23 de agosto de 2019

"A última batalha de Hong Kong"

Manifestantes de Hong Kong continuam enchendo as ruas. Sua tarefa: encarar não só o autoritarismo do governo, mas também o oportunismo dos capitalistas.

JS Chen e Sherry Yuen-Yung Chan

Jacobin, 23 de junho de 2019

Manifestantes protestam do lado de fora da sede da polícia de Hong Kong em 21 de junho de 2019 em Hong Kong, China. (Anthony Kwan / Getty Images)

Tradução / Menos de cinco anos após a “Revolução dos Guarda-chuvas”, Hong Kong está de volta às manchetes internacionais. No dia 9 de junho, mais de um milhão de manifestantes vestidos de branco foram às ruas para se opor a um projeto de lei que autorizaria extradições à China. No domingo seguinte, estima-se que dois milhões de pessoas — quase 30% da população — foi às ruas novamente, dessa vez vestidos de preto.

A Chefe do Executivo de Hong Kong e apoiadora de Pequim, Carrie Lam, afirma que a medida de extradição seria necessária para fazer justiça no caso do homem de Hong Kong procurado pelo assassinato de sua namorada em Taiwan. Porém, o projeto tem despertado uma oposição imensa, com críticos insistindo que o Partido Comunista da China (PCC) o usaria para extraditar ativistas ou jornalistas dissidentes para a China continental. Em outras palavras, decorreria a abertura das comportas entre o sistema legal da China continental e de Hong Kong, possibilitando o sequestro de cidadãos de Hong Kong, com apoio do PCC.

A polícia respondeu aos protestos com força. Quando os manifestantes desencadearam um protesto sentado no dia 12 de junho, a data original para a segunda votação do PL, a polícia usou balas de borracha, cacetetes, spray de pimenta e gás lacrimogêneo para dispersá-los. Filmagens de manifestantes atingidos na cabeça por balas de borracha e jornalistas agredidos pela polícia vazaram para a internet. Para justificar a repressão, o governo de Hong Kong afirmou que as vítimas formavam um motim ilegal.

Ainda assim, apesar da brutalidade, os manifestantes permaneceram nas ruas, bloqueando o edifício do governo forçando Lam a ceder e suspender temporariamente o projeto de lei.

Depois disso, os manifestantes passaram a exigir que o governo de Hong Kong retrate sua caracterização dos protestos como motins e investigue o uso de força excessiva pela polícia.

Todo mundo sabe que há muito em jogo: um portal apelidou o movimento de “a última batalha de Hong Kong.

A história da mobilização de massa em Hong Kong

A população de Hong Kong nem sempre foi conhecida pela mobilização em massa. Por muita de sua história moderna, a ex-colônia britânica foi vista como politicamente apática e um ambiente “estritamente de negócios” – um refúgio para a economia de livre-mercado e uma cidadania desmobilizada.

Na década de 1980, dois eventos marcantes mudaram isso. O primeiro ocorreu em 1984, quando a Declaração Conjunta Sino-Britânica selou o destino da colônia de retornar ao domínio chinês. O segundo veio em 1989, quando o PCC massacrou estudantes e trabalhadores na Praça da Paz Celestial.

A política de “um país, dois sistemas” tinha sido introduzida no início dos anos 80, dando ao povo de Hong Kong um alto grau de autonomia em relação a Pequim. Parte do objetivo era garantir a proteção de suas liberdades civis. No entanto, após o massacre de 1989, a população de HK deixou de confiar na promessa de Deng Xiaoping de que teriam mais “cinquenta anos do antigo modo de vida.”

Certamente, Pequim começou a aumentar seu controle sobre Hong Kong depois da transferência administrativa, e a população começou a se mobilizar.

Em 2003, o governo pró-Pequim de Hong Kong tentou decretar o “Artigo 23”, um PL infame que proibia “traição, secessão, sedição, [e] subversão” contra o governo chinês. Meio milhão de pessoas protestaram e suas reivindicações foram atendidas. O projeto de lei foi retirado, e o líder do executivo, Tung Chee-Hua, se demitiu. Foi a primeira vez que o povo de Hong Kong sentiu o gosto de seu poder coletivo.

A manifestação também marcou o fim da lua de mel de Hong Kong com Pequim. Depois disso, os ataques à autonomia de Hong Kong se tornaram mais frequentes e intensos.

Em 2012, o governo introduziu um projeto de lei que inseriria “educação moral e nacional” no cerne curricular das escolas primárias e secundárias. Estudantes criticaram o material como rigidamente pró-Pequim, e uma coalizão estudantil, a “Escolarismo” iniciou ondas de protestos sentados, manifestações e campanhas de boicote.

Em 2014, a Revolução dos Guarda-chuvas explodiu em seguida a uma proposta que permitiria ao PCC pré-selecionar candidatos para o principal posto em Hong Kong — um ataque direto à sua autonomia e à sua democracia, já bastante limitada. Pessoas se espalharam pelas ruas e ocuparam estradas próximas à sede do governo e ao distrito comercial central. Os manifestantes permaneceram por setenta e nove dias, exigindo sufrágio universal em eleições para a chefia do Executivo. Dessa vez tiveram menos sucesso — Pequim se recusou a permitir que Hong Kong se tornasse uma democracia liberal plena. O chefe do Executivo permanece uma posição inelegível, e somente parte da legislatura responde à vontade dos eleitores.

As manifestações recentes são um reflexo do desejo da população de Hong Kong de manter os direitos democráticos que ainda possui. Porém, ao contrário de movimentos anteriores, os protestos contra a lei de extradição se destaca pela sua relativa espontaneidade e falta de liderança. Embora a veterana coalizão dissidente Frente Civil pelos Direitos Humanos tenha convocado manifestações em domingos, muitos dos protestos sentados e ocupações mais militantes foram organizados por trabalhadores e estudantes de pouca ou nenhuma experiência de organização política. De fato, mesmo a recente ocupação da delegacia de polícia foi convocada por internautas sem nenhuma afiliação política clara.

É exatamente esse clima de relativa liberdade política que o PL de extradição ameaça. Sob a proteção de seu atual sistema legal, os estudantes podem criticar um currículo hiper-nacionalista, os jornalistas podem proferir visões dissidentes e os ativistas podem se organizar sem medo de “abdução”. O PL de extradição mudaria tudo isso – se aprovado, já não seria seguro para a população de Hong Kong ir às ruas e expressar seu descontentamento.

A relação de Hong Kong com a China

Para se compreender o atual movimento anti-extradição, é importante dissecar a relação de Hong Kong com a China — algo muito mais complexo do que “liberdade versus autoritarismo.”

Hong Kong, ao contrário da maioria das ex-colônias do Ocidente, se saiu muito bem depois do período de domínio colonial – mas a transição foi planejada para que o resultado fosse esse.

Nas duas décadas que antecederam à entrega em 1997, o governo de Hong Kong sob domínio britânico instituiu uma série de reformas, do sistema de saúde à habitação, que melhoraram a vida do povo. Foi implementada uma legislação trabalhista para criar estabilidade para os trabalhadores; a produção recebeu incentivos para impulsionar a cadeia de valor; o inglês passou a ser ensinado nas escolas para dar à futura força de trabalho acesso ao mundo ocidental. O objetivo era melhorar drasticamente a qualidade de vida da população e ampliar a distância econômica do território em relação ao resto da China para dificultar o governo para o PCC.

O resultado foi a alienação econômica e cultural em relação à China. Em 1997, Hong Kong se destacava do resto do país como uma cidade internacional e uma potência financeira, representando o capitalismo ocidental contra o pano de fundo da China Comunista.

Dada essa História, é fácil enxergar os protestos anti-extradição como uma luta entre uma Hong Kong capitalista, ocidentalizada e uma China socialista, acometida pela pobreza e tentando se libertar de grilhões imperiais.

No entanto, desde a política de portas abertas de Deng no início dos anos 90, a China se transformou de um país em desenvolvimento para uma superpotência global.

Apesar de se intitular comunista, o PCC aplica o que seria descrito mais precisamente como “capitalismo com características chinesas” — um tipo de capitalismo de Estado onde o poder político é convertido em ganhos capitalistas. E como qualquer Estado capitalista, o PCC faz o que for preciso para manter o status quo. Com Xi Jinping no poder, o Estado chinês tem aumentado seu controle tanto sobre a China continental quanto Hong Kong.

Na corrida pelo domínio econômico global, Xi tem impulsionado o projeto multi-bilionário de infraestrutura conhecido como Iniciativa do Cinturão e Rota — plantando as sementes para o controle econômico de toda a África e América do Sul e sinalizando o desejo da China de disputar diretamente com os EUA. Contudo, apesar das ambições imperiais do PCC, eles vestem suas ações com a linguagem do anti-imperialismo. Apoiadores elogiam o país como um contrapeso ao império estadunidense. Da mesma forma, para enfraquecer as manifestações anti-extradição, o PCC tem se retratado como vítimas do imperialismo ocidental, sugerindo que os protestos de Hong Kong são fruto do trabalho de governos ocidentais.

Entretanto, não devemos cair em uma preguiçosa (e perniciosa) postura anti-chinesa. Se o PL de extradição for aprovado, os nacionalistas ocidentais se sentirão incentivados a aplicar mais pressão sobre a China. Os EUA já ameaçaram cancelar o status especial de comércio econômico de Hong Kong, que hoje lhe dá acesso preferencial aos mercados estadunidenses. Isso provocaria Pequim e prejudicaria os residentes de Hong Kong no processo.

Em meio à guerra econômica em andamento e à caracterização da china como bode expiatório pelos problemas da ordem econômica global, os manifestantes devem rejeitar não só o autoritarismo chinês e sua vazia narrativa anti-imperial, como também as agressões nacionalistas ocidentais.

A política do movimento

Não é por acaso que a expansão de Pequim em Hong Kong tem tomado a forma de uma invasão econômica.

Ano passado, o governo pró-Pequim em Hong Kong levou em frente a “Visão de Lantau do Amanhã,” um projeto de infraestrutura em larga escala e imobiliário e que está deve custar $63.8 bilhões (cerca de metade das reservas finais de HK). O governo afirma que o plano vai resolver a crise de habitação da cidade, mas o dinheiro provavelmente será canalizado diretamente para as empresas de construção chinesas que devem desenvolver o projeto.

A Área da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau, uma campanha econômica organizada por Pequim, é outro exemplo disso. O governo construiu uma mega-ponte que conecta Hong Kong à China continental e a Macau, ao custo de $20 bilhões de dólares. Para executar o projeto, o governo de Hong Kong foi forçado a cavar fundo em suas reservas financeiras para tornar a cidade um veículo ainda mais atraente para o dinheiro chinês.

Esses projetos beneficiam o capital chinês à custa do povo de Hong Kong — drenando dezenas de bilhões de dólares que poderiam ser gastos em iniciativas que de fato tornassem a cidade mais habitável para a população.

Geralmente, o governo autoritário da China está alinhado com os interesses da elite financeira de Hong Kong. No entanto, o PL de extradição expôs uma fissura surpreendente. Quando ela foi proposta em fevereiro deste ano, muitos membros das elites expressaram séria preocupação – mas sua oposição vem de um desejo de proteger sua própria riqueza — como deixado claro por sua apressada transferência de posses para outros países. Joseph Lau, um bilionário local, chegou ao ponto de pedir uma revisão judicial para desafiar o PL em março.

A rara oposição dos ultra-ricos de Hong Kong ao PL apoiado por Pequim pode sugerir que o movimento anti-extradição seja pró-capital por natureza — uma guerra por procuração entre a elite financeira de Hong Kong e o capital chinês —, mas esse não é o caso. No máximo, essas elites empresariais estão se surfando no suor e labuta dos manifestantes, compostos por estudantes, trabalhadores e cidadãos(as) comuns de Hong Kong.

Ainda assim, a visão política do movimento anti-extradição não é em hipótese alguma homogênea. Os dois protestos de domingo que quebraram recordes de comparecimento foram dominados por liberais. Os socialistas também ocuparam as ruas, embora em menor número. Muitos e muitos outros também compareceram, representando uma ampla extensão do espectro político. Porém, os mais notórios — e maiores em tamanho do que a esquerda em Hong Kong — têm sido os localistas de direita, conhecidos por menosprezarem a população da China continental e apoiarem políticas intolerantes em Hong Kong (exclusão de serviços públicos, leis de linguagem xenofóbica, etc.). O objetivo primário dos localistas é assegurar a independência de Hong Kong ou devolvê-la ao domínio britânico.

Os socialistas em Hong Kong se opõem às políticas xenofóbicas dos localistas. Em vez de virar as costas para os chineses, os socialistas exercem um papel ativo no apoio ao movimento trabalhista na China continental.

Devido ao controle estreito que o PCC exerce sobre o resto da China, membros de organizações chinesas dependem da esquerda de Hong Kong para reforçar seu movimento trabalhista. A autonomia e a proximidade do território com a China continental a tornam um espaço vital para conectar a força de trabalho censurada e hiper-oprimida na China ao resto da classe trabalhadora regional e global. Se o PL de extradição for aprovado, essa ligação crucial seria rompida. O esforço para construir uma classe trabalhadora progressista e transnacional seria severamente enfraquecido.

Embora os socialistas não tendo sido a maioria durante as manifestações deste mês, eles têm desempenhado um papel crucial em dar forma ao movimento e oferecer uma alternativa à narrativa hegemônica. Ao contrário dos liberais, os grupos socialistas têm apoiado táticas mais militantes, incluindo protestos sentados, bloqueios de estradas e a ocupação do gabinete central do governo.

Os grupos socialistas também têm construído alianças com os trabalhadores durante o movimento. Nos dias 12 e 17 de junho, eles apoiaram trabalhadores que urgiam os seus sindicatos pela organização de uma greve geral — a primeira vez que a ideia de uma greve generalizada por toda a cidade entrou nas discussões populares em Hong Kong.

As manifestações anti-extradição têm ressoado com muita gente em Hong Kong. Embora os manifestantes ainda estejam nas ruas, o projeto de lei foi suspendido temporariamente, e muitos cidadãos sentiram que sua voz foi ouvida. No entanto, conforme a China segue avançando sobre as liberdades civis e a autonomia legal do território, os grupos socialistas em Hong Kong precisam assumir a liderança no contra-ataque — e na construção de um movimento anticapitalista, anti-xenofobia que possa enfrentar não apenas o governo autoritário chinês, mas também as elites empresariais de Hong Kong.

Sobre os autores

JS Chen é membro da Coalizão de Trabalhadores de Tecnologia no Nordeste dos EUA.

Sherry Yuen-Yung Chan é uma escritora de Hong Kong e doutoranda em Sociologia na Universidade de Wisconsin-Madison.

22 de agosto de 2019

Abaixo do piso

Abaixo do piso, há a barbárie anunciada por Drauzio Varella

Laura Carvalho


Bandeira do Sistema Único de Saúde (SUS) hasteada ao lado da bandeira do Brasil em frente ao Ministério da Saúde, em Brasília. (Pedro Ladeira/Folhapress)

Poucos brasileiros sabem que o Brasil é o único país com mais de 100 milhões de habitantes que ousou levar assistência médica gratuita a toda a população”, esclareceu Drauzio Varella em sua excelente coluna no domingo (18).

Ao ressaltar o tremendo avanço civilizatório que representou a criação do SUS, Drauzio acabou colocando o dedo na ferida do debate sobre o tamanho do Estado brasileiro e a qualidade de nossos serviços públicos. Será que somos mesmo tão ineficientes quanto sugerem as comparações baseadas no tamanho de nossa carga tributária?

“Falamos com admiração dos sistemas de saúde da Suécia, da Noruega, da Alemanha, do Reino Unido, sem lembrar que são países pequenos, ricos (...). Sem menosprezá-los, garantir assistência médica a todos em lugares com essas características é brincadeira de criança perto do desafio de fazê-lo num país continental, com 210 milhões de habitantes, baixo nível educacional, pobreza, miséria e desigualdades regionais e sociais de dimensões das nossas”, completou dr. Drauzio.

Quando medida em relação ao PIB, a carga tributária brasileira chegou a 33,58% em 2018, nos colocando acima dos outros países da América Latina e muito próximos da média dos países da OCDE, que foi de 34,2% do PIB em 2017. O Reino Unido, por exemplo, arrecadou um pouco menos —33,3% do PIB— e certamente ofereceu serviços melhores à população.

São muitos os que utilizam esses números —em geral, sem nunca ter precisado usar um serviço público sequer— para afirmar que o Estado brasileiro drena um enorme volume de recursos da população sem oferecer nada em troca. Nesse caso, fixar um teto que impeça o aumento real dos gastos públicos —reajustando-os apenas pela inflação, como prevê a PEC 241/55— parece uma ótima saída para acabar com o desperdício. Se o PIB crescer e os gastos ficarem parados no mesmo lugar, reduziremos rapidamente o tamanho do Estado brasileiro para o de países como Colômbia, Equador e Peru.

Falta apenas combinar com o conjunto da sociedade, que em 1988 optou justamente por fugir à regra dos países com nível de renda similar ao nosso ao oferecer serviços públicos universais e gratuitos de saúde e educação e uma rede de proteção social em um país continental com 210 milhões de habitantes e níveis abissais de desigualdade.

Ninguém nega que haja ineficiências e distorções na forma como o Estado brasileiro organiza e realiza seus gastos, mas, se calculamos a arrecadação total de impostos em relação à população do país (em vez de como proporção do PIB), notamos que os países da OCDE têm, em média, a seu dispor, um valor 4,4 vezes maior de dólares do que o Brasil para gastar com cada habitante.

Segundo dados da OCDE, a carga tributária per capita brasileira era de US$ 3.209 em 2017, ante US$ 13.234 por habitante no Reino Unido, por exemplo. Na Noruega, esse valor chega a US$ 28.943.

É evidente que os salários de médicos e professores e outros custos associados à provisão de serviços públicos (que não incluem equipamentos e medicamentos importados, por exemplo) também são menores aqui. Mas não ao ponto de explicar uma diferença de tal magnitude.

O problema não é, portanto, o tamanho de nossa carga tributária, dada a nossa escolha quando da Constituinte por um Estado de bem-estar social, e sim sua distribuição injusta, que acaba praticamente anulando o efeito redutor de desigualdades dos gastos sociais e transferências —tema que, aliás, passa longe da atual discussão de reforma tributária no governo e no Congresso.

Como afirmou o próprio ministro Paulo Guedes nesta quarta-feira (21), o objetivo do governo não é “subir o teto de gastos”, é “quebrar o piso”. E, abaixo do piso, sabemos o que tem: a barbárie anunciada por Drauzio Varella.

Sobre o autor

Professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, autora de "Valsa Brasileira: do Boom ao Caos Econômico".

19 de agosto de 2019

Recessões, flexibilização monetária e estímulo fiscal

Michael Roberts


Tradução / À medida que as bolsas de valores do mundo giram para cima e para baixo como um ioiô, toda a conversa na mídia financeira é sobre se uma nova recessão global está chegando e quando. Os analistas financeiros buscam indicadores econômicos ou financeiros que possam orientá-los. O favorito é a "curva de rendimento invertida". Esta é a diferença na taxa de juros anual que você obtém se comprar um título do governo que tenha uma vida útil de dez anos (o vencimento antes de receber o reembolso) e a taxa de juros para comprar um título de três meses ou de dois anos.

A curva das taxas de juros para títulos com vencimentos diferentes é normalmente para cima, significando que se você emprestar ao governo seu dinheiro (ou seja, comprar um título do governo) por dez anos, normalmente esperaria obter uma taxa de juros mais alta do que se emprestasse o dinheiro ao governo por apenas três meses. Mas, às vezes, no mercado de compra e venda de títulos do governo (o "mercado secundário"), o rendimento dos títulos de dez anos fica abaixo do título de dois anos ou mesmo de três meses. Então você tem uma curva de juros invertida.

Por que isso acontece? O que sugere é que investidores em ativos financeiros (que são bancos, fundos de pensão, empresas e fundos de investimento) estão tão preocupados com a economia que não querem mais manter ações ou títulos de empresas (ou seja, investir ou emprestar dinheiro). É muito arriscado e, por isso, os investidores preferem manter ativos muito seguros, como títulos do governo - já que os governos da Alemanha, do Japão, dos EUA ou do Reino Unido não vão estourar como uma empresa ou banco.

Se os investidores comprarem mais títulos do governo, eles elevarão o preço desses títulos no mercado. O governo paga juros fixos anuais sobre esse título até que ele amadureça, então se o preço do título continuar subindo, o rendimento desse título (isto é, taxa de juros / preço do título) continua caindo. E aí a curva de rendimento de títulos pode se inverter. Evidências empíricas mostram que toda vez que isso acontece por um período suficiente (alguns meses), dentro de um ano, uma recessão econômica se segue.

Quão confiável é este indicador de uma recessão? Dois autores da Bloomberg questionaram a validade do rendimento invertido como causa; pode ser que uma curva invertida se correlacione com recessões, mas isso não é uma confirmação de que outra recessão está a caminho, porque tudo o que mostra é que os investidores estão com medo da recessão e podem estar errados. De fato, quando você olha para títulos corporativos, não há curva invertida. Os títulos corporativos de prazo mais longo têm um rendimento muito maior do que os títulos de curto prazo.

Por outro lado, os economistas do JP Morgan recentemente fizeram algumas regressões na curva de rendimento invertida e calcularam que a inflação muito baixa que a maioria das principais economias experimentou no período da Grande Recessão pode ter alterado a confiabilidade do indicador até certo ponto, porque o curva de rendimento poderia até estabilizar, mas não realmente expressar o medo do investidor e aversão às ações. Mesmo assim, o JP Morgan ainda acreditava que era um indicador valioso. Atualmente, as curvas de rendimento dos títulos dos EUA (10 anos-3 meses) e (10 anos-2 anos) inverteram-se. E como você pode ver no gráfico JPM abaixo, que toda vez que isso aconteceu antes, uma recessão se seguiu (as áreas cinzas) dentro de um ano.


O JP Morgan calcula com base nisso que a probabilidade atual de uma queda na economia dos EUA dentro de um ano é de cerca de 40-60%.


E isto se refere aos EUA, a economia capitalista com melhor resultado econômico do G7, com um crescimento real do PIB de cerca de 2,3%. Em todos os outros lugares do G7, na Europa, na Ásia e também em muitas das chamadas economias emergentes, o crescimento econômico está caindo rapidamente para zero e abaixo. Olhe para esta lista: Canadá: 1,3%; França 1,3%; Japão 1,2%; UK 1,2%; Rússia 0,9%; Brasil 0,5%; Alemanha 0,4%; Itália 0,0; México -0,7%; Turquia -2,6%; Argentina -5,8%. Somente a China, a Índia e a Indonésia podem registrar taxas de crescimento decentes e, mesmo aqui, há uma desaceleração rápida.

Relatei anteriormente sobre os índices de atividade de manufatura e indústria que mostram que o mundo já está em uma recessão no setor manufatureiro e apenas "setores de serviços" como saúde, educação, turismo, etc. estão mantendo a economia mundial em movimento. Mas esses setores dependem, em última análise, da saúde dos setores produtivos de uma economia capitalista para suas vendas e lucros.


Em algumas das principais economias, existe o chamado pleno emprego, pelo menos nas estatísticas oficiais, mesmo que seja temporário, a tempo parcial, por conta própria e em níveis salariais básicos. Essa renda do emprego ajuda a manter os gastos, mas em muitos países isso não é suficiente, de modo que a poupança das famílias está sendo derrubada. Por exemplo, no Reino Unido, a taxa de poupança das famílias está em um mínimo de 50 anos. Assim, as pessoas não podem continuar tomando empréstimos indefinidamente, mesmo que as taxas de juros sejam muito baixas.

E eles são baixos! Estamos agora no mundo de fantasia das taxas de juros negativas, onde os mutuários são pagos para tomar emprestado e os credores pagam para emprestar. Na Dinamarca, um credor hipotecário está oferecendo empréstimos a -0,1%, em outras palavras, está pagando você para fazer uma hipoteca! Mais de 20% de todo o governo e até mesmo alguns títulos corporativos têm taxas de juros negativas. Todo o espectro de títulos do governo alemão de dois anos a 30 anos tem taxas de juros negativas se você comprá-los. Então, vendedores de títulos (mutuários) podem esperar que você, o credor, pague juros a eles para comprar seus títulos!

Então, por que os investidores em títulos estão preparados para fazer isso? Como eu disse, é porque eles temem uma recessão global que causará um colapso nos mercados de ações e outros ativos financeiros "arriscados", então o lugar mais seguro para colocar seu dinheiro é com governos (que não quebram) como os EUA, Reino Unido, Japão, Alemanha e Suíça.

Se uma recessão está chegando, o que pode ser feito para evitá-la? A economia mainstream e keynesiana tem basicamente duas soluções políticas. O primeiro é injetar mais dinheiro no sistema financeiro na esperança de que pilhas de dólares, euros e ienes cheguem aos cofres dos tomadores de empréstimos corporativos, que continuarão investindo em empregos e máquinas; ou em famílias que continuarão gastando.

A maneira "convencional" de fazer isso era os bancos centrais das principais economias reduzirem sua “política” taxa de juros, o que levaria a uma queda nas taxas e, assim, reduziria o custo dos empréstimos. Mas a experiência dos últimos dez anos do que chamo de Longa Depressão revela que isso não funciona. O investimento permaneceu baixo em proporção ao PIB, os salários estagnaram e o crescimento econômico foi fraco.

Assim, os governos e os bancos centrais recorreram a uma "política monetária não convencional", na qual os bancos centrais compram bilhões de títulos públicos e privados (até mesmo ações de empresas) de bancos comerciais. Isso é chamado de flexibilização quantitativa (QE). Isso levou a um enorme aumento nas reservas bancárias. Os bancos deveriam emprestar esse dinheiro para as empresas investirem. Mas não funcionou. As empresas não tomaram empréstimos para investir. Eles eram tão ricos em dinheiro como a Amazon ou a Microsoft que não precisavam pedir emprestado ou serem tão fracos que os bancos não emprestassem a eles. Assim, todo esse dinheiro acabou sendo investido em ações e títulos (o que Marx chamou de capital fictício, ou seja, apenas reivindicações sobre lucros ou juros futuros, não lucros reais ou juros). Os mercados financeiros dispararam, mas a economia "real" estagnou.

A política monetária falhou, seja convencional ou não convencional. Os bancos centrais têm "esticado a corda". Isso foi algo que Keynes encontrou também durante a Grande Depressão dos anos 1930. Sua proposta de política para obter pleno emprego e acabar com a depressão no início da década de 1930 foi primeiro cortes convencionais na taxa de juros e, em seguida, QE não convencional. Em 1936, quando ele escreveu sua grande obra, The General Theory, ele anunciou o fracasso da política monetária.

E assim está sendo desta vez. Economistas do mainstream, incluindo keynesianos como Paul Krugman, inicialmente defenderam injeções monetárias maciças para impulsionar as economias. O governo do Japão até convidou Krugman e outros para Tóquio para aconselhá-los sobre o QE. O governo e o Banco do Japão adotaram o QE como uma vingança, tanto que o BoJ comprou virtualmente todos os títulos do governo disponíveis no mercado - mas sem sucesso. O crescimento continua fraco, a inflação está próxima de zero e os salários estagnados.

Os bancos centrais ficaram sem ideias. E os investidores sabem disso. É por isso que os rendimentos dos títulos são negativos e nos EUA a curva de rendimento inverteu-se. Mas não há mais nada que os bancos centrais possam fazer, a não ser reduzir as taxas de juros, onde elas ainda não são zero, e trazer ainda mais QE.

Alguns economistas radicais não desistiram da política monetária. Alguns estão defendendo o "dinheiro do helicóptero" (batizado em homenagem ao economista militante de direita Milton Friedman, que defendia o desvio do sistema bancário e a emissão de dinheiro diretamente para as famílias gastarem, ou seja, enviar helicópteros pelo país com dólares - não napalm como no Vietnã ). Este "dinheiro das pessoas" é o último recurso da solução de política monetária.

Os mais perspicazes dos economistas do mainstream agora reconhecem que o afrouxamento monetário não funcionará. O Financial Times e até mesmo o Wall Street Journal estão destruindo essa política. E os keynesianos que defendiam isso antes reconhecem seu fracasso. Tomemos este exemplo por Edward Harrison, um assessor financeiro macroeconômico:

“Eu acho que a política monetária é ineficaz. Nós nem sabemos como funciona. Claro, política de taxa pode ajudar em conjunturas críticas no ciclo de negócios, reduzindo os pagamentos de juros quando os devedores estão sob estresse. Mas atingimos os limites do que os bancos centrais podem fazer. Como resultado, recorremos à flexibilização quantitativa, taxas de juros negativas e controle da curva de juros. E para quê? É louco. A solução está nos encarando: ajude a colocar dinheiro nos bolsos das pessoas que estão enfrentando o estresse financeiro mais severo em nossas economias. Essas são as pessoas que mais precisam do dinheiro e são mais propensas a gastar esse dinheiro também. Até que façamos isso, a pressão sobre nosso sistema econômico e financeiro continuará a crescer... e a agitação política continuará a crescer com isso. ”

Harrison cita o trabalho empírico de sua própria faculdade que mostra que a política monetária não funciona - como Keynes descobriu nos anos 1930. “Por exemplo, pesquisadores econômicos da minha alma mater Dartmouth escreveram isso em 2013 como o resumo para um estudo econômico:

“Estudamos os fatores que impulsionam o investimento corporativo agregado de 1952 a 2010. O investimento trimestral responde fortemente aos lucros anteriores e aos retornos das ações, mas, ao contrário das previsões padrão, não está relacionado, em grande parte, às mudanças nas taxas de juros, à volatilidade do mercado ou ao spread padrão dos títulos corporativos. Ao mesmo tempo, o alto investimento está associado ao baixo crescimento dos lucros daqui para frente e aos baixos retornos trimestrais das ações quando os dados de investimento são divulgados publicamente, sugerindo que os altos investimentos resultam em investimento excessivo. Nossa análise também mostra que o declínio do investimento após a crise financeira de 2008 representa uma resposta bastante típica às mudanças nos lucros e no PIB no final de 2008, em vez de uma reação incomum a problemas nos mercados de crédito.”

E ele cita o trabalho do Federal Reserve dos Estados Unidos que concluiu que: “Um princípio fundamental da teoria do investimento e a teoria tradicional da transmissão da política monetária é que os gastos de investimento das empresas são afetados negativamente pelas taxas de juros. No entanto, um grande corpo de pesquisa empírica oferece evidência mista, na melhor das hipóteses, de um efeito substancial da taxa de juros sobre o investimento. Neste artigo, examinamos a sensibilidade dos planos de investimento às taxas de juros usando um conjunto de perguntas especiais feitas por CFOs na Pesquisa Global de Perspectivas de Negócios realizada no terceiro trimestre de 2012. Entre as mais de 500 respostas às perguntas especiais, descobrimos que a maioria das empresas afirma ser bastante insensível a reduções nas taxas de juros, e apenas ligeiramente mais sensível aos aumentos das taxas de juros.”

Eu citei este artigo que Harrison menciona em várias ocasiões neste blog antes de falar sobre ele. Mas Harrison encoraja o texto do artigo sobre como as taxas de juros têm pouco efeito sobre o investimento das empresas. Mas ele ignora a outra conclusão chave no artigo citado. Cito novamente com minha ênfase agora: “Investimento trimestral responde fortemente a lucros anteriores e retornos de ações, mas, ao contrário das previsões padrão. ... Nossa análise também mostra que a queda do investimento após a crise financeira de 2008 representa uma resposta bastante típica às mudanças lucros e PIB no final de 2008, em vez de uma reação incomum a problemas nos mercados de crédito.”

Em outras palavras, o que impulsiona as economias capitalistas e a acumulação de capital são mudanças nos lucros e na lucratividade - de fato, é o que o documento citado mostra. E há uma pilha de outras evidências empíricas que confirmam essa relação, que abordei em vários artigos. O nexo entre lucro e investimento. O crescimento econômico em uma economia capitalista é impulsionado não pelo consumo, mas pelo investimento empresarial. Esse é o fator de oscilação que causa booms e quedas nas economias capitalistas. E o investimento empresarial é impulsionado principalmente por uma coisa: lucros ou lucratividade - não taxas de juros, não confiança e não demanda do consumidor. É essa explicação simples, óbvia e empiricamente confirmada de booms e recessões regulares e recorrentes que é ignorada ou negada pela economia mainstream (incluindo keynesiana) e heterodoxa pós-keynesiana.

Tome esta explicação alternativa de recessões oferecida recentemente pelo ex-economista do Banco da Inglaterra Dan Davies. Davies nos diz que “os colapsos financeiros não são a forma usual de recessões, e as linhas de crédito de emergência e os resgates dos contribuintes não são a forma usual de impedir ou administrar. O que normalmente acontece é que há algum tipo de choque na confiança empresarial - digamos, incerteza política ou restrições comerciais, como estamos vendo no momento - e as empresas reagem a isso cortando os planos de investimento. “De acordo com Davies,“ a recessão ortodoxa keynesiana, desacompanhada de uma crise no mercado financeiro, é o tipo normal - e um dos problemas mais bem compreendidos na política econômica. ” Realmente, melhor compreendido?

Portanto, essa explicação keynesiana é que há uma súbita perda de confiança nos negócios causada por algum fator externo, como uma guerra comercial ou um governo em queda ou uma guerra. Não há nada endogenamente errado com o processo capitalista de produção e investimento para o lucro. A ideia de "choques" para um sistema de equilíbrio inerente é a macro visão geral, em essência. Ela gerou toda uma indústria de trabalho empírico baseado em modelos de Equilíbrio Geral Estocástico Dinâmico (DSGE), que é uma expressão inteligente para ver o que acontece a uma economia quando um 'choque' externo como uma perda repentina de confiança 'ou tarifas comerciais é aplicado. Larry Summers, um importante guru keynesiano, criticou os modelos DSGE: “Em quatro anos de reflexão e envolvimento bastante intenso com esta crise financeira, nem um único aspecto do equilíbrio geral estocástico dinâmico vale um pensamento passageiro.” Ele queixou-se: “É sobre macro - como foi pensado antes de Keynes, e veio a ser pensado novamente - flutuações cíclicas sobre uma tendência determinada em outro lugar, ... inserir outro atrito em um modelo DSGE não nos levará até lá."

Essa explicação keynesiana ortodoxa das recessões não explica nada. Por que há uma perda repentina de confiança nos negócios, como estamos vendo agora? Como uma perda repentina explica quedas regulares e recorrentes e booms, não choques pontuais? Davies argumenta que a Grande Recessão foi excepcional na medida em que a enorme queda foi causada por um choque financeiro extremo que não se repetirá, já que quedas "normais" são apenas "choques contingentes".

No entanto, a teoria e a evidência são de que a acumulação e a produção capitalistas avançam em uma sucessão de altos e baixos ou magnitude e comprimento variáveis de acordo com o movimento da lucratividade do capital culminando regularmente em um colapso dos lucros, derrubando o investimento, emprego, renda e consumo nessa ordem.

Na década de 1930, quando Keynes percebeu que a flexibilização monetária não estava funcionando para acabar com a depressão, ele optou pelos gastos do governo (investimento) através da execução de déficits orçamentários para estimular a "demanda efetiva" e obter investimento e consumo em uma tendência crescente. Essa política tornou-se conhecida como keynesiana, adotada também por pós-keynesianos mais radicais e, em sua última versão, Moderna Teoria Monetária (MMT). Os keynesianos consideram que as economias capitalistas podem ser retiradas das recessões por governos que tomam mais empréstimos do que recebem nas receitas tributárias (executando déficits orçamentários). Os governos tomam emprestados, fazendo com que as instituições financeiras comprem seus títulos.

Os pós-keynesianos e MMTers, mais radicais, acham que nem mesmo é necessário emitir títulos para esse fim. Os governos podem simplesmente imprimir o dinheiro e depois gastá-lo em projetos úteis. Mas todos concordam que a "flexibilização fiscal" é a resposta para restaurar o crescimento, o investimento, o emprego e os rendimentos numa economia capitalista. O governo empresta ou imprime dinheiro e os capitalistas e trabalhadores gastam. Uma vez que o crescimento seja restaurado e o pleno emprego e a renda crescente sejam alcançados, qualquer serviço da dívida pode ser financiado e você pode desligar o dinheiro do governo e moderar qualquer possível inflação se a economia estiver "superaquecendo".

O problema com essa opção política é que vivemos em uma economia capitalista onde as decisões de investimento que impulsionam qualquer economia são feitas por empresas capitalistas. A menos que o governo tome essas decisões de investimento e passe por cima do setor capitalista ou o substitua por operações estatais em um plano (como na China, por exemplo), então o investimento e o crescimento dependerão das decisões das empresas capitalistas. E elas só investem se tiverem confiança em obter bons lucros, ou seja, a rentabilidade do investimento seja alta e crescente.

A história da Grande Depressão dos anos 1930 mostra; e o colapso das políticas keynesianas de gestão de demanda nos anos 1970 mostra; e a história da Longa Depressão desde 2009 mostra que, se a lucratividade das empresas for baixa e, especialmente, se cair, nenhuma quantia de estímulo fiscal gerará mais investimento e crescimento mais rápido.

Eu e outros apresentamos uma pilha de evidências empíricas para mostrar que os gastos do governo têm pouco ou nenhum impacto na promoção do crescimento econômico ou do investimento global - o montante é pequeno demais para ter impacto (a média do investimento do governo é de apenas 2-3% do PIB na maioria das economias capitalistas, em comparação com 15-20% do PIB para o investimento do setor capitalista). Ou a maior parte dos gastos do governo nas economias capitalistas são realmente doações para empresas capitalistas ou para aumentar o bem-estar com pouco resultado produtivo.


Não acredite em mim? Então veja as evidências aqui. Considere o Japão - ele gerou déficits orçamentários entre 3% e 10% do PIB por quase 20 anos e, ainda assim, sua taxa de crescimento foi ainda menor que a dos EUA ou da Europa.


Os cortes nos impostos de Trump aumentaram o déficit orçamentário dos EUA nos últimos dois anos e avançaram - Trump está seguindo as políticas keynesianas nesse sentido - e, no entanto, os EUA estão agora desacelerando rapidamente. Projeta-se que os EUA gerem um déficit orçamentário primário (que exclui o custo dos juros sobre a dívida) no futuro previsível. Os keynesianos realmente esperam que a economia dos EUA cresça mais rápido como resultado?

Projeções do orçamento dos EUA


Embora a curva de rendimentos invertida possa ser verificada diariamente, ela pode não ser um indicador útil de uma recessão próxima, mas a queda dos lucros é (infelizmente, os dados de lucros são na maior parte trimestrais). Estudos empíricos mencionados por Harrison acima e muitos outros confirmam isso. E os lucros corporativos globais estão agora estagnados; enquanto os lucros corporativos não financeiros dos EUA estão caindo.



Soluções monetárias e fiscais para recessões que ainda preservam o sistema capitalista lucrativo não funcionarão. O afrouxamento monetário falhou, como aconteceu antes. A flexibilização fiscal, quando adotada, também falhou. De fato, o capitalismo só pode sair de uma recessão pela própria recessão. Uma recessão eliminaria as empresas capitalistas mais fracas e demitiria trabalhadores improdutivos. O custo de produção cai então e as empresas que saírem após a queda têm maior rentabilidade como incentivo ao investimento. Essa é a recessão "normal". Em uma depressão, no entanto, esse processo requer várias quedas (como na depressão do final do século 19) antes que o serviço normal seja retomado. Outra recessão está a caminho e nem medidas monetárias nem fiscais podem impedi-la.

Sob o "escudo" de mísseis nucleares dos EUA na Europa

Manlio Dinucci

Il Manifesto

Tradução / A instalação de mísseis da OTAN em Deveselu, na Romênia, que faz parte do sistema Aegis americano, de “defesa anti-mísseis”, terminou a “atualização” que começou em abril passado.

Comunica a OTAN, assegurando que “não conferiu nenhuma capacidade ofensiva ao sistema”, que o mesmo “permanece puramente defensivo, concentrado em ameaças potenciais provenientes do exterior da área euro-atlântica”.

A unidade de Deveselu está dotada (de acordo com a descrição oficial) com 24 mísseis, instalados em lançadores verticais subterrâneos, para a interceptação de mísseis balísticos de curto e médio alcance. 

Outro local, que ficará operacional em 2020, na base polaca de Redzikowo, também será equipado com este sistema. Lançadores do mesmo tipo estão a bordo de quatro navios da Marinha dos EUA que, localizados na base espanhola de Rota, navegam no Mediterrâneo, no Mar Negro e no Mar Báltico.

A própria instalação dos lançadores mostra que o sistema é dirigido não contra a “ameaça iraniana” (como declaram os EUA e a OTAN), mas, principalmente, contra a Rússia. Que o designado “escudo” não é “puramente defensivo”, explica a própria indústria de guerra que o produziu, a Lockheed Martin. Ela documenta que o sistema é “projetado para instalar qualquer tipo de míssil em qualquer tubo de lançamento”, portanto, está adaptado para “qualquer missão de guerra”, incluindo “ataque a alvos terrestres”. 

A Lockheed Martin especifica que os tubos de lançamento maiores, podem lançar “mísseis maiores, como os de defesa contra mísseis balísticos e os destinados a ataques de longo alcance”. 

Assim, admite, fundamentalmente, que as instalações na Romênia e na Polônia e os quatro navios do sistema Aegis podem ser armados não só com mísseis anti-mísseis, mas também com mísseis de cruzeiro Tomahawk com ogivas nucleares capazes de atingir alvos a milhares de quilômetros de distância.

Como documenta o Serviço de Pesquisa do Congresso (24 de julho de 2019), os quatro navios dos EUA que “operam em águas europeias para defender a Europa de potenciais ataques de mísseis balísticos” fazem parte de uma frota de 38 navios Aegis, que em 2024, aumentarão para 59.

No ano fiscal de 2020, é atribuído 1,8 bilhões de dólares para atualizar esse sistema, incluindo os instalados na Romênia e na Polônia. Outras instalações terrestres e navios do sistema Aegis serão instalados não só na Europa contra a Rússia, como também na Ásia e no Pacífico contra a China.

De acordo com os planos, o Japão instalará no seu território dois mísseis fornecidos pelos EUA; a Coreia do Sul e a Austrália, irão adquirir navios eUA do sistema Aegis. 

Mais ainda, nos três meses em que o equipamento de Deveselu foi levado para os EUA para ser “atualizado”, foi colocada na instalação da Romênia, uma bateria de mísseis móveis Thaad do Exército dos EUA, capaz de “derrubar um míssil balístico tanto dentro, como fora da atmosfera”, mas também capaz de lançar mísseis nucleares de longo alcance. Reposto em funcionamento o sistema Aegis – comunica a OTAN - o Thaad foi “retirado”. Não especifica para onde. Sabe-se, no entanto, que os militares dos EUA instalaram baterias de mísseis deste tipo, de Israel para a ilha de Guam, no Pacífico.

À luz destes fatos, no momento em que os Estados Unidos destroem o Tratado para instalar mísseis nucleares de médio alcance perto da Rússia e da China, não espanta o anúncio - feito em Moscou pelo Senador Viktor Bondarev, Chefe da Comissão de Defesa – que a Rússia instalou bombardeiros de ataque nuclear Tu-22M3 na Crimeia. 

No entanto, quase ninguém está preocupado, porque na Itália e na União Europeia tudo isto é ocultado pelo aparelho político-midiático.

17 de agosto de 2019

O que é democracia?

A cineasta Astra Taylor sobre seu mais recente documentário, a relação entre democracia e liberdade, e por que a última rodada de livros sobre a erosão das normas "simplesmente não é muito boa".

Uma entrevista com Astra Taylor

Entrevistada por Micah Uetricht


A colina da Acrópole e o Partenon, visto do monte Lycabettus, em 8 de julho de 2015, em Atenas, Grécia. (Christopher Furlong / Getty Images)

Tradução / No início deste ano, no Gene Siskel Film Center, em Chicago (EUA), a escritora e cineasta Astra Taylor conversou com Micah Uetricht, editor de Jacobin, sobre seu novo filme, o documentário What Is Democracy? (O Que É Democracia?). Confira a a entrevista.

Nesta ampla discussão, Taylor reflete sobre a relação entre democracia, igualdade e liberdade, o último um conceito que ela diz que a esquerda “quase abandonou”; populismo de direita, particularmente a conceituação da direita da relação entre capitalismo e democracia; e a tensão entre o enraizamento no local e o pensamento no nível macro e os perigos de não levar a sério o poder do transnacional.

A transcrição foi editada para maior clareza e concisão.

Micah Uetricht: Existem vários temas que se repetem no seu filme. Um, que é citado apenas uma vez, mas está presente em todo o filme, é a questão da liberdade positiva e negativa na democracia. Na definição clássica - Wendy Brown fala sobre isso no filme –, as liberdades negativas são “livres de”, das imposições do Estado, digamos, e liberdade positiva é “liberdade para”, liberdade para ter suas necessidades satisfeitas, etc.

Você pode falar sobre isso? Por um lado, a liberdade positiva nos EUA, com a ascensão do socialismo, é algo cada vez mais falado de forma como nunca foi antes, mas por outro lado, é liberdade negativa – vemos refugiados presos nesses campos ou um negro de 19 anos falando sobre a liberdade de ser morto pela polícia. Ambas as coisas são centrais sobre como as pessoas falam de democracia em seu filme.

Astra Taylor: O discurso da liberdade foi sequestrado pela direita nos EUA. É um conceito que a esquerda quase abandonou e deixou para a direita. Então, pareceu importante abordá-lo. Perguntei a muita gente o que é democracia, e a maioria das pessoas disse que é “liberdade”.

Fiquei realmente impressionada com o fato de que ninguém disse que é igualdade. Finalmente, depois de uma sessão de perguntas e respostas em minha cidade natal, Atenas, na Geórgia (EUA), alguém disse que a liberdade era igualdade. Queria abordar questões fundamentais da filosofia política, e esse conceito positivo de liberdade é inestimável. Liberdade e igualdade não estão em desacordo com a maneira como nos é dito há muito tempo. Somente reunindo-se em condições de igualdade e colaborando é que podemos ser livres como comunidade. Isso é algo que eu queria demonstrar. Mas, quando você fala com as pessoas sobre suas experiências – e parte deste filme foi um exercício de conversar com as pessoas e ouvir o que disseram –, elas estavam preocupadas com o que você descreveu como liberdade negativa. Não querem ser mortos, não querem ser oprimidos, não querem ser dominados. E havia algumas que responderam com a pergunta “por que você misturou essa questão da democracia e como nos governamos com essas questões de como sobreviver?”.

Micah Uetricht: Você mistura isso, o que as pessoas que estão falando no filme.
Astra Taylor: Vivemos em uma sociedade onde uma grande parte das pessoas não têm US$ 400 para uma emergência médica. É neste ponto em que as pessoas estão.

Micah Uetricht: Mas também há no filme, por exemplo, uma eleitora de Trump num comício na Carolina do Norte. Você pergunta o que é democracia e ela responde: “Realmente me importo muito com essa palavra, mais preocupada com o sonho americano e sendo capaz de avançar.” Ela está falando de liberdade positiva. Ou até mesmo o refugiado afegão, você pergunta a ele: “E a liberdade?”. E ele diz: “Liberdade para quê?”. Ele está em um campo de refugiados e diz: “Não, minha liberdade precisa incluir esse elemento positivo”.

Astra Taylor: Sua resposta de que liberdade é justiça é realmente poderosa e simples. Você sabe, a mulher, a apoiadora de Trump, sua resposta foi tão concisa e sua visão do sonho americano – ela mudou a maneira como eu pensava sobre as fronteiras também. Percebi através dela que, sim, não apenas manter as pessoas fora, mas também acumular oportunidades, recursos, em um tempo de escassez. Mas foi também interessante o consenso dos anos 90, de que capitalismo e democracia caminham juntos. No entanto, esse grupo de simpatizantes do Trump – republicanos universitários – disse: “Não, precisamos nos livrar da democracia porque entendemos que é uma ameaça ao nosso status”. Foi no dia seguinte à eleição, e eles disseram que precisávamos do colégio eleitoral, precisamos da regra da minoria. Esqueça essa velha retórica: “Sim, o capitalismo, democrático, vai levantar a todos”. Em vez disso, foi: “Não, o capitalismo deixa o melhor subir ao topo”. Eles me disseram: “Você mora em Nova York? Bem, uma fossa liberal, e precisamos colocar restrições nesses centros metropolitanos muito povoados”. Sinto-me como uma mudança conceitual – não fiz pesquisa empírica, mas quão difundida é essa? Essa mudança de jovens conservadores para dizer: “Vamos esquecer essa retórica democrática. Não precisamos disso. Sabemos do que precisamos e precisamos ser muito complacentes em nossas estratégias minoritárias”.

Micah Uetricht: Como você disse, há pessoas argumentando que, neste momento de escassez, ocorrem muitas conversas sobre acumular recursos. Assim, mesmo que você associe a direita com esse aspecto negativo da liberdade, um estilo de “necessidade de pisar em mim”, de se aproximar da liberdade, mesmo assim de um ângulo positivo, “precisamos de coisas para ser livres”.

Astra Taylor: Sim, mas é aí que está a besteira – pise em mim, mas me dê dedução da hipoteca, me dê todas essas formas de apoio estatal e ação afirmativa dadas para pessoas brancas de classe média. Sempre foi retórico.

O que está no coração do populismo de direita se espalhando pelo mundo? Não é “Rah, Rah, neoliberalismo de mercado livre”; é “batam abaixo dos ovos.” Uma coisa que você não fala no filme é a forma como muitos liberais nos EUA falam sobre a democracia. Há todo um discurso sobre a democracia em crise por causa do governo Trump. Há tantos livros saindo sobre democracia. É retórica em torno da erosão da democracia por causa do governo Trump, que tem a ver com ideias de normas democráticas. Isso não está em seu filme, e parece ser uma escolha consciente, dado como central para o discurso democrático.

Astra Taylor: Há tantas pessoas escrevendo livros agora, é um gênero. Escrevi um ensaio para Bookforum reclamando sobre isso. Eles dizem: “É assim que a democracia acaba”, “o povo contra a democracia”, mas muitas dessas pessoas estavam dizendo como as coisas eram maravilhosas há seis anos. Meu pensamento é: você entendeu errado, cale a boca por um tempo, e deixe as outras pessoas falarem – ou talvez falem um pouco menos, ouçam alguma coisa, aprendam e dediquem algum tempo para avaliar. Este filme foi concebido muito antes de Trump estar no horizonte. Escrevi o primeiro e-mail para meu produtor em 2013 e comecei a filmar em 2015. Então, imaginei que este filme seria contra o pano de fundo do consenso neoliberal em que Hillary Clinton seria presidente e Trudeau primeiro-ministro, no Canadá – e este filme diria “Não, a democracia não é isso”. É o mesmo filme, mas saiu em um contexto onde todos dizem que a democracia está em crise. E o filme está dizendo “não, vamos parar e pensar”, em vez de tentar sacudir as pessoas, dar um espaço de reflexão para dizer que nossos problemas são anteriores a novembro de 2016. E a dominação precede o capitalismo. Para falar de Platão e oligarquia, seria errado dizer capitalismo, mas uma questão de economia e dominação. Esses são desafios em andamento, e muitos dilemas democráticos permanecerão conosco, permanecerão depois que tivermos o socialismo democrático. Por causa da questão de como equilíbrio local e global, ou quanta estrutura, ou “planejamento vs. espontaneidade” – esses desafios não serão resolvidos de uma vez por todas. E esperamos que continuemos aprendendo como uma espécie – se continuarmos a existir...

Micah Uetricht: Grande "se"!

Astra Taylor: ...certo, e expandindo a concepção de democracia. Há também um enorme componente de gênero nos livros que você mencionou. Parte da discussão em meu artigo para o Bookforum é que talvez haja um livro comercial de interesse geral escrito sobre democracia, e é de Condoleezza Rice. Caso contrário, é um certo tipo de acadêmico masculino que escreve esses grandes livros sobre democracia e eles não são muito bons.

Micah Uetricht: Não sei se você quis dizer isso ou não, mas a menção rápida é impressionante quando Angela Davis se apresenta em Miami e diz: “A última vez que estive em Miami, estava fugindo do FBI.” As normas estavam funcionando corretamente e tentavam trancar Angela Davis.

Astra Taylor: Este conceito do que conta como crime é sempre político e, como ativistas, temos de violar a lei porque as leis são injustas. Mas, ao mesmo tempo, sinto que quando [um dos entrevistados] diz “não, quero ter algum tipo de regra de direito”, ele sabe o que é viver num vácuo, em um Estado falido. É complicado. Tentei estruturar o filme para que esses pontos fossem problematizados ou uma nuance fosse adicionada.

Micah Uetricht: Essa parece ser a pergunta que Cornel West faz sobre a democracia, nos moldes de “se déssemos a todos a escolha de merecer ou não sua humanidade em 1956 ou algo assim, eles teriam votado ‘não’”. Para defender o conceito de direitos humanos como pensamos hoje, precisamos de algum meio “antidemocrático” para levar isso adiante.

Astra Taylor: É interessante porque a história é mais complicada, claro. Décadas de mobilização pela justiça racial criaram condições diferentes. Sem mencionar que houve pressão internacional; foi o período da Guerra Fria e fez com que os EUA parecessem mal quando diziam ser a terra da liberdade. Portanto, há todos esses outros fatores que complicam a história, mas também eram dinâmicos e precisavam estar presentes: às vezes, coisas democráticas são impostas. A mudança climática é uma questão interessante sobre isso. Se quisermos ter uma sociedade sustentável, podemos precisar de alguma intervenção estatal que pareça antidemocrática por definição, mas que permita que as pessoas continuem a existir. Porém, o grande desafio hoje, para mim, é a regra da minoria. Quando 81% das pessoas querem o Green New Deal [o New Deal Verde], mesmo com toda a desinformação, é porque a maioria das pessoas acha que a mudança climática é real e prefere a sustentabilidade ecológica ao crescimento econômico. “As pessoas” não são o maior problema.

Micah Uetricht: Embora, para voltar às normas do discurso, muitos desses argumentos sejam enquadrados em torno de “oh, nós claramente não podemos confiar nas pessoas para nos governar”, certo?

Astra Taylor: Exatamente. Mas a verdadeira questão é: podemos confiar nas elites?

Micah Uetricht: A Grécia é central no filme, tanto em termos de filosofia política antiga como na cena grega contemporânea, que traz tantas questões básicas sobre a democracia. A história grega contemporânea é tão marcante. Lembro quando a votação aconteceu – “oxi”, o grande “não” votando se os gregos deveriam adotar medidas de austeridade impostas pela Alemanha e pela UE. Parecia um momento incrível de triunfo, esse momento democrático. Esse partido de esquerda, Syriza, foi eleito para o cargo e apenas tentou levar a cabo eles mesmos, acertam as pessoas e entregam exatamente a coisa certa, dizendo “não” à austeridade. Mas isso realmente importa, essa grande traição. Mas mais complicado que uma traição: os mecanismos democráticos que estavam em vigor não foram suficientes para levar a cabo a vontade do povo. Existem estruturas transnacionais que as pessoas enfrentam e precisam de um novo tipo de corpo democrático para reagir.

Astra Taylor: No drama que ali se desenrolou, a Grécia se tornou central. Uma mulher que trabalhou com [Aléxis] Tsipras, o primeiro-ministro grego [entre 2015 a 2019], disse algo pungente: “Fizemos tudo o que devíamos fazer. Ocupamos, nos revoltamos, organizamos, construímos o partido político, tomamos o poder do Estado e olhamos onde estamos.” Porque vivemos em um sistema global e não é suficiente para controlar o mecanismo do Estado, porque também existem pessoas ricas tirando seu dinheiro do país – e os gregos também, o problema não era apenas estrangeiro, eram os oligarcas que colaboravam com eles. Uma parábola sobre quão desafiadoras são as circunstâncias. Uma situação difícil e um aviso sério para aqueles que estão tentando construir o poder e se organizar. O ponto de vista de Wendy Brown é que, se vamos abordar essas estruturas globais, também precisamos estar enraizados. Apenas pulamos para a ordem internacional e criamos um órgão governamental supranacional democrático e esquerdista, porque não temos poder sem estar enraizados nos países – este é um dos desafios da democracia hoje. Em última análise, isso resume-se a nós, estas pequenas pessoas, e temos que colaborar uns com os outros. Vivemos em lugares, mas também temos que pensar em um nível macro. O internacionalismo é uma bela ideia que a esquerda tem há muito tempo, mas ainda temos que descobrir como fazê-lo.

Micah Uetricht: Wendy menciona quase no meio do filme que ela tem pavor da tecnocracia. Você mencionou os fracassos do Syriza, um partido de esquerda. A esse respeito, também nos EUA, na Europa, em todo o mundo, partidos liberais tecnocráticos falharam. Wendy molda isso em termos de democracia. A tecnocracia significa que há pessoas que são autonomeadas como especialistas, que têm os graus corretos e aquelas que podem resolver problemas. Esse é um caráter antidemocrático, fundamentalmente antidemocrático. Certamente, nos EUA, a ascensão do socialismo é, em muitos aspectos, uma reação ao estilo tecnocrático de governo. Você pode falar sobre tecnocracia e os problemas da democracia? Pode parecer muito no filme, mas parece ser um problema central.

Astra Taylor: No fundo, é por causa das críticas da União Europeia, que diz: “O que importa se o povo grego diz ‘não’ à austeridade? Eles não são especialistas, não sabem como manter o crescimento do PIB. Eu também acho que é tentador induzir muita gente”. Os especialistas estão apenas lidando com isso? “Mas como a expertise é construída?” Ela remonta à educação: quem pode se tornar um especialista, que tipo de conhecimento é reconhecido, compensado e colocado em posições de poder. “Meritocracia” não é a mesma palavra, mas relacionada, e essa palavra saiu de um trabalho satírico de um ativista do Partido Trabalhista que escreveu no início dos anos 1970. É uma distopia satírica em que as pessoas que tiveram mérito por ter uma educação adequada poderiam se tornar uma classe dominante e, é claro, dizer “bem, não apenas eu governo, mas mereço estar aqui”. Essa distopia é agora a sociedade em que vivemos. Isso fala de algo maior no filme, e para mim fala em socialismo ou política igualitária. O filme está no contexto da filosofia de Platão, que queria uma classe de guardiões, filósofos reis e rainhas, e o filme diz “não, nós temos que criar um mundo onde haja potencial para todos se envolverem em filosofia política, porque isso é o que a democracia exige”. E as pessoas têm uma tremenda quantidade de insights. [Um dos entrevistados do filme] disse que um cara no metrô pode ser presidente, que ele pode saber mais do que qualquer um que esteja protegido pelo sistema, mais do que esses caras que escrevem livros sobre como as normas são sagradas. Essas normas não são tão sagradas se estão te colocando na prisão ou punindo você por ser pobre. Uma questão de quem vê como a democracia realmente funciona. W.E.B. du Bois, que é citado por Angela Davis no filme, tem um grande ensaio, “Da sentença dos homens”. Ele fala sobre a sabedoria excluída, a sabedoria dos negros e das mulheres e crianças, e essa ideia de que não só devemos incluí-las porque queremos ser agradáveis e inclusivas, mas porque é necessário ter um funcionamento e uma sociedade justa. Esta sabedoria precisa também ser incluída através da democracia econômica, da democracia industrial e da partilha de poder real. Assim, o filme tenta – em tudo, desde o olhar da câmera até a maneira como me aproximei de cada pessoa – abordar todos como se fossem filósofos, e levá-los a sério, seja um garoto de 12 anos de idade ou um refugiado ou um imigrante guatemalteco. A educação política não é “deixe-me colocar meus pensamentos em seu cérebro e implantá-lo com a análise certa”. Trata-se de envolver as pessoas, estar aberto a aprender com elas. Isso é o que é um intelectual: não só alguém que professa e sabe, mas alguém que constantemente quer aprender, ser curioso e crescer. É por isso que o título do filme é uma pergunta.

Wendy: Você menciona a maneira como mirou as pessoas no filme. Pode explicar isso e a relação com seu compromisso com uma forma democrática de fazer o filme?

Astra Taylor: Ao fazer um filme sobre a filosofia política, a última coisa que gostaria de fazer é ter a estética visual remotamente pretensiosa, porque já tem esse ar de “oh, é intimidante, ou não sou convidado para isso”. Queria que a estética do filme fosse absolutamente despretensiosa. Queria que se sentisse íntimo e humilde.

Wendy: Senti como se você tivesse tomadas longas nas pessoas, um close-up de seus rostos, e apenas deixá-los dar seus comentários.

Astra Taylor: Gosto dessa intimidade, gosto de sentir como se houvesse alguém realmente ouvindo do outro lado da câmera.

Wendy: Você menciona querer tomar a sabedoria e os pensamentos das pessoas seriamente desta forma muito democrática, e senti que isso durante a cena com os alunos em Miami. Falam muito eloquentemente e pensativamente sobre as condições básicas de suas próprias vidas, que são “vamos ter comida decente na escola ou não?” Eles têm um monte de pensamentos sobre isso, e havia uma jovem que todos aplaudiram. Observando-a, fiquei impressionado com a forma como era atenciosa, mas também no sentido de desespero, que parecia ter. Podia se ler na cara dela. Ela realmente não achava que seus pensamentos sobre os almoços escolares serão levados a sério. Por um lado, você está trazendo seus pensamentos sobre sua vida de uma forma democrática, e ela está falando muito eloquentemente sobre isso, mas por outro lado, o que acontece com esse sonho? O que acontece com esse impulso democrático que você mexe que não vai a lugar algum? O que acontece com o povo grego quando eles são despertos e seu impulso democrático não vai a lugar algum?

Astra Taylor: Esse é o limite do cinema – a razão pela qual não vejo filmes como ativismo ou meu trabalho político. Vejo isso como meu projeto de arte, e temos de organizar porque é preciso explorar esse descontentamento e criar estruturas para que as pessoas possam ter solidariedade e se envolver em estratégias que possam ter chance de vencer. Estou aqui em Chicago com minha colaboradora Laura Hannah, tentando construir um sindicato de devedores que possa trabalhar ao lado de sindicatos e organizar as pessoas para se envolver em estratégias coletivas de desobediência econômica e negociação coletiva, e lutando por bens públicos. Mas essa menina também é parte do grupo de crianças mais jovens que ainda têm espírito, você pode ver a maneira como eles se apoiam, enquanto o grupo mais velho é muito mais “você tem que sorrir e suportar.”

Wendy: Eles foram quebrados um pouco.

Astra Taylor: Aquela cena tem sido uma das mais controversas no filme, o que me surpreendeu. Muito poucas pessoas disseram “realmente gostei do seu filme, mas não gostei que você falou com as crianças, porque é claro que não deve haver democracia nas escolas e as crianças devem ouvir os mais velhos.” Mas a análise das crianças é tão astuta; sabem que não são apenas os professores sendo maus para elas, é o conselho. Têm uma análise de poder, entendem que pedem algo muito modesto. Não estavam nem pedindo comida boa, pediam comida quente. Então são um exemplo incrível de capacidade democrática. Havia uma mulher em um programa de pós-escola que me usou como tema de uma conversa, queria uma maneira de começar uma conversa para que pudesse levar essa energia para a frente. Não sei o que exatamente aconteceu, mas sentiu que era uma conversa que as crianças precisavam ter.

Wendy: Uma última pergunta. Há obviamente bárbaros em ascensão nos EUA e em todo o mundo, mas também, da perspectiva Democrático-Socialista, há uma maré muito promissora e esperançosa para a política de esquerda. É esse o seu sentido sobre o futuro da democracia?

Astra Taylor: Sim, socialismo democrático ou barbárie. Vejo o filme como um filme de esperança, mas também tem de haver um elemento de realismo. Podemos escrever, podemos ocupar, podemos atacar, podemos construir um partido político, mas ninguém nos entregará as chaves com um sorriso, e sairemos, faremos os créditos e tocaremos a música feliz. Mas é um momento emocionante.

16 de agosto de 2019

Venezuela mantém controle político após novas medidas coercivas dos EUA

Nino Pagliccia

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Em termos políticos, o governo da Venezuela teve um bom mês de julho enquanto lidava com circunstâncias econômicas críticas. Representantes de 120 países do Movimento Não Alinhado (MNA) participaram de sua reunião ministerial em Caracas, e, mais de 700 delegados de dezenas de partidos de esquerda e movimentos sociais de cerca de 32 países participaram do 25º encontro do Foro de São Paulo, também em Caracas, alguns dias depois. Mesmo a recuperação rápida do que aparentou ser outra sabotagem à rede elétrica, que ocorreu nos dias entre os dois encontros, foi visto como um sinal de um governo eficiente e responsivo, totalmente no controle. 

Entretanto, o mês de agosto teve um começo mais desafiador para Venezuela. Mas consideramos que o governo de Maduro ainda retém todo controle da situação política.

No dia 5 de agosto, no dia anterior à reunião do, assim chamado, Grupo de Lima, no Peru, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou uma Ordem Executiva sobre “Bloqueio de Propriedade do Governo da Venezuela”. Esta pode bem ser a mais severa, unilateral e coercitiva medida (sanções) contra a Venezuela até hoje. Ela também atende aos critérios de um bloqueio total do país, apesar da negação do secretário de Estado, Mike Pompeo, de que “isso não é um embargo”.

A mais séria e controversa questão da ordem executiva de Trump é que ela implica na possibilidade de sua aplicação extraterritorial. O Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, John Bolton, não deixou dúvida sobre essa intenção, dizendo que a ordem “também autoriza sanções à estrangeiros que forneçam apoio, ou bens, ou serviços a qualquer pessoa designada, incluindo o governo da Venezuela”.

A União Europeia imediatamente se opôs à ameaça de Washington e outros países podem segui-la. Mas sabemos que Trump não está se esquivando de sua versão de “se você não está conosco, você está contra nós”. Ele recentemente implementou, pela primeira vez desde 1996, o Título III da Lei Helms-Burton (bloqueio) em Cuba, o que permite às pessoas dos EUA, cujas propriedades foram tomadas pelo Governo Cubano depois de 1959, processar em tribunais norte-americanos empresas e indivíduos que “trafegam” nessas propriedades. Isso tem sérias implicações para muitas empresas estrangeiras na Europa e no Canadá que atualmente operam em Cuba.

O bloqueio estadunidense da Venezuela tem a intenção de “fazer a economia Venezuela chorar”; mesmo assim, o bloqueio não garante o colapso da economia. Depois de quase 60 anos de um bloqueio persistente e duro por parte dos EUA, a economia cubana se saiu razoavelmente bem em manter seu projeto socialista, inicialmente com o suporte da antiga União Soviética, e, desde o começo dos anos 90, com o desenvolvimento de um próspero setor turístico que trouxe investimentos estrangeiros substanciais para o desgosto do governo dos EUA.

Assim sendo, em termos geopolíticos, o elemento extraterritorial do bloqueio na Venezuela é a segunda linha de ataque estadunidense – de maneira improvável dirigido à União Europeia ou ao Canadá que reconheceram o autoproclamado “presidente interino” Juan Guaidó – em vez de dirigido à Rússia ou a China que tomaram o lado, em palavras e ações, do presidente eleito Nicolás Maduro.

A Rússia não apenas vendeu equipamentos militares para Venezuela e treinou seus militares, mas em 10 de julho os dois países assinaram um protocolo para facilitar as atividades da empresa petrolífera estatal russa, Rosneft, em dois campos de gás na plataforma continental da República Bolivariana da Venezuela.

A China também desenvolve uma importante cooperação econômica com a Venezuela. Uma joint venture de mais de 1.8 bilhões de dólares entre a Corporação Venezuelana de Petróleo (CVP) e a Corporação Nacional de Petróleo da China (CNPC) acaba de ser divulgada.

Entra, então, John Bolton com uma mensagem ameaçadora em Lima: “tanto para a Rússia, quanto para a China, dizemos que seu apoio ao regime de Maduro é intolerável, particularmente ao regime democrático que substituirá Maduro”.

Tanto em tom como em ações, Washington está cada vez mais desesperada e frustrada com a falta de resultados tangíveis em seus esforços para a mudança de regime na Venezuela. Os EUA geralmente estão ausentes nas reuniões do “Grupo de Lima”; não é nem mesmo um membro dele. O Canadá normalmente assume o papel de “liderança” com outras dezenas de nações.

A reunião de Lima foi claramente dirigida por um combativo governo estadunidense com a presença de alto perfil do Conselheiro de Segurança Nacional, John Bolton, e do Secretário de Comércio, Wilbur Ross. Se Bolton demonstrou o porrete de Washington, Ross ofereceu sua cenoura como um plano de recuperação vago para Venezuela depois de Maduro. Dos 100 governos convidados, apenas cerca de 60 representantes estavam presentes, a maioria observadores. Muitos declinaram, incluindo Rússia e China.

Se a intenção de Washington era trazer a bordo mais aliados internacionais, a estratégia não funcionou. A Assembléia da ONU teria tido um público maior e mais cativo. Porque esse local não foi escolhido?

A resposta está no balanço do apoio ao governo de Maduro. Enquanto supostamente cerca de 50 governos não, 120 governos do MNA mostraram seu suporte com a presença de uma declaração conjunta em Caracas em julho. Isso é quase um terço dos Estados membros da ONU.

O governo de Maduro parece mostrar uma melhor compreensão da ordem mundial, do papel da ONU e da mobilização do apoio público. Isso significa a falha do bloqueio dos EUA, como no caso de Cuba, pelo menos politicamente. Caracas continua em controle. Não apenas denunciou a ordem executiva da Casa Branca, chamando-a de “terrorismo econômico e político” ilegal de acordo com a Carta da ONU, mas também está fazendo um apelo direto à ONU. Enquanto escrevemos, uma campanha para coletar assinaturas para uma “carta dos venezuelanos para o Secretário Geral das Nações Unidas” está em andamento. Todos os adeptos do mundo são convidados a assinar também.

Quando setembro chegar

Tudo indica fortes turbulências financeiras à frente com o fim das férias nos EUA

Nelson Barbosa


Apoiadores do candidato à Presidência Alberto Fernández em comício em Rosário, na Argentina. (Agustin Marcarian/Reuters)

Teremos um segundo semestre agitado na economia. O aumento das tensões entre Estados Unidos e China já derrubou as Bolsas mundiais, com sinais de recessão na Europa.

Aqui mais perto, a provável derrota de Macri gerou ataque especulativo à Argentina, com efeitos sobre o Brasil.

Tudo isso ainda em agosto, geralmente um mês mais calmo nos mercados, pois a maioria das pessoas do hemisfério Norte está em férias de verão.

Se você acha que calendário não importa, lembro que as crises financeiras de 1929 e 2008 ganharam força justamente na volta do verão nos EUA —a primeira em outubro, a segunda em setembro.

E, para não acharmos que isso é coisa de gringo, por aqui também respeitamos o verão, o período entre o Natal e o Carnaval. Nossas crises geralmente ganham força em março e abril, vide os golpes de 1964 e 2016 e a prisão política de Lula em 2018.

Mas voltemos aos dias de hoje. Faltam algumas semanas para o fim das férias nos EUA, e tudo indica fortes turbulências financeiras à frente.

Para nós, o efeito imediato dos últimos choques externos é a depreciação do real, como ocorreu nas últimas semanas.

Obviamente não ajuda que nossa economia também esteja em risco de recessão devido à herança de Temer, bem como que o governo Bolsonaro continue desorganizado entre declarações escatológicas do presidente e maluquices "anarcocapitalistas" de sua equipe econômica.

Em momentos de turbulência, o Banco Central deve atuar para reduzir a volatilidade do câmbio, mas sem se comprometer com um valor específico da taxa. Foi assim no passado e parece que será assim agora.

Nesta semana, o BC anunciou a venda de dólares no mercado à vista. Serão até US$ 550 milhões por dia, com limite inicial de US$ 3,8 bilhões.

O BC já fez esse tipo de operação antes, em 2009, quando também houve grande turbulência cambial.

Reservas internacionais estão aí para serem usadas. Do ponto de vista cambial, o que interessa é a posição líquida do BC, o volume de reservas menos o quanto o BC está vendido em dólares no mercado de crédito e derivativos.

Hoje, o BC tem US$ 386 bilhões em reservas, US$ 8 bilhões de outros créditos líquidos em dólares e US$ 68 bilhões de posição vendida em swaps cambiais. A posição líquida é, portanto, de US$ 326 bilhões.

Traduzindo do economês, se a taxa de câmbio sobe R$ 0,10, o BC ganha R$ 32,6 bilhões.

Na quarta (14), o BC anunciou que venderá parte de suas reservas, compensando isso com redução da posição vendida em swaps. A posição líquida permanecerá em US$ 326 bilhões.

A ação é neutra do ponto de vista cambial, mas o mesmo não acontece na dívida pública.

Quando o BC compra dólares, ele injeta reais na economia. Como o BC também tem meta de taxa de juro, esses reais devem ser retirados de circulação via venda de títulos públicos (operações compromissadas), aumentando a dívida bruta do governo.

O oposto acontece quando o BC vende dólares à vista, ou seja, reduzir reservas diminui a dívida pública bruta mesmo que a posição líquida do BC permaneça a mesma.

Como o governo enfrenta dificuldade para equilibrar seu Orçamento primário, hoje o crescimento da dívida bruta tem sido amenizado por saques antecipados de recursos dos bancos públicos (BNDES, Caixa e BB).

Por definição, essa fonte tem limite. Se e quando ele se esgotar, o governo poderá se ver tentado a torrar as reservas internacionais para controlar sua dívida bruta no curto prazo.

Quando saberemos o tamanho desse risco? Quando setembro chegar.

Sobre o autor

Professor da FGV e da UnB, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento (2015-2016). É doutor em economia pela New School for Social Research.

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