18 de junho de 2018

Circuito de morte no "Mediterrâneo ampliado"

Manlio Dinucci

Il Manifesto

Tradução / Os holofotes político-midiáticos, focalizados nos fluxos migratórios Sul-Norte através do Mediterrâneo, deixam na sombra outros fluxos: os de Norte-Sul de forças militares e armas através do Mediterrâneo. E ainda mais: através do “Mediterrâneo ampliado”, área que, no quadro da estratégia EUA/OTAN, se estende do Atlântico ao Mar Negro e, ao sul, até o Golfo Pérsico e ao Oceano Índico. No encontro com o secretário da OTAN, Stoltenberg em Roma, o premiê italiano Conte sublinhou “a centralidade do Mediterrâneo ampliado para a segurança europeia”, ameaçada pelo “arco de instabilidade do Mediterrâneo ao Oriente Médio”. Daí a importância da OTAN, aliança sob comando estadunidense que Conte define como “a pilastra da segurança interna e internacional”. Uma completa distorção da realidade.

Foi fundamentalmente a estratégia EUA/Otan que provocou o “arco de instabilidade” com as duas guerras contra o Iraque, as outras duas guerras que destruíram os Estados iugoslavo e líbio e a guerra para demolir o Estado sírio. A Itália, que participou de todas estas guerras, segundo Conte desempenha “um papel chave para a segurança e a estabilidade do lado sul da Aliança”. 

De que modo, compreende-se a partir do que a mídia esconde. O navio Trenton da Marinha de Guerra dos EUA, que recolheu 42 refugiados (autorizados a desembarcar na Itália diferentemente dos que estavam no Aquarius), não se encontra na Sicília para desenvolver ações humanitárias no Mediterrâneo: é uma unidade veloz (até 80 km/h), capaz de desembarcar em poucas horas na costa norte-africana um corpo de expedição de 400 homens e seus equipamentos. Forças especiais dos EUA operam na Líbia para treinar e dirigir formações armadas aliadas, enquanto drones armados dos EUA, decolando de Sigonella, golpeiam alvos na Líbia. Em breve, anunciou Stoltenberg, operarão desde Sigonella também drones da Otan. Estes integrarão o “Hub de direção estratégica da Otan para o Sul”, centro de inteligência para operações militares no Oriente Médio, Norte da África, Sahel e África subsaariana.

O Hub, que se tornará operacional em julho, tem sede em Lago Patria, no Comando da força conjunta da Otan (JFC Nápoles), sob as ordens de um almirante estadunidense – atualmente James Foggo – que comanda também as forças navais dos EUA na Europa (com quartel general em Nápoles-Capodichino, a Sexta Frota estacionada em Gaeta) e as forças navais dos EUA paraa África. Tais forças foram integradas pelo porta-aviões Harry S. Truman, há dois meses no Mediterrâneo com seu grupo de ataque.

Em 10 de junho, enquanto as atenções midiáticas se concentravam sobre o Aquarius, a frota dos EUA com oito mil homens a bordo, armada com 90 caças e mais de mil mísseis, estacionava no Mediterrâneo oriental, pronta para golpear na Síria e no Iraque. Nos mesmos dias, em 12 e 13 de junho, fazia escala em Livorno o Liberty Pride, um dos navios militarizados dos EUA, embarcando nas suas 12 pontes outra carga de armas que, desde a base estadunidense de Camp Darby, são enviadas mensalmente à Jordânia e Arábia Saudita para as guerras na Síria e no Iêmen. Assim alimentam-se as guerras que, unidas aos mecanismos neocoloniais de exploração, provocam o empobrecimento e o desaparecimento de populações. Em consequência, aumentam os fluxos migratórios em condições dramáticas, que provocam vítimas e novas formas de escravidão. “Agora parece que ser duro com a imigração compensa”, comenta o presidente Trump referindo-se às medidas decididas não só pelo ministro do Interior da Itália, Salvini, mas por todo o governo italiano, cujo premiê é definido como “fantástico”. 

Justo reconhecimento por parte dos Estados Unidos, que no programa de governo são definidos como “aliado privilegiado” da Itália.

17 de junho de 2018

Trump versus o resto

Prabhat Patnaik


Tradução / O abandono de Donald Trump da cúpula do G-7 sem que tivesse alterado nem uma vírgula do seu protecionismo indica desunião entre os principais países capitalistas sobre a estratégia para ultrapassar a crise dos mesmos. Trump decidiu que os EUA seguiriam seu próprio caminho, ampliando o défice orçamental, não apenas dando concessões fiscais às corporações, o que teria pouco efeito no estímulo à procura, mas também pelo aumento da despesa governamental o que teria este efeito e, ao mesmo tempo, o de proteger o mercado interno.

Estas duas fibras da estratégia de Trump juntaram-se. Na realidade, na ausência de protecionismo, qualquer estímulo orçamental no interior da economia estadunidense, tal como uma maior despesa governamental deliberada, extravasaria para fora do país com a criação de maior procura por importações de bens de outros países, caso em que os EUA estariam a gerar emprego não dentro de casa mas sim no exterior – e também a incorrer em dívida para com aqueles mesmos países se assim fizesse. Mas um maior défice orçamental combinado com o protecionismo assegura que sejam criados empregos internos e não se incorra com isso em dívida externa.

Trump pode permitir-se empreender esta estratégia devido à posição dos EUA no mundo capitalista. Qualquer outro país que prosseguisse uma tal estratégia de défice orçamental ampliado juntamente com protecionismo testemunharia um fluxo de saída financeiro pois a "confiança do investidor" naquele país seria minada. Mas os EUA estão numa posição diferente: a sua divisa ainda é considerada "tão boa quanto o ouro" apesar de não ser oficialmente tão ordenada (como era sob o Sistema de Bretton Woods). E isto constitui, por uma variedade de razões, a base principal das finanças, de onde, a menos que haja fortes provocações, elas não gostariam de sair. Trump está, assim, a explorar essa posição dos Estados Unidos como o Grande Senhor do mundo capitalista, junto sem dúvida com algum aumento na taxa de juros dos EUA, a fim de pressionar uma estratégia para a revitalização só dos EUA, sem sequer pensar na revitalização do mundo capitalista como um todo.

O que há de errado com esta estratégia não é a habitual afirmação destituída de fundamento de que "o protecionismo é mau", de que "o livre comércio é bom", ou de que esta estratégia representa um "nacionalismo" que é reacionário pois oposto ao "internacionalismo" que é progressista. O que está errado com esta estratégia é que "não funcionaria mesmo para os EUA (embora atualmente possa parecer ter êxito), muito menos para o mundo capitalista como um todo.

Todo este discurso sobre "nacionalismo" contra "internacionalismo" é não só analiticamente errado, porque estes termos não podem ser definidos sem referência ao seu conteúdo de classe ("nacionalismo" por exemplo não é uma categoria homogênea e o "nacionalismo" de Ho Chi Minh é bastante diferente do de Hitler); ele é também eticamente não fundamentado: se níveis mais altos de emprego pudessem ser alcançados por toda a parte, juntamente com níveis mais altos de despesas sociais, colocar cada país a seguir uma estratégia "nacionalista", quando comparados a uma situação onde tentam em vão prosseguir uma estratégia "internacionalista", então contestar uma tal estratégia "nacionalista" é claramente indefensável.

Atualmente a estratégia de Trump, destaca muita gente, parece estar funcionando nos EUA. A taxa de desemprego está oficialmente baixa e em torno dos 4 por cento. Embora a taxa de participação da força de trabalho continue a estar abaixo da que estava antes da crise de 2008, de modo que, na suposição de uma taxa de participação da força de trabalho inalterada, a taxa de desemprego seria apenas superior a 6 por cento, esta mesma taxa, sugerem alguns, representa um declínio em comparação com a de alguns anos atrás. Ao mesmo tempo, embora Trump tenha utilizado o défice orçamental para agradar os capitalistas através de isenções fiscais, ele não tem, sugere-se, restringido demasiado os gastos sociais. E ainda assim, apesar destas supostas condições de boom, a taxa de inflação é bastante baixa e o dólar continua a estar forte.

Vamos para argumentar assumir que todas estas afirmações acerca do êxito da estratégia de Trump sejam verdadeiras, embora um momento de reflexão mostre que todas elas não poderiam ser verdadeiras em simultâneo. Por outras palavras, é impossível haver uma coexistência, excepto apenas transitória, das seguintes quatro características: uma baixa taxa de desemprego; um grande défice orçamental; uma política de protecionismo e uma baixa taxa de inflação. As primeiras três delas provocariam excesso de pressões da procura que fariam subir a taxa de inflação, a qual não mais permaneceria baixa. Mas ainda assim vamos assumir que todas as quatro características fossem verdadeiras.

Mas todas estas características são apenas os resultados da primeira fase da estratégia Trump. Outros países, aqueles atingidos pelo protecionismo dos EUA, não ficariam apenas passivos e a aceitar o aumento do desemprego que a estratégia dos EUA de avançar sozinho lhes exportaria. A breve trecho começariam a tomar medidas compensatórias através da ampliação dos seus próprios défices orçamentais, juntamente com o protecionismo necessário. No caso deles, no entanto, tais medidas implicariam uma fuga das finanças, já que lhes falta o status de Grande Senhor que os EUA desfrutam. Eles teriam, portanto, que aplicar controles sobre os fluxos financeiros, ou seja, “controles de capitais”; ou elevar suas taxas de juros a fim de estimular as finanças a não os abandonarem.

Controles de capitais, contudo, atacariam as próprias raízes da atual globalização. Vale a pena notar que mesmo Trump, com todas as suas medidas protecionistas contra as importações de bens e serviços, não aplicou restrições contra os fluxos financeiros livres. Da mesma forma, os outros países capitalistas seriam avessos a restringir fluxos de capitais através das suas fronteiras. Eles portanto recorreriam a altas de taxas de juros para impedir quaisquer saídas financeiras.

Estas altas nas taxas de juros anulariam numa certa medida seus esforços para reduzir o aumento do desemprego devido ao protecionismo dos EUA e também provocariam um aumento correspondente nas taxas de juro dos EUA. O que neste momento parece ser uma "guerra comercial" iniciada por Trump – e está a ser discutida e ridicularizada como tal pelos seus oponentes – em breve assumiria a forma de altas competitivas nas taxas de juro, da qual a presente ascensão nas taxas de juro dos EUA teria sido o primeiro sintoma. E tais altas para todos os países capitalistas tomados em conjunto, incluindo os Estados Unidos, anulariam quaisquer ganhos no emprego que um défice orçamental ampliado e o protecionismo pudessem ter causado.

O que a conjuntura atual mostra claramente é que é impossível ultrapassar a crise capitalista sem impedir fluxos financeiros globais, o que significa livrar-se da hegemonia da finança globalizada. A estratégia de Trump não pretende afastar esta hegemonia e muito menos os outros países capitalistas estão desejosos de se livrarem da mesma, eles iriam todos empenhar-se numa luta competitiva de altas de taxas de juro as quais coletivamente não implicaria qualquer melhoria na situação da economia capitalista mundial.

Só há dois caminhos lógicos possíveis para a economia capitalista mundial poder sair da sua atual crise prolongada. Um é através de um estímulo orçamental coordenado de todos os países avançados, da espécie que Keynes e um grupo de sindicalistas alemães sugeriu durante a Grande Depressão da década de 1930. Isto naturalmente teria a oposição categórica do capital financeiro internacional, o qual se opõe a todo ativismo direto do Estado que não passe por seu intermédio. Mas a unidade entre os principais Estados-nação que pudesse, através da mesma, atuar como um Estado mundial substituto, poderia concebivelmente ultrapassar esta oposição. Mas ninguém no G-7 está sequer a falar sobre esta estratégia, o que significa que ela não faz parte da agenda do mundo capitalista. Qualquer tentativa de persegui-la, uma vez que teria de superar a oposição do capital financeiro internacional, o que o capitalismo é incapaz de fazer, teria necessariamente de implicar uma transição para além do capitalismo, ou seja, uma transcendência do capitalismo no próprio processo de superação da sua crise.

O segundo caminho lógico é países particulares decidirem avançar sozinhos, como Trump está a tentar fazer. Mas para isto ter êxito, teriam de ser postos em prática controles de capitais pois, de outro modo, a prevenção de saídas de capital como uma consequência de tal avanço solitário (que necessariamente exigiria ativismo orçamental a que a finança sempre se opõe) pressionaria o país, e seus rivais, para altas de taxas de juro competitivas, as quais subvertem – tanto individualmente para países particulares como coletivamente para o mundo capitalista como um todo – as perspectivas de revitalização econômica.

O êxito aparente de Trump com a economia dos EUA – se é que há algum êxito, o que é duvidoso – representa portanto apenas a primeira etapa nesta luta competitiva. Este êxito está destinado a ser eliminado quando os outros reagirem aos seus movimentos. Uma vez que nem Trump nem os seus rivais estão sequer a pensar em quaisquer restrições aos fluxos de capital, o que minaria a hegemonia do capital financeiro internacional e por isso está descartado, a crise estrutural do capitalismo está fadada a continuar apesar de todas as aparências em contrário.

11 de junho de 2018

Nós e a UE estamos em disputa, mas nos unimos contra a Rússia e a China

Manlio Dinucci

Il Manifesto

Tradução / Enquanto o G-7 racha como efeito da guerra das tarifas aduaneiras, os próprios litigantes se recompõem fortalecendo a OTAN e sua rede de parceiros.

A proposta tática de Trump de recompor o G-8 – visando a incorporar a Rússia em um G-7+1, separando-a da China – foi rejeitada pelos líderes europeus e pela própria União Europeia, que temem ser superados por uma tratativa Washington-Moscou. Contudo, foi aprovada pelo novo primeiro-ministro italiano Conte, definido por Trump como “um bravo rapaz” e convidado à Casa Branca. Porém a estratégia permanece comum. Isto é confirmado pela última decisão tomada pela OTAN, da qual são principais membros os Estados Unidos, o Canadá, a Alemanha, a França, a Grã Bretanha e a Itália, mais o Japão como parceiro, ou seja, todas as potências do G-7.

A reunião dos 29 ministros da Defesa (pela Itália Elisabetta Trenta, do Movimento Cinco Estrelas) decidiu por unanimidade no dia 7 de junho fortalecer a estrutura de comando com finalidade anti-Rússia, aumentando o pessoal de mais de 1.200 unidades; constituir um novo Comando conjunto para o Atlântico, a Norfolk nos EUA, contra “os submarinos russos que ameaçam as linhas de comunicação marítima entre os Estados Unidos e a Europa”; constituir um novo Comando logístico, a ULM na Alemanha, como “dissuasão” contra a Rússia, com a tarefa de “movimentar mais rapidamente as tropas através da Europa em qualquer conflito”.

A “mobilidade militar” está no centro da cooperação entre a OTAN e a União Europeia, que em julho será reforçada com um novo acordo. Em 2020 a OTAN disporá na Europa de 30 batalhões mecanizados, 30 esquadrilhas aéreas e 30 navios de combate, que podem ser deslocados em 30 dias ou menos contra a Rússia. Com tal finalidade, como exigido pelos EUA, os aliados europeus e o Canadá aumentaram a sua despesa militar em 87 bilhões de dólares em 2014 e se comprometem a aumentá-la ainda mais. A Alemanha a elevará em 2019 a uma média de 114 milhões de euros ao dia e planifica aumentá-la em 80% em 2024.

A Alemanha, a França, a Grã Bretanha, o Canadá e a Itália, enquanto lutam no G-7 contra os EUA pela questão das taxas aduaneiras, participam na Europa, sob o comando estadunidense, nos exercícios militares Saber Strike que, mobilizando 18 mil soldados de 19 países, se desenvolvem de 3 a 15 de junho na Polônia e no Báltico nas proximidades do território russo. Os mesmos países e o Japão, membros do G-7, participam no Pacifico, sempre sob o comando estadunidense, da Rimpac 2018, o maior exercício naval do mundo com objetivos anti-China. Pela primeira vez forças israelenses participam destes ensaios de guerra, da Europa ao Pacífico. As potências ocidentais, divididas por interesses contrastantes, fazem frente comum para manter com quaisquer meios – cada vez mais a guerra – o domínio imperial do mundo, em crise pela emergência de novos sujeitos estatais e sociais. No próprio momento em que no Canadá rachava o G-7 sobre a questão das taxas aduaneiras, em Pequim a China e a Rússia estabeleciam novos acordos econômicos. A China é o primeiro parceiro comercial da Rússia, e esta é o primeiro fornecedor energético da China. O intercâmbio entre os dois países chegará este ano a cerca de 100 bilhões de dólares. A China e a Rússia cooperam para o desenvolvimento da Nova Rota da Seda através de 70 países da Ásia, Europa e África.

O projeto – que contribui para “uma ordem mundial multipolar e para relações internacionais mais democráticas” (Xi Jinping) – tem a oposição dos EUA e da União Europeia: 27 dos 28 embaixadores da União Europeia em Pequim (exceto a Hungria) sustentam que o projeto viola o livre comércio e visa a dividir a Europa.

Não é somente o G-7 que está em crise mas a ordem mundial unipolar imposta pelo Ocidente.

Se Trump quer explodir a ordem mundial, quem o impedirá?

Por mais horrorizados que possamos estar com as bufonarias de Trump, é importante entender as mudanças tectônicas que as sustentam.

Yannis Varoufakis


"Trump analisa os fluxos de comércio com o resto do G7 e chega a uma conclusão inescapável: ele não pode perder uma guerra comercial". Fotografia: Evan Vucci / AP

Tradução / A saída antecipada de Donald Trump e sua subsequente recusa em endossar o comunicado do G7 lançaram a imprensa em uma apoplexia, refletindo uma incompreensão mais profunda de nossa realidade global em desenvolvimento.

Em uma tentativa de misturar dureza com humor, Emmanuel Macron havia dito que o G7 poderia se tornar o... G6. Isso é absurdo, até porque, sem os Estados Unidos, o capitalismo, como o conhecemos (sem falar nos lamentáveis encontros do G7), desapareceria da face do planeta.

Há, é claro, pouca dúvida de que com Trump na Casa Branca há muita coisa sobre a qual devemos nos angustiar. No entanto, a reação do establishment às peripécias do presidente, nos Estados Unidos e na Europa, é talvez uma preocupação ainda maior para os progressistas, repleta como está de perigosas intenções e profusos erros de cálculo.

Alguns depositaram sua fé na investigação de Mueller, assumindo que Mike Pence seria mais gentil com eles como presidente. Outros estão prendendo a respiração até 2020, recusando-se a considerar a possibilidade de um segundo mandato. O que todos eles não entendem é o real movimento tectônico que sustenta as artimanhas rudes de Trump.

A administração Trump está construindo um impulso econômico substancial no plano doméstico. Primeiro, ele aprovou cortes nos impostos de renda e corporativos que o establishment republicano não poderia ter imaginado em seus sonhos mais loucos há alguns anos. Mas isto não foi tudo. Nos bastidores, Trump surpreendeu Nancy Pelosi, a líder dos democratas na Câmara dos Deputados, aprovando cada programa social que ela pediu a ele. Como resultado, o governo federal está efetivando o maior déficit orçamentário da história dos Estados Unidos, enquanto a taxa de desemprego é inferior a 4%.

O que quer que se pense desse presidente, ele está distribuindo dinheiro não apenas para os mais ricos, que, claro, recebem o máximo, mas também para muitas pessoas pobres. Com um nível de emprego comprovadamente forte, especialmente entre os trabalhadores afro-americanos, a inflação sob controle e o mercado de ações ainda dinâmico, Donald Trump tem sua frente interna defendida enquanto viaja para terras estrangeiras para confrontar amigos e inimigos.

O establishment anti-Trump dos EUA reza para que os mercados punam sua prodigalidade. Isto é precisamente o que teria acontecido se a América fosse um outro país qualquer. Com um déficit fiscal que deve chegar a US $ 804 bilhões em 2018 e US $ 981 bilhões em 2019 e com o governo que se espera tomar emprestado US $ 2,34 trilhões nos próximos 18 meses, a taxa de câmbio estaria disparando e as taxas de juros atingindo o teto. Exceto que os EUA não são um outro país qualquer.

À medida que seu banco central, o Fed, reduz seu programa de flexibilização quantitativa (“quantitative easing”) vendendo seu estoque de ativos acumulados para o setor privado, os investidores precisam de dólares para comprá-los. Isso faz com que a quantidade de dólares disponíveis para os investidores diminua em até US $ 50 bilhões por mês. Adicione a isso os dólares que os capitalistas alemães e chineses precisam para comprar títulos do governo dos EUA (em uma tentativa de colocar seus lucros em algum lugar seguro) e você começa a ver por que Trump acredita que ele não será punido por uma corrida ao dólar ou a títulos do governo.

Armado com o privilégio exorbitante de possuir as máquinas de emitir dólar, Trump dá, então, uma olhada nos fluxos de comércio com o resto do G7 e chega a uma conclusão inevitável: ele não pode perder uma guerra comercial contra países que têm superávits tão altos com os EUA (por exemplo, Alemanha, Itália, China), ou que (como o Canadá) pegarão pneumonia no momento em que a economia americana pegar o resfriado comum.

Nada disso é novo. Richard Nixon também confrontou o establishment europeu em 1971 e Ronald Reagan esmagou brutalmente os japoneses em 1985. Mesmo a linguagem não era menos incivilizada - relembremos a síntese da atitude do governo Nixon nas palavras inimitáveis de John Connally: “Minha filosofia é que todos os estrangeiros estão aí para nos ferrar, e é nosso trabalho ferrá-los primeiro.” Entretanto, a agressão dos EUA de hoje em relação a seus aliados distingue-se desses episódios de duas formas.

Primeiro, desde o colapso de Wall Street em 2008 e apesar da reestruturação subsequente do setor financeiro, Wall Street e a economia doméstica dos EUA não podem mais fazer o que estavam fazendo antes de 2008: ou seja, absorver as exportações líquidas de fábricas europeias e asiáticas através de um superávit comercial financiado por um influxo equivalente de lucros no exterior. Essa insuficiência é a causa subjacente da atual instabilidade econômica e política global.

Em segundo lugar, ao contrário dos anos 1970, a década europeia, de administração inadequada da crise do euro, fez com que o establishment franco-alemão ficasse agora desunido e em fuga - com nacionalistas xenofóbicos e antieuropeus assumindo governos.

Trump dá uma olhada em tudo isso e conclui que, se os EUA não puderem mais estabilizar o capitalismo global, ele poderia explodir as convenções multilaterais existentes e construir do zero uma nova ordem global parecida com um eixo central (“hub”), com a América como centro e todos os outros poderes seus tributários - um arranjo de acordos bilaterais que garante que os EUA sempre serão o maior parceiro em cada um deles, e assim conseguirão extorquir o seu quilo de carne através de táticas de divisão e regramentos.

Pode a UE criar uma aliança antiTrump “Europe First”, talvez envolvendo a China? A resposta já foi dada após a anulação de Trump do acordo nuclear com o Irã. Minutos depois da declaração da chanceler Angela Merkel de que as empresas europeias permaneceriam no Irã, todas as corporações alemãs anunciaram que estavam se retirando, priorizando os cortes de impostos que Trump lhes oferecia dentro dos Estados Unidos.

Em conclusão, temos boas razões para ficarmos chocados com Trump: ele está ganhando contra um “establishment” europeu que chafurda na perfeita ignorância das forças que o minam e que abrem caminho para seus desalentadores desdobramentos. O ônus recai sobre os progressistas na Europa continental, no Reino Unido e nos Estados Unidos, para colocar na agenda um New Deal Internacionalista - e para vencer eleições fazendo campanha apoiado nessa agenda.

Em meus raros momentos otimistas, imagino uma aliança de Bernie Sanders, Jeremy Corbyn e nosso Movimento Democracia na Europa, o DiEM25, dando uma carreira na Internacional Nacionalista liderada por Trump. Há alguns anos atrás, um triunfo dos Trump nos EUA, Europa e além, parecia ainda mais improvável do que isso. Vale a pena tentar.

10 de junho de 2018

O ataque de raiva de Trump e a economia mundial

Michael Roberts

The Next Recession

Tradução / A reunião do G7 em Quebec, Canadá, foi memorável sob muitos aspectos. Primeiro, houve uma clara ruptura na habitual insípida unidade de objetivo e política expressa nas reuniões do G7 pelos líderes dos sete principais países capitalistas do mundo.

Pouco antes da reunião do G7 o presidente Donald Trump anunciara uma série de medidas de tarifas protecionistas contra o resto do G7, inclusive o seu vizinho mais próximo, o Canadá, com o argumento da "segurança nacional" – aparentemente o Canadá agora é um risco para a segurança dos EUA. Ao assim fazer, Trump cumpriu suas promessas eleitorais.

Na reunião Trump atacou os outros líderes afirmando que seus governos estavam a impor regras comerciais "injustas" sobre produtos estadunidenses e que precisavam reduzir seus excedentes no comércio com os EUA. Os outros já haviam respondido às medidas tarifárias dos EUA com o planejamento de tarifas recíprocas sobre exportações chave dos EUA e agora replicaram aos ataques de Trump com argumentos e evidência de que, ao contrário, eram os EUA que restringiam a importação de bens e serviços estrangeiros.

Assim, começou a guerra comercial – uma guerra em que as principais economias capitalistas não se empenhavam desde a depressão dos anos 1930 e que supostamente estava resolvida por acordos internacionais como o General Agreement on Tarifs and Trade (GATT), a Organização Mundial do Comércio (OMC) e o North American Free Trade Agreement (NAFTA) no período do pós guerra. Trump considerou a OMC como o pior acordo comercial possível e o NAFTA como o segundo pior (para a América). A América havia protegido os estados capitalistas europeus e o japonês com seus exércitos e armas nucleares contra a suposta ameaça russa e agora era a vez de eles pagarem tanto através de gastos em defesa como de acordos comerciais "mais justos". A ironia real neste argumento de Trump foi ele conclamar a que a Rússia, o suposto inimigo, tivesse outra vez um lugar na mesa principal – conversa que somou o insulto à injúria.

O que todas estas travessuras trumpistas revelaram é que o período da Grande Moderação e da globalização, desde os anos 1980 até 2007, quando todos os estados capitalistas importantes trabalhavam em conjunto para beneficiar o capital em todos os países (em variados graus) está acabado. A Grande Recessão de 2007-8 e a Longa Depressão que se seguiu desde 2009 mudaram o quadro econômico. Numa economia capitalista mundial em estagnação, onde o crescimento da produtividade é baixo, o crescimento do comércio mundial tem decaído e a lucratividade do capital não se recuperou, a cooperação foi substituída por uma competição cada vez mais viciosa – os ladrões tem brigado.

Trump é o líder "populista" e nacionalista da maior potência capitalista; a Itália (o mais fraco do G7) tornou-se também "populista" e nacionalista. E a Grã-Bretanha está trancada na cova do "Brexit", um desastre para o capital britânico da sua própria lavra. O ataque de Trump significou que a reunião do G7, a qual discutia o aumento da desigualdade, a automação e a mudança climática – os desafios chave a longo prazo para a sobrevivência do capitalismo – foi paralisada.

Mas não importa, por agora. A economia mundial está realmente a parecer melhor desde o fim da Grande Recessão. O Banco Mundial estima que o crescimento real do PIB global será de 3,1% este ano, o mesmo de 2017. Isso pode não parecer muito alto, mas é uma subida após o período de quase recessão de 2015-16, quando o crescimento global caiu para apenas 2,4% e as economias do G7 não podiam obter mais do que 1,5%. Agora as economias do G7 estão a expandir-se em torno da taxa dos 2,5%. O desemprego nos EUA, no Reino Unido e no Japão é o mais baixo de todos os tempos. E mesmo na Europa, a taxa de desemprego caiu para 8%, ainda acima dos níveis anteriores à crise mas a recuperar-se.

Contudo, no mais recente Global Economic Prospects, economistas do Banco Mundial não estavam convencidos de que esta moderada recuperação (ainda uns 30% abaixo da taxa de crescimento mundial anterior à crise) irá ser sustentada. "É expectável que se reduza nos próximos dois anos, quando a inatividade global se dissipar, o comércio e o investimento moderarem-se e as condições de financiamento endurecerem. O crescimento em economias avançadas está previsto que se desacelere rumo a taxas potenciais, quando a política monetária se normalizar e os efeitos do estímulo orçamental dos EUA desvanecerem-se". Além disso, "A perspectiva dos riscos permanece inclinada em rumo descendente. Elas incluem movimentos desordenados no mercado financeiro, escalada do protecionismo comercial, aumento da incerteza política e ascensão de tensões geopolíticas, todas as quais continuam a enevoar a perspectiva".

Sugeri no fim do ano passado que o ciclo comercial de curto prazo de 2015 a 2016 atingiria o pico em 2018 e a seguir acalmaria em 2019-20. "O que parece ter acontecido é que houve uma recuperação cíclica de curto prazo a partir de meados de 2016, após uma quase recessão global desde o fim de 2014 até meados de 2016. Se o fundo de ciclo Kitchin foi em meados de 2016, o pico deveria ser em 2018, com uma oscilação para baixo depois disso". E reiterei essa previsão em abril.

Os economistas do Banco Mundial parecem concordar. Eles esperam que o crescimento econômico mundial baixe para 2,9% em 2020. "A expansão econômica global permanece robusta mas tem amortecido... A atividade global ainda está atrás de expansões anteriores e o crescimento deve-se desacelerar em 2019-20 quando o comércio e o investimento se tornar moderado. O progresso do rendimento per capita será desigual e insuficiente para enfrentar a extrema pobreza na África sub-saariana". E "Não obstante a expansão global em curso, espera-se que só 45 por cento dos países experimentem uma nova aceleração do crescimento este ano, abaixo dos 56 por cento em 2017. Além disso, a atividade global ainda se atrasa em relação a expansões prévias apesar da recuperação já de uma década da crise financeira global". Assim, o Banco Mundial considera que a Longa Depressão continuará.

E isto é assumindo não haver qualquer nova queda nos próximos dois anos. Se bem que não haja qualquer sinal imediato de uma nova recessão global (na verdade, aparentemente o oposto), há muitos fatores a acumularem-se que sugerem não estar demasiado distante. O primeiro é o fato óbvio de que a atual recuperação muito fraca da Grande Recessão é a segunda mais longa expansão no período pós 1945, alcançando dez anos no próximo Verão de 2019 – se perdurar até lá.

E há a questão da lucratividade. No primeiro trimestre de 2018, as 500 principais companhias dos EUA atingiram um aumento de 26% nos ganhos por ação. Mas isto deveu-se principalmente à enorme redução fiscal engendrada pela administração Trump. Quando se olha para os lucros de todo o setor corporativo antes das reduções fiscais, verifica-se que houve uma queda no 1º trimestre de 2018 (-0,6%) a qual se seguiu a uma queda no 4º trimestre de 2017 (-0,1%). A prosperidade de Trump foi um fato isolado. E a lucratividade média nas economias G7 permanece abaixo dos níveis pré crise mesmo após dez anos de recuperação.

E o grande risco pela frente é a combinação de lucratividade cadente e alta e ascensão da dívida nos setores corporativos do G7. Se os lucros começassem a falhar enquanto o custo do serviço ascende quando as taxas de juro ascendem, então isto é uma receita para bancarrotas corporativas e uma nova crise da dívida. A dívida global, particularmente a dívida corporativa, é a mais alta de todos os tempos.

Em 2017 a dívida subiu 10,2% em relação a 2016. Decompondo por setor, a dívida financeira corporativa cresceu 11,1%, a dívida do governo cresceu 6,7%, a dívida familiar cresceu 12,5% e a dívida do sector financeiro cresceu 11,3%.

O nível de dívida do mercado emergente será insustentável porque, dentre outras razões, a dívida amadurece e deve ser ou reembolsada ou refinanciada. Aqui está a dívida do mercado emergente por maturidade:


Muitos dos negócios e de companhias financeiras no mercado emergente contraíram empréstimos em dólares, quando o dólar estava relativamente franco e as taxas de juro dos EUA ridiculamente baixas. Grande parte das entradas de capital em economias emergentes não era constituída por investimento produtivo mas sim por empréstimos e títulos para atividade especulativa. Fluxos de capital a longo prazo para os setores produtivos das economias emergente (IDE) têm estado em declínio desde a Grande Recessão.

Agora a profusão de empréstimos está acabada. Uns US$4,8 bilhões de dívida nos mercados emergentes amadurece a partir deste anos até 2010 e grande parte do mesmo será refinanciado (rolled over) a taxas geralmente mais elevadas e, se o fortalecimento do dólar continuar, num ambiente monetário desvantajoso.

Os sinais de cracking já estão a aparecer em algumas das maiores economias emergentes. A Argentina entrou em crash e foi forçada a tomar emprestado US$50 bilhões do FMI pois não podia mais contrair empréstimo nos mercados internacionais de títulos a custos razoáveis. A economia está a afundar, a inflação dispara e a divisa mergulhou. O Brasil não está atrás. A economia brasileira está a lutar para crescer de algum modo e ainda tem os mais altos custos de juro para dívidas do mundo. No 1º trimestre de 2018 a economia da África do Sul contraiu-se à taxa mais rápida dos últimos nove anos quando o investimento corporativo caiu drasticamente. E a divisa da Turquia, a lira, atingiu uma baixa histórica quando a inflação anual atingiu mais de 12%; estrangeiros retiraram seu dinheiro e o banco central aumentou sua taxa de juro para cerca de 18%.

Mas o ponto fulcral real será provavelmente a dívida corporativa nas economias G7. A dívida das corporações não financeiras dos EUA atingiram uma altura pós crise de 72% do PIB. Em torno dos US$14,5 bilhões em 2017, a dívida do setor corporativo não financeiro estava US$810 bilhões mais alta do que um ano antes, com 60% da ascensão resultante da criação de novos empréstimos bancários. Atualmente, o financiamento titulado representa 43% da dívida pendente com uma maturidade média de 15 anos, contra a maturidade média de 2,1 ano para empréstimos de negócios estadunidenses. Isto implica aproximadamente cerca de US$3,8 bilhões de reembolso de empréstimos por ano. "Contra este pano de fundo, o aumento das taxas de juros agravará a pressão sobre corporações com grandes necessidades de refinanciamento". (IIF)

À parte as taxas de juro mais altas, as companhias que precisam crédito (em oposição àquelas altamente classificadas que tomam emprestado só porque podem fazê-lo de modo barato) tendem a ser aquelas com maior risco. Um relatório recente da Moody's descobria que 37% da dívida corporativa não financeira dos EUA está abaixo do grau de investimento. Isso representa cerca de US$ 2,4 bilhões.

Além disso, todas as corporações, tanto com grau de investimento como especulativo, acrescentaram significativamente mais alavancagem desde a Grande Recessão. Algumas companhias contraíram empréstimos para financiar a compra das próprias ações e têm amplos fluxos de caixa e reservas. Elas podem facilmente desalavancar se necessário. Mas as menores, companhias com maior risco, não têm tal opção. A média dos negócios não financeiros está aproximadamente 20% mais alavancada do que no tempo do crash financeiro global de 2007-08. Grande parte daquela dívida está classificada como BBB, a mais baixa classificação de grau de investimento. Isso significa que elas estão apenas um passo acima de lixo. O número de companhias classificadas como BBB está 50% mais alto do que em 2009.

A recessão global não está entre nós em 2018 – ao contrário, a economia global está a crescer mais rapidamente do que em qualquer momento desde 2009. Mas esse crescimento pode muito bem ser atingido o pico e nos próximos 18 meses a economia mundial poderia encaminhar-se para uma possível queda. Como sabemos? Bem, como tenho argumentado, a lucratividade do capital deve começar a cair outra vez e finalmente os lucros totais das corporações nas economias principais deve deixar de ascender. Se o custo de servir toda esta dívida também tiver ascendido, então estão estabelecidas as condições para bancarrotas corporativas.

No passado, um sinal confiável para isto tem sido a inversão da curva de rendimento dos títulos. Habitualmente a taxa de juro para a contração de empréstimos por um ano é muito mais baixa do que a taxa para a tomada de empréstimos a dez anos por razões óbvias (o prestamista obtém o dinheiro de volta mais rapidamente). Assim, a curva do rendimento entre a taxa a dez anos e a taxa a um ano é normalmente positiva (digamos de 4% comparada com 1%).

A ideia geral é que uma inclinação escarpada da curva de rendimento, em que taxas longas estão em ascensão mais rápida do que taxas curtas, indica que o crédito é de fácil acesso e que os lucros são suficientemente altos devido a um crescimento econômico mais rápido. Mas quando rendimentos a curto prazo sobem acima da taxa prevalecente a longo prazo isso indica que as condições de crédito se tornaram inabitualmente restritivas em comparação com os lucros e que há uma probabilidade muito alta de que uma recessão aconteça dentro de cerca de um ano.

O estratega de investimento da RBC, Jim Allworth, considera que: "Não houve uma recessão em mais de 60 anos que não fosse antecedida por uma inversão da curva de rendimento. Na média, a curva de rendimento inverteu-se 14 meses antes do início de uma recessão (mediana de 11 meses). A mais curta "advertência antecipada" foram oito meses. Ainda não estamos aqui nos EUA e certamente em nenhum lugar na Europa. Mas a curva dos EUA está a ir naquela direção".

Os ataques de raiva de Trump e o risco crescente de uma guerra comercial que poderia sufocar a atual "recuperação" só aumenta os riscos subjacentes de novo declínio global.

9 de junho de 2018

A pressão para privatizar bancos

Prabhat Patnaik

Peoples Democracy

Tradução / Desde o primeiro instante, sempre houve uma exigência para desfazer a nacionalização bancária na Índia. Esta exigência, naturalmente, ganhou impulso com a adoção das políticas neoliberais. Para o capital financeiro transnacional era completamente inaceitável que o grosso do setor bancário num país como a Índia permanecesse sob propriedade pública. Consequentemente, "amigos" da Wall Street que trabalhavam na administração dos EUA, como Tim Geithner e Larry Summers, visitaram a Índia e exigiram ao nosso governo que, mesmo se não pudesse privatizar todo o setor bancário, pelo menos enviasse um "sinal" privatizando o Banco do Estado da Índia.

O governo indiano no entanto objetou porque temia uma reação de ira popular. Mais recentemente, contudo, com o aumento de ativos não rentáveis (non performing assets, NPA) de bancos públicos, tem havido novas pressões pela privatização bancária, com um antigo vice-presidente do Niti Aayog pedindo mesmo a todos os partidos políticos que a inscrevessem na sua agenda para as eleições de 2019.

Infelizmente para estes advogados da privatização, a vida real revelou a vacuidade da sua argumentação – mesmo com base nas suas próprias premissas – quase imediatamente depois de eles a avançarem. Assim, o absurdo da pressão de Summers-Geithner em favor da privatização foi demonstrado pela crise financeira de 2008 nos EUA. Esta crise, embora engolfasse grande parte do mundo capitalista, deixou o sistema bancário indiano – exceto o banco ICICI, do setor privado – virtualmente intacto, uma vez que o setor dos bancos públicos, motivados por um diferente conjunto de objetivos, quase não possuía ativos estrangeiros, muito menos ativos "tóxicos". Da mesma forma, o recente argumento a favor da privatização dizendo que a vigilância de acionistas privados asseguraria melhor administração de bancos e não permitiria a espécie de acumulação de NPA ocorrido nos bancos do setor público, mostrou-se vazia pelo que aconteceu ao banco ICICI. A sua executiva chefe foi acusada de "compadrio" ao imobilizar um grande empréstimo para o grupo Videocon o qual ajudou os interesses de negócios do seu marido. Ironicamente, os acionistas supostamente "vigilantes" do banco ICICI nem mesmo lhe pediram para sair de férias enquanto as acusações contra ela estavam a ser investigadas. (Informações iniciais de que haviam feito isso foram negadas posteriormente).

Toda esta pressão, embora tenha falhado em desfazer a nacionalização, no entanto teve êxito em forçar uma privatização rastejante dos bancos nacionalizados. Isto tem sido efetuado com base num argumento completamente espúrio, abaixo descrito.

O capital de base dos bancos do setor público tem de ser fortalecido para satisfazer as "normas" Basileia III. Mas uma vez que o governo não tem recursos orçamentais adequados para fortalecer o seu capital de base, e não deveria utilizar recursos orçamentais escassos para esta finalidade mesmo se o tivesse, ele deveria obter capital próprio do setor privado para assim fazer. A fatia acionária do setor público consequentemente tem vindo a cair drasticamente dos seus 100 por cento originais.

Este argumento a favor da tomada de capital próprio privado é completamente espúrio por várias razões: primeiro, o fortalecimento do capital base pode ser exigido no caso de bancos privados, mas dificilmente no caso de bancos do setor público, uma vez que toda a gente tem certeza de que o governo sempre viria em socorro dos bancos se eles enfrentassem uma crise. Vale a pena notar que mesmo recentemente, na esteira do escândalo do Punjab National Bank, em que Nirav Modi fugiu com 130 bilhões de rupias dos recursos do banco, não houve pânico com retiradas de depósitos do mesmo: os depositantes estavam confiantes em que os seus depósitos estavam seguros no banco possuído pelo governo. Portanto, a normas Basileia III não são de todo relevantes para bancos do setor público.

Segundo, mesmo se o capital de base destes bancos tivesse de ser fortalecido, os fundos não tinham de vir do próprio orçamento. Uma vez que na rotina normal bancos não chegam a ser solicitados a recorrerem ao seu capital de base, e apenas o possuem para um "dia chuvoso" que nunca chega, se o governo pedisse emprestado a montante requerido para capitalizar os seus bancos a partir do Banco de Reserva (RBI), então aquele montante simplesmente permaneceria do RBI. Seria em suma uma pura transacção contabilística do RBI, a qual, muito emboraaparecesse como um défice orçamental no orçamento do governo, seria apenas um défice nocional e teria efeitos adversos zero sobre a economia. Portanto, mais uma vez, não há razão real para ir ao mercado de capitais a fim de fortalecer o capital base de bancos do sector público.

Contudo, estes argumentos têm sido utilizados para efectuar uma privatização rastejante. Mas a privatização rastejante não é suficientemente boa para o capital financeiro internacional. Ele quer a privatização total, não apenas uma que abrasse um vasto montante de recursos financeiros para o seu controle, mas também porque isso sublinharia o ponto ideológico, tão crucial para o modus operandi da finança, de que o interesse social seria melhor servido não pelo controle do Estado sobre a finança e sim pela concessão de liberdade plena à finança, ou, dito de modo diferente, pelo controle da finança sobre o Estado. E para esta finalidade, a crise NPA dos bancos do sector público está a ser utilizada ao máximo.

Mesmo que esta utilização seja marcada por argumentos absolutamente espúrios. Dois pontos em particular devem ser observados aqui. Primeiro, a razão mais importante para a crise NPA é o "saqueio corporativo" dos bancos do sector público, num contexto em que o governo tem aplicado pressão sobre estes bancos para a concessão de grandes empréstimos ao sector privado destinados a investimento em "infraestrutura".

A razão para o governo aplicar esta pressão é ela própria um argumento espúrio, o qual é como se segue. O governo não pode empreender o próprio investimento em infraestrutura porque isso incharia o défice orçamental. Portanto, este investimento tem de ser feito pelo sector privado e, para isto, o financiamento bancário é essencial. Agora, se o governo empreendesse este investimento então teria de tomar emprestado destes bancos (que é como o seu défice orçamental seria financiado). Portanto, este argumento equivale a dizer que se o governo tomasse emprestado dos bancos para investir em infraestrutura então isso seria mau para a economia, ao passo que se o sector privado toma emprestado dos bancos para investir em infraestrutura então isso seria bom para a economia, o que é uma proposição completamente absurda.

Mas, de qualquer modo, por causa deste argumento absurdo, o governo tem estado a pressionar bancos para emprestarem enormemente ao sector privado corporativo e várias destas corporações estão simplesmente a furtar este dinheiro no que deve ser uma nova forma de acumulação primitiva de capital. Do total de NPAs da ordem dos 8 a 9 milhões de milhões de rupias, acredita-se que tomadores corporativos representam cerca de 75 por cento do total. E 75 por cento destes empréstimos corporativos, por sua vez, acredita-se constituírem puro roubo, isto é, "saqueio corporativo" puro e simples, o qual portanto monta a 56,25 do total de NPAs.

É um absoluto desaforo da parte dos advogados da privatização exigirem que aqueles executaram este saqueio de fundos bancários fossem premiados pelo proprietário dos próprios bancos que eles saquearam, com o argumento de que os bancos estão num estado lamentável (devido a este saqueio). O que é necessário, ao contrário, não é a privatização de bancos, mas a sua continuação como entidades possuídas pelo Estado, argumento que permanece tão válido hoje como o foi em 1969 quando os bancos foram nacionalizados, juntamente com medidas punitivas contra aqueles que executaram este saqueio.

Incrivelmente, além de não tomar medidas punitivas, o governo nem sequer revelou os nomes dos grandes incumpridores de empréstimos de bancos do sector público [NR] . Ele não revelou estes nomes mesmo depois de os empréstimos destes grandes incumpridores terem sido cancelados (write off), o que significa que os mesmos ficaram livres para contrair empréstimos de outros bancos, mesmo quando se declaram impotentes quanto ao reembolso e, dessa forma, obtêm prorrogações de alguns bancos.

Na verdade todas as medidas governamentais nesta esfera basearam-se em considerar a firma como o ponto de referência. Mas em todos os casos de incumprimento deliberado, isto é, em que é estabelecido através de investigação que o incumprimento é um caso de "saqueio corporativo", a propriedade dos promotores deve ser preservada, incluindo o que eles possuem através de outras firmas no seu império. Este expediente muito simples seria um grande dissuasor contra o saqueio corporativo e também recuperaria um montante substancial dos empréstimos incumpridos.

Mas, pode-se perguntar, já teremos passado o ponto de não retorno no que se refere à poupança dos bancos do sector público? A resposta simples é "não". Não só a crise do NPA é um resultado em grande medida do "saqueio corporativo" como a própria crise está a ser exagerada a fim de pressionar a agenda da privatização.

Por que digo isto? Quando Narendra Modi empreendeu sua absurda medida da desmonetização, os bancos subitamente ficaram repletos de fundos, uma vez que o povo apressou-se a depositar seus haveres em dinheiro. Mas este enorme aumento nos recursos dos bancos não levou a qualquer crédito mais amplo. Ao invés disso, os bancos optaram por manter estes fundos em títulos governamentais, para o que tiveram de ser criados novos títulos do governo cujas receitas de vendas não podiam sequer serem gastas pelo governo (uma vez que isto teria aumentado o défice orçamental com grande aborrecimento do capital financeiro).

Assim, o que o exercício da desmonetização mostrou é que o desembolso de crédito na Índia não está constrangido pela oferta mas sim pela procura (no sentido de ser constrangido pela procura de crédito de tomadores que os bancos considerem como dignos de crédito). Portanto, a existência de NPAs não é um estrangulamento de crédito do lado da oferta, de onde se segue que se o governo realmente capitalizasse os bancos do sector público através de tomadas de empréstimos do RBI, então o montante de tais empréstimos seria simplesmente mantido pelo próprio RBI (como capital dos bancos). Isto seria apenas uma transacção contabilística do RBI sem efeitos adversos sobre seja o que for da economia.

Segue-se portanto que mesmo se a injecção de capital fresco em bancos do sector público tivesse de ser feita devido aos seus grandes NPAs, ainda assim não há necessidade de confiar no capital do sector privado para uma tal injecção. A afirmação actual em contrário é destinada meramente a ludibriar o povo levando-o a acreditar que, devido aos NPAs, não há alternativa à privatização de bancos do sector público. Este bluff tem de ser chamado pelo seu nome.

8 de junho de 2018

Anarquismo na América Latina: Lutando e sonhando desde a Terra do Fogo até Tijuana

Ben Dangl

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

AK Press

Ángel Cappelletti (1927-1995) foi um filósofo argentino que passou grande parte de sua carreira ensinando na Universidade Simón Bolívar na Venezuela. Ele também traduziu numerosas obras de grego e latim e escreveu mais de duas dúzias de livros, principalmente sobre filosofia e anarquismo. Um de seus livros posteriores é a clássica pesquisa Anarquismo na América Latina, agora disponível pela primeira vez em inglês pela AK Press.

O livro oferece uma visão panorâmica do anarquismo em 14 países da região, desde greves gerais em portos chilenos até teóricos operários em fábricas de tabaco cubanas. A extensa visão geral de Cappelletti oferece uma rica janela para quase cem anos de organização e agitação anarquista, começando na década de 1860, quando “o anarquismo criou raízes em vários grupos ativistas” até meados do século XX.

“Este trabalho não pretende ser uma história abrangente do anarquismo latino-americano, mas apenas um esboço disso”, escreve Cappelletti. De fato, um dos pontos fortes deste livro é a sua amplitude. Não só tem capítulos compreensivelmente pesados ​​sobre a Argentina e o México, mas aponta para cantos menos conhecidos do continente onde os anarquistas paraguaios lutaram pela jornada de trabalho de oito horas, e uma comunidade autogerida floresceu em Montevidéu. O trabalho abrangente de Cappelletti é também uma enciclopédia de fontes primárias; manifestos, panfletos, petições e discursos perdidos para a lata de lixo da história são reunidos e citados aqui extensivamente, auxiliando a amplificar as vozes desses pensadores e escritores anarquistas, e fornecendo um guia de referência para os pesquisadores.

Acima de tudo, o anarquismo na América Latina lida com as visões, estratégias e lutas dos anarquistas, desde as revoltas menores que foram derrubadas pelas ditaduras até a importante Revolução Mexicana. Como escreve Cappelletti, “o anarquismo na América Latina tem uma ampla história rica em lutas pacíficas e violentas; em demonstrações de heroísmo individual e coletivo; nos esforços organizacionais; na propaganda oral, escrita e prática; em obras literárias; e em experiências teatrais, pedagógicas, cooperativas e comunitárias.” E está tudo aqui, em uma eloquente tradução em inglês de Gabriel Palmer-Fernández e com uma nova introdução útil e rica de Romina Akemi e Javier Sethness-Castro.

Cappelletti nos leva à cidade portuária de Callao, Peru, em janeiro de 1913, quando os estivadores foram acompanhados por “tipógrafos, padeiros, trabalhadores da siderurgia, moleiros e instaladores de gás” em uma greve geral por um dia de trabalho de oito horas, salários mais altos e apoio médico para vítimas de acidentes no trabalho. O governo ameaçou tirar as metralhadoras, mas a solidariedade dos trabalhadores se espalhou longe e rapidamente, forçando os proprietários de portos e docas a cederem às exigências dos grevistas. Grupos anarquistas, “quase os únicos promotores dessas lutas”, escreve Cappelletti, marcharam pelas ruas “com um entusiasmo indescritível, carregando a bandeira vermelha”. A ação direta e as greves gerais se espalharam e, em 1919, o movimento havia conquistado o dia de trabalho de oito horas em todo o país.

Além de tais lutas dos trabalhadores urbanos, o livro lança uma luz sobre projetos anarquistas menores em toda a região. A Comunidade do Sul, fundada na década de 1950 em Montevidéu, Uruguai, foi “uma das mais importantes experiências comunitárias na história do anarquismo na América Latina”, escreve Capelleti. “A comunidade era autogerida e consistia em casais que viviam, trabalhavam, comiam e educavam as crianças juntos.” No entanto, a ditadura militar esmagou-a, mandando seus membros para o exílio, onde reorganizaram sua comunidade primeiro no Peru e finalmente na Suécia.

Os anarquistas pedem paz no meio de um conflito de fronteira entre a Argentina e o Chile no início do século 20, verdade em nossos tempos de guerra perpétua. Um anarquista chileno denunciou este movimento pela batalha em La Agitación, em 1º de janeiro de 1902: “Os governantes, esses eternos exploradores da miséria, estão começando a nos incitar ao assassinato de nossos irmãos, os trabalhadores da República da Argentina. ... Escute: Além dos Andes há trabalhadores que sofrem as mesmas misérias e tiranias que nós e que, como nós mesmos, não têm nada para defender. Eles não podem ser nossos inimigos porque são nossos irmãos na escravidão. ... Trabalhadores chilenos: abaixem os rifles que nossos governantes desejam que usemos contra nossos irmãos. ”

Uma história dramática de solidariedade anarquista internacional e cursos de organização transfronteiriça através destas páginas. Em 1919, no Chile, estivadores e marinheiros anarco-sindicalistas realizaram o Primeiro Congresso dos Trabalhadores Internacionais do Mundo (IWW), modelado a partir do IWW dos EUA. Eles adotaram as mesmas táticas que suas contrapartes dos EUA, usando greves, sabotagem, propaganda e boicotes contra “o capital, o governo e a Igreja”.

A solidariedade entre o famoso e influente anarquista mexicano Ricardo Flores Magón e figuras como Emma Goldman, Joe Hill e Jack London também é abordada na pesquisa de Cappelletti sobre as influências e lutas anarquistas no interior do México.