23 de março de 2019

Eleitores populares de Bolsonaro começam a pular do barco

Queda em avaliação é mais acentuada entre quem ganha de 2 a 5 salários mínimos

André Singer

Folha de S.Paulo



Aspecto pouco notado na queda de aprovação do governo, registrada pelo Ibope nesta semana, é a sua distribuição pela renda. Foram os eleitores populares que começaram a pular do barco bolsonariano. Possivelmente os mesmos que, no final do primeiro turno de 2018, sobretudo no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, produziram a incrível onda de extrema direita que varreu o país.

A perda de 15 pontos percentuais na avaliação positiva de Bolsonaro foi mais acentuada entre os eleitores que ganham de 2 a 5 salários mínimos (SM) de renda familiar mensal, chegando ali a um recuo de 18 pontos. Hoje apenas 35% desse segmento apoia o mandato em curso, índice que cai para 29% daqueles cujo ingresso familiar restringe-se a um SM.

Já quando a família recebe acima de cinco salários mínimos, 49% dos entrevistados gostam da administração do capitão reformado. Aqui a perda foi de apenas oito pontos em relação à posse (tinha 57% de ótimo e bom em janeiro).

Na mesma linha, o instituto de pesquisa nota o aumento da rejeição entre os moradores “que residem nas cidades das periferias brasileiras”. Nesse segmento o índice dos que consideram ruim ou péssimo o desempenho presidencial subiu nada menos que 21 pontos no período. O Nordeste, por sua vez, abriga apenas 31% que se mostram satisfeitos.

A persistência de melhor humor no Sul, onde 41% ainda apreciam o mandato em curso, ilustra a divisão social que permeia a conjuntura, pois a região concentra os menores indicadores de pobreza.

Se a economia comandar os rumos do eleitorado, como parece provável, uma recuperação no curto prazo é difícil. Vale lembrar que o primeiro governo Lula, por exemplo, em que pese ter demorado para produzir aquecimento do PIB, conseguiu estancar de imediato o ciclo inflacionário que herdara da etapa anterior.

Bolsonaro já pegou o leme com inflação irrelevante. Se não conseguir criar postos de trabalho e oferecer renda, continuará em baixa. Tal contexto daria à oposição a chance de apresentar alternativas ao modelo ultraneoliberal. As eleições de 2020, sobretudo nas capitais, seriam o teste de tal embate.

Olhando o assunto do ângulo político, a prisão de Michel Temer ainda é uma incógnita.

Foi a Lava Jato que o levou ao poder, uma vez que decisiva para o impeachment de Dilma Rousseff. Depois, com a gravação de Joesley, afundou o regime emedebista e ajudou a ascensão de Bolsonaro.

Agora, com a detenção do ex-presidente, atrapalha a reforma previdenciária de Paulo Guedes e aprofunda a divisão das hostes bolsonaristas. Terá fôlego para empurrar Sergio Moro rampa acima?

Sobre o autor

Professor de ciência política da USP, ex-secretário de Imprensa da Presidência (2003-2007). É autor de “O Lulismo em Crise”.

22 de março de 2019

Reforma da Previdência: o futuro está em jogo

Em vez de equilíbrio, proposta deve piorar situação

Guilherme Boulos

Folha de S.Paulo

Guilherme Boulos, em debate na campanha presidencial de 2018. Daniel Ramalho/AFP

O Brasil precisa saber o que está em questão com a reforma da Previdência apresentada pelo governo Bolsonaro. É verdade que o aumento da expectativa de vida traz um debate sobre o financiamento do sistema previdenciário. É verdade que precisamos enfrentar privilégios para assegurar direitos. Mas a proposta do governo não resolve nenhuma dessas questões e ainda cria novos problemas. O marketing de uma "Nova Previdência", que garanta as aposentadorias no futuro, não para em pé.

O grande objetivo da reforma é fazer uma transição radical de modelo: desmontar a Previdência pública, com suas três fontes de financiamento --trabalhador, empregador e Estado-- e colocar em seu lugar o regime de capitalização, financiado unicamente pelos próprios trabalhadores e gerido por bancos privados.

Ao contrário do regime de solidariedade entre gerações, consagrado na Constituição de 88, na capitalização impera o cada um por si.

Quem pode faz poupança individual nos bancos e garante uma aposentadoria com dignidade. Quem não pode estará condenado a condições indignas de aposentadoria ou a trabalhar até morrer.

O argumento de que as pessoas vão poder optar pelo INSS ou a capitalização é uma falácia. Por duas razões. Primeiro, num país com 37 milhões de trabalhadores informais é absurdo supor que a maioria conseguirá comprovar 20 anos de contribuição; 40 anos, então, nem se fale. Já com as regras atuais, apenas 29% se aposentam por tempo de contribuição. As mulheres e trabalhadores rurais serão ainda mais afetados com o endurecimento das regras.

A segunda razão é que o direito de escolha do trabalhador não existe numa economia com alto desemprego. Se quiser optar pelo INSS, a empresa terá de entrar com sua cota de contribuição. Na Previdência privada, ela estará desobrigada. Alguém acredita que uma empresa contratará quem opte pelo regime público?

O objetivo é impor a capitalização como modelo. A questão é que nele não cabem todos. O Chile é um exemplo. Após a implantação da capitalização na ditadura de Pinochet, o país produziu um surto de miséria entre idosos. Hoje, 80% dos aposentados recebem menos de 1 salário mínimo, por não conseguir garantir poupança individual.

A parte mais covarde é a "alternativa" oferecida aos que não consigam entrar no jogo da capitalização: benefícios sociais abaixo do salário mínimo. O Benefício de Prestação Continuada (BPC) garante hoje 1 salário para idosos pobres, a partir dos 65 anos. Atende 5 milhões de pessoas, representando em média 80% de sua renda. É a garantia de comida na mesa para muita gente. A proposta é permitir esse ganho apenas a partir dos 70 anos e, aos 60, garantir um valor pífio de R$ 400.

Os efeitos contra os mais pobres são devastadores. E também afetam a economia do país. As aposentadorias e benefícios previdenciários representam a maior movimentação econômica para 70% dos municípios brasileiros. Como disse reservadamente um prefeito da base bolsonarista a um amigo governador: "Se aprovar isso, na minha cidade não se vende mais nem um quilo de carne".

Em vez de permitir um equilíbrio da Previdência, a reforma deve piorar a situação. E não apenas pelo efeito depressor na economia, mas também porque --com a Previdência privada-- muitos deixarão de contribuir para o INSS. O resultado será uma descapitalização da Previdência pública, podendo, aí sim, criar um rombo insustentável, especialmente na transição. O objetivo de Paulo Guedes não é equilibrar a Previdência, mas entregá-la aos bancos.

Não é verdade que a única saída para o Brasil é fazer uma reforma que ataca direitos. É preciso ter coragem para enfrentar privilégios do poder econômico. Só a renúncia fiscal do INSS, com desonerações e isenções, representa cerca de R$ 57 bilhões ao ano. A taxação de fortunas, grandes heranças e lucros e dividendos --que defendemos nas eleições do ano passado-- poderia representar arrecadação de R$ 120 bilhões ao ano para Previdência e políticas sociais. E por que não implementar um Imposto Especial sobre o Lucro dos Bancos, como fez a Hungria em 2010 para sair da crise?

O que está em jogo é que futuro queremos: uma sociedade baseada no princípio da solidariedade, que acolha seus idosos, ou então no "cada um por si", que leve a maioria deles a uma aposentadoria indigna. A hora de definir é agora. Ainda dá tempo. Vamos hoje às ruas de todo o país em defesa de nossos direitos.

Sobre o autor

Ex-candidato à Presidência da República pelo PSOL (2018) e militante da Frente Povo Sem Medo

21 de março de 2019

Em troca de nada

Em visita a Trump, Bolsonaro entregou mais do que levou e nada trouxe

Janio de Freitas


O presidente dos EUA, Donald Trump, recebeu o presidente brasileiro Jair Bolsonaro na Casa Branca na tarde de terça feira (19). Créditos: Carlos Barria/Reuters

É fácil imaginar o que no Brasil sucederia a Lula, Dilma, Sarney ou Itamar se um deles fizesse uma pequena parte das entregas, em troca de absolutamente nada, de Jair Bolsonaro a Trump. Nem é preciso considerar, na comparação hipotética, o espetáculo de subserviência e bajulação —palavras da imprensa americana— dado em nome do Brasil. A comitiva brasileira, sem exceção para os generais, em momento algum se lembrou, um mínimo que fosse, de que representava um país cuja degradação ainda não arruinou a sua dignidade internacional —a última reserva.

Além das concessões substanciais, como importar trigo americano em desrespeito ao acordo que nos traz o trigo argentino, e de comprometimentos no jogo dos organismos internacionais, Bolsonaro e Paulo Guedes renegaram as muitas vantagens da filiação brasileira à OMC, Organização Mundial do Comércio. Como presente de consolação, o governo Trump promete (sem dar garantia) apoiar a entrada do Brasil na OCDE, Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Da qual já se recebe a colaboração mais útil.

Simbólica das promessas que enrolaram as concessões brasileiras, ficará para a crônica histórico-anedótica. É a promessa de que Trump "se esforçará" para ver, por desejo seu, o Brasil na OTAN, a Organização do Tratado do Atlântico Norte. Para isso, teria duas hipóteses. Dadas as possíveis dificuldades para levar o Brasil até o Atlântico Norte, Trump pode ceder ao velho desejo americano inspirado pela Amazônia e fazer do Brasil o que fez do Alasca.

Apesar de situado no lado oposto ao Atlântico Norte, esse extremo das Américas integra a Otan desde que declarado estado americano. Na verdade é colônia, como os próprios Estados Unidos estabeleceram, por exemplo, para as "províncias ultramarinas" de Portugal na África. Com o correto argumento de que a dominação de território desconexo é própria de colônia, não de estado nem província, ou lá o que nomeiem.

A outra hipótese, menos própria para o estilo Trump, seria propor aos países europeus da Otan uma condição estatutária nova, para abrigar o Brasil. Ao que os europeus dariam duplo não. Mais nos gabinetes fechados, e ainda assim sonoros, do que às claras, entre os europeus e o governo americano a Otan é causa de crise grave. Os primeiros agem para a criação de uma Otan só europeia, cansados das exigências custosas do sócio, aliás, maior produtor de armas do mundo. Trump, por seu lado, acusa países europeus de atraso deliberado das contribuições financeiras, o que ninguém nega.

A importância dada por Trump ao encontro com Bolsonaro ficou exposta em seu convite à presença de Eduardo Bolsonaro. Criticada aqui e ridicularizada nos Estados Unidos, a presença foi muito boa. Mostrou que a natureza do encontro na Casa Branca, definida por Trump, foi apenas social. Entre duas pessoas que são presidentes, não entre dois presidentes no exercício de suas responsabilidades. Uma visita que levou muito, entregou mais do que levou e nada trouxe.

A não ser um motivo de curiosidade. Nossa. Não consta ter havido, jamais, a visita do presidente de um país ao centro de informação e de ações sigilosas de outro, ainda mais à monstruosa CIA. Por que isso se deu com Bolsonaro, é pior do que não sabido. Muito pior.

Sobre os autores

Jornalista e membro do Conselho Editorial da Folha.

Krueger e o salário mínimo

Alan Krueger, morto neste fim de semana, revolucionou o pensamento econômico

Laura Carvalho


Alan Krueger, professor na Universidade de Princeton e ex-assessor econômico de Barack Obama, morreu no último sábado. Kevin Lamarque/Reuters

Em artigo no jornal The New York Times sobre o extenso trabalho de pesquisa de seu colega professor na Universidade de Princeton e ex-assessor econômico de Barack Obama Alan Krueger, que morreu no fim de semana passado, Paul Krugman resgatou, entre outros artigos, o estudo mais influente dele, publicado em 1994 em coautoria com David Card.

No trabalho, intitulado "Minimum Wages and Employment: a Case Study of the Fast Food in New Jersey and Pennsylvania", Card e Krueger revolucionaram a área não apenas pelo método utilizado, que partiu de um experimento controlado para estimar o impacto de uma política pública, mas sobretudo por não encontrarem o tal efeito negativo de aumentos do salário mínimo sobre o emprego, típico de manuais de introdução à economia.

Em um arcabouço em que o equilíbrio no mercado de trabalho se dá como no mercado de bens, o aumento do salário mínimo reduz a demanda por trabalho, pois torna a mão de obra mais cara, e eleva a oferta de trabalho, pois incentiva os trabalhadores a trabalhar para ganhar mais: o resultado seria um excesso de oferta de trabalho em relação à demanda, ou seja, um aumento do desemprego.

Card e Krueger estimaram o efeito do aumento do salário mínimo de US$ 4,25 para US$ 5,05 por hora concedido em abril de 1992 em Nova Jersey a partir da construção de uma amostra de 400 restaurantes de fast food do próprio estado de Nova Jersey e do leste do estado da Pensilvânia, região vizinha em que o aumento do salário mínimo não ocorreu.

O resultado encontrado foi que, apesar do aumento nos salários, o emprego em tempo integral em Nova Jersey não caiu em relação ao na Pensilvânia, até aumentou um pouco (ainda que de modo estatisticamente não significante).

Múltiplos estudos foram produzidos desde então na linha de pesquisa que passou a ser chamada de "New Minimum Wage Research", encontrando efeitos nulos ou muito pequenos do salário mínimo sobre o emprego, como apontou Charles Brown no "Handbook of Labor Economics", em 1999. Em 2014, Dale Belman e Paul Wolfson examinaram os resultados de 70 artigos dessa literatura e concluíram a partir de uma meta-análise que o impacto do salário mínimo sobre o emprego é muito pequeno ou insignificante.

No Brasil, a valorização real do salário mínimo de 60% entre 2003 e 2012 tampouco apresentou resultados negativos sobre a geração de empregos formais, conforme estimado por Fernando Satiel e Sergio Urzúa em artigo de 2017.

Além disso, o aumento do salário mínimo teria respondido pela maior parte da queda nas desigualdades salariais observadas entre 2004 e 2014 (e mais ainda entre as mulheres), de acordo com os resultados do trabalho de Bruno Komatsu e Naércio Menezes Filho publicado em 2015.

Um painel do Forum IGM organizado em 2013 pela Booth School of Business da Universidade de Chicago reuniu 41 economistas influentes e realizou uma enquete sobre a proposta do governo Obama de aumentar o salário mínimo para US$ 9 por hora e indexá-lo à taxa da inflação.

O resultado foi que somente 34% dos economistas presentes concordaram com a proposição de que a medida tornaria mais difícil para trabalhadores menos qualificados conseguir empregos. Além disso, 47% se disseram a favor da política, 14% foram contra e os demais declararam não ter certeza.

Embora o mesmo resultado dificilmente fosse observado em enquete similar realizada no Brasil, já está claro que a "New Minimum Wage Research" impactou o pensamento econômico de forma significativa nas últimas duas décadas. Alan Krueger merece, portanto, todas as homenagens que vem recebendo.

Sobre a autora

Professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, autora de "Valsa Brasileira: do Boom ao Caos Econômico".

19 de março de 2019

Metamorfose burguesa, a liquidação da economia nacional

Antes pujante e protagonista da expansão do país entre as décadas de 1930 e 1980, a classe industrial brasileira optou pela mediocridade preguiçosa da especulação e do rentismo

Marcio Pochmann

Revista do Brasil


Nas últimas três décadas, o andar de cima da sociedade brasileira apresentou importante transformação. Por força da inserção passiva e subordinada do país na globalização, patrocinada pela Era dos Fernandos (Collor, 1990-1992 e Cardoso, 1995-2002) e conduzida por grandes corporações transnacionais, a trajetória da industrialização nacional terminou sendo abandonada.

Nos discursos dos dois presidentes da República, portadores do receituário neoliberal da época (Consenso de Washington), a promessa de modernização nacional viria justamente com a abertura comercial, financeira e tecnológica. O que se viu, contudo, foi o contrário, com a crescente dependência tecnológica, dos investimentos estrangeiros e dos mercados externos para viabilizar as exportações primárias das mercadorias concentradas em recursos naturais e no custo do trabalho rebaixado.

Diante disso, a outrora pujante burguesia industrial a protagonizar o longo e intenso ciclo de expansão econômica entre as décadas de 1930 e 1980, terminou se acomodando à mediocridade preguiçosa da especulação e rentismo. Sua representação política e sindical se burocratizou e buscou sobreviver a partir dos fundos fiscais lastreados em subsídios, isenções e desonerações, quando não nos recursos fiscais do “Sistema S”.

O esvaziamento político e a perda da representação produtiva logo ficaram evidentes. Tanto assim que, no Congresso Nacional, a bancada patronal dominante é a da agropecuária, não obstante ser o setor de atividade econômica a contribuir com menos de 10% do Produto Interno Bruto.

A expressão disso deveu-se à metamorfose burguesa evidenciada por duas vias distintas, porém complementares entre si.

De um lado, a parcela que preferiu desfazer dos seus ativos produtivos para reproduzir sua riqueza a partir da especulação e de aplicações financeiras, descartando futuras gerações de qualquer relação com a produção manufatureira.

De outro, a parcela que seguiu no ramo dos negócios produtivos, porém como comerciante, não mais no exercício da função de industrial. Ou seja, na posição de substituição de produtos nacionais por importados, também em articulação com a dependência dos ganhos financeiros.

Exemplos disso não faltam, pois é o que os balanços das empresas recorrentemente têm apontado. Como no caso do grupo Globo, que registrou queda de mais de 30% no lucro líquido de 2018 (R$ 1,2 bilhão) para 2017 (R$ 1,8 bilhões). A redução não foi maior poque o maior grupo nacional de comunicação compensou com a elevação da receita financeira, que passou de cerca de um terço do lucro líquido no ano de 2017, para quase 80% em 2018.

Isso não tem sido algo isolado, mas sim um fenômeno da metamorfose burguesa. Diante disso, parece não haver melhor razão para explicar a adesão da burguesia ao rentismo, bem como a defesa de governantes que também se posicionam favoravelmente à especulação e ao saque do fundo público. A convergência empresarial em relação à sustentação arbitrária da ascensão de Temer, em 2016, e da ação favorável à candidatura de Bolsonarro, encontra explicação precisa nas políticas neoliberais de corte de gastos operacionais e liberação do rentismo.

Do conflito distributivo anterior verificado entre lucros e salários, o país transitou para o conflito distributivo no interior do fundo público. Sem perspectivas de retomada do crescimento econômico, as reformas neoliberais de Temer – e agora de Bolsonaro – voltam-se para o sustento do rentismo através do achaque das finanças públicas.

Nessa dinâmica, em que poucos ganham e muitos perdem, a metamorfose burguesa pode estar espelhando a perspectiva de “compra de tempo” frente ao horizonte de liquidação nacional.

18 de março de 2019

O "partido americano" nas instituições da UE

Manlio Dinucci

Il Manifesto

Tradução / “A Rússia já não pode ser considerada um parceiro estratégico e a União Europeia deve estar pronta para impor-lhe novas sanções se ela continuar a violar o Direito Internacional”: esta é a resolução aprovada pelo Parlamento Europeu, em 12 de Março, com 402 votos a favor, 163 contra e 89 abstenções. A resolução, apresentada pela deputada letã, Sandra Kalniete, nega principalmente a legitimidade das eleições presidenciais na Rússia, defenindo-as como “não democráticas”, apresentando assim o Presidente Putin como um usurpador.

Acusa a Rússia não só de “violar a integridade territorial da Ucrânia e da Geórgia”, mas de “intervir na Síria e interferir em países como a Líbia” e, na Europa, de “interferir com o objectivo de influenciar as eleições e aumentar as tensões”. Acusa a Rússia de "violar acordos de controlo de armas", atribuindo-lhe a responsabilidade de ter prejudicado o Tratado INF. Acusa-a, também, de “extensas violações dos Direitos Humanos dentro dela, incluindo tortura e execuções extrajudiciais”, e de “assassinos cometidos pelos seus agentes, com armas químicas, em solo europeu”. No final destas e de outras acusações, o Parlamento Europeu declara que o Nord Stream 2, o gasoduto destinado a duplicar o fornecimento de gás russo à Alemanha, através do Mar Báltico, “deve ser interrompido porque aumenta a dependência da UE do fornecimento de gás russo, ameaçando o seu mercado interno e os seus interesses estratégicos”.

A resolução do Parlamento Europeu repete fielmente, não apenas no conteúdo, mas usando as mesmas palavras, as acusações que os EUA e a OTAN fazem à Rússia. E, o mais importante, repete fielmente o pedido para bloquear o Nord Stream 2: objectivo da estratégia de Washington visando reduzir o fornecimento de energia da Rússia à União Europeia e substituí-la com o proveniente dos Estados Unidos ou mesmo, de empresas americanas. No mesmo âmbito, enquadra-se a comunicação da Comissão Europeia aos países membros, entre os quais, a Itália, com a intenção de aderir à iniciativa chinesa da Nova Rota da Seda

A Comissão adverte que a China é um parceiro, mas também um concorrente económico e, mais importante, “um rival metódico que promove modelos alternativos de governação”, por outras palavras, modelos alternativos à governação dominada até agora pelas potências ocidentais. A Comissão adverte que é necessário antes de tudo “salvaguardar as infraestruturas digitais críticas, de ameaças potencialmente perigosas para a segurança”, derivadas das redes 5G fornecidas por empresas chinesas como a Huawei, banida nos Estados Unidos.

A Comissão Europeia repete fielmente o aviso dos Estados Unidos aos Aliados. O Comandante Supremo Aliado na Europa, o General americano, Scaparrotti, alertou que as redes móveis ultra rápidas da quinta geração desempenharão um papel cada vez mais importante nas capacidades bélicas da NATO, de modo que não se admitem “ligeirezas” da parte dos aliados.

Tudo isto confirma qual é a influência que o “partido americano” exerce, um poderoso alinhamento transversal que orienta as políticas da União em simultâneo, com as linhas estratégicas EUA/OTAN.

Ao construir a imagem falsa de uma Rússia e China ameaçadoras, as instituições da UE preparam a opinião pública para aceitar o que os EUA estão a preparar para “defender” a Europa: Os Estados Unidos - declarou à CNN um porta-voz do Pentágono - estão a preparar-se para testar mísseis balísticos com base em terra (proibidos pelo tratado INF destruído por Washington), isto é, novos mísseis europeus que farão novamente da Europa, a base e ao mesmo tempo, o alvo de uma guerra nuclear.

17 de março de 2019

Teoria econômica e imperialismo

Prabhat Patnaik



Tradução / A teoria econômica burguesa mainstream, que ocupa a posição hegemônica no mundo acadêmico de hoje, é frequentemente criticada por ser "irreal", ao proceder baseada em suposições que obviamente não correspondem à realidade. Contudo, esta crítica, apesar de válida, não capta a real intenção da teoria, que é a de servir como camuflagem ao imperialismo. O conteúdo teórico da economia burguesa mainstream avança um conjunto de proposições sobre o funcionamento do capitalismo que nega qualquer necessidade e portanto qualquer papel ao imperialismo no desenvolvimento capitalista. Dado que o imperialismo é, de fato, um elemento crucial ao funcionamento do capitalismo, essas proposições são, por óbvio, "irreais", mas destacar seu caráter "irreal" não basta. Este carácter "irreal" tem um propósito, e este fato não pode ser ignorado.

Dizer que a economia burguesa serve ao imperialismo não equivale a sugerir que todos os economistas burgueses desempenham deliberadamente este papel. Quando um determinado discurso ganha valor de face, muitos economistas insuspeitos, de modo inocente, se mantém dentro de seus limites, por razões profissionais e de carreira. Como um determinado discurso ganha valor de face e como aqueles que desafiam seus limites são penalizados profissionalmente, são tópicos pertinentes à sociologia da vida acadêmica, e não serão discutidos aqui. Devo cingir-me à ilustração da minha proposição de que a economia serve para camuflar o imperialismo, e o farei recorrendo a apenas duas teorias-padrão.

A primeira é a "teoria do crescimento", isto é, a teoria que se ocupa do que determina o crescimento de uma economia capitalista no longo prazo. A posição mais habitualmente defendida, que foi desenvolvida com rigor por Robert Solow, do MIT (Massachusetts Institute of Technology) e que ganhou um Prêmio Nobel pelo trabalho, o qual foi recentemente utilizada por Thomas Piketty (a propósito, nem Solow nem Piketty podem ser considerados ideologicamente de direita, de forma alguma), é que o crescimento de uma economia capitalista, no longo prazo, é determinado pela taxa de crescimento de sua força de trabalho. É claro que quando a taxa natural de crescimento da força de trabalho é de, digamos, 3% ao ano e a produtividade do trabalho a uma razão capital-produto dada cresce a 2% ao ano devido ao progresso tecnológico (isto é, cada trabalhador hoje equivalerá a 1,02 trabalhador no próximo ano), a taxa de crescimento desta economia no longo prazo, de acordo com esta teoria, equivalerá a 5%. Resumidamente, a taxa de crescimento da economia equivalerá à taxa de crescimento da força de trabalho, não em unidades naturais, mas em "unidades de eficiência". Mas isto é apenas uma variação sobre o tema; o ponto básico é que a teoria burguesa mainstream predominante, que é ensinada assiduamente em quase todas as universidades do mundo, considera que o crescimento econômico, sob o capitalismo, é limitado pela disponibilidade de mão-de-obra.

Ocorre que esta é uma proposição notavelmente bizarra, uma vez que ao longo da sua história o capitalismo deslocou milhões de pessoas através do globo para satisfazer as necessidades de acumulação de capital. Vinte milhões de escravos foram embarcados à força para cruzar o Oceano Atlântico, de África ao assim chamado "Novo Mundo", para trabalhar em minas e em plantations. E depois que o tráfico de escravos chegou ao fim, 50 milhões de chineses e indianos (de acordo com uma estimativa) foram transportados, como coolies ou sob servidão por contrato, até a Primeira Guerra Mundial, a lugares distantes como Fiji, as Ilhas Maurício ou as Índias Ocidentais, novamente para trabalhar em minas e plantations, de forma a satisfazer as necessidades do capital metropolitano.

Quando se observa que o capital desenraizou, desta forma brutal, milhões de pessoas para suprir suas necessidades de mão-de-obra, dizer que a acumulação de capital simplesmente se ajusta com mansidão à disponibilidade de mão-de-obra interna é incrivelmente absurdo. Ainda assim, é o que a teoria económicamainstream defende. É claro que se a teoria propusesse que a acumulação de capital seria limitada pela disponibilidade de mão-de-obra se o capitalismo tivesse que se arranjar somente com a força de trabalho interna, e que teria portanto forçosamente de percorrer o globo em busca de trabalhadores e desenraizasse um grande contingente de pessoas para satisfazer as necessidades de trabalho humano, isto é, se se tratasse de uma teoria ex ante utilizada para prover uma explicação do imperialismo (como um meio de superar uma escassez de mão-de-obra ex ante ), estaríamos a tratar de algo bem diferente. Independentemente de se concordar ou não com uma teoria dessas como uma explicação central para o imperialismo, tratar-se-ia ao menos de um esforço teórico honesto. Na verdade, o conhecido marxista austríaco Otto Bauer propôs precisamente esta teoria do imperialismo, que foi criticada por Rosa Luxemburgo.

Mas isto não é o que a teoria económica mainstream propõe. Ela diz que a acumulação de capital não é limitada ex ante pela disponibilidade de mão-de-obra, e sim ex post; seu propósito não é demonstrar a necessidade do fenómeno observável do imperialismo devido ao factor que ela enfatiza, nomeadamente a escassez de mão-de-obra, mas sim explicar o ritmo real da acumulação de capital em termos da disponibilidade de mão-de-obra interna sem qualquer referência ao imperialismo.

A bem da verdade, há teorias recentes dentro da economia burguesa mainstream que falam na superação da escassez de mão-de-obra através do estabelecimento de uma taxa apropriada de progresso tecnológico, de tal maneira que a taxa de crescimento da economia capitalista não mais seja limitada pela disponibilidade de mão-de-obra. Contudo, tais teorias ignoram completamente o imenso alcance global do capital e a sua tendência a deslocar milhões de pessoas através do globo de forma a atender suas necessidades. Em síntese, a teoria mainstream do crescimento, ao enxergar invariavelmente o capitalismo como um sistema fechado e auto-contido, serve para obscurecer o fenómeno do imperialismo. E essa obscuridade caracteriza a economia mainstream como um todo.

A segunda ilustração deste ponto diz respeito à teoria do comércio, que propaga assiduamente a ideia de que o comércio internacional é sempre benéfico a todos os países. Esta visão é sustentada oficialmente por agências como a OMC (Organização Mundial do Comércio), que desejam impor o livre comércio por toda parte. Entretanto, toda a experiência de economias coloniais, como a Índia, fornece ampla evidência na direcção contrária. A abertura comercial foi a causa da "desindustrialização" que lançou milhões de tecelões e outros artesãos ao desemprego, graças à importação de manufacturas baratas da metrópole capitalista. Os trabalhadores assim deslocados foram atirados aos campos, o que elevou o custo da terra, baixou os rendimentos do trabalho e deprimiu os ingressos de grande parte da população (exceptuando-se, claro, os proprietários da terra que, ao contrário, se beneficiaram do processo); esta foi a génese da pobreza de massas nessas economias. Ainda assim, estudantes em todo o mundo, incluindo-se os que vivem nesses países, aprendem teorias que propagam as virtudes do livre comércio, ignorando a própria experiência.

Como a teoria mainstream realiza a façanha de "demonstrar" as virtudes do livre comércio? Ela o faz simplesmente por assumir que todos os "factores de produção" encontram-se plenamente utilizados em cada economia, tanto antes quanto depois da abertura comercial. Se tomamos esta suposição como um dado, naturalmente não há espaço para qualquer "desindustrialização", uma vez que os artesãos deslocados serão, por definição, completamente reabsorvidos pelo sector exportador em vez de permanecer desempregados ou subempregados. O facto de que o sector exportador numa economia colonial (ou, de modo geral, em qualquer economia do Terceiro Mundo ainda hoje) consiste em commodities primárias cuja produção não pode ser elevada arbitrariamente devido à disponibilidade limitada de terras e que portanto os novos desempregados simplesmente congestionarão o mercado de trabalho em detrimento de todos, é tido como inexistente. Com efeito, toda a acachapante evidência histórica da desindustrialização é tratada como se jamais houvesse ocorrido! E essa teoria obviamente tendenciosa, derivada de suposições deliberadamente construídas, é passada adiante como se sabedoria económica fosse.

A vacuidade da teoria económica burguesa mainstream tornou-se óbvia a todos os que se engajaram na luta anticolonial, de Naoroji e Romesh Dutt a Gandhi e a esquerda. Como resultado, logo após a descolonização houve um esforço, na Índia e em toda parte, para dizer a verdade sobre as experiências históricas desses países, e sobre a vacuidade da economia mainstream, aos seus estudantes universitários. Lamentavelmente, este não é mais o caso. No esforço de emular as universidades estrangeiras mais bem conceituadas, ostensivamente com o fito de atingir uma melhor qualidade de ensino, todos as instituições de ensino superior destes países propagam tais teorias económicas burguesas do mainstream que servem para obscurecer o fenómeno do imperialismo aos seus estudantes.

A hegemonia intelectual desempenha um papel crucial no modus operandi do imperialismo; a predominância da teoria económica burguesa mainstream é um elemento-chave desta hegemonia intelectual.