2 de abril de 2020

Botando a bola no chão

O que sabemos com certeza é que a solução do problema exige coordenação federal

Nelson Barbosa

Folha de S.Paulo

Uma mulher caminha em frente a um muro com um graffiti representando Jair Bolsonaro - Sergio Moares/Reuters

As medidas necessárias para combater a Covid-19 causam grande debate no mundo. Várias pessoas perguntam se o remédio não é pior do que a doença, pois o fechamento temporário da economia (lockdown) gera grande perda de renda no curto prazo, com efeitos de longo prazo.

Como acontece com disputas em redes antissociais, a escolha parece se reduzir a dois extremos: nenhum isolamento para salvar a economia versus fechamento total para salvar vidas. Isto é um equívoco.

Se não houver isolamento, a explosão da doença levará o sistema de saúde ao colapso, a população ao pânico e a economia para o buraco. Se houver isolamento por tempo indefinido, a paralisação da produção, perda de renda e desabastecimento também levarão a população ao pânico e a economia para o buraco, afetando a saúde de milhões de pessoas. O que fazer?

Vários especialistas já explicaram a solução, vou apenas repetir: isolamento social para reduzir a velocidade de disseminação da doença, ganhando tempo para reforçar o sistema de saúde e proteger os grupos de maior risco. Uma vez feito isso, as atividades econômicas poderão voltar ao normal.

Quando? Ninguém sabe e isto causa ansiedade. A situação atual não tem precedente e só podemos fazer cenários, para semanas ou meses.

Na China, onde o Covid-19 apareceu em dezembro, somente agora o isolamento está sendo suspenso na província de Hubei. No Ocidente, ainda estamos na fase inicial de contenção da doença. Se a China serve de guia, teremos meses difíceis pela frente, por isso a necessidade de medidas econômicas emergenciais para lidar com a crise.

Mas nosso período de isolamento pode ser bem menor do que na China, pois a cada dia aprendemos mais sobre a Covid-19 e como tratar os doentes. A vacina ainda vai demorar, mas medidas de prevenção ao contágio, teste massivo da população e proteção a grupos de risco podem diminuir a duração do lockdown.

O que sabemos com certeza é que a solução do problema exige coordenação federal. Este tipo de coordenação é mais difícil em países continentais e federativos como o Brasil e os EUA, onde a ausência de resposta nacional força governadores e prefeitos a providências isoladas.

Ações estaduais e municipais tendem a diminuir o contágio, mas não são capazes, sozinhas, de garantir o retorno à normalidade social e econômica. O reforço do sistema de saúde e o combate aos efeitos econômicos da Covid-19 dependem de recursos e planejamento federais, hoje em falta no Brasil.

Seja pelas trapalhadas do Ministério da Economia, seja pela opção do Presidente da República em buscar inimigos em vez de soluções, o fato é que o governo federal vem piorando o problema ao acusar governadores e prefeitos pela crise econômica.

Se as medidas regionais de contenção funcionarem, o isolamento durará pouco e provavelmente o Presidente dirá que a Covid-19 não era tão sério.

Já se as ações regionais não forem suficientes e o isolamento durar muito tempo, o Presidente provavelmente dirá que a crise econômica não é culpa dele, como aliás já vem fazendo.

Nos dois casos o governo federal falhará, pois deveria ajudar estados e municípios, estabelecer critérios nacionais de confinamento, testes e tratamento, além de planejar o retorno gradual à normalidade, por cada região do país, em diferentes cenários de duração do isolamento.

Ao fugir de sua responsabilidade e ainda se gabar que, para ele, a Covid-19 é apenas uma “gripezinha”, Bolsonaro revelou ser incapaz para o cargo que ocupa.

Sobre o autor

Professor da FGV e da UnB, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento (2015-2016). É doutor em economia pela New School for Social Research.

30 de março de 2020

A realidade endossou Bernie Sanders

Keeanga-Yamahtta Taylor

The New Yorker

Bernie Sanders’s policy proposals are especially apt now, when the coronavirus crisis is revealing an economy organized around production for the sake of profit, not need. Photograph by Justin Sullivan / Getty.

Tradução / O debate sobre o papel do governo na abordagem da desigualdade de renda, insegurança habitacional, acúmulo de dívidas e assistência médica continua, agora contra o cenário sombrio do enfurecido coronavírus. É difícil articular a velocidade com que os EUA e, de fato, o mundo, mergulharam em uma crise existencial. Estamos passando por um evento de saúde pública sem precedentes, cuja diminuição e potencial resolução dependem de uma série de prescrições, incluindo ordens que aniquilarão a economia. A disseminação mortal do COVID-19 exige cercos como uma maneira de matar de fome o vírus que se inocula em corpos para habitar. As consequências de fazê-lo retiram os trabalhadores do trabalho e os consumidores do consumo; nenhuma economia pode operar nessas condições.

A vida americana foi repentina e dramaticamente revirada e, quando as coisas são viradas de cabeça para baixo, o fundo é trazido à superfície e exposto à luz. Em 2005, quando o furacão Katrina e suas consequências devastaram a costa do Golfo, também forneceu um olhar mais profundo sobre a escuridão da desigualdade nos EUA. Como o ator Danny Glover disse na época: “Quando o furacão atingiu o Golfo e as águas da inundação atravessaram Nova Orleans, mergulhando sua população restante em um carnaval de miséria, ela não transformou a região em um país do Terceiro Mundo, como tem sido depreciativamente implícito na mídia; revelou um país do Terceiro Mundo. Revelou o desastre dentro do desastre; a pobreza extenuante subiu à superfície como uma contusão em nossa pele”.

Durante anos, os Estados Unidos se safaram persistentemente destruindo seu fraco estado de bem-estar ocultando ou demonizando as populações mais dependentes dele. Os pobres são relegados como socialmente disfuncionais e inaptos, incapazes de lucrar com as riquezas da sociedade americana. Existem mais de 40 milhões de pessoas pobres nos EUA, mas elas quase nunca merecem uma menção. Enquanto a pobreza negra é apresentada como exemplar, a pobreza branca é obscurecida e as experiências dos latinos e de outras pessoas pardas são ignoradas. Cerca de quatro em cada cinco americanos dizem que vivem de salário em salário. Quarenta por cento dos americanos dizem que não podem cobrir despesas inesperadas de emergência de 400 dólares.

Este é um vírus que prosperará na intimidade da pobreza americana. Há anos, mesmo em meio à recuperação econômica da crise financeira de 2008, o aumento dos aluguéis e os salários e salários estagnados forçaram milhões de famílias a improvisar casas; quase quatro milhões de famílias vivem em casas superlotadas. Essa é a ironia cruel do mandato de abrigo no local da área da baía de São Francisco: a região está no epicentro da crise habitacional nos EUA, como exemplificado por sua crescente população desabrigada e sem teto. Como você pratica o isolamento social sem privacidade ou espaço pessoal? Existem os escritórios públicos lotados em que as pessoas pobres se reúnam para acessar a serviços e renda. Existem as salas de emergência que funcionam como prestadores de serviços de saúde primários - sem mencionar as prisões do condado e as prisões estaduais.

A desigualdade econômica é exacerbada pela injustiça racial, ambas mantidas no lugar por uma rede de segurança social esfarrapada. As populações negras e pardas são particularmente vulneráveis à infecção porque a pobreza é uma fonte de condições subjacentes, como diabetes, hipertensão, doença pulmonar e doença cardíaca, que aumentam a probabilidade de o vírus ser mortal. Eles também são mais vulneráveis porque maiores taxas de pobreza e subemprego dificultam o acesso aos cuidados de saúde. Em Milwaukee, a cidade mais segregada nos EUA, onde o desemprego negro é quatro vezes a taxa de desemprego branco, a maioria dos casos diagnosticados de coronavírus são homens negros de meia idade. E como qualquer um que já tenha se perguntado como fará o pagamento do aluguel, o estresse da incerteza econômica é corrosivo, consumindo a capacidade do sistema imunológico.

Mas o perigo de contrair o coronavírus dificilmente será o problema da classe trabalhadora e pobre. Aqueles que, por causa da pobreza e insegurança, são mais vulneráveis à infecção, também têm contato desproporcional com o público em geral, por meio de seu trabalho de varejo e serviços de baixo salário. Considere a situação do profissional de saúde em casa. Milhões desses trabalhadores atendem a uma população majoritariamente idosa e domiciliada por baixos salários por hora e frequentemente sem seguro de saúde. Em 2018, os profissionais de saúde em casa, dos quais 87% são mulheres e 60% são negros ou latinos, ganharam uma média de onze dólares e cinquenta centavos por hora. Esses trabalhadores são os tendões de nossa sociedade: eles devem trabalhar para garantir que nossa sociedade continue funcionando, mesmo que esse trabalho represente ameaças potenciais a seus clientes e ao público em geral. Sua insegurança, combinada com o fracasso de ações significativas por parte do governo federal, tornará quase impossível a supressão do vírus.

Até agora, o governo Trump previsivelmente confundiu a resposta ao coronavírus. Mas a resposta do Partido Democrata foi dificultada por sua hostilidade compartilhada em liberar o poder do Estado, através do avanço de vastos programas universais, para atender a uma catástrofe sem precedentes e devastadora. Cerca de metade dos trabalhadores americanos recebe seguro de saúde através de seu empregador. À medida que as perdas de empregos aumentam, milhões de trabalhadores perdem seu seguro enquanto a crise da saúde pública aumenta. No último debate democrata, o ex-vice-presidente Joe Biden insistiu que os EUA não precisam de cuidados de saúde com pagamento único porque a gravidade do surto de coronavírus na Itália provou que não funciona. Estranhamente, ele simultaneamente insistiu que todos os testes e tratamentos do vírus deveriam ser gratuitos porque estamos em crise. Essa insistência em que os cuidados de saúde só devem ser gratuitos em caso de emergência revela uma profunda ignorância sobre as maneiras pelas quais a medicina preventiva pode mitigar os efeitos mais severos de uma infecção aguda. Em meados de fevereiro, um estudo do governo chinês sobre as mortes relacionadas ao coronavírus no país constatou que aqueles com condições pré-existentes representavam pelo menos um terço de todas as mortes por covid-19.

Descartar a necessidade de assistência universal à saúde também mostra um alheiamento ao poder das despesas médicas para alterar o curso da vida. Dois terços dos americanos que pedem falência dizem que dívidas médicas ou perda de trabalho enquanto estavam doentes contribuíram para sua situação de precariedade. Os custos do tratamento médico se tornam um motivo para adiar as visitas ao médico. Uma pesquisa de 2018 descobriu que 44% dos americanos adiaram o atendimento médico devido ao seu custo. Já metade dos americanos pesquisados disse que se preocupa com os custos dos testes e tratamento do covid-19. Em uma situação como a nossa, fica fácil ver as maneiras pelas quais o acesso onerado aos cuidados de saúde agrava a degradação da saúde pública. Jogadores da NBA, celebridades, e os ricos têm acesso ao teste de coronavírus, mas os enfermeiros e profissionais de saúde de primeira linha, centros de saúde comunitários e hospitais públicos não. As desigualdades na assistência à saúde são problemas que foram deixados sem vigilância, criando tantas fraturas pequenas e imperceptíveis que, em meio a uma crise de grande escala, a estrutura está entrando em colapso, quebrando com seu próprio peso.

O caso nunca foi tão claro para uma transição para o Medicare for All, mas sua conquista colide com a hostilidade de décadas do Partido Democrata em financiar o estado de bem-estar social. No cerne dessa resistência está a gloriosa perniciosa da "responsabilidade pessoal", através da qual o sucesso ou o fracasso na vida é visto como uma expressão de fortaleza ou frouxidão pessoal. Dizem que o sonho americano está ancorado na promessa de mobilidade social sem restrições, um destino impulsionado pela autodeterminação e perseverança. Esse pensamento arraigado evita o fato de que foi o New Deal, nos anos 30, e o GI Bill, nos 40, que, através de uma combinação de programas de trabalho federais, subsídios e garantias apoiadas pelo governo, criou um estilo de vida da classe média para milhões de americanos brancos. Nos anos 60, como resultado de prolongados protestos negros, Lyndon Johnson foi o autor da Guerra contra a Pobreza e de outros programas da Grande Sociedade, destinados a diminuir o impacto de décadas de discriminação racial no emprego, moradia e educação.

Em 1969, com Richard Nixon no comando, durante uma crise econômica que encerrou a maior expansão econômica da história americana, os conservadores atacaram a noção de "contrato social" incorporado em todos esses programas, alegando que recompensavam a preguiça e eram evidências de direitos especiais para alguns. Quando Nixon concorreu à reeleição, em 1972, ele alegou que sua campanha colocou a "ética do trabalho" contra a "ética do bem-estar" que visavam diminuir o impacto de décadas de discriminação racial no emprego, moradia e educação.

Este foi um ataque não apenas à ajuda pública e habitação subsidiada, mas também às pessoas que usavam esses programas. Os republicanos aproveitaram com êxito os ressentimentos raciais dos suburbanos brancos, que condenaram "seus" dólares em impostos indo descontroladamente para os outros, revoltando os afro-americanos. Eles se ressentiam de "integração forçada", "ônibus forçado" e "os burocratas", como Nixon chamou ironicamente as Administrações Democráticas anteriores. É importante entender que isso não era demonização por si só ou por causa de alguma antipatia irracional em relação aos afro-americanos. Tratava-se de manter baixa a taxa de imposto sobre as sociedades e restabelecer a lucratividade do capital após uma outra crise econômica mais longa. É difícil para as empresas e seus representantes políticos aconselhar os trabalhadores comuns a fazer mais com menos. Era mais fácil culpar rainhas do bem-estar, truques de bem-estar e uma subclasse oblíqua, ainda que negra, pelo fim desses programas "desperdiçadores". Em 1973, Nixon declarou sem cerimônia o fim da "crise urbana" - o catalisador de grande parte do estado de bem-estar de Johnson. Isso criou o pretexto para estripar o Escritório de Oportunidades Econômicas, o órgão que administrava a rede de programas antipobreza criados pela Guerra contra a Pobreza.

A eventual deserção de eleitores brancos comuns do Partido Democrata para os republicanos significou que os democratas logo adotaram a estratégia da direita de minimizar as raízes estruturais da desigualdade enquanto retratavam as comunidades negras como as principais responsáveis por suas próprias dificuldades. No final dos anos 80, o Partido Democrata estava defendendo a política de ordem e lei e os duros ataques racistas aos direitos sociais. Em uma coluna de 1988 para o Post of Newark, Delaware, intitulada "Sistema de Previdência prestes a mudar", o então senador Biden escreveu: “Estamos todos muito familiarizados com as histórias de mães assistenciais dirigindo carros de luxo e levando estilos de vida que espelham os ricos e famosos”. Exageradas ou não, essas histórias estão subjacentes a uma ampla preocupação social de que o sistema de assistência social quebrou - que apenas remunera verificações de assistência social e não faz nada para ajudar os pobres a encontrar empregos produtivos. Essa afirmação não foi extraordinária; refletia amplos esforços para transformar as percepções públicas do Partido Democrata. No início dos anos 90, o presidente Bill Clinton estava prometendo "acabar com o bem-estar como o conhecemos", o que conseguiu fazer até o final da década.

Esse é o cenário histórico da hipocrisia das prioridades de gastos do governo dos EUA hoje. As denúncias bipartidárias do grande governo não se aplicam aos montantes obscenos gastos nas forças armadas ou na manutenção do sistema de justiça criminal do país. Os EUA, em todos os níveis do governo, gastam mais de 80 bilhões de dólares anualmente para operar prisões e prisões e manter liberdade condicional e liberdade condicional. O orçamento para as forças armadas dos EUA chegou a impressionantes 738 bilhões de dólares apenas este ano - mais do que os sete maiores orçamentos militares do mundo. Enquanto isso, os programas de bem-estar social - do vale-refeição ao Medicaid, habitação subsidiada e assistida e escolas públicas - são forçados a fornecer, na menor margem possível, a triagem de crises, em vez de realmente tirar as pessoas da pobreza.

Quando os críticos de Bernie Sanders zombaram de sua plataforma como apenas um monte de "coisas grátis", eles se baseavam nos últimos 40 anos de consenso bipartidário sobre benefícios e direitos de bem-estar social. Eles argumentaram, em vez disso, que a competição organizada pelo mercado garante mais opções e melhor qualidade. De fato, a surrealidade da lógica do mercado estava em exibição clara quando, em 13 de março, Donald Trump realizou uma conferência de imprensa para discutir a crise do covid-19 com executivos da Walgreens, Target, Walmart e CVS e uma série de pesquisas laboratoriais e corporações de dispositivos médicos. Não havia prestadores de serviços sociais ou educadores para discutir as necessidades imediatas e esmagadoras do público.

A crise está expondo a brutalidade de uma economia organizada em torno da produção em prol do lucro e não da necessidade humana. A lógica que o mercado livre conhece melhor pode ser vista na priorização da acessibilidade nos serviços de saúde, à medida que milhões se voltam para a ruína econômica. É visto das maneiras pelas quais os estados foram lançados em uma competição frenética entre equipamentos de proteção individual e ventiladores - o equipamento vai para o estado que puder pagar mais. Isso pode ser visto nos testes ainda criminalmente lentos, ineficientes e inconsistentes do vírus. Ele é encontrado no resgate de bilhões de dólares do setor de aviação, juntamente com testes de meios de níquel e moeda de -0 centavos para determinar quais pessoas podem ser elegíveis para receber assistência pública ridiculamente inadequada.

O argumento para retomar um estado viável de bem-estar social é não apenas atender às necessidades imediatas de dezenas de milhões de pessoas, mas também restabelecer a conectividade social, a responsabilidade coletiva e um senso de propósito comum, se não a riqueza comum. De maneira implacável e sem emoção, a covid-19 está demonstrando a vastidão de nossa conexão e reciprocidade humanas. Nossa coletividade deve ser confirmada em políticas públicas que reparem a fria infraestrutura de assistência social que ameaça desmoronar sob nosso peso social. Uma sociedade que permite que centenas de milhares de trabalhadores de saúde em casa trabalhem sem seguro de saúde, que mantém os prédios da escola abertos para que crianças negras e mestiças possam comer e ser protegidas, que permite que milionários armazenem sua riqueza em apartamentos vazios enquanto as famílias sem-teto navegam as ruas, que ameaçam despejos e inadimplência de empréstimos, enquanto centenas de milhões são obrigadas a permanecer no interior para suprimir o vírus, são desconcertantes em sua incoerência e desumanidade.

Naomi Klein escreveu sobre como a classe política usou catástrofes sociais para criar políticas que permitam a pilhagem privada. Ela chama de "capitalismo de desastre" ou " doutrina de choque”. Mas ela também escreveu que, em cada um desses momentos, também existem oportunidades para as pessoas comuns transformarem suas condições de maneira a beneficiar a humanidade. A hierarquia de classe da nossa sociedade incentivará a disseminação desse vírus, a menos que soluções dramáticas e antes impensáveis sejam imediatamente colocadas sobre a mesa. Como Sanders aconselhou, devemos pensar de maneiras sem precedentes. Isso inclui assistência médica universal, uma moratória indefinida sobre despejos e execuções hipotecárias, o cancelamento de dívidas de empréstimos a estudantes, uma renda básica universal e a reversão de todos os cortes no vale-refeição. Essas são as medidas básicas que podem estancar a crise imediata de privação - de milhões de demissões e milhões por vir.

A campanha de Sanders foi um ponto de entrada para esta discussão. Demonstrou apetite público, e até desejo, por vastos gastos e novos programas. Esses desejos não se traduziram em votos porque pareciam um empreendimento arriscado quando a consequência foram mais quatro anos de Trump. Mas a crescente crise do covid-19 está mudando o cálculo. Enquanto as autoridades federais anunciam novos pacotes de ajuda de um trilhão de dólares diariamente, nunca mais podemos voltar às discussões banais sobre "Como pagaremos por isso?" Como não podemos? Agora é um momento para refazer nossa sociedade.

Sobre o autor

Keeanga-Yamahtta Taylor is the author of “Race for Profit: How Banks and the Real Estate Industry Undermined Black Homeownership.” She is an assistant professor of African American Studies at Princeton University.

"Recursos preciosos" são as pessoas

Alguém questionou a ajuda de R$ 1,2 trilhão aos bancos?

Petrus Elesbão

Folha de S.Paulo

O sindicalista Petrus Elesbão, presidente do Sindilegis (Sindicato dos Servidores do Poder Legislativo e do Tribunal de Contas da União) - Divulgação

O editorial publicado nesta Folha na segunda-feira (30), sob o título “Recursos Preciosos”, possivelmente levará o leitor a acreditar que o grande responsável pelo desequilíbrio das contas públicas frente à crise causada pelo novo coronavírus é a folha de pagamento de pessoal do serviço público e que, em algum momento, todos terão que arcar com sua parcela de sacrifício diante do quadro de emergência.

Muito nos preocupa essa linha de raciocínio, que, além de colocar a manutenção dos serviços públicos, voltados à população, como “não prioritários ou excessivos”, quer se sustentar em teses que já foram derrubadas —como as que supõem que o Estado está inchado e que o gasto com o pagamento de servidores está entre os maiores do mundo.

Tomando por referência países europeus, EUA e Japão, o núcleo da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) apontou em estudo recente que, mesmo em meio ao declínio das políticas do estado de bem-estar social praticadas nas décadas anteriores, o Estado brasileiro tributa e emprega menos do que a média internacional: em 2015, a carga tributária bruta no Brasil, nos três níveis de governo, chegou a 35,6% do PIB, contra 42,4% da média da OCDE; enquanto isso, os empregados no setor público brasileiro, novamente nos três níveis da Federação, somaram 12,1% da população ocupada, ante uma média de 21,3% na OCDE.

Quando se fala de gastos da União com servidores, chega-se à conclusão de que o gasto recente, medido em proporção do PIB, está próximo da média histórica sem apresentar tendência alguma a explosão ou descontrole.

Em 2018, as despesas com pessoal e encargos na União somaram 4,4% do PIB, o mesmo percentual de duas décadas atrás e menor do que a cifra média alcançada nos anos de 2000 a 2009. O percentual da folha em relação ao PIB caiu para 3,8% em 2014, voltando a subir no período recente em razão de: a) fraco desempenho do PIB entre 2015 e 2018; e b) recomposição parcial de remunerações entre 2016 e 2019. E, mesmo depois de 2014, já em um cenário de estagnação econômica e perda de receitas, não houve explosão de gastos com ativos relativamente ao PIB ou à receita corrente líquida.

A categoria não se exime de dar sua cota de sacrifício, até porque servir à sociedade é seu motivo de ser, mas teme ser transformada em bode expiatório numa situação tão sensível quanto esta, com propostas que fragilizam o serviço público, amplificam a retirada de direitos dos trabalhadores e diminuem o fôlego da própria economia. É crucial lembrar que os trabalhadores, tanto do serviço público quanto do privado, são consumidores e que as empresas precisarão vender seus serviços e produtos.

Somos favoráveis à manutenção de salários de todos os trabalhadores. Tão importante quanto injetar dinheiro público ou conseguir crédito barato para salvar empresas, por exemplo, é proteger a renda das pessoas, consumidores em última instância, para evitar colapso econômico e convulsão social. Em tempo: alguém questionou a ajuda de R$ 1,2 trilhão aos bancos? Realmente esse montante era necessário?

Sobre o autor

Presidente do Sindilegis (Sindicato dos Servidores do Poder Legislativo e do Tribunal de Contas da União)

Hospitais espanhóis sofreram morte por mil cortes

A requisição de hospitais privados pela Espanha é um bom exemplo de mobilização do governo para lidar com o surto de COVID-19. No entanto, as enfermarias sobrecarregadas do país também mostram como as políticas neoliberais deterioraram os serviços de saúde pública - privando hospitais de recursos enquanto os desviam para alternativas pagas.

Brais Fernandez


A bandeira de Madri, a bandeira espanhola e a bandeira européia voam a meio mastro em frente ao Palácio de Correos, em homenagem àqueles que morreram de COVID-19 em 30 de março de 2020 em Madri, Espanha. Carlos Alvarez / Getty.

Tradução / A recente estatização de hospitais privados para oferecer leitos a toda população é um bom exemplo da mobilização do governo progressista do PSOE-UP para reverter os impactos da pandemia. As enfermarias sobrecarregadas de países como a Espanha demonstram como as políticas neoliberais dilapidaram a saúde publica durante as últimas décadas.

A Espanha tem o terceiro maior número de casos confirmados do coronavírus no mundo – os números crescem depressa. Os índices são extremamente voláteis, e no momento enfrentamos um aumento exponencial tanto em infectados quanto em mortes, num total de 85.195 e 7.340 respectivamente, em boletim de 29 de março. Ainda é muito cedo para saber se as medias adotadas pela coalizão governamental do Partido Socialista – Unidas Podemos (PSOE-UP) serão capazes de deter o curso de contágios. Porém, a crise na saúde está rapidamente se tornando uma crise multifacetada na sociedade espanhola.

Ao contrário dos Estados Unidos, a Espanha tem, pelo menos, um sistema público de saúde. A Constituição aprovada em 1978 durante a transição democrática o consagrou, representando uma vitória para a classe trabalhadora espanhola, fortalecida ainda por uma emenda, em 1989, que garantiu o direito “universal” ao tratamento médico. A identificação popular com esses valores tem se consolidado no decorrer da crise atual. Se não fosse pelo sistema público de saúde, milhares de famílias teriam de escolher entre perder seus entes queridos ou o endividamento e a pobreza. Em uma situação de múltiplos contágios, a escolha deles seria limitada a quais contas pagar no mês. Valorizar adequadamente o sistema de saúde público nos permite entender o dano que políticas neoliberais têm causado a ele.

Em anos recentes, muitos serviços de saúde foram privatizados, não apenas pelo partido de centro-direita Partido Popular (PP), mas também pelo de centro-esquerda PSOE e elementos mais conservadores de grupos pro-independência na Catalunha. Embora a resistência por parte dos trabalhadores da saúde e pacientes tenha contido o progresso da privatização em certos níveis, o PP em Madri – cidade que hoje é o centro do surto do COVID-19 – tem sido especialmente agressivo na transferência de serviços e recursos para companhias privadas. Essas mudanças foram, como em todo discurso neoliberal, supostamente justificadas em nome das “melhorias” e aumento de eficiência.

O resultado é um sistema de saúde público em colapso sob o peso da crise. O sistema está, ao mesmo tempo, falido financeiramente e dependente da sobrecarga de trabalho das equipes de saúde. Imagens de enfermeiras trabalhando sem proteção adequada, ou notícias de que cadáveres de idosos vítimas do coronavírus foram abandonados em casas de repouso privadas, com pacientes vivos ainda nelas, abalaram a opinião pública. A crise do coronavírus revela a crescente distância entre o discurso dos políticos sobre “o melhor sistema de saúde do mundo” e uma realidade imposta a nós pela devastação neoliberal.

A resposta do governo

A escalada da crise pegou a recém-formada coalizão progressista PSOE-UP de surpresa. Pior, devemos agora acrescentar uma iminente crise econômica ao cenário, o que todos os analistas consideram inevitável. A economia da Espanha depende fortemente do turismo e sofre de uma taxa de desemprego estruturalmente alta. Depois de anos de fraco crescimento, baseado fundamentalmente na supressão de salários e no crescimento do mercado de trabalho precário, o desemprego está atualmente na casa dos 14% e a expectativa é que passe dos 20% nas próximas semanas. Se a crise de saúde continuar, pode haver terríveis consequências, incluindo a falência/o fechamento de milhares de pequenas empresas e uma paralisia econômica sem precedente.

Apesar da aparência externa de unidade, o governo está dividido acerca das rotas que deve seguir. O setor mais ortodoxo, liderado pela vice premier Nadia Calviño, defende com firmeza uma política de limitação de gasto do Estado frente a crise o tanto quanto for possível. Treinada na cúpula da burocracia da União Europeia, Calviño se mostra como garantidor de que os piores pesadelos do capital financeiro sobre os déficits públicos não vão se realizar. O Unidas Podemos, com menos peso no ramo executivo em comparação ao PSOE, propôs uma série de medidas sociais paliativas para prevenir um desastre social; entretanto, tem alcançado poucos resultados. Aqui, os membros de esquerda do governo precisam aprovar leis que atendam às necessidades básicas das pessoas – por exemplo, a garantia do pagamento de alugueis e hipotecas, e o fornecimento de uma renda mínima para aqueles setores mais atingidos pela crise.

Porém, a crise pode se aprofundar ainda mais. A realidade é que a Espanha é uma economia periférica, extremamente dependente de fluxos de capital internacional. No contexto atual, no qual a crise de saúde se costura com a crise econômica, qualquer governo seria forçado a tomar uma série de medidas para garantir a mínima sobrevivência de sua população. O dilema fundamental que o governo enfrenta é como se dirigir a esse problema através de formas de redistribuição de renda, ou seja, aumentando a contribuição de impostos daqueles que tem mais capacidade de pagar. Até o momento, o governo do PSOE-UP tem descartado ir por esse caminho: não aumentou os impostos de grandes empresas ou grandes fortunas para cobrir novos gastos, nem exigiu que os bancos devolvessem os 65 milhões de euros que o tesouro público gastou para afiançá-los durante a última crise.

A política trabalhista do governo tem sido, ao contrário, dirigida para mitigar o crescimento do desemprego através do amortecimento de demissões, acionando um mecanismo conhecido como MTRE (Medida Regulatória Temporária de Emprego). A MRTE significa que companhias suspendem seus empregados por um período específico. Durante esse período, o Seguro Social é responsável pelo pagamento dos salários dos trabalhadores e pela contribuição dos empregadores ao Estado. Essa medida pode ser útil para pequenos negócios e cooperativas em apuros, mas é escandalosamente lucrativa para empresas maiores. Ela socializa os custos salariais dos empregadores sem aumentar a contribuição deles ao fundo público – forçando o Estado, em consequência, a contar com fundos que eram destinados a serviços sociais ou a tomar empréstimos no mercado internacional.

Austeridade à vista

Alógica dessa política econômica é, sem dúvidas, um prelúdio para um novo período de austeridade. A extensão da crise da saúde permanece incalculável – o seu ritmo é o dos países em colapso. A hegemonia desse momento biopolítico induz novos medos e gera novas tensões em resposta à crise, onde exigências cooperativas coexistem com o medo e o anseio por ordem.

A população tem reagido com solidariedade nas vizinhanças e cidades, forjando exemplos de apoio mútuo. Toda noite, às 20h, milhões de pessoas vão as suas sacadas para aplaudir os trabalhadores do sistema público de saúde, ainda que se encontrem impossibilitados de sair de casa. Contudo, medidas de isolamento também criam poderosas desigualdades.

Até o momento, o governo vem se negando a declarar a paralisação de setores produtivos não essenciais, causando a exposição de milhares de trabalhadores à proliferação do vírus. E, ao lado do reconhecimento da importância da saúde pública, o Estado de emergência também começou a fortalecer o papel das políticas e dos militares. Os primeiros abusos de poder começam a aparecer nas ruas.

Encarando tais dificuldades, os movimentos sociais e a esquerda anti-capitalista tem explorado respostas à crise. Organização comunitária tem sido decisiva na articulação de respostas ao nível territorial, por exemplo, ao conferir a situação dos vizinhos e mantendo comunicação com profissionais médicos. Mas é óbvio que em uma sociedade ocidental capitalista, o peso do Estado permanece enorme. Isso é o que o marxista italiano Antonio Gramsci chamou de relação “integral” do Estado e sociedade – em tal crise, o Estado não desaparece (mesmo que o seu aparato de bem-estar recue), mas, ao contrário, rearticula as relações sociais ao redor dele.

Nesse sentido, a prioridade é evitar o colapso social catastrófico que ameaça pulverizar as já precárias condições sociais da classe trabalhadora, incluindo os direitos e garantias que são efetivados pelo Estado. Nesse sentido, centenas de organizações lançaram em conjunto a campanha Plano de Choque Social, com o objetivo de forçar governantes a adotar uma série de medidas de emergência. Essas medidas incluem a suspensão do pagamento de aluguel e hipoteca, aumento da receita do Estado através da taxação progressiva dos mais ricos, ampliação dos serviços públicos e garantia de uma renda básica mínima para toda a população.

É difícil saber quanto tempo essa crise vai durar. Mas, a crise econômica global é iminente – com repercussões provavelmente brutais para a já cambaleante economia espanhola. O governo progressista está dividido entre prestar lealdade ao capital financeiro ou às demandas sociais urgentes. Enquanto isso, a direita neo-fascista espreita, concentrada no partido Vox. Não tendo sido capaz de assumir um papel de liderança até o momento – e recentemente enfraquecida por escândalos de corrupção que envolvem a monarquia -, a extrema-direita tentará se munir com base nos medos da população e na “estatização” da sociedade produzida pela nova autoridade das forças de segurança.

Em meio a suspensão em larga escala da vida social, nos encontramos em uma situação sem precedentes. Quando chegar o dia em que possamos sair de casa, vamos nos encontrar vivendo com mais pobreza, mais desemprego, mais dívidas, mais cortes sociais e com os ricos ainda mais ricos. O novo período após a crise do coronavírus gera muitas dúvidas e incertezas. É hora de nos prepararmos para enfrentá-las.

Sobre o autor

Brais Fernandez é membro editorial da Viento Sur e um ativista no Anticapitalistas na Espanha.

26 de março de 2020

As sanções dos EUA devem ser interrompidas imediatamente

As sanções dos EUA são devastadoras em tempos comuns. Mas com a pandemia de COVID-19, elas estão matando mais pessoas do que nunca.

Greg Shupak


Uma pessoa usando máscara protetora e olhando para a favela de Petare em 23 de março de 2020 em Caracas, Venezuela. Carlos Becerra / Getty.

Tradução / As sanções são uma espécie de arma de guerra. Elas podem não rasgar a carne instantaneamente da mesma forma que bombas e tiros, mas igualmente matam e mutilam.

Submeter pessoas às crueldades das sanções já é desumano por si só. No mundo anterior ao COVID-19, os bloqueios econômicos dos EUA estavam matando pacientes com câncer no Irã, impedindo que crianças sírias com câncer recebessem os medicamentos necessários e, de acordo com uma estimativa de dois economistas dos EUA, também estavam matando cerca de 40.000 venezuelanos. Entretanto, punir coletivamente populações inteiras durante um período de pandemia global é uma forma ainda mais implacável de barbárie.

O coronavírus está devastando o Irã, com o país relatando mais de 20.000 casos e mais de 1.500 mortes. Antes do COVID-19, as sanções dos EUA abalaram o sistema de saúde iraniano, reduzindo o acesso a medicamentos e equipamentos médicos necessários, como aparelhos marca-passo. Em dezembro, Eskandar Sadeghi-Boroujerdi descreveu as sanções econômicas norte-americanas como “a punição coletiva contra mais 81 milhões de iranianos através de um conjunto de sanções mais abrangente e implacável da história moderna”.

O Secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, não pode ser levado a sério quando afirma que “a assistência humanitária ao Irã está aberta, pois, não foi alvo de sanções”. As sanções econômicas sabotaram o crescimento econômico persa, dificultando a capacidade do país de conter o surto, como também impediram os iranianos de acessarem em tempo real o banco de dados do coronavírus da Universidade Johns Hopkins, e levaram a Google a remover de sua loja online o aplicativo iraniano de diagnóstico de coronavírus.

Apesar das sanções econômicas não possuírem permissão para proibir especificamente o comércio de itens humanitários, o ataque financeiro ao Irã fez com que algumas empresas não vendessem suprimentos essenciais ao Irã por receio de uma reação negativa do governo norte-americano. Em meio à pandemia, Washington disse que não aliviará as sanções. Em nome da “campanha de pressão máxima”, foram adicionadas novas sanções que buscam, em resumo, arruinar o setor energético iraniano – incontroversamente, qualquer medida que torne um país mais pobre o deixa, necessariamente, em uma posição desvantajosa para responder a uma pandemia.

Enquanto isso, a Síria tem seu primeiro caso confirmado de COVID-19. Em suma, o país está mal posicionado para lidar com a pandemia, não apenas por causa de sua guerra interna que já dura nove anos, mas também porquê as sanções dos EUA tornaram quase impossível a importação de instrumentos médicos e outros suprimentos hospitalares.

Apesar das supostas concessões relacionadas às questões “humanitárias”, as sanções atingiram os serviços de saúde sírio, afetando a aquisição de medicamentos, impedindo transações com bancos estrangeiros e impedindo muitas empresas farmacêuticas internacionais de negociarem com o país. O governo Trump chegou ao ponto de proibir navios de ajuda humanitária com destino à Síria — destaque-se que a União Europeia (UE) e o Canadá também impuseram sanções contra o destruído país sírio.

Noutro giro, o Ministério da Saúde palestino relatou os dois primeiros casos de coronavírus em Gaza, um território que Israel tornou quase inabitável. Os EUA participam diretamente do cerco de Gaza, fornecendo para os israelenses armas e apoio financeiro-político necessário para massacrar os moradores da Faixa de Gaza. Washington também estabeleceu sanções personalizadas em face do governo do Hamas, em Gaza, desde que este foi eleito pela primeira vez, e, até o momento, os ataques em forma de sanções não pararam de aumentar.

Semelhantemente, no caso do Iêmen, os EUA, através de uma combinação de intervenção direta ou terceirizada — desta vez por meio de seus parceiros sauditas e dos Emirados Árabes Unidos (EAU) — aniquilaram o sistema de saúde iemenita com a prática de guerra militar e econômica. Assim, no caso do Iêmen anunciar as primeiras infecções por coronavírus (que pode acontecer provavelmente nos próximos dias), números terríveis de mortos e infectados já são esperados.

A situação não será melhor na Coreia do Norte. As sanções impostas pelo Conselho de Segurança da ONU aos norte-coreanos cobrem aproximadamente 90% de suas exportações comerciais; impedindo-os de importar petróleo bruto, gás natural e derivados de petróleo. Para piorar, as sanções unilaterais adicionais impostas pelos EUA chegam a ser ainda mais abrangentes.

As sanções econômicas contra a Coreia do Norte bloquearam a entrada de máquinas de anestesia usadas em operações de emergência, enquanto que dificultam a operação das agências humanitárias no país. As restrições econômicas não permitem que Pyongyang importe computadores ou objetos de metal, o que restringe sua capacidade de reparar equipamentos médicos. A lista de itens proibidos pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas inclui “esterilizadores, lâmpadas ultravioletas para desinfecção, ambulâncias, seringas, agulhas, cateteres, máquinas de raios-X, ultrassom, e microscópios, bem como máquinas para filtrar ou purificar água”. Embora a ONU possa fazer isenções para o caso da ajuda humanitária, as referidas restrições não permitem que as organizações de ajuda humanitária forneçam itens necessários, como equipamentos para emergências médicas em tempo hábil.

Os primeiros carregamentos de ajuda médica internacional devem chegar à Coreia do Norte esta semana para ajudar com o controle e tratamento dos infectados pelo coronavírus. Entretanto, as sanções econômicas inegavelmente atrasaram a chegada destes itens essenciais.

Cuba, uma nação que tem estado na vanguarda dos esforços de ajuda ao coronavírus, também foi impactada. De acordo com as Nações Unidas, um específico embargo norte-americano de quase sessenta anos de duração custou à ilha cerca de 130 bilhões de dólares. No último ano, os EUA infligiram aos cubanos medidas nunca vistas em décadas de guerra contra o país e, em abril, Washington instituiu sanções contra empresas petroleiras que forneciam petróleo venezuelano para Cuba, prejudicando especialmente o setor agrícola.

Agora, o país cubano tem seus primeiros pacientes com coronavírus, e, embora tenha um sistema de saúde de classe mundial, sua capacidade de lidar com isso teria sido mais vigorosa se as ações recentes do governo Trump não os tivessem empobrecido ainda mais.

As sanções dos EUA também são uma importante causa da crise na saúde pública na Venezuela, esmagando a economia, bloqueando a nação de vender petróleo, congelando seus ativos financeiros globais e negando-lhe acesso aos sistemas financeiros internacionais, contribuindo para um déficit de 38 bilhões de dólares nos últimos três anos, “proibindo a importação de produtos essenciais à vida”. A Venezuela tem agora seus dois primeiros casos de COVID-19, uma vez que as sanções dos EUA estão ocasionando a diminuição de recursos para fins sociais e levando à escassez de alimentos e medicamentos.

Em conclusão, as sanções norte-americanas estão ceifando milhares de vidas. Face a pandemia, tais restrições precisam imediatamente parar em nome da saúde pública universal.

Sobre o autor

Greg Shupak ensina sobre mídia na Universidade de Guelph, no Canadá. Ele é o autor de The Wrong Story: Palestine, Israel, and the Media (OR Books).

Devemos nacionalizar aplicativos de entrega de alimentos e transformá-los em um serviço público de alimentação

Diante do  shutdown do coronavírus, mais pessoas estão recebendo refeições diretamente em suas casas. Em um momento de pânico em massa, o estado deve intervir para garantir um suprimento de alimentos sem problemas - e começar a transformar plataformas como Uber Eats e Grubhub em um serviço público.

Jack Campbell


Carla Estefani, 21, faz pose para um retrato em 24 de março de 2020 no Rio de Janeiro, Brasil. Ela trabalha fazendo entregas para um aplicativo há dois meses. Bruna Prado / Getty.

Tradução / Na segunda-feira, Rebecca Long-Bailey, que disputa a liderança do Partido Trabalhista britânico, fez um chamado para que o governo de seu país organizasse um serviço nacional de alimentação como uma forma de lidar com a falta de comida durante a crise do COVID-19. Em meio às compras motivadas pelo pânico generalizado e uma desaceleração total da economia, muitos cidadãos demonstram ansiedade com a possibilidade de interrupção de fornecimento de suprimentos – ou mesmo pelas consequências de deixar suas casas.

Na Dinamarca, a primeira-ministra social democrata Mette Frederiksen deu sua contribuição ao debate sugerindo que seria melhor que a população pedisse entrega de comida em vez de ir aos supermercados. O governo dinamarquês reagiu rápido e de maneira admirável em relação ao COVID-19 – e, como alguém que trabalha com entregas pela plataforma Wolt em Copenhague, fiquei boquiaberto com seus comentários.

Para que a entrega em massa de alimentos seja viável, contudo, é necessária uma resposta mais coordenada – como a criação de um serviço nacional de alimentação, parte de um novo ramo da assistência social. Como sugere Callum Cant ao escrever sobre o Deliveroo, nós já temos parte da base para isso, com a tecnologia por trás das plataformas de entrega de comida. Antes de mais nada, porém, essa tecnologia tem que se tornar pública – e tem que passar a funcionar para o bem coletivo, não para lucro privado.

Trabalhando para Wolt

Eu trabalho como um “entregador parceiro” da Wolt em Copenhague. Como uma espécie de Grubhub [ou iFood e similares] com características dinamarquesas, o sistema de algoritmo do Wolt permite que os parceiros trabalhem de maneira altamente precisa, uma eficácia inédita até o desenvolvimento dessa tecnologia. Wolt usa big data para calibrar e recalibrar suas máquinas de algoritmo de modo a disponibilizar sempre as informações mais atualizadas e, assim, possibilitar que todas as interações sejam aceleradas – da coleta da comida pelo entregador no restaurante à entrega para o cliente.

Em um período de apenas poucos anos, Wolt revolucionou a entrega de comida na maior parte das cidades da Dinarmarca ao garantir serviço rápido e preço inferior ao de outros serviços de entrega. No entanto, apesar da Wolt ser mais barata que outros serviços, ainda sai muito mais caro encomendar uma entrega do que cozinhar uma refeição em casa. Muitas das pessoas em risco – como quem tem mais idade, portadores de necessidades especiais e pessoas de baixa renda – não seriam capazes de pagar por entregas regularmente.

Como o principal serviço de entrega de comidas em muitas cidades dinamarquesas, a Wolt é quem mais se beneficia de comentários da primeira-ministra – e provavelmente verá um aumento nos lucros. Ainda assim, o lucro é justamente um dos motivos que faz com que uma empresa privada não seja a mais adequada para providenciar um serviço público durante o período de crise. Dado o status quase-monopólico em algumas cidades, a companhia pode até usar a situação para elevar o custo das entregas ainda mais.

Outro problema envolve o status de seus trabalhadores. Como as empresas de entrega de alimentos de outros países, a Wolt considera seus “parceiros” como empreendedores independentes mais do que como empregados, o que significa que eles não têm direitos trabalhistas como auxílio-doença. A Wolt ofereceu alguma assistência para os entregadores, algo como US$ 7,00 [cerca de R$ 37,00] de desconto para desinfetante para álcool gel, e uma espécie de pagamento para auxílio-doença em casos comprovados de contaminação por COVID-19 – isso apesar de, atualmente, a Dinamarca só testar quem tiver sintomas graves. Em outras palavras, esses trabalhadores precarizados não recebem as mesmas garantias que empregados comuns recebem. Tais medidas, portanto, parecem insuficientes para garantir que eles deixem de se arriscar nas ruas para garantir a subsistência – mesmo que eles tenham os sintomas.

Ajuda mútua

Em seu livro sobre a plataforma de entregas de comida Deliveroo, Callum Cant sugere que a expropriação da plataforma pelos trabalhadores poderia garantir uma alternativa ao modelo de negócios no qual essas plataformas operam atualmente. Cant escreve que “uma plataforma gerenciada por trabalhadores de entrega de ‘refeições sobre rodas’ pode inicialmente garantir as necessidades de uma população em envelhecimento e expandir o suporte para casos adicionais de necessidades temporárias ou permanentes”. Uma ideia como essa poderia ser adotada pela Dinamarca, tornando a Wolt uma empresa pública, de maneira a garantir que a mesma aja como uma quarta força de emergência: o Serviço Nacional de Alimentação.

Em vez de temer o custo de usar um serviço como Wolt, quem tem imunidade baixa poderia ter a comida entregue na porta, contando com subsídio do Estado. Essas pessoas podem ser identificadas por suas ligações com serviços sociais, por meio de redes comunitárias de apoio mútuo que estão sendo estabelecidas, e por organizações de caridade como a Cruz Vermelha. O desenvolvimento dessas redes informais pode ser útil para que a tecnologia de algoritmo continue a ser melhorada, beneficiando tanto trabalhadores quanto consumidores.

Na mesma medida, parceiros da Wolt poderiam ter novos contratos e se sindicalizarem por meio da 3F, que tem organizado os mesmos, o que significaria que, se eles começassem a desenvolver sintomas da COVID-19, poderiam ter a garantia de ficar em casa para proteção deles mesmos e de outros. Se a nacionalização acontecesse, a tecnologia desenvolvida pela Wolt poderia garantir um modelo de assistência social bastante avançado.

Conforme o mundo continua a ser afetado pelo coronavírus, a direita está em marcha, aumentando a retórica contra migrantes, responsabilizando trabalhadores de baixa renda por continuarem a usar transporte público, e relegando as mortes para aqueles que são “imunocomprometidos”. A esquerda precisa ser criativa na resposta e uma ideia como um serviço nacional de alimentação que vá de encontro às necessidades de muitos poderia ganhar popularidade e ser uma importante parte de nossa perspectiva em um mundo pós-COVID-19.

Não podemos nos dar ao luxo de esperar que isso nos seja dado – já é algo significativo que possamos espalhar as sementes por enquanto, ao contatar nossos vizinhos, ao promover grupos de ajuda mútua e ao apoiar trabalhadores de aplicativos de entrega nas suas iniciativas de sindicalização. Acima de tudo, nós precisamos de um plano de resposta a essa crise fundamental do capitalismo – e reestruturar nossa relação com a alimentação é parte vital nisso.

Sobre o autor

Jack Campbell é um entregador de comida baseado em Copenhague e um pesquisador sobre precarização no mercado de trabalho dinamarquês.

25 de março de 2020

Os trabalhadores são mais importantes que os CEO's

A pandemia do coronavírus revelou um fato muito simples: são os trabalhadores de baixa remuneração que fazem nossa sociedade funcionar cotidianamente — e não banqueiros, grandes proprietários de terras ou CEO's.

Mindy Isser

Jacobin

Trabalhadores reabastecem itens em horários especiais, abertos apenas para idosos e deficientes no Northgate Gonzalez Market, um supermercado especializado em produtos hispânicos, em 19 de março de 2020 em Los Angeles, Califórnia. Mario Tama / Getty.

Tradução / Trabalhadores de baixa remuneração estão na linha de frente na batalha contra o coronavírus. Embora muitos trabalhadores tenham começado a fazer “teletrabalho” – e muitos outros infelizmente foram demitidos – trabalhadores com baixos salários estão ocupados limpando nossas ruas, certificando-se de que temos o suficiente para comer e, é claro, nos trazendo a saúde de volta se contrairmos o coronavírus. Apesar de serem os pilares de uma sociedade funcional, esses trabalhadores são frequentemente tratados como dispensáveis ou descartáveis por conta da “falta de qualificação”. Mas, nas últimas semanas, vimos o quão insubstituíveis eles são.

Os governos estaduais têm lançado ordens cada vez mais rigorosas para impor o distanciamento social e fechar todos os negócios, exceto aqueles considerados “essenciais” ou “que sustentam a vida”. Embora estas listas variem de estado para estado, cada uma inclui mercearias, lavanderias, restaurantes (servindo comida para viagem e entrega), fábricas que produzem alimentos e outros produtos, postos de gasolina, farmácias e hospitais.

E o que todas estas empresas têm em comum? Elas dependem do trabalho de empregados de baixos salários que, em muitos casos, trabalham sem benefícios, sindicatos e proteções no local de serviço. Os funcionários públicos ainda estão de plantão, também, limpando nossas ruas, entregando nossas cartas, e garantindo o nosso acesso a serviços públicos e sociais. Embora muitos funcionários do governo tenham sindicatos, eles geralmente recebem a mesma falta de respeito que seus colegas de baixos salários do setor privado.

Entretanto, imagine uma pandemia global que não haja trabalhadores dos correios ou motoristas de entregas recebendo nossas correspondências e pacotes; sem caixas e estoquistas mantendo os supermercados funcionando e cheios de alimentos; sem cuidadores e empregados domésticos fornecendo apoio médico e emocional que salva vidas de algumas das pessoas em maior risco da sociedade; sem trabalhadores de serviços públicos garantindo o fornecimento de água, eletricidade e gás; sem trabalhadores de lavanderia que nos permitam limpar nossas roupas, toalhas e lençóis; sem garis coletando nosso lixo e retardando a propagação de germes.

Embora muitos indivíduos tenham expressado apreço por esses trabalhadores da linha de frente – deixando o higienizador para mãos do lado de fora para o uso dos carteiros; pedindo aumento nos salários dos professores depois de terem que ensinar as matérias da escola em casa para seus filhos por alguns dias – nossa sociedade há muito os desvaloriza, tanto monetariamente quanto de outras formas. Isto está começando a mudar, graças à crise e à organização dos trabalhadores que aumentou a pressão sobre os patrões.

Em Minnesota, Michigan e Vermont classificaram os funcionários dos supermercados como trabalhadores de emergência, tornando-os elegíveis para cuidados infantis e outros serviços. Os trabalhadores da Stop & Shop (rede norte-americana de supermercados) receberam um aumento salarial de 10% e duas semanas adicionais de licença médica remunerada. Os funcionários da Safeway, Target e Whole Foods ganharam um aumento de 2 dólares por hora. E os trabalhadores sindicalizados em Kroger, no estado de Washington, receberam gratificação no salário por conta do risco em face da pandemia, uma demanda conquistada por muitos trabalhadores de redes varejistas e outros empregados da linha de frente em todo o país. Essas vitórias, embora pequenas, nos aproximaram de uma sociedade onde trabalhadores de baixa renda finalmente recebem a remuneração e o respeito que merecem.

Mas o que dizer sobre o nosso país (EUA) quando os empregos mais essenciais para sustentar a vida em seu nível básico também são alguns dos mais mal pagos e menos valorizados? Trabalhadores de supermercados e socorristas estão se expondo a uma enorme crise de saúde, a fim de manter o resto de nós funcionando o mais normalmente possível. Muitos deles trabalham por um salário mínimo ou algo equivalente – e sem benefícios de saúde – o que significa que eles podem contrair o novo coronavírus e ficarem endividados para pagarem o tratamento ou sem qualquer assistência médica. Enquanto isso, com muitos distritos escolares fechados indefinidamente, os pais de crianças estão perdendo o trabalho essencial e desafiador feito todos os dias por babás, trabalhadores de creches e educadores de todos os tipos.

Esses trabalhadores têm direito a salários mais altos, benefícios integrais, garantias de saúde e segurança, além de sindicatos fortes – tal como qualquer outro trabalhador.

Felizmente, esta crise não somente elevará o status dos empregados com baixos salários, como também desencadeará uma nova onda de organização para melhorar os padrões e construir mais poder ao trabalhador nestas indústrias “essenciais”. O motivo: é porquê são os trabalhadores de baixa remuneração – e não os banqueiros, grandes proprietários de terras ou CEO’s – que fazem nossa sociedade funcionar.

Sobre a autora

Mindy Isser trabalha no movimento trabalhista e vive na Filadélfia.

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