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31 de julho de 2026

Reserve um momento para sentir a dor dos ricos

Antigamente, a opinião respeitável preocupava-se em distinguir os pobres "merecedores" daqueles "não merecedores". Hoje, à medida que cresce o sentimento contra os ultrarricos, a The Economist argumenta que são, na verdade, os bilionários que merecem nossa gratidão, solidariedade e proteção.

Danny Dorling

Jacobin

Sob qualquer definição razoável da palavra "fazer" [ou "construir"], ninguém "faz" um bilhão de dólares sozinho. Ninguém jamais o fez. A desigualdade extrema exige uma narrativa que a legitime. A The Economist tem o prazer de fornecer uma. (Chesnot / Getty Images)

Em 23 de junho de 2026, a The Economist publicou uma matéria sobre bilionários intitulada "A Ascensão dos Ricos Merecedores". A publicação alegava que "os bilionários de hoje têm mais probabilidade de ter construído sua própria fortuna do que os de antigamente". Essa afirmação é facilmente refutada. A questão mais interessante é: por que a revista se deu ao trabalho de publicá-la?

Sob qualquer definição razoável da palavra "fazer", ninguém "faz" o equivalente a um bilhão de dólares sozinho. Ninguém jamais o fez. Mas sempre houve pessoas que possuíam muito mais dinheiro do que outras. Para sustentar tal desigualdade, uma narrativa legitimadora é essencial. Mas será que os redatores anônimos da The Economist realmente acreditam no que estão escrevendo?

A penúltima frase do penúltimo parágrafo do artigo — descrito pela revista como uma "análise especializada" — afirma: "O Sr. [Elon] Musk construiu sua própria fortuna, o que é ótimo, mas ele não esconde seu desejo de influenciar eleições, tanto nos Estados Unidos quanto no exterior". Os autores sugerem, então, que talvez as doações a partidos políticos devessem ser limitadas, em vez de se tributar excessivamente os bilionários. Vale a pena perguntar: quem está contando essa história e por quê?

Os ganhos da riqueza

Após mencionar um número ínfimo de mulheres bilionárias — sem ressaltar o quão raras elas são —, recorre-se ao clichê habitual de citar alguns dos jogadores de futebol homens mais ricos do mundo, como se a capacidade de Elon Musk de acumular uma riqueza astronômica fosse, de alguma forma, comparável à habilidade de chutar uma bola. No entanto, existe uma conexão que os analistas especializados não mencionam.

A "remuneração" dos jogadores de futebol internacionais contemporâneos tem relativamente pouco a ver apenas com o talento deles. Eles jogam em um momento em que o futebol se tornou mais monetizado do que em qualquer outra fase de sua história. Se fossem igualmente brilhantes há um século, teriam recebido uma ninharia. São os contratos de televisão, a dimensão da audiência global e os contadores que tornam alguns jogadores de futebol tão ricos hoje em dia.

A ideia de que um talento extraordinário merece uma remuneração extraordinária é a nossa justificativa moderna para um mito cada vez mais desgastado sobre a desigualdade. O que parece ter levado a The Economist a agir é a crescente oposição a esse mito. O artigo observa que, em 2026, e-mails de arrecadação de fundos de políticos do Partido Democrata nos Estados Unidos tinham três vezes mais chances de criticar duramente os bilionários do que em 2024. Algo está mudando rapidamente.

Os redatores da The Economist criaram sua própria classificação para cerca de 7.000 bilionários analisados ​​desde 2001, a fim de afirmar que, "pela primeira vez, metade da riqueza dos bilionários do mundo foi obtida de forma razoavelmente justa". O advérbio "razoavelmente" desempenha um papel crucial aqui. Aparentemente, acumular um bilhão é considerado "razoável" desde que o dinheiro não provenha de jogos de azar, construção civil, indústria de defesa ou mineração. O raciocínio da revista é que esses setores frequentemente exigem "acesso político", sugerindo que a corrupção desempenhou um papel importante. Nas palavras dos próprios "analistas especializados": "É difícil abrir uma mina ou um cassino, por exemplo, sem ter amigos no governo".

Elogiando os herdeiros de grandes fortunas

Quase todos os bilionários jamais sujaram as mãos de verdade. Poucos saberiam programar sequer o software mais básico utilizado por suas empresas ou montar e conectar as peças de uma pequena parte de uma máquina. Seus talentos costumam residir em outras áreas: gestão financeira rigorosa, negociação de acordos, autopromoção e uma postura implacável. Mesmo aqueles que se autodenominam "self-made" (que construíram a própria fortuna) frequentemente se beneficiam de heranças substanciais, credenciais educacionais de elite, segurança para assumir riscos e conexões sociais exclusivas, inacessíveis às pessoas comuns.

Elogiar bilionários é um pouco como exaltar os reis e rainhas de outrora, ou os sumos sacerdotes, faraós e imperadores que os antecederam. Essas figuras eram outrora veneradas, e narrativas elaboradas eram construídas em torno delas, exaltando sua grandeza independentemente de quão insanas, perversas ou incapazes pudessem ter sido — ou ainda sejam.

A ideia de que um talento extraordinário merece uma remuneração extraordinária é a nossa justificativa moderna para um mito cada vez mais desgastado sobre a desigualdade.

As sociedades criam posições que precisam ser ocupadas por figuras de destaque, e alguém invariavelmente as preencherá. O interessante é quando as histórias que sustentam essas figuras começam a perder o brilho. É frequentemente nesse momento que a mudança se aproxima e a sociedade evolui para algo novo.

A revista The Economist analisa a mudança na composição da classe dos bilionários para sugerir que o sistema está se tornando mais meritocrático e robusto. Segundo seus cálculos, cerca de metade de toda a riqueza dos bilionários provinha diretamente de heranças no início dos anos 2000; mais recentemente, essa proporção caiu para um quarto. No entanto, esse declínio parece refletir a redução da concentração de bilionários nos Estados Unidos e na Europa — à medida que fortunas gigantescas crescem em outras partes do mundo —, paralelamente ao crescimento corporativo e à valorização dos ativos.

Os muito ricos tornam-se ainda mais ricos quando o restante de nós está menos organizado. À medida que os EUA e a Europa perdem importância econômica e a Ásia ascende, a composição e a geografia da riqueza dos bilionários estão se transformando. Ao tentar explicar o aparente aumento da riqueza "merecida", a revista observa que empresas ao redor do mundo proporcionaram retornos anuais médios de 13% aos acionistas. Como a The Economist reconhece, grande parte do aumento da riqueza dos bilionários provém de participações em empresas distintas daquelas às quais esses bilionários estão diretamente associados. A revista não vê qualquer relação entre esse aumento na geração de lucros e a crise global do custo de vida que afeta a grande maioria das pessoas; em vez disso, classifica a situação como uma “crise de acessibilidade” e a reduz a “alguns anos de inflação elevada prejudicando o padrão de vida”.

A existência de bilionários não é inevitável

Em certo ponto, o artigo admite que a democracia poderia funcionar melhor com menos influência de bilionários. No entanto, se a democracia realmente funcionasse melhor, não teríamos bilionários. Não há argumentos convincentes que justifiquem permitir que alguém acumule tanta riqueza e, consequentemente, tanto poder sobre a vida de outras pessoas. Mas a democracia recebe poucos elogios neste artigo. Em vez disso, os louvores são reservados aos acumuladores de dinheiro que, segundo nos dizem, mantêm o mundo moderno em movimento.

Curiosamente, o lugar que registrou um dos maiores aumentos no número de bilionários nos últimos anos foi a China. É também um dos poucos países do mundo onde o governo assumiu um papel ativo na contenção do crescimento da riqueza dos bilionários. A The Economist menciona a repressão de Pequim aos jogos de azar em Macau — o que prejudicou alguns bilionários do setor de cassinos — e a queda na fortuna de um incorporador imobiliário chinês, de US$ 21 bilhões em 2017 para cerca de US$ 4 bilhões atualmente. A publicação também observa que muitos bilionários chineses só recentemente ingressaram na faixa de riqueza bilionária.

É pouco provável que o governo chinês celebre a concentração de renda em sua economia, que ainda está em expansão. Também é improvável que aceite a conclusão da The Economist de que "uma parcela maior de bilionários atuais impulsiona o crescimento do emprego e ganhos de produtividade" e que essa concentração de riqueza "aumenta o custo econômico de perdê-los" caso eles "decidam ir embora ou trabalhar menos para evitar a tributação".

A ideia de que um número reduzido de pessoas extraordinariamente ricas é a razão pela qual existem mais empregos em certos lugares, ou de que os trabalhadores se tornam mais produtivos devido à existência de bilionários, seria ridícula se não fosse propagada com tanta seriedade e desespero nos dias de hoje. A implicação parece ser a de que sociedades democráticas não conseguem conter o poder dos bilionários. O exemplo da China não prova o contrário — visto que o número de novos bilionários cresceu rapidamente —, mas demonstra, pelo menos, que a quantidade de bilhões que cada um pode vir a acumular é uma escolha política, e não uma inevitabilidade.

Taquígrafos da classe dominante

A The Economist pertence a famílias ricas, a maioria das quais possui fortunas avaliadas em bilhões. Entre seus maiores acionistas estão a família Agnelli (com patrimônio superior a US$ 20 bilhões) e a família Smith, por meio da Smith Financial Corporation (avaliada em cerca de £ 7 bilhões). Outras famílias muito ricas, incluindo os Cadbury e os Schröder, também detêm participações significativas.

Por que famílias muito ricas patrocinariam e moldariam a linha editorial de uma revista chamada The Economist? Uma resposta pode ser encontrada em artigos como The rise of the deserving rich. Em um momento em que os muito ricos estão sob crescente escrutínio público, a revista optou por produzir um texto em defesa dos bilionários.

O artigo começa observando que "bilionários nunca foram exatamente populares, mas hoje são detestados", acrescentando que é comum ouvir que "todo bilionário representa uma falha nas políticas públicas". A The Economist foi fundada há 180 anos por um banqueiro e empresário. Ela sempre defendeu uma visão de mundo econômica específica, voltada para um público também específico. Hoje, à medida que o liberalismo econômico enfrenta críticas renovadas e vigorosas, a revista respondeu com uma defesa dos ricos. A própria necessidade de elaborar tal defesa é reveladora.

O título, "deserving rich", é, por si só, uma inversão reveladora da antiga distinção entre os "pobres merecedores" e os "pobres não merecedores". Os pobres merecedores eram considerados bem-comportados e suficientemente trabalhadores para fazer jus a algumas moedas para sobreviver; os pobres não merecedores eram confinados em workhouses.

Para aqueles que possuem grandes riquezas, argumentos a favor de uma maior igualdade econômica podem parecer uma forma de opressão. Os ricos temem ser vistos cada vez mais como não merecedores e receiam acabar, um dia, no equivalente a um asilo de trabalho. O artigo sugere que eles são, na verdade, dignos de compreensão e proteção. Por meio de publicações que possuem ou influenciam, os ricos não pedem apenas nossa compreensão e pena, mas também nossa gratidão, nossa empatia e, em última análise, nossa contínua subserviência. Seus apelos estridentes e parciais revelam a fragilidade de seus argumentos.

Colaborador

Danny Dorling é professor de geografia humana na Universidade de Oxford. Seu livro mais recente é Seven Children: Inequality and Britain's Next Generation, a ser publicado no Reino Unido e nos Estados Unidos no outono de 2024 pelas editoras Hurst e Oxford University Press.

28 de janeiro de 2026

O Vale do Silício quer transformar a Groenlândia em uma distopia libertária

A tentativa de Donald Trump de adquirir a Groenlândia alienou muitos aliados de longa data. Mas também despertou o interesse de um grupo de bilionários da tecnologia que veem a ilha como um potencial laboratório para "cidades da liberdade", ou seja, zonas governadas de forma privada, sem regulamentação ou democracia.

Abe Asher


Uma obra de arte intitulada Trump, do artista groenlandês Kristian "Keto" Christiansen, retratando o presidente dos EUA, Donald Trump, usando óculos de neve e roupas tradicionais da Groenlândia enquanto extrai minerais com um remo de caiaque, está exposta em uma vitrine em 30 de março de 2025, em Nuuk, Groenlândia. (Leon Neal / Getty Images)

Desde o início do ano, as tensões sobre o futuro da Groenlândia aumentaram o risco de um confronto militar entre os Estados Unidos e seus aliados da OTAN, embora todas as partes afirmem querer evitar a guerra. Em janeiro, vários membros europeus da OTAN enviaram pequenos contingentes militares ao território semiautônomo dinamarquês para o que descreveram como uma missão de reconhecimento e exercício conjunto, que o diplomata francês Olivier Poivre d’Arvor caracterizou como um “primeiro exercício” com o intuito de sinalizar que “a OTAN está presente”, frente as ameaças de tomada de controle por parte dos EUA.

Essas movimentações de destacamentos europeus para Nuuk, capital da Groenlândia (com uma população de aproximadamente 20.000 habitantes), e seus arredores, ocorreram após uma reunião na Casa Branca em 14 de janeiro entre o vice-presidente dos EUA, JD Vance, e os ministros das Relações Exteriores da Groenlândia e da Dinamarca. Depois disso, o ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Lars Løkke Rasmussen, afirmou que ainda havia um “desacordo fundamental” com o governo Trump sobre o status do território e rejeitou qualquer aquisição da Groenlândia pelos EUA como sendo algo “totalmente inaceitável”.

Poder-se-ia imaginar que o governo Trump — já ocupado com a supervisão da invasão das Cidades Gêmeas (Minneapolis e St. Paul) pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), apertando o cerco às reservas de petróleo da Venezuela e ameaçando o Irã —tivesse problemas mais do que suficientes no início de 2026. No entanto, mesmo após recuar na discussão aberta sobre o uso da força militar para tomar a Groenlândia, o governo continuou a insistir em sua campanha para colocar a ilha sob controle dos EUA, apesar das objeções de aliados ocidentais de longa data, de alguns senadores republicanos, da grande maioria dos estadunidenses e de uma parcela ainda maior dos groenlandeses.

Mas isso não significa que Donald Trump não tenha aliados nessa questão. Nos bastidores, uma coalizão de bilionários do Vale do Silício apoia a tomada de poder. Sua motivação é que eles veem a Groenlândia como um local potencial para uma “cidade libertária” praticamente sem regulamentação, que serviria como um laboratório para sua visão de governança sem democracia.

Bilionários de olho na Groenlândia

A aquisição da Groenlândia é um dos projetos preferidos de Trump há muito tempo, ideia que ele cogitou pela primeira vez em 2019. Naquela época, apesar da insistência de Trump de que adquirir a ilha seria tão simples quanto fazer “um grande negócio imobiliário”, a proposta foi amplamente ridicularizada como absurda e não prosperou. Dessa vez, no entanto, Trump parece estar falando sério — e os líderes europeus estão soando o alarme. O primeiro-ministro polonês, Donald Tusk, um conservador cujo país não aderiu ao destacamento de tropas europeias no início deste mês, afirmou que qualquer tentativa estadunidense de anexar a Groenlândia “seria o fim do mundo como o conhecemos”.

As raízes da aparente obsessão de Trump com a aquisição da Groenlândia não são, à primeira vista, totalmente claras. É provável que Trump esteja ciente de que, caso os Estados Unidos incorporem a Groenlândia ao seu império, essa seria a maior aquisição territorial da história estadunidense — uma perspectiva que pode apelar para seus impulsos imperialistas. Ele também enquadrou a potencial aquisição da Groenlândia como uma questão de segurança nacional, e não está sozinho nessa análise: a posição da ilha entre a Europa e a América do Norte há muito mexe com os EUA, e, à medida que a Groenlândia aquece rapidamente devido aos efeitos das mudanças climáticas, torna-se cada vez mais capaz de acomodar o tráfego marítimo internacional e, consequentemente, um alvo crescente para a mineração em terras raras.

É essa última possibilidade que talvez seja a mais tentadora para os membros do círculo íntimo de Trump e para os oligarcas da tecnologia que ocuparam lugares de destaque em sua posse no ano passado. Membros desse grupo de elite já têm os olhos voltados para a Groenlândia há algum tempo. Jeff Bezos, Sam Altman e Bill Gates investiram na KoBold Metals, uma empresa que usa inteligência artificial para buscar minerais raros, um projeto de 2022 para procurar minerais para baterias no oeste da Groenlândia. A Forbes identificou outros aliados de Trump, incluindo o herdeiro da Estée Lauder, Ronald Lauder, e o secretário de comércio, Howard Lutnick, que têm ou tiveram extensos laços comerciais com a ilha.

A visão de Brown para a Groenlândia inclui chuva artificial no verão, dias de inverno artificialmente prolongados pela reflexão da luz solar no terreno congelado e "propriedade" baseada em um "Estado de carta privada" representado por meio de símbolos.

De fato, segundo o ex-conselheiro de segurança nacional John Bolton, foi Lauder quem primeiro despertou o interesse de Trump em adquirir a Groenlândia em 2018. Lauder, que estudou administração com Trump, tem aumentado seus investimentos na ilha: o jornal dinamarquês Politiken noticiou no final do ano passado que Lauder adquiriu participação em duas empresas groenlandesas, uma que vende água mineral extraída de uma ilha na costa oeste da Groenlândia e outra que tenta gerar energia hidrelétrica no maior lago da ilha.

Em fevereiro passado, pouco depois de Trump assumir o cargo pela segunda vez, Lauder usou as páginas do New York Post para defender o interesse de Trump na Groenlândia como friamente “estratégico” — escrevendo que sob o “gelo e as rochas” da ilha jaz “um tesouro de elementos de terras raras essenciais para IA, armamento avançado e tecnologia moderna”. Lauder também observou no artigo que os groenlandeses poderiam realizar um referendo de independência “a qualquer momento”, o que significa que os Estados Unidos têm uma “janela estreita para fortalecer os laços antes que outras potências entrem em cena”.

Lauder poderia se beneficiar enormemente se os EUA adquirissem a Groenlândia, assim como Bezos. Mas talvez os maiores defensores do esforço estadunidense para assumir o controle da Groenlândia sejam os proponentes do movimento de Estados em rede, uma iniciativa que visa criar uma série de zonas econômicas não regulamentadas que possam ser administradas sem a interferência da governança de um Estado-nação.

O movimento do Estado em rede

Em agosto do ano passado, a Reuters noticiou que um grupo de elite do Vale do Silício estava pressionando o governo Trump para que considerasse a Groenlândia como possível sede de um Estado em rede ou cidade “libertária” — um centro praticamente não regulamentado para “inteligência artificial, veículos autônomos, lançamentos espaciais, microreatores nucleares e trens de alta velocidade”.

Os detalhes sobre como esse centro seria construído ou onde exatamente ele seria localizado ainda são escassos, mas os principais atores do movimento do Estado em rede estão bem posicionados em relação ao governo Trump para torná-lo realidade.

Peter Thiel, o bilionário cofundador do PayPal e da Palantir, tem sido um dos principais defensores do modelo de Estado em rede por quase duas décadas. Há cinco anos, a Pronomos Capital, uma empresa de desenvolvimento urbano apoiada por Thiel, investiu na Praxis, fundada por Dryden Brown, um ex-analista de fundos de hedge e ex-aluno da Universidade de Nova York. O objetivo da Praxis era construir uma nova cidade-modelo do zero, atraindo capital de risco e figuras importantes dos mundos da tecnologia e das finanças. Brown, para dar uma breve ideia das tendências políticas do movimento, teria dito a um redator de discursos que teve a ideia para a Praxis depois de ver manifestantes quebrando vitrines no SoHo após o assassinato de George Floyd pela polícia e, posteriormente, teria incentivado sua equipe a ler a obra do escritor italiano fascista Julius Evola.

Inicialmente, a Praxis tinha como objetivo construir sua reluzente cidade no Mediterrâneo, mas rapidamente voltou seus olhos para o norte. Uma semana após a reeleição de Trump para a presidência em 2024, Brown publicou na plataforma de mídia social X que acabara de voltar da Groenlândia em uma viagem de reconhecimento para a Praxis — que se autodenomina, sem qualquer traço de ironia, como “o futuro da civilização ocidental”.

"A Groenlândia é uma verdadeira fronteira", escreveu Brown. "É um lugar inóspito. Se a humanidade pretende construir a Estação Espacial Internacional em Marte, deveríamos treinar na Groenlândia. Ela pode servir como um campo de testes para experimentos de terraformação, financiados pela exploração de seu potencial como um polo industrial e de mineração."

A visão fantástica de Brown para o futuro da Groenlândia inclui chuva artificial no verão, dias de inverno artificialmente prolongados pela reflexão da luz solar no terreno congelado, um novo fundo soberano e a “propriedade” baseada em um “Estado de carta privada” representado por fichas. Brown sugeriu que seria do interesse dos Estados Unidos apoiar a criação desse Estado em rede como parte de uma “Nova Doutrina Monroe”, que projetaria o “poder cultural, econômico e político” estadunidense.

O ceticismo ou a hostilidade declarada em relação à democracia é uma das características mais marcantes do movimento das cidades da liberdade.

Thiel é apenas um dos apoiadores notáveis ​​de Brown. A Praxis também conta com o apoio de empresas ligadas a Altman, Marc Andreessen e ao pioneiro das criptomoedas, Sam Bankman-Fried, que caiu em desgraça, e pode até ter um aliado dentro do governo: Ken Howery, cofundador do PayPal e de uma empresa de capital de risco com Thiel, que atua desde outubro do ano passado como embaixador dos EUA na Dinamarca. Segundo relatos, sua nomeação foi motivada pela expectativa de que ele liderasse as negociações para a aquisição da Groenlândia. Elon Musk, outra figura-chave na fundação do PayPal e outro defensor do Estado em rede, compartilha do mesmo entusiasmo.

A beligerância imperial de Trump não pode ser subestimada. Mas seria um erro ignorar como essas aspirações pessoais se alinham aos interesses da direita tecnológica que entrou em sua órbita em 2024 e o ajudou a chegar à presidência.

"Liberdade" contra a democracia

A influência do movimento dos Estados em rede na abordagem da administração Trump à sua política externa cada vez mais belicosa não se limita à Groenlândia. Não é coincidência que essa visão, impulsionada pela Praxis, de uma cidade libertária na Groenlândia se assemelhe tanto ao plano da administração Trump para Gaza. Ambos os espaços existem no imaginário da administração trumpista e de seus aliados do Vale do Silício como uma espécie de terra nullius — Gaza porque foi tão convenientemente arrasada pelos militares israelenses após o 7 de outubro, e a Groenlândia porque é tão pouco povoada.

O primeiro grande plano da administração Trump para o futuro pós-genocídio de Gaza propôs transformar a Faixa em “um centro mediterrâneo para manufatura, comércio, dados e turismo, beneficiando-se de sua localização estratégica, acesso a mercados (Europa, Conselho de Cooperação do Golfo [CCG], Ásia), recursos e uma força de trabalho jovem, tudo isso apoiado por investimentos israelenses em tecnologia e do CCG”. Gaza não está sendo reimaginada como um Estado totalmente livre e privado, mas a visão da administração Trump para o seu futuro foi claramente moldada pelo movimento das cidades libertárias: não inclui o direito à autodeterminação nem a democracia para o povo palestino, apenas a extração de recursos sem regulamentação, o livre comércio e a submissão aos interesses dos Estados Unidos, de Israel e dos países do Golfo.

O ceticismo ou a hostilidade declarada em relação à democracia é uma das características mais marcantes do movimento das cidades libertárias. Já em 2009, Thiel escrevia sobre sua crença de que liberdade e democracia não são “compatíveis”. O objetivo, escreveu Thiel naquele ensaio para a revista Cato Unbound, não era conquistar apoio popular para sua visão libertária, mas sim escapar completamente do processo político: “Como não existem mais lugares verdadeiramente livres em nosso mundo, suspeito que a maneira de escapar deva envolver algum tipo de processo novo e até então inédito que nos leve a algum país desconhecido”, escreveu Thiel, “e por essa razão tenho concentrado meus esforços em novas tecnologias que possam criar um novo espaço para a liberdade”.

Thiel cumpriu sua palavra. Ele investiu bem mais de US$ 1 milhão em um instituto que acabou fracassando em sua tentativa de construir uma “utopia libertária” nas ilhas da Polinésia Francesa, antes de sua empresa investir pesado na Praxis. A Pronomos também investe na Próspera, um Estado-rede na ilha de Roatán, em Honduras, e na Itana, um Estado-rede em desenvolvimento na Nigéria.

Há uma certa ironia no fato de o governo Trump parecer tão favorável a um projeto que, em última análise, visa abandonar completamente os Estados-nação. O governo parece disposto a usar todo o peso do Estado estadunidense para servir aos objetivos econômicos e às fantasias coloniais dos super-ricos do Vale do Silício, mesmo que esses objetivos e fantasias estejam apenas parcialmente alinhados com os objetivos e ambições dos próprios Estados Unidos. Van Jackson escreveu que a geopolítica do movimento dos Estados em rede se preocupa em “instrumentalizar o poder estatal para desafiar a forma estatal”, uma formulação útil para entender por que Trump prometeu construir cidades libertárias em terras federais dentro dos EUA durante sua campanha de 2024.

O objetivo do governo Trump, apoiado por seus aliados no Vale do Silício, é confiscar terras e recursos e distribuir os lucros diretamente ao capital privado. Vestígios dessa abordagem são evidentes na incursão contínua do governo na Venezuela, onde os Estados Unidos confiscaram e começaram a vender as reservas de petróleo do país, depositando os lucros em uma série de contas bancárias controladas pelos EUA, incluindo uma conta principal localizada no Catar. Trump também firmou um acordo com a Ucrânia para ter acesso preferencial à extração mineral no país e a uma série de outros recursos naturais em troca do apoio contínuo dos Estados Unidos em seu conflito com a Rússia.

Agora, mais de sete anos depois de Lauder ter despertado o interesse de Trump, a Groenlândia tornou-se o foco do presidente. Os groenlandeses, que nunca desfrutaram de plena independência política, encontram-se numa posição difícil: à medida que a intensificação das alterações climáticas põe em risco a sua indústria pesqueira e os seus modos de vida, torna também a extração dos minerais de terras raras e da água potável da Groenlândia uma possibilidade sedutora. Para os bilionários dentro e fora dos altos cargos eletivos, a Groenlândia é imaginada como uma fronteira, um espaço que, nas palavras de Quinn Slobodian, existe para ser “cercado e convertido em propriedade privada” e servir de laboratório para experiências distópicas de governança libertária.

O destino dos habitantes da Groenlândia, dos estadunidenses, da ordem internacional liberal em ruínas ou da saúde futura do planeta não é uma grande preocupação para Trump e seus apoiadores do Vale do Silício. Eles parecem se importar pouco com a ordem internacional vigente ou com a soberania de outras nações em geral, e não se interessam pelo destino de quem não possui milhões de dólares em patrimônio pessoal ou capital inicial. Acreditam apenas em enriquecer a si mesmos e, ao que parece, em estabelecer um novo tipo de infraestrutura estatal para eliminar até mesmo as menores restrições ao seu poder. Se tudo der errado, não há motivo para temer — os líderes do movimento sempre podem se refugiar em seus abrigos antiaéreos.

Colaborador

Abe Asher é um jornalista cujas reportagens sobre política, movimentos sociais e clima foram publicadas em veículos como The Nation, VICE News, Portland Mercury e outros.

14 de janeiro de 2026

Grupos de extrema-direita que financiam campanhas políticas obscuras desejam a mudança de regime no Irã

Enquanto Donald Trump ameaça um ataque militar ao Irã, grupos conservadores obscuros que trabalham para enfraquecer as proteções ao consumidor e restringir o direito ao aborto também têm investido milhões em influentes "centros de estudos" que defendem a mudança de regime no país.

Freddy Brewster

Jacobin

A Donors Trust, um grupo de financiamento obscuro com fortes ligações ao estrategista da Suprema Corte Leonard Leo, doou mais de US$ 2,7 milhões ao Centro de Política de Segurança, de extrema-direita e anti-islâmico, entre 2020 e 2023. (Nordin Catic / Getty Images para a Cambridge Union)

Enquanto o presidente Donald Trump arrasta o país para um confronto com o Irã, grupos conservadores obscuros, que trabalham para desmantelar as proteções ao consumidor, cortar drasticamente as políticas climáticas, restringir o direito ao aborto e impulsionar os Estados Unidos para a extrema direita, também têm investido milhões em influentes think tanks que defendem a mudança de regime no país. Embora as tentativas de derrubar o governo iraniano possam acarretar instabilidade prolongada e derramamento de sangue na região, esses esforços podem agradar aos bilionários neoconservadores e beneficiar os interesses dos combustíveis fósseis que canalizam dinheiro obscuro para os think tanks.

A Donors Trust, uma organização de financiamento obscuro com fortes laços com Leonard Leo, figura influente na Suprema Corte, doou mais de US$ 2,7 milhões ao Centro de Política de Segurança, de extrema direita e anti-islâmico, entre 2020 e 2023. Uma parcela significativa desse financiamento obscuro de Leo veio de uma doação recorde de US$ 1,6 bilhão de Barre Seid, um bilionário conservador e pró-Israel que, segundo relatos, ajudou a financiar o filme anti-Irã “Obsession: Radical Islam’s War With the West” [Obsessão: A Guerra do Islã Radical com o Ocidente].

Durante o mesmo período, a Fundação para a Defesa das Democracias, um think tank anti-Irã, recebeu mais de US$ 1,6 milhão da Fundação Sarah Scaife, um dos grupos conservadores mais poderosos do país. A Fundação Sarah Scaife, uma das principais financiadoras do Projeto 2025, um plano para a reformulação do governo, é financiada pela fortuna da família Mellon, ligada ao petróleo e ao setor bancário. Um governo iraniano mais engajado internacionalmente e livre das sanções americanas poderia levar a um maior desenvolvimento das vastas reservas de petróleo do país, mas especialistas afirmam que uma tentativa de mudança de regime poderia resultar em muita violência e instabilidade na região.

Isso não impediu que esses think tanks financiados por dinheiro obscuro continuassem a brandir seus tambores. A Fundação para a Defesa das Democracias — que emprega ex-assessores de linha dura em relação ao Irã dos governos Trump e George W. Bush e trabalhou com o Departamento de Estado de Trump em 2018 em um projeto de “desinformação sobre o Irã” — defendeu que a população iraniana “aproveite este momento” e derrube o governo atual.

E o Centro de Política de Segurança — apoiado por fabricantes de armas, incluindo o fabricante das bombas “destruidoras de bunkers” que Trump lançou contra as instalações nucleares do Irã, e fundado por um ex-funcionário de Ronald Reagan que pressionou por uma investigação nos moldes da de Joseph McCarthy sobre a suposta infiltração jihadista no governo dos EUA — também está incentivando as hostilidades. Em recentes noticiários e artigos, membros do think tank alegaram que o Irã coordenou com cartéis mexicanos para “realizar ataques em solo americano” e possui mísseis balísticos que “podem atingir os Estados Unidos”.

“Felizmente”, escreveu um dos funcionários, “podemos confiar que o presidente Trump tomará as medidas corretas no momento apropriado para proteger os Estados Unidos.”

Este artigo foi publicado originalmente pela Lever, uma redação investigativa independente premiada.

Colaborador

Freddy Brewster é um repórter freelance e foi publicado no Los Angeles Times, NBC News, CalMatters, Lost Coast Outpost e outros veículos em toda a Califórnia.

1 de dezembro de 2025

A classe dominante é inalcançável

Se a reabilitação de Dick Cheney, um crítico ferrenho de Trump, serve de exemplo, a carreira pública de Larry Summers está longe de terminar — apesar não só de suas ligações com Jeffrey Epstein, mas também de seu papel fundamental na devastação da classe trabalhadora americana.

David Sirota

Jacobin

Larry Summers conseguiu devastar a classe trabalhadora americana e ainda manter todas as suas credenciais acadêmicas, midiáticas, corporativas e políticas de prestígio, o que lhe dava poucos motivos para acreditar que enfrentaria consequências por sua amizade com Jeffrey Epstein. (Andrew Harrer / Bloomberg via Getty Images)

O sistema de impunidade das elites americanas é mais complexo do que a velha piada de George Carlin sobre um clube com benefícios para membros. O sistema tem regras não escritas que aprendemos muito recentemente, graças à (momentânea) morte política do ex-secretário do Tesouro Larry Summers e à morte real do ex-vice-presidente Dick Cheney.

Como secretário do Tesouro do presidente Bill Clinton, Summers arquitetou a desregulamentação que criou a crise financeira de 2008 e, posteriormente, como conselheiro econômico do presidente Barack Obama, garantiu que o plano de resgate pós-crise priorizasse os banqueiros que despejavam milhões de americanos de suas casas.

Essas decisões deveriam ter encerrado a carreira pública de Summers, mas não o fizeram. Em vez disso, ele foi recompensado com a presidência da Universidade Harvard; espaços no New York Times e na Bloomberg; cargos em um fundo de hedge, uma gigante da inteligência artificial e uma empresa de criptomoedas; e uma distinta bolsa de pesquisa sênior no Center for American Progress, onde estava previsto que ele moldaria a agenda dos democratas.

Summers só agora renunciou a alguns desses cargos após as últimas revelações sobre seus vínculos com o criminoso sexual condenado Jeffrey Epstein.

Sua queda nos mostra que o sistema de impunidade das elites americanas adotou pelo menos uma nova regra para seus membros: por enquanto, provavelmente não é possível permanecer no clube e ter um registro escrito pedindo conselhos ao dono da Ilha do Estupro sobre como conseguir sexo extraconjugal. Essa é uma mudança significativa, considerando que, há apenas alguns meses, o jornal oficial do clube ainda insistia que Epstein "tinha muitos amigos poderosos, era um predador e um pedófilo, e que esses lados de sua vida eram, em sua maioria, separados".

Mas a situação de Summers também nos lembra que, nos Estados Unidos, as elites conseguem manter sua filiação ao clube mesmo que tenham praticado formas mais polidas e lucrativas de destruição social — coisas como execuções hipotecárias em massa e a pilhagem da classe trabalhadora. E é justo suspeitar que a cultura da impunidade das elites possa até ter incentivado a amizade de Summers com Epstein. Afinal, Summers conseguiu devastar a classe trabalhadora americana e ainda manter todas as suas credenciais acadêmicas, midiáticas, corporativas e políticas de prestígio, o que lhe dava poucos motivos para acreditar que enfrentaria consequências por se associar a um criminoso sexual condenado e bem relacionado.

Cheney oferece uma lição semelhante sobre a impunidade da elite, do outro lado do espectro político. Durante grande parte das quase duas décadas desde que deixou o cargo, sua participação no clube pareceu estar em risco. Depois de enganar os Estados Unidos para a Guerra do Iraque e orquestrar as usurpações de poder do Executivo que agora estão sendo utilizadas pelo presidente Donald Trump, ele passou os primeiros anos de seu mandato pós-vice-presidência fomentando a extrema direita e elogiando o precursor do movimento "Make America Great Again" de Trump. Depois disso, ele meio que desapareceu. Por um tempo, pareceu que até mesmo a sociedade educada havia perdido o interesse por um supervilão que gostava de ser comparado a Darth Vader.

Mas quando, perto do fim da vida, Cheney emergiu do exílio político para defender a vaga de sua filha no Congresso e criticar Trump, foi calorosamente recebido de volta ao clube. Sua corrupção, crimes de guerra e legado autoritário foram em grande parte perdoados, ele recebeu todos os direitos e privilégios de um membro em dia com suas obrigações e foi homenageado postumamente pelos líderes do clube como um “servidor público devotado”.

Ele percorreu o ciclo de vida de Vader: após comandar um projeto imperial banhado em sangue, seu gesto heroico de última hora lhe garantiu honra eterna.

Enquanto o fantasma de Cheney agora brilha como Anakin Skywalker, os Estados Unidos veem os dois níveis de sua própria sociedade. Em um país cujos líderes bradam sobre “lei e ordem” e não demonstram misericórdia para as pequenas indiscrições dos cidadãos comuns, o sistema à parte de impunidade da elite garante que a ficha possa sempre ser zerada para os antigos membros do clube. Independentemente de suas transgressões, membros do passado são sempre potenciais membros futuros, cujas chances de beatificação são como um zumbi de filme B: nunca mortos, apenas adormecidos.

Essa verdade provavelmente conforta Summers neste momento. Se o passado é prelúdio, ele pode olhar para o futuro e ver o inevitável perfil do New York Times mais uma vez reabilitando um membro do clube em desgraça, preparando o terreno para um retorno inevitável.

O artigo elogioso de Summers provavelmente o retratará como um espectador injustiçado no caso Epstein. É uma narrativa que já está sendo preparada hoje por David Brooks, do New York Times. Ele insiste que a pressão para expor o escândalo Epstein — e não a rede de predadores sexuais e a subsequente tentativa de encobrimento — está "minando a confiança pública e semeando o cinismo". Brooks declara que os ataques à "classe Epstein" de elites são "imprecisos, injustos e irresponsáveis".

Esse tipo de propaganda elitista só ficará mais forte à medida que nos aproximamos de uma apuração completa do escândalo Epstein. Isso pode acabar retratando Summers como uma vítima e, em última análise, garantir a ele seu próprio momento Cheney, permitindo que ele retorne à sociedade civilizada.

Mas nós, os demais, sabemos que as vítimas não são Summers nem ninguém mais no clube — as verdadeiras vítimas somos nós, os demais, ainda governados por uma elite que não enfrenta dissuasão ou consequências por seus piores comportamentos.

Este artigo foi publicado originalmente pelo Lever, uma premiada redação investigativa independente.

Colaborador

David Sirota é editor-chefe da Jacobin. Ele edita a seção Lever e anteriormente atuou como consultor sênior e redator de discursos na campanha presidencial de Bernie Sanders em 2020.

17 de novembro de 2025

Donald Trump, Jeffrey Epstein e Israel

Sabemos que Donald Trump era extremamente próximo de Jeffrey Epstein, um abusador sexual infantil incrivelmente prolífico. Mas revelações recentes levantam outra questão: a associação de Trump com Epstein foi usada por Israel para obter influência política e afetar a política dos EUA?

Branko Marcetic


Não há dúvida de que Donald Trump e seus apoiadores mais fanáticos encontrarão alguma maneira tortuosa de mentir para si mesmos sobre esta mais recente evidência condenatória de seus laços com Epstein. (Davidoff Studios / Getty Images)

Com as últimas revelações sobre Jeffrey Epstein, é fácil se perder em meio a tantos detalhes. Há tanta coisa interessante e escandalosa no lote de mais de 20.000 e-mails divulgados na semana passada pelo Comitê de Supervisão e Reforma Governamental da Câmara que você pode se pegar pensando: “Espera aí, por que tudo isso importa mesmo?”

Obviamente, trata-se da conduta pessoal vergonhosa do próprio presidente. Não há dúvida de que Donald Trump e seus apoiadores mais fanáticos encontrarão alguma maneira tortuosa de se enganar sobre esta mais recente evidência condenatória de seus laços com Epstein, assim como fizeram com a estranha e assustadora carta que ele escreveu para Epstein em seu quinquagésimo aniversário, ou com a reviravolta orwelliana de seu governo ao divulgar o que tinham sobre o notório criminoso sexual.

Mas para qualquer pessoa que ainda mantenha os pés no chão, as declarações de Epstein de que Trump “sabia das meninas” ou o fato de ele ter perguntado a um repórter do New York Times se ele queria “fotos de Donald e garotas de biquíni na minha cozinha” serão mais uma confirmação do que já é de conhecimento público há décadas: que Trump e Epstein eram amigos muito próximos há anos e que Trump, no mínimo, tinha plena consciência do que o bilionário pedófilo estava fazendo.

Mas há também uma história muito maior aqui, que gira em torno da coleta de informações tóxicas por Epstein sobre pessoas influentes, seus possíveis vínculos com a inteligência de Israel para interferir na política interna dos EUA.

Já é suficientemente grave que o presidente dos Estados Unidos tenha convivido com um dos maiores abusadores sexuais de crianças da história e, ainda por cima, tenha ignorado seus crimes. Mas o que é mais grave ainda é se essa associação estiver sendo usada por um governo estrangeiro para obter vantagem política e influenciar a política externa dos EUA.

Vamos repassar o que sabemos. Primeiro, Epstein é acusado há muito tempo de filmar – ou gravar de outras formas – os homens famosos e poderosos para quem ele fornecia garotas. Uma das acusadoras afirmou que todas as suas casas tinham câmeras escondidas instaladas para espionar e gravar o que acontecia nos quartos e banheiros.

Ira Rosen, produtor da CBS com 24 anos de experiência e vencedor do Prêmio Peabody, afirmou que Ghislaine Maxwell, cúmplice de Epstein, lhe disse que Epstein possuía gravações em vídeo tanto de Bill Clinton quanto de Trump. Entre as provas apreendidas nas propriedades de Epstein, encontram-se pilhas de pastas repletas de CDs etiquetados com os nomes de pessoas que não nos é permitido conhecer ainda.

Em segundo lugar, há muito tempo circulam rumores de que Epstein era um agente de inteligência, especificamente de Israel. Fontes disseram à jornalista Vicky Ward, alguns anos atrás, que Epstein teria entrado para o serviço público israelense já na década de 1980, após trabalhar como traficante de armas, e a descoberta de um passaporte falso e dinheiro em seu cofre pareceu corroborar ainda mais essa hipótese.

Mais recentemente, o Drop Site fez a melhor reportagem sobre esse assunto, publicando uma série de matérias baseadas em um lote de e-mails vazados do ex-primeiro-ministro israelense (e associado de Epstein) Ehud Barak, que mostram o trabalho de Epstein para o governo israelense. Isso incluía: hospedar repetidamente um oficial da inteligência militar israelense e assessor de Barak que estava nos Estados Unidos a negócios oficiais; trabalhar com Barak para garantir ações contra adversários de Israel, seja um bombardeio americano ao Irã ou o apoio russo à mudança de regime na Síria; ou intermediar acordos de segurança entre Israel e a Mongólia e a Costa do Marfim.

Com o acúmulo dessas histórias, torna-se cada vez mais difícil negar que Epstein era, no mínimo, um ativo para a inteligência israelense.

"Autoridades americanas têm reclamado há décadas da agressiva espionagem que Israel realiza contra elas e contra os Estados Unidos como um todo para interferir na política do país."

Em terceiro lugar, sabemos que Epstein usava informações comprometedoras sobre pessoas poderosas como moeda de troca. Esta última divulgação de e-mails, por exemplo, mostra Epstein e o autor Michael Wolff discutindo como o bilionário pedófilo poderia melhor usar o que sabia sobre Trump em benefício próprio, enquanto seu ex-amigo concorria à nomeação republicana. Vários e-mails mostram Epstein trocando informações sobre Trump com líderes mundiais. Há dois anos, a própria porta-voz de Bill Gates revelou que Epstein tentou usar seu conhecimento sobre o caso extraconjugal do fundador da Microsoft para ameaçá-lo.

Em quarto lugar, sabemos que é exatamente assim que a inteligência israelense e o Estado de Israel, em geral, operam. Autoridades americanas têm reclamado há décadas da agressiva espionagem que Israel realiza contra elas e contra os Estados Unidos como um todo para interferir na política do país, espionagem que, por vezes, envolveu a instalação de escutas em quartos de hotel e o fornecimento de drogas e mulheres a autoridades visitantes. Israel faz o mesmo com os palestinos, espionando-os e chantageando-os com informações sobre seu comportamento sexual para transformá-los em informantes.

Jeffrey Epstein e Donald Trump em Mar-a-Lago, Palm Beach, Flórida, 1997. (Davidoff Studios / Getty Images)

O mais chocante é que um ex-editor do jornal conservador Weekly Standard relatou que o então e futuro primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu ameaçou indiretamente Clinton com gravações de suas conversas constrangedoras com Monica Lewinsky para forçá-lo a libertar um homem que cumpria pena na prisão por vender segredos militares americanos a Israel. Essa alegação bombástica foi corroborada por diversos fatos: Lewinsky testemunhou que Clinton lhe dissera “suspeitava que uma embaixada estrangeira (sem especificar qual) estivesse grampeando seus telefones”; ele lhe disse isso pouco depois de Clinton se encontrar com Netanyahu no Salão Oval; e reportagens da época sobre as “trocas acaloradas” e “discussões tensas” entre os dois, que quase inviabilizaram a assinatura dos Acordos de Oslo, após uma revolta do aparato de segurança nacional levar Clinton a mudar de ideia sobre o perdão ao espião.

É nesse ponto que você começa a pensar na servilidade, muitas vezes constrangedora, que Trump demonstrou a Netanyahu e a Israel ao longo dos últimos anos, assumindo o cargo com uma plataforma “América First” e a imagem de um homem forte e implacável e, uma vez no cargo, continuamente abandonando essa plataforma em benefício de Israel e permitindo docilmente que Netanyahu o subjugasse.

É claro que não é preciso recorrer à ameaça de chantagem para explicar a estranha lealdade dos deputados americanos a Israel, especialmente em um sistema de financiamento de campanhas cada vez mais descaradamente corrupto. Mas, à medida que mais e mais informações desse tipo vêm à tona, surge a dúvida se Netanyahu teria feito algo semelhante hoje ao que supostamente fez com Clinton anos atrás — ou se ele sequer precisaria, considerando o potencial de algo prejudicial ter chegado ao governo israelense por meio de Epstein, e dada a palpável ansiedade do presidente em relação à possibilidade de o público descobrir mais sobre sua amizade com o falecido pedófilo.

Em muitos aspectos, o problema aqui nem sequer é Trump. É o fato de que o establishment político dos EUA, durante anos, concedeu carta branca a governos estrangeiros para interferirem em seus assuntos internos, criando um sistema corrupto e dominado pelo dinheiro que proporcionou a Israel e outros estados indesejáveis ​​as condições perfeitas para explorar e tirar proveito do poder norte-americano. Nesse caso, pode ser Epstein e a forma como ele usou sua extrema riqueza para atrair pessoas influentes e poderosas para sua teia. Mas se nada mudar, isso praticamente garante que alguma versão dessa interferência e influência secreta continuará acontecendo repetidamente, mesmo com Epstein morto e Trump eventualmente fora da vida política.

Colaborador

Branko Marcetic é escritor da redação da Jacobin e mora em Toronto, Canada.

14 de novembro de 2025

O capitalismo facilitou os crimes de Jeffrey Epstein

As estratégias que Jeffrey Epstein usou para ocultar o dinheiro que financiava sua organização de tráfico sexual eram perfeitamente legais. Na verdade, são as mesmas estratégias legais que a maior parte do 0,1% mais rico usa para evitar impostos e outras regulamentações.

Carl Beijer

Embora Jeffrey Epstein provavelmente tenha usado chantagem e outros esquemas ilegais para evitar ser processado por seus crimes, sua principal estratégia — a gestão de patrimônio em paraísos fiscais — não era apenas legal, mas também uma característica central do capitalismo financeiro moderno. (Patrick McMullan via Getty Images)

Jeffrey Epstein volta a ser notícia, desta vez após o Comitê de Supervisão da Câmara dos Representantes divulgar um extenso acervo de sua correspondência ao longo dos anos. Por um lado, o raro vislumbre do mundo das negociações de poder da elite que isso proporciona é fascinante. Como a maioria dos ricos, Epstein e seus cúmplices claramente acreditavam estar acima da lei e frequentemente discutiam seus esquemas de chantagem em termos bastante diretos. Por exemplo, em uma carta para Epstein, o jornalista Michael Wolff diz sobre Donald Trump: “Se ele disser que não esteve no avião ou na casa […] você poderia salvá-lo, gerando uma dívida.”

Em um artigo para a revista American Prospect, David Dayen argumenta que o caso Epstein é, em essência, um exemplo de impunidade da elite frente a seus crimes. Ele apresenta as evidências sobre a rede de tráfico humano que Epstein comandava e o número incontável de pessoas ricas envolvidas; em seguida, resume tudo como “um conjunto de crimes perpetrados por um indivíduo rico que atingiram os mais altos escalões da esfera política e econômica, e que permaneceram praticamente impunes por décadas”.

A dimensão criminal do caso Epstein é importante, mas acho que o foco de Dayen nela deixa de lado algo crucial: que muito do que Epstein fez era completamente legal.

A organização de tráfico humano de Epstein dependia inteiramente do setor de gestão de patrimônio (WMI). Foi assim que ele obteve o capital para construí-la e como ocultava suas atividades das autoridades. E nada disso configurava como um uso abusivo do setor; é precisamente assim que o WMI foi projetado para funcionar. Tampouco se trata de burlar a lei, pois tanto a legislação estadunidense quanto a internacional foram cuidadosamente elaboradas para acomodar o WMI.

Dayen menciona de passagem que “a fonte da riqueza de Epstein” provém da obtenção de uma procuração sobre o patrimônio de Les Wexner, “da qual ele se apropriou de grandes quantias de dinheiro” — mas isso pode ser facilmente interpretado erroneamente como um eufemismo para roubo. Na verdade, Epstein era o gestor financeiro pessoal de Wexner, e sua “apropriação” dos fundos de Wexner é perfeitamente comum no caso do WMI — até mesmo esperada.

“Nós somos a equipe que opera a máquina que canaliza recursos dos 90% para os 0,1% restantes”, disse o gestor de patrimônio Matthew Stuart ao autor Chuck Collins em seu livro Wealth Hoarders [Acumuladores de Riqueza]. “Temos ficado felizes em receber nossa parte dos lucros.”

Como os capitalistas dependem de estratégias jurídicas e financeiras extraordinariamente complexas para ocultar sua riqueza, eles se tornaram cada vez mais dependentes da experiência — e da discrição — dos gestores de patrimônio. Brooke Harrington, em Offshore, explica:

Muitos dos ultra-ricos guardam segredos politicamente sensíveis e potencialmente explosivos de natureza financeira, jurídica e pessoal. Como disse um gestor de patrimônio suíço que entrevistei, os clientes precisam, metaforicamente, “se despir diante de você”, porque todas as suas informações mais privadas afetam suas fortunas e as estratégias jurídico-financeiras necessárias para protegê-las.

Há motivos para acreditar que Epstein possa ter se aproveitado de alguns desses segredos pessoais para ter acesso à fortuna de Wexner, mas também há motivos para crer que a verdade seja muito mais prosaica. O antigo gestor de patrimônio de Wexner, Harold Levin, especulou que Epstein assumiu o controle de propriedades que Wexner havia comprado com ações de sua empresa; como os bancos não eram mais os proprietários, não havia nenhum registro documental mostrando o que Epstein fez com elas. Outra fonte próxima a Wexner, Jerry Merritt, tem uma explicação ainda mais simples:

Merritt lembrou-se de ter perguntado a Wexner por que Epstein era tão bem remunerado. “Les simplesmente respondeu: ‘Porque tenho mais dinheiro do que jamais poderei gastar’”, disse Merritt. “Les lhe dava carta branca para usar seu talão de cheques.”

Esta é, mais uma vez, uma história comum no setor de gestão de patrimônio: indivíduos e famílias abastadas deixam a gestão do capital a cargo de um pequeno grupo de advogados e contadores bem posicionados, que conseguem explorar sua posição para exigir salários exorbitantes.

Mas o capitalismo não apenas forneceu o capital inicial para as operações de Epstein. Ele também forneceu todo um aparato jurídico e financeiro que o ajudou a encontrar vítimas e disfarçar suas transações. Um artigo na revista Deviant Behavior, do sociólogo Thomas Volscho, observa que, inicialmente, “o principal meio de acesso a potenciais vítimas envolvia Epstein usando a filantropia para obter acesso a instituições voltadas para jovens”.

Em particular, Epstein parece ter usado sua imensa riqueza para comprar influência em organizações juvenis voltadas para crianças em situação de vulnerabilidade financeira e, em seguida, explorado a desigualdade de riqueza para controlá-las. Esse foi um passo natural para Epstein, já que gestores de patrimônio frequentemente trabalham com organizações de caridade para fins de evasão fiscal. Conforme sua conspiração se desenvolvia, escreve Volscho, a “rede de tráfico sexual de Epstein era financiada por sua empresa de consultoria em planejamento tributário, onde ele ajudava principalmente pessoas ricas a evitar a tributação sobre a venda e/ou herança de seus bens e rendimentos”.

Epstein também usou sua experiência para construir o escudo legal da conspiração — o que um processo federal descreveu como um

infraestrutura financeira complexa, que envolvia dezenas de contas bancárias em diversas instituições, muitas das quais em nome de entidades corporativas sem qualquer propósito comercial legítimo, que parecem ter sido criadas simplesmente para facilitar o empreendimento ilegal de tráfico sexual.

O empreendimento em si era ilegal, obviamente. Mas a infraestrutura que Epstein usou para escondê-lo — as elaboradas redes de empresas de fachada e beneficiários misteriosos, geralmente localizadas em jurisdições offshore com leis de transparência financeira frouxas — eram perfeitamente legais. E são, além disso, os mesmos mecanismos legais que a maior parte do 0,1% mais rico usa para evitar impostos e outras regulamentações.

Para perceber o quão normalizadas essas estratégias são entre os ricos, basta ler algumas das correspondências de Epstein com os magnatas. Em 2013, por exemplo, o oligarca da família Pritzker, Thomas, contatou Epstein quando sua prima, Penny Pritzker, virou notícia por esconder US$ 80 milhões de sua fortuna do governo. “Claramente fiz algo errado na minha vida passada para ter que lidar com essa merda”, escreve Thomas. “E eu a avisei.”

Embora essa troca de mensagens possa parecer tangencial aos crimes de Epstein, o subtexto é tudo. “A família Pritzker não construiu apenas hotéis”, escreve Aaron Berick, executivo da WMI:

Eles criaram o modelo para a preservação da riqueza intergeracional que todo bilionário estuda hoje em dia... O segredo? Uma rede de fundos offshore estabelecida 50 anos antes que revolucionaria a forma como os ultra-ricos dos EUA pensam sobre a preservação de fortunas familiares.

Em outras palavras, a conversa de Thomas com Epstein não é apenas entre conhecidos. É uma conversa entre dois especialistas do setor de gestão de patrimônio, lamentando como Penny Pritzker não conseguiu esconder sua riqueza adequadamente.

Portanto, embora Epstein provavelmente tenha usado chantagem e outros esquemas ilegais para evitar ser processado por seus crimes, sua principal estratégia — a gestão de patrimônio em paraísos fiscais — não era apenas legal, mas uma característica central do capitalismo financeiro moderno. Se a esquerda quer usar o caso Epstein para falar sobre a impunidade das elites, essa conversa precisa começar pelas estratégias que os ricos usam para ocultar suas finanças, estratégias essas que são completamente legais.

Colaborador

Carl Beijer é escritor no carlbeijer.com.

12 de fevereiro de 2025

Austeridade para você, mas não para mim

Esta semana, enquanto o "Departamento de Eficiência Governamental" de Elon Musk tentava destruir ainda mais o governo dos EUA, sua empresa de foguetes SpaceX estava consolidando um contrato com a NASA, adicionando milhões de dólares ao seu já enorme acordo com a agência espacial.

David Sirota

Jacobin

O CEO da Tesla e da SpaceX, Elon Musk, e o presidente Donald Trump juntos durante a assinatura de uma ordem executiva no Salão Oval da Casa Branca em 11 de fevereiro de 2025, em Washington, DC. (Andrew Harnik / Getty Images)

Enquanto o Departamento de Eficiência Governamental (DOGE) de Elon Musk estava supostamente cancelando contratos do Departamento de Educação em nome da frugalidade, a empresa de foguetes do bilionário mais rico do mundo estava consolidando esta semana um contrato com a Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço (NASA), adicionando milhões de dólares ao seu já enorme acordo comercial com a agência espacial, de acordo com documentos governamentais revelados ​​pela Lever.

O novo contrato “suplementar” datado de 10 de fevereiro acrescenta US$ 7,5 milhões ao trabalho da SpaceX na NASA, de acordo com registros do Federal Procurement Data System. O governo já comprometeu US$ 3,9 bilhões à SpaceX como parte de seu acordo com a NASA, que está projetado para custar até US$ 4,4 bilhões até o meio do mandato de Donald Trump.

O novo acordo diz que o dinheiro é para o “trabalho necessário para o projeto, desenvolvimento, fabricação, teste, lançamento, demonstração e suporte de engenharia do módulo de pouso integrado do Sistema de Pouso Humano (HLS)”.

O DOGE de Musk não anunciou que está visando cortes ou revisando os contratos da NASA.

Trump nomeou Jared Isaacman como administrador da NASA. Isaacman é um sócio bilionário de Musk que comanda uma empresa de processamento de pagamentos regulamentada pelo Consumer Financial Protection Bureau, que Musk vem tentando desmantelar.

No mês passado, a empresa de Isaacman foi multada pelos agentes federais por não divulgar adequadamente milhões de dólares em pagamentos a parentes do executivos da empresa.

Você pode assinar o projeto de jornalismo investigativo de David Sirota, o Lever, aqui.

Colaborador

David Sirota é editor-geral da Jacobin americana. Ele edita o Lever e anteriormente atuou como consultor sênior e redator de discursos na campanha presidencial de Bernie Sanders em 2020.

10 de fevereiro de 2025

O príncipe feudal de Liechtenstein tornou-se um herói libertário

Hans-Adam II é o monarca mais rico da Europa, apesar de governar um dos seus menores estados. O príncipe de Liechtenstein ostenta o seu desprezo pela democracia, combinando feudalismo e capitalismo financeiro para fornecer um modelo para a direita em países muito maiores.

Romaric Godin


Ao combinar a herança feudal de Liechtenstein com suas ideias libertárias, o príncipe Hans-Adam II abriu caminho para uma forma de capitalismo que está muito em voga atualmente, especialmente entre os magnatas da tecnologia de direita que tentam remodelar o cenário político. (API/Gamma-Rapho via Getty Images)

Hans-Adam II é o monarca mais rico da Europa, apesar de governar um dos menores países do continente. O príncipe de Liechtenstein ostenta seu desprezo pela democracia, onde combina feudalismo e capitalismo financeiro - fornecendo um "modelo de país" para setores da "nova direita".

Em fevereiro de 2025, o Principado de Liechtenstein, um micro país com vinte e cinco quilômetros de comprimento e doze quilômetros de largura, situado entre a Suíça e a Áustria, celebrou com orgulho o octogésimo aniversário de seu príncipe reinante, Hans-Adam II. O governante de um território montanhoso com apenas 41.000 habitantes tornou-se o monarca mais rico da Europa — um homem cuja fortuna é estimada em 12,6 bilhões de dólares.

Oficialmente, o soberano se retirou dos assuntos governamentais, tendo transferido seus poderes para seu filho mais velho, Alois, em 2004. No entanto, Hans-Adam deixou sua marca na história deste pequeno país, transformando suas instituições e sua economia. Ao fazê-lo, estabeleceu-o como um modelo para a direita libertária em alguns dos maiores Estados do mundo.

Nas raras ocasiões em que Liechtenstein atrai a atenção da mídia internacional, geralmente é para histórias curiosas sobre seu tamanho modesto. Em 2007, um pequeno grupo de soldados suíços invadiu o país por engano, após se perderem em um exercício de treinamento, e recuou para o outro lado da fronteira assim que perceberam onde estavam. Essa foi uma das várias incursões acidentais das forças suíças ao longo dos anos. Não há perigo de uma guerra resultante de tais contratempos, já que Liechtenstein não possui exército.

O país também não possui aeroporto, embora haja uma única linha ferroviária que interliga as redes suíça e austríaca. A seleção nacional de futebol é uma das eternas vítimas da Europa: em seu recente grupo de qualificação para a Copa do Mundo, Liechtenstein ficou em último lugar mais uma vez, tendo perdido todos os jogos sem marcar um único gol. Um quiz de 2020 do New York Times destacou o recorde do país de dez medalhas olímpicas, todas no esqui alpino, e sua posição como líder mundial na produção de dentaduras.

No entanto, a importância de Liechtenstein para o capitalismo global é muito maior do que se poderia imaginar a partir de detalhes tão diversos. Ao combinar a herança feudal de seu país com suas ideias libertárias, Hans-Adam abriu caminho para uma forma de capitalismo que está hoje em voga, especialmente entre os magnatas da tecnologia de direita que tentam remodelar o cenário político.

Remanescente feudal

Liechtenstein é um remanescente da era feudal da Europa. Esse pequeno território recebeu o nome da família austríaca que o comprou no início do século XVIII. Muito próximos dos Habsburgos, os herdeiros da Casa de Liechtenstein obtiveram o status de “príncipe soberano” graças a esses 160 quilômetros quadrados às margens do Reno.

“Nas raras ocasiões em que Liechtenstein atrai a atenção da mídia internacional, geralmente é tema de matérias curiosas sobre seu tamanho modesto.”

No entanto, a vida da casa e de seus príncipes se desenrolou em outros lugares. Como grandes proprietários de terras com propriedades na Áustria e na Boêmia, os príncipes viviam em um suntuoso palácio no coração de Viena, que os visitantes ainda podem admirar hoje. Foi somente em 1938, quando a Alemanha nazista invadiu a Áustria, que a família se refugiou em Vaduz, a capital de Liechtenstein.

Naquela época, esse território estava sob influência suíça, tendo assinado uma união aduaneira e monetária com seu vizinho maior em 1924. Adolf Hitler o deixou em paz na época do Anschluss por causa dessa relação. Mas os interesses da família não se limitavam ao principado. Os Liechtenstein eram ricos — muito ricos.

Eles possuíam bens consideráveis ​​na Áustria e controlavam um banco que haviam adquirido na década de 1930. Na década de 1970, Hans-Adam, que ainda aguardava para suceder seu pai, Franz Joseph II, como monarca, percebeu que poderia tirar proveito da dupla natureza de sua família como potência política e império financeiro.

Para alcançar esse objetivo, o príncipe, que se tornou regente em 1984 antes de ascender ao trono em 1989, precisava se libertar da tutela suíça. Ele precisava se tornar o monarca de um país totalmente soberano para poder estabelecer as regras que beneficiariam seus interesses comerciais. Em 1970, quando tinha apenas vinte e cinco anos, proferiu um famoso discurso denunciando a situação em que seu país se encontrava, “carregado nas costas da Suíça”.

Um Estado soberano

Seu primeiro passo foi solicitar a adesão às Nações Unidas, que Liechtenstein obteve em 1990. A partir de então, o governante do país tornou-se um chefe de Estado que podia falar em pé de igualdade com os demais e tinha voz na Assembleia Geral da ONU. A segunda etapa dessa estratégia ocorreu em 1993, quando o príncipe fez campanha para que seu pequeno Estado aderisse ao Espaço Econômico Europeu (EEE), inserindo-o no mercado único europeu.

Hans-Adam insistiu que o governo deveria realizar o referendo sobre a adesão ao EEE antes da votação popular na Suíça, visto que a opinião pública suíça se inclinava para a rejeição. Contudo, de acordo com a Constituição de 1921, então em vigor, essa decisão não estava dentro dos poderes do príncipe, e o governo recusou-se a ceder. Inacreditavelmente, manifestações foram realizadas em Vaduz contra a “ditadura” do príncipe.

“Hans-Adam saiu vitorioso, pois Liechtenstein se beneficiou do acesso aos mercados europeu e suíço, bem como da estabilidade do franco suíço.”

No fim, os habitantes do principado aceitaram a adesão ao EEE, enquanto os suíços a rejeitaram. Hans-Adam saiu vitorioso, pois Liechtenstein se beneficiou do acesso aos mercados europeu e suíço, bem como da estabilidade do franco suíço. Hoje, é o país mais industrializado do mundo, com 38% do seu valor agregado proveniente da indústria manufatureira. É também o segundo país mais rico do mundo, atrás de Mônaco, com um PIB per capita de US$ 219.000.

Contudo, essa vitória ainda deixou um gosto amargo na boca de Hans-Adam. O que aconteceria se, um dia, o povo se voltasse contra ele? Isso seria inaceitável, não apenas para seu status de soberano, mas também, e sobretudo, para seus interesses comerciais. Pois, por trás da afirmação da soberania do país, Hans-Adam continua sendo um homem de negócios.

Construindo um império

Na década de 1980, ele começou a desenvolver o grupo bancário Liechtenstein Global Trust (LGT) no exterior. Ele aproveitou o potencial de seu país como paraíso fiscal decorrente do sistema “Treuhand”, que facilita a criação de trustes que ocultam o verdadeiro beneficiário dos fundos.

Para que essa atividade se expandisse, não poderia permanecer à sombra dos bancos suíços. A adesão ao Espaço Econômico Europeu (EEE) garantia a livre circulação de capitais entre Liechtenstein e outros Estados europeus, atraindo as elites ricas do continente. A LGT tornou-se a peça central desse sistema.

“A adesão ao EEE garantiu a livre circulação de capitais entre o Liechtenstein e outros Estados europeus, atraindo as elites ricas do continente.”

Ao mesmo tempo, o estatuto de Liechtenstein como Estado soberano permitiu a Hans-Adam contestar os decretos de Beneš, que expropriaram, sem indenização, proprietários de terras alemães na Checoslováquia em 1945. A Casa de Liechtenstein era uma das principais proprietárias de terras na região e perdeu tudo.

Hans-Adam está obcecado em recuperar suas terras, ou pelo menos em obter uma compensação que impulsione ainda mais seu império empresarial. Como chefe de Estado de um país soberano, ele agora poderia contestar a expropriação das propriedades de sua família. Em 2020, o governo de Liechtenstein chegou a apresentar uma queixa contra os decretos de Beneš perante o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos.

A Iniciativa Principesca

Esses exemplos ilustram a lógica do pensamento de Hans-Adam. Ele vê Liechtenstein como uma posse de sua família, que pode ser utilizada como qualquer outro bem. Embora esteja disposto a aceitar a ideia de democracia no papel, sua própria vontade deve determinar seus limites.

A abordagem do príncipe é, portanto, a de um acionista majoritário. Ele ouvirá sua equipe e deixará que eles administrem os detalhes de como o país é governado, mas quando se trata do panorama geral — das decisões que ele considera importantes — deve ter a palavra final.

“A campanha do referendo sobre a ‘Iniciativa Principesca’ dividiu profundamente esse país normalmente pacífico.”

Os eventos de 1993 mostraram que ele poderia ser derrotado, então propôs uma grande reforma constitucional em 2002. Essa reforma lhe daria o poder de veto sobre todas as leis e a nomeação de juízes. O príncipe recorreu à chantagem aberta, ameaçando que sua família “retornaria a Viena” caso a proposta fosse rejeitada.

A lógica ainda era a de um negócio: já que Liechtenstein havia sido comprado, também poderia ser vendido caso o proprietário deixasse de estar satisfeito. A campanha do referendo sobre a “Iniciativa Principesca” dividiu profundamente esse país normalmente pacífico. Durante uma sessão do parlamento de Liechtenstein, o presidente da assembleia entrou em pânico e exclamou: “Sem o príncipe, não somos nada”.

Pela graça do príncipe

Quando o referendo ocorreu em março de 2003, a reforma de Hans-Adam venceu por uma margem de 64% a 36%. Pouco menos de 15.000 pessoas — cerca de 87% dos eleitores registrados — participaram da votação. Hans-Adam saiu vitorioso.

No ano seguinte, ele transferiu suas funções governamentais diárias para o filho, mantendo-se, porém, como patriarca da família. Dividiu o império entre seus três filhos, designando Alois para administrar o país, Max para gerir o grupo financeiro LGT e Constantin (que faleceu em 2023) para administrar o restante das propriedades. Administrar o principado é, portanto, apenas uma das muitas atividades da família.

“Em Liechtenstein, ninguém contesta o poder do príncipe, pois a chantagem já cumpriu seu papel.”

Em Liechtenstein, ninguém contesta o poder do príncipe, pois a chantagem já cumpriu seu papel. Outro referendo foi realizado em 2012, depois que o príncipe prometeu barrar a legalização do aborto. Desta vez, 76% dos eleitores rejeitaram uma proposta para restringir o poder de veto da monarquia.

Este pequeno e rico país é, como me disse um de seus habitantes, uma “democracia pela graça do príncipe”. Realizam-se eleições; o parlamento legisla. Mas tudo permanece dentro dos limites do que é aceitável para a família principesca — ou seja, dentro dos limites de seus interesses materiais. A voz de um homem pode sobrepor-se a todas as outras.

Uma economia de fundos fiduciários

Esses interesses materiais evoluíram ao longo do tempo. Em 2009, o país enfrentou uma crise depois que um denunciante entregou documentos às autoridades alemãs, revelando a extensão da evasão fiscal em Liechtenstein. Após resistir inicialmente, o Príncipe Alois finalmente abandonou a estratégia de depender de dinheiro sujo.

Hoje, Liechtenstein já não é propriamente um paraíso fiscal. O seu sistema judicial coopera com as autoridades estrangeiras e o país assinou acordos fiscais com os principais países ocidentais. Mas a família governante não abandonou suas ambições financeiras.

“Hans-Adam não é um mero príncipe figurativo. Ele é muito mais rico e muito mais poderoso do que Charles III da Grã-Bretanha.”

Sob a liderança de Max, o LGT se transformou em um banco privado, visando clientes ricos com a promessa de administrar seus fundos como se fossem da família real. O banco tem sido bem-sucedido, apresentando forte crescimento, principalmente na Ásia. Em junho deste ano, administrava quase 360 ​​bilhões de francos suíços em ativos (cerca de US$ 450 bilhões) e tinha escritórios em quinze países diferentes, da Irlanda e Espanha a Singapura e Emirados Árabes Unidos.

Hans-Adam não é um mero príncipe figurativo. Ele é muito mais rico e muito mais poderoso do que Charles III da Grã-Bretanha, com uma fortuna de 12,6 bilhões de dólares, segundo a Bloomberg. Isso representa 25% a mais do que o PIB anual de “seu” país, sobre o qual sua família exerce controle absoluto.

Um, dois, muitos Liechtensteins

O príncipe desenvolveu uma teoria para fundamentar suas práticas políticas e econômicas, articulada em um livro intitulado The State in the Third Millennium [O Estado no Terceiro Milênio]. Hans-Adam vê o Estado como uma “empresa de serviços” baseada em uma “parceria” entre seu proprietário — o próprio príncipe — e a população, que deve ser “tratada como um cliente”. Nesse contexto, a democracia é uma forma de administrar a propriedade privada, e esta deve sempre ter a palavra final.

O pensamento de Hans-Adam combina referências à tradição feudal com o papel central do capitalismo na gestão do Estado. No final, o veto do príncipe-CEO representa também a sanção institucional explícita da tutela do capital sobre a democracia.

Hans-Adam nunca escondeu suas inclinações libertárias. Ele acredita que a fragmentação territorial é uma garantia de boa gestão, pois força os Estados a competirem entre si, reduzindo-os ao status de “empresas de serviços”. A reforma constitucional de 2003, portanto, concedeu o direito de secessão aos municípios de Liechtenstein, cada um com, no máximo, alguns milhares de habitantes.

“O pensamento de Hans-Adam combina referências à tradição feudal com o papel central do capitalismo na gestão do Estado.”

As ações do príncipe de Liechtenstein não passaram despercebidas nos círculos libertários. O economista alemão Hans-Hermann Hoppe, discípulo de Murray Rothbard, fez deste país um modelo para sua ideia de que a monarquia é superior à democracia no que diz respeito à “liberdade”.

Em 2022, Hoppe falou sobre seu sonho de “uma Europa de 1.000 Liechtensteins”, que se assemelha bastante à visão expressa por Peter Thiel: “Se quisermos promover a liberdade, precisamos aumentar o número de países”. O presidente de extrema-direita da Argentina, Javier Milei, descreveu Hoppe e Rothbard como suas principais fontes de inspiração.

Anarco-feudalismo

O que Hoppe considera mais desejável em Liechtenstein é o fato de seu Estado ser inteiramente propriedade privada. Como Hans-Adam destaca em seu livro: “Os custos de nossa monarquia, diferentemente de todas as outras monarquias, são cobertos pelos fundos privados da família principesca”. O príncipe não vive de impostos; pelo contrário, ele sustenta o Estado, que é seu patrimônio. É isso que torna essa monarquia uma forma de “anarcocapitalismo”. Em todos os lugares, o poder é privado e vinculado à propriedade — em outras palavras, ao dinheiro.

Em seu livro de 2001, Democracy: The God That Failed [Democracia: O Deus que Falhou], Hoppe argumentou (contrariando todas as evidências históricas) que a transição da monarquia para a democracia constituiu um declínio, porque os monarcas cuidavam de seus patrimônios privados e, portanto, tendiam a evitar a imposição de impostos e a promover o desenvolvimento econômico. A monarquia ideal descrita por Hoppe assemelha-se ao Liechtenstein de Hans-Adam: o monarca não precisa de impostos para se sustentar porque administra seus próprios negócios, enquanto o líder de uma democracia “vive” de impostos e, portanto, tende a aumentá-los.

Embora o príncipe de Liechtenstein nunca tenha citado um autor libertário em público, as semelhanças entre sua visão de mundo e o pensamento de Hoppe são impressionantes. Em 2020, outro economista libertário, Andrew Young, descreveu Liechtenstein como “a forma de Estado mais tolerável que existe hoje” em um artigo para o Instituto Mises.

Hans-Adam ajudou, assim, a conceber um novo tipo de Estado, que se funde com o setor privado em torno de uma monarquia de origem feudal. Este exemplo lembra as ideias de Curtis Yarvin, que agora inspiram o Vale do Silício. Em meio à ascensão atual do autoritarismo capitalista, este pequeno príncipe alpino parece apontar o caminho para a extrema-direita — um caminho em que a democracia se torna um ritual sem sentido.

Colaborador

Romaric Godin é jornalista de economia no Mediapart e autor de La Guerre Sociale en France, um estudo sobre as políticas neoliberais autoritárias de Emmanuel Macron.

21 de janeiro de 2025

Não existe um bilionário que presta

Os democratas querem que acreditemos que há uma parcela de “bons bilionários” em quem se pode confiar para lutar pelo progresso político. Mas, como sugere a virada para a direita de bilionários da tecnologia como Mark Zuckerberg e Elon Musk, isso é um absurdo.

Carl Beijer


Mark Zuckerberg, Lauren Sanchez, Jeff Bezos, Sundar Pichai e Elon Musk comparecem à posse de Donald J. Trump na Rotunda do Capitólio dos EUA em 20 de janeiro de 2025, em Washington, DC. (Julia Demaree Nikhinson - Pool / Getty Images)

Tradução / Joe Biden disse, em seu discurso de despedida:

Quero alertar o país sobre algumas coisas que me preocupam muito. E essa é a perigosa concentração de poder nas mãos de pouquíssimas pessoas ultra-ricas, e as consequências perigosas se o abuso de poder delas não for controlado. Hoje, uma oligarquia está tomando forma na América com extrema riqueza, poder e influência que literalmente ameaça toda a nossa democracia, nossos direitos e liberdades básicas.

Os comentários de despedida de Biden foram aclamados tanto por liberais quanto por parte da esquerda por seu raro reconhecimento da oligarquia nos Estados Unidos; Bernie Sanders, por exemplo, elogiou-o como “absolutamente certo” e acrescentou que o perigo da oligarquia é “a questão definidora do nosso tempo”.

Mas mais tarde em seu discurso, Biden acrescentou um contexto crucial a esse aviso: “Estou igualmente preocupado com o potencial surgimento de um complexo tecnológico-industrial que pode representar perigos reais para nosso país também.”

Embora dados sobre financiamento de campanha ainda não estejam disponíveis, já está claro que o Vale do Silício desempenhou um papel importante na reeleição de Trump e que já está exercendo enorme influência em seu governo. E isso, os democratas deixaram claro, é sua real preocupação: não com a vasta concentração de riqueza do capitalismo em si, mas com sua concentração específica nas mãos de doadores republicanos.

“É por isso que a democracia, em última análise, simplesmente não pode coexistir com as concentrações massivas de riqueza que são garantidas por uma economia capitalista.”

“Há muitos bilionários bons por aí que estiveram com os democratas, que compartilham nossos valores, e nós aceitaremos o dinheiro deles”, disse Ken Martin, um dos principais candidatos à presidência do Partido Democrata, em um fórum no domingo. “Mas não aceitaremos dinheiro desses bilionários ruins.”

Um problema prático com essa abordagem é que mesmo os “bons” bilionários são aliados pouco confiáveis. Durante a eleição de 2024, por exemplo, Bill Gates afirma ter doado US$ 50 milhões para uma organização sem fins lucrativos que apoiava Kamala Harris. Mas depois de uma viagem recente a Mar-a-Lago, Gates agora diz que mudou de ideia sobre Trump:

Eu senti que ele estava, você sabe, energizado e ansioso para ajudar a impulsionar a inovação. Eu fiquei francamente impressionado com o quão bem ele demonstrou muito interesse nas questões que levantei.

Da mesma forma, o cofundador do Airbnb, Joe Gebbia, que atingiu o limite de doações para Harris em 2020, agora afirma que votou em Trump:

Ele não é um fascista determinado a destruir a democracia… Ele se importa profundamente com a eficiência e os gastos do governo. (Eu também me importo com a próxima geração e adoro toda a iniciativa DOGE.) Ele se importa em trazer o bom senso de volta ao nosso país.

Biden pode alertar sobre um “complexo tecnológico-industrial” hoje, mas há apenas alguns anos que os democratas ainda consideravam plutocratas da tecnologia como Elon Musk e Marc Andreessen como “bons bilionários”. Mesmo que todos esses homens simplesmente mudassem de ideia, isso representa um problema sério para a abordagem de Martin à oligarquia: coloca todo o Partido Democrata à mercê de senhores inconstantes.

Mas é claro que há maneiras de explicar por que nossos bilionários da tecnologia mudaram de lado para além do puro capricho. Como expliquei detalhadamente no caso de Mark Zuckerberg, os bilionários da tecnologia têm incentivos comerciais poderosos para se alinharem com quem quer que esteja no poder. Eles querem contratos, querem evitar regulamentação e querem influenciar as políticas públicas — tudo com o interesse dos lucros. E esse incentivo é tão poderoso que provou ser mais do que capaz de convencer nossos bilionários da tecnologia a mudar seus alinhamentos partidários.

Ken Martin quer que acreditemos que há uma parcela definida de “bons bilionários” em quem se pode confiar para lutar pelo progresso político, mas o complexo tecnológico-industrial está nos mostrando exatamente por que esse não é o caso. Quaisquer que sejam as simpatias pessoais que nossos bilionários tenham, o capitalismo sempre os obrigará a priorizar seus interesses financeiros acima de tudo. Sempre haverá uma tendência sistemática entre os maiores doadores de campanha de se opor a regulamentações, impostos e qualquer coisa que tire os trabalhadores da precariedade e lhes dê um pingo de independência.

Existem inúmeras reformas que o Partido Democrata pode promulgar para limitar a influência de seus doadores bilionários, mas os ricos aprenderam a contornar regulamentações de financiamento de campanha no passado (por exemplo, por meio de PACs) e inevitavelmente farão isso novamente. É por isso que a democracia, em última análise, simplesmente não pode coexistir com as concentrações massivas de riqueza que são garantidas por uma economia capitalista. Em vez de esperar que “bons bilionários” trabalhem contra seus próprios interesses comerciais, os socialistas precisam lutar por um mundo onde não haja bilionários.

Colaborador

Carl Beijer é escritor no carlbeijer.com.

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