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26 de março de 2025

Mudança de regime no Ocidente?

Onde, em meio a essa turbulência, o neoliberalismo se posiciona? Em condições de emergência, ele foi forçado a tomar medidas – intervencionistas, estatistas e protecionistas – que são anátemas para sua doutrina, mas sem perder o controle sobre as mentes dos formuladores de políticas, ou dar lugar a qualquer visão alternativa coerente da maneira como uma economia capitalista avançada deve ser administrada.

Perry Anderson


Vol. 47 No. 6 · 3 de abril de 2025

Tradução / Passado um quarto deste século, “mudança de regime” tornou-se uma expressão canônica. Significa a derrubada em todo o mundo — normalmente, mas não apenas, pelos Estados Unidos — de governos que não são do agrado do Ocidente; empregando-se, para esse propósito, força militar, bloqueio econômico, erosão ideológica ou uma combinação de tudo isso. No entanto, originalmente o termo significava algo bem diferente: uma mudança generalizada no próprio Ocidente. Não a transformação súbita de um Estado-nação pela violência externa, mas a instalação gradual de uma nova ordem internacional em tempo de paz. Os pioneiros desta concepção foram os teóricos norte-americanos que desenvolveram a ideia de “regimes internacionais”, vistos como acordos que asseguravam relações econômicas de cooperação entre os principais Estados industriais, que podiam ou não assumir a forma de tratados. Estes, como se afirmava, desenvolveram-se a partir da liderança dos EUA após a Segunda Guerra Mundial, substituída mais tarde pela formação de um quadro consensual de transações mutuamente satisfatórias entre os principais países. O manifesto desta ideia surgiu em Power and interdependence, uma obra em coautoria de dois pilares do establishment da política externa da época, Joseph Nye e Robert Keohane, cuja primeira edição – houve várias, depois – apareceu em 1977. Embora apresentado como um sistema de normas e expectativas que ajudava a assegurar a continuidade entre os diferentes governos em Washington, introduzindo “maior disciplina” na política externa americana, o estudo de Nye e Keohane não deixava dúvidas quanto aos benefícios para os EUA. “Regimes normalmente são do interesse da América porque os Estados Unidos são a principal potência comercial e política do mundo. Se muitos regimes já não existissem, os Estados Unidos certamente buscariam inventá-los, tal como fizeram”1. No início da década de 1980, os livros que seguiam esta linha estavam saindo das impressoras: um simpósio intitulado International regimes, e editado por Stephen Krasner (1983); o tratado do próprio Keohane, After hegemony (1984); e uma série de artigos eruditos.

Na década seguinte, esta doutrina reconfortante passou por uma mutação, com a publicação de um volume intitulado Regime changes: macroeconomic policy and financial regulation in Europe from the 1930s to the 1990s, editado por Douglas Forsyth e Ton Notermans – um norte-americano, o outro holandês. O livro reteve, mas acentuou, a ideia de um regime internacional, especificando a variante que prevaleceu antes da guerra, baseada no padrão-ouro; depois, a ordem forjada em Bretton Woods, que lhe sucedeu após a guerra; e, finalmente, explicitando o desaparecimento deste sucessor na década de 1970.2 O que substituiu o mundo instituído em Bretton Woods foi um conjunto de restrições sistêmicas que afetam todos os governos, independentemente de sua compleição, consistindo em pacotes de macropolítica de regulação monetária e financeira que fixam os parâmetros de possíveis políticas trabalhistas, industriais e sociais. Enquanto a ordem do pós-guerra tinha sido conduzida pelo objetivo de assegurar o pleno emprego, a prioridade em sua sequência foi a estabilidade monetária. O liberalismo econômico clássico chegou ao fim com a Grande Depressão. O keynesianismo do pós-guerra esgotou-se com a estagflação da década de 1970. O novo regime internacional marcou o reinado do neoliberalismo.

Tal era o significado original da fórmula “mudança de regime”, hoje praticamente esquecida, apagada pela onda de intervencionismo militar que confiscou o termo na virada do século. Uma olhada em seu N-grama3 conta essa história. Sem expressão antes de sua chegada, nos anos 1970, a frequência do termo disparou subitamente no final dos anos 1990, multiplicando-se sessenta vezes e tornando-se, como observou John Gillingham, um historiador econômico ligado a seu sentido anterior, “o eufemismo atual para derrubar governos estrangeiros”.

No entanto, a relevância de seu significado original mantém-se. O neoliberalismo não desapareceu. Suas características são agora familiares: desregulamentação dos mercados financeiros e de produtos; privatização de serviços e indústrias; redução da tributação das corporações e do patrimônio; enfraquecimento dos sindicatos, às vezes levando-os à impotência. O objetivo da transformação neoliberal, que começou nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha sob os governos de Carter e Callaghan e atingiu seu auge sob os governos de Thatcher e Reagan, era restaurar as taxas de lucro do capital – que tinham caído praticamente em todos os lugares a partir do final da década de 1960 – e vencer a combinação de estagnação e inflação que se instalou após a queda dessas taxas.

Durante um quarto de século, os remédios do neoliberalismo pareceram funcionar. O crescimento retornou, embora a um ritmo claramente inferior ao do quarto de século que se seguiu à Segunda Guerra Mundial. A inflação foi controlada. As recessões foram curtas e reduzidas. As taxas de lucro recuperaram-se. Economistas e especialistas saudaram o triunfo daquilo que o futuro presidente do Banco Central dos Estados Unidos [Federal Reserve, ou Fed], Ben Bernanke, exaltou como a Grande Moderação. O sucesso do neoliberalismo como sistema internacional não se baseou, contudo, na recuperação do investimento aos níveis do pós-guerra no Ocidente: isso teria exigido um incremento da demanda econômica, impossibilitado pela repressão salarial, que foi central para o sistema. Em vez disso, foi construído com base numa expansão maciça do crédito – isto é, na criação de níveis sem precedentes de dívida privada, empresarial e, eventualmente, pública. Em Buying time, sua obra pioneira de 2014, Wolfgang Streeck descreve isso como reivindicações sobre recursos futuros, que ainda precisam ser produzidos; Marx chamou-lhe, de forma mais direta, “capital fictício”. Eventualmente, tal como previsto por mais de um crítico do sistema, a pirâmide da dívida cedeu, causando o crash de 2008.

A crise que se seguiu representou, como Bernanke confessou, “um risco de vida” para o capitalismo. Em magnitude, foi totalmente comparável ao crash de Wall Street de 1929. No ano seguinte, a produção global e o comércio mundial caíram mais rapidamente do que durante os primeiros doze meses da Grande Depressão. No entanto, o que se seguiu não foi outra grande depressão, mas uma grande recessão – há uma grande diferença. Um ponto de partida para compreender a posição política em que o Ocidente se encontra hoje é olhar para trás, para a sequência de acontecimentos da década de 1930. Quando a Segunda-Feira Negra atingiu o mercado de ações americano, em outubro de 1929, governos conservadores estavam no poder nos Estados Unidos, França e Suécia, enquanto havia governos social-democratas na Grã-Bretanha e na Alemanha. Todos, no entanto, eram mais ou menos indistintamente fiéis às ortodoxias econômicas da época: um compromisso com a moeda sólida – ou seja, o padrão-ouro – e orçamentos equilibrados, políticas que simplesmente aprofundaram e prolongaram a Depressão. Só no outono de 1932 e na primavera de 1933, ou seja, durante três anos ou mais, começaram a ser introduzidos programas não convencionais para combater a situação, primeiro na Suécia, depois na Alemanha e, por fim, na América. Estes países correspondiam a três configurações políticas bem diferentes: a chegada ao poder da social-democracia na Suécia, do fascismo na Alemanha e de um liberalismo atualizado nos Estados Unidos. Por trás de cada um deles, havia heterodoxias pré-existentes, que estavam prontas para serem aplicadas caso os governantes decidissem adotá-las, como fizeram Per Albin Hansson na Suécia, Hitler na Alemanha e Roosevelt nos Estados Unidos. Elas eram: a escola de economia de Estocolmo, descendente de Knut Wicksell a Ernst Wigforss na Suécia, a valorização das obras públicas por Hjalmar Schacht na Alemanha e as inclinações reguladoras neoprogressistas de Raymond Moley, Rexford Tugwell e Adolf Berle – o “grupo de especialistas” original de Franklin Delano Roosevelt – nos Estados Unidos. Nenhum destes foi um sistema totalmente elaborado ou coerente. Schacht, na Alemanha, e Keynes, na Grã-Bretanha, estiveram em contato um com o outro desde a década de 1920, mas o keynesianismo propriamente dito – A teoria geral do emprego, do juro e da moeda só apareceu em 1936 – não foi uma contribuição direta para estas experiências, embora todas envolvessem o reforço do papel do Estado. Estas eram as caixas de ferramenta técnicas, dispersas, da época.

Três anos de desemprego em massa tinham gerado forças ideológicas poderosas em cada país: um reformismo social-democrata muito mais ousado na noção de Folkhemmet, a Casa do Povo, na Suécia; o nazismo, autodescrito como die Bewegung, o Movimento, na Alemanha; e, nos Estados Unidos, o papel dinâmico dos comunistas nos sindicatos e entre os intelectuais, forçando reformas trabalhistas e da seguridade social num governo democrata que, por sua própria vontade, dificilmente as teria promulgado. Por último, como pano de fundo destes três desenvolvimentos no mundo capitalista, surgia o sucesso sem precedentes alcançado pela União Soviética ao evitar completamente a recessão, com pleno emprego e taxas de crescimento aceleradas, tornando atrativa a ideia de planejamento econômico em todo o mundo capitalista. No entanto, seria necessário um choque muito maior e mais profundo do que o crash de Wall Street para pôr fim à depressão global produzida, e institucionalizar a ruptura com as ortodoxias do liberalismo econômico clássico. Foi o abismo da Segunda Guerra Mundial que fez isso. Quando a paz foi restabelecida, ninguém podia duvidar de que um sistema internacional diferente havia sido estabelecido. Ele cominava o padrão-ouro, políticas monetárias e fiscais contracíclicas, níveis elevados e estáveis de emprego e sistemas oficiais de proteção social. Nem se questionava o papel que as ideias de Keynes haviam desempenhado em sua consolidação. Depois de 25 anos de sucesso, foi a eventual degeneração deste regime em estagflação que desencadeou o neoliberalismo.


O cenário era totalmente diferente na sequência do crash de 2008. Nos Estados Unidos, as ambulâncias políticas entraram imediatamente em ação. Sob Obama, os bancos e companhias de seguros praticantes de fraudes e as empresas de automóveis falidas foram resgatados com enormes injeções de fundos públicos nunca disponíveis para cuidados de saúde decentes, escolas, pensões, ferrovias, rodovias, aeroportos, e muito menos para apoiar a renda dos mais desfavorecidos. Promoveu-se um estímulo fiscal maciço, com a disciplina orçamentária sendo ignorada. Para sustentar o mercado de ações, sob o eufemismo bem educado de Quantitative Easing, a o banco central liberou dinheiro em escala gigantesca. Sorrateiramente, e desafiando seu mandato, o Fed socorreu não só os bancos norte-americanos em dificuldades, mas também os bancos europeus, em transações ocultas ao Congresso e ao escrutínio público, enquanto o Tesouro assegurava – em estreita ligação nos bastidores com o Banco Popular da China – que não haveria qualquer hesitação chinesa na compra de bônus do Tesouro (T-bonds). Em suma, uma vez que as instituições centrais do capital estavam em risco, todos os preceitos da economia neoliberal foram lançados aos ventos, com mega-doses de remédios keynesianos, muito além da imaginação do próprio Keynes. Na Grã-Bretanha, onde a crise rapidamente se refletiu nos países da Europa, estes chegaram ao ponto de nacionalizar temporariamente aquilo a que o dom norte-americano para o eufemismo burocrático chamou de “ativos problemáticos”.

Tudo isto significou um repúdio do neoliberalismo e uma guinada para um novo regime internacional de acumulação? De modo algum. O princípio central da ideologia neoliberal, cunhado por Margaret Thatcher, sempre residiu no atraente acrônimo com sonoridade feminina TINA: There Is No Alternative. Por mais que as medidas para controlar a crise parecessem quebrar tabus, e em boa parte faziam isso, se consideradas a partir dos cânones neoclássicos, elas essencialmente equivaliam ao quadrado, ou ao cubo, da dinâmica subjacente à época neoliberal. Dito com todas as letras, a expansão contínua do crédito acima de qualquer aumento da produção, naquilo a que os franceses chamam uma fuite en avant – uma fuga para a frente. Assim, uma vez que as medidas exigidas pelo risco de vida do sistema o estabilizaram, a lógica do neoliberalismo avançou novamente, país após país.

Na Grã-Bretanha, que foi a primeira no processo, a imposição implacável da “austeridade” reduziu as despesas dos governos locais a níveis mendicantes e cortou as aposentadorias universitárias. Na Espanha e na Itália, a legislação trabalhista foi revista para facilitar a demissão sumária de trabalhadores e aumentar o emprego precário. Nos Estados Unidos, foram mantidas as reduções drásticas dos impostos sobre as empresas e os ricos, enquanto a desregulamentação se acelerou nos setores de energia e serviços financeiros. Na França, historicamente retardatária na corrida ao neoliberalismo, mas agora candidata a um lugar na vanguarda, foi posto em marcha algo como um programa thatcheriano completo: privatização de indústrias públicas, legislação para enfraquecer os sindicatos, benefícios fiscais para as empresas, redução do número de funcionários públicos, cortes nas aposentadorias, redução do acesso às universidades – tudo parecendo encaminhar-se para um confronto social na linha do esmagamento dos mineiros por Margaret Thatcher, um ponto de inflexão nas relações de classe do qual o capital britânico nunca se arrependeu.

Como tudo isto foi possível? Como um choque tão traumático para o sistema como a crise financeira global, e o descrédito em que suas principais agências e receitas milagrosas inevitavelmente caíram, foram seguidos por uma reversão tão completa aos negócios como de costume? Duas condições foram fundamentais para este resultado paradoxal. Em primeiro lugar, ao contrário do que aconteceu na década de 1930, não havia paradigmas teóricos alternativos à espera nos bastidores, para desalojar o domínio da doutrina neoliberal e substituí-la. O keynesianismo, que depois de 1945 se tornou o denominador comum do que tinha sido peneirado pela máquina debulhadora da guerra a partir das três tendências em disputa na década de 1930, nunca se recuperou de sua derrocada nos conflitos de classe da década de 1970. A matematização anestesiou durante muito tempo boa parte da disciplina econômica contra qualquer tipo de pensamento original, deixando anomalias como a Escola da Regulação na França, ou a Escola da Estrutura Social de Acumulação nos EUA, completamente marginalizadas. Os teoremas neoliberais das “expectativas racionais” ou da “compensação de mercado” podiam agora parecer disparatados, mas não havia muita coisa para substituí-los.

Por trás dessa ausência intelectual – e esta foi a segunda condição para a aparente imunidade do neoliberalismo diante da desgraça – estava o desaparecimento de qualquer movimento político significativo que apelasse vigorosamente quer à abolição, quer à transformação radical do capitalismo. Na virada do século, o socialismo, nas suas duas variantes históricas, revolucionária e reformista, tinha sido varrido do palco na zona atlântica. A variante revolucionária: ao que parece, com o colapso do comunismo na URSS e a desintegração da própria União Soviética. A variante reformista: ao que parece, com a extinção de qualquer vestígio de resistência aos imperativos do capital nos partidos social-democratas do Ocidente, que agora se limitavam a competir com os partidos conservadores, democratas-cristãos ou liberais, em sua implementação. A Internacional Comunista foi encerrada logo em 1943. Sessenta anos depois, a chamada Internacional Socialista contava em suas fileiras com o partido governante da brutal ditadura militar de Mubarak no Egito.

Nada disto significa, ou poderia significar, que depois de reinar durante um quarto de século e cair de joelhos, de repente, o sistema neoliberal tinha ficado sem oposição. Depois de 2008, suas consequências sociais e políticas acumuladas começaram a fazer-se sentir. Consequências sociais: uma escalada acentuada e, em alguns casos (sobretudo nos Estados Unidos e no Reino Unido), assombrosa da desigualdade; estagnação salarial a longo prazo; um precariado em expansão. Consequências políticas: corrupção generalizada, crescente permutabilidade dos partidos, erosão de uma escolha eleitoral significativa, declínio da participação dos eleitores – em suma, o apagamento crescente da vontade popular por uma oligarquia endurecida. Este sistema gerou então seu anticorpo, deplorado em todos os órgãos reputados de opinião e em todos os quadrantes políticos respeitáveis como a doença da época: o populismo. As revoltas enquadradas neste rótulo, muito diferentes entre si, têm em comum sua rejeição do regime internacional em vigor no Ocidente desde a década de 1980. Não se opõem ao capitalismo enquanto tal, mas à sua versão socioeconômica atual: o neoliberalismo. Seu inimigo comum é o establishment político que preside à ordem neoliberal, constituído pelo duo alternado de partidos de centro-direita e de centro-esquerda que monopolizaram o governo sob seu domínio. Estes partidos ofereceram muitas vezes, embora nem sempre, duas variantes ligeiramente diferentes de neoliberalismo: uma é disciplinar, e tipicamente mais inovadora em suas iniciativas, como Thatcher e Reagan; a outra é compensatória, oferecendo aos pobres pagamentos secundários que a variante disciplinar retém, como Clinton ou Blair. Ambas as versões, no entanto, têm estado inabalavelmente empenhadas em promover o objetivo comum de fortalecer o capital contra quaisquer choques inconvenientes.

O neoliberalismo, como já afirmei, forma um regime internacional: isto é, não é apenas um sistema replicado dentro de cada Estado-nação, mas um sistema que une e ultrapassa os diferentes Estados-nação das regiões avançadas, e menos avançadas, do mundo capitalista no processo que veio a ser chamado de globalização. Ao contrário das várias agendas nacionais do neoliberalismo, este processo não foi originalmente conduzido pela intenção política dos detentores do poder, mas seguiu a explosiva desregulamentação dos mercados financeiros desencadeada pelo chamado Big Bang de Margaret Thatcher, em 1986. No devido tempo, a globalização tornou-se uma palavra de ordem ideológica dos regimes neoliberais em todo o mundo, uma vez que resultou em duas enormes vantagens para o capital em geral. Do ponto de vista político, a globalização assegurou a expropriação da vontade democrática que o fechamento oligárquico do neoliberalismo estava impondo internamente. Agora, o TINA não significava apenas que a conivência política entre a centro-direita e a centro-esquerda em nível nacional. Ele eliminava em grande medida qualquer escolha eleitoral significativa, mas também significava que os mercados financeiros globais não permitiriam qualquer desvio das políticas oferecidas, sob pena de colapso econômico. Este foi o bônus político da globalização. Não menos importante foi o bônus econômico: o capital podia agora enfraquecer ainda mais o trabalho, não só através da dessindicalização, repressão salarial e precariedade, mas também realocando a produção para países menos desenvolvidos com custos trabalhistas muito mais baixos, ou simplesmente ameaçando fazer isso.

Outro aspecto da globalização teve, no entanto, um efeito mais ambíguo. Os princípios neoliberais estipulam a desregulamentação dos mercados: a livre circulação de todos os fatores de produção, ou seja, a mobilidade transfronteiriça não apenas de bens, serviços e capitais, mas também de força de trabalho. Logicamente, portanto, isso significa imigração. Faz muito tempo que as empresas da maior parte dos países recorrem aos trabalhadores migrantes como exército de reserva de força de trabalho barata, sempre que a oferta é necessária e as circunstâncias o permitem. Mas, para os Estados, as considerações de ordem puramente econômica tinham de ser ponderadas em relação às de ordem mais social e política. Neste ponto, Friedrich von Hayek – a maior mente do neoliberalismo – tinha introduzido significativamente, desde cedo, uma reserva, uma ressalva. A imigração, ele advertia, não podia ser tratada como se fosse uma simples questão de mercado de fatores, pois, se não fosse rigorosamente controlada, poderia ameaçar a coesão cultural do Estado acolhedor e a estabilidade política da própria sociedade. Era aqui que Margaret Thatcher também traçava a linha. Entretanto, é claro que as pressões para a importação ou aceitação de força de trabalho estrangeira barata persistiram, mesmo quando a produção era cada vez mais terceirizada para o estrangeiro, uma vez que muitos serviços de tipo braçal ou degradante, evitados pelos habitantes locais, não podiam, ao contrário das fábricas, ser exportados, pois tinham que ser executados no próprio lugar. Ao contrário de praticamente todos os outros aspectos da ordem neoliberal, nunca se chegou a um consenso estável no establishment sobre esta questão, que permaneceu um elo fraco na cadeia do TINA.


Se olharmos para as revoltas populistas contra o neoliberalismo, elas dividem-se, grosso modo, como todos sabem, em movimentos de direita e de esquerda. Nesse sentido, repetem o padrão das revoltas contra o liberalismo clássico após seu fracasso na Grande Depressão: fascistas à direita, social-democratas ou comunistas à esquerda. O que diferencia as rebeliões atuais é não terem ideologias ou programas articulados de forma comparável – nada que corresponda à consistência teórica ou prática do próprio neoliberalismo. Elas são definidas por aquilo a que se opõem, muito mais do que por aquilo que propõem. Contra o que protestam? O sistema neoliberal de hoje, como o de ontem, incorpora três princípios: escalada dos diferenciais de riqueza e renda; revogação do controle e representação democráticos; e desregulamentação do maior número possível de transações econômicas. Em suma: desigualdade, oligarquia e mobilidade de fatores de produção. Estes são os três alvos centrais contra os quais se voltam insurgências populistas. O ponto em que essas insurreições se dividem é quanto ao peso que atribuem a cada elemento – ou seja, contra que segmento da paleta neoliberal dirigem mais hostilidades. É notório que os movimentos de direita se agarram ao último deles, o fator mobilidade, jogando com as reações xenófobas e racistas em relação aos imigrantes para ganhar um apoio generalizado entre os setores mais vulneráveis da população. Os movimentos de esquerda resistem a este direcionamento, apontando a desigualdade como o principal mal. A hostilidade contra a oligarquia política estabelecida é comum aos populismos de direita e de esquerda.

Historicamente, há uma clara divisão cronológica entre estas diferentes formas do mesmo fenômeno. O populismo contemporâneo surgiu na Europa, que ainda continua sendo o continente com a maior e mais diversificada variedade de movimentos. As forças populistas de direita remontam ao início da década de 1970. Na Escandinávia, assumiram a forma de revoltas ultraliberais [“libertarian”] contra os impostos por meio dos Partidos do Progresso na Dinamarca e na Noruega, fundados em 1972 e 1973, respectivamente. Na França, o Front National foi fundado em 1972, mas só no início da década de 1980 conseguiu uma modesta força eleitoral como partido de direita nacionalista e anti-imigração, com um certo apelo à classe trabalhadora e fortes conotações racistas. No final dessa década, a liderança do Partido da Liberdade na Áustria foi conquistada por Jörg Haider, que adotou uma plataforma semelhante, enquanto, mais ao norte, os Democratas da Suécia surgiram como um grupelho de extrema direita com uma base xenófoba muito semelhante. Na gênese das três formações, havia literalmente elementos neofascistas, que – uma vez alcançada uma presença eleitoral significativa – se desvaneceram gradualmente. A década de 1990 assistiu à eclosão da Liga do Norte na Itália, que, ao contrário, tinha raízes antifascistas; ao aparecimento do Ukip na Grã-Bretanha e à conversão dos partidos dinamarquês e norueguês, outrora “libertarian”, em forças anti-imigração. No início da década seguinte, os Países Baixos criaram seu próprio Partido da Liberdade, que combinava perspectivas “libertárias” e islamofóbicas. Dez anos mais tarde, a Alternative für Deutschland repetiu o modelo holandês na Alemanha. Todos estes partidos de direita insurgiram-se contra a corrupção política e o fechamento de suas instituições nacionais e contra os ditames burocráticos da União Europeia a partir de Bruxelas. Todos, com a única exceção do AfD (fundado em 2013), são anteriores ao crash de 2008.

As forças populistas de esquerda são muito mais recentes, tendo surgido apenas após a crise financeira global de 2008. Na Itália, o Movimento Cinco Estrelas data de 2009. Na Grécia, o Syriza, ainda um pequeno grupo quando o Lehman Brothers entrou em colapso em Nova York, surgiu como uma força eleitoral significativa em 2012. Na Espanha, o Podemos foi criado em 2014. Jean-Luc Mélenchon criou La France Insoumise em 2016. O momento desta onda deixa claro que foram as desigualdades socioeconômicas do neoliberalismo, e não o enfraquecimento das fronteiras étnico-nacionais, que estimularam o surgimento do populismo de esquerda. Esta é uma distinção fundamental entre os dois tipos de revolta contra a ordem atual. Não se trata, porém, de um abismo intransponível, uma vez que não há apenas uma sobreposição geral na repulsa comum ao conluio e à corrupção dos establishments políticos de cada país, mas também, em alguns casos, uma contiguidade na defesa comum de sistemas de bem-estar ameaçados e, em outros, na preocupação com as pressões da imigração. Sob o comando de Marine Le Pen, o Front Nacional esteve consistentemente à esquerda do Partido Socialista francês na maioria das questões de política interna e externa, com exceção da imigração, apresentando críticas ao regime de François Hollande muitas vezes indistinguíveis das de Mélenchon. Por outro lado, o Movimento Cinco Estrelas, na Itália, cujo registro de votação no parlamento foi, em geral, impecavelmente radical, expressou repetidamente seu alarme diante do crescente afluxo de refugiados à Itália. Outro gesto comum a praticamente todos os matizes do populismo na Europa foi a rebelião contra o confisco flagrante da democracia pelas estruturas da União Europeia em Bruxelas.

No entanto, durante sete anos após o crash de 2008, o impacto político das revoltas populistas na Europa foi bastante modesto – nada remotamente comparável às tempestades que varreram a Europa e a América na década de 1930. A Liga do Norte e o AfD ficaram abaixo dos 5% dos votos. O Ukip, os Democratas da Suécia, o Partido da Liberdade holandês, o Partido do Progresso norueguês e a Frente Nacional estavam conquistando entre 10 e 18% do eleitorado. Todos eles são populismos de direita. O Partido da Liberdade, na Áustria, e o Partido Popular Dinamarquês, também de direita, e o Podemos, de esquerda, atingiam pouco mais de um quinto dos cidadãos ativos. Os dois populismos mais bem sucedidos eram criações então recentes da esquerda: na Itália, o Movimento Cinco Estrelas obteve um quarto dos votos e, na Grécia, o Syriza mais de um terço.


O que mudou tudo isto foram quatro outros acontecimentos. Na Grã-Bretanha, o governante Partido Conservador, sob pressão interna e ameaçado de perder eleitores para o Ukip, autorizou um referendo sobre a adesão à União Europeia. Seus líderes imaginaram que se produziria uma vitória fácil para o status quo, dado que três quartos dos membros do Parlamento, a totalidade da alta finança e das grandes empresas, os níveis mais altos da burocracia sindical e as fileiras da intelligentsia e do establishment cultural do país eram favoráveis a que a adesão continuasse. Para espanto geral, uma clara maioria da população votou pela saída da Europa, com uma participação muito mais elevada do que nas eleições gerais. Decisiva para o resultado foi a revolta das regiões e classes mais abandonadas do país contra o establishment neoliberal bipartidário que estava continuamente no poder desde a década de 1990. Foi a primeira vez que uma rebelião populista se tornou a expressão de uma maioria política num país capitalista e, ao fazê-lo, alterou o curso de sua história. Foi uma revolta orquestrada por forças de direita: Ukip, a ala tradicionalista do Partido Conservador e a maior parte da imprensa sensacionalista. Mas seu êxito se baseou na mobilização de vastas camadas da população que, no passado, tinham sido bastiões da esquerda trabalhista.

Poucos meses depois, Donald Trump triunfou nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, nas quais tinha saudado o Brexit como um ensaio geral. Sua campanha, obviamente distinta de seu governo, foi de um tom e conteúdo puramente populistas de direita – acordes tocados pela última vez em seu discurso de posse, que combinou denúncias contundentes de involução política, aumento da desigualdade e perda de soberania nacional com hostilidade à imigração. Sua vitória nacional foi, de certa forma, acidental: se os democratas tivessem escolhido praticamente qualquer outro candidato menos impopular do que Hillary Clinton, ele teria provavelmente sido derrotado. Ficando muito aquém de uma maioria absoluta, com menos votos agregados do que Hillary Clinton, a [primeira] vitória de Donald Trump não só não atingiu as mesmas proporções do Brexit, como também dependeu, para seu sucesso, do sequestro de lealdades partidárias reflexas entre aqueles que estavam dispostos a votar em qualquer candidato desde que fosse republicano, independentemente de quão desagradável fosse. No entanto, a vitória de Donald Trump não foi conseguida com base numa única questão de sim/não, como no Brexit, mas numa ampla plataforma político-ideológica, e seu apoio entre os eleitores da classe trabalhadora pode ter sido maior do que o obtido pelo Brexit: cerca de 70% dos que votaram nele não tinham um diploma universitário. Este também não foi o único surto populista nos Estados Unidos nesse ano. Bernie Sanders revelou-se um formidável adversário para a escolha do candidato democrata no campo da esquerda. Se considerarmos os elementos das classes menos privilegiadas que votaram em Donald Trump nas eleições presidenciais e os que votaram em Sanders nas primárias democratas como uma porcentagem proporcional aos que o fizeram por Hillary Clinton em novembro, cerca de um terço dos votantes em 2016 eram suscetíveis a um populismo de direita e um quinto a um populismo de esquerda.

A surpresa seguinte foi o desempenho do Partido Trabalhista britânico nas eleições gerais de 2017, sob a liderança de seu novo líder, Jeremy Corbyn, até então rejeitado quase universalmente como um perdedor de extrema esquerda sem esperanças e politicamente incompetente. Na ocasião, conduzindo uma campanha muito eficaz sob o slogan populista “For the Many, Not the Few” [“Para muitos, não para uns poucos”], ele obteve uma votação maior do que seu partido tinha obtido em qualquer uma das três eleições precedentes, privando os conservadores de sua maioria no Parlamento, numa plataforma mais explicitamente hostil à ordem neoliberal do que a de qualquer partido de peso comparável na Europa. A tradição histórica e a natureza inalterada do trabalhismo britânico, ambos profundamente conservadores, estão longe de ser populistas. Mas um grande afluxo de jovens ao partido depois que Jeremy Corbyn se tornou seu líder – o que fez dele a maior organização política da Europa durante algum tempo – foi como uma injeção súbita e maciça de uma cepa estranha, trazenda a agremiação para o que, em outras condições, teria sido uma direção populista de esquerda. Não muito diferente da transformação do Parti de Gauche, de Mélenchon, parte da tradução socialista, no plenamento populista France Insoumise, de 2016.

Em 2018, o obstáculo mais alto foi ultrapassado na Itália, onde dois partidos explicitamente populistas, o Movimento Cinco Estrelas, à esquerda, e a Liga, à direita, obtiveram, em conjunto, 50% dos votos – um terremoto na Itália e, de longe, o resultado mais alarmante até o momento para o establishment europeu, uma vez que ambos anunciaram que não tinham intenção de submeter o país aos ditames de mais austeridade de Berlim, Paris ou Bruxelas. As eleições italianas marcaram também a primeira vez que, no confronto direto, o populismo de esquerda ultrapassou por larga margem o populismo de direita: 33% para o M5S, 17% para a Liga. Nos demais lugares, foi o contrário. Na França, em 2017, os votos de Le Pen ultrapassaram os de Mélenchon. No Reino Unido, Corbyn foi fortemente derrotado em 2019 pelo demagogo conservador Boris Johnson, encarnação extravagante de um simulacro de populismo de direita.

A razão pela qual o populismo de direita tem gozado de uma vantagem sobre o populismo de esquerda não é difícil de observar. Na ordem neoliberal, desigualdade, oligarquia e mobilidade dos fatores deprodução formam um sistema interligado. Os populismos de direita e de esquerda podem, de formas diferentes, atacar os dois primeiros com um vigor mais ou menos desinibido. Mas só a direita pode atacar o terceiro com uma veemência ainda maior, com a xenofobia contra os imigrantes funcionando como seu trunfo. Aí, os populismos de esquerda não podem seguir sem suicídio moral. E também não podem facilmente atenuar o problema da imigração, por duas razões. Não é mero mito que as empresas importem força de trabalho barata do estrangeiro – ou seja, trabalhadores tipicamente desprotegidos por direitos de cidadania – para rebaixar os salários e, em alguns casos, para tirar empregos dos trabalhadores locais, que qualquer esquerda deve procurar defender. Também não é verdade que, numa sociedade neoliberal, os eleitores tenham sido normalmente consultados sobre a chegada ou o volume da força de trabalho estrangeira: isto aconteceu quase sempre às suas costas, tornando-se uma questão política não ex ante mas ex post facto. Há aqui uma diferença transatlântica. A negação da democracia em que se transformou a estrutura da União Europeia incluiu, desde o início, a negação de qualquer fala democrática sobre a composição de sua população. A Constituição dos Estados Unidos, lamentavelmente anacrônica em muitos outros aspectos, não é tão radicalmente não democrática. Historicamente também, é claro, os EUA são uma sociedade de imigrantes, como nenhum país europeu alguma vez foi. Isso significa que há uma tradição de acolhimento seletivo e de solidariedade em relação aos recém-chegados que não se encontra na Europa com a mesma intensidade emocional. Mas em ambos os lados do Atlântico, o populismo de esquerda enfrenta a mesma dificuldade. Os populismos de direita têm uma posição simples sobre a imigração: barrar a porta aos estrangeiros e expulsar os que não deviam estar aqui. A esquerda não pode ter algo a ver com isto. Mas qual é exatamente sua política de imigração: fronteiras abertas, testes de competências, cotas regionais, ou o quê? Em nenhum lugar foi dada uma resposta politicamente coerente, empiricamente detalhada e sincera até o momento. Enquanto isso persistir, é muito provável que o populismo de direita mantenha sua vantagem sobre o populismo de esquerda.

O problema, na verdade, é mais amplo. Nenhum populismo, de direita ou de esquerda, produziu até agora um remédio poderoso para os males que denuncia. Do ponto de vista programático, os opositores contemporâneos do neoliberalismo ainda estão, em sua maioria, assobiando no escuro. Como combater a desigualdade – e não apenas remendá-la – de uma forma séria, sem desencadear imediatamente uma greve do capital? Que medidas podem ser previstas para enfrentar o inimigo, golpe a golpe, nesse terreno disputado, e sair vitorioso? Que tipo de reconstrução, inevitavelmente radical nessa altura, da atual democracia liberal seria necessária para pôr fim às oligarquias que ela gerou? Como desmantelar o Estado profundo, organizado em todos os países ocidentais para a guerra imperial – clandestina ou aberta? Que reconversão da economia imagina-se para combater as mudanças climáticas, sem empobrecer as sociedades já pobres de outros continentes? Que faltem tantas flechas na aljava de uma oposição séria ao status quo não é, evidentemente, culpa apenas dos populismos atuais. Reflete a contração intelectual da esquerda, em seus longos anos de recuo desde a década de 1970, e a esterilidade, nesse período, do que foram outrora vertentes originais de pensamento às margens da corrente predominante. Podem ser citadas propostas paliativas, que variam de país para país: Medicare para todos nos EUA, renda garantida para os cidadãos na Itália, bancos públicos de investimento na Grã-Bretanha, Taxa Tobin na França e coisas do tipo. Mas, em relação a uma alternativa geral e articulada ao status quo, o armário continua vazio. Para imaginar o resultado provável da chegada de um partido ou movimento populista ao poder atualmente, basta olhar, à esquerda, para o destino vira-casaca do Syriza na Grécia. Na oposição, foi um rebelde contra os ditames da UE; no governo, um instrumento submisso da mesma. À direita, tome-se a normalização, da noite para o dia, da primeira presidência de Trump, que cuspira fogo contra a complacência e a desigualdade do establishment no dia em que tomou posse, e nada fez em relação a isso uma vez na Casa Branca. Em termos políticos, o neoliberalismo não tem corrido grande perigo em nenhuma das duas situações.


Neste cenário, o vírus da Covid atingiu o mundo como um raio em 2020, forçando confinamentos em todo o mundo. Donald Trump e Boris Johnson, que estavam em alta um ano antes, foram derrubados por seu impacto. Donald Trump teria sido quase certamente reeleito naquele ano, se seu governo não tivesse sido atingido pela pandemia. Boris Johnson foi destituído por seu próprio partido em 2022. Sob a onda de choque da Covid, o comércio internacional despencou e, em poucos meses, perderam-se quinhentos milhões de postos de trabalho em todo o mundo. Nos Estados Unidos, o mercado de ações caiu e o PIB sofreu a pior queda desde 1946, contraindo 3,5% em 2020. No Reino Unido, o PIB caiu 10% e na União Europeia 6%. À medida em que as cadeias de abastecimento mundiais se desgastaram, a inflação começou a aumentar em toda a OCDE e, com ela, o desemprego. Nesta situação de emergência, o último ano do primeiro governo de Donald Trump foi marcado por um enorme estímulo fiscal para evitar uma recessão mais profunda. A partir de 2021, com Joe Biden na Casa Branca, foi posta em marcha uma intervenção ainda maior do Estado para estabilizar a economia norte-americana. A chamada Lei de Redução da Inflação, injetou 750 bilhões de dólares na economia, com um enorme pacote de subsídios estatais para incentivar novos investimentos, sustentar a renda das famílias e alterar o uso de energia. Foi seguida pela Lei de Chips e Ciência de 2022, que despejou mais 280 bilhões de dólares de gastos públicos nas indústrias de semicondutores e associadas, juntamente com uma bateria de medidas protecionistas destinadas a derrotar a concorrência de alta tecnologia da China. Este era um programa orgulhosamente descrito pelos apoiadores do governo Joe Biden como uma versão do século XXI do New Deal de Roosevelt. Suas receitas modernizariam a indústria estadunidense, ajudariam os mais desfavorecidos e equipariam as forças armadas para combater a ameaça representada pela ascensão da China. Muitos saudaram suas amplas intervenções estatistas e acolheram a adoção de políticas industriais ativas como uma ruptura com o neoliberalismo comparável e tão decisiva como a ruptura de Roosevelt com as doutrinas paleoliberais na década de 1930. Outros aplaudiram o renascimento, levado a cabo por Joe Biden, da política da Guerra Fria de construir alianças contra inimigos mortais no exterior, seja em torno do Mar Negro, no Oriente Médio ou no Extremo Oriente, no melhor espírito de Truman nas décadas de 1940 e 1950.

A opinião dominante, não só nos Estados Unidos, mas também, e muitas vezes ainda mais ardentemente, na Europa, saudou os resultados desta mudança como pouco menos do que um milagre. O periódico de massas mais influente e inteligente do mundo capitalista, funcionando por vezes como conselheiro semi-oficial para este, a revista The Economist, de Londres, pôde celebrar a norte-economia americana numa reportagem especial, em outubro passado, como “o objeto de inveja do mundo”, cujo dinamismo pós-pandemia “deixou os outros países ricos na poeira”. Os comentadores nos próprios EUA enalteceram a capacidade de Joe Biden de suprimir a inflação, as medidas de atenção à saúde de seu governo em relação aos menos favorecidos, suas políticas interétnicas progressistas de “diversidade, equidade e inclusão”. Tanto na Europa como nos EUA, houve aplausos para sua firmeza em estar lado a lado com Israel em Gaza e com a Ucrânia. Porém, os eleitores norte-americanos ficaram menos impressionados. No verão do ano passado, Joe Biden estava tão desacreditado que seu próprio partido forçou-o a desistir de sua candidatura à reeleição, da mesma forma que os conservadores expulsaram Boris Johnson na Grã-Bretanha, deixando Kamala Harris, sua desafortunada vice-presidente, a ser derrotada em novembro por Donald Trump, que obteve uma vitória mais ampla do que em 2016.

O que a segunda presidência de Donald Trump significará para os Estados Unidos e para o mundo permanece indeterminado, dado o fosso de longa data entre suas palavras e seus atos. No âmbito interno, é possível que, desta vez, não cumpra suas promessas eleitorais de impor tarifas aduaneiras de 60% sobre todos os produtos provenientes da China e deportar todos os onze milhões de imigrantes ilegais nos Estados Unidos, tal como não cumpriu suas promessas da última vez de reconstruir a infraestrutura norte-americana em ruínas e de construir um muro intransponível ao longo de toda a fronteira mexicana. No entanto, dado o controle republicano de ambas as câmaras do Congresso durante, pelo menos, dois anos, é mais provável que ele cumpra algumas de suas promessas do que descarte todas elas, e que, em matéria de comércio, obrigue tanto os aliados como os adversários a pagar mais tributos monetários aos Estados Unidos do que no passado. No exterior, pode parar a guerra na Ucrânia, cortando toda a ajuda a Kiev; ou pode agravar o conflito, se a Rússia recusar as condições em que ele espera pôr fim aos combates. Ele acredita na vantagem de ser imprevisível e, certamente, a União Europeia, a Grã-Bretanha e o Japão, mesmo que não gostem do que faz, são demasiado fracos como parceiros subordinados para desviá-lo disso.

O governo da Alemanha – a potência mais forte da Europa – entrou em colapso no dia seguinte à eleição de Donald Trump, quando Olaf Scholz demitiu seu ministro das finanças e perdeu o terceiro partido de que dependia sua coalizão. Nunca antes um acontecimento deste gênero tinha ocorrido na República Federal. As novas eleições duplicaram os votos do AfD para um quinto do eleitorado, dando origem a outra coalizão do establishment que se apressa para aprovar um aumento das despesas com defesa num Bundestag – algo que os eleitores acabaram de rejeitar, em mais uma demonstração de como as elites europeias se preocupam pouco com a democracia que proclamam com ardor. Na França, o governo nomeado por Emmanuel Macron após sua derrota nas urnas, no verão passado, colapsou em dois meses, derrubado por uma combinação de oposição de direita e de esquerda na Assembleia Nacional, numa revolta que o país só conhecera uma vez, há mais de sessenta anos. Poucos acreditam que seu precário sucessor, apoiado numa relutante cooptação do Partido Socialista, durará muito tempo. Em suma, a versão do populismo de direita de Donald Trump, abominada por metade do país como uma ameaça mortal à democracia, tomou o poder em Washington num momento de desordem institucional em Berlim e Paris, e com um governo em Londres que é agora ainda menos popular do que a oposição desacreditada que derrotou há pouco tempo. Por todo o lado, o cenário é de instabilidade, insegurança, imprevisibilidade. “Tudo é desordem sob os céus” e há poucos sinais de um retorno à ordem, tal como a entendem os que estão habituados a governar o Ocidente.

Qual é a posição do neoliberalismo em meio a este turbilhão? Em condições de emergência, o sistema foi forçado a tomar medidas – intervencionistas, estatistas e protecionistas – que são anátemas para sua doutrina, mas sem perder o controle sobre as mentes dos responsáveis políticos, ou dar lugar a qualquer visão alternativa coerente sobre a forma como uma economia capitalista avançada deve ser gerida. Apesar dos desvios dramáticos em relação à pureza das receitas hayekianas ou friedmanianas, pouco mudou nas motivações e contradições subjacentes ao sistema que eles criaram. Enquanto o PIB dos Estados Unidos caiu cerca de 4,3% durante a Grande Recessão após o crash de 2008, e dois terços da população ativa da OCDE sofreram queda das rendas reais, o crescimento global foi retomado – ainda que em níveis muito inferiores aos alcançados na China, enquanto a desigualdade continuou aumentando. Nos Estados Unidos, o fosso entre as despesas das camadas mais ricas e mais pobres da população é o maior jamais registrado. Acima de tudo, entretanto, o que desencadeou a crise de 2008 foi compensado por mais do mesmo. O peso das finanças no PIB norte-americano não diminuiu – antes, aumentou. O déficit do governo triplicou na última década. No mesmo período, a dívida pública dos Estados Unidos aumentou 17 trilhões de dólares, um aumento equivalente ao dos 240 anos anteriores. No conjunto da OCDE, a dívida soberana total, que era de 26 trilhões de dólares em 2008, mais do que duplicou, subindo para 56 trilhões de dólares em 2024. Um regime internacional que há uma década entrou em colapso e quase se afogou no mar de dívida que tinha criado está se encharcando com uma inundação de dívida ainda maior, sem fim à vista.


Estaremos finalmente assistindo ao início de uma mudança de regime no Ocidente, já anunciada várias vezes neste século? Esta é a mensagem do recente bestseller de um eminente historiador americano simpático a Biden, The rise and fall of the neoliberal order: America and the world in the free market era4. Gary Gerstle sugere que sugere que, a partir de diferentes direções, Sanders e Trump desferiram golpes tão eficazes na encarnação do neoliberalismo de Hillary Clinton que o caminho foi aberto por Joe Biden para que o equilíbrio entre ricos e pobres na sociedade norte-americana começasse a ser alterado e os benefícios da política industrial comandada pelo governo se tornassem visíveis para milhões. Reconhecendo que “os vestígios da ordem neoliberal estarão conosco durante anos e talvez décadas”, o autor termina, no entanto, com a firme declaração de que “a própria ordem neoliberal está despedaçada”.

De certa forma, uma acusação ainda mais severa do balanço socioeconômico do período a partir Reagan vem de um antigo admirador do ex-presidente, o banqueiro indiano-americano Ruchir Sharma, ex-estrategista chefe global do Morgan Stanley, em What went wrong with capitalism5. Seu leitmotiv é que “as crises financeiras periódicas – que eclodiram em 2001, 2008 e 2020 – desenrolam-se agora contra o pano de fundo de uma crise permanente e diária de má alocação colossal de capital”, o resultado de enormes injeções de dinheiro fácil injetado nas economias avançadas pelos bancos centrais, para sustentar taxas de crescimento em declínio constante. Estas torrentes de dinheiro distribuídas pelo Estado são a verdade última e primordial deste período. Sharma adverte que, mais cedo ou mais tarde, o sistema será afetado por um choque monumental. Que remédio isso traria? A resposta de Sharma: o retorno a um Estado menor e a um dinheiro mais apertado, a receita clássica de Mises e Hayek – o neoliberalismo completa-se mais uma vez.

Estes vereditos contrastantes não são, em si mesmos, uma novidade. Eric Hobsbawm proclamava “A morte do neoliberalismo” em 1998. Alguns anos mais tarde, Colin Crouch, não menos avesso a este sistema e intitulando seu livro sobre as desventuras dele The strange non-death of neoliberalism, chegou à conclusão oposta, um juízo que reiterou há um ano num texto intitulado Neoliberalism: still to shrug off its mortal coil [“Neoliberalismo: ainda preso a sua mortalha”]. Estas foram as conclusões de um inimigo declarado da ordem neoliberal. Um expoente convicto, Jason Furman – assistente especial de Bill Clinton, presidente do Conselho de Consultores Econômicos de Obama, admirador do modelo de gestão do Walmart – é da mesma opinião. Num artigo de primeira página da Foreign Affairs, intitulado “The post-neoliberal delusion”, Furman responde vigorosamente a pensadores como Gerstle, atribuindo a derrota dos democratas pela Casa Branca à loucura de abandonarem a disciplina econômica ortodoxa com programas de despesas supostamente vastos e incontinentes, que não atingiram seus objetivos. Apresentando os custos e benefícios do mandato de Joe Biden com riqueza de detalhes exagerada, Furman relata: “A inflação, o desemprego, as taxas de juro e a dívida pública eram todos mais elevados em 2024 do que em 2019. De 2019 a 2023, a renda familiar ajustada pela inflação caiu e a taxa de pobreza aumentou”. “Apesar dos esforços para aumentar o crédito tributário infantil e o salário mínimo”, continua ele, “ambos eram consideravelmente mais baixos em termos ajustados pela inflação quando Biden deixou o cargo do que quando entrou. Apesar de toda a ênfase que colocou nos trabalhadores norte-americanos, Biden foi o primeiro presidente democrata em um século que não expandiu permanentemente a rede de proteção social”. Conclusão: “Os dirigentes políticos não devem mais ignorar o essencial em busca de soluções heterodoxas fantasiosas”. O que foi rejeitado como ortodoxia neoliberal estaria vivo e bem, e ofereceria o único caminho a seguir.

Um regime internacional está sendo enterrado, ou está ressuscitando, como Lázaro? O impasse entre os vereditos destes especialistas tem seu correlato no panorama político, em que o conflito entre neoliberalismo e populismo, os adversários que se confrontaram em todo o Ocidente desde o início do século, tornou-se cada vez mais explosivo, como demonstram os acontecimentos das últimas semanas – mesmo que, apesar de todas as suas aparentes concessões ou recuos, o neoliberalismo mantenha a vantagem. O primeiro sobreviveu apenas por ser capaz de reproduzir o que ameaça derrubá-lo, enquanto o segundo cresceu em magnitude sem avançar numa estratégia relevante. O impasse político entre os dois não acabou: quanto tempo durará é uma incógnita.

Isto quer dizer que não se pode esperar qualquer mudança séria no modo de produção existente, até que um conjunto coerente de ideias econômicas e políticas, comparável aos paradigmas keynesianos ou hayekianos de outrora, tenha tomado forma como um caminho alternativo de gerir as sociedades contemporâneas? Não necessariamente. Fora das zonas centrais do capitalismo, pelo menos duas alterações de grande importância ocorreram sem que nenhuma doutrina sistemática as imaginasse ou propusesse antecipadamente. Uma foi a transformação do Brasil com a revolução que levou Getúlio Vargas ao poder em 1930, quando as exportações de café de que sua economia dependia entraram em colapso na crise e a recuperação foi pragmaticamente conseguida através da substituição de importações, sem o impulso de qualquer teoria antecipada. A outra, ainda mais abrangente, foi a transformação, após a morte de Mao, da economia planificada na China, na Era da Reforma presidida por Deng Xiaoping, com a introdução do sistema de responsabilidade das famílias na agricultura e a arrancada, por empresas das vilas e aldeias, rumo à mais espetacular explosão sustentada de crescimento econômico de que há registro na história – o que também foi improvisado e experimental, sem qualquer tipo de teorias pré-existentes. Serão estes casos demasiado exóticos para terem qualquer influência no coração do capitalismo avançado? O que os tornou possíveis foi a magnitude do choque e a profundidade da crise que cada sociedade sofreu: a recessão no Brasil, a Revolução Cultural na China – equivalentes tropical e oriental dos golpes na autoconfiança ocidental durante a Segunda Guerra Mundial. Se se desfizer em algum momento, no Ocidente, a descrença em qualquer alternativa, é provável que um feito comparável seja responsável por isso.

24 de fevereiro de 2025

Idées-forces

Qual peso deve ser dado ao papel das ideias em momentos de mudança radical, em oposição ao dos interesses e forças materiais? Da Reforma ao Iluminismo, ascensão do marxismo e hegemonia do neoliberalismo, lições para uma esquerda que muda o sistema.

Perry Anderson

New Left Review

151 • Jan/Feb 2025

Quão importante é o papel das ideias nas convulsões políticas que marcaram grandes mudanças históricas? Elas são meros epifenômenos mentais de processos materiais e sociais muito mais profundos, ou possuem um poder autônomo decisivo como forças de mobilização política?footnote1 Ao contrário das aparências, as respostas dadas a essa questão não dividem nitidamente a Esquerda da Direita. Muitos conservadores e liberais, é claro, exaltaram o significado transcendente de ideais elevados e valores morais na história, denunciando, como materialistas básicos, radicais que insistem que as contradições econômicas são o motor da mudança histórica. Exemplos modernos famosos de tal idealismo da Direita incluem figuras como Friedrich Meinecke, Benedetto Croce ou Karl Popper. Para tais pensadores, nas palavras de Meinecke: "Ideias, carregadas e transformadas por personalidades vivas, constituem a tela da vida histórica". Mas podemos encontrar outras figuras importantes da Direita que atacam ilusões racionalistas na importância de doutrinas artificiais, sustentando contra elas o significado muito mais duradouro de costumes tradicionais ou instintos biológicos. Friedrich Nietzsche, Lewis Namier, Gary Becker eram todos — de diferentes pontos de vista — teóricos de interesses materiais, com a intenção de desinflar sardonicamente as reivindicações de valores éticos ou políticos. A teoria da escolha racional, hegemônica em amplas áreas da ciência social anglo-saxônica, é o paradigma contemporâneo mais conhecido desse tipo.

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A mesma bifurcação, no entanto, pode ser encontrada na esquerda. Se olharmos para grandes historiadores modernos da esquerda, encontramos completa indiferença ao papel das ideias em Fernand Braudel, contrastado com o apego apaixonado a elas em R. H. Tawney. Entre os próprios marxistas britânicos, ninguém confundiria as posições de Edward Thompson, cuja obra de toda a vida foi uma polêmica contra o que ele via como reducionismo econômico, com as de Eric Hobsbawm, cuja história do século XX não contém nenhuma seção separada dedicada a ideias. Se olharmos para os líderes políticos, a mesma oposição se repete de forma ainda mais incisiva. "O movimento é tudo, o objetivo não é nada", anunciou Bernstein. Poderia haver uma desvalorização mais drástica de princípios ou ideias, em favor de processos puramente factuais? Bernstein acreditava que era leal a Marx quando pronunciou esse ditado. No mesmo período, Lenin declarou — em uma máxima igualmente famosa, de efeito exatamente antitético — como algo que todo marxista deveria saber, que "sem uma teoria revolucionária não pode haver movimento revolucionário". O contraste aqui não era apenas entre o reformista e o revolucionário. Nas fileiras da própria esquerda revolucionária, encontramos a mesma dualidade. Para Luxemburgo, como ela disse, "no princípio era a ação" — não qualquer ideia preconcebida, mas simplesmente a ação espontânea das massas, era o ponto de partida de uma grande mudança histórica. Os anarquistas nunca deixaram de concordar com ela. Para Gramsci, por outro lado, o movimento trabalhista nunca poderia obter vitórias duradouras a menos que alcançasse uma ascendência ideal — o que ele chamou de hegemonia cultural e política — sobre a sociedade como um todo, incluindo seus inimigos. À frente de seus respectivos estados, Stalin confiou a construção do socialismo ao desenvolvimento material das forças produtivas, Mao a uma revolução cultural capaz de transformar mentalidades e costumes.

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Como essa antiga oposição deve ser arbitrada? As ideias vêm em diferentes formas e tamanhos. Aquelas que são relevantes para grandes mudanças históricas têm sido tipicamente ideologias sistemáticas. Göran Therborn ofereceu uma penetrante e elegante taxonomia delas, em um livro cujo próprio título — The Ideology of Power and the Power of Ideology (1980) — nos oferece uma agenda. Ele divide as ideologias em tipos existenciais e históricos, inclusivos e posicionais. Entre elas, aquelas que tiveram o maior alcance, espacial ou temporal, foram caracterizadas por uma característica que talvez tenha sido melhor captada pelo conservador inglês T. S. Eliot, em suas Notes Towards the Definition of Culture (1948). Podemos facilmente substituir sua noção de "cultura" pelo termo "ideologia". A observação-chave de Eliot foi que qualquer sistema de crenças importante constitui uma hierarquia de diferentes níveis de complexidade conceitual, indo de construções intelectuais altamente sofisticadas no topo — acessíveis apenas a uma elite educada — por meio de versões mais amplas e menos refinadas em níveis intermediários, até as simplificações mais cruas e elementares em um nível popular: todas essas, no entanto, unificadas por um único idioma e apoiadas por um conjunto correspondente de práticas simbólicas. Somente um sistema totalizado como esse, ele argumentou, era digno do nome de uma cultura real e capaz de gerar grande arte.

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Eliot estava pensando, é claro, no cristianismo como o principal exemplo de tal sistema, unindo as especulações teológicas mais arcanas com prescrições éticas familiares e superstições populares ingênuas em uma única fé abrangente, sustentada por histórias e imagens sagradas de um estoque comum de fontes escriturais. As religiões mundiais que surgiram na chamada Era Axial certamente oferecem um teste inicial impressionante de qualquer hipótese sobre o papel das ideias em grandes mudanças históricas. Poucos poderiam duvidar do enorme impacto desses sistemas de crenças em vastas áreas do mundo e ao longo de milênios. Nem é fácil identificar suas origens em convulsões materiais ou sociais precedentes em qualquer escala comensurável com sua própria influência transformadora e difusão. No máximo, poderíamos dizer que a unificação do mundo mediterrâneo pelo Império Romano forneceu um cenário institucional favorável para a disseminação de um monoteísmo universalista, como o cristianismo, ou que um nomadismo militarizado em um ambiente desértico sob pressão demográfica provavelmente encontraria, mais cedo ou mais tarde, uma expressão religiosa distinta, como o islamismo. A desproporção entre causas imputáveis ​​e consequências verificáveis ​​parece ser um forte argumento a favor da concessão de poder autônomo notável — até extraordinário — às ideias nas civilizações daquela época.

O impacto político dessas religiões não era, é claro, estritamente comparável. O cristianismo gradualmente converteu um universo imperial existente de dentro, sem nenhuma alteração significativa de sua estrutura social. Mas ao criar na Igreja um complexo institucional paralelo ao estado que sobreviveu ao eventual colapso do império, ele garantiu continuidades culturais e políticas mínimas para o surgimento subsequente do feudalismo. O islamismo, por outro lado, redesenhou todo o mapa político do Mediterrâneo e do Oriente Médio de uma só vez, por meio de uma tomada militar relâmpago. Ainda estamos na Antiguidade, no entanto. Em ambos os casos, os sistemas de crenças que conquistaram a região o fizeram sem o que mais tarde descreveríamos como uma batalha de ideias. Nenhuma luta ideológica sustentada foi travada entre pagãos e cristãos, ou cristãos e muçulmanos, pois os termos da crença naufragaram em Roma ou no Cairo. A conversão ocorreu essencialmente por osmose ou força, sem colisão ideológica articulada.

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Quando nos movemos para a época moderna, as coisas são diferentes. A Reforma Protestante, diferentemente dos ensinamentos de Cristo ou Maomé, foi um sistema doutrinário escrito — ou melhor, um conjunto deles — desde o início, desenvolvido nos textos polêmicos de Lutero, Zwinglio e Calvino, antes de se tornar uma grande força ou poder institucional. Menos distante no tempo, é mais fácil rastrear as condições sociais e materiais próximas de seu surgimento: corrupção do catolicismo renascentista, ascensão do sentimento nacional, acesso diferencial de estados europeus ao Vaticano, chegada da imprensa e assim por diante. O que é impressionante agora é outra coisa: o surgimento da Contrarreforma dentro da Igreja Católica e, com isso, uma batalha ideológica total entre os dois credos, sustentada nos mais altos níveis de debate metafísico e intelectual, bem como todos os meios conhecidos pela propaganda popular — devemos o termo a esta época — desencadeando uma série titânica de rebeliões, guerras e guerras civis por toda a Europa. Aqui, se é que alguma vez, as ideias parecem desencadear e moldar a mudança histórica. De fato, nenhuma revolução subsequente seria desencadeada tão diretamente por questões de crença intelectual quanto as primeiras grandes revoltas na cadeia de criação de estados modernos na Europa: a Revolta dos Países Baixos contra a Espanha no século XVI, e a Grande Rebelião e Revolução Gloriosa na Inglaterra no século XVII. Em todos os três casos, o precipitante imediato da revolução foi uma explosão de paixão teológica: a quebra de imagens sagradas em nome da pureza das escrituras nos Países Baixos, a imposição de um novo livro de orações na Escócia, a ameaça de tolerância católica na Inglaterra.

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Em comparação, as eclosões das Revoluções Americana e Francesa no século XVIII foram muito mais materialmente determinadas. Em nenhum dos casos, qualquer sistema desenvolvido de ideias motivou o ataque inicial à velha ordem — colonial ou real. Em vez disso, nas colônias norte-americanas, o interesse econômico próprio do tipo mais restrito — aversão a impostos cobrados para pagar o custo da proteção contra os índios e os franceses, temperado com conspiracionismo — desencadeou uma rebelião contra a monarquia britânica; enquanto na França, uma crise fiscal desencadeada pelo custo de ajudar os rebeldes americanos forçou a convocação de uma instituição feudal tardia, os Estados Gerais, cujas reformas foram prontamente varridas pela erupção do descontentamento em massa no campo e nas cidades, sob a pressão de uma colheita ruim e altos preços de grãos. Em ambos os casos, o colapso da velha ordem foi um processo não premeditado, no qual predominaram queixas de um tipo material em vez de ideológico. No fundo, no entanto, estava a cultura crítica cumulativa do Iluminismo — um vasto estoque de ideias e discursos potencialmente explosivos — esperando, por assim dizer, para ser ativada em tais condições de emergência. Foi esse arsenal de iconoclastia preexistente que converteu uma desintegração da ordem estabelecida na criação revolucionária de uma nova, e a forja de um imaginário ideológico com o qual ainda vivemos hoje. Os ideais das Revoluções Americana e — acima de tudo — Francesa permaneceram inspirações ativas para a ação política muito depois que as instituições que cada uma delas criou se fossilizaram ou foram esquecidas.

Se o principal legado das religiões do mundo foi a introdução de uma ideia metafísica de universalismo, e a do individualismo da Reforma, a herança ideológica deixada pelas revoluções na Era do Iluminismo estava essencialmente nas noções de soberania popular e direitos civis. Estes ainda eram apenas os meios formais para a livre determinação da forma de uma sociedade. Como deveria ser essa forma — a substância de um bem-estar coletivo? Esta foi a questão que o advento da revolução industrial colocou no século XIX. Três tipos diferentes de respostas foram dadas a ela. Em 1848, os grandes campos de batalha da época haviam sido estabelecidos. Com o Manifesto Comunista, a Europa foi confrontada com a escolha que mais tarde foi colocada em todo o planeta: capitalismo ou socialismo? Pela primeira vez, a humanidade se deparou com princípios claros e radicalmente antitéticos de organização social. Mas havia uma assimetria em sua formulação. O socialismo recebeu uma teorização estendida, variada e autodeclarada, como um movimento político e como um objetivo histórico. O capitalismo, diferentemente de pródromos como a "sociedade comercial" de Smith, raramente ou nunca falou seu próprio nome no século XIX e na maior parte do século XX — o próprio termo foi uma invenção de seus oponentes. Campeões da propriedade privada, defensores do status quo, apelaram para concepções mais parciais ou tradicionais — invocando princípios conservadores ou liberais em vez de propor qualquer ideologia expressamente capitalista. Estes estavam longe de ser um substituto confiável. Não poucos pensadores conservadores — Carlyle ou Maurras — expressaram feroz antipatia ao capitalismo; enquanto vários teóricos liberais — Mill ou Walras — viam com bons olhos as versões mais brandas do socialismo. Se considerarmos o papel das ideias no século XIX, fica claro que o socialismo — acima de tudo em sua versão marxista e, portanto, mais intransigentemente materialista — exibiu capacidade galvanizadora muito maior na ação política do que seu oponente. Não é por acaso que ninguém falou de um movimento capitalista. O poder da ordem estabelecida ainda repousava em um grau muito maior na tradição, costume e força, do que em qualquer conjunto de ideias teóricas. Em meados do século XX, por outro lado, o socialismo como ideia havia alcançado um alcance geográfico mais amplo de adeptos do que qualquer religião mundial já havia alcançado.

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Ainda assim, o universo ideológico não estava esgotado por esses opostos. Havia outra grande força motriz em ação nesta época, diferente em espécie de qualquer uma delas. Já em 1848, o nacionalismo se mostrou um movimento de mobilização ainda mais poderoso do que o socialismo na Europa. Duas peculiaridades o definiram como uma ideia política, muito antes de se espalhar triunfantemente para o resto do mundo. Por um lado, produziu muito poucos pensadores significativos ou originais, com uma rara exceção ocasional como Fichte. Como uma doutrina articulada, era incomparavelmente mais pobre e mais tênue do que seus dois contemporâneos. Por outro lado, apenas por causa de seu relativo vazio conceitual, ele era eminentemente plástico e podia entrar em uma grande variedade de combinações tanto com o capitalismo quanto com o socialismo — produzindo tanto o chauvinismo que alimentou a guerra interimperialista de 1914, quanto o fascismo que desencadeou sua sequência em 1939, de um lado, e os movimentos revolucionários de libertação nacional no Terceiro Mundo, de outro. O triunfo do ideal nacional em todo o mundo demonstrou a falta de qualquer correspondência necessária entre sistema e impacto, a profundidade intelectual e o alcance de uma ideologia e seu poder de mobilização no mundo moderno.

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O início do século XX viu um conjunto de grandes revoluções em estados-chave na periferia do mundo imperialista: em ordem, México, China, Rússia, Turquia. Eles formam um conjunto significativo de contrastes. O papel das ideias na formação do curso e do resultado do processo revolucionário foi maior na Rússia e na China, a mobilização popular mais forte no México e na Rússia, o apelo nacionalista mais poderoso na Turquia. A revolução republicana de 1911 fracassou na China, mas a intensa fermentação intelectual por trás dela continuou, tributários dela finalmente fluindo para a revolução comunista que teve sucesso em 1949. A recuperação kemalista na Turquia envolveu muito poucas ideias, além da salvação nacional, antes de importar uma variedade eclética uma vez que o novo regime foi estabelecido. São as revoluções mexicana e russa — de longe as maiores convulsões deste período — que oferecem o contraste mais marcante. No México, uma convulsão social massiva foi desencadeada e seguiu um curso de uma década sem nenhum grande sistema de ideias iniciando ou emergindo dela. Vista em termos puramente doutrinários, a única ideologia desenvolvida do período não pertencia aos revolucionários, mas ao regime que eles derrubaram — o positivismo científico do falecido Porfiriato. Aqui, se em algum lugar, atos políticos em uma escala titânica foram realizados sem nada mais do que noções elementares de justiça institucional ou social: uma tremenda lição para qualquer visão muito intelectualista de mudança histórica dramática. Somente os mexicanos podem dizer qual preço foi finalmente pago pela facticidade da Revolução, à medida que o estado pri tomou forma a partir de Obregón.

A Revolução Russa seguiu um padrão muito diferente. O czarismo foi derrubado pelo descontentamento espontâneo das massas, provocado pela fome e pelas dificuldades da guerra — um começo muito mais inocente de ideias do que a revolta de Madero no México. Em poucos meses, os bolcheviques chegaram ao poder pela agitação popular em temas não menos elementares do que aqueles que moveram Zapata ou Villa: pão, terra e paz. Uma vez no poder, no entanto, Lenin e seu partido tinham à disposição a ideologia política mais sistemática e abrangente da época. Aqui, a relação entre as causas e o caráter da revolução — a torção entre origens materiais e objetivos ideais — não era diferente daquela que produziu o regime jacobino do Ano Dois na França, mas era muito mais extrema. Tanto os feitos quanto os crimes do estado soviético criado pelos bolcheviques ofuscaram os do estado pri, terminando sete décadas depois em uma morte muito mais apocalíptica — o preço, por sua vez, de um voluntarismo ideológico homérico.

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Os efeitos da Revolução de Outubro, é claro, não se limitaram à Rússia. Perto do fim de sua vida, Marx havia previsto a possibilidade de a Rússia ignorar o desenvolvimento capitalista completo, em uma revolta popular desencadeando uma reação em cadeia revolucionária na Europa. Esta era essencialmente a concepção por trás da estratégia de Lenin: nenhuma crença na possibilidade de construir o socialismo em um estado isolado e atrasado como a Rússia, mas toda a esperança de que o exemplo soviético detonaria revoluções proletárias por toda a Europa, em sociedades onde as condições materiais para uma livre associação dos produtores, em um alto nível de produtividade industrial, existiam. A história tomou o curso oposto: bloqueio de qualquer chance de revolução no Ocidente avançado, disseminação da revolução em sociedades ainda mais atrasadas do Oriente. Com isso, o enorme sucesso político do marxismo parecia ser a melhor refutação de seus pressupostos teóricos. Longe de superestruturas seguindo a determinação de infraestruturas econômicas — sistemas ideais refletindo práticas materiais — a ideologia do marxismo-leninismo, em forma mais ou menos stalinizada, parecia ser capaz de gerar, em cenários sem capitalismo, sociedades além dele. Isso deu origem, dentro do próprio marxismo, à noção popular nos anos 60 e 70, de que as relações de produção realmente tinham primazia sobre as forças de produção, até mesmo definindo-as. Mas os insights de Marx não seriam tão facilmente virados do avesso. No final, as forças de produção tiveram sua vingança, com o colapso da própria URSS, pois a maior produtividade econômica das terras onde a revolução deveria ter ocorrido acabou sobrepujando aquelas onde ela ocorreu.

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Qual era o lugar das ideias do outro lado da luta? O déficit ideológico do capitalismo como uma ordem declarada nunca foi realmente remediado em sua batalha contra o comunismo. O termo em si continuou a pertencer essencialmente ao inimigo, como uma arma contra o sistema, em vez de sua própria autodescrição. Em meados do século, no entanto, o início da Guerra Fria, soletrando uma luta total entre dois blocos antagônicos, exigiu uma preparação ideológica do capital para um nível bastante novo de eficácia e intensidade. O resultado foi a conversão ocidental padrão dos termos do conflito: não capitalismo versus socialismo, mas democracia contra totalitarismo, o Mundo Livre contra o de 1984. Quaisquer que sejam as hipocrisias mais amplas dessa construção — o chamado Mundo Livre incluía, é claro, muitas ditaduras militares e policiais —, ele correspondia a vantagens reais do Oeste do Atlântico Norte sobre o Leste stalinizado. Na competição entre os blocos, a bandeira da democracia foi um trunfo decisivo onde era menos necessária, entre as populações das próprias sociedades capitalistas avançadas, que exigiam pouca persuasão da preferibilidade das condições sob as quais viviam. Teve muito menos efeito, por razões óbvias, no mundo ex-colonial ou semicolonial até recentemente dominado pelas próprias democracias ocidentais. Mas na Europa Oriental e — ainda que em menor extensão — na União Soviética, as imagens orwellianas tiveram mais ressonância, e as transmissões da Rádio Europa Livre ou da Rádio Liberdade, pregando os méritos da democracia americana, certamente contribuíram para a vitória final na Guerra Fria. No entanto, a razão central para o triunfo do capitalismo sobre o comunismo estava mais perto de casa, no magnetismo de níveis muito mais altos de consumo material, que no final atraíram não apenas as massas carentes, mas as elites burocráticas do bloco soviético — os privilegiados tanto quanto, talvez mais do que, os empobrecidos — irresistivelmente para a órbita do Ocidente. Simplificando, a vantagem comparativa do Mundo Livre que decidiu o resultado do conflito estava no domínio das compras em vez do voto.

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O fim da Guerra Fria trouxe uma configuração inteiramente nova. Pela primeira vez na história, o capitalismo se proclamou como tal, em uma ideologia que anunciou a chegada de um ponto final no desenvolvimento social, com a construção de uma ordem ideal baseada em mercados livres, além da qual nenhuma melhoria substancial pode ser imaginada. Essa é a mensagem central do neoliberalismo, o sistema de crenças hegemônico que governou o globo por quase meio século. Suas origens estão na era imediatamente pós-guerra. Naquele ponto, a ordem estabelecida no Ocidente ainda era assombrada pelo choque da Grande Depressão e enfrentava movimentos trabalhistas recém-empoderados decorrentes da Segunda Guerra Mundial. Para afastar o perigo de qualquer retorno ao primeiro e integrar as pressões do segundo, os governos em todos os lugares adotaram políticas econômicas e sociais projetadas para controlar o ciclo de negócios, sustentar o emprego e oferecer alguma segurança material aos menos favorecidos. A gestão da demanda keynesiana e o bem-estar social-democrata eram as marcas registradas da época, juntos garantindo níveis mais altos de intervenção estatal e redistribuição fiscal do que nunca antes visto no mundo capitalista. Revoltando-se contra essa ortodoxia dominante, uma pequena minoria de pensadores radicais denunciou todo esse dirigismo como fatal a longo prazo para o dinamismo econômico e a liberdade política. Friedrich von Hayek foi a mente líder e organizador-chave dessa dissidência neoliberal, reunindo espíritos companheiros de todo o mundo em uma rede de influência semiclandestina, a Mont Pèlerin Society. Por um quarto de século, esse agrupamento permaneceu à margem da opinião respeitável, suas visões desconsideradas ou ridicularizadas.

Com o início da crise estagflacionária do início dos anos 70 e o deslizamento da economia capitalista mundial para a longa recessão das décadas seguintes, no entanto, essa doutrina rigorosa e intransigente se consolidou. Nos anos 80, a direita radical havia tomado o poder nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, e governos em todos os lugares estavam adotando prescrições neoliberais para lidar com a crise: cortando impostos diretos, desregulamentando os mercados financeiro e de trabalho, enfraquecendo sindicatos, privatizando serviços públicos. Um profeta sem honra em suas próprias terras durante os anos 50 e 60, Hayek agora era consagrado por Reagan, Thatcher e outros chefes de estado como o visionário prático da época. O colapso do comunismo soviético no final da década pareceu a justificativa adequada de sua crença de longa data de que o socialismo não passava de uma "conceito fatal".

Mas foi nos anos 90, quando a URSS não existia mais e Reagan e Thatcher já tinham saído de cena, que a ascendência neoliberal atingiu seu apogeu. Por enquanto, sem o campo de força amigo-inimigo da Guerra Fria, e sem nenhuma necessidade de a direita radical estar no poder, foram os governos de centro-esquerda no mundo capitalista avançado que imperturbavelmente perseguiram as políticas neoliberais de seus predecessores, com um abrandamento da retórica e concessão de concessões auxiliares, mas uma deriva política consistente na Europa e na América. O teste de uma verdadeira hegemonia — em oposição a uma mera dominação — é sua capacidade de moldar as ideias e ações, não tanto de seus campeões declarados, mas de seus adversários nominais. Aparentemente, os regimes de Clinton e Blair, de Schröder e D'Alema, para não falar de Cardoso e de la Rúa, chegaram ao poder repudiando as duras doutrinas de acumulação e desigualdade que reinavam nos anos 80. Na prática, eles normalmente os preservavam ou ampliavam.

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Além da transfiguração do centro-esquerda na zona do Atlântico Norte, a hegemonia neoliberal se espalhou no mesmo período para os cantos mais distantes do planeta. Admiradores fervorosos de Hayek ou Friedman podiam ser encontrados em ministérios das finanças em todos os lugares, de La Paz a Pequim, de Auckland a Nova Déli, de Moscou a Pretória, de Helsinque a Kingston. O livro de Daniel Yergin e Joseph Stanislaw, The Commanding Heights (1998), ofereceu um passeio panorâmico pela "grande transformação" da época, uma tão radical e infinitamente mais distante do que aquela que Karl Polanyi descreveu ao escrever sobre o advento do liberalismo clássico na época vitoriana. Ao contrário da narrativa de Polanyi, é claro, o relato de Yergin e Stanislaw sobre a vitória global do neoliberalismo estava cheio de entusiasmo pela mudança libertadora que os mercados livres trazem. Junto com eles, veio o segundo grande desenvolvimento da época: a cruzada pelos direitos humanos liderada pelos Estados Unidos e pela União Europeia. Pois nem todo intervencionismo foi desaprovado pela ordem neoliberal. Embora o tipo econômico — se redistributivo — tenha sido reprovado, o tipo militar foi praticado e aplaudido como nunca antes. Se a Guerra do Golfo, manifestamente travada para proteger os interesses petrolíferos do Ocidente, ainda pertencia a um padrão mais antigo, suas sequelas estabeleceram novos parâmetros. O bloqueio do Iraque, com uma intensificação acentuada dos bombardeios de Clinton e Blair, foi um empreendimento "humanitário" puramente punitivo. O desencadeamento de uma guerra em larga escala nos Bálcãs com um ataque aéreo à Iugoslávia não precisava mais das Nações Unidas, nem mesmo como uma folha de parreira para a ação da OTAN, até depois do evento. Em nome dos direitos humanos, o direito internacional foi unilateralmente redefinido para anular a soberania de qualquer estado menor que incorresse no desagrado de Washington ou Bruxelas.

Se foi a versão de centro-esquerda do neoliberalismo que pôs em movimento essa escalada de prepotência militar, a visão essencial do poder imperial estava lá na própria doutrina original. Hayek, afinal, foi o pioneiro da noção de bombardear países que eram recalcitrantes à vontade anglo-americana, pedindo ataques aéreos relâmpagos ao Irã em 1979 e à Argentina em 1982. A concepção de hegemonia de Gramsci enfatizou o consentimento que ela funcionava para garantir — sua definição como um poder de persuasão ideológica. Mas nunca foi sua intenção subestimar, muito menos esquecer, seu apoio na repressão armada. "Consentimento mais coerção" era a fórmula completa de uma ordem hegemônica, aos seus olhos. O universo neoliberal sobre o qual o hegemon do período ainda preside atendeu amplamente a ambos os requisitos. Hoje, isso está em questão, não tanto pela maneira como a quebra de Wall Street de 2008 e suas consequências tiveram que ser administradas com novos aumentos enormes na dívida geral que a causou, mas porque a ameaça de competição da China forçou um recuo do livre comércio e o recurso a subvenções estatais no Ocidente, em meio a um aumento ainda maior na montanha de dívida total em todo o mundo. No entanto, não resta nenhuma alternativa consistente ao neoliberalismo como um sistema de governo de ideias de alcance planetário.

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As razões para sua força não devem ser encontradas apenas em sua influência econômica. Pois por baixo do neoliberalismo está um conjunto muito mais antigo de ideias e valores que veio a adquirir o termo liberal no século XIX, e a relação entre os dois é uma das questões mais centrais, mas menos discutidas, levantadas pelo domínio do primeiro.footnote2 Em sua essência, o neoliberalismo contemporâneo é essencialmente uma doutrina econômica, enquanto o liberalismo propriamente dito era um conjunto de doutrinas políticas que primeiro tomou forma sistemática como uma perspectiva autodeclarada não na Grã-Bretanha, mas na França, no pensamento de Constant, Guizot e Royer-Collard, antes de gerar teoremas econômicos na obra de Bastiat. Na geração seguinte, Tocqueville seguiria; na Grã-Bretanha, seu amigo e contemporâneo John Stuart Mill, igualmente produtivo em argumentos políticos e econômicos. Os princípios-chave desse liberalismo clássico, juntamente com a proteção da propriedade privada, eram restrições constitucionais contra regras arbitrárias, governo representativo com sufrágio limitado e salvaguarda das liberdades individuais — na fórmula de Constant, a liberdade moderna distinta da antiga, que era baseada na participação ativa dos cidadãos nos assuntos públicos. No final do século, a industrialização havia produzido uma população trabalhadora que exigia integração de alguma forma ao estado para que fosse estabilizada, então o sufrágio foi ampliado e, no decorrer do século seguinte, após uma longa luta por eles, os direitos de voto foram estendidos não apenas aos trabalhadores do sexo masculino, mas também às mulheres, no que eventualmente veio a ser chamado de democracias liberais. A esses sistemas políticos, as massas no Ocidente se apegaram, se na prática mais pelas liberdades civis que garantiam do que pela autodeterminação popular que anunciavam, fornecendo uma base sociológica sólida para a alegação oficial de que este era o Mundo Livre e que qualquer outra coisa era despotismo.

A ideologia neoliberal que varreu o tabuleiro econômico nas últimas duas décadas do século XX, portanto, sobrepôs um sistema de crenças anterior, do qual foi derivada, mas ao qual não poderia ser reduzida, que não era apenas mais antigo nos países avançados do Ocidente, mas em substância mais rico e diverso — permitindo no limite, embora sempre tenham permanecido marginais no panorama do liberalismo como um todo, liberais que rejeitaram não apenas o laissez-faire clássico, mas até mesmo a propriedade privada capitalista em si, como em casos como Russell ou Dewey em diferentes estágios de suas carreiras. O neoliberalismo era um corpo de pensamento inerentemente mais fino, com menos apelo popular, do que o liberalismo em seu sentido clássico. Não diferente do próprio capitalismo, do qual era a expressão e teorização mais radical, era consequentemente um termo que seus expoentes mais hábeis preferiam repudiar, como se fosse uma calúnia inventada por descontentes. Normalmente, nas colunas do Financial Times ou do Economist, "neoliberal" aparecerá apenas entre aspas assustadoras ou será banido completamente. Ainda mais cuidado deve ser tomado para negá-lo ou evitá-lo, dado que os teóricos pioneiros do neoliberalismo poderiam ser embaraçosamente sinceros em sua visão sombria da democracia, o baú do tesouro de valores liberais como entendidos por expoentes de versões anteriores ou menos radicais. Mises, afinal, havia saudado o fascismo como uma salvação do socialismo na Itália; Hayek defendia abertamente a eliminação do sufrágio universal. Para ambos, o Rechtsstaat era um valor maior do que a democracia, o que poderia ser uma ameaça a ele e precisava ser contido se assim fosse: não uma ideia prontamente confessada por periódicos, ou políticos que os ecoam, que dependem de circulações significativas ou números de eleitores.

Por que então, se suas doutrinas são mais tênues e seus pregadores menos, o neoliberalismo se tornou uma ideologia muito mais poderosa e penetrante do que o liberalismo no qual se apoia? A resposta, familiar a qualquer marxista, é que a infraestrutura material de qualquer sociedade desenvolvida é aquilo de que todo o resto depende — sem ela não pode haver burocracia, exército, assembleia, mídia, hospitais ou escolas, prisões, alta ou baixa cultura: tudo requer uma economia funcional para operar. Então, onde não são desejados, constituições ou parlamentos liberais, jornais ou podcasts liberais, artes ou crenças liberais podem ser dispensados, como um sistema econômico funcional não pode. Essa é a condição sine qua non de qualquer ordem política ou cultural. À qual a reivindicação central do neoliberalismo acrescenta que agora existe apenas uma — "Não há alternativa", no ditado irremediável de Thatcher. A aprovação positiva de seus princípios como desejáveis ​​não é necessária: a resignação negativa a eles como inevitáveis ​​o fará. Não por acaso, a primeira implementação radical — e por muito tempo bem-sucedida — de um programa neoliberal por qualquer governo ocorreu sob a ditadura brutal de Pinochet na América Latina. O neoliberalismo poderia se tornar um crescimento quase universal nos antigos Terceiro e Segundo Mundos sem a necessidade do subsolo liberal que o havia nutrido no Primeiro. Meio século depois, continuamos a enfrentar a ideologia política mais bem-sucedida da história mundial.

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Há aqueles que contestariam apaixonadamente tal veredito. Nos países avançados, as objeções alegadas contra ele começaram cedo e correram mais ou menos da seguinte forma. Devemos estar em guarda, argumentam os críticos, contra os perigos de superestimar a influência das doutrinas neoliberais como tais. Certamente, os tempos mudaram desde os anos 1950 ou 60; os mercados ganharam mais poder às custas dos estados, e a classe trabalhadora não era mais a força que já fora. Mas tomando as décadas desde o marco da vitória de Thatcher em 1979 como uma época, pelo menos nos países avançados os gastos públicos permaneceram altos e os sistemas de bem-estar social mais ou menos intactos. Muito menos alterados do que poderia parecer na superfície; foi um erro pensar que as ideias neoliberais fizeram uma diferença significativa para eles: constantes sociológicas mais profundas mantiveram o consenso do pós-guerra no lugar. Mesmo no reino das próprias ideias, muito mais políticos repudiaram do que endossaram o remédio severo do neoliberalismo, cujo raio de atração real era muito estreito. Afinal, Clinton e Blair não deixaram claro que defendiam uma Terceira Via, expressamente equidistante tanto do neoliberalismo quanto do estatismo antiquado? Da mesma forma, o que dizer do firme compromisso de Schröder com uma Neue Mitte — um Novo Centro — ou da declaração de princípios de Jospin em favor de uma economia de mercado, mas não, enfaticamente não, de uma sociedade de mercado? Desde então, temos visto o conservadorismo compassivo do "nenhuma criança deixada para trás" de Bush, a intrepidez da "audácia da esperança" de Obama, a sobriedade do "freio da dívida" de Merkel e do "pacto de responsabilidade" de Hollande, o dinamismo das "três flechas" de Abe, a "redução da inflação" de Biden e o "contrato com a nação" de Macron, ou o mais simples e vazio de todos como uma palavra de ordem para o seu oposto, a "mudança" (plus ça) de Starmer.

Algumas das objeções convencionais têm mais peso do que outras. É perfeitamente verdade, é claro, que as ideias neoliberais não devem ser atribuídas a poderes mágicos de persuasão política por si mesmas. Como todas as principais ideologias, esta também sempre exigiu suplementos afetivos — tipicamente nacionalismo — e práticas materiais — instrumentais ou rituais — para que sua força se mantivesse. Enquanto isso, a base prática da hegemonia neoliberal pode ser encontrada na primazia do consumo privado — de bens e serviços mercantilizados — na vida cotidiana das sociedades capitalistas contemporâneas, atingindo novos níveis de intensidade nas últimas quatro décadas; e na ascensão da especulação como um centro central de atividade econômica nos mercados financeiros mundiais, penetrando nos poros do tecido social com o marketing em massa de fundos mútuos e de pensão — um desenvolvimento do qual estamos testemunhando apenas o começo, à medida que se espalha da América do Norte para a Europa e para o hemisfério sul. Se o gasto público nos estados capitalistas avançados continua alto, ele agora é cada vez mais híbrido e diluído por infusões de capital privado que se estendem a todo tipo de serviço — de hospitais a prisões e arrecadação de impostos — que antes eram considerados domínios invioláveis ​​de autoridade pública ou provisão coletiva. A hegemonia neoliberal não prescreve tanto um cronograma específico de inovações, que pode variar significativamente de uma sociedade para outra, mas determina os limites do que é possível em qualquer uma delas.

Uma boa medida de sua influência geral é a conformidade de todos os governos do Norte, independentemente da cor política nominal, aos imperativos de bloqueio militar, ocupação ou intervenção fora da zona atlântica. Os regimes social-democratas da Escandinávia, por exemplo, que antes tinham uma reputação de certa independência na política externa, atuavam regularmente como chacais galopando ao lado dos maiores predadores ocidentais — a Noruega ajudando a selar o domínio israelense na Palestina, a Finlândia intermediando o bombardeio da Iugoslávia, a Suécia auxiliando as rendições na Guerra ao Terror, todos os quatro se juntando ao bando na Ucrânia. O vazio da retórica da Terceira Via como uma alternativa ostensiva a ela sempre foi a prova mais segura da ascendência duradoura do neoliberalismo.

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Quais são as lições dessa história para a esquerda? Primeiro e mais importante, que as ideias contam no equilíbrio da ação política e no resultado da mudança histórica. Em todos os três grandes casos de impacto ideológico moderno, o padrão foi o mesmo. Iluminismo, marxismo, neoliberalismo: em cada caso, um sistema de ideias foi desenvolvido, com alto grau de sofisticação, em condições de isolamento inicial e tensão com o ambiente político circundante — com pouca ou nenhuma esperança de influência imediata. Foi somente quando uma grande crise objetiva, pela qual não era de forma alguma responsável, estourou, que os recursos intelectuais subjetivos, gradualmente se acumulando nas margens de condições calmas, de repente adquiriram força avassaladora como ideologias mobilizadoras com controle direto sobre o curso dos eventos. Esse era o padrão nas décadas de 1790, 1910 e 1980. Quanto mais radical e intransigente o corpo de ideias, mais abrangente seu efeito, uma vez desencadeado em condições turbulentas. Hoje ainda estamos em uma situação em que uma única ideologia dominante governa a maior parte do mundo. Resistência e dissenso estão longe de morrer, mas continuam a carecer de articulação sistemática e intransigente. Nenhum virá, a experiência sugere, de ajuste fraco ou acomodação eufemística à ordem existente das coisas. O que é necessário em vez disso, e não chegará da noite para o dia, é um espírito inteiramente diferente — uma análise inflexível e, quando necessário, cáustica do mundo como ele é, sem concessão às alegações arrogantes da direita, aos mitos conformistas do centro ou às piedades bien-pensant de muito do que passa pela esquerda. Ideias incapazes de chocar o mundo são incapazes de abalá-lo.

1 Notas originalmente preparadas para uma conferência no México na virada do século, desenvolvidas desde então.
2 Aqui, apenas um título domina o campo — a história reveladora de Alexander Zevin sobre o Economist, da era de Peel e Gladstone aos tempos de Blair e Cameron, Liberalism at Large (2019).

4 de setembro de 2024

Feito pela revolução: A mão direita de Mao

Zhou Enlai tinha eloquência e charme naturais, uma personalidade frequentemente descrita como magnética. Mas o poder na China frequentemente irradiava do que estava escondido, não do que era visto; autoridade do que era escrito, não do que era falado.

Perry Anderson


Vol. 46 No. 17 · 12 September 2024

Zhou Enlai: A Life
por Chen Jian.
Harvard, 817 pp., £29.95, maio, 978 0 674 65958 2

Toda revolução moderna de importância, de 1789 até o presente, produziu uma diáspora. O êxodo da Rússia após o fim de seu antigo regime espalhou mentes de excepcional brilhantismo nas artes, humanidades e ciências sociais pelo Ocidente. Na China, onde a velha ordem tinha uma história milhares de anos mais longa, e a guerra civil precedeu, em vez de seguir, a revolução que a encerrou, o padrão diferiu, por dois motivos. O primeiro foi que, enquanto na Rússia a intelligentsia, um fenômeno relativamente recente que remonta ao século XIX, foi desde o início essencialmente oposicionista ao regime, na China ela foi parte integrante do sistema imperial de governo, recrutada para o serviço estatal por um sistema de exames de longa data. O mandarinato pode fornecer vozes de consciência intermitentes, às vezes solicitadas, em sua maioria inúteis, à ordem oficial, mas nunca se revoltou contra ela. A Revolução Chinesa, além disso, foi feita contra a dominação estrangeira predatória tanto quanto contra a opressão doméstica; e além dos reflexos herdados de obediência, ele poderia apelar ao orgulho nacional na recuperação da independência. A adesão à nova ordem veio mais naturalmente para os letrados.

Por outro lado, embora a República Popular, proclamada em 1949, tivesse alcançado uma soberania nacional decisiva, e em poucos meses ter provado ser capaz de expulsar as forças americanas de metade da Coreia, ela não havia alcançado a unidade territorial completa. Depois de fazer a revolução, os comunistas não tinham pressa em reapropriar Hong Kong da Grã-Bretanha, o que eles poderiam ter feito em um ou dois dias, preferindo deixá-la sob o controle britânico como uma saída econômica valiosa para o mundo em geral, mitigando o isolamento diplomático completo do regime pelo Ocidente. Esse foi um sacrifício voluntário. Involuntária foi a sobrevivência de Taiwan – para onde, após a derrota no continente, o líder nacionalista, Chiang Kai-shek, havia fugido – como uma ala americana após o início da Guerra da Coreia. Cada um desses exclaves permitiu que pensadores chineses já ou eventualmente avessos ao novo regime passassem para o mundo além, na maioria dos casos para os Estados Unidos – onde os vínculos acadêmicos existiam desde os tempos pré-guerra, permitindo que alguns migrassem do continente antes da chegada do comunismo.

O primeiro grupo incluiu Ho Ping-ti, C.T. Hsia, Yu Ying-shih, K.C. Chang, Lin Yu-sheng — respectivamente, o mais distinto historiador social, crítico literário, historiador intelectual, arqueólogo e barômetro político da geração nascida entre 1917 e 1934 — sem falar de sua talvez principal romancista, Eileen Chang. Com exceção de Ho, que veio em 1945, todos eles chegaram à América durante a Guerra Fria. Quando as relações sino-americanas foram restauradas e a China se abriu na década de 1980, o estudo no exterior foi permitido e então promovido por Pequim, tornando-se ao longo do tempo um fenômeno de massa — antes da pandemia, havia mais de 300.000 estudantes nos EUA, em 2023, um milhão no exterior. Desde o início, muitos dos que foram para os Estados Unidos escolheram ficar, o número aumentando naturalmente após a repressão de 1989 à revolta estudantil em casa. O resultado é uma diáspora que se estende pelos estados mais ricos do mundo, da América à Europa, do Japão à Austrália, que não é principalmente o produto de expulsão ou fuga, mas de emigração. Especialmente nos EUA, seus membros ocupam posições em todos os níveis da vida acadêmica, como os russos em períodos anteriores raramente faziam; eles incluem até mesmo escritores de ficção em língua inglesa – Yiyun Li ou Ha Jin – como outrora Nabokov, ainda que mais modestamente. A diáspora continua a crescer, com Hong Kong fornecendo os últimos recém-chegados. O filósofo político mais original da China, Ci Jiwei, agora vive em Oxford.

Nesse cenário, o historiador Chen Jian publicou uma biografia monumental de Zhou Enlai que o torna o estudioso preeminente da diáspora chinesa contemporânea. Hoje, Zhou ocupa uma posição geralmente benigna, embora cada vez mais obscura, na memória pública do Ocidente como um diplomata urbano que se deu bem com Henry Kissinger, e é lembrado principalmente por uma resposta mal compreendida sobre a França (1968 tomado por 1789). Além dessas imagens de estoque, pouco mais é associado a ele. O novo livro de Chen, um retrato abrangente de Zhou que levou vinte anos para ser pesquisado e escrito, mudará isso. Nascido em 1952 em Xangai, Chen tinha quatorze anos quando a Revolução Cultural estourou e foi preso duas vezes brevemente durante ela. Ele tinha vinte e poucos anos quando Zhou morreu. Quando os campi reabriram no final dos anos 1970, ele ingressou nas universidades de Fudan e East China Normal em sua cidade natal. Em meados da década de 1980, ele recebeu uma bolsa de estudos para a América, onde concluiu um doutorado, conseguiu empregos sucessivamente no sistema SUNY, nas universidades de Southern Illinois, Virginia, Cornell, Nova York e NYU-Xangai, com muitas posições de visitante em Hong Kong, Reino Unido e RPC. Quando ele começou sua pesquisa sobre Zhou no novo século, o campo não estava totalmente vazio. Mas a literatura anterior sobre ele, esmagadoramente, embora não exclusivamente em chinês, era em grande parte altamente polarizada, apresentando Zhou como um estadista admiravelmente esclarecido e progressista, que ajudou a restaurar seu país ao seu devido lugar na comunidade internacional, ou como um servo inescrupuloso (alternativamente: culpado) da tirania mais negra, cúmplice de crimes infames.[1] O estudo de Chen substitui essas imagens antitéticas. Em vez de apenas aplaudir ou atacar Zhou, ele se propõe a entendê-lo em um nível que nenhum trabalho anterior abordou.

O tema central do livro é o relacionamento de Zhou com Mao, sob o qual ele serviu como premiê por quase um quarto de século. No início, os contrastes entre os dois trabalharam a favor de Zhou. Quatro anos mais velho, Mao era filho de um camponês pouco alfabetizado, embora relativamente abastado, em Hunan. Zhou, nascido em 1898, veio de uma linhagem nobre outrora proeminente em Zhejiang, a parte mais desenvolvida do país, recebendo uma boa educação quando criança. O tempo escolar no porto do tratado de Tianjin, o estudo malsucedido no Japão, então o batismo político nos protestos de 4 de maio de 1919 levaram a quatro anos passados ​​na Europa. Ele foi admitido na Universidade de Edimburgo, mas recusou-se a assumir seu lugar e, ao se mudar para Londres, rapidamente decidiu que Paris era preferível como base. Na França, ele se tornou comunista e começou a trabalhar para a Terceira Internacional.

Equipado com essa experiência, em 1924 ele retornou a Guangzhou, onde Sun Yat-sen havia estabelecido um regime insurgente em desacordo com os senhores da guerra do norte e centro da China. Lá Zhou quase imediatamente adquiriu um papel como instrutor político e mais tarde diretor do departamento de assuntos políticos na Academia Militar de Whampoa, cujo comandante em 1926 era Chiang Kai-shek. Comunistas e nacionalistas estavam em aliança na época, trabalhando com conselheiros soviéticos para lançar um ataque conjunto contra seus adversários ao norte. A expedição partiu no verão de 1926. Chegando a Xangai em abril do ano seguinte, Zhou organizou trabalhadores comunistas para tomar a cidade. Quando Chiang chegou, ele ordenou um massacre desses trabalhadores, o tiro inicial de uma guerra civil que terminaria com sua fuga para Taiwan vinte anos depois. Escapando do massacre, Zhou foi eleito para a liderança do Partido Comunista Chinês (PCC) e passou à clandestinidade, administrando sua rede clandestina de Wuhan e Xangai. Três meses depois, os nacionalistas encenaram um golpe semelhante em Wuhan, onde Mao, um membro fundador do PCC, estava trabalhando com o partido nacionalista, o Kuomintang (GMD). Ele também se escondeu e escapou, e em outubro chegou ao maciço na fronteira Hunan-Jiangxi, onde criou uma base de guerrilha que se desenvolveria em um soviete, nominalmente responsável ao centro do partido em Xangai. Zhou fez duas viagens a Moscou, cada uma com vários meses de duração, onde conferiu com Stalin e adquiriu fundos e habilidades de codificação para seu trabalho de inteligência na China. Ele permaneceu superior a Mao, com poder de comando sobre ele.

Em 1930, as tensões regionais na área da base do Exército Vermelho, excessivamente determinadas por conflitos faccionais no PCC, à medida que o Comintern mudava sua linha sobre a China, desencadearam expurgos violentos de combatentes e militantes do partido, ordenados ou cobertos por Mao sem o consentimento do centro do partido em Xangai. No final de 1931, Zhou foi enviado a Jiangxi para assumir o comando. Chegando em um momento em que as exigências de Mao o tornavam vulnerável a punições severas, Zhou endossou as críticas a elas, mas não lançou Mao para o deserto. Depois que os exércitos do GMD se aproximaram do soviete em 1934, forçando o Exército Vermelho a evacuar, Zhou manteve sua autoridade no primeiro trecho da Longa Marcha. Quando chegaram a Guizhou, Otto Braun, o emissário alemão designado ao Exército Vermelho pelo Comintern, teria desejado voltar para um refúgio mais a leste, enquanto Mao propôs iludir o inimigo indo mais para o oeste. Zhou, sentindo, como Chen diz, que não se poderia esperar que Mao desse todos os seus dons militares às colunas comunistas assediadas e esgotadas a menos que ele fosse integrado à liderança da marcha, pediu a aceitação do plano de Mao, e ele foi cooptado para o politburo sob Zhou como comandante da marcha. Quando o Exército Vermelho alcançou o que se tornaria sua nova área de base no noroeste da China nove meses depois, a destreza de Mao como estrategista estava clara e os papéis foram invertidos. Zhou se tornou o vice de Mao na comissão militar do partido, que agora era seu centro de poder efetivo. Zhou não resistiu nem se ressentiu da mudança. Por que não? Para Chen, os dois homens não eram feitos do mesmo material. Zhou tinha ideias próprias, mas era mais um homem de ação do que de visão utópica e não tinha a combinação de ambição e vontade de Mao de ser o líder supremo da revolução. Ele sabia que Mao era subjetivo e desconfiado, mas agora havia testemunhado suas habilidades políticas e estava convencido de seu gênio militar.

No verão de 1935, diante do fortalecimento do regime nazista na Alemanha, o Comintern mudou de direção, convocando uma ampla frente antifascista, para incluir não apenas forças sociais-democratas, mas também forças democráticas burguesas. Na China, o exército japonês que havia tomado a Manchúria em 1931 estava invadindo o sul da Grande Muralha. Em vez de enfrentar essa ameaça, Chiang estava determinado a dar prioridade à destruição do PCC, provocando Zhang Xueliang, um senhor da guerra chinês expulso da Manchúria, a sequestrá-lo em 1936, em uma tentativa de forçá-lo a lutar contra o Japão. Em linha com a nova política do Comintern, Zhou foi enviado para argumentar com Chiang, que foi então libertado. De volta a Nanquim, Chiang anunciou devidamente um cessar-fogo na guerra civil, prometendo seu comprometimento com a unidade nacional na luta contra o Japão, e Zhou foi despachado mais uma vez para negociar os termos de outra aliança entre as forças comunistas e nacionalistas. Chiang estava decidido a fundir essas forças sob seu próprio controle político e comando militar; Mao queria preservar a independência do PCC e suas forças armadas para que pudessem executar suas próprias iniciativas contra o Japão. Nenhum dos lados tinha muita confiança no outro. Zhou demonstrou suas habilidades diplomáticas defendendo as posições do partido na capital de guerra de Chongqing, enquanto argumentava que Chiang era, à sua maneira, um nacionalista genuíno e que a ação conjunta com suas tropas era necessária em certas circunstâncias.

Na primavera de 1943, Stalin dissolveu o Comintern como um obstáculo para alcançar uma aliança completa com a Grã-Bretanha e os Estados Unidos — uma "dádiva de Deus" para Mao, libertando-o da vigilância por emissários de Moscou. Zhou foi imediatamente ordenado a voltar para a sede do PCC em Yan'an para discutir como o partido deveria proceder. Lá, ele se viu um alvo das campanhas de Retificação lançadas por Mao para afirmar seu controle absoluto do partido. Acusado tanto por suas reservas sobre Mao em Jiangxi, quanto por suas ilusões sobre Chiang e o GMD, por cinco dias ele teve que se rebaixar com autocrítica abjeta para cada episódio sobre o qual foi atacado, e celebrar extravagantemente a sabedoria de Mao. Para Chen, essa provação deu uma prévia de "quão extraordinariamente abusivo um líder Mao acabaria sendo" e os perigos para o partido e o país de não criar "instituições para verificar e equilibrar tal poder". Em sua opinião, a experiência deve ter sido um choque imenso para Zhou, excedendo em muito qualquer coisa que ele pudesse esperar. ‘Zhou viveria o resto de sua vida na enorme sombra do pensamento e poder de Mao, da qual ele nunca escaparia.’ Salvo de mais desgraça por um telegrama de Georgi Dimitrov, o ex-secretário-geral do Comintern, protestando contra o tratamento de Mao a ele, Zhou manteve suas posições na liderança e passou a desempenhar um papel fundamental na coordenação da vitória do que em 1947 havia se tornado o Exército de Libertação Popular na guerra civil com o GMD.

Embora humilhado por Mao em Yan'an, uma vez que a República Popular foi estabelecida em 1949, e ele se tornou primeiro-ministro e ministro das Relações Exteriores, Zhou não concordou automaticamente com todas as opiniões ou posições adotadas por Mao. Atento às indicações já de uma disposição mais moderada nas negociações de Zhou com o GMD, Chen traça uma série de divergências de Mao. A primeira veio em 1949 sobre o rascunho de Zhou de um "programa comum" para as forças programadas para presidir a "nova democracia" em criação, que serviria no lugar de uma constituição para a RPC até que uma fosse formalmente adotada em 1954. O rascunho de Zhou falava de um governo de coalizão para a nova China e uma república que seria uma federação de múltiplas nacionalidades. Mao excluiu ambas as formulações. A segunda ocorreu no início de 1956, quando Zhou alertou contra "um avanço precipitado" no planejamento econômico, dizendo a Mao que, como primeiro-ministro, ele não poderia aprovar um chamado para investimento acelerado em infraestrutura: não apenas desequilibraria o orçamento, mas a indústria leve e a agricultura estavam mais próximas das necessidades imediatas do povo. A terceira divergência surgiu em 1957, após as revoltas antissoviéticas na Polônia e Hungria, quando Mao brevemente encorajou "cem escolas de pensamento a florescer" na China. Enquanto Mao definiu o objetivo dessa abertura como "uma atmosfera política de vivacidade na qual há centralismo e democracia, disciplina e liberdade, unidade de vontade e tranquilidade pessoal", Zhou - seja intencionalmente ou inadvertidamente - inverteu a ordem de valores, pedindo "democracia e centralismo, liberdade e disciplina, desenvolvimento da individualidade e unidade de vontade". A quarta, e no cálculo tácito de Chen a mais fatídica, chegou em 1959, quando as consequências terríveis do Grande Salto Adiante levaram o Marechal Peng Dehuai, comandante na Guerra da Coreia, a uma — respeitosa — repreensão com Mao, que Zhou a princípio considerou como inquestionável, até que Mao se enfureceu com isso; então, como excomungável. No entanto, durante uma visita de inspeção ao campo na primavera daquele ano, Zhou perguntou se "seis pequenas liberdades" não poderiam ser concedidas às famílias camponesas, na visão de Chen, pressagiando o "sistema de responsabilidade doméstica" usado por Deng Xiaoping e outros para lidar com a Grande Fome. A explicação de Zhou sobre sua proposta, ele sugere, estava repleta de significado. "Trata-se de manter pequenos "eus" em um grande "coletivo", sobre andar com as duas pernas. Deve haver espaço reservado para o "eu". Sem indivíduos, como o "coletivo" pode surgir?"

Quando ele disse isso, Zhou — "extasiado com o Salto como todos nós", como Deng confessou mais tarde — não tinha mais muito poder administrativo e, em comum com o resto da liderança comunista, não havia registrado que a política estava levando à fome naquele inverno. Foi a última vez que Zhou se desviou do curso de Mao para a nação, embora longe de ser a última vez que ele incorreu na suspeita de Mao. Peng Dehuai foi o primeiro dos principais veteranos da revolução a ser vítima dos ataques de paranoia vingativa de Mao, exigindo a cumplicidade de Zhou em seu destino. A Revolução Cultural produziu muitos mais. Proeminentes nos níveis mais altos do partido e do estado estavam Liu Shaoqi, presidente da república; Deng Xiaoping, secretário-geral do PCC; Peng Zhen, prefeito de Pequim; He Long, vice-primeiro-ministro; Luo Ruiqing, chefe do estado-maior conjunto. Todos foram cobertos de calúnias e afastados do cargo, encontrando vários graus de retribuição: morte na prisão, expulsão do partido, redução ao trabalho manual, negação de assistência médica, tentativa de suicídio. Zhou assinou os vereditos de cada um deles e muitos outros. Para Chen, essas foram ações tomadas com extrema relutância e contra a consciência de Zhou, em conformidade com a submissão incondicional a Mao que ele havia feito vinte anos antes. Onde quer que pudesse, argumenta Chen, Zhou agia de maneira oposta, para proteger em vez de derrubar aqueles em risco de destruição pela Revolução Cultural que ele exaltava publicamente. Ao ser libertada da prisão após a morte de Mao, a viúva de Liu Shaoqi se recusou a perdoá-lo. "Ela certamente tinha o direito de fazê-lo", escreve Chen. ‘No entanto, embora este tenha sido um momento sombrio na vida e carreira política de Zhou, há razões para a história perdoar Zhou como um político sitiado e uma pessoa encurralada’ – pois ‘esta foi uma época em que Zhou era muito parecido com um pequeno barco, pego em uma tempestade, que poderia virar a qualquer momento. No entanto, sem Zhou, o grande navio que era a China, transportando centenas de milhões de passageiros, poderia ter afundado.’ Deng, que sofreu menos do que a maioria da elite, tinha a mesma opinião, dizendo a Oriana Fallaci que seu ‘irmão mais velho’ fez ‘muitas coisas que ele não teria desejado fazer. Mas o povo o perdoou porque, se ele não tivesse feito e dito essas coisas, ele próprio não teria sido capaz de sobreviver e desempenhar o papel neutralizador que desempenhou.’

Em 1971, Lin Biao, o sucessor designado de Mao, tornou-se o próximo alvo de sua suspeita. Sua fuga e morte subsequentes na Mongólia, rastreadas por Zhou, deram um duro golpe na aura de Mao e verificaram o ímpeto da Revolução Cultural. Logo depois, Kissinger foi enviado em uma missão secreta a Pequim para se preparar para uma visita oficial do presidente Nixon, que foi recebido por Mao em 1972. Em sua conclusão, um comunicado foi divulgado anunciando uma nova era nas relações sino-americanas. Em mais um ano, Mao decidiu estabilizar seu regime, retirando alguns daqueles que ele havia desonrado. Em março de 1973, Deng tornou-se vice-primeiro-ministro e, no final de 1974, assumiu grande parte da administração, trabalhando em estreita colaboração com Zhou, que lhe deu todo o apoio que pôde, assim como fez com outros veteranos da revolução restaurados a cargos oficiais. O pior parecia ter passado. Um dia, logo após a morte de Lin, no entanto, ao dizer isso a Zhou, os subordinados ficaram surpresos ao vê-lo, um homem de autocontrole de ferro, desabar em lágrimas, soluçando cada vez mais alto. ‘Finalmente, ele se acalmou. Depois de um bom tempo, ele disse: “Você não entende, não é tão simples. Ainda não acabou.” Ele parou e não pronunciou mais nenhuma palavra.’ Os ultras da Revolução Cultural, que o detestavam, não desistiram ou perderam todo o favor de Mao. Eles ainda controlavam a mídia, e uma campanha denunciando Lin e Confúcio logo começou, sugerindo que Zhou era um Confúcio moderno. Até o fim — ele morreu em janeiro de 1976 — ele não estava fora de perigo.


Ao descrever seus últimos anos, Chen dá voz à sua admiração por Zhou como pessoa e político, uma figura dotada não apenas de um charme e inteligência singulares, mas de diligência e resistência excepcionais, boas maneiras e falta de presunção, e quando não forçada publicamente ao seu oposto, gentileza e consideração pelos outros. Que sua reputação por essas qualidades, percebidas como a antítese do ambiente da Revolução Cultural, não se limitava àqueles que o conheciam, mas se tornou generalizada, foi demonstrado pelo luto em massa por sua morte. Espontaneamente, centenas de milhares se despediram quando seu caixão passou por Pequim, e três meses depois grandes multidões expressaram sua tristeza e raiva pela condição do país na Praça da Paz Celestial, se revoltando quando a polícia os atacou — turbulência que levou à segunda queda de Deng, que havia pronunciado o elogio oficial após a morte de Zhou. Descrevendo essas cenas nas páginas iniciais de seu livro, o veredito de Chen é categórico. "Este foi o funeral da era revolucionária da China. Naquele momento, a cortina foi levantada para a era pós-revolucionária.

A biografia de Chen se baseia em uma amplitude de fontes que não é apenas um tributo às suas décadas de pesquisa, mas uma revelação da extensão dos materiais — documentos de arquivos do partido e do estado, memórias pessoais, monografias, entrevistas com participantes ou testemunhas — sobre seu passado recente disponível ou detectável na China durante a Era da Reforma, o que pode surpreender qualquer leitor ocidental dado à ideia de que a RPC era um deserto de amnésia e censura. As referências de notas de rodapé — há três mil delas — são frustrantemente escassas, pois além da tradução única de títulos chineses para o inglês, raramente contêm qualquer comentário descrevendo ou situando as fontes que citam; como Jonathan Spence uma vez apontou, nem todo relato ou reminiscência do período na China é necessariamente confiável. O uso de Chen tem que ser tomado como confiável, o que seu julgamento de outra forma ganha. A formidável bolsa de estudos na qual o livro se baseia produz uma narrativa convincente, livre de qualquer traço de pedantismo, claramente projetada pelo autor e editor para um público geral. Mas, embora eminentemente legível, o mínimo de conhecimento prévio necessário para tornar a narrativa totalmente compreensível é, em grande parte, dado como certo — o que é sensato do ponto de vista da composição fluente, mas potencialmente desconcertante para leitores sem ele.

Intelectualmente, um problema mais sério é que o foco do livro são as ações e tensões da elite interna do PCC, principalmente porque afetaram apenas dois de seus membros, Zhou e Mao. O vasto drama da Revolução Chinesa em si, envolvendo enormes forças sociais, está em grande parte ausente, como se fosse um contexto muito genérico e abstrato para afetar indevidamente o julgamento de indivíduos, por mais proeminentes que sejam, envolvidos nela. Embora uma limitação desse tipo seja normal o suficiente na biografia de grandes atores políticos em qualquer país, aqui o resultado pode ser uma lente muito estreita. Mao e Zhou, como Chen aponta em outro lugar, não foram apenas os criadores da Revolução Chinesa; eles foram feitos por ela. Mas as implicações desse ditado são insuficientemente refletidas neste livro. Zhou foi uma figura importante no Partido Comunista Chinês por cinquenta anos, metade deles gastos lutando para fazer a revolução, metade governando o país. O espaço dedicado por Chen ao segundo é o dobro do dado ao primeiro.[2] Isso é em grande parte uma consequência natural do maior volume de evidências existentes para o período em que o partido desfrutou do poder. Mas se a mesma assimetria se mantém válida para o peso relativo dos anos no caráter e na vida de um revolucionário como Zhou, que fez cinquenta anos antes da República Popular ser declarada, não está tão claro. Algum grau de distorção parece provável.

Com essa qualificação necessária, o retrato de Zhou feito por Chen é persuasivo e comovente. Desenhado com empatia crítica, é difícil criticar seu julgamento declaratório da trajetória geral ou das principais fases de sua carreira. Como acontece com todas as principais obras de história, há mais a ser dito sobre algumas delas do que poderia ser contido em um livro, como o próprio Chen deixou claro, começando com seu relato bastante conciso da guerra civil de 1945-49, resumido de duas maneiras significativas nesta biografia. A primeira é a mudança nos papéis dos quais Zhou provou ser capaz. Até então nunca uma estrela militar, seu forte após a Longa Marcha tinha sido a diplomacia, para a qual ele havia demonstrado um talento excepcional em Chongqing. Ao lutar contra as negociações desalojadas após 1945, ele mostrou sua capacidade organizacional ao máximo, coordenando forças comunistas amplamente separadas em grandes espaços como chefe de gabinete sob Mao: certamente a razão pela qual ele se tornou primeiro-ministro quando a vitória foi conquistada. No entanto, a guerra civil também demonstrou uma das razões pelas quais o PCC triunfou tão decisivamente sobre o GMD: possuía uma gama excepcionalmente rica de talentos militares e políticos que não tinha contrapartida do outro lado. No nível em que contava, a qualidade humana da contrarrevolução, os diversos ajudantes e servos de Chiang, sem falar do próprio generalíssimo irremediavelmente superestimado, era muito menor do que a da revolução, cuja galáxia de quadros – Lin Biao, Peng Dehuai, Liu Shaoqi, Deng Xiaoping, Chen Yun, Li Xiannian, Chen Yi, Bo Yibo, Peng Zhen, Yang Shangkun e outros – mostraram sua coragem na guerra civil, e alguns dos quais viram o país se recuperar na Era da Reforma. Zhou precisa ser visto como um membro desta companhia. Na história de Chen, eles figuram mais como figurantes do que como companheiros de jogo, com exceção de Lin, cujo caráter e queda são tratados com uma delicadeza fria e distanciamento.

Como primeiro-ministro e ministro das Relações Exteriores, Zhou combinou energia administrativa e engenhosidade diplomática com efeito impressionante, e Chen provoca uma série de ocasiões em que suas posições se afastaram significativamente das de Mao, na direção de maior flexibilidade em relação a potenciais aliados e sensibilidade às necessidades populares. Se a evidência textual para tais diferenças parece em alguns casos bastante leve, o padrão que elas formam é claro e coerente o suficiente. Mas como elas chegaram ao fim não recebe o devido peso. Em pontos posteriores, Chen levanta a questão de quando foi que Mao tomou uma direção tão decisivamente errada que depois disso era tarde demais para os líderes ao seu redor resistirem a ele, escolhendo como resposta a primavera de 1966, quando ele preparou a Revolução Cultural para ir a todo vapor. Para outros, foi a loucura do Grande Salto para a Frente que marcou a linha divisória na história do maoísmo. Pode-se argumentar, no entanto, que foi a abrupta revogação das Cem Flores no verão de 1957 que tirou a revolução dos trilhos: quando o PCC extinguiu a livre expressão de opinião para a qual havia convidado o povo chinês e lançou uma Campanha Antidireitista para punir os culpados ou suspeitos de terem criticado o partido, como lhes fora pedido. Cerca de 400.000 indivíduos foram enviados para campos penais ou prisões, onde alguns morreram de fome ou foram executados. Deng estava no comando da campanha, da qual nenhum líder do partido discordou. Chen não fala sobre isso.

Em contraste, quando o Grande Salto Adiante ocorreu um ano depois, sucedido pela Revolução Cultural, houve dissidência dentro do partido, a princípio limitada, mas aberta, depois geral, mas reprimida, por medo das consequências de expressá-la. Chen relata a participação de Zhou em ambos os estágios, e sua descrição e explicação da conduta de Zhou durante a Revolução Cultural, em particular, é mais eloquente e eficaz do que qualquer outra até o momento. Há algo a ser acrescentado? Talvez isso. Zhou certamente agiu como agiu em parte por medo do que aconteceria a ele e aos outros se não o fizesse. Ele estava sob ordens, e poderia haver sanções letais. Mas que ele próprio era perfeitamente capaz de medidas implacáveis, sem compulsão de cima, é claro. Na China, a revolução e a contrarrevolução travaram guerras até a morte por décadas. Depois que o GMD desencadeou o massacre político no PCC em 1927, a vida era barata para ambos os lados. No início dos seus trinta anos, quando Zhou comandava a organização clandestina do partido em Xangai, onde Chiang havia eliminado a maioria dos membros, sua sobrevivência foi ameaçada pela captura e confissões de um agente-chave. Zhou destruiu virtualmente toda a família do homem como um impedimento. Um de seus subordinados na época era Kang Sheng, possivelmente mais tarde treinado pela NKVD na Rússia, que em seu retorno à China se tornou tenente de Mao nas campanhas de Retificação que remodelaram Zhou em seus quarenta anos, quando os dois renovaram o que parece ter sido um relacionamento próximo.

Aos cinquenta anos, Zhou se tornou um dos líderes — Liu Shaoqi foi outro — que levou o hábil planejador econômico Gao Gang ao suicídio com acusações forjadas, não por ordens de Mao, mas para seu desconforto. Quando a Revolução Cultural estourou, Kang ressurgiu como o sinistro inquisidor profissional do Grupo Central de Exame de Casos, no qual Zhou também serviu, subindo ao topo do partido em 1969 como um dos cinco membros do Comitê Permanente do Politburo. Seu papel como uma versão chinesa menor do líder da NKVD Nikolai Yezhov nas repressões da época se tornou tão notório que, após a morte de Mao, ele foi expulso postumamente do partido. No entanto, Chen o descreve como ainda um amigo próximo de Zhou, cujas últimas palavras aos seus médicos, em 1976, acreditando que Kang estava morrendo no mesmo hospital, foram: "Não sobrou nada aqui. Você pode ir cuidar do camarada Kang Sheng. Ele precisa mais de você.’ É aqui que o desequilíbrio entre as duas metades da vida de Zhou nesta biografia mostra que importa. Não que isso cancele algo no relato de Chen sobre seus últimos anos, mas complica.


Em contradição com o papel que Zhou desempenhou na Revolução Cultural, Chen pode apontar legitimamente que ele também fez intervenções que representavam valores morais e políticos em desacordo com ela, e a crença popular generalizada, após a sua morte, de que ele representava valores morais e políticos que eram diametralmente o seu oposto. A evidência em ambas as acusações é incontestável. Também é verdade que ele esboçava noções que seriam críticas para a Era da Reforma muito antes de qualquer outra pessoa em uma posição de liderança no partido o fazer. No entanto, ao sugerir que sem Zhou as centenas de milhões de passageiros no navio chamado China poderiam ter afundado sob as ondas na tempestade da Revolução Cultural, Chen cede a um impulso poético em vez de histórico. Não apenas porque quando Zhou morreu o vendaval não havia passado, mas por uma razão mais simples e decisiva. Um mês após a morte de Mao em setembro de 1976, o quarteto que o dirigia — apelidado por ele de "Gangue dos Quatro" — havia caído, removido com facilidade e sem repercussões. Eram figuras insignificantes, sem qualquer apoio popular ou oficial, próteses descartáveis ​​do presidente, alijadas assim que ele se foi. Realisticamente, havia pouco ou nenhum perigo de um naufrágio geral.

No entanto, Chen pode argumentar — fazendo uma distinção clara entre o que aconteceu, uma questão de evidência para o historiador, e o que poderia ter acontecido, uma questão de conjectura para o cidadão — que se Zhou tivesse vivido mais, um resultado potencialmente mais feliz seria imaginável. Mais jovem que Mao, se tivesse vivido até a mesma idade ou mais, teria ocupado a posição que veio a ser de Deng, conduzindo a China em direção à reforma econômica e à abertura para o mundo, mas com a diferença crucial de promover a reforma política. Agindo com base na convicção, estranha a Deng, de que sem indivíduos não poderia haver coletivo, Zhou teria protegido os direitos civis e a liberdade de expressão de maneiras que o PCC da Era da Reforma, quando os protestos estudantis e populares chegaram, não fez. Nessa visão, a contingência biológica acabou resultando em tragédia política para a China.

Tal contrafactual é plausível? Por mais atraente que pareça, há razões para duvidar. Quão credivelmente Zhou poderia ter levado a Gangue dos Quatro a julgamento? Apesar de todas as suas limitações, a Era da Reforma exigiu uma rejeição clara da Revolução Cultural e uma crítica da tirania pessoal de Mao, que Zhou, que serviu tão visivelmente a ambos, não teria sido bem colocado para fazer, como Deng não foi, embora até ele tenha esperado dois anos. Chen observa que ninguém pode saber exatamente por que Zhou chorou, mas considera algumas das possíveis razões. Entre elas, ele escreve, poderia ter sido o estresse de emoções conflitantes sobre seu sucesso com Kissinger e a tristeza pelo destino de tantos compatriotas, ou a apreensão de que agora, como o segundo em comando de Mao, ele poderia sofrer o destino de Lin Biao. ‘É também provável que Zhou acreditasse que a Revolução Cultural de Mao foi uma catástrofe’, Chen então acrescenta, ‘e entendendo que ele poderia ser visto como um cúmplice de Mao, ele previu a dificuldade que encontraria ao enfrentar o julgamento do povo chinês e da história’, uma reflexão que qualifica o otimismo de sua conjectura sobre o que poderia ter acontecido se Zhou tivesse sobrevivido a Mao. Se ele tivesse vivido para liderar o início da Era da Reforma, ele teria que explicar por que ele alimentou o culto a Mao e compartilhou de suas repressões, uma questão que o veredito oficial do partido de junho de 1981 sobre a Revolução Cultural poderia contornar.

Qual é a explicação de Chen para o histórico de Zhou depois de 1966? Um fator não era específico para ele. A disciplina do partido foi internalizada pelos comunistas de sua geração como uma condição moral de eficácia coletiva, que em Yan'an se tornou submissão à provação da Retificação exigida por Mao. As mesmas compulsões estavam em ação um quarto de século depois. Mas, naquela época, o partido estava no comando de um grande estado, cujas sanções para a dissidência — rusticação, prisão, brutalização, execução — eram mais draconianas, aumentando o quociente de medo às custas da convicção nos mecanismos de conformidade. A Revolução Cultural envolveu todas essas punições, embora raramente a última para altos funcionários do partido, onde a morte era principalmente o resultado de negligência médica e não de uma bala. Não há evidências de que Zhou tivesse muito medo das medidas mais drásticas neste repertório. O risco para ele se caísse em desgraça seria calúnia e desgraça — não apenas desonrado, mas privado da capacidade de proteger aqueles mais próximos a ele. Mao poderia muito bem ter infligido a perda desse poder a ele; mas sabendo que seu próprio prestígio seria prejudicado pela difamação pública de Zhou, como foi pela queda de Lin Biao, seria provável que ele tivesse ido mais longe?

O relacionamento de Zhou com Mao nunca foi redutível a reflexos de lealdade partidária ou medo pessoal. Chen acredita que ele estava sob o feitiço de Mao, mesmo no final tão alarmado quando Mao quase morreu em 1972, nove dias antes de Nixon chegar a Pequim, que ele perdeu o controle corporal. No início, Chen observa que Mao possuía duas qualidades que Zhou não tinha: idealismo utópico e carisma. Hoje, o carisma é tipicamente associado a uma habilidade pública de cativar grandes audiências, verbalmente ou visualmente. Embora ele pudesse ser memoravelmente conciso e envolvente em conversas privadas, a voz aguda de Mao não o tornava um bom discurso de plataforma. Zhou tinha eloquência e charme naturais, uma personalidade frequentemente descrita como magnética. Mas o poder na China frequentemente irradiava do que estava escondido, não do que era visto; autoridade do que era escrito, não do que era falado. O domínio que Mao adquiriu sobre seu partido derivava menos do carisma pessoal, como comumente entendido, do que de uma qualidade mais incomum. O segredo de sua influência, para Chen, estava em seu comando de uma "narrativa mestre" que nenhuma outra figura no PCC poderia rivalizar. O que era isso? Um discurso de "revolução contínua" que fundia os objetivos utópicos do comunismo com a recuperação patriótica da posição tradicional da China como o Reino Central — não, Chen enfatiza, Médio — de seu mundo, em um nacionalismo moderno insurgente que tomou "nós, os chineses, nos levantamos" como seu lema. Por que o partido era tão impotente contra Mao quando ele lançou a Revolução Cultural? Em grande parte, Chen sustenta, por causa da "incapacidade de Liu, Zhou, Deng ou qualquer outro líder do PCC de criar uma narrativa alternativa de grande legitimidade da Revolução Chinesa". Tendo relatado anteriormente o respeito de Zhou pelas habilidades políticas de Mao, admiração por suas habilidades militares e medo de seu temperamento autocrático, o que mais isso sugere sobre sua atitude em relação a Mao? Que havia outro lado nisso: o fascínio por sua mente, como um pensador sobre o passado de seu país e seus possíveis futuros, no comprometimento absoluto que compartilhavam com a revolução que os havia criado.

Se o retrato de Zhou feito por Chen, entrelaçando todos esses e outros fios, é amplamente convincente, a qualificação tem menos a ver com qualquer coisa que ele diga sobre Zhou do que com a ausência de qualquer retrato comparável de Mao. Chen tem muito a dizer sobre Mao, quase tudo agudo e muito extremamente afiado, mas – talvez inevitavelmente – sua soma é um esboço, mais fino do que a descrição espessa de Zhou: uma assimetria que tem um certo custo. No final da década de 1950, Mao era efetivamente um déspota. Mas as agora familiares comparações dele com Stalin ou Hitler erram o alvo. Seu estilo de governo combinava três formas de poder sem lei, cada uma compartilhando algumas características com tiranias em outros lugares, mas cuja combinação produziu uma autocracia fundamentalmente sui generis. A primeira estava nas tradições milenares de soberania imperial na China, mais ou menos ininterruptas até o século XX: um absolutismo totalmente implacável em reprimir revoltas contra ele, mas a partir dos tempos de Han em diante governando sem um vasto aparato burocrático, dependendo mais de uma elite mandarim limitada recrutada por um sistema de exames e cooperação da nobreza, em uma carapaça de ideologia confucionista exaltando a conduta correta e a benevolência (apoiada quando necessário por seu complemento brutal, o legalismo). Sobrepondo isso estava o impacto da organização e doutrina stalinistas, o único tipo conhecido pelo PCC, à medida que se endureciam durante a década de 1920, gerando um partido projetado para atuar como um exército, e que na China se tornou um. Por fim, veio o temperamento do próprio Mao, moldado nesses dois moldes, mas adicionando uma inclinação para uma revolta contínua em massa – "há grande desordem sob os céus, a situação é excelente" – totalmente estranho a eles.

O resultado foi um composto como nenhum outro. As repressões de Mao misturaram métodos stalinistas de propaganda em massa e coerção para atingir objetivos confucionistas de mudar ideias e, portanto, conduta, a serviço de uma revolução incessante taxada pelos críticos desde o início como mais anarquista do que marxista em concepção. A acusação de Chen sobre as crueldades e baixas do governo de Mao na última década de sua vida é inabalável.3 No entanto, ao lançar a Revolução Cultural, ele não era, na visão de Chen, simplesmente um vilão. As vítimas eram muitas, embora muito menos do que no Grande Salto para a Frente, mas em nenhum dos casos a maioria das mortes foi deliberada. Elas estavam mais próximas, como disse o biógrafo de Mao, Philip Short, do que é legalmente definido como homicídio culposo.[4] Conversão e mobilização eram os objetivos, não extermínio. Claro, com o tempo, os dons de Mao degeneraram. Seu último ensaio significativo, "Sobre o tratamento correto das contradições entre o povo", o texto que licenciou as Cem Flores, apareceu em 1957. Depois disso, não mais tolerando a dissidência, ele teve uma necessidade cada vez menor de argumentar ou persuadir: uma ordem seria o suficiente. Embora tenha mantido sua inteligência e sua pungência até o fim, ele deixou de ser o pensador que tinha sido. Mas no auge de sua carreira, não foi apenas uma narrativa mestre do tipo que Chen lhe credita que deu a Mao a hegemonia. Foi um conjunto multiforme de ideias, entregues em uma prosa de vivacidade clássica, economia e clareza, que capturou Zhou e sua geração. Apesar de todas as falhas que vieram a desfigurá-lo, os crimes que ele cometeu ou permitiu, nenhum outro governante do século passado possuía a mesma mão de trunfos: capacidades ao mesmo tempo militares, políticas e intelectuais.

A relação entre Mao e Zhou não era, como Chen mostra, unilateral. Mao não tinha paciência para uma administração consistente, e a experiência do mundo fora da China (com as maneiras que vinham com ela) para uma diplomacia hábil. Ele precisava de Zhou para isso, e em nenhum momento mais do que quando ele lançou a Revolução Cultural, lançando o país em turbulência política e isolamento internacional, com confrontos violentos entre facções em disputa em casa e tensões crescentes com a URSS no exterior — assim como Zhou precisava de Mao como a única autoridade capaz de conter, depois de atiçar, isso. Os dois estavam enredados em uma dependência mútua. Aqui, escreve Chen, estava

o dilema que o presidente sempre enfrentou e nunca foi capaz de resolver, mesmo com seu poder ilimitado. Por um lado, ele absolutamente não queria entregar o poder e seu "grande empreendimento revolucionário" para Zhou. Mas, por outro lado, ele teve que confiar no notável talento administrativo de Zhou para manter o funcionamento rotineiro do partido-estado que ele havia fundado.

Era uma “rede de arrasto” que o prendia e da qual ele se ressentia.

Da mesma forma, Mao sabia que precisava do sucesso diplomático da vitória da China sobre o ostracismo ocidental na Conferência de Genebra de 1954, na Guerra da Indochina e no fim do bloqueio americano que veio com a visita de Nixon, mas cada vez ele tinha inveja do prestígio que Zhou ganhou. Chen é muito mais expansivo sobre os triunfos de Zhou em relações exteriores do que sobre sua gestão do estado. Isso é bastante natural, dados os episódios de drama espetacular no primeiro, questões monótonas de gestão no segundo; embora para cidadãos comuns, a administração doméstica importasse muito mais do que golpes diplomáticos. No primeiro, a conquista de Zhou foi relativamente maior e mais surpreendente, a economia registrando taxas constantes de crescimento em meio às cenas caóticas da Revolução Cultural. Quanto ao último, a admiração de Chen pelo acordo assinado em Genebra e pelo comunicado em Xangai, ambos de diferentes maneiras transformando a posição da China no mundo, é compreensível. Mas ele corre o risco de exagerar o que resultou deles. Obrigando um relutante Pham Van Dong a aceitar os termos de paz que negociou em Genebra, Zhou não conseguiu obter garantias executáveis ​​de que o Vietnã do Sul realizaria as eleições estipuladas — que os comunistas certamente teriam vencido: a razão pela qual, com o apoio dos EUA, Saigon nunca as realizou — quando ele poderia quase certamente tê-las arrancado de Paris, onde o primeiro-ministro, Pierre Mendès France, estava desesperado para deixar a Indochina após o desastre de Dien Bien Phu.[5] O Vietnã teria sido poupado dos milhões de mortos na guerra americana para impedir o que deveria ter ocorrido de forma mais pacífica em meados da década de 1950.

A isso pode-se objetar que não havia uma maneira praticável de garantir eleições livres no Vietnã do Sul uma vez que o manto dos EUA o cobriu, dado que em 1954 já havia discussão na administração sobre se deveria ou não usar armas atômicas para manter o Norte também. O mesmo tipo de reserva, e possível resposta, pode ser inserido para o comunicado de Xangai que Zhou assinou em 1972, que não continha uma promessa dos EUA de cessar a interferência em Taiwan. Depois de inicialmente rejeitar as evasões para salvar a face americana nas quais Kissinger insistiu, Zhou consentiu com elas. Poderia ter sido extraído mais dos EUA do que Nixon estava disposto a conceder, em um momento em que ele estava no auge de seu poder? Qualquer que seja a visão que se tenha sobre isso, as consequências a longo prazo da fórmula insípida anunciada em Xangai são claras o suficiente: o perigo de guerra entre os dois países no Mar da China Oriental, com a ilha mais longe do que nunca da reunificação buscada por Pequim. Encorajado pela conciliação de Zhou, Kissinger retornou no ano seguinte para novas negociações, desta vez balançando a perspectiva de uma aliança militar contra a Rússia. Atipicamente, Zhou não relatou imediatamente essa abertura a Mao. Mao ficou tão irritado que disse ao politburo que se os EUA invadissem a RPC, Zhou provaria ser um "humilde capitulacionista" — uma acusação absurda, típica das últimas tiradas de Mao. Que Zhou pudesse ter tido ilusões sobre o potencial de uma nova amizade com Washington não é impossível. Mas se assim fosse, elas não estariam em desacordo com as próprias denúncias de Mao sobre a União Soviética como um regime social-imperialista, de fato fascista, que era uma ameaça maior ao mundo do que os Estados Unidos.

Um dos temas mais marcantes na obra de Chen é que para Mao não havia uma separação estrita entre suas políticas externa e interna porque as primeiras eram frequentemente uma contribuição para as últimas. Iniciativas no exterior eram frequentemente consideradas formas de galvanizar ações em casa, relações exteriores implantadas como um estímulo à mobilização doméstica. A Guerra da Coreia, a crise de Quemoy, a Guerra Sino-Indiana e o conflito Sino-Soviético ofereceriam cada um uma ilustração vívida da conexão, a última delas alimentando as campanhas de Mao contra seus oponentes no PCC, denunciados por buscar restaurar o capitalismo na China como Khrushchev havia feito na Rússia. Mas enquanto eles poderiam se sentir obrigados a repetir as ladainhas do período, os escalões mais altos do partido incluíam pessoas — Zhou e Lin entre eles — que viveram na União Soviética e podem ter sido menos tentados a pensar, em vez de dizer, que a China agora tinha o fascismo em sua porta do norte; ou a acreditar (corolários na época) que Pinochet e Mobutu eram aliados naturais na batalha contra ele. Embora seja um crítico incondicional da Revolução Cultural, Chen evita essa dimensão da mesma.


Chegando ao fim do livro de Chen, um leitor com mentalidade histórica pode perguntar: o registro do passado oferece algum precedente para o relacionamento entre Mao e Zhou? Talvez em alguns aspectos haja um, moral e psicologicamente, embora muito menos consequente. Napoleão geralmente abre a lista de tiranos modernos (particularmente na Inglaterra), como o primeiro a exibir as características sem lei da espécie, mesmo que em uma época em que as enormidades de uma época industrial ainda não tivessem chegado. Um general maior que Mao e, como Mao não era, um administrador brilhante, ele também era, por suas próprias luzes, um homem de ideias, embora muito menores e mais derivadas, e embora um político pobre, um líder natural de homens. Muitos ficaram deslumbrados com a combinação, e ao redor dele surgiu um grupo de subordinados devotados e muitas vezes capazes. Ele havia conquistado a maior parte da Europa quando a ruína veio com sua invasão da Rússia em 1812: desintegração do Grande Armée nas neves, derrota na Alemanha e queda na França.

Até o fim, Napoleão foi servido com lealdade inabalável por seu grande escudeiro Armand de Caulaincourt, um oficial aristocrático que ascendeu de ajudante de campo a embaixador em São Petersburgo e mestre da cavalaria; acompanhou Napoleão na campanha russa e de volta dela; e quando os Aliados se aproximaram de Paris, tornou-se seu último ministro das Relações Exteriores. Militar por origem familiar e vocação - um general aos 32 anos - Caulaincourt tornou-se diplomata sob as ordens de Napoleão depois que Talleyrand deixou de ser ministro das Relações Exteriores. Sem os dons excepcionais deste último, ele nunca teve a mesma eminência. Mas, ao contrário de Talleyrand, notoriamente venal e desleal, ele era uma figura de probidade e princípios inabaláveis. Dois infortúnios do serviço imperial o marcaram. Usado como disfarce para a missão de sequestrar e executar o Duque d'Enghien, um exilado Bourbon na Alemanha acusado de uma conspiração para derrubar Napoleão, ele foi considerado pelos monarquistas como responsável por um ultraje notório em toda a Europa, do qual ele era inocente. Talleyrand foi um instigador do crime. Napoleão, seu organizador, comentou cinicamente sobre a culpa atribuída a Caulaincourt, que ele sabia ser injusta: "Isso o tornará ainda mais fiel a mim". Mais tarde, ele se recusou a permitir que Caulaincourt se casasse com a mulher que amava, alegando que ela era divorciada. Caulaincourt sofreu com cada injúria, mas sua lealdade não vacilou.

Pessoalmente próximo de Napoleão, tendo comandado sua comitiva armada, quando chamado de volta de São Petersburgo, Caulaincourt o alertou em sete horas de argumentação contra a loucura de invadir a Rússia. Após o fiasco que ele havia previsto, escoltando o imperador incógnito de volta de Vilnius para Paris — treze dias à deux de trenó e carruagem pelas neves do norte da Europa, Napoleão falando com ele o tempo todo — Caulaincourt disse a ele na cara que não era a Rússia que os europeus temiam, mas sua própria "monarquia universal": suas exigências fiscais, inquisições políticas, repressões militares. Napoleão não o criticou por isso. Em 1814, tentando suicídio ao ser exilado em Elba, Napoleão convocou Caulaincourt às três da manhã para transmitir seus últimos desejos. Após os Cem Dias, quando estava entre aqueles que se uniram a Napoleão, Caulaincourt passou seus últimos anos em ostracismo social e político na Picardia, compondo memórias que não puderam ser publicadas por um século. Em Santa Helena, o imperador lembrou-se dele como um "homem de sentimento e integridade". Ali estavam as diferenças que separavam os dois homens, e os tempos e classes que os formavam, do autocrata e diplomata na China. Na Europa, a reputação tradicional dos diplomatas — já no século XVII, "cavalheiros enviados ao exterior para mentir pelo bem de seu país" — era a antítese serpentina do heroísmo. No Reino Central, que podia dispensá-los, não havia diplomatas. Talvez seja essa a razão pela qual, quando eles foram finalmente necessários no século XX, a improvável síntese de um revolucionário forjado nas práticas intransigentes da guerra civil e um grande mestre das artes dúcteis da negociação foi possível.

Zhou Enlai: A Life​, uma obra comedida e muito disciplinada, nunca se afasta muito de seu assunto. Dois livros anteriores, China’s Road to the Korean War (1994) e Mao’s China and the Cold War (2001), dão uma noção mais direta de onde Chen se posiciona politicamente. Estudos de uma revolução escritos a partir da diáspora que ela produz tendem, como seria de se esperar, a serem severamente críticos dela e tácita ou vocalmente acríticos do estado que fornece refúgio para sua composição. Chen, quando se estabeleceu nos EUA, não se conformava com esse padrão. Mao era uma figura contraditória, ele escreveu, porque ao longo de sua vida ele buscou ao mesmo tempo uma transformação revolucionária da China e sua restauração à posição de Reino Central que ela ocupou por séculos, agora perdida para a dominação de potências estrangeiras. No século XX, todo país sob subjugação colonial ou semicolonial desenvolveria uma mentalidade de vítima, mas sua versão chinesa era única porque era sobrecarregada por um contraste tão gritante entre a eminência passada e a subjugação presente. O objetivo de Mao era mudar isso com uma revolução que traria uma igualdade social que a China nunca conheceu e daria ao país igualdade com as principais potências, das quais, quando a revolução foi vencida, os Estados Unidos eram a maior.

Tal visão, observou Chen, era inaceitável para os EUA imbuídos de uma mentalidade vencedora após o triunfo na Segunda Guerra Mundial, pois um "senso americano tradicional de autossuperioridade" inchou com um novo senso de "responsabilidade de liderança mundial". Como a China não era uma potência militar ou industrial significativa, ela não representava nenhuma ameaça direta aos interesses dos EUA no Extremo Oriente. Sua perda para o comunismo foi, portanto, "indesejável, mas não insuportável". Os comunistas chineses eram vistos com uma mistura de desprezo e hostilidade. Como o novo regime desconsiderava os princípios universais do direito internacional, aos quais todos na Terra deviam lealdade, ele não tinha direito ao reconhecimento - uma atitude que demonstrava a típica "mentalidade de uma potência ocidental dominante diante de um país revolucionário em ascensão". De sua parte, Mao não tinha intenção de aceitar passivamente os requisitos americanos para entrar nas fileiras de estados respeitáveis, como ele mostrou na Coreia. Na era atômica, todos os estados eram inseguros, e para Mao a insegurança era especialmente aguda por causa da enorme lacuna entre suas ambições de que seu país desempenhasse um papel de liderança na maré da revolução mundial e a fraqueza da China como uma grande potência incipiente. Mas ele não se intimidou. A RPC seria "um novo tipo de ator internacional", uma nação revolucionária decidida a quebrar as normas e regras existentes das relações internacionais - que eram um produto da dominação ocidental.

Mas em casa a revolução contra o passado da China não poderia escapar da contradição de que ela tinha que ser articulada por meio de discurso, símbolos e identidades derivadas daquele passado, não menos importante a memória de sua posição como o Reino Central do mundo conhecido e as tradições políticas associadas a isso. Nem poderia derrotar a passagem do tempo. Aos olhos de Mao, a revolução deixava de sê-lo se não tivesse um ímpeto contínuo. Após o fracasso do Grande Salto Adiante, ele decidiu que estava perdendo apoio até mesmo entre a elite do partido e, para renová-lo, desencadeou a Revolução Cultural contra a liderança do partido e do próprio estado. Mas, apesar do enorme poder descontrolado que havia acumulado, ele frequentemente se viu incapaz de atingir seus objetivos e, no final, estava mais ou menos ciente do fracasso da Revolução Cultural. Após sua morte, sua narrativa principal entrou em colapso e, sob Deng, outra a substituiu. Dispensando apelos à igualdade, ela apostou na prosperidade e na modernidade, descartando todas as outras considerações com o ditado: "O desenvolvimento é o argumento irrefutável". O novo curso elevou os padrões de vida, mas também ampliou as divisões entre ricos e pobres. Isso significava que a ênfase tinha que recair cada vez mais em objetivos nacionais em vez de sociais, na restauração da China por meio da riqueza e do poder para seu papel como Reino Central. Isso forneceu uma solução para a crise de legitimidade do PCC após Mao. Mas, na ausência de qualquer visão ideológica superior que oferecesse uma missão ao povo chinês, uma "crise moral persistente" se instalou, especialmente entre os jovens. Chen afirma que esse vácuo paradoxalmente aumentou o domínio do partido no país, deixando a população presa ao medo de que, sem o partido, as coisas poderiam piorar e a China poderia até mesmo se desintegrar.

O que fazer? Como historiador, Chen é econômico em prescrições, mas não a ponto de evitá-las completamente. No início de sua biografia, ele explica que crítico para sua intenção foi o "desafio de colocar corretamente a Revolução Comunista Chinesa dentro dos anais da história". Ele continua:

Acredito que a revolução não é pecado. Revoluções acontecem por um motivo. Uma revolução não teria irrompido se o antigo regime que a alimentou não tivesse se deteriorado além do reparo. Este também é o caso da Revolução Comunista Chinesa, que veio como uma resposta dramática ao fracasso total do antigo regime chinês diante das assustadoras crises internas e externas que engolfavam o estado, a sociedade e até mesmo a civilização da China. Portanto, a chegada de uma era revolucionária na China não foi de forma alguma um acidente; em vez disso, deve ter havido fatores historicamente justificáveis ​​para sua ocorrência.

Dito isto, "todas as revoluções têm suas desvantagens", especialmente aquelas tão radicalmente transformadoras quanto a chinesa, que foi "inevitavelmente destrutiva, cruel e sangrenta", e cujo empreendimento de libertação se tornou sua negação nos últimos anos de Mao. Mas se quisermos "prevenir tais tragédias no futuro, não podemos simplesmente rejeitar a revolução". Mao e Zhou foram seres humanos feitos pela revolução, e mesmo alguém como ele, nascido depois de 1949, deveria estar autocriticamente ciente de que ele também foi de alguma forma formado por ela. Em vez de simplesmente exaltar ou rejeitar a revolução, o que é necessário é entender a razão pela qual as revoluções ocorrem e, quando elas dão errado, encontrar o caminho certo para um futuro melhor. No caso da China, isso deve significar um processo de ‘desrevolucionarização’, além das mudanças da Era da Reforma, em direção aos objetivos inter-relacionados de uma prosperidade econômica mais igualitária, estabilidade social mais verdadeira e democracia política mais autêntica em casa; e no exterior para o país emergir da sombra da Guerra Fria, para se tornar "um verdadeiro 'insider' da comunidade internacional e desempenhar consistentemente o papel de coordenador e promotor da paz e estabilidade regional e global".

Escrevendo em Mao's China and the Cold War em 2001, Chen pensou que isso só poderia acontecer quando a última geração que cresceu na era revolucionária tivesse saído de cena, como aconteceria dentro de quinze a vinte anos: um cronograma para se refletir. E os EUA, o outro lado da Guerra Fria? Seu medo era de uma nova rodada daquela guerra, uma sem qualquer justificativa. Embora a China sob Mao tenha usado a força para proteger suas fronteiras, ela não era uma potência expansionista. A busca pela centralidade não era a mesma que a busca pelo domínio em assuntos internacionais. A RPC visava a primeira, não a última. O Ocidente deveria fazer um esforço sério e sustentado para entender as perspectivas e os problemas da China no novo século, sem voltar à posição que havia assumido nas décadas de 1950 e 1960. ‘Sob nenhuma circunstância uma “segunda Guerra Fria” deve ser travada contra a China.’ E se a China falhasse em se desenvolver na direção certa? ‘Nós nunca deveríamos ficar frustrados pela falta de mudança suficiente da China no curto prazo; nós nunca deveríamos abrir mão de uma atitude de boa vontade em relação à China.’

Isso foi escrito há mais de vinte anos, na época de Jiang Zemin. Na China, assim como no Ocidente e no mundo em geral, o cenário escureceu desde então. Chen diria o mesmo hoje? Parece haver pouca dúvida de que ele diria. A segunda Guerra Fria que ele temia, não uma reprodução simples ou direta da primeira, mas não melhor do que ela, aconteceu. Em meio a uma deterioração generalizada do sistema interestatal, os pressentimentos de Chen podem ser resumidos a partir do quase desespero com que ele perguntou recentemente: onde se pode encontrar uma contraparte de Zhou em qualquer lugar hoje?

Em um cenário intelectual mais amplo, a perspectiva de Chen mais se assemelha à de dois historiadores russos. Ambos buscavam uma avaliação equilibrada de Mikhail Gorbachev, que em caráter e carreira era bem diferente de Zhou, mas que era outro comunista com ideais visivelmente mais elevados do que o exercício do poder duro, cujo fim também foi trágico. Dmitri Furman, que passou a admirá-lo, conseguia ver suas fraquezas, mas as julgava com simpatia, considerando Gorbachev o único governante na história russa que voluntariamente limitou seu próprio poder, para dar ao seu povo liberdades que eles nunca conheceram antes. O veredito de Vladislav Zubok, uma década mais jovem, é mais rigoroso. Sua obra-prima, Collapse (2021), é uma análise devastadora das razões pelas quais as reformas de Gorbachev falharam. Se ele pôde ser tão sem cerimônia expulso do cargo, em meio à indiferença popular, por um rival de calibre muito menor e mais grosseiro, a culpa estava no próprio Gorbachev, nas limitações de sua cultura e nas ilusões induzidas nele pela bajulação do Ocidente. Com mais bom senso e menos vaidade, ele poderia ter evitado sua queda, pela qual o povo russo — já sofrendo sob o fiasco de sua gestão econômica — pagaria caro sob seus sucessores. Embora suas avaliações de Gorbachev sejam antitéticas, Furman e Zubok compartilham muito dos mesmos valores, que se assemelham aos de Chen, como também, à sua maneira, aos de Ci Jiwei: um realismo temperado e humano, expressivo de uma sensibilidade não facilmente classificável, em algum lugar entre liberal e socialista. Zubok está mais próximo de Chen como acadêmico: ambos historiadores em universidades em um Ocidente para o qual emigraram sem compulsão ou perda de contato com sua terra natal, cada um produzindo obras sobre ela de uma intimidade e profundidade que nenhum colega ocidental pode igualar. À medida que os dois estados continentais sobre os quais escrevem se tornam cada vez mais temidos e vituperados no Ocidente, seria bom vê-los em diálogo.

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