31 de julho de 2013

A pátria

Perry Anderson


Desde o ano 2000, a cena política americana vem sendo convencionalmente pintada com cores fortes. Boa parte da opinião pública nativa – para não falar da estrangeira – acha que os Estados Unidos deram um salto acrobático entre um período reacionário brutal, sob um governante que presidiu o desastre dentro e fora de casa, e a mais inspiradora fé no progresso desde o New Deal, sob um presidente que personifica o que a nação oferece de melhor – ou, segundo outros, um espectro que nem americano é. Para outros ainda, a polarização da opinião pública que eles representam é motivo de desespero ou, ao contrário, de alento com o despertar de identidades antes marginalizadas e hoje no limiar de constituir uma nova maioria. As tonalidades mudam conforme a luz em que são vistas.

Para uma visão mais estável da política dos Estados Unidos, a linha é mais confiável do que a cor. São os parâmetros do sistema, e não suas manifestações episódicas, que requerem consideração. Esses parâmetros formam um conjunto de quatro determinantes. A primeira e mais fundamental é o regime histórico de acumulação, que governa o rendimento do capital e a taxa de crescimento da economia. [1] A segunda são alterações estruturais na sociologia do eleitorado dos partidos Democrata e Republicano. A terceira são as mutações culturais no sistema de valores do conjunto da sociedade. A quarta e última determinante – residual – são os objetivos das minorias em atividade na base eleitoral de cada partido. O desfecho político em qualquer ponto do tempo pode ser descrito, em síntese, como uma resultante dos movimentos desse quarteto desigual de forças.

O que permanece imutável, por outro lado, é o universo ideológico monocromático no qual o sistema está mergulhado: uma ordem plenamente capitalista, sem vestígios de debilidade social-democrata ou de organização política independente do trabalho. [2] Os dois partidos que nela habitam trocaram suas bases sociais e regionais mais de uma vez desde a Guerra Civil [1861–65], sem jamais questionar o preceito do capital. Desde 1930, constata-se uma tendência geral, se não invariável: os que estão na base da pirâmide da renda, quando vão às urnas – coisa que muitos deles não fazem –, votam nos democratas; os que estão no topo votam nos republicanos.

Tais preferências refletem as linhas políticas adotadas pelos dois partidos: nas administrações democratas, a redistribuição de renda em direção à base costuma ser maior do que nas republicanas, num alinhamento que acompanha as divisões entre esquerda e direita em outras partes do mundo, sem as reproduzir exatamente. Mas essas diferenças raramente são de princípio. Uma característica marcante do consenso em que se baseia o sistema é a flexibilidade das posições relativas que ele permite. Políticas associadas a um partido podem migrar para o outro, não raro assumindo formas mais radicais do que tinham no hábitat original. Um rápido olhar sobre a história da segunda metade do século XX atesta esse vaivém no interior do sistema.

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A vitória de Franklin Delano Roosevelt em 1932 inaugurou, como se sabe, uma nova era na política americana. A Depressão, marcando o fim de um regime de acumulação baseado no padrão-ouro, no protecionismo comercial, em impostos baixos e em formas ainda incipientes de produção em massa, desacreditou os republicanos, que havia muito comandavam o país.

Sob o choque da Depressão, a pressão popular – sobretudo as greves trabalhistas iniciadas em 1934 – fez o governo democrata ir além das medidas iniciais para estabilização financeira e ajuda emergencial à população carente, adotando reformas sociais e programas de infraestrutura que consolidaram sua base eleitoral, enquanto continuava a quebradeira das empresas menos competitivas e a concentração corporativa. Quando chega a aguda recessão de 1937, o desemprego logo volta a 14%. O que faria do New Deal um divisor de águas seria a maciça demanda estatal ligada ao rearmamento. Com o auge da economia de guerra, a partir do final de 1941, um novo regime de acumulação atingiu a maioridade.

O padrão-ouro já não existia mais; a carga tributária aumentara; o déficit orçamentário e fiscal deixara de ser tabu; os depósitos haviam sido garantidos e os bancos, regulados; as empresas haviam se concentrado; a demanda do consumidor se expandira. Essas eram condições da transformação. Mas a mudança decisiva veio com o enorme salto nos gastos estatais e na intervenção na economia. Em dois anos, os gastos públicos cresceram de 19% para 47% do Produto Interno Bruto.

Estimulando a inovação tecnológica e eliminando o desemprego, o boom do período de guerra levou à supremacia americana sobre o mundo capitalista depois de 1945. A expansão desencadeada pela economia de guerra prosseguiu durante um quarto de século de altas taxas de crescimento no país e de hegemonia inconteste no exterior.

Depois da guerra, os democratas conservaram o predomínio eleitoral que haviam assegurado nos anos 30, quando conquistaram os que votavam pela primeira vez, os imigrantes de segunda geração, trabalhadores protestantes antes arredios e os negros do Norte do país, mantendo, ao mesmo tempo, firme controle sobre sua fortaleza histórica no Sul racista. Os dois partidos se revezaram na Casa Branca, cada um vencendo três vezes entre 1948 e 1968, mas o Congresso permaneceria um reduto democrata por quase meio século; entre 1932 e 1980, os republicanos obtiveram maioria legislativa apenas duas vezes e por meros quatro anos.

Depois de 1937, quando a greve dos operários do aço foi derrotada e a economia escorregara novamente para a recessão, a insurgência trabalhista que forçara as reformas sociais mais significativas da agenda de Roosevelt estava exaurida. A sindicalização aumentou até o início dos anos 50, mas junto veio a burocratização e a domesticação da central sindical AFL-CIO [American Federation of Labor– Congress of Industrial Organizations]. Em 1947, os dois partidos uniram forças para endurecer a legislação contra a militância sindical e as greves. [4]

Uma coisa eram trabalhadores organizados – tinham de ser combatidos onde houvesse risco de saírem do controle. Outra coisa eram os eleitores atomizados – estes deviam ser cortejados até onde se pudesse pagar o preço. Se os gastos estatais em relação ao PIB não estavam mais nos níveis do período de guerra, a longa maré alta dos anos 50 e 60 havia gerado taxas de lucro que garantiam ganhos salariais regulares aos trabalhadores e uma receita fiscal suficiente para que o Estado desse continuidade às obras públicas e aos benefícios sociais, arcando ao mesmo tempo com vultosos orçamentos militares.

Mas nenhum regime de acumulação é estático, e no devido tempo houve uma inflexão. Os planejadores de Washington haviam imaginado um mundo pós-guerra no qual o padrão dólar e o livre-comércio trariam para o capital americano uma prosperidade baseada na exportação, graças à recuperação econômica da Europa e do Japão. Mas a extensão dos danos provocados pela guerra e os imperativos incontornáveis da Guerra Fria forçaram a modificação desse esquema. Para salvar o capitalismo no exterior, o livre-comércio puro teve de ser diluído e governantes de países aliados foram autorizados a implantar certas medidas de proteção a seus mercados, para que não afundassem novamente na depressão.

A recuperação veio e, como esperado, com ela vieram os lucros americanos. Mas, como os custos do trabalho eram menores no exterior, era mais racional para o capital americano produzir no estrangeiro para os mercados locais do que exportar.

Apesar dessa inflexão, enquanto se manteve o sistema geral de acumulação capitalista, o cálculo da competição partidária preservou os parâmetros herdados do New Deal. Com eles, os republicanos foram capazes de fazer até mais do que seus adversários. O democrata Harry Truman reprimiu mais greves do que o republicano Dwight Eisenhower, cuja Lei das Estradas Interestaduais lançou o maior programa de obras públicas desde o New Deal. O ativismo contra a segregação racial e as insurreições nos guetos obrigaram o democrata Lyndon Johnson a assinar a Lei dos Direitos Civis e a lançar a Guerra contra a Pobreza, ambas com uma dinâmica que extrapolou seu mandato. Foi durante o governo do republicano Richard Nixon que houve a maior expansão dos direitos sociais e da regulação econômica da história do pós-guerra nos Estados Unidos.

2

Em todo o mundo capitalista avançado, o boom do pós-guerra teria um fim abrupto no início dos anos 70. A rentabilidade caiu, os salários pararam de subir, a estagflação se instalou. A causa comum estava na competição intercapitalista que se intensificara desde que a Alemanha e o Japão – reerguidos por Washington como postos avançados de defesa do Mundo Livre – haviam voltado com força ao mercado mundial, muitas vezes com estruturas corporativas e bancárias mais robustas. As empresas americanas se defrontaram com margens de lucro menores justo num momento em que, sob um presidente republicano, os gastos sociais e uma regulamentação onerosa chegavam ao seu auge. Como se não bastasse, Nixon rompeu com a nova relação entre o valor do dólar e o ouro que fora estabelecida na Conferência de Bretton Woods, recorrendo a controles de preços e salários para combater a inflação.

Diante dessa combinação de crise econômica e esfacelamento político, o capital – o grande e o pequeno – entrou em ação. Ao longo da década de 70, iria dobrar o número de membros da Câmara de Comércio e da Federação Nacional das Empresas Independentes, enquanto os lobistas empresariais em Washington se multiplicavam mais de dez vezes. Os comitês de ação política ligados ao capital superaram em muito os ligados aos sindicatos. Novos e combativos centros de estudos – American Enterprise Institute, Heritage Foundation, Cato Institute – tomaram posição na arena. O fim do crescimento contínuo gerou uma mobilização sistemática contra o pacto social do pós-guerra.

Esse foi o cenário em que se desenhou a agenda de um novo regime de acumulação. A ordem neoliberal que se seguiu incluiria a desregulamentação dos mercados, a desmobilização dos sindicatos, a redução dos impostos e a redução da oferta de dinheiro – seria, na verdade, uma volta às normas do regime liberal anterior à Depressão, com exceção do padrão-ouro e da proteção tarifária à produção local.

Mas haveria duas diferenças cruciais, na posição da indústria e na natureza do eleitorado. A manufatura sofreu uma contração implacável a partir dos anos 80, sob a pressão da produção estrangeira mais barata. Com isso, o capital foi deslocado para as finanças, que se tornaram o centro de comando da economia, e o trabalho perdeu ainda mais força em relação ao capital. Ao mesmo tempo, as expectativas dos eleitores agora impediam a liquidação generalizada de empresas insolventes ou ineficientes: o desemprego em massa parecia incompatível com uma ordem capitalista estável.

Ocorreram mudanças análogas na maioria dos países capitalistas. Contudo, na ausência de uma tradição significativa de crítica às prerrogativas supremas da propriedade privada e da livre-iniciativa, e dada a erosão estrutural do poder dos trabalhadores, elas adquiriram na América a sua forma mais pura. Os parâmetros do sistema político se deslocaram para a direita em todo o Ocidente, mas não tanto, nem com tão poucos obstáculos, como nos Estados Unidos.

No nível dos partidos, depois de uma maré alta de reformas progressistas sob um presidente republicano, a reação política veio com um democrata na Casa Branca e uma maioria democrata esmagadora no Congresso. Menos Estado, mais mercado – essa era a solução para as misérias da economia. Os pontos principais do governo de Jimmy Carter, a partir de 1977, foram o dinheiro curto e a desregulamentação, para enfraquecer os trabalhadores e fortalecer as empresas. No Congresso, os democratas reduziram o imposto sobre o lucro e aumentaram o imposto sobre os salários. Ao mesmo tempo, rejeitaram a reforma do sistema de saúde, a indexação do salário mínimo, a proteção ao consumidor e o aperfeiçoamento do 
registro eleitoral.

No Federal Reserve, o banco central americano, Paul Volcker assumiu a tarefa de promover uma forte deflação. O neoliberalismo estava agora no comando. O curto prazo saiu caro para Carter e seu partido, quando as altas taxas de juro – o remédio para a inflação prescrito por Volcker – provocaram uma severa recessão. Mas o problema maior dos democratas residia na falta de uma mensagem ideológica sedutora, algo capaz de dourar a pílula das mudanças em termos menos duros do que a necessidade de apertar o cinto.

A vitória de Ronald Reagan em 1980, tão decisiva quanto a de Roosevelt em 1932, satisfez essa exigência. O neoliberalismo encontrou seu complemento num otimismo de reafirmação nacional e num moralismo que celebrava o esforço individual, temperado – talvez excessivamente – pela fé na Bíblia. Resultou daí uma fórmula ideológica com a qual os democratas teriam grande dificuldade em competir, embora tivessem sido pioneiros na virada neoliberal. Os republicanos se tornaram o partido governista natural num sistema político cujo centro de gravidade havia se deslocado estruturalmente para a direita. O novo regime de acumulação lhes era favorável.

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Por trás da troca de ascendência partidária havia também mudanças sociológicas. A primeira delas afetou os trabalhadores brancos. A reação do operariado contra as manifestações antiguerra e a integração racial nas escolas já produzira uma votação patriótica e racialmente motivada no governador de Alabama, George Wallace, nas eleições de 1968, e outra maior ainda em Nixon, em 1972. Entretanto, com os salários reais em queda a partir de 1972 e corroídos mais ainda pelos impostos, agora os trabalhadores tinham também menos razões materiais para serem leais ao Partido Democrata. Carter os havia abandonado; em troca, muitos o abandonaram. Em 1980, Reagan recebeu a maior parte dos votos dos trabalhadores; em 1984, ampliou essa maioria.

A segunda mudança foi o deslocamento da população e da riqueza do Nordeste e do Centro do país para o Oeste e o Sudoeste, onde o capital era mais novo e menos atrelado, os padrões urbanos dispersavam a população, os sindicatos tinham menos tradição e o imaginário do desbravador de fronteiras incentivava o individualismo. Na Califórnia, uma revolta dos proprietários contra os impostos imobiliários, financiada pelas construtoras, já havia conseguido limitar essa tributação. Durante um século, a região não produzira nenhum candidato presidencial, mas então, um depois do outro, vieram Barry Goldwater [derrotado por Johnson em 1964], Nixon e Reagan.

Por fim, e mais decisivo, o Sul – sempre a parte mais conservadora do país, na qual, por um século, a lembrança da vitória do republicano Abraham Lincoln na Guerra Civil erguera um bastião democrata – havia começado a se tornar republicano, depois que Lyndon Johnson patrocinou a Lei dos Direitos Civis e a Lei do Direito de Voto. Essa transferência em bloco de um partido para outro ocorreu gradualmente. Trinta anos depois, quando a região exibia o mais rápido crescimento econômico do país, a migração seria quase total.

A vitória arrasadora nas urnas – com a plataforma de libertar as empresas do jugo governamental e de restabelecer tanto o poderio internacional do país como a confiança na América – deu a Reagan cacife para uma mudança radical no que era possível aprovar em Washington. Sem demora, promoveu a mais abrangente reforma tributária de que se tem notícia – reduzindo as alíquotas para todos, mas com forte viés a favor dos ricos – e derrotou a primeira greve nacional em seu mandato, a do Sindicato dos Controladores de Voo. Foram ambas atuações muito populares,

obtendo apoio bipartidário e larga aprovação pública. Mas os cortes de impostos, apesar do êxito político, não remediaram a recessão de Volcker e tiveram de ser parcialmente cancelados, antes de uma nova batalha no segundo mandato de Reagan.

No entanto, as receitas neoliberais já não podiam ser tomadas ao pé da letra, nem no plano econômico, nem no plano ideológico: na prática, foi necessária uma boa dose keynesiana de estímulo militar para manter o crescimento. O aumento nos gastos com a defesa gerou déficits três vezes maiores do que os do governo Carter. Depois de 1985, a desvalorização do dólar, combinada a arrocho salarial e benefícios fiscais, permitiu a recuperação das exportações de manufaturados, restaurando a lucratividade empresarial.

Mesmo assim, não houve melhora substancial no desempenho da economia americana. O dólar ainda alto no início do governo Reagan, atraindo capital estrangeiro, havia acelerado a ascensão do setor financeiro e ampliado o déficit comercial. O crescimento da economia nos anos 80 foi menor do que na década anterior. Até o epílogo da era Reagan, já no governo de George Bush pai, a dívida federal triplicou. O impasse subjacente à longa recessão não fora resolvido.

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Em paralelo, os democratas iam se adaptando aos parâmetros da nova ordem, tal como os republicanos haviam feito com a anterior. Um ano depois da reeleição de Reagan, em 1984, foi criado o Conselho da Liderança Democrata, para reposicionar o partido diante das exigências da época – descartando compromissos ultrapassados com gastos públicos, trabalhadores ou dependentes dos serviços sociais em favor de um “novo centrismo”, de um Estado mais enxuto internamente e mais resoluto no exterior. Bill Clinton, considerado pela mídia o membro mais confiável do Conselho, conquistou a Presidência em 1992, numa eleição dividida em que Ross Perot, concorrendo como independente, tirou votos do eleitorado republicano num ano de recessão.

Uma vez na Casa Branca, Clinton tomou o caminho oposto ao de Reagan. Aumentou os impostos para reduzir o déficit, na crença de que a chave para fortalecer a confiança do empresariado e religar o motor do crescimento estava no mercado de ações.

A reforma da Previdência Social, disciplinando os gastos com os dependentes, enviou aos mercados mais um sinal claro de que aquele era um governo responsável. A recessão foi esmorecendo, o Orçamento entrou no azul e, no final do segundo mandato de Clinton, a economia crescia em ritmo frenético.

Mas o boom não foi mais saudável do que o da era Reagan, visto que, expurgada das contas públicas, a dívida reapareceu significativamente ampliada nas contas privadas, tanto das empresas como dos particulares, na esteira da desregulamentação financeira que se tornaria a principal assinatura do governo Clinton. A revogação da Lei Glass-Steagall acabou com a separação instaurada pelo New Deal entre bancos de investimento e bancos de varejo e foram eliminadas todas as restrições à negociação do mercado de derivativos. Com o retorno à política do dólar forte, o capital estrangeiro inundou o mercado de ações, enquanto a rentabilidade da indústria manufatureira declinava mais uma vez.

Na expansão artificial dos últimos anos do governo Clinton, a dívida hipotecária recebeu generosos incentivos governamentais, as empresas tomavam empréstimos garantidos pela cotação de suas próprias ações, a especulação com as ações de novas empresas de alta tecnologia disparou. O keynesianismo baseado no preço dos ativos havia substituído o keynesianismo baseado nos gastos militares, o que inflou a demanda interna, provocando um breve retorno ao crescimento.

Por trás dessas mudanças estava uma inflexão no regime de acumulação em vigor desde os anos 80, similar à adaptação do regime anterior na década 
de 50. Novamente, a motivação veio de fora: desta vez foi a entrada da China, com pleno vigor, no mercado mundial. A China reduziu drasticamente os custos trabalhistas em toda a indústria manufatureira; ampliou e ao mesmo tempo financiou o déficit comercial americano; deslocou para seu território as linhas de montagem americanas.

Destinado a revalorizar o dólar desvalorizado na década anterior, o Acordo Reverso do Plaza, de 1985, foi o ponto de inflexão para a transferência da manufatura americana para a China e para a entrada de dinheiro que alimentou as bolhas acionária e imobiliária do final do século xx. Os bancos e as corporações, os fundos de investimento de alto risco [hedge] e as novas empresas de tecnologia colheram os benefícios da expansão planetária da economia capitalista sob domínio da moeda americana, acontecimento exaltado posteriormente como “globalização”.

Politicamente, parecia que o clintonismo havia tornado os democratas competitivos em relação aos republicanos, não só acelerando a financeirização da economia e restaurando o equilíbrio orçamentário, mas também proporcionando um verniz de prosperidade a ricos e remediados. Em 1996, tanto os banqueiros quanto os eleitores deram ao presidente um segundo mandato.

Na campanha de 1996, Clinton captou mais dinheiro em Wall Street do que o rival Bob Dole e triunfou em 31 estados, obtendo quase a metade dos votos. No plano ideológico, o discurso de uma Terceira Via que reconciliasse liberdade econômica e coesão social, benesses para os ricos e benefícios laterais para os pobres, tinha mais apelo num mundo pós-Guerra Fria, agora que, com o desaparecimento do Império do Mal, a incontestável primazia americana tornara a autoafirmação nacional uma questão menos premente no sentimento popular. Segundo qualquer critério, viria em seguida um novo triunfo democrata.

O sexo oral de Clinton na Casa Branca, entretanto, custou ao partido a eleição de 2000. A contingência de uma “mancha” sexual levou os republicanos de volta à Casa Branca por uma margem infinitesimal. Ainda assim, essa vitória obtida em circunstâncias tão fortuitas cristalizava uma divisão de valores que vinha se intensificando. Desde os anos 60, desenvolvera-se no país uma contracultura mais ou menos boêmia, em oposição aos costumes e crenças convencionais. Radicalizada pela oposição à guerra no Vietnã, ela serviria como um alvo conveniente a Nixon, que assim arregimentou para sua causa uma maioria silenciosa de patriotas ordeiros e cumpridores da lei.

Quando a guerra na Indochina deixou de ser um problema, o terreno do comportamento se despolitizou. A partir do final dos anos 70, boa parte do que representava a contracultura migrou para um setor da vida burguesa menos rígido e vagamente bien pensant, no qual as forças do mercado transformaram o desafio aos tabus em formas lucrativas de dessublimar a repressão. Essa mutação catalisou uma reação veemente nas fileiras das denominações religiosas menos tradicionais, colocando em antagonismo uma maioria “moral” – na realidade, outra minoria, a dos evangélicos – e a subversão profana dos costumes. Autodefinindo-se conservadores, esses grupos se tornaram, com o tempo, as tropas de choque da mobilização eleitoral republicana, impelindo para o campo democrata as forças contrárias, que hoje encontrariam uma síntese na simpatia pelo movimento LGBT. Aqui, acredita-se, está uma das raízes da crescente polarização do sistema político.

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Em 2000, Bush foi beneficiário dessa tensão. Mas sua campanha teve um tom moderado e seu sucesso não se deveu a um apelo evidente à religiosidade. Foi a conquista de eleitores independentes, e não o comparecimento às urnas dos já comprometidos, que lhe deu a Casa Branca. Em 2004, isso mudou: a vitória por uma margem de 3 milhões de votos ocorreu, em boa parte, graças à mobilização comandada pela base evangélica do Partido Republicano. Mas entre a base e o alto comando do partido ainda havia uma distância significativa. Desmentindo sua reputação de direita radical, a Presidência de Bush foi, em linhas gerais, pragmática em nível nacional, adaptando-se à inflexão da acumulação neoliberal – e sua legitimação – legada por Clinton.

Bush se defrontou com as mesmas dificuldades econômicas de seus dois antecessores: no início, uma recessão cíclica, e, no decorrer de todo o mandato, as pressões intratáveis do longo declínio econômico. Nessas condições, seu governo recorreu à combinação de benefícios tributários e keynesianismo militar de Reagan com o keynesianismo da valorização de ativos de Clinton. Os resultados foram déficits públicos três vezes maiores do que os de Reagan e outro boom das hipotecas imobiliárias, elevando a dívida habitacional para 11 trilhões de dólares, num momento em que o PIB estava por volta de 14 trilhões.

Três cortes de impostos ultrapassaram em volume, se não exatamente em extensão, o recorde de Reagan na inclinação em favor dos ricos. As leis de falência tornaram-se mais severas, beneficiando os credores. Um esforço agressivo para privatizar certas áreas da Previdência Social, ideia já aventada por Clinton, não deu em nada. Com apoio bipartidário, as liberdades civis foram reduzidas e os gastos com a defesa dobraram.

No âmbito doméstico, o neoliberalismo do regime republicano também exigiu seu complemento ideológico. As hipotecas com alto risco de inadimplência – maná para banqueiros e operadores financeiros apresentado como ajuda aos desfavorecidos – representavam uma típica herança de Clinton. Bush, por sua vez, foi eleito com uma plataforma de “conservadorismo compassivo” e rendeu homenagem a ela. Os gastos com educação aumentaram mais do que em qualquer governo desde a Guerra contra a Pobreza de Lyndon Johnson. A distribuição gratuita de remédios para os usuários do Medicare, o seguro de saúde público para os idosos, foi a maior expansão da assistência médica desde a época de Johnson. Na esteira dos megaescândalos deixados pela desregulamentação financeira, como a falência da Enron, foram instituídos alguns controles, fracos, sobre a fraude empresarial.

Na macroeconomia, a direção foi dada pelo Banco Central, cujo presidente, Alan Greenspan, apoiou a nova rodada de cortes de impostos como estímulo ao crescimento, baixou os juros repetidas vezes para elevar a cotação das ações e encorajou os contratos hipotecários de alto risco. Mas a bolha financeira criada nos anos 90 não poderia ser prolongada para sempre. Em setembro de 2008 chegou a hora da verdade. Em meio ao pânico geral que se seguiu à concordata do banco Lehman Brothers, o colapso do sistema bancário só foi evitado mediante a aquisição de emergência, pelo Tesouro, de 400 bilhões de dólares em ativos de Wall Street. A debacle, produto final da era Clinton, garantiria a derrota cabal do republicano John McCain algumas semanas depois.

Mas a vitória do Partido Democrata nas urnas foi mais que um reflexo do naufrágio da economia. Ela correspondeu a uma mudança notável e gradual na sociologia do eleitorado, em curso desde os anos 90. O operariado branco conquistado por Nixon e Reagan havia encolhido: entre 1980 e 2010, a proporção de brancos sem nível superior caiu de 70% para 40%. Enquanto isso, o eleitorado não branco – negros, hispânicos e asiáticos – havia dobrado, de 13% para 26%, desde 1992, quando Clinton conquistou os votos desses segmentos.

Dali em diante, nenhum republicano obteve a maioria dos votos dos hispânicos, o segmento de mais rápido crescimento. E o mais importante: as mulheres começaram a votar em maior número do que os homens na década de 80 e, a partir dos anos 90, uma grande maioria delas vota invariavelmente nos democratas.

A esses dividendos demográficos, somaram-se os efeitos cumulativos da desregulamentação cultural, com uma queda brusca nos índices de casamento e de adesão a uma fé religiosa.

Nos anos 50, mais de 90% dos eleitores americanos de menos de 30 anos eram casados; hoje eles são menos de 30%. Os pares casados formam agora apenas 45% dos lares, e os que têm filhos, apenas 20%. Mais de um quarto da população já não se considera cristã. Essa liberalização dos costumes – compatível com o conformismo pró-mercado – foi mais longe entre os jovens e os profissionais liberais abastados, que tendem a votar nos democratas. A Califórnia, o estado mais populoso do país, tornou-se democrata, por maioria absoluta, em meados dos anos 90.

O efeito final dessas mudanças foi substituir uma política baseada grosso modo nas classes sociais por outra baseada nas identidades. As tendências tradicionais do eleitorado perderam importância ou deram uma guinada de 180 graus. Em 2008, a maioria dos eleitores brancos que ganhavam menos de 50 mil dólares por ano votou em McCain; a maioria dos que ganhavam mais de 200 mil dólares votou em Obama. Quatro anos depois, oito dos dez municípios mais ricos do país votaram em Obama.

Crise financeira, mudanças demográficas, permutação sociocultural: no final do governo Bush, tudo favorecia os democratas. A esses fatores, o candidato acrescentou sua própria carga simbólica. Obama foi escolhido candidato em 2008 porque, pela primeira vez, o Partido Democrata exigiu a representação proporcional em todas as suas primárias. Caso tivessem valido as regras de sempre, segundo as quais o vencedor em cada estado leva todos os delegados locais, Hillary Clinton – que venceu em sete dos dez estados com maior delegação na Convenção Nacional Democrata – teria ganhado facilmente a disputa no partido.

A mudança das regras produziu o candidato perfeito para a ocasião: não só mais jovem, mais frio e mais eloquente, como também magnético para as minorias das quais dependia a vitória. Personificação do triunfo nacional sobre o preconceito racial; demonstração do sonho americano do sucesso possível para todos; portador da esperança para os esquecidos e os aflitos – Obama podia se encaixar em qualquer uma dessas imagens edificantes. Uma vez investido no cargo, sua aparência e desenvoltura geraram um governante tipo celebridade – uma espécie de John Kennedy para uma época multicultural.


No eleitorado em geral, a cor continua sendo um fator de divisão, mas as equações mudaram. O racismo que ainda é muito comum, embora não declarado, deixou de ser uma vantagem implícita e passou a ser uma nítida desvantagem na disputa política. Entre os eleitores, a perspectiva de ter um presidente apenas metade branco gerou menos hostilidade do que o entusiasmo despertado pelo primeiro presidente metade negro.

A importância da cor, que foi crítica para dar a vitória a Obama nas urnas, tem sido mínima na sua atuação no cargo. No seu governo, um em cada cinco homens negros continua a ser encarcerado em algum momento da vida. Os índices de desemprego e pobreza entre os negros não mudaram. Os interesses do governo democrata têm se concentrado em outras áreas. Sua primeira preocupação foi, necessariamente, conter a crise financeira: os bancos tinham sido socorridos no governo Bush, mas a economia estava em queda livre.

Para deter a crise, um pacote de estímulo de emergência de 800 bilhões de dólares foi aprovado no Congresso. Mais uma vez, os cortes de impostos formavam o maior componente do estímulo (37%). Mas, desta vez, despesas variadas em infraestrutura, pesquisa, energia e programas sociais compunham quase metade do total (45%), num pacote saudado por seus admiradores como “um novo New Deal”.


A reforma da saúde, na qual Clinton tinha fracassado, foi a próxima prioridade. Com maioria no Congresso, Obama pôde aprovar o chamado Obamacare, buscando universalizar a cobertura de saúde ao mesmo tempo que reduzia seus custos, de modo que a reforma pudesse se pagar.

Para evitar mais caos financeiro, a Lei Dodd-Frank multiplicou os órgãos de fiscalização de Wall Street e os deveres dos órgãos já existentes. Para manter a vigilância contra o terrorismo, o governo prorrogou a prática de escutas telefônicas sem mandado judicial. Igualmente importante: o orçamento militar, por volta de 629 bilhões de dólares quando Bush deixou o cargo, aumentou ainda mais no governo Obama, para 707 bilhões em 2012. A dívida pública, de 10,7 trilhões de dólares em 2008, saltou para quase 16 trilhões no final do seu primeiro mandato.

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O fato de que os parâmetros do sistema político mudaram muito pouco com a volta dos democratas à Casa Branca pode ser constatado na continuidade dos programas dos governos de Bush e de Obama. Ambos os presidentes, como Reagan antes deles, tomaram posse numa recessão e reagiram com cortes de impostos para estimular a economia. Ambos aprovaram medidas fracas para conter os excessos financeiros. Ambos ampliaram os benefícios de saúde para ganhar apoio social. Ambos aumentaram o financiamento federal para a educação. Ambos aumentaram os gastos militares e limitaram as liberdades civis. Ambos fizeram o déficit disparar.

A principal diferença fica por conta do volume e da direção dos benefícios laterais, que cada partido distribui segundo as próprias bases. Mas nem Bush nem Obama se afastaram de um quadro delimitado pela necessidade de garantir a confiança do mundo dos negócios, de um lado, e apaziguar os eleitores, do outro. Sob o republicano, os complementos ideológicos de sustentação do regime resultaram num nacionalismo hiperbólico, alimentando a reação aos ataques do 11 de Setembro e encobrindo o viés tributário favorável aos mais ricos. Sob o democrata, os resultados de sucessivas expedições ultramarinas tinham esgotado essa fórmula, abrindo espaço para uma alternativa ideológica que, no jargão local, poderia ser chamada de “liberalismo compassivo”, incluindo um aumento nos gastos públicos e um regime tributário favorável aos menos abastados.

A diferença política foi suficiente para manter Obama na Casa Branca na eleição de 2012. Mas ela dificilmente altera os limites do regime de acumulação em vigor desde os dias

de Carter e Reagan. As verbas dispersas do pacote de estímulo federal, muitas vezes anuladas por cortes de gastos dos governos estaduais, não mudaram a vida de seus destinatários. O Obamacare é muito mais ambicioso do que o projeto de Bush de subsidiar os medicamentos dos idosos. No entanto, as duas legislações foram feitas nos mesmos moldes: a extensão dos benefícios sociais se dá em troca de uma mina de ouro para a indústria privada de saúde – num caso, garantindo aos laboratórios, com seus remédios a preços extorsivos, um mercado subsidiado pelo Estado; no outro caso, ampliando a clientela explorada pelas seguradoras de saúde.

Quando chegou o ano eleitoral de 2012, o governo Obama já estava muito consciente do apelo popular modesto da reforma da saúde e dos parcos efeitos do pacote de estímulo na população mais afetada pela crise. Sua resposta foi passar ao ataque contra as políticas republicanas que beneficiaram os mais ricos, o que teve um efeito muito maior. Essa virada retórica foi fundamental, ideologicamente, para a reeleição de Obama, mas teve importância prática limitada: um aumento de meros 5% na alíquota máxima do imposto de renda pago pelos muito ricos, ainda assim compensado pela continuidade dos cortes tributários de Bush para todos os que ganham menos de 400 mil dólares anuais.


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Obama ajudou a impedir que a economia americana entrasse em queda livre em 2010: segundo estimativas convencionais, as medidas tomadas por seu governo salvaram cerca de 3 milhões de empregos e 6% do pib. O crescimento continuou anêmico – pouco mais de 2% durante todo o primeiro mandato – e o desemprego elevado, oficialmente calculado em cerca de 12 milhões de pessoas, ou 8% da força de trabalho. Mas, dado que a quebra financeira de 2008 foi um choque maior do que o sofrido por qualquer outro grande país capitalista, a reação em curto prazo foi eficaz.

Com menos ativos em risco, os principais países europeus tiveram desempenho pior: ao longo do mesmo período de crise, o crescimento médio na Alemanha foi de 0,7%; na França, de 0,075%; na Grã-Bretanha, de -0,2%; e na Itália, de -1,45%. O desempenho acompanhou as medidas adotadas: austeridade fiscal para equilibrar os orçamentos na Europa, abundância fiscal para frear a recessão nos Estados Unidos.

Mas a chave para a sobrevivência política de Obama foi o privilégio dos Estados Unidos como detentor da moeda internacional de reserva. Isso lhe dá a capacidade que nenhum outro país tem de incorrer no déficit que quiser sem grande risco de assustar os detentores estrangeiros de títulos americanos. Mesmo enquanto seu déficit comercial cresce sem parar e sua dívida pública aumenta, os Estados Unidos continuam sendo a fortaleza central da economia capitalista mundial e, em tempos de incerteza geral, o refúgio mais seguro para quem tem dinheiro para aplicar. Embora as medidas tomadas pelo governo democrata tenham sido do tipo tapa-buraco, o fato é que o buraco onde a economia americana corria o risco de cair foi evitado.

As tendências de longo prazo da economia são outra questão. Na campanha pela reeleição, Obama criticou o abismo entre os super-ricos e a “classe média” – o eufemismo do país para designar o resto da população, já que a sociedade americana, por definição, não tem classes baixas. Ele prometeu endireitar essa situação com impostos mais justos. A retórica tem tido pouca relação com a realidade. No governo Obama, a desigualdade continuou a crescer. Um ano depois do pacote de estímulo, Wall Street distribuiu a seus altos executivos o segundo maior volume de bônus de que há registro – 140 bilhões de dólares. Em 2011, enquanto 45 milhões de americanos recebiam cupons de alimentação e os salários medianos caíam 2,7%, os lucros empresariais eram 50% maiores do que em 2008, e a desigualdade, medida pelo índice de Gini, registrava seu maior aumento desde 2003.

Até agora tem havido poucos protestos populares. A única tentativa de despertá-los, o movimento Occupy, não conseguiu insuflar uma reação em massa. Mesmo quando seus slogans foram incorporados aos discursos presidenciais, seus efeitos foram limitados. Uma campanha destacando a arrogância e o egoísmo dos ricos, personificados por Mitt Romney, seu oponente bilionário, manteve Obama no cargo. Mas não galvanizou uma mobilização popular. Menos pessoas se deram ao trabalho de votar do que em 2008; o titular do cargo perdeu cerca de 4 milhões de apoiadores; seu adversário ganhou meio milhão. Assim como seus predecessores, o presidente voltou à Casa Branca com a concordância de cerca de um quarto da população adulta. O clima predominante continua não sendo de indignação nem de entusiasmo, mas sim de apatia despolitizada.


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É exatamente esse clima de apatia que concede às minorias ativas um poder no sistema político superior ao seu contingente numérico. A polarização dos pontos de vista é justamente o que interessa a essas minorias. No vácuo criado pela maioria – um conjunto desorganizado de cidadãos passivos, dispersos por um vasto continente –, as paixões de uns poucos, aqueles com vontade e meios para se mobilizar, assumem uma intensidade peculiar, pouco afetada pela dormência circundante.

Mas, como já foi muito observado, a polarização foi assimétrica. Do lado democrata, a posição se manteve mais ou menos onde tem estado desde o fim da era do New Deal: um centrismo agora animado por uma repulsa a seu oponente muito maior do que antes, mas de resto pouco radicalizado em questões substanciais, exceto nas culturais. No lado republicano, ao contrário, a radicalização tem sido bem marcada, numa inclinação para a direita que já atraiu uma grande literatura. O que explica essa assimetria?

Ela não é nova. A estrutura do universo ideológico totalmente capitalista – um firmamento mental em que a santidade da propriedade privada e a superioridade da iniciativa privada são consideradas verdades absolutas por todas as forças na arena política – é tal que, em qualquer tempo, a tendência é haver mais elasticidade para a direita do seu centro de gravidade do que para a esquerda. É na direita que esse sistema de convicções básicas se presta a uma articulação mais forte, e a um apelo mais imediato. Isso não ocorreu nas emergências da Depressão e da guerra nos anos 30 e 40, quando o papel do Estado na sustentação do mercado e na defesa da nação era demasiado evidente para ser negado. Assim que a paz voltou, começou a reação.

Desde então, quatro características vieram diferenciar a cultura política da base republicana da de qualquer partido conservador europeu. A primeira e mais fundamental é o grau de hostilidade em relação ao Estado. A segunda foi o desenvolvimento de um tipo de nacionalismo peculiar aos Estados Unidos, mais hiperbólico do que o 
de qualquer outra sociedade ocidental. A terceira foi a captura do Sul pelo Partido Republicano, a solidez de um racismo do Novo Mundo, originário de uma sociedade escravagista colonial que se tornou um item não declarado no portfólio afetivo do partido. A quarta compreende os novos rótulos no antigo mercado da intolerância religiosa, que se aproximaram da causa republicana à medida que a secularização tomou conta do eleitorado democrata.

Dois dos quatro fatores – a raça e a religião – foram transferências tardias do bloco democrático, no qual antes se abrigavam o chamado Cinturão da Bíblia e as leis racistas. Até mesmo um terceiro fator, o nacionalismo expansionista, foi apenas uma paixão intermitente: os dirigentes republicanos do início do século XX eram isolacionistas, não imperialistas. No seu devido tempo, a Guerra Fria trouxe o imperialismo, o democrata Lyndon Johnson perdeu o Sul ao aprovar a Lei dos Direitos Civis e a Lei do Direito de Voto, e o televangelista Jerry Falwell [um dos fundadores da Maioria Moral] chamou Deus para o Partido Republicano.

Esse coquetel se destinava a inebriar as bases republicanas. O alto comando, que desde o século XIX estava solidamente ancorado nas grandes empresas, permaneceu mais sóbrio. Seguindo um padrão que começou nos anos 50, os surtos de extravagância vindos de baixo seriam freados pelos realistas de cima. O senador Joseph McCarthy foi vencido pela Comissão Watkins, que investigou sua caça às bruxas. Os radicais anticomunistas da Birch Society foram isolados pelo influente [colunista conservador] William Buckley. Até Reagan, para os puristas, decepcionou no final. Newt Gingrich [que conduziu os republicanos na conquista da maioria legislativa, em 1994] desinflou. A turbulência mais recente, a do Tea Party, provavelmente não será mais duradoura.

Mesmo no ano passado, quando os comentaristas afirmaram que o Partido Republicano vivia um surto de demência coletiva, nenhum candidato mais exaltado chegou nem perto de vencer a disputa interna pela candidatura presidencial, que terminou com uma vitória fácil para o candidato mais convencional disponível [Romney].

Isso não quer dizer que pouco tenha mudado desde os anos 90. O maior peso do Sul no bloco republicano e a perda da Costa Oeste serviram para endurecer e estreitar o conservadorismo americano. Mas as cartas da raça e da religião não vencem uma partida; e o imperialismo passou para as mãos do seu oponente. Como apelo, continua o antiestatismo, com o próprio Tea Party passando do fanatismo moral para o fanatismo fiscal. Nos Estados Unidos, onde há mais proprietários de pequenas empresas do que sindicalistas, existe uma base social para isso no estrato dos pequenos empregadores que povoam o Tea Party e compõem 40% da nova bancada republicana na Câmara. Mas a rejeição aos impostos perdeu atração, e agora funciona mais como um slogan de defesa do que de ataque.

Desanimado com a derrota de 2012, mas não suficientemente chacoalhado por um resultado nacional que, estatisticamente, ainda foi bastante apertado, é bem claro que o Partido Republicano perdeu o rumo. Mas as carreiras terão mais importância do que as convicções, à medida que a nova realidade eleitoral se imponha. O oportunismo não é monopólio dos democratas. No passado, as conversões eleitoreiras transformaram muitos ex-republicanos moderados em conservadores intransigentes. Podemos esperar correções de rumo na direção oposta entre os ultraconservadores de hoje.


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Enquanto isso, os democratas estão no comando. As projeções demográficas os favorecem, agora que a presença dos jovens e dos hispânicos aumenta cada vez mais no eleitorado.

A vantagem ideológica também sopra a seu favor, uma vez que a raça e a religião se tornam obstáculos para a construção de uma maioria eleitoral. Após a vitória fortuita de Bush em 2000, a “guerra contra o terror” favoreceu a consolidação do poder republicano em 2004. Com o esfriamento dessa batalha, a administração do império deixa de exigir um clima de emergência nacional. Assim como nos anos 90 Clinton promoveu um reajuste social da fórmula de governo neoliberal, hoje Obama pode dar uma virada no aspecto cultural, sem medo de ser derrotado em um leilão da segurança do império.

Ampliando a vantagem democrata está seu predomínio sobre a grande mídia. Os programas de rádio e tevê que servem de megafones aos republicanos hoje só pregam para os convertidos. A formação da opinião pública onde ela importa – entre os abastados e instruídos e no segmento independente do eleitorado – é o território da grande mídia impressa. Se vigora um regime de partido único nos estados de domínio republicano, na capital do país quase 90% dos chefes de redação votaram em Clinton em 1996. Os departamentos universitários são só um pouco menos monolíticos, com quase 80% de eleitores de John Kerry em 2004. Em 2012, os principais jornais de todas as cidades importantes, excluindo o Sul – Nova York, Los Angeles, Chicago, Filadélfia, Denver, Boston, Washington –, apoiaram Obama.

A demografia e a ideologia não são os únicos terrenos em que o equilíbrio de forças se alterou. Em meados dos anos 70, os custos de uma campanha bem-sucedida para o Congresso giravam em torno de 100 mil dólares; em 2002, chegaram a 1,5 milhão de dólares. O gasto total nas campanhas presidenciais subiu de maneira mais gradual, passando de uma base de 300 milhões de dólares nas décadas de 80 e 90 para 400 milhões de dólares em 2000, e saltando para 850 milhões de dólares em 2004, quando Bush e Kerry arrecadaram quase 400 milhões cada um.

Quatro anos mais tarde, Obama abriu mão do financiamento público de campanha – e das restrições que o acompanham – e amealhou cerca de 800 milhões de dólares, esmagando McCain na maior vitória financeira da história americana: uma margem de 68% para 32%, muito maior do que sua margem de votos nas urnas. Uma vez no cargo, o presidente não perdeu tempo, batendo mais um recorde na busca pelo dinheiro. Cinco meses após a posse, Obama já estava novamente solicitando doações. Em meados de 2011, com a reeleição a mais de um ano de distância, ele participou de mais eventos para arrecadar fundos do que Carter, Reagan, o primeiro presidente Bush e Clinton juntos, e estava a caminho de ultrapassar todos os seus cinco antecessores combinados – incluindo o segundo Bush – em suas campanhas de reeleição. Na campanha de 2012, Obama mais uma vez dobrou sua arrecadação, dessa vez igualado por Romney. Os dois candidatos, juntos, levantaram 3,2 bilhões de dólares em seu próprio nome e no de suas respectivas organizações – um total de 7 bilhões.

Nesse dilúvio de dinheiro, o Partido Democrata também está na dianteira. Já em 2004 o Comitê Nacional Democrata arrecadou mais que o republicano. Aos seus doadores tradicionais – a indústria do entretenimento, os advogados criminalistas, os sindicatos, o Vale do Silício –, o partido agregou um fluxo de caixa vindo de uma base leal na internet e uma chuva de fundos dos setores imobiliário, bancário e de saúde. Os laços com o setor financeiro, formados na década de 90, se fortaleceram.

A mudança na preferência do empresariado é, em parte, um simples reconhecimento de qual partido está em ascensão e em condições de retornar mais favores. Mas também reflete cálculos racionais sobre qual dos dois é melhor para estabilizar o capitalismo num período de turbulência, quando a economia precisa de mais injeções de dinheiro e a sociedade, de uma retórica de diversidade e inclusão. Do seu lado, o Partido Democrata está usando sua riqueza recém-adquirida para construir uma máquina partidária mais poderosa do que qualquer coisa que esteja nos planos dos republicanos. Para isso, converteu a máquina da campanha de Obama em uma organização “sem fins lucrativos”, destinada a manter seus partidários a postos durante todo o mandato. Seus estrategistas preveem uma era duradoura de domínio político.


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Consideradas em si mesmas, as duas vitórias de Obama não chegam a configurar uma virada no sistema político. Nem sua escala nem seu contexto se comparam, como marcos históricos, aos da vitória de Roosevelt ou de Reagan. A margem de vitória de Obama não só foi menor, como caiu depois do primeiro mandato, enquanto a de Roosevelt e a de Reagan aumentaram. Isso não impede uma posterior consolidação dinástica sob Hillary Clinton.

A diferença mais importante reside no contexto estrutural do governo Obama. Roosevelt e Reagan assumiram o cargo quando o regime anterior de acumulação se esgotara e os contornos de um novo regime apenas se esboçavam. Nos anos 30 não havia escassez de ideias – Escola de Estocolmo, John Maynard Keynes, Hjalmar Schacht – para vencer a Depressão, embora o New Deal levasse algum tempo para recorrer a elas. Na década de 80, havia muito se preparava um contra-ataque neoliberal – os austríacos, a Escola de Chicago –, com um arsenal de receitas para lidar com a ameaça da estag-flação. Hoje o regime de acumulação local está em crise. Objetivamente, porém, ainda não se trata de crise aguda, e subjetivamente a paisagem está nua de ideias em condições de delinear um novo regime. É esse impasse subjacente que produziu um cenário político profundamente dividido.

Nos Estados Unidos, as dificuldades imediatas foram enfrentadas com remédios de tipo keynesiano: excesso de gastos públicos em relação às receitas, ajuda às empresas. Na Europa, que não goza da prerrogativa imperial de imprimir dinheiro, a crise foi combatida com receitas semiaustríacas. Nenhum desses remédios oferece resposta à prolongada desaceleração das economias capitalistas avançadas, iniciada quarenta anos atrás. O que há é uma fuite en avant, para evitar o perigo de um colapso traumático. É um regime de acumulação que enriqueceu alguns extraordinariamente, mas não conseguiu restaurar o dinamismo no mundo atlântico nem na sua extensão, o Japão.

No momento de seu triunfo político, o governo Obama enfrenta pressões econômicas que abrem poucas oportunidades seja para as reformas sociais de Roosevelt, seja para a generosidade fiscal de Reagan: déficits ameaçadores, custo crescente dos benefícios sociais, crescimento fraco. Os substitutos culturais oferecem uma saída temporária: mudanças que custam pouco ou nada – legalização de imigrantes em situação irregular, controle de armas, casamento para todos. Para além delas, a margem de manobra parece pequena.

Desde o surgimento de um novo regime de acumulação, nos anos 80, os sistemas políticos do Atlântico conheceram dois tipos de hegemonia: por meio de uma fórmula orgânica para o governo neoliberal ou de uma nítida vitória eleitoral. Os dois tipos podem coincidir ou divergir. A expressão mais coerente e eficaz de uma ideologia e uma vitória decisiva nas urnas nem sempre são a mesma coisa. Na Grã-Bretanha, que foi pioneira nessa virada, Margaret Thatcher conseguiu uma hegemonia abrangente sem jamais conquistar a maioria do eleitorado, com o seu Partido Conservador nunca recebendo na época mais de 44% dos votos. Nos Estados Unidos, onde o terreno era mais favorável, Reagan combinou uma fórmula orgânica com amplas maiorias eleitorais.

Na década de 90, os regimes da Terceira Via de Clinton e Tony Blair ofereceram variantes ao legado dos antecessores, servindo, ao mesmo tempo, para aprofundá-lo e anestesiar seu impacto. Ambas foram “hegemonias sem peso”. Hoje, vitórias eleitorais como as de Clinton e Blair são comuns na Europa, sem que os eleitos consigam se consolidar nos governos. Muitas dessas vitórias refletem sobretudo uma reação quase instintiva à crise, e não tanto a convicção sobre como sair dela.


Nos Estados Unidos, o privilégio de deter a moeda de reserva vem mitigando os efeitos da crise. Mas o impasse no regime de acumulação persiste em todo o sistema, e, na falta de alternativas mais abrangentes que sirvam à disputa política, as guerras culturais relativas à cor e aos costumes ganham uma importância desproporcional. O resultado é a polarização de que hoje se ocupam com tanta insistência os comentaristas. A ordem neoliberal se tornou uma terra de ninguém onde nenhuma fórmula orgânica de governo está à vista.

Notas

[1] Regime of accumulation: term derived originally from the Marxist work of Michel Aglietta,Régulation et crises du capitalisme, Paris 1976, of which an institutionalist equivalent can be found in Douglas Forsyth and Ton Notermans, ‘Macroeconomic Policy Regimes and Financial Regulation in Europe, 1931–1994’, in Forsyth and Notermans, eds, Regime Changes, Providence, RI 1997, pp. 17–68.

[2] Semantically, a symptom of this closed universe is the transformation in local vocabulary of the term ‘liberal’ into a merely social or cultural outlook, denuded of reference to the economic principles that have historically defined it elsewhere, since in the US the axioms of the free market are common to all. Thus ‘neo-liberal’, universal currency abroad, is a lexical embarrassment for those who identify themselves with the indigenous version.

[3] First came the off-ramp from gold, passage of Glass–Steagall and NIRA, in 1933; then the Wagner and Social Security Acts, in 1935.

[4] For this history, see Robert Brenner, ‘Structure vs Conjuncture’, NLR 43, January–February 2007, pp. 37–40, the most important single text for understanding the evolution of US politics since the New Deal.

[5] See Robert Brenner, The Economics of Global Turbulence, New York and London 2006, passim, the fundamental history of post-war capitalism.

[6] The origins of the AEI go back to 1943, when corporate executives flocked to Washington for roles in the war economy, but its transformation into a conservative powerhouse dates from the seventies: by 1980 it had over 600 corporate sponsors. The Heritage Foundation was set up in 1973, the Cato Institute in 1977. For these developments, see Jacob Hacker and Paul Pierson, Winner-Take-All Politics, New York 2010, pp. 118–20.

[7] For the notion of ideological supplement, see ‘Testing Formula Two’, NLR 8, March–April 2001, pp. 7–8.

[8] At presidential level, Goldwater took six Southern states in 1964; Nixon eight in 1968, and the whole region in 1972. Reagan won all but Georgia in 1980, and swept the board in 1984. But at Congressional level, the Republican breakthrough did not come until 1994.

[9] Celebrating the abolition of Glass–Steagall, Treasury Secretary Summers announced: ‘Today Congress voted to update the rules that have governed financial services since the Great Depression and replace them with a system for the 21st century. This historic legislation will better enable American companies to compete in the new economy.’ Sandy Weill, head of Citigroup, which had just hired Summers’s predecessor Rubin as its chairman, and would be fined $2.65 billion—the largest such penalty in the history of Wall Street—for its criminality in the WorldCom scandal, would proudly display among his trophies the pen Clinton used to sign the repeal of Glass–Steagall: Jeff Madrick,Age of Greed, New York 2011, p. 349. Weill’s point-man with Clinton’s White House, helping him assure passage of the bill, was Gene Sperling, later a stipendiary of Goldman Sachs, now Chairman of Obama’s National Economic Council.

[10] ‘This huge supply shock radically changed the relative returns on capital and labour. It made inflation global, meaning that its rates have become highly correlated all over the world, and it subdued long-run inflation. Subsequently risk aversion abated, and in most emerging-market countries the cost of credit has fallen, while the rate of profit has risen. No wonder that credit surged and financed a boom in asset prices’: Michel Aglietta, ‘Into a New Growth Regime’, NLR 54, November–December 2008, p. 72.

[11] A process foreseen by Marcuse already in the mid-fifties, coining the term in Eros and Civilization.

[12] For dismissal of the idea that significant value-conflicts divide the electorate at large, as distinct from minorities on either side, see Morris Fiorina (with Samuel Abrams and Jeremy Pope), Culture War? The Myth of a Polarized America, New York 2005, pp. 15–25 et seq, and (with Samuel Abrams)Disconnect: The Breakdown of Representation in American Politics, Norman, OK 2009; supported by Andrew Gelman, ‘Economic Divisions and Political Polarization in Red and Blue America’, Pathways, Summer 2011, pp. 3–6, for whom value-conflicts are confined to the upper-middle class and the rich, leaving the rest of the population cold. That polarization is, on the contrary, rooted in conspicuous divisions of popular sentiment and conviction is a leading theme in the work of Alan Abramowitz, The Disappearing Center: Engaged Citizens, Polarization and American Democracy, New Haven 2011, andThe Polarized Public?, Upper Saddle Valley, NJ 2013. There is little doubt that Abramowitz has the better of the argument, for which the hardening division of states into ‘blue’ and red’ columns is the plainest evidence.

[13] For these figures, see Abramowitz, Disappearing Center, p. 129; Economist, 25 June 2011.

[14] The most extended case for the belief that there is a continuing, clear-cut economic division between Democratic and Republican electorates, the less well-off opting for the former, the better-off for the latter, is developed in Nolan McCarty, Keith Poole and Howard Rosenthal, Polarized America, Cambridge, MA 2008, which argues that the ‘income effect’ trumps all other determinants of voting behaviour. Appearing before Obama’s two electoral victories, their findings risk looking dated in the light of them. In 2012 Obama ‘carried only one-third of non-college [sc. working-class] white men, the worst performance since Walter Mondale was buried in Ronald Reagan’s 1984 landslide’: Ronald Brownstein, ‘Why Obama Is Giving Up On Right-Leaning Whites’, The National Journal, 31 January 2013.

[15] Paul Toscano, ‘Obama Wins 8 out of 10 Wealthiest Counties in US’, CNBC, 7 November 2012, based on Census Bureau data of average household income 2006–11.

[16] California, Texas, New York, Florida, Pennsylvania, Ohio, Michigan. The provincialism of American political science, and debate in general, is such that this condition of Obama’s success has merited scarcely a line of comment, let alone of reflection.

[17] The most euphoric billboard for the Administration has been erected by Michael Grunwald, The New New Deal, New York 2012, where the stimulus becomes ‘more than 50 per cent bigger than the entire New Deal, twice as big as the Louisiana Purchase and Marshall Plan combined’, ‘the biggest and most transformative energy bill in US history’, ‘the biggest and most transformative education reform bill since the Great Society’, ‘the biggest foray into industrial policy since FDR’, ‘the biggest middle-class tax cut since Ronald Reagan’, ‘the biggest infusion of research money ever’, etc—all this from an author capable of writing ‘nothing in life except parenthood lives up to the hype’ (sic): pp. 10–11, 448.

[18] In the gratified words of the leading encomium of the Act, complete with White House photo-ops on the cover, ‘As for businesses in the US economy’s vast health-care sector, they are going to win, on balance, enjoying more customers and opportunities for growth and profits . . . Traders in health-industry stocks know how to penetrate the partisan and ideological fog to see the economic bottom line’: Lawrence Jacobs and Theda Skocpol, Health Care Reform and American Politics: What Everyone Needs to Know, New York 2010, p. 135: on the day the Act was passed, Wall Street hit an eighteen-month high. The principal architect of the law, Elizabeth Fowler—working under the top senatorial recipient of cash from the health-care industry, Max Baucus—was former Vice-President for Public Policy of WellPoint, America’s largest insurance company. Obama then appointed her to implement the Act. Two years later, she returned to her natural habitat as a top executive of the pharmaceutical giant Johnson & Johnson. For a trenchant summary of the political and social nub of the Act, see Edward Luce, Time to Start Thinking, New York 2012, pp. 228–31; for a deeper and yet more devastating critique, see Roger Hodge, The Mendacity of Hope, New York 2010, pp. 129–49.

[19] For the numbers who will continue to be uninsured, see the estimates of the Congressional Budget Office, cited in ‘Court’s Ruling May Blunt Reach of the Health Law’, New York Times, 24 July 2012.

[20] Ezra Klein, ‘Block Obama!’, New York Review of Books, 27 September 2012.

[21] Alan Blinder and Mark Zandi, ‘How the Great Recession Was Brought to an End’, 27 July 2010, p. 7; available on Moody’s Analytics site.

[22] The true figure, including drop-outs from the labour force who no longer even seek a job, is probably over 14 million: see Mort Zuckerman, ‘How We Can End Our Modern-Day Depression’, USNews and World Report, 1 February 2013. Between 2000 and 2011, the economic participation rate dropped from 64 to 58 per cent of the population: Luce, Time to Start Thinking, p. 92.

[23] Jeff Madrick, Age of Greed, p. 397; Daniel Gross, Better, Stronger, Faster, New York 2012, p. 52; Timothy Noah, ‘The Equality Inaugural’, The New Republic, 21 January 2013. Median income fell by more during the ‘recovery’ of 2009–11 than during the ‘recession’ of 2007–09: Luce, Time to Start Thinking, p. 272.

[24] Typically accompanied by wistful hopes for a return to earlier American moderation, often after arguments that increasing social inequality has been a key determinant of political polarization. Thus Hacker and Pierson—after documenting at length the corruption of the political system and its consequences, and then deciding that even if it only ‘nibbles at the edges’ of these, Obama’s record has after all been ‘genuinely impressive’—conclude that nevertheless ‘the guardians of moderation need help’, if ‘a vibrant, dynamic capitalism’ is to prevail: Winner-Take-All Politics, pp. 301–2, 304; while McCarty, Poole and Rosenthal, after producing striking correlations between rising inequality and increasing polarization, express the wish that ‘the Sam Rayburns, John Heinzes, Dan Rostenkowskis, Sam Nunns and so on, would return and bring some sense back into our politics. As citizens, we hope moderation returns before serious cracks in our institutions occur’: Polarized America, p. 203. Rostenkowski was, of course, jailed for corruption, and then pardoned, along with runaway financier Marc Rich and others, by Clinton on his memorable last day in office. Among the authors is a one-time occupant of the Kenneth Lay Chair of Political Science at the University of Houston.

[25] For the continuities in the politics of the popular Right in the US, see the essays written between the mid-fifties and mid-sixties by Richard Hofstadter. ‘The modern right wing, as Daniel Bell has put it, feels dispossessed: America has been largely taken away from them and their kind, though they are determined to repossess it.’ Noting that ‘the entire right-wing movement’ was not only dotted with fundamentalist preachers, but ‘infused at mass level with the fundamentalist style of mind’, Hofstadter reminded his readers of how passionately the small-town and rural Protestants of the 1920s had defended cultural values that were resurfacing in the Goldwater period, when—plus ça change—‘the largest single difficulty facing the right wing as a force within the Republican party is its inability to rear and sustain national leaders’. The Tea Party is less outré than many of its forebears, for whom Eisenhower’s nomination meant ‘eight more years of socialism’, and Dulles was a ‘Communist agent’:The Paranoid Style in American Politics [re-edition], Cambridge, MA 1996, pp. 23, 73, 78–9, 45, 28.

[26] Theda Skocpol, Obama and America’s Political Future, Cambridge, MA 2012, p. 47.

[27] Survey data report that ‘nearly half of Tea Party supporters say they have not heard of the religious right or have no strong opinion about it—and about one in ten Tea Partiers express strong disagreement with religious conservatism’: Theda Skocpol and Vanessa Williamson, The Tea Party and the Remaking of Republican Conservatism, New York 2012, p. 36.

[28] Cheney was once a critic of any crackdown on campus protests, calling for ‘greater understanding and moderation in responding to student concerns and disorders’; Rumsfeld, a young moderate in revolt against his moss-back elders; Gingrich, a follower of Nelson Rockefeller; Mitch McConnell, a scorner of the Nixon Administration as ‘at worst completely reactionary and at best totally indecisive’: Geoffrey Kabaservice, Rule and Ruin, New York 2012, pp. 267, 132, 242, 320.

[29] For a coruscating analysis of these trends, and the concomitant tensions within the Republican bloc, see Mike Davis, ‘The Last White Election’, NLR 79, January–February 2013, pp. 5–52, which also offers the most telling account of the consolidation of Republican power at state level in its bastions of the South and Midwest, and their importance in the ‘odd and complex orrery’ of the US political system at large, where at federal level the Supreme Court circles in another generally conservative orbit: pp. 12, 46–7 ff.

[30] Thomas Edsall, Building Red America, New York 2006, p. 101.

[31] Neil Gross and Solon Simmons, ‘The Social and Political Views of American Professors’, Working Paper, September 2007, p. 36.

[32] Brendan Doherty, The Rise of the President’s Permanent Campaign, Lawrence, KS 2012, pp. 82–3, 149, 167.

[33] Federal Election Commission, 31 January 2013.

[34] From 1999 to 2006, the top five Senatorial recipients of cash from securities and investment firms were all Democrats—in rank order: Schumer, Kerry, Lieberman, Clinton and Dodd: Winner-Take-All Politics, pp. 226–7. In 2002, when the top recipient in the House was Rahm Emmanuel, two-thirds of the roll-call of largest campaign donors poured their money into the party of the common man, as Truman liked to call it: ‘perhaps surprisingly’ is the artless comment of McCarty, Poole and Rosenthal in Polarized America, p. 140—within their framework, it would be more accurate to say, incomprehensibly.

[35] In Hodge’s crisp formulation, ‘Politics, we might say, is the continuation of business by other means’: Mendacity of Hope, p. 8. In 2008 Goldman Sachs alone lavished three-quarters of its funding on the Democrats, with Citigroup not far behind: p. 46.

[36] For the novelty of this configuration, see Ronald Brownstein’s commanding study The Second Civil War, New York 2007, pp. 17–19 ff, passim. He points out that Republicans were easily dominant up to the Depression, Democrats during the high tide of the New Deal. Then, from the late thirties to the mid-sixties, the political system was closely but not deeply divided, Democrats and Republicans routinely crossing party lines in an era of bipartisan negotiation. Since then, it has become both deeply and closely divided. The observation is acute, but its periodization is weakened by a tendency to elide partisan policies and electoral preferences, leading Brownstein to date the beginnings of the third era from Reagan’s Presidency, on the grounds that it detonated ideological passions that intensified conflict between the parties. The country, however, was not closely divided under Reagan, who commanded huge majorities in the Electoral College throughout. It is only under the last three Presidencies that deep but close division set in. The unfamiliarity of this development, underlined by Brownstein, is left largely unexplained by him. In general, it is striking how blind even the most accomplished American political science or sociology is to the economic history structuring shifts in the political system. For the latest example, see the exchanges between Theda Skocpol, Larry Bartels, Mickey Edwards and Suzanne Mettler in Obama and America’s Political Future, all of which proceed as if their subject could be discussed without so much as a glance at the fortunes of American capitalism.

[37] The most powerful analysis of the political logic at work in successive phases of this process is provided by Wolfgang Streeck, ‘The Crises of Democratic Capitalism’, NLR 71, September–October 2011, pp. 5–29.

[38] Susan Watkins, ‘A Weightless Hegemony: New Labour’s Role in the Neo-Liberal Order’, NLR 25, January–February 2004, pp. 5–23.

29 de julho de 2013

Lendo Marx no Cairo

Vale a pena ler Marx, para compreender uma ditadura que apela às massas e ao nacionalismo, enquanto reprime brutalmente e reata laços com Washington.

por Kaveh L. Afrasiabi

Asia Times Online

“Cada gigante pressupõe um anão... Cesar, o herói, deixou atrás de si um Otaviano...”  
- Karl Marx


Quando o novo homem forte do Egito, general Abdel Fattah al-Sisi, convocou seus apoiadores para que manifestassem sua solidariedade ao Exército na sexta-feira, 57º aniversário da nacionalização do Canal de Suez, ato do carismático Gamal Abdel Nasser, minha reação instintiva foi correr à prateleira, para reler O 18 de Brumário de Luis Bonaparte, de Karl Marx, em homenagem à analogia histórica.¹

No livro de Marx, tem-se um modelo de análise de repetições históricas (a segunda vez, como farsa), que surge da comparação entre o golpe na França em dezembro de 1851 (orquestrado por um sobrinho do grande Napoleão, e o qual, embora sem ter nenhuma mínima fração do gênio do tio, se autodenominou Imperador Napoleão 3º). Do ponto de vista de Marx, o golpe de 1851 foi uma caricatura do golpe de Napoleão em 1799 – devida, sobretudo, à “grotesca mediocridade” do sobrinho.

Na comparação, o general Sisi, cujos atiradores assassinaram a sangue frio dezenas de manifestantes no Cairo e em outras cidades naquela sexta-feira, não chega a ser nem cópia pálida do Nasser pan-arabista, que pôs fim a 72 anos de dominação britânica no Egito e, assim, tornou-se herói do anticolonialismo pós-Segunda Guerra Mundial. Sisi, não. Sisi mostra-se, a cada dia, mais e mais parecido com um neo-Augusto Pinochet, em tudo semelhante ao que Friedrich Engels, camarada de Marx, escreveu de Napoleão 3º: “o sargentinho e seu bando de marechais.”

Desde a derrubada do presidente Mohamed Morsi, no dia 3 de julho, Sisi, o novo imperador do Egito, vem decaindo pela trilha dos ditadores mais brutais, mostrando pouca ou nenhuma piedade ou respeito pelos adversários, pronunciando discursos sombrios sobre “enfrentar o terrorismo”, desculpa capenga para disparar sem qualquer limite o seu reinado de terror, contra as vastas porções da população que se opõem ao golpe militar.

Ironicamente, Sisi quer ter as duas coisas: quer obter legitimidade, ligando-se ao legado orgulhoso de Nasser e, ao mesmo tempo atacando o presidente deposto Morsi para fazer exatamente o que Nasser fez em meados dos anos 1950, isto é, promulgar uma nova constituição que em grande parte monopolizou o poder em suas mãos autoritárias.

Já não há dúvida alguma de que Sisi e seus co-conspiradores calcularam mal a extensão da oposição popular ao golpe contra Morsi –, tacitamente aprovado por Washington, como se comprovou no empenho do presidente Obama dos EUA para não chamar o golpe, de “golpe”; não tomar nenhuma providência para impedir o golpe; e no movimento de, sem um segundo de hesitação, anunciar que não haveria qualquer interrupção na ajuda militar e na venda de armas ao Egito.

Pseudo

“Nenhuma lei nos obriga a dizer ‘golpe’ ou qualquer outra coisa” – disse um porta-voz do governo dos EUA, frase dúbia e posição duvidosa que zombam da lei norte-americana e da responsabilidade legal e ética dos EUA. A lei norte-americana, muito claramente, proíbe que países vítimas de golpes de Estado recebam ajuda humanitária. Inventar exceções a essa regra é desenvolvimento doentio que não augura qualquer boa notícia para o futuro das relações entre EUA e mundo árabe. O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, que não se deu sequer o trabalho de dar um telefonema aos generais egípcios integrados à lista de pagamento do Departamento de Estado, para desestimulá-los de insistirem no golpe que estava em curso, vive agora a gemer que o Egito está “à beira do abismo” e suplicando que todos os partidos retrocedam.

O que se vê aí é diplomacia de má qualidade, diplomacia inepta, orientada pelo velho vício imperial de controle e dominação, que já não oferecia qualquer garantia a partir do momento em que as urnas levaram Morsi e sua Fraternidade Muçulmana ao poder. Não surpreende que a desculpa que mais se ouve, para justificar o golpe, seja a “estabilidade” num país geoestrategicamente importante. De fato, o que se tem aí é o reflexo da velha húbris imperial, que errou seus cálculos e avaliou mal o desejo popular e a rejeição a qualquer golpe, também entre egípcios que pouco têm a ver com a Fraternidade Muçulmana. Resultado disso, a coalizão chefiada pela Fraternidade contra o golpe vai se tornando mais forte a cada dia – como reação vital direta à repressão brutal que Sisi desencadeou e comanda. Falta a Sisi o horizonte intelectual dos nasseristas, que agiram segundo uma dialética interna da história egípcia.

Esse pseudo-Nasser, consumido integralmente pelos inimigos internos, opera como força de desagregação social, de desunião e discórdia, assegurando o resultado mais catastrófico. As forças seculares nacionalistas e liberais que o apoiam condenam-se a perder a própria legitimidade apenas por se aproximarem dos golpistas e desse neo-Pinochet do Cairo, cujo discurso a favor da “unidade nacional” jaz afogado no fundo do Nilo. Nesta fase, o que o futuro reserva para o Egito não é claro, mas o lugar de Sisi ao longo da lista de líderes farsa na narrativa de Marx já é um destino selado. “Caussidière por Danton, Louis Blanc por Robespierre, a Montanha de 1848 a 1851 pela Montanha de 1793 a 1795, o sobrinho pelo tio” – Marx escreveu; e a mesma caricatura aplica-se nas circunstâncias dessa recente edição de mal disfarçada neoditadura militar no Egito.

25 de julho de 2013

Como estamos empobrecidos, aburguesados e silenciados

E o que fazer sobre isso

Por John Pilger

Conheço o meu carteiro há mais de 20 anos. Consciencioso e bem-humorado, ele é a encarnação do serviço público no seu melhor aspecto. Noutro dia, perguntei-lhe: "Por que é que você se posta frente a cada porta como um soldado numa parada?"

"Novo sistema", respondeu. "Já não me pedem para simplesmente postar as cartas através da porta. Tenho de abordar cada porta de um certo modo e enfiar as cartas através dela de um certo modo".

"Por que?"

"Pergunte-lhes".

Do outro lado da rua estava um jovem solene, com prancheta na mão, cujo trabalho era seguir carteiros e ver se eles cumprem as novas regras, sem dúvida como preparativo para a privatização. Eu disse ao seguidor de carteiros que o meu era admirável. A sua cara permaneceu imutável, exceto por um momentâneo piscar confuso.

Em "Admirável mundo novo revisitado", Aldous Huxley descreve uma nova classe condicionada à normalidade que não é normal "porque eles estão tão bem ajustados ao nosso modo de existência, porque sua voz humana foi silenciada tão prematuramente nas suas vidas, que nem mesmo lutam ou sofrem ou desenvolvem sintomas como acontece com o neurótico".

A vigilância é normal na Era da Regressão - como revelou Edward Snowden. Câmaras por toda a parte são normais. Liberdades subvertidas são normais. A discordância pública efetiva é agora controlada pela polícia, cuja intimidação é normal.

A corrupção de nobres palavras como "democracia", "reforma", "bem-estar" e "serviço público" é normal. Primeiros-ministros que mentiram abertamente acerca de lobbystas e objectivos de guerra são normais. A exportação de armas britânicas no valor de 4 mil milhões de libras [€ ], incluindo munições para controle de multidão, para o estado medieval da Arábia Saudita, onde a apostasía é um crime capital, é normal.

A destruição deliberada de instituições públicas eficientes e populares, como a Royal Mail, é normal. Um carteiro já não é mais um carteiro, a fazer o seu trabalho decente; ele é um autómato a ser observado, um ítem de formulário a ser assinalado. Huxley descreveu esta regressão como insana e o nosso "perfeito ajustamento àquela sociedade anormal" como sinal de loucura.

Estaremos nós "perfeitamente ajustados" a isto? Não, ainda não. O povo defende hospitais do encerramento, o Reino Unido íntegro força agências bancárias a fecharem e seis corajosas mulheres escalam o mais alto edifício da Europa para mostrar a devastação provocada no Árctico pelas companhias de petróleo. Aqui, a lista começa a desvanecer-se.

No festival de Manchester deste ano, a épica peça "A máscara da anarquia", de Percy Bysshe Shelley – com todos os 91 versos escritos em cólera após o massacre de Lancashire, em 1819, do povo que protestava contra a pobreza – é uma peça teatral aplaudida e absolutamente divorciada do mundo externo. Em Janeiro último, a Comissão da Pobreza da Grande Manchester revelou que 600 mil habitantes de Manchester estavam a viver em "extrema pobreza" e que 1,6 milhão, ou aproximadamente a metade da população da cidade, estavam "a deslizar para pobreza mais profunda".

A pobreza foi aburguesada (gentrified). O Parkhill Estate, em Sheffield, era outrora um edifício de habitação pública – pouco apreciado por muita gente devido ao seu brutalismo Le Corbusier, à fraca manutenção e falta de instalações. Com o programa Heritage Grade II, ele foi renovado e privatizado. Dois terços das velhas habitações renasceram como apartamentos modernos vendidos a "profissionais", incluindo designers, arquitectos e um historiador social. No gabinete de vendas podem-se comprar canecas e almofadas de designer. Esta fachada não apresenta nem um indício de que, devastada pelos cortes de "austeridade" do governo, Sheffield tem uma lista de espera para habitação social de 60 mil pessoas.

Parkhil é um símbolo dos dois terços da sociedade que é a Grã-Bretanha de hoje. O terço aburguesado vai bem, alguns deles extremamente bem, um terço luta para sobreviver a crédito e o resto desliza para a pobreza.

Embora a maioria dos britânicos seja da classe trabalhadora – que se considere desse modo ou não – uma minoria aburguesada domina o parlamento, a administração superior e os media. David Cameron, Nick e Ed Milliband são os seus autênticos representantes, com apenas diferenças técnicas menores entre os seus partidos. Eles estabelecem os limites da vida e do debate político, ajudados pelo jornalismo aburguesado e da indústria da "identidade". A maior transferência de sempre da riqueza, para cima, é um dado. A justiça social foi substituída pela "justeza" ("fairness") sem significado.

Enquanto promove esta normalidade, a BBC concede um prêmio de quase um milhão de libras a um funcionário superior. Embora se considere como o equivalente na mídia à Igreja da Inglaterra, a corporação agora tem uma ética comparável àquela das companhias de "segurança" G4S e Serco as quais, diz o governo, cobraram a mais por serviços públicos dezenas de milhões de libras. Em outros países isto se chama corrupção.

Tal como a liquidação das companhias de energia, água e das ferrovias, a venda do Royal Mail está sendo obtida com subornos e a colaboração da liderança sindical, pouco importando o seu protesto verbal. Ao abrir a sua série de documentários de 1983, "Questions of Leadership", Ken Loach mostra líderes sindicais exortando as massas. Os mesmos homens são mostrados em seguida, mais velhos e enfeitados, adornados com arminho na Casa dos Lordes. Na recente homenagem pelo Aniversário da Rainha, o secretário-geral da [central sindical] TUC, Brendan Barber, recebeu o seu título de nobreza.

Por quanto tempo os britânicos podem assistir aos levantamentos por todo o mundo e pouco mais fazer do que chorar o defunto Partido Trabalhista? As revelações de Edward Snowden mostram a infraestrutura de uma polícia de estado a emergir na Europa, especialmente na Grã-Bretanha. Contudo, o povo está mais consciente do que nunca; e os governos temem a resistência popular – razão pela qual os que dizem a verdade são isolados, caluniados e perseguidos.

Mudanças grandiosas quase sempre começam com a coragem de pessoas que põem em causa suas próprias vidas contra todas as adversidades. Não há outra saída agora. Acção directa. Desobediência civil. Infalível. Leiam Percy Shelley – "Vocês são muitos; eles são poucos". E tenham êxito. [John Pilger]

John Pilger é jornalista. Sua carreira como repórter começou em 1958, e ao longo dos anos tornou-se famoso pelos livros e documentários que escreveu ou produziu. Apesar das tentativas de setores mais conservadores para ridicularizar e desvalorizar Pilger, o seu jornalismo investigativo já mereceu vários prêmios na área do jornalismo, tais como a atribuição, por duas vezes, do prêmio jornalista inglês do ano, e na área dos dos Direitos Humanos.

22 de julho de 2013

Decolagem da Wall Street: 2012-2013

Por James Petras

[The Official James Petras Website] Em 16 de julho, o Goldman Sachs, quinto maior banco em ativos, anunciou que os lucros do segundo trimestre ultrapassaram os do ano anterior por 1,93 bilhão de dólares. O J. P. Morgan, o maior banco de todos, fez no segundo trimestre 6,1 bilhões de dólares, cerca de 32% mais que no ano anterior, e espera fazer 25 bilhões de lucros em 2013. Wells Fargo, o quarto maior banco, arrebanhou 5,27 mbilhões de dólares, mais 20%. Os lucros do Citigroup atingiram 4,18 bilhões, mais 42% que no ano passado.

A elite dirigente, os Diretores Gerais financeiros, vê os seus vencimentos subirem em flecha. John Stumpf do Wells Fargo recebeu 19,3 milhões em 2012; Jamie Dimon do J. P. Morgan Chase empochou 18,7 milhões e Lloyd Blankfein do Goldman Sachs ficou com 13,3 milhões.

Os resgates da Wall Street por Bush e Obama tiveram como resultado o agravamento da financeirização da economia americana. A finança substituiu a indústria tecnológica como setor lucrativo da economia dos EUA. Enquanto a economia dos EUA estagna e a União Europeia se debate com a recessão e com mais de 50 milhões de desempregados, as grandes empresas financeiras americanas do índice 500 da Standard & Poor ganhavam lucros consolidados de 49 mil milhões no segundo trimestre de 2013, ao passo que o setor técnico anunciava 41,5 mil milhões. Para 2013, Wall Street projeta ganhar 198,5 mil milhões de dólares em lucros, enquanto as empresas técnicas esperam 183,1 mil milhões. Dentro do setor financeiro, os setores mais «especulativos», isto é, os bancos de investimento e as firmas de corretagem, são dominantes e com crescimento dinâmico de 40% em 2013. Mais de 20% dos lucros das empresas do índice 500 S & P estão concentrados no setor financeiro.

O crash financeiro de 2008-2009 e o resgate de Obama reforçaram o domínio da Wall Street sobre a economia dos EUA. O resultado é que o setor financeiro parasitário extrai rendas e lucros colossais da economia e priva as indústrias produtivas de capital e ganhos. A recuperação e boom dos lucros das corporações desde a crise estão concentrados no mesmo setor que provocou o crash alguns anos antes.

A Crise do Trabalho agrava-se – 2013

A nova bolha especulativa de 2012-2013 é um produto da política de juros baixos ou virtualmente nulos dos bancos centrais (nos EUA, a Reserva Federal), que permitem à Wall Street empréstimos baratos e especulação, atividades que inflacionam o preço das ações mas não geram emprego e, além disso, deprimem a indústria e polarizam a economia.

A promoção de lucros financeiros pelo regime de Obama é acompanhada das suas políticas de redução dos padrões de vida para os trabalhadores com vencimento e assalariados. A Casa Branca e o Congresso cortaram a despesa pública na saúde, na educação e nos serviços sociais. Cortaram fundos para o programa de senhas de alimentação (subsídios de alimentação para as famílias pobres), centros de dia, benefícios para desempregados, indexação à inflação da segurança social, Medicare e programas Medicare. Como resultado, o fosso entre os 10% do topo e os 90% abaixo foi alargado. Vencimentos e salários baixaram em termos relativos e absolutos, visto que os empregadores tiram vantagem do elevado desemprego (oficialmente 7,8%), subemprego (15%) e emprego precário.

Em 2013, os lucros capitalistas, especialmente no capital financeiro, crescem rapidamente enquanto a crise do trabalho continua, aprofunda-se e provoca a alienação política. Fora da América do Norte, especialmente na periferia europeia, o desemprego em massa e a degradação do nível de vida tem levado a protestos massivos e repetidas greves gerais.

Na primeira metade de 2013, os trabalhadores gregos organizaram quatro greves gerais de protesto contra o despedimento em massa de trabalhadores do setor público. Em Portugal, duas greves gerais levaram à exigência de demissão do primeiro-ministro e novas eleições. Em Espanha, a corrupção ao mais alto nível, a austeridade fiscal responsável por 25% de desemprego e a repressão levaram à intensificação da luta de rua e à exigência de queda do regime.

O mundo bi-polar de banqueiros ricos no norte colhendo lucros record e por todo o lado trabalhadores recebendo uma parte cada vez menor do rendimento nacional mostra a base de classe da «recuperação» e da «depressão» com a prosperidade para poucos e a miséria para muitos. Pelo final de 2013, os desequilíbrios entre finança e produção antecipam um novo ciclo de boom e queda. É emblemática da morte da «economia produtiva» a declaração de falência de Detroit que, com 79.000 casas, lojas e fábricas vazias, parece Bagdad depois da invasão americana – nada funciona. A cidade devastada pela Wall Street, em tempos berço da indústria automóvel e do salto dos operários industriais organizados para a classe média, tem agora dívidas que totalizam 20 mil milhões de dólares. As três grandes companhias do automóvel deslocalizaram-se para o estrangeiro e para estados fora da união, enquanto os banqueiros bilionários «reestruturam» a economia, quebram os sindicatos, baixam salários, renegam pensões e governam por decreto administrativo.

James Petras, professor da Universidade de Nova Iorque.

Lições esquecidas

Charles P. Blair

Bulletin of the Atomic Scientists

Não é por faltarem exemplos de falsas acusações ao longo das últimas décadas que os EUA deixam de recorrer à tecla das "armas de destruição em massa" e das "armas químicas" quando pretendem justificar mais uma agressão militar direta. Desde a década de 1980 as acusações recaíram sobre a URSS e o Vietnã, sobre o Sudão e o Iraque, entre outros. Recaem agora sobre a Síria e, tal como as anteriores, não têm fundamento científico sério.

No que toca a estados hostis suspeitos de possuírem armas de destruição em massa, exemplos de alegações injustificadas e erradas, por parte dos EUA, não são difíceis de encontrar. Em 1981, por exemplo, os EUA acusaram erradamente a União Soviética e o Vietnã de usarem o chamado “Yellow Rain”, uma micotoxina mortal usada em armamento, derivada de fungos, contra os seus opositores no Laos, Camboja e Afeganistão. Estudos científicos independentes realizados posteriormente demonstraram que o agente em questão eram fezes de abelhas.

Há quinze anos atrás, uma análise química inadequada levou os EUA a lançar um ataque de mísseis de cruzeiro que destruiu a fábrica farmacêutica al-Shifa em Cartum, no Sudão. Devido a um erro de interpretação na análise de amostras do solo, que indicariam a presença de ácido O-etil metilfosfonotióico (frequentemente conhecido pelo seu acrônimo EMPTA), considerou-se, erradamente, que a fábrica estaria produzindo o agente químico VX, que atua sobre o sistema nervoso, para a al Qaeda. Um relatório de 1998 de um investigador do Monterrey Institute of International Studies concluiu, com alguma reserva, que, possivelmente "uma pequena quantidade do percursor químico VX foi produzida ou armazenada em Shifa ou transportada por ali ou perto dali. No entanto, as provas existentes indicam que, provavelmente, aquela estrutura não teve qualquer papel no desenvolvimento [de armas químicas]."

Mais recentemente, como foi conhecido, os governantes dos EUA falharam em seguir padrões estabelecidos para as análises científicas (e divulgaram falsidades evidentes), enquanto levavam as tropas norte-americanas para o Iraque numa missão desastrosa para desarmar Saddam Hussein e o quimérico programa de armas químicas do seu país, as fictícias plataformas móveis de armas biológicas e o seu ilusório potencial de armas nucleares.

A Síria é o primeiro país (mas não será seguramente o último) dotado de armas de destruição em massa a cair em guerra civil. O modo como os EUA (e o mundo) lidarem com este país irá certamente afetar negociações futuras em situações semelhantes. Mas, para devidamente avaliar que armas de destruição em massa tem a Síria, os EUA e os líderes mundiais terão de abandonar a anterior tradição de obscurantismo, técnicas científicas forenses inadequadas e a ocultação de dados contraditórios. Infelizmente, neste momento, os EUA parecem retomar a sua tradição de tomadas de decisão pouco transparentes e questionáveis relativamente às armas de destruição em massa, acusando a utilização de armas químicas, com base em provas insuficientes.

Retraçar a linha vermelha

Em 13 de junho, a administração Obama determinou que a Síria tinha usado armas químicas contra seu próprio povo e cruzou a designada linha vermelha das armas químicas, o que permitiria o apoio militar dos EUA às forças de oposição. Mas essa determinação é impossível de verificar através de fontes abertas e mostra que os EUA, lamentavelmente, arriscam repetir os erros do passado relativamente a armas de destruição massiva.

Ironicamente, desde o início da insurreição síria, em Março de 2011, até muito recentemente, as preocupações informadas sobre o arsenal químico da Síria estiveram, com razão, mais focadas na relação das armas químicas com terroristas e outros actores não-governamentais do que na tendência, por parte do regime de Assad, para a utilização de armas químicas. Como afirmei desde o início de 2012, há grupos terroristas, especialmente islamitas radicais, que têm mais incentivo para realizar grandes ataques com armas químicas do que o regime de Assad. A liderança síria neutraliza eficiente e impiedosamente aqueles que considera inimigos, sem armas químicas, com facilidade. Numa guerra que já matou mais de 90.000 pessoas desde 2011, menos de 100 mortes podem ser potencialmente atribuídas a venenos; incluindo várias mortes de soldados leais ao regime de Assad no ataque a Khan al-Asal, a 19 de Março de 2013. Não obstante tais realidades, desde 20 de Agosto de 2012, o governo dos EUA emitiu oito alertas de linha vermelha para o governo sírio, afirmando que o uso de armas químicas resultaria numa intervenção dos EUA. Embora o texto exacto das advertências variasse, a linha vermelha foi definida por quatro mecanismos globais capazes de desencadear a intervenção:

  • O uso ou a circulação de quantidades consideráveis de produtos químicos e, conforme especificado na ocasião, armas biológicas.
  • O uso de armas químicas "contra o povo sírio".
  • A transferência de armas químicas e biológicas.
  • A transferência de armas químicas para terroristas.

A mais recente dos oito alertas foi expressa em uma carta da Casa Branca enviada para o senador do Michigan, Carl Levin, em 25 de abril de 2013.

Por esta altura, os governos da França, do Reino Unido e de Israel tinham emitido três acusações separadas pelo uso de armas químicas contra o regime de Assad. O comunicado de Abril centrava-se nas acusações e estabeleceu por que razão, no entender da Casa Branca, a linha vermelha não fora ultrapassada.

Em retrospectiva, os pontos mais marcantes da carta descrevem insuficiências científicas e metodológicas que impediram o governo dos EUA de concordar com as reivindicações dos seus aliados de que o regime de Assad tinha utilizado armas químicas contra o povo sírio. O comunicado da Casa Branca afirmou que os serviços de informação dos EUA «avaliaram, com diferentes graus de confiança, que o regime de Assad usou armas químicas em pequena escala na Síria, especificamente o agente químico sarin». Embora seja reconhecido que a avaliação dos serviços de informação foi em parte com base em amostras fisiológicas, a Casa Branca também afirmou que «avaliações com base na recolha de informação por si só não são suficientes; apenas factos credíveis e corroborados, que nos forneçam algum grau de certeza poderão guiar a nossa tomada de decisão…». Consequentemente, a administração Obama pediu uma «investigação abrangente das Nações Unidas, que possa avaliar a credivelmente as evidências e perceber o que aconteceu».

A carta reconhece que factos credíveis eram difíceis de encontrar, em parte, por causa de insuficiências nas provas: «a cadeia de responsabilidades não é clara, por isso não podemos confirmar como a exposição ocorreu e em que condições». Como Matthew Meselson, co-director do Programa de Sussex Harvard sobre armas químicas e biológicas explica: «termos confiança elevada requer que a cadeia de responsabilidades e tratamento de amostras, antes de estas chegarem aos laboratórios participantes seja conhecida com precisão e sem possibilidade de adulteração, contaminação, ou influências que possam interferir com a análise química subsequente».

Contudo, menos de dois meses depois, a 13 de Junho, a Administração Obama anunciou «ter confiança elevada» de que o regime Assad usou armas químicas. Novas provas teriam surgido desde o alerta de 25 de Abril; amostras fisiológicas recentes e interceções não especificadas de informação, supostamente de comunicações sobre armas químicas, entre as autoridades sírias. Mas o tratamento inicial e cadeia de responsabilidade sobre as novas amostras eram desprovidos de protocolo científico credível. Da mesma forma, as interceções de informação são muitas vezes mal interpretadas, por vezes com consequências trágicas.

Repetindo o alerta de 25 de Abril de «que foram usadas armas químicas em pequena escala pelo regime de Assad na Síria», a Casa Branca rompeu com seus critérios anteriores para uma intervenção dos EUA na Síria. O governo simplesmente afirmou que depois de «uma revisão deliberativa», os serviços de informação dos EUA já tinham «muita confiança» de que o governo sírio havia usado armas químicas em pequena escala, várias vezes, e que esta avaliação da informação significava que o regime de Assad havia cruzado linha vermelha. Este pronunciamento levou à pronta expansão da ajuda para incluir suporte directo à oposição síria, sob a bandeira do Comando Militar Supremo. Assim, os EUA prepararam-se para o seu sétimo envolvimento militar num país muçulmano desde 2001.

Ausência de provas

Embora o assunto praticamente não tenha sido explorado pelos média nos EUA, várias questões intrigantes surgem a partir da inversão de posição do governo dos EUA na linha vermelha das armas químicas da Síria. A questão óbvia envolve o tratamento inicial e da cadeia de responsabilidades das amostras fisiológicas utilizadas por cientistas franceses para confirmar a presença de ácido isopropílico metilfosfónico (IMPA), um marcador químico do sarin. Cadeias de responsabilidade anteriores foram destacadas na carta de 25 de Abril da Casa Branca como «não sendo claras, por isso não podemos confirmar ocorreu a exposição e em que condições». Mesmo com as amostras francesas subsequentes, que alegadamente terão validado a existência do IMPA, o tratamento original das amostras e a sua cadeia de responsabilidades continuam por resolver no domínio público. Por outro lado, a carta de Abril observou que «as avaliações baseadas na interceção de informação por si só não são suficientes; apenas factos credíveis e corroborados que nos forneçam algum grau de certeza guiarão a nossa tomada de decisão». No entanto, a declaração da administração Obama de 13 de Junho de que o governo sírio tinha usado armas químicas baseava-se quase inteiramente numa avaliação de informação para a qual poucas novas provas foram apresentadas em público. O mais impressionante foi a alegação de se podia confirmar que «um indivíduo foi exposto ao sarin», embora não haja provas de «como ou onde os indivíduos foram expostos ou quem foi o responsável pela divulgação».

Independentemente da sua necessidade, o crescente envolvimento militar dos EUA na Síria, baseado no anúncio de que o governo sírio teria ultrapassado a linha vermelha das armas químicas, não foi bem justificado perante o público. O uso de quantidades significativas de agentes químicos de guerra nunca foi afirmado pela Casa Branca, embora o seu primeiro aviso e a mensagem implícita no seu último aviso afirmem claramente que o uso significativo é um critério de ultrapassagem da linha vermelha. Nenhuma prova incontestável foi revelada publicamente, apesar da ênfase dos EUA sobre a necessidade de «confirmar factos credíveis e comprovados».

No final de abril de 2013, o regime sírio e, possivelmente, as forças de oposição tinham-se, sem dúvida, envolvido num número limitado de ataques químicos em pequena escala desde o primeiro aviso linha vermelha, em Fevereiro de 2012. O total de mortes relacionadas com armas químicas durante esse período de tempo de 14 meses poderá ter chegado a 100, com a possível inclusão de 16 soldados sírios leais ao regime. No entanto, as evidências disponíveis publicamente, incluindo a carta de 25 de Abril da Casa Branca e os sete alertas norte-americanas anteriores, sugerem que o regime de Assad não se compromete a um uso generalizado. De acordo com um desertor, «A intenção era neutralizar rebeldes e forçá-los a sair de áreas estratégicas, mantendo entre as suas fileiras um limitado número de baixas».

Ainda assim, as provas não são claras. A cadeia de responsabilidades das amostras de solo, sangue, urina e cabelo, que supostamente confirmaria a utilização de armas químicas permanece vaga. E, sem saber ao certo de onde vieram as amostras e quem as controlava, as amostras não são, do ponto de vista científico ou legal, provas de nada. Como o antigo inspetor de armas da ONU David Kay adverte, «seria idiota não abordar isto com um pouco de cautela». Julian Perry Robinson, reconhecida autoridade em armas biológicas e químicas, explica: «Por enquanto, os espectadores podem razoavelmente acreditar no relatório apenas se estiverem dispostos a confiar em afirmações sem fundamento ou em provas incompletas, ou a ignorar a história da guerra química. Esta história está cheia de falsas alegações [de posse de armas químicas] e de casos em que pessoas que deveriam ter conhecimento foram iludidas por essas histórias, fosse por ignorância, por engano ou por se iludirem a si mesmas».

Aparentemente, a Casa Branca acredita que o público confiará em provas insuficientes e desrespeito por falhas de informação anteriores que precipitaram resultados desastrosos. A oposição síria tem um claro incentivo para manipular provas, sugerindo que o regime Assad cruzou a linha vermelha. Como observa Robinson, tal manipulação não seria particularmente invulgar, como mostra, para dar apenas um exemplo, o facto de, nos meses anteriores à invasão do Iraque pelos EUA em 2003, quando membros da oposição do Congresso Nacional Iraquiano forneceram aos serviços de informação dos EUA informações falsas, sugerindo que o governo de Hussein tinha programas de armas biológicas e nucleares.

Certamente existem fortes argumentos para o envolvimento militar dos EUA na Síria; a menor das quais não será garantir que qualquer governo sírio subsequente não é composto por islamitas radicais, atualmente as forças da oposição mais eficazes na Síria. O modo como a administração Obama justifica uma componente militar para a sua manipulação do dilema sírio é, no entanto, altamente problemática. Inconsistências e formulação vaga têm enformado os alertas de linha vermelha norte-americanos. A questão central (o que constituiria uma violação do tabu de armas químicas?) permanece sem resposta. Além disso, o governo não tem atendido às lições dos desastres passados com supostas armas de destruição massiva. Não insistiu nos métodos científicos e normas legais necessárias para confirmar o uso de armas químicas e, no processo, abre um precedente perigoso. Com o tempo, outros estados armados com armas de destruição massiva, incluindo, por exemplo, a Coreia do Norte e vários países do Médio Oriente, podem muito bem envolver-se em guerras civis. Se a linha vermelha não for claramente traçada na Síria, como podem os EUA esperar que outros governos e outras insurgências se abstenham de atravessá-la?

Charles P. Blair, professor da Universidade Johns Kopkins, é colunista do Boletim de Cientistas Atômicos.