27 de novembro de 2012

China após o Minotauro Global

Yanis Varoufakis


Tradução / Este post dá seguimento aos anteriores "A Europa após o Minotauro Global" e "América após o Minotauro Global". Estes trechos são extratos da próxima nova edição de "O Minotauro Global".

No penúltimo capítulo do livro, eu discuti o Dragão Rampante que, como todos nos dizem, está esperando nas coxias, supostamente para derrotar o Minotauro Global (interessados encontram aqui uma cópia em PDF desse capítulo). Em minhas observações finais, escrito por volta em janeiro de 2011, eu escrevi: "Para ganhar tempo, o governo chinês está estimulando sua economia em crescimento e a mantém blindada contra revalorizações da moeda, na esperança de que aquele crescimento vibrante possa continuar. Mas estão vendo os sinais, e eles não sinalizam boa coisa. Por um lado, o rácio consumo da China/PIB está caindo; sinal claro de que o mercado doméstico não pode gerar demanda suficiente para as gigantescas fábricas chinesas. Por outro lado, as suas injeções fiscais estão causando bolhas imobiliárias. Se nada for feito, elas podem explodir e causar assim um desdobramento doméstico catastrófico. Mas como se esvazia uma bolha, sem impactar o crescimento? Essa é a pergunta de vários trilhões de dólares que Alan Greenspan não conseguiu responder. Não se sabe se as autoridades chinesas conseguirão."

Nos dezoito meses que se seguiram desde que essas linhas foram escritas, os acontecimentos confirmaram o padrão projetado. A tabela a seguir revela que a queda da taxa de consumo chinês continua inabalável. Em 2011, de cada um dólar de renda produzida, só 29 centavos entravam nos mercados chineses. Com exportações líquidas fazendo uma pequena contribuição nacional à demanda doméstica (mesmo que contribuam muito para a capacidade de investir do país e, assim, aumentar a produtividade), o ônus cai cada vez mais sobre o investimento, para suprir a demanda. Porém, como sugerido no parágrafo acima, essa ênfase no investimento é uma faca de dois gumes: porque ameaça soprar o gênio para fora da garrafa nos mercados imobiliários, onde as bolhas aparecem ameaçadoramente há algum tempo.


1990
1995
2000
2005
2009
2011
Consumo privado
49
44
45
40
34
29
Investimento
35
42
36
42
48
58
Consumo do governo
12
13
17
12
11
10
Exportações líquidas
4
1
2
6
7
3


De fato, em 2011 as autoridades chinesas apertaram as condições para concessão de novos empréstimos para moradia, na esperança de que esse movimento não afetasse investimentos produtivos, ao mesmo tempo em que reduzisse o surgimento de mais elefantes brancos e blocos de apartamentos vazios (que profissionais chineses de classe média compram, depois de se endividarem pesadamente, mas deixam vazios, na esperança de vendê-los com lucro mais tarde - uma bolha-padrão em formação).

Infelizmente, enquanto a demanda por moradias caiu, sinais claros logo apareceram de que a intervenção do governo não tinha esvaziado apenas a bolha imobiliária, mas também o resultado industrial. Que sinais claros? O nível de consumo de energia elétrica, que empacou no início de 2012. A última vez que isso aconteceu, em 2008/2009, a taxa de crescimento da produção industrial caiu rapidamente logo depois, o que levou Pequim a estimular a economia num nível que deprimiu ainda mais o rácio do consumo. Para evitar isso, o governo agora está relaxando as limitações à concessão de hipotecas, aceitando um renovado risco de bolha na moradia.

Em resumo, assim como nos países europeus superavitários, também na China a redução de ¼ na demanda global agregada ocasionada pela passagem do Minotauro Global, impediu qualquer recuperação significativa. Na verdade, tornou o mundo em que vivemos ainda mais precário, porque os remédios tentados (estímulos, na China; alívio quantitativo, nos EUA; e austeridade na Europa) aumentam a probabilidade de que a Crise lance pequenos e repulsivos apêndices. Assim, até que e a menos que algum mecanismo global de reciclagem suba das cinzas do Minotauro para substituí-lo, o mundo continuará a ser lugar inseguro, deprimente.

22 de novembro de 2012

Quando Gaza é trucidada outra vez, entender o papel histórico da BBC é vital

John Pilger


Em The War Game, notável filme da BBC dirigido por Peter Watkins que previa as consequências de um ataque a Londres com uma bomba nuclear de uma megatonelada, o narrador diz: "Sobre quase todo o assuntos das armas termo-nucleares, agora há praticamente silêncio total na imprensa, nas publicações oficiais e na TV. Pode haver esperança neste silêncio?

A verdade desta declaração equivalia à sua ironia. Em 24 de Novembro de 1965, a BBC proibiu The War Game por ser "demasiado horripilante para um media de difusão ampla". Isto era falso. A razão real foi explicada pelo presidente do Conselho de Governadores da BBC, Lord Normanbrook, numa carta secreta ao secretário do Gabinete, sir Burke Trend.

"[The War Game] não é concebido como propaganda", escreveu ele. "Pretende ser uma declaração puramente factual e é baseado em investigação cuidadosa de material oficial... Mas mostrar o filme na televisão pode ter um efeito significativo sobre atitudes do público em relação à política da dissuasão nuclear". A seguir a um visionamento a que compareceram responsáveis sénior do Whitehall [Parlamento], o filme foi proibido porque contava uma verdade intolerável. Dezasseis anos depois, o então director-geral da BBC, sir Ian Trethowan, renovou a proibição, dizendo que temia o efeito do filme sobre pessoas de "inteligência mental limitada". O brilhante trabalho de Watkins foi finalmente mostrado em 1985 a uma audiência minoritária numa hora tardia da noite. Ele foi apresentado por Ludovic Kennedy, o qual repetiu a mentira oficial.

O que aconteceu a The War Game faz parte das funções da emissora estatal como pedra angular da elite dominante da Grã-Bretanha. Com os seus notáveis valores de produção, muitas vezes bons dramas populares, história natural e cobertura desportiva, a BBC desfruta de audiência vasta e, segundo seus administradores e beneficiários, de "confiança". Esta "confiança" pode bem ser aplicada ao [programa] Springwatch e [aos documentários de] sir David Attenborough, mas não há base demonstrável para ela em grande parte das notícias do chamados assuntos correntes que pretendem dar sentido ao mundo, especialmente quanto às maquinações da potência desenfreada. Há honrosas excepções individuais, mas observe-se como estas são amansadas quanto mais tempo permanecerem na instituição: uma "defenestração", como descreve um jornalista sénior da BBC.

Isto é notavelmente verdadeiro no Médio Oriente, onde o estado israelense obrigou com êxito a BBC a apresentar o roubo da terra palestina e o enjaulamento, tortura e matança do seu povo como uma "conflito" intratável entre iguais. De é no meio do entulho de um ataque israelense, um jornalista da BBC foi em frente e falou da "forte cultura do martírio de Gaza". Tão grande é esta distorção que jovens que assistiram à BBC New disseram a investigadores da Universidade de Glascow que ficaram com a impressão de que os palestinos são os colonizadores ilegais do seu próprio país. A actual "cobertura" da BBC da miséria genocida de Gaza reforça isto.

Os "valores reithianos" [NT] da BBC, de imparcialidade e independência, são quase escrituras na sua mitologia. Logo depois de a empresa ser fundada na década de 1920 por lord John Reith, a Grã-Bretanha foi abalada pela Greve Geral. "Reith emergiu como uma espécie de herói", escreveu o historiador Patrick Renshaw, "que havia actuado responsavelmente e ainda assim preservado a preciosa independência da BBC. Mas embora este misto tenha persistido ele tem pouca base na realidade... o preço daquela independência foi de facto fazer o que o governo queria que fosse feito. [O primeiro-ministro Stanley] Baldwin... viu que se preservassem a independência da BBC seria muito mais fácil para eles abrirem caminho em questões importantes e utilizá-la para emitir propaganda do governo".

Pouco conhecido do público, o facto é que Reith foi o redactor de discursos do primeiro-ministro. Com a ambição de se tornar vice-rei da Índia, ele garantiu que a BBC se tornasse um evangelizador do poder imperial, com a "imparcialidade" devidamente suspensa sempre que o poder estivesse ameaçado. Este "princípio" a BBC tem aplicado à cobertura de toda guerra colonial da era moderna: desde o encobrimento do genocídio na Indonésia até à supressão de filmes que testemunhavam o bombardeamento do Vietname do Norte e ao apoio à invasão ilegal de Blair/Bush do Iraque em 2003 e o eco agora familiar da propaganda israelense sempre que aquele estado fora da lei abuso do seu cativo, a Palestina. Isto atingiu um nadir em 2009 quando, aterrada com a reacção israelense, a BBC recusou-se a emitir um apelo conjunto de instituições de caridade em favor do povo de Gaza, metade do qual são crianças, a maior parte delas desnutrida e traumatizada pelos ataques israelenses. O relator das Nações Unidas, Richard Falk, ligou o bloqueio de Israel a Gaza ao Gueto de Varsóvia sitiado pelos nazis. Mas, para a BBC, Gaza – tal como a frota de ajuda humanitária atacada mortiferamente por comandos israelenses – em grande medida apresenta um problema de relações públicas para Israel e seu patrocinador estado-unidense.

Mark Regev, propagandista chefe de Israel, aparentemente tem um lugar reservado no topo dos boletins de notícias da BBC. Em 2010, quando apontei isto a Fran Unsworth, agora promovida a director do noticiário, ela objectou com veemência à descrição de Regev como um propagandista, acrescentando: "Não é nossa tarefa sair à procura do porta-voz palestino".

Com lógica semelhante, a antecessora de Unsworth, Helen Boaden, descreveu a cobertura da carnificina criminosa no Iraque como baseada no "facto de que Bush tentou exportar democracia e direitos humanos para o Iraque". Para provar a sua tese, Boaden apetrechou-se com seis páginas A4 de mentiras verificáveis de Bush e Tony Blair. Para não ocorrer a nenhuma das duas mulheres que ventriloquismo não é jornalismo.

O que mudou na BBC é a chegada do culto do administrador corporativo. George Entwistle, o recém nomeado director geral que disse nada saber acerca das falsas acusações da Newsnight de abuso infantil contra o aristocrata Tory, está para receber 450 mil libras de dinheiro público por concordar em renunciar antes de ser despedido: o modo corporativo. Isto e o escândalo anterior de Jimmy Savile podia ter sido redigido para o Daily Mail e a imprensa de Murdoch cuja abominação em causa própria por parte da BBC durante muito tempo proporcionou à corporação a sua fachada "de combate" como uma eminente guardiã das "emissões de serviço público". Entender a BBC como uma eminente propagandista do estado e censora por omissão – muito frequentemente afinada com os seus inimigos de direita – está na agenda pública e é onde deve estar.

7 de novembro de 2012

Sobre o 18 de Brumário de Louis Bonaparte

Kōjin Karatani

Kōjin Karatani. History and Repetition. New York: Columbia University Press, 2012.

Quando o sistema comunista caiu no fim dos anos 1980 e – como simbolizado pela assertiva de Francis Fukuyama (1998) sobre o “fim da história” – uma perspectiva otimista baseada na globalização da democracia representativa e na economia de mercado liberal foi proclamada, pareceu que os trabalhos de Marx como o Capital ou o 18 de Brumário de Luís Bonaparte tinham perdido inteiramente seu sentido. Ainda assim, foi naquele ponto que esses trabalhos começaram a emitir um tímido, mas ainda assim, poderoso brilho. Desde então, testemunhamos uma recessão ao redor do mundo e a disfunção da democracia representativa. Isso não prognostica, entretanto, a queda do capitalismo ou do estado-nação moderno. Ao contrário, isso expõe o fato de que a história existe em um tipo de compulsão à repetição.

É precisamente o problema desta compulsão à repetição que O Capital e o 18 de Brumário apontam. O que Marx mostrou no Capital é a compulsão à repetição inerente ao movimento do capital em direção a acumulação. O Capital é levado a auto-reprodução através de um incessante processo de diferenciação, e esse processo não é capaz de evitar os repetidos ciclos negociais de recessão, prosperidade, crise econômica, recessão. Por outro lado, o 18 de Brumário elucida a compulsão à repetição que não pode ser resolvida pela forma política do moderno estado-nação, uma compulsão à repetição que é de fato inevitavelmente posta em movimento pela tentativa mesma de resolvê-la. O que precisa ser reconhecido nos anos 1990 é que ainda nos encontramos nesta compulsão à repetição.

Por exemplo, havia muitos que previram, com a referencia a emergência da crise econômica global e a falência do sistema parlamentar, os anos de 1990 se assemelhariam aos de 1930. Esse tipo de pensamento pode parecer não ser nada além de um catastrofismo familiar em parte da Esquerda. Mas no presente contexto, em um tempo em que a velha-guarda da esquerda caiu em desgraça, eu penso que este problema merece um sério escrutínio. Esse tipo de repetição aponta para o ciclo econômico do capitalismo global de aproximadamente sessenta anos conhecido como o ciclo de Kondratieff. [1] Visto de uma perspectiva econômica, houve uma transição ao “capitalismo tardio” nos anos 1930; sessenta anos antes, nos anos de 1870, houve uma transição do liberalismo para o imperialismo. Nesse sentido, os anos de 1990 darão origem, sem dúvidas, à transição para uma economia de mercado global. Minha intenção, de qualquer modo, não é examinar esse fenômeno em detalhe aqui. O que estou interessado em analisar é a compulsão à repetição que transcende as diferenças particulares de cada um desses momentos históricos, os quais, de fato, são a base para a criação de novos estágios.

A repetição na história não significa a recorrência dos mesmos eventos, porque a repetição é possível somente em termos de forma (estrutura) e não de evento (conteúdo). Os eventos mesmos são capazes de evadir a repetição, enquanto que uma dada estrutura – como os ciclos negociais – são incapazes de fazê-lo. Isso é precisamente o tipo de compulsão à repetição que eu quero abordar aqui. Como Freud escreveu, a compulsão em repetir marca o retorno do reprimido que nunca pode ser relembrado; ao invés de ser relembrado, ele é repetido no presente. O que somos capazes de relembrar não são nada mais que eventos. Por esse motivo, comparar eventos dos anos 1870, 1930 e 1990 é, sem duvida, perder de vista o “retorno do reprimido” que existe aí. De forma a ver esse processo, precisamos nos voltar para o Capital e especialmente para o 18 de Brumário. Depois de tudo, das passagens iniciais desse último texto, Marx problematiza a questão da repetição na história.

O que então “o reprimido” significa nesse contexto? A resposta é entrelaçada com a questão da representação no sistema parlamentar assim como na economia capitalista, como mencionado de inicio. É verdade que esses sistemas são “repressivos”. Sua compulsão em repetir, entretanto, não é baseada naquele tipo de repressão. Ao invés, o “reprimido” que permanece absolutamente irrepresentável é o “furo” que faz tais sistemas de representação possíveis. Esse furo não é em nenhuma hipótese invisível, mas de fato existente em todo lugar. Ainda por essa precisa razão, sua natureza de um furo está escondida.

Na economia capitalista, por exemplo, se pode falar que o dinheiro é justamente tal furo. N’O Capital, Marx deixou claro que o dinheiro é um ser – ou melhor um ser-nada heideggerriano – que é guiado a um movimento perpétuo de auto-reprodução que ultrapassa qualquer vontade humana. A economia clássica debochava da perversidade do comerciante (o mercantilista), que adorava o dinheiro. Ainda, nesses tempos de pânico financeiro, quando o sistema de confiança caiu, é precisamente em direção ao dinheiro que as pessoas correm. Para economistas clássicos ou neoclássicos, o dinheiro não é nada mais que um padrão para expressar o valor, um meio de pagamento – em outras palavras, um “ser” visível. É só por essa razão, entretanto, que é possível que o dinheiro, como um ser = nada (ou para colocar de outra maneira, como uma “coisa”), exista na forma mercadoria (a forma valor), oculto. É nesses tempos de crise econômica – a crise sendo ou não dramática – que as pessoas são receptivas a isso. Até o momento, o dinheiro não é meramente uma coisa, mas antes um sublime fetiche. Para colocar de forma reciproca, o dinheiro existe como algo irrepresentável e é durante a crise econômica como compulsão à repetição que as pessoas experimentam isso.

No 18 de Brumário, o “furo” que existe no sistema de representação é o “rei” que foi banido pelo sistema. Nos vemos isso em seu lugar, o “imperador” Bonaparte volta a vida. Reis, imperadores e presidentes na verdade existem, justamente como o dinheiro existe. Mas o que é importante é o fato de que eles são o “nada do ser” que torna possível o sistema de representação. Por esse motivo, não é importante quem é o “rei” ou o “imperador”, ou mesmo se eles na verdade são chamados por rei ou imperador. O que está em questão é que o sistema parlamentar (representativo) criado nos tempos modernos contém um furo que nunca pode ser preenchido, furo este que existe realmente apartado do atual e visível rei, presidente, ou imperador; além disso, é precisamente esse furo que é repetido como o “retorno do reprimido”.

A razão pela qual eu uso o 18 de Brumário aqui é que ele analisa como um sintoma o que foi repetido nos anos de 1870 e de 1930 e que provavelmente esteja se repetindo nos anos de 1990. Os eventos na França que o livro examina contém algo que prefigura o fenômeno posterior. Não é os eventos em si, de qualquer forma, que me levam a acreditar nisso mas antes a analise penetrante de Marx sobre eles. Inegavelmente, o 18 de Brumário é um trabalho jornalístico que analisa a situação política francesa contemporânea; mas do ponto de partida da historiografia moderna, o livro seria considerado inadequado. Por isso é preciso considerar fatores mais complexos a respeito de Louis Bonaparte ou do Segundo Império, é evidente. O que encontro no 18 de Brumário, entretanto, é uma consideração fundamental sobre o Estado, antes do que sobre a história. Isso é parecido com a relação entre Capital e a história econômica inglesa. O Capital é claro considera a historia econômica inglesa como sua fonte material, mas alguém poderia – e deveria – ler O Capital realmente apartado disso.

Em O Capital, Marx tentou explicar o sistema fantasmático organizado pelo dinheiro. Não obstante, esse sistema não deve ser designado como a base econômica. Ao invés, ele pertence à superestrutura, organizando e também ocultando a base econômica; em outras palavras, é o sistema de representação. Precisamente por esta razão, ele continuamente mantém em si o perigo de colapsar. Por esse lado, o 18 de Brumário toma o inevitável perigo contido em outro tipo de sistema de representação, aquele da democracia representativa. Se O Capital aborda a economia como uma questão de representação, o 18 de Brumário aborda a política da mesma forma. De forma similar, se O Capital é uma critica da economia moderna, o 18 de Brumário é uma crítica da ciência política moderna. Além disso, no bonapartismo as duas formas de representação surgem juntas. Então o problema que se debruça o 18 de Brumário não apenas pertence ao passado mas também emerge novamente no fascismo dos anos de 1930 assim como na conjuntura desde os anos de 1990.

Há diversas vantagens de se pegar o 18 de Brumário como o ponto de partida. Tendo em vista o fascismo dos anos de 1930, por exemplo, não deveríamos pensar nisso como um fenômeno especifico apenas da Alemanha e da Itália, porque assim perderíamos de vista os problemas que emergiram na década de 30 em uma escala global. Além disso, um foco tão estreito não proveria uma oportunidade de pensar sobre a questão da “repetição” nos anos de 1990. Pois, como eu disse antes, os eventos por eles mesmos não podem ser repetidos. Nesse sentido, o fascismo seria considerado meramente um problema do passado. Entretanto, enquanto os problemas que criaram o sistema parlamentarista e a economia capitalista não desaparecerem, os problemas do passado continuarão a aparecer no futuro.

O 18 de Brumário é, por exemplo, um texto indispensável para entender o fascismo japonês dos anos 30. As teorias do fascismo tendem a ser modeladas na experiência da Alemanha e da Itália, e tais modelos não podem ser aplicados perfeitamente ao caso japonês. Como resultado, assertivas sem sentido tais como aqueles que negam a existência do fascismo no Japão são capazes de ganhar um boa soma de adeptos. Há, entretanto, um limite em quanto o conceito de fascismo por si só pode explicar o fenômeno que emergiu em países capitalistas avançados nos anos de 1930. Esse fenômeno foi, em primeiro lugar, uma contra revolução em reação à Revolução russa. Ou seja, ela tinha que conter em si um certo grau de socialismo. O movimento de contra revolução foi estimulado pela Grande Depressão dos anos 30. Por exemplo, nos Estados Unidos um presidente – Roosevelt – surgiu como aquele que representava todos os partidos e classes e como aquele que impulsionou a política de guerra. Isto não era fascismo, mas tampouco era liberalismo. O que é necessário para ver um fenômeno como esse de um ponto de vista universal? A resposta é O 18 de Brumário (que encontro o caso japonês no capítulo II).

O 18 de Brumário é cheio de insights que fazem possível uma analise fundamental não apenas do imperialismo dos anos de 1870 e do fascismo dos anos de 1930, mas também o estado de coisas que emergiu desde a década de 90. Por exemplo, no 18 de Brumário, a tomada do poder de Bonaparte é precedida pelo colapso da “Esquerda” em 1848. Este fato, apesar das diferenças em particularidades históricas, é também comum ao que ocorreu nas décadas de 1870, 1930, e 1990. Para simplificar, eu acredito que o fascismo é uma forma de bonapartismo. Mas o que importante é ver isso como um processo dinâmico do que foi retratado no 18 de Brumário. Caso contrário, o resultado seria nada menos que a produção de outra definição estéril.

Por exemplo, Engels definiu o bonapartismo na forma a seguir. No conflito entre a burguesia e o proletariado, quando a balança de poder surgia entre eles e ninguém é capaz de tomar o poder do Estado, um poder temporário que mantém uma certa autonomia de ambos é estabelecida. Para Engels, o bonapartismo se refere ao personagem de uma autocracia formada nessa maneira. Os marxistas tenderam a seguir essa de bonapartismo sem ler propriamente O 18 de Brumário.

Se alguém tomar apenas o balanço de poder das classes, de qualquer modo, então esse alguém pode também dizer que a monarquia absolutista foi estabelecida no equilíbrio entre forças feudais e a burguesia. Por essa razão, não se pode entender a característica que distingue o bonapartismo apenas pelo fato que o conflito de classe se modificou para a luta entre burguesia e proletariado. A diferença entre a monarquia absolutista e o bonapartismo – que surgiu de dentro do estado burguês formado através da derrubada da monarquia absolutista – existe acima de tudo no processo de como o equilíbrio de classe é atingido. É óbvio que o último caso é realizável através do sistema representativo baseado em eleições populares e através da coalizão de vários partidos políticos. [2] E, sem essa noção básica, é impossível de tocar o sentido não apenas do bonapartismo mas também das formas subsequentes de contra revolução, incluindo o fascismo.

[...]

5. A repetição da História

A próxima questão sobre representação a ser levada em conta é a questão sobre a repetição. É claro, isso se relaciona com as famosas linhas iniciais do “O 18 de Brumário”: “Hegel diz em algum lugar que todos fatos e personagens de grande importância na história mundial ocorrem, necessariamente, duas vezes. Ele esqueceu-se de acrescentar: primeiro como tragédia, segundo como farsa. Caussidière para Danton, Louis Blanc para Robespierre, o Montagne de 1848/1851 para o Montagne de 1793/1795, o sobrinho para o tio” (Marx 1963:15)

A repetição da história citada aqui por Marx está relacionada à primeira Revolução Francesa, de 1789, e à segunda Revolução Francesa, de 1848. Em ambos os casos, uma revolução que derrubou a monarquia e focou-se em estabelecer uma república que resultou, no fim das contas, em ordem imperial. Mas, há mais. Nas palavras que seguem essas linhas inaugurais, Marx aponta que a “Revolução de 1789 a 1814 se vestia alternativamente como República Romana e como Império Romano” (1963:15). Em outras palavras, os eventos que seguiram a primeira Revolução, de 1789, foram desde então constituídos como uma repetição do passado.

De acordo com o pensamento de Marx, o pequeno período de três anos que se seguiu a 1848 foi uma repetição do período de 1789 ao golpe de estado de Napoleão. A primeira Revolução, enquanto levou a si mesma à forma de uma repetição da antiguidade, na verdade atuou como uma revolução burguesa; com a Revolução de 1848, por outro lado, não havia nada de novo para ser alcançado. Por esta razão, Marx se refere a ela como farsa. Ainda que fosse, de fato, algo que o bonapartismo tratou de atingir. Essa foi a dissolução, pelo poder executivo, dos conflitos de classe engendrados pelo capitalismo, para fazer desnecessárias todas as revoluções no futuro – tal era o conteúdo de Des idées napoléoniennes de que Louis Bonaparte é o autor. Em contraste com a exploração militar de seu tio, ele enfatizava a paz e o desenvolvimento industrial. É claro, isso não impediu Louis Bonaparte de enviar tropas para bloquear a independência italiana. Externamente, seu governo era imperial.

Marx adiciona à passagem abordada acima o que segue: “Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; eles não o fazem em circunstâncias escolhidas por eles mesmos, mas sob circunstâncias diretamente encontradas, dadas e transmitidas do passado. A tradição de todas as gerações mortas pesa como um pesadelo na mente dos vivos” (1963:15). A repetição que Marx foca aqui, entretanto, não é esse tipo de verdade geral, mas antes o fato de que em um certo sentido a Revolução de 1789 – ou seja, a emergência do Imperador Napoleão de dentro da república que foi formada através do assassinato do rei – foi uma repetição de nada menos que a história de César.

Isto está claro na citação que Marx faz de Hegel. Quando Marx escreve que “Hegel diz em algum lugar”, esse algum lugar sem dúvida se refere ao que Hegel disse sobre César em A Filosofia da História. Ainda, as palavras de Hegel tem um sentido diferente do que Marx tinha em mente. Hegel escreve que “em todos os períodos do mundo uma revolução política é sancionada na opinião dos homens, quando ela se repete. Então Napoleão foi derrotado duas vezes e os Bourbons expelidos duas vezes. Pela repetição, o que primeiramente apareceu como uma mera questão de sorte e contingência se torna uma existência real e ratificada”(1991:313).

De acordo com o pensamento de Hegel, César é uma figura histórica do mundo e os eventos que ele menciona são também eventos históricos do mundo. A razão para isso é que eles transformaram o princípio da nação baseado no de povo ou de cidade-estado no princípio mais amplo de império, que transcende diversos povos. César tentou tornar-se imperador em um momento em que Roma tinha se expandido e não podia mais continuar como uma cidade-estado ou república, e ele foi assassinado por Brutus e outros que tentaram proteger a forma republicana de governo. Além disso, depois de matar César, que eles pensavam estar tentando destruir a república, perceberam que a república não poderia ser mantida por mais tempo. Em outras palavras, perceberam que a Roma expandida não poderia ser governada de acordo com os princípios da república. Neste ponto, apesar de César ter morrido, o imperador subsequentemente veio a vida. Na verdade, se pode dizer que César mesmo se tornou imperador, no sentido de que seu nome foi transformado em um substantivo comum que significa imperador (por exemplo, kaiser, czar).

De fato, aqueles envolvidos na Revolução Francesa repetiram, em uma forma temporariamente comprimida, essa história romana. Pela forma da Revolução, eles foram capazes de formar uma república, que, entretanto, culminou depois de um período de caos no reino imperial de Napoleão. Ademais, enquanto parece superficialmente ser uma repetição da história romana, na verdade foi realmente diferente, pois os mecanismos políticos e econômicos de cada contexto eram diferentes. O que a Revolução Francesa conquistou foi o estabelecimento de um sistema econômico burguês e o estado-nação. E o federalismo europeu que Napoleão proclamou não era nada mais que um tipo de “imperialismo” que tinha por objetivo defender a economia nacional francesa contra o capital industrial britânico. Isso era uma extensão do estado-nação e nunca foi comparável ao Império Romano. Nessa questão, Hannah Arendt apontou o que segue:

O edifício da conquista assim como o do império tinha perdido a reputação por boas razões. Eles foram carregados com sucesso apenas pelos governos que, como a República Romana, foram baseados primeiramente na lei, de forma que a conquista pudesse ser seguida pela integração de povos muito heterogêneos através da imposição sobre eles de uma lei comum. O estado-nação, entretanto, baseado em um consenso ativo de populações homogêneas para seu governo (“le plébiscite de tous les jours”), carece de um princípio unificador como tal. (1973:125)

Mais adiante, Arendt notou que isso já tinha ocorrido com Napoleão: “a contradição interna entre o corpo político da nação e a conquista como um mecanismo político é óbvia desde a queda do sonho napoleônico” (128). A política de conquista de Napoleão fez nascer os movimentos nacionalistas e independentistas em diversos países. Em outras palavras, Napoleão transmitiu a Revolução Francesa para cada uma das regiões. Isso é de fato a “astúcia da razão”, para usar as palavras de Hegel. O imperialismo como uma extensão do estado-nação nunca foi subsequentemente capaz de resolver essa contradição. Essa analise também implica na política de Napoleão III. Sua política de invasão, contraria aos seus efeitos pretendidos, ajudou a erguer a unificação alemã e italiana. E os diversos imperialismos europeus que subsequentemente surgiram fizeram nascer os estado-nações ao redor do globo.

Na Europa, tentativas de reconstruir o Império Romano continuaram sem cessar. Isto está relacionado a um problema interno existente no moderno estado-nação. O moderno estado-nação surgiu em um ponto em que as monarquias absolutistas estabeleceram sua soberania independentemente da lei romana e da Igreja Católica, e entraram em competição militar e industrial entre si. Nesse contexto, o que a vontade de transcender a condição da moderna nação soberana conseguiu foi mais ou menos recordar o Império Romano. Na verdade, o que essa vontade realmente conseguiu foi o controle imperialista de uma nação sobre a outra. Além disso, o estado-nação é incapaz de descartar a pulsão de negar a si mesmo e de mover-se em direção ao “império”. Isto é a compulsão à repetição do estado-nação em si. Aparentemente a União Europeia de hoje representa outra repetição desta pulsão.

6. O ciclo econômico como Repetição

A outra questão de representação localizada por Marx no 18 de Brumário pertence à economia capitalista. A economia monetária existe como um sistema de representação, e sua crise se manifesta como crise econômica. Marx escreve que a crise econômica de 1851 moveu a burguesia de um só golpe a apoiar Louis Bonaparte. O que a burguesia desejava naquele momento não era um tipo de estado liberal ou legislativo, mas antes um forte estado administrativo; ou seja, eles desejavam Bonaparte como imperador. Em um certo sentido, ele respondeu a este desejo. Para complementar a análise de Marx, a política de Bonaparte como imperador era ela mesma cheia de contradições. A burguesia daquele tempo, em termos de política econômica, era dividida em duas. A primeira visão, como o saint-simonista Michel Chevalier disse, era que o mercado precisava ser aberto e que a França precisava entrar na economia mundial; ao mesmo tempo, entretanto, tal afirmação deveria intervir na economia para impulsionar o desenvolvimento industrial. A outra visão, como disse o conservador Adolphe Thiers, focava em preservar um sistema balanceado com centro na agricultura. Com essa oposição, Louis Bonaparte apresentou a si mesmo como um conservador de coração que na prática era um saint-simonista. Em outras palavras, ele surgiu como uma figura que prometia eliminar ou mediar essa séria oposição. [5]

Marx entendeu Bonaparte como uma figura que eliminava oposições entre as diversas classes, mas essas oposições eram intimamente relacionadas a problemas particulares da França, que estava sob pressão da economia britânica durante esse período. Ao mesmo tempo, essa questão pode ser generalizada na oposição entre capitalismo global e economia nacional. Por exemplo, a escolha entre liberalização do mercado, que sacrifica a economia nacional, versus a proteção da economia nacional, é um dos maiores pontos de disputa atualmente. Os políticos que agem como se pudessem corresponder a todos esses desejos podem ser chamados de “bonapartistas”. É claro, eles não estão limitados aos fascistas, apenas. Os fascismos que surgiram na Alemanha e no Japão dos anos de 1930 podem ser vistos mais apropriadamente como diferentes modos de bonapartismo. Um dos benefícios de entender o fenômeno da década de 30 como bonapartismo é que assim se pode também explicar o que ocorreu nos Estados Unidos durante aquele tempo. O Presidente Roosevelt, que foi capaz de ganhar apoio tanto da direita como da esquerda, e de todos partidos, classes e etnias, pode ser visto como um bonapartista. Na prática, ele rompeu com o tradicional enquadramento do sistema bipartidário.

A crise econômica de 1851 mencionada no 18 de Brumário foi parte de um ciclo econômico de aproximadamente dez anos de duração. O que Marx encontrou no Capital foi esse tipo de ciclo econômico de curto prazo. Isso se difere do rude ciclo de longo prazo de 6 anos do capitalismo global – a “longa onda” de Kondratieff. O princípio que gera tais ciclos, entretanto, é o mesmo. Isto é, em outras palavras, ele é relacionado à diminuição da taxa geral de lucro e ao uso de inovação tecnológica fundamental. Tais ciclos não apenas geraram crises mundiais, mas também levaram a transições nas principais mercadorias da produção capitalista, transições dos tecidos à indústria pesada, aos bens duráveis e a indústria da informação. Tais transições não poderiam ajudar, mas engendrar a total reorganização da sociedade. É por tal causalidade estrutural que o ciclo econômico de longo prazo não pode ser explicado só pela via do registro econômico.

Além disso, para repetir: em termos de princípio, ondas de longo prazo não se diferem dos ciclos econômicos de curto prazo. Em outras palavras, eles deveriam ser vistos como uma parte do processo em que a “composição orgânica do capital” é dramaticamente aumentada. De acordo com esse processo, a economia capitalista entra em um novo estágio. Entretanto, tal novo estágio não vai além do entendimento expresso no Capital – que é, além dos próprios limites da economia capitalista. Sem tal violenta reorganização engendrada pela depressão econômica, a acumulação/expansão do capital não pode ser alcançada. E o capital existe dessa forma apenas quando está se expandindo; ele não é capaz de cessar seu movimento de acumulação. Não se pode analisar esse fenômeno apenas sob o ângulo de uma nação.

Se parece que Marx pega isoladamente a Inglaterra como um país modelo para sua análise no Capital, ele estava, na verdade, se dirigindo ao capitalismo global. Por um lado, por exemplo, ele parece ameaçar o comércio exterior como algo secundário. Ao mesmo tempo, entretanto, ele afirma que o capitalismo não pode existir sem o comércio exterior. Então, no terceiro volume do Capital, Marx escreve sobre a “tendência decrescente da taxa de lucro” e nota que essa tendência pode ser checada pelo comércio exterior:

O capital investido no comércio exterior pode render uma alta taxa de lucro porque, em primeiro lugar, há uma competição com mercadorias produzidas em outros países com menos instalações de produção, tanto que o mais avançado país vende seus bens acima de seu valor, mesmo que mais barato em relação aos países que competem. Assim como o trabalho do mais avançado país é considerado como trabalho de um alto peso específico, a taxa de lucro cresce, porque o trabalho que não foi pago como sendo de alta qualidade é vendido como tal. O mesmo se pode ver em relação ao país, para o qual as mercadorias são exportadas e dos quais as mercadorias são importadas; nominalmente, o último deve oferecer mais trabalho materializado em espécie do que recebe, e ainda receber mercadorias mais baratas do que poderia produzi-las. Justamente como uma manufatura que emprega uma nova invenção antes dela ser usada generalizadamente, vende menos que seus competidores e ainda assim vende sua mercadoria acima de seu preço individual, ou seja, assegura a específica alta produtividade do trabalho que se emprega como mais-trabalho. Assegura-se então a mais-valia. (2001:314-15)

Os trabalhadores ingleses foram capazes de contrapôr-se ao “governo do empobrecimento” que Marx menciona e foram capazes de obter riqueza porque o capital era capaz de extrair mais-valia do comércio exterior. O empobrecimento não foi gerado internamente, mas antes entre os povos do exterior. Assim, é incorreto considerar a mais-valia nos confins isolados de uma nação modelo. A tendência geral de decrescentes taxas de lucro, assim como o movimento contra isso, continua a gerar o aumento na composição orgânica do capital assim como do capitalismo global.

O princípio do comércio exterior como uma rota de escape do “decrescimento na taxa de lucro” continuou a funcionar essencialmente sem modificações nas eras subsequentes. Nos últimos anos de Marx, por exemplo, o “declínio geral na taxa de lucro” se manifestou como uma recessão crônica, e a “exportação de capital” começou. Esse é o estágio do imperialismo do qual Hobson e Lenin escreveram e que no fim das contas levou a Primeira Guerra Mundial. Além disso, a década de 30 testemunhou a criação de blocos econômicos, que levaram à Segunda Guerra Mundial. O período pós-guerra foi caracterizado pela estrutura da guerra fria entre EUA-URSS. Neste caso, o colapso da economia do bloco Soviético atrai mais atenção, mas no lado capitalista também, o Fordismo e a “produção em massa/consumo de massa”, que continuou desde a década de 30, também alcançou seus limites. Ele sucumbiu precisamente à “tendência de declínio na taxa de lucro em geral”. Não se pode resolver esse problema pela via de políticas baseadas em uma nação isoladamente. Como Marx diz, o comércio exterior é essencial.

O que surgiu neste ponto foram as políticas da “globalização”. Esta foi uma forma de livre mercado que envolveria completamente os países em desenvolvimento e que trabalharia para enfraquecer o quadrante do estado-nação. Ao mesmo tempo, isso produz uma contrarreação. Além disso, a forma do “império” prévia ao estado-nação é revivida em uma forma diferente. Deste modo, a compulsão à repetição imanente à economia capitalista é disposta na compulsão à repetição imanente ao estado-nação. Acredito que no Capital e no 18 de Brumário, Marx desvendou fundamentalmente o princípio dessas compulsões à repetição.

6 de novembro de 2012

Os americanos estão votando nosso destino

Ali, sem entender o custo da guerra, os americanos vão eleger um presidente hoje.

Yitzhak Laor

Haaretz

No final de seu livro, o historiador Tony Judt responde à questão sobre o que impediria
que a invasão do Iraque liderada pelos EUA se tornasse um outro caso Dreyfus, na medida que a guerra estava baseada numa mentira escancarada. Em “Pensando o Século Vinte: Intelectuais e Política no Século Vinte”, escrito por Timothy Snyder, ele discursa sobre a complexidade da questão da mentira e da guerra, e do papel dessas coisas no esforço de tornar isso objeto de protesto, dizendo: “Quando a democracia faz a guerra, ela primeiro cria uma psicose da guerra... você tem de mentir, tem de exagerar, tem de distorcer e por aí...”.

Mais do que isso, parte do problema da democracia americana no que concerne à guerra está conectado ao fato de que, como escreve Judt, “no século vinte, a América fez guerras sem custo para si mesma, em comparação ao custo para os outros países. Na Batalha de Stalingrado, o Exército Vermelho perdeu mais soldados do que a América já perdeu – soldados e civis juntos – em todas as guerras americanas ao longo do século vinte. É difícil para os americanos entenderem o que a guerra significa, e portanto é evidentemente fácil para um político enganar o seu povo ao levar a democracia para a guerra”.

Então, de onde vem a falsa imagem do sofrimento e do preço que os americanos têm pagado em suas guerras? Dos filmes e programas de televisão. E nós adotamos a fantasia americana como se ela fosse nossa.

Quem assistiu ao noticiário na semana passada deve ter pensado que era nosso (israelense) litoral que estava sendo inundado pelo Furacão Sandy.  É verdade, essa fantasia tem claramente fontes reais. As entrevistas no rádio e na TV com os israelenses que vivem nos Estados Unidos foram suficientes para demonstrar a extensão em que a classe média israelense pode ter um pé aqui e outro nos Estados Unidos: pessoas de negócios, professores trabalhando como convidados ou em ano sabático, experts em computadores, artistas, colegas estudantes, imigrantes, turistas. E aqueles de nós que ainda estão aqui? O que veem em suas telas de TV é o que nós vemos em nossas, salvo pelas legendas que aparecem nas nossas.

Não há outro país ocidental no qual uma população inteira esteja exposta à cultura popular americana por meio de sua televisão como Israel. Podemos lidar como isso com o lamento pela americanização de nossas vidas, e ainda assim é o caso prestar atenção ao que não é geralmente discutido como sintoma de nossas simbioses.

Deixemos de lado a pauta trivial dos israelenses que vivem em Nova York e prestemos atenção em nossos protagonistas: o Primeiro Ministro Benjamin Netanyahu, que fez o ensino médio e a universidade nos Estados Unidos; Stanley Fischer, que nasceu no Zambia e estudou e ensinou nos EUA, tornou-se dirigente do Banco de Israel depois de trabalhar no Fundo Monetário Internacional e no Banco Mundial e fala um maravilhoso hebraico; Arthur Finkelstein, o consultor republicano baseado em Nova York que faz incitações contra os árabes para o ministro Avigdor Lieberman; Sheldon Adelson, o magnata dono de cassino e dono do mais patriótico jornal de Israel; Eli Tabib, que compra e vende times de futebol aqui e viaja para os Estados Unidos para fazer dinheiro lá. E esses são apenas alguns dos mais proeminentes exemplos de trocas entre múltiplas nacionalidades possíveis.

Mas há um conceito que permanece estrangeiro para os norte-americanos. Lá, sem entender o custo da guerra, os norteamericanos elegerão um presidente hoje – um líder que provavelmente afetará as vidas e as mortes de centenas de milhares de pessoas aqui. As milhões de pessoas no Oriente Médio assistem à devastação do Furacão Sandy (mesmo que não prestem em regra tanta atenção aos desastres naturais que devastaram o Haiti ou Bangladesh) não podem fazer nada nessa eleição importante, mesmo que ela venha a ter um efeito significativo em suas vidas.

5 de novembro de 2012

A eleição S&M

Por Chris Hedges

Quando eu tinha dez anos, fui mandado para um colégio interno na Nova Inglaterra, onde judiar dos garotos mais jovens era a principal forma de entretenimento, e aí aprendi que os indivíduos sedentos de poder são uns bastardos psicopatas. Os mandões “valentões” em níveis acima do meu, os sádicos veteranos no andar em que se situavam nossos dormitórios, e os decanos e o chefe dos veteranos da escola se metamorfoseariam depois em bispos, editores de jornais, reitores de faculdades, chefes de estado, titãs de empresas e generais. Aqueles que se deleitam com a habilidade de manipular e destruir são indivíduos dementes e deformados. Esses seres humanos gravemente reduzidos e mentalmente atrofiados – basta pensar em Bill e Hillary Clinton – se encobrem, graças a elaboradas campanhas de relações públicas e a uma imprensa obsequiosa, com atributos de compaixão, patriotismo, dedicação ao serviço público, honra, valentia e visão, sem mencionar quantidades exorbitantes de dinheiro. São, no melhor dos casos, solenes mediocridades e, frequentemente, venais. Conheci muitos deles, para saber muito bem do que estou falando.

Por isso, é com uma certa fascinação mórbida que observo Barack Obama, que se tornou a “dominatrix” principal da classe liberal e nos obriga, nestas eleições, a votar por mais abuso e humilhação. Obama perpetrou um assalto ainda mais descarado contra as nossas liberdades civis, inclusive tornando lei a Seção 1021(B) da NDAA (National Defense Authorization Act, ou Lei de Autorização de Defesa Nacional), do que aquele cometido por George W. Bush. Esta lei, que eu denunciei legalmente em uma corte federal, permite que o exército dos EUA detenha cidadãos estadunidenses, negando-lhes o direito ao processo devido e os mantenha detidos indefinidamente em bases militares. A juíza de Distrito Katherine B. Forrest ordenou a derrogação da lei em setembro. O governo Obama apelou da sentença imediatamente. Além da NDAA, Obama aplicou o Espionage Act (Lei de Espionagem) para silenciar, em seis ocasiões diferentes, os “whistle-blowers”, denunciantes ou delatores de abusos e/ou delitos cometidos por autoridades. Obama defendeu o FISA Amendment Act, tornando legal a espionagem de milhões de pessoas sem que seja necessário obter a devida autorização. Além disso, elaborou listas de assassinatos com o objetivo de exterminar aqueles (inclusive cidadãos dos EUA) que a elite no poder qualifica como terroristas.

Obama nos diz que é melhor sermos capachos seus, a menos que queiramos ter que enfrentar o bruto do outro lado, Mitt Romney. Afinal de contas, quem desejaria que aquelas ‘pessoas do mal’ botassem a mão e controlassem esses novíssimos mecanismos repressivos? Se não nos comportarmos como se deve, acabaremos com um estado de controle e segurança ainda mais avançado, com a finalização do oleoduto XL de Keystone, com a pilhagem descontrolada por parte de Wall Street, com a catástrofe ambiental e até com um sistema de saúde ainda pior. Entretanto, sabemos que até certo ponto, uma vez terminada a campanha eleitoral, Obama, se for reeleito, nos trairá novamente. É parte do jogo. Assumimos obedientes o papel que nos cabe desempenhar. Gritamos aterrorizados. Prometemos obediência. E gozam de nós enquanto vemos as promessas se esmigalharem em pó.

Enquanto nos despojam constantemente de todo poder, desejamos com crescente fervor a vitimização e a escravização. Nossa relação com o poder corporativo é um reflexo cada vez mais fidedigno dos antigos cultos religiosos. Luciano se refere aos sacerdotes de Cibele, os quais, ao serem açoitados, entram num frenesi e se castram, em honra à deusa. As mulheres devotas se cortam os seios. Nós não estamos muito longe disso.

“Seja quem for que queira controlar os homens, tenta antes de mais nada humilhá-los para despojá-los de seus direitos e de sua capacidade de resistência, até que acabem ficando tão desamparados quanto animais”, escreveu Elias Canetti em “Massa e Poder”. “Ele os usa como animais e, ainda que não lhes diga que o são, dentro de si tem sempre a certeza de que significam muito pouco para ele; quando se refere a eles em seu círculo íntimo os chama de rebanho ou gado. Seu objetivo principal é incorporá-los, sugando-lhes toda a substância. O que sobra deles, depois disso, pouco lhe importa. Quanto pior os tiver tratado, mais os desprezará. Quando não tiverem mais qualquer utilidade, os eliminará como se elimina um excremento, só cuidando para que não contaminem o ar de sua casa”.

Nossos amos dependem de nosso trabalho para se tornarem ricos, de nossos filhos para usá-los como bucha de canhão na guerra e de nossos cantos coletivos para adulação. Se não fosse por isso, ficariam muito felizes de alimentar-nos com veneno de rato. Quando se retiram para seus recintos sagrados, mantidos ocultos ao público, falam com as frias palavras da manipulação, do poder e do privilégio, palavras que revelam sua visão de si mesmos como seres ‘diferenciados’ e especiais, situados além da moral e da lei.

A elite produziu poucos manuais sobre o poder. “A opinião pública” de Walter Lippmann, a obra de Leo Strauss e “A rebelião de Atlas” (Atlas Shrugged) da medíocre novelista Ayn Rand expressam o profundo desprezo da elite pelos sans-culottes. Esses escritores defendem a ideia de que as massas são incapazes de reagir racionalmente diante das complexidades do poder. Eles defendem o papel de uma reduzidíssima elite que controla o poder e usa habilmente a propaganda e os símbolos para, conforme Lippmann escreveu, “manufaturar o consenso”. Eles advogam que a elite dominante opere secretamente. Os sistemas de propaganda da elite são concebidos para amplificar a emoção e destruir a capacidade de pensar criticamente. Kafka tinha razão: O mundo moderno converteu o irracional em racional. 

“As massas têm sempre estado sob a influência das ilusões”, escreveu Gustave Le Bon, um dos primeiros pioneiros do estudo da psicologia de massas, acrescentando: “Quem possa fornecer-lhes ilusões será facilmente seu amo; quem tente destruir suas ilusões, será sempre sua vítima”.
Quanto mais acreditarmos nas mentiras que saturam as ondas eletromagnéticas, mais elogiaremos nossos “heróis” no Iraque ou no Afeganistão, mais militarizaremos os valores sociais e políticos, mais aterrorizados ficaremos, mais nos humilharemos implorando para sermos escravizados e maior será o desprezo das elites. Para essas elites, somos vermes. E temos que ser controlados, e em certos momentos, aplacados. Outras vezes, devemos ser reprimidos e até assassinados. Somos uma dor de cabeça. Nossa existência interfere com os privilégios da classe dominante.

“Aqueles que às pessoas lhe arrancaram os olhos, lhes recriminam sua cegueira”, escreveu John Milton.

Há poucos escritores e artistas que nos oferecem uma visão do coração escuro e corrupto do poder. Entre as exceções, o filme “A classe dirigente”, de 1972, uma comédia de humor negro baseada numa peça de Peter Barnes e a peça de Jean Genet “O balcão”. Igualmente, Noam Chomsky, Elias Canetti em “Massa e Poder”, C. Wright Mills em “A Elite do Poder”, Karl Marx em “O Capital”, Thomas Pynchon em “O Arco-íris da Gravidade”, Marcel Proust em “Em busca do tempo perdido” e Louis-Ferdinand Céline em “De Castelo em Castelo”. Todavia, as astutas explorações da patologia do poder estão sepultadas pela avalanche da cultura popular tipo Disney e pelos cantos nacionalistas. A elite tem um profundo medo de qualquer forma de arte, literatura, filosofia, poesia, teologia e teatro que desafie os pressupostos e as estruturas da autoridade. Essas disciplinas só podem ser apresentadas ao público através de formas distorcidas, empacotadas como banalidades, entretenimento ou trivialidades sentimentais celebrando sempre a hierarquia estabelecida. 

Em “O Arco-íris da Gravidade”, Pynchon retrata o Brigadeiro Ernest Pudding, comandante de uma unidade especial de operações psicológicas na Segunda Guerra Mundial e veterano da Primeira Guerra Mundial, como o representante arquetípico da elite. Pudding alcança a glória no campo de batalha em 1917, quando “conquista uma remota terra de ninguém, de não mais que 40 jardas, perdendo só 70% de sua unidade”. Ele tem uma série de encontros secretos com “a Senhora da noite”, nos quais ele se despe, beija as botas dela, é açoitado por ela, bebe a urina dela e come o excremento dela. Ele morre “de uma maciça infecção da bactéria E/ Coli”, resultado de seus rituais noturnos coprofágicos.

Peter Barnes retrata a mesma demência em “A classe dirigente”, na qual Ralph Gurney, o 13. conde de Gurney, se enforca acidentalmente em seu dormitório, vestindo um tutu, enquanto pratica jogos eróticos com uma corda no pescoço. Seu sucessor, Jack Gurney, acredita ser Deus e só fala de amor e caridade. Ninguém acredita nele. Chamam um psiquiatra para ajudá-lo a se adaptar a seu papel de representante da classe dirigente. Quando o psiquiatra termina o tratamento, Jack está curado de seu delírio de ser Deus. Agora, crê que é Jack, o estripador. Assume seu posto na Câmara dos Lordes. Denuncia os desempregados, os homossexuais e os socialistas. Defende Deus, a rainha e o país, assim como o castigo corporal e a pena de morte. Por debaixo do pano, assassina mulheres inocentes, inclusive sua esposa, e se converte em um respeitado membro da classe dominante.

Genet, como Pynchon e Barnes, equipara a cobiça de poder com a depravação sexual, ambientando “O Balcão” em um bordel. Os clientes usam as vestimentas do poder, entre elas a de um juiz, um bispo e um general. O “bispo”, que fora do bordel trabalha para uma companhia de gás, ouve as confissões das prostitutas e se deleita com o poder da absolvição. O “juiz” castiga com penas severas delitos triviais para manter a lei e a ordem. O “general”, que cavalga sobre sua prostituta como se ela fosse o seu cavalo, exige sacrifício pessoal, honra e glória para a pátria. Enquanto isso, um funcionário de banco, no bordel, deflora a Virgem Maria. E para além das portas do bordel está acontecendo uma revolução, na qual são assassinados os verdadeiros governantes, padres, generais e juízes. Os clientes saem do recinto do bordel junto com Irma, a madame, que é nomeada a nova rainha, e todos assumem na sociedade os papeis que antes apenas representavam, encabeçando a contrarrevolução. 

“Daqui a pouco precisarei começar tudo de novo… acendam novamente as luzes… vistam-se.. (ouve-se um galo cantar)… Vistam-se… ah! Os disfarces? Voltar a distribuir os papéis… assumir o meu… (detém-se no meio do palco, encarando a plateia.)

Preparem seus papéis… juízes, generais, bispos, camareiros, rebeldes que permitem que a rebelião se paralise. Vou preparar meus vestidos e meus salões para amanhã… E agora, vocês, voltem pra suas casas, onde tudo – vocês podem ter certeza – será mais falso que aqui… Vocês precisam ir embora, caiam fora agora… Saiam pela direita, por aquele beco. (Ela apaga a última luz.) Já está amanhecendo. (Ouve-se um crepitar de metralhadora.)

Para a elite, a única base reconhecida da autoridade política e moral é alcançar o sucesso material e o poder. Não importa como se consiga. As elites acreditam que a função da educação é nos treinar vocacionalmente para ocuparmos as posições que nos foram atribuídas e garantir uma adequada deferência para com os ricos. As disciplinas que nos estimulam a pensar são – e as elites cheias de desprezo não se enganam quanto a isso – “políticas”, “esquerdistas” ou “subversivas”. E as escolas e universidades de todo o país estão fazendo escassear essas disciplinas. As elites sabem, como escreveu Canetti, que quando paramos de pensar nos tornamos um rebanho. Reagimos diante de cada novo estímulo como se fôssemos ratos amontoados numa jaula. Quando as elites apertam o botão, pulamos. Isso é um sadomasoquismo coletivo. E teremos ocasião de vê-lo, de corpo inteiro, no Dia das Eleições.