17 de janeiro de 2020

Hollywood também desconfia de golpe

Documentário de Petra Costa apenas corrobora o que todos no mundo já desconfiavam

Nelson Barbosa


A diretora Petra Costa durante as filmagens do documentário "Democracia em Vertigem". É dela também as obras de ficção "Elena" e "O Olmo e a Gaivota". Diego Bresani/Divulgação

O documentário “Democracia em Vertigem” foi indicado ao Oscar de melhor documentário. O filme é realmente muito bom, misturando o que aconteceu no Brasil em 2015-16 com a interpretação e a vida da diretora.

Para quem não assistiu, sugiro ver logo na Netflix, antes que um juiz obscurantista decida suspender a exibição. E mesmo quem odeia o PT deveria assistir, para poder criticar o longa de Petra Costa com mais fundamento.

Não sei se o documentário ganhará. Torço para que sim, mas a competição é difícil, se é que isso deveria existir entre obras de arte. Dos outros documentários listados, por enquanto só assisti a “American Factory”, que também está na Netflix e é sensacional. Os outros devem estar no mesmo nível.

A indicação para o Oscar já é uma grande vitória para o cinema brasileiro, mas mesmo assim houve quem torcesse o nariz para Hollywood. Como diz aquele ditado popular: a inveja é uma... deixa para lá.

O documentário de Petra Costa apenas corrobora o que todos no mundo já desconfiavam, houve golpe parlamentar no Brasil em 2016 (com impeachment sem crime de responsabilidade) e continuação em 2018 (com a prisão de Lula por ato indeterminado de ofício).

Pausa para os negacionistas de plantão: dizer que houve golpe não significa que não houve erros por parte dos governos do PT. Houve vários erros, econômicos e políticos, e também houve muitos acertos. Por maiores que os erros tenham sido, eles não justificam inventar crime fiscal, que nunca havia sido caracterizado como crime até então, para derrubar o governo por motivos políticos. Até Temer reconheceu isso, em ato falho.

No mesmo sentido, apontar o caráter político da condenação de Lula não implica defender a corrupção, pois, afinal, foram os próprios governos do PT que deram mais poder aos órgãos de investigação e controle para conduzir suas ações.

Todo governo, independentemente de orientação política, tem o dever de combater a corrupção, mas poucos o fazem de modo imparcial.

Quer um exemplo? Compare os anos petistas com a situação atual. Sob Lula e Dilma houve liberdade e transparência na investigação de diversas autoridades do governo. E hoje? Da rachadinha de Queiroz ao assassinato de Marielle e Anderson, passando pela investigação de ministros de Bolsonaro, temos atrasos, lacunas e diversionismo.

Volto ao documentário de Petra Costa. Ninguém derruba presidente e interfere em eleições presidenciais sem deixar sequelas. Nossa maior sequela está hoje no Planalto.

Temos um governo de extremistas ideológicos, terraplanistas econômicos e hipócritas no combate à corrupção. Temos também paralisação administrativa, fruto da insegurança jurídica de derrubar um governo e prender um ex-presidente “flexibilizando” a Constituição.

Quanto tempo durará isso? O golpe de 1964 durou 20 anos. O atual completará 4 anos em maio. Espero que não tenha vida longa, mas isso depende da defesa de nossa democracia contra os absurdos do triunvirato MMM (mídia-mercado-magistrados).

E, para quem odiou “Democracia em Vertigem”, sempre há a série de ficção “O Mecanismo” ou a chanchada “Real – O Plano por Trás da História”. As duas obras poderiam ganhar o “tucanoscar”, com apresentação por Luciano Huck, em evento do Instituto Millenium, com direito a tapete vermelho, quero dizer, azul.

Para os demais que gostam de cinema, não deixem de assistir a “Parasita”, indicado ao Oscar em seis categorias, incluindo melhor filme. A história se passa na Coreia do Sul, mas poderia ser aqui. É disparado o melhor filme do ano.

Sobre o autor

Professor da FGV e da UnB, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento (2015-2016). É doutor em economia pela New School for Social Research.

Brasil e Cuba em 2020: amigos ou inimigos?

Situações passageiras não quebram laços estreitos

Pedro Monzón

Folha de S.Paulo

O médico cubano Michael Saavedra atende em UBS de Embu das Artes, na Grande São Paulo. Marlene Bergamo/Folhapress

A amizade entre nações não se define a partir de incidentes conjunturais. Sua origem e seu desenvolvimento residem na comunidade de traços essenciais e nas relações mantidas com o tempo, que dão lugar a vínculos estreitos —e que não podem ser quebrados por situações passageiras. É este o caso das relações entre Cuba e Brasil. 

Unem-nos atributos de nossa idiossincrasia, imaginários e tradições, que nos outorgam uma atitude e visão do mundo distintas. Compartilhamos o sincretismo religioso, fusão do africano e nativo com crenças europeias. Tudo exteriorizado em manifestações espontâneas de simpatia e sensualidade peculiares, e a geração de uma atitude e aptidão ante a cultura, a música e a dança que nos tornou universais. Como parte dessa miscigenação, compartilhamos delícias da culinária, que combina sabores africanos e europeus, moldados, como os demais, no caldeirão de nossas exuberantes naturezas.

Também nos esportes, a competência saudável se misturou com o carinho e a admiração mútuos. Essa magnífica comunicação humana não foi obstruída pelas ligeiras diferenças linguísticas.

Une-nos a dolorosa historia do colonialismo, a escravidão, lapsos de tiranias e um sentido profundo de justiça e independência. As rupturas políticas, como sucedeu a partir de 1964, durante a ditadura no Brasil, não alcançaram os sentimentos do povo e foram historicamente efêmeras e superficiais. De fato, Cuba, mesmo naquela época, se constituiu em um caloroso refúgio para perseguidos pela repressão, brasileiros que se sentem eternamente gratos.

Une-nos o esforço médico solidário de Cuba, que tocou cedo a terra brasileira quando, depois de atender a 25 mil crianças afetadas pelas radiações em Chernobil, submeteu a tratamentos médicos, também gratuitamente, dezenas de lesionados pelo grave acidente radioativo de Goiânia, em 1987. Cuba trabalhou para trasladar ao Brasil destacadas e múltiplas conquistas que incluíram vacinas vitais e outros produtos exclusivos de nossa biotecnologia.

O célebre programa Mais Médicos, que atraiu ao Brasil mais de 11 mil médicos e pessoal da área da saúde cubanos, permitiu estabelecer relações muito humanas entre nossos povos, nas quais a solidariedade, a bondade e o profissionalismo foram protagonistas fundamentais. Como resultado dessa colaboração, um grande número de estudantes brasileiros foram bem-vindos na Escola Latino-Americana de Medicina de Cuba e se formaram médicos capacitados com conhecimentos especializados e valores humanos.

O comercio bilateral mantido, a atividade das associações solidárias, a presença no Brasil de talentosos imigrantes cubanos e o vertiginoso crescimento do turismo brasileiro à Cuba multiplicou esses laços indestrutíveis. E o seguirão fazendo: nada nem ninguém conseguirá deter. Por isso, em 2020, convidamos nossos amigos brasileiros: “Venham a Cuba!”. Serão recebidos de braços bem abertos e desfrutarão intensamente de um país maravilhoso, seguro, nobre e muito amigo.

Sobre o autor

Cônsul-geral de Cuba em São Paulo

15 de janeiro de 2020

O homem que matou Rosa Luxemburgo

Em 15 de janeiro de 1919, os líderes da revolução alemã foram assassinados por soldados de extrema-direita enfurecidos pelo crescente movimento socialista. O homem que planejou os assassinatos foi Waldemar Pabst – um oficial nacionalista paramilitar fanático que mais tarde se juntou ao nazismo.

Klaus Gietinger

Traduzido por
Loren Balhorn

Jacobin

January 19, 1953: A communist march in East Berlin to commemorate the deaths of Karl Liebknecht and Rosa Luxemburg, cofounders of Germany's Spartacist League. Keystone / Hulton Archive / Getty

Tradução / Em 15 de janeiro de 1919, os líderes revolucionários Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht foram assassinados a sangue frio por uma gangue direitista de oficiais do exército. Seus assassinatos ocorreram após o fim da Revolta de Janeiro em Berlim e tiveram a aprovação tácita dos principais membros do Partido Social Democrata (SPD), que tomavam o poder semanas antes. Enviando ondas de pavor por toda a Alemanha, suas mortes foram registradas na história como um ponto de virada decisivo na onda de revoltas populares no pós-guerra – acabando com as esperanças de que o socialismo se espalhasse pelo resto da Europa.

Uma grande variedade de forças apoiou a contra-revolução – mas o cérebro por trás do assassinato foi Waldemar Pabst, um oficial do estado-maior do exército alemão. Orgulhoso monarquista, nacionalista, e um amargo oponente da democracia e do socialismo. Sua carreira incorporou tudo o que estava podre na Alemanha imperial que se esforçava para se defender contra a revolução que avançava. Além disso, sua influência também se estendeu mais profundamente na história alemã – mostrando as linhagens do nacionalismo e militarismo alemão no estado da Alemanha Ocidental no pós-guerra.

Enfrentando a “tempestade de aço”

Waldemar Pabst era um homem com uma biografia monstruosa, cuja influência na política do primeiro terço do século XX foi subestimada por décadas. Em primeiro lugar, ele era um representante da crescente burguesia no Império Alemão semi-absolutista, ou Kaiserreich. Apenas se tornando um país unido em 1871, sob a liderança do chanceler Otto von Bismarck, no final do século XIX, a Alemanha estava desesperada para recuperar o tempo perdido e reivindicar seu “lugar ao sol” entre as outras potências europeias. Ansioso para provar a si mesmo, Pabst se submeteu, entusiasticamente, ao regime desumano na academia de cadetes e começou a subir na hierarquia.

Como oficial na Primeira Guerra Mundial, em agosto de 1914, Pabst viu a guerra como uma excelente oportunidade para se afirmar como um membro leal e bem-sucedido da casta militar prussiana. A “Tempestade de Aço” (como seu colega nacionalista Ernst Jünger uma vez chamou) desencadeada pelo imperialismo alemão, resultando no primeiro massacre em escala industrial em solo europeu, terminaria apenas em novembro de 1918. E resultou não em vitória, mas em derrota na Frente Ocidental, o que causou um tumulto revolucionário em casa.

Esse evento, aparentemente cataclísmico, trouxe consigo a queda do amado Kaiser de Pabst, seu exército – e seu mundo inteiro. Em resposta, Pabst organizou a Divisão Garde-Kavallerie-Schützen – uma divisão de elite do exército imperial – em um Freikorps proto-fascista e altamente agressivo. Os Freikorps eram esquadrões armados de soldados que culparam socialistas, sindicalistas e judeus pela derrota da Alemanha e procuraram restaurar a ordem imperial. Subindo ao topo de uma força reacionária tão importante, Pabst se transformou em um comandante da contra-revolução alemã.

O aliado do SPD

Pabst era um homem pequeno e vaidoso que andava com um machado pessoal. A revolução de novembro de 1918 frustrou sua própria promoção ao major, mas sua ascensão continuada seria impensável sem a ajuda dos principais homens do SPD.

A virada dentro do partido em uma força contra-revolucionária amadureceu antes do início da Primeira Guerra Mundial. Em 1913, os principais funcionários dos sindicatos e do SPD abandonaram o internacionalismo e tornaram-se assessores das políticas expansionistas de guerra da Alemanha, promovido pela grande burguesia, pelos cartéis, pelo oligopólio e pelos militares. O desejo de abandonar a estigmatização, como “patifes sem pátria”, provando seu feroz patriotismo – uma pré-condição para garantir posições dentro desse poder crescente – alinhou-os às fixações autoritárias herdadas da tradição prussiana.

O exemplo mais adequado dessa tendência foi o encontro entre Pabst e Gustav Noske, do SPD, que se tornou o novo comandante civil depois da abdicação de Kaiser Wilhelm II. A cooperação, conhecida como “dupla executiva”, formou o pacto contra-revolucionário entre o executivo do SPD e o Comando Supremo do Exército.

Pabst e Noske também foram responsáveis por introduzir o terror na política doméstica alemã em março de 1919, interiorizando a política de guerra da Alemanha imperial. Desimpedido pelos desenvolvimentos liberais ou iluministas, o militarismo prussiano havia estabelecido desde cedo um estilo de guerra voltado para a aniquilação, aparente pela primeira vez no genocídio do povo Herero e Nama, onde hoje é a Namíbia. Essa abordagem foi desencadeada na Primeira Guerra Mundial com massacres contra a população civil belga – e após a revolução, ela voltou até contra ex-soldados que retornavam à Alemanha.

Os ex-soldados que se uniram ao levante não eram mais “camaradas” e foram excluídos da comunidade étnica alemã conhecida como Volksgemeinschaft, como se fossem de outras “raças”. Isso significava, em princípio, que seus líderes poderiam ser mortos a tiros sem nenhum problema. A partir de 1919, em resposta ao fracassado levante de janeiro em Berlim, os principais social-democratas também participaram desse tipo de exclusão. Ninguém fez mais para promover essa atitude do que Waldemar Pabst e Gustav Noske, agora servindo como ministro da Defesa, com suas ordens de terror em março de 1919.

Em janeiro, quando Luxemburgo e Liebknecht foram mortos, o governo liderado pelo SPD e seus apoiadores militares lançaram uma ofensiva em larga escala contra uma onda da renovada de greve. Os soldados destruíram as últimas brigadas de trabalhadores armados criadas durante a revolução e as perseguiram em suas fortalezas. Em Berlim, eles até recorreram à artilharia e realizaram ataques aéreos em bairros da classe trabalhadora para expulsar o que restava da resistência. Mais de mil pessoas morreram – a maioria deles civis inocentes.

Pabst foi o iniciador do massacre – a política de aniquilação dirigida às classes mais baixas – e só conseguiu isso porque havia encontrado em Noske um comandante que pensava e se sentia da mesma maneira. Noske, por sua vez, contou com o apoio dos executivos do SPD, particularmente Friedrich Ebert, Wolfgang Heine e Gustav Bauer, atrás de quem estavam outros burocratas do SPD, ansiosos para entrar em ação. Quando Noske falou no parlamento e repetiu o ditado militar prussiano de que “a necessidade não conhece lei” – sublinhando sua operação ilegal com a observação de que “os artigos não valem nada, a única coisa que conta é o sucesso” – as atas da sessão registraram aplausos estrondosos dos social-democratas e da direita.

Uma guerra de aniquilação

Noske, que ajudou os autores a evitar a justiça perante os tribunais, mesmo anos após os massacres, aplicou o princípio da guerra de aniquilação de Pabst sem hesitação. Ele o empregou contra marinheiros, trabalhadores, soldados, intelectuais e muitos membros de seu próprio partido. O resultado foi um nível de violência contra civis não visto desde a Guerra dos Trinta Anos, matando milhares e desmoralizando as classes baixas que estavam em revolta. É nesse contexto que devemos ver a ação mais infame e conseqüente de Pabst: o “assassinato da revolução” com a liquidação de seus líderes heroicos, Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht.

O próprio Pabst planejou o assassinato. Os dois ícones socialistas foram presos em 15 de janeiro e levados para o luxuoso Hotel Eden, em Berlim, onde ele havia estabelecido seu posto de comando. Após o interrogatório, eles foram escoltados para a prisão em carros separados por um esquadrão de soldados nacionalistas reunidos pessoalmente por Pabst. Seria a última viagem dos revolucionários.

O motorista da escolta de Liebknecht parou no Tiergarten, um dos maiores parques da cidade, citando problemas com carros. Os soldados então ordenaram a Liebknecht que continuasse a pé, antes de atirar nas costas dele depois de dar alguns passos. O relatório oficial afirmou que ele havia sido baleado enquanto tentava escapar.

Por sua vez, Luxemburgo estava em um carro aberto. Quando se afastou do hotel, ela foi baleada na cabeça por um oficial que emergiu das sombras, disfarçado de um civil zangado que fazia justiça com suas próprias mãos. Seu cadáver foi jogado em um canal próximo e deixado apodrecer por meses. A verdadeira natureza do crime só seria revelada décadas depois, muito depois da ameaça socialista ter sido abafada.

A aprovação direta de seu assassinato por Noske – e, indiretamente, Ebert – ficou aparente na recusa do tribunal militar instalado pelo SPD de buscar a Justiça. Noske habilitou a ação de Pabst duas vezes: primeiro por permitir conscientemente (mesmo sem emitir uma ordem direta) e depois por permitir que os culpados vagassem livremente após o fato. A influência de Pabst como o primeiro oficial da Freikorps não foi enfatizada o suficiente. Foi ele quem convenceu o SPD da necessidade de dar um golpe esmagador contra a revolução, através de um tipo de terrorismo político que o Kaiser Wilhelm II sempre ameaçou, mas apenas a oligarquia do SPD permitiu que ocorresse. Através de sua grande influência oculta – nas palavras de Noske, “considerável influência militar” -, Waldemar Pabst foi decisivo na ascensão do fascismo alemão – e na história da Europa no século XX.

Uma vida reacionária

O assassinato dos líderes revolucionários não foi a única intervenção política de Pabst. Com a revolução derrotada, no verão de 1919, ele rompeu seu pacto com o SPD – que, para ele, sempre fora um arranjo temporário. Na sua visão, o partido falhou por não conseguir impedir a imposição do Tratado de Versalhes nem cumprir sua ambição de uma sociedade ultramilitarizada e protofascista, com um exército profissional em seu núcleo e uma horda paramilitar. Os vitoriosos na Primeira Guerra Mundial simplesmente não permitiria tal resultado.

Diante dessa situação, Pabst continuou seus empreendimentos contra-revolucionários – tentando atrair Gustav Noske para o seu lado como ditador. Noske não estava desanimado, mas, certo de que tal plano provocaria renovadas revoltas da classe trabalhadora, ele se afastou do plano. Isso foi suficiente para o frustrado Pabst tentar um golpe de Estado em julho de 1919. Ele o lançou sem chegar a um acordo prévio com o general Walther von Lüttwitz e o plano logo naufragou. Forçado a recuar, Pabst teve, posteriormente, seu título de major e geral do estado-maior negado.

O amargurado Pabst continuou agitado. Ele agora reuniu forças de direita no “Nationale Vereinigung”, um grupo conspiratório de oficiais reacionários financiados pelas mesmos segmentos da grande indústria que já apoiaram os Freikorps, e decidiram derrubar o governo dominado pelo SPD. No entanto, quando Lüttwitz avançou por sua própria iniciativa, lançando um golpe em março de 1920, apesar dos preparativos incompletos de Pabst, o oficial aposentado perdeu a coragem e fugiu. Esse momento de fraqueza salvou Noske, Ebert e outros membros do governo da prisão, enfraquecendo decisivamente o chamado “Kapp Putsch”. Pabst havia perdido a chance – e nunca mais conseguiria outra.

O golpe foi derrotado em quatro dias, graças à maior greve geral da história alemã. Mas, reforçados pela indecisão e fraqueza por parte dos social-democratas independentes (USPD) e do Partido Comunista (KPD), os líderes do SPD optaram por seguir os métodos de Pabst de execuções ilegais em massa. Ordens secretas foram retiradas das gavetas e colocadas em uso – não contra os conspiradores, mas contra as revoltas na Alemanha Central e na região do Ruhr, provocadas pelo golpe. Os trabalhadores rebeldes foram dizimados pelos paramilitares dos Freikorps, sob ordens do mesmo governo do SPD contra o qual haviam montado um golpe apenas dias antes.

Como uma das principais figuras do plano fracassado, Waldemar Pabst foi forçado a fugir primeiro para a Baviera e depois para a Áustria, onde imediatamente começou a construir a organização fascista Heimwehr e tentou estabelecer uma “Internacional Branca” que unisse partidos fascistas em toda a Europa. Mais tarde, ele retornou à sua terra natal e se tornou uma figura de destaque na indústria de armamentos de Adolf Hitler, embora nunca tenha se juntado ao Partido Nazista e tenha se mudado para a Suíça no final da guerra. Lá, ele teve uma carreira de sucesso como traficante internacional de armas antes de voltar para a Alemanha Ocidental em 1955, onde foi protegido por poderosas figuras do governo, apesar de ter sido um participante importante nas primeiras redes neofascistas.

Waldemar Pabst, idealizador do assassinato de Rosa Luxemburgo, morreu em 1970 como um nacionalista rico, impenitente, e nunca enfrentou um tribunal alemão por seus crimes.

Sobre o autor

Klaus Gietinger é cineasta e historiador de Saarbrucken, Alemanha. Seu livro mais recente em inglês é "The Murder of Rosa Luxemburg" (Verso 2019).

Sobre o tradutor

Loren Balhorn is a contributing editor at Jacobin and co-editor, together with Bhaskar Sunkara, of Jacobin: Die Anthologie (Suhrkamp, 2018).

12 de janeiro de 2020

O problema não é a globalização — é o capitalismo

A direita seqüestrou a visão de uma vida além da globalização neoliberal. É hora de um novo internacionalismo progressista, que coloque solidariedade e justiça acima dos lucros das empresas.

Nicole M. Aschoff

Jacobin

Steve Bannon, ex-presidente executivo do Breitbart News e ex-estrategista-chefe da Casa Branca no governo Trump. (Nordiske Mediedager / Flickr)

Tradução / No novo documentário de Errol Morris, American Dharma, ele pergunta a Steve Bannon — ex-presidente executivo do Breitbart News, idealizador da campanha vitoriosa presidencial de Donald Trump em 2016 e tema do filme — se ele poderia apontar um momento decisivo na cristalização de sua visão política do mundo. Refletindo sobre a pergunta, Bannon relembra uma visita à Academia Militar dos Estados Unidos em West Point, em algum momento da década de 2000, onde sua filha mais velha era cadete e participava do time de vôlei. Um dia, assistindo o treino da filha, Bannon conta que viu uma pilha de caixas com os novos uniformes da equipe. Ao puxar uma peça para fora da caixa, ele notou, horrorizado, que os uniformes tinham sido fabricados no Vietnã.

O fato de o uniforme do exército da sua filha ter sido fabricado no Vietnã — um país onde milhares de soldados norte-americanos haviam morrido — parecia ser mais do que Bannon podia suportar. Cheirava a “globalismo” — a explicação de Bannon para tudo de errado com o mundo hoje.

Para Bannon, o globalismo resume a visão de mundo de uma elite internacional — o “Partido de Davos” — que se perdeu no meio do caminho. No lugar dos princípios judaico-cristãos de piedade, parcimônia e orgulho nacional que supostamente guiaram o capitalismo ocidental, Bannon vê um mundo governado por uma seita de capitalistas obcecados por receitas trimestrais e preços de ações na bolsa de valores. O resultado, afirma Bannon, é uma classe trabalhadora alienada, pronta para explodir.

O colunista do New York Times, David Brooks, manifesta uma antipatia semelhante em relação aos globalistas “cujos corações a topofilia desvaneceu”. Como Bannon, ele clama por um espírito renovado de nacionalismo para combater o sentimento generalizado de desesperança e raiva nos Estados Unidos de hoje: “As pessoas começam a sentir que não há nada além de injustiça na sociedade estadunidense e que não há esperança de salvação. Elas sentem vontade de queimar tudo”.

Coincidentemente, o próprio documentário American Dharma termina com uma poderosa conflagração — a demonstração irônica de Morris sobre a ânsia de Bannon para atear fogo no establishment. Os impulsos de homens como Bannon são pesadelos para os centristas que desejam preservar em vez de desmantelar, e que lucraram bastante com o status quo do pós-Guerra Fria. Eles alertam sobre os perigos de abandonar o internacionalismo liberal ou, como é frequentemente chamado o conjunto de ideias que definem o consenso político ocidental desde os anos 90, a globalização.

Por décadas, os defensores da terceira via sustentaram a globalização como a evolução da humanidade para além dos erros grosseiros do keynesianismo. Com o livre comércio e o livre mercado, barcos seriam levantados [como no aforismo keynesiano “Uma maré alta levanta todos os barcos], o conhecimento e a tecnologia floresceriam, a pobreza e a corrupção seriam solucionadas através da inovação e os lucros transbordariam para toda população.

A esquerda foi rápida em desafiar a fantasia da globalização. Antes de o globalismo se tornar o epíteto do momento, já havia duas escolas críticas à globalização: os céticos da globalização e o movimento antiglobalização.

Os céticos da globalização, escrevendo nos anos 90 e no início dos anos 2000, questionaram a veracidade das alegações de que o Estado estava diminuindo, que a produção havia se tornado verdadeiramente integrada globalmente e que as culturas estavam se homogeneizando. Eles argumentavam que o Estado continuava sendo uma força dominante na formação do terreno do capitalismo global e que as empresas não eram tão livres e desimpedidas quanto professavam. Os céticos enfatizaram que a globalização era um projeto político, não uma força implacável da natureza e, como tal, poderia ser desafiada e moldada por movimentos sociais.

Nisso, os céticos se cruzavam com o movimento antiglobalização, composto por grupos que talvez fossem menos céticos em relação à realidade da globalização, mas consideravelmente mais vigorosos na rejeição de seus processos e efeitos. A última década do século XX testemunhou batalhas ferozes nas cidades do mundo todo, enquanto os ativistas tentavam desarticular o funcionamento do Consenso de Washington.

Mas os centristas mantiveram a vantagem. O 11 de setembro e a segunda Guerra ao Terror do governo Bush puxaram o tapete do crescente movimento antiglobalização. Nos Estados Unidos, muitos esquerdistas voltaram suas energias para o trabalho antiguerra e para a mobilização contra os esforços de criminalização antimuçulmana e anti-imigrante. A luta contra a globalização ficou em segundo plano.

Após a crise financeira de 2008, a noção do “global” voltou à imaginação popular. Mas a crítica ao projeto de globalização tornou-se mais moldada pela direita do que pela esquerda. A antiglobalização deu lugar ao antiglobalismo — uma visão de mundo voltada à uma política muito diferente.

Os movimentos antiglobalização enfatizavam justiça e equidade para todos. As organizações defendiam a soberania alimentar, os direitos dos trabalhadores e o fim das fábricas para imigrantes [fábricas clandestinas com condições de trabalho degradantes]. Eles se organizaram em torno dos direitos dos imigrantes e dos povos indígenas e exigiram que as empresas fossem responsabilizadas por seus abusos contra as pessoas e o meio ambiente.

O antiglobalismo, embora também denuncie o status quo da elite, está fundamentado em um nacionalismo agressivo que vê imigrantes, muçulmanos e progressistas como o problema. Em vez de destacar as contradições inerentes ao capitalismo global, os antiglobalistas querem construir um muro em torno dos Estados Unidos, imaginando que, se expulsarem ou reprimirem os “indesejáveis”, seriam capazes de reconstruir um paraíso capitalista judaico-cristão com cercas e empregos em fábricas locais. O espectro do globalismo gerou uma fantasia de direita ainda mais perigosa do que o projeto centrista de globalização.

Sem dúvida, os problemas identificados pelo movimento antiglobalização continuam. Na verdade, eles pioraram, agravados por uma profunda desconfiança popular das instituições em meio à inação e ineficácia de governos, corporações e grandes ONGs em questões de destruição ambiental, pobreza e desigualdade. Mas a visão de uma alternativa à globalização neoliberal está sendo moldada pelas ideias erradas — ideias enraizadas no ódio e na exclusão.

No entanto, o retorno à antiglobalização não é a resposta. Precisamos de uma visão global que vá além da negação e construa uma agenda de esquerda positiva — ligando movimentos sociais fortes e fundamentados a um programa internacional concreto de solidariedade e justiça.

Sobre o autor
Nicole M. Aschoff faz parte do conselho editorial da Jacobin. Ela é autora dos livros "The New Prophets of Capital e The Smartphone Society: Technology, Power" e "Resistance in the New Gilded Age", prestes a ser publicado..

10 de janeiro de 2020

Banco Central bem-intencionado e intervencionista

O ideal seria incentivar a concorrência ao manter o antigo cheque especial ao lado do novo

Nelson Barbosa

Folha de S.Paulo

Presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, e o ministro da Economia, Paulo Guedes, durante a posse no ano passado. Raphael Ribeiro/ BCB

O “novo cheque especial” começou a valer neste ano. Na verdade, trata-se de outro produto, mais próximo de seguro de crédito do que do “antigo cheque especial”, mas o Banco Central preferiu manter o nome anterior.

No antigo cheque especial, o banco disponibilizava um valor de crédito para você, sem fazer mais perguntas e ou cobrar tarifa. Até o valor definido, você poderia tomar emprestado a taxas de juro bem elevadas, na casa de 350% ao ano. O juro alto era a remuneração do banco.

No novo cheque especial, a taxa de juro tem teto de 8% ao mês, aproximadamente 152% ao ano. Para compensar essa redução, os bancos podem cobrar tarifa de quem quiser ter cheque especial, mesmo que a pessoa não use o produto.

A tarifa será mensal, de até 0,25% do valor que exceder R$ 500. Assim, se você tem cheque especial de R$ 2.000, você pagará R$ 3,75 por mês (R$ 45 por ano) para ter o produto, mesmo que não use.

Na prática, o novo cheque especial é um seguro de crédito. O cliente paga um “prêmio” mensal, de 0,25% sobre o valor que exceder R$ 500, para ter linha de crédito até o valor-limite, com taxa de juro de até 8% ao mês, se e quando precisar.

O novo produto é bem-vindo, e todos os bancos devem ser obrigados a oferecê-lo, como hoje já acontece para o pacote básico de conta-corrente com tarifas limitadas. Nesse sentido, a decisão do Banco Central foi correta.

Porém, como sou um pouco liberal, acho errado acabar com o antigo cheque especial. O ideal é estimular a concorrência entre os dois produtos, deixando o consumidor escolher o que é melhor para si.

Ao obrigar todos os que querem ter cheque especial a pagar uma tarifa mensal, o BC está intervindo no mercado e limitando a escolha do consumidor. Seja em economia ou em direito, esse tipo de
ação raramente se justifica.

Mas a medida está tomada, e agora cabe às autoridades competentes observar seus efeitos. Suspeito que, por pressão popular ou ação judicial, evoluiremos para o quadro de dois produtos, em que poderemos escolher entre cheque especial (sem tarifa e taxa de juro livre) e seguro de crédito (com tarifa e taxa de juro limitada).

E, como apontou meu colega Manoel Pires, no blog do Ibre FGV, também devemos discutir por que a taxa de juro do cheque especial subiu tanto nos últimos anos, mesmo com a Selic despencando para 4,5% ao ano.

Nas suas palavras: “Entre 2010 e 2014, essas taxas (do cheque especial) flutuaram em torno de 150% ao ano. Após a recessão, as taxas dispararam para níveis superiores a 300% anuais e continuam nesse patamar apesar da expressiva redução da taxa básica de juros que se deu a partir do fim de 2016. (...) Não é à toa que o Congresso está exigindo alguma medida do Banco Central”.

Lembrando, o BC de Goldfajn não fez quase nada sobre o assunto, preferindo liberar depósitos compulsórios sem exigir nenhuma contrapartida dos bancos. A atitude do BC durante o governo Temer já se tornou caso clássico de suspeita de captura do regulador pelo regulado.

Agora, o BC de Campos Neto parece menos capturado pelo sistema bancário. Congratulações ao BC de Campos Neto, mas ainda assim sugiro que se evite tutelar consumidores.

No caso do cheque especial, a melhor solução envolve três medidas: 1) obrigar os bancos a oferecer seguro de crédito com taxa de juro limitada, nos moldes definidos pelo BC; 2) manter o antigo cheque especial; e 3) estimular a concorrência, via novos entrantes no mercado (fintechs), para diminuir a taxa de juro.

Sobre o autor

Professor da FGV e da UnB, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento (2015-2016). É doutor em economia pela New School for Social Research.

A volta das filas do INSS

Pedidos acumulados refletem um governo que negligencia os mais pobres

Carlos Gabas e Luiz Marinho


Rivaldo Gomes/Folhapress

Reportagem publicada nesta Folha na quinta-feira (9) lembra um Brasil extinto há mais de uma década. A volta das filas do INSS, que hoje acumula 2,3 milhões de pedidos de benefícios sociais e previdenciários, dá o tom de um governo que exclui e negligencia aqueles que dele mais precisam.

Agora, o governo federal anuncia com alarde na imprensa uma “força-tarefa” para reduzir as filas que não deveriam sequer existir. Um governo que genuinamente se preocupasse com o seu povo teria como referência os governos Lula, lembrando que o ex-presidente exigiu pessoalmente à sua equipe ministerial que acabasse com as vergonhosas filas do INSS.

Um sonho possível graças a medidas efetivas como a organização dos requerimentos, com agendamento eletrônico, a criação do Canal 135, a inauguração de mais de 400 novas agências, a ampliação do horário de atendimento, o combate às fraudes e a realização de concursos para a contratação de servidores, entre outras medidas simples e que exigiam de um governo apenas vontade.

Foi Lula o presidente responsável pela aposentadoria em 30 minutos, com certificação do banco de dados do CNIS (Cadastro Nacional de Informações Sociais), onde invertemos o ônus da prova de vínculos e remunerações dos trabalhadores, restando ao beneficiário apenas comprovar sua identidade. O trabalhador era atendido e saía da agência aposentado em menos de 30 minutos.

Utilizamos a tecnologia a favor do cidadão, investindo paralelamente no atendimento presencial. Lógica que hoje é desprezada pelo governo Bolsonaro, que concentra o atendimento via aplicativo de celular, excluindo milhões de idosos que não possuem acesso.

Vale lembrar que o INSS foi ainda o primeiro órgão do governo federal a realizar contrato de gestão, em que os servidores trabalhavam com metas e remuneração vinculada. E sendo os últimos dois concursos em gestões petistas: em 2012, com a contratação de 3.000 servidores e, posteriormente, em 2015, com a abertura de 900 vagas.

Atualmente, o governo fecha agências do INSS, reduz o horário e limita o atendimento a meios eletrônicos e abandona por completo todo um sistema de acompanhamento. Extingue cargos e nos remete a uma era em que o direito e o acesso à aposentadoria era simplesmente sequestrado do povo brasileiro.

Anuncia ainda a privatização do Dataprev, empresa pública de tecnologia da informação responsável direta pelo sucesso da gestão do INSS e de outras áreas sociais do governo federal. É a lógica do Estado mínimo, de uma gestão punitiva e que baseia a tentativa de crescimento de sua economia à custa do sofrimento dos mais pobres.

Sobre os autores

Carlos Gabas

Ex-ministro da Previdência Social (2010, governo Lula; e 2015, governo Dilma)

Luiz Marinho

Ex-ministro da Previdência Social (2007-08, governo Lula) e ex-prefeito de São Bernardo do Campo (SP) pelo PT (2009-16)

9 de janeiro de 2020

Acerto de contas com a história imperialista do AFL-CIO

Durante o século passado, o governo dos EUA foi repetidamente adversário de movimentos de esquerda e apoiou ou promoveu golpes de Estado em todo o mundo, com o apoio e ajuda de líderes sindicais estadunidenses. Um acerto de contas da história espúria de colaboração entre a AFL-CIO e o imperialismo dos EUA ajuda a forjar no século 21 um sindicalismo avançado e verdadeiramente internacionalista.

Jeff Schuhrke


AFL-CIO Headquarters, Washington, DC, 3014. Matt Popovich / Flickr

Tradução / Dois dias após a deposição do presidente socialista Evo Morales, da Bolívia, por um golpe militar de direita, em novembro passado, o presidente da AFL-CIO, Richard Trumka, usou o Twitter para condenar o golpe e elogiar Morales por reduzir a pobreza e defender os direitos indígenas. Ao fazer isso, Trumka juntou-se a Bernie Sanders, Ilhan Omar, Alexandria Ocasio-Cortez e outras figuras proeminentes da esquerda ao combater a narrativa dominante do establishment político e na mídia dos EUA - de que a deposição de Morales seria uma vitória da democracia.

Embora seja adequado que o presidente da maior federação sindical dos EUA denuncie um golpe de direita contra um líder de esquerda – golpe que foi endossado pelo Departamento de Estado dos EUA e pela CIA –, também representa uma importante quebra de precedente para a AFL-CIO. Embora raramente discutida, a AFL-CIO tem uma longa história de apoio ao governo dos EUA na ação contra movimentos de esquerda em todo o mundo, inclusive através de golpes de Estado na Latin America.

Durante a Guerra Fria, o Conselho Executivo da AFL-CIO e o Departamento de Assuntos Internacionais foram dirigidos por anticomunistas zelosos determinados a minar a ascensão de sindicatos de esquerda no exterior. Como seus parceiros no governo dos EUA, George Meany, presidente da AFL-CIO (1955-1979), e seu sucessor, Lane Kirkland (1979-1995), entenderam que se permitissem prosperar os movimentos de trabalhadores com consciência de classe representariam uma séria ameaça ao capital.

Meany, Kirkland e outros dirigentes da AFL-CIO aderiram a uma filosofia de “sindicalismo empresarial”, o que significa que eles não desejavam derrubar o capitalismo - mas promoveram a ideia de que a colaboração de classe e a negociação limitada no local de trabalho por questões de “pão com manteiga” trariam aos trabalhadores a prosperidade de que eles precisavam. Defendiam o nacionalismo econômico em detrimento da solidariedade internacional do trabalho, argumentando que os trabalhadores estadunidenses receberiam salários mais altos e haveria menos desemprego desde que as empresas dos EUA tivessem acesso fácil ao mercado dos outros países para vender produtos “made in USA” - uma versão do tipo de ideologia nacionalista que alimentou o racismo e a xenofobia entre segmentos da classe trabalhadora nos EUA e ajudou a ascensão de Trump ao poder.

Desde ajudar golpes militares apoiados pelos EUA no Brasil e no Chile até guerras de contra-insurgência implacáveis ​​no Vietnã e em El Salvador, a política externa da AFL-CIO durante a Guerra Fria foi fundamentalmente voltada para os interesses do imperialismo americano. Na década de 1970 - quando o capital lançou seu forte ataque aos direitos dos trabalhadores em todo o mundo -, a AFL-CIO perdeu a credibilidade que poderia ter como veículo para a libertação mundial da classe trabalhadora. Foi ridicularizada pelos lutadores anti-imperialistas no país e no exterior, com o apelido de “AFL-CIA”.

Nesta nova década, a perspectiva rejuvenescida de um movimento de trabalhadores nos EUA é forte: uma nova geração de trabalhadores parece ansiosa por se sindicalizar; o número de greves é o maior em 30 anos; os Socialistas Democratas da América têm rápido crescimento com o objetivo puxar os sindicatos para a esquerda por meio de uma estratégia comum; Bernie Sanders, de longa data, planeja dobrar a filiação sindical se for eleito presidente; e sindicalistas militantes como Sara Nelson (que poderá vir a ser presidente da AFL-CIO) se destacam.

É um bom momento, então, para ativistas e líderes sindicais de esquerda contarem a história do uso do sindicalismo de direita pelo imperialismo dos EUA - uma história ainda desconhecida pelos ativistas mais jovens que chegaram à maioridade no início do século XXI. Contar essa história pode ajudar a garantir que um movimento sindical ressurgente nos EUA desempenhe um papel positivo e eficaz na construção da solidariedade mundial dos trabalhadores, em vez de sustentar uma ordem imperialista que prejudica a classe trabalhadora nos EUA e no mundo.

Por que o imperialismo trabalhista?

Embora décadas de propaganda empresarial tenham tentado dizer o contrário, o sindicato tem poder. Não apenas o poder de aumentar os salários ou ganhar uma folga remunerada, mas o poder de derrubar governos e parar as economias nacionais. Durante a Guerra Fria, o governo dos EUA entendeu isso muito bem. Para as autoridades dos EUA determinadas a preservar e expandir o capitalismo internacional diante de uma esquerda mundial cada vez mais influente, os sindicatos representavam uma ameaça séria.

Os sindicatos no exterior tornaram-se, portanto, um alvo crucial da intervenção imperialista dos EUA: em vez de lhes permitir montar um desafio efetivo ao capital radicalizando os trabalhadores e alimentando movimentos políticos de esquerda, os sindicatos precisariam ser transformados em instrumentos para conter o potencial revolucionário da classe trabalhadora. Nesse processo, a arma mais poderosa do trabalho organizado – a greve – seria cooptada e usada para perseguir objetivos reacionários, ou seja, para minar os governos de esquerda.

Para subverter sindicatos estrangeiros e atraí-los a seus próprios fins imperialistas, o Departamento de Estado dos EUA e a CIA encontraram um aliado entusiasmado na AFL-CIO. A Guerra Fria coincidiu amplamente com o período em que o movimento dos trabalhadores, nos EUA, estava forte. Mais trabalhadores dos EUA foram sindicalizados nas décadas de 1950 e 1960 do que em qualquer outro momento da história, dando aos líderes sindicais como Meany grande influência política.

Como anticomunistas, os funcionários da AFL-CIO optaram por usar esse poder para ajudar o governo dos EUA a minar a influência esquerdista em sindicatos estrangeiros. Na prática, isso significava interferir nos processos internos dos sindicatos de outros países, fomentar rivalidades internacionais, criar e sustentar financeiramente organizações sindicais fragmentadas, formar sindicalistas conservadores e usar o poder da greve para sabotar governos progressistas.

Após décadas dessas intervenções imperiais, o trabalho organizado em todo o mundo ficou dividido e enfraquecido, facilitando ao capital transnacional explorar trabalhadores na era do neoliberalismo.

A Guerra Fria da AFL

Graças à firme resistência contra o fascismo, os partidos comunistas da Europa Ocidental conquistaram amplo apoio popular durante a Segunda Guerra Mundial, especialmente entre a classe trabalhadora. No final da guerra, federações sindicais como a Confederação Geral do Trabalho (CGT), na França, e a Confederação Geral Italiana do Trabalho (CGIL), na Itália, foram lideradas ou fortemente influenciadas pelos comunistas.

Em 1945, os movimentos sindicais das nações aliadas - incluindo a Grã-Bretanha, a União Soviética e os EUA - formaram a Federação Sindical Mundial (FSM), uma espécie de ONU para o trabalho. Nesse momento, a AFL e o CIO ainda eram entidades distintas e concorrentes. Fundada em 1886, a AFL, politicamente conservadora, incluía sindicatos de trabalhadores qualificados e artesanais, enquanto o CIO - fundado em 1935 como uma organização que se separou da AFL - representava trabalhadores em indústrias, como automóveis e aço. Mais novo e mais progressista, o CIO, que devia seu crescimento ao trabalho de militantes comunistas e outros da esquerda, logo aderiu à FSM. Mas a AFL, maior e firmemente anticomunista, recusou-se a ter algo a ver com a nova organização mundial porque incluía sindicatos da União Soviética (URSS).

Líderes da AFL como Meany argumentaram que os esquerdistas - particularmente os comunistas - eram inerentemente “totalitários” e que quaisquer sindicatos que liderassem eram ilegítimos como representantes dos trabalhadores. Ele e o outros internacionalistas anticomunistas da AFL sustentaram que apenas sindicatos “democráticos” ou “livres” - isto é, pró-capitalistas e empresariais - tinham alguma legitimidade.

A ironia dos sindicalistas “livres” era que frequentemente pisoteavam a democracia e a autonomia sindicais enquanto afirmavam defender esses mesmos princípios. Sempre que comunistas ou outros esquerdistas alcançavam posições de liderança em sindicatos em outros países por métodos democráticos e com apoio comum, pessoas ligadas à AFL atuavam para garantir que seus sindicalistas anticomunistas escolhidos a dedo tivessem os recursos para montar sindicatos divisionistas e posições robustas de ruptura.

Em 1944, antes que as linhas de batalha da Guerra Fria tivessem sido traçadas, a AFL estabeleceu o Comitê de Sindicatos Livres (FTUC) para minar os sindicatos liderados pelos comunistas na Europa Ocidental. Jay Lovestone, que já fora líder do Partido Comunista dos EUA, mas que foi expulso em 1929, foi escolhido para dirigir a FTUC, porque Stalin acreditava estar muito próximo de seu rival no Politburo, Nikolai Bukharin.

Lovestone havia ingressado no movimento sindical na década de 1930, através do Sindicato Internacional das Mulheres do Vestuário. Ansioso por vingança contra seus ex-companheiros, ele trabalhou para o presidente anticomunista do UAW (United Automobile Workers), Homer Martin, e usou seu conhecimento íntimo do Partido Comunista dos EUA para ajudar Martin a expulsar seus oponentes sindicais. Essa experiência fez dele a escolha perfeita para dirigir a FTUC.

Como diretor da FTUC, Lovestone enviou seu associado, Irving Brown, para ser seu homem na Europa. De um escritório em Paris, Brown começou a dividir o movimento sindical internacional acusando a FSM de ser uma organização dominada pelos soviéticos. Ele trabalhou particularmente para dividir a CGT francesa, apoiando sua facção interna não comunista, a Força Ouvrière, a se transformar em uma concorrente direta contra a CGT. A Force Ouvrière havia começado como um pequeno grupo na CGT, disposto a coexistir com os comunistas. Brown ajudou a transformar esse grupo em uma organização sindical anticomunista separada, sustentada mais pelos fundos dos EUA do que pelo apoio popular.

Entre 1947 e 1948, o governo dos EUA alcançou a AFL na Guerra Fria; criou a CIA e lançou o Plano Marshall para garantir a “contenção” do comunismo, reconstruindo a economia europeia destruída pela guerra, dentro de uma estrutura capitalista. Reconhecendo o movimento sindical como um campo de batalha crucial da Guerra Fria, a CIA foi atraída pela FTUC de Lovestone e, em 1949, concordou em financiar os esforços da FTUC na ação contra os sindicatos comunistas no exterior, em troca de informações sobre organizações sindicais estrangeiras. Os líderes da AFL Meany, David Dubinsky e Matthew Woll estavam na nova parceria, assim como Lovestone e Brown, mas outros sindicalistas da AFL e dos EUA mantiveram-se no escuro e sabiam pouco do que a FTUC estava planejando.

Pode ser difícil entender que líderes sindicais dos EUA forjaram uma aliança secreta com a CIA para dividir de forma não democrática os sindicatos no exterior. Mas os líderes da AFL e a CIA compartilhavam da crença de que os sindicatos de esquerda eram literalmente capazes de provocar a revolução proletária.

Para impedir que isso acontecesse, a CIA precisava da experiência da AFL. Como as direções anticomunistas pró-capitalistas da AFL já estavam trabalhando para minar os movimentos sindicais de esquerda antes mesmo da criação da CIA, eles não precisavam de nenhum convencimento.

Agora cheio de dinheiro da CIA, no início dos anos 50, Brown tinha a reputação de carregar malas de dinheiro para comprar a lealdade de sindicalistas na França, Itália, Alemanha Ocidental e outros lugares. Onde quer que os sindicatos comunistas fossem fortes, sindicatos anticomunistas eram criados e apoiados financeiramente pela FTUC/CIA. A AFL também fez parceria com o Departamento de Estado dos EUA, que desenvolveu um corpo de adidos sindicais e os alocou em embaixadas dos EUA no exterior. Frequentemente egressos das fileiras dos sindicatos da AFL e examinados por Lovestone, os adidos sindicais do Departamento de Estado usavam sua influência diplomática para isolar e desacreditar os sindicatos liderados pelos comunistas da Europa.

Lovestone também enviou agentes da FTUC para a Ásia. Após a Revolução Chinesa de 1949, Willard Etter, representante da FTUC, instalou-se em Formosa (Taiwan). Com os recursos fornecidos pela CIA, Etter apoiou a Liga do Trabalho da China Livre, que serviu de fachada para atividades de espionagem e sabotagem. Equipes de agentes anticomunistas chineses viajaram secretamente de Formosa para a China continental, onde não apenas reportavam informações a Etter por transmissões de rádio – mas também explodiram o suprimento de combustível (causando baixas civis) e tentaram agitar os trabalhadores em fábricas estatais.

Com a operação na China da FTUC, a AFL tornou-se cúmplice em atividades terroristas patrocinadas pela CIA, afastando-se de seu objetivo básico de capacitar os trabalhadores. A maioria dos agentes de Etter foi capturada e executada pelo governo chinês depois que a CIA perdeu o interesse e os abandonou assim que a Guerra da Coreia começou.

A relação entre a AFL e a CIA era difícil. Lovestone se irritou com a burocracia e a supervisão da CIA, exigindo continuamente maior independência para sua FTUC. Por sua parte, alguns dos principais escalões da CIA - normalmente os WASPs da Ivy League - olhavam com desdém para os contatos da AFL, cuja maioria era de judeus e católicos irlandeses com educação de imigrantes e da classe trabalhadora. A aversão era mútua, com Lovestone frequentemente ridicularizando seus parceiros da CIA como “garotos fracassados” em cartas a Brown. Tal acrimônia era um subproduto trivial da parceria desagradável entre a voz nominal da classe trabalhadora dos EUA e o estado imperialista dos EUA.

Apesar das tensões interpessoais, a aliança FTUC-CIA na Europa Ocidental alcançou o objetivo principal de dividir a FSM em 1949. Cada vez mais pressionado pela geopolítica da Guerra Fria, o CIO e o Sindicato Britânico de Comércio romperam com a FSM no início daquele ano. A ruptura resultou em desentendimentos sobre o Plano Marshall, ao qual os sindicatos liderados pelos comunistas se opuseram, alegando que era uma tentativa de minar sua influência e reconsolidar o sistema capitalista internacional, com os EUA no centro.

Foi no ano de 1949, também, que o movimento sindical nos EUA sofreu as mesmas divisões que a AFL espalhava pelo mundo. Querendo permanecer nas boas graças do governo, os líderes do CIO tomaram uma decisão à direita naquele ano, expulsaram os comunistas de suas fileiras e passaram a perseguir os sindicatos liderados pela esquerda. O resultado foi devastador. O CIO – que antes estava no centro de um movimento multirracial da classe trabalhadora por justiça social e econômica – foi transformado e virou à direita. Nesse contexto, em 1956 a AFL, maior e mais conservadora, absorveu o CIO, e o movimento sindical iniciou, nos EUA, um declínio de décadas.

Em dezembro de 1949, o CIO e o Sindicato dos Comércios Britânicos haviam se unido à AFL e a outros sindicatos anticomunistas para fundar a Confederação Internacional dos Sindicatos Livres (ICFTU), apresentada como a alternativa do mundo “livre” à FSM. Graças às maquinações da AFL, da CIA e do Departamento de Estado dos EUA, o movimento sindical internacional agora estava dividido em dois campos hostis, com os líderes sindicais estadunidenses mais concentrados em combater a esquerda do que em lutar contra o capital.

Visando o Terceiro Mundo

Após a reconstrução da Europa Ocidental, os líderes sindicais dos EUA e seus aliados no governo voltaram cada vez mais a atenção para os países em desenvolvimento – o então chamado Terceiro Mundo.

No Hemisfério Ocidental, Lovestone teve uma presença mínima. Em vez disso, o “Representante Interamericano” da AFL era o emigrado italiano e ex-socialista Serafino Romualdi. Forçado a fugir da Itália por se opor a Mussolini, Romualdi se estabeleceu em Nova York. Como Lovestone, ele entrou no movimento dos trabalhadores através do Sindicato Internacional das Senhoras do Vestuário, de David Dubinsky, na década de 1930.
Durante a 2ª Guerra Mundial, Romualdi viajou pela América Latina em nome do escritório de Nelson Rockefeller, coordenador de Assuntos Interamericanos. Depois voltou brevemente à Itália como agente do escritório de Serviços Estratégicos - o precursor da CIA -, onde tentou marginalizar a influência dos comunistas no CGIL.

Em 1946, Romualdi se tornou o principal representante da AFL na América Latina e no Caribe. Assim como Irving Brown trabalhou para dividir a FSM, a missão de Romualdi era enfraquecer a Confederação de Trabalhadores da América Latina (CTAL), que havia sido fundada, em 1938, pelo líder sindical mexicano Vicente Lombardo Toledano, para unir o movimento consciente da classe na América Latina.

A CTAL foi uma voz autêntica para o trabalho pan-americano, liderado por sindicalistas latino-americanos e livre do domínio imperial dos EUA. Como a FSM à qual era filiada, reuniu comunistas e não comunistas em torno do objetivo comum em defesa dos trabalhadores. Romualdi e a AFL procuraram minar a CTAL e substituí-la por uma confederação interamericana de trabalhadores liderada pelos EUA, garantindo que a classe trabalhadora latino-americana não se tornasse uma força forte e independente capaz de desafiar o controle dos EUA.

Com o apoio dos partidos socialdemocratas da América Latina e dos adidos sindicais do Departamento de Estado dos EUA, Romualdi conseguiu convencer muitos sindicalistas latino-americanas a se afastarem da CTAL, reunindo os sindicatos anticomunistas da região em 1948, com a criação da Confederação Interamericana de Trabalhadores, três anos depois reconstituída como Organização Regional Interamericana de Trabalhadores (Orit) para servir como o braço regional da ICFTU no Hemisfério Ocidental. Sob a influência de Romualdi, a Orit lutou contra sindicatos esquerdistas, peronistas e católicos em toda a região ao longo da década de 1950, com o resultado de que a classe trabalhadora latino-americana permaneceu dividida.

Após a Revolução Cubana de 1959, Meany, com apoio de seus aliados no establishment da política externa dos EUA rapidamente transformou a América Latina em sua nova prioridade para a “contenção” do comunismo. Infelizmente para ele, a FTUC havia sido fechada recentemente por insistência do presidente do UAW, Walter Reuther, depois que o CIO de Reuther se fundiu com a AFL.

Embora fosse um anticomunista, Reuther acreditava que poderia haver uma coexistência pacífica entre o Oriente e o Ocidente e não desejava aumentar as tensões com a União Soviética. Desprezando Lovestone por sua tentativa de dividir o UAW anos antes, Reuther queria que a AFL-CIO conduzisse sua política externa por meio da ICFTU multilateral, e não pela FTUC de Lovestone. Embora a ICFTU tenha sido formada a pedido da AFL, durante a década de 1950, Meany havia se desencantado com os sindicalistas europeus que a administravam, acreditando que não eram beligerantes o suficiente em seu anticomunismo.

Na esperança de reorientar a Guerra Fria dos trabalhadores na América Latina após a Revolução Cubana, mas não querendo confiar na ICFTU, Meany queria uma organização nova e unilateral nos moldes da agora extinta FTUC. Ele o conseguiria com a criação do Instituto Americano para o Desenvolvimento do Trabalho Livre (AIFLD). O AIFLD se tornaria o instrumento mais importante da AFL-CIO para a Guerra Fria.

A ideia foi proposta pela primeira vez pelo presidente da Communications Workers of America, Joseph Beirne, que teve assento no Conselho Executivo da AFL-CIO. Em 1959, Beirne trouxe 16 sindicalistas afiliados à Orit, da América Latina para a Virgínia, para um treinamento sobre como ser um sindicalista eficaz. Beirne procurou ampliar esse programa e transformá-lo em uma organização permanente, convencendo Meany a apoiar o plano.

Meany, então, convenceu o novo governo Kennedy de que a organização proposta, o AIFLD, serviria como auxiliar perfeito ao trabalho para a Alliance for Progress (Aliança para o Progresso) - uma iniciativa do tipo Plano Marshall para dar ajuda dos EUA aos governos latino-americanos anticomunistas para impedir o surgimento de outra Cuba revolucionária. Como na Europa do pós-guerra, esse trabalho ajudaria novamente o governo dos EUA a cumprir os objetivos da Guerra Fria.

Em 1962, o AIFLD entrou em operação. Quase exclusivamente financiado pela Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), no valor de vários milhões de dólares por ano, o Instituto rapidamente ampliou sua presença em quase todos os países da América Latina, coordenando suas atividades com o aparato da política externa dos EUA.

A principal atividade do AIFLD era a educação sindical, sobretudo treinando participantes sobre como combater a influência de esquerda em seus sindicatos. Os estagiários que fossem considerados com potencial excepcional seriam levados para uma instalação em Front Royal (Virgínia) para um curso de três meses. Era uma espécie de Escola das Américas para sindicalistas. De volta aos seus países, recebiam apoio financeiro para os esforços de organização antiesquerdista.

O Instituto também usou fundos da Usaid para realizar projetos de desenvolvimento em toda a América Latina, incluindo a construção de moradias populares para trabalhadores membros de sindicatos filiados à Orit, sinalizando a eles os benefícios de ingressar no movimento sindical “livre” patrocinado pelos EUA (though the AIFLD often overpromised on how quickly it would complete its housing developments and how many units would be available). Prospective residents were required to fill out long, detailed questionnaires about their unions, information possibly supplied to the CIA.

Para demonstrar o compromisso da AFL-CIO com a colaboração de classe, o AIFLD convidou empresários dos EUA com interesses na América Latina para fazer parte de seu conselho de curadores, incluindo os chefes da Anaconda Company, da Pan-American Airways e da WR Grace & Co., entre outros. Essas empresas não eram estranhas à ação contra os sindicatos, o que tornava a ansiedade da AFL-CIO especialmente perturbadora. O fato de concordarem em fazer parte do AIFLD demonstra como os capitalistas dos EUA não viam ameaça – mas apenas oportunidade – no tipo de sindicalismo que o Instituto estava encorajando.

Romualdi dirigiu o Instituto nos primeiros três anos até sua aposentadoria, quando foi substituído por William Doherty Jr. Doherty, cujo pai havia sido presidente da Associação Nacional de Portadores de Carta e embaixador dos EUA na Jamaica, era um suposto amigo da CIA e atuaria como diretor do AIFLD pelos próximos trinta anos.

No início dos anos 60, o AIFLD ajudou a minar o governo esquerdista democraticamente eleito de Cheddi Jagan na pequena nação sul-americana da Guiana, que era então uma colônia chamada Guiana Britânica. A colônia estava a caminho de uma transição planejada para a independência, e Jagan esperava reorganizar a economia de acordo com as linhas socialistas. Mas o governo Kennedy, temendo que Jagan fosse outro Fidel Castro, pressionou o Reino Unido a impedir a transição até que ele pudesse ser expulso do poder.

No verão de 1962, oito sindicalistas guianenses, de uma federação de direita, vinculados à oposição política a Jagan, participaram de um curso do AIFLD nos Estados Unidos, e voltaram para casa com os subsídios fornecidos pelo Instituto. Na primavera seguinte, eles ajudaram a liderar uma greve geral contra o governo de Jagan. A greve de três meses prejudicou a economia da colônia e se transformou em um tumulto racial, pondo a oposição afro-guiana em luta contra a base indo-guiana de Jagan.

Representatives from two AFL-CIO-affiliated unions — AFSCME and the Retail Clerks — went to British Guiana to aid the strikers by coordinating food relief and replenishing the strike fund, using CIA money secretly channeled through private foundations. What turned out to be one of the longest general strikes in history was sustained by the US imperial state, with help from US union officials, in order to weaken a democratic, progressive government.

Elections were held a year later, with British Guiana still reeling from the strike. Again using secret CIA funds, a representative from the AFL-CIO-affiliated American Newspaper Guild traveled to the colony to saturate the electorate with anti-Jagan propaganda. After the bitter divisions sowed by AIFLD, the AFL-CIO, and CIA, Jagan’s People’s Progressive Party was unable to win a majority of parliamentary seats, losing the election. The British then allowed the transition to independence to move forward. The new leader, Forbes Burnham, soon revealed himself to be a corrupt autocrat, remaining in power until his death twenty years later.

AIFLD also played an important role in the US-backed military coup against Brazil’s left-wing president, João Goulart. Like their fellow travelers in the US government, AFL-CIO leaders believed Goulart was too close to the Brazilian Communist Party and needed to be replaced. In 1963, AIFLD’s training program hosted an all-Brazilian class of thirty-three unionists. Their course included fifty hours’ worth of instruction on how to fight Communist influence in their unions, taught by Lovestone and Romualdi.

When the coup against Goulart was executed on April 1, 1964, the AIFLD graduates helped ensure it went smoothly. While leftist unionists called for a general strike to disrupt the coup, the Institute-trained union officials convinced their fellow workers to ignore these calls and allow the military takeover to proceed unobstructed. The new military regime put allegedly Communist-led unions into trusteeships, sending “intervenors” — some of them AIFLD graduates — to purge these unions of leftists and Goulart sympathizers.

Three months later, Doherty boasted in a radio interview that AIFLD’s Brazilian trainees “became intimately involved in some of the clandestine operations” of the coup. “Many of the trade union leaders — some of whom were actually trained in our institute — were involved in… the overthrow of the Goulart regime,” he said. Doherty also defended a wage freeze that was imposed by the new government, arguing the Brazilian poor would need to “suffer” no less than the rich in the pursuit of national economic growth. The coup regime turned into a nineteen-year dictatorship, imprisoning, torturing, and murdering untold numbers of trade unionists.

O Departamento de Estado e a Usaid ficaram tão satisfeitos com o trabalho do AIFLD que aceitaram a proposta da AFL-CIO de criar institutos semelhantes para a África e a Ásia. Entre o final de 1964 e o início de 1965, foi criado o Centro Afro-Americano de Trabalho e, em 1968, foi lançado o Instituto Americano-Asiático de Trabalho Livre. Como o AIFLD, essas duas organizações sem fins lucrativos foram quase inteiramente financiadas pela Usaid para realizar programas de treinamento e desenvolvimento para apoiar sindicatos anticomunistas e antiesquerda. Em 1977, uma quarta organização sem fins lucrativos – o Instituto de Sindicatos Livres – foi criada para se concentrar na Europa.

Dissidência interna

Na convenção da AFL-CIO de 1965 em São Francisco, Meany apresentou uma resolução, escrita por Lovestone, prometendo o “apoio irrestrito” da federação trabalhista à política do presidente Lyndon Johnson de ampliar a Guerra do Vietnã. Quando a resolução estava prestes a ser votada sem discussão ou debate, um grupo de estudantes universitários que, da sacada, observava os procedimentos, levantou-se e gritou “Saia do Vietnã!” e “Debate!”. Meany respondeu mandando-os embora do salão de convenções, descartando-os como “malucos”. A resolução pró-guerra foi então adotada por unanimidade.

Um punhado de sindicatos independentes, sindicatos locais e sindicalistas já havia expressado ceticismo em relação à guerra, se não à oposição total. Após testemunhar a hostilidade de Meany em relação ao movimento antiguerra e sua falta de vontade de permitir o debate, mais líderes sindicais – especialmente do UAW - começaram a expressar abertamente suas divergências com a política externa da AFL-CIO.

O presidente do UAW opôs-se à escalada militar no Vietnã, querendo ver o fim da guerra através de negociações pacíficas. Além disso, ele não gostava da abordagem agressiva e independente de Meany para questões internacionais, preferindo trabalhar com a ICFTU. Reuther também não confiava em Lovestone, que agora era diretor do Departamento de Assuntos Internacionais da AFL-CIO. Ainda assim, ele estava relutante em divulgar suas divergências, não querendo criar uma brecha entre o UAW e a AFL-CIO.

Em vez disso, Victor Reuther - irmão mais novo de Walter, encarregado das relações internacionais do UAW - falou para a imprensa, em 1966, que Lovestone e a AFL-CIO estavam “envolvidos” com a CIA, e criticou o papel do AIFLD no golpe de 1964 contra João Goulart, no Brasil. No ano seguinte, uma série de matérias jornalísticas ajudou a substanciar a reivindicação de Victor, revelando os laços da CIA com a federação sindical e suas afiliadas, voltando à FTUC. Obviamente, Meany e os outros internacionalistas da AFL-CIO negaram vigorosamente qualquer relacionamento com a CIA.

Juntamente com a postura agressiva de Meany sobre o Vietnã - que incluía tentativas de reforçar a Confederação Anticomunista Vietnamita do Trabalho do Vietnã do Sul -, as revelações sobre a CIA prejudicaram gravemente a credibilidade da AFL-CIO entre liberais e membros da Nova Esquerda. Desentendimentos sobre política externa, bem como várias questões domésticas, finalmente levaram o UAW a se afastar da AFL-CIO em 1968 (retornaria em 1981).

Apesar dessas controvérsias, Meany, Lovestone e AIFLD não alteraram o curso. Quando o socialista Salvador Allende foi eleito presidente do Chile em 1970, eles decidiram ajudar o governo Nixon a desestabilizá-lo. Enquanto a classe trabalhadora chilena apoiava predominantemente a Allende, o AIFLD apoiou associações profissionais de direita e da classe média, junto com o sindicato conservador de trabalhadores marítimos do país. Em 1972, pelo menos 29 chilenos participaram do curso de treinamento do AIFLD na Virgínia (EUA), muito mais do que jamais haviam participado nos anos anteriores.

Com a ajuda do AIFLD, em 1972 e 1973, donos de caminhões e comerciantes em todo o Chile realizaram uma série de greves destinadas a criar um caos econômico e subverter o governo de Allende. Como na Guiana Britânica, nove anos antes, os grevistas receberam apoio da CIA. Os esforços dos EUA para minar Allende culminaram no violento golpe militar de 11 de setembro de 1973. A nova ditadura militar que o AIFLD ajudou a levar ao poder usando táticas tradicionais da classe trabalhadora, como a greve, ironicamente - e tragicamente - atropelou os direitos dos trabalhadores, prendeu e assassinou milhares de sindicalistas chilenos.

Depois que pesquisadores como Ruth Needleman e Fred Hirsch ajudaram a expor o papel do AIFLD no golpe chileno, obtendo documentos, realizando entrevistas e divulgando suas descobertas, os sindicalistas nos EUA começaram a exigir mais transparência em torno do AIFLD em meados dos anos 1970. Vários sindicalistas pediram à AFL-CIO que financie seus programas estrangeiros de forma independente, em vez de confiar na Usaid. Enquanto essas demandas foram ignoradas, Lovestone finalmente se aposentou em 1974, e Meany seguiu seu exemplo após cinco anos.

Depois da aposentadoria de Meany, seu antigo braço direito, Lane Kirkland, se tornou presidente da AFL-CIO. Como seu antecessor, Kirkland era um anticomunista de linha dura. Preparado para ser um diplomata na Escola de Serviços Estrangeiros de Georgetown, era amigo pessoal de Henry Kissinger, passando todo Dia de Ação de Graças com ele.

Sob Kirkland, a AFL-CIO apoiou a política externa agressiva do governo Reagan, destinada a reacender a Guerra Fria, mesmo quando Reagan inaugurou uma nova era antissindical ao demitir 11 mil controladores de voo em 1981. Por insistência da AFL-CIO, Reagan supervisionou a criação da National Endowment for Democracy (NED) em 1983, uma fundação de doação financiada pelo governo para desembolsar dinheiro aos mesmos tipos de organizações anticomunistas no exterior, anteriormente financiadas secretamente pela CIA. Com Kirkland atuando no conselho de diretores da NED, o AIFLD e os outros institutos estrangeiros da AFL-CIO tornaram-se os principais beneficiários de subsídios.

Kirkland apoiou a política de Reagan na América Central de armar forças da repressão em El Salvador e contrarrevolucionários terroristas na Nicarágua. O AIFLD foi especialmente ativo em El Salvador na década de 1980, desempenhando um papel crítico no desenvolvimento e na implantação de um programa de reforma agrária destinado a minar o apoio rural ao movimento revolucionário de esquerda. O governo de contra-insurgência de El Salvador – totalmente apoiado por generosa ajuda militar dos EUA – combinou a reforma agrária com um estado de sítio em que milhares de camponeses foram assassinados brutalmente em uma onda de massacres.

Alarmados com o apoio de Kirkland à política externa de Reagan, os sindicalistas nos EUA se tornaram ativos no movimento de paz e solidariedade à América Central, exigindo a mudança de direção da AFL-CIO. Em um dos desenvolvimentos mais significativos para o internacionalismo sindical nos EUA desde o início da Guerra Fria, os presidentes de vários sindicatos nacionais filiados à AFL-CIO se uniram para formar o Comitê Nacional do Trabalho de Apoio à Democracia e aos Direitos Humanos em El Salvador (NLC).

O NLC se opôs abertamente a Kirkland e ao Conselho Executivo, pressionando o Congresso a cortar a ajuda militar dos EUA ao governo salvadorenho. O NLC também enviou delegações de sindicalistas dos EUA para El Salvador e Nicarágua, a fim de testemunhar em primeira mão como o apoio dos EUA estava ajudando os direitistas a assassinar e intimidar os trabalhadores da América Central. Mais tarde, o NLC evoluiu para uma organização que ajudou a expor a cumplicidade das principais marcas de roupas em violações dos direitos dos trabalhadores na América Central, no Caribe e na Ásia.

Enquanto enfrentava oposição interna ao seu programa na América Central, a AFL-CIO deu apoio financeiro e político ao Solidarność, o sindicato polonês liderado por Lech Wałęsa que acabou ajudando a derrubar o governo comunista na Polônia. Opondo-se a funcionários da política externa que temiam provocar hostilidades com a União Soviética, a ação da AFL-CIO na Polônia tem sido apontada pelos intervencionistas como um estudo de caso da “promoção da democracia”.

Embora Kirkland tenha reivindicado a vitória do sindicalismo “livre” na Polônia na década de 1990, os líderes sindicais associados ao NLC estavam convencidos de que a federação precisava muito para melhorar sua imagem no exterior. Além disso, vários presidentes sindicais no Conselho Executivo da AFL-CIO acreditavam que a federação havia se tornado letárgica diante dos anos de declínio da atividade sindical.

Nesse contexto, o sindicalista John Sweeney reuniu apoio suficiente para forçar Kirkland a se aposentar, e assumiu o controle da AFL-CIO em 1995. Chamando a si mesmos de ardósia da “Nova Voz”, Sweeney e seus aliados pretendiam revitalizar a AFL-CIO, organizando novos trabalhadores e abandonando as prioridades anticomunistas ultrapassadas.

Sob Sweeney, em 1997, o AIFLD e os outros institutos estrangeiros foram encerrados e reorganizados em uma nova ONG chamada Centro Americano de Solidariedade Internacional do Trabalho, ou Centro de Solidariedade, que continua sendo o braço operacional da AFL-CIO no Sul Global.

Solidariedade centralizada

Active in over sixty countries, the Solidarity Center does good work, helping to improve safety standards in the Bangladeshi garment industry, amplifying workers’ voices at the International Labor Organization, and bringing workers from the United State and the Global South together to share stories and strategies.

Mas, como suas predecessoras, o Centro de Solidariedade é financiado principalmente pelo governo dos EUA, particularmente a Usaid, o Departamento de Estado e o NED, conhecido por se intrometer nos processos democráticos de outros países e promover a “mudança de regime” para manter o domínio global dos EUA, incluindo Venezuela, Haiti, Ucrânia e vários países da América Central.
Dada a história da FTUC e do AIFLD, a dependência financeira do Centro de Solidariedade em relação ao governo dos EUA e a associação com a NED devem ser motivos de preocupação no movimento sindical e merecem um exame mais minucioso. But there is virtually no discussion about it within the AFL-CIO.

Isso não é particularmente surpreendente, considerando que a AFL-CIO ainda não reconheceu ou se desculpou formalmente pelo importante papel que desempenhou durante a Guerra Fria na divisão dos sindicatos no exterior, minando as democracias estrangeiras e endossando o militarismo – tudo o que serviu apenas para fortalecer o capital multinacional e enfraquecer o poder dos trabalhadores.

In 2004, the California Labor Federation passed the “Build Unity and Trust Among Workers Worldwide” resolution, which called on the AFL-CIO to “clear the air” by fully accounting for its record of hostile foreign interventions and renouncing its CIA ties. The resolution then headed to the national AFL-CIO convention in Chicago the following year, where it was effectively killed in committee. Since then, there has been no coordinated, sustained attempt to confront the federation’s imperialist history.

In 2006, the ICFTU merged with the traditionally more progressive World Confederation of Labour to form the Brussels-based International Trade Union Confederation (ITUC), of which the AFL-CIO is an affiliate. Meanwhile, the WFTU, now headquartered in Greece, continues to be led by Communists as it has been since the 1949 split. Today’s WFTU routinely accuses the much larger ITUC of being class-collaborationist and pro-imperialist.

While the ITUC is far from being an explicitly radical organization, it frequently levels strong criticisms of the World Bank and IMF, has repeatedly condemned Israel’s occupation of Palestine, and wasted no time in denouncing not only the recent coup in Bolivia, but also Juan Guaidó’s attempted coup in Venezuela and the US assasination of Qassem Soleimani. That the AFL-CIO is a prominent member of such an organization is a positive sign given the history described here.

Whether the trade unions of the world can ever be truly united remains to be seen. But perhaps hope for transnational labor unity lies less in the politics of large bureaucracies like the ITUC and WFTU, and more in the ability of workers to put class solidarity before national allegiance and to take action with our fellow workers, whoever and wherever they may be, for our collective liberation (and, in the context of a planetary ecological crisis, our collective survival).

Discovering the extent to which the AFL-CIO is willing to use its resources and influence to encourage this kind of solidarity-driven consciousness — which would necessitate a thorough reckoning with its own ugly history of assisting US imperialism — will be crucial in determining whether the federation serves any real purpose for the working class.

Sobre o autor

Jeff Schuhrke é doutorando em História na Universidade de Illinois em Chicago. He is a steward and former co-president of the UIC Graduate Employees Organization, AFT Local 6297.

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