16 de outubro de 2018

Um mundo fome zero ainda é possível, e Brasil é exemplo

Objetivo parece utópico, mas é possível até 2030

José Graziano da Silva

Folha de S.Paulo

O diretor-geral da FAO, José Graziano da Silva, em conferência em 2015. Gregorio Borgia/Associated Press

Nesta terça (16), a FAO (braço da ONU para alimentação e agricultura) completará 73 anos de vida. A data coincide com o Dia Mundial da Alimentação, que neste ano irá reiterar ao mundo que erradicar a fome e a má nutrição ainda é possível até 2030. Esse foi o prazo estabelecido pela comunidade internacional para que os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) fossem cumpridos. Restam-nos 12 anos.

Num mundo assolado por conflitos e por efeitos climáticos catastróficos em que 821 milhões ainda passam fome, o objetivo fome zero global --o ODS 2-- parece utópico. Mas não é. E o Brasil é prova viva de que estamos ante uma meta alcançável.

Lançado em 2003, o programa Fome Zero visava à erradicação da fome e da desnutrição no país, combatendo suas causas subjacentes, especialmente a miséria absoluta.

Assim, com uma força-tarefa interministerial que aproveitou um conjunto de 31 programas já existentes, o programa permitiu que dezenas de milhões de brasileiros tivessem sua renda média aumentada em cerca de 20%. No caso dos agricultores familiares, esse aumento chegou a 33%.

Com o Fome Zero e as políticas sociais subsequentes, como o Bolsa Família, o Brasil conseguiu reduzir a fome de 10,6% de sua população total (cerca de 19 milhões de pessoas) no início dos anos 2000 para menos de 2,5% no triênio 2008-2010, segundo as estatísticas da FAO. Tudo isso em menos de dez anos.

Essa drástica redução foi possível devido à implementação de políticas públicas voltadas a combater a pobreza extrema e os impactos das secas prolongadas no Nordeste.

A experiência brasileira tornou-se referência para outras nações, gerando grande demanda por cooperação bilateral ou multilateral. A FAO se orgulha de se ter associado a esse programa desde a sua elaboração e de replicar seu sucesso fora do Brasil. E em diversas etapas.

Em 2005, Brasil e Guatemala propuseram que o Fome Zero servisse de modelo para erradicar a fome em toda a América Latina e o Caribe.

A proposta foi posteriormente endossada por 29 países da região, que assumiram esse compromisso até 2025 na iniciativa América Latina sin Hambre.

Em 2009, o modelo inspirou a FAO a propor, durante a Cúpula Mundial da Alimentação, a erradicação da fome em todo o globo até 2025.

Três anos depois, em 2012, o então secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, lançou o "Desafio Fome Zero" durante a Cúpula Rio+20: um conjunto de cinco pontos que pedia o fim da fome e desnutrição em todas as suas formas. Naquela ocasião, citou o Brasil como exemplo a ser seguido.

Por fim, em 2015, o Objetivo Fome Zero consolidou-se como ODS número 2, adotado por unanimidade pelos países na Assembleia-Geral daquele ano. É o Zero Hunger.

Esse reconhecimento é a prova de que a fome no Brasil, antes motivo de vergonha, passasse a ter em suas soluções uma razão para se orgulhar.

Não é difícil concluir que as bem-sucedidas políticas de combate à fome tornaram-se um ativo da política externa do país, que se notabilizou por exportar suas tecnologias sociais para a África, Ásia e outras partes do mundo. É uma questão de Estado, que precisa transcender governos e visões políticas e partidárias.

Sobre o autor


Diretor-geral da FAO (braço da ONU para alimentação e agricultura) desde 2012; ex-ministro Extraordinário de Segurança Alimentar e Combate à Fome (2003-2004, governo Lula)

14 de outubro de 2018

Quando não se quer combater privilégios

Samuel Pessôa não quer ver que os pobres e a classe média pagam muito mais tributos do que os ricos

Marcio Pochmann e Paulo Feldmann


Samuel Pessôa na Folha de 7 de outubro, em seu artigo “Difícil Debate”, defendeu seu amigo Alexandre Schwartsman (“Alex” para ele) com velhos argumentos de sempre daqueles que acham não prioritário resolver a questão da péssima distribuição de renda no Brasil.

O que Samuel não quer ver é que os pobres e a classe média pagam muito mais tributos do que os ricos e super-ricos por uma razão muito simples: estes últimos vivem do lucro de suas empresas e dos dividendos que recebem das ações que possuem, e no país nada disso é taxado pelo IR (Imposto de Renda).

Já para quem vive de salário, além de não haver escapatória, o pior é ter de pagar a mesma alíquota do super-rico, uma vez que a alíquota de quem ganha de cinco a 320 salários mínimos mensais é a mesma (27,5%).

O resultado final de quanto cada faixa de renda paga de IR efetivo foi divulgado pela Receita Federal para o ano de 2016, apontando que 67 mil famílias ricas (0,14 % dos brasileiros), cuja renda anual declarada foi de R$ 399 bilhões, contribuíram com R$ 24,3 bilhões de IR, o que significou taxa efetiva de apenas 6,1%.

Se essas mesmas famílias pagassem a mesma taxa efetiva do IR (12,1%) que incide na classe média (ganhos mensais entre 30 e 40 salários mínimos), o valor arrecadado seria de R$ 48,3 bilhões.

Ou seja, se os muito ricos não tivessem tanta isenção, pagariam R$ 24 bilhões a mais.

Mesmo assim, seria justo alguém com renda superior a 330 salários mínimos contribuir com taxa idêntica de quem ganha 30 salários mínimos? Claro que não.

Em qualquer país do mundo o IR é progressivo, isto é, quem ganha mais paga mais.

No Brasil é o contrário. Como entre as faixas de 40 a 320 salários mínimos de rendimentos seria possível estabelecer escala progressiva de alíquotas, o adicional arrecadatório poderia atingir R$ 100 bilhões.

Mas, quando levantamos em nossos artigos anteriores a necessidade de fazer com que os muito ricos paguem mais tributos, não estávamos pensando apenas no IR, mas também na aplicação do imposto sobre grandes fortunas e, principalmente, no imposto de responsabilidade estadual sobre heranças e transmissão de bens, que no Brasil tem, em média, alíquota
de apenas 4%.

Na maioria dos países desenvolvidos este imposto é federal e sua alíquota, como nos países escandinavos, chega a 50%.

Conforme o livro “Os Ricos no Brasil”, os privilegiados seguem ocultos pela miopia de certos analistas, cuja riqueza se mantém à margem do Fisco.

Formas de arrecadar mais e tentar melhorar a distribuição de renda existem e são várias.

Até achamos natural que Pessôa seja contra a melhoria da distribuição de renda no Brasil, pois esta é uma questão de fundo ideológico.

O que não está certo é ele atacar com argumentos pífios e distorcidos os que defendem estas alternativas.

Compromisso com o defeito

Bolsonaro é parlamentar há quase três décadas, o que não faz dele um democrata

Janio de Freitas

Folha de S.Paulo

Os dois assumem o “compromisso com a democracia” cobrado de ambos por editoriais escritos e falados. O inverso cairia melhor, com os cobradores cobrados por um compromisso com a democracia, sobretudo na TV. Mas vá lá.

A cobrança a Haddad não tem sentido, inexistindo atitudes ou palavras suas de conotação antidemocrática. Nem as tiveram as presidências petistas.

A cobrança a Bolsonaro deu ao bolsonarismo, inclusive o disfarçado, a resposta contra os que apontam o seu autoritarismo: “ele assumiu o compromisso”. Mais do que duvidoso.

Sem ter escritos, Bolsonaro adaptou o lema de Fernando Henrique: “esqueçam o que eu disse”. A Petrobras já entrou e saiu da lista de privatizações várias vezes. Paulo Guedes já foi “o posto Ipiranga” que acumularia diversos ministérios, caiu a conselheiro sem poder de decisão, e ainda não parou de subir e descer, repetido e contestado.

O mesmo com o general Mourão. Estaríamos todos armados, sendo este o plano contra a criminalidade, e logo uma parte foi desarmada, voltou à condição policial, e não se sabe mais.

Assim ocorre com todas as afirmações de Bolsonaro, remotas ou recentes. Um traço pessoal que desacredita todo compromisso seu.

O “compromisso com a democracia” tem, no entanto, uma causa mais expansiva de invalidade. No laboratório do candidato, o que está em elaboração pode-se chamar de nada menos do que um governo dos generais.

Em presença numérica, sim, como já informado por Bolsonaro: “o governo vai ter militares em muitos postos”, “vão ser só 15 ministérios, uns cinco vão ter ministros militares”. Mas, além do número, há a índole que conduz esses militares.

Os generais hoje na reserva são os capitães, majores, coronéis do suporte à ditadura. Foram formados no autoritarismo e para o autoritarismo.

É nisso que faz a identificação mútua entre o grupo de generais e Bolsonaro, entre a corporação militar e Bolsonaro.

É a concepção de militar sem contribuição intelectual, desde que a escola francesa foi aqui substituída, com a chegada da Segunda Guerra Mundial, pela instrução americana, mecanicista e sem cultura.

Por oito anos, iniciados no governo Lula e terminados ao começar o segundo mandato de Dilma, o general Enzo Peri conseguiu a façanha, como comandante do Exército, de manter sua oficialidade em estrito profissionalismo, respeito à Constituição e à margem da política.

Aeronáutica e Marinha já seguiam essa linha, e continuaram. O sucessor de Enzo Peri, general Villas Boas, não teve a mesma firmeza, à falta da mesma convicção. O escorpião da anedota outra vez provou sua advertência psicológica e sociológica.

Ser parlamentar não é sinônimo de democrata. Bolsonaro é parlamentar há quase três décadas, mas não é democrata. Já disse e fez muito mais do que o necessário para demonstrá-lo.

O divulgado como seu programa não contém nenhuma proposta, por mínima que seja, destinada a fortalecer o incipiente regime democrático.

Dos generais que compartilham esse programa, nada se ouviu naquele sentido, hoje ou no passado. Bem ao contrário.

A verdade é que compromisso constitucional configura um desafio histórico e moral para as Forças Armadas da América Latina. É por defeito de fabricação. E não tem recall.

Sobre o autor


Jornalista e membro do Conselho Editorial da Folha.

Resignação ou resistência

Tereza Cruvinel

Jornal do Brasil

O tempo está correndo e daqui a 14 dias será o segundo turno. Bolsonaro manteve, segundo a primeira pesquisa Datafolha, a vantagem de 16 pontos percentuais sobre Fernando Haddad (58% a 42% dos votos válidos) obtidos no primeiro. Os Pilatos da direita lavaram as mãos, alegando tratar-se de disputa entre dois extremos; Ciro Gomes e Marina Silva saíram de cena lambendo as mágoas com o PT. Apontar Haddad como o outro extremo é desonesto e o dilema é falso. A escolha a ser feita é entre a continuidade da experiência democrática, que já fez do Brasil um país bem melhor, e o início de uma nova aventura autoritária.

Impedir que o autoritarismo se imponha pelo voto, abrindo as comportas para perseguições lastreadas em preconceitos, é algo que vai muito além de apoiar um candidato do PT. Devia ser um imperativo democrático. Todos sabem que Haddad, com seus poucos aliados (PC do B, PSB, PPL e PSOL), dificilmente conseguirá virar o jogo. Isso só será possível se houver uma unidade vigorosa na sociedade civil e na esfera partidária mas o que tem prevalecido, além da omissão, é uma resignação melancólica.Com tanto mi-mi-mi, devemos ir nos preparando para o governo Bolsonaro.

Para virar o jogo, Haddad teria que conquistar a maioria dos votos de Ciro, Marina e Boulos e parte dos votos de candidatos do outro lado, como Alckmin, João Amoedo, Dias e Daciolo. E ainda boa parte dos dez milhões de eleitores que, juntos, ocuparam o quarto lugar no primeiro turno, depois de Alckmin: os sete milhões que anularam o voto e os 3 milhões que votaram em branco. Existem ainda os 20 milhões que não foram às urnas no dia 7. Existe, pois, alguma disponibilidade de votos para uma virada, se tomarmos como impossível a conquista de eleitores que votaram em Bolsonaro no primeiro turno. Quem votou nulo ou em branco já disse que está por aqui com a política e com o sistema, e este também não é um voto fácil de ser conquistado. Uma parte dos que se ausentaram pode ter tido a mesma motivação mas muitos faltaram por impedimentos diversos.

Mas para conquistar parte destes votos disponíveis, o alinhamento das forças democráticas com Haddad devia ser vigoroso e já estar avançado, fazendo ecoar a mensagem de que o mais importante agora é preservar a democracia e barrar o avanço do projeto que, além de autoritário, será indutor da violência e de preconceitos como o racismo, a homofobia e o machismo. Entre os partidos isso não aconteceu. Na sociedade civil a movimentação é tímida, apenas intelectuais e artistas começam a se posicionar, como fez ontem Caetano Velloso, apesar da Regina Duarte, que tinha medo de Lula mas não tem de Bolsonaro, que recebeu a visita dela.

O que se tem visto é o festival do mi-mi-mi: não apenas políticos e partidos sobem no muro. As pessoas também vão às redes sociais dizer que abominam o candidato autoritário mas não votam em Haddad por isso e aquilo: que o PT se corrompeu, que foi Lula que inventou o “nós contra eles”, que o PT só buscou vingança ao lançar candidato próprio, ao invés de apoiar Ciro, e coisas assim. E se Ciro tivesse sido o candidato, não teria ele se tornado o alvo das iras bolsonarianas, sendo acusado de se alugar para o PT?

O que não se tem visto é alguém, cuja voz tenha ressonância, dizer sensatamente: os governos do PT trouxeram avanços mas também muitos danos ao país. Os pecados cometidos, entretanto, são veniais diante do pecado mortal que será perpetrado contra a democracia se Bolsonaro for eleito. Essa é a questão: para castigar o PT, estão dispostos a imolar a democracia?

O horário eleitoral começou e o programa de Bolsonaro, com seu aparente descuido técnico, mostrou que existem estrategistas de marketing na campanha, eficazes até na dissimulação do próprio marketing. Ele vai usar armas pesadas, combinando rajadas de antipetismo com sua própria humanização. O de Haddad foi correto, apresentou propostas mas transmitiu a sensação de isolamento. Faltaram os apoiadores, dizendo que estão com ele por uma razão maior. Por ora, estão dedicados ao mi-mi-mi.

Ouvir o "Grande Mudo"

Convivência de militares e civis criou laço de respeito

Umberto Andrade


Em 31 de março de 1964, José Murilo de Carvalho foi surpreendido com o golpe militar que depôs o governo João Goulart, que contava com apoio popular e político. Manifestações nas ruas foram entendidas como resposta à aposta em temas controversos, como reforma agrária, nacionalismo e luta de classes.

O historiador registra a falha dos analistas políticos, incapazes de entender as mudanças por que passaram tão importante ator político. Há uma trajetória de transformações do nascimento do intervencionismo reformista, na era Hermes da Fonseca, até o fim do Acordo Militar Brasil-EUA, com Ernesto Geisel.

Passado mais de meio século, poucos políticos são capazes de percorrer o caminho do historiador e reconhecer que organizações possuem características e vida própria, não podendo ser reduzidas a reflexos de influências externas.

Isso é particularmente verdade nas Forças Armadas: além de sua grande complexidade, são também instituições totais, ao envolverem todas as dimensões da vida de seus membros, segundo Erving Goffman.

Recentemente um ministro da Defesa declarou estranheza por nunca ter recebido pedidos para influir na promoção de generais, demonstrando desconhecimento. A mesma ignorância surge na autocrítica de próceres do antigo governo que lamentam não ter influenciado nas escolas militares.

O oficial de Estado-Maior Góes Monteiro sugeria que, nas lutas políticas, o Exército não devia passar do Grande Mudo. Essa neutralidade foi exigida na era Geisel, cuja ascensão resultou da combinação de elementos com que militares concebem a legitimidade política na corporação: reputação profissional, personalidade e posição hierárquica.

A reputação é construída ao longo da carreira por avaliações contínuas de superiores e colegas. A ética militar tem princípios cultuados pelo exemplo, como respeito à dignidade humana, cumprimento de ordens legais e penhor do sacrifício da própria vida --valores que envolvem a vida dos membros, de novo Goffman.

O militar profissional e disciplinado pós-64 é efeito do aperfeiçoamento de suas escolas. Para sobreviver ao aperto dos anos 90, as Forças Armadas elegeram as escolas como área de excelência, e estas tornaram-se modelos de gestão na área de ensino: Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), Instituto Militar de Engenharia (IME), Escola Naval e Academia Militar das Agulhas Negras (Aman).

Há um sistema monolítico na formação do oficial que ensina princípios e valores próprios da nação.

Entretanto, as escolas superiores militares se abriram, de modo genuinamente democrático, para a formação de civis, inclusive políticos, capacitando-os a formular políticas alternativas para o setor.

Como ressalta Carvalho, é preciso reconhecer que militares fazem enorme esforço para se capacitarem em assuntos tradicionalmente civis desde os anos 30. A convivência entre civis e militares criou hábitos de cooperação intelectual, laços de camaradagem e respeito.

Se a guerra é importante demais para ser deixada aos militares, como afirma Clemenceau, também é importante demais para ter ingerências indevidas de civis. As táticas se tornaram mais eficientes, menos sangrentas, e o planejamento estratégico, impositivo. A França resistiu à ocupação de um general, enquanto a Inglaterra venceu a guerra conduzida por um civil. Exércitos modernos são hoje muito influenciados por Clausewitz, que definiu a guerra como a continuação da política por outros meios.

A violência continua a ser a última razão dos reis, mas a negociação, própria do político, sempre será a via preferencial para evitar a guerra.

Sobre o autor


General de brigada e presidente da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (Adesg); Ph.D. pela Universidade da Califórnia, em San Diego.

13 de outubro de 2018

Acordar a tempo

Voto em Bolsonaro resulta de mistura explosiva que tem precedentes na história do país

André Singer

Folha de S.Paulo

Apoiadores do candidato Jair Bolsonaro (PSL) fazem ato em frente ao condomínio onde ele mora na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Eduardo Anizelli/Folhapress

O que aconteceu nos últimos dias no Brasil precisa ser bem explicado. O postulante presidencial Jair Bolsonaro (PSL) ganhou seis pontos percentuais no próprio momento da eleição. Vale dizer que cerca de 6,5 milhões de eleitores tomaram posição na última hora, quase levando o extremista de direita ao Planalto já no primeiro turno.

O tsunami radical se refletiu de maneira expressiva nos pleitos para a Câmara e Executivos de estados. O partido de Bolsonaro saiu de 8 para 52 deputados federais, a segunda maior bancada da Casa. Candidatos a governador quase desconhecidos, como Wilson Witzel (RJ) e Romeu Zema(Novo), dispararam, obtendo mais de 40% dos sufrágios válidos.

Para completar, a primeira pesquisa Datafolha, publicada na quinta passada (11) indicou que o capitão reformado teria 58% das intenções de voto no segundo turno, marcado para 28/10. A sociedade brasileira, em geral pouco afeita a posições de conflito, inclinou-se de repente para um dos polos. O que aconteceu?

Desconfio que uma resposta abrangente, a qual sem dúvida envolve múltiplos aspectos, tarde a aparecer. Mas, para efeito de raciocínio, deixo aqui uma percepção.

Tratou-se, a meu ver, da mistura explosiva, que tem precedentes na história nacional, entre a persistência das dificuldades econômicas e as denúncias de corrupção.

Sem a rapidez estonteante das mensagens trocadas por WhatsApp, Jânio Quadros e Fernando Collor de Mello representaram fenômenos similares.

A inflação dos períodos Juscelino e Sarney, que os antecederam, bem como estrondosas denúncias de malversação do dinheiro público pelos políticos fluíram para o coquetel explosivo que colocou no Palácio do Alvorada dois presidentes eleitos instáveis, os quais não lograram terminar o mandato.

Trata-se de uma espécie de protesto antissistema, mas à direita, que denota a esperança posta em uma autoridade firme, que “bote ordem na casa”.

O programa econômico de Bolsonaro registrado no TSE tem o “objetivo de equilibrar as contas públicas no menor prazo possível”. Para tanto, a sua proposta mais original é reduzir 20% da dívida pública por meio de privatizações.

Em suma, haverá menos gasto público, com a provável estagnação do PIB e a deterioração de serviços essenciais à população de baixa renda.

Pode-se prever, em consequência, uma queda na aprovação do eventual presidente. Um governo sem compromisso institucional reagirá à rejeição popular com repressão e força.

Se parte dos que foram carregados pela fronda bolsonarista do último domingo (7) não acordarem do sonho autoritário nas próximas duas semanas, pode-se esperar pelo pior.

Sobre o autor


Professor de ciência política da USP, ex-secretário de Imprensa da Presidência (2003-2007). É autor de “O Lulismo em Crise”.

Nós e a normalopatia

Tereza Cruvinel


Para psicanalistas e psicólogos, a obsessão pela normalidade resulta numa doença, a normalopatia. Já os cientistas sociais usam a palavra para descrever uma patologia social nova, a normalização de situações que são extraordinárias, anormais, fora do padrão, para o bem ou para o mal. Trump, por exemplo, para os americanos. Aqui, o segundo turno começa bem anormal. Em condições normais, alguém vê sentido em estarmos discutindo comunismo 30 anos depois da queda do Muro de Berlim? Mas Jair Bolsonaro gastou parte de seu primeiro programa, ontem, tratando disso.

O segundo turno existe para que os eleitores possam conhecer melhor as propostas dos dois candidatos mais votos no primeiro turno. Novas alianças são formadas e os programas são ajustados à nova composição partidária da coligação. É também a oportunidade para que sejam mais debatidos pois, afinal, é com este programa que o vencedor vai governar. Nada disso promete acontecer neste segundo turno.

Os realinhamentos ocorrem para que o vencedor disponha da maioria ou da mais ampla base possível para governar. Isso não está fluindo normalmente. Os mais de 15 partidos que declararam neutralidade no fundo são aliados que Bolsonaro não quer exibir. O PTB formalizou o apoio mas, de público, ele fingiu que não viu. Afinal, foi fingindo ser outsider, e não participar “disso que está aí’, que ele arrastou 49 milhões de votos e promoveu a renovação conservadora, trocando velhos políticos por seus aliados, alguns completamente desconhecidos.

Pela esquerda, a frente democrática em torno de Fernando Haddad não saiu. Ficou restrita aos partidos da velha Frente Brasil Popular, composta por PT, PC do B, PSB e agora PSOL. O PDT e Ciro Gomes lavaram as mãos com o apoio crítico. Fernando Henrique, cujo apoio teria peso e ressonância, também vai para o exterior. Bem feito para o PT, dizem nas redes sociais, criticando a autossuficiência do partido.

A comparação programática não haverá. Bolsonaro gastou boa parte do seu primeiro programa com propaganda anticomunista. Mostrou imagens da criação do Foro de São Paulo, associação de partidos de esquerda latino-americanos, que ele apresenta como uma internacional comunista latino-americana. Este PT comunista de que Bolsonaro fala governou o país por 13 anos e não implantou o tal regime. Mas pode implantar agora, se Haddad ganhar. Os eleitores de Bolsonaro acreditam nisso, como se vê pelo que dizem nos grupos de whatsapp. Os evangélicos oram repreendendo o perigo. Os petistas, na ideologia bolsonarista ou neofascista, ocupam o lugar dos comunistas na ditadura militar. Se ele ganhar, haverá perseguição e caça às bruxas, não tenham dúvida.

Propostas de governo ele não apresentou nenhuma. A segunda parte foi a exibição do pai de família, que chorou ao falar da filha mais nova, pela qual desfez uma vasectomia. A mesma que, já disse ele, nasceu mulher porque ele deu “uma fraquejada”. Houve apenas a promessa vaga de um país melhor, com um governo “que saia do cangote da classe produtora”. Palavras como emprego, direitos sociais ou trabalhistas, educação e saúde, não apareceram no programa.

O programa de Haddad traduziu seu esforço para agregar apoios, depois de abrir com denúncia forte sobre violências cometidas por bolsonaristas de domingo para cá. O verde e o amarelo somaram-se ao vermelho, e embora os bolsominions festejem nas redes que “o PT amarelou”, as campanhas de Dilma e de Lula também fizeram uso das cores da bandeira. Em sua enorme desvantagem nas pesquisas, Haddad fez sua maior oferta, a de ser candidato não do partido, mas de todos que prezem a democracia e a justiça social. Está certo. E apresentou algumas propostas, como a do ensino médio federal e o programa “meu emprego de volta”.

Mas debate, vai ficando claro, não haverá. É a normalopatia. Eleição sem programa e sem debate.