15 de julho de 2019

O partido do medo

David Altheide

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Fotografia por Nathaniel St. Clair

A política de medo liderada pelo presidente Trump atacando imigrantes indocumentados e minorias religiosas está empurrando nossos partidos políticos à divisão. As divisões políticas nos Estados Unidos aumentam quando nossos dois principais partidos políticos não concordam sobre quais são as questões importantes.

Historicamente, os partidos Democrata e Republicano concordaram essencialmente sobre as questões importantes, mas diferiram na abordagem para lidar com eles. Ainda houve acordo sobre as principais questões depois que o presidente Obama foi eleito. Em 2009, o eleitorado de ambos os partidos classificou o terrorismo, a economia e o emprego entre suas 5 principais prioridades. De fato, mesmo há 5 anos, em 2014, a economia, o emprego e a seguridade social estavam entre as 5 principais preocupações de ambos os partidos.

A maior separação ocorreu após a eleição do presidente Trump em 2016. Dados de uma pesquisa de opinião mostram que em 2019 os republicanos priorizavam questões de medo - terrorismo, imigração e militares - enquanto os democratas se concentravam mais em questões de apoio institucional como saúde, educação e meio ambiente. Estas são diferenças significativas, uma que sinaliza preocupação com proteção, segurança e proteção, enquanto a outra é mais orientada para o futuro e capacitadora. Os membros do partido concordam que as coisas mudaram recentemente. Em 1987, apenas 25% dos entrevistados disseram que havia muita diferença entre republicanos e democratas. Mas até 2019, 54% deram essa opinião.

Esta mudança se deve, em grande parte, ao armamento do Presidente do medo, especialmente sua retórica sobre imigrantes ilegais assassinos e a busca de um muro multibilionário para manter os americanos seguros, e manter seus partidários com medo. Propaganda e falsas alegações sobre a criminalidade dos imigrantes contribuem para a ira dos partidários republicanos, mas a maior parte da raiva é baseada em medos profundos, desinformação e nas mais de 10.000 declarações falsas e enganosas do Presidente.

Um discurso constante de medo - mesmo que falso - sobre o crime, a doença e o terrorismo difuso de de imigrantes serve para manter os partidários republicanos alertas e alertam as ameaças mais populares. O presidente Trump habilmente dirigiu o ciclo de notícias com tweets para manter as pessoas assustadas e assegurando-lhes que ele as protegeria. Os tweets inflamatórios são repetidos em reportagens regulares e amplificados através das mídias sociais, mesmo que sejam falsas. Isso molda a opinião pública enfatizando os perigos - reais e imaginários - que suas políticas pretendem fixar, e essa é a chave: o presidente Trump salvará o povo. O sociólogo Barry Glassner, uma autoridade sobre a cultura do medo, afirma: “Sua fórmula [de Trump] é muito limpa e descomplicada: tenha muito, muito medo. E eu sou a cura.” De acordo com um funcionário do governo, “o povo americano tem medo”. “Isso é o que o presidente está refletindo”.

O presidente Trump demoniza os imigrantes, muçulmanos e as minorias do Oriente Médio como potenciais terroristas, ao mesmo tempo em que desvaloriza - e até insulta - jornalistas, cientistas, políticos progressistas, aliados e tratados que promovem programas, abordagens e valores que afirmam vários serviços sociais e ações governamentais em direção a cuidados de saúde, educação, direitos humanos, relações internacionais e consenso científico. Isso fez com que os americanos, e especialmente os partidários republicanos, ficassem com mais medo, e se concentrassem em questões diferentes das dos democratas. E há indícios de que muitos partidários republicanos se sentem justificadamente autorizados a se afastar de questões comuns. Por exemplo, em 2019, a maioria dos republicanos (58%) queria que seu partido se movesse em uma direção ainda mais conservadora, enquanto 53% dos eleitores democratas preferiam que seu partido se tornasse mais moderado. As diferenças nas visões de mundo partidárias foram notadas por outros:

Se você acha que o mundo é perigoso, a segurança é sempre a principal preocupação. Quando se trata de segurança física, deixar sua guarda contra os adversários pode ser desastroso. Se você acha que o mundo é seguro, no entanto, discriminar os grupos que geralmente estão na hierarquia de orientação racial, gênero ou sexual é o verdadeiro pecado.

Iluminar a retórica sombria que nos separa é um começo para nos concentrarmos em questões comuns.

12 de julho de 2019

Cuba merece ser castigada?

Trump reverte o pouco ganho obtido com Obama

Pedro Monzón

Folha de S.Paulo

Cruzeiro próximo a porto cubano, em junho deste ano, antes de Donald Trump anunciar novas medidas restritivas contra o país. Adalberto/AFP

Cuba é uma nação pacífica e estável, com belezas naturais e arquitetônicas excepcionais. Nela, há um povo alegre, com alto nível de educação científica e cultural. O país desfruta de um sistema gratuito de saúde, o que explica a baixa mortalidade infantil, a alta esperança de vida e o fim de doenças tropicais.

As políticas públicas levam à inexistência de uma desigualdade crítica; não há desnutrição infantil, cidadãos sem teto, tampouco moradores de rua. A segurança social é abrangente, e a delinquência, mínima. Trata-se de um dos países mais seguros do mundo, e as drogas não são um problema nacional.

Não há discriminações. A mulher é a maior força científica, universitária e política. Não se tortura e há um autóctone sistema democrático.

Cuba pratica uma solidariedade sem precedentes e promove boas relações internacionais. Crê que o mundo deve ser diverso e multipolar, sem imposições ideológicas ou políticas. É independente, respeitada e com um alto sentido da dignidade.

Então, por que castigar Cuba?

Os Estados Unidos começaram a impor sanções à ilha após o triunfo da revolução, em 1959. Esse tipo de medida, porém, nunca havia ocorrido antes, apesar da sucessão de governos repressivos que resultaram na aterradora tirania derrotada naquele mesmo ano.

Cuba, então, oferecia aos EUA recursos, lindas praias, uma música universal, rum, tabacos e belas mulheres. Serviu de centro de prazer para seus militares e mafiosos, proprietários de importantes hotéis e cassinos, onde proliferavam drogas.

Coexistia nesse ambiente “glamoroso”, rótulo então propagado, um povo miserável, com baixos níveis educacionais, serviços médicos elitistas e uma pseudodemocracia intensamente repressiva.

Surge aí o conflito: os americanos sempre buscaram manter Cuba como um país dependente, enquanto os cubanos sempre lutaram por sua independência e para implantar um sistema profundo de justiça social. Assim se explicam as agressões e o bloqueio a Cuba por mais de 60 anos.

Donald Trump reverte agora o pouco ganho obtido com Barack Obamae introduz medidas que visam asfixiar definitivamente o país. Ele impôs sanções a empresas, estatais e privadas, e cooperativas, bem como proibiu a entrada na ilha de aviões privados e corporativos, cruzeiros, veleiros e barcos de pesca, reduzindo drasticamente as visitas de americanos.

Recentemente, ele iniciou a aplicação plena da violenta Lei Helms-Burton, que fortaleceu o bloqueio e pretende internacionalizá-lo ainda mais por meio do incremento de ações judiciais coercitivas contra outros países, para impedir que negociem com a nação cubana.

Enquanto isso, a ilha introduz mudanças soberanas e democráticas necessárias em sua economia e jurisprudência para torná-las mais justas e eficientes, protegendo investimentos estrangeiros, e resistirá com o apoio da solidariedade internacional.

Pergunto: por que o castigo? Por que dificultar ao mundo que desfrute de um formoso e hospitaleiro país, assim como o acesso aos seus mercados e recursos?

Sobre o autor

Cônsul-geral de Cuba em São Paulo

11 de julho de 2019

Trabalho decente

Enquanto Bolsonaro debatia méritos do trabalho infantil, OIT discutia desafios do século 21

Laura Carvalho

Folha de S.Paulo

Analista de manutenção testa robô colaborativo para carregar pequenas embalagens no laboratório 4.0 da Natura. Eduardo Knapp/Folhapress

Na mesma semana em que o presidente Jair Bolsonaro trazia de volta ao Brasil um debate do século 19 sobre supostos méritos do trabalho infantil, ocorria em Genebra a 6ª Conferência de Regulação para o Trabalho Decente da OIT (Organização Internacional do Trabalho), em grande medida voltada aos desafios trazidos pelas transformações no mundo do trabalho do século 21.

Diante das profundas transformações ligadas à demografia, às mudanças climáticas e à tecnologia —em particular, o avanço da automação e da inteligência artificial e o crescimento do trabalho mediado por plataformas digitais e aplicativos—, a agenda proposta no relatório “Work for a Brighter Future”, da Comissão Global para o Futuro do Trabalho, sobre o qual fui convidada a debater nesta quarta-feira (10), tem três eixos centrais.

Primeiro, como aqueles que perderão seus empregos tendem a ser os menos preparados para aproveitar-se das novas oportunidades de trabalho trazidas por essas transformações, a recomendação é priorizar investimentos em educação e treinamento, além de oferecer um sistema de proteção social universal, que combina um piso de proteção (renda básica) com um sistema de seguridade social contributivo.

O segundo eixo refere-se ao investimento nas instituições que regulam o trabalho. O relatório propõe a criação de uma Garantia Universal do Trabalho que garantiria o direito a um salário digno, a um limite máximos de horas trabalhadas, à segurança e à saúde no trabalho em todos os tipos de arranjo contratual, incluindo o mediado por aplicativos ou plataformas digitais.

Além disso, a diretriz é incentivar as formas de representação coletiva, que deveriam integrar os trabalhadores informais e utilizar os próprios meios digitais como forma adicional de organização.
Por fim, no terceiro eixo da agenda estão os investimentos na criação de empregos decentes e sustentáveis, o que inclui desde a economia rural até a infraestrutura social, física e digital para o suporte aos serviços de alto valor agregado.

Embora o relatório reconheça a necessidade de uma maior coordenação com outros organismos multilaterais, como a OMC (Organização Mundial do Comércio) e o FMI (Fundo Monetário Internacional), são muitos os obstáculos ao cumprimento da agenda proposta em meio aos processos de globalização comercial e financeira e seus efeitos sobre a divisão internacional do trabalho e a autonomia da política macroeconômica dos países.

De um lado, nada indica que as novas oportunidades de emprego se darão nas mesmas regiões do mundo em que haverá maior destruição de postos de trabalho pelas transformações tecnológicas em questão.

Como não há livre mobilidade de trabalhadores entre países, não basta, portanto, educar e treinar aqueles que foram excluídos, pois pode não haver empregos de maior qualidade para absorvê-los em seus países de origem.

Nesse contexto, as redes de proteção social pensadas para a tal “transição” podem tornar-se uma necessidade permanente nas regiões menos desenvolvidas, recaindo desproporcionalmente sobre os Estados que menos têm condições de financiá-las.

A geração de novos empregos por meio de investimentos públicos em infraestrutura física e social também esbarra em limites muito maiores nos países pobres, que têm menor acesso a crédito barato nos mercados internacionais e muitas vezes estão sujeitos a condicionalidades do próprio FMI.

Embora não discuta a fundo essas questões, o relatório menciona a possibilidade de taxar os gigantes da tecnologia como forma de aumentar a base de financiamento da agenda. A proposta é muito bem-vinda, mas não parece suficiente para evitar que, mais uma vez, o lado mais fraco saia perdendo.

Sobre a autora

Professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, autora de "Valsa Brasileira: do Boom ao Caos Econômico".

8 de julho de 2019

A farsa das relações com a Rússia

A Rússia, onde operam 500 empresas italianas, é o quinto mercado extra-europeu para nossas exportações e fornece 35% da demanda de gás natural da Itália. O intercâmbio foi de 27 bilhões de dólares em 2018, mas em 2013 chegou a 54 bilhões. Por isso, diminuiu para metade devido ao que o Primeiro Ministro Conte define como a "deterioração das relações entre a Rússia e a União Europeia que levou a sanções europeias" (decidida em Washington).

Manlio Dinucci

Il Manifesto

O presidente russo, Vladimir Putin, e o primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, participam de uma coletiva de imprensa conjunta em Roma, Itália, em 4 de julho de 2019. Yara Nardi/Reuters

Tradução / O estado das relações entre a Itália e a Rússia é “excelente”: afirmou o Primeiro Ministro Conte, ao receber em Roma, o Presidente Putin. A mensagem é reconfortante, na verdade, soporífera em relação à opinião pública. Limitamo-nos, fundamentalmente, ao estado das relações econômicas. A Rússia, onde funcionam 500 empresas italianas, é o quinto mercado extra-europeu para as nossas exportações e fornece 35% da procura italiana de gás natural. O intercâmbio - Putin especifica - foi de 27 bilhões de dólares em 2018, mas em 2013 chegou a 54 bilhões. Portanto, reduziu para metade o que Conte designa como a “deterioração das relações entre a Rússia e a União Europeia, que conduziu às sanções europeias” (decididas, na realidade, em Washington).

Porém, existe um “relacionamento intenso a todos os níveis” entre os dois países. Tons tranquilizadores que reflectem os da visita de Conte a Moscovo, em 2018 e do Primeiro Ministro Renzi, a São Petersburgo, em 2016, quando garantiu que “a expressão Guerra Fria está fora do contexto da História e da realidade”. Assim, a farsa continua. Nas relações com a Rússia, Conte (como Renzi, em 2016) apresenta-se unicamente, nos trajes de Chefe de Governo de um país da União Europeia, escondendo-se atrás da adesão da Itália à NATO, sob o comando dos Estados Unidos, considerado “aliado privilegiado”. O “aliado privilegiado” em cuja esteira a Itália está colocada. À mesa das conversações da Itália com a Rússia, continua ainda a sentar-se, como “convidado de pedra,” o “aliado privilegiado”, sob cuja alçada se coloca a Itália.

O governo Conte declara “excelente” o estado das relações com a Rússia quando, há apenas uma semana, no quartel general da NATO, acusou novamente a Rússia de violar o Tratado INF (com base nas “provas” fornecidas por Washington), alinhando-se com a decisão USA de destruir o Tratado, para instalar na Europa, novos mísseis nucleares de alcance intermédio, apontados para a Rússia. Em 3 de Julho, um dia antes da visita de Putin à Itália, foi publicada em Moscovo o decreto-lei assinado por ele, que suspende a participação russa no Tratado: uma medida preventiva antes que Washington saia definitivamente, em 2 de agosto.

O próprio Putin advertiu que, se os EUA colocarem novas armas nucleares na Europa ao redor da Rússia, esta apontará os seus mísseis para as zonas onde estiverem localizados. Assim, também previne a Itália, que se prepara para hospedar, a partir de 2020, as novas bombas nucleares B61-12 à disposição da força aérea italiana, sob comando USA. Uma semana antes da confirmação do estado “excelente” das relações com a Rússia, o governo Conte confirmou a participação da Itália na força NATO, sob o comando USA, de 30 navios de guerra, 30 batalhões e 30 esquadrões aéreos que se podem instalar ​​em 30 dias na Europa, contra Rússia, a partir de 2020.

Sempre em função anti-Rússia, navios italianos participam nos exercícios da NATO, de guerra submarina; forças mecanizadas italianas fazem parte do grupo de combate da NATO, na Letónia e a brigada blindada Ariete exercitou-se há duas semanas na Polónia, enquanto caças italianos Eurofighter Typhoon estão instalados na Roménia e na Letónia. Tudo isto confirma que a política externa e militar da Itália é decidida não em Roma, mas em Washington, apesar da “soberania” atribuída ao governo actual.

As relações econômicas com a Rússia e até com a China, assentam sobre as areias movediças da dependência italiana das decisões estratégicas de Washington. Basta recordar como, em 2014, por ordem de Washington, foi destruído o gasoduto South Stream Rússia-Itália, com prejuízos de bilhões de euros para as empresas italianas. Com o silêncio absoluto e com o consentimento do governo italiano.

Karl Marx é útil para o nosso tempo, não só para o seu

O colapso financeiro não eliminou o neoliberalismo - na verdade, incorporou sua lógica cada vez mais em nossas vidas. O geógrafo marxista David Harvey diz que a única maneira de acabar com esse sistema para sempre é mudar a forma como o combatemos.

Uma entrevista com
David Harvey

Entrevistado por
Arnau Barquer


Uma estátua do filósofo e revolucionário Karl Marx está em um parque público em 4 de maio de 2018 em Berlim, Alemanha. Sean Gallup / Getty Images

Tradução / O colapso financeiro não eliminou o neoliberalismo - na verdade, incorporou cada vez mais sua lógica em nossas vidas. Para o marxista David Harvey, a única maneira de acabar com esse sistema é mudar a forma como o combatemos.

David Harvey não é apenas uma das figuras mais citadas nas ciências sociais, mas um dos principais marxistas contemporâneos. Tendo começado sua carreira estudando a remodelação de cidades como Baltimore, seu trabalho é notável pelo foco nas revoluções constantes trazidas pelo capitalismo - a miríade de maneiras pelas quais ele reorganiza nossas vidas e os ambientes em que vivemos. Em junho, ele visitou Barcelona para divulgar suas obras. Esta entrevista a Arnau Barquer foi pulicada originalmente na revista Catarsi.

Arnau Barquer

Já faz mais de uma década desde o crash financeiro. Qual é o papel da crise no capitalismo, e qual foi, especificamente, o resultado dessa crise - acabou, ou, como dizem alguns economistas, estamos às portas de uma nova recessão?

David Harvey

Existem várias maneiras de pensar em crises. Há quem goste de pensar que as crises sinalizam o fim do capitalismo. Costumo pensar que são mais maneiras para a reorganização do capital - sua reformulação para atender novas circunstâncias, com a reconstrução de um modelo alternativo.

Frequentemente temos situações em que a economia se sai bem, mas as pessoas se saem mal. O que aconteceu em 2007-9 foi uma grande ruptura. Mas houve uma grande diferença na resposta à crise.

No Ocidente, em geral, a resposta foi austeridade. Nos disseram que isso era uma crise de endividamento excessivo e que por isso teríamos que cortar as coisas. O resultado foi o declínio dos padrões de vida da massa da população. Isso, no entanto, não afetou os ultra-ricos: a maioria dos dados que temos mostra que os 1% ou 5% mais ricos saíram da crise em situação muito melhor e provavelmente ganharam. Há uma frase, "nunca deixe uma boa crise ser desperdiçada", e os financistas e afins saíram da crise muito bem.

Mas houve outra resposta totalmente diferente - a da China, que não se envolveu em políticas de austeridade. Em vez disso, investiu maciçamente em infraestrutura, urbanização e afins. Essa expansão maciça aumentou a demanda por matérias-primas, então os países que abastecem a China - por exemplo, Chile com seu suprimento de cobre, Austrália com seu minério de ferro, Brasil com seu minério de ferro, soja e similares - logo saíram da crise. A própria China, sozinha, salvou o capitalismo global de um sério colapso. Acho que isso não é geralmente bem compreendido no Ocidente, mas a China criou mais crescimento desde 2007-8 do que a América do Norte, Europa e Japão juntos.

Todas as crises anteriores produziram algum novo modo de organização do capital. Na década de 1930, isso significou keynesianismo, intervenção e administração estatal e assim por diante; a crise dos anos 1970 trouxe soluções neoliberais. Mas desta vez, não acho que 2007-8 tenha produzido nada. As políticas resultantes foram, no mínimo, ainda mais neoliberais. Mas o problema é que o neoliberalismo perdeu sua atração e legitimidade, e agora é reforçado por meios autoritários e populistas de direita. Vemos isso com Donald Trump, cujas políticas são muito neoliberais - significam desregulamentação e redução de impostos para os ricos.

Arnau Barquer

Você mencionou Trump. Às vezes, as crises abrem possibilidades para as pessoas se organizarem. Mas nos EUA e na Europa, vimos as pessoas seguindo líderes reacionários. O que significa falar, em termos marxistas, das condições objetivas de mobilização?

David Harvey

Bem, é claro que precisamos falar das condições objetivas - por que não? E as condições objetivas também são apanhadas com um certo tipo de política. Acho que a esquerda não respondeu muito bem às transformações que vêm ocorrendo no capitalismo e corre o risco de repetir alguns dos seus erros do passado.

Nos anos 80 e 90 houve muita desindustrialização no Ocidente, em grande parte devido à mudança tecnológica, e a esquerda tentou se defender contra isso para proteger as populações tradicionais da classe trabalhadora. Mas perdeu essa batalha, perdendo muita credibilidade no processo. Agora, estamos vendo que a inteligência artificial (IA) fará com os serviços o mesmo que a automação fez com a manufatura. A esquerda corre o risco de proteger algo que vai desaparecer por razões tecnológicas.

Acho que deveríamos ser uma esquerda criativa que abrace a IA, a automação e toda a ideia de estruturas de emprego completamente novas - indo muito além de onde o capital está nesse aspecto.

Mas isso também significa uma política alternativa. A classe trabalhadora clássica não existe mais em muitos países, e a base da política da esquerda tradicional desapareceu junto com ela. Claro, não foi completamente embora, mas está seriamente comprometida.

Então, precisamos de uma nova forma de abordagem à esquerda focada no que chamaria de política anticapitalista: não simplesmente focada no local de trabalho, mas nas condições da vida cotidiana, da moradia, da provisão social, da preocupação com o meio ambiente, mudança cultural e transformação cultural.

Arnau Barquer

Você falou do potencial revolucionário dos movimentos urbanos. Acha que partidos de esquerda subestimaram isso?

David Harvey 

Há muito tempo há movimentos sociais nas cidades. Por exemplo, nos últimos vinte anos, os principais movimentos ocorreram nas cidades e se concentraram principalmente na deterioração da qualidade da vida cotidiana. Por exemplo, tivemos a revolta do Parque Gezi na Turquia e os movimentos nas cidades brasileiras em relação ao transporte e a incapacidade de investir em infraestrutura adequada para a população.

A certa altura, tivemos que reconhecer que essa era uma área de agitação e que havia muito mais levantes sobre essas questões do que no local de trabalho, embora os problemas do local de trabalho, é claro, ainda existam.

Isso colocava o problema da posição da esquerda - se haveria uma esquerda baseada nos movimentos sociais urbanos. Desde os anos 1970, tenho defendido que deveria haver. Ninguém estava me ouvindo muito naquela época, mas desde os anos 2000 têm estado.

O movimento dos inquilinos, que cresce em Barcelona tem sido muito importante, assim como o de Nova York, e há também grande agitação sobre o controle de aluguéis na Califórnia. Se você olhar para o número de cidades onde os movimentos dos inquilinos estão começando uma pressão política real, é uma loucura da esquerda dizer que são irrelevantes.

Isto é especialmente verdade, dado que o problema que estes movimentos estão enfrentando é o grande capital - por exemplo, a Blackstone, agora o maior senhorio residencial do mundo. Há uma coalizão anti-Blackstone, porque ela domina na Califórnia, está causando problemas em Barcelona, e também em Mumbai, Xangai e em qualquer outro lugar. Então, há um movimento anticapitalista, que está sendo construído em torno da questão da moradia. Estou animado com as possibilidades que isso tem. Um movimento internacional tentando expropriar as propriedades da Blackstone seria muito interessante.

Arnau Barquer

Em seu livro, você diz que chegou a Karl Marx relativamente tarde. O que o levou a optar por esta escola de pensamento?

David Harvey

Estava trabalhando em urbanização na cidade de Baltimore quando tinha trinta e cinco anos de idade. Estava envolvido em pesquisas sobre o mercado imobiliário e o que motivava as revoltas nas cidades dos EUA no final da década de 1960. Nessa pesquisa usei métodos socio-científicos tradicionais, que não pareciam funcionar bem, então procurei outra maneira de formular o problema. Disse a alguns alunos de pós-graduação que talvez devêssemos ler Marx. Então, comecei a ler Marx e achei-o cada vez mais relevante.

De certo modo, isso era mais do que uma escolha política. Mas depois que citei Marx algumas vezes favoravelmente, as pessoas logo disseram que eu era marxista. Não sabia o que isso significava, mas depois de um tempo desisti de negar e disse: "Tudo bem, se sou marxista, sou marxista, embora não saiba o que isso signifique" - e ainda não sei. Ele claramente tem uma mensagem política, mas como uma crítica ao capital.

Acho que Marx é mais relevante hoje do que nunca. Quando Marx estava escrevendo, o capital não era dominante no mundo. Foi dominante na Grã-Bretanha, na Europa Ocidental e no leste dos Estados Unidos, mas não era dominante na China ou na Índia. Agora é dominante em todo lugar. Então, acho que a análise de Marx sobre o que é capital e suas contradições é agora mais relevante do que nunca.

Arnau Barquer

As gerações de ativistas mais jovens podem estar mais interessadas em ver Marx através do prisma da ação política do que em termos acadêmicos. Você poderia comentar sobre o efeito da crise na redescoberta de Marx, e que perspectiva específica podemos ter sobre Marx, lendo-o através do prisma de uma disciplina como a geografia?

David Harvey

Marx disse que nosso trabalho não é entender o mundo, mas mudá-lo. Mas não acho que sua prática sugira que não estava interessado em entender e explicar o mundo. Por que escreveu O Capital? Porque pensou que para mudar o mundo, primeiro você tem que entendê-lo corretamente. Uma coisa importante é tentar recuperar o entendimento de Marx de uma forma adequada às circunstâncias atuais, para que as pessoas tenham uma ideia melhor daquilo contra o que estão lutando.

Meu interesse em geografia e urbanização me levou a ler Marx de uma maneira diferente do que muitas outras pessoas. Assim, em "Os limites do capital", gasto muito tempo falando sobre finanças - sobre o que, estranhamente, um monte de gente falava na década de 1970 - bem como a maneira como a terra é usada. Minha leitura e apresentação de Marx tem sido sempre relacionada à criação de um entendimento dele que é relevante para o desenvolvimento geográfico desigual e a urbanização. Isso me leva a enfatizar certas coisas em Marx que outras pessoas tendem a ignorar. O fato de um livro que saiu em 1982 ainda ser republicado sugere que continua relevante para as pessoas que olham para a moradia e questões ligadas de uma forma diferente de que outras abordagens marxistas.

Ao ensinar Marx ao longo dos anos, passei por ondas de pessoas querendo ler Marx ou não, depois voltando novamente. Após a crise de 2007-8, havia, sem dúvida, um interesse maior em Marx. Agora parece que esse interesse desapareceu um pouco, uma vez que a maioria das pessoas são obcecadas em tentar explicar fenômenos como Donald Trump e coisas tipo fascista como Orbán, Erdogan, Bolsonaro, e todo o resto. Mas, é claro, se há um soluço real na economia global - e há muitos sinais nervosos - voltaremos a falar mais sobre economia política.

Arnau Barquer

Aqui em Barcelona, um partido de esquerda (Barcelona en Comú) liderou o Conselho da cidade ao longo dos últimos cinco anos, e há também uma teia de movimentos sociais. Mas isso não foi suficiente para cumprir sua promessa inicial. Se o seu trabalho enfatiza a importância do espaço local, essa experiência no leva a questionar o valor do municipalismo?

David Harvey

Uma das perguntas com que estamos apenas começando a lidar é o que os municípios podem realmente fazer politicamente. Temos algumas administrações municipais radicais nos EUA. Por exemplo, há Seattle; Los Angeles também é bastante progressista; e há também uma ala progressista em Nova York. Acho que, dada a mudança de interesse, dos problemas do local de trabalho para os problemas da vida cotidiana, na cidade e moradia, a esquerda tem que ter uma nova política centrada em tudo isso.

Temos pouca experiência de quanto as administrações locais podem fazer, dado os recursos limitados que têm. Por exemplo, em Nova York, o prefeito está muito restrito pelo fato de que não pode iniciar qualquer novo regime de tributação - isso tem que ser feito pelo Estado. A administração estatal é democrata (do Partido Democrata), mas não gosta do prefeito, por isso há um conflito entre estes dois níveis de governo, e em Barcelona, também, você tem o governo regional em desacordo com o governo da cidade, com cada um tentando minar o outro.

A pergunta que você faz é importante. Mas o que me interessa e a alguns dos meus colegas é: se um governo local de esquerda chega ao poder, existe um corpo de trabalho e pensar à esquerda que seria útil para ele, em termos do que poderia razoavelmente tentar fazer, dada a natureza de seus poderes? Os poderes dos governos locais são circunscritos. Na Grã-Bretanha, por exemplo, eles quase não têm capacidade de iniciar qualquer coisa, exceto manter o controle da situação do lixo. Lá, gostaria de ver muito mais poder transferidos do governo central para os municípios, e espero ver o mesmo em Barcelona.

Nós estamos nos estágios adiantados e o municipalismo pode ser parte de um projeto socialista. A resposta à sua pergunta, portanto, é: ainda não sabemos, mas também não temos pessoas olhando para isso, por isso cabe a pessoas como eu organizar acadêmicos para construir um pensamento que indique o que poderia ser tentado.

Arnau Barquer 

Mas para ter um problema como moradia, por exemplo, quais seriam os principais problemas políticos que precisam ser enfrentados?

David Harvey 

Acho que a moradia é um direito e deve ser pensada como tal. A legislação nos Estados Unidos, até 1949, dizia que cada cidadão teria o direito a um repouso e a um ambiente digno. Agora, se o tratamos como um direito, organizaremos a sociedade de tal forma que seja respeitado.

O problema é que ao longo do tempo nos foi dito que a única maneira de cumprir isso é através das forças de mercado. Mas se as forças do mercado fazem um trabalho fantástico de entregar às classes superiores, não o fazem demasiado bem em relação às classes médias, e menos ainda a qualquer um em situação inferior.

Deixar as coisas para as forças do mercado é um desastre, do ponto de vista do respeito a um ambiente de vida decente para todos os cidadãos, independente da renda, raça, sexo, e assim por diante. Você pode fazer coisas como controles de aluguel, embora a longo prazo não acho que seja uma solução, na medida em que ainda há o mercado.

Deveríamos realmente tentar abolir o papel do mercado na provisão de moradias. Historicamente isso foi feito com a criação de habitação social, onde as pessoas tinham direitos residenciais fora do mercado, o direito a um lar, que não podiam comprar nem vender. Sob o neoliberalismo, nos dizem que isso é ineficiente. Mas agora sabemos o que acontece quando seguimos as regras neoliberais.

Arnau Barquer

Poderia o mercado ter algum papel em uma economia socialista?

David Harvey

Não tenho nenhum problema com haver um mercado em roupa de segunda mão. O grande problema é quando o poder de mercado é desigual. Marx tomou a questão com a massa do poder e quem controla a massa.

Se você olhar para o lugar da Blackstone no mercado imobiliário, ela controla muito da massa. Muitas pessoas falam sobre a taxa de lucro, mas é o controle da massa de lucro que realmente decide quem são os jogadores importantes no sistema capitalista.

Na medida em que o grande capital é o que Marx chama de massas monstruosas de capital, os jogadores importantes podem usar essas massas monstruosas para a política corrupta, para dominar a mídia, para comprar eleições, e assim por diante. Para obter uma democracia socialista, temos que demolir essas massas de poder. Isso também impõe a quebra de gigantes como o Facebook e o Google.

Arnau Barquer

Na Catalunha há um grande movimento social para a autodeterminação. Mas em tudo isso, uma pergunta não pode ser evitada: o que a soberania realmente significa?

David Harvey

A questão da soberania é: o estado financia o controle, ou o financiamento controla o estado? Na Grécia, por exemplo, este último é claramente o caso - lá, a soberania estatal é bastante irrelevante, uma parte menor da relação de poder.

Curiosamente, isso é mesmo que ocorre nos EUA. Quando Bill Clinton chegou ao poder com a eleição 1992, tinha um programa econômico. Seu conselheiro político Robert Rubin - que veio da Goldman Sachs, e mais tarde tornou-se secretário do Tesouro - disse, "você não pode fazer isso." Clinton respondeu, "por que não?" E Rubin alegou, "porque os detentores de escravos não o deixam." Clinton supostamente disse, "você quer dizer toda a minha política econômica e minhas chances de re-eleição dependem de um bando de comerciantes de títulos de merda?" E Rubin disse que sim. Então Clinton implementou medidas neoliberais como o NAFTA, e não entregou o conjunto de medidas de bem-estar o que prometeu - por exemplo, cuidados de saúde gratuitos.

Acho que estamos numa situação em que são os cambistas que governam, não os políticos. Então, para voltar à questão da soberania, quando você imagina que pode se tornar autônomo de outras jurisdições, ainda tem o problema de como vai lidar com o poder dos detentores de escravos e o poder do capital financeiro. Não tenho tanta certeza de que haja uma autonomia real apenas ao se tornar politicamente independente.

Arnau Barquer

Olhando para os Estados Unidos, o que acha da ascensão do socialismo democrático, e o que acha que significa para os movimentos políticos em outros lugares?

David Harvey

Até agora tivemos um partido - o partido de Wall Street - com asas democratas e republicanas. Hillary Clinton era uma criatura de Wall Street, e um dos erros cruciais que ela cometeu antes da eleição foi ir e discursar para Goldman Sachs por 250 000 dólares. Escrevi para Goldman Sachs e disse que falaria com eles por 200 000 dólares, mas parece que não queriam me ouvir. Ela aceitou muito dinheiro, e todos sabiam disso. O líder democrata no Senado, Chuck Schumer, levantou mais dinheiro de Wall Street do que qualquer outra pessoa. O Partido Democrata é o partido de Wall Street e tem sido desde então que perdeu a sua base nos sindicatos na década de 1980.

Dentro do Partido Democrata há um movimento para dizer que devemos tentar escapar deste emaranhamento com Wall Street - Bernie Sanders diz que é preciso uma revolução política. Parece que cerca de dois terços do partido acha que precisa do apoio de Wall Street e um terço não. Mas há um reconhecimento crescente de que Wall Street é, de fato, o problema. No nível popular, seria interessante ver o quão longe isso vai.

A mobilização das pessoas politicamente vai depender muito da radicalização da juventude. No contexto pós-guerra fria, eles não entendem toda essa conversa anticomunista sobre como o socialismo é terrível. A ala direita está tentando repetir isso, mas quando os jovens ouvem que socialismo significa a abolição da dívida estudantil e cuidados de saúde gratuitos, provavelmente pensam que soa bem: "se é isso que é socialismo, então vou ser socialista."

Acho que é o nível em que estamos. Não há dúvida de que o advento de Donald Trump despertou um monte de gente para a ação política, como tem a ofensiva contra o aborto e os direitos das mulheres. Não tenho certeza se estamos em um ponto de viragem, mas há certamente um empurrão. Acho que as próximas eleições vão ver um empurrão para a esquerda, mas o partido de Wall Street ainda estará lá.


Sobre o autor

David Harvey é professor emérito de antropologia e geografia no Graduate Center da City University of New York. Seu último livro é The Ways of the World.

Sobre o entrevistador

Arnau Barquer é editor da revista Catarsi.

6 de julho de 2019

Temos um problema de demanda

Restrição fiscal sem compensação do lado monetário tende a prejudicar a retomada

Nelson Barbosa

Folha de S.Paulo

Nelson Barbosa Professor da FGV e da UnB, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento (2015-2016). É doutor em economia pela New School for Social Research.

As projeções de crescimento da economia brasileira já caíram para menos de 1% neste ano. Caso isso se confirme, será o terceiro ano de estagnação do PIB per capita após a grande recessão de 2014-16.

Por mais que alguns colegas insistam em culpar os governos do PT pelo lento crescimento desde 2017, essa desculpa está ficando cada vez mais esfarrapada com o passar do tempo.

Sem ignorar que os eventos de 2014-16 ainda têm influência sobre a economia (vide o colapso da construção civil pós-Lava Jato, o apagão de canetas na infraestrutura e a fragilidade política do Executivo no Congresso), cabe perguntar: qual foi a influência da política econômica adotada desde 2017?

Uma análise objetiva dos fatos revela que parte da recente estagnação decorre de decisões fiscais e monetárias.

Começando pelo fiscal, no primeiro semestre de 2017, quando a economia mal havia saído da recessão, o governo Temer fez grande contingenciamento de gastos, e isso prejudicou a recuperação da renda e do emprego (o erro de Meirelles).

Naquele momento, alertei para o risco de fazer consolidação fiscal tão cedo, pois a redução do investimento público prejudicaria a recuperação do crescimento devido ao seu impacto negativo na construção civil. Infelizmente meu alerta se confirmou.

Reconheço que o governo Temer tentou reverter seu erro inicial, liberando recursos do FGTS para o consumo ainda em 2017 e relaxando um pouco a política fiscal em 2018. Porém, devido à mudança do cenário político e internacional, isso se mostrou insuficiente para garantir a recuperação da economia.

Hoje voltamos à política fiscal medieval de sangrar o paciente para ver se ele melhora. O governo Bolsonaro fez novo contingenciamento, e o investimento público deve cair para seu nível mais baixo nos últimos 16 anos, quando medido em proporção do PIB.

A lógica da atual equipe econômica é a mesma do início de 2017: a redução do gasto público abrirá espaço para a redução da taxa de juro, e isso, ao lado da maior confiança decorrente da melhora das finanças públicas, aumentará o consumo e investimento privados. Essa hipótese —a “contração fiscal expansionista”— é possível, mas improvável.

O que dizem os números? Desde 2017 tivemos redução do gasto discricionário do governo, queda da inflação e corte da taxa de juros como previsto pelos defensores da sangria.

A taxa básica de juro real caiu de 9% para 3% ao ano, e mesmo assim a economia não se recuperou. A conclusão inevitável é que a Selic poderia e deveria ter caído bem mais se o BC não tivesse inventado riscos inexistentes para a inflação em 2017 (o erro de Goldfajn).

O fracasso da política fiscal e monetária em recuperar a renda desde 2017 não é surpresa para quem acompanha o assunto. Em um contexto de alta capacidade ociosa e elevado desemprego, o principal problema macroeconômico é a falta de demanda, não a restrição de oferta.

Nesse quadro, adotar política fiscal restritiva sem compensação adequada do lado monetário tende a prejudicar, em vez de ajudar a recuperação do crescimento.

E apontar que o problema de hoje é a demanda não significa que não teremos problemas de oferta mais à frente. O governo pode atuar sobre a demanda no curto prazo ao mesmo tempo que realiza reformas para melhorar a produtividade da economia no longo prazo.

Existem mais de duas escolhas no menu de política econômica, e até o governo Bolsonaro pode atuar sobre a demanda e a oferta ao mesmo tempo. Porém, antes disso será preciso abandonar o atual viés ideológico do Ministério da Economia.

Sobre o autor

Professor da FGV e da UnB, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento (2015-2016). É doutor em economia pela New School for Social Research.

4 de julho de 2019

Perdas e danos

Mercosul-UE pode ser a pá de cal para o que havia sobrado da indústria brasileira

Laura Carvalho

Folha de S.Paulo

Desde 1999, Mercosul e União Europeia vinham negociando um acordo de livre-comércio entre os blocos. Reuters

Embora muitos detalhes do acordo comercial firmado por Mercosul e UE (União Europeia) na sexta-feira (28) ainda não tenham sido divulgados, seus efeitos de curto e longo prazo sobre o bem-estar da população, os diferentes setores produtivos nas duas regiões e o ambiente já vêm sendo objeto de
discussão
nos países envolvidos.

Em linhas gerais, o acordo vai liberalizar mais de 90% do comércio de bens entre os blocos regionais em um prazo de dez anos para a maioria dos produtos. Um relatório de avaliação de impacto publicado pela Comissão Europeia em 2011, que simulou um modelo de equilíbrio geral computacional baseado nos termos das negociações propostos à época, sugere que o acordo deveria preocupar, de um lado, agricultores europeus, e, de outro, o que restou de nossos industriais.

No caso da agricultura, o resultado obtido pelo relatório é de perda significativa para os produtores da UE e ganhos significativos para os produtores do Mercosul em todos os cenários. Em particular, as
simulações indicam forte expansão da exportação de carne —bovina, sobretudo—, de óleos vegetais e gordura e de frutas e verduras do Mercosul.

No entanto, a perda de € 2 bilhões a € 3 bilhões no setor agrícola da União Europeia (aos preços da época) seria mais do que compensada pela expansão de mais de € 9 bilhões na produção da indústria de transformação, expandindo assim o PIB do bloco como um todo.

No caso do Mercosul, a perda para os setores industriais seria de € 1,4 bilhão, ante uma expansão de € 1,6 bilhão a € 2,4 bilhões na produção agrícola, o que também geraria um ganho líquido para nossa região —menor do que para a UE em termos absolutos, mas maior em relação ao nível inicial do PIB.

Esses números dependem dos pressupostos adotados no modelo, mas o que sabemos é que o Mercosul aceitou remover tarifas em setores-chave de nossa já combalida indústria, como automóveis, autopeças, químicos e fármacos. Assim, ainda que os efeitos de curto prazo possam ser positivos para os dois blocos, os benefícios de longo prazo para o Mercosul são menos evidentes.

É verdade que boa parte das cadeias industriais brasileiras já foi desmantelada desde a abertura comercial dos anos 1990 e, a partir de 2009, com a entrada mais massiva de produtos chineses. Mas o novo acordo pode ser a pá de cal para o que havia sobrado da indústria brasileira do século 20 e, o que é pior, para as pretensões de desenvolver novos setores de alto valor agregado e maior conteúdo tecnológico no século 21.

Na literatura econômica, as evidências dos efeitos de longo prazo da abertura comercial sobre a economia dos países são mistas, mas a indústria e os serviços de mais alta tecnologia ainda aparecem como cruciais para o crescimento da produtividade e a qualidade dos empregos.

Qual será o impacto desse acordo sobre o crescimento, o emprego e as desigualdades de renda no longo prazo? Tal avaliação exige a realização de estudos aprofundados.

Isso sem contar os danos ambientais que um modelo de desenvolvimento ainda mais fundado na exportação de carne e no agronegócio pode causar.

Mesmo que o acordo consiga impor controle e fiscalização mais rigorosos aos nossos produtores, o agronegócio foi responsável por quase 70% do desmatamento na América Latina entre 2000 e 2010, e é difícil imaginar uma reversão nesse quadro no atual cenário político.

Por isso, enquanto nossas elites celebram a notícia dos vinhos e dos cosméticos europeus mais baratos, ambientalistas ao redor do mundo já organizam protestos para evitar a aprovação do acordo no Parlamento Europeu e no Congresso dos países implicados.

Sobre a autora
Professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, autora de "Valsa Brasileira: do Boom ao Caos Econômico".

O partido do medo

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