23 de maio de 2019

A economia espera sentada

Não adianta achar que o empresário vai investir com base em elemento místico de confiança

Laura Carvalho

Folha de S.Paulo

Diego Padgurschi/Folhapress

A queda brutal das projeções de crescimento e as evidências de uma nova recessão no primeiro trimestre de 2019 trouxeram à tona o círculo vicioso causado pela insuficiência de demanda na economia brasileira.

As vendas fracas geram capacidade ociosa nas empresas e desestimulam, assim, investimentos em novas máquinas e unidades, o que, por sua vez, impede a expansão do produto e da renda das famílias e trava a retomada do consumo e das próprias vendas...

Para agravar o quadro, empresas e famílias endividaram-se ao longo dos anos de crescimento que precederam a crise, gerando o fenômeno que o economista Richard Koo convencionou chamar de "recessão de balanço".

Nesse tipo de crise, prevalece uma falácia da composição: consumidores e firmas cortam seus gastos visando reduzir suas dívidas passadas e tornar seus balanços mais saudáveis, mas acabam com isso causando um efeito agregado de redução do produto, da renda e do emprego, o que contribui para fragilizar ainda mais a sua situação financeira inicial.

Reativar uma economia que se encontra em tal cenário não é nada fácil. De pouco adianta, por exemplo, tentar estimular o crédito, pois empresários e famílias não estão interessados em tomar mais empréstimos: ao contrário, estão buscando saldar as dívidas existentes.

Já a queda da taxa de juros pode até contribuir para reduzir as despesas financeiras com as dívidas acumuladas, diminuindo um pouco a necessidade de cortar gastos com consumo e investimento, mas não é capaz por si só de estimular uma retomada.

Na realidade, os juros têm conhecido efeito assimétrico: embora o aumento do custo do crédito possa atuar para desaquecer uma economia em expansão, reduzindo os incentivos ao consumo e ao investimento, sua queda não é capaz de convencer famílias e empresas a gastar mais em um cenário de crise.

Tal assimetria tornou-se conhecida pela metáfora utilizada por um diretor do banco central americano durante a Grande Depressão dos anos 1930: não se pode empurrar uma corda ("you cannot push a string").

A única forma de quebrar o atual círculo vicioso é a expansão de algum componente autônomo da demanda. E, ao contrário do que se imagina, a recuperação dos investimentos das empresas nunca vem primeiro, pois não é autônoma, é induzida pelo grau de utilização da capacidade existente e pelas próprias expectativas de crescimento das vendas.

Ou seja, não adianta achar que os empresários vão investir em novos equipamentos com base em algum elemento místico de confiança enquanto houver capacidade ociosa: só vai haver estímulo ao investimento se as empresas se depararem com uma evidência concreta de aceleração das vendas de seus produtos.

As exportações poderiam ser esse motor, mas a desaceleração global em meio à escalada da guerra comercial entre EUA e China não ajuda. Já o caminho das concessões para o investimento privado em infraestrutura foi tentado, com pouquíssimo sucesso, pelos governos Dilma e Temer: parece haver pouco interesse dos investidores estrangeiros em investimentos de longo prazo com retorno incerto em meio à estagnação.

Só resta, portanto, a política fiscal. O retorno do investimento público direto em infraestrutura ao patamar pré-crise teria alto poder de estímulo, mesmo que fosse inteiramente coberto pela eliminação de desonerações, subsídios e outras despesas com multiplicador mais baixo sobre a geração de empregos e renda e/ou pela alta de impostos sobre a renda dos mais ricos. Ou seja, a economia brasileira, pelo visto, vai continuar esperando sentada.

Sobre a autora

Professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, autora de "Valsa Brasileira: do Boom ao Caos Econômico".

21 de maio de 2019

Rand Corp: como abater a Rússia

por Manlio Dinucci

Il Manifesto

Constranger o adversário a se tensionar excessivamente para desequilibrá-lo e abatê-lo: não é um movimento de judô, mas o plano contra a Rússia elaborado pela Rand Corporation, o mais influente think tank dos EUA que, com uma equipe de milhares de especialistas, apresenta-se como a mais confiável fonte mundial de inteligência e análise política para os governantes dos Estados Unidos e seus aliados. A Rand Corp se jacta de ter contribuído para elaborar a estratégia de longo prazo que permitiu aos Estados Unidos vencer a guerra fria, obrigando a União Soviética a consumir seus recursos no confronto estratégico. É neste modelo que se inspira o novo plano, o “Overextending and Unbalancing Russia”, publicado pela Rand.

Segundo seus analistas, a Rússia permanece um potente competidor dos Estados Unidos em alguns campos fundamentais. Por isto, os EUA devem perseguir, juntamente com seus aliados, uma estratégia integral de longo prazo que explore sua vulnerabilidade. Assim, analisam vários modos para obrigar a Rússia a desequilibrar-se, indicando para cada um desses modos as probabilidades de sucesso, os ganhos, custos e riscos para os EUA. Os analistas da Rand consideram que a maior vulnerabilidade da Rússia é a econômica, que se deve à sua forte dependência das exportações de petróleo e gás, cujas receitas podem ser reduzidas tornando mais pesadas as sanções e aumentando as exportações energéticas estadunidenses. Trata-se de fazer com que a Europa diminua a importação do gás natural russo, substituindo-o por gás natural liquefeito transportado por mar de outros países. Outra maneira de danificar ao longo do tempo a economia da Rússia é encorajar a emigração de pessoal qualificado, em particular os jovens russos com alto grau de instrução. No campo ideológico e informativo, trata-se de encorajar os protestos internos e ao mesmo tempo minar a imagem da Rússia no exterior, excluindo-a de fóruns internacionais e boicotando os eventos esportivos internacionais que ela organiza. 

No campo geopolítico, armar a Ucrânia permite aos EUA explorar o ponto de maior vulnerabilidade externa da Rússia, mas isto deve ser calibrado para manter a Rússia sob pressão sem chegar a um grande conflito no qual ela levasse a melhor. 

No campo militar os EUA podem obter altos ganhos, com baixos custo e risco, do aumento das forças terrestres dos países europeus da OTAN em uma função anti-Rússia. Os EUA podem ter alta probabilidade de êxito e altos ganhos, com riscos moderados, sobretudo investindo pesadamente em bombardeiros estratégicos e mísseis de ataque de longo alcance dirigidos contra a Rússia. Sair do Tratado INF e posicionar na Europa novos mísseis nucleares de médio alcance apontados para a Rússia garante suas altas probabilidades de sucesso, mas também comporta elevados riscos.

Calibrando cada opção para obter o efeito desejado – concluem os analistas da Rand – a Rússia acabará pagando o preço mais alto no confronto com os EUA, mas também estes deverão investir grandes recursos subtraindo-os de outros escopos. Prenunciando, assim, um forte aumento ulterior da despesa militar dos EUA e da OTAN, em detrimento dos gastos sociais.

Este é o futuro que projeta a Rand Corporation, o mais influente think tank do Estado profundo, ou seja, do centro subterrâneo do poder real mantido pela oligarquia econômica, financeira e militar, o qual determina as escolhas estratégicas não só dos EUA, mas de todo o Ocidente. As “opções” previstas pelo plano são na realidade apenas variantes da mesma estratégia de guerra, cujo preço em termos de sacrifícios é pago por todos nós.

Trancado em uma urdidura do tempo da Guerra Fria

Jeremy Kuzmarov

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Ilustração de Nathaniel St. Clair

No sábado, 18 de maio, o New York Times publicou um longo artigo de primeira página de Alexander Burns e Sydney Ember intitulado "O prefeito que trouxe a Guerra Fria para Vermont", que exemplifica como o clima político venenoso da Guerra Fria ainda não diminuiu.

O texto detalha a oposição do candidato presidencial Bernie Sanders às guerras da América Central de Ronald Reagan nos anos 80, enquanto o prefeito de Burlington e Sanders viajam para a Nicarágua e se encontram com o líder revolucionário sandinista Daniel Ortega.

O artigo também mencionou as viagens de Sanders a Cuba, de onde ele ficou impressionado com a "saúde gratuita, educação gratuita [e moradia gratuita]" e uma viagem a Yaroslavi, na União Soviética, cidade-irmã de Burlington, cujo sistema de saúde, Sanders observou, era "livre ou virtualmente grátis".

Sanders disse aos repórteres do Times: "Eu me declaro culpado, ao longo de toda a minha vida adulta, de fazer tudo que posso para evitar a guerra e a destruição".

O artigo, no entanto, fez questão de citar moradores de Burlington que sentiam que Sanders deveria ter focado suas energias em questões locais como consertar calçadas, e Otto J. Reich, ex-enviado especial da Nicarágua sob Reagan, que afirmou que “em virtude dessas viagens e associações, [Sanders] se juntou a alguns dos regimes mais repressivos do mundo ”.

Burns e Ember publicaram em editorial que Sanders freqüentemente “caminhava em uma linha entre a promoção do parentesco com um povo estrangeiro e a admiração de aspectos de um sistema repressivo”.

Se Sanders traçou uma linha tênue, no entanto, o que dizer do favorito para a indicação do Partido Democrata em 2020, Joe Biden, a quem o The Times nunca questionou por apoiar sistemas repressivos?

Durante os protestos da Primavera Árabe no Egito, até mesmo a National Public Radio (NPR) considerou que Biden estava "do lado errado da história" quando rejeitou o termo "ditador" para descrever o governante egípcio Hosni Mubarak que estava no poder a mais de 31 anos.

Quando perguntado por Jim Lehrer, âncora da PBS Newshour, se havia chegado a hora de Mubarak, que atacou impiedosamente os manifestantes, se afastar, Biden disse "não", acrescentando que esperava que Mubarak "fosse mais sensível a algumas das necessidades das pessoas por lá."

Duas décadas antes, “Lunch Bucket” Joe estava novamente do lado errado da história quando sustentou o apoio de Reagan à junta militar em El Salvador, que foi considerada por uma Comissão da Verdade como responsável por 93% das atrocidades cometidas na guerra civil do país.

Durante a década de 1990, na posição de democrata mais antigo no Comitê de Relações Exteriores do Senado, Biden defendeu o aumento da ajuda militar à Colômbia, o regime mais repressivo da América Latina, que estabeleceu um recorde no número de ativistas sindicais mortos. Biden foi um dos principais arquitetos do Plano Colômbia, um programa militar de combate ao narcotráfico que ajudou a intensificar os abusos contra os direitos humanos cometidos na guerra contra a esquerdista Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC).

O Times não apontou nenhum escrúpulo moral em relação a essas políticas, ou sobre a proximidade de Biden durante sua vice-presidência com Nouri al-Maliki no Iraque, que os moradores locais consideraram um "Saddam xiita", ou Petro Poroshenko da Ucrânia que chegou ao poder com um golpe ilegal em fevereiro de 2014.

Esses últimos regimes possuíam históricos de direitos humanos muito piores do que os sandinistas que venceram eleições livres e justas em 1984, que foram retocadas da história.

Trancado em uma urdidura do tempo da Guerra Fria, o New York Times está participando da deslegitimação vergonhosa ao único candidato do Partido Democrata capaz de mobilizar a população para derrotar Trump associando-o a governos socialistas que efetivamente conseguiram melhorar a qualidade de vida de suas populações.

Esta campanha neo-mccarthysta - apenas um pouco mais sutil do que a da Fox News - só pode ter sucesso por causa da enorme ignorância da população americana sobre assuntos estrangeiros, que é em parte um produto da cobertura distorcida da mídia tradicional.

19 de maio de 2019

As relações comerciais indo-americanas

Prabhat Patnaik


Tradução / A Grã-Bretanha, quando era o principal país capitalista do mundo, tinha um défice em conta corrente em relação aos países emergentes, como a Europa Continental e os Estados Unidos, no final do século XIX e início do século XX. Na verdade, é da natureza do país líder ter esse défice, uma vez que proporciona a esfera de ação para que outros cresçam dentro do arranjo de moeda internacional presidido pelo país líder.

Os EUA também têm um défice em conta corrente vis-à-vis os países emergentes de hoje. A diferença entre os dois está no fato de que a Grã-Bretanha não apenas cumpria seu défice corrente, mas chegava a fazer exportações de capital para os mesmos países com os quais tinha um défice em conta corrente – e compensava-o pelo excedente da conta corrente engendrado em relação às suas colônias, para as quais fazia exportações "desindustrializantes", e de cujo excedente de exportação adicionalmente se apropriava de modo gratuito para liquidar seus pagamentos. Em suma, a Grã-Bretanha não teve de enfrentar qualquer problema de balança de pagamentos, apesar de ter défices substanciais em conta corrente e na conta de capital em relação aos novos países emergentes daquele tempo.

Os EUA não têm essa possibilidade em aberto. Embora ainda existam excedentes apropriados das antigas "colônias" por causa dos direitos de propriedade intelectual e outras destas extorsões, estas nada são quando comparadas ao que é necessário para equilibrar os pagamentos dos EUA. A descolonização política tornou impossível aos poderes metropolitanos imporem às suas antigas "colônias" um sistema de transferências gratuitas. Os EUA, portanto, expandiram sua dívida externa por um longo tempo a fim de cumprirem suas obrigações de balança de pagamentos, criando pela primeira vez na história do capitalismo uma situação em que a mais poderosa potência capitalista do mundo também é a mais endividada externamente. Mas agora ela deseja controlar seu endividamento externo. 

Além disso, ela não pode sequer manter seu nível de atividade interno fazendo exportações "desindustrializantes". Tais exportações podiam ser feitas anteriormente porque a Grã-Bretanha, a potência colonial mais forte, tinha estes mercados coloniais "disponíveis"; ela podia acessá-los à vontade. Mas os EUA não têm mercados coloniais "disponíveis".

Confrontado com um declínio na atividade interna e um aumento do endividamento externo, os EUA embarcaram numa nova estratégia, de serem protecionistas e, ainda assim, de "persuadir" os países emergentes a aceitarem voluntariamente seu protecionismo unilateral. Tentaram convencer a China a aceitar o seu protecionismo unilateral. Deste modo, espera fazer com que outros países suportem o fardo do ajuste, enquanto aumenta o nível de atividade interna e ao mesmo tempo fecha seu défice na balança de pagamentos. Mas não teve êxito em relação à China, uma vez que o governo chinês acaba de aplicar tarifas mais altas a todo um conjunto de exportações dos EUA.

E agora está tentando persuadir a Índia a aceitar seu protecionismo sem retaliar e se possível reduzir suas próprias tarifas, de modo a que as exportações americanas possam ter mais facilidade para entrar no mercado indiano e deslocar as exportações asiáticas em direção às quais a Índia se deslocava cada vez mais ao longo da última década ou pouco mais. Em breve uma equipe americana chegará à Índia a fim de tentar convencer o país a aceitar voluntariamente o protecionismo dos EUA e reduzir a magnitude do défice americano nas relações bilaterais.

Os dois problemas básicos que os EUA têm em relação à Índia são: primeiro, o substancial saldo de mercadorias a favor da Índia e, segundo, o regime de direitos de propriedade intelectual da Índia que, apesar de ser compatível com TRIPS, não beneficia os Estados Unidos.

A balança de mercadorias a favor da Índia chegou a US$27,3 bilhões em 2017; supõe-se ter baixado um pouco, em US$4 bilhões em 2018, devido ao aumento da procura indiana por uma série de produtos americanos, em particular aviões civis e energia. Mas permanece, no entanto, um número considerável. Um fechamento do hiato escancarado na balança de pagamentos é o que os EUA gostariam.

Cerca de uma década atrás a participação dos EUA nas importações da Índia era de 8,5%; agora caiu para 5,7%. Ao longo do mesmo período, a participação da China aumentou de menos de 11% para mais de 16%. A Índia, em suma, tem-se movido de fontes americanas para fontes asiáticas nas suas importações e os EUA gostariam de alterar isso.

Durante a última década os EUA forçaram a Índia a mudar sua atitude em relação a commodities como as maçãs e amêndoas que importou. Da mesma forma, está a remover um certo número de ítens das exportações indianas do Sistema de Preferências Generalizadas. Além disso, também é provável que haja uma mudança nas importações indianas de petróleo provenientes do Irão para, pelo menos em parte, para os EUA, devido à pressão americana para boicotar o petróleo iraniano. O governo de Modi, ao contrário da China, está completamente alinhado com a exigência americana de não comprar ao Irão, apesar de o petróleo iraniano ser mais barato e de os EUA deixarem claro que não venderiam à Índia a um preço mais barato. Em matéria de petróleo, portanto, a Índia simplesmente abandonou sua posição de não ser obrigada a comprar a um preço mais alto. Todas essas áreas, no entanto, embora de alguma importância na perspectiva indiana, ainda não representam muito do ponto de vista dos EUA.

A outra área em que os EUA pressionarão a Índia é em relação à agricultura, na qual os EUA argumentam há muito que a Índia tem dado subsídios ao arroz e ao trigo superiores ao permitido pela OMC. Apesar de os próprios EUA terem aumentado seus subsídios de US$61 mil milhões quando a OMC foi formada, em 1995, para US$135 mil milhões em 2016, isso é supostamente aceitável, ao passo que os subsídios da Índia, que são dados a uma grande massa de pobres camponeses indigentes, não o são, porque "distorcem preços". Como nos EUA há muito poucos produtores no sector agrícola, eles podem receber subsídios directamente sem causar quaisquer "distorções de preço", muito embora esses "subsídios" sejam utilizados para capturar o mercado global. Mas na Índia, onde há milhões de camponeses, subsídios directos não podem ser dados na forma de apoio ao rendimento; os subsídios têm de ser concedidos sob a forma de apoio aos preços e é precisamente isto que tem sido contestado pelos EUA.

A lei de patentes aprovada na Índia em conformidade com os direitos de propriedade intelectual (TRIPS) foi um golpe para o sector de medicamentos genéricos. Antes disso, a Lei de Patentes indiana fora uma peça legislativa modelar que em certa medida rompeu o monopólio em tecnologia dos países avançados. Mas isso teve de ser abandonado para torná-la compatível com o TRIPS, aumentando a duração das patentes e estendendo as patentes de processo para patentes de produto. Mesmo isso, no entanto, não foi suficiente para os EUA, os quais desde então têm pressionado sistematicamente a Índia para que desencoraje empresas de genéricos. Esta pressão continuará a ser exercida pelos visitantes da delegação comercial americana.

O que a posição americana demonstra é que o argumento do livre comércio está dependente da existência de colonialismo. Quando o colonialismo reinou supremo, pode-se ser hipócrita sobre o livre comércio, uma vez que as colónias poderiam absorver as mercadorias não vendidas. O livre comércio parecia uma coisa boa, pois nenhum país avançado piorou com isso. Não que alguma vez tenha havido um comércio completamente livre; mas o país líder poderia praticar o livre comércio sem ser incomodado por isso. E as próprias colónias para as quais o excedente era exportado não contavam. Mas quando não há colonialismo, mesmo este argumento entra em colapso. E é isto que o mundo tem estado a enfrentar nos últimos anos.

A aceitação voluntária do protecionismo dos EUA por países como a China e a Índia equivaleria a aceitar o fardo de impulsionar a procura agregada na economia mundial. Mas, como eles não podem sequer usar seus respectivos Estados para essa finalidade, como os défices orçamentais não serão permitidos além de um ponto, eles podem usar apenas a política monetária; mas a política monetária será inadequada para promover a procura agregada numa situação de deficiência geral da procura. Em consequência, a deficiência da procura agregada continuará e, portanto, a luta pela captura do maior mercado possível. O esforço americano para tornar seu protecionismo aceitável para os outros simplesmente não terá êxito.

18 de maio de 2019

Espalhando as sementes do Bolsonaro

O presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro foi levado ao poder pela mobilização de massa da classe média brasileira. Mas isso não teria sido possível sem anos de fracassadas políticas de austeridade.

Giacomo Gabbuti e David Broder

Uma entrevista com

Ana Luiza Matos de Oliveira, Esther Dweck e Pedro Rossi

Jacobin

O recém-empossado Presidente do Brasil Jair Bolsonaro na cerimônia de posse presidencial no Congresso Nacional em 1º de janeiro de 2019 em Brasília, Brasil. (Bruna Prado / Getty)

O Brasil está hoje sob o domínio de um regime de extrema-direita aterrorizante, com o governo de Jair Bolsonaro dando início à reversão de décadas de avanços para trabalhadores, mulheres e pessoas LGBT. Sua campanha eleitoral foi notável pela mobilização muitas vezes violenta das forças paramilitares e da direita organizada. No entanto, seu sucesso não surgiu do nada. A ascensão de Bolsonaro ao poder foi apenas o mais recente ponto baixo em uma crise política, incluindo o golpe judicial contra o governo de Dilma Rousseff e a imposição prejudicial da austeridade na economia brasileira pela própria Dilma e pelo presidente interino Michel Temer.

De fato, a turbulência econômica dos últimos anos já marcou a destruição de muitos dos avanços feitos pelo PT no poder, ao mesmo tempo em que ressaltou as contradições desse partido. Isso é destacado em um novo livro, Economia para poucos: Impactos sociais da austeridade e alternativas para o Brasil. Aqui, os economistas Esther Dweck, Ana Luiza Matos de Oliveira e Pedro Rossi mostram que a austeridade, apresentada no Brasil como “necessidade técnica representando a única opção”, era de fato uma “escolha política deliberada”. Suas consequências foram desastrosas.

Giacomo Gabbuti e David Broder, da Jacobin, conversaram com os autores sobre as condições econômicas para a ascensão de Bolsanaro, os avanços feitos pelo PT (e seus limites) e as lições para a esquerda latino-americana.

Giacomo Gabbuti e David Broder:

Primeiro, um prólogo. Uma recente edição da Jacobin “comemorou” uma década desde o colapso financeiro; aqui na Itália, falamos de uma “crise de trinta anos”. Mas seu trabalho mostra que outra crise que começou em 2014 foi a pior da história brasileira. Como o Brasil não foi afetado pela crise global de 2008? Isso deve-se às políticas econômicas do presidente Lula entre 2003-2010, que você chama de “desenvolvimentismo social”? A presidência de sua sucessora Dilma já marcava uma mudança de rumo?

Ana Luiza Matos de Oliveira, Esther Dweck e Pedro Rossi:

Durante o governo Lula (2003-2010), o Brasil combinou crescimento econômico, distribuição de renda e redução da pobreza. Um cenário internacional favorável e o aumento dos preços das commodities influenciaram esse processo distributivo, mas, fundamentalmente, foi um crescimento econômico impulsionado principalmente pelo aumento da demanda interna, por meio de uma combinação de políticas sociais e investimentos públicos.

As políticas sociais, aumentando tanto as transferências sociais quanto os salários, impulsionadas pelo aumento do salário mínimo (que registrou crescimento real de 63% de 2002 a 2011), impulsionaram a demanda à medida que os brasileiros de baixa renda foram incluídos no mercado consumidor. Além disso, a partir de 2007, o governo petista implementou um programa para aumentar os investimentos públicos em infra-estrutura social e econômica e, em 2009, iniciou um programa de construção de moradia para os mais pobres. O investimento público passou de menos de 3% do PIB para mais de 5%.

Em certos termos, esta foi uma experiência semelhante à Europa pós-Segunda Guerra Mundial: um aumento no consumo de bens duráveis, uma democratização no acesso ao crédito pessoal para o consumo e um aumento na escala de investimentos privados e públicos.

A crise de 2008-9 afetou o Brasil, assim como afetou outros países ao redor do mundo, mas os instrumentos que já estavam em vigor atuaram como políticas anticíclicas eficazes (ou seja, o aumento automático dos gastos sociais compensou a queda do investimento e consumo da era da crise), e a recuperação foi muito rápida. De fato, o PIB do Brasil caiu 0,2% em 2009, mas se recuperou no ano seguinte, crescendo 7,5%. No entanto, a mudança no cenário internacional acrescentou desafios adicionais ao mandato de Dilma. A partir de 2011, surgiram muitos fatores novos, como a desaceleração do comércio internacional, a guerra cambial e o excesso de capacidade mundial (isto é, a insuficiência da demanda global pós-crise para absorver toda a produção), as políticas de austeridade nos EUA e na Europa, e as subsequentes mudanças nos preços das commodities (algumas das quais, da cana-de-açúcar ao café, ainda representam uma parte considerável das exportações brasileiras).

Houve uma queda acentuada nas receitas do governo, impedindo o aumento dos investimentos públicos e, depois de assumir o comando de Lula, em seu primeiro mandato (2011-2014), o governo de Dilma decidiu adotar políticas do lado da oferta. Embora essas políticas não tenham sido muito bem-sucedidas em impulsionar o crescimento por meio de investimentos públicos, em 2014 a taxa de desemprego atingiu os níveis mais baixos da história recente do Brasil e as transferências ainda tiveram um forte efeito na redução da desigualdade. A principal mudança ocorreu no segundo mandato de Dilma a partir de 2015, quando seu governo adotou fortes medidas de austeridade, cortando os gastos sociais em um contexto em que o crescimento econômico já estava em desaceleração.

Giacomo Gabbuti e David Broder:

Em 2016, no entanto, o Brasil entrou no que você definiu como a “era da austeridade”. Você dá uma definição de austeridade como “política de ajuste econômico baseada na redução do gasto público e do papel do Estado em suas funções de estimular o desenvolvimento econômico e promoção do bem-estar social.” O que você vê como a principal lógica por trás da austeridade? E como a austeridade se desdobrou no Brasil, com que consequências para os trabalhadores?

Ana Luiza Matos de Oliveira, Esther Dweck e Pedro Rossi:

Austeridade atende a diversos grupos de interesse na sociedade brasileira, alguns dos quais sempre argumentaram que a Constituição Federal de 1988 garante muitos direitos sociais ou que houve uma intervenção excessiva do governo na economia, como o aumento do salário mínimo ou o desenvolvimento de políticas de desenvolvimento usando bancos públicos.

A Constituição Federal foi inspirada na experiência do estado de bem-estar na Europa. Seu objetivo era responder às demandas sociais que a ditadura civil-militar (1964-1985) frustrou, garantindo os direitos sociais. Por exemplo, esta Constituição estipula a educação como um direito social, pela primeira vez na história brasileira.

A crise deu força aos críticos da Constituição de 1988. Invocando a necessidade de voltar aos orçamentos equilibrados para voltar ao crescimento, na austeridade eles encontraram um instrumento fundamental para quebrar o papel social do Estado. Em 2015, o governo combinou um choque na política monetária (uma redução súbita na oferta de dinheiro pelo banco central), com aumento das taxas de juros e redução do papel dos bancos públicos; uma liberalização no mercado de câmbio que desvalorizou a moeda brasileira em mais de 50% ao ano; e um choque nos preços administrados (especialmente em relação a itens cruciais como eletricidade residencial e combustível).

O resultado foi uma inflação maciça - acima de 10% naquele ano. Isso foi complementado por cortes drásticos nos gastos do governo, que afetaram investimentos e gastos sociais. Todos esses elementos contribuíram para as piores crises econômicas da história brasileira, marcadas pelo declínio do PIB.

Austeridade e outras medidas neoliberais empurraram o Brasil para uma crise econômica, que ainda é sentida pelos trabalhadores brasileiros. Por exemplo, enquanto o desemprego atingiu seu nível mais baixo de 4,3% em 2014, esse número subiu para 6,9% em 2015 e continuou crescendo desde então. Os dados mais recentes mostram que o Brasil tem 12,7 milhões de desempregados e 27,5 milhões de desempregados. O PIB caiu 3,5% em 2015 e 3,3% novamente em 2016.

A crise econômica levou a uma queda no apoio ao governo Dilma e preparou o caminho para o golpe de Estado em 2016. O governo Temer acompanhou e constitucionalizou a austeridade com a Emenda Constitucional 95/2016, que proíbe que os gastos primários (isto é, os gastos governamentais com bens e serviços, não incluindo juros sobre dívidas ou itens semelhantes) cresçam em termos reais pelos próximos 20 anos, reduzindo assim os gastos públicos e o tamanho do estado em relação ao PIB.

Se o governo Dilma viu a austeridade em termos de “ajustes”, sob Temer tornou-se uma medida estrutural e permanente. E a austeridade também tem um efeito no aumento da desigualdade, que é um dos maiores problemas sociais do Brasil. Como mostramos em nosso livro, os gastos do governo, como transferências monetárias, o sistema geral de seguridade social e as políticas sociais, como saúde e educação, têm efeito na diminuição da desigualdade. Assim, a redução do gasto social nessas áreas agravará a desigualdade social não apenas em termos de renda, mas em vários outros aspectos da desigualdade, como gênero, raça, região e acesso a serviços sociais.

Giacomo Gabbuti e David Broder:

Entrevistado pela Jacobin por Andrea Califano, o candidato do PT Mácio Pochmann falou da necessidade de olhar além das relações “atlânticas” do Brasil, enfocando, ao contrário, tanto a integração econômica “interna” latino-americana quanto a aproximação com a Ásia oriental - uma abordagem robustamente rejeitada por Jair Bolsonaro. O que a disputa entre os polos chinês e americano e, de fato, o papel regional do próprio Brasil, implica em seu modelo econômico doméstico?

Ana Luiza Matos de Oliveira, Esther Dweck e Pedro Rossi:

A América Latina é uma das regiões menos integradas do mundo. Mas, mesmo assim, se considerarmos os padrões de exportação brasileiros para os países da América Latina, eles são muito mais tecnológicos do que suas exportações para outras regiões. Entre todas as exportações brasileiras, outros países da América Latina são o principal destino de produtos manufaturados.

Durante os mandatos de Lula e Dilma, houve uma tentativa de aumentar a integração regional, com iniciativas como o MERCOSUL, a União de Nações Sul-Americanas (UNASUL) e a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC). A dimensão política da integração tornou-se cada vez mais importante e deu aos países sul-americanos a oportunidade de responder de forma coordenada aos desafios do século XXI.

Essas iniciativas, portanto, representam uma tentativa de substituir a antiga divisão internacional do trabalho. Os países latino-americanos não podem limitar seu papel ao dos fornecedores de insumos básicos (por exemplo, matérias-primas) para a produção realizada no exterior. O aumento da sofisticação e diversificação é necessário para a expansão da produtividade e, portanto, a renda e o bem-estar de sua população. No entanto, desde a crise de 2008-9, com a desaceleração do comércio internacional, houve um aumento da concorrência e muitos países adotaram políticas comerciais mais protecionistas. Na América Latina, o comércio bilateral com a China veio substituir o comércio intra-regional anterior.

Isso levou a uma tentativa de fortalecer a integração econômica latino-americana interna e outras integrações sul-sul com países africanos e do leste asiático. No entanto, o governo Bolsonaro abandonou isso e, em vez disso, quer adotar uma abertura unilateral ao comércio, a fim de aumentar a integração do Brasil na economia mundial. No contexto internacional explicado acima, isso tende a aumentar as importações brasileiras, acelerando um processo prematuro de desindustrialização e o Brasil pode até perder seu papel de exportador primário de bens, à medida que a China e os EUA estabeleçam um novo acordo comercial.

Giacomo Gabbuti e David Broder:

Mesmo se considerarmos Bolsonaro, Salvini, Trump e outros líderes como parte de uma onda comum e coerente de “populismo de direita”, eles têm abordagens muito diferentes da austeridade. Alguns movimentos europeus (pelo menos retoricamente) se opuseram à austeridade imposta pela UE, e Trump demonstrou pouca preocupação com a disciplina fiscal quando reduziu os impostos para os ricos. Na América Latina, no entanto, a "nova" direita propõe políticas neoliberais bastante antigas, preocupantemente semelhantes às importadas para o continente por Pinochet. Como você explicaria essa diferença?

Ana Luiza Matos de Oliveira, Esther Dweck e Pedro Rossi:

Esta é uma pergunta muito boa. A extrema direita brasileira tem particularidades. Na atual retórica de Bolsonaro, não há contradições com as políticas apoiadas pelo setor financeiro. O discurso do presidente abraça completamente o neoliberalismo. Isto está ligado ao fato de que Bolsonaro foi impulsionado por importantes grupos de interesse que só apoiariam uma agenda austera ou neoliberal e não uma keynesiana ou “desenvolvimentista”.

No discurso de Bolsonaro, quase não há menção de criação de emprego ou recuperação econômica, como Trump faz com suas promessas de medidas protecionistas para trazer de volta empregos manufatureiros dos EUA perdidos sob a pressão da globalização.

As eleições brasileiras foram absolutamente atípicas, em termos internacionais, na medida em que não houve um debate econômico sério. Entre o absurdo encarceramento de Lula - o candidato favorito da população - o colapso da direita tradicional e o ataque com faca a Bolsonaro, ele reuniu sua base por trás da “recuperação da moralidade”, dos valores tradicionais e da religião cristã. Quaisquer políticas de proteção de grupos específicos, ou mesmo políticas sociais em geral, são vistas como intervencionismo estatal e, portanto, medidas que só perturbam os mercados e a ordem tradicional.

Giacomo Gabbuti e David Broder:

Depois do golpe chileno de 1973, partidos comunistas como o PCI italiano “enfatizaram a importância de ir além de uma simples aliança de esquerda capaz de assegurar uma maioria parlamentar”. A América Latina ficou excessivamente confiante em sua capacidade de manter o poder por meio da política eleitoral? Qual papel foi desempenhado pelas classes médias brasileiras na ascensão e queda do PT e de sua coalizão - e até que ponto as próprias políticas do PT foram o resultado de um ato de equilíbrio entre diferentes partidos? Como poderia uma política progressista ter construído uma coalizão com eles?

Ana Luiza Matos de Oliveira, Esther Dweck e Pedro Rossi:

O Brasil é um país muito complexo e diversificado. Existem setores na elite brasileira que estão completamente alinhados com as políticas neoliberais, como o setor financeiro, mas existem outros setores ainda ligados às indústrias e setores produtivos que produzem para o mercado interno e precisam do Estado, dos bancos públicos e das políticas econômicas específicas.

A ascensão do governo petista acompanhou a crise de um governo neoliberal, que deixou insatisfeita uma parte dessa burguesia. A classe média inicialmente apoiou o PT, mas retirou o apoio mais tarde, após os escândalos de corrupção inflados pela mídia de massa, que também produziu uma campanha contra as políticas sociais e econômicas do governo.

Durante o governo do PT, a classe média foi pressionada pela ascensão dos pobres, que passaram a disputar espaço social com a tradicional classe média em universidades, aeroportos e shoppings, enquanto o topo da pirâmide mantinha seus privilégios. A classe média, que sempre teve acesso a serviços a baixo custo - por exemplo, donas de casa - achou difícil manter os mesmos padrões de vida com o aumento dos salários.

Então a classe média é de fato um aspecto importante na queda dos governos do PT. A experiência mostra que reformas estruturais como a reforma agrária, a reforma urbana, a reforma tributária e a reforma política deveriam ter sido feitas, por exemplo, durante o segundo mandato de Lula, quando ele tinha cerca de 80% de aprovação popular. Infelizmente, a falta de uma institucionalização mais profunda de muitas políticas sociais aplicadas durante este período permitiu uma rápida reversão dessas políticas sob seus sucessores.

Giacomo Gabbuti e David Broder:

A retórica anticorrupção claramente ajudou a direita a construir sua política contra as políticas públicas - especialmente entre os brasileiros que dependem menos dos gastos sociais. Isso parece muito semelhante aos eventos na Itália nas últimas décadas. Enquanto Lula e o primeiro-ministro de centro-esquerda da Itália, Bettino Craxi, são dificilmente comparáveis (este último sendo muito mais pessoalmente envolvido na corrupção), é notável como no caso italiano o escândalo das “mãos limpas” do início dos anos 90, derrubando o Partido Socialista de Craxi, abriu caminho para duas décadas de austeridade. O que poderia ter sido feito pelo PT para resistir a essa agenda - e como podemos fazê-lo nos próximos anos?

Ana Luiza Matos de Oliveira, Esther Dweck e Pedro Rossi:

Podemos responder ressaltando os argumentos apresentados pelos pesquisadores brasileiros no artigo “A guerra contra todos: a crise brasileira”. Os autores mostram que os problemas da acumulação capitalista e o tumulto no cenário político se transformaram em uma crise estrutural sob o efeito do caso anticorrupção da Operação Lava Jato.

Eles argumentam que o aparato institucional por trás da Lava Jato, investigando práticas de corrupção na Petrobras e outras agências do governo, mudou o “centro de poder” do Estado brasileiro para suas próprias mãos. No entanto, como mostramos em nosso próprio livro, os resultados reais das políticas sociais do PT foram as principais razões do caso da direita contra eles.

No governo Dilma, à medida que o espaço fiscal estreitava devido à desaceleração do crescimento, o conflito distributivo tornou-se mais agudo e as escolhas políticas tornaram-se mais difíceis, já que não era mais possível agradar a todos o tempo todo. Havia sinais de uma reação do capital, em consonância com o que o economista polonês Michał Kalecki discutiu em seu ensaio de 1943 sobre os “Aspectos políticos do pleno emprego”. Ele observou que, mesmo quando os economistas concordaram que os governos poderiam alcançar o pleno emprego, havia razões para os capitalistas se oporem a tal política (como de fato aconteceu em quase toda a década de 1930). Uma dessas razões, observou Kalecki, seriam as “mudanças políticas resultantes da manutenção do pleno emprego” - isto é, como no caso brasileiro, maior poder de barganha para os trabalhadores e uma distribuição de renda diferente e mais igualitária.

Nesse sentido, o governo Lula tentou conciliar interesses irreconciliáveis. A enorme redução da pobreza e da desigualdade, conforme registrada pelo índice de Gini, que caiu de 63,3 para 51,3, não foi acompanhada de uma redução na proporção da renda acumulada pelos brasileiros mais ricos (que votaram cada vez mais contra o PT). Isso mostra que uma transformação mais profunda só pode ocorrer através de um confronto com privilégios e interesses especiais (por exemplo, por meio de uma reforma radical do sistema tributário regressivo do Brasil, em que os impostos indiretos sobre o consumo ainda representam quase metade das receitas tributárias, enquanto os lucros e dividendos estão isentos do imposto de renda pessoal).

Depois da crise, quando as margens de lucro foram reduzidas, o governo de Dilma tomou algumas medidas contra a fração bancário-financeira do capital, que alimentou descontentamento entre os grupos poderosos.

O erro de voltar-se para a austeridade em 2015 não foi suficiente para manter o apoio das elites econômicas e também enfureceu os trabalhadores e movimentos sociais que poderiam ter dado apoio político ao governo. Depois do impeachment de Dilma, a combinação de retórica anticorrupção e oposição a “gastos desnecessários” poderia, assim, cooptar um novo bloco de poder.

A fim de combater esse tipo de retórica nos próximos anos, é importante mostrar à população as conseqüências danosas das decisões políticas tomadas após a remoção de Dilma. A ideia do nosso livro era mostrar exatamente como essas políticas estão afetando a vida cotidiana e estão impondo todo o custo da crise sobre os trabalhadores, movimentos sociais e grupos desfavorecidos.

Sobre os entrevistados


Ana Luiza Matos de Oliveira é economista e doutora em desenvolvimento econômico. Seus trabalhos recentes dizem respeito à desigualdade e políticas sociais no Brasil.

Esther Dweck é professora de economia na Universidade Federal do Rio de Janeiro, trabalhando em economia do crescimento e desenvolvimento; anteriormente, ela atuou como secretária do Orçamento Federal Brasileiro.

Pedro Caban é professor de estudos latino-americanos, caribenhos e latinos americanos na Universidade de Albany, na Universidade Estadual de Nova York.

Sobre os entrevistadores


Giacomo Gabbuti é estudante de doutorado na Universidade de Oxford e membro do conselho editorial da Jacobin Itália.

David Broder é um historiador do comunismo francês e italiano. Atualmente, ele está escrevendo um livro sobre a crise da democracia italiana no período pós-Guerra Fria.

16 de maio de 2019

O colapso do teto

Teto de gastos tem servido para colocar a educação contra a saúde, a ciência contra a cultura

Laura Carvalho


Rodrigo Maia (DEM-RJ) após almoço oferecido pelo Citi Bank em Nova York, nesta terça (14). Niyi Fote/Thenews2/Folhapress

Em reunião com investidores em Nova York, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, pôs o dedo na ferida ao afirmar, na terça-feira (14), que a aprovação da reforma da Previdência não resolverá o problema de falta de crescimento da economia brasileira e que o teto de gastos, se não for revisto, pode levar o país ao "colapso social".

Embora o atual contingenciamento de recursos também seja uma resposta à dificuldade de cumprimento da meta de resultado primário aprovada para este ano, o fato é que, mesmo se houver recuperação da arrecadação e as despesas previdenciárias crescerem a um ritmo menor pela aprovação da reforma, limitar o crescimento do conjunto de despesas do governo à taxa de inflação do ano anterior (como determina a emenda constitucional 95) continuará fazendo com que sobre cada vez menos espaço a cada ano para os itens não obrigatórios do Orçamento.

A primeira consequência é um acirramento de conflitos distributivos na sociedade. Diferentes áreas e categorias, por meio de campanhas públicas, mobilizações de rua e canais mais diretos de influência sobre os parlamentares e o Executivo, buscam preservar suas fatias em um bolo que vai ficando cada vez menor.

Em vez de trazer uma alocação mais eficiente ou prioritária dos recursos, como argumentavam os defensores da regra, o teto de gastos tem servido, na prática, para colocar a educação contra a saúde, a ciência contra a cultura, o Minha Casa Minha Vida contra o Bolsa Família, com a distribuição final dependendo da capacidade de organização ou do poder de influência de cada setor —além, é claro, dos objetivos de cunho político-ideológico de quem deveria nos governar.

Enquanto isso, áreas que contam com menos defensores levam boa parte do prejuízo: é o caso da infraestrutura, por exemplo, que já recebe menos investimentos do que o necessário para cobrir até mesmo a sua deterioração, ainda que tenha fortes efeitos multiplicadores sobre a geração de renda e empregos —cruciais para uma sonhada retomada.

Nesse sentido, é importante que as mobilizações legítimas de cada setor pela preservação dos recursos destinados a áreas prioritárias para a sociedade —o Censo, a educação pública ou as bolsas de pesquisa, por exemplo— venham combinadas a uma demanda coletiva por um regime fiscal que garanta o equilíbrio das contas públicas no médio prazo sem impor uma camisa de força à democracia e à própria economia.

O colapso social a que se referiu Rodrigo Maia e o caráter crônico de nosso quadro de estagnação econômica por insuficiência de demanda poderiam ser evitados com a substituição do atual regime fiscal por novas regras, mais alinhadas com as praticadas no resto do mundo. Por exemplo, a fixação de metas anuais para o crescimento real dos gastos públicos em linha com a tendência esperada de crescimento da economia.

Além disso, a redistribuição da carga tributária em discussão no Congresso Nacional poderia ser planejada de modo a gerar aumento das receitas nos primeiros anos, abrindo espaço até mesmo para uma expansão dos investimentos públicos e de outras despesas com alto potencial de estímulo à economia e à geração de empregos.

Não faltam alternativas ao modelo de ajuste fiscal em curso e seus altíssimos custos sociais e econômicos. As importantes mobilizações contra os cortes de verba em áreas prioritárias podem servir também para colocá-las na ordem do dia.

Sobre os autores

Professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, autora de "Valsa Brasileira: do Boom ao Caos Econômico".

14 de maio de 2019

Desigualdade e risco - ambos em ascensão

Michael Roberts

The Next Recession

Tradução / A presidente do Banco Central dos EUA (FED), Lael Brainard, em discurso em Washington, revelou a extensão da crescente desigualdade nos EUA. Usando os dados mais recentes sobre renda e riqueza, ela destacou que os rendimentos e a riqueza dos lares da classe trabalhadora (o establishment americano gosta de usar o termo "classe média") nos Estados Unidos foram espremidos nos últimos 50 anos e particularmente nos últimos 20 anos.

As famílias americanas médias ainda não recuperaram totalmente a riqueza que perderam na Grande Recessão. No final de 2018, a família de renda média tinha uma riqueza de US $ 340.000 (principalmente uma casa), enquanto os 10% mais ricos tinham US $ 4,5 milhões, um aumento de 19% em relação à recessão anterior. A ascensão deste último grupo ocorreu principalmente devido ao aumento no mercado de ações.

De acordo com a pesquisa do consumidor do FED, um terço dos adultos de renda média dizem que pediriam dinheiro emprestado, venderiam algo ou não poderiam pagar uma despesa inesperada de US $ 400. 25% disseram que deixaram de lado algum tipo de assistência médica em 2018 por causa de seu custo. Quase três em cada 10 adultos de renda média têm saldo negativo em seu cartão de crédito a maior parte do ano ou o tempo todo. Enquanto isso, a parcela da renda gasta com aluguel pela classe média subiu de 18% em 2007, para 25% em 2018, um aumento de 40%.


O coeficiente de gini (a medida básica da desigualdade) para a renda está agora no seu maior nível nos EUA, com um recorde de 0,48 em relação a 0,38 no final dos anos 1960 - um aumento de 30% (veja o gráfico acima).

Brainard sugeriu que esse desenvolvimento é tão ruim que os padrões de vida razoáveis para a maioria dos americanos nunca retornarão. "Nos últimos anos, as famílias no meio da distribuição de renda enfrentaram uma série de desafios", disse Brainard. "Isso levanta a questão de saber se os padrões de vida da classe média estão ao alcance dos americanos de renda média na economia atual".

Tal situação também ameaça enfraquecer a economia com menor consumo por pessoa. “Pesquisas mostram que as famílias com níveis mais baixos de riqueza gastam uma fração maior de qualquer ganho do que suas contrapartes mais ricas. Isso tem implicações de longo prazo para o consumo, o maior motor de crescimento da economia”, disse ela. O que é um risco para a "democracia" em si. "Uma classe média forte é frequentemente vista como uma pedra angular de uma economia vibrante e, além disso, de uma democracia resiliente", disse ela. Tais são os medos de um dos pilares do capitalismo americano, o Federal Reserve.

Enquanto a 'classe média' nos EUA e em muitos outros países capitalistas avançados está sendo pressionada, o 1% superior e ainda mais o 0,1% superior nunca estiveram tão bem. É como se a Grande Recessão nunca tivesse acontecido.

A riqueza das pessoas mais ricas do mundo diminuiu em 7%, para US $ 8,56 trilhões em 2018, aponta Wealth-X, citando as tensões do comércio global, a volatilidade do mercado acionário e uma desaceleração no crescimento econômico. E o número de bilionários caiu 5,4%, para 2.604, a segunda queda anual desde a crise financeira de uma década atrás. Mas os mais ricos dos Estados Unidos tiveram o melhor entre as três principais regiões do mundo, registrando um leve aumento no número de bilionários de 0,9% para 892, mesmo que sua riqueza tenha caído 5,8%, para US $ 3,54 trilhões. São Francisco tem mais bilionários por habitante no mundo - com um bilionário para aproximadamente 11.600 habitantes - seguidos por Nova York, Dubai e Hong Kong.



Não houve uma queda nos bilionários na Grã-Bretanha, no entanto. De acordo com a lista dos ricos do Sunday Times recém-publicada, há um recorde de 151 bilionários no Reino Unido. E ser um bilionário é como ser um deus nos céus em comparação com a riqueza média das famílias. Se medirmos a diferença em tempo, digamos dias, é impressionante. O salário anual de uma enfermeira do sistema público de saúde equivale a meio dia, enquanto o de um bilionário é de 11.500 dias. A renda do bilionário tem uma diferença de 32 anos!



Como a mudança climática e o aquecimento global, a desigualdade em todo o mundo atingiu agora um ponto de inflexão irreversível. A Biblioteca da Câmara dos Comuns, com sede no Reino Unido, calcula que, se as tendências atuais continuarem, os 1% mais ricos controlarão quase 66% do dinheiro do mundo até 2030. Com base no crescimento anual de 6% da riqueza, eles teriam ativos no valor aproximado de US $ 305 trilhões, acima dos US $ 140 trilhões atuais. Isto corrobora um relatório divulgado no início deste ano pela Oxfam, que apontou que apenas oito bilionários têm tanta riqueza quanto 3,6 bilhões de pessoas - a metade mais pobre do mundo.

O economista-chefe do Banco da Inglaterra, Andy Haldane, também fez um estudo perspicaz sobre como na Grã-Bretanha os ricos e os pobres estão espalhados pelo país. De sua cidade natal, Sheffield, no norte da Inglaterra, Haldane mostrou que a riqueza e a renda estão fortemente concentradas no sudeste da Inglaterra. De fato, o Reino Unido tem a pior dispersão regional de renda e riqueza na Europa - pior ainda que a Itália.



A renda e a riqueza estão concentradas em Londres e no sudeste, embora as longas horas e o tempo de viagem pareçam tornar os londrinos mais infelizes do que seus compatriotas mais pobres do norte, de acordo com pesquisas.

A crescente desigualdade está criando condições para aumentar o risco e a incerteza nas economias capitalistas. Isso porque a principal forma de aumento da desigualdade de riqueza é através do aumento dos preços dos ativos financeiros. Marx chamou esses ativos de capital fictício, pois representavam um desejo sobre o valor das empresas e do governo que pode não estar refletida no valor realizado nos lucros e ativos das empresas ou nas receitas do governo. As crises financeiras são ocorrências regulares, geralmente de maior gravidade, e podem eliminar o "valor" desses ativos de uma só vez. Tais crises podem desencadear o colapso sobre qualquer debilidade subjacente nos setores produtivos da economia capitalista.

O último relatório do FED dos EUA sobre a estabilidade financeira no país faz uma leitura sóbria.

De acordo com o relatório, “empréstimos de empresas são historicamente altos em relação ao produto interno bruto (PIB), com os aumentos mais rápidos da dívida concentrados entre as empresas de maior risco, em meio a sinais de deterioração dos padrões de crédito”. As taxas de juros para empréstimos estão próximas de mínimos históricos, de modo que a farra de empréstimos entre as empresas continua. Segundo o FED, “a dívida do setor empresarial, no entanto, expandiu-se mais rapidamente do que a produção nos últimos anos, elevando a relação entre crédito / PIB do setor empresarial para níveis historicamente elevados”.



Além disso, “O considerável crescimento da dívida das empresas nos últimos sete anos tem sido caracterizado por grandes aumentos nas formas de risco da dívida estendidas a empresas com perfil de crédito mais fraco ou que já apresentavam níveis elevados de dívida”.



E esse dinheiro emprestado não é usado para investir em ativos produtivos, mas para especular no mercado de ações. De fato, os principais compradores de ações dos EUA são as próprias empresas, elevando assim o preço de suas próprias ações (recompras).

Enquanto as taxas de juros permanecerem baixas e não houver um grande colapso nos lucros das empresas, esse cenário de empréstimos corporativos e recompras do mercado de ações pode continuar. Mas se as taxas de juros subirem e / ou os lucros caírem, então esse castelo de cartas corporativo pode ruir. Como o FED aponta: “Mesmo sem uma queda acentuada na disponibilidade de crédito, qualquer enfraquecimento da atividade econômica poderia aumentar as taxas de inadimplência e levar a contrações relacionadas ao crédito para o emprego e o investimento entre essas empresas. Além disso, a pesquisa existente sugere que vulnerabilidades elevadas, como empréstimos excessivos no setor empresarial, aumentam o risco de queda para uma atividade econômica mais ampla”.

Naturalmente, o relatório do FED concluiu que tudo ficará bem e que os bancos e as corporações são resilientes e saudáveis. Mas a incerteza geral sobre o futuro das principais economias capitalistas está aumentando, de acordo com a última leitura do World Uncertainty Index (WUI), um dispositivo que supostamente mede a confiança dos investidores capitalistas globalmente.



A medida mais recente da WUI subiu acentuadamente para um nível mais alto do que antes do crash financeiro global. E a recente queda nos preços das ações, impulsionada pela guerra comercial entre os EUA e a China, é uma indicação do que pode acontecer no próximo ano.