30 de dezembro de 2016

New York Times sobre o Iraque e a Rússia: Mídiade referência ou refúgio jornalístico para fontes de inteligência e belicistas

Howard Friel

Common Dreams

Em 17 de maio deste ano, o Frontline da emissora PBS transmitiu um programa intitulado "A História Secreta do ISIS", que descreveu como "a história interna dos radicais que se tornaram os líderes do ISIS".

Como parte complementar, o Frontline também postou uma entrevista com o ex-secretário de Estado norte-americano Colin Powell sobre seu discurso em 5 de fevereiro de 2003, às Nações Unidas, onde apresentou o caso mais autoritário da administração Bush de que o Iraque possuía armas de destruição em massa.

Frontline intitulou a entrevista, "Colin Powell: O discurso na ONU foi uma grande falha de inteligência", e apresentou o Q & A da seguinte forma:

Colin Powell classificou seu discurso de 2003 às Nações Unidas, expondo a justificativa do governo Bush para a guerra no Iraque, como uma "mancha" em sua trajetória. O discurso serviu para detalhar o programa de armas do Iraque, mas como a inteligência confirmaria mais tarde, esse programa era inexistente. 
Mais de 13 anos depois, o discurso continua a assombrar a administração - não apenas pelo que ela errou, mas pelas conseqüências não intencionais que ela pode ter posto em movimento.
Em uma seção, por exemplo, Powell mencionou o nome Abu Musab al-Zarqawi 21 vezes. O objetivo era estabelecer Zarqawi como o elo entre a Al Qaeda eo Iraque. O problema, de acordo com ex-membros da comunidade de inteligência, é que embora Zarqawi tenha viajado uma vez para o Afeganistão na esperança de encontrar-se com Osama bin Laden, ele foi considerado um recruta insuficiente para a Al Qaeda. 
O discurso de Powell na ONU ajudou a elevar o status de Zarqawi, e em poucos meses, ele estava rapidamente ganhando seguidores no Iraque, fomentando a guerra sectária e estabelecendo as bases para a organização que se tornaria ISIS.

Em 6 de fevereiro de 2003, no dia seguinte ao discurso de Powell, o principal editorial do New York Times, intitulado "O caso contra o Iraque", promoveu as declarações de Powell sobre as Armas de Destruição em Massa iraquianas como definitivas, como segue:

O secretário de Estado Colin Powell apresentou ontem às Nações Unidas e à televisão mundial o argumento mais poderoso até hoje de que Saddam Hussein desafia as resoluções do Conselho de Segurança e não tem intenção de revelar ou entregar quaisquer armas não convencionais que ele possa ter. Ao fazê-lo, com a ajuda de fotos de satélites espiões e interceptações de comunicações, Powell colocou diretamente diante do Conselho de Segurança a fatídica questão de como deveria responder. 

Sobre a "evidência" apresentada por Powell, o editorial também afirmou:

A evidência mais convincente do Sr. Powell era os esforços do Iraque para proteger os programas de armas químicas ou biológicas dos inspetores das Nações Unidas. As conversas interceptadas que ele teve com os oficiais da Guarda Republicana, em que eles procuram urgentemente esconder equipamentos ou destruir as comunicações antes das inspeções, ofereceram uma prova evidente de que o Sr. Hussein não só não cooperou com os inspetores, como exige a Resolução 1441, mas tem ativamente procurado frustá-los.

A página editorial do New York Times não tinha fatos em sua posse para apoiar as alegações de Powell, e aparentemente não fez nenhuma tentativa de fundamentar essas alegações. Ao mesmo tempo, dada a irreversibilidade factível de frente para trás do discurso de Powell, as únicas opções eram aceitar as afirmações factuais de Powell com base em inteligência, de valor nominal, ou reter o apoio ao seu mandato essencialmente inconfirmável à ONU.

A equipe editorial do New York Times escolheu não só aceitar as afirmações de Powell, mas também divulgá-las com um toque dramático, com conseqüências desastrosas, com a invasão e ocupação do Iraque e a formação do ISIS.

Quase catorze anos depois, como se nenhuma aliança calamitosa entre relatórios de inteligência opacos e subserviência jornalística jamais tivesse ocorrido, o ritual foi repetido ontem. Desta vez, pela administração Obama, com a publicação do seu relatório sobre a pirataria russa intitulado "Grizzly Steppe - Cyber ​​Activity Maliciosa Russa", e pelo New York Times, que aceitou as afirmações inconfirmáveis ​​do relatório pelo seu valor nominal.

Assim, em 29 de dezembro, sob as manchetes "Obama pune a Rússia por hacking" e "Obama ataca a Rússia pelo hacking nas eleições", David Sanger do New York Times, o principal repórter do New York Times sobre as Armas de Destruição em Massa iraquianas e o principal escritor hoje sobre o hacker russo, escreveu: "O presidente Obama retaliou a Rússia na quinta-feira pelos seus esforços em influenciar a eleição de 2016, expulsando 35 supostos agentes de inteligência russos dos Estados Unidos e impondo sanções aos dois principais serviços de inteligência russos".

Como as alegações do governo Bush sobre as Armas de Destruição em Massa iraquianas, as acusações de que a Rússia "hackeou" as eleições presidenciais de novembro não foram estabelecidas além das fontes de inteligência secretas, que foram tratadas e divulgadas pelo New York Times como impecáveis.

Embora o documento "Grizzly Steppe" seja tão impermeável ao escrutínio público quanto o discurso de Powell na ONU, a resposta de hoje da página editorial do New Yok Times, intitulada "O presidente Obama puniu a Rússia no passado" também apoia as acusações não confirmadas de hackers russos:

Embora seja definitivamente muito tarde, e também pode ser muito pouco, não deve haver dúvidas sobre a exatidão da decisão do presidente Obama para retaliar a Rússia por hackear computadores americanos e tentar influenciar a eleição presidencial de 2016. Teria sido irresponsável ele deixar o cargo no próximo mês e permitir que o presidente Vladimir Putin pensasse que poderia impunemente tentar minar a democracia americana.

Assim como a página editorial do New York Times em fevereiro de 2003 não tinha nenhuma base para concluir que a apresentação de Colin Powell na ONU era "o argumento mais poderoso até agora" de que o Iraque possuía Armas de Destruição em Massa, o New York Times hoje não tem base confiável para concluir que "não deve haver dúvida" que a Rússia hackeou as eleições presidenciais no mês passado ou que o presidente Obama tem qualquer base para "punir a Rússia", que de qualquer forma é um uso jornalístico pouco profissional e jingoístico do principal jornal dos Estados Unidos..

No entanto, reflete o tom belicista e tenor dos establishments liberais políticos e jornalísticos, liderados pelo New York Times, que parece determinado a nos levar para o penhasco mais uma vez em direção à guerra.

A cobertura do Iraque no Times, que propagandeou para uma invasão, contribuiu para a criação do ISIS. E a sua cobertura atroz da Rússia hoje poderia, muito facilmente, nos levar a uma guerra nuclear se as cabeças mais frias não prevaler.

29 de dezembro de 2016

O terrível, horrível, ruim, realmente muito mau ano

John W. Whitehead

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

"O que é passado é prólogo." 
- William Shakespeare, A Tempestade

Que terrível, horrível, não bom, muito mau ano esse tem sido.

Guerras sem fim. Políticas tóxicas. Violência. Fome. Tiroteios da polícia. Ataques em massa. Diminuições econômicas. Circo político. Tragédias sem sentido. Perda. Mágoa. Intolerância. Preconceito. Ódio. Apatia. Mesquinharia. Crueldade. Pobreza. Desumanidade. Ganância.

Aqui está apenas uma pequena amostra do que sofremos em 2016.

Depois de três anos de política cada vez mais tóxica, a oligarquia dominante venceu e "nós o povo" perdemos. A investigação do FBI sobre os e-mails de Hillary terminou com um gemido, em vez de um estrondo. O diretor do FBI, James Comey, declarou o uso por Clinton de um servidor de e-mail privado como descuidado em vez de criminoso. Bernie Sanders provocou um movimento apenas para se transformar em uma líder de torcida para Hillary Clinton. Clinton ganhou o voto popular mas perdeu a eleição. Donald Trump ganhou a Casa Branca enquanto o povo americano perdeu qualquer esperança de acabar com o controle da elite corporativa sobre o governo.

O governo declarou guerra à chamada "falsa notícia" enquanto continuava a vender sua própria marca de propaganda. O presidente Obama calmamente re-aumentou a Lei de Autorização de Defesa Nacional, incluindo uma disposição que estabelece uma agência do governo para supostamente combater a propaganda e desinformação.

Mais pessoas morreram nas mãos da polícia. Alvejamentos de cidadãos desarmados (especialmente afro-americanos) pela polícia reivindicaram mais vidas do que o estimado anteriormente, reforçando preocupações sobre má conduta policial e o uso de força excessiva. A polícia em Baton Rouge disparou contra Alton Sterling. A polícia em St. Paul atirou em Philando Castile durante uma blitz de trânsito. A polícia de Ohio disparou em Tyre King de 13 anos após o menino sacar uma arma de brinquedo. Wisconsin foi paralisada após a irrupção de protestos por causa do alvejamento policial de um fugitivo. A polícia de Oklahoma disparou e matou Terence Crutcher durante uma blitz de trânsito quando as mãos do homem estavam levantadas para cima. A polícia da Carolina do Norte matou Keith Lamont Scott, estimulando duas noites de protestos violentos. A polícia de San Diego matou Alfred Olango depois que ele tirar um dispositivo para fumar do bolso. A polícia de Los Angeles disparou contra Carnell Snell Jr. depois que ele fugiu de um veículo com uma placa de licença de papel.

Perdemos algumas estrelas brilhantes este ano. A morte do juiz da Suprema Corte, Antonin Scalia, deixou o tribunal em um impasse e seu sucessor ganhou. Igressado às fileiras dos notáveis falecidos estão Muhammad Ali, David Bowie, Fidel Castro, Leonard Cohen, Carrie Fisher, John Glenn, Merle Haggard, Harper Lee, George Michael, Prince, Nancy Reagan, Janet Reno, Elie Wiesel e Gene Wilder.

As doenças cobraram mais vidas. O mortal vírus Zika espalhou-se para fora da América Latina e para os EUA.

Os ricos ficaram mais ricos. O vazamento dos Papéis do Panamá tirou a cortina dos esquemas dos ricos para esconder seus fundos em companhias de escudo.

Liberdade de expressão foi tratada com um golpe inesperado após o outro. As atividades da Primeira Emenda foram golpeadas, perfuradas, chutadas, acorrentadas e geralmente amordaçadas em todo o país. As razões para tal censura variaram amplamente desde politicamente correto, preocupações de segurança e intimidação a segurança nacional e crimes de ódio, mas o resultado final permaneceu o mesmo: a erradicação completa do que Benjamin Franklin chamou de "pilar principal de um governo livre".

O debate sobre a igualdade tomou muitas formas. Africano-americanos boicotaram o Oscar por causa da ausência de indicações para as pessoas de cor, enquanto o Departamento do Tesouro anunciou sua decisão de substituir Andrew Jackson por Harriet Tubman na nota de US $ 20. O debate da Carolina do Norte sobre banheiros transgêneros acendeu uma fúria nacional. Enquanto isso, os militares dos EUA abriram suas portas para indivíduos transgêneros. Um Supremo Tribunal unânime afirmou uma lei do Texas que conta todos, não apenas eleitores elegíveis, na determinação de distritos legislativos. O mais alto tribunal do país também confirmou a ação afirmativa, ao declarar uma lei do Texas sobre clínicas de aborto como um fardo desnecessário para as mulheres.

As preocupações ambientais foram minimizadas em favor dos interesses corporativos. A água contaminada de Flint, Michigan foi declarada uma emergência estadual e federal, enquanto milhares protestaram conta a construção do Dakota Access Pipeline e seu impacto sobre as fontes de água.

A tecnologia tornou os americanos vulneráveis ​​a ameaças de espiões do governo, policiais, hackers e falhas de energia. O Departamento de Justiça lutou contra a Apple no tribunal por acesso aos iPhones bloqueados e criptografados de seus clientes. A Microsoft processou o governo dos Estados Unidos por seu acesso aos e-mails e arquivos dos clientes sem seu conhecimento. O Yahoo confirmou que mais de meio bilhão de contas de usuários haviam sido hackeadas. Departamentos policiais em todo o país continuaram a usar dispositivos Stingray para coletar dados de celulares em tempo real, muitas vezes sem um mandado. Um fechamento do sistema por seis horas resultou em centenas de vôos Delta cancelados e milhares de pessoas encalhadas.

A polícia tornou-se ainda mais militarizada e armada. Apesar das preocupações sobre a contínua transformação do governo da polícia local em um exército militar permanente, as agências policiais locais continuaram a adquirir armamento, treinamento e equipamentos adequados para o campo de batalha. Em Dakota do Norte, por exemplo, a polícia foi autorizada a adquirir e usar aviões armados. Da mesma forma, o uso de equipes SWAT para tarefas de policiamento de rotina aumentou o perigo tanto para a polícia como para os cidadãos.

As crianças ficaram feridas. Um gorila silverback ameaçado de extinção de 17 anos foi baleado preventivamente depois que uma criança de 3 anos subiu em seu recinto no jardim zoológico. Na Disney World, um jacaré arrancou um garoto de 2 anos de uma das praias artificiais do resort. Um acidente de ônibus escolar no Tennessee matou cinco crianças. E os oficiais de recursos da polícia tornaram as escolas menos seguras, com os alunos sendo presos, atacados e severamente disciplinados por infrações menores.

Os computadores afirmaram sua superioridade sobre seus homólogos humanos, que são facilmente controlados pelo pão e circo. O programa de inteligência artificial do Google, AlphaGo, derrotou seu oponente humano em um DeepMind Challenge Match. Pokemon Go tomou o mundo como uma tempestade e transformou os usuários em zumbis de entretenimento sem mentes.

O terrorismo assumiu várias formas. Bruxelas foi bloqueada na esteira de ataques terroristas que mataram dezenas e feriram centenas. Um tiroteio entre um atirador e a polícia causou estragos em uma boate gay em Orlando. Terroristas armados com explosivos e armas abriram fogo no aeroporto de Istambul. Um caminhoneiro conduziu contra uma multidão de foliões no Dia da Bastilha na France. Os atos de suspeita de terrorismo tiveram lugar em toda a Alemanha, incluindo ataques com machados, facas e facões. O Japão sofreu um assassinato em massa quando um homem armado com uma faca visou pacientes com deficiência em uma instituição de cuidados. A Síria continuou a ser devastada por ataques com bombas, terrorismo e conflitos internacionais.

A ciência atravessou novas fronteiras. Os médicos anunciaram o nascimento do primeiro bebê saudável de três pais criado com DNA de três pessoas separadas. Elon Musk esboçou seu plano de povoar Marte.

As tragédias abundaram. Um trem de Amtrak descarrilou na Filadélfia. Um comboio de passageiros caiu através de uma barreira em Nova Jersey. Inundações no Texas mataram nove soldados estacionados em Fort Hood. As ondas de calor varreram o sudoeste, alimentando incêndios. Inundações repentinas e fortes chuvas devastaram partes de Maryland e Louisiana.

O estado de babá entrou em overdrive. A Filadélfia deu luz verde a um imposto sobre bebidas açucaradas. A FDA emitiu orientações para instar os fabricantes de alimentos e cadeias de restaurantes para reduzir o uso de sal.

O governo travou uma guerra contra o dinheiro. Não se contentando em fraudar, enganar e golpear e, em geral, defraudar os americanos por meio do desperdício da legislação do barril de carne de porco, esquemas de confisco de ativos e pacotes de estímulo caros, o governo e seus parceiros corporativos no crime surgiram com um novo esquema para não só golpear contribuintes do que é deixado de seus cheques de pagamento, mas também nos fazem pagar a conta. A guerra do governo contra o dinheiro é uma campanha concertada para acabar com contas grandes, como US $ 20, US $ 50, US $ 100 e deslocar os consumidores para um modo digital de comércio que pode ser monitorado, monitorado, sequestrado e confiscado quando conveniente.

O Estado Profundo ergueu sua cabeça feia. Composto de burocratas governamentais não eleitos, corporações, empreiteiros, empurradores-de-papel e apertadores-de-botões que realmente dão as cartas nos bastidores, esse governo dentro do governo é a verdadeira razão pela qual "nós, o povo", não temos controle real sobre os nossos chamados representantes. É cada uma das facetas de um governo que não é mais conveniente à liberdade e está fazendo hora extra para colocar a Constituição sob os pés e tornar a cidadania impotente em face do poder do governo, da corrupção e das táticas abusivas. Estes são os principais jogadores que dirigem o governo sombra. Eles são a face oculta do estado policial americano que continua após o Dia das Eleições.

O complexo industrial militar norte-americano - auxiliado pela administração Obama - armou o mundo enquanto esvaziava seus próprios bolsos. De acordo com o Center for International Policy, o presidente Obama negociou mais negócios de armas do que qualquer administração desde a Segunda Guerra Mundial. Por exemplo, os Estados Unidos concordaram em fornecer a Israel 38 bilhões de dólares em ajuda militar nos próximos dez anos, em troca de Israel se comprometer a comprar armas americanas.

Agora, isso não quer dizer que 2016 não tenha seus pontos altos, também, mas é muito difícil ver a luz no final do túnel agora.

Frequentemente, recebo e-mails de pessoas que me pedem para deixar o país antes do "martelo cair". No entanto, como eu deixo claro em meu livro Battlefield America: The War on the American People, não há lugar no mundo para escapar da injustiça de tiranos, valentões e ditadores mesquinhos. Como Ronald Reagan reconheceu em 1964, "Se nós perdemos a liberdade aqui, não há lugar para escapar. Este é nosso último refúgio na Terra."

Não vamos levar os erros de 2016 para o ano novo com a gente. A eleição acabou. Os oligarcas permanecem no poder. O estado policial está avançando, mais poderoso do que nunca. Todos os sinais apontam para negócios como de costume. O jogo continua a ser manipulado.

A lição para nós no Estado policial americano é simplesmente a seguinte: se houver esperança de liberdade em 2017, cabe a "nós, o povo" engajar-se no ativismo local, de base, que transforma nossas comunidades e nosso governo de baixo para cima.

Vamos começar.

Não haverá partição da Síria

Sharmine Narwani

RT

Os apoiadores do presidente sírio, Bashar al-Assad, celebram nas ruas de Aleppo depois que insurgentes concordaram em retirar-se num cessar-fogo. A retirada ocorre após anos de luta e meses de amargo cerco e bombardeio. (Foto: Omar Sanadiki/Reuters)

O leste de Alepo está libertado e a mudança de regime perdeu seu brilho. Não é nenhuma surpresa que os inimigos da Síria estão prontos para promover o próximo grande objetivo: a partição. Como a maioria das previsões sobre o conflito sírio, dos quais poucos se materializaram, a "partição" da Síria não vai acontecer.

Em fevereiro, quando o leste de Alepo ainda estava abarrotado de militantes aliados da al-Qaeda treinados pelo Ocidente, o presidente sírio, Bashar Assad, foi questionado: "Você acha que pode recuperar o controle sobre todo o território sírio?"

Bem, sim, disse Assad: "Este é um objetivo que estamos buscando alcançar sem qualquer hesitação. Não faz sentido que digamos que vamos desistir de qualquer parte."

Os políticos ocidentais não pretendiam nada disso.

Primeiro foi o secretário de Estado dos Estados Unidos, John Kerry, que informou cautelosamente à Comissão de Relações Exteriores do Senado que a administração Obama poderia ter um Plano B na Síria: "pode ser tarde demais para manter o território da Síria unido se esperarmos muito mais tempo."

Em seguida, James Stavridis, antigo comandante supremo da OTAN e chefe do Comando Europeu dos Estados Unidos, escreveu um artigo para a Foreign Policy intitulado "É hora de considerar seriamente dividir a Síria", onde afirmou: "A Síria como nação é cada vez mais uma ficção".

Então, o diretor da CIA John Brennan se juntou ao refrão: "Se derramou tanto sangue, houve tanta destruição, divisões religiosas, tantas tensões... Não sei se chegarei a ver a criação de um governo central... que tenha a capacidade de governar equitativamente".

Mas agora a derrota pungente dos militantes apoiados pelo Ocidente no leste de Alepo tornou-se o dial na ideia de quebrar a Síria. Neocons frenéticos e intervencionistas liberais estão se empilhando sobre a crítica "partição" - sem nem mesmo um olhar para trás para os seus cinco anos de prognósticos fracassados de "Assad vai cair".

Mas Assad compreende algo que analistas, jornalistas e políticos ocidentais não conseguem entender. Os aliados da Síria nesta guerra - o Irã, o Hezbollah, o Iraque, a Rússia e a China - mantiveram apenas duas linhas estáveis ao longo do conflito:

A primeiro é que Assad só pode ser removido do cargo em uma eleição nacional, por uma maioria síria.

A segunda é que a Síria deve permanecer integra.

A lógica era simples. Mudança de regime, remapeamento de fronteiras, exércitos mercenários sobre procuração, dividir-para-governar ... os velhos truques de hegemons ocidentais precisavam parar na Síria. Caso contrário, eles iriam encontrar agressivamente o caminho para Moscou, Pequim e Teerã.

Em resumo, uma nova ordem mundial precisaria emergir das cinzas do conflito sírio, e para que isso acontecesse, os aliados precisariam derrotar completamente os objetivos da OTAN-CCG e manter a integridade territorial e a soberania do Estado sírio a todo custo.

Uma mudança calculada no equilíbrio de poder

Até 2013, já se poderia prever a formação de uma nova aliança no Oriente Médio focada na segurança para combater a ameaça jihadista que grassa na Síria e no seu bairro. (Ver mapa acima)

Ficou claro, então, que as guerras irregulares travadas por jihadistas e seus poderosos partidários estrangeiros iriam forçar quatro estados - Líbano, Síria, Iraque e Irã - a cooperar militar e politicamente para derrotar grupos terroristas influenciados pelo Wahhabismo em seu meio. Um "arco de segurança" constituiria assim a proteção da integridade territorial destes quatro países e, com ela, uma cosmovisão convergente que prepararia o terreno para uma nova estrutura de segurança no Médio Oriente.

Hoje, o Líbano e o Irã têm fronteiras seguras flanqueando ambos os lados da Síria e do Iraque. Combatentes e conselheiros militares, inteligência, transferências de armas dos quatro Estados estão em jogo, com coordenação crescente e bem sucedida no solo e nos céus.

A Rússia e a China deram cobertura de "grande poder" para este novo desenvolvimento - seja no Conselho de Segurança da ONU ou através de iniciativas militares, financeiras ou diplomáticas. Além disso, galvanizados pela ferocidade da luta contra a Síria, Teerã, Moscou e Pequim avançaram a nova ordem multilateral que buscam - reforçando sua própria segurança regional, aprofundando alianças globais, criando novas e criando instituições políticas, de segurança e financeiras para competir com as dominadas pelo Ocidente.

Como o Arco de Segurança conseguiu derrotar grupos extremistas, seria necessário que três Estados vizinhos críticos gravitassem em direção à participação nesta nova arquitetura de segurança regional - Egito, Turquia e Jordânia - cada uma por razões diferentes.

Mas os novos adeptos seriam atraídos para a zona de segurança principalmente devido à constatação de que um governo central enfraquecido e a fragmentação da Síria voltariam aos seus Estados e criariam as mesmas condições: o caos, a instabilidade, o terrorismo.

Egito: Sob o governo do presidente Abdel Fattah el-Sisi, o Egito se afastou de seus patronos sauditas que, ao lado do Catar e da Turquia, foram grandes patrocinadores do extremismo na Síria e no Iraque. No início deste ano, Sisi começou a girar longe dos tradicionais aliados ocidentais e regionais do Egito e abriu as portas para mais engajamento político, militar e econômico com a Síria, Irã, Rússia e China.

A Dra. Christina Lin, da Universidade SAIS-Johns Hopkins, explica: "Ao contrário de Washington, Sisi vê Assad como um baluarte secular contra o extremismo islâmico no Levante. Se Assad cair, o Líbano e a Jordânia seriam os próximos, e o Egito não quer acabar como a Líbia com a Irmandade e outros islamistas esculpindo o país".

Nos últimos meses, o Egito perseguiu um degelo diplomático com o Irã, a cooperação militar com a Síria, e criticou publicamente a Arábia Saudita. Além disso, Sisi foi convidado a sentar-se na mesa de paz síria pelo Irã e pela Rússia, enquanto no fundo, a China lança planos para um investimento de US $ 60 bilhões em infraestrutura no Egito cheio de dinheiro.

Turquia: Nenhum Estado tem sido um espinho maior para Damasco do que a Turquia - financiador, capacitador e mentor da militância que flui através de sua fronteira meridional para a Síria devastada pela guerra. Mas o conflito sírio paralisou e exauriu a Turquia, por sua vez, desencadeando ataques terroristas em suas cidades, revitalizando seu conflito "curdo", isolando seu imprevisível Presidente Recep Tayyip Erdogan, pressionando sua economia e desencadeando uma ampla disputa política doméstica.

Assim, quando os russos disseram que Erdogan teria uma tentativa de golpe de Estado mal-intencionada neste verão - que os turcos acreditam ser inspirados pelos EUA - a orientação política do presidente turco começou a vacilar, e ele começou a caminhar em direção a uma série de compromissos com o Irã e a Rússia sobre o conflito sírio.

O primeiro grande gesto de Erdogan para Teerã e Moscou foi afastar uma camada de militantes de Aleppo, permitindo que as forças aliadas da Síria enfocassem seu poder militar nos grupos afiliados à Al-Qaeda que permaneciam no enclave oriental. Na sequência da libertação de Aleppo, os turcos, iranianos e russos reuniram-se novamente para definir o seu próximo conjunto de objetivos, incluindo um cessar-fogo nacional - uma medida que marginalizou os aliados ocidentais de Erdogan e realçou o fato de que ninguém realmente precisa dos EUA na mesa de negociações síria.

Jordânia: Em grande parte do conflito sírio, os interesses da Jordânia foram subvertidos por poderosos patronos que transformaram o Reino Hachemita em um centro de operações secretas para forças especiais ocidentais, operadoras de inteligência do GCC e centros de treinamento "rebeldes". Mas nos últimos anos, o rei Abdullah da Jordânia foi forçado a desembaraçar seu país financeiramente amarrado das conseqüências criadas por um enorme influxo de refugiados sírios e um aumento terrível no radicalismo doméstico. Conseqüentemente, a Jordânia tem compartilhado a inteligência com as autoridades sírias para enfraquecer a militância no sul da Síria e efetivamente fechou sua fronteira compartilhada.

O próprio rei tem estado envolvido em alguma diplomacia de ônibus frenético com a Rússia e a China para ganhar investimento e relevância política, de modo que a Jordânia está bem posicionada para acompanhar a liderança de seus vizinhos maiores quando o equilíbrio regional de poder muda decisivamente a favor da Síria.

Os vencedores mapeiam o futuro, não o vencido

A libertação do leste de Alepo dos militantes aliados da al-Qaeda é um ponto de viragem significativo na guerra contra a Síria. Todas as principais áreas de população infra-estrutura que definem de norte-a-sul o lado ocidental país agora estão principalmente nas mãos do governo.

Além disso, a libertação do leste de Aleppo serve como uma plataforma de lançamento importante para cortar o vital corredor Turquia-Mosul, que canalizou lutadores, suprimentos e armas para o ISIS durante anos. As tropas sírias e seus aliados agora poderão mover-se para o leste da cidade até o Eufrates para cortar esta linha de sobrevivência Turquia-ISIS.

Com os centros da Síria ocidentais protegidos e os militantes severamente aleijados no sul, apenas as áreas do nordeste representam um desafio - mas essas são áreas em grande parte ocupadas pelo ISIS, onde as batalhas finais serão travadas para derrotar o grupo terrorista.

Então, o que exatamente os americanos querem dividir - e por quê?

As guerras recentes no Afeganistão, Iraque, Iêmen e Líbia demonstram claramente que uma autoridade central fraca só cria um vácuo político e de segurança que os extremistas se apressam a ocupar. O presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que prefere a regra dos homens fortes e não a instabilidade que prevalece com os conflitos de mudança de regime.

Qualquer divisão da Síria, portanto, beneficiaria principalmente o ISIS e Al-Qaeda - e todas as partes sabem disso.

Os Estados do Arco de Segurança e seus aliados podem erradicar o terrorismo em seu meio. Turquia e os Estados Unidos continuam a ser as principais dificuldades, cada um ainda competindo, contra seus próprios interesses de segurança, para reivindicar porções do território que mantêm algum interesse estratégico.

Curiosamente, esses interesses dividem os dois aliados da OTAN. O "projeto curdo" dos EUA enviou Erdogan a fugir para os iranianos e russos para pedir ajuda. É irônico, de fato, que os esforços longínquos do Ocidente para semear a discórdia entre atores regionais, seitas e etnias possam agora ser revertidos de uma só vez pelo apoio dos EUA ao nacionalismo curdo. Não há nada mais garantido para criar causa comum entre árabes, iranianos e turcos do que a perspectiva unificadora do Estado curdo. Nem mesmo o ISIS faz isso.

Depois da vitória de Alepo, Assad voltou a falar de partição: "Isto é o que Ocidente - com alguns países regionais - esperam... Se você olhar para a sociedade hoje, a sociedade síria está mais unificada do que antes da guerra... Não há nenhuma maneira pela qual os sírios aceitariam isso - estou falando agora sobre a grande maioria dos sírios... Depois de quase seis anos, posso dizer que a maioria dos sírios não aceita nada relacionado com a desintegração - ao contrário, apenas uma Síria."

Ele está certo. Para os mais de 70 por cento dos sírios que vivem em áreas controladas pelo governo, o apetite por mais conflitos é inexistente - e isso é o que partição significaria: conflito. Além disso, não apenas os sírios, mas todo o Arco da Segurança e seus aliados globais estão agora empenhados em proteger-se destruindo o terrorismo que reside nos restantes bolsões do território ocupado. Como Assad - e grande parte da Europa de hoje - eles sabem que você nunca removerá a ameaça de segurança se você não derrotá-los todos e preservar o Estado.

Neste contexto de segurança, a partição está fora de questão. No contexto militar, uma partição forçada exigiria o empenho de tropas mais fortes do que os exércitos da Síria, Irã, Rússia, Iraque, Egito e Hezbollah combinados - e isso não existe. No contexto político, o apetite internacional por uma partição "imposta" é nulo.

Então não, não haverá partição da Síria.

28 de dezembro de 2016

Isolamento dos EUA

Noam Chomsky

Z

Tradução / Em 23 de dezembro de 2016, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a Resolução 2334 por unanimidade, com a abstenção doa EUA. A Resolução reafirmou "que a política e práticas de Israel em estabelecer colonatos na Palestina e outros territórios Árabes ocupados desde 1967 não tem legitimidade legal e constitui uma séria obstrução para para alcançar uma paz justa e compreensiva no médio oriente. Chama novamente Israel, como país ocupante, a cumprir escrupulosamente a Quarta Convenção de Genebra (1949), a rescindir as medidas anteriores e a desistir de tomar qualquer ação que pudesse resultar numa alteração de estatuto legal ou natureza geográfica e afetar materialmente a composição demográfica dos territórios árabes ocupados desde 1967, incluindo Jerusalém, e, em particular, para não transferir parte da população civil para os territórios árabes ocupados."

Reafirmou. Uma palavra com alguma importância.

É importante reconhecer que a Resolução 2334 não tem nada de novo. A citação aqui referida é da Resolução 446, de 12 de março de 1979, reiterada na essência na 2334. A Resolução 446 passou com 12 votos contra zero e abstenção dos EUA, do Reino Unido e da Noruega. A diferença essencial hoje é que os EUA estão sozinhos contra o resto do mundo, e isso é um mundo de diferença. As violações das ordens do Conselho de Segurança da ONU por parte de Israel, e violações da lei internacional, são hoje bastante mais radicais do que em 1979 e estão levantado maior repúdio em boa parte do mundo. Os conteúdos da Resolução 446-2334 devem por isso ser levados mais seriamente. Daí a reação intensa contra a 2334, tanto a cobertura como o comentário; e em Israel e nos EUA, histeria considerável. Estes são indicadores evidentes do isolamento dos EUA no palco mundial. Sob Obama. Com Trump, o isolamento dos EUA irá provavelmente aumentar ainda mais, e de fato, já o fez, ainda antes de assumir a presidência.

A iniciativa de Trump que mais contribuiu para aprofundar o isolamento dos EUA aconteceu a 8 de novembro, quando ele ganhou duas vitórias. A vitória menor foi nos EUA, onde ganhou o colégio eleitoral. A vitória maior foi no Marraquexe - Marrocos, onde cerca de 200 nações estavam reunidas para tentar introduzir algum conteúdo nos acordos de Paris de dezembro de 2015 sobre alterações climáticas, acordos que foram deixados como intenções e não compromissos firmes devido à recusa do Congresso dominado pelo Partido Republicano.

Enquanto os votos eleitorais eram contados a 8 de novembro, a conferência em Marraquexe afastou-se do seu programa substantivo para a questão de saber se era sequer relevante lidar com uma severa ameaça de catástrofe ambiental agora que o país mais poderoso na história se demitiu das suas responsabilidades. Isso, seguramente, foi a maior vitória de Trump em 8 de novembro, um momento realmente importante.  Ele também estabeleceu o isolamento dos EUA no problema mais grave que os seres humanos já enfrentaram em sua curta história na Terra. O mundo coloca as suas esperanças na liderança da China agora que o Líder do Mundo Livre declarou que não só irá se irá retirar dos acordos como, com a eleição de Trump, irá acelerar dramaticamente a corrida para o desastre.

Um espetáculo alucinante, que aconteceu quase sem qualquer comentário.

O fato de que os EUA estão sozinhos em rejeitar o consenso internacional reafirmado pela Resolução 2334, perdendo o Reino Unido sob a liderança de Theresa May, é outro sinal de crescente isolamento dos EUA.

Exatamente porque razão Obama escolheu a abstenção em vez do veto é uma questão em aberto: não temos provas diretas. Mas temos algumas explicações plausíveis. Tinha havido algumas reações de surpresa (e ridículo) após o veto de Obama em fevereiro de 2011 à Resolução da ONU que pedia a implementação da política oficial dos EUA, e ele pode ter sentido que seria demasiado repetir um momento semelhante se quer salvar alguma parte do seu legado entre setores da população com alguma preocupação por direito internacional e direitos humanos. É útil relembrar que entre os Democratas liberais, por oposição ao Congresso, e particularmente entre os jovens, a opinião sobre Israel e Palestina tem evoluído nos últimos anos para a crítica às políticas de Israel, de tal forma que o núcleo de apoio a Israel nos EUA transferiu-se para a extrema-direita, incluindo a base eleitoral evangélica do Partido Republicano. Talvez estes tenham sido os fatores que alteraram a posição de Obama.

A abstenção de 2016 suscitou furor em Israel e no Congresso dos EUA também, incluindo Republicanos e Democratas, com propostas para retirar o financiamento à ONU em retaliação pelo "crime". O primeiro-ministro israelense Netanyahu denunciou Obama pelas suas ações "anti-Israel". O seu gabinete acusou Obama de "manobrar" nos bastidores esta "emboscada" no Conselho de Segurança, produzindo "provas" que dificilmente poderão ser consideradas sequer humorísticas. O oficial israelense de topo acrescentou que a abstenção "revelou a verdadeira face da administração Obama", e que "agora podemos compreender com o que estivemos a lidar nos últimos oito anos".

A realidade é um pouco diferente. De fato, Obama ultrapassou todos os recordes no apoio a Israel, tanto diplomaticamente como financeiramente. A realidade é descrita com precisão pelo especialista do Financial Times no Oriente Médio, David Gardner: "As relações pessoais entre Obama e Netanyahu podem ter sido venenosas, mas ele foi o mais pró-Israel de todos os Presidentes dos EUA: o mais pródigo com ajuda militar e consistentemente utilizando o veto dos EUA no Conselho de Segurança... A eleição de Donald Trump até agora trouxe pouco mais do que tuítes virulentos sobre alguns assuntos geopolíticos. Mas os augúrios são ominosos. Um governo irredentista em Israel e inclinado para a extrema-direita é agora apoiado por uma administração populista e islamofóbica em Washington."

Num comentário interessante e revelador, Netanyahu denunciou a "emboscada" do mundo como prova de "preconceito do velho mundo contra Israel", uma frase reminiscente dos comentários de Donald Rumsfeld sobre a distinção entre a "Velha Europa - Nova Europa", em 2003.

Devemos relembrar que os estados da Velha Europa era os maus, os principais estados europeus, que ousaram respeitar as opiniões da esmagadora maioria das suas populações recusando juntar-se aos EUA no crime do século, a invasão do Iraque. Os estados da Nova Europa eram os bons, que ignoraram uma maioria de opinião ainda maior e obedeceram ao seu dono. O mais digno dos "bons" foi José Maria Aznar, primeiro-ministro de Espanha, que ignorou oposição popular unânime contra a guerra e foi recompensado com a honra de participar no anúncio da invasão em conjunto com Blair e Bush.

Esta demonstração transparente de total desprezo pela democracia,  juntamente com outras ao mesmo tempo, passou praticamente despercebida, compreensivelmente. A tarefa na altura era glorificar Washington pela sua apaixonada dedicação pela democracia, como ilustrado pela "promoção da democracia" no Iraque, que subitamente se tornou a linha do partido após a "única questão relevante" (vai ou não Saddam entregar as armas de destruição maciça?) ter sido respondida no sentido inverso ao desejado.

Netanyahu está a adotar muito da mesma posição. O velho mundo que tem um preconceito contra Israel corresponde a todo o Conselho de Segurança da ONU; mais especificamente, corresponde a qualquer pessoa no mundo com o menor respeito por lei internacional e direitos humanos. Para sorte da extrema-direita israelense, isso exclui o Congresso dos EUA e - publicamente - o presidente-eleito e os seus associados.

O governo israelense está, obviamente, consciente destes desenvolvimentos. Por isso, está ativamente procurando transferir a sua base de apoio para estados autoritários como Singapura, China ou a Índia da direita nacionalista Hindu, que se torna agora um aliado natural com a sua deriva para o ultranacionalismo, políticas internas reacionárias, e ódio ao Islã. As razões pelas quais Israel procura apoio são explicitadas por Mark Heller, principal analista associado em Tel Aviv no Instituto de Estudos de Segurança Nacional. "No longo prazo," explica, "haverá problemas em Israel nas suas relações com a Europa ocidental e os EUA", enquanto que em contraste, os países asiáticos importantes "não apresentam grande interesse na forma como Israel se relaciona com os Palestinos, Áraves, ou quem quer que seja." De forma breve, a China, Índia, Singapura e outros aliados favoritos são menos influenciados pelos tipos de preocupações liberais e humanas que representam uma ameaça crescente para Israel.

As tendências dos países em desenvolvimento merecem alguma atenção. Como notado, os EUA estão tornando-se cada vez mais isolados nos últimos anos, quando sondagens dirigidas pelos EUA - não noticiadas nos EUA mas seguramente conhecidas em Washington - revelaram que a opinião mundial olhava para os EUA como a maior ameaça mundial à paz, ninguém sequer se aproximava. Sob Obama, os EUA estão agora sozinhos na abstenção sobre os colonatos israelenses, contra a unanimidade do Conselho de Segurança da ONU. Com Trump e os seus apoiadores de ambos os partidos no Congresso, os EUA ficarão ainda mais isolados no mundo no apoio aos crimes israelenses. Desde 8 de novembro, os EUA isolaram-se no assunto ainda mais importante de aquecimento global. Se Trump cumpre a sua promessa de quebrar o acordo com o Irã, é provável que os outros participantes persistam, deixando os EUA ainda mais isolados em relação à Europa. Os EUA estão igualmente mais isolados do seu "quintal" da América do Sul do que no passado, e estarão mais isolados se Trump recuar nos passos de normalização das relações com Cuba lançado por Obama, passos tomados para evitar a provável exclusão de todas as organizações do hemisfério por causa do seu assalto continuado a Cuba, em total isolamento internacional.

O mesmo se passa na Ásia, onde mesmo aliados próximos dos EUA (exceto o Japão), mesmo o Reino Unido, se juntam ao Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, com sede na China, e à Parceria Econômica Regional liderada pela China e, neste caso, incluindo o Japão. A Organização de Cooperação de Shanghai (OCS) (chinesa igualmente) incorpora os estados centro-asiáticos, a Sibéria com os seus recursos, a Índia, o Paquistão e, mais cedo ou mais tarde, o Irã e mesmo a Turquia. A OCS tem rejeitado os pedidos dos EUA para obter estatuto de observador e exigiu que os EUA removam todas as suas bases militares da região.

Imediatamente após a eleição de Trump, testemunhamos o espetáculo curioso da Chanceler Angela Merkel a tomar a liderança numa lição a Washington sobre valores liberais e direitos humanos. Entretanto, desde 8 de novembro, o mundo olha para a China como liderança em salvar o mundo da catástrofe mundial, enquanto os EUA, em esplêndido isolamento novamente, se prepara para minar estes esforços.
O isolamento do EUA não está completo, obviamente. Como foi deixado claro na reação de Trump à vitória eleitoral, os EUA apoiam entusiasticamente a extrema-direita na Europa, incluindo elementos neo-fascistas. O retorno da extrema-direita em partes da América do Sul oferece oportunidades de aliança também. E, claro, os EUA mantêm uma aliança sólida com as ditaduras do Golfo e com Israel, que também se separa dos setores mais liberais e democráticos na Europa e se aproxima de regimes autoritários que não estão preocupados com as violações de Israel sobre lei internacional ou ataques ferozes a elementares direitos humanos.

Os últimos desenvolvimentos sugerem a emergência de uma Nova Ordem Mundial, totalmente diferente dos retratos usuais dentro das doutrinas em vigor.

27 de dezembro de 2016

O futuro pertence-lhe, Comandante Fidel

A lista longa e surpreendente do que Cuba tem feito em todo o mundo

por Rémy Herrera

Le Grand Soir

Tradução / Fidel Alejandro Castro Ruz. Moderna figura lendária. Como ele, nenhum outro. Com ele, toda a humanidade, ou quase toda. Desde a noite de 25 de novembro de 2016, milhões, dezenas, sem dúvida centenas de milhões de homens e mulheres mostraram o seu respeito, a sua admiração, pelo líder histórico da revolução cubana. Na ilha certamente, mas mais longe: por todo o mundo.

Na China, onde se sabe os esforços que Cuba desenvolveu para preservar a efêmera unidade de uma frente comum dos países socialistas, antes do cisma sino-soviético; e que Cuba foi a primeira das Nações da América a reconhecer a República Popular, apenas dez anos mais velha. Na Índia, onde, depois de um abraço a Nehru a sua popularidade se tornou imensa. E que dizer de Java, sangrada até ao limite para extrair o vermelho, precisamente após Bandung, depois de ele ter recebido o kriss de amizade das mãos de Sukarno?

O Vietname recorda-se dos milhares de cubanos que se ofereceram como voluntários para lutar com Ho Chi Minh, que tomou a decisão de libertar-se sozinho e fortalecer sua própria revolução, não aceitando senão civis vindos para apoiar o Viet Minh. No Laos, que também foi ajudado por Cuba, enquanto um Bob McNamara "civilizava" a margem esquerda do rio Mekong, derramando napalm, desfolhando florestas com agente laranja. Imperialismo e direitos humanos simultaneamente, que bela façanha! Muito fortes estes "ianques": o revólver na anca, fazem com que se acredite no que querem, fazem desaparecer pelo ar um país e pretendem que se concorde!

No continente africano, cheio de sabedoria e reconhecimento, que Fidel amava tanto, como se ama um antepassado um instante reencontrado no sorriso de seus filhos. Em Banjul, onde as paredes do sistema de saúde estão de pé apenas graças a ele. No mais profundo do Burkina Faso, terra dioula de honra, onde o espírito cubano se junta ao que de novo se invoca, o de Thom'Sank que soprará de novo. Em Asmara, onde retratos de barbudos adornam muitas casas. Cuba levando apoio à Etiópia, reconhecendo à vermelha Eritreia o direito à autodeterminação, ambos eram socialistas. Roda dentada e facão atravessado de Angola, Sol com 12 raios na Namíbia, subi alto, brilhai, um mundo vos contempla. Em todas as memórias, Fidel está lá. Vivo.

Bissau, Bafatá de Cabral, Kasai lumumbista, florestas escuras do Kivu. Tanzânia de Mwalinu, Gana de Osagyefo. África do Sul, "linha de frente" do anti-apartheid, em cada cabeça ele está ao lado de seu amigo, seu irmão, seu camarada, Nelson Mandela. Fidel faz erguer a cabeça, encher o peito, levantar a mão. Duas sílabas e duas outras, um ¡Viva!, dois pontos de exclamação, que tornam mais fortes ou menos sós as crianças errantes das favelas lamacentas de Monróvia ou de Freetown. Estes são dos seus, de uma pequena ilha, que está curando as feridas dos esquecidos. Na primeira linha, sem medo, mas com lágrimas nos olhos, Cuba tão longe. Estes são seus filhos, suas filhas, que ensinam à escória do capitalismo que mesmo constrangidos a sobreviver como animais em amontoados de imundices ou sob covas de cemitério, todos têm direitos, igualdade de direitos, que lhes ensinam a manter-se humanos mesmo em tugúrios de miséria. Fidel. Na sua voz sentia-se a cólera, trovejava a indomável revolta contra este mundo.

E o mundo árabe e muçulmano. Mulheres Kashmiri conhecem esse nome, como o da jovem médica que veio para trazer alívio no sopé das neves do Himalaia, quando Muzaffarabad temeu. Em Argel, ontem a Meca dos revolucionários, enlutada oito longos dias, apenas um menos que em seu país natal. O tempo de uma guerra até à liberdade moudjahidine. Os órfãos foram lá recolhidos. Fidel velou por eles. Todos voltaram bem para os braços de Ben Bella. Eis que com agasalho de raposa-do-deserto, ele também cantou um, dois, três! No Cairo, onde passou para ver o senhor do Suez, Gamal Abdel Nasser. A Palestina trás Cuba no coração. Ambos sabemos o que significa dar quando se tem pouco, tão pouco para si mesmo. A ilha lembra-se: a mão estendida de Yasser Arafat, a entreajuda, quando o tempo se tornou difícil, quando o vulgar veio a faltar depois da queda dos socialismos a leste. Na Síria, onde as encostas do Golã foram defendidas por cubanos em armas que detiveram a marcha do Tsahal para Damasco. Israel também não esquece, mas para melhor prosseguir, infelizmente, como um tirano que impõe um crime a toda a humanidade. Bloqueio. Vergonha para vocês, Estados-infames da América!

Ao Sul, a América que se diz latina, com seu arco caribenho. Ela que se rebelou para que Cuba não fosse a exceção. Ela que lutou e que se levantou. Ela que querem por de novo de joelhos. Mais politizada e lúcida do que noutros lugares, graças às lições de Fidel, ao exemplo de Che e de heróis caídos. Onde por assim dizer, a crueldade dos ricos, a sua violência sem piedade, seu ódio se percebe à vista desarmada, como a luta de classes. A emoção, a paixão, a determinação, estão aqui acima de tudo. À flor da pele. A adesão a Fidel é dita em voz alta, gritada. Colômbia guerrilheira, Guatemala assassinada e Paraguai mártir, Bolívia insubmissa. E Venezuela, mais do que nunca bolivariana, a primeira a tê-lo reconhecido e ao seu exército rebelde, onde nasceu uma irmã, uma hermanita Chavista, nova Caravana da Liberdade. México, que nunca cortou pontes. O Haiti de Toussaint. Tivesse Fidel nascido brasileiro e o hemisfério teria mudado.

Noutros lugares, para além de imagináveis e longínquos horizontes, sua aura, perdura. Até nesses pontos perdidos da Oceânia, Fiji, Salomão, Tonga, fragmentos de terra espalhados pelos limites azulados do planisfério, Kiribati, Vanuatu, Tuvalu e Nauru. Até às terras altas da Papua, silhuetas perturbadoras, pele mais negra que na Guiné, mascarados, osso no nariz e mantidos canibais, assegura o folheto à procura de emoções de subdesenvolvimento garantido, resíduos de outra idade. Até aí foram os cuidados dos sonhos de Fidel. Mas nem sequer suportam vê-lo dar aos mais necessitados do "modelo do mundo" – outro embargo dos ianques em guerra insidiosa contra os seus pobres. Cuba propôs, mas em vão, colocar à disposição suas Brigadas de médicos para agir e tratar nos quarteirões decrépitos do Harlem – mais decrépitos que os coloridos de Havana Velha, diga-se.

Mesmo na Ucrânia, as famílias, os parentes das crianças de Chernobyl têm provas físicas: Cuba recebeu quase 20 mil. Gratuitamente, isso é óbvio, mas mais vale dizê-lo. Mesmo quando o regime ucraniano votou pela manutenção do bloqueio, pelo anticomunismo, assemelhando-se exatamente ao passado quando Barbarossa foi demasiado rápido em ver Kiev cercada. Cuba estendeu sua hospitalidade para as crianças radiadas. Cuidou delas e curou-as. Assim, se comportou a Cuba de Fidel. Não nos seduziria ela? Até ao leste? Até ao norte? Um norte, que depressa fez esquecer um Sven Olof Palme e a honra ficou salva. Este Norte "injusto e cheio de desejos, que se fecha e se enche de ódios", como já escreveu um herói, Martí, ilustre antecessor que inspirou Fidel.

Hoje, as forças mais honestas, progressistas, numerosas, que se unem e agradecem a Fidel pelo que ele deixou: a defesa da humanidade. Os revolucionários do mundo cerram fileiras em torno dele e reafirmam que vão lutar, vão continuar a luta, ombro a ombro. Ao longo dos séculos, raros, muito raros foram os homens de Estado que penetraram nos corações, compreenderam que os povos, únicos capazes de transformar a história, que formaram as consciências, infletiram as ideias, influenciaram assim o curso dos acontecimentos. Robespierre, Lenin ou Mao. Tal é a sua medida. Eis a sua grandeza. Fidel tem esta grandeza. 

E Cuba tão pequena, com seu farol, luz que se propaga para além de todos os mares. Graças a ela, aí partilharam a refeição, a casa, o livro. Quando o Leste a deixou, ainda partilhou. Quando o Ocidente lhe saltou para a garganta, para a estrangular, para matar, ainda partilhou o que restava. Quase nada. Todos conheceram a fome, mas ninguém morreu. Partilhou-se a dignidade, a serenidade dos justos, o sofrimento do que faltava. O orgulho de resistir. Provar a todos que é possível resistir. A quase tudo. Fidel: "era preciso forjar a promessa de resistir, de lutar e vencer, mesmo que tivéssemos que nos achar sozinhos. Não podemos render-nos. Isso não seria digno da história deste país e dos nossos antepassados. É uma luta, e na luta, o essencial é o povo, que surpreende a todos pelas suas virtudes. Estávamos abertos a todas as possibilidades, à exceção de renunciar ao socialismo, à unidade, para o poder do povo, às conquistas da Revolução, à exceção de aceitar que outros fossem os senhores do nosso destino. Nós tínhamos feito a nossa escolha desde há muito: socialismo ou morte! "

A Cuba de Fidel manteve o fogo vivo. Dez anos, sozinha, como se fosse grande. Cuba iluminou a noite, a noite da reação, tal um Outubro Vermelho. Até que outros venham para assumir a tocha, indiozinhos, mulatinhos, todos Bolivarianos. Fidel esteve à altura do seu povo. Da sua lealdade, da sua honestidade, da sua generosidade. A combatividade do povo cubano, que mais tempo que qualquer outro, talvez mais que qualquer outro, apoiou incansável, inabalável, a sua revolução, a essa geração de exceção, nascida da guerrilha, inflexível e íntegra, que acompanhou o seu Comandante em chefe durante seis décadas. Líder máximo, que teve tanto poder. Ele próprio se inquietava de tanto poder. Ele não o procurou, ele não o arrancou. Todos vieram a ele, Holguín, Santiago, Santa Clara, Camagüey, Praça da Revolução, para lho entregar, para lho confiar sobretudo para o exercer. Porque era ele. Incomparável, incontestável.

Até mesmo os Santos o protegeram no sincretismo mestiço, santeira Ocha religião Yoruba, Palo Monte regra Conga, Abakua e Arará. Obbatala Santísimo, Mbumba da caridade, Changó Santa Bárbara, Yoasi e Yemaya, eles também fizeram a travessia dos deportados, quase um milhão, choramo-los tão pouco, desde os pontões da Costa dos Dentes, do Golfo do Benin, do Biafra, Lobango, Cabinda, Mayumba, Moçambique. Elugo, Fanti, Ganga, Yolof ou Mani, eles vieram de lá. Esqueceremos os de Cantão e do delta das Pérolas, levados acorrentados em barcos? Reis e papas puderam ver isto. Um povo exigiu Martí e Marx reunidos. Era Fidel que faltava. Sem os seus impulsos, os dois entrelaçados por laços tão íntimos, devoções recíprocas, onde estaria esta bela revolução? Aqueles que tratam Fidel, conhecendo a ilha, de "ditador brutal e cruel", sedento de sangue, sabem que mentem, mentem a eles mesmos, como são hipócritas. Assim como procuram enganar-nos.

O insulto não vai servir de nada, a calúnia não atinge. Fidel escolheu o campo dos oprimidos, o de atos consequentes, coerentes e corajosos, constantemente ao lado dos humildes, da ralé, para ter esperança e acreditar nos seres humanos. Ouçamos Neruda: "suas palavras em ação, suas ações que cantam". Ele nacionalizou a terra e distribuiu-a. Esta Reforma Agraria, Benny celebrou-a. Guajiros, deixemos falar o poeta, Guillén: " ele levantou a gleba, até ao mirto e ao loureiro". Depois socializou os meios de produção, ferramentas industriais, refinarias de petróleo, finalmente, colocou-os nas mãos da força de trabalho. Colocou a banca sob o controlo do Estado. E o Estado sob o controlo do Partido. E o próprio Partido ao serviço de ideais: para o povo, saúde, educação, luz e segurança, tudo gratuitamente. Pôs fim à segregação, ao sexismo, ao crime organizado, num país ossificado desde há longa data, abusado, quatro séculos de escravidão, Prostituído por mais de seis décadas por gringos gananciosos, ávidos, que o tinham corrompido, Chicago dos trópicos. Fidel aos ricos ensinou boas maneiras, eles que não tinham cura. Às suas convivências tão más também ensinou a comportarem-se, a viver em sociedade. Ou então a partir. Eles puseram-se a andar, livrando o solo de todos os seus exploradores. Foi para isto que Fidel foi feito. Para a nossa Cuba, Cuba Socialista, pátria universal.

Os seus críticos, os donos da Bolsa, deram-se conta, aritmética elementar, que nós somos muitos, esmagadores, maciços, a verdadeira maioria, a dos povos. Cuba ama Fidel e muito profundamente. E o mundo com ela, quer isto agrade ou não. De que temos nós medo? Será tão difícil dizer o que se é? De que teríamos vergonha, de amar tanto os nossos heróis? A humanidade chega para o socorro. Toda a humanidade. Ou quase, dizemos. Os outros, no seu íntimo, não ignoram que este mundo precisa mudar muito, necessariamente, se se marchar para um melhor e não para o caos, então sim, por certo, que o todo o futuro por inteiro lhe pertence. Comandante Fidel, o futuro é vosso!

A nova Guerra (Fria?) com a China

Alan Nasser

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Washington recentemente deu início a grandes exercícios militares nas proximidades e regiões fronteiriças da Rússia e da China, sendo estas as maiores manobras bélicas já vistas desde o fim da Segunda Guerra Mundial. As velhas jogadas da Guerra Fria foram incrementadas, e o perigo de um confronto militar entre Washington e Rússia e/ou China paira no ar. (Veja minha análise abrangente em “How Clinton Could Make a War”, na revista CounterPunch, volume 23, número 5). Uma autoridade do porte do general Joseph Dunford, do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos, presidente do Estado-Maior Conjunto, afirmou que a promessa de Hillary Clinton de implementar uma zona de exclusão aérea sobre a Síria causaria uma guerra com a Rússia. Alguns afirmam que a relutância de Trump em implementar a tal zona é o único aspecto positivo de sua futura presidência. Contudo, comentadores notórios argumentam que a guerra com a China é outra possibilidade, igualmente horrível. (John Pilger, “The Coming War on China”, CounterPunch, 2 de dezembro de 2016).

Os comentários de Stephen Kinzer sobre política externa se destacam em meio a tudo o que se lê na grande imprensa. Kinzer foi correspondente sênior internacional do New York Times por mais de 20 anos. Seu livro “Todos os homens do xá: O golpe norte-americano no Irã e as raízes do terror no Oriente Médio” é uma análise de primeira qualidade do que é proposto no título, e o seu “Overthrow: America’s Century of Regime Change From Hawaii to Iraq” (“Derrubada: o século americano das mudanças de regime, do Havaí ao Iraque”) detalha algumas das principais intervenções internacionais norte-americanas e expõe suas origens corporativas. Kinzer não é um defensor de Washington. Ele também alerta para as provocações de Washington à China. Mas suas observações revelam algumas das maiores fraquezas que podem ser encontradas no pensamento dos principais comentadores liberais, mesmo os mais à esquerda. (Stephen Kinzer, “China is a Psychological Problem”, The Boston Globe, 5 de dezembro de 2016).

Os Estados Unidos e a China têm as mesmas ambições globais?

Kinzer indica, corretamente, que o crescimento econômico e militar da China eventualmente se tornará um problema para Washington, que se gaba hoje de ser a única superpotência mundial. Kinzer nos lembra que: “Pela primeira vez desde que nos tornamos uma potência global, encaramos um rival com (...) uma economia maior do que a nossa. (...) A parcela chinesa do poderio global provavelmente continuará a crescer, enquanto a nossa diminui. (...) Tanto nossa doutrina quanto nosso hábito de comandar nos dizem que precisamos impor limites a eles. Esta é a receita para um conflito”. Contudo, de acordo com Kinzer, o que leva ao conflito não é apenas o “hábito de comandar” de Washington, isto é, sua insistência na predominância global, aquilo que a elite costuma chamar de “Full Spectrum Dominance” (“Domínio sobre todo o Espectro”, em português). Igualmente perigosa, afirma ele, é a possibilidade de que a China, à medida que cresce em poder e influência, passe a imitar as ambições imperiais do Tio Sam. Esta é uma premissa central no pensamento de Kinzer. Eis o raciocínio: “Os Estados Unidos começaram a crescer quando garantiram um império continental, tornaram-se um império ultramarino quando passaram a subjugar pequenas nações insulares e, em seguida, passaram a projetar seu poder sobre todo o mundo. A China pode seguir o mesmo caminho (...) [A China] pode escrever uma história parecida com a nossa e usar as ilhas em sua dependência como um trampolim para o poderio global”.

Kinzer parece pensar que dois fatores ameaçam colocar a China no caminho do imperialismo: o comportamento histórico dos Estados Unidos e o simples fato de seu gigantismo econômico. Foram as aspirações americanas pela hegemonia econômica global e, finalmente, a conquista dessas aspirações, que levaram o país a governar o mundo. Já que a China eventualmente superará os Estados Unidos economicamente, ela também, segundo Kinzer, pode buscar a dominação mundial.

O artigo de Kinzer contém as sementes da destruição de seu próprio posicionamento. Ele escreve que “se continuarmos a insistir em policiar o Extremo Oriente”, seremos levados a confrontos com a China. Não se trata, fundamentalmente, de poderio econômico ou militar. Trata-se do desejo de Washington de ser a força predominante em toda área estrategicamente importante do globo, isto é, em todo o mundo. A China não policia a América do Norte, e sua liderança não aspira a dominar o mundo. Mas o desejo de Washington por uma expansão infinita é antiquíssimo. A história dos Estados Unidos, desde o início, ilustra a declaração de George Washington, que caracterizou a república como um “império em expansão”. A expansão rumo ao Oeste não parou nem sequer no oceano, como podem se lembrar os havaianos e filipinos. A história da China é diferente. Em “Sobre a China”, Henry Kissinger observou que a China nunca buscaria e não busca obter colônias (isto é, controle sobre território não contíguo e de cultura estrangeira). A inferência de Kinzer sobre como o imperialismo histórico de Washington pode servir de modelo a uma futura política global chinesa é um non sequitur.

Estas observações históricas são necessárias, mas não suficientes, quando se trata de avaliar de maneira realista os perigos de uma guerra com a China. É necesário, além disso, familiarizar-se com a posição recentemente revisada dos decisores políticos americanos quanto à possibilidade de uma guerra nuclear, assim como com sua adoção de uma nova postura em relação à China. Vamos analisar as atuais provocações militares de Washington à China, em relação às fantasias de onipotência militar dos decisores políticos norte-americanos, recentemente amplificadas. Estas são as circunstâncias e ambições que dão vida à visão de mundo e às possíveis recomendações políticas dos principais conselheiros de Trump. Elas demonstram uma pré-disposição à guerra. Pior ainda, sinalizam a volta da convicção de que uma guerra nuclear é uma possibilidade.

A presença de Washington na Ásia e as provocações à China

Pouco após a posse de Obama, Washington enviou o USNS Impeccable e o USNS Victorious, embarcações de patrulhamento da Marinha dos Estados Unidos, à ZEE chinesa (zona econômica exclusiva). Este foi o início de uma série de crescentes provocações. Os chineses responderam de forma racional, instalando mísseis defensivos ao redor da zona.

O New York Times relatou a mais recente aplicação da estratégia dos Estados Unidos em uma notícia chamada “U.S. Carriers Sail in Western Pacific, Hoping China Takes Notice” (“Porta-aviões americanos navegam pelo oeste do Pacífico, esperando que a China os note”). Em meados de junho, Washington empregou dois grupos de porta-aviões americanos, liderados pelo USS John Stennis e pelo USS Ronald Reagan, em atividades conjuntas no Mar das Filipinas. 12.000 marinheiros, 140 aeronaves e seis pequenos encouraçados conduziram operações de patrulhamento conjuntas. Esta foi a mais recente de uma série de incitações.

Nos dez dias que antecederam o exercício acima, Stennis e Reagan conduziram manobras conjuntas, no Mar da China Meridional, com as marinhas do Japão e da Índia, após despachar quatro Growlers da marinha americana, aviões de guerra eletrônica e 120 homens para a Base Aérea de Clark, nas Filipinas. No ano passado, os Estados Unidos conduziram quatro patrulhas em prol da “liberdade de navegação”, a mais recente delas em outubro, desafiando as reivindicações territoriais da China sobre o Mar da China Meridional. No entanto, as reivindicações da China estão dentro das fronteiras tradicionalmente estimadas como delimitadoras das águas nacionais de um país. A Convenção das Nações Unidas sobre a Lei Marítima não oferece coordenadas geográficas precisas especificando até onde vai o território marítimo chinês. Na verdade, estas mesmas águas são atualmente disputadas por vários países, incluindo Brunei, China, Malásia, Indonésia, Filipinas, Vietnã e Taiwan (que não é propriamente um país, de acordo com a política americana atual da “China única”, embora Trump tenha outra opinião sobre o assunto). Tendo em vista que nenhum dos países que reivindicam tais águas tem sofrido tanta hostilidade por parte dos Estados Unidos quanto a China, sua reivindicação é defensável. A instalação de sistemas anti-mísseis chineses em sete das Ilhas Nansha é totalmente razoável, se levarmos em conta tais circunstâncias. Washington certamente tomaria medidas semelhantes se a China estivesse conduzindo exercícios militares próximos à costa da Califórnia.

Mas os tambores de guerra ressoam em Washington, em resposta às medidas defensivas chinesas. John McCain, presidente do Comitê das Forças Armadas do Senado, exigiu que os Estados Unidos atue militarmente contra a China. As medidas defensivas chinesas “permitem que suas Forças Armadas projetem seu poder e exerçam controle sobre uma das mais importantes vias aquáticas internacionais. Isto é inaceitável”, afirmou McCain. Greg Poling, diretor da Asia Maritime Transparency Initiative (“Iniciativa pela Transparência Marítima na Ásia”), do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais, afirmou: “Isto é militarização. Os chineses podem argumentar que as medidas têm propósitos unicamente defensivos, mas se você está construindo uma arma anti-aérea gigantesca e sistemas CIWS, isto significa que você está se preparando para futuros conflitos”. É claro que sim. Poling não menciona em lugar algum as operações extensivas de Washington no Mar da China Meridional. Geng Shuang, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, respondeu que “não entendeu” as acusações de Poling: “Se a China constrói instalações normais e despacha para suas próprias ilhas forças defensivas territoriais, na quantidade necessária, isto é considerado militarização. O que são então as frotas americanas no Mar da China Meridional?”

O argumento final de Washington é o de que as reivindicações insulares da China e a instalação de equipamento anti-mísseis ameaçam a “liberdade de navegação”. Mas que objetivos estratégicos levariam a China a restringir a navegação nesta rota comercial tão essencial? Uma das principais estratégias geopolíticas do país consiste em construir alianças regionais com parceiros locais, e todos eles têm interesse em acessar tais águas. A restrição do acesso a navios estrangeiros não faria nenhum sentido. A possível restrição do acesso estadunidense, tendo em vista as atuais provocações americanas na região, é outra história.

A enorme ignorância de Trump gera ofensas intermináveis, e talvez involuntárias, à China. Um de seus tweets recentes afirma que a “China roubou da Marinha dos Estados Unidos, em águas internacionais, um drone de pesquisa – simplesmente tirou-o da água e levou para o continente, em um ato sem precedentes”. Na verdade, os chineses e o Pentágono já haviam “chegado a um entendimento mútuo (...) por meio do contato direto”, conforme declaração emitida pelo próprio Pentágono. Uma embarcação chinesa detectou um dispositivo desconhecido em suas águas e tomou medidas, a fim de evitar possíveis riscos a navios que transitassem pelo local. Assim que o objeto foi identificado como propriedade norte-americana, o governo chinês comunicou a Washington sua intenção de devolvê-lo. Trump provavelmente não sabia de nada disso. Ele não sabe de muita coisa. E é esta a questão. No passado, os instigadores de guerras normalmente sabiam o que estavam fazendo. A ignorância sobre os fatos dificilmente deu início a um conflito importante. Agora, as coisas são diferentes.

Uma regra do imperialismo: sempre provoque junto de seus aliados

Os insultos de Washington seguem sempre uma regra familiar do imperialismo: reúna tantos aliados quanto possível, a fim de aumentar a credibilidade de suas acusações. Nos últimos dois anos, Washington recrutou importantes potências na região da Ásia e do Pacífico, e em março e abril deu início a uma rápida escalada em suas ameaças militares. Japão e Austrália, bem como outros aliados americanos, como Singapura, Vietnã, Malásia, Filipinas e Indonésia, deram início a operações hostis contra a China. A maior parte destes países foi encorajada por Washington a desenvolver seu poderio naval, aumentando desta forma seus gastos militares. Apenas em 2015, as Filipinas aumentaram seus gastos militares em mais de 25%; a Tailândia, o Vietnã, Singapura e a Malásia, entre 5 e 16%.

Querelas antigas e geopoliticamente insignificantes sobre a posse de arrecifes e ilhotas foram mobilizadas, em defesa dessas provocações. O Vietnã fortificou secretamente, nos últimos meses, várias de suas ilhas do arquipélago de Spratly, no Mar da China Meridional, posicionando ali lançadores de mísseis móveis de longo alcance. Apenas poucos dias seriam necessários para colocá-los em operação, com a capacidade de atingir ilhotas pertencentes à China. A medida de Hanói certamente acelerará a corrida armamentista que já está em curso e aumentará o risco de que um incidente ou provocação leve a um conflito militar. O perigo aumentou às vésperas de uma decisão do Tribunal Permanente de Arbitragem em Haia, em favor do processo aberto pelas Filipinas e apoiado pelos Estados Unidos, que desafiava as reivindicações territoriais chinesas no Mar da China Meridional.

Uma reportagem recente da Reuters revelou que o Vietnã enviou seus lançadores de mísseis às ilhas Spratly e os escondeu do monitoramento aéreo. Os lançadores são parte do sistema de artilharia vietnamita EXTRA, comprado recentemente de Israel. O sistema usa drones de direcionamento, é altamente preciso quando opera dentro de um raio de 150 km e pode disparar cargas de 150 quilogramas sobre navios e alvos terrestres. As instalações chinesas em Subi, Fiery Cross e no arrecife de Mischief estão dentro do raio de alcance dos mísseis vietnamitas.

O Almirante Henry Harris, comandante das Forças do Pacífico dos EUA, assim como o Pentágono, vê a Austrália como o ponto essencial ao sul para o “reequilíbrio” da Ásia. Dentro dos próximos três anos, 60 porcento das forças aéreas e navais dos Estados Unidos serão destinadas às regiões dos oceanos Índico e Pacífico. Este mês, Harris assinou um acordo com o exército australiano para expandir a presença militar de Washington no país, em 2017, com caças F-22 Raptor. Ele também compartilhou do entusiasmo de Trump quando este propôs a expansão da Marinha, com a aquisição de 350 novos encouraçados, quase todos alocados no Pacífico.

Donald Trump herdará de Obama esta caixa de pólvora. As atuais circunstâncias são um convite para deixar as ameaças de lado e partir para a ação. Compondo o perigo está a mania de confrontação exibida pelo principal ator do Pentágono no Pacífico.

Recentemente, o Almirante Harris tem exigido ainda mais agressão americana dentro da zona de exclusão de 12 milhas ao redor do território chinês. De acordo com o Navy Times, o comandante “quer acessar a área e conduzir operações militares”, o que incluiria a mobilização de aeronaves e sistemas de armamento. “Estaremos prontos para o confronto, quando for necessário”. A administração Obama reluta em ir tão longe, mas Trump, que já fez inúmeras ameaças contra a China, está mais em sintonia com essas recomendações agressivas.

O Navy Times alertou que, tendo em vista os eventos recentes, “algum tipo de confronto parece cada vez mais provável”.

Os oficiais chineses estão de acordo. Um especialista em estratégia militar associado ao Exército de Libertação Popular afirma que “a China provavelmente revidará se os EUA chegarem a 12 milhas de distância das ilhas [Nansha]”. Outra autoridade militar da Universidade de Nanquim informou Washington de que “as provocações dos EUA aumentaram em muito a chance de um confronto militar entre Pequim e Washington”. E o jornal estatal Global Times avisa que “a China espera que as disputas possam ser resolvidas diplomaticamente, mas deve estar preparada para qualquer confronto militar”.

Isto não impediu os EUA de desenvolver detalhados planos de guerra contra a China. O Mitchell Institute for Aerospace Studies (“Instituto Mitchell para Estudos do Espaço Aéreo”, em inglês) relatou que oficiais da Aeronáutica estão preparando os planos mais detalhados já vistos para o uso do F-35, o mais moderno caça existente, em circunstâncias de guerra total contra a China. Estaria nosso próximo presidente entusiasmado diante dessa perspectiva? Think tanks destacados têm endossado a posição de Trump.

O novo e aprimorado militarismo dos decisores políticos

No ano passado, o Conselho de Relações Exteriores, o principal think tank de política externa dos EUA, publicou um estudo intitulado “Revising U.S. Grand Strategy Toward China” (“Revendo a principal estratégia dos EUA em relação à China”). A conclusão é que os antagonismos estão crescendo entre aqueles que o Conselho considera os dois mais poderosos países do mundo, e estas tensões exigem um aumento da politica de confrontação de Washington. As hostilidades têm como base a relutância da China em aceitar aspectos fundamentais da política externa dos EUA, identificadas pelo Conselho da seguinte forma: “A preservação da primazia dos EUA no sistema global deve continuar sendo o objetivo central da estratégia americana no século XXI”. A “ameaça” aos interesses nacionais dos EUA consiste na recusa da China em se submeter às demandas americanas de que não exerça influência predominante em sua própria região! O que mais incomoda as elites, segundo o Conselho, é o “desafio representado pela China à primazia dos EUA na Ásia”. Este é apenas um dos horríveis corolários do que costumava ser chamado de “Full Spectrum Dominance”, mas que hoje se denomina apenas “predominância” ou “primazia” global. Sob a presidência de Trump, isto se torna uma receita para a guerra.

A Corporação RAND também está planejando guerras com a China em um estudo encomendado pelo Exército dos EUA, intitulado “War with China: Thinking Through the Unthinkable” (“Guerra com a China: pensando o impensável”). A frase “pensando o impensável” foi cunhada em 1960 pelo principal estrategista da RAND após a Segunda Guerra Mundial, que serviu de inspiração para o Dr. Fantástico de Stanley Kubrick. Trata-se de Herman Kahn, cujo livro “On Thermonuclear War” (“Sobre a Guerra Termonuclear”) promovia uma estratégia para a vitória americana em uma possível guerra nuclear contra a União Soviética. O estudo torna claro que uma guerra com a China não está, de modo algum, fora de questão, mas salienta que à medida que o tempo passar a vantagem nuclear de Washington diminuirá. A ideia claramente enunciada é a de que quanto mais cedo, melhor.

Observe que a lógica da RAND anula o consolo que Kinzer nos oferece: “Nenhuma guerra ocorrerá tão cedo. As forças chinesas são muito inferiores às dos Estados Unidos. O país está comprometido em aumentá-las a longo prazo, o que pode incrementar substancialmente seu poder ofensivo, se não nos atentarmos”. Mas, de acordo com a sabedoria da RAND, a relativa fraqueza atual das forças chinesas é uma razão a mais para atacar o país neste momento, antes que ele seja capaz de revidar.

A RAND antecipa que a ação militar contra a China fomentará um novo movimento antiguerra, o que exigirá a aplicação do “sistema de controle civil” para a supressão em larga escala de manifestações. Trump, que é a favor de retaliações e propício à repressão, não deve ser averso a esta perspectiva.

Como se estivesse abrindo espaço para o próximo comandante-em-chefe, a administração Obama deu início a um grande programa de “modernização” de armas nucleares. O Instituto de Pesquisa pela Paz Internacional de Estocolmo comenta que “o ambicioso plano de modernização americano proposto pela administração Obama está em chocante contraste com o compromisso assumido pelo Presidente Barack Obama de reduzir o número de armas nucleares e o papel por elas desempenhado na estratégia de segurança nacional americana”. O Instituto de Estocolmo está chocado; chocado por outra mentira de Obama, outra onda de crescente militarização nos Estados Unidos.

Diante de tais fatos, apenas os que não querem não veem que é um homem com ilusões grandiloquentes de onipotência brutal que chega ao poder, colocando possivelmente outra crise histórica na agenda mundial.

A noção central de que se deve sustentar a credibilidade dos desejos de Washington de que os EUA continue sendo a única superpotência global é central ao novo militarismo e ao retorno da opção de uma guerra nuclear. O atual pensamento da elite é o de que o único modo garantido de convencer os que resistem à hegemonia global americana é a punição. E a única ameaça válida, supõe-se, é a de um ataque nuclear. Daí vem o enorme programa de atualização da tecnologia nuclear, de muitos bilhões de dólares, iniciado pela administração Obama.

Não encontrei qualquer menção à escalada militar de Obama nas reportagens sobre os recentes tweets de Trump, que clamam por uma expansão da capacidade nuclear dos EUA. Trump é, de fato, mais perigoso do que Obama, no que diz respeito à possibilidade de criar novas guerras. Mas não muito mais perigoso.

Os decisores políticos percebem o declínio do dinamismo econômico e do poder global dos EUA como algo que só pode ser revertido militarmente: sua incapacidade de ganhar as várias guerras em que se envolveu, seu declínio como grande exportador, sua inabilidade em reproduzir as taxas de crescimento econômico de que desfrutou na Era de Ouro da hegemonia econômica americana, a crescente desconfiança ou ódio que o país desperta no mundo todo, a falta de prestígio do sistema político entre os cidadãos americanos. A guerra pode ser entendida pela equipe de Trump como a única forma de “nos reaproximar” e “tornar a América grande de novo”.

A incapacidade dos EUA de recuperar sua antiga glória por meios econômicos não é apenas a convicção de seus antagonistas internacionais, mas também é lamentada por alguns dos mais distintos economistas americanos. Lawrence Summers e Paul Krugman preveem um futuro de “estagnação secular”, e nosso mais distinto estudioso do crescimento econômico e da inovação tecnológica, Robert J. Gordon, recemente descreveu, em seu “The Rise and Fall of American Growth” (“Ascensão e Queda do Crescimento Americano”), a falta de alternativas para o desenvolvimento de novas iniciativas que sustentem taxas de crescimento econômico constantes e prósperas. Todos concordam que o resultado inevitável é o crescimento da desigualdade e a diminuição da qualidade de vida. Além disso, a ordem mundial dominada pelos EUA está sob ameaça. E a elite não pode deixar de reparar que o fenômeno Sanders e Trump indica uma desilusão das massas com os sistemas econômico e político, o que alguns chamam de “crise de legitimidade”.

Sob tais condições político-econômicas, o recurso à guerra não é inédito.

Não devemos caracterizar as apreensões das elites como “paranóia”. Isto significaria um medo irracional, mas os ricos e poderosos temem algo real. As premonições são racionais. Vamos analisar mais a fundo as apreensões das elites e a sua renovada disposição a “pensar o impensável”.

A fragilidade da “Ordem Liberal Internacional” e o desafio chinês/russo

As atuais escaladas militares de Washington contra a Rússia e a China se refletem nas recentes exortações da elite para reviver os confrontos militares da Guerra Fria. Em uma edição recente da Foreign Affairs, John J. Mearsheimer e Stephen M. Walt afirmam: “Há regiões fora do hemisfério ocidental cuja defesa vale o sangue e o tesouro americano (...) Na Europa e no Nordeste da Ásia, a principal preocupação é com a possível ascensão de uma potência hegemônica que dominaria toda a região, da mesma forma como os Estados Unidos dominam o hemisfério ocidental”. Aqui há uma afirmação explícita da doutrina da predominância e primazia dos EUA, a ideia de que os EUA devem dominar todas as regiões do globo, assim como a percepção de que tal hegemonia está em perigo.

Em um editorial do Washington Post do mês de maio, intitulado “The Liberal International Order is Under Fire. The United States Must Defend It” (“A ordem liberal internacional está sob ataque. Os Estados Unidos devem defendê-la”), afirma-se que

“Dificilmente passa um dia sem que tenhamos uma prova de que a ordem liberal internacional das últimas sete décadas está sendo erodida. A China e a Rússia estão tentando redefinir o mundo de acordo com suas próprias imagens antiliberais. (...) Isto coloca um grande desafio para o próximo presidente dos EUA (...), não importa quem assuma o Salão Oval, será necessário ter coragem para tomar decisões difíceis, a fim de salvar a ordem liberal internacional. (...) Os Estados Unidos devem continuar tentando integrar a China às regras e tradições da ordem liberal internacional (...), bem como mobilizar forças para confrontar a tomada de territórios assertiva e unilateral desse país no Mar da China Meridional”.

A “ordem liberal internacional” é o mundo dominado pelos EUA. A China e a Rússia não estão tentando “redefinir o mundo” de maneira alguma. A Rússia não está envolvida em nenhuma “subversão violenta”. A realidade é que estas potências são temidas pois podem desenvolver poder e influência suficientes para obstruir a hegemonia americana, sua capacidade de se impor política e militarmente em qualquer lugar, incluindo as vizinhanças da China e da Rússia. Um poderio americano hegemônico que faça frente a esses dois países, acreditam as elites, deve entrar em cena. Isso envolverá “decisões difíceis”. O que significa que a liderança dos EUA deve estar preparada para arriscar confrontos militares a fim de superar estes obstáculos à hegemonia americana. O Post cita um relatório do Center for a New American Security (“Centro para uma Nova Segurança Americana”), presidido pelo beligerante neoconservador Robert Kagan, em favor de incrementos na campanha imperial global. O relatório de Kagan, intitulado “Extending American Power: Strategies to Expand US Engagement in a Competitive World Order” (“Extendendo o poder americano: estratégias para aumentar o envolvimento dos EUA em uma ordem mundial competitiva”) coloca as cartas na mesa.

“Em uma época na qual as diferenças partidárias no establishment político americano atingiu níveis nunca antes vistos, o grupo acredita que o mais importante é reconstruir o consenso nacional quanto ao papel dos EUA no mundo. O projeto promove a ideia de que a liderança americana é essencial para a preservação e fortalecimento dos alicerces da ordem internacional atual, que está sendo abalada por diversas forças”.

A reportagem diz que os gestores do Estado, a classe governante, encontra-se em total desordem, e um consenso “nacional” – ou seja, popular – sobre o “papel dos EUA no mundo” está sendo erodido. As massas estão cansadas da guerra. Além disso, o sistema global dirigido pela “liderança” dos EUA está sob ameaça. Medidas precisam ser tomadas. E Kagan emprega a antiga estratégia de externalizar tensões internas. O debate Trump-Clinton-Sanders reintroduziu perigosas “diferenças partidárias” [leia-se: debates que transcendem os limites ortodoxos permissíveis] que ameaçam o “consenso nacional” [leia-se: debates limitados com parâmetros simplistas]. Uma campanha nacional vendida como defesa contra as ameaças globais à liberdade americana pode neutralizar as diferenças partidárias e direcionar a insatisfação interna a inimigos externos. E não há nada como a guerra para unir uma nação internamente dividida.

Um relatório do influente Center for Strategic and Budgetary Assessments (“Centro para Análises Estratégicas e Orçamentárias”) racionaliza o investimento de vários bilhões de dólares da administração Obama em armas nucleares. O relatório se foca nas tensões dos EUA com a Rússia, e deixa claro que as recomendações também se aplicam à China. O relatório é assustadoramente intitulado “Rethinking Armageddon (RA)” (“Repensando o Armagedom”). A ideia por trás do título é a de que devemos deixar para trás a crença de que a paridade nuclear atingida pela União Soviética com os EUA resultasse necessariamente na Destruição Mútua Garantida (MAD, na sigla em inglês, “Mutual Assured Destruction”), tornando assim autodestrutivo o uso de armas nucleares. Ao contrário, argumenta o relatório “RA”, estamos agora em uma “segunda era nuclear” que permite aos EUA utilizar armas nucleares “de maneira focada”. O relatório começa com uma citação de John Foster Dulles, secretário de Estado durante a Guerra Fria: “Se você tem medo de ir até os limites, você está perdido”.

Quão perigoso é Trump, como instigador da guerra?

Se a pergunta fosse feita em relação a Hillary Clinton, não seria preciso pensar muito. Seu histórico conta uma história clara. O papel de Clinton nos fiascos da Iugoslávia, Ucrânia, Iraque, Líbia e Síria é suficiente para causar pânico. Como já mencionamos, seus planos de criar uma área de exclusão aérea sobre a Síria garantiriam um confronto com a Rússia. A obsessão de Clinton com a dominação global desqualificada dos EUA tornou a guerra nuclear uma possibilidade ameaçadora, como não se via desde a crise dos mísseis de Cuba. Hillary tem uma cosmologia política própria, ruim em todos os sentidos, e o seu envolvimento é resoluto e determinado. Ela teria sido um desastre.

Trump não tem qualquer histórico político, e não é exatamente politizado, para além de suas inclinações gerais de extrema direita. Seu racismo, misoginia e ultra-nacionalismo resultarão nas políticas que esperamos em relação, por exemplo, ao aborto, à hostilização de pessoas negras e as ameaças abertas e “bipartidárias” de lideranças políticas americanas contra os países que não marcharem junto de Washington rumo a suas ambições globais. No que diz respeito às especificidades da política externa, incluindo o uso de armas nucleares, Trump exibe sua notória incoerência. Ele se contradiz o tempo todo.

Não sabemos o que ele realmente pensa, não mais do que ele próprio sabe, porque Trump não parece pensar nada de substancial. Ele acredita em ambos os lados de uma contradição. Ele afirma que é “muito, muito, muito, muito improvável” que ele venha a usar armas nucleares, ainda que não “tire de jogo” a possibilidade de atacar o ISIS ou até mesmo na Europa com tais armas. Uma ignorância que abrange tudo não pode evitar a contradição, tendo como resultado que qualquer coisa tem tanta chance de ser dita ou feita quanto qualquer outra. A guerra nuclear é tão possível quanto impossível. É uma verdade elementar da lógica que, de uma contradição, qualquer coisa pode ser validamente inferida (isto é, inferida em concordância com as leis lógicas). Neste caso, o que é necessário para que a balança venha a pender para um dos lados é uma influência externa à “mente” de Trump. Ela só pode vir de seus conselheiros. Quer dizer, da junta.

O esgotamento da atual fase histórica do capitalismo

por Guglielmo Carchedi

sinistrainrete.info

Tradução / Um argumento chave para a teoria da história e da revolução de Marx é que "Nenhuma ordem social perece antes de se terem desenvolvido todas as forças produtivas às quais pode dar curso" (Crítica da Economia Política, prefácio). Agora, se o marxismo é uma ciência, deve ser verificável empiricamente. Mas esta verificação é importante também por outra razão. Como diz Gramsci, "A crise consiste precisamente no facto de que o velho morre e o novo não acaba de nascer". (Cadernos do cárcere, "A influência do materialismo" e "crise de autoridade", Volume I, tomo 3, pg. 311, escrito cerca de 1930). A análise empírica também nos permite compreender porque e sobretudo como o velho morre.

Na fase atual da história – ou seja, desde o fim da Segunda Guerra Mundial até a atualidade – o capitalismo depara-se com um limite cada vez mais insolúvel devido à contradição entre o crescimento da produtividade do trabalho, por um lado, e as relações de produção entre o trabalho e o capital, pelo outro. Esta contradição está cada vez mais forte e o capitalismo está a esgotar sua capacidade para desenvolver-se no contexto desta fase histórica. A forma concreta adotada por esta contradição, sua incapacidade crescente para desenvolver-se, consiste em crises cada vez mais violentas.

O ponto-chave é a taxa de lucro, o indicador chave da saúde da economia capitalista. No âmbito de uma nação ou grupo de nações, o que conta é a taxa de lucro. Consideremos em primeiro a taxa média de lucro dos Estados Unidos, o país que ainda é o mais importante. As estatísticas mostram que a taxa de lucro dos EUA está num estado de queda irreversível. A queda é tendencial, ou seja, através de ciclos econômicos ascendentes e descendentes. Contudo, a tendência é claramente para a baixa.

Gráfico 1. Taxa média de lucro, EUA, 1945-2010 [1]


A taxa de lucro cai devido à natureza específica das inovações tecnológicas, o fator principal do seu dinamismo. As inovações, por um lado aumentam a produtividade do trabalho, ou seja, cada trabalhador cria uma quantidade cada vez maior de mercadorias com a ajuda de meios cada vez mais avançados de produção. Por outro, as inovações substituem os trabalhadores por meios de produção.

Gráfico 2. A produtividade do trabalho e dos trabalhadores dos meios de produção


A produtividade aumentou de 28 milhões de dólares por trabalhador em 1947 para 231 milhões em 2010, ao passo que os trabalhadores por meios de produção se reduziram de 75 em 1947 para 6 em 2010. Uma vez que só o trabalho produz valor, uma hipótese que se pode demonstrar empiricamente, uma maior quantidade de produto sempre contem uma menor de valor. 

Isto também se aplica ao trabalho mental. Fala-se muito nestes dias da Internet como um novo horizonte do desenvolvimento do capitalismo. Num artigo recente [2] analiso a natureza do trabalho mental e argumento que pode ser produtivo de valor e mais-valia, tal como o trabalho objetivo, equivocadamente chamado material. Contudo, mesmo o trabalho mental está sujeito às mesmas regras que determinam o trabalho no capitalismo. Por um lado, as novas formas de trabalho mental dão lugar a novas e mais terríveis formas de exploração e novas possibilidades para aumentar ainda mais a taxa de exploração dos trabalhadores mentais. Por outro lado, as novas tecnologias substituem o trabalho mental com meios de produção, tal como sucede no trabalho objetivo. Apesar das suas características específicas, o trabalho mental não é o elixir da eterna juventude do capitalismo.

Consideremos agora a economia mundial. A mesma tendência da taxa de lucro nos EUA pode ser observada a nível mundial.

Gráfico 3. Taxa de lucro em todo o mundo e no G7, 1963-2008 (índice 1963 = 100)


Note-se a diferença entre a taxa de lucro do G7 e o resto do mundo. Para começar, desde os últimos anos da década de 1980 os países do G7 sofreram uma crise de rentabilidade (tendência negativa), enquanto a taxa de lucro tem uma tendência global positiva. Isto significa que outros países desempenharam um papel cada vez maior para manter a taxa de lucro em todo o mundo. 

A tabela a seguir coloca a fase atual do desenvolvimento capitalista num contexto histórico mais amplo.

Grafico 4. Taxa média de lucros em países centrais (1869-2010)


Os gráficos 1, 3 e 4 mostram que a taxa de lucro não cai em linha reta e sim através de ciclos ascendentes e descendentes. E a tendência à queda é travada e revertida devido a contra-tendências de forma temporal. Há três tendências principais contrárias à queda da taxa de lucro. As três são capazes de travar esta queda apenas temporariamente.

A primeira é que as inovações tecnológicas diminuem o valor de cada unidade de produto. Isto também se aplica aos meios de produção. O denominador da taxa de lucro pode cair e a taxa de lucro pode crescer. Isto é certo no curto prazo, mas no longo prazo existe incerteza. Se a taxa de lucro cai, o valor dos meios de produção deve crescer. Isto é o que evidencia o gráfico a seguir.

Gráfico 5. Valor dos meios de produção (% do PIB), EUA, 1947-2010


Neste gráfico confirma-se o que Marx antecipou nos Grundrisse: uma só máquina pode custar menos, mas a totalidade do preço das máquinas que substituem essa máquina aumenta não só em termos absolutos como também em relação ao preço de saída. A longo prazo, esta contra-tendência não funcionou.

A segunda contra-tendência é o aumento da taxa de exploração. Os trabalhadores produzem mais valor e mais-valia se trabalham mais tempo e com maior intensidade. E quanto mais mais-valia produzem, maior é a taxa de exploração, maior é a taxa de lucro. Isto foi o que ocorreu a partir de 1986, com o advento do neoliberalismo e o ataque selvagem aos salários. A taxa de exploração elevou-se aos níveis mais altos do pós-guerra, com a exceção de 1950.

Gráfico 6. Taxa de exploração, EUA, 1945-2010


O gráfico a seguir relaciona a taxa de exploração com a taxa de lucro.

Gráfico 7. Taxa de exploração e taxa de lucro, 1947-2010


As duas taxas estão estreitamente relacionadas. Esta tabela pode ser lida como se a taxa de lucro estivesse determinada pela taxa de exploração: até meados da década de 1980, quanto mais diminui a taxa de exploração mais baixa é a taxa de lucro. A partir dos anos 1980 até 2010, pelo contrário, quanto maior é a taxa de exploração maior é a taxa de lucro. A conclusão de qualquer economista neoliberal é que, para aumentar a taxa de lucro deve aumentar a taxa de exploração, ou seja, que tem de recorrer às políticas de austeridade (para o trabalho, não para o capital).

Pois bem, é certo que a taxa de lucro aumenta quando aumenta a taxa de exploração. Mas não se deduz daí que melhore a economia e que se possa sair da crise aumentando a taxa de exploração. A taxa de lucro média pode aumentar devido ao aumento da taxa de exploração, ainda que, ao contrário do caso de um capitalista individual, longe de significar uma melhoria da economia, pode ocultar uma pioria. Ou seja, pode ocultar uma diminuição da produção de mais-valia por unidade de capital investido e uma maior destinação em favor do capital. Mas só a produção de mais-valia (não sua repartição) por unidade de capital investido reflete o estado de saúde da economia capitalista.

A medição da taxa de lucro determinada unicamente pelo valor excedente produzido é obtida calculando a taxa de lucro com uma taxa de exploração constante.

Gráfico 6. Margem de lucro com a taxa de exploração constante, EUA, 1947-201


Como se mostra, a produção de mais-valia por unidade de capital investido tende a decrescer ao longo de toda a fase histórica atual. Este gráfico pode-se dividir em dois períodos, de 1947 a 1986 e de 1987 a 2010, e em ambos a taxa de lucro cai.

Gráfico 7.


e de 1987 a 2010.

Gráfico 8.

Neste [último] período, a taxa de lucro com uma taxa de exploração constante também cai no período compreendido entre meados da década de 1980, que é o do neoliberalismo. Desde o final da Segunda Guerra Mundial até agora, o sistema é cada vez menos capaz de produzir mais-valia por unidade de capital investido, um facto oculto por uma taxa de exploração crescente, mas revelado se a taxa de exploração se mantiver constante. O aumento da taxa de lucro com uma taxa variável de exploração desde meados da década de 1980 em diante não significa uma melhoria da economia e sim a sua deterioração, como o demonstra a tendência da taxa de lucro com uma taxa de exploração constante. O bolo diminui, enquanto aumenta a parte de que se apropria o capital.

Vejamos agora a terceira contra-tendência. O aumento da taxa média de exploração a nível global e, portanto, a compressão dos salários, significa, por um lado, que o poder aquisitivo das massas se reduz e, por outro, que o valor excedente produzido não pode ser investido em sectores produtivos devido ao facto de a taxa de lucro cair nestes sectores. Em consequência, o capital emigra para sectores improdutivos, como o comércio, as finanças e a especulação. Os lucros destes sectores são fictícios, são deduções dos lucros obtidos na esfera produtiva.

Gráfico 9. Lucros reais e lucros financeiros, mil milhões de dólares, 1950-2010, EUA



Enquanto nos anos 1950 os lucros financeiros eram de 3,1% dos lucros reais, em 2010 haviam-se convertido em 136,5%.

Está implícito neste movimento o crescimento da dívida global. O crescimento dos lucros fictícios produz-se através da criação de capital fictício e da emissão de títulos de dívida (obrigações, por exemplo) e de ulteriores e sucessivos títulos de dívida sobre aqueles títulos de dívida. Criou-se assim uma montanha de títulos de dívida interconectados devido a um crescimento explosivo da dívida global.

Gráfico 10. Moeda e dívida como percentagem do PIB mundial, 1989-2011 EUA


A moeda real que é a representação do valor do trabalho contido nos produtos. Esta é chamada power money. Trata-se de uma fracção mínima em relação às outras três formas de crédito. Mas o crédito representa dívidas, não riqueza, e a dívida não é moeda, ainda que possa cumprir algumas das funções da moeda.

O enorme aumento da dívida e a crise financeira que se segue são uma consequência da crise nos sectores produtivos, da queda da taxa de lucro com uma taxa de mais-valia constante, e não a sua causa. Este enorme aumento da dívida nas suas diversas formas é o substrato das bolhas especulativas e das crises financeiras, inclusive da que está para vir. Ainda que, neste caso, o aumento da taxa de lucro devido aos lucros fictícios alcança seu limite, as crises financeiras recorrentes.

O capitalismo está em rota de colisão consigo próprio. As contra-tendências actuam cada vez menos e por isso:

  1. Os meios de produção são cada vez mais caros, uma vez que requerem uma proporção crescente do PIB, ao invés de serem cada vez mais baratos;
  2. O aumento da taxa de exploração aumenta a taxa de lucro, mas este aumento é enganoso uma vez que não indica um aumento do valor excedente produzido e sim o seu declínio, juntamente com uma maior apropriação do mesmo pelo capital;
  3. O crescimento exponencial do capital fictício não faz mais do que inchar a bolha especulativa até provocar a sua explosão. Este será o catalisador da crise nos sectores produtivos.

Os sinais de que a próxima crise se avizinha são claros: por um lado a continuação da queda tendencial mas irreversível da taxa de lucro mundial, ainda que com espasmos contra-tendenciais. Por outro, os fatores que são catalisadores da crise de lucratividade e que são:

  1. Os primeiros sinais de guerras comerciais que, se se verificarem, reduzem o comércio internacional e, portanto, a realização da produção de valor e de mais-valia.
  2. Os focos de guerra, sobretudo nas regiões ricas em petróleo, que podem ampliar-se repentinamente transformando-se em guerra entre as grandes potências. O capital dos países produtores de armamento aumentaria seus lucros, mas as zonas em conflito sofreriam uma destruição de capital e portanto da capacidade de produzir valor e mais-valia. Estas últimas seriam as afetadas se o conflito se ampliasse para além das fronteiras locais.
  3. O crescimento dos movimentos de direita e ultra-nacionalistas também alimentados pelas políticas neoliberais e que constituem um caldo de cultura propício a aventuras militares.

Poder-se-ia argumentar que o capitalismo pode se recuperar não no mundo ocidental mas sim nas chamadas economias emergentes. Esta é uma expressão ideológica para qualificar aquelas economias que, na área imperialista, foram dominadas e cuja função é contribuir mais que as outras economias submetidas para a reprodução do sistema capitalista mundial. A falácia deste argumento é que as forças produtivas das chamadas economias emergentes são as dos países tecnologicamente avançados e, portanto, chocam-se com os mesmos limites, ou seja, o aumento da produtividade do trabalho, por um lado, e a redução contínua da força de trabalho, por outro, provocando uma queda tendencial da taxa de lucro. Após um período inicial de expansão volta a surgir a tendência para a queda da taxa de lucro, incluindo o excesso de produção que resulta dessa queda. A China, a Índia, os BRICS sofrem a mesma enfermidade que aflige o mundo ocidental. Para dar só um exemplo, o grau de dependência tecnológica da indústria siderúrgica em relação à tecnologia dos países avançados varia de 65% para a produção de energia, 85% para a fundição e processamento de produtos semi-acabados e 90% para os sistemas de controle, análise, segurança, proteção do meio ambiente, etc.

Também se poderia argumentar que o capitalismo poderia ter uma nova etapa de desenvolvimento através de políticas de redistribuição keynesianas com investimento estatal maciço. Numa situação em que as políticas neoliberais de carnificina social fracassaram miseravelmente, a opção keynesiana volta ao primeiro plano. Mas quem pode financiá-las? Não os trabalhadores, já que numa situação de crise, ou seja, de estancamento ou diminuição da produção de mais-valia, salários mais altos significam menores lucros. Não o capital, porque a rentabilidade já é tão baixa que os lucros se reduziriam ainda mais. O Estado, então? Mas onde pode encontrar o dinheiro? Não pode tomá-lo do trabalho ou do capital, pelas razões mencionadas. Portanto deve recorrer à dívida pública. Mas esta já é elevada e também contribui para o crescimento da bolha. A resposta keynesiana é que o Estado deve recorrer à dívida pública temporariamente para financiar grandes projetos de investimento público. Os investimentos iniciais poderiam favorecer outros investimentos e estes ainda mais outros, numa cascata multiplicativa de emprego e criação de riqueza. Nesse ponto, os maiores rendimentos do Estado poderiam ser utilizados para reduzir a dívida pública. Este é o multiplicador keynesiano. Mas não funciona.

Depois dos primeiros investimentos induzidos pelo Estado, os capitalistas em condições de fazerem obras públicas têm de fazer encomendas a outros capitalistas. Estes são os que oferecem preços mais baratos, os capitalistas cujos trabalhadores são mais produtivos e cujo capital é mais eficiente e, portanto, os que empregam proporcionalmente mais meios de produção do que trabalho. Ou seja, são os capitalistas que produzem menos mais-valia por unidade de capital investido. Em cada passo da cadeia do investimento, o trabalho aumenta em termos absolutos, mas diminui em percentagem, pelo que a taxa média de lucro cai. Por outro lado, o maior crescimento do capital implica o desaparecimento dos capitalistas mais fracos, os que proporcionalmente utilizam mais trabalho do que meios de produção. Quando a cadeia de investimentos se fecha, há menos trabalhadores empregados, produz-se menos mais-valia e a taxa média de lucro cai. A análise empírica confirma: a um gasto público crescente corresponde uma queda da taxa de lucro.

Gráfico 11. Gasto público (% do PIB) e taxa de lucro com taxa variável de mais-valia, EUA, 1947-2010


A correlação é negativa (-0,8). Este gráfico mostra que até a década de 1980 o aumento dos gastos do Estado não pôde travar a queda da taxa de lucro. O argumento keynesiano falha. A partir de 1980, a taxa de lucro aumenta juntamente com o gasto público. Contudo, cresce porque a taxa de exploração cresce e não porque cresceu a despesa estatal. De facto, se a taxa de mais-valia se mantém constante, a correlação negativa é válida para todo o período secular, inclusive o período do neoliberalismo, da década de 1980 em diante.

Gráfico 12. O gasto público (% do PIB) e taxa de lucro com uma taxa constante de mais-valia, EUA, 1947-2010


Este gráfico mostra que durante toda esta fase histórica o crescimento dos gastos do Estado não foi capaz de travar e reverter a queda da produção de mais-valia por unidade de capital investido, ou seja, a queda na taxa de lucro que mede o estado de saúde do capital, a taxa de lucro a una taxa de mais-valia constante.

Este resultado reencontra-se a cada crise concreta: a despesa governamental aumenta no ano que antecede a crise em todos os dez casos. Não podem evitar a crise.

Gráfico 13. Diferenças em pontos percentuais da despesa pública a partir do ano anterior à crise até o último ano da crise


A falácia do raciocínio keynesiano é que não leva em conta as consequências da políticas de investimento do governo para a taxa de lucro, que é a variável chave da economia capitalista. A razão para a correlação negativa é, como acabo de dizer, que a cada ciclo de investimento, o investimento em meios de produção é, em percentagem, mais alto que em força de trabalho, conforme previu a teoria marxista.

Mas as políticas de gasto público, se não podem travar a crise, podem ser o meio para sair da crise? A tese keynesiana seria válida só se no ano pós crise a despesa governamental aumentasse juntamente a taxa média de lucro. Com a taxa de lucro com uma taxa de exploração constante, a tese de que a recuperação se deve a um aumento no gasto do governo falha em todos os dez casos. A política keynesiana não pode aumentar a produção de mais-valia por unidade de capital investido.

Gráfico 14. Diferenças no gasto público (% do PIB) e na taxa de lucro com taxa constante de mais-valia desde o último ano da crise até o primeiro ano depois da crise


Em resumo, o aumento do gasto público a partir do ano anterior à crise até o ano posterior à crise não pode evitar que a crise expluda; e o aumento do gasto governamental no último ano de crise e no primeiro ano posterior à crise não consegue reativar a rentabilidade do sistema. Ambos os resultados contradizem a teoria keynesiana.

Perante o fracasso tanto das políticas econômicas keynesianas como das neoliberais, não parece que haja outra saída senão a que é gerada espontaneamente pelo próprio capital: uma destruição maciça de capital. Saiu-se da crise de 1933 só mediante a Segunda Guerra Mundial. Saiu-se da crise não porque o capital físico fosse destruído. Se o capital é acima de tudo uma relação de produção, uma relação entre o capital e o trabalho, a guerra provocou a destruição e a regeneração do capital como relação de produção. Com a economia de guerra, passou-se da esfera civil, praguejada por um alto desemprego, com um baixo nível de utilização dos meios de produção e uma taxa de lucro descendente, a uma economia militar caracterizada pelo pleno emprego tanto da força de trabalho como dos meios de produção, com a realização garantida pelo Estado do material militar, com altos níveis de lucros e de rentabilidade e altos níveis de poupança. Depois da guerra verificou-se a reconversão da economia militar em economia civil. O gasto do governo em percentagem do PIB reduziu-se de cerca de 52% em 1945 para 20% em 1948, ou seja, na chamada idade de ouro do capitalismo. Os altos níveis de poupança garantiram o poder aquisitivo necessário para absorver os novos meios de consumo, que por sua vez exigiram a produção de novos meios de produção. Toda uma série de invenções originadas durante a guerra foi aplicada à produção de novos produtos. Nos EUA, o aparelho produtivo estava ileso. Mas nos demais países beligerantes verificou-se uma imensa destruição de meios de produção e de força de trabalho. O capitalismo foi revitalizado por um quarto de século. Mas a que preço? Um quarto de século de reprodução ampliada custou dezenas de milhões de mortes, sofrimentos atrozes e imensas misérias. Assim, os trabalhadores, além de financiar a guerra, tiveram que pagar para dar nova vitalidade ao sistema.

Depois da chamada Idade de Ouro, que contudo não esteve livre da queda da taxa de lucro (ver gráfico 1 e 6 acima), o sistema entrou num longo declínio que dura já cerca de meio século, sem que se veja luz no fim do túnel. Rumamos para um colapso inevitável que porá fim ao capitalismo? Não creio que o capitalismo se auto-destrua. Não é da natureza da besta. O capitalismo sairá da crise, mas só depois de uma destruição suficiente de capital, seja o financeiro seja o da esfera produtiva. Mas é difícil imaginar nesta altura que forma poderá assumir esta destruição de capital. O modo como o capital excedente será destruído determinará a forma que tomará o capital se e quando sair desta fase histórica. Da crise de 1929 saiu só com a Segunda Guerra Mundial.

Um princípio fundamental da teoria marxista é a contradição entre forças produtivas e relações de produção. A força produtiva é a produtividade do trabalho; as relações de produção são a relação capital/trabalho. A contradição é a seguinte: quanto mais a produtividade do trabalho aumenta, mais capital expele trabalho. A queda da taxa de lucro é a expressão concreta desta contradição. Esta contradição é uma pedra angular do sistema capitalista e, portanto, também na sua etapa atual de desenvolvimento. A característica específica da presente fase histórica é que esta contradição se torna mais difícil de resolver e é cada vez mais explosiva. A capacidade de sobrevivência da atual fase histórica está a esgotar-se, o capitalismo tende a morrer. Mas não pode morrer sem ser substituído por um sistema superior e, portanto, sem que intervenha a subjetividade de classe. Sem esta subjetividade, renovar-se-á e entrará numa nova fase na qual o seu domínio sobre o trabalho será ainda maior e mais terrível. Uma condição para que isto não aconteça é que a luta sacrossanta dos trabalhadores por maiores investimentos estatais, por reformas e por melhores condições de vida e de trabalho sejam conduzidas na ótica da contraposição insanável entre capital e trabalho e não na ótica keynesiana da colaboração de classes.

Notas:

[1] Os dados estão deflacionados e referem-se só aos sectores produtivos de valor.

[2] Carchedi, 2014, 'Old wine, new bottles and the Internet', Work Organisation, Labour & Globalisation , Vol 8, No 1.