23 de fevereiro de 2020

Os robôs não estão chegando para todos os nossos trabalhos

Atualmente há muita conversa sobre robôs para substituir todos os trabalhos. Mas uma olhada nos dados revela pequena indicação de que isso realmente acontecerá.

Doug Henwood


Um visitante olha para um robô Lovot desmontado, num evento no Museu Lovot em 5 de fevereiro de 2020, Tóquio, Japão.

Tradução / Você mal consegue ver o Twitter sem ler algo sobre a iminente revolução da Inteligência Artificial (IA): os robôs estão vindo para ocupar o seu trabalho. Sou cético. Com isso, não pretendo argumentar que a Teconologia da Informação (TI) e a IA e todas as outras abreviações e acrônimos não estão mudando profundamente o mundo. Estão. A tecnologia afeta tudo – trabalho, diversão, amor, política, arte, tudo isso. Mas a versão maximalista, onde robôs, dotados de IA, vão substituir trabalhadores humanos, é exagerada. Sem dúvida, eles substituirão alguns. Mas nem todos.

Em 1987, já faz tempo em termos de tecnologia, o economista Robert Solow escreveu: “Você pode ver a era do computador em qualquer lugar, exceto nas estatísticas de produtividade”. Esta observação virou um clichê, e era verdade. A produtividade – medida como o valor em dólar da produção por hora de trabalho, ajustada pela inflação – caiu abaixo de sua média de longo prazo em meados da década de 1970, sendo um dos muitos sinais do fim da Era de Ouro pós-Segunda Grande Guerra, e ficaria assim por vinte anos.


Por volta de 1995, a produtividade acelerou com a comercialização pela Internet e o boom das empresas pontocom, que acompanhou o aumento no investimento empresarial em TI. Apesar do gracejo de Solow, uma nova era começou. Esse crescimento da produtividade ocorreu numa época de baixo desemprego e aumento real dos salários – ao contrário do que ocorre hoje, quando o desemprego continua baixo, mas o crescimento salarial é uma merda. Portanto, por esse precedente, não há razão para associar uma aceleração da produtividade à perda de empregos.

Essa nova era durou apenas cerca de dez anos. A produtividade voltou a cair, atingindo mínimos históricos entre 2014 a 2016. Desde então, houve um aumento, mas o crescimento da produtividade está em níveis comparáveis ​​aos da queda de produtividade no final dos anos 1970, 1980 e início dos anos 90. Então, estamos de volta à piada de Solow: não se vê os robôs nas estatísticas de produtividade.

Aqui está outra maneira de ver isso. Historicamente, foram necessários pouco mais de 2% do crescimento do PIB para gerar um aumento de 1% no emprego. Durante a maior parte da última década, o crescimento do emprego superou essa norma histórica. Ultimamente, a economia dos EUA adicionou quase quarenta mil empregos por mês acima do que o crescimento do PIB sugere. Ultimamente, isso se compara a um ganho médio de cerca de duzentos mil. Em outras palavras, um em cada cinco empregos criados atualmente nos EUA não existiriam se as relações normais entre crescimento e emprego ainda estivessem sob controle. (Veja o gráfico abaixo.)

O gráfico mostra o crescimento real do emprego e o crescimento previstos a partir de uma regressão simples do crescimento do PIB. Quando a linha real escura está acima da linha prevista, como tem ocorrido na última década, o crescimento taxa de emprego é mais rápido do que deveria ser baseado no crescimento do PIB e vice-versa.

O crescimento do PIB – que tem sido lento para os padrões históricos – também tem produzido quedas maiores no desemprego do que se esperaria se a situação antiga ainda estivesse em vigor. Se os robôs estivessem entrando, se esperaria exatamente o contrário – um crescimento do emprego muito lento e um crescimento econômico com desemprego mais rígido do que tem sido. Mas essas coisas simplesmente não estão acontecendo.

Talvez ocorram, embora se ouça histórias de pânico sobre vagas cortadas de trabalhadores humanos desde o início do capitalismo. Gritos de alarme como “os robôs estão chegando!” minam a confiança da classe trabalhadora e deixam as pessoas mais gratas por qualquer porcaria que se ofereça a elas. A vida econômica já é difícil o suficiente, mesmo sem concorrentes mecânicos.

Sobre o autor

Doug Henwood edita o Left Business Observer e é o apresentador do Behind the News. Seu último livro é My Turn.

22 de fevereiro de 2020

Depois da explosão de Nevada, agora o partido é de Bernie

A decisiva vitória de Bernie Sanders em Nevada mostra que ele tem uma base da classe trabalhadora disposta em transformar radicalmente a política e a economia. Ele está a caminho não apenas da indicação como candidato do Partido Democrata, mas da Casa Branca.

Connor Kilpatrick e Dustin Guastella


Senator Bernie Sanders stands on stage during a campaign event on February 21, 2020 in Las Vegas, Nevada. (Joe Buglewicz / Bloomberg via Getty Images)

Tradução / A esmagadora vitória de Bernie Sanders nas primárias de Nevada é muito mais do que um salto gigantesco em direção à indicação ao Partido Democrata.

Bernie Sanders é, obviamente, o favorito para ganhar na convenção em Milwaukee. Uma análise atenta dos números e da demografia do “Estado Prata” [como Nevada é conhecido] revela algo muito maior – as sementes de um novo eleitorado que se levanta e um realinhamento fundamental da política dos EUA. Um novo partido, fortemente operário e comprometido com a política igualitária, rapidamente floresce sob a casca do antigo.

Enquanto pesquisas recentes mostram Donald Trump reforçando seu controle sobre o Rust Belt [Cinturão de Ferrugem, a região industrializada e de forte presença operária no nordeste dos EUA, entre os Grandes Lagos e o meio-oeste], a vitória de Bernie Sanders em Nevada aponta para um novo mapa eleitoral que pode ser a chave não apenas para derrotar Trump em novembro – mas para reconstruir o movimento da classe trabalhadora nos EUA.

Em Nevada, ao contrário de Iowa e New Hampshire, não domina um eleitorado mais velho, rico e branco – é um reduto trabalhista com densidade sindical maior que a média nacional, graças em grande parte ao poderoso Sindicato dos Trabalhadores da Culinária, que representa 60 mil membros e tem o tipo de mobilidade social da classe trabalhadora quase desaparecido em outros lugares nos EUA.

Mas, após a crise econômica de 2007/08, Nevada foi o estado mais atingido pelas execuções de hipotecas e os despejos que as acompanham – e desde então, o crescimento salarial tem sido inferior ao do país como um todo. De muitas maneiras, representa perfeitamente o dinamismo social frustrado.

Ao contrário das regiões metropolitanas mais ricas, que encontram conforto em banalidades absurdas, os nevadenses são imunes ao feitiço anti-Sanders lançado pela elite do Partido Democrata. A necessidade de uma insurgência de esquerda dentro do Partido Democrata no Estado de Prata claramente não é apenas incontroversa: é um senso comum.

Com os eleitores latinos representando um quinto do eleitorado de Nevada, o estado também tem uma grande população de imigrantes da classe trabalhadora concentrada no setor de serviços. Com Bernie Sanders ganhando esses eleitores (de forma espetacular), ele provou que é o único candidato que pode reconstruir a maioria democrata em meio à mudança do eleitorado.

Como a coalizão do New Deal antes dele [na década de 1930], o sucesso de Bernie Sanders é baseado em sua capacidade de atrair grande número de trabalhadores imigrantes, que geralmente são novos eleitores. E esses eleitores parecem cada vez mais leais à mudança política.

De fato, em uma série de medições, Nevada se parece muito mais com um microcosmo dos EUA do que qualquer eleição já vista. Não apenas em termos de origem e demografia étnicas, mas em termos de composição política. Considere-se que o Estado de Prata tem um grande número de eleitores descontentes com o Partido Democrata. Somente na última década, o número de não partidários autoidentificados – ou seja, nem republicanos nem democratas – cresceu 89%, representando mais de 20% no eleitorado de Nevada.

Embora os não partidários não possam votar no sistema fechado de caucus de Nevada, eles refletem uma tendência mais ampla de eleitores que rejeitam os dois principais partidos, mas são disputados por candidatos como Sanders. Como o país em geral – diferentemente dos subúrbios ricos em Washington e Nova York –, os nevadenses querem grandes mudanças.

Em uma pesquisa da Universidade de Suffolk, feita em janeiro, 58% dos potenciais optantes pelo Partido Democrata classificaram o apoio ao Medicare for All como muito importante para o candidato democrata, 52% classificaram da mesma forma o ensino universitário gratuito e 61% querem que o candidato democrata aumente os impostos sobre os ricos. Essas fortes maiorias são exatamente o motivo pelo qual o “Presidente Bernie” parece tão atraente.

Embora o poder de Trump no Centro-Oeste seja inegável, com Nevada como o prenúncio de um novo eleitorado da classe trabalhadora se pode começar a ver como o caminho de Bernie Sanders para a Casa Branca pode ser tão distinto de seus rivais quanto sua política – o Sun Belt [Cinturão do Sol, região dos EUA que, entre o sul e sudoeste], com Bernie Sanders na cédula, poderia estar no jogo de uma maneira que não se vê há décadas.

O New Deal foi possível com um novo eleitorado. Assim como, no passado, a entrada em massa na política dos imigrantes vindos da Europa Oriental, de primeira e segunda geração, levou Roosevelt (e o CIO) ao poder, agora os latinos – que estão solidamente por trás de Bernie Sanders – poderiam muito bem ser a força que ajude a trazer a socialdemocracia para os EUA.

O forte apelo de Bernie Sanders contra o establishment e sua plataforma focada nas questões dos trabalhadores estão conquistando não partidários, novos eleitores, jovens eleitores e imigrantes da classe trabalhadora. Não é apenas uma coalizão para ganhar em Nevada; é como Bernie Sanders pode se tornar presidente.

Os democratas do establishment precisam encarar isso – agora o partido é dele.

Sobe os autores

Dustin Guastella é diretor de operações do Teamsters Local 623 na Filadélfia.

Connor Kilpatrick é o editor de histórias da Jacobin.

21 de fevereiro de 2020

Sem reinventar a roda no BC

Com projeto de independência, corre-se o risco de consertar o que não está quebrado

Nelson Barbosa

Folha de S.Paulo

Americanos fazem fila para sacar investimentos durante a crise econômica, após o crash de 1929. A crise da Bolsa de Nova York começou em uma segunda-feira, 21 de outubro de 1929. AFP

A independência do Banco Central voltou ao debate. O Senado está avaliando um projeto de lei, enquanto, na Câmara, Rodrigo Maia também indicou que o tema é prioritário.

Lembrando, a proposta inicial do governo tem três pontos principais: isenção de todos os servidores do BC de responsabilização por atos praticado em suas funções, mandatos para os membros do Copom (o pessoal que fixa a Selic) e definição dos objetivos da política monetária.

O primeiro ponto é um absurdo, equivalente ao não questionamento de policiais por atos cometidos "sob forte emoção".

O segundo ponto pode e deve ser discutido, com cuidado, mas, por limitação de espaço, me concentrarei nos objetivos da política monetária.

Corremos o risco de consertar o que não está quebrado. O atual sistema de metas de inflação é regulado por um decreto e, nos últimos 20 anos, ele foi capaz de controlar a variação de preços sob fortes choques inflacionários e alta volatilidade cambial, tudo isso com redução gradual da taxa real de juro.

Apesar desse sucesso, os monetaristas de museu do Executivo querem fixar os objetivos do BC em lei. Mais, querem também dizer o que é mais e menos importante, colocando inflação em primeiro lugar, estabilidade financeira em segundo lugar e simplesmente esquecendo o nível de atividade. O Brasil não merece tanta arrogância.

A história econômica mostra que, quando o sistema financeiro corre risco de quebrar, levando a economia junto, a prioridade é evitar o agravamento da crise, deixando preocupações inflacionárias para se e quando isso for superado. Essa prática acontece desde pelo menos meados do século 19 —o "pânico de 1866" na Londres vitoriana. O episódio mais recente foi o "afrouxamento quantitativo" nos países avançados, pós-crise de 2008.

Como contraexemplo, lembro que a obsessão em manter a paridade monetária com o ouro, no início dos anos 1930, foi um dos determinantes da Grande Depressão daquela década. Colocar estabilidade financeira em segundo plano é, portanto, uma temeridade, além de convidar os procuradores de plantão a inventar crimes para obter protagonismo político.

O controle da inflação também deve levar em consideração as flutuações da renda e do emprego, para evitar aprofundar recessões e exagerar expansões. A maioria dos bancos centrais do mundo já faz isso, formalmente ou informalmente, explicando por que adotam velocidade mais lenta ou mais rápida de convergência da inflação para a meta do governo.

Ao ignorar renda e emprego, o projeto do governo é tão radical que até Armínio Fraga argumentou que deveria haver espaço para alguma estabilização do nível de atividade. O senador Tasso Jereissati apresentou emenda nesse sentido, colocando suavização de ciclos econômicos como objetivo "secundário da política monetária".

A iniciativa de Jereissati está correta do ponto de vista econômico, mas, novamente, lembro que, na atual fogueira de vaidades de nossa cultura da auditoria, qualquer ordenamento legal atiça procuradores irresponsáveis a provocar crises institucionais para ter destaque na mídia.

Diante desse quadro, vou mais longe do que Fraga e Jereissati: os objetivos do BC devem ser definidos de modo geral na lei, cabendo ao "regulamento" (decreto presidencial) determinar a hierarquia no dia a dia do BC, tudo com transparência e prestação de contas. Posso parecer radical, mas foi exatamente isso que aquele "presidente de esquerda", Fernando Henrique, fez 1999.

Não precisamos reinventar a roda no BC e temos outros problemas mais urgentes.

Sobre o autor

Professor da FGV e da UnB, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento (2015-2016). É doutor em economia pela New School for Social Research.

17 de fevereiro de 2020

As empresas te matariam, literalmente, para obter mais lucro

A Coca-Cola matou sindicalistas na América Latina. A General Motors construiu veículos conhecidos por se auto incendiarem. As empresas de tabaco esconderam as pesquisas sobre o câncer. E a Boeing sabia que seus aviões eram perigosos. As empresas não se importam se matam pessoas – desde que seja lucrativo.

Nicole M. Aschoff


Um Boeing 737 MAX 9 em seu primeiro voo em 13 de abril de 2017. Wikipedia

Tradução / A roupa suja da Boeing foi ao ar este mês quando a empresa divulgou mais de cem páginas de e-mails e mensagens trocadas por funcionários da empresa a investigadores do Congresso. As revelações ofereceram um retrato sombrio da cultura corporativa dentro da Boeing – funcionários de alto escalão insultando os funcionários, discutindo maneiras de enganar as agências reguladoras da aviação, lamentando sua própria torpe moral.

A comunidade jurídica ficou chocada com os documentos, chamando-os de “surpreendentes e apavorantes” e “incrivelmente condenáveis”. O presidente do Comitê de Transportes e Infraestrutura da Câmara, Peter DeFazio, disse que os e-mails “mostram uma imagem profundamente perturbadora dos comprimentos que a Boeing aparentemente estava disposta a fazer para evitar o escrutínio dos reguladores, das tripulações de voo e do público”.

Em uma matéria para o Financial Times, Bjorn Fehrm, analista da consultoria de aviação Leeham, culpa o aparente “problema cultural” da Boeing em sua fusão há duas décadas com o escritório de defesa McDonnell Douglas, cujo CEO Harry Stonecipher priorizou os resultados da empresa acima de tudo. Cynthia Cole, ex-engenheira da Boeing, concorda. Em uma entrevista em outubro de 2019 à NPR, Cole diz que, após a compra em 1997, a segurança e a qualidade começaram a “ocupar um segundo lugar no cronograma e no custo”.

É um tanto intrigante que ainda haja quem se surpreenda ao saber que as empresas e seus executivos, deixados por conta própria, se envolvem em comportamentos inescrupulosos e, às vezes, mortais. A Coca Cola matou sindicalistas na América Latina. A General Motors construiu veículos conhecidos por pegar fogo em colisões. As empresas de tabaco ocultaram as propriedades causadoras de câncer de seus produtos por décadas. O catálogo dos crimes éticos e morais das empresas é impressionante.

Essas falhas éticas e morais da Boeing, Coca Cola, General Motors e muitas outras empresas são a norma, não a exceção.

É claro que pode ser que, no caso da Boeing, uma nova obsessão por lucros crescentes tenha interrompido as normas corporativas mais antigas, transformando a cultura da Boeing de tal forma que colocaria em risco a vida das pessoas se isso significasse um retorno trimestral. Certamente, é fácil encontrar exemplos de empresas cuja cultura corporativa mudou para pior depois que o conselho colocou um clone de Jack Welch no comando, ou uma empresa de “private equity” procurando ganhos extraordinários comprando até os donos originários da empresa.

Mas devemos ter cuidado ao ler a história da “Boeing que deu errado”. Seu apelo baseia-se em uma poderosa ficção: que o objetivo das empresas, impedindo a infecção de uma força maligna, é operar de acordo com os padrões morais das comunidades em que elas estão inseridas.

Essa suposição, como a elevação do lucro acima de tudo – uma característica definidora do capitalismo -, cria um desalinhamento permanente entre as motivações e os objetivos das empresas e os de seus acionistas.

Além disso, vemos evidências desse desalinhamento ao nosso redor. O desejo de acesso à internet de alta velocidade esbarra na relutância dos provedores de telecomunicações em investir em bairros de baixa renda ou áreas rurais. As empresas de energia suja trabalham com tenacidade para impedir que as comunidades desenvolvam alternativas viáveis de energia solar e eólica. As empresas farmacêuticas aumentam o preço dos medicamentos que podem salvar vidas.

Esse desalinhamento não apenas gera uma barreira entre as empresas e seus clientes. Também azeda a relação entre chefes e trabalhadores, e entre os próprios trabalhadores.

O caso da Boeing é um exemplo extremo de um fenômeno mais amplo. Todos os dias somos solicitados de forma implícita e explícita a ficarmos calados diante de improbidade contábil, violações de saúde e segurança, assédio e abuso de colegas de trabalho e roubo de salário. Os efeitos são corrosivos, destruindo a confiança e a solidariedade, e fortalecendo o poder que as empresas têm para buscar mais lucros com impunidade.

Diante de um declínio acentuado no poder do trabalho organizado e do desembaraço e desequilíbrio das agências reguladoras federais, as opções para os trabalhadores destacarem os abusos corporativos – sem arriscar seu emprego ou reputação – são extremamente limitadas. Na escolha entre saída e voz, a maioria das pessoas tenta encontrar um emprego diferente ou exteriorizam suas preocupações agarrando-se aos colegas de trabalho em vez de confrontar o chefe. Isso deixa práticas e pessoas podres no lugar, perpetuando abusos e más práticas.

No capitalismo, a divergência fundamental entre os valores das empresas e os valores das pessoas comuns é constantemente encoberta. Mas, às vezes, como no caso da Boeing e das centenas de vidas perdidas no último ano e meio, a desconexão é impossível de ignorar.

É nesses momentos que devemos enfatizar esse desalinhamento – gritar aos berros que, apesar do poder das empresas de moldar a existência de pessoas comuns, os valores das empresas não nos definem.

Amor, honestidade, bondade, dignidade e orgulho são os valores que motivam a maioria das pessoas. Em vez de permitir que o capital molde a sociedade de acordo com seus valores, devemos criar instituições que forçam as empresas a operar de acordo com nossos valores.

Sobre o autor

Nicole M. Aschoff faz parte do conselho editorial da Jacobin. Ela é autora dos livros "The New Prophets of Capital e The Smartphone Society: Technology, Power" e "Resistance in the New Gilded Age", prestes a ser publicado.

15 de fevereiro de 2020

Para selar a catástrofe

Não passa de "ajuda" econômica em troca de soberania mutilada

Arturo Hartmann

Folha de S.Paulo

O presidente Donald Trump e o premiê Binyamin Netanyahu concedem entrevista na Casa Branca. Saul Loeb/AFP

Donald Trump não quer mudar radicalmente a realidade nos territórios palestinos com o plano articulado por seu representante (e genro) Jared Kushner. Afinal, as sugestões para temas centrais do embate, como a eliminação do controle palestino sobre Jerusalém Oriental, a anexação do vale do Jordão a Israel e o impedimento do retorno de palestinos no refúgio a seus lugares de origem já têm sido implementadas por Israel à revelia da lei internacional. As duas primeiras, desde a ocupação de Cisjordânia e Gaza, em 1967. A última, desde 1948, como parte dos processos que levaram à criação do Estado judeu em parte da Palestina.

A oferta de Trump é, na verdade, um pacote de “ajuda” econômica de cerca de US$ 27 bilhões, montante a ser coletado com investidores e doadores internacionais, em troca do aceite de uma soberania mutilada —a “visão realista” como recompensa ao consentimento à violência da conquista israelense.

Jerusalém teria suas fronteiras definidas pelo muro levantado desde 2002 sob a alegação israelense de “razões de segurança”, mas que empurra a “Jerusalém palestina” aos subúrbios de Kfar’ Akab, ao norte, e Abu Dis, a leste. A sugestão Trump-Kushner vindica aqueles que viam na barreira um instrumento de anexação do território.

O plano também premia Israel com a soberania sobre o vale do Jordão, extensão de terras agrícolas que suas forças de ocupação já controlam. O Banco Mundial apontava em 2016 que “restrições de movimento e acesso” a essa região custavam ao PIB palestino cerca de US$ 3,5 bilhões por ano.

Como plano de paz, portanto, a proposta inviabiliza-se por princípio ao tentar extrair a aquiescência dos nativos para que nada mude na expropriação de terras e controle de população. Mesmo a liderança palestina, sujeita aos termos de Oslo, recusou as sugestões. Já pedir aos palestinos que renunciem a direitos e conexão com a terra que sustenta sua coesão social parece ambicioso demais.

O que Trump quis de fato modificar envolve o xadrez regional para avançar sobre o Irã, que se fortalece com a normalização das relações de Israel com governos árabes. Para isso, o fato político palestino precisa ser removido. Kushner formulou então a seção 21, pela qual, definido o fim do conflito, acabariam também “todas as reivindicações entre as partes”, tudo a ser lavrado em novas resoluções da ONU.

Sob esse novo “contrato”, autoridades palestinas não poderiam processar Israel, EUA ou qualquer um de seus cidadãos em cortes internacionais. Conclusões da ONU, como as vistas no relatório de 2009 sobre o conflito em Gaza, de que políticas israelenses resultam em violações da lei internacional, ou as informações do Banco de Dados de Empresas nos Assentamentos, lançado nesta semana, deixam de ser constrangimentos para o governo israelense.

Resta saber se governos envolvidos na sustentação de Oslo, nomeadamente europeus, compartilham sobre a necessidade de destruir o horizonte político palestino e o conjunto de direitos associado a ele. A alguns governos árabes, como o saudita, de quem o plano depende financeiramente, e egípcio, politicamente, cabe pesar se sepultar o Estado palestino não lhes causam problemas em casa no caso de parte de suas populações não serem convencidas da ideia de entregar um passe livre a Israel. Trump precisa, também, que um conjunto de governos autoritários, simpáticos à produção de violência israelense, permaneça de pé. A começar pelo dele.

Sobre o autor

Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e PUC-SP) e ex-pesquisador visitante no Instituto de Estudos Árabes e Islâmicos na Universidade de Exeter (Reino Unido)

14 de fevereiro de 2020

Medo de cair

Classe média é o grupo que está bem hoje, mas que pode cair amanhã

Nelson Barbosa


Vila Andrade, na zona sul, é o distrito com maior proporção de favelas (50% das casas). É lá que está Paraisópolis, uma das maiores da cidade. Simon Plestenjak/UOL/Folhapress

Sempre houve e haverá desigualdade em sociedades humanas, mas, quando a desigualdade se torna extrema e injustificável, a população tende a se rebelar, liderada pela classe média.

Quando a classe média se alia aos mais ricos, normalmente temos mais aumento da desigualdade, que é tolerado enquanto houver crescimento econômico ou administrado via repressão contra os mais pobres quando o crescimento econômico é insuficiente.

Quando a classe média se alia aos mais pobres, geralmente temos redução da desigualdade, que, novamente, é tolerada enquanto houver crescimento. Também há mais inclusão social nesse caso, o que ironicamente acaba criando ansiedade em parte da classe média, por ter que compartilhar direitos e espaços antes percebidos como seus.

Mas o que é classe média? Há várias definições na literatura, baseadas em nível de renda (economistas), padrão de consumo (marqueteiros) e outros fatores. Gosto da taxonomia da jornalista Barbara Ehrenreich,
em “Fear of Falling”, sobre os EUA, do fim dos anos 1980.

O livro não foi traduzido para o português, mas tento um resumo: o que mais caracteriza a classe média é, adivinhe, o medo de cair!

Segundo Ehrenreich, o principal capital da classe média é sua formação profissional, adquirida via estudo e experiência, o que, por sua vez, não é facilmente transferível às futuras gerações, como, digamos, dinheiro no banco.

Uma pessoa de classe média tem vida geralmente confortável e segura, mas seus filhos não têm garantia de continuar na mesma situação. Para permanecerem na classe média, eles e elas terão que se qualificar e, mesmo assim, correm o risco de cair para as classes mais pobres se não houver empregos ou oportunidades suficientes para suas qualificações.

Gosto dessa taxonomia porque ela é simples. Ricos são aqueles com situação garantida hoje, amanhã e depois. A geração atual está bem, a seguinte idem e os netos também. Não há medo de cair.

Classe média é o grupo que está bem hoje, mas que pode cair amanhã e, principalmente, cujos filhos não têm garantia de permanecer classe média.

E os pobres são aqueles que batalham dia a dia para não cair na miséria. Aqueles para os quais um pequeno choque adverso (doença ou acidente) pode representar a diferença entre pobreza e miséria.

A expansão da classe média é vital para a manutenção da democracia, mas hoje isso está em risco em alguns países.

Seja pela abertura comercial, pela automação da produção, pela imigração ou pela concentração de poder pelos mais ricos, o fato é que a classe média vem perdendo representação no Ocidente. Esse processo obviamente não ocorre sem reação, e, na política, é sempre mais fácil culpar o outro do que explicar situações complexas.

Nos países avançados, os imigrantes são o bode expiatório. Por aqui a culpa é geralmente dos “esquerdistas”, que ousaram distribuir mais renda do que de costume quando foram governo.

Nos dois casos a elite cria uma cortina de fumaça para iludir a classe média, atribuindo só a imigrantes ou esquerdistas práticas condenáveis como corrupção, ausência de valores e pecados equivalentes.

E, enquanto o medo de cair leva a classe média a se aliar aos mais ricos, sua situação econômica fica cada vez pior, com precarização das condições de trabalho e redução da mobilidade social.

Até quando? Até que alguma liderança seja capaz de unir novamente classe média e mais pobres ou até a situação ficar tão ruim que isso acontece naturalmente. Torço pela a primeira alternativa, mas por enquanto ainda estamos na segunda.

Sobre o autor

Professor da FGV e da UnB, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento (2015-2016). É doutor em economia pela New School for Social Research.

11 de fevereiro de 2020

Julia Reichert, co-diretora de American Factory, sobre o socialismo

Um dia antes de citar Karl Marx no Oscar, Jacobin conversou brevemente com a co-diretora de American Factory, Julia Reichert, para saber mais sobre suas raízes no socialismo democrático e sua longa história na esquerda.

Ed Rampell


Mark Ruffalo (segundo da esquerda) com Jeff Reichert, Julia Reichert e Steven Bognar, vencedores do Documentary Feature Award com American Factory, no 92º Annual Academy Awards em 9 de fevereiro de 2020 em Hollywood, Califórnia. (Rachel Luna / Getty Images)

Tradução / Na cerimônia de premiação do Film Independent Spirit Awards, Julia Reichert mencionou “desigualdade de renda” em seu melhor discurso público na premiação do documentário American Factory. O primeiro filme lançado pela Higher Ground Productions de Barack e Michelle Obama é um documentário sobre um capitalista chinês que reabre uma fábrica fechada em Ohio, empregando milhares de trabalhadores norte-americanos.

Durante a coletiva de imprensa do Spirit Awards na praia de Santa Monica, perguntei a Reichert, que já havia sido indicado ao Oscar pelos documentários de 1976 e 1983 Union Maids e Seeing Red: “Você acha que o socialismo é a resposta para a desigualdade de renda?” Reichert respondeu perguntando quantas pessoas haviam visto o Seeing Red, que era sobre os membros do Partido Comunista dos EUA, e riu quando eu parecia ser o único jornalista da mídia a ter visto.

Reichert, que estava ao lado co-diretor do American Factory, Steven Bognar, continuou dizendo: “Eu volto um longo caminho, antes de Bernie Sanders. Volto aos anos sessenta – sou velha. Eu acho que o socialismo é a resposta para o nosso país? Todos nós deveríamos... compartilhar a riqueza. Deveríamos tributar as pessoas mais ricas. O acesso à saúde deve ser para todos. É mais parecido com o que eu chamaria de ‘socialismo democrático feminista’. E é sobre isso que eu sempre fui a favor. E ninguém mais me pergunta isso”, ela refletiu.

“Sabe, é engraçado, costumávamos falar, no final dos anos sessenta e início dos anos setenta, sobre ‘feminismo socialista’ e ‘socialismo democrático’ e ‘poder do trabalhador’. E então, durante os anos Reagan e depois, ninguém mais falou sobre isso. E agora estamos falando sobre isso novamente. Isso é bom”, ela continuou.

Reichert foi membro do Novo Movimento Americano, um dos dois grupos que se fundiram para formar os Socialistas Democratas da América (DSA) em 1983.

Na noite seguinte, ao ser indicado ao Oscar, ela finalmente teve a chance de fazer um discurso na premiação do “Indústria americana”, que ganhou o prêmio de melhor documentário. Durante a entrevista, Reichert citou O Manifesto Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels, proclamando ao vivo televisão: “Os trabalhadores têm cada vez mais dificuldade hoje em dia – e acreditamos que as coisas melhorarão quando os trabalhadores do mundo se unirem!”

No documentário de Reichert, Cao Dewang, o bilionário chines, adquire uma fábrica da General Motors em Ohio fechada em 2008 e a reabre como Fuyao Glass America.

Cao contratou dois mil funcionários nos EUA em meio ao alarde sobre o investimento. Mas, à medida que a empresa lutava para obter lucro, as condições de trabalho se deterioraram aceleradamente e os salários foram mantidos tão baixos que alimentaram um extenso esforço de sindicalização.

Esse esforço é combatido com sucesso pela empresa, que contratou consultores anti-sindicais e ameaçou a produção.

O novo filme de Reichert, parecido com American Factory também co-dirigido com Steven Bognar, 9to5: The Story of a Movement, conta a história de um grupo de trabalhadoras de escritório de Boston que se organizaram no início dos anos 1970. Será lançado em maio.


Sobre o autor

Ed Rampell é um historiador/crítico de cinema de Los Angeles e autor de Progressive Hollywood: A People’s Film History of the United States e co-autor de The Hawaii Movie and Television Book.

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