17 de fevereiro de 2018

O Exército da UE

Will Podmore

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / O atual presidente da Comissão Europeia o quer. O mesmo acontecia com os seus antecessores. E agora toda a UE está a avançar no sentido da criação de um Exército europeu unificado, juntamente com um sistema unificado de investigação em defesa.

Desde que votamos pela saída [Brexit], o aparelho da UE tem se movimentado rapidamente para a instalação de um exército UE com um único comando central, sem qualquer controle nacional ou democrático. Tendo em conta as passadas agressões da UE – veja-se Kosovo, Ucrânia, e a belicosa atitude contra a Rússia – trata-se de uma perigosa evolução. Proporcionaria à UE, atuando como um bloco, as mãos livres para fazer soar os tambores da guerra onde quer que escolhesse em qualquer parte do mundo.

Também os nossos governos atuam agressivamente, está claro. Mas estão sujeitos a controle por parte do povo, quando optamos por o fazer. O Brexit deveria trazer consigo uma consciencialização acrescida e o exercício do nosso poder de controlar.

Antes do referendo, os apoiadores da UE vieram nos dizer que a afirmação por parte do lado favorável à saída de que existiam movimentações no sentido da unificação das forças armadas europeias “não passava de fantasia,” como a colunista do The Guardian Jennifer Rankin.

Escreveu em 27 de maio de 2016. O Lord Ashdown disse que a ideia de um exército UE era um “disparate”. No decurso da campanha, a Comissão Europeia nada disse sobre questões de defesa. Obedecia a instruções estritas no sentido nada fazer nem dizer que pudesse ser favorável ao voto pela saída. Uma vez consumada a votação, a UE mostrou-nos a sua verdadeira intenção.

A ministra da Defesa alemã, Ursula von der Leyen, aproveitou a oportunidade para deixar as coisas bem claras em setembro de 2016, durante uma visita à Lituânia – que neste momento acolhe um grupo de combate alemão com cerca de 1.000 efetivos. “É tempo de avançarmos para uma união europeia de defesa, que basicamente é um ‘Schengen de defesa’”, disse.

Um mês mais tarde a Comissão Europeia revelou o seu Plano de Ação de Defesa UE. “Uma defesa europeia mais forte requer por parte dos Estados Membros a aquisição, desenvolvimento e reserva conjunta de um largo espectro de disponibilidades em terra, no ar, no espaço e no mar.”

A UE tem de há muito delineado um trajeto no sentido da união de defesa e criou uma 'serie de instrumentos com esse objetivo: um Plano de Desenvolvimento de Segurança e Defesa, a Agência de Defesa Europeia, um Plano de Ação de Defesa, o Programa de Desenvolvimento de Indústria de Defesa, um Programa Europeu de Investigação em Defesa... e a lista prossegue.

Tudo isto é empreendido para expandir a “soberania da UE” – nas palavras do Presidente Juncker – em termos de defesa, o que constitui a ambição da UE desde o início. Problemas políticos, o menor dos quais não será certamente a recusa por parte da opinião pública britânica em aceitar a absorção das forças armadas britânicas num EuroExército, fizeram com que o processo se arrastasse por décadas. O Brexit veio clarificar essa objeção.

O nosso voto pela saída da UE constituiu um fator chave para o desencadear das iniciativas UE. Quatro dias depois, os ministros das Relações Exteriores francês e alemão pressionaram no sentido de uma União de Segurança Europeia. Os Planos vinham sempre embrulhados numa nuvem de desmentidos, mas o objetivo de longo prazo era claro, como Romano Prodi, então Presidente da Comissão Europeia, disse em 2000: “Quando falava de um exército europeu, não estava a brincar. Se não querem chamar-lhe exército Europeu, não lhe chamem exército Europeu. Podem chamar-lhe ‘Margarida’, podem chamar-lhe ‘Mariana’, podem chamar-lhe o que quiserem.”

A UE planeja integrar as tropas dos estados membros em unidades conjuntas da UE através do desencadeamento de uma coisa chamada Cooperação Estruturada Permanente (Permanent Structured Cooperation, ou PESCO). Em junho de 2017 o Conselho Europeu apelou a que ela fosse “inclusiva e ambiciosa”. A Comissão é franca acerca dos seus objetivos: “PESCO é ao mesmo tempo um enquadramento permanente para uma cooperação mais próxima e um processo estruturado no sentido de aprofundar gradualmente a cooperação de defesa no interior do quadro europeu.”

A Agência de Defesa Europeia, um braço da Comissão Europeia, vem pressionando no sentido de “um programa Europeu de investigação de defesa a iniciar-se quando termine, em 2020, o atual programa de financiamento”. Está a falar de um orçamento de alguns € 500 milhões o qual “... colocaria a UE entre os 4 maiores investidores em investigação & tecnologia de defesa na Europa” – omitindo que em resultado dessa medida muitos dos estados membros seriam forçados a abandonar a sua própria investigação em defesa.

O que é que tudo isto tem a ver conosco, uma vez que decidimos sair da UE? Para começar, a UE está desesperada por controlar os nossos ativos militares. A Grã-Bretanha representa um quinto da despesa total em defesa da UE. A UE quer que nós paguemos por uma associação próxima com a defesa UE.

A despesa da Grã-Bretanha em investigação de defesa é de cerca de £1.8 bilhões. Somos a principal potência europeia em investigação de defesa, com o mais alto nível de exportações relacionadas com investigação de defesa. Isto não é devido à Agência Europeia de Defesa, mas sim à nossa longa história de investigação em defesa, despesa militar e excelência científica. A ADE tem atualmente um orçamento de apenas £27 milhões, dos quais cabe à Grã-Bretanha a segunda maior fatia, mais de um décimo dos seu orçamento.

O Parlamento Europeu, no seu relatório de novembro sobre a Defesa da União, disse que a Política Comum de Segurança e Defesa da UE “deveria conduzir, a seu tempo, ao estabelecimento das Forças Armadas Europeias”. Vários corpos estão a ser postos em ação para tornar isto em realidade. O Serviço de Ação Exterior da UE produziu também o seu próprio Plano de Desenvolvimento de Segurança e Defesa, com o objetivo de associar as capacidades de defesa da UE com a sua política externa.

A UE constata a ligação próxima entre capacidade de defesa e política de defesa – e deseja tornar essa ligação ainda mais próxima. O Plano Europeu de Acção de Defesa pretende tornar o Exército europeu realidade com um objectivo de €500 milhões para despesa em I&D militar, um mercado único para a defesa, racionalização da indústria de defesa, capacidades conjuntas detidas ao nível UE, e compromisso UE em segurança de abastecimento (o que implica intervenção no exterior).

O governo May aprovou estes dois planos em reuniões do Conselho da Europa nos finais de 2016. A Comissão Europeia disse ao governo que, uma vez que “as decisões relativas à União de Defesa da UE são tomadas por unanimidade”, se espera que a Grã-Bretanha “desempenhe o seu papel por inteiro enquanto permanecer como membro”.

O Foreign Office, na sua Revista de Estratégia de Defesa e Segurança de Dezembro de 2016, propôs “a manutenção do envolvimento na Política Comum de Segurança e Defesa da UE”. O ministro dos estrangeiros Alan Duncan disse a deputados no Comité de Escrutínio Europeu que existia “apoio por parte de outros estados UE no sentido da participação da Grã-Bretanha na política de defesa da UE depois do Brexit” e que não desejava “embaraçar tal cooperação futura”.

Mas tem havido por cá profunda oposição, e na reunião do Conselho da Europa de 13 de Novembro o governo realizou um dramático recuo em relação ao seu anterior consentimento aos esquemas militares UE ao recusar integrar o acordo de união militar UE, o PESCO.

O novo Fundo de Defesa UE será apoiado por milhares de milhões de euros do Banco Europeu de Investimento. A Grã-Bretanha é o maior accionista conjunto do banco, portanto a UE pretende oferecer o nosso próprio dinheiro a empresas britânicas para elas se associarem a projectos encomendados pela UE, dando a essas firmas um incentivo financeiro para solicitarem a participação no “mercado único de defesa” da UE.

O impulso UE pela integração tem um problema intrínseco. A participação em alguma parte da cooperação industrial, tecnológica ou estratégica envolve ficar vinculado ao planeamento militar para uma defesa comum UE, e comprometido a contribuir para fundos de defesa UE.

A integração militar UE, uma única política externa e de segurança, juntamente com um tesouro UE com um único orçamento e uma única moeda em toda a UE, tudo isso tem o significado de um único estado europeu.

Acontece que nós decidimos sair da UE, devemos permanecer fora dos seus esquemas de defesa, e certamente que não deveríamos comprometer-nos com eles como forma de adoçar as negociações.

No interesse da paz, devemos manter o controle exclusivo das nossas forças armadas, e redireciona-las não para a agressão mas para a defesa. Com as nossas zonas pesqueiras para proteger e deparando com novos inimigos no mundo porque decidimos marcar a nossa independência, não lhes falta trabalho de defesa.

Sobre o autor

Will Podmore é livreiro e escritor e vive em Londres. É o autor de The EU Bad for Britain – a Trade Union View, British Foreign Policy Since 1870 e The War Against the Working Class.

8 de fevereiro de 2018

Fazer a América grande através da exploração, servidão e abuso

James Petras


Tradução / A denúncia pública por milhares de mulheres e alguns homens de que foram vítimas de abuso sexual por parte dos seus patrões levanta questões fundamentais acerca das relações sociais no capitalismo americano.

As ofensas morais são essencialmente crimes econômicos e sociais. O abuso sexual é só um aspecto de dinâmicas sociais que facilitam o aumento da desigualdade e concentração de riqueza, as quais definem as práticas e valores do sistema político e econômico americano.

Os bilionários e mega-milionários são eles próprios produtos da exploração intensa de dezenas de milhões de trabalhadores assalariados isolados e não organizados. A exploração capitalista está baseada numa hierarquia rígida com suas prerrogativas privadas, as quais permitem aos oligarcas exigirem seus privilégios feudais, suas predações sexuais senhoriais.

O capitalismo estadunidense prospera e exige poder ilimitado e a capacidade de ter o tesouro público a pagar pela sua pilhagem desimpedida da terra, do trabalho, dos sistemas de transporte e do desenvolvimento tecnológico. O poder capitalista, nos Estados Unidos, não tem contrapartidas; há poucas, se é que algumas, forças para dar qualquer equilíbrio.

Hoje, 93% dos trabalhadores do setor privado dos EUA não têm representação organizada. Além disso, muitos dos 7% que estão em sindicatos são controlados e explorados por responsáveis sindicais corruptos – em aliança com o patronato.

Esta concentração de poder produz o contínuo aprofundamento das desigualdades entre o mundo dos bilionários e os milhões de trabalhadores de baixos salários.

As tão celebradas inovações tecnológicas têm sido subsidiadas pelo estado e suas instituições educacionais e de investigação. Embora estas sejam financiadas pelos contribuintes, os cidadãos-trabalhadores são marginalizados pelas mudanças tecnológicas, como a robótica, que eles originalmente financiaram. Inovações de alta tecnologia florescem porque elas concentram poder, lucros e privilégio privado.

A matriz hierárquica de poder e exploração levou à polarização das taxas de mortalidade e dos códigos morais. Para os trabalhadores pobres, a ausência de cuidados de saúde competentes levou à utilização maciça e ao abuso da prescrição de opiáceos e outras drogas viciantes. Para a classe alta, levou ao flagrante abuso físico e psicológico de empregados vulneráveis, especialmente, mas não exclusivamente, mulheres trabalhadoras jovens. Os prestigiosos media da burguesia obscurecem a polarização de classe com a constante referência ao que denominam "nossos valores democráticos partilhados". 

A generalizada e crescente vulnerabilidade de trabalhadores de ambos os sexos coincide com a incorporação das mais recentes inovações tecnológicas na produção, distribuição e promoção. Isto inclui avanços electrónicos e digitais, inteligência artificial, robótica e vigilância extensiva sobre trabalhadores, os quais incorporam altos lucros para os investidores e longas horas de degradante trabalho monótono para os que manufacturam e transportam os "produtos".

A proliferação da nova tecnologia tem crescido em relação directa com a degradação do trabalho e a marginalização e banalização de trabalhadores. A Amazon e Walmart aproximam-se dos triliões de dólares de receitas vindos do consumo em massa, ainda que com a aceleração chaplinesca da corrida de humanos robotizados para atenderem noite e dia à entrega de encomendas. A indústria do entretenimento distrai a população transversalmente às linhas de classe com ofertas cada vez mais vulgares e violentas, ao passo que os barões do cinema entretêm-se com jovens trabalhadoras – as quais são despersonalizadas e mesmo violadas.

A imoralidade mais chocante revela-se por vezes e é condenada, enquanto as vítimas são temporariamente celebradas pela sua coragem em protestar. Os piores predadores pedem desculpa, desistem dos seus iates e mansões e são substituídos por novas encarnações com os mesmos poderes e as mesmas estruturas em vigor que facilitaram o abuso. Políticos correm a abraçar as vítimas numa espécie de "Síndrome de Munchausen por Procuração" dos políticos e da mídia quando alguém considera o seu próprio papel como facilitador desta desumanização.

O problema não é meramente de canalhas individuais corruptos e pervertidos: É a hierarquia da desigualdade que produz e reproduz uma oferta infindável de trabalhadores vulneráveis para explorar e abusar. 

As formas mais avançadas de entretenimento vicejam num ambiente de absoluta impunidade no qual a revelação ocasional de abuso ou corrupção é ocultada atrás de um pagamento monetário. A coragem de uma vítima individual capaz de atrair atenção pública é um passo em frente, mas terá maior significado se for organizada e ligada a um desafio maciço ao poder da indústria do entretenimento burguês e ao sistema de exploração de alta tecnologia. O abuso sexual de um indivíduo no lugar de trabalho é apenas parte de uma cadeia que começa com a exploração dos trabalhadores em geral e só pode ser travada através da sua organização colectiva.

Pode alguém dizer com uma cara séria dizer que os EUA permanecem uma nação de cidadãos livres e autônomos? A servidão e a degradação moral são o resultado de uma classe trabalhadora atomizada e impotente que pode [apenas] mudar de um patrão para outro ou de um presidente vulgar para um moralista hipócrita. Esperamos que as denúncias iniciem algo, mas sem organizações com consciência de classe não sabemos o que surgirá.

5 de fevereiro de 2018

A OTAN e as armas nucleares não são temas eleitorais

Manlio Dinucci

Il Manifesto

Tradução / Governo, que no período eleitoral continua responsável pela “resolução dos assuntos atuais”, está prestes a assumir outros compromissos vinculativos na OTAN em nome da Itália.

Serão oficializados no Conselho do Atlântico Norte, que acontece de 14 a 15 de fevereiro, em Bruxelas, a nível dos Ministros da Defesa (para a Itália, Roberta Pinotti). 

A agenda ainda não foi anunciada. No entanto, já está escrita na “National Defense Strategy 2018”, que o Secretário de Defesa dos EUA, Jim Mattis, lançou em 19 de janeiro. 

Ao contrário dos anteriores, este ano o relatório do Pentágono é altamente secreto. Foi publicado apenas um resumo que, no entanto, é o suficiente para nos fazer compreender o que se prepara na Europa. 

Acusando a Rússia de “violar as fronteiras das nações vizinhas e exercer o poder de veto sobre as decisões dos seus vizinhos”, o relatório afirma: “O caminho mais seguro para evitar a guerra é estar preparado para ganhá-la". Pede, portanto, aos aliados europeus que “mantenham o compromisso de aumentar as despesas para fortalecer a OTAN”. 

A Itália já se comprometeu com a OTAN a aumentar as despesas militares dos atuais cerca de 70 milhões de euros/dia para cerca de 100 milhões de euros/dia.

No entanto, praticamente ninguém se pronuncia sobre este assunto no debate eleitoral.

Como, também, ninguém refere o contingente italiano radicado na Letónia perto do território russo, nem os caças italianos Eurofighter Typhoon, estabelecidos em 10 de Janeiro, na Estónia, a dez minutos de vôo de São Petersburgo, com o pretexto de proteger os países bálticos da “agressão russa”.

Mantém-se o silêncio sobre o facto de que a Itália assumiu, em 10 de Janeiro, o comando da componente terrestre da NATO Response Force, que pode ser lançada para qualquer parte do mundo “subordinada ao Comandante Supremo das Forças Aliadas na Europa”, sempre nomeado pelo Presidente dos Estados Unidos.

Ignorada a notícia de que a Marinha Italiana recebeu, em 26 de Janeiro, o primeiro caça F-35B de descolagem curta e aterragem vertical, cujo pessoal será treinado na base dos Marines de Beaufort, na Carolina do Sul.

Isto e muito mais está omitido no debate eleitoral. O debate concentra-se nas implicações económicas da adesão da Itália à União Europeia, mas ignora as inferências políticas e militares e, consequentemente, as consequências económicas, da adesão da Itália à NATO sob o comando dos EUA, a que pertencem (após Brexit ) 21 dos 27 estados da UE.

Neste contexto, não é levantada a questão das novas bombas nucleares B61-12 que, dentro de dois anos, o Pentágono começará a estabelecer na Itália, em vez da actual B-61, empurrando o nosso país para a primeira fila, no confronto nuclear cada vez mais perigoso com Rússia.

Para quebrar a capa de silêncio sobre essas questões fundamentais, devemos pedir aos candidatos e candidatas às eleições políticas (como proposto pela Comissão No Guerra No NATO) duas questões precisas nas reuniões públicas, nas redes sociais e nas transmissões de rádio e de televisão: "É ou não é, a favor da saída da Itália da NATO? É partidário da remoção imediata das armas nucleares americanas da Itália? Responda Sim ou Não, esclarecendo, eventualmente, o motivo da sua escolha ».

Aos 243 deputados (entre os quais se destaca o candidato a Primeiro Ministro, Luigi Di Maio), signatários do compromisso ICAN destinado a fazer com que a Itália adira ao Tratado da ONU sobre a proibição de armas nucleares, devemos fazer uma terceira pergunta: "De acordo com o seu compromisso, será que na próxima legislatura, defenderá a retirada imediata das bombas nucleares americanas B-61 da Itália, que já violam o Tratado de Não Proliferação, e a não instalação das bombas B61-12 e de outras armas nucleares?".

4 de fevereiro de 2018

O mito da Bitcoin como moeda

Prabir Purkayastha

Peoples Democracy

Tradução / A criptomoeda Bitcoin viu o seu preço drasticamente recortado ao longo dos últimos 12 meses, tornando-a um dos ativos mais voláteis. Se ela de algum modo pode ser considerada uma divisa – um símbolo (token) de moeda que pode ser trocado por outros bens – é outra questão. Aos preços atuais em dólares cada bitcoin é comercializado por US$9.120, menos da metade do seu preço máximo de US$19.206 de um mês atrás. Dentre todas as criptomoedas, e há mais delas, o Bitcoin é de longe a maior. Os preços de todas as outras criptomoedas têm seguido as oscilações do preço da Bitcoin.

O alarde acerca das Bitcoins e criptomoedas semelhantes tem sido o fato de não serem criadas por um governo e de que os seus preços estão fora do controle governamental. Isto torna-as um sonho libertário. Para aqueles não familiarizados com esta característica da política americana, os libertários são aqueles que se opõem a qualquer papel do estado na economia, mas acreditam apaixonadamente no seu papel repressivo como protetor da propriedade privada. Eles não devem ser confundidos com os anarquistas os quais, ao contrário dos libertários, também se opõem à propriedade privada.

Há algumas incorreções fundamentais quanto a tais criptomoedas. Uma delas é de que não podem ser regulamentadas ou tributadas. É claro que elas podem ser regulamentadas pois são comercializadas em vários mercados de câmbios (exchanges). A simples declaração de intenção da Coreia do Sul de regulamentar Bitcoins levou o seu preço afundar-se significativamente em poucos dias.

O grosso das Bitcoins é mantido nas chamadas carteiras (wallets) digitais, criadas pelas companhias, que também funcionam como mercados de câmbios para Bitcoins. Todas estas companhias existem sob alguma jurisdição legal. Todas estas transações – Bitcoins por outras divisas em diferentes países – existem sob regras de controle de câmbio de governos. Todas estas carteiras, ou transações, podem ser tributadas através da riqueza, ou imposto de transação, ou o governo poderia definir riqueza de modo a incluir criptomoedas e cobrar como imposto sobre ganhos de capital. O problema não é que não possam ser tributados, mas que os instrumentos de tal tributação – riqueza, ganhos de capital e impostos sobre transação – são um anátema para as oligarquias financeiras que hoje dirigem os governos. 

O que são criptomoedas?

Ao contrário de governos que imprimem divisas legais e garantem o seu valor, no mundo da criptomoeda quem determina qual é o montante sendo transacionado? E será que realmente pertence à pessoa que inicia a transação? Se utilizamos papel-moeda, impresso e garantido pelo Estado, ele é reconhecido como moeda por ambos os lados transação: a verificação é quase instantânea. No mundo das transações digitais, é um banco, ou companhia de cartão de crédito, que verifica tais transações, através de um sistema centralizado de escrituração.

Como funciona isto para as criptomoedas? Como são elas criadas e como são cambiadas sem uma autoridade centralizada? Satoshi Nakamoto, um pseudónimo do fundador desconhecido da Bitcoin, propôs uma solução criptográfica para resolver este problema. A sua solução combinava as duas partes do problema – como as transacções poderiam ser reconhecidas e como a divisa poderia ser criada – numa só. Ele baseou-a num modelo de processamento distribuído, onde não seria necessária nenhuma verificação centralizada de através de um livro de razão (ledger) central, criando uma tecnologia agora conhecida como cadeia de blocos (blockchain).

A tecnologia blockchain é um sistema de razões distribuídas e verifica colectivamente estas transacções. O registo de todas as transacções está numa cadeia de blocos, daí o seu nome.

Em 2008 Nakamoto pormenorizou como uma divisa poderia ser criada e mantida sem uma autoridade central. Esta moeda dependeria do poder computacional e de um conjunto distribuído de computadores que mantém um registo destas transacções. Cada nó do sistema teria então uma cópia deste razão e estes razões distribuídos verificariam as transacções, fazendo quase impossível defraudar o sistema.

Como as transacções Bitcoin são verificadas e como os Bitcoins são criados? Cada bloco no sistema de blockchain subjacente às Bitcoins contém um conjunto de transacções Bitcoin. Você não pode registar duas transacções com o mesmo conjunto de Bitcoins, pois a verificação mostraria que já não os possui. Para cada bloco de transacções ser reconhecido e acrescentado ao sistema, todos os nós trabalham simultaneamente no "reconhecimento" deste bloco – no mundo Bitcoin chama-se mineração – ao incorporar as transacções num sistema computacional e a seguir resolvê-lo. Uma vez que um nó encontra a resposta correcta, ela é transmitida a todos os outros nós, os quais podem verificar que na verdade é a resposta correcta. Uma vez que um conjunto de nós aceitou a resposta, este bloco é acrescentado em todos os nós no sistema. O nó que origina a solução obtém então um conjunto de Bitcoins – actualmente 12,5 – por resolver o problema.

Apesar de a resposta ser fácil de verificar, encontrar a resposta – será isto um bloco de transacções válido – é computacionalmente intensivo e tem nele um elemento de probabilidade. A corrida não é vencida pelo mais rápido, embora não seja realmente uma corrida, sem que disponha de máquinas poderosas. Quando as máquinas se tornam mais poderosas, e mais nós sejam acrescentados ao sistema, o nível de dificuldade é elevado, de modo que a taxa de mineração – 12,5 Bitcoins a cada 10 minutos – permanece aproximadamente constante. O número de Bitcoins concedido ao minerador com êxito também decresce e em 2016 foi reduzido à metade, de 25 para 12,5, e continuará a ser dividido em dois no futuro chegando a zero em algum momento. O número final de Bitcoins que podem ser criados com este método não poderá exceder os 21 milhões, um número que se espera ser atingido em torno do ano 2140. Até agora, cerca de 80 por cento de todos os Bitcoins que podem ser criados foram libertados dentro do sistema.

Alguém que compra, vende ou cria Bitcoins precisa de uma chave pessoal, uma cadeia de caractéres que só é conhecida pela própria pessoa. A chave privada associa-se à chave pública no domínio público, a qual pode então ser utilizada para desencriptar o que estiver encriptado pela chave privada associada (paired). A cripto moeda está associada a uma chave e não a uma pessoa e sem a chave não há acesso à moeda. Se você perde a sua chave devido a um crash do disco rígido, ou pelo seu computador ser hackeado, perde também o seu acesso à cripto moeda. E neste paraíso libertário você não pode ir chorar junto à mamã por perder a sua password/chave mestra e pedir uma nova; ou queixar-se de que alguém roubou a sua chave. A sua chave, no mundo Bitcoin, é você!

SERÃO OS BITCOIN OU CRIPTODIVISAS MOEDA?

A moeda, como sabemos, tem duas funções. Ela pode ser utilizada para transacções ou pode ser mantida como um activo. Será o Bitcoin um meio de transacção ou será um activo? Ou será ambos, como quase todas as divisas o são?

Eu argumentaria que os Bitcoins não podem ser utilizados significativamente para transacções, excepto num sentido muito restrito, e portanto não são moeda. É uma classe de activos e pressões especulativas explicam a volatilidade do seu preço. Estou aqui a restringir-se às Bitcoins, considerando serem representativas de outras criptodivisas.

A razão porque os Bitcoins não são utilizados para transacções diárias, ao contrário de todas as outras formas de moeda, é porque eles simplesmente não podem ser escalados (scaled). Qualquer transacção em papel-moeda é independente de quaisquer outras transacções; é independente de quantas outras transacções estão a verificar-se simultaneamente no sistema. É plenamente generalizável, sujeito apenas ao montante de divisas no sistema. No mundo das transacções digitais, os sistemas de cartões de crédito decentes de hoje podem manusear 60 mil transacções por segundo. O Bitcoin, como envolve um árduo problema criptográfico, pode actualmente manusearapenas 3 a 7 transacções por segundo. Isso significa que os tempos de conclusão de transacções pode ir de alguns poucos minutos a horas e se houver transacções diárias os custos de transacção podem tornar-se uma grande fracção da própria transacção.

Um conjunto de transacções com criptodivisas ainda pode acontecer no mundo real. Estas são as transacções criminosas, onde o anonimato é chave; onde aqueles, que sequestram o seu computador utilizando o Wannacry ransomware, exigem serem pagos em Bitcoins. Além de tais transacções criminosas, não parece haver qualquer razão para que transacções no mundo real devessem ocorrer em Bitcoins.

Por que então o valor de criptodivisas guina tão loucamente? Como respondemos, é grande medida devido à especulação. Mais de 40 por cento de todos os Bitcoins são detidos por menos de 1000 contas, o que leva ao potencial para grandes manipulações de mercado. Além disso, com fluxos transfronteiriços a tornarem-se importantes na era dos paraísos fiscais, um certo número de super ricos quer precaver suas apostas através da detenção da sua riqueza em diferentes formas: desde pinturas roubadas até Bitcoins. Na era da oligarquia financeira global, o alarde das Bitcoins e suas flutuações selvagens são simplesmente indicadores da crescente criminalização do sistema financeiro.

1 de fevereiro de 2018

Como o Império opera: uma entrevista com Laleh Khalili

Laleh Khalili

Viewpoint Magazine


Viewpoint: Como você entende o imperialismo? Ainda é conceito útil? Que parâmetros analíticos lhe parecem mais adequados para compreender as relações de força no plano internacional?

Laleh Khalili: Acho que em termos muito crus, compreendo o imperialismo moderno como o desejo de tornar o mundo mais seguro para os movimentos do capital (dominado especialmente por capitalistas que têm base nos EUA e em estados aliados dos EUA), também pela força das armas, se necessário. Por mais que muito se ouça sobre o capital não ter pátria, ainda acho, sim, que há mais meios e modalidades de poder imperial que emanam do Atlântico Norte e dos EUA mais especificamente; e que países como a China ainda terão de caminhar muito para igualar. As infraestruturas legais e jurídicas necessárias aos negócios, regras de comércio e contabilidade, regulações para o comércio e os investimentos, e trilhas para a finança são praticamente todas definidas por instituições estabelecidas no Atlântico Norte. Essas instituições são protegidas por cortes de arbitragem, medidas financeiras punitivas e várias outras modalidades de controle hegemônico. Mas sempre, como última instância, os EUA nunca vacilaram ao usar a força onde viram que seus interesses mais amplos – e os interesses do capital – estivessem ameaçados.

Acho que outro traço notável do imperialismo dos EUA é o quanto não se interessa em defender territórios que ocupe temporariamente, exceto nos casos em que precise de bases fixas para projetar o poder militar e para se pré-posicionar, em termos logísticos, nos casos de desafios contra a dominação pelos EUA que exijam resposta rápida. De fato, durante muito tempo, especialmente desde a retirada do Iraque em 2009, os EUA preferem que suas tropas permaneçam invisíveis. Para essa finalidade, os EUA constroem bases em locais inalcançáveis, como a ilha Diego Garcia no Oceano Índico – comprada numa negociação suspeita com os britânicos nos anos 1970s e depois de a Grã-Bretanha ter evacuado todos os habitantes da ilha. Os EUA também se beneficiam de ofertas de regimes amigos na Europa, Ásia, África e América Latina, para alocar suas forças em bases de aliados. São sempre cercadas de imensos aparatos de segurança e sigilo, fornecidos por regimes clientes amigos e servis, sempre regiamente recompensados.

Viewpoint: Como evitar a noção simplória de imperialismo como "a política exterior" de alguns específicos estados-nação?

Laleh Khalili: É importante reconhecer que o imperialismo é um dispositivo que inclui estruturas de extração e exploração econômica; formas assimétricas de acumulação de capital; modalidades de controle militar; e aparatos legais e de administração completos que garantem a subjugação e a exploração de alguns, no planeta, por outros. O imperialismo também vem acompanhado de discursos sempre mutáveis que servem como álibi e cobertura para aqueles processos mais amplos: antes foi o discurso do racismo dito científico; hoje são os discursos do caos, da falta de democracia, ou coisas assim supostas necessárias ao desenvolvimento, ao progresso, à felicidade.

Viewpoint: De que modo seu trabalho com logística influenciou sua concepção de imperialismo? Assistimos a mudanças significativas tanto na estrutura técnica da guerra e na mobilidade de materiais e armas militares através de fronteiras nacionais, para não mencionar a relação cheia de riscos entre a acumulação contemporânea do capital, reações contra a globalização vindas da esquerda e da direita, e os efeitos correspondentes sobre a composição das classes e lutas pelo trabalho.

Laleh Khalili: Meu trabalho tornou-me intensamente consciente de como a coerção e as esferas da economia política não são as únicas esferas nas quais o império opera. O que é fascinante é a incorporação, à esfera do capital, de todos os cantos e mais remotos pontos do mundo. Muito frequentemente, essa incorporação acontece seja mediante as guerras promovidas pelos EUA e aliados, mas cada vez mais, desde o fim do regime de Bretton Woods, usam-se instrumentos de comércio e finança para atar, cada vez mais firmemente, aos regimes capitalistas de produção e controle, os pontos remotos do mundo. Mas tão importante quanto isso é que agora o capital viaja não só a partir de Londres ou New York ou do Atlântico Norte, mas também de Singapura e Dubai e Hong Kong e Xangai.

O que continua a ser imperial – e vê-se claramente, repetidas vezes – é que as regras do jogo ainda são definidas em Washington, D.C. e no Atlântico Norte. Falo de fatores sobre os quais sempre se pensa – tratados multi e bilaterais, acordos legais internacionais, regras de comércio e negócios –, mas também de coisas sobre as quais pouco se pensa: padrões de cobrança e prestação de contas; processos corporativos de arbitragem; o cálculo de prêmios de seguro que se compra e vende; a definição e atribuição de copyrights; e coisas assim.

Além de tudo isso, claro, a força das armas e da finança continua a ser crucial. A eleição de Trump marque ou não o início do declínio dos EUA (coisa em que absolutamente não acredito), os EUA continuam a ser a maior força militar do planeta, e ainda deseja projetar a própria força. As trilhas pelas quais viajam os ganhos de capital, os circuitos do capital e da finança, ainda apontam principalmente para a região do Atlântico Norte, por mais que se veja cada vez mais viajarem por esse circuitos também capitais que têm base na Ásia e na África.

Viewpoint: Como podemos traçar a longa construção de um aparelho legal internacional, que legaliza o livre fluxo de mercadorias através desses espaços marítimos e do comércio?

Laleh Khalili: Nesse caso aqui estamos lidando menos com o imperialismo per se e, mais, com o legado do colonialismo. Como nos mostram historiadores do Oceano Índico, antes da chegada dos portugueses nenhum governante da região havia tentado afirmar a própria soberania sobre os mares. Os portugueses inauguraram essa prática, exigindo que navios mercantes exibissem licenças para navegar águas profundas. Os britânicos aperfeiçoaram o conceito de "rotas marítimas" como espaços para afirmar o controle que queriam manter sobre o comércio asiático e na concorrência com outras potências europeias. Num dado sentido, o imperialismo nos espaços marítimos foi menos velado quando tinha a ver com demarcar a posse estratégica de vários impérios em locais como Áden, ou Ormuz, ou Diego Garcia, ou o Chifre da África. Mas talvez a parte mais importante da resposta seja apontar que a própria ideia de legislação internacional surge da tentativa dos holandeses para controlar espaços marítimos no Oceano Índico, no momento em que o capitalismo está emergindo, com força total, como conjunto de relações sociais e políticas no canto noroeste da Europa. A tese central de Hugo Grotius em seu Mare Liberum, redigido como resposta a escaramuças entre europeus no Oceano Índico, é que o mar tem de ser espaço "livre" para o comércio. Mas é claro que essa terminologia significa que as potências imperiais europeias têm de acertar algum tipo de equilíbrio de poder segundo o qual os espaços marítimos possa ser usados livremente pelas mesmas potências europeias, de modo que possam livremente extrair os recursos da Ásia e acumular capital por trás da exploração dos povos e recursos do Oceano Índico.

Viewpoint: Ao estudar os antecedentes coloniais do livre comércio, como você vê essa sobrevida do encontro colonial na logística contemporânea e o livre comércio como vias para reformatar a compreensão que temos do colonialismo, tão criticado pelos defensores da globalização e do livre mercado como empreitada frequentemente sem lucros? Sua pesquisa histórica parece sugerir que o colonialismo foi etapa custosa e economicamente desvantajosa da constituição de relações sociais capitalistas em escala mundial.

Laleh Khalili: Que foi custosa, foi. Mas não tenho muita certeza sobre se foi economicamente (ou de qualquer outro modo) desvantajosa. É importante reconhecer que a análise pelo cálculo custo-benefício jamais foi o único fator (sequer foi um fator) no processo da colonização. Colonização teve muito mais a ver com encontrar novos locais onde investir o capital excedente, buscar novos recursos naturais para substituir reservas domésticas inexistentes ou já esgotadas, encontrar novos mercados etc. Mas a colonização também teve a ver com dominação estratégica e supremacia política que gerava prestígio e poder em casa e no exterior, erguido sobre os ossos e as ruínas de vidas, sociedades e economias colonizadas.

Viewpoint: Você fez pesquisas recentes sobre gerentes europeus e norte-americanos na finança, seguros globais, gestão de recursos, aconselhamento legal para comércio marítimo. Na sua visão, essa "coorte cosmopolita" é indispensável para assegurar as próprias condições de possibilidade para o movimento relativamente sem atrito do capital pelas diferentes partes do mundo. Esse grupo, cujo pessoal movimenta-se entre o norte e o sul globais, os espaços intersticiais que eles ocupam entre geografias distantes, o Estado e o mercado, constitui fração, algum estrato identificável da classe dominante? Mais diretamente, este estrato dos gerentes e administradores constitui uma modalidade antagonista partilhada entre todos esses entes, contra as lutas sociais em diferentes partes do mundo?

Laleh Khalili: Prefiro não generalizar tanto sobre esse grupo intermediário de gerentes in toto, em parte porque cada vez mais o grupo também inclui especialistas técnicos e de finanças do Sul Global (especialmente indianos). Em muitos casos, os especialistas europeus fazem lembrar os funcionários coloniais civis, que encontram no serviço colonial uma forma de mobilidade social. Certamente, muitos dos administradores e gerentes de portos e equivalentes que encontrei no Golfo vinham das classes trabalhadoras no Reino Unido. Os especialistas em finanças em geral e em seguros, por outro lado – especialmente os que já chegaram aos pontos mais altos da carreira – constituem, sem dúvida, uma classe gerencial reconhecível e mais ou menos coerente; e sejam ou não conscientes do papel ideológico e funcional que lhes cabe nos movimentos globais e na acumulação de capital, com certeza agem como engrenagens efetivas nessa imensa máquina.

Viewpoint: Um dos importantes achados de sua pesquisa sobre o complexo paraestatal é que houve expansão massiva dos modos, espaços e agentes do imperialismo e das relações transnacionais de poder contemporâneos. No rastro do governo Obama, qual é o status do complexo paraestatal?

Laleh Khalili: Um complexo paraestatal refere-se, primeiramente, a um corpo inter-relacionado de empresas e agências do governo cujos mandatos e limites tornam-se difusos ou misturam-se. Um artigo soberbo de Tim Mitchell de 1991, "The Limits of the State", [Os limites do Estado], cita a ARAMCO como a instituição paraestatal por excelência. Para Mitchell, a propriedade da ARAMCO é difusa, quase não identificável, porque é propriedade simultaneamente de governos e de investidores privados; a empresa projeta políticas exteriores e influenciou a política interna na Arábia Saudita e também nos EUA, e a companhia é dispersa geograficamente e operacionalmente.

No mundo dos serviços de segurança, o relacionamento que há entre empresas como Palantir ou Blackwater com agências do Estado cria uma espécie de complexo paraestatal. Nessas firmas, os empregados são quase sempre ex-funcionários do Estado, militares, de inteligência ou de segurança. São empresas que fornecem serviços auxiliares ou por procuração às agências do governo dos EUA. Onde acaba o trabalho de um lado, quase sempre é difícil ver com clareza onde começa o trabalho do outro.

Esse vasto complexo inter-relacionado de instituições privadas e instituições públicas co-imbricadas umas nas outras e que operam em serviços de segurança, de logística e no serviço global de carceragem está em operação, na verdade, há muito tempo. Eu diria que de fato o que mudou ao longo do tempo tem sido a distribuição das áreas delimitadas para cada um e o processo de classificar as coisas como públicas ou privadas, soberanas ou não.

Por exemplo, vê-se a empresa G4S de segurança envolvida em atividades de política de fronteira na Europa, em contratos de serviços para prisões em Israel, e outros tipos de serviço de segurança pelo mundo. Blackwater, que fornece serviços de mercenários já passou por várias transformações e mudanças de nome e emergiu como prestadora de um serviço de "força de proteção" ["force protection"] que fornece serviços de segurança a agências governamentais. O antigo proprietário e presidente executivo da Blackwater vive hoje em Abu Dhabi e fornece serviços de segurança logística ao Estado chinês e a investidores privados na África Oriental. Empresas privadas em todo o mundo, empresas com nomes que todos conhecemos como DHL, fornecem serviços de logística aos militares dos EUA e provavelmente também a militares de outros países. Os serviços de prisões e vários departamentos de polícia dos EUA têm relacionamento extenso com seus contrapartes em todo o mundo. O treinamento para contraterrorismo é hoje um fenômeno globalizado, e ambas, forças militares e forças policiais, em muitos casos, colaboram em operações de contraterrorismo e partilham inteligência praticamente sem ver fronteiras.

Esses complexos, essas instituições, frequentemente se tornam normalizadas, institucionalizadas e consolidadas mediante o trabalho diário das empresas e das burocracias envolvidas. As políticas podem até variar nos escalões superiores, mas, como vimos, as instituições – especialmente as envolvidas em segurança – continuam a operar sem ver fronteiras sem muitas diferenças ao longo do tempo. Assim, em certo sentido, não vejo que o período pós-Obama venha a ser momento especial de ruptura. Não, de qualquer modo, até agora.

Viewpoint: Há excelente discussão em Viewpoint e outros periódicos entre Jasper Bernes e Alberto Toscano sobre logística, o valor de troca [value-form], relações sociais capitalistas e o Estado.[1] Sugere-se lá que conflitos em torno desses entroncamentos logísticos – porto de contêineres, ou os nós na cadeia de distribuição de Walmart – ou são assaltos contra o poder capitalista ou são desafios diretos ao valor em movimento. Considerado o seu trabalho sobre a constituição e o desenvolvimento de infraestrutura marítima no Golfo Persa, qual dessas duas explicações lhe parece mais convincente? É possível que esses entroncamentos, como elementos centrais da arquitetura logística, atuar como possíveis alavancas para reconstituir a solidariedade e a coordenação internacionais? É possível que lutas separadas dentro e contra essa infraestrutura indique modos pelos quais se possa articular pontos estratégicos comuns de referência num nível global?

Laleh Khalili: Gostei muito da discussão Toscano-Bernes e pensar com eles foi muito produtivo. O fantástico trabalho de Deborah Cowen em Deadly Life of Logistics também mostrou o quanto a logística tem a ver simultaneamente com conter ações consideradas adversas e com distribuir bens; e que meios de penetrar aquelas estratégias de contenção – pela mobilização dos trabalhadores, por exemplo – são cruciais para que se compreendam com mais clareza as formas de divergência, oposição e de luta que estão emergindo no século 21. Isso posto, no Golfo, especialmente, já é bem claro que a possibilidade de algum tipo de mobilização que efetivamente desafie o valor-em-movimento ainda depende das estruturas antigas, existentes, para mobilizar trabalhadores; e que, na ausência de sindicatos e de melhores leis para o trabalho, a capacidade básica desses trabalhadores para resistir contra a deportação depois de um protesto está muito gravemente enfraquecida. A coordenação global pode prover vias para solidariedades globais (por exemplo, estivadores de Oakland que se recusam a descarregar cargueiros israelenses, ou estivadores da África do Sul que fazem greve em apoio às lutas dos estivadores europeus). Ao mesmo tempo, inovações constantes nas tecnologias da governança da economia não ajudam só no processo de acumulação do capital; também ajudam a encontrar formas de mobilização: portos distantes de cidades; automação tanto em terra como embarcada; bandeiras de conveniência; contratos bifurcados de trabalho embarcado, com disparidade massiva entre salários e regime de folga para tripulação e oficiais; e assim por diante. É um processo mutuamente constitutivo: novas formas de trabalho trazem novas formas de repressão que trazem novas formas de mobilização dos trabalhadores que trazem novas formas de trabalho.

Nota:

[1] Ver Alberto Toscano, "Logistics and Opposition," Mute, 9/8/2011; Jasper Bernes, "Logistics, Counterlogistics, and the Communist Prospect," Endnotes 3 (2013); Alberto Toscano, "Lineaments of the Logistical State,"Viewpoint Magazine 4 (2014); Joshua Clover e Jasper Bernes, "The Ends of the State," Viewpoint Magazine 4 (2014). Ver também Deborah Cowen, "Disrupting Distribution: Subversion, the Social Factory, and the ‘State’ of Supply Chains," Viewpoint Magazine 4 (2014).

Sobre a autora

Laleh Khalili é professora de Política do Oriente Médio na Faculdade de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres [SOAS]. É autora de Heroes and Martyrs of Palestine: The Politics of National Commemoration (Cambridge 2007) e de Time in the Shadows: Confinement in Counterinsurgencies (Stanford 2013); editora de Modern Arab Politics (Routledge 2008) e co-editora (com Jillian Schwedler) de Policing and Prisons in the Middle East: Formations of Coercion (Hurst/Oxford 2010).

A longa crise brasileira

A maior economia da América Latina está em desordem; o histórico Partido dos Trabalhadores enfrenta a destruição; e a esquerda radical busca uma resposta.

Benjamin Fogel

Jacobin

Brasília, Brasil. Thomas Halfmann / Flickr

Quarta-feira, 24 de janeiro de 2018 pode ser um dia infame na história do Brasil. Naquele dia, um tribunal de apelações regional na cidade sulista de Porto Alegre aprovou, por unanimidade, manter a condenação por corrupção do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenando-o a doze anos de prisão. Para muitos, a condenação de Lula marca uma vitória contra a cultura da impunidade e criminalidade da elite que marca a política brasileira. Para a maior parte da esquerda, este julgamento representa outro prego no caixão da democracia brasileira, uma vez que um judiciário reacionário procura banir o político mais popular do Brasil de competir nas próximas eleições de 2018.

A condenação de Lula tem o potencial de colocar o sistema político brasileiro em crise. Em um clima de incerteza política generalizada, a extrema direita tem a chance de obter ganhos eleitorais significativos, já que o pró-ditador intolerante Jair Bolsonaro é o segundo atrás de Lula nas pesquisas. Bolsonaro está ganhando novos apoiadores, que, assombrado por inúmeros escândalos de corrupção, são atraídos por sua demagogia autoritária, evidenciada por declarações como "um policial que não mata não é um policial".

A condenação marca mais um passo em uma saga política que mergulhou o Brasil em sua mais profunda crise política desde o retorno do país à democracia no final dos anos oitenta. Dependendo de quem você pergunta, esta saga de ópera começou em 2014 depois que a candidata do Partido dos Trabalhadores (PT) Dilma Rousseff, que estava buscando reeleição, venceu o candidato do centro-direita do Partido Social-Democrata do Brasil (PSDB) Aécio Neves, ou em junho de 2013, quando o maior movimento de protesto na recente história brasileira transformou a paisagem política. Incapaz de tirar o PT do poder federal através de meios eleitorais, o establishment de direita do Brasil - por meio do controle dos meios de comunicação e aliados no sistema judiciário - procurou reverter as eleições de 2014 e remover Dilma.

Essa mesma eleição viu a eleição do congresso mais conservador desde o retorno do Brasil à democracia. A divisão entre uma administração do PT e um congresso reacionário refletiu os níveis de polarização na sociedade brasileira. Dilma foi finalmente expulsa em agosto de 2016, através dos esquemas deste mesmo congresso de direita, quando a classe política procurou se proteger das acusações de corrupção e as elites econômicas brasileiras estavam pressionando por uma agenda de austeridade que o PT se recusou a implementar. Desde a remoção de Dilma, o judiciário desempenhou um papel cada vez mais pronunciado na guerra da elite contra a esquerda.

Os principais políticos do establishment de direita, como Aécio Neves e Michel Temer, estão livres, protegidos pela classe política e seus amigos no judiciário, apesar de terem sido pegos em flagrante solicitando subornos (e coisas piores). Enquanto isso, Lula foi condenado pelo que até muitos liberais e críticos de direita do PT descreveram como uma decisão fraca baseada em evidências frágeis.

A queda do governo do PT não só enfraqueceu a esquerda do Brasil, mas também foi um grande revés para a esquerda latino-americana de forma mais geral, pois deu apoio político e econômico fundamental a projetos mais radicais em outros lugares.

Há muito para criticar no PT, como suas alianças com partidos políticos de direita - incluindo o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), que liderou o movimento para o impeachment de Rousseff - e suas acomodações com o neoliberalismo. Mas é claro que o julgamento de Lula representa uma tentativa de destruir Lula e o PT através de um processo legal, ao mesmo tempo que cimenta a associação entre a esquerda e a corrupção na imaginação do público. Como Alex Hochuli e Benjamin Fogel escreveram no ano passado após a condenação original de Lula: "O golpe parlamentar de 2016 foi levado a cabo em meio a protestos anticorrupção que visavam o PT. Estes foram alimentados pelo vazamento regular de revelações de corrupção para a mídia pelas investigações da Lava Jato. Mas se o impeachment de Dilma Rousseff no ano passado foi a principal manobra do golpe, a condenação de Lula agora parece ser sua conclusão".

A esquerda do Brasil - embora cada vez mais fragmentada, desmoralizada e enfraquecida após anos de derrota - permanece relativamente poderosa e, até certo ponto, intacta. Isso, apesar de um golpe parlamentar, um implacável ataque midiático de direita, repressão política e investigações de corrupção. O movimento sindical ainda é capaz de ação em massa, como evidenciado pela greve geral do ano passado e ainda existem grandes movimentos sociais bem organizados com centenas de milhares de membros. Isso não deve ser dado por certo, já que o desmantelamento sistemático das leis trabalhistas do país, conquistadas pelo país, enfraquece o movimento sindical a cada dia. A fragmentação adicional da esquerda radical e o aumento dos níveis de repressão política contra ativistas são ambos os cenários prováveis.

Apesar de ser uma sombra de seu eu anterior e a falta de um programa político claro, o PT continua sendo o único - no sentido de ter uma base social e a capacidade de mobilização eleitoral - partido político de esquerda substantivo no Brasil. A sua militância o torna o segundo maior partido no Brasil em todos as posições ideológicas. Geralmente, os outros partidos no sistema pluri-partidário consistem principalmente em organizações soltas ideologicamente falidas que se alimentam de patrocínio, veículos para políticos individuais ou simplesmente associações criminosas - com exceção de partidos de esquerda radicais de princípios ainda pequenos, como o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), o trotskista Partido dos Trabalhadores Socialistas Unidos (PSTU) e o Partido Comunista Brasileiro (PCB). Isso mantém o PT relevante, apesar da diminuição do seu capital político. É por isso que o PT colocou seu futuro político nas mãos de Lula, que ainda é o político mais popular do Brasil e quase certamente ganhará as eleições se ele pudesse concorrer.

A cobertura em língua inglesa da política brasileira deixa muito a desejar. Correspondentes e analistas estrangeiros freqüentemente caducam em clichês e banalidades em suas representações do Brasil, repetindo os pontos de discussão de direita que lhes são entregues de elites bem conectadas retratando o PT e Lula como uma ameaça comunista autoritária. Os muitos problemas sociais do Brasil, desde a desigualdade até os altos níveis de criminalidade violenta, são reduzidos a uma conseqüência do fracasso do Brasil em modernizar e livrar-se de sua cultura política arcaica, redes patronais e corrupção.

Esta mesa redonda busca dar uma plataforma para vozes alternativas na política brasileira; um pouco das diferentes posições da grande e diversa esquerda do Brasil, incluindo o PT, os movimentos sociais e a esquerda radical. Nosso objetivo é dar um sentido não só das apostas, já que a maior economia da América Latina mergulha mais profundamente na crise, mas também as lições que podem ser extraídas da experiência do Brasil. Do poder da política anticorrupção de direita - do tipo que Jeremy Corbyn pode enfrentar depois de vencer as próximas eleições do Reino Unido - podemos ver algumas das estratégias e maneiras em que a classe dominante procura deslegitimar e neutralizar um governo de esquerda.

Você vai conferir:


Esperamos que esta série forneça um roteiro para amplas e diversas visões da esquerda brasileira, que, em circunstâncias profundamente desafiadoras e contraditórias, está tentando construir uma alternativa à longa história de dominação do país pela elite.

31 de janeiro de 2018

Horror no Teleprompter

O Estado da União de Trump foi um direcionamento aterrorizante que prometeu terror para os imigrantes em casa e ruído de sabres no exterior.

Paul Heideman

Jacobin

Donald Trump pronuncia seu discurso sobre o Estado da União diante do Congresso ontem à noite. David Mulder / Flickr

O discurso do Estado da União de Donald Trump conseguiu o feito incomum de ser chato e assustador. Com um estilo que gritava "escrito por comitê", o discurso careceu de improvisações e originalidades de Trump que têm animado nossa cena política nos últimos anos. Em vez disso, continha um fluxo implacável de histórias de terrorismo político. Ao longo do discurso, Trump fez promessas após promessas que promovem desenvolvimentos verdadeiramente assustadores na política americana.

A mais distópica dessas propostas centrou-se nos "quatro pilares" do plano de imigração de Trump. Trata-se, basicamente, de um caminho para a cidadania para os jovens indocumentados, um muro fronteiriço, novas restrições sobre os green cards e regras muito mais severas para o reagrupamento familiar. Além desses pilares, Trump também prometeu contratar mais agentes federais de imigração, em outros lugares, situando o número em dez mil, um aumento de 50% no pessoal da agência.

Enquanto o primeiro pilar soa como uma proposta de compromisso para proteger os "Sonhadores", que se beneficiam de um amplo apoio nas pesquisas de opinião pública, o resto do plano dependeria da premissa implícita do "imigrante bom/imigrante mal" do primeiro pilar para impor condições ainda mais severas sobre os imigrantes que tentam alcançar ou já estão vivendo nos EUA. A parede da fronteira simplesmente empurra a migração para as áreas mais desoladas e perigosas da fronteira, expandindo o cemitério não oficial de que a fronteira se tornou desde que Bill Clinton começou a militarização da fronteira na década de 1990. As regras restritas de unificação da família ajudariam a garantir que os imigrantes que venham para os EUA permaneçam mais isolados socialmente, enquanto a expansão do ICE aumentaria as fileiras dos devoradores do corpo, já devastadoras em todo o país.

Trump prometeu complementar o terror em casa com terror no exterior. Ele pediu que derramasse ainda mais dinheiro nos cofres dos militares, e especificamente prometeu "reconstruir" o arsenal nuclear do país. O arsenal atual de quase sete mil armas nucleares (o suficiente para destruir cada cidade no planeta maior do que Edison, New Jesey) é, aparentemente, insuficiente, enquanto uma quantidade maior não especificada, finalmente, constituirá um impedimento efetivo.

Trump também não deixou dúvidas quanto a quem essas novas armas nucleares seriam apontadas, passando vários minutos denunciando a Coréia do Norte. Embora os recentes desenvolvimentos na península tenham tendido a sublinhar a diminuição da influência dos EUA, Trump parece estar determinado a colocar os EUA de volta no banco do motorista através de uma constante belicosidade, um plano que parece ter sucesso apenas para tornar as Coreias e o mundo mais amplamente mais perigoso.

Tão aterrorizante como a visão que Trump estabeleceu para o país na noite passada, o que era mais revelador em seu discurso era o que estava ausente dele. Os lados anti-establishment que eram uma característica tão definidora da campanha de Trump, bem como grande parte de sua presidência, não estavam em nenhum lugar. Longe de prosseguir a agenda populista de direita que lhe permitiu destruir seus principais opositores republicanos, Trump abraçou as políticas que poderiam ter vindo de qualquer um deles. Apesar de ter chegado à Casa Branca prometendo "drenar o pântano", Trump se afunda na lama.

A elite não deixou o recém-apreço de Trump por sua agenda sem recompensas. Conquistadas por grandes cortes de impostos e desregulamentação, a comunidade empresarial está mais do que disposta a ignorar o gaucherie da guerra de Trump contra imigrantes ou flerte com a extrema direita.

O que isso sugere é que, excluindo desvios possíveis deste trato pelo próprio Trump, é provável que a intensidade da oposição de elite à sua presidência diminua e as tentativas de retratá-lo como fora do mainstream da política americana encontrarão menos e menos eco. Ainda há um eleitorado maciço para se opor às políticas de Trump, desde a imigração a brindes aos ricos até a sua reanimação silenciosa de medidas anti-LGBT, mas as tentativas de mobilizar esse círculo eleitoral com base na violação de Trump de um suposto consenso nacional continuarão a cair no vazio.