordem pós-colonial deve ser louvada e endossada.

O problema não é sua descrição da ordem pós-colonial: o problema é seu diagnóstico sobre o responsável por tais falhas e como devem ser consertadas. Eu estou totalmente a bordo da atitude geral de Guha quanto à elite indiana e seus capangas. O problema é que sua análise das causas disso vai tanto na direção errada que se põe no caminho de uma resposta e uma crítica apropriada dessa ordem.

E Partha Chatterjee? Seu trabalho não oferece uma crítica séria do estado pós-colonial na Índia?

Em alguns aspectos, sim. Em um nível puramente descritivo, o trabalho de Chatterjee sobre o nacionalismo, como o de Guha, demonstra a estreiteza das preocupações da liderança nacionalista, sua fidelidade aos interesses das elites e suas ressalvas quanto à mobilização popular. E isso deve ser elogiado.

O problema, novamente, é o diagnóstico. No caso de Chatterjee, a falha do movimento nacionalista indiano é imputada à sua liderança ter internalizado um ethos particular, e esse é o ethos é a orientação que vem da modernização e do modernismo. Então, para Chatterjee, o problema com Nehru é que ele adotou rapidamente um posicionamento modernizante quanto à economia política. Em outras palavras, ele deu grande valor a uma abordagem científica quanto à industrialização, o planejamento racional e organização – e esse é o cerne do porque, para Chatterjee, a Índia está presa em uma posição de “sujeição continuada” na ordem global.

É justo dizer que Nehru é sustentado por um estreito rol de interesses, mas localizar as fontes profundas de seu conservadorismo em sua adoção de uma visão de mundo modernizante e científica confunde seriamente qual seja o problema. Se o problema com a elite pós-colonial é que ela adotou uma visão de mundo científica e racional, a questão emerge: como os teóricos pós-coloniais pretendem se livrar da presente crise – não apenas econômica e política, mas inclusive ambiental – se eles estão dizendo que ciência, objetividade, evidência, preocupações com o desenvolvimento, devem ser descartados?

Chatterjee não tem uma saída para isso. Em minha visão, o problema com a liderança de Nehru, e com a liderança do Congresso Nacional Indiano, não é que eles eram científicos e modernizantes, mas que eles ligaram seu programa ao interesse das elites indianas – da classe capitalista indiana, e dos latifundiários indianos – e que abandonaram seu compromisso com a mobilização popular e tentaram manter as classes populares sob um controle bastante rígido.

A abordagem de Chatterjee, ainda que tenha o apelo de uma crítica radical, é na verdade bastante conservadora, porque localiza a ciência e a racionalidade no Ocidente, e ao fazê-lo descreve o Oriente mais ou menos como faziam as ideologias coloniais. É também conservadora porque nos deixa sem qualquer meio pelo qual deveríamos construir uma ordem mais humana e mais racional, porque não importa em que caminho você tente se mover – quer você tente se mover do capitalismo em direção ao socialismo, quer você tente humanizar o capitalismo através de algum tipo de social-democracia, quer você tente mitigar os desastres ambientais mediante um uso racional nos recursos – tudo isso vai requerer uma daquelas coisas que Chaterjee impugna: ciência, racionalidade e planejamento de algum tipo. Localizar essas como as fontes da marginalização do Oriente não é apenas equivocado, mas penso que essa crítica é bastante conservadora.

Mas não há qualquer fundamento na crítica que os teóricos pós-coloniais fazem ao marxismo, bem como a outras formas de pensamento Ocidental enraizadas no Iluminismo; que elas sejam eurocêntricas?

Bem, temos que distinguir entre duas formas de eurocentrismo: uma é neutra e benigna, que diz que uma teoria é eurocêntrica na medida em que sua base evidencial tenha vindo majoritariamente do estudo da Europa. Nesse sentido, é claro, todas as teorias Ocidentais que conhecemos desde meados do fim do século XIX amplamente extraíram suas evidências e informações da Europa, porque a escolaridade e a literatura histórica e antropológica no Oriente era bastante subdesenvolvida. Nesse sentido, elas eram eurocêntricas.

Eu penso que esse tipo de eurocentrismo é natural, ainda que carregue toda uma série de problemas, mas isso não pode realmente ser indicado. A forma mais perniciosa de eurocentrismo – a que os teóricos pós-coloniais perseguem – se dá quando o conhecimento baseado em fato particulares sobre o Ocidente é projetado sobre o Oriente e pode induzir ao erro. De fato, os teóricos pós-coloniais têm acusado os teóricos Ocidentais porque eles não apenas ilicitamente projetam sobre o Oriente conceitos e categorias que podem ser inaplicáveis; eles sistematicamente ignoram evidências que estão à disposição e podem gerar teorias melhores.

Se é esse segundo tipo de eurocentrismo do qual estamos falando, então há elementos na história do pensamento marxista que caem como uma luva nesse tipo de eurocentrismo. De todo modo, se você olha para a história atual do desenvolvimento desta teoria, esses casos têm sido bastante raros.

Desde o começo do século XX, eu acredito é que exato dizer que o marxismo é talvez a única teoria da mudança histórica vinda da Europa que sistematicamente se bateu com a especificidade do Oriente. Um dos fatos mais curiosos dos estudos subalternos e da teoria pós-colonial é que eles ignoram isso. A começar pela Revolução Russa de 1905 e a Revolução de 1917, depois a Revolução Chinesa, depois os movimentos africanos pela descolonização, depois os movimentos guerrilheiros na América Latina – toda essas efervescências sociais geraram tentativas de lidar com a especificidade do capitalismo em países fora da Europa.

Você pode encontrar diversas teorias específicas que se desdobraram do marxismo que não apenas se voltaram para as especificidades do Oriente, mas explicitamente negaram a teleologia e o determinismo que os estudos subalternos dizem ser centrais no marxismo: a teoria trotskista do desenvolvimento desigual e combinado, a teoria de Lenin sobre o imperialismo, a articulação de modos de produção, etc. Cada uma dessas teorias foi um reconhecimento de que as sociedades em desenvolvimento não parecem completamente com as sociedades europeias.

Então se você quer marcar pontos, é possível trazer à tona exemplos aqui e ali de algum tipo de reminiscência eurocêntrica no marxismo. Mas se você olhar para o balanço geral, não apenas o resultado do placar é, no fim das contas, bastante positivo, mas se você o compara com o orientalismo que os estudos subalternos reviveram, me parece que o enquadramento mais natural para entender a especificidade do Oriente vêm do marxismo e da tradição iluminista, não da teoria pós-colonial.

A contribuição duradoura da teoria pós-colonial – o que será conhecido dela, a meu ver, se ela ainda for lembrada daqui a 50 anos – será que ela reviveu o essencialismo cultural e agiu como um endosso do orientalismo, mais do que foi um antídoto para ele.

Tudo isso impõe a pergunta: por que a teoria pós-colonial ganhou tal proeminência nas últimas décadas? Na verdade, por que ela foi capaz de suplantar ideias como as que você defende em seu livro? Claramente, a teoria pós-colonial veio ocupar um espaço antes preenchido por várias formas de pensamento marxista e derivados, e influenciou especialmente amplas faixas da esquerda intelectual anglófona.

Na minha visão, essa proeminência se deve estritamente a razões sociais e históricas; não expressa o valor ou a utilidade da teoria, e é por isso que decidi escrever o livro. Eu penso que a teoria pós-colonial veio se tornou proeminente por dois motivos. Um é que após o declínio do movimento operário e o esmagamento da Esquerda nos anos 70, não haveria qualquer tipo de teoria proeminente na academia que focasse no capitalismo, na classe trabalhadora, ou na luta de classes. Muitas pessoas apontaram isso: nos quadros universitários, é irreal imaginar que qualquer crítica do capitalismo de uma perspectiva de classe vá ter muito lastro exceto em período de massiva turbulência ou convulsão social.

Então a questão interessante é porque há qualquer tipo de teoria que sequer se autodenomine radical, uma vez que não seja a teoria anticapitalista clássica. Creio que isso tem a ver com duas coisas: primeiro, com as mudanças nas universidades nos últimos 30 anos, após as quais elas não são mais as torres de marfim que já costumaram ser. São instituições de massas, e essas instituições se abriram a grupos que, historicamente, eram mantidos fora: minorias raciais, mulheres, imigrantes de países em desenvolvimento. Todas as pessoas experimentam diversos tipos de opressão, mas não necessariamente exploração de classe. Surge, então, uma base de massas para o que chamamos de estudos das opressões, os quais são um tipo de radicalismo – e isso é importante, e é real. De todo modo, não é uma base muito interessada em questões sobre a luta de classes ou formações de classe, e coisas como as que o marxismo costuma tratar.

Complementarmente, houve a trajetória da intelligentsia. A geração de 68 não se tornou convencional conforme envelheceu. Alguns queriam manter seus compromissos morais e éticos com o radicalismo. Mas, como todos os demais, também se afastaram do radicalismo classista. Então você teve um movimento de baixo, que foi como um tipo de demanda por teorias focando nas opressões, e um movimento de cima, entre professores que se ofereciam para suprir teorias focando nas opressões. O que os fez convergir não foi apenas um foco nas opressões, mas a remoção da opressão e da exploração de classe da história. E a teoria pós-colonial, por conta de sua própria remoção do capitalismo e das classes – porque ela minimiza e subestima a dinâmica da exploração – acaba estando na medida perfeita.

Qual sua previsão para a teoria pós-colonial? Você espera que ela seja eclipsada, no interior da academia e da esquerda, em breve?

Não, eu não espero. Eu não acho que a teoria pós-colonial está sob nenhum risco de ser substituída, não tão cedo, ao menos. Tendências acadêmicas vêem e vão, não baseadas na validade de suas teses ou no valor de suas proposições, mas por causa da sua relação com um ambiente político e social mais amplo. A desorganização geral do trabalho e da esquerda, que criou as condições para o florescimento da teoria pós-colonial, ainda está muito colocado. Além disso, a teoria pós-colonial tem agora pelo menos duas gerações de acadêmicos que empenharam todas suas carreiras nisso; eles tem meia dúzia de jornais dedicados a isso; há um exército de estudantes de pós-graduação desenvolvendo agendas de pesquisa que vão ao encontro disso. Seus interesses materiais estão atado diretamente com o sucesso da teoria.

Você pode criticar o quanto quiser, mas até que tenhamos movimentos do tipo que o marxismo pôs em movimento nos anos logo após a I Guerra Mundial, ou no augo dos anos 60 e no começo dos 70, você não verá uma mudança. Na verdade, o que você verá é uma reposta ágil e perniciosa a qualquer crítica que possa emergir. Meu triste, mas – eu acho – realista prognóstico é que isso vai estar por aí por um bom tempo.

26 de abril de 2013

A "democracia para o povo dos senhores", no passado e no presente

A "democracia para o povo dos senhores" pode facilmente transformar-se numa ditadura para o povo dos senhores.

Domenico Losurdo

La Revue du Projet
Andrew Jackson era o presidente do Estados Unidos no momento em que Tocqueville fez a viagem que levou à publicação da "Democracia na América". É verdade que este presidente acaba em grande parte com a discriminação censitária dos direitos políticos. Mas, paralelamente, encontramo-nos com um proprietário de escravos que, igualmente, ordena a deportação dos Peles Vermelhas (os Cherokees). Foram homens, mulheres, velhos, crianças: um quarto morreu durante a viagem. Deveríamos considerar que Jackson é um democrata? Os autores da Declaração da Independência e da Constituição de 1787 são igualmente proprietários de escravos, logo, durante trinta e dois dos primeiros trinta e seis anos de existência dos Estados Unidos, a função de presidente é ocupada por proprietários de escravos, muitas vezes implicados na expropriação e deportação dos Peles Vermelhas.

Os Estados Unidos daquela época eram uma democracia?

Em geral, afastam-se estas questões através do recurso a um historicismo vulgar: as sociedades liberais teriam herdado práticas e relações sociais universalmente difundidas. Mas os fatos são inteiramente diferentes. Tocqueville publica o primeiro livro da "Democracia na América" em 1835. Nesta data, a escravidão havia desaparecido em grande parte do continente. Na esteira da Revolução Francesa, a revolução dos escravos negros em São Domingos dá o impulso do processo de emancipação. Depois a revolução da América Latina explode a dominação espanhola: ela também se conclui com a abolição da escravatura. A revolução dos colonos ingleses que conduziu à fundação dos Estados Unidos é a única do continente americano a manter e mesmo reforçar e estender a instituição da escravatura: depois de ter arrancado o Texas ao México, a república norte-americana ali reintroduz a escravatura anteriormente abolida. Mais uma vez coloca-se a questão: os Estados Unidos daquela época eram uma democracia?

É mais adequado falar de Herrenvolk democracy, ou seja, de democracia que vale somente para o "povo dos senhores". Quando este regime acabou nos Estados Unidos? Com o fim da Guerra de Secessão e a abolição da escravatura que se seguiu? Na realidade, um dos capítulos mais trágicos da história dos afro-americanos foi escrito entre o fim do século XIX e princípios do século XX. O linchamento era um horrível espetáculo de massa. Quero citar aqui um historiador americano:
As notícias de linchamento eram publicadas nas folhas locais e vagões suplementares eram acrescentados aos comboios para [transportar] os espectadores, por vez milhares, vindos de localidades situadas a quilômetros de distância. Para assistir ao linchamento, as crianças das escolas podiam ter um dia de liberdade. O espetáculo podia incluir a castração, o esfolamento, a assadura, o enforcamento, os tiros. As recordações para os compradores podiam incluir os dedos das mãos e dos pés, os ossos e mesmo os órgãos genitais da vitimas, assim como cartões postais ilustrados do acontecimento.
Outro historiador americano (George M. Fredrickson) observa que "os esforços para manter a 'pureza da raça' no Sul dos Estados Unidos antecipam certos aspectos da perseguição lançada pelo regime nazista contra os judeus nos anos 1930". Nos Estados Unidos, o Estado racial sobreviverá algum tempo após o afundamento do Terceiro Reich: em 1952, uma trintena de estados da União ainda proibiam o casamento e as relações sexuais inter-raciais, por vezes consideradas como delitos graves.

A "democracia para o povo dos senhores" e a história do Ocidente

Contudo, seria errado concentrar a atenção exclusivamente nos Estados Unidos. A categoria Herrenvolk democracy também pode ser útil para explicar a história da Inglaterra que, imediatamente após a Gloriosa Revolução liberal de 1688-89, arrebata à Espanha o monopólio do tráfico dos escravos negros e reforça sua opressão sobre os irlandeses impondo-lhes uma condição comparável àquela dos Peles Vermelhas. Ou melhor, a categoria Herrenvolk democracy pode ser útil para explicar a história do Ocidente enquanto tal. Com efeito, entre o fim do século XIX e os princípios do XX, a extensão do sufrágio na Europa caminha a par com o processo de colonização e a imposição de condições de trabalho servis ou semi-servis às populações submetidas: a rule of law, o governo da lei na metrópole capitalista entrelaça-se com o poder arbitrário e policial e mesmo com o terror imposto nas colônias. Se se examinar bem, é o mesmo fenómeno que caracteriza a história dos Estados Unidos com esta diferença: no caso da Europa as populações colonizadas ao invés de viverem na metrópole são dela separadas pelo oceano. De modo significativo, na segunda metade do século XIX, um liberal como John Stuart Mill por um lado celebra a liberdade e justifica-a, por outro lado celebra o "despotismo" do Ocidente sobre as raças ainda "menores" destinadas a observar uma "obediência absoluta".

A "democracia para o povo dos senhores" tem vida dura!

Chegado a este ponto, sintetizando e atualizando os resultados do meu livro, Contra-História do Liberalismo, coloco-me três perguntas: a ultrapassagem da "democracia para o povo dos senhores" resulta de uma evolução espontânea do liberalismo? A resposta deve ser um não categórico. Em Dezembro de 1952, o ministro americano da Justiça envia uma carta eloquente ao Tribunal Supremo que está em vias de discutir a questão da integração nas escolas públicas: "a discriminação racial leva água ao moinho da propaganda comunista" que se difunde entre os afro-americanos (assim como entre todos os povos submetido à dominação colonial e racista). No século XX, o movimento comunista foi o grande adversário do colonialismo, da "democracia para o povo dos senhores" e do Estado racial.

E agora a segunda pergunta: o Estado racial americano exerceu influência sobre a Europa? Em 1930, um ideólogo do nazismo de primeiro plano, como Alfred Rosenberg, exprime sua admiração pela América da white supremacy, este "esplêndido país do futuro" que teve o mérito de formular a feliz "nova ideia de um Estado racial", ideia que era pois questão de também por em prática "com a força da juventude" na Alemanha. Hitler também se reclama explicitamente do modelo americano: na Europa Oriental, os índios a submeter são os eslavos que é preciso dizimar a fim de permitir a germanização do território e aqueles que serão poupados serão destinados a trabalhar como os escravos negros ao serviço da raça dos senhores (os judeus, ao contrário, são assimilados aos bolcheviques, tanto uns como outros devendo ser eliminados enquanto ideólogos e instigadores da revolta das "raças inferiores"). Naturalmente, é preciso manter em mente a distinção entre democracia (ainda que limitada somente à raça dos senhores) e ditadura. E contudo... Retornemos aos Estados Unidos nos anos que antecedem a Guerra de Secessão. Tocqueville observa a dureza das pensa infligidas àqueles que ensinavam os escravos a ler e escrever. Naturalmente, a proibição visava excluir a raça dos servos de toda forma de instrução. E em caso de violação desta regra, os proprietários brancos eram os primeiros a serem atingidos. Além disso, as regras proibiam a miscigenação, as relações sexuais e os casamentos inter-raciais. Ou, mais uma vez, visando tornar hereditária e invariável a condição dos escravos, estas regras acabavam por trazer um grave atentados à liberdade dos proprietários. Por outras palavras, o regime da "democracia para o povo dos senhores" limitava profundamente a liberdade dos proprietários de escravos, confirmando a grande fórmula de Marx e Engels segundo a qual um povo que oprime outro não poderia ser livre.

Pode-se pensar do que acontecia quando os escravos se rebelavam ou quando os proprietários temiam serem privados da sua "propriedade" de um modo ou de outro. As testemunhas da época relatam: "o serviço militar [das patrulhas brancas] é assegurado noite e dia, Richmond parece uma cidade sitiada [...] Os negros [...] não se arriscam a comunicarem entre si por medo de serem punidos". Os abolicionistas brancos também eram afetados porque eram considerados como traidores da raça branca e por isso eram assimilados aos negros. Vamos dar, mais uma vez, a palavra às testemunhas da época: aqueles que criticam a instituição da escravatura "não ousam sequer intercambiar opiniões com aqueles que pensam como eles por medo de serem traídos". Todos são constrangidos pelo terror a "não abrirem as bocas, a abafar suas próprias dúvidas e a enterrar suas próprias reticência". Como se vê, a dominação terrorista que os proprietários de escravos exerciam sobre os negros acabava por atingir duramente os membros e as frações da classe dominante. Em condições de crise aguda, a "democracia para o povo dos senhores" pode facilmente transformar-se numa ditadura para o povo dos senhores. Entre o Estado racial nos EUA e o Estado racial na Alemanha, há elementos de continuidade e de descontinuidade.

Finalmente, a última pergunta: a "democracia para o povo do senhores" desapareceu totalmente dos nossos dias? Inegavelmente, muitas coisas mudaram, a gigantesca vaga de revoluções anticoloniais irrompendo no mundo a partir de Outubro de 1917 e, sobretudo, de Estalingrado. Contudo, a ideologia dominante celebra Israel como a única democracia autêntica do Médio Oriente. Salvo que a rule of law, o governo da lei para os cidadãos israelenses de pleno direito caminha a par com a expropriação, a deportação, a prisão arbitrária e mesmo a execução extrajudicial perpetrados contra os palestinos: é a democracia para o povo dos senhores. E à escala internacional? Pisoteando de modo explícito o princípio da igualdade entre as nações, os Estados Unidos e o Ocidente continuam a arrogar-se o direito soberano de invadir, bombardear, submeter a embargo e à fome este o aquele país mesmo sem a autorização do Conselho de Segurança da ONU. Às proclamações vibrantes prestando homenagem à liberdade e à democracia corresponde a tentativa de exercer uma ditadura no plano internacional. Infelizmente, a "democracia para o povo dos senhores" tem a vida dura!

Sobre o autor

Professor de história da filosofia na universidade de Urbin (Itália). Dirige desde 1988 a Internationale Gesellschaft Hegel-Marx für Dialektisches Denken, e é membro fundador da Associazione Marx XXIesimo secolo. Último livro publicado: La non-violenza, Una storia fuori dal mito (Laterza, 2010).

25 de abril de 2013

O golpe de Thatcher

Por John Pilger
[Counterpunch] Após o desaparecimento de Thatcher, recordo suas vítimas. A filha de Patrick Warby, Marie, foi uma delas. Marie, com cinco anos, sofria de uma deformidade do intestino e precisava de uma dieta especial. Sem ela, o sofrimento era aflitivo. Seu pai era um mineiro de Durham e gastara todas as suas poupanças. Era o Inverno de 1985, a Grande Greve tinha quase um ano e a família estava empobrecida. Embora a necessidade de operação não fosse contestada, o Departamento de Segurança Social recusou ajuda a Marie. Posteriormente, obtive registros do caso mostrando que Marie fora recusada porque o seu pai era "influenciado por uma disputa sindical".

A corrupção e desumanidade sob Thatcher não conheciam fronteiras. Quando chegou ao poder em 1979, Thatcher pediu uma proibição total de exportações de leite para o Vietnã. A invasão americana havia deixado um terço das crianças vietnamitas desnutridas.

Testemunhei muitas visões penosas, incluindo crianças ficando cegas devido à falta de vitaminas. "Não posso tolerar isto", disse um médico angustiado num hospital pediátrico de Saigón, quando olhávamos para um rapaz morrendo. A Oxfam e a Save the Children havido deixado claro para o governo britânico a gravidade da emergência. Um embargo conduzido pelos EUA havia forçado o preço local do litro de leite a subir para dez vezes o do quilo de carne. Muitas crianças podiam ter sido recuperadas com leite. A proibição de Thatcher impediu.

No vizinho Camboja, Thatcher deixou um rastro de sangue, secretamente. Em 1980, ela exigiu que o defunto regime Pol Pot – o assassino de 1,7 milhão de pessoas – retivesse o seu "direito" a representar suas vítimas na ONU. A sua política era de vingança do libertador do Camboja, o Vietnã. O representante britânico foi instruído a votar com Pol Pot na Organização Mundial de Saúde, impedindo-a dessa forma de proporcionar ajuda para o lugar onde era mais necessária do que qualquer outro na terra.

Para esconder esta infâmia, os EUA, a Grã-Bretanha e a China, os principais apoiadores de Pol Pot, inventaram uma "coligação de resistência" dominada pelas forças do Khmer Rouge de Pol Pot e abastecida pela CIA em bases ao longo da fronteira tailandesa. Havia uma dificuldade. Na sequência da derrocada do Irangate, armas-por-réfens, o Congresso dos EUA proibira aventuras clandestinas no estrangeiro. "Num daqueles acordos que ambos gostavam de fazer", contou um alto responsável do Whitehall ao Sunday Telegraph, "o presidente Reagan sugeriu a Thatcher que o SAS deveria assumir o comando do show do Camboja. Ela prontamente concordou".

Em 1983, Thatcher enviou o SAS para treinar a "coligação" na sua própria e diferente marca de terrorismo. Sete equipes de homens do SAS chegaram de Hong Kong e soldados britânicos começaram a treinar "combatentes da resistência" em estender campos de minas num país devastado pelo genocídio e a mais alta taxa de mortes e mutilações do mundo devido a campos de minas.

Noticiei isto na altura e mais de 16 mil pessoas escreveram a Thatcher para protestar. "Confirmo", respondeu ela ao líder da oposição Neil Kinnock, "que não há envolvimento do governo britânico de qualquer espécie no treino, equipamento ou cooperação com o Khmer Rouge ou aliados dele". A mentira era de cortar o fôlego. Em 1991, o governo de John Major admitiu no parlamento que o SAS havia na verdade treinado a "coligação". "Nós gostamos dos britânicos", disse-me mais tarde um combatente do Khmer Rouge. "Eles foram muito bons ensinando-nos a montar armadilhas explosivas (booby traps). Pessoas confiantes, como crianças em campos de arroz, foram as vítimas principais".

Quando os jornalistas e produtores do memorável documentário "Death on the Rock", da ITV, revelaram como o SAS havia dirigido outros esquadrões da morte de Thatcher na Irlanda e em Gibraltar, foram perseguidos pelos "jornalistas" de Rupert Murdoch, então acovardados em Wapping atrás do arame farpado. Embora absolvida, a Thames TV perdeu sua concessão da ITV.

Em 1982, o cruzador argentino General Belgrano navegava fora da zona de exclusão das Falklands. O navio não constituía ameaça, mas Thatcher deu ordens para que fosse afundado. Suas vítimas foram 323 marinheiros, incluindo adolescentes alistados. O crime tinha uma certa lógica. Dentre os mais próximos aliados de Thatcher estavam assassinos em massa – Pinochet no Chile, Suharto na Indonésia, responsáveis por "muito mais do que um milhão de mortes" (Anistia Internacional). Embora desde há muito o estado britânico armasse as principais tiranias do mundo, foi Thatcher que com um zelo de cruzado procurou tais acordos, conversando empolgada acerca das mais refinadas características de motores de aviões de combate, negociando arduamente com príncipes sauditas que pediam subornos. Filmei-os numa feira de armas, a acariciarem um míssil reluzente. "Terei um daqueles!", disse ela.

No seu inquérito das armas-para-o-Iraque, Lorde Richard Scott ouviu evidências de que toda uma camada do governo Thatcher, desde altos funcionários civis até ministros, mentira e infringira a lei na venda de armas a Saddam Hussein. Eram os seus "rapazes". Se folhear números antigos do Baghdad Observer encontrará na primeira página fotos dos seus rapazes, principalmente ministros do gabinete, sentados com Saddam na sua famosa poltrona branca. Ali está Douglas Hurd e um sorridente David Mellor, também do Foreign Office, na época em que o seu hospedeiro ordenava o gaseamento de 5000 curdos. A seguir a esta atrocidade, o governo Thatcher duplicou créditos comerciais para Saddam.

Talvez seja demasiado fácil dançar sobre a sua sepultura. O seu funeral foi uma proeza de propaganda, adequada a um ditador: uma mostra absurda de militarismo, como se se houvesse verificado um golpe. E foi. "O seu triunfo real", disse outro dos seus rapazes, Geoffrey Howe, ministro da Thatcher, "foi ter transformado não apenas um partido mas dois, de modo que quando o Labour finalmente retornou, a maior parte do thatcherismo era aceito como irreversível".

Em 1997, Thatcher foi o primeiro antigo primeiro-ministro a visitar Tony Blair depois de ele ter entrado na Downing Street. Há uma foto deles, juntos num rito: o criminoso de guerra em embrião com a sua mentora. Quando Ed Milliband, na sua untuosa "homenagem", travestiu Thatcher como "corajosa" heroína feminista cujas façanhas pessoalmente "admira", fica-se sabendo que a velha assassina não morreu de todo.


John Pilger é jornalista. Sua carreira como repórter começou em 1958, e ao longo dos anos tornou-se famoso pelos livros e documentários que escreveu ou produziu. Apesar das tentativas de setores mais conservadores para ridicularizar e desvalorizar Pilger, o seu jornalismo investigativo já mereceu vários prêmios na área do jornalismo, tais como a atribuição, por duas vezes, do prêmio jornalista inglês do ano, e na área dos dos Direitos Humanos.

22 de abril de 2013

Quatro sinais de que o neoliberalismo está (quase) morto

Sameer Dossani*

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Embora Margaret Thatcher já não esteja entre os vivos, sua ideologia permanece. Essa ideologia – conhecida hoje como neoliberalismo, "fundamentalismo de mercado livre" na frase cunhada por George Soros – é singularíssima. Além das crenças religiosas, não há qualquer exemplo de uma ideologia que tenha sido tão amplamente refutada e ainda assim mantenha uma aura de respeitabilidade.

A premissa básica do neoliberalismo – que "mercados livres" conduzem a melhor crescimento, mais prosperidade e mesmo mais igualdade – sempre foi ficção. Como Ha-Joon Chang, economista de Cambridge, reiteradamente apontou, não há tal coisa como um mercado livre. Nem há qualquer exemplo de um país que se tenha desenvolvido seguindo os dogmas neoliberais da privatização, liberalização e cortes orçamentais. Ao invés disso os países tradicionalmente têm utilizado uma combinação de subsídios, tarifas e investimento financiado por dívida para impulsionar indústrias e aproveitar sua vantagem comparativa para a produção de mercadorias mais avançadas.

Apesar da história, neoliberais argumentam que só os mercados deveriam determinar coisas como salários e que as corporações e seus proprietários deveriam poder operar como quisessem. Países desenvolvidos que adotaram dogmas neoliberais depois de 1980 viram os salários estagnarem quase tão rapidamente quanto os lucros das corporações disparavam.

No mundo em desenvolvimento era muito pior. A África sofreu duas décadas de estagnação econômica como resultado direto de ser forçada a seguir estas políticas, com os latino-americanos e asiáticos fazendo não muito melhor. A década passada viu alguma melhoria, mas a comunidade global ainda está bem atrás de onde deveria estar em termos de erradicar a fome e doenças evitáveis.

Mas a era neoliberal pode, finalmente, estar aproximando-se do seu fim há muito esperado. Eis porque:

1) O FMI admitiu que cortes orçamentais nem sempre são a resposta.

O FMI durante mais de três décadas forçou países a reestruturarem suas economias a fim de se alinharem aos dogmas neoliberais. Eles, em particular, obrigaram países endividados a cortarem orçamentos antes de poderem tomar emprestado junto a mercados de capitais para reembolsar credores. As frases que burocratas e políticos inventaram para vender esta ideologia são agora clichês: "Governos não podem gastar mais do que ganham", "Todos nós precisamos apertar os cintos", etc, etc. Com o corte da despesa do governo, continua a estória, os países abrem espaço para aumento dos gastos do setor privado e a economia cresce.

Embora estudos anteriores do FMI tenham chegado a conclusões semelhantes, só em Janeiro de 2013 o economista chefe do FMI publicou o que equivale a um "mea culpa". Descobriu que diminuição do investimento público é realmente um caminho muito bom para prejudicar perspectivas de desenvolvimento econômico ao invés de aumentá-las. Uau!

E há uma outra faceta na estória. Durante os últimos anos, decisores têm citado um documento de economistas de Harvard que sublinham ostensivamente os perigos de países tomarem demasiado emprestado a fim de financiar despesas públicas. O documento sugere especificamente um ponto de ruptura – quando a dívida atinge os 90% do PIB – para além da qual as economias sofreriam devido às suas despesas excessivas. O documento tem sido citado por responsáveis públicos de todo o globo a fim de justificar cortes orçamentais. Mas verificou-se que as conclusões do documento resultavam de uma série de erros, um dos quais foi esquecerem-se de atualizar um cálculo numa folha de Excel. Quando os dados corretos são colocados no lugar, as conclusões mais ou menos desaparecem. Duplo uau!

2) A conferência do desenvolvimento de Doha está morta.

Em novembro de 2001 a Organização Mundial do Comércio lançou a sua "Conferência do desenvolvimento de Doha" ("Doha development round"). Apesar do seu nome, a conferência de Doha acerca de tudo menos desenvolvimento. Em lugar alto na agenda havia coisas como remover proteções sociais e ambientais, eliminar subsídios para agricultores pobres e assegurar que grandes companhias farmacêuticas pudessem manter patentes (e aumentar muito o custo das mesmas) sobre remédios salvadores de vidas.

Com a ajuda de ativistas progressistas de Seattle a Hong Kong, e devido à enorme revolta de países em desenvolvimento na conferência ministerial de Cancun da OMC, Doha está mais ou menos morta e a OMC está num impasse. Isso é uma grande notícia para aqueles que querem ver o comércio justo como oposto ao "livre comércio" e pretendem acordos comerciais que colocam o desenvolvimento e os direitos humanos em primeiro lugar. O desafio agora é propor uma estrutura (e talvez mesmo um mecanismo) para a regulação multilateral do comércio global que dê mais prioridade a direitos humanos do que a lucros corporativos.

3) Os países estão cada vez mais negociando em moedas locais.

Além do FMI, um meio de os EUA manterem seu controle sobre o sistema econômico global é a supremacia do US dólar. Certas transações devem ser feitas em US dólares – comprar petróleo por exemplo – e o US dólar ainda é visto como a moeda global mais segura. O resultado é que o valor do dólar permanece artificialmente alto, aumentando o poder de compra dos consumidores estado-unidenses e o desejo de toda a gente em vender aos EUA.

Esta situação não beneficia quase ninguém (nem mesmo os consumidores dos EUA) e alguns governos começaram a procurar alternativas. Acordos para começar a negociar em moedas locais foram propostos entre o Brasil e a China, a Turquia e o Irão, a China e o Japão, e os países BRICS. Embora alguns destes acordos estejam apenas a iniciando, se implementados eles representam um desafio significativo ao status quo.

4) A crise de 2007-2008 demonstrou sem qualquer dúvida que mercados não se auto-regulam. E a Islândia provou que há um outro caminho.

A crise financeira de 2007-08 está longe de ser a primeira crise financeira da era neoliberal. De facto, seria rigoroso chamar a era neoliberal de "era das crises financeiras". Desde o México em 1982, a outros países latino-americanos logo após, ao colapso das bolsas de valores dos EUA em 1987, ao Japão em 1990, à crise financeira asiática de 1997, à da Rússia e do Brasil em 1998-99, à Turquia e Argentina em 2000-2002, ao colapso da bolha da dot.com, dificilmente houve algum momento desde 1980 em que não houvesse uma crise financeira a acontecer em algum lugar. O que habitualmente acontece em tais tempos é que governos adotam medidas para proteger as elites (habitualmente os banqueiros que realmente provocaram as crises) e comutam o fardo do pagamento dos seus custos para o público em geral. A crise atual é um bom exemplo. 

Mas, ao contrário das crises anteriores, há indicações de que desta vez podemos estar a ver uma mudança de sistema. A primeira delas é simplesmente a escala da crise. A bolha habitacional dos EUA que entrou em colapso representou cerca de US$8 milhões de milhões (trillion) em riqueza artificial. Isso é mais de 11% do PIB global e sem contar com as bolhas habitacionais que entraram em colapso na Europa e alhures. Isto é um fracasso do mercado numa escala maciça.

Desta vez há também um exemplo de um país que protegeu os seus cidadãos, prendeu os seus banqueiros e está a obter resultados muito melhores. O país, a Islândia, junta-se à Argentina como um dos únicos países a incumprir dívidas resultantes de crise financeira. Os desastres que "toda a gente" estava à espera (não acesso a mercados de divisas, investidores pondo a Islândia na lista negra, etc) nunca se materializaram, mostrando que mesmo pequenos países podem enfrentar o cartel internacional de credores e viver para contar a história.

A Islândia demonstra que não há nada de natural acerca do neoliberalismo. A decisão de proteger elites dos efeitos dos mercados enquanto utiliza-se aqueles mesmos mercados para punir todas as outras pessoas é uma injustiça política, não uma lei natural.

E é esta injustiça que assegura que o neoliberalismo seguirá o mesmo caminho do pássaro dodó. Em última análise, mercados são apenas um contrato social, como o casamento. E assim como o movimento rumo à igualdade no casamento agora parece inevitável, a reforma drástica do modo como nos relacionamos com mercados está a caminho.

* Trabalha na ActionAid Internacional, uma organização global anti-pobreza. Desde 1966 tem feito campanhas contra políticas neoliberais nos EUA, Canadá, Índia e Filipinas. Os pontos de vista supramencionados não refletem necessariamente os da sua organização.

18 de abril de 2013

A invenção da Terra de Israel

Neste segundo volume de sua trilogia de estudos judaicos, Sand explora como a "Terra de Israel" foi inventada, e desmascara a mitologia nacionalista popular.

Donald Sassoon*

The Guardian

Em 2009, Shlomo Sand publicou “A Invenção do Povo Judeu", no qual afirmou que os judeus têm pouco em comum uns com os outros. Não existe uma linhagem étnica comum em virtude do elevado índice de conversão na antiguidade. Também não têm uma linguagem comum, pois o hebraico era unicamente utilizado para efeitos litúrgicos e não era nem falado no tempo de Jesus. O ídiche era somente utilizado pelos judeus asquenazes. O que resta para os unir? Religião? Mas religião não cria um povo – vejamos o caso dos muçulmanos e dos católicos. Além de que muitos dos judeus não são religiosos. Sionismo? Não passa de uma opção política: alguém pode ser escocês e não ser partidário do nacionalismo escocês. Além de que muitos judeus, incluindo sionistas, não têm a mínima intenção de “retornar” à Terra Santa preferindo permanecer em Londres, Brooklyn ou onde seja. Por outras palavras, a designação de “Povo Judeu” é uma construção política, uma invenção. Agora, Sand diz-nos neste segundo volume, daquilo que será uma trilogia, que mesmo a ideia de “Terra de Israel” foi inventada. O terceiro volume da trilogia será “A Invenção dos Judeus Seculares”.

A “Terra de Israel” quase não é mencionada no Antigo Testamento; a expressão mais frequente é Terra de Canaã. Quando é mencionada, não inclui Jerusalém, Hebron ou Belém. “Israel” bíblica é somente Israel Norte (Samaria) e jamais existiu um reino único e unido que incluísse a antiga Judeia e Samaria. 

Mesmo que tal reino alguma vez tenha existido, não é um argumento válido para reivindicar um estado após mais de 2000 anos. É uma ironia da História que tantos sionistas, muitos deles seculares e socialistas usem argumentos religiosos para sustentar as suas teses. Além disso, o relato bíblico deixa bem claro que os judeus, liderados por Moisés e depois por Josué, foram colonizadores e ordenados por Deus para exterminar “tudo o que respire”. “Destrói-os completamente – Hititas, Amoritas, Cananeus, Ferezeus, Hivitas e Jebuseus - como o Senhor vos ordenou”. Imaginem se os Amoritas voltassem para reclamar a sua antiga terra. Se o fizessem, isto é o que Deuteronómio 20 tem a dizer: “Passem pela espada todos os homens... Quanto às mulheres, crianças, gado e tudo o mais... podem tomá-los para vós como pilhagem”. Hoje em dia, uma injunção deste tipo iria levá-lo diretamente para o Tribunal Penal Internacional.

A incerteza quanto ao que constitui exatamente a “Terra de Israel” perdura até hoje. Existe um estado de Israel reconhecido internacionalmente com fronteiras claramente definidas (A Linha Verde de 1967 resultou da expansão que se seguiu à guerra de 1948) e existe a “Terra de Israel” cujas fronteiras dependem de quem está falando; para alguns isso inclui toda a Cisjordânia, para outros toda a Jordânia. Para muitos, inclui parte da Turquia, Síria e Iraque, pois Deus prometeu a Abraão e aos seus descendentes “esta terra, desde o rio do Egito até ao Eufrates”.

No judaísmo tradicional não existe qualquer determinação de “regresso” à “Terra de Israel”. O ritual “próximo ano em Jerusalém”, que faz parte da oração do Sêder de Pessach, nunca foi uma chamada para reivindicar ou reconstituir um estado.

No século XIX, aqueles que defendiam o “regresso” dos judeus à Terra Santa eram mais cristãos sionistas que judeus. Lord Shaftesbury, um Tory compassivo que contribuiu para a melhoria das condições de loucos em asilos e crianças nas fábricas (The Ten Hours Act, 1833), lutou incessantemente para promover uma presença judaica na Palestina. Shlomo Sand descreve-o como um Theodor Herzl antes de Herzl, e com razão pois parece que foi Shaftesbury quem criou a famosa frase “Uma terra sem povo para um povo sem terra”. Claro que ele tinha a esperança que os judeus se convertessem ao cristianismo. Lord Palmerston, do lado liberal, também se entusiasmou com a ideia, não por se importar com os judeus (ou cristãos), mas porque pensava que se os judeus britânicos colonizassem uma parte do Império Otomano, isso aumentaria a influência britânica.

Nessa altura, poucos judeus eram sionistas. Quando perseguidos, como aconteceu no Império Russo, preferiam fugir para as novas terras de emigração, como a Argentina ou os Estados Unidos, do que para a Terra Prometida. O que fez o "Estado de Israel" possível não foi a promessa de Deus, mas sim o Holocausto e a relutância ocidental de providenciar refúgio aos sobreviventes.

Grande parte do que Shlomo Sand revela é conhecido pelos especialistas. O seu feito consiste em desmascarar a mitologia nacionalista que reina em grande parte da opinião popular. Também normaliza os judeus, uma vez que desafia a crença no excepcionalismo. O Holocausto foi um evento único, mas a ladainha nacionalista é basicamente semelhante em todas as nações – quase um gênero literário em si – pois está dividida entre um sentido lacrimoso de vitimização e autopiedade e uma narrativa presunçosa de feitos heroicos. "We", so goes the story, have been around for centuries (1066, famously, in Britain; 966 in Poland; since antiquity in Italy and in Greece). Eventually, after centuries, we achieved our freedom, our independence, our happiness, and we, who are unlike everyone else, can finally be like everyone else: members and possessors of a country and a nation.

Demystifying what the French call le roman national seems to be today one of the major tasks of historians (once they used to write it). This can be an uphill struggle, yet it is to the credit of the Israeli book-reading public that Sand's previous book, The Invention of the Jewish People became a bestseller. Truth-telling may be painful but necessary.

* Donald Sassoon é professor de História Comparada da Europa na Faculdade Queen Mary da Universidade de Londres.

16 de abril de 2013

Os Angry Birds da C.I.A.

por Maureen Dowd

The New York Times

Tradução / Durante o inverno, ouvi comandantes militares e funcionários da Casa Branca murmurarem em voz baixa sobre como eles teriam que criar uma estrutura jurídica e moral para os robôs assassinos voadores que executam alvos ao redor do mundo.

Eles estavam começando a perceber que, embora o público americano aprove o assassinato remoto de terroristas, trata-se de um buraco na alma da democracia destruir pessoas sem nenhum processo devido e pouca preocupação com a perda de inocentes.

Mas eles nunca chegaram a isso, deixando para Rand Paul assumir uma postura mais moral.
Depois de duas guerras sangrentas, intermináveis e onerosas no Afeganistão e no Iraque, a ideia de uma arma de guerra que evitava que qualquer um tivesse que de fato ir à guerra era muito cativante. Nosso sofisticado, elegante, inteligente, e desapegado presidente foi enfeitiçado por nossa sofisticada, elegante, inteligente e desapegada máquina de guerra.
Em uma entrevista com Jon Stewart no ano passado, o presidente Barack Obama admitiu que estava sob o domínio de uma paixão poderosa. “Uma das coisas que temos de fazer é criar uma estrutura legal”, disse ele, “e precisamos da ajuda do Congresso para fazer isso e garantir que não só eu seja freado, mas também qualquer presidente o seja.”

O programa secreto de aviões teleguiados dos Estados Unidos, que continuamente rebaixa as exigências para ações letais, transforma o presidente, o diretor da CIA e os conselheiros de contraterrorismo numa câmara de astros que controla a guerra longe das zonas de guerra e que utiliza um bisturi em vez de um martelo, como diz o novo diretor de Langley, John Brennan.
Mas, como Mark Mazzetti do Times observa em seu novo livro, “The Way of the Knife”, “a analogia sugere que este novo tipo de guerra não é isenta de custos ou equívocos – uma cirurgia sem complicações. Não é o caso.”
Mazzetti levanta a questão de saber se a CIA – que já vendeu camisas de golfe com logos do Predator em sua loja de presentes – ficou “tão apaixonada por seus aviões assassinos que deixou de fazer com que seus analistas façam uma pergunta fundamental: até que ponto os ataques teleguiados podem estar criando mais terroristas do que matando?”

Mazzetti escreve que Sir Richard Dearlove, o chefe do M16, o Serviço Secreto de Inteligência Britânico, assistiu a um dos primeiros ataques aéreos via satélite em Langley algumas semanas depois do 11 de Setembro. Quando viu um caminhão Mitsubishi no Afeganistão explodir, Dearlove sorriu secamente. “Isso quase não é justo, não é mesmo?”, perguntou o inglês.

Às vésperas da guerra no Iraque, Donald Rumsfeld e seu círculo íntimo ficaram desgostosos com o fato de a CIA ter descartado suas alegações espúrias de uma ligação entre Saddam e Al-Qaida, então criaram sua própria CIA no Pentágono. Soldados se tornaram espiões.

Enquanto isso, a CIA estava criando seu próprio Pentágono em Langley, executando a operação paramilitar de aviões teleguiados, em constante expansão. Espiões se tornaram soldados.
Mazzetti escreve que depois de 11 de Setembro, o diretor da CIA se transformou em “um comandante militar executando uma guerra clandestina e global com uma equipe mínima e pouquíssima supervisão”. Por que a CIA, como perguntou o general James Cartwright quando era vice-presidente do Joint Chiefs of Staff, precisava construir “uma segunda Força Aérea?”

Leon Panetta militarizou ainda mais a CIA e depois foi para o Pentágono. Quando um verdadeiro comandante militar, David Petraeus, tornou-se o espião-chefe em 2011, abraçou o programa de teleguiados, esforçou-se para expandir a frota e conduziu o primeiro assassinato teleguiado de um cidadão norte-americano.
“A agência de espionagem que em 11 de Setembro de 2001 havia sido denunciada como incompetente e avessa ao risco, sob o olhar atento de quatro diretores sucessivos da CIA, havia iniciado uma matança”, escreve Mazzetti.

A CIA tem agora uma base de teleguiados na Arábia Saudita, e tanto o Pentágono quanto a agência de espionagem estão realizando guerras paralelas de teleguiados no Iêmen, cada um lutando por recursos. E o Pentágono continua sua incursão na espionagem humana. Como W. George Jameson, um advogado que passou 33 anos na CIA, lamentou: “tudo está ao contrário. Há uma agência de inteligência fazendo guerra e uma organização militar tentando reunir informações de inteligência.”

Mazzetti observa que a CIA, que brincou de pega-pega durante a maior parte da Primavera Árabe, virou uma esquina perigosa, onde uma nova geração em Langley prefere “a adrenalina de estar na linha de frente”, caçando e matando, ao trabalho mais paciente, tedioso, “suave” de reunir informações e fazer espionagem. Depender de espiões estrangeiros para obter informações de contraterrorismo pode cegá-lo para o que realmente está acontecendo no local.

Ross Newland, um oficial clandestino de carreira, disse a Mazzetti que o fascínio de matar pessoas por controle remoto é “tentador” e que a agência deveria ter desistido do Predators e Reapers há muito tempo. Os robôs da morte transformaram a CIA na vilã em lugares como o Paquistão, disse Newland, onde a missão da agência é supostamente nutrir relações para conseguir informações de inteligência.

Obama, que continuou com quase todos os programas secretos passados por W., claramente se sente forte quando fala sobre assassinatos com alvo definido e considera os teleguiados como uma opção atraente. Como diz Mazzetti, “questões fundamentais sobre quem pode ser morto, onde se pode matar e quando se pode matar” ainda não foram respondidas ou discutidas publicamente.

Isso quase não é justo, não é mesmo?

15 de abril de 2013

Sementes do suicídio

Por Vandana Shiva

“A Monsanto é uma empresa agrícola. Aplicamos a inovação e a tecnologia para ajudar os agricultores de todo o mundo a produzir mais conservando mais."

“Produzir mais e conservar mais melhorando a vida dos agricultores.”

Brasil de Fato | Essas são as promessas que encontramos no site web da Monsanto Índia, acompanhadas por fotografias de sorridentes e prósperos agricultores do estado de Marahashtra. Trata-se de uma tentativa desesperada da Monsanto e da sua maquinaria de relações públicas para desvincular a epidemia de suicídios de agricultores hindus do crescente controle que a empresa exerce sobre o fornecimento de sementes de algodão (atualmente a Monsanto controla 95% das sementes de algodão da Índia). O controle das sementes é o primeiro elo da cadeia alimentar, já que as sementes são a fonte da vida. Quando uma empresa controla as sementes, controla a vida, especialmente a vida dos agricultores.

O concentrado controle que a Monsanto exerce sobre as sementes, tanto na Índia como em todo o mundo é um fato altamente preocupante, e o que conecta entre si os suicídios dos agricultores na Índia, os julgamentos “Monsanto versus Percy Shmeiser” no Canadá e “Monsanto versus Bowman”, nos EUA, e a ação no valor de 2,2 bilhões de dólares, interposta contra a Monsanto por agricultores brasileiros pela injusta cobrança de royalties.

Graças às suas patentes de sementes, a Monsanto se transformou no “Senhor da Vida” em nosso planeta, auferindo receitas no conceito de renovação da vida dos agricultores, os criadores originais.

As patentes das sementes são ilegítimas porque introduzir um gene tóxico em uma célula vegetal não é “criar” ou “inventar” uma planta. As sementes da Monsanto são sementes de mentira: a mentira de dizer que a Monsanto é criadora de sementes e de vida, a mentira de que, enquanto a Monsanto processa os agricultores e os asfixia em dívidas, pretende nos fazer crer que trabalha em prol de seu bem-estar, e mentira de que os OGM (organismos geneticamente modificados) estão alimentando o mundo. Os OGM não estão conseguindo controlar as pragas e as ervas daninhas, e em troca tem provocado o surgimento de super pragas e super-ervas daninhas.

A entrada da Monsanto na área hindu de sementes foi possível graças a uma política de sementes imposta em 1988 pelo Banco Mundial, que obrigou o governo da Índia a desregulamentar o setor. Cinco coisas mudaram com a entrada da Monsanto: em primeiro lugar, as empresas hindus ficaram presas em joint-ventures e acordos de concessão de licenças. Em segundo lugar, as sementes, que tinham se constituído no recurso comum dos agricultores se transformaram em “propriedade intelectual” da Monsanto, que começou a cobrar royalities por elas, fazendo com que seu custo aumentasse. Em terceiro lugar, as sementes de algodão de polinização aberta foram substituídas pelas sementes híbridas, incluídas as híbridas transgênicas. Dessa forma, um recurso renovável transformou-se num produto patenteado não renovável. Em quarto lugar, o algodão, que até então tinha sido cultivado em combinação com outros cultivos alimentares, agora tinha que ser plantado em regime de monocultura, o que implicava em maior vulnerabilidade diante das pragas, doenças, secas e más colheitas. Em quinto lugar, a Monsanto começou a subverter os processos de regulação na Índia e, de fato, começou a usar recursos públicos para incentivar seus híbridos não renováveis e seus transgênicos através das chamadas associações público-privadas (PPP-Public-Private Partnerships).

Em 1995, a Monsanto apresentou na Índia sua tecnologia Bt, através de uma joint-venture com a companhia hindu Mahico. Em 1997-98, a Monsanto começou a fazer ensaios ilegalmente sobre o terreno com seu algodão transgênico Bt, e anunciou que no ano seguinte iniciaria a venda comercial de sementes. Desde 1989, a Índia conta com uma normativa para regular os cultivos transgênicos no quadro da Lei de Proteção ao Meio Ambiente. Para realizar pesquisas com cultivos transgênicos é necessário obter a correspondente autorização do Comitê de Aprovação de Engenharia Genética, dependente do Ministério do Meio Ambiente. A Fundação de Investigação para a Ciência, Tecnologia e Ecologia processou a Monsanto diante do Tribunal Supremo da Índia, e a Monsanto não pôde começar a comercializar suas sementes de algodão Bt até 2002.

Após o relatório condenatório do Comitê Parlamentar da Índia sobre Cultivos Bt de agosto de 2012, o painel de técnicos especialistas nomeados pela Corte Suprema recomendou uma moratória de 10 anos para os experimentos sobre o terreno de qualquer cultivo transgênico, assim como a interrupção de todas as pesquisas em andamento.

Contudo, já então a agricultura da Índia tinha se transformado.

O monopólio da Monsanto sobre as sementes, a destruição das alternativas, a obtenção de super-lucros no conceito dos royalities e a crescente vulnerabilidade das monoculturas criaram um contexto que propicia o crescimento das dívidas, dos suicídios e a angústia agrícola que alimenta a epidemia de suicídios dos camponeses hindus. O controle sistêmico se intensificou com o algodão Bt, por isso a maioria dos suicídios ocorre na cultura algodoeira.

Uma assessoria interna do Ministério da Agricultura da Índia de janeiro de 2012 informou o seguinte aos estados hindus produtores de algodão: “Os produtores de algodão atravessam uma profunda crise desde que fizeram a opção pelo algodão Bt. A onda de suicídios de agricultores em 2011-2012 foi particularmente severa entre os produtores de algodão Bt”.

O estado hindu com maior superfície dedicada ao cultivo de algodão Bt é Maharashta, que é também onde os suicídios de agricultores são mais numerosos. Os suicídios aumentaram depois da introdução do algodão Bt: a arrecadação de royalities por parte da Monsanto e o elevado custo das sementes e dos produtos químicos afogaram os camponeses em dívidas. Segundo dados do governo da Índia, quase 75% da dívida rural provém da compra de insumos. À medida que crescem os lucros da Monsanto, cresce também a dívida dos agricultores. É nesse sentido que as sementes da Monsanto são sementes do suicídio.

O ponto crucial das sementes do suicídio é constituído pela tecnologia que a Monsanto patenteou para criar sementes estéreis (chamada de “Tecnologia Terminator” pelos meios de comunicação, a tecnologia das sementes estéreis é um tipo de Tecnologia de Uso Restritivo de Genes [Gene Use Restriction Technology – GRUT], em virtude da qual a semente produzida em um cultivo não pode reproduzir-se: as colheitas não produzem sementes viáveis, ou produzem sementes viáveis com genes específicos apagados]. O Convênio sobre Diversidade Biológica proibiu seu uso. Se esse uso não tivesse sido proibido, a Monsanto teria obtido lucros ainda maiores com suas sementes.

O discurso da Monsanto sobre “tecnologia” trata de esconder que seu verdadeiro objetivo é o controle das sementes e que a engenharia genética é simplesmente um instrumento para controlar sementes e alimentos através de patentes e direitos de propriedade intelectual.

No acordo da OMC sobre Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual relacionados com o Comércio, um representante da Monsanto admitiu que eles são, “simultaneamente a pessoa que diagnostica o paciente e seu médico”, quando redigem suas patentes sobre formas de vida que vão desde microorganismos até plantas. Impedir que os agricultores guardem sementes e que as utilizem de forma soberana era seu objetivo principal. Atualmente, a Monsanto está ampliando suas patentes para as sementes melhoradas convencionalmente, como são os casos do brócolis, da pimenta e do trigo com baixo teor de glúten que ela tinha pirateado da Índia, e que denunciamos diante do Escritório Europeu de Patentes como um caso de biopirataria.

Por isso, colocamos em andamento Fibres for Freedom (Fibras da Liberdade) no coração do cinturão suicida do algodão Bt da Monsanto em Vidharba. Criamos bancos comunitários de sementes autóctones e ajudamos aos agricultores para que passem para a agricultura orgânica. Sem sementes transgênicas não há dividas nem suicídios.

Vandana Shiva é ambientalista e ecofeminista. Diretora da Fundação de Pesquisa em Ciência, Tecnologia e Ecologia, em Nova Déli, na Índia, ficou famosa na década de 70 ao criar o movimento de Chipko, onde mulheres se amarravam em árvores para evitar seu corte. Além de ter sido uma das líderes do "International Forum on Globalization", recebeu o "Right Livelihood Award" em 1993, considerado uma versão alternativa do Prêmio Nobel da Paz. Autora de livros como Biopirataria: a pilhagem da natureza e do conhecimento (Vozes, 2001), Monoculturas da mente (Global, 2004), Guerras por água (Radical Livros, 2006), ganhou destaque por debater temas relativos à economia global e seus efeitos nas comunidades tradicionais. Formada em física quântica, atualmente luta pelo reconhecimento das sementes como patrimônio da humanidade e realiza pesquisas sobre o desenvolvimento de uma nova estrutura legal para os direitos de propriedade coletivos.

9 de abril de 2013

O que preocupa os norte-coreanos?

Como Obama está fomentando uma crise na Península Coreana

Gregory Elich

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

As relações entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte atingiram um nadir e, na maior parte da mídia ocidental, fala-se da aparentemente irracional retórica vinda de que é acusada a Coreia do Norte. Inexplicavelmente, dizem-nos, a Coreia do Norte optou por elevar a tensão.

O que está faltando nesta imagem do comportamento hostil norte-coreano e da imaculada inocência americana é contexto. Como é frequente, a mídia apresenta eventos de um modo isolado como se surgissem subitamente e sem qualquer causa.

É preciso olhar para trás no tempo para perceber o que está perturbando os norte-coreanos. Em meses recentes, a administração Obama deu um certo número de passos que a RDPC (República Democrática e Popular da Coreia, o nome oficial da Coreia do Norte) considerou ameaçadores.

O primeiro passo no caminho do agravamento das relações ocorreu em Outubro de 2012, quando os Estados Unidos concederam à Coreia do Sul uma isenção sob o Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis, a qual permitiu estender o alcance dos seus mísseis balísticos de modo a que pudessem cobrir todo o território da RDPC. [1] Em consequência, houve um conjunto de termos que se aplicavam a todo o país que houvesse aderido ao tratado e um conjunto diferente que se aplicava só à Coreia do Sul, claramente com o propósito de alvejar o seu vizinho do Norte.

Naquele mesmo mês, responsáveis militares dos EUA e Coreia do Sul encontraram-se para a Reunião anual Consultiva de Segurança, onde acordaram mudanças vastas na sua aliança. Ainda mais importante: eles desenvolveram um plano que denominaram "dissuasão sob medida" ("tailored deterrence"), o qual apela a operações militares conjuntas sul-coreanas-estado-unidenses contra a Coreia do Norte num certo número de cenários, incluindo incidentes menores. Qualquer "provocação" por parte da Coreia do Norte deveria ser respondida com força desproporcionada e, segundo responsáveis militares sul-coreanos, "esta estratégia será aplicada tanto em tempo de paz como de guerra". [2]

Uma componente essencial da dissuasão sob medida é uma "cadeia de destruição" ("kill chain") para rastrear e atacar sítios de mísseis norte-coreanos, em que satélites e drones americanos detectam alvos e mísseis e aviões de guerra sul-coreanos eliminam-nos. O plano apela a um ataque antecipativo (preemptive) baseado na percepção de um lançamento iminente de mísseis norte-coreanos. O vice-comandante do Comando Coreia das Nações Unidas, general Jan-Marc Jouas, explicou que mísseis norte-coreanos podiam ser rapidamente alvejados "antes de estarem em posição de serem empregados". [3] Para dizer isso em termos simples, poderia ser lançado um ataque a sítios de mísseis com base em suposições, mesmo quando mísseis norte-coreanos não estivessem numa posição de fogo.

Em 13 de Abril de 2012, a RDPC lançou em órbita um satélite de observação da terra, o que disparou condenações pela administração Obama, com a acusação de ser um teste disfarçado de míssil balístico. Resoluções da ONU proíbem a Coreia do Norte de testar mísseis balísticos, mas Pyongyang argumentou que enviar um satélite para o espaço não é a mesma coisa que efetuar um teste de míssil balístico. Peritos em tecnologia de mísseis tendem a concordar, destacando que ao míssil lançado pela RDPC faltava o desempenho para servir de ICBM e que a rota do seu voo adotou uma viragem aguda para evitar voar sobre Formosa e as Filipinas, uma ação que é contraproducente para um teste de míssil balístico. [4]

Vasos navais sul-coreanos conseguiram recuperar destroços do míssil norte-coreano. Análises efetuadas mostravam que um motor pequeno com um baixo impulso de 13 a 14 toneladas propulsionaram o segundo estágio. O engenheiro aeroespacial Marcus Schiller, baseado de Munique, informou que um segundo estágio de baixo impulso e queima longa, tal como o utilizado pelos norte-coreanos, é precisamente a concepção necessária para um lançados de satélite. Tal concepção é necessária para atingir uma altitude suficientemente elevadas para colocar um satélite em órbita. Essa concepção, contudo, é inadequada para um teste de míssil balístico, pois ela faria perder mais de 1000 km de alcance. Para testar um míssil balístico, o segundo estágio deveria ter a concepção oposta, tendo um alto impulso e tempo de queima curto. Schiller conclui que relatos da mídia ocidental de que o satélite norte-coreano serviu como teste de míssil balístico "não são verdadeiros". [5]

Michael Elleman, analista de segurança do International Institute for Strategic Studies, observa que os resultados de um lançamento de satélite "têm aplicação limitada para mísseis balísticos", pois só frações das questões em causa podem ser testadas. "Outras exigências, mais notavelmente tecnologias de reingresso e exigências de flexibilidade operacional, não podem ser tratadas adequadamente por lançamentos de satélites". Elleman informa que por estas e outras razões, lançamentos de mísseis com satélite pela Coreia do Norte "não são um substituto para o teste de mísseis balísticos". [6]

Curiosamente, no mesmo dia em que a Coreia do Norte lançou o seu satélite para o espaço, a Índia, outra potência nuclear, testou o disparo de um míssil balístico sem que responsáveis americanos expressassem uma queixa. [7] Os Estados Unidos não estão com falta de engenheiros aeroespaciais e responsáveis dos EUA certamente estavam consciente de que o lançamento do satélite da Coreia do Norte não podia tecnologicamente ser interpretado como um teste de míssil balístico disfarçado. Parece que a administração Obama deliberadamente optou por falsear a natureza do lançamento a fim de promover os seus próprios fins políticos.

O lançamento do satélite proporcionou à administração Obama uma oportunidade para endurecer o nó corrediço em torno da Coreia do Norte e, após negociações extensas, conseguiu pressionar uma resolução no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Como explicou a porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Victoria Nuland, a intenção da administração Obama era "continuar a aumentar a pressão sobre o regime norte-coreano. E estamos a procurar a maneira de melhor fazer isso, a avançar tanto bilateralmente como com nossos parceiros. Até que eles obtenham a mensagem, vamos ter de continuar a fomentar o isolamento deste regime". [8]

Com a aprovação da resolução 2087 de 22 de janeiro de 2013 do Conselho de Segurança da ONU, novas sanções foram impostas à Coreia do Norte, apesar do fato de que o tratado internacional do espaço exterior garantir o direito de explorar o espaço a "todos os estados sem discriminação de qualquer espécie". [9]

A Coreia do Norte reagiu furiosamente por ser discriminada como o único país sobre a terra ao qual é negado o direito de lançar um satélite. A RDPC não tendia a anuir à imposição de sanções adicionais, quando a sua economia já estava a cambalear com as sanções existentes. Um porta-voz da RDPC destacou que ao forçar a resolução no Conselho de Segurança, os Estados Unidos haviam violado a Carta das Nações Unidas, a qual declara que "a Organização é baseada no princípio da igualdade soberana de todos os seus membros".

Falando nas Nações Unidas, o delegado da RDPC, So Se Pyong, declarou: "Houve não menos de 2000 testes nucleares e pelo menos 9000 lançamentos de satélite no mundo desde que a ONU existe, mas nunca houve uma única resolução do seu Conselho de Segurança que proibisse testes nucleares e lançamentos de satélites". Acrescentando que o Estados Unidos havia executado mais testes nucleares e lançamentos de satélite do que qualquer outro país, o delegado disse que não deveria ser permitido aos Estados Unidos bloquearem a Coreia do Norte exercerem o seu direito "a utilizar o espaço para fins pacíficos", nem utilizar as Nações Unidas "como uma ferramenta para executar a sua política hostil para com a RDPC". [10]

Sem qualquer surpresa, a Coreia do Norte optou por exprimir a sua resistência à agressividade da política estado-unidense efctuando o seu terceiro teste nuclear em 12 de Fevereiro de 2013. Vários dias depois, numa aparente referência ao Iraque e à Líbia, a mídia norte-coreana recordou os destinos que haviam acontecido àqueles países que haviam abandonado suas armas nucleares em resposta à pressão estado-unidense. Estes exemplos, acrescentavam, "ensinam a verdade de que a chantagem nuclear dos EUA deveria ser contida com contra-medidas substancial, não com compromisso ou retirada". [11]

Um dia após o teste nuclear, o Ministério da Defesa Nacional sul-coreano anunciou que havia instalado mísseis de cruzeiro capazes de atingir qualquer lugar na Coreia do Norte e que aceleraria o desenvolvimento de mísseis balísticos de alcance semelhante. Além disso, a implementação da cadeia de destruição (kill chain) seria acelerada. [12] Planejada originalmente para estar completa em 2015, a cadeia de destruição está agora em vias de estar instalada no fim deste ano. [13]

Enquanto decorriam discussões no Conselho de Segurança das Nações Unidas sobre a imposição de sanções adicionais à Coreia do Norte, a União Europeia avançou com o seu próprio conjunto de medidas, incluindo uma proibição de comércio com entidades públicas norte-coreanas e de comércio com títulos públicos da RDPC. A UE também aplicou uma proibição à abertura de bancos europeus na RDPC e de bancos norte-coreanos estabelecerem uma agência na UE. [14]

Levou mais de três semanas para negociar uma resolução do Conselho de Segurança da ONU em resposta ao teste nuclear norte-coreano. A questão mais contenciosa era incluir ou não o Capítulo 7, Artigo 42, o qual teria autorizado imposição militar. Tanto os Estados Unidos e a Coreia do Sul argumentaram fortemente pela sua inclusão. Outra questão difícil era a inspeção de navios cargueiros norte-coreanos e houve discussão extensa antes de os Estados Unidos e a China acordarem na extensão de inspeções. [15]

Os chineses recusaram-se a acordar na imposição militar, certamente temendo que isso aumentaria o risco de guerra. Nem acompanharam algumas das medidas mais duras que os Estados Unidos haviam incluído, como uma lista de desejos na sua minuta. [16] A imposição militar teria sido particularmente perigosa, dada a história de como o Artigo 42 serviu de caminho para os Estados Unidos travarem guerra.

Embora os Estados Unidos não obtivessem tudo o que queriam, a aprovação da Resolução 2094 em 7 de março de 2013 pelo Conselho de Segurança da ONU atingiu muitos dos objetivos que advogavam. A resolução exige a todos os países que inspeccionem navios e aviões norte-coreanos que forem suspeitos de transportarem bens proibidos. Restrições fortes são aplicadas a operações bancárias norte-coreanas. É ordenado a países que impeçam indivíduos norte-coreanos de transferirem volume de dinheiro (bulk cash), incluindo pessoal diplomático, que passam a estar sujeitos a "vigilância agravada" em violação da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas. [17] Ao visar diplomatas norte-coreanos para vigilância, buscas e detenção, os Estados Unidos têm como objetivo eliminar um dos poucos meios remanescentes que a RDPC tem para envolver-se em transacções monetárias internacionais. As sanções bancárias da ONU e dos Estados Unidos fizeram com que a maior parte dos bancos internacionais ficassem pouco desejosos de ter transações com a Coreia do Norte, forçando a RDPC a efetuar grande parte do seu comércio exterior na base de cash.

É a medida de restringir negócios de bancos com a Coreia do Norte que promete infligir o maior dano à economia norte-coreana. "Perseguir o sistema bancário de um modo universal é comprovadamente a coisa mais forte na lista", observa o antigo responsável do Departamento de Estado J. R. Revere. "Isto começa a morder na capacidade da Coreia do Norte para financiar muitas coisas". [18] Primariamente o comércio normal, dever-se-ia notar.

Poucos dias depois, o Departamento do Tesouro dos EUA avançou com as suas próprias sanções, proibindo transações entre o Foreign Trade Bank da Coreia do Norte e indivíduos e negócios estado-unidenses, e colocando um congelamento sobre ativos mantidos sob jurisdição dos EUA. O Foreign Trade Bank, destaca o Departamento do Tesouro, é "o banco primário do intercâmbio externo da Coreia do Norte". [19] A proibição efetivamente impede bancos e empresas em outros países de comerciarem com o Foreign Trade Bank, por temor de serem excluídos do contacto com o sistema financeiro dos EUA. "Quando há um banco estrangeiro com que bancos dos EUA não estejam fazendo negócios, bancos em outros países começam a evitar transações com ele", observa um especialista financeiro. "Eles ficam preocupados acerca de sofrerem eles próprios as consequências". Tipicamente, o comércio internacional está baseado no dólar, exigindo transações processadas através do sistema financeiro estado-unidense. Por essa razão, "bancos chineses não vão ser capazes de ajudar a Coreia do Norte", acrescenta o analista financeiro. [20]

Pelo seu lado, a Coreia do Sul adotou políticas que agravam o perigo de guerra. Segundo um responsável militar sul-coreano, "Foi dada aos comandantes a autoridade para atuarem primeiro à vontade no caso de uma provocação norte-coreana para infligir uma retaliação que é mais de dez vezes tão dura quanto o nível da provocação". [21] O Director de Operações do Estado Maior das Forças Armadas, Kim Yong-hyon, declara que em resposta a um incidente as forças armadas sul coreanas "punirão resolutamente não só a origem da provocação como também suas forças que comandam". [22] Não é preciso muita imaginação para reconhecer como tal política tem o potencial para transformar uma escaramuça menor numa guerra.

Os Estados Unidos e a Coreia do Sul assinaram recentemente um plano de contra-provocação, no qual forças estado-unidenses são comprometidas a providenciar apoio quando forças sul-coreanas ataquem um alvo norte-coreano. O plano esclarece ações que devem ser tomadas como resposta a vários cenários. De acordo com um responsável militar sul-coreano, ele leva em conta a política sul-coreana "a qual apela ao lançamento de contra-ataque não só para a origem da provocação como também a forças que a apoiam e seus comandantes". Em alguns cenários "armas estado-unidenses podiam ser mobilizadas para retaliar em águas territoriais e solo da Coreia do Norte". [23] O plano de contra-provocação requer à Coreia do Sul consultas com os Estados Unidos antes de entrar em ação, mas se Seul requerer assistência os Estados Unidos não podem recusar-se a tomar parte em operações militares. [24]

Numa poderosa demonstração destinada a intimidar a Coreia do Norte, os Estados Unidos e a Coreia do Sul começaram o seu exercício militar anual Resolução Chave (Key Resolve) em 11 de Março, sobrepondo-se ao exercício militar de dois meses Foal Eagle que começou a primeiro de Março. Durante o exercício, bombardeiros B-52 com capacidade nuclear decolaram de Guam e praticaram o despejo de munições na Coreia do Sul. [25] Os comandantes estado-unidenses sabiam que esta ação inflamaria sensibilidades norte-coreanas, dadas as dolorosas memórias que os norte-coreanos têm da Guerra da Coreia, quando bombardeiros estado-unidenses executaram uma política de terra queimada e arrasaram toda cidade norte-coreana até ao solo.

Os Estados Unidos mais uma vez agravaram a pressão sobre a RDPC com o envio do submarino USS Cheyenne, movido a energia nuclear, equipado com mísseis Tomahawk, para participar no Foal Eagle. [26] Logo após, bombardeiros B-2 Stealth voaram sobre a Coreia do Sul em exercícios militares. "Como o B-2 tem a função de invisibilidade ao radar, ele pode penetrar a defesa anti-aérea para lançar armas convencionais e nucleares", comentou um responsável militar. "É a arma estratégica mais temida pela Coreia do Norte". [27] O B-2, dever-se-ia notar, é o único avião capaz de entregar a bomba Massive Ordnance Penetrator de 30 mil libras [13.590 kg], a qual pode perfurar através de 200 pés [61 m] de betão antes de detonar. O avião também pode transportar múltiplas armas nucleares. Continuando a escalar a demonstração de força, os Estados Unidos enviaram a seguir aviões de combate F-22 Stealth à Coreia do Sul. [28] O governo sul-coreano pediu aos Estados Unidos para não mostrar os aviões em público porque isso seria uma provocação desnecessária à Coreia do Norte. O pedido foi desatendido pelos Estados Unidos. [29]

Num aumento do arsenal sul-coreano, os Estados Unidos aprovaram a venda de 200 bombas destruidores de bunkers, adequadas para alvejar instalações subterrâneas norte-coreanas. Os planos exigem que as bombas seja instaladas até o fim do ano. [30] A Coreia do Sul também planeia comprar à Europa 200 mísseis de cruzeiro Taurus, lançados do ar, os quais são capazes de penetrar até seis metros de betão reforçado. [31]

Como parte do seu planeamento para contingências futuras, os Estados Unidos constituíram uma organização militar responsável pela entrada na Coreia do Norte e captura de instalações e armas nucleares no caso de uma crise na RDPC. Naquele cenário, as forças dos EUA também prenderiam "figuras chave" e reuniriam informação classificada. Não foi revelado quais indivíduos norte-coreanos seriam sujeitos a prisão pelas forças dos EUA. A força seria composta por forças armadas dos EUA, operacionais de inteligência e pessoal anti-terrorismo. Um ensaio de imitação a implementar o plano fez parte dos exercícios Key Resolve recentemente concluídos. [32]

Tendo feito tudo para provocar os norte-coreanos, a administração Obama agarrou a oportunidade para apontar a sua reacção como justificação para instalar uma lista de desejos (wish list) de hardware anti-míssil. O Pentágono anunciou que estacionaria 14 interceptadores de mísseis adicionais em Fort Greely, Alasca e prosseguiria com o seu plano de colocar um segundo radar anti-míssil no Japão. [33] Uma bateria Terminal High-Altitude Area Defense (THAAD) é prevista ser exibida em Guam na sua primeira instalação, [34] e a plataforma SBX-1 X-Band Radar com base no mar está a mover-se para o Pacífico ocidental, que a Marinha diz poder ser o primeiro de outros posicionamentos navais. [35]

O Wall Street Journal relata que o espectáculo de força militar foi planeado antecipadamente, no que a administração Obama denominou "o manual de estratégia" ("the playbook"). Os Estados Unidos actuaram com intenção deliberada de ameaçar a Coreia do Norte. Segundo o artigo, a administração decidiu colocar o manual em "pausa" só quando os media revelaram a deslocação de dois destróiers com mísseis guiados para o Pacífico ocidental e foi sentido que talvez esta notícia arriscasse pressionar os norte-coreanos demasiado longe. O posicionamento dos destróiers, como foi dito, não era para ser publicitado. Os próximos passo no manual foram adiados. [36] Também foi informado que os Estados Unidos adiarão um voo de teste de um Minuteman ICBM em um mês a fim de não aumentar tensões.

A percepção que a administração Obama pretende transmitir ao público americano e mundial, portanto, é que os Estados Unidos estão a actuar responsavelmente a fim de neutralizar a situação. Um alto responsável da defesa, entretanto, disse: "Não havia ordem de segredo da Casa Branca" em relação ao posicionamento dos destróiers. Além disso, hardware militar recentemente posicionado não foi retirado, ao passo que o exercício combinado em grande escala dos EUA-Coreia do Sul, Foal Eagle, no degrau da porta da Coreia do Norte continua sem pausa. [37]

Apesar das afirmações de que está a amortecer suas acções, a administração Obama está a fazer o oposto. Responsáveis dos EUA dizem que não pretendem entrar novamente em combate com a RDPC. [38] A dissuasão sob media e a cadeia de destruição estão em programação acelerada, colocando a Península Coreana à beira da guerra. Enquanto isso, os Estados Unidos estão a trabalhar arduamente para persuadir outros países a sancionarem o Foreign Trade Bank da RDPC e estão a considerar outros meios pelos quais possam levar a Coreia do Norte ao colapso económico. Um responsável anónimo do Departamento de Estado dos EUA observou que ainda havia espaço para a ampliação de sanções. "Não sei o que acontecerá, mas não alcançámos o limite, ainda há espaço para mais, e temos de tentar". [39]

Responsáveis dos EUA pediram à União Europeia para sancionar o Foreign Trade Bank e novas discussões são expectáveis de acordo com estas linhas. [40] O Japão e a Austrália já concordaram e juntar-se aos Estados Unidos no sancionamento do banco, tanto o responsável do Departamento do Tesouro David Cohen como o secretário do Tesouro Jack Levy pediram à China para fazer o mesmo. [41] O presidente Obama fez um telefonema pessoal ao presidente chinês Xi Jinping, instando-o a sancionar o Foreign Trade Bank e responsáveis dos EUA continuam a pressionar a China, insistindo em que se a China não "tomar posição" sobre a Coreia do Norte os EUA aumentarão suas forças militares na Ásia. [42]

Essa consequência, os chineses certamente percebem, seria voltada tanto contra eles como contra a Coreia do Norte. A opção que a administração Obama está a oferecer é que os chineses possam ou observar os Estados Unidos expandirem sua militarização da região e endurecerem o seu cerco da China, ou dobrarem-se à pressão americana e cooperarem provocando a ruína económica da Coreia do Norte. É provável que ao escolher a última opção os chineses venham a descobrir que os Estados Unidos não têm intenção de reduzir seu eixo central na Ásia e a sua presença militar na região cresceria sem dificuldades.

Uma fonte diplomática revela que quer a China concorde ou não em acompanhar os pedidos estado-unidenses, o efeito sobre a economia da Coreia do Norte pode ser o mesmo. "O que o governo dos EUA está à procura de aplicar pressão psicológica sobre bancos chineses. Se bancos dos EUA evitarem transacções com bancos chineses que têm laços com bancos norte-coreanos na lista negra ou outras entidades, isso podia levar a efeitos semelhantes àqueles das sanções do boicote secundário". [43]

Sem qualquer dúvida, os responsáveis e os media norte-coreanos têm estado a emitir proclamações de cortar o fôlego, a efectuar acções como cortar a linha telefónica militar com a Coreia do Sul, a anunciar a intenção de reiniciar o reactor nuclear de Yongbyon e a encerra temporariamente o Complexo Industrial de Kaesong, o que parece exacerbar tensões de forma imprudente. Contudo, há lógica no seu comportamento. A administração Obama nunca quiz negociar com a Coreia do Norte e, claramente, pretende efectuar mudança de regime quando acumula sanções sobre sanções e desenvolve planos militares que ameaçam a existência da RDPC. Com efeito, acções dos EUA encorajaram a Coreia do Norte a desenvolver um programa de armas nucleares como seu único dissuasor realista contra ataques, dada a tecnologia obsoleta do seu armamento convencional.

Entretanto, responsáveis norte-coreano sabem que os EUA sabem que eles não têm uma arma nuclear utilizável, nem têm um veículo de entrega adequado. A RDPC tem opções limitadas e, por agora, responsáveis norte-coreanos aparentemente sentem que têm apenas duas opções. Podem ou aceitar docilmente ciclo após ciclo de punição enquanto testemunham desamparadamente o dano crescente à sua economia e as ameaças à sua nação, ou podem reforçar a sua retórica como meio de enviar uma mensagem aos Estados Unidos. Essa mensagem é de que se o Estados Unidos atingirem a Coreia do Norte obterão uma resposta mais forte do que esperam, que deveriam pensar duas vezes antes de atacar e que quanto mais os Estados Unidos exercerem pressão, mais a RDPC resistirá.

Infelizmente, isto produz um ciclo de realimentação (feedback loop), em que quanto mais os Estados Unidos punem a RDPC, mais fortemente os norte-coreanos resistem e, quanto mais resistem, mais punição vem a seguir. O único meio aparente de sair deste impasse é um processo de paz, mas a administração Obama permanece obstinadamente oposta a negociações.

O analista de assuntos internacionais Chen Qi, da Universidade Tsinghua, destaca que os Estados Unidos "não respeitaram as preocupações de segurança da RDPC e que está é a razão porque a questão nuclear na Península Coreia não foi resolvida". Chen sugere que "Washington pode querer que a questão nuclear de Pyonyang seja resolvida porque proporciona uma desculpa para a instalação de sistemas anti-mísseis e penetrações militares na região, as quais estão alinham-se com o seu reequilíbrio militar no Extremo Oriente". [44] Os responsáveis dos EUA, deveria ser mantido em mente, nunca esconderam o seu desejo de provocar mudança de regime na Coreia do Norte, sem se importar com os perigos dessa política.

Uma mudança na política estado-unidense pode nunca acontecer a menos que a Coreia do Sul abra o caminho com firmeza e isso é uma perspectiva improvável no presente. Uma tal mudança pode ter de esperar cinco anos, quando a próxima eleição presidente tiver lugar na Coreia do Sul. Isto é um longo tempo, dados os planos estado-unidenses para elevar tensões na Península Coreana. Se a Coreia do Sul não demonstrar liderança para uma abordagem alternativa antes disso, a questão é por quanto tempo tensões podem ferver sem transbordar uma crise perigosa.

Notas:

1. Gregory Elich, Militarizing South Korea.
2. http://www.kpolicy.org/documents/interviews-opeds/121204gregoryelichmappingthefutureussk.html.
3. http://www.kpolicy.org/documents/interviews-opeds/121204gregoryelichmappingthefutureussk.html.
4. http://www.globalresearch.ca/putting-the-squeeze-on-north-korea/53216.
5. David Wright, "Markus Schiller's Analysis of North Korea's Unha-3 Launcher," All Things Nuclear, February 22, 2013.
6. Michael Elleman, "Prelude to an ICBM? Putting North Korea's Unha-3 Launch into Context," Arms Control Association, March 2013.
7. http://www.globalresearch.ca/putting-the-squeeze-on-north-korea/5321689.
8. http://www.globalresearch.ca/putting-the-squeeze-on-north-korea/5321689.
9. http://www.oosa.unvienna.org/oosa/SpaceLaw/outerspt.html.
10. "DPRK Delegate Makes Speech at UN Special Committee Session," KCNA, February 23, 2013; Stephanie Nebehay, "North Korea Blames U.S. for Tension on Peninsula," Reuters, February 27, 2013.
11. "Nuclear Test, Part of DPRK's Substantial Countermeasures to Defend its Sovereignty: KCNA Commentary," KCNA, February 21, 2013.
12. Kim Eun-jung, "S. Korea Beefs Up Integrated Air and Missile Defense," Yonhap, February 13, 2013; Kim Hee-jin, "Military Deploys Cruise Missiles in Reaction to North," JoongAng Ilbo, February 14, 2013.
13. "S.Korea, US to Discuss Stopping NK's Nuclear Program," Dong-A Ilbo, February 21, 2013.
14. Adrian Croft, "EU to Tighten Sanctions on North Korea after Nuclear Test," Reuters, February 15, 2013.
15. Lee Chi-dong, "'Strongest Sanctions' on NK, Output of Artful U.N. Diplomacy," Yonhap, March 8, 2013; "S. Korea Seeks U.N. Resolution with Military Means Against N. Korea," Yonhap, February 15, 2013; Park Hyun and Park Min-hee, "US and China Butting Heads over North Korea," Hankyoreh, February 15, 2013.
16. Peter Ford, "China Agrees to Sanction North Korea, but How Far will it Go?," Christian Science Monitor, March 6, 2013.
17. Security Council SC/10934, "Security Council Strengthens Sanctions on Democratic People's Republic of Korea in Response to 12 February Nuclear Test," UN Security Council, March 7, 2013; Park Hyun, "UN Expected to Pass Exceptionally Tough Sanctions on North Korea," Hankyoreh, March 7, 2013.
18. Rick Gladstone, "U.N. Resolution to Aim at North Korean Banks and Diplomats," New York Times, March 5, 2013.
19. Press Release, "Treasury Sanctions Bank and Official Linked to North Korean Weapons of Mass Destruction Programs," U.S. Department of Treasury, March 11, 2013.
20. Park Hyun, "New Unilateral US Sanctions Target North Korean Banks," Hankyoreh, March 14, 2013.
21. Kim Kui-kun, "North's Threat Offensive…Signing of 'ROK-US Counter Provocation Plan' Delayed," Yonhap, March 12, 2013.
22. Yi Yong-chong, "Secures Coordinates for a Commander's Office of the North; If Missile Launched Against It," JoongAng Ilbo, March 11, 2013.
23. Song Sang-ho, "Korea, U.S. Set Up Plan to Counter N.K. Provocation," Korea Herald, March 24, 2013.
24. Hong Jin-su, "U.S. Military Will Intervene Under Certain Conditions Following North Korean Provocation," Kyunhyang Shinmun, March 25, 2013.
25. Lee Chi-dong, "B-52 Bombers in Korea Show U.S. Defense Commitment: Pentagon," Yonhap, March 19, 2013.
26. Kang Seung-woo, "Nuclear Sub Joins ROK-US Joint Naval Drill," Korea Times, March 20, 2013.
27. Kim Eun-jung, "U.S. B-2 Stealth Bomber Conducts First Drill in Korea," Yonhap, March 28, 2013.
28. Paul Eckert, "U.S. Stealth Jets Join South Korea Drills Amid Saber-Rattling," Reuters, March 31, 2013.
29. "F-22 Stealth Jets Join Drills in S.Korea," Chosun Ilbo, April 2, 2013.
30. Kim Eun-jung, "U.S. B-2 Stealth Bomber Conducts First Drill in Korea," Yonhap, March 28, 2013; Song Sang-ho, "B-2 Stealth Bombers Conduct Firing Drills on Peninsula," Korea Herald, March 28, 2013.
31. "S.Korea to Buy Bunker-Buster Missiles from Europe," Chosun Ilbo, April 4, 2013.
32. "Pres. Park Urges Preventing NK from 'Daring' to Launch Attack," Dong-A Ilbo, April 3, 2013.; "US Organ to Take Over NK Nuke Facilities in Case of Crisis," Dong-a Ilbo, March 7, 2013.
33. Kate Brannen, "North Korea Sparks Missile Defense Upgrade in Alaska," Politico, March 15, 2013; Phil Stewart and David Alexander, "U.S. to Bolster Missile Defenses to Counter North Korea Threat: Hagel," Reuters, March 15, 2013.
34. Julian E. Barnes and Adam Entous, "With an Eye on Pyongyang, U.S. Sending Missile Defenses to Guam," Wall Street Journal, April 3, 2013.
35. Barbara Starr, Jethro Mullen and K.J. Kwon, CNN, April 1, 2013.
36. Adam Entous and Julian E. Barnes, "U.S. Dials Back on Korean Show of Force," Wall Street Journal, April 3, 2013.
37. Kevin Baron, "Who Exactly Ordered Those Destroyers Against Korea?," The E-Ring (Foreign Policy), April 4, 2013.
38. Jay Solomon and Julian E. Barnes, "North Korea Warned," Wall Street Journal, March 29, 2013.
39. Adrian Croft, "U.S. Wants EU to Put North Korean Bank on Sanctions List," Reuters, March 25, 2013.
40. Adrian Croft, "U.S. Wants EU to Put North Korean Bank on Sanctions List," Reuters, March 25, 2013.
41. Antoni Slodkowski and Warren Strobel, "Japan, Australia to Sanction North Korean Bank as Part of U.S.-Led Crackdown," Reuters, March 26, 2013; "U.S. Urges Nations to Cut North Korea's Financial Link," CBS News, April 5, 2013.
42. Mark Landler, "Detecting Shift, U.S. Makes Case to China on North Korea," New York Times, April 5, 2013.
43. Lee Chi-dong, "U.S. Officials Discussing Iran-Style Sanctions on N. Korea: Source," Yonhap, March 20, 2013.
44. Scott Murdoch, "Beijing Tells US to Tone Down North Korea Threats," The Australian, February 19, 2013.