23 de setembro de 2017

Apresentando a Catalyst

Robert Brenner*

Catalyst: A Journal of Theory and Strategy


Tradução / A primeira edição de Catalyst aparece em uma conjuntura política profundamente contraditória. É o momento de maior promessa para a classe trabalhadora e para as forças populares desde a década de 1960, mas é também um momento de perigo significativo. O sistema capitalista há muito tempo perdeu a capacidade de realizar sua ostensiva vantagem histórica comparativa e justificação – impulsionar acumulação de capital incessante, o que contribui para o crescimento econômico auto-sustentado e cria o potencial para níveis de vida crescentes. Em resposta, as elites políticas e econômicas mundiais, minúsculas em tamanho, reorientaram seus esforços, nos níveis corporativo e do governamental, para longe do investimento e do crescimento, na direção da redistribuição ascendente do produto econômico. Isso deixou 1% no topo dos EUA possuindo 40% da riqueza do país; 1% no topo da população mundial possuindo metade da riqueza global e a metade inferior da população mundial possuindo a mesma quantia de riqueza que as oito pessoas mais ricas do mundo. Para manter a coesão social, as elites neoliberais já não tentam co-optar ou comprar partes significativas da população, mas, ao invés, se preparam para as esperadas explosões de oposição popular através da construção de seu aparato coercitivo – desde a vigilância maciça da população até a militarização da polícia e a repressão brutal de manifestações de resistência pequenas e que não representam qualquer ameaça.

A conseqüência é que a classe trabalhadora do mundo atual, definida livremente e em seus múltiplos aspectos, se sente pouco atraída pela visão de mundo neoliberal, que constitui a ideologia unânime e inquestionável das elites mundiais e de sua mídia cativa – uma ideologia que não faz nada pela classe trabalhadora. Ela está, pelo contrário, aberta a uma gama de perspectivas políticas de oposição que poderiam colocá-la em movimento contra seus carrascos neoliberais e globalizantes. À partir da Grande Recessão de 2007 até 2009, testemunhamos uma impressionante série de explosões políticas militantes e radicais em grande parte do globo contra a ordem estabelecida: a Primavera Árabe, as greves do setor público de Wisconsin, o Occupy Wall Street, as ocupações de praças na Grécia, Espanha e Turquia, e as greves e manifestações de massa francesas durante o inverno e a primavera de 2016.

Mas permanece o fato de que, até agora, na maior parte do mundo, as forças nacionalista-populistas de Direita têm conseguido capitalizar com o profundo sofrimento e o descontentamento dos trabalhadores de forma muito mais eficaz do que a Esquerda radical. Eles têm feito isso trazendo atrás de si eleitorados nativos da classe trabalhadora que antes constituíam a principal base social dos partidos de Centro-Esquerda, mas que há muito têm sido ignorados por eles – notadamente trabalhadores das fábricas e mineiros atingidos duramente pela estagnação econômica, avanço tecnológico e globalização. Especialmente na esteira da Grande Recessão – que trouxe um mergulho no padrão de vida popular de uma extensão sem paralelos desde a Grande Depressão – essas forças nacionalistas têm explorado o sofrimento de amplas camadas da população para alcançar vitórias históricas nos países da vanguarda da globalização, austeridade e redistribuição ascendente de renda – o Brexit no Reino Unido e, claro, Donald Trump nos Estados Unidos.

Até agora, as forças da esquerda radical têm expressado, na melhor das hipóteses, confusão e, na pior, a indiferença diante da tarefa indispensável de desafiar a extrema direita pela lealdade dos brancos da classe trabalhadora, economicamente deprimidos e profundamente alienados. A adoção do multiculturalismo e da inclusão por partidos neoliberais como os Democratas, combinada com a sua recusa em reconhecer a exploração de classes – e a existência de classes -, desorientou não só muitos dos seguidores desses partidos, mas também forças muito mais à esquerda, que têm priorizado sua crítica das vantagens muito reais e contínuas das pessoas brancas, sem colocar essa crítica no contexto do desastroso declínio de décadas nos padrões de vida e de uma mobilidade decrescente para todos os trabalhadores, incluindo trabalhadores brancos. O fato simples é que esses trabalhadores têm sido arruinados pelo capitalismo em sua forma neoliberal. Eles seguirão uma extrema direita populista, auto-proclamada anti-neoliberal, que fará pouco ou nada por eles, a menos que a Esquerda possa oferecer uma versão mais viável dessa luta anti-neoliberal.

Não há razão para acreditar que, no futuro previsível, as elites políticas dominantes poderão assegurar muito em termos de estabilidade política – e sobram razões para esperar oposição por parte de amplas parcelas da população. A questão é se uma esquerda radical ainda embrionária pode desenvolver a capacidade para explorar as oportunidades implícitas e explícitas que certamente se apresentarão no próximo período.

O propósito da Catalyst é provocar e contribuir para um esforço colaborativo para entender o mundo político de hoje, a fim de ajudar as lutas para mudá-lo. Para esse fim, a tarefa fundamental é promover uma ampla discussão e organizar o debate sobre as questões urgentes enfrentadas pela classe trabalhadora, os movimentos de massa emergentes e as organizações políticas radicais e socialistas. O que se segue é uma tentativa inicial e muito parcial de apresentar aos nossos leitores como entendemos o panorama político de hoje; uma série de características notáveis; as aberturas que se apresentam aos movimentos e à esquerda; e os problemas que a esquerda enfrenta.

Não é o capitalismo dos seus pais

O ponto de partida necessário para entendermos a política de hoje é o histórico declínio da economia ao longo dos últimos quarenta anos, mais ou menos. Este processo transformou – para além do reconhecível – a classe capitalista em todo o mundo, em suas múltiplas formas e seções, bem como as restrições sob as quais ela opera e as perspectivas político-econômicas que ela leva em frente. Impôs aos trabalhadores, aos movimentos de massa e às organizações políticas em todo o mundo a necessidade de repensar suas estratégias de resistência, um projeto que mal começou.

Desde 1973, as economias dos países capitalistas avançados têm apresentado desempenhos cada vez piores. O crescimento do PIB, o investimento, a produtividade, o nível de emprego, os salários reais e o consumo real experimentaram uma desaceleração histórica, que tem prosseguido sem interrupção, década após década, ciclo econômico após ciclo econômico, até o presente. A fonte dessa perda de dinamismo foi a queda profunda e o fracasso na recuperação da taxa de lucro na economia como um todo, um processo que ocorreu principalmente do final da década de 1960 até o início dos anos 80 e derivou em grande parte do implacável acúmulo de sobrecapacidade por todo o setor de manufatura global. Esse aumento de capacidade excedente resultou de um processo de desenvolvimento econômico que fez picadinho da compreensão ortodoxa da Economia sobre o comércio mundial. Em vez de aprofundar a divisão mundial do trabalho ao longo das linhas traçadas por Adam Smith, por meio de uma especialização e complementaridade cada vez maiores, os novos participantes mais dinâmicos da economia global têm trazido redundância crescente e intensificado a concorrência.

As indústrias de sucessivas novas potências econômicas emergentes têm usado a tecnologia mais recente, geralmente emprestada dos líderes econômicos, em combinação com salários relativamente baixos, para fazer produtos de exportação que já estavam sendo produzidos para o mercado mundial, mas a um preço mais baixo: Alemanha e Japão nas décadas de 1960 e 1970; os países de nova industrialização do Leste Asiático (NICs) e os “tigres” do Sudeste Asiático nos anos 1970, 1980 e 1990; e, finalmente, o gigante chinês nas décadas de 1990 e 2000, com seu devastador “preço da China”. O resultado tem sido uma oferta excessiva em comparação com a demanda em uma indústria após a outra, forçando para baixo os preços e, assim, as taxas de lucro, em um ciclo interminável que finalmente submergiu seus principais progenitores em excesso de capacidade, sobretudo a China.

O declínio na taxa de lucro resultante da intensificação da capacidade excessiva têm provocado uma queda nos excedentes disponíveis para as empresas, ao mesmo tempo em que piora as perspectivas de investimento dos mesmos. O resultado foi um enfraquecimento histórico da acumulação de capital (o crescimento do investimento). A redução da taxa de retorno também provocou um assalto contínuo aos salários e benefícios dos trabalhadores e às suas condições de trabalho, o que, ao redistribuir para cima o rendimento dos trabalhadores para o capital, subsidiou os lucros e impediu um declínio ainda maior da lucratividade. Essa combinação de investimento fraco e de salários em queda tem gerado uma crise de demanda agregada – contínua e cada vez pior – que é a causa imediata da longa desaceleração e que permanece suspensa como uma nuvem escura sobre a economia global. Em outras palavras, os próprios processos pelos quais a taxa de lucro foi estabilizada impediram que a estabilização aumentasse a vitalidade da economia.

O enfraquecimento da demanda agregada no longo-prazo trouxe uma tendência para desacelerações cíclicas mais profundas e mais duradouras, e para expansões cíclicas mais superficiais e – mais cedo ou mais tarde – detonaria uma grave recessão (ou até mesmo depressão), não fosse pelo crescimento histórico do crédito, tanto público quanto privado, nutrido direta ou indiretamente pelos governos. A mudança na direção de déficits keynesianos e de crédito fácil numa escala cada vez maior havia sido, antes, uma característica inovadora e definidora da era pós-Segunda Guerra Mundial; eles de fato trouxeram uma certa estabilidade, o que teria sido impossível na sua ausência. No entanto, eles também perpetuaram a fraqueza da economia, impedindo que os produtores de altos custos e baixos lucros fossem suficientemente abalados e substituídos por produtores mais produtivos e mais dinâmicos. O resultado foi que os aumentos em estímulos keynesianos sobre a demanda geravam aumentos cada vez menores sobre a oferta. Uma maior estabilidade foi, portanto, comprada ao preço de uma queda no desempenho. Durante a primeira metade da década de 1990, esse processo atingiu um ponto inicial de culminação, com a economia mundial tendo um desempenho pior do que em qualquer outro período de cinco anos desde 1950. O keynesianismo havia fracassado e um breve breve experimento de revitalização da economia por meio de orçamentos equilibrados tanto nos Estados Unidos quanto na Europa apenas exacerbaram sua languidez.

De meados da década de 1990 até meados da década de 2000, a Reserva Federal dos EUA tentou desencadear a economia, recorrendo a taxas de juros ultra-baixas para elevar os preços dos ativos financeiros – valores de ações e imobiliários. Fez isso para elevar no papel a riqueza das empresas e das famílias e para aumentar a sua credibilidade aos olhos dos bancos, lhes permitindo pegar mais empréstimos e gastar mais, inflando assim a demanda. Este ensaio em duas partes em “keynesianismo de preços de ativos”, ou “Economia de Bolha”, conseguiu explodir os preços das ações (1995-2000) e, em seguida, os preços da habitação (2001 a 2007). As bolhas consecutivas possibilitaram booms sucessivos – primeiro nos gastos em investimento, depois nas despesas de consumo – transmitindo a impressão de que a economia de alguma forma havi recuperado sua vitalidade.

Essa impressão era, de qualquer forma, ainda mais vívida no mundo em desenvolvimento, que experimentou uma aceleração sem precedentes da expansão econômica, mesmo que breve, impulsionada em grande medida pela ascensão da China ao status de fábrica do mundo. A China baseou sua forte subida em exportações recordes para os Estados Unidos, que foram alimentadas pela fenomenal explosão de consumo impulsionado por dívida e baseada em bolhas por lá. O crescimento espetacular das exportações da China – capaz de chacoalhar o mundo – por sua vez, facilitou as maciças importações chinesas de matérias-primas e produtos semi-acabados de lugares como Brasil, África do Sul e outras partes da África, bem como Leste e Sudeste Asiático. Economistas, mesmo no sóbrio Banco de Compensações Internacionais, concluíam cautelosamente que os países menos desenvolvidos poderiam, pela primeira vez, estar fechando o abismo entre eles e os países capitalistas avançados, que havia se expandido por meio milênio. Ao mesmo tempo, o espantoso crescimento da classe trabalhadora industrial chinesa parecia compensar o encolhimento da classe trabalhadora no Norte Global, e o aumento vertiginoso do número anual de greves parecia indicar uma mudança no locus primário da luta de classes em uma escala global para o “Reino do Meio”.

No entanto, isso foi na maior parte uma ilusão. As sucessivas expansões baseadas em bolhas nos EUA não conseguiram aumentar os ganhos e os rendimentos (ou seja, lucros e salários) que poderiam dar suporte aos aumentos recorde acumulados nos preços das ações e dos imóveis. Assim, quando a bolha dos preços de moradia explodiu em 2006 e 2007, a riqueza das famílias evaporou, novos empréstimos foram substituídos pelo aumento das obrigações de e execuções de dívida, e o gasto colapsou. A demanda agregada definhou, mergulhando a economia estadunidense – e uma economia mundial que era inalteravelmente dependente do mercado dos EUA – na Grande Recessão. A pior crise desde a década de 1930 agravou a longa desaceleração no núcleo capitalista, que havia começado em 1973, e entregou às economias em desenvolvimento um enorme revés, deixando seus futuros muito em dúvida.

A recuperação que se seguiu não tem sido digna desse nome, de longe a mais fraca desde a Grande Depressão. Durante o ciclo econômico estadunidense que começou em 2008, os aumentos anuais médios do PIB, do investimento em capital e da produtividade do trabalho têm sido menos da metade dos aumentos médios durante a longa desaceleração de 1973 a 2007 e quase um quarto dos aumentos médios durante o boom do pós-guerra entre 1948 e 1973. O crescimento dos empregos durante o mesmo intervalo deixou a taxa de participação na força de trabalho como porcentagem da população ativa de 18 a 65 anos em 59%, muito abaixo do seu nível de 63% em 2007 ou a média de 61,7% entre 1990 e 2007. O rendimento familiar médio real ainda ainda não voltou ao seu nível de 2007, que era, ele mesmo, notavelmente inferior ao seu pico em 1999 e 2000. Incríveis 95% das famílias ainda recebem rendimentos inferiores aos de 2007.

O capitalismo, no auge do boom do pós-guerra, entre meados e o final dos anos 1960, prometia um futuro cada vez mais próspero para uma parte cada vez maior da população mundial. Grande parte da população mundial ainda estava amplamente excluída dos benefícios do sistema, incluindo os afro-americanos e outras minorias nos Estados Unidos, juntamente de grande parte da cidadania do mundo menos desenvolvido. Mas poucos, mesmo entre os críticos marxistas mais radicais do capitalismo, poderiam se convencer a defender a abolição do capitalismo com o argumento de que ele não seria capaz de garantir crescimento auto-sustentado e padrões de vida crescentes. Para dar fundamento às suas críticas, eles tinham basicamente de se voltar à alienação no núcleo do capitalismo, juntamente com traços secundários como o consumismo, a suburbanização e a de-sublimação repressiva.

Hoje, tudo isso se provou quimérico. Na sequência de quatro décadas de declínio econômico contínuo e padrões de vida em queda, as promessas do período de ouro do capitalismo foram brutalmente difamadas. O apelo à eliminação do capitalismo, que há não muito tempo poderia ser descartado como irrealista e utópico, precisa ser hoje o ponto de partida para qualquer Esquerda realista, e reconceitualizar o objetivo socialista de uma forma que dialogue com a economia social transformada e os potenciais tecnológicos de hoje aprimorados precisa ser a mais alta prioridade.

O que é o neoliberalismo?

A incapacidade do sistema capitalista de fornecer mais do que a aparência de um bolo crescente, impulsionou quase uma unanimidade dos dirigentes econômicos e políticos do mundo (o 1% no topo por renda ou acima) e seus séquitos parasíticos (uma minoria de, no melhor dos casos, uns 10%) para adotar a virada política radical agora conhecida como neoliberalismo. No início da década de 1970, as corporações o Estado nos EUA lançaram uma contra-ofensiva total com o objetivo de revitalizar a economia, alimentando a demanda à moda keynesiana e reduzindo custos para reavivar a competitividade industrial. Mas isso só piorou o excesso de capacidade que havia derrubado a lucratividade, em primeiro lugar. Nos anos seguintes, a melhor competitividade de custos dos fabricantes do Leste Asiático permitiu que eles se apropriassem de parcelas cada vez mais maiores do mercado mundial de produtos manufaturados, levando a uma forte redução nas oportunidades de investimentos lucráveis ​​nos Estados Unidos, exceto nos extremos mais altos – uma tendência que foi exacerbada pela ascensão das cadeias globais de valor, que quebraram a produção industrial em suas partes componentes e as distribuíram para os locais onde poderiam ser feitas de forma mais barata.

A conseqüência foi que as classes capitalistas e seus governos, não apenas nos Estados Unidos, mas nos países de capitalismo avançado em geral, cessaram em grande parte de tentar estimular uma nova onda de investimento e crescimento – seja através de déficits keynesianos, política industrial ou reconstrução de infra-estrutura na forma de escolas, hospitais, estradas, pontes e similares. Eles já não acreditam na possibilidade de assegurar um reavivamento em grande-escala de produção rentável por quaisquer meios. Em vez disso, eles se voltaram para um programa abrangente de redistribuição ascendente, politicamente empreendida, subscrito pelas corporações financeiras e não-financeiras e pelo governo, que teve o efeito impressionante de possibilitar que eles, nas últimas décadas, se apropriassem de uma proporção esmagadora dos aumentos na renda produzidos anualmente pela economia, enquanto expropriavam cada vez mais a riqueza já existente da classe trabalhadora.

Em retrospectiva, a mudança para o neoliberalismo teve dois aspectos fundamentais – a austeridade, por um lado, e redistribuição direta para cima politicamente impelida, por outro. A essência da austeridade neoliberal é abrir caminho para a entrada no mercado a todos os agentes econômicos e sujeitá-los ao gélido banho da concorrência absoluta, impondo a sobrevivência do mais forte como primeiro princípio, e o benefício ostensivo sendo preços mais baixos para cada mercadoria – acima de todas, a força de trabalho. A mercadificação enfraqueceu, se não eliminou, todas as proteções contra os impactos adversos da concorrência, como os sindicatos, o Estado de Bem-Estar Social, a regulamentação trabalhista e a proteção ao consumidor. Também tem significado barreiras menores ao comércio e ao investimento internacionais, bem como a eliminação de facto das leis anti-truste, para não mencionar as políticas macroeconômicas governamentais que permitiam inflação.

O neoliberalismo tem exigido, também, aumentar o número e a qualidade dos jogadores em todos os mercados. Isso significou ampliar o acesso àqueles anteriormente excluídos por sua posição geográfica ou nacional (ou seja, a globalização). Isso também significou incluir aqueles anteriormente excluídos por discriminação em linhas raciais, étnicas e de gênero; trazer implicitamente a representação de cada grupo em todos os níveis de renda e ocupações em linha com sua proporção em relação à população (ou seja, o multiculturalismo). A mercadificação tem, enquanto isso, retornado ao setor privado atividades que há muito tempo haviam sido assumidas pelo Estado, como saúde, educação e infra-estrutura.

Os publicistas do neoliberalismo gostam de falar em aumentar a liberdade e promover igualdade de oportunidades. Eles buscam equalizar as posições jurídicas dos jogadores no mercado, sem nunca mencionar a equalização dos ativos iniciais que eles possuem (o que frustraria todo o propósito). Os beneficiários dessa liberdade crescente, portanto, têm sido totalmente previsíveis. Aqueles entrando no mercado com mais ativos, em termos de capital (meios de produção), capacidade tecnológica, potencial inovador e conhecimento, têm se apropriado de cada vez mais renda. Dito de outra forma, renda e riqueza cada vez maiores vão para aquelas atividades econômicas mais difíceis de se entrar, onde a concorrência é menos intensa por causa dos níveis de capacidade inovadora, tecnologia, meios de produção e capital humano necessários. Oligopolistas como Apple, Facebook, Google e Microsoft são emblemáticos a este respeito. De forma correspondente, cada vez menos renda e riqueza vão para aquelas atividades mais fáceis de se entrar, onde a concorrência é mais intensa – acima de todas, a venda de força de trabalho não-qualificada. Embora o multiculturalismo neoliberal possa portanto, em teoria, clamar pela equalização da representação de negros, latinos e mulheres, o fato dos membros desses grupos tenderem, em média, a entrar no mercado com os níveis mais baixos de capital, educação, habilidades e capacidade de inovação, garante a exatamente o oposto.

O segundo aspecto do neoliberalismo provavelmente tem sido ainda mais conseqüente em termos de efetuar redistribuição ascendente de renda e riqueza, mas tem passado sem divulgação pelos publicistas pró-capitalistas pela simples razão de que vai diretamente contra os pretensos valores neoliberais e princípios capitalistas. Isso tem ocorrido por meio de governos e corporações entregando a um pequeno número de indivíduos favorecidos o acesso exclusivo a oportunidades econômicas constituídas politicamente, rendendo somas fabulosas de dinheiro. Os principais beneficiários são os líderes dos partidos políticos aliados e os principais gerentes corporativos que foram os principais responsáveis pela instalação da economia política neoliberal ao redor do mundo capitalista, o que os aliviou da necessidade de se envolver nos processos confusos e incertos da produção com fins lucrativos em mercados competitivos ou de investimentos de alto risco nos mercados financeiros.

Nas últimas décadas, os mecanismos de espoliação constituída politicamente têm incluído a concessão de maciças reduções de impostos aos ricos e às corporações; facilitar o investimento em dívida pública por parte dos ricos à taxas de juros ultra-altas; privatizar ativos públicos muito abaixo do valor de mercado; pagar salários obscenamente elevados aos CEOs; e bancos centrais usando taxas de juros baixas para elevar o valor de ações e títulos de dívida, que são propriedade quase que exclusiva dos muito ricos. Talvez a mais escandalosa fraude política tenha ocorrido por meio da ascensão do setor financeiro, onde a privatização de lucros vertiginosos para uma fina camada de grandes gerentes foi possível graças à socialização por parte dos governos de perdas de trilhões de dólares.

A natureza inteiramente política dos poderes e privilégios que foram entregues aos maiores gerentes corporativos e seus aliados políticos no centro do neoliberalismo dificilmente poderia ser mais clara do que naquilo que poderia ser visto como uma redução ao absurdo de todo o processo – a suspensão, politicamente dirigida, da aplicação da lei em relação aos magnatas financeiros. O governo dos EUA (e outros) tem acomodado cada vez mais a criminalidade aberta dos bancos, como demonstrado pela diminuição do número de prisões feitas ao longo do tempo, em comparação com a quantidade crescente de pilhagem apropriada. Os escândalos de poupança e empréstimo da década de 1980 e início da década de 1990 viram centenas de prisões de trapaceiros relativamente pequenos, que roubaram o que agora seria considerado migalhas. Houveram cerca de duas dúzias de prisões do círculo muito mais impressionante de gestores-empresários criminosos, que roubaram centenas de milhões de dólares de gigantes tecnológicos como nos escândalos Enron, WorldCom e Global Crossing da “Nova Economia” do final dos anos 90 e início dos anos 2000. Os detidos até agora totalizaram zero entre os banqueiros dos maiores bancos internacionais, que planejaram e se beneficiaram da rapinagem aberta que trouxe às suas instituições cem bilhões de dólares ou mais através da manipulação da taxa LIBOR, do câmbio internacional, e de lavagem de dinheiro de grandes traficantes nos escândalos dos últimos dez anos, mais ou menos. Não é exagero dizer que esses magnatas estão literalmente acima da lei, e o governo Obama os reconheceu explicitamente como tal, em declarações do ex-procurador-geral dos EUA Eric Holder e de Lanny Breuer, então chefe da divisão criminal no Departamento de Justiça.

Um processo paralelo de corrupção e de aceitação crescentes poderia ser traçado para muitos dos principais políticos mundiais, através da revelação da correlação estreita entre o nível de renda ou remuneração, a quantidade de poder e prestígio do político e o grau de adoração pela mídia. A lista incluiria não apenas notáveis como os Clintons, os Blairs e Silvio Berlusconi, mas seus homólogos europeus ostensivamente mais tradicionais Helmut Kohl e Gerhard Schröder na Alemanha e Jacques Chirac e Nicolas Sarkozy na França, cujos mandatos no cargo contaram com fundos secretos, desfalque de dinheiro do contribuinte e favores lucrativos para amigos em altas posições. Essas figuras egrégias constituíram a vanguarda da neoliberalização em escala mundial, e provocaram rodadas de aplausos cada vez mais altos de um pequeno número de corporações gigantes de mídia – seus parceiros no crime, cujos oligopólios eles alimentaram. A imprudência de Hillary Clinton ao levar um total de $21,5 milhões dos principais bancos de Wall Street por noventa e duas palestras durante um período de dois anos entre 2013 e 2015 pode ser espantosa, mas ainda mais surpreendente foi a gratidão com que essa revelação foi saudada pelos meios de comunicação subservientes. Somente a estranha aparição de Bernie Sanders na cena estragou a celebração.

Os Republicanos e Ronald Reagan haviam liderado o avanço político inicial para o neoliberalismo em 1980 e 1981, apresentando de repente, com a aprovação total dos Democratas, medidas que distribuíam diretamente renda para líderes corporativos e para os ricos pelos meios políticos que vieram a distinguir o novo regime. O resultado foi conduzir uma mudança histórica na distribuição de renda para o 1% no topo, que persistiria até o presente. Mas o problema para os Republicanos era que, uma vez que os beneficiários dessa generosidade eram tão poucos, suas políticas típicas prometiam poucos ganhos para os trabalhadores brancos que eles estavam tentando liderar – trabalhadores que, não coincidentemente, estavam sendo submetidos às mais devastadoras reduções em seus padrões de vida desde a Grande Depressão, graças ao aumento dos impostos da Segurança Social e à diminuição dos serviços sociais, bem como à queda dos salários reais e ao aumento do desemprego. A resposta na qual o Partido Republicano apostou – aparentemente muito superficial para se colocar em palavras – foi investir em seu compromisso racista dissimulado (mesmo que óbvio) de favorecer os brancos, a “maioria silenciosa”, contra os negros, ao se voltar às “questões sociais”, desde o crime, até a oposição aos direitos LGBT, ao aborto e assim por diante. Ainda assim, a resultante dependência dos republicanos de que sua base eleitoral siga agindo politicamente contra seus próprios interesses materiais era uma solução instável.

De maneira notória, Bill Clinton assumiu o bastão do neoliberalismo de seus antecessores republicanos e consolidou o projeto que eles haviam iniciado, uma ruptura necessária para os Democratas se eles pretendiam continuar a competir com sucesso em termos de angariação de fundos. Em particular, Clinton conquistou uma falange impressionante dos maiores banqueiros ao colocar em prática uma série de grandes peças legislativas que favoreciam o sistema financeiro, que dariam forma à economia pela próxima década e além. Mas essa mudança na direção de Wall Street deixou o eleitorado democrata na classe trabalhadora e entre os negros em maus lençóis. Para compensar e distrair, os Democratas se voltaram para a propagação do multiculturalismo, na esperança de atrair e estimular uma base crescente de apoiadores num ponto cada vez mais alto na escala de renda. Mas, como com os Republicanos, a mudança para o neoliberalismo deixou seus apoiadores tradicionais da classe baixa para trás, uma estratégia problemática para além do curto prazo.

O resultado que rapidamente emergiu foi que os gêmeos fraternos neoliberais Democrata e Republicano vieram a parecer cada vez mais idênticos em termos da questão de classe. Em particular, os democratas vieram a representar os ricos praticamente no mesmo grau em que os republicanos. O que os diferenciavam eram identificações político-culturais – multiculturalismo para os Democratas e “questões sociais” para os Republicanos. Mas partidos políticos que atendiam, em termos materiais, apenas aos muito abastados, dificilmente poderiam estabilizar suas próprias posições políticas. Nesse sentido, como em muitos outros, uma dúzia de anos de “Economia-de-Bolhas” proporcionou uma fuga temporária da realidade, permitindo que os dois partidos adiassem o enfrentamento do problema de falar aos interesses materiais dos grandes eleitorados de classe baixa que eram cruciais para ambos. Mas eles não conseguiriam se safar por muito tempo.

Por enquanto, a mudança para o neoliberalismo dificilmente poderia ter representado um sucesso mais retumbante para a minúscula elite corporativa e política no topo da escala de renda e de riqueza. Ela trouxe, especialmente por meio de suas formas distintas de pilhagem politicamente constituída, uma redistribuição de renda – de outra forma inconcebível e histórica – para o 1% no topo, de 10% em 1980 para 23,5% em 2007, um nível anteriormente alcançado apenas no fim da década de 1920, que rugia às vésperas do colapso do mercado de ações. O 1% no topo se apropriou de nada menos que 95% do aumento total de renda entre a Grande Recessão e 2013. Como outro lado da moeda, os salários reais dos trabalhadores de produção e não-supervisores, compondo os 80% inferiores, não aumentaram entre 1972 e 2012 (caindo, de fato, em pouco menos de 10%). Isso significou que a classe trabalhadora dos EUA não conseguiu obter um aumento acima do salário inicial por quarenta anos.

Do consentimento à coerção: Uma crise de legitimidade

Com sua incapacidade de impulsionar crescimento, sua imposição cada vez mais extrema de austeridade sobre os trabalhadores, e seu flagrante roubo dos 90% mais pobres em nome do 1% no topo, as elites neoliberais perderam grande parte da legitimidade política que a classe capitalista dirigente da época precedente possuía – uma posição de liderança que ela havia conquistado, em primeiro lugar, acumulando capital e incitando crescimento, trazendo aumento rápido de empregos e de salários reais. Com sua hegemonia político-ideológica em dúvida, os partidos governantes de hoje, da direita para a esquerda, começaram os preparativos para usar fraude e força em caso de resistência. Deve-se evitar exagerar o grau em que esta tendência à repressão já foi realizada no núcleo capitalista, onde liberdades básicas ainda estão em grande parte intactas (embora estas sempre tenham sido restritas, na melhor das hipóteses, para os afro-americanos). Até agora, naquela parte do mundo, tem sido principalmente uma questão de localizar e monitorar potenciais opositores, como o extraordinário programa do governo estadunidense para vigiar literalmente toda a população, revelado por Edward Snowden; a tentativa de intimidar, enquanto se preparava para reprimir ativistas radicais, bem como a militarização dos departamentos policiais em todo o mundo; e o uso da repressão política mais cedo e não mais tarde para colocar abaixo movimentos ativistas de oposição, como a dispersão do Ocuppy.

O fato é que já estamos testemunhando grandes episódios de repressão muito mais séria, envolvendo estados de emergência, suspensão de liberdades e desestabilização da democracia formal. Até agora, eles têm ficado confinados em grande parte à periferia – por exemplo, nos estados de emergência que acompanharam os golpes político-militares no Egito e na Turquia (embora a França também permaneça em seu próprio estado de emergência mais de um ano após os ataques terroristas em Paris). No entanto, onde explosões de resistência em grande escala pelos de baixo não só perturbaram a ordem pública, mas também ameaçaram extrair grandes ganhos das corporações, o núcleo não passou imune à repressão política. Durante o primeiro semestre de 2016, o governo de François Hollande não conseguiu passar uma nova lei para desregulamentar o mercado de trabalho francês diante de um enorme movimento militante de massa que reuniu contingentes aliados de trabalhadores, estudantes e a juventude urbana de classe-média, um movimento que desfrutava de um apoio avassalador do público em geral. Mas, não obstante, Hollande forçou sua aprovação de forma totalmente antidemocrática – essencialmente usando uma disposição da constituição promulgada especificamente para esse tipo de ocasião. Em um registro um tanto diferente, a Alemanha e seus países parceiros no Norte da Europa infligiram uma espécie de tortura em massa sobre a população grega, impondo medidas extremas de austeridade que são explicitamente destinadas a levar a cabo a pauperização e demonstrar até onde esses Estados irão para esmagar a resistência e fazer dela um exemplo. Seria insensatez acreditar que isso não poderia acontecer em outros lugares no núcleo capitalista.

O colapso da social-democracia rumo ao neoliberalismo

Os partidos social-democratas e esquerdistas-liberais ao redor do mundo alcançaram grandes alturas durante a longa expansão do pós-guerra. No entanto, mesmo aquela época suas perspectivas estavam profundamente limitadas pelas prioridades políticas dos políticos do partido e líderes sindicais que lideravam grandes aparatos de funcionários bem pagos. Os últimos consideravam seu interesse fundamental como sendo nutrir os partidos e sindicatos que constituíam seu suporte material – que proporcionavam seus salários, estabeleciam os caminhos de suas carreira e constituíam todo o seu modo de vida. O compromisso primordial desses líderes de proteger suas organizações de ameaças tanto de cima como de baixo os levou a adotar uma estratégia política que buscava aumentar progressivamente os ganhos de salários, benefícios e bem-estar social, para que pudessem acomodar as necessidades econômicas e políticas do capital enquanto satisfaziam minimamente seus membros. Isto significava colocar os lucros capitalistas primeiro, como condição prévia para a acumulação de capital e para o crescimento do emprego e dos salários, ao mesmo tempo evitando a todo custo confrontações diretas com os empregadores e o Estado. Tais confrontos poderiam facilmente pôr em perigo o seu partido e organizações sindicais. Esta perspectiva estratégica implicava, como questões táticas, a negociação coletiva regulada pelo Estado, formas corporativas de regulação estatal das relações capital-trabalho, e o caminho eleitoral, complementados de tempos em tempos por ações de greve estritamente rotineiras e limitadas – ao invés de formas cada vez mais amplas de mobilização dos membros dos sindicatos e do partido. A dependência destes métodos é o que torna os social-democratas e sindicalistas reformistas – e não a luta por reformas, da qual estão incumbidas todas as organizações que presumem representar os trabalhadores.

Esta estratégia funcionou razoavelmente bem durante a longo período de crescimento, quando os altos lucros e a rápida acumulação de capital permitiram que as organizações social-democratas, junto com os sindicatos, conseguissem obter melhorias materiais constantes para seus membros e para a cidadania. Mas quando a lucratividade começou a cair, de meados da década de 1960 até meados da década de 1970, os líderes social-democratas e os dirigentes dos sindicatos foram progressivamente desarmados ou desarmaram a si mesmos. No começo, eles obrigaram seus seguidores a aceitar restrições sobre salários e benefícios, bem como a moderar sua luta para defender o estado do bem-estar social, na esperança de que isso permitiria que seus empregadores restaurassem suas taxas de lucro, recuperassem os níveis anteriores de investimento e de crescimento e, sobre essa base, mais uma vez proporcionassem melhorias constantes nos padrões de vida. Mas, à medida em que foi se tornando cada vez mais claro que as concessões não incentivariam os empregadores a elevar suas taxas de acumulação de capital, que a economia continuaria estagnada e que a austeridade se tornava um fato permanente da vida, líderes de partido, juntamente com seus homólogos sindicais , encontraram-se bastante marginalizados, esperando que a economia recuperasse seu dinamismo.

Quando as classes dominantes por quase todo lado abraçaram o neoliberalismo, os líderes social-democratas seus aliados sindicais não tinham escolha. Tendo abandonado há muito tempo a luta de classes militantes, eles não tinham um caminho viável para conquistar ganhos econômicos para seus seguidores, mas a posição política extrema adotada pelos principais partidos capitalistas lhes ofereceu um caminho a seguir. Eles poderiam se estabelecer como uma espécie de “mal menor”, efetivamente se unindo aos seus adversários na implementação de políticas neoliberais, ao mesmo tempo em que mantendo a esperança de oferecer concessões mínimas aos trabalhadores que seus adversários não ofereceriam.

Ao longo dos últimos trinta anos ou mais, os antigos partidos sociais-democratas ao redor do mundo funcionaram como a ala esquerda do neoliberalismo, participando, com seus rivais de centro-direita, em uma “porta giratória” eleitoral. Partidos democráticos e social-democratas muitas vezes tomaram passos decisivos, se não para originar o impulso neoliberal (como na Austrália ou na Nova Zelândia), pelo menos para torná-lo irrevogável e consolidar a mudança nessa direção. Testemunham Bill Clinton nos Estados Unidos, Tony Blair no Reino Unido, Gerhard Schröeder, na Alemanha. A tendência só se aprofundou desde a Grande Recessão, destacada pela mudança abrupta de Hollande para a direita depois de vencer as eleições com um programa de rompimento com o neoliberalismo. A maior parte do resto da Europa seguiu o mesmo caminho, assim como o Partido Democrata nos Estados Unidos – onde Barack Obama, apesar de abraçar o neoliberalismo ainda mais completamente do que Bill Clinton e George W. Bush, ganhou duas eleições graças ao mergulho dos republicanos ainda mais à direita.

A deserção universal das organizações social-democratas às fileiras do neoliberalismo privou os trabalhadores de qualquer partido político de massa que mesmo remotamente finja representá-los, deixando-os sem uma voz política. O resultado é um enorme vácuo político, completamente sem precedentes desde pelo menos o início do século XX. A questão é se qualquer nova formação política à Esquerda poderá organizar uma alternativa crível que possa barrar o desmoronamento do padrão de vida popular, oferecer um ponto de partida anticapitalista e começar a elaborar uma versão convincente de Socialismo para o nosso tempo. Tal formação deverá fazê-lo contra a oposição dos partidos social-democratas neoliberalizados e em grande parte sem o apoio, pelo menos por enquanto, das organizações sindicais implicitamente ou explicitamente vinculadas a esses partidos. No entanto, eles terão muitas aberturas para fazê-lo.

Evolução da resistência: Um processo de aprendizado?

O colapso do mercado de habitação e de crédito entre 2007 e 2008 e a grande recessão que se seguiu empurraram os trabalhadores em todo o mundo para uma nova era do gelo à qual eles mal começaram a se adaptar. Dezenas de milhões perderam seus empregos e foram obrigados, se tiveram sorte, a aceitar empregos muito piores. Números semelhantes de trabalhadores perderam suas casas e, portanto, grande parte de sua riqueza acumulada. Sua capacidade de empréstimo e de consumo despencou; “Insegurança alimentar”, o risco de fome, ameaçou um número assustadoramente enorme de famílias.

Mas o golpe de misericórdia foi aplicado pelos governos. Em uma resposta surpreendentemente oblíqua diante do colapso, mas de forma totalmente previsível, os dois partidos neoliberais dos EUA lideraram um resgate financeiro coordenado e extremamente caro do setor financeiro global, preservando os bancos que haviam inflado e estourado as bolhas do mercado de ações e do preço da habitação, juntamente com a riqueza do 1% no topo. Eles não viram nenhum risco moral em privatizar os ganhos e socializar as perdas do setor financeiro. De forma igualmente previsível, eles se recusaram a resgatar as hipotecas submersas dos cidadãos comuns, moralizando contra a sua “libertinagem”, mesmo se tal resgate teria sido muito mais barato e muito melhor para a economia. Ostentando sua hipocrisia, governantes neoliberais por todo mundo capitalista avançado, notavelmente na maior parte da Europa, aproveitaram a oportunidade para tentar – de uma vez por todas – destruir o que havia sobrado de instituições protegendo os trabalhadores, seus padrões de vida e sua força de pressão no mercado de trabalho, ou seja, os sindicatos e o Estado de Bem-Estar Social. Resgates financeiros para a classe capitalista, austeridade brutal para a classe trabalhadora foi a regra praticamente em todos os lugares, apoiada por ambos os partidos neoliberais.

No início, os governos – liderados pelos Estados Unidos – chegaram a implementar uma iniciativa curta e superficial de gastos/subsídios keynesianos à demanda via déficits, o que, pelo menos, evitou a depressão total. Em breve, no entanto, neoliberais em ambos os lados do Atlântico voltaram às suas pedras-de-toque: austeridade e rapinagem dirigidos politicamente. Em vez de estimular o consumo e o investimento para catalisar a acumulação de capital, eles se voltaram para o crédito ultra-barato para aumentar os retornos de investimento em ações e títulos de dívida, cujos benefícios o 1% do topo monopolizava. A onda de repulsa popular resultante envolveu parcelas cada vez mais amplas da cidadania e despertou uma longa onda de resistência política pontual, tanto pela Direita quanto pela Esquerda.

Revolta da direita

Sintomaticamente, foi a Direita política que iniciou a oposição popular nos Estados Unidos. Protestos maciços de baixo – emanando em grande parte de uma base republicana ultrajada – saudaram o projeto de lei de resgate dos bancos do “Programa de Alívio de Ativos Problemáticos” do Secretário do Tesouro, Henry Paulson, e forçaram sua derrota quando foi levado pela primeira vez ao Congresso. Foi preciso que os Democratas no congresso, liderados pelo senador de Nova York, Chuck Schumer, um dos principais apóstolos de Wall Street (apesar de suas declarações de boa-fé progressistas), salvassem a pele de Paulson e dos bancos.

À medida que a Grande Recessão chegava a um fim, ao menos formalmente, uma seção-chave da base republicana avançou mais ainda para a Direita, liderada por uma rede pró-negócios de Extrema-Direita encabeçada pelos irmãos Koch. Esses republicanos do Tea Party queriam reduzir impostos, eliminar regulações sobre a indústria e o meio-ambiente e destruir sindicatos. Suas táticas incluíam paralisar o Estado através do bloqueio de orçamentos ou a ameaça de recusar o aumento do teto da dívida. Embora tenham chutado republicanos tradicionais em primárias, no final, eles representavam as políticas neoliberais do partido, mesmo que numa versão ultra-radical.

Dois desenvolvimentos transformaram a situação. Em primeiro lugar, a terrível deterioração dos padrões de vida desencadeada pela Grande Recessão – que deu continuidade a processos de declínio que remontavam a uma década ou mais – provocou tormentos específicos para a população de trabalhadores brancos, em particular à camada menos educada sobre a qual o Partido Republicano por tanto tempo se baseou em seus sucessos como concorrente eleitoral viável. Esses trabalhadores, especialmente os de meia-idade, têm sofrido níveis horríveis de dependência de drogas, intoxicação por álcool, suicídio e desespero generalizado, que vêm aumentando desde a virada do milênio. Como resultado, depois de cair a uma taxa de 2 por cento por ano entre 1978 e 1998, a mortalidade dos brancos nos EUA aumentou em meio por cento por ano até 2013. Isso enquanto os seus homólogos negros e latinos – e, de fato, todos os outros grupos de trabalhadores na Europa e nos Estados Unidos – continuavam a sustentar a queda das taxas de mortalidade praticamente no mesmo ritmo que antes. No mesmo intervalo, o número de mortes de estadunidenses de meia-idade com grau de ensino médio ou inferior aumentou em 134 por 1.000 pessoas, um salto na taxa de mortalidade de nada menos que 20%. Este profundo colapso socioeconômico abriu o caminho para uma nova mensagem que dialogaria diretamente com a condição dos trabalhadores brancos.

O segundo desenvolvimento foi o surgimento de uma força política crível que podia dialogar com essas necessidades – Donald Trump. Desde o início, ele colocou à frente e no centro uma lista de demandas econômicas populistas-nacionalistas supostamente concebidas para defender os trabalhadores estadunidenses. Isso incluía a oposição à imigração e a tratados internacionais de comércio, ataques ao sistema financeiro, de tempos em tempos, de uma maneira torta, ameaças sobre reduzir gastos militares e punir corporações que exportam empregos. Trump combinou esse nacionalismo/populismo econômico com uma mistura de invectivas racistas, anti-latinas, islamofóbicas e misóginas. O racismo e a misoginia aumentavam o nacionalismo econômico e o nacionalismo econômico intensificava o racismo, aumentando a potência de sua mensagem.

Essa combinação representava – ao menos na retórica – uma ruptura ressonante com o neoliberalismo, dotando os trabalhadores brancos do que parecia ser um veículo político alternativo. Esta ruptura foi tornada ainda mais poderosa porque a habilidade de Trump de conquistar trabalhadores brancos encontrou paralelo no fracasso abjeto de Hillary Clinton – a encarnação do neoliberalismo – em inspirar pessoas da classe trabalhadora de qualquer cor em todo o país. Dinâmicas semelhantes já haviam trazido a vitória para uma aliança de forças semelhante (com trabalhadores nativos e baixa participação desempenhando um papel central) na vitória do Brexit no Reino Unido, e também estiveram em jogo nas campanhas da Marine Le Pen e da Frente Nacional na França além de, em menor grau, no voto vitorioso contra as reformas constitucionais pró-neoliberais pró-União Europeia levadas em frente por Matteo Renzi na Itália.

O progresso da esquerda

Enquanto isso, a resistência pela Esquerda na sequência da Grande Recessão evoluiu através de três fases distintas, mesmo que sobrepostas.

I. Ruas e praças: Anti-política autônoma.

A série de protestos de massa e ocupações em espaços públicos que marcaram a Primavera Árabe estabeleceu o padrão para a fase inicial de rebelião de baixo e à Esquerda. Foi seguida pela operação de ocupação da sede do governo estadual de Wisconsin por sindicatos e movimentos sociais em defesa dos direitos sindicais dos trabalhadores do setor público contra um assalto de longo alcance aos trabalhadores desencadeado por um governador de Direita. Os próximos dois ou três anos testemunharam ocupações de longo prazo análogas, com políticas radicais, em destaque os movimentos de “indignados” que tomaram a praça Puerta del Sol em Madri, a Praça Syntagma em Atenas e a Praça Taksim em Istambul.

A dinâmica política desses movimentos foi similar em quase todos os lugares, pelo menos nas grandes ocupações. Seus programas tinham como alvo os regimes neoliberais por todo o mundo, incluindo oposição à austeridade, ao poder do sistema financeiro e apoio aos sem-teto e mal-alimentados. A estratégia, ou método político, era democracia de baixo para cima da democracia e autonomia dos movimentos, o que significava independência em relação a todos os partidos políticos tradicionais e sindicatos burocratizados: uma “antipolítica” autodenominada.

O isolamento desses movimentos, o outro lado de sua autonomia, trouxe sua destruição. Na maior parte, dificilmente poderíamos falar que foi por sua culpa; eles receberam quase nada de apoio dos sindicatos e partidos estabelecidos de Esquerda. Mas seu fracasso em se preocupar com o estabelecimento de programas políticos (mesmo que provisórios) para suas organizações em desenvolvimento, por mais rudimentares que fossem, tornou impossível para eles olhar para seus próprios futuros e fornecer continuidade ao impulso político das ocupações conforme a energia que as sustentava inevitavelmente diminuiu.

II. Eleitoralismo: Cargo sem poder.

Na sequência da dissolução dos movimentos de massa por trás das ocupações antipolíticas, surgiu uma onda política muito diferente, que se concentrou na luta eleitoral. Seus expoentes às vezes afirmaram fornecer as políticas e organizações que faltaram à fase anterior de auto-organização militante e autonomia política, a qual ainda precisava identificar seus objetivos políticos. Mas eles são principalmente motivados pela esperança de preencher o vazio político enorme deixado pelos partidos social-democratas, desde que essas organizações tornaram clara sua submissão abjeta aos governantes do norte da Europa, especialmente no que se refere ao cumprimento de suas dívidas externas e à aplicação de programas de austeridade para pagá-las.

Tanto o Syriza, na Grécia, quanto o Podemos, na Espanha, procuraram explorar o desprezo quase universal de seus eleitorados com as perspectivas políticas e a corrupção extrema de seus respectivos ambientes políticos neoliberais dominantes. Syriza era uma aliança complexa de organizações políticas, mas sua liderança e seus seguidores, sempre dominantes no interior do partido, funcionavam como uma roupagem social-democrata clássica. Eles buscavam controlar o partido com pouca consulta aos membros como um todo e fizeram todos os esforços para isolar e destruir seus adversários políticos dentro da organização, minimizando, por exemplo, o número de reuniões dos principais órgãos do partido. Seu objetivo era criar uma organização essencialmente de uma-facção-só, a da liderança, de modo a ganhar a liberdade de manobrar politicamente para evitar, a todo custo, confrontos com os poderes estabelecidos, acima de tudo a Alemanha e seus aliados.

Syriza se identificava com as poderosas lutas de massa que haviam sido avivadas pela morte, em dezembro de 2008, de Alexandros Grigoropoulos nas mãos da polícia, pela ocupação da Praça Syntagma em 2010 e pelo movimento dinâmico anti-austeridade que surgiu em resposta à piora das condições econômicas e ao poder da Troika. Mas à medida que essa onda de lutas diminuía, o Syriza se concentrava quase inteiramente nas campanhas eleitorais – porque mobilizar movimentos de massas era arriscar confrontações potencialmente destrutivas com as elites políticas gregas e europeias. No final, o Syriza não pôde evitar a recusa em massa à austeridade, expressa no voto “não” em seu próprio referendo sobre os termos do memorando da União Europeia. Mas acabou por contornar essa situação, eventualmente impondo um programa ainda mais severo de austeridade e afirmando que “não há alternativa”.

A experiência do Podemos até agora tem sido uma pálida cópia de carbono da do Syriza. O Podemos adquiriu um dinamismo súbito quando um punhado de professores universitários, conhecidos por apresentarem um programa bem sucedido buscou, na sequência do movimento dos “indignados“, construir um partido como o Syriza, à esquerda do desacreditado Partido Socialista dos Trabalhadores (PSOE). O programa que eles apresentaram era ambíguo ao extremo, se concentrando na corrupção como um menor denominador comum e minimizando a dominação das classes e até a divisão de classes na Espanha. No entanto, eles conseguiram impressionantes resultados eleitorais iniciais.

Entretanto, o aparente domínio eleitoral emergente do Podemos foi interrompido pelo surgimento de um partido político anticorrupção similarmente mal-definido, desta vez à sua direita. O Podemos poderia avançar apenas se dando uma maior definição política. Mas, para colocar peso real sobre qualquer programa de reforma que pudesse defender, teria que cultivar lutas de massa nos espaços de trabalho e nas ruas, a única fonte de poder real para a Esquerda em qualquer lugar. Isso levantaria o risco de submeter sua organização a represálias políticas, do Estado local e de seus patrocinadores da Europa do Norte. Se o Podemos estará disposto a tentar tal diligência permanece em muita dúvida.

III. Rumo à Síntese? 

O movimento de massas francês contra a Lei de Reforma do Trabalho de Hollande.

Quando, em 2016, o governo de Hollande anunciou uma ampla reforma do código trabalhista francês destinado a enfraquecer a proteção dos trabalhadores, provocou uma impressionante reação popular que gradualmente conquistou o apoio de claras maiorias da cidadania francesa, como registrado em pesquisas de opinião pública. O movimento exibiu, desde o início, uma militância crescente e uma propagação de tirar o fôlego, com greves, manifestações e ocupações em todo o país. O que ajudou a compor sua força impressionante foi a sucessão de amplas alianças forjadas entre grupos sociais que até então tinham sido separados uns dos outros. Como em poucas (se houve) outras instâncias desde a Grande Recessão, uma importante federação sindical entrou na luta contra a austeridade. A Confederação Geral do Trabalho (CGT), tradicionalmente cautelosa em confrontar seus antigos aliados no Partido Socialista, chamou e apoiou greves gerais recorrentes, bem como bloqueios de portos, refinarias e centrais nucleares. Enquanto isso, surgiram movimentos militantes paralelos de jovens: primeiro tomadas de escolas secundárias, depois ocupações recorrentes da Place de la République, que se tornaram conhecidas como Nuit Debout [“Noite de Pé”]. Em comparação com os seus predecessores, como os “indignados” na Espanha, decorrentes das mesmas camadas sociais, o Nuit Debout clamava pela aliança mais ampla possível, incluindo as federações sindicais, como a chave para a vitória. Embora a promessa de tal aliança nunca tenha sido bem compreendida, era igualmente apoiada pela liderança da CGT, que estava sendo pressionada para unir forças com a juventude por membros cada vez mais agitados. A realização desta unificação em manifestações de massa nos grandes dias de ação, ocorreu apesar dos conflitos iniciais entre delegados sindicais e a juventude radical. Estes foram desarmados quando a liderança sindical concedeu a liderança das manifestações aos jovens e à massa de trabalhadores sindicalizados contra uma repressão policial cada vez mais violenta.

Esses movimentos unidos conseguiram alcançar o que, em um sentido importante, foram os maiores triunfos do longo ciclo de lutas [26], e está claro que as alianças forjadas entre organizações representando diversas camadas sociais foi o que lhes permitiu combinar maior poder e eficácia política do que a maioria dos seus predecessores desde a Grande Recessão. Em um ponto, o governo francês tentou invocar a lei de emergência contra o movimento para proibir manifestações, mas teve que recuar. E tampouco o governo foi capaz de ganhar uma vitória definitiva para aprovar a lei. A oposição, apoiada por uma maioria avassaladora do público, estava poderosa demais. Em certo sentido admitindo a derrota política e, não obstante, insistindo em garantir a sua reforma anti-trabalhista, o governo foi obrigado a recorrer a um poder especial, o artigo 49.3 da Constituição Francesa, para aprovar o projeto de lei sem passar por votação no Congresso.

Em lugar de conclusão

Durante a maior parte da história do capitalismo, as classes capitalistas globais justificaram seu poder com uma ou outra versão do famoso slogan de que “o que é bom para a General Motors é bom para os Estados Unidos”. Isso significa que seria do interesse de todos, incluindo da classe trabalhadora, garantir primeiro os lucros dos empregadores, porque somente se estes últimos puderem lucrar, estarão dispostos a acumular capital e, enquanto prevalecerem as relações de propriedade capitalistas, somente se eles acumularem capital (aumentando o investimento e o emprego) os trabalhadores poderão aumentam seus padrões de vida. Dito de outra forma, para obter lucros para si próprios, os capitalistas geralmente não tinham escolha senão contratar trabalhadores e pagá-los salários, juntamente da compra de meios de produção.

Mas nos últimos trinta e poucos anos, esse clichê deixou de se sustentar – e as classes capitalistas globais já não o proclamam. Ao invés, durante este período, o aumento da renda fluindo para a classe capitalista tem resultado cada vez mais da redistribuição ascendente de renda e da riqueza. A redistribuição tem ocorrido basicamente de duas maneiras: através do processo de produção e ignorando a produção por completo. Por um lado, os empregadores, ao mesmo tempo em que reduzem o investimento para níveis cada vez mais irrisórios e obtendo aumentos igualmente irrisórios em produtividade, garantem sua renda/lucros pagando aos trabalhadores salários decrescentes, desacelerando o crescimento salarial ou acelerando o ritmo de trabalho. Em segundo lugar, capitalistas – e ricos em geral – transferem renda e riqueza diretamente dos trabalhadoras para si mesmos por meio de fraudes constituídas politicamente: redução de impostos sobre as corporações e os ricos e assim por diante. As classes capitalistas não podem mais justificar o seu poder afirmando que precisam prover as necessidades dos trabalhadores se pretendem enriquecer a si mesmos. Eles não podem afirmar que “o que é bom para o Goldman Sachs é bom para os Estados Unidos”, porque garantir que o Goldman Sachs ou suas contrapartes na classe dominante de hoje ganhem dinheiro muitas vezes não beneficia ninguém além deles mesmos.

O resultado tem sido desastroso para os trabalhadores em todo o mundo, mas também tem contribuído para uma enorme abertura política. O capitalismo não pode mais garantir a adesão positiva dos trabalhadores ao sistema porque não mais provê suas necessidades, e todos sabem disso. Ao invés disso, os capitalistas precisam confiar em duas motivações negativas para exigir submissão: o medo das pessoas de perder seus empregos – ou de que não haverá nenhum – e de uma repressão ou punição brutal se tentarem contra-atacar. O surgimento dessas condições brutais tem engendrado o marcado aumento da luta de classes que tem tomado parte desde a Grande Recessão.

Dito isto, tem havido até agora um fracasso colossal por parte dos movimentos de oposição, que está dolorosamente claro para todos. Mesmo as lutas mais altamente unificadas e sofisticadas não conseguiram sequer garantir sua própria continuação e se preparar para a próxima rodada. Seus progenitores não tem conseguido acumular coletivamente um balanço das batalhas que enfrentaram, derivar as lições políticas apropriadas e tentar descobrir o que essas lições implicam para levar a luta à frente com maior sucesso e efeito. Tampouco tem conseguido constituir as coletividades políticas necessárias para permitir àqueles que desejam continuar a lutar, que possam seguir se organizando e aprendendo – mesmo que a sua luta específica tenha chegado a um fim. Colocando de forma mais simples e grosseira, aqueles que levaram em frente a série de lutas econômicas e políticas que explodiram e evoluíram contra o contexto de tensão econômica em curso desde 2007 não têm feito esforços sérios para construir organizações políticas ou desenvolver programas políticos, apesar da óbvia necessidade de fazê-lo. Fazer esta observação é declarar o óbvio. Mas enfrentar o abismo entre o potencial objetivo e a capacidade subjetiva não é menos urgente porque tão fácil de se ver.

Gostaríamos de agradecer Aaron Benanav, Aaron Brenner, John Clegg, Joel Jordan, Suzi Weissman.

* Robert Brenner é um editor da Catalyst.

18 de setembro de 2017

Venezuela rompe com o petrodólar

Manlio Dinucci


Tradução / "A partir desta semana o preço médio do petróleo é cotado em yuan chinês", anunciou a 15 de setembro o ministro venezuelano do Petróleo. Pela primeira vez o preço de venda do petróleo venezuelano deixa de ser cotado em dólares.

É a resposta de Caracas às sanções lançadas em 25 de agosto pela administração Trump, mais duras que as da administração Obama em 2014: elas impedem a Venezuela de encaixar os dólares provenientes da venda do petróleo aos EUA, mais de um milhão de barris por dia, dólares até aqui utilizados para importar bens de consumo como produtos alimentares e medicamentos. As sanções impedem também o comércio de títulos emitidos pela PDVSA, a companhia petrolífera do Estado venezuelano.

Washington visa um duplo objetivo: aumentar na Venezuela a penúria dos bens de primeira necessidade e, assim, o descontentamento popular, sobre o qual se apoia a oposição interna (subvencionada e sustentada pelos EUA) para abater o governo Maduro; colocar o Estado venezuelano em situação de incumprimento (default), ou seja, em falência, impedindo-o de pagar as prestações da dívida externa. Isso significa por em situação de falência o Estado que tem as maiores reservas petrolíferas do mundo, quase dez vezes maiores que as dos Estados Unidos.

Dessa forma, Caracas tenta subtrair-se às garras sufocantes das sanções, cotando o preço de venda do petróleo não mais em dólares dos EUA mas sim em yuan chinês.

O yuan entrou há um ano no cabaz de moedas de reserva do Fundo Monetário Internacional (juntamente com o dólar, o euro, o yen e a libra esterlina) e Pequim está em vias de lançar contratos futuros (contratos a termo) de compra-venda de petróleo em yuan, convertíveis em ouro. "Se o novo contrato de futuros ganhar consistência, corroendo nem que seja uma parte do poder esmagador dos petrodólares, isto seria um golpe fulminante para a economia americana", comenta o diário Il Sole 24 ore.

O que está em causa para a Rússia, a China e outros países não é apenas o enorme poder do petrodólar (moeda de reserva extraída da venda do petróleo), mas a própria hegemonia do dólar. Seu valor é determinado não pela capacidade econômica real estadunidense, mas sim pelo fato de que constitui quase dois terços das reservas monetárias mundiais e a moeda com a qual é estabelecido o preço do petróleo, do ouro e das mercadorias em geral. Isto permite ao Federal Reserve, o banco central (que é um banco privado), imprimir bilhões de dólares com os quais é financiada a colossal dívida pública estadunidense – cerca de 23 bilhões de dólares – através da compra de obrigações e outros títulos emitidos pelo Tesouro dos EUA. Neste contexto, a decisão venezuelana de destacar do dólar o preço do petróleo provoca uma sacudidela sísmica que, a partir do epicentro sul-americano, faz tremer todo o edifício imperial fundado sobre o dólar.

Se o exemplo da Venezuela se estender, se o dólar deixar de ser a principal moeda do comércio e das reservas monetárias internacionais, uma imensa quantidade de dólares seria posta em circulação no mercado provocando o afundamento do valor da moeda estadunidense.

Eis o motivo real porque, na Ordem executiva de 9 de março de 2015, o presidente Obama proclamava "a urgência nacional face à ameaça inabitual e extraordinária colocada à segurança nacional e à política externa dos Estados Unidos pela situação na Venezuela".

Este mesmo motivo pelo qual o presidente Trump anuncia uma possível "opção militar" contra a Venezuela. Ela está em preparação no U.S. Southern Command, cujo emblema é a águia imperial que domina a América Central e do Sul, prestes a mergulhar com as suas garras sobre aquele que se rebela contra o império do dólar.

16 de setembro de 2017

Coréia - 1945-1953: Era tudo o que parecia ser?

William Blum

Information Clearing House

"Morrer por uma ideia; é inquestionavelmente nobre. Mas quanto mais nobre seria se os homens morressem por ideias verdadeiras." 
- H. L. Mencken, 1919

Como aconteceu de a Guerra da Coreia não ter sido objeto de protestos equivalentes aos que cercaram a guerra no Vietnã? Tudo que vimos no Vietnã foi verdade histórica, antes, na Coreia: o apoio dos EUA a uma tirania corrupta, as atrocidades, o napalm, os massacres em massa de civis, cidades e vilas reduzidas a escombros, a gestão planejada do noticiário, sabotagem para desmontar toda e qualquer conversação de paz. Mas os norte-americanos foram convencidos de que a guerra na Coreia teria sido caso indiscutível de um país que, sem provocação, invade outro. Caso de os bandidos atacando os mocinhos, que estavam sendo salvos por super mocinhos, sem nem vestígio da dúvida moral, histórica e política que foi o dilema do Vietnã. A Guerra da Coreia começou de um modo bem claro: a Coreia do Norte atacou a Coreia do sul, bem cedo na manhã de 25 de junho de 1950. No caso do Vietnã... sempre foi como se ninguém tivesse ideia de como, quando ou por quê a guerra começou.

E praticamente não houve acusações que falassem do "imperialismo" dos EUA na Coreia. Os EUA, afinal de contas, combatia como parte do Exército da ONU. Protestar contra o quê? E, claro, havia o macartismo, tão prevalente no início dos anos 1950, e que contribuía para inibir qualquer protesto.

Havia de fato interpretações muito diferentes a serem feitas de o que levara àquela guerra, como estava sendo conduzida, até sobre como começou, mas todas sucumbiram na febre da guerra.


Pouco depois do fim da II Guerra Mundial, União Soviética e EUA ocuparam a Coreia para expulsar de lá os japoneses derrotados. Traçou-se uma linha demarcatória entre forças russas e norte-americanas ao longo do paralelo 38. Essa linha de modo algum tinha o objetivo de estabelecer dois países, mas a guerra fria logo se intrometeria também ali.

As duas potências insistiam que o objetivo principal e desejado era a unificação de Norte e Sul. Mas, simultaneamente, também queriam ver a unificação feita nos termos e imagem ideológica de cada um dos lados; por causa disso se fixou uma rotina de proposta e contraproposta, acusação e contra-acusação, fartamente misturadas com muitos desvios e falcatruas, e nada foi obtido na direção de qualquer tipo de acordo ao longo dos anos seguintes. Embora as duas capitais Moscou e Washington e seus líderes coreanos escolhidos a dedo não desgostassem de o país estar dividido (melhor meio país que país nenhum), oficiais e cidadãos dos dois lados continuaram a defender genuinamente e sempre a unificação.

O fato de a Coreia ainda ser um só país, e de a unificação continuar a ser o objetivo, foi destacado pelo embaixador dos EUA na ONU, Warren Austin, no momento em que a guerra começou, em declaração que fez pouco depois:

"A barreira artificial que dividiu o Norte e o Sul da Coreia não tem base nem na lei nem na razão. Nem a ONU, sua Comissão sobre a Coreia, nem a República da Coreia [Coreia do Sul] reconhecem aquela linha. Agora, os norte-coreanos, em ataque armado contra a República da Coreia negam a própria realidade de tal linha." [1]

Os dois lados já há anos viviam em escaramuças, um contra o outro, na faixa do paralelo. O que aconteceu naquele fatídico dia de junho pode portanto ser visto como nada além da escalada de uma guerra civil já em curso. O governo da Coreia do Norte declarou que só no ano de 1949 o Exército da Coreia do Sul ou a polícia sul-coreana cometeram 2.617 incursões armadas em território do Norte, para ações de assassinado, sequestro, pilhagem e roubo, com o objetivo de insuflar tumultos e desordem social, e também para dar treinamento de combate aos invasores. Em algumas dessas ações, afirmou o governo de Pyongyang, milhares de soldados estiveram envolvidos em uma única batalha com muitas baixas resultantes. [2]

Funcionário do Departamento de Estado, o Ambassador-at-large Philip C Jessup, falando em abril de 1950, pôs as coisas nos seguintes termos:

"Há luta constante entre o Exército da Coreia do Sul e bandos que se infiltram no país vindos do norte. Há verdadeiras batalhas, envolvendo talvez mil ou dois mil homens. Quando se chega a essa fronteira, como eu cheguei (...) vê-se movimento de tropas, fortificações e prisioneiros de guerra." [3]

Vista nesse contexto, a questão de quem disparou o primeiro tiro dia 25  de junho de 1950 tem bem pouco significado. Atualmente, a versão que a Coreia do Norte dá dos eventos é que seu movimento de invasão foi provocado por dois dias de bombardeio pelos sul-coreanos, dias 23 e 24 de junho, seguidos de um ataque-surpresa pelos mesmos sul-coreanos que através da fronteira dia 25 de junho, contra a cidade ocidental de Haeju e outros pontos. Notícia do ataque por tropas do sul foi transmitida por rádio, no Norte, horas depois, na manhã do dia 25 de junho.

Ao contrário da crença geral naquele momento, nenhum grupo da ONU – nem o Grupo de Observação Militar da ONU em campo, nem a Comissão da ONU para a Coreia, em Seul, testemunharam ou declarou ter testemunhado o início das hostilidades. A viagem do Grupo de Observação por terra ao longo do paralelo terminou dia 23 de junho. Suas declarações sobre o que aconteceu depois são especulações ou baseadas em informações recebidas do governo sul-coreano ou do exército dos EUA.

Sobretudo, no início da manhã do dia 26, o Gabinete Sul-coreano de Informação Pública anunciou que forças do sul teriam tomado a cidade de Haeju, na Coreia do Norte. O anúncio informava que o ataque teria acontecido naquela manhã, mas militares dos EUA, num relatório de situação emitido no início da noite de 25 de junho, informavam que todo o território do sul a oeste do rio Imjin River havia sido perdido, numa faixa de cerca de 5 km de profundidade além da linha de fronteira, exceto na área do "contra-ataque" de Haeju.

Seja como for, tal vitória militar das forças do Sul é evento difícil de reconciliar com o relato oficial ocidental, mantido até hoje, de que o exército da Coreia do Norte assaltara o sul em ataque surpresa avassalador, tomando o controle de tudo que encontrou pela frente, e forçando as tropas sul-coreanas a evacuarem mais para o sul.

Subsequentemente, o governo da Coreia do Sul negou que tivesse capturado a cidade de Haeju, atribuindo o anúncio inicial, aparentemente, aos exageros de algum militar. Um historiador explicou o anúncio supostamente falso atribuindo-o a "erro devido às más comunicações, além da tentativa de anunciar alguma 'vitória', para com isso estimular a resistência sul-coreana". Haja o que houver por trás daquele anúncio, é evidente que pouco se pode confiar – se é que se poderia confiar – em comunicados distribuídos pelo governo sul-coreano sobre o início da guerra [4].

Houve de fato notícias na imprensa ocidental do ataque contra Haeju, que não falam do comunicado do governo da Coreia do Sul, e que parecem ser confirmações independentes, daquele evento. O London Daily Herald, em edição de 26/6, dizia que "observadores militares norte-americanos informam que forças do sul levaram a efeito contra-ataque bem-sucedido próximo à costa ocidental, avançando mais de 5 km em território do norte e tomaram a cidade de Haeju". A mesma notícia reapareceu no Guardian de Londres, no mesmo dia: "Militares norte-americanos confirmaram que tropas do sul capturaram Haeju".

Assim também o New York Herald Tribune noticiou, também dia 26/6, que "tropas sul-coreanas atravessaram o paralelo 38, que forma a fronteira, para capturar a cidade manufatureira de Haeju, ao norte da linha. Tropas Republicanas capturaram grande quantidade de equipamentos". Nenhum dos relatos informa precisamente quando aconteceu o ataque.

Dia 25, o escritor norte-americano John Gunther estava no Japão preparando sua biografia do general Douglas MacArthur. Como conta no livro, estava andando como turista pela cidade de Nikko com "dois membros importantes" da ocupação norte-americana, quando "um deles foi chamado inesperadamente ao telefone. Ao voltar, sussurrou 'Começou uma coisa grande. Os sul-coreanos atacaram a Coreia do Norte!'" Naquela noite, Gunther e sua equipe voltaram para Tóquio onde "vários oficiais nos receberam na estação, para contar com muito amplificação o que realmente acontecera (...) Não havia qualquer dúvida de que a Coreia do Norte era força agressora".

E o tal telefonema? Gunther explica: "A mensagem pode ter sido deturpada na transmissão. Ninguém sabia grande coisa no quartel general durante as primeiras poucas horas, e o pessoal foi provavelmente apanhado na corrosiva, flagrante teia de mentiras da rádio da Coreia do Norte". [5]

Há algo bem pouco crível nesse quadro de pessoal militar e diplomático norte-americanos, todos eles bem treinados anticomunistas, acabarem enganados em assunto tão importante, por mentiras de rádio comunista.


O líder da Coreia do Sul, Syngman Rhee, várias vezes manifestou seu desejo e a prontidão para encaminhar pela força a unificação da Península Coreana. Dia 26/6, o New York Times relembrava aos seus leitores que "em inúmeras ocasiões, o Dr. Rhee indicou que seu exército teria tomado a ofensiva, se Washington tivesse consentido". O jornal registrava também a mesma informação antes do início da guerra: "A conversa pró-guerra, estranhamente, sempre viera, quase toda, do lado dos líderes sul-coreanos".

Rhee pode ter tido boas razões para provocar guerra total, além da questão da unificação. Dia 30 de maio, houvera eleições para a Assembleia Nacional no Sul, nas quais o partido de Rhee sofrera pesada derrota e perdeu a maioria da Assembleia. Como incontáveis governantes antes dele, Rhee pode ter decidido jogar a carta da guerra para atrair apoio para seu depauperado governo. Um conselheiro para questões de trabalho ligado à missão norte-americana de ajuda à Coreia do Sul, Stanley Earl, renunciou em julho, divulgando a opinião de que o governo da Coreia do Sul não passava de "regime opressor" que "fez muito pouco para ajudar o povo" e que "teria acontecido uma rebelião interna na Coreia do Sul, contra o governo de Rhee, se as forças da Coreia do Norte não tivessem invadido". [6]

O líder soviético Nikita Khrushchev, em suas memórias, deixa absolutamente claro que os norte-coreanos consideravam há algum tempo a possibilidade de invadir o Sul, e fala da invasão real sem falar de provocação, naquele mesmo dia.

Poderia ter feito assim, apenas para se livrar dessa específica questão. Mas o capítulo de Khrushchev sobre a Coreia é todo ele relato superficial. Não é – nem foi concebido para ser – trabalho de historiador sério. Como diz o próprio Khrushev:

"Minhas memórias da Guerra da Coreia são inegavelmente esquemáticas ". (Só viria a ser líder soviético depois do fim da guerra.) O capítulo não discute qualquer combate que tivesse acontecido antes através da fronteira, nada sobre as declarações beligerantes de Rhee, nada absolutamente sequer sobre a ausência da União Soviética da ONU, crucialmente importante porque, como veremos adiante, permitiu que fosse constituído o chamado "Exército da ONU", que interveio no conflito. Mas aquelas memórias, como foram pulicadas, são versão editada e condensada das fitas que gravadas pelo próprio autor. Estudo baseado numa comparação entre a transcrição das fitas em idioma russo e o livro publicado em inglês mostra que algumas lembranças de Khrushchev sobre a Coreia eram realmente esquemáticas, mas não é o que o livro mostra. Por exemplo, lá se registra que o líder da Coreia do Norte Kim Il-sung reuniu-se com Stálin para discutir o desejo manifesto de Kim de "arrancar a Coreia do Sul com a ponta de uma baioneta". E o livro informa, sem qualquer ambiguidade: "Kim voltou para casa, para retornar a Moscou, quando já tivesse tudo planejado." Mas na transcrição, o que Khrushchev diz é: "Em minha opinião, nem a data do retorno estava marcada, ou ele nos informaria logo que tivesse posto as próprias ideias em ordem. Daí em diante, não lembro em que mês ou ano Kim Il-sung veio e explicou seu plano a Stálin" [7].

Dia 26/6/1950, os EUA apresentaram projeto de resolução ao Conselho de Segurança da ONU condenando a Coreia do Norte pela "agressão não provocada". A resolução foi aprovada, embora houvesse argumentos de que "é luta entre as Coreias" e devia ser tratada como guerra civil, e uma sugestão, do representante do Egito, de que se retirasse a expressão "não provocada", dadas as hostilidades entre as duas Coreias que se arrastavam há anos. [8] A Iugoslávia insistiu que "não temos informação precisa suficiente para que esse Conselho declare a responsabilidade do Norte" e propôs que a Coreia do Norte fosse convidada a comparecer e explicar seu lado da história. [9] Não aconteceu. (Três meses depois, o ministro de Relações Exteriores da URSS apresentou uma moção requerendo que a ONU ouvisse representantes dos dois lados. A nova moção foi rejeitada por 46 x 6 votos; e, por causa da "agressão" da Coreia do Norte, decidiram convidar só a Coreia do Sul.) [10]

Dia 27, o Conselho de Segurança recomendou que membros da ONU garantissem ajuda à Coreia do Sul "como pode vir a ser necessário para repelir ataque armado". Nesse momento, o presidente Truman já enviara para combate a Marinha e a Força Aérea dos EUA – entregando ao Conselho de Segurança um fato consumado [11], tática que os EUA repetiriam várias vezes antes de a guerra acabar. – O Conselho de Segurança tomou sua decisão histórica absolutamente sem qualquer informação confiável, e a partir de informação vinda, toda ela, de um dos lados em conflito. Ato, nas palavras do jornalista, "nem honroso nem esperto".

Deve-se ter em mente que em 1950, a ONU não era absolutamente nem equilibrada nem neutra. A grande maioria dos membros dependiam pesadamente dos EUA para a recuperação econômica e para se desenvolver. Não havia bloco do Terceiro Mundo, que anos depois construiriam política muito mais independente dos EUA na ONU. E apenas quatro estados do bloco soviético eram membros da organização naquele momento, nenhum deles no Conselho de Segurança. {12}

Nem o secretário-geral da ONU, Trygve Lie, da Noruega, poderia ser considerado neutro, no clima controverso da guerra fria. Em suas memórias, Lie deixa notavelmente claro que não era outsider neutro. Seus capítulos sobre a Guerra da Coreia são pura genuflexão anticomunista e revelam o modo como manobrou a questão. {13} Em 1949, como depois se soube, Lie entrara num acordo secreto com o Departamento de Estado dos EUA para demitir de qualquer função que tivessem na ONU todos os indivíduos que Washington achasse que tivessem inclinações políticas 'questionáveis'. {14}

A adoção dessas resoluções pelo Conselho de Segurança só foi possível porque a URSS estava ausente da discussão, porque naquele momento boicotava a ONU, que se recusava a dar à China Comunista o lugar de Taiwan. Se os russos lá estivessem sem dúvida vetariam as resoluções. Essa ausência sempre foi dificuldade insanável para os que insistem que os russos estariam por trás da invasão de que os norte-coreanos são acusados. Uma das explicações mais frequentes é que os russos – como se lia num memorando da CIA – queria "desafiar os EUA, especificamente testar a firmeza da resistência que os EUA faziam à expansão comunista". {15}

Se se sabe que durante toda a existência da URSS essa mesma análise foi repetida por especialistas norte-americanos em virtualmente todos os casos em que se confrontaram EUA e as esquerdas em todo o mundo, antes e depois da Coreia, já se vê que o teste durava tempo inacreditavelmente longo. E absolutamente não se entende por que motivo os sovietes jamais chegaram a qualquer conclusão.

"O toque final" – escreveu I F Stone –, foi "pôr as forças das 'Nações Unidas' sob o comando de MacArthur, sem pôr MacArthur sob o comando das Nações Unidas. Aconteceu dia 7/7/1950, por uma Resolução apresentada conjuntamente por Grã-Bretanha e França. Supõe-se de modo geral que assim se teria estabelecido um Comando Nações Unidas. Na verdade, não aconteceu nada disso." {16} A Resolução determinava que "todos os estados membros que fornecem forças militares e outros tipos de assistência (...) tornem essas forças e outros tipos de assistência a serviço de um comando unificado sob a autoridade dos EUA". Determinava também que "os EUA designassem o comandante dessas forças". {17} Seria o temível MacArthur.

Foi concebido para ser um show norte-americano. Participaram, de um modo ou de outro, militares de 16 outros países e, exceto os da Coreia do Sul, havia poucas dúvidas sobre o real status ou função deles. Mais tarde, Eisenhower escreveu em suas memórias, que quando analisava a ideia de uma intervenção militar no Vietnã em 1954, também como parte de uma "coalizão", reconheceu que a carga real da operação recairia sobre os EUA, "mas as forças simbólicas fornecidas por essas outras nações, como na Coreia, acrescentaria real status moral a uma aventura que, de outro modo, poderia ser mostrada como exemplo de exercício brutal de imperialismo" [18].


A guerra, e foi realmente brutal, foi combatida ostensivamente como defesa do regime de Syngman Rhee. Fora dos livros publicados por vários governos sul-coreanos, é muito difícil encontrar uma palavra favorável ao homem que os EUA levaram de volta para a Coreia em 1945 depois de décadas de exílio nos EUA durante a ocupação japonesa em seu país. Levado num dos aviões de MacArthur, Rhee foi rapidamente manobrado até uma posição de destaque e autoridade pelo Governo Militar do Exército dos EUA na Coreia (ing. USAMGIK). No processo, funcionários dos EUA tiveram de pôr fim a um governo provisório, chamado República Popular Coreana, RPC, resultado de vários comitês regionais governantes criados por coreanos proeminentes e que já começara a executar tarefas administrativas como distribuição de alimentos e manutenção da ordem. Os serviços que a RPC pôs à disposição dos norte-americanos recém-chegados foram imediatamente descartados.

Apesar do nome com ecos de comunismo, a RPC incluía vários conservadores; e recebeu deles a posição de liderança. Rhee e os demais conservadores, muito dos quais ainda estavam no exterior quando foram 'nomeados', talvez nem se sentissem honrados, porque a RPC, bem examinada, era provavelmente esquerdista demais para o gosto deles, como também para os altos escalões do USAMGIK. Mas depois de 35 anos de governo japonês, qualquer grupo ou governo que prometesse desfazer os efeitos do colonialismo teria de ter algum tipo de tintura revolucionária. Na Coreia, os conservadores haviam colaborado com os japoneses; esquerdistas e outros nacionalistas haviam combatido contra os japoneses; o governo de emergência da RPC necessariamente refletia tudo isso e era, segundo todos os relatos, mais popular que qualquer outro grupo político {19}.

Fossem quais fossem as inclinações políticas da RPC, ao negar-lhe qualquer "autoridade, status ou forma" {20}, o USAMGIKregulava a vida política dos coreanos como se o país fosse inimigo derrotado, não estado amigo libertado de um inimigo comum, com direito à independência e à autodeterminação.

O significado do desmonte da RPC vai bem além disso. John Gunther, que de modo algum pode ser declarado radical, assim resumiu a situação: "Com o desmonte da RPC, a primeira e melhor chance de construir uma Coreia unida foi sumariamente jogada fora" {21}. E Alfred Crofts, membro do governo militar norte-americano naquele momento, escreveu que "o que poderia ser uma agência de unificação do país tornou-se assim um dos 54 grupos em que se dividiu a vida política sul-coreana" {22}.

Syngman Rhee seria o homem de Washington: eminentemente pró-EUA, furiosamente anticomunista, suficientemente controlável. O seu foi governo de latifundiários, colaboracionistas, ricos em geral e outros elementos conservadores que por ali abundavam. Crofts registrou que "antes de os EUA pousarem, era completamente impossível e impensável uma direita política associada no pensamento do povo ao velho governo colonial; mais pouco depois já alimentávamos pelo menos três facções de conservadores" {23}.

Comprometido com implantar o regime de livre empresa, o USAMGIK vendeu grandes quantidades de propriedades japonesas confiscadas, moradias, empresas, matéria-prima industrial e outros valores. Os que mais podiam pagar por esses bens eram colaboradores que haviam enriquecido durante o domínio japonês e outros aproveitadores. "Com metade do patrimônio nacional 'entregue para ser roubado', a desmoralização foi rápida" {24}.

Enquanto os russos procederam a rigorosa faxina entre os coreanos do norte que haviam colaborado com os japoneses, o governo militar dos EUA no sul acolhia muitos colaboradores e, de início, até os próprios japoneses, mantidos em posições administrativas e de autoridade, para grande consternação dos coreanos que haviam lutado contra a ocupação japonesa no país deles. Em certa medida, essa gente foi mantida nos antigos postos porque tinham experiência, para manter o país funcionando. Outra razão também sugerida: para impedir que a RPC assumisse qualquer fatia de poder {25}.

E enquanto o norte implementou ampla e efetiva reforma agrária e a igualdade pelo menos formal entre homens e mulheres, o governo de Rhee no sul permaneceu hostil a tudo isso. Dois anos depois aplicou uma reforma agrária limitada, que só se aplicava às antigas propriedades de japoneses. Outra lei de 1949, que cobria também outras propriedades, jamais foi executada, e o abuso do uso da terra continuou nas modalidades já conhecidas e em outras, novas [26].

O ressentimento da população contra o governo EUA/Rhee foi rapidamente despertado, por causa dessas políticas e, também, por causa da derrubada da RPC e da realização de eleições altamente duvidosas. O governo Rhee tinha tão pouco interesse em fazer eleições limpas e justas que, no início de 1950, já se convertera em grave problema para os EUA, a ponto de Washington ameaçar retirar toda a ajuda se as eleições não acontecessem e se não houvesse grande melhora na situação das liberdades civis. Aparentemente por causa dessa pressão, as eleições realizadas dia 30 de maio foram suficientemente justas a ponto de permitir a participação de elementos "moderados". Nessas eleições, como já se mencionou acima, o governo Rhee foi fragorosamente derrotado {27}.

O ressentimento manifestou-se na forma de rebeliões frequentes, inclusive com guerrilha nas colinas, desde 1946 até o início da guerra e mesmo durante a guerra. As rebeliões eram desqualificadas pelo governo como ação "inspirada por comunistas" e reprimidas violentamente, mas, como John Gunther observou, "Pode-se dizer com segurança que, aos olhos de Hodge [comandante das forças dos EUA na Coreia] e Rhee, sobretudo no começo, quase todos os coreanos que não fossem extremistas de direita eram comunistas e potenciais traidores" {28}.

O general Hodge evidentemente permitiu que soldados dos EUA participassem na repressão. Mark Gayn, correspondente doChicago Sun na Coreia, escreveu que soldados dos EUA "atiravam contra multidões, faziam prisões em massa, variam as colunas à caça de 'suspeitos' e organizavam grupo de direitistas, mercenários e policiais para raids massivos" {29}. Gayn relatou que um dos conselheiros políticos de Hodge lhe garantiu que Rhee não era fascista: "Nasceu dois séculos antes do fascismo – um puro Bourbon" {30}.

Descrevendo a campanha governamental antiguerrilheiros em 1948, o cientista político pró-Ocidente John Kie-Chiang Oh da Marquette University escreveu: "Naquelas campanhas, as liberdades civis de incontáveis pessoas eram frequentemente ignoradas. Frequentemente, moradores das vilas, completamente desamparados, suspeitos de colaborar com a guerrilha, foram sumariamente executados" {31}. Um ano depois, quando uma comissão da Assembleia Nacional iniciou uma investigação dos colaboracionistas, Rhee mandou a polícia invadir a Assembleia: foram 22 presos, dos quais 16, como adiante se comprovou, tiveram costelas e crânio quebrados ou tímpanos perfurados {32}.

Quando eclodiu a guerra, em junho de 1950, estima-se que houvesse 14 mil prisioneiros políticos nos cárceres da Coreia do Sul {33}.

Mesmo no auge da guerra, em fevereiro de 1951, escreveu o professor Oh, houve o "caso Koch'ang", novamente envolvendo suspeitos de ajudar a guerrilha, "no qual cerca de 600 homens e mulheres, jovens e idosos, foram empurrados pra um desfiladeiro estreito e dizimados a tiros de metralhadora por uma unidade do exército sul-coreano" {34}.


Durante a guerra, prosseguiu um intenso fogo cruzado de acusações dos dois lados, todos acusando o outro lado de cometer todos os tipos de barbaridades as mais atrozes, contra soldados, prisioneiros de guerra e civis, em todos os cantos do país (várias vezes aconteceu de um lado ocupar território do outro lado), todos na luta para superar o outro lado na guerra verbal de superlativos, quase tão feroz quanto o combate. Nos EUA, produziu-se assim um corpo de mitos populares e lendas urbanas, não diferente do que se viu em outras guerras amplamente aprovadas dentro dos EUA. (Diferente disso, durante a Guerra do Vietnã a tendência à proliferação dos mitos era constantemente combatida com falas e publicações de protestantes bem informados e acadêmicos dedicados a pesquisar atentamente as origens da guerra e que fiscalizavam os desdobramentos, o que lhes permitia construir versões cheias de fatos e dados, que se opunham frontalmente às versões oficiais. Essa atividade dos intelectuais antiguerra do Vietnã não raras vezes influenciou ou forçou a mídia-empresa de massas a fazer o mesmo.)

Estabeleceu-se nos EUA, por exemplo, o consenso de que toda e qualquer brutalidade que acontecesse na Península Coreana seria sempre e indiscutivelmente atribuída aos norte-coreanos. O Caso Koch'ang acima referido pode ser importante como contrapeso que equilibre aquela crença. Referindo-se a esse incidente, o professor britânico coreano Jon Halliday observou:

"Esse relato não apenas ajuda a mostra o nível da violência policial que o lado da ONU cometia, mas também dá alta plausibilidade às acusações feitas pela RPDC [República Popular Democrática da Coreia, "Coreia do Norte"] e pela oposição na Coreia do Sul, de atrocidades e execuções em massa cometidas pelas forças da ONU e do governo Rhee durante a ocupação da RPDC no final de 1950. Afinal, se civis podiam ser fuzilados em massa no sul, por suspeita de ajudar (sequer eram acusados de ser) guerrilheiros – o que dizer do que acontecesse no Norte, onde milhões podiam ser realmente declarados comunistas e militantes políticos? {35}.

O relato de Oh é apenas um de muitos relatos de massacres na Coreia do Sul contra sul-coreanos durante a guerra. O New York Times noticiou uma "onda de execuções [pelo governo sul-coreano] em Seul" em dezembro de 1950 {36}. Rene Cutforth, correspondente da BBC na Coreia, escreveu mais tarde sobre "morte a tiros de civis sem qualquer julgamento, quase sempre ao raiar do dia, ou em qualquer palmo de terreno baldio onde se pudesse cavar uma trincheira e alinhar um grupo de prisioneiros a centímetros do buraco" {37}. E Gregory Henderson, diplomata dos EUA que serviu durantes sete anos na Coreia nos anos 1940s e 1950s, disse que "provavelmente foram mortos mais de 100 mil, sem qualquer julgamento" pelas forças de Rhee no Sul, durante a guerra {38}. Depois de alguns dos massacres de civis no Sul, o governo de Rhee punha-se a atribuir os crimes a soldados do Norte.

Um dos modos pelos quais os EUA contribuíram diretamente para a brutalidade da guerra na Coreia foi a introdução de uma arma que, embora já utilizada nas fases finais da 2ª Guerra Mundial e na Grécia, ainda era novidade para quase todos os observadores e participantes da Guerra na Coreia: o napalm. Eis o que o New York Times escreveu sobre a ação e o efeito dessa arma.

"Um raid de napalm atingiu a vila há três ou quatro dias, quando os chineses estavam em avançada, e nenhum cadáver foi enterrado porque não sobrou ninguém vivo (...) Os moradores na vila e nos campos próximos foram atingidos e mortos e lá ficaram nas exatas posições em que estavam quando o napalm os atingiu – um homem com uma perna sobre a bicicleta, 50 meninos e meninas brincando num orfanato, uma dona de casa estranhamente sem qualquer ferimento aparente, tendo na mão uma página arrancada de um catálogo de Sears-Roebuck onde alguém anotou a lápis "Pedido de Correio n. 3.811.294" por uma "sedutora colcha de cama – Coral, de $2,98". Deve haver quase 200 mortos no pequeno povoado" {39}.

Os EUA provavelmente também fizeram guerra biológica contra Coreia do Norte e China [como discutido antes, no capítulo sobre a China].

Ao mesmo tempo, a CIA estava sabidamente caçando empenhadamente um único homem para exterminá-lo – o líder Kim II Sung da RPDC. Washington mandou um índio Cherokee, codinome "Buffalo", para Hans V Tofte, oficial da CIA que servia no Japão, depois que Buffalo concordou com a missão de assassinar Kim II Sung. Prometeram a Buffalo uma considerável quantia de dinheiro se a missão fosse bem-sucedida. Como não foi, nada mais jamais se falou sobre o incidente [40].


Outra crença muito disseminada nos EUA durante a Guerra da Coreia foi que os prisioneiros norte-americanos estariam morrendo como moscas nos campos da Coreia do Norte por causa da crueldade e negligência comunistas. As chamas dessa questão muito emocional eram sopradas pela tendência dos oficiais norte-americanos a inflar os números. Durante novembro de 1951, por exemplo – muito antes do fim da guerra –, comunicados militares norte-americanos falavam de entre 5 mil e 8 mil prisioneiros de guerra {41}. Contudo, estudo extensivo completado pelo Exército dos EUA dois anos depois da guerra revelou que o número total de prisioneiros ao longo de toda a guerra foi de 2.730 (dos 7.190 mantidos em campos; número desconhecido de outros prisioneiros jamais chegaram aos campos, sendo mortos onde estivessem, por causa da inconveniência de lidar com prisioneiros durante os combates, uma prática que se constatou nos dois lados em luta).

O estudo concluiu que "há evidência de que a alta taxa de mortalidade não foi efeito de maus tratos comunistas (...) mas, muito mais, pela ignorância ou insensibilidade dos próprios prisioneiros" {42}. "Insensibilidade" [orig. Callousness] refere-se aqui à falta de moral e espírito coletivo. Embora nada disso se mencione no estudo, os norte-coreanos várias vezes denunciaram que muitos prisioneiros norte-americanos também morriam nos campos de prisioneiros, por efeito do pesado bombardeio pelos aviões dos EUA.

O estudo, claro, jamais sequer se aproximou de desmentir as apavorantes manchetes servidas durantes três anos ao público ocidental. Também encobriu o fato de que número muito maior de prisioneiros comunistas morreram nos campos norte-americanos/sul-coreanos de prisioneiros – à altura de metade da guerra, o número oficial estava em 6.600 {43} –, embora aqueles campos reunissem número muito superior de prisioneiros que os campos na Coreia do Norte.

O povo norte-americano também foi convencido, e provavelmente assim continua até hoje, que os norte-coreanos e chineses faziam 'lavagem cerebral' nos soldados dos EUA. Essa história surgiu para explicar o fato de que número equivalente a 30% dos prisioneiros norte-americanos naquela guerra colaboraram, de um modo ou de outro, com o inimigo e "um homem em cada sete, ou mais de 13%, era culpado de colaboração grave – redigindo relatos desleais (...) ou aceitando espionar ou organizar grupos e serviços para os comunistas depois da guerra" {44}. Outra razão pela qual o mote da lavagem cerebral foi promovido por Washington é que aumentava a probabilidade de que a opinião pública não levasse a sério o que diziam prisioneiros que voltavam ao país com versões diferentes da versão oficial.

Nas palavras de Robert J Lifton psiquiatra de Yale, a lavagem cerebral era considerada entre as massas leigas como "método todo-poderoso, irresistível, inconcebível e mágico, de obter total controle sobre a mente humana" {45}. Apesar de a CIA ter feito experimentos, que começaram nos anos 1950s, para desenvolver tal invencível magia, nem a CIA nem os norte-coreanos ou os chineses jamais a alcançaram. A CIA começou seus experimentos de "controle comportamental" ou "controle da mente" em humanos (provavelmente em suspeitos de atuarem como agentes duplos), usando drogas e hipnose, no Japão em julho de 1950, pouco depois do início da Guerra da Coreia. Em outubro, aparentemente teriam usado prisioneiros norte-coreanos de guerra como cobaias {46}. Em 1975, um psicólogo da Marinha dos EUA, tenente-comandante Thomas Narut, revelou que seu trabalho na Marinha incluíra estabelecer um método para induzir recrutas que não fossem naturalmente inclinados a matar, a fazê-lo sob algumas determinadas condições. Referia-se a esses homens como "pistoleiros" [ing.hitmen]" e "assassinos". Narut acrescentou que assassinos condenados também foram retirados de prisões militares para se tornarem "assassinos" {47}.

Lavagem cerebral, dizia o estudo do Exército, "tornou-se palavra-coringa, usada para significar tantas coisas que já não tinha nenhum significado preciso" e "significado preciso é indispensável nesse caso" {48}.

"Os prisioneiros, na medida do que psiquiatras do Exército conseguiram descobrir, não eram submetidos a coisa alguma que se pudesse designar propriamente como lavagem cerebral. Na verdade, o tratamento que os comunistas davam aos prisioneiros, embora nem de perto atendesse às exigências da Convenção de Genebra, raramente envolveu crueldade extrema; de fato, parecia mais uma nova e ainda desconhecida mistura de leniência e pressão (...). Os comunistas raramente usaram tortura física (...), e o Exército não encontrou nenhum caso verificável em que a tortura física tivesse sido usada para o específico propósito de forçar um homem a colaborar ou a aceitar as convicções comunistas" {49}.

Segundo o mesmo estudo, contudo, alguns aviadores norte-americanos, dos cerca de 90 que foram capturados teriam sofrido abusos físicos, com o objetivo de arrancar deles confissões sobre guerra bacteriológica. Pode ser indício de o quanto os comunistas ressentiam-se ante o uso desse tipo de arma, ou necessidade de comprovar, de algum modo, alguma coisa que já soubessem, alegação falsa ou simplesmente mentira.

Mas os soldados norte-americanos sempre eram submetidos a doutrinação política por seus carcereiros. Eis como o Exército dos EUA via o processo:

"Nas palestras de doutrinação, os comunistas frequentemente exibiam mapas terrestres com marcas nos pontos de nossas bases militares, cujos nomes eram evidentemente conhecidos pelos prisioneiros. 'Estão vendo essas bases?' perguntava o instrutor, batendo sobre o mapa com uma haste de madeira que usava para apontar. 'São bases norte-americanas – cheias de material de guerra. Vocês sabem que são bases dos EUA. E vocês estão vendo que cercam Rússia e China. Rússia e China não têm base alguma fora dos respectivos territórios. Só por isso já se vê quem é o belicista. Por que os EUA teriam essas bases e gastariam milhões para mantê-las, se não fossem parte da preparação da guerra contra Rússia e China?' Esse argumento parecia correto e plausível para muitos dos prisioneiros. Em geral, nenhum deles jamais ouvira dizer que aquelas bases mostravam não que os EUA desejassem guerra, mas que só desejavam paz, que as bases lá estavam como parte de vários tratados assinados não para conquistar, mas para impedir a agressão pelos Vermelhos" {50}.

Os comunistas chineses, evidentemente, não inventaram essa prática. Durante a Guerra Civil Norte-Americana, prisioneiros dos dois lados, do Sul e do Norte, receberam doutrinação sobre os méritos respectivos dos dois lados. E na 2ª Guerra Mundial, foram dados "cursos de democratização" nos campos norte-americanos e britânicos para prisioneiros de guerra alemães, e alemães reformados recebiam privilégios. O Exército dos EUA orgulhava-se, sobretudo, de afirmar que prisioneiros comunistas em campos norte-americanos durante a Guerra da Coreia aprendiam "o que a democracia representa {51}.

A prevista agressão chinesa manifestou-se cerca de quatro meses depois do início da Guerra na Coreia. Os chineses entraram na guerra depois que aviões dos EUA violaram seu espaço aéreo repetidas vezes, bombardearam inúmeras vezes território chinês (sempre por "lastimável erro", quando usinas hidrelétricas no lado coreano da fronteira, vitais para a indústria chinesa, corriam grave risco, e forças dos EUA ou da Coreia do Sul chegavam já à fronteira chinesa, o rio Yalu, ou em vários pontos estavam a poucos quilômetros do rio.

A pergunta que não quer calar é: quanto tempo os EUA esperariam, tentando não entrar em guerra que uma potência comunista vinda do outro lado do mundo guerreasse no México, e que invadisse e bombardeasse cidades de fronteira no Texas, que já se organizasse ao longo do Rio Grande, e fosse comandada por general que ameaçava atacar diretamente os EUA?


O poder de fogo aéreo dos norte-americanos na Coreia servia para assustar. Como aconteceria no Vietnã, foi celebrado no uso de napalm, na destruição de vilas "suspeitas de ajudar o inimigo", no bombardeio de cidades até não haver nenhuma parede em pé, para destruir barragens e diques, de modo a inutilizar o sistema de irrigação, matar os campos de arroz (...) e em expressões comoventes como "política de terra arrasada", (ing. "scorched-earth policy"), "bombardeio de saturação" (ing. "saturation bombing"), e "matador operacional" (ing. "operacion killer") {52}.

"Pode dar adeusinho àquele grupo de vilas!" exclamou o capitão Everett L Hundley de Kansas City, Kansas, depois de um raid de bombardeamento {53}.

"Eu diria que toda, quase toda, a Península Coreana é só confusão, uma terrível confusão" – testemunhou o major-general Emmett O'Donnell perante o Senado, quando a guerra já completava um ano. "Está tudo destruído. Nada há em pé, que valha o nome" {54}.

E aqui, as palavras do venerável guia militar britânico, Brassey's Annual, no livro do ano de 1951:

"Não é exagero dizer que a Coreia do Sul já não existe como país. As cidades foram destruídas, muitos dos seus meios de sobrevivência erradicados, e o povo reduzido a uma massa dependente de caridade e exposto a influências subversivas. Quando a guerra terminar não se deve esperar nenhuma gratidão dos sul-coreanos, mas deve-se esperar que a lição tenha sido bem aprendida, que de nada serve destruir para libertar. Com certeza a Europa Ocidental jamais aceitaria tal 'libertação'" {55}.

Mas o pior dos bombardeios ainda estava por vir. Começou no verão de 1952 e foi o modo de Washington para se posicionar em melhor posição para barganhar com os comunistas, em conversações que já estavam em andamento há um ano, enquanto prosseguiam os combates. As longas e amargas negociações geraram outra crença ocidental que tudo invadiu – que as conversações teriam sido frustradas e a guerra prolongada por culpa dos comunistas, de sua intransigência, duplicidade e falta de vontade de fazer a paz.

Esse é capítulo longo e tormentoso da história da Guerra da Coreia, mas não é preciso entrar muito fundo para constatar o fato de que muitas barreiras foram erguidas contra a paz também do lado dos anticomunistas. Syngman Rhee, por exemplo, opunha-se absolutamente a qualquer conclusão que não fosse total vitória, que os dois governos, de Truman e de Eisenhower traçaram planos para derrubá-lo {56}; o que não significa sugerir que os negociadores norte-americanos negociassem sempre de boa fé. A última coisa de que queriam ser acusado seria que tivessem permitido que os comunistas lhes passassem a perna. Em novembro de 1951, lia-se no New York Times:

"O modo objetivo, sem adornos, como número crescente deles [de soldados norte-americanos na Coreia] veem a situação nesse momento é que os comunistas fizeram importantes concessões, enquanto o Comando da ONU, como o veem, continua a impor mais e mais demandas (...) A equipe de negociadores da ONU criou a impressão de que mudam as próprias exigências cada vez que os comunistas dão sinais de que possam vir a concordar" {57}.

Num dado momento nesse mesmo período, quando os comunistas sugeriram que um cessar-fogo e a retirada de tropas da linha de combate poderia acontecer ainda enquanto prosseguiam as negociações, o Comando da ONU reagiu quase como se aqueles movimentos fossem ato vicioso e de beligerância "A posição dos comunistas hoje" – dizia o comunicado do Comando da ONU –, "foi virtualmente de renúncia ao que sempre defenderam, que as hostilidades deviam continuam durante as discussões do armistício" {58}.


Era uma vez, quando os EUA combateram uma grande guerra civil, na qual o Norte tentou reunificar pela força militar o país dividido. Alguma Coreia ou China ou qualquer outra potência estrangeira enviou exército para massacrar norte-americanos, e sempre culpando Lincoln pela agressão?

Por que os EUA escolheram fazer guerra total na Coreia? Apenas um ano antes, em 1949, na luta entre árabes e israelenses na Palestina, e na guerra Índia-Paquistão pela Caxemira, a ONU, com apoio dos EUA, interveio para mediar um armistício, não com envio de um exército para assumir a defesa de um dos lados e expandir os combates. E esses dois conflitos tinham ainda menos de guerra civil, que o caso na Coreia. Se a resposta de EUA/ONU tivesse sido a mesma também naqueles casos anteriores, a Palestina e a Caxemira talvez tivessem acabado num deserto de terra arrasada, como aconteceu na Coreia. O que salvou a Palestina e a Caxemira, e manteve as forças dos EUA bem longe de lá foi, apenas, que nem na Palestina nem na Caxemira o conflito envolvia um lado comunista.

Notas

1. New York Times, 1/10/1950, p. 3.

2. "The EUA Imperialists Started the Coreian War" é o subtítulo do livro publicado em Pyongyang, Coreia do Norte, 1977, pp. 109-10.

3. Comunicado por rádio, 13/4/1950, reimpresso no The Department of State Bulletin, 24/4/1950, p. 627.

4. Para uma discussão da origem imediata da guerra, ver:

a) Karunakar Gupta, "How Did the Coreian War Begin?", The China Quarterly (London) Outubro/Dezembro 1972 n. 52, pp. 699-716.

b) "Comment: The Coreian War", The China Quarterly, Abril/Junho 1973, n. 54, pp. 354-68. São réplicas ao artigo de Gupta na edição n., 52 e a tréplica de Gupta.

c) New York Times, 26/6/1950. P. 1 – Anúncio da Coreia do Sul sobre Haeju. P. 3 – Anúncio da Coreia do Norte sobre Haeju.

d) Glenn D Paige, The Coreian Decision (24-30/6/1950) (New York, 1968) passim., especialmente p. 130.

e) I F Stone, The Hidden History of the Coreian War (New York, 1952) capítulo 7 e outros.

5. John Gunther, The Riddle of MacArthur (London, 1951), pp. 151-2.

6. New York Times, 25/7/1950, p. 4; 30/7, p. 2.

7. Khrushchev Remembers (London, 1971) capítulo 11. Estudo da transcrição vs o livro: John Merrill, Book Reviews, Journal of Coreian Studies (University of Washington, Seattle) Vol 3, 1981, pp. 181-91.

8. Joseph C Goulden, Coreia: The Untold Story of the War (New York, 1982) p. 64

9. New York Times, 26/6/1950.

10. Ibid, 1/10/1950, p. 4.

11. Goulden, pp. 87-8; Stone, pp. 75, 77.

12. Para mais discussão sobre o viéz da ONU naquele momento, ver Jon Halliday, "The United Nations e Coreia", in Frank Baldwin, editor , Without Parallel: The American-Coreian Relationship Since 1945 (New York, 1974), pp. 109-42.

13. Trygve Lie, In the Cause of Peace (New York, 1954) capítulos 18 e 19.

14. Shirley Hazzard, Countenance of Truth: The United Nations e the Waldheim Case (New York, 1990), pp. 13-22. Em seu livro, p. 389, ele diz que foi o primeiro a usar essa prática.

15. CIA memorandum, 28/6/1950, Declassified Documents Reference System (Arlington, Virginia) Retrospective Volume, Document 33C.

16. Stone, pp. 77-8.

17. O texto integral da Resolução do Conselho de Segurança de 7/7/1950 pode ser lido no New York Times, 8/7/1950, p. 4.

18. Dwight Eisenhower, The White House Years: Mandate for Change, 1953-1956 (New York, 1963) p. 340.

19. Para uma discussão da política pós-guerra na Coreia do Sul ver:

a) Bruce Cumings, The Origins of the Coreian War: Liberation e the Emergence of Separate Regimes, 1945-1947 (Princeton University Press, New Jersey, 1981) passim.,

b) E. Grant Mcade, American Military Government in Coreia (King's Crown Press, Columbia University, New York, 1951) capítulos 3-5.

c) George M McCune, Coreia Today (Institute of Pacific Relations, New York, 1950) passim., pp. 46-50 (RPC). Professor McCune trabalhou com o governo dos EUA sobre problemas da Coreia durante a 2ªGuerra Mundial.

d) D F Fleming, The Cold War e its Origins, 1917-1960 (Doubleday & Co, New York, 1961) pp. 589-97.

e) Alfred Crofts, "The Case of Coreia: Our Falling Ramparts", The Nation (New York) 25/6/1960, pp. 544-8. Crofts era membro do Governo Militar dos EUA na Coreia que começou em 1945.

20. Crofts, p. 545.

21. Gunther, p. 165.

22. Crofts, p. 545.

23. Ibid.

24. Ibid, p. 546.

25. Colaboradores: Cumings, pp. 152-6; Mcade, p. 61; McCune, p. 51; mais em outros pontos dessas fontes, e també em Fleming e Crofts. Sobre japoneses e colaboradores manterem os postos para esvaziar a República Popular da Coreia: Cumings, pp. 138-9.

26. McCune, pp. 83-4, 129-39, 201-9.

27. Eleição de 1946: Mark Gayn, Japan Diary (New York 1948) p. 398; eleição de 1948: Crofts, p. 546; Halliday, pp. 117-22; eleição de 1950 e alerta dos EUA warning; Fleming, p. 594. Para uma discussão da manipulação, por Rhee, do que seriam eleições honestas em 1952 e depois, e seu governo que foi invariavelmente tirânico, ver William J. Lederer, A Nation of Sheep (W W Norton & Co, New York, 1961), capítulo 4.

28. Gunther, pp. 166-7.

29. Gayn, p. 388.

30. Ibid, p. 352.

31. John Kie-Chiang Oh, Coreia: Democracy on Trial (Cornell University Press, Ithaca, New York, 1968) p. 35.

32. The Nation (New York), 13/8/1949, p. 152.

33. Gunther, p. 171.

34. Oh, p. 206; ver também New York Times, 11/4/1951, p. 4 para um relato do massacre de entre 500 e 1.000 pessoas em março, no mesmo local, que parece referir-se ao mesmo incidente.

35. Jon Halliday, "The Political Background", in Gavan McCormack e Mark Selden, editors, Coreia, North e South: The Deepening Crisis (New York, 1978) p. 56.

36. New York Times, 11/4/1951, p. 4.

37. Rene Cutforth, "On the Coreian War", The Listener (BBC publication, London) 11/9/1969, p. 343.

38. Gregory Henderson, Coreia: The Politics of the Vortex (Harvard University Press, Cambridge, Mass, 1968 p. 167.

39. New York Times, 9/2/1951, George Barrett.

40. Goulden, pp. 471-2. Essa informação deriva da entrevista que Goulden fez com Tofte.

41. New York Times, 27/11/ 1951, p. 4.

42. Eugene Kinkead, Why They Collaborated (London, 1960) p. 17; publicado nos EUA em 1959 em versão ligeiramente diferente da publicada como In Every War But One, o estudo do Exército não foi reunido em volume único, mas distribuído em vários relatórios separados. O livro de Kinkead, escrito com plena cooperação do Exército, é composto de um sumário de alguns daqueles relatórios, e entrevistas com muitos oficiais do governo e militares diretamente envolvidos no estudo ou que tinham informação sobre o assunto. Para simplificar, faço referência ao livro como se fosse o estudo. É mérito do Exército que muitos dos resultados do estudo não foram mantidos secretos; ainda assim, o estudo inclui algumas declarações anticomunistas das mais bizarras: mentira na China é punida com pena capital (...) comunistas vivem a vida como animais, da infância à velhice (...) [pp. 190-193].

43. Keesings Contemporary Archives, 5-12/1/1952, p. 11.931, anúncio dia 31/12/1951, do quartel-general do general Ridgeway.

44. Kinkead, p. 34.

45. Robert J Lifton, Thought Reform e the Psychology of Totalism; A Study of brainwashing in China (London, 1961) p. 4.

46. John Marks, The Search for the Manchurian Candidate: The CIA e Mind Control (New York, paperback edition, 1988), p. 25, baseado em documentos da CIA.

47. Sunday Times (London), 6/7/1975, p. 1. Narut nesse momento trabalhava num hospital naval dos EUA em Nápoles, Itália, e fez esses comentários numa conferência patrocinada pela OTAN em Oslo, Noruega, na semana anterior.

48. Kinkead, p. 31.

49. Ibid, pp. 17, 34.

50. Ibid, pp. 105-6.

51. Ibid, p. 197.

52. Para descrição concisa do "bombardeio do terror" de 1952-53, ver John Gittings, "Talks, Bombs e Germs: Another Look at the Coreian War", Journal of Contemporary Asia (London) vol. 5, n. 2, 1975, pp. 212-6.

53. Air Force Communique, 2/2/1951, citado por Stone, p. 259

54. Military Situation in the Far East, Hearings Before the Senate Committees on Armed Services end Foreign Relations, 25/6/1951, p. 3075.

55. Louis Heren, "The Coreian Scene", in Rear-Admiral H G Thursfield, editor, Brassey's Annual: The Armed Forces Year-Book 1951 (London, 1951) p. 110.

56. San Francisco Chronicle, 15/12/1977, p. 11, baseado em documentos liberados nos termos da Lei de Liberdade de Informação [ing. Freedom of Information Act].

57. New York Times, 12/11/1951, p. 3.

58. Ibid, 14/11/1951, p. 1.