24 de março de 2019

Correspondência de guerra

A Lava Jato acirra o conflito com os mesmos métodos que acabaram por provocá-la

Janio de Freitas

Folha de S.Paulo

Momento em que o ex-presidente Michel Temer é abordado pela Polícia Federal. Reprodução/TV Globo.

É guerra. Era previsível, omissões a tornaram inevitável. Mas, guerra embora, promete ser benfazeja. A Lava Jato inicial e suas extensões reagem ao retardatário entendimento, no alto Judiciário, de que combate à corrupção e abuso do poder repressivo são coisas diferentes. A Lava Jato foi deixada livre para suas práticas indiferentes aos limites legais e ao bom senso, com violação de direitos civis, de exigências processuais e da ética (pessoal e jurídica). O desgaste, porém, não a atingiu, resguardada pela “mídia”: o omisso Supremo Tribunal Federal foi o desgastado —e afinal se assustou.

A interpretação generalizada das prisões encabeçadas por Michel Temer, ou do momento em que ocorrem, é a de resposta da Lava Jato contrariada por decisões recentes do Supremo. Se às prisões juntarmos o vazamento que atinge o ministro Luiz Fux, desencavado do depoimento inatual de um empresário, o propósito dos recentes atos e afirmações da Lava Jato está claro, dispensa interpretações.

Concomitante ao despertar do Supremo vê-se, portanto, que também na “mídia”, e daí na opinião pública, ações da Lava Jato já são identificadas com finalidades alheias à razão jurídica. É um passo pequeno, mas é avanço na direção de justiça. Ou, mais preciso, de menos injustiça. E não de política e sede de poder com armas da Justiça.

A Lava Jato acirra a guerra com os mesmos métodos que acabaram por provocá-la. O argumento mais forte para a prisão de Temer, por exemplo, foi a continuação das práticas corruptas. Quais são os fatos comprovantes? “Houve apenas uma comunicação do Coaf”, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras, palavras de uma procuradora. “Mas esse fato, de acordo com o registrado pelo Coaf, aconteceu em outubro de 2018”. Logo, “é indicativo de que a organização criminosa continua atuando”.

Não é. Há cinco para seis meses, Temer ainda na Presidência, um fato foi indicativo de algo há um semestre, não do presente. Se houve o fato então, isso não indica a sua continuidade. A alegação central para a prisão não tem veracidade.

O tal fato de outubro seria a tentativa do coronel João Baptista Lima, visto como testa-de-ferro de Temer, de depositar R$ 20 milhões em espécie. É a velha “história mal contada”. Levar essa quantia geddeliana a um banco; submetê-la na agência à confirmação do montante, no mínimo de 200 mil notas de R$ 100, sem recear uma complicação —um experiente como Lima não pensaria nesse plano, quanto mais em tentá-lo.

Em seu início, a Lava Jato plantou na “mídia” a apropriação de R$ 10 bilhões pelos três ou quatro dirigentes da Petrobras já identificados. A conta final não chega a 10%. Ao bando “chefiado por Temer” é atribuída a quantia de R$ 1,8 bilhão. Em dinheiro “recebido, pedido ou prometido”. Está aí uma novidade, na soma do real com o imaginado. Pena que seja mais um truque nada sério, para uso da “mídia”.

São muitos os indícios de material concluído às pressas, para servir a uma finalidade não judicial. A propósito, entre os motivos de reação da Lava Jato estão o inquérito sobre ataques ao Supremo e a determinação do ministro Alexandre de Moraes de levá-lo a resultados. Inquérito e ministro muito criticados, mas ambos se justificam. Não só agressões verbais são investigadas: embora o Supremo prefira o silêncio a respeito, há ameaças de morte a ministros e de violência a familiares, como objeto principal do inquérito.

Ah, não se esqueça, em tudo isso, a gentileza da Polícia Federal. Esperou que Temer saísse, para prendê-lo fora das vistas da família e dos vizinhos. E não de manhãzinha. Com Moreira, pelo mesmo cuidado, não o esperaram em casa. Apenas pararam seu carro em área de pouco movimento. Nas duas ações, nenhum policial com metralhadora, granadas, gás e roupa sinistra. Nada como nas abordagens espalhafatosas a Lula e outros, pelo “japonês da PF” e companheiros. Nas duas modalidades de abordagem, a autoridade maior das operações era a mesma, o então juiz da Lava Jato e o hoje ministro da PF.

Sobre o autor
Jornalista

O chanceler e a história da América Latina

Conhecer os vizinhos é essencial para a diplomacia

Maria Ligia Prado

Folha de S.Paulo

O chanceler Ernesto Araújo, em entrevista coletiva no Itamaraty. Evaristo Sá/AFP

O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, reformulou o currículo do Instituto Rio Branco, escola de formação dos diplomatas do Itamaraty, determinando mudanças controversas. Dentre elas, a mais questionável é a exclusão da disciplina História da América Latina, que foi eliminada, de acordo com a justificativa do Itamaraty, porque seu conteúdo já é "amplamente exigido" no concurso de admissão ao curso.

Esse argumento, contudo, não se sustenta. Basta fazer uma rápida consulta às provas de ingresso ao Rio Branco para se verificar que são poucas as questões sobre América Latina. Enquanto essa disciplina vem ganhando cada vez mais espaço na academia, em consonância com o maior interesse da sociedade, ela segue sub-representada no histórico de questões do concurso.

Mas ultrapassado esse argumento inicial, o fundamental é compreender que, no campo das relações diplomáticas, a extinção da disciplina América Latina acarretará lacunas de grandes proporções na formação dos diplomatas brasileiros.

É preciso frisar que o estudo da história da América Latina, região geográfica onde o Brasil se insere, não é uma opção ideológica, mas sim necessária, pois é um imperativo universal das relações exteriores conhecer, antes de tudo, a história dos países limítrofes.

No caso do Brasil, essa regra tem sido uma constante. Menciono a seguir dois exemplos relacionados a períodos históricos bastante distintos. Refiro-me à atuação do Barão do Rio Branco como ministro das Relações Exteriores no começo do século 20 e à política externa do marechal Castelo Branco nos anos iniciais da ditadura.

Luís Cláudio Villafañe, em seu excelente livro sobre o Barão do Rio Branco, demonstra que o conhecimento da história da América Latina foi chave para o cerne da obra político-diplomática do barão. Seus estudos, inclusive sobre a geografia da região, se mostraram essenciais para a resolução das tensas disputas de fronteiras do Brasil com o Peru e com a Bolívia.

Em relação ao segundo exemplo, a política exterior brasileira, durante o governo do marechal Castelo Branco, definiu prioridades a partir de um critério geográfico, o dos círculos concêntricos. De acordo com a inovadora pesquisa de André Luiz Reis da Silva, os países latino-americanos seriam, para o Brasil, o principal e mais importante círculo. Quanto mais distante o país, menos relevância teria. O projeto de construção do "Brasil potência" supunha um processo de integração latino-americana, liderado pelo Brasil.

Em suma, nos diferentes regimes políticos citados e, ainda, em governos recentes de ideologias diversas, a história foi uma ferramenta imprescindível para a atuação diplomática brasileira.

Vale ressaltar, por fim, que problemas comuns afligem a todos nós latino-americanos, como migrações, refugiados, narcotráfico e contrabando. Cabe mencionar, ainda, a complexidade e a gravidade da crise que afeta a Venezuela, em que os conflitos têm se intensificado fortemente. Para que haja a compreensão das tensões e contendas do presente, o conhecimento histórico se impõe. Todas essas questões só poderão chegar a bom termo se tratadas a partir de políticas bem informadas e embasadas na história do nosso continente.

Sobre a autora
Professora titular de História da América Latina (USP) e pesquisadora emérita do CNPq

23 de março de 2019

Chega de brincar com a segurança pública

Melina Risso

Folha de S.Paulo

A pesquisadora Melina Risso, durante debate sobre lançamento de seu livro "Segurança Pública Para Virar o Jogo", em São Paulo, em 2018. Eduardo Anizelli/Folhapress.

A maioria da população brasileira não quer se armar. Uma minoria vocal nos faz pensar o contrário. Pesquisa do Datafolha realizada em dezembro de 2018 mostra que a maioria da população (61%) é contrária à posse de armas, percentual que sobe para 66% entre os mais pobres e chega a 71% entre as mulheres. A minoria que defende a liberação do porte se pauta em argumentos ideológicos e crenças que guardam pouca relação com a realidade.

Trabalho com controle de armas e pesquiso a relação da arma de fogo com a violência há mais de 15 anos. A esmagadora maioria das evidências que passam pelo crivo do rigor científico atestam: quanto menos armas em circulação, menos mortes. A restrição do acesso às armas de fogo não pode ser tratada como uma questão de ideologia. É uma questão de segurança e saúde pública.

Em um país que detém o recorde mundial de assassinatos por armas de fogo --só em 2016 foram mais de 44 mil vítimas--, já passou da hora de esse tema ser tratado como prioridade e com seriedade. Propostas falaciosas como as que aparecem após uma tragédia como da escola deSuzano precisam ser imediatamente desmascaradas. Se andar armado fosse uma boa estratégia de defesa, policial armado que é treinado para usá-la não morreria tanto em seu horário de folga quando tenta reagir. Mais uma triste realidade que os números revelam.

Segurança pública é um bem público e requer do Estado responsabilidade, liderança e investimento. Como cidadãos, não podemos mais aceitar medidas contraproducentes e perigosas de nossos governantes e parlamentares.

Liberação das armas como uma política pública de segurança é o equivalente à distribuição de bisturis para solucionar o problema da fila de cirurgias no SUS.

A implementação das primeiras medidas do Estatuto do Desarmamento, tais como a proibição do porte e a retirada de mais de meio milhão de armas de circulação por meio da campanha de entrega voluntária, reverteu a tendência de crescimento dos homicídios no país pela primeira vez após 13 anos. Em vez de flexibilizar a política de armas, o que precisamos é implementar o que nunca saiu do papel, justamente as medidas de controle das armas e munições.

As armas nascem legais e acabam caindo nas mãos de bandidos. Esse fluxo precisa ser interrompido. O primeiro passo é garantir que toda arma e munição vendida no Brasil seja marcada com tecnologia que possibilite seu rastreamento.

No caso das munições, o lote precisa ser menor, de no máximo 500 balas. Também é preciso aprimorar e integrar os bancos de dados sobre as armas e fortalecer a cooperação com países vizinhos para combater o tráfico de armas.

Informação de qualidade é chave para aumentar a capacidade de investigação das polícias, fechar os canais de desvio para criminosos e punir responsáveis.

A solução passa por maior inteligência, capacidade de execução e obrigação de registro periódico das armas nas mãos de civis. Infelizmente, o governo caminha na direção contrária. Perdemos todos.

No Brasil, segurança pública é um direito e só se garante pensando no interesse coletivo. A lógica de cada um por si é barbárie.

Portanto, o porte de armas para civis precisa continuar proibido, e a posse precisa ser muito bem fiscalizada. Cobremos do Estado o seu dever. Controle de armas não é a única resposta, mas salva muitas vidas.

Sobre a autora

Diretora de programas do Instituto Igarapé, doutora em administração pública e coautora do livro "Segurança Pública para Virar o Jogo"

Eleitores populares de Bolsonaro começam a pular do barco

Queda em avaliação é mais acentuada entre quem ganha de 2 a 5 salários mínimos

André Singer

Folha de S.Paulo



Aspecto pouco notado na queda de aprovação do governo, registrada pelo Ibope nesta semana, é a sua distribuição pela renda. Foram os eleitores populares que começaram a pular do barco bolsonariano. Possivelmente os mesmos que, no final do primeiro turno de 2018, sobretudo no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, produziram a incrível onda de extrema direita que varreu o país.

A perda de 15 pontos percentuais na avaliação positiva de Bolsonaro foi mais acentuada entre os eleitores que ganham de 2 a 5 salários mínimos (SM) de renda familiar mensal, chegando ali a um recuo de 18 pontos. Hoje apenas 35% desse segmento apoia o mandato em curso, índice que cai para 29% daqueles cujo ingresso familiar restringe-se a um SM.

Já quando a família recebe acima de cinco salários mínimos, 49% dos entrevistados gostam da administração do capitão reformado. Aqui a perda foi de apenas oito pontos em relação à posse (tinha 57% de ótimo e bom em janeiro).

Na mesma linha, o instituto de pesquisa nota o aumento da rejeição entre os moradores “que residem nas cidades das periferias brasileiras”. Nesse segmento o índice dos que consideram ruim ou péssimo o desempenho presidencial subiu nada menos que 21 pontos no período. O Nordeste, por sua vez, abriga apenas 31% que se mostram satisfeitos.

A persistência de melhor humor no Sul, onde 41% ainda apreciam o mandato em curso, ilustra a divisão social que permeia a conjuntura, pois a região concentra os menores indicadores de pobreza.

Se a economia comandar os rumos do eleitorado, como parece provável, uma recuperação no curto prazo é difícil. Vale lembrar que o primeiro governo Lula, por exemplo, em que pese ter demorado para produzir aquecimento do PIB, conseguiu estancar de imediato o ciclo inflacionário que herdara da etapa anterior.

Bolsonaro já pegou o leme com inflação irrelevante. Se não conseguir criar postos de trabalho e oferecer renda, continuará em baixa. Tal contexto daria à oposição a chance de apresentar alternativas ao modelo ultraneoliberal. As eleições de 2020, sobretudo nas capitais, seriam o teste de tal embate.

Olhando o assunto do ângulo político, a prisão de Michel Temer ainda é uma incógnita.

Foi a Lava Jato que o levou ao poder, uma vez que decisiva para o impeachment de Dilma Rousseff. Depois, com a gravação de Joesley, afundou o regime emedebista e ajudou a ascensão de Bolsonaro.

Agora, com a detenção do ex-presidente, atrapalha a reforma previdenciária de Paulo Guedes e aprofunda a divisão das hostes bolsonaristas. Terá fôlego para empurrar Sergio Moro rampa acima?

Sobre o autor

Professor de ciência política da USP, ex-secretário de Imprensa da Presidência (2003-2007). É autor de “O Lulismo em Crise”.

22 de março de 2019

O mundo de fantasia da longa depressão

Michael Roberts


Tradução / Esta semana, o Federal Reserve Bank dos EUA decidiu parar de aumentar sua taxa de juros para o resto de 2019. O Fed começou a subir as taxas de quase zero no final de 2016, alegando que a Longa Depressão (em crescimento econômico, investimento e emprego nos EUA e em outras grandes economias) havia terminado. À medida que as economias atingissem o pleno emprego e esgotassem o excesso de capacidade na indústria, os aumentos salariais e a inflação de preços acelerariam, por isso seria necessário conter qualquer "superaquecimento" com taxas de juros mais altas para desacelerar os empréstimos e os gastos. Essa política de "normalização", como é chamada, parecia justificada depois que os cortes de impostos de Trump foram introduzidos no final de 2017. Essas medidas levaram a um aumento acentuado nos lucros, descontados os impostos, para corporações dos EUA e uma aparente recuperação do crescimento do PIB real dos EUA, atingindo uma taxa de 3% no final de 2018. Tudo parecia bem.

No entanto, como argumentei na primavera de 2018, a economia global chegou ao auge. E agora, quase um ano depois, as previsões para uma "recuperação" continuada foram invertidas. Um ano atrás, o Fed havia aumentado sua previsão de crescimento real do PIB para todo o ano de 2018 para 2,7% e 2,4% para 2019. Agora, em março de 2019, ele reduziu sua previsão para 2019 para 2,1% e apenas 1,9% para 2020, desacelerando novamente para apenas 1,8% em 2021 - bem abaixo do ganho de 3% que Trump afirma que suas medidas fiscais atingiriam permanentemente.

Então agora o Fed está interrompendo sua escalada de juros e acabando com sua política de aperto monetário de reduzir suas enormes reservas de títulos do governo que havia construído como parte do programa de "flexibilização quantitativa", lançado na Grande Recessão para salvar os bancos e fornecer dinheiro barato para investimento.

O que está acontecendo? Bem, sempre foi um risco aumentar as taxas de juros quando o crescimento econômico e o investimento fossem fracos, causando um colapso no mercado de ações e uma nova recessão econômica. Agora, com o crescimento econômico dos EUA no atual trimestre até o final de março, não ultrapassando uma taxa anual de 1,5%, e a zona do euro, o Reino Unido e o Japão recuando em direção à recessão, o Fed se assustou e colocou sua política de normalização em banho maria. Portanto, a Longa Depressão não acabou, apesar de tudo.

A diferença mais surpreendente, no entanto, entre a Longa Depressão e a Grande Depressão dos anos 1930 é que, na última década nas principais economias, a taxa de desemprego oficial caiu para níveis quase recordes (nos EUA, Reino Unido, Japão).


E, no entanto, a inflação não subiu em nada. O trade-off entre baixa taxa de desemprego e alta inflação (como mostrado pela chamada curva de Phillips), é uma previsão marcante da teoria da demanda agregada keynesiana. Mas isso não se materializou. A curva de Phillips (relação entre a taxa de desemprego e a taxa de inflação) é quase plana na maioria das economias capitalistas - há pouco trade-off.


Isso está confundindo o pensamento econômico dominante e as políticas dos bancos centrais, como descrevi no meu post anterior. "Não sinto que conseguimos de forma convincente o nosso mandato de 2% de forma simétrica", afirmou o presidente do Fed, Jay Powell. "É um dos maiores desafios do nosso tempo, ter uma pressão descendente sobre a inflação".

O que parece ter acontecido é que, na esteira da Grande Recessão, em um ambiente de baixa rentabilidade do capital na maioria das principais economias, as empresas optaram por aceitar mais mão-de-obra do que investir. Os novos trabalhadores estão sendo empregados em ocupações de baixos salários e / ou em contratos temporários e de meio período.

Por exemplo, há 17% dos trabalhadores americanos que trabalham apenas meio expediente, um terço a mais do que nos anos 60. A taxa de desemprego oficial dos EUA pode estar em queda, mas isso se deve em parte ao desaparecimento do mercado de trabalho de muitos americanos em idade ativa: para estudar, trabalhar informalmente ou apenas morar em casa com a família.


E houve um aumento no trabalho autônomo - na chamada "economia gig". Assim, enquanto os trabalhadores qualificados (escassos) começaram a experimentar aumentos salariais, a maior parte da força de trabalho não-gerencial nos EUA, no Reino Unido, no Japão e na Europa viu períodos significativos de queda dos ganhos reais. Embora a taxa média de crescimento real do PIB por pessoa nos EUA tenha sido de cerca de 1,5% desde 2009, os ganhos reais médios por hora para a maioria dos trabalhadores dos EUA aumentaram apenas 0,8% ao ano.


Assim, não houve pressão inflacionária e os rendimentos médios reais estagnaram. O setor capitalista não aumentou o investimento em novas máquinas, instalações ou tecnologia a um nível que levaria à substituição do trabalho ou ao aumento da produtividade da força de trabalho existente. Considerando que, na Grande Depressão dos anos 1930, o desemprego permaneceu alto até o início da Segunda Guerra Mundial, enquanto a produtividade subiu acentuadamente; o oposto é o caso nesta Longa Depressão.

A mais recente estimativa de investimento de capital global feita por economistas do JP Morgan sugere que as ordens de investimento estão caindo e as importações de bens de capital entraram em território negativo.


Em contraste, o mercado de ações dos EUA volta a novas máximas. Estamos agora em um mundo econômico onde parece haver uma espécie de "pleno emprego", mas salários reais estagnados (para a maioria), baixas taxas de juros e inflação e, acima de tudo, baixo investimento produtivo. Enquanto isso, a dívida corporativa está crescendo rapidamente globalmente, à medida que grandes empresas emitem títulos com baixas taxas de juros, a fim de recomprar suas próprias ações e, assim, aumentar o preço destas ações e continuar a festa.

A Longa Depressão tornou-se um mundo de fantasia com preços crescentes de ativos financeiros, baixo investimento e baixo crescimento de produtividade, onde quase todo mundo pode conseguir um emprego (trabalhando meio expediente, temporário ou autônomo), mas não vivendo.

Reforma da Previdência: o futuro está em jogo

Em vez de equilíbrio, proposta deve piorar situação

Guilherme Boulos

Folha de S.Paulo

Guilherme Boulos, em debate na campanha presidencial de 2018. Daniel Ramalho/AFP

O Brasil precisa saber o que está em questão com a reforma da Previdência apresentada pelo governo Bolsonaro. É verdade que o aumento da expectativa de vida traz um debate sobre o financiamento do sistema previdenciário. É verdade que precisamos enfrentar privilégios para assegurar direitos. Mas a proposta do governo não resolve nenhuma dessas questões e ainda cria novos problemas. O marketing de uma "Nova Previdência", que garanta as aposentadorias no futuro, não para em pé.

O grande objetivo da reforma é fazer uma transição radical de modelo: desmontar a Previdência pública, com suas três fontes de financiamento --trabalhador, empregador e Estado-- e colocar em seu lugar o regime de capitalização, financiado unicamente pelos próprios trabalhadores e gerido por bancos privados.

Ao contrário do regime de solidariedade entre gerações, consagrado na Constituição de 88, na capitalização impera o cada um por si.

Quem pode faz poupança individual nos bancos e garante uma aposentadoria com dignidade. Quem não pode estará condenado a condições indignas de aposentadoria ou a trabalhar até morrer.

O argumento de que as pessoas vão poder optar pelo INSS ou a capitalização é uma falácia. Por duas razões. Primeiro, num país com 37 milhões de trabalhadores informais é absurdo supor que a maioria conseguirá comprovar 20 anos de contribuição; 40 anos, então, nem se fale. Já com as regras atuais, apenas 29% se aposentam por tempo de contribuição. As mulheres e trabalhadores rurais serão ainda mais afetados com o endurecimento das regras.

A segunda razão é que o direito de escolha do trabalhador não existe numa economia com alto desemprego. Se quiser optar pelo INSS, a empresa terá de entrar com sua cota de contribuição. Na Previdência privada, ela estará desobrigada. Alguém acredita que uma empresa contratará quem opte pelo regime público?

O objetivo é impor a capitalização como modelo. A questão é que nele não cabem todos. O Chile é um exemplo. Após a implantação da capitalização na ditadura de Pinochet, o país produziu um surto de miséria entre idosos. Hoje, 80% dos aposentados recebem menos de 1 salário mínimo, por não conseguir garantir poupança individual.

A parte mais covarde é a "alternativa" oferecida aos que não consigam entrar no jogo da capitalização: benefícios sociais abaixo do salário mínimo. O Benefício de Prestação Continuada (BPC) garante hoje 1 salário para idosos pobres, a partir dos 65 anos. Atende 5 milhões de pessoas, representando em média 80% de sua renda. É a garantia de comida na mesa para muita gente. A proposta é permitir esse ganho apenas a partir dos 70 anos e, aos 60, garantir um valor pífio de R$ 400.

Os efeitos contra os mais pobres são devastadores. E também afetam a economia do país. As aposentadorias e benefícios previdenciários representam a maior movimentação econômica para 70% dos municípios brasileiros. Como disse reservadamente um prefeito da base bolsonarista a um amigo governador: "Se aprovar isso, na minha cidade não se vende mais nem um quilo de carne".

Em vez de permitir um equilíbrio da Previdência, a reforma deve piorar a situação. E não apenas pelo efeito depressor na economia, mas também porque --com a Previdência privada-- muitos deixarão de contribuir para o INSS. O resultado será uma descapitalização da Previdência pública, podendo, aí sim, criar um rombo insustentável, especialmente na transição. O objetivo de Paulo Guedes não é equilibrar a Previdência, mas entregá-la aos bancos.

Não é verdade que a única saída para o Brasil é fazer uma reforma que ataca direitos. É preciso ter coragem para enfrentar privilégios do poder econômico. Só a renúncia fiscal do INSS, com desonerações e isenções, representa cerca de R$ 57 bilhões ao ano. A taxação de fortunas, grandes heranças e lucros e dividendos --que defendemos nas eleições do ano passado-- poderia representar arrecadação de R$ 120 bilhões ao ano para Previdência e políticas sociais. E por que não implementar um Imposto Especial sobre o Lucro dos Bancos, como fez a Hungria em 2010 para sair da crise?

O que está em jogo é que futuro queremos: uma sociedade baseada no princípio da solidariedade, que acolha seus idosos, ou então no "cada um por si", que leve a maioria deles a uma aposentadoria indigna. A hora de definir é agora. Ainda dá tempo. Vamos hoje às ruas de todo o país em defesa de nossos direitos.

Sobre o autor

Ex-candidato à Presidência da República pelo PSOL (2018) e militante da Frente Povo Sem Medo

21 de março de 2019

Em troca de nada

Em visita a Trump, Bolsonaro entregou mais do que levou e nada trouxe

Janio de Freitas


O presidente dos EUA, Donald Trump, recebeu o presidente brasileiro Jair Bolsonaro na Casa Branca na tarde de terça feira (19). Créditos: Carlos Barria/Reuters

É fácil imaginar o que no Brasil sucederia a Lula, Dilma, Sarney ou Itamar se um deles fizesse uma pequena parte das entregas, em troca de absolutamente nada, de Jair Bolsonaro a Trump. Nem é preciso considerar, na comparação hipotética, o espetáculo de subserviência e bajulação —palavras da imprensa americana— dado em nome do Brasil. A comitiva brasileira, sem exceção para os generais, em momento algum se lembrou, um mínimo que fosse, de que representava um país cuja degradação ainda não arruinou a sua dignidade internacional —a última reserva.

Além das concessões substanciais, como importar trigo americano em desrespeito ao acordo que nos traz o trigo argentino, e de comprometimentos no jogo dos organismos internacionais, Bolsonaro e Paulo Guedes renegaram as muitas vantagens da filiação brasileira à OMC, Organização Mundial do Comércio. Como presente de consolação, o governo Trump promete (sem dar garantia) apoiar a entrada do Brasil na OCDE, Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Da qual já se recebe a colaboração mais útil.

Simbólica das promessas que enrolaram as concessões brasileiras, ficará para a crônica histórico-anedótica. É a promessa de que Trump "se esforçará" para ver, por desejo seu, o Brasil na OTAN, a Organização do Tratado do Atlântico Norte. Para isso, teria duas hipóteses. Dadas as possíveis dificuldades para levar o Brasil até o Atlântico Norte, Trump pode ceder ao velho desejo americano inspirado pela Amazônia e fazer do Brasil o que fez do Alasca.

Apesar de situado no lado oposto ao Atlântico Norte, esse extremo das Américas integra a Otan desde que declarado estado americano. Na verdade é colônia, como os próprios Estados Unidos estabeleceram, por exemplo, para as "províncias ultramarinas" de Portugal na África. Com o correto argumento de que a dominação de território desconexo é própria de colônia, não de estado nem província, ou lá o que nomeiem.

A outra hipótese, menos própria para o estilo Trump, seria propor aos países europeus da Otan uma condição estatutária nova, para abrigar o Brasil. Ao que os europeus dariam duplo não. Mais nos gabinetes fechados, e ainda assim sonoros, do que às claras, entre os europeus e o governo americano a Otan é causa de crise grave. Os primeiros agem para a criação de uma Otan só europeia, cansados das exigências custosas do sócio, aliás, maior produtor de armas do mundo. Trump, por seu lado, acusa países europeus de atraso deliberado das contribuições financeiras, o que ninguém nega.

A importância dada por Trump ao encontro com Bolsonaro ficou exposta em seu convite à presença de Eduardo Bolsonaro. Criticada aqui e ridicularizada nos Estados Unidos, a presença foi muito boa. Mostrou que a natureza do encontro na Casa Branca, definida por Trump, foi apenas social. Entre duas pessoas que são presidentes, não entre dois presidentes no exercício de suas responsabilidades. Uma visita que levou muito, entregou mais do que levou e nada trouxe.

A não ser um motivo de curiosidade. Nossa. Não consta ter havido, jamais, a visita do presidente de um país ao centro de informação e de ações sigilosas de outro, ainda mais à monstruosa CIA. Por que isso se deu com Bolsonaro, é pior do que não sabido. Muito pior.

Sobre os autores

Jornalista e membro do Conselho Editorial da Folha.