19 de fevereiro de 2019

Procuradores de faz de conta

Denuncismo imoral quer fomentar o escândalo

Alcir Pécora e Francisco Foot Hardman

Folha de S.Paulo
Campus da Unicamp, em Campinas (SP). Adriano Vizoni/Folhapress

No dia 7 de fevereiro, fomos surpreendidos pela notícia de que o Ministério Público pediu devolução imediata de salários acima do teto na USP, Unesp e Unicamp. A reportagem requenta a ideia de supostas irregularidades nos pagamentos dos docentes das universidades públicas paulistas, desta vez denunciadas pelos procuradores de Contas Thiago Pinheiro Lima e João Paulo G. Fontes.

Raramente nos sentimos tão mergulhados em ressentimento, molecagem e má-fé contra as universidades paulistas, que, sob quaisquer critérios, reúnem a maior produção científica do país. Nada ali corresponde a fatos, a não ser os que, a rigor, constituem-se em crimes de vazamento de informações sigilosas, de acordo com o próprio Regimento Interno do Tribunal de Contas (artigo 112).

Pena que não vazaram também o quanto ganha cada um dos citados procuradores. Enquanto o reitor da Unicamp, que tem o maior cargo administrativo e o posto acadêmico mais alto da carreira (professor titular), tem como vencimentos líquidos R$ 15.502,08, os jovens denunciantes receberam, no mês passado, segundo o Portal da Transparência, vencimentos líquidos de R$ 72.006,46 e R$ 71.954,33!

Como é possível? Simples: sobre o salário base de mais de R$ 20 mil, que ambos recebem, foram aplicadas verbas indenizatórias que burlam o teto. Isso, sim, uma obscenidade!

Independentemente de saber-se a quem servem, uma coisa é certa: esses jovens togados novos ricos são cúmplices ativos do obscurantismo, do anti-intelectualismo e da operação de cerco à universidade pública que tem dominado a cena nos tempos sinistros em que vivemos.

Ressaltamos que não é verdade que as universidades paguem acima do teto: os salários dos docentes paulistas estão congelados —no caso da Unicamp, desde abril de 2014. O critério que as três reitorias utilizam para promover esse congelamento foi considerado absolutamente legal pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, em agosto de 2015.

Mas o mais incrível não é isso. O disparate é que o teto salarial das universidades paulistas é o mais baixo do país! Alguns estados que se igualaram ao teto federal têm cerca de 70% a mais do que o teto paulista. E a maioria absoluta dos estados, que adotou o subteto previsto constitucionalmente (90,25% do teto federal), paga cerca de 54% a mais do que o teto paulista, algo equivalente a R$ 12 mil.

A decisão final sobre tal discrepância encontra-se no STF, não cabendo, portanto, nenhuma ingerência como a desses procuradores.

Estamos assim há já cinco anos: os melhores centros de pesquisa e pós-graduação do país, de reconhecimento nacional e internacional, remuneram seus docentes com o teto salarial mais baixo do Brasil. Sendo assim, por que continuamos a tolerar que tais “procuradores de contas” continuem esses ataques escabrosos contra a educação e pesquisa da universidade pública, quando são deles os salários turbinados que vêm “reiteradamente lesando os cofres públicos”?

Esse denuncismo imoral quer fomentar somente o escândalo. Sabe-se que essa fórmula está no centro das ações contra a educação e a ciência. Nada disso vai demover a teimosia e resistência dos que ainda acreditam na universidade como lugar decisivo para a riqueza espiritual e material do país.

Sobre os autores

Alcir Pécora é professor titular do Instituto de Estudos da Linguagem, da Unicamp.

Francisco Foot Hardman é professor titular do Instituto de Estudos da Linguagem, da Unicamp.

17 de fevereiro de 2019

Sabe-se quanto Bolsonaro não mandará, mas não quanto poder os filhos terão

Se os generais voltam à influência no lusco-fusco ou participam com mais clareza, é incógnita

Janio de Freitas

Folha de S.Paulo

Flickr/ Bolsonaro

Uma pergunta que não se deve fazer: afinal, quem é que manda? Consta que embaraçar o interlocutor, mesmo nos novos costumes, continua sendo indelicado. E frustrar a curiosidade é um mal inexpressivo, na bagunça de males corrosivos em que estamos imersos. A rigor, nem haveria resposta com razoável firmeza.

Certo, que prescinda de comprovação, já tantas de conhecimento geral, só o fato de que quem deveria mandar é o único que não manda. Por ignorância impenetrável do que não seja vulgarmente rasteirinho.

De direito, é seu o poder de decisão, de mando, de rumos. Esses e outros poderes, porém, desde a posse do presidente estiveram de fato e sem direito com um vereador e um deputado, Carlos e Eduardo, em razão do sobrenome e desrazão, digamos, mental. O pai submete-se, obediente e confiante, ao que presume serem a capacitação e a lucidez dos filhos.

A incompatibilidade que pressionou pela exoneração de Gustavo Bebianno, secretário-geral da Presidência, foi com o filho vereador. O pai apenas seguiu o disposto por Carlos, aparentando como seu o desejo de que o secretário se exonerasse depois de chamado por Carlos de mentiroso, em público. Em contraste com essa ruptura, ao tempo mesmo em que a pressão transbordava e parecia vitoriosa, o comentário pedido por jornalistas ao vice Hamilton Mourão recebia resposta sucinta e direta: "Vamos pacificar isso". A situação negava sentido à frase.

Mas as três palavras anteciparam os passos do episódio. Bebianno, que se recusara à demissão, de repente teve a permanência comunicada por vários do governo. Preparava-se até um encontro seu com Bolsonaro. Por seu lado, Carlos, poder máximo e inquestionável, expunha na sua derrota a entrada de um poder que decidia sair do lusco-fusco, com todo o inconveniente que isso possa lhe trazer.

A explicação para a reviravolta já viera com o plural e a decisão presentes no "vamos pacificar isso". Tudo o que o poderoso de direito e o poderoso de fato estabeleceram foi, em poucas horas, repelido e voltado contra eles. Por quem e como? O "vamos" não foi plural majestático: era a forma verbal de alguém que não fala por políticos, mas por um grupo de "unidos e coesos", como diz o impreciso lugar-comum dos militares. E a "pacificação" não decorreu de reuniões, debates e concordâncias ao final. O pouco tempo em que a permanência de Bebianno foi reabilitada é típico de decisão comunicada para ser posta em prática.

Daqui por diante, sabe-se quanto Bolsonaro não mandará, mas não se sabe quanto o poder dos filhos guardará ainda da sua força. Não dependente disso, se os generais voltam à influência no lusco-fusco ou participam com mais clareza, é uma incógnita, com muitas consequências nos dois casos.

O encontro de Bebianno e Bolsonaro foi nova marcha à ré, direção, pelo visto desde a posse, que merece a predileção do pai. Carlos tem o apelido de pit-bull e o justifica. Enquanto Bebianno está enfraquecido por ter explicações a dar sobre verbas de campanha do PSL. Embora, é verdade, como chefe da campanha de Bolsonaro tenha entrado na categoria dos que sabem muito de muita coisa —e isso, no câmbio livre, tem alta cotação. A "crise" não tornou mais clara a posse do poder, entre três filhos e um batalhão de generais.

Sobre o autor

Jornalista e membro do Conselho Editorial da Folha.

16 de fevereiro de 2019

Não se sabe com quem está o poder

Na quitanda dos Bolsonaro, caso das candidaturas de laranjas virou um pandemônio em 72 horas

André Singer

Folha de S.Paulo


Em todo governo que começa há certo bate-cabeça. Até as peças encaixarem, leva tempo. O problema da presente gestão planaltina é que o líder da turma, em torno do qual precisa se construir a unidade “funcionante”, vem sendo esvaziado, tornando incerto o futuro.

A zoeira deflagrada pelas reportagens da Folha sobre o uso de laranjas no terreno do Partido Social Liberal (PSL) seria cozida em fogo lento por qualquer administração corriqueira de crises. Mas na quitanda dos Bolsonaro virou um pandemônio em 72 horas.

Na quarta passada, o vereador Carlos Bolsonaro (RJ), filho esquentado, atracou-se com Gustavo Bebianno, presidente durante 2018 da sigla em questão e uma espécie de agregado da primeira família, chamando-o de mentiroso por ter dito que conversara com o pai.

A pauleira entre ambos ganhou foros de Estado na quinta, quando o presidente afirmou ao Jornal da Record que o atual chefe da Secretaria-Geral da Presidência realmente mentira. Ao avalizar as afirmações do parente contra o ministro, o progenitor entrou no bate-boca, praticamente demitindo o subordinado no ar.

O mais grave, porém, estava por vir. Na referida conversa com a emissora do bispo Edir Macedo, foi lhe perguntado sobre Hamilton Mourão. Ciente de que o mundo político não fala de outra coisa que da vontade de mando do vice, optou por expor a fratura existente entre ambos, fazendo questão de criticá-lo por seu contato com a imprensa.

Desde que tomou posse, a despeito dos fortes impulsos autoritários demonstrados no passado, o general fez esforços para dirigir-se aos meios de comunicação num tom que contrasta, pelo equilíbrio, com o do clã vitorioso.

Enquanto amalucados habitantes das cozinhas dos palácios iam prodigalizando declarações absurdas pelas redes sociais, o quatro estrelas pavimentava a imagem da sensatez.

Exemplar o caso do deslocamento da embaixada brasileira em Israel, colocado por Mourão em banho-maria contra a vontade do clã ora no Alvorada.

Para completar o barraco, numa operação que envolveu o setor militar do Executivo e a presidência da Câmara, Bebianno foi mantido no cargo, ainda que supostamente avisado por Jair Bolsonaro na sexta-feira à noite de que seria demitido na segunda.

Fica a impressão de que o presidente tem dificuldades para comandar até a própria cadeira, como diria Elio Gaspari, permanecendo sob a tutela de setores armados ainda pouco conhecidos pela opinião pública.

Diante do visível enfraquecimento da autoridade presidencial, será que a vasta unidade da burguesia ao redor da reforma da Previdência será suficiente para estabilizar o quadro? Apostas em aberto.

Sobre o autor


Professor de ciência política da USP, ex-secretário de Imprensa da Presidência (2003-2007). É autor de “O Lulismo em Crise”.

15 de fevereiro de 2019

A transição para a idade mínima

Regra 85-95 móvel pode implementar gradualmente a idade mínima para todas as gerações

Nelson Barbosa


O ministro da Economia, Paulo Guedes, e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP). Pedro Ladeira/Folhapress

Chegamos ao meio de fevereiro, o Congresso está em pleno funcionamento, mas o governo ainda não detalhou sua proposta de reforma da Previdência.

Houve balão de ensaio, com vazamento de uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição), que, por sua vez, teve alguns pontos contestados por membros do próprio governo Bolsonaro.

Prefiro ignorar ruídos internos do governo (acontece em qualquer administração) e me concentrar na questão da idade mínima nesta coluna.

Em texto anterior, defendi que a regra 85-95 (que já está em 86-96) poderia ser a forma de transição para o novo sistema previdenciário. Parece que a sugestão entrou na “PEC-teste” do governo.

Focando apenas o INSS, hoje temos aposentadoria por idade (65 anos para homens e 60 para mulheres) e tempo de contribuição (35 anos para homens e 30 para mulheres).

Quem se aposenta por tempo de contribuição está sujeito à aplicação do fator previdenciário, caso não tenha as idades mínimas especificadas acima. Essa foi a forma encontrada pelo governo brasileiro para desestimular “aposentadorias precoces”, sem muito sucesso.

Desde sua criação, o fator previdenciário gerou resistência e, em 2015, após o Congresso derrubar tal desconto, o governo Dilma vetou a decisão parlamentar e criou a “regra 85-95 móvel” como alternativa.

Segundo essa regra, o trabalhador pode se aposentar por tempo de contribuição sem aplicação do fator previdenciário desde que a soma de sua idade e tempo de contribuição atinja 95, para homens, e 85, para mulheres.

A regra 85-95 é, portanto, um critério de cálculo do valor do benefício, não de acesso ao benefício.

A lei aprovada em 2015 também previu que a regra 85-95 aumentaria um ponto a cada dois anos. A primeira progressão ocorreu neste ano, quando a soma de idade e tempo de contribuição passou para 86-96.

A lei em vigor prevê novas progressões, até atingir o teto 90-100, a partir de 2027. Com base nessa regra, podemos calcular qual é a idade implícita para que um trabalhador receba benefício integral quando se aposentar por tempo de serviço.

Por exemplo, hoje, um homem com 35 anos de contribuição atinge 96 pontos com 61 anos. Para mulheres, a idade implícita é de 56 anos (86 menos 30).

No mesmo sentido, a partir de 2027, quando estiver valendo a regra 90-100, um homem que atingir 35 anos de contribuição poderá se aposentar com 65 anos. Para as mulheres, a idade será de 60 anos, dado o menor tempo de contribuição requerido.

Traduzindo do economês, a regra 85-95 móvel já promoveu o aumento gradual da idade implícita para obter a aposentadoria por tempo de contribuição sem desconto no valor do benefício.

Dado que o Congresso já aprovou a regra 85-95 móvel, a transição da reforma da Previdência poderia utilizar essa metodologia já conhecida pela população.

Para tanto, será preciso alteração constitucional: tornar a regra 85-95 critério de acesso ao benefício por tempo de contribuição, não somente de cálculo do benefício.

Nesse processo, também é adequado eliminar o teto em 90-100, permitindo que os valores aumentem novamente no futuro, de modo previsível, de acordo com a evolução da expectativa de vida da população, do tempo mínimo de contribuição e da idade mínima de aposentadoria.

Tudo isso está na PEC-teste do governo, mas ainda são necessários alguns ajustes finos na proposta. O principal ponto é que a regra 85-95 móvel como critério de acesso à aposentadoria pode implementar gradualmente a idade mínima para todas as gerações, com menos resistência política.

Sobre o autor
Professor da FGV-SP, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento (2015-2016). É doutor em economia pela New School for Social Research.

Maduro, Guaidó e o excepcionalismo americano

Ron Jacobs

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names


Nas semanas desde que Juan Guaidó declarou a uma multidão de apoiadores na Venezuela que ele era o novo presidente da Venezuela, muito aconteceu e muito pouco aconteceu. Washington, Brasil e Colômbia - três dos governos mais direitistas das Américas - sem surpresa declararam seu apoio a Guaidó. Outros seguiram. De fato, é mais do que razoável supor que foram os Estados Unidos que não apenas encorajaram a declaração de Guaidó, mas também estiveram intimamente envolvidos na sua preparação. Tanto quanto foi verificado por vários artigos da imprensa e até mesmo algumas declarações do secretário de Estado dos EUA, John Bolton.

Em essência, essas ações de Guaidó, seus apoiadores e os Estados Unidos constituem uma tentativa de golpe. Eu digo tentativa porque o processo está em andamento. Muitos governos externos registraram seu apoio à mudança, mas muitos outros não o fizeram. Alguns governos e agências internacionais até expressaram seu apoio ao presidente legal e eleito Nicolás Maduro. Enquanto isso, os EUA, o Reino Unido e várias outras nações e instituições bancárias estão impedindo o governo eleito de obter suas verbas e, ao mesmo tempo, aumentando as sanções contra os venezuelanos que apoiam esse governo. Apesar da pressão dos Estados Unidos, a Cruz Vermelha e outras agências de ajuda internacional se recusaram a participar de “tentativas” politicamente motivadas de entregar ajuda aos venezuelanos. Uma dessas tentativas, acompanhada por fotografias que pretendiam mostrar semirreboques bloqueando uma ponte (e, portanto, ajuda) entre a Colômbia e a Venezuela, foi exposta como completamente fraudulenta. As fotos provaram ser fotos de uma ponte em construção.

Uma consistência entre este e outros ataques ao Projeto Bolivariano na Venezuela pelas classes altas venezuelanas e seus apoiadores americanos é a tentativa de retratar o presidente venezuelano como um ditador. Em defesa de sua posição, os escritores de propaganda da oposição mostram fotos de soldados ao longo de estradas durante manifestações e retransmitem números de pessoas mortas durante esses protestos. Fica sem dizer que muitos dos mortos e feridos são membros militares ou partidários bolivarianos mortos e feridos pela oposição e seus membros armados. Se Maduro é um ditador, como explicar o fato de que uma oposição forte, ocasionalmente bastante violenta, pode existir, concorrer a candidatos em eleições e possuir grandes jornais?

A natureza dessa cobertura deve ser esperada pelas principais organizações de mídia ocidentais. Afinal, a tarefa deles é fornecer as justificativas para o império e a intervenção. Não é para examinar as alegações feitas por aqueles no poder e desafiá-los. Então, naturalmente, eles chamarão Maduro de ditador e o governo bolivariano de autoritário e antidemocrático, não importa quais sejam os fatos no terreno. O que eu acho alarmante, no entanto, são aqueles que se opõem à intervenção dos EUA, que soltam essas manipulações da verdade. Parece que muito poucas declarações de organizações anti-intervenção e indivíduos não incluem algum tipo de renúncia que distancia o escritor, organização ou orador do governo Maduro. Muitas dessas renúncias chamam Maduro de ditador. Outros usaram tropas essencialmente racistas comparando Maduro com “o tipo de cara que amarrava mulheres a linhas de trem em filmes mudos”. (Robert Fisk, The Independent)

Há aqueles escritores e pessoas genuinamente socialistas que entendem que suas críticas a Maduro e ao projeto bolivariano estão no espírito do discurso socialista. Não é com essas pessoas que tenho um problema. Embora esse não seja o melhor momento para reiniciar esses debates, a conversa deles é parte de uma discussão em andamento dentro da esquerda internacional. Não, são aqueles que se opõem à intervenção dos EUA na Venezuela, mas tendem a enfatizar o quanto eles não gostam tanto de Maduro, se não mais do que sua oposição ao golpe e às sanções. Não posso deixar de me lembrar do provérbio: "Aqueles que vivem em casas de vidro não devem atirar pedras".

Em outras palavras, se alguém não considera os Estados Unidos como uma ditadura, seria difícil identificar a Venezuela como tal. O único raciocínio que permitiria essa distorção seria aquele que vê os Estados Unidos como uma exceção ao resto do mundo. Seria uma percepção que ignora o fato da instalação de Trump na Casa Branca, apesar de perder no voto popular. Seria uma percepção que ignora o fato de que o Senado dos EUA garante uma representação desigual que historicamente concedeu aos elementos de direita endinheirados da política dos EUA mais poder do que a maioria. É uma percepção que ignora a desigualdade fundamental baseada em classe e raça que é parte integrante da história dos EUA. Em outras palavras, é o excepcionalismo americano, um mito de que muitos sobre o que passa por esquerda norte-americana aceitam como realidade.

14 de fevereiro de 2019

Paulo Guedes age mais como guru do que como ministro

Agenda econômica do ministro pode acabar não saindo do mundo virtual em que funciona tão bem

Laura Carvalho


O ministro da Economia, Paulo Guedes - Ueslei Marcelino/Reuters

Durante a campanha eleitoral, muitos acreditaram que o superministro Paulo Guedes seria o fiel da balança em um governo formado, em sua maioria, por comentaristas de portal.

Hoje, com a vaga sendo disputada até mesmo pelo general Mourão, o ministro encarregado de solucionar a crise continua preferindo impressionar os ultraliberais das redes sociais a dedicar-se a viabilizar propostas.

“Guru financeiro de Bolsonaro planeja perestroika de livre mercado”, diz o título da reportagem publicada no Financial Times na segunda-feira (11) e reproduzida pela Folha, que destaca trechos da entrevista concedida por Guedes ao jornal britânico.

O fato de o ministro da Economia do Brasil ser tratado como um “guru” só não chama mais a atenção do que a desconfiança gerada por algumas de suas falas.

“Vi o Chile mais pobre do que Cuba e Venezuela, e os 'Chicago boys' resolveram. O Chile agora é como a Suíça”, chegou a afirmar o ministro na entrevista.

Quando os jornalistas lhe perguntaram sobre os custos sociais da agenda, entre os quais a taxa de 21% de desemprego a que chegou o país em 1983, Guedes respondeu que isso é burrice (“rubbish”, em inglês), pois “o desemprego já estava lá. Só estava escondido dentro de uma economia destruída”. “É um ponto de vista controverso”, ressaltou a reportagem eufemisticamente.

Após destacarem a afirmação do ministro de que a guinada à direita depois de 20 anos de ditadura e 30 anos de social-democracia é saudável, os jornalistas tampouco se mostraram convencidos: “Dúvidas ainda permanecem. E a política social, dada a desigualdade escancarada no Brasil?”, indagam.

Um dia antes, a jornalista Míriam Leitão criticou em texto no jornal O Globo o que chamou de “falha na comunicação” do ministro.

Em vez de conceder entrevistas coletivas organizadas para expor as propostas do governo e justificá-las perante a sociedade, facilitando sua aprovação, Guedes tem feito intervenções rápidas quando parado por repórteres ou apresentações para empresários em que joga suas ideias nada plausíveis no ventilador.

O ministro chegou a sugerir, por exemplo, que as mulheres poderiam se aposentar antes a depender do número de filhos, tomando cuidado “com dona Maria que pode ter 13 filhos, não queremos estimular isso”.

Ou que, “quando o patrão fizer alguma besteira” com o jovem que optar por trabalhar por uma tal “porta da direita”, em que não vale a CLT, este terá de recorrer à Justiça comum, e não à Justiça do Trabalho.

“Falta explicar muita coisa. E é nisso que faz falta o contraditório, para que ele informe melhor. O que acontecerá com os direitos trabalhistas que estão em cláusula pétrea da Constituição?”, perguntou-se Míriam Leitão.

“As chances de sucesso aumentam com uma comunicação mais organizada, clara e, principalmente, democrática”, concluiu a jornalista.

Ao se comportar como um “guru” não dotado do pragmatismo necessário para viabilizar sua agenda, Guedes parece operar mais no estilo Mangabeira Unger do que na linha do ex-ministro Palocci —mal comparando, é claro.

Para não cair nas idas e vindas, no disse me disse e na cortina de fumaça que o governo Bolsonaro parece ter importado do trumpismo, resta aos analistas aguardar medidas concretas anunciadas em decretos, projetos de lei ou emendas constitucionais.

O problema é que, como o muro na fronteira mexicana ou o “brexit”, a agenda econômica de Guedes pode acabar não saindo do mundo virtual em que funciona tão bem.

Sobre a autora


Professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, autora de "Valsa Brasileira: do Boom ao Caos Econômico".

11 de fevereiro de 2019

Diversidade nos governos neoliberais

Com a vitória eleitoral de Bolsonaro em 2018, a herança deixada por Temer parece que não foi interrompida

Marcio Pochmann

Revista do Brasil

Primeiras iniciativas apresentadas por Bolsonaro é a ampliação do patrocínio da globalização neoliberal de Temer

A virada para o atual século trouxe conjuntamente com a ascensão da globalização, a reorganização e atuação do campo ideológico da direita. A sequência da desconstituição da longeva experiência de socialismo real na Europa oriental foi o esvaziamento de experimentos importantes nos governos com características social-democratas na Europa ocidental, o que pareceu apontar para uma espécie de convergência de políticas públicas com menores graus de liberdade impostos pela globalização.

As tentativas de ampliação da governabilidade das políticas públicas para além do espaço nacional chegaram até a União Européia que passa atualmente com novos problemas impostos pela complexa saída da Inglaterra. As iniciativas de grupos de países (G-7, G-20 e outros) se apresentam pontuais e muito limitadas, ainda que o experimento dos Brics conseguisse estabelecer gradualmente alguma referência alternativa para a governança supranacional.

Em contraposição, as instituições constituídas no imediato segundo após guerra pelas Nações Unidas permanecem relativamente estagnadas e com dificuldades crescentes para atuar no reino das grandes corporações transnacionais. Do lado do Fórum Econômico Mundial observa-se uma espécie de senado das grandes corporações transnacionais exporem suas vontades aos governantes alinhados e defender o aprofundamento da globalização excludente e geradora de concentração extrema de riqueza e poder.

Nesse contexto que o campo ideológico da direita parece ter produzido novo alinhamento que pode ser decomposto em dois tipos atuação. De uma parte, as experiências de governos que patrocinam a globalização neoliberal, mas buscam respeitar a democracia e os valores humanos civilizatórios.

De outra parte, os experimentos mais recentes de governos que emitem postura contra a globalização neoliberal. De maneira geral, o nacionalismo apregoado se fundamenta nas práticas do protecionismo, geralmente descomprometidas do devido respeito à democracia e aos valores humanos civilizatórios.

O Brasil também registrou a experiência de governos que no campo ideológico da direita patrocinaram a globalização neoliberal, defendendo a democracia e os valores humanos civilizatórios. Isso é o que se pode apreender do período governamental dos "Fernandos" entre os anos de 1990 e 2002.

Após mais de uma década de governos de centro esquerda, o país passou a conviver novamente com a ascensão de governos no campo ideológico da direita. Inicialmente, a interrupção arbitrária do exercício do mandato da presidenta Dilma em 2016, possibilitou o retorno de um governo comprometido com a globalização neoliberal, porém desprovida do respeito à democracia e à defesa dos direitos humano civilizatórios.

Diversas iniciativas nesse sentido foram constatadas com reformas antipopulares e de proteção a ricos e poderosos. A implantação do plano Ponte para o futuro do governo Temer se mostrou negativo ao país, com uma série de fracassos registrados em termos econômicos, sociais e políticos.

Com a vitória eleitoral de Bolsonaro em 2018, a herança deixada por Temer parece não foi interrompida. Pelo contrário, o que já aponta o conjunto das primeiras iniciativas apresentadas é a ampliação do patrocínio da globalização neoliberal e o maior descomprometimento da democracia e dos valores humanos civilizatórios.

Por conta disso, a experiência no campo ideológico da direita desde 2016 tende a se distinguir dos governos neoliberais dos anos de 1990. Isso porque as iniciativas tomadas assentam-se no estímulo a globalização neoliberal, porém acompanhadas de limites à democracia e ao avanço humano civilizatório.

Sobre o autor

Marcio Pochmann é professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit), ambos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)