31 de julho de 2011

Feminismo negro e interseccionalidade

Sharon Smith

Iternational Socialist Review

“Apesar de concordarmos com a teoria de Marx quando aplicada às relações econômicas mais específicas analisadas por ele, nós sabemos que sua análise precisa ser ampliada para que possamos entender nossa situação específica enquanto mulheres negras”. 
– Declaração do Coletivo Rio Combate, 1977(1).

“O conceito da simultaneidade de opressões ainda é crucial para o entendimento da realidade política a partir do feminismo negro e, eu acredito, consiste numa das mais significantes contribuições ideológicas do pensamento feminista negro”. 
– Bárbara Smith, feminista e acadêmica negra, 1983(2).

http://blog.esquerdaonline.com/?p=8130 / A acadêmica de Direito negra Kimberlé Crenshaw cunhou o termo “interseccionalidade” em seu influente artigo de 1989, "Desmarginalizando a 'Intersecção' entre Raça e sexo: uma crítica feminista e negra da doutrina antidiscriminação, da teoria feminista e da política antirracista"(3). O conceito de interseccionalidade não é uma noção abstrata, mas uma descrição de como múltiplas opressões são experienciadas. De fato, Crenshaw usa a analogia a seguir, referente a um cruzamento no trânsito ou encruzilhada, para dar concretude ao conceito:

Façamos uma analogia com o trânsito em um cruzamento, indo e vindo em quatro direções. A discriminação, como o trânsito de um cruzamento, pode fluir numa direção ou noutra. Se um acontece um acidente em um cruzamento, este pode ter sido causado por carros vindos de direções diferentes e, às vezes, vindos de todas ao mesmo tempo. Da mesma forma, se uma mulher negra sobre violência por estar em uma interseção, seu sofrimento pode ter resultado da discriminação sexual ou racial… mas nem sempre é fácil reconstruir um acidente: às vezes as marcas de freadas e os ferimentos pode bem indicar que ocorreu tudo ao mesmo tempo, frustrando as tentativas de se determinar qual dos motoristas causou o dano.(4)

Crenshaw afirma que as mulheres negras sofrem discriminação de maneiras tais que, em geral, não se enquadram nas categorias legais de racismo ou de machismo – mas em uma combinação de ambos, racismo e machismo. No entanto, a legislação tende a definir machismo com base em uma implícita referência às injustiças enfrentadas por todas as mulheres (o que inclui as brancas), ao mesmo tempo em que define o racismo como se referente às injustiças sofridas por todos os negros e outras pessoas de cor (o que inclui os homens). Esta situação quase sempre deixa as mulheres negras juridicamente "invisíveis" e sem amparo legal.

Crenshaw menciona várias ações trabalhistas com base em alegações de discriminação para mostrar como as causas das mulheres negras geralmente são negligenciadas justamente porque elas sofrem discriminação tanto como mulheres quanto como negras. A decisão judicial em uma destas ações, de autoria de DeGraffenreid contra General Motors, instruída por cinco mulheres negras em 1976, demonstra com consistência esta tese.

A General Motors Corporation nunca havia contratado uma mulher negra para trabalhar antes de 1964 – o ano em que a Lei dos Direitos Civis foi aprovada no Congresso. Entretanto, todas as mulheres negras contratadas depois de 1970 perderam seus empregos rapidamente nas demissões em massa durante a recessão de 1973 a 1975. Tal perda de emprego massiva entre as mulheres negras levou as denunciantes a argumentarem que as demissões baseadas em tempo de trabalho, guiadas pelo princípio “último contratado, primeiro demitido” eram uma discriminação contra mulheres negras na General Motors, perpetuando práticas discriminatórias feitas pela empresa no passado.

Ainda assim, o tribunal se negou a permitir que as denunciantes combinassem a discriminação sexual à racial para formar uma categoria de discriminação unificada.

As denunciantes alegam que estão peticionando em favor das mulheres negra, e que, portanto, esta ação judicial tem por objetivo fundir duas questões distintas em uma nova subcategoria específica, a saber, a combinação de discriminação sexual e racial... As denunciantes claramente têm direito a uma reparação se elas sofreram discriminação. Contudo, não se lhes deve permitir que combinem as reparações previstas em lei para criar uma nova 'superreparação' que lhes daria uma compensação para além da que fora intencionada pelos autores da lei em questão. Assim sendo, esta ação judicial deve ser examinada para verificar se ela traz uma questão de discriminação racial ou de discriminação sexual, ou se traz duas questões de discriminação distintas, mas não uma combinação de ambas.(5)

Na decisão, o tribunal rejeitou com ênfase a criação de:

(...) uma nova categoria, a de "mulheres negras', que indicaria uma condição mais grave que, por exemplo, a de homem negro. A perspectiva de criação de novas categorias de minorias protegidas, com base somente nos princípios matemáticos de permutação e combinação, claramente traria a possibilidade de que se abrisse a mesma velha caixa de Pandora.(6)

Crenshaw comenta, a respeito desta decisão, que:

(...) fornecer reparação legal somente quando as mulheres negras demonstram que suas denúncias são baseadas em questões de raça ou em questões sexo é análogo a chamar a ambulância para a vítima somente depois que o motorista responsável pelos ferimentos for identificado.(7)

"Será que nós não somos mulheres?"

Depois que Crenshaw introduziu o termo interseccionalidade em 1989, ele passou a ser amplamente adotado, por permitir englobar numa só palavra a experiência simultânea de múltiplas opressões sofrida por mulheres negras. Mas o conceito não era novo. Desde os tempos da escravidão, as mulheres negras já falavam com eloquência das múltiplas opressões de raça, de classe e de gênero – referindo-se a este conceito como "opressões interligadas", "opressões simultâneas", "dupla ameaça", "tripla ameaça" e muitos outros termos.(8)

Tal como a maioria das feministas negras, Crenshaw enfatiza a importância do famoso discurso "Será que eu não sou mulher?", de Sojourner Truth, proferido na Convenção de Mulheres de Akron, no estado de Ohio, em 1851.

Aquele homem ali diz que as mulheres precisam de ajuda para entrar em carruagens e pular valas, e de ficar sempre nos melhores assentos. Ninguém nunca me ajuda a entrar em carruagens, ou a pular poças de lama, nem jamais me dá os melhores assentos. Será que eu não sou mulher? Eu poderia trabalhar e comer tanto quanto um homem – quando eu era capaz disso – e aguentar o chicote da mesma maneira! Será que eu não sou mulher? Eu dei à luz treze filhos e os vi quase todos serem vendidos como escravos, e quando eu chorei por meu sofrimento como mãe, ninguém, a não ser Jesus, escutou-me! Será que eu não sou mulher?(9)

As palavras de Truth diferenciam enormemente a opressão sofrida por mulheres brancas da que se abate sobre as mulheres negras. Enquanto as mulheres brancas de classe média tradicionalmente foram tratadas como delicadas e excessivamente emotivas – destinadas a se submeterem aos homens brancos –, as mulheres negras foram denegridas(13) e submetidas ao abuso racista que é um dos elementos fundacionais da sociedade estadunidense. Ainda assim, observa Crenshaw, ´´Quando Sojourner Truth começou a falar, muitas mulheres brancas insistiram que ela fosse calada, temendo que a oradora desviasse a questão do sufrágio feminino para a da emancipação“, dando uma ideia bastante clara do nível de racismo que havia no movimento sufragista.(14)

Crenshaw traça um paralelo entre a experiência de Truth no movimento sufragista branco e a experiência das mulheres negras no feminismo moderno, argumentando que ´´Quando a teoria e a política feministas que afirmam refletir as experiências das mulheres, bem como as aspirações das mulheres, sem incluir nem falar das mulheres negras, as negras devem perguntar ´´será que nós não somos mulheres?“.

A interseccionalidade como síntese de opressões

Pelo que foi dito, os objetivos políticos de Crenshaw vão além de apontar falhas na legislação. Ela afirma que as mulheres negras estão frequentemente ausentes nas análises da opressão de gênero ou do racismo, já que o foco é principalmente, no primeiro caso, as experiências das mulheres brancas e, no segundo, as dos homens negros. Ela pretende questionar tanto a teoria e a prática feminista quanto a antirracista que se negam a ´´representar adequadamente o cruzamento entre raça e gênero´´ argumentando que ´´devido à experiência interseccional ser mais que a soma de racismo e machismo, qualquer análise que não leve em conta a interseccionalidade não pode dar conta, plenamente, da forma específica com que as mulheres são subordinadas.(15)

Crenshaw argumenta que um aspecto essencial da interseccionalidade é que esta categoria reconhece que múltiplas opressões não são sofridas, cada uma delas, separadamente, mas sim como uma experiência unificada, sintetizada. Isto tem um significado enorme até mesmo no nível prático da construção de um movimento.

Em ´´Pensamento negro feminista: conhecimento, consciência e política de empoderamento“(16), publicado em 1990, a feminista negra Patricia Hill Collins amplia e atualiza as contradições identificadas por Sojourner Truth, ao mesmo tempo em que reconhece as lutas coletivas travadas historicamente como consolidadoras de uma ´´sabedoria coletiva“ entre as mulheres negras:


Se, como dizem, as mulheres são passivas e frágeis, então por que as mulheres negras são tratadas como ´´mulas“ e levadas a realizar tarefas pesadas de limpeza? Se as boas mães devem ficar em casa com seus filhos, então porque as mulheres negras dos EUA que dependem de assistência social são forçadas a arrumar empregos e deixar seus filhos em creches? Se a maior vocação das mulheres é se tornarem mães, então por que as mães negras adolescentes são constrangidas a usar Norplant e Depo Provera? (17)Na ausência de um feminismo negro viável, que investigue como as opressões interseccionadas de raça, de gênero e de classe reforçam estas contradições, a imagem criada por serem consideradas trabalhadoras desvalorizadas e mães fracassadas pôde facilmente se voltar para dentro, levando a uma opressão internalizada. Mas o legado da luta entre as mulheres negras dos EUA parece indicar que um conhecimento crítico coletivamente compartilhado por elas já existe há muito tempo. Esta sabedoria coletiva por sua vez impeliu as mulheres negras dos EUA a produzir um conhecimento mais especializado, a saber, o pensamento feminista negro como teoria social crítica.(18)

Tal como Crenshaw, Collins usa o conceito de interseccionalidade para analisar como ´´opressões [tais como ´raça e gênero` ou ´sexualidade e nação`] operam em conjunto na produção da injustiça“. Mas Collins acrescenta o conceito de ´´matriz de dominações“ a esta formulação:


Em contraste, a matriz de dominações aponta para como estas opressões interseccionadas se organizam na realidade. Independentemente de quais intersecções específicas estejam em questão, os domínios estrutural, disciplinar, hegemônico e interpessoal do poder reaparecem através das mais diversas formas de opressão.(19)

Em outro contexto, Collins reconhece o componente crucial da classe social das mulheres negras como formador das percepções políticas. Em ´´Os traços de uma epistemologia feminista afrocêntrica“, ela argumenta:


(…) enquanto o ponto de vista de uma mulher negra e sua correspondente epistemologia derivam da consciência das mulheres negras acerca da opressão de raça e de gênero, estes não são simplesmente o resultado de uma combinação de valores afrocêntricos e femininos – os pontos de vista estão enraizados nas condições materiais estruturadas pela classe social. [itálicos meus].(20)

Combater o machismo numa sociedade profundamente racista

Devido ao papel histórico da escravidão e da segregação racial nos Estados Unidos, o desenvolvimento de um movimento de mulheres unificado exige o reconhecimento das múltiplas implicações desta dívida racial perene. Se por um lado todas as mulheres são oprimidas enquanto mulheres, nenhum movimento pode alegar falar em nome de todas as mulheres a menos que fale pelas mulheres que também enfrentam as consequências do racismo – que coloca as mulheres de cor de forma desproporcionalmente mais frequente nas fileiras da classe trabalhadora e entre os pobres. Raça e classe devem, portanto, ser centrais no projeto de emancipação das mulheres se este se pretende significativo para aquelas mulheres que são as mais oprimidas pelo sistema.

De fato, uma das fraquezas centrais do feminismo predominantemente branco dos EUA tem sido sua falta de atenção para com o racismo, com repercussões enormes. Deixar de combater o racismo leva à reprodução do status quo racista.

A narrativa amplamente aceita do movimento feminista moderno é que este inicialmente incluía mulheres brancas, que começaram no final dos anos 60 e início dos anos 70, a que depois se juntaram mulheres de cor, seguindo os passos das primeiras. Mas esta narrativa é factualmente incorreta.

Décadas antes da ascensão do movimento moderno pela emancipação das mulheres, as mulheres negras já se organizavam contra o estrupo sistemático a que estavam sujeitas nas mãos dos homens racistas e brancos. As ativistas pelos direitos civis das mulheres, incluindo Rosa Parks, eram parte de um insubmisso movimento das camadas populares para defender as mulheres negras sujeitas às agressões sexuais racistas – numa interseção de opressões historicamente peculiar às mulheres negras nos Estados Unidos.

Danielle L. McGuire, autora de No fim da rua: mulheres negras, estupro e resistência – uma nova história do movimento pelos direitos civis de Rosa Parks ao surgimento do Black Power(21), afirma que


(…) ao longo do século XX… mulheres negras normalmente denunciavam abusos sexuais que sofriam. Usando sua voz como arma na guerra contra a supremacia branca, seja na igreja, seja nos tribunais ou nas audiências públicas do congresso, as mulheres afroamericanas resistiram abertamente ao que Martin Luther King Jr. chamava de ´´coisificação“ de sua humanidade. Décadas antes das feministas radicais no movimento de mulheres incitarem as sobreviventes de estupros a ´´abrirem a boca“, os protestos das mulheres afroamericanas suscitaram indignação em nível local, nacional e até mesmo internacional e assim estimularam campanhas maiores pela justiça racial e pela dignidade humana.(22)

A invenção do ´´matriarcado“ negro

Nos anos 60, o contraste entre a opressão às mulheres brancas de classe média e a sofrida pelas mulheres negras não poderia ter sido mais evidente. As mesmas ´´especialistas“ que recomendavam uma vida feliz nos limites do lar para as mulheres brancas suburbanas(23), tal como documentado no imensamente popular ´´A mística feminina“, de Betty Friedan, repreendiam as mulheres negras por seu fracasso em se adequar a este modelo. (24)Devido às mães negras tradicionalmente terem de trabalhar fora com muito mais frequência que suas congêneres brancas, elas foram culpabilizadas por uma gama de mazelas social por causa de sua relativa independência econômica.

A feminista socialista Stephanie Coontz fala de “freudianas e cientistas sociais“ que ´´insistiam que os homens negros haviam sido emasculados – primeiro pela escravidão e depois pela independência econômica de suas mulheres“. Muitos na mídia afroamericana também acataram esta análise. Um artigo da revista Ebony (Ébano) de 1960 afirmava claramente que a tradicional independência da mulher negra significava que ela estava ´´mais em conflito com seu papel biológico natural que as mulheres brancas“.(25)

Esta questão veio à tona em 1965, quando o Ministério do Trabalho dos EUA publicou um relatório intitulado “A família negra: um caso de ação nacional“.(26) O relatório, de autoria do futuro senador Daniel Patrick Moyniham, falava de um ´´matriarcado negro“ no centro de um “emaranhado de patologias“ que afligiam as famílias negras, levando a um ciclo de pobreza. ´´Um fato fundamental na vida da família negra americana é a comum inversão dos papéis de marido e mulher“ graças à qual as mulheres negras ganham mais que seus companheiros, afirma Moyniham.

O relatório afirma: ´´essencialmente, a comunidade negra tem sido induzida a uma estrutura matriarcal que, por ser tão fora dos padrões vigentes no resto da sociedade americana, retarda seriamente o progresso do grupo como um todo“. O relatório explica porque isto acontece:


Não há, presume-se, nenhuma razão especial para que uma sociedade em que os homens são dominantes nos relacionamentos familiares seja preferível à organização matriarcal. Entretanto, é obviamente uma desvantagem para um grupo minoritário que este aja segundo um princípio enquanto a grande maioria da população, e sobretudo aqueles que têm mais vantagens, esteja agindo de outra forma. Esta é a situação atual dos negros. A nossa sociedade presume a liderança masculina em questões públicas e privadas. As organizações da sociedade facilitam tal liderança e a recompensam. Uma subcultura, tal como a dos negros americanos, não qual este não é o padrão vigente, encontra-se em particular desvantagem.(27)

Este exemplo demonstra por que a discriminação de gênero não pode ser efetivamente entendida sem que se leve em conta o papel do racismo. E as feministas negras desde aquela época têm como prioridade o exame das relações intercruzadas de gênero, raça e classe que muitas feministas brancas tenderam a ignorar em um momento. Ao fazer isto, elas demonstraram que as mulheres de cor não são simplesmente ´´duplamente oprimidas“ tanto pelo machismo como pelo racismo. As mulheres negras tem uma experiência do machismo moldada igualmente pelo racismo e pela desigualdade de classe que, portanto, é diferente em certos aspectos da experiência de certas mulheres brancas de classe média.

´´Duas sociedades, uma negra, uma branca – separadas e desiguais“

Os anos 50 e 60 também foram um período de intensa polarização racial nos Estados Unidos, já que o movimento de massas pelos direitos civis lutava para dar um fim tanto à segregação Jim Crow(28) no sul quanto à segregação que na prática também ocorria no norte. O casamento inter-racial ainda estava proscrito em dezesseis estados em 1967, quando a Suprema Corte finalmente julgou tais proscrições como inconstitucionais na decisão acerca da ação de Loving contra Virgínia.

Rebeliões urbanas varreram o país de meados ao fim da década de sessenta, desencadeadas pela brutalidade policial e por outras formas de discriminação racial nos guetos negros afetados pela pobreza. Em 1967, a Comissão de Conselheiros Nacionais sobre a Desordem Civil, também conhecida como Comissão Kerner, foi estabelecida para investigar as causas que estariam nas raízes das rebeliões urbanas. Em 1968, a Comissão emitiu um relatório que incluía uma impiedosa acusação de racismo e de segregação sobre a sociedade estadunidense. O relatório conclui que:


Nossa nação está se dividindo em duas sociedades, uma negra, uma branca – separadas e desiguais… A segregação e a pobreza criaram no gueto racial um ambiente destrutivo, totalmente desconhecido para a maioria dos americanos brancos. O que os americanos brancos nunca entenderam de fato, mas que os negros nunca podem esquecer – é que a sociedade branca está profundamente enredada no gueto. As instituições brancas é que o criaram, as instituições brancas o mantém, e a sociedade branca o ignora.(29)

A Comissão Kerner enfatizou que boa parte do problema estava enraizado na ´´difundida discriminação e segregação no emprego, na educação e na moradia, que resultou na exclusão continuada de grande parte dos negros em relação aos benefícios do progresso econômico“. A Comissão concluiu que o grau de segregação habitacional era tamanho que, ´´para criar uma distribuição populacional dessegregada, cerca de 86% de todos os negros teriam de mudar seu local de residência dentro da cidade“.(30)


Em resposta ao grau extremado de racismo e de machismo que enfrentavam nos anos 60, as mulheres negras e outras mulheres de cor começaram a se organizar contra a opressão que sofriam, formando inúmeras organizações. Em 1968, por exemplo, as mulheres negras do Comitê de Coordenação da Não-Violência Estudantil (SNCC – Student Non-Violent Coordinating Committee) fundou a Aliança de Mulheres do Terceiro Mundo (Third World Women´s Alliance). Em 1973, um grupo de destacadas feministas negras, que incluía Florynce Kenndey, Alice Walker e Barbara Smith fundou a Organização Feminista Negra Nacional (NBFO – National Black Feminist Organization). Em 1974, Barbara Smith se juntou a outro grupo de feministas lésbicas negras para fundar o Coletivo Rio Combahee ( Combahee River Collective), com sede em Boston, como uma alternativa radical autoconsciente à NBFO. O Coletivo Rio Combahee foi batizado em homenagem à vitoriosa Incursão ao Rio Combahee e à Ferrovia Subterrânea(31) de 1863, planejada e liderada por Harriet Tubman, que resultou na libertação de 750 escravos.

O manifesto do Coletivo Rio Combahee, lançado em 1977, apresentava sua visão do feminismo negro como uma oposição a todas as formas de opressão – incluindo a de sexualidade, a de identidade de gênero, a de classe, a de deficiência e a de idade – posteriormente fundamentadas no conceito de interseccionalidade.


A expressão mais geral de nossa posição política na atualidade seria a de que estamos comprometidos na prática com a luta contra a opressão racial, sexual , de gênero e de classe, e enxergamos como nossa tarefa em particular o desenvolvimento de uma prática e de uma análise integradas, com base no fato de que os maiores sistemas de opressão são interligados. A síntese destas opressões cria as condições em que se dão nossas vidas. Enquanto mulheres negras nós vemos o feminismo negro como o movimento político que logicamente deve combater as múltiplas e simultâneas opressões que todas as mulheres de cor enfrentam.(32)

Elas acrescentaram que ´´Nós sabemos que existe uma coisa chamada opressão racial-sexual que não é nem somente racial e tampouco somente sexual, como exemplificado na história do estupro de mulheres negras por homens brancos como instrumento de repressão política“.(33)

As consequências de se ignorar as diferenças de raça e de classe entre as mulheres.

Conforme observado acima, ´´A mística feminina“, de Betty Friedan, publicado em 1963, deu voz à agonia das donas de casa brancas de classe média que estavam aprisionadas em seus lares suburbanos, condenadas a vidas que giravam em torno da satisfação de todas as necessidades de suas famílias. O livro imediatamente se harmonizou com o que sentiam milhares de mulheres que desesperadamente buscavam escapar do estupidificante mundo da lide doméstica.

O livro de Friedan, no entanto, ignorava a importância das diferenças de raça e de classe, bastante reais, que existiam entre as mulheres. Ela optou conscientemente por se dirigir a este público de mulheres brancas de classe média. Como observa Coontz, ´´(…) o conteúdo e a estratégica de marketing de ´´A mística feminina“ concebidas por Friedan e seus editores ignoravam os exemplos positivos de mulheres negras no argumento de Friedan´´. Friedan certamente conheciam a realidade. Ela viajara junto o movimento de trabalhadores de esquerda durante os anos 1930 e 1940, mas decidira, em meados de 1950 (no ápice da caça às bruxas anticomunista da era McCarthy), reinventar-se na figura de uma esposa suburbana despolitizada.(34)

Poucas mulheres negras ou da classe trabalhadora de qualquer raça teriam sido capazes de levar a cabo a proposta de Friedan de que as mulheres contratassem trabalhadoras domésticas para realizar as suas tarefas diárias enquanto elas estivessem no trabalho. Assim, ´´as mulheres negras que chegaram a ler o livro raramente reagiram com o mesmo entusiasmo das leitoras brancas“.(35)

Friedan elogia às mãezonas caseiras que tiveram coragem de romper com seu papel tradicional e galgar carreiras bem remuneradas, escrevendo com simpatia para com todas estas mulheres que ´´obviamente tinham problemas, problemas grandes – burlar a gravidez, encontrar governantas e empregadas domésticas, ter de abrir mão de boas oportunidades de carreira quando seus maridos eram transferidos“. (36)No entanto, ela não julgou valer a pena comentar sobre as vidas das governantas e empregadas domésticas que estas mulheres de carreira contratavam, que também trabalhavam o dia inteiro, mas em seguida voltavam para casa para dar conta do trabalho doméstico e do cuidado das crianças sob sua própria responsabilidade.

Logo depois de ´´A mística feminina“ ser publicado, a ativista pelos direitos civis de esquerda e historiadora Gerda Lerner escreveu a Friedan, elogiando o livro, mas também expressando ´´uma única reserva“: Friedan dedicara o livro ´´somente aos problemas das mulheres de classe média com nível superior“. Lerner observa que “as mulheres trabalhadoras, especialmente as mulheres negras, trabalham não somente sob o peso das desvantagens impostas pela mística feminina, mas também sob as mais pesadas desvantagens da discriminação econômica“.(37)

Também vale a pena mencionar que Friedan introduz uma ideia profundamente anti-gay em ´´A mística feminina“ que viria a repercutir em seus esforços organizativos nos anos 70. Ela argumenta que


(…) a homossexualidade que está se espalhando como uma névoa obscura pelo cenário político americano“ tem suas raízes na mística feminina, que pode produzir ´´o tipo de devoção entre mãe e filho capaz de gerar homossexualidade latente ou aberta… O menino sufocado por um amor materno tão parasitário é impedido de crescer, não apenas sexualmente, mas em todos os sentidos .(38)

A reprodução do mito do estuprador negro

O racismo, contudo, não estava limitado à ala mais conservadora do movimento de mulheres. Susan Brownmiller, autora de ´´Contra nossa vontade: homens, mulheres e estupro“, publicado em 1975, apresenta as raízes da opressão às mulheres nos mais grosseiros termos biológicos, baseando-se na capacidade física do homem para estuprar: ´´Quando os homens descobriram que poderiam estuprar, eles começaram a cometer tais atos… A descoberta do homem de que sua genitália poderia servir como arma para gerar medo deve figurar como uma das mais importantes descobertas dos tempos pré-históricos, ao lado do uso do fogo e do primeiro machado de pedra lascada. Desde os tempos pré-históricos até o presente, creio eu, o estupro cumpriu um papel decisivo“. Nestes termos, Brownmiller conclui que os homens usam o estupro para reforçar seu poder sobre as mulheres: ´´(…) trata-se de nada mais e nada menos que um processo consciente pelo qual todos os homens mantêm todas as mulheres atemorizadas“.(39)

Este quadro teórico, baseado puramente em supostas diferenças biológicas entre homens e mulheres, permitiu que Brownmiller justificasse conjecturas reacionárias em nome do combate à opressão das mulheres. Ela chega a conclusões abertamente racistas em seu relato do linchamento de Emmett Till em 1955. Till, que tinha catorze anos, durante o verão visitava a família no Mississippi, ainda sob a Lei Jim Crow, quando cometeu o ´´crime“ de assobiar para uma mulher branca casada chamada Carolyn Bryant, numa brincadeira de adolescente. Till foi torturado e baleado, e então o corpo do rapaz foi desovado no rio Tallahatchie.

Apesar de Till ter sido linchado, Browmiller fala de Till e de seu assassino como se compartilhassem o poder sobre uma ´´mulher branca“, usando estereótipos que a ativista e acadêmica Angela Davis taxou como ´´a ressurreição do velho mito racista do estuprador negro“.(40)

As palavras da própria Brownmiller comprovam o juízo de Davis:


Raramente um único caso expôs de forma tão clara como o de Till os antagonismos subjacentes ao grupo masculino em relação ao acesso a mulheres, pois o que se passou na loja de Bryant não deveria ser falseado como um flerte inocente… Emmett Till pretendia mostrar aos seus colegas negros que ele – e por conseguinte eles também – poderia conseguir uma mulher branca e Carolyn Bryant era o objeto conveniente mais próximo. Em termos concretos, o que estava em questão era o acesso a todas as mulheres brancas´´.(41)

Brownmiller escreveu também o seguinte:


E quanto ao fiu-fiu, a ´´bravata adolescente de Till?“… O assobio não foi uma mexidinha, cheia de água na boca ou de admiração melodiosa por causa de umas pernas bem torneadas… Foi um insulto deliberado, no limiar de um ataque físico, um último alerta dado a Carolyn Bryant de que este rapaz negro, Till, tinha a intenção de possuí-la.(42)

A aclamada romancista, poeta e ativista Alice Walker respondeu nas páginas do New York Times Book Review de 1975: ´´Emmett Till não era um estuprador. Ele não era sequer um homem. Era uma criança que não entendia que assobiar para uma mulher branca poderia custar a sua vida“. (43)Davis descreveu as contradições inerentes à análise do estupro feita por Brownmiller: ´´ao escolher ficar do lado da mulher branca, independentemente das circunstâncias, Brownmiller capitula ao racismo. Seu fracasso em alertar as mulheres brancas a respeito da urgência de combinar um feroz combate ao racismo com a necessária batalha contra o machismo é uma contribuição importante para as forças racistas nos dias dia hoje´´.(44)

Em 1976, a revista Time designou Susan Brownmiller como uma de suas ´´mulheres do ano“, saudando seu livro como ´´a mais rigorosa e provocadora obra acadêmica que surgiu do movimento feminista´´.(45) As objeções à visão abertamente racista de Brownmiller por mulheres negras proeminentes como Davis e Walker passaram quase totalmente despercebidas no cenário político dominante.

O combate ao machismo e ao racismo nos anos 70

É preciso que se diga que muitas mulheres negras que se identificavam como feministas nos anos 70 e 80 eram fortemente críticas à recusa por parte do feminismo dominante em combater o racismo e outras formas de opressão. Barbara Smith, por exemplo, defendeu a inclusão de todos os oprimidos em um discurso de 1979, num claro desafio às feministas brancas, de classe média e heterossexuais:


O que faz do racismo uma questão feminista pode ser facilmente explicado pela definição inerente de feminismo. Feminismo é a teoria e a prática política pela emancipação de todas as mulheres: mulheres de cor, mulheres da classe trabalhadora, mulheres pobres, mulheres com necessidades especiais, lésbicas e idosas, assim como as mulheres brancas heterossexuais economicamente privilegiadas. Qualquer coisa menos que isso não é feminismo, mas mera auto exaltação feminina.(46)

Contudo, durante os anos 60 e 70 muitas mulheres negras e outras mulheres de cor também se sentiram postas de lado e alienadas pela falta de atenção para com a emancipação feminina dentro dos movimentos nacionalista e antirracista. O Coletivo Rio Combahee, por exemplo, era composto por mulheres veteranas do Partido Panteras Negras e de outras organizações antirracistas. Neste contexto político, as feministas negras estabeleceram uma tradição que rejeita a priorização da opressão às mulheres sobre o racismo e vice-versa. Esta tradição assume a conexão entre racismo e pobreza na sociedade capitalista, por conseguinte rejeitando as estratégias de classe média para a emancipação das mulheres que desconsideram a centralidade da classe nas vidas das mulheres pobres e da classe trabalhadora.

Feministas negras tal como Angela Davis contestaram a teoria e a prática de feministas brancas que fracassaram em tratar da centralidade do racismo. O livro divisor de águas de Davis, ´´Mulheres, Raça e Classe“(47), por exemplo, examina a história das mulheres negras nos Estados Unidos desde uma perspectiva marxista, começando pelo sistema escravista e adentrando o capitalismo moderno. Seu livro também examina as formas com que as questões dos direitos reprodutivos e do estupro, em particular, representam experiências profundamente diferentes para mulheres negras e brancas devido ao racismo. Cada um destes casos é abordado a seguir.

Os direitos reprodutivos e o abuso da esterilização racista

As feministas que dominavam o cenário dos anos 60 e 70 consideram a questão dos direitos reprodutivos exclusivamente como a conquista da legalização do aborto, sem reconhecer as políticas racistas que historicamente impediram que as mulheres de cor parissem e criassem quantos filhos elas quisessem.

Davis argumenta que a história do movimento de controle da natalidade é seus programas de esterilização racista necessariamente tornam a questão dos direitos reprodutivos muito mais complicada para as mulheres brancas e outras mulheres de cor, que historicamente foram alvo de tais abusos. Davis descreve a trajetória da pioneira do controle de natalidade no século XX, Margaret Sanger, desde seus primeiros dias como socialista até sua conversão ao movimento eugênico, uma abordagem declaradamente racista do controle populacional baseada no lema ´´[mais] filhos de adequados, menos de inadequados“.

Os tais ´´inadequados“ para ter filhos, de acordo com os eugenistas, incluíam os incapacitados mental e fisicamente, os prisioneiros e os pobres não brancos. Como observa Davis, ´´Por volta de 1932, a Sociedade de Eugenia podia se orgulhar de pelo menos vinte e seis estados terem aprovado leis de esterilização compulsória e de milhares de pessoas ´´inadequadas“ terem sido cirurgicamente impedidos de se reproduzir“.

No lançamento do ´´Projeto Negro“ em 1939, a Liga Americana de Controle de Natalidade, dirigida por Sanger, afirmava que ´´(…) a massa de negros, particularmente no sul, ainda procria irresponsável e desastrosamente“. Em uma carta pessoal, Sanger confessou que ´´Nós não queremos que se espalhe o boato de que desejamos exterminar a população negra e de que o pastor é o homem capaz de corrigir esta ideia se ela vier um dia a passar pela cabeça dos seus membros mais rebeldes“.(48)

Políticas racistas de controle populacional deixaram uma quantidade enorme de mulheres negras, latinas e nativas americanas estéreis contra sua vontade ou sem seu conhecimento. Em 1974, um tribunal do Alabama estimava que entre 100.000 e 150.000 adolescentes negras pobres eram esterilizadas todo ano no Alabama.

As décadas de 1960 e 1970 presenciaram uma epidemia de esterilização abusiva e de outras formas de coerção voltadas contra mulheres negras, nativas americanas e latinas – juntamente com uma ascensão das lutas contra estas atrocidades. Um estudo de 1970 demonstrou que 25% das mulheres nativas americanas foram esterilizadas e que as mulheres casadas negras e latinas foram esterilizadas em proporções muito maiores que as mulheres casadas do conjunto da população. Por volta de 1968, um terço das mulheres em idade fértil em Porto Rico – ainda uma colônia dos EUA – foram permanentemente esterilizadas.(49)

Ainda assim, as feministas da vertente dominante não apenas ignoravam estas lutas como também ampliavam o problema. Muitas adotaram as metas do controle populacional com todas as suas implicações racistas como se fosse uma causa eminentemente ´´liberal“.

Em 1972, por exemplo, um momento em que as nativas americanas e outras mulheres negras estavam lutando contra a imposição de políticas voltadas para suas comunidades, a Ms. Magazine perguntava às suas leitoras, quase todas brancas de classe média, ´´O que se pode fazer quando se é um cidadão consciente, preocupado com a explosão populacional e com os problemas ecológicos, que ama bebês e fica imaginando como o seu vai ser, e que deseja ter mais de um?“. A Ms. apresentava a solução: ´´Tenha um e adote outro“. (50)As crianças oferecidas para adoção eram em sua esmagadora maioria nativas americanas, negras, latinas e asiáticas.

A bem da verdade, a legalização do aborto por decisão da Suprema Corte dos EUA na ação movida por Roe contra Wade foi de importância capital para todas as mulheres como resultado direto das lutas populares. Por causa das consequências tanto econômicas quanto sociais do racismo, as vidas das mulheres negras, latinas e de outras mulheres de cor estavam em maior risco quando o aborto era ilegal. Antes de o aborto ter sido legalizado na cidade de Nova Iorque em 1970, por exemplo, as mulheres negras compunham 50% do total de mulheres que morriam depois de um aborto ilegal, enquanto as mulheres porto-riquenhas compunham outros 44%.(51)

A legalização do aborto em 1973 é normalmente considerada a mais importante conquista do movimento de mulheres moderno. Esta vitória, no entanto, foi acompanhada no fim daquela mesma década pelas muito menos alardeadas – mas igualmente importantes – vitórias contra os abusos da esterilização, que resultaram de lutas populares levadas a cabo principalmente por mulheres negras. Em 1978, o governo federal atendeu às demandas das ativistas nativas americanas, negras e latinas ao finalmente estabelecer regulamentos para a esterilização. Estes incluíam a exigência de períodos de espera e formulários de autorização na mesma língua falada pelas mulheres que concordasse em ser esterilizada.(52)

Davis observa que as mulheres negras´´estavam muito mais familiarizadas que suas irmãs brancas com os grosseiros bisturis assassinos de abortistas incompetentes que buscavam lucrar com a ilegalidade( 53) e, no entanto, estavam praticamente ausentes das campanhas pelo direito ao aborto. Ela conclui que ´´(…) as ativistas pelo direito ao aborto do início dos anos 70 deveriam ter estudado a história de seu movimento. Se o tivessem feito, poderia ter chegado a entender por que tantas de suas irmãs negras adotavam uma postura de suspeita em relação a sua causa“.(54)

O componente racial do estupro

O estupro é uma das manifestações mais agressivas de opressão à mulher em todo o mundo. Mas ao estupro também se vem atribuindo um pernicioso componente racial nos Estados Unidos, desde os tempos da escravidão, como uma das armas essenciais na manutenção do sistema de supremacia branca. Davis argumenta que o estupro é ´´uma dimensão essencial das relações sociais entre o senhor e a escrava“ que consiste no estupro rotineiro de mulheres negras escravizadas pelos senhores brancos.(55)

Ela descreve o estupro como ´´uma arma de dominação, uma arma de repressão, cujo objetivo oculto era aniquilar a disposição da mulher escrava em resistir e, com isso, desmoralizar seus homens“. (56)O estupro institucionalizado de mulheres negras sobreviveu à abolição da escravidão e ganhou uma forma moderna: ´´O estupro coletivo, perpetuado pela Ku Klux Klan e por outras organizações terroristas do período posterior à Guerra Civil, tornou-se uma arma política ostensiva nas mãos das forças de oposição ao movimento pela igualdade dos negros“.(57)

Gloria Joseph, feminista negra e marxista, faz a seguinte observação penetrante acerca da experiência compartilhada de racismo entre mulheres e homens negros: ´´A experiência da escravidão para os negros nos Estados Unidos trouxe uma contribuição irônica para a igualdade entre homem e mulher. Trabalhando nos campos e nas casas, homens e mulheres foram igualmente desumanizados e brutalizados“. Na sociedade moderna, ela conclui, ´´O estupro de mulheres negras bem como o linchamento e a castração de homens negros têm naturezas igualmente abomináveis“.(58)

A caricatura da virtuosa dama branca do sul, constantemente assediada por estupradores negros tinha sua contraparte na da mulher negra promíscua buscando a atenção sexual dos homens brancos. Como afirma Davis, ´´A imagem fictícia do homem negro como estuprador sempre reforçou o seu complemento inseparável: a imagem da mulher negra como incorrigivelmente promíscua… Por serem vistas como ´´mulheres fáceis“ e prostitutas, os choro das mulheres negras estupradas perdia, necessariamente sua legitimidade“. (59)Como Lerner igualmente exprime: ´´O mito do negro estuprador de mulheres brancas é gêmeo do mito da mulher negra sem valor – ambos destinados a exaltar e facilitar a contínua exploração dos negros e negras“.(60)

Brownmiller não estava sozinha na sua incapacidade de enfrentar os pressupostos racistas acerca do estupro, consequentemente reproduzindo-os. Davis critica enfaticamente as feministas brancas da era 1970 por negarem-se a integrar uma análise do racismo à teoria e à prática do combate ao estupro: ´´Durante o movimento antiestupro contemporâneo, poucas teóricas feministas analisaram com seriedade as circunstâncias especiais que afetam a mulher negra enquanto vítima de estupro. O nó histórico que ata as mulheres negras – vítimas sistemáticas de abusos e de violações por homens brancos – aos homens negros – mutilados e assassinados por causa da manipulação racista da acusação por estupro – mal começou a ser reconhecido de forma minimamente significativa“.(61)

O feminismo negro de esquerda como política de inclusão

Este artigo tentou mostrar como as feministas negras desde o tempo da escravidão desenvolveram uma tradição política própria baseada numa análise sistemática das opressões interligadas de raça, gênero e classe. Desde os anos 70, as feministas negras e outras feministas de cor dos Estados Unidos se apoiam nesta análise e desenvolvem uma abordagem que fornece uma estratégia para combater todas as formas de opressão nos marcos de uma luta comum.

As feministas negras – juntamente com as latinas e outras mulheres negras – da era de 1960 que eram críticas tanto ao feminismo predominantemente branco por seu racismo quanto ao nacionalismo e outros movimentos antirracistas por seu sexismo, repetidas vezes fundaram organizações separadas que pudessem abordar as opressões específicas que elas sofriam. E quando elas corretamente afirmavam as diferenças raciais e de classe que havia entre as mulheres, faziam-no porque estas diferenças eram majoritariamente ignoradas e negligenciadas por boa parte do movimento de mulheres daquela época, o que, portanto, tornava as mulheres negras e outras mulheres de cor invisíveis na teoria e na prática.

O objetivo final não era, no entanto, a separação racial permanente para a maior parte das feministas de esquerda negras e de cor, como se veio depois a entender. Barbar Smith concebia uma abordagem inclusiva para combater as opressões múltiplas, começando pela construção de uma coalização em torno das lutas específicas. Como ela observou em 1983, ´´Os setores mais progressivos do movimento de mulheres, incluindo as mulheres brancas radicais, trataram [as questões de racismo], e muitas outras, com muita seriedade“. (62)A feminista asiático-americana Merle Woo afirma explicitamente: ´´Hoje… eu fico ainda mais profundamente magoada quando penso quantas pessoas, muita gente mesmo, por causa do racismo e do machismo, não conseguem ver a força que nós desperdiçamos ao não darmos as mãos“. Porém, ela acrescenta: ´´nem todas as mulheres brancas são racistas, e nem todos os homens asiático-americanos são machistas. E há mudanças evidentes. Mudanças reais, tangíveis e positivas“.(63)

O objetivo da interseccionalidade dentro da tradição do feminismo negro tem sido o de construir um movimento mais forte pela emancipação das mulheres que represente os interesses de todas as mulheres. Barbara Smith descreveu sua própria imagem do feminismo em 1984: ´´Eu muitas vezes desejei poder divulgar a ideia de que um movimento comprometido com o combate à opressão sexual, racial, econômica e ´´heterossexista“(64), para não mencionar a oposição ao imperialismo, ao antissemitismo, às opressões que se abatem sobre os deficientes físicos, os idosos e os jovens, ao mesmo tempo em que desafia o militarismo e a catástrofe nuclear iminente, é o extremo oposto da estreiteza“.(65)

Esta abordagem para combater a opressão não apenas complementa, mas também fortalece a teoria e a prática marxistas – que busca unir não apenas todos aqueles que são explorados, como também todos os que são oprimidos pelo capitalismo em um único movimento que luta pela libertação de toda a humanidade. A abordagem das feministas negras acima descrita engloba a famosa citação de Lenin em ´´O que fazer?“: ´´A consciência da classe trabalhadora não pode ser verdadeiramente política a menos que os trabalhadores sejam educados a reagir a todos os casos de tirania, opressão, violência e abuso, não importando qual classe seja afetada – a menos que eles sejam educados, além disso, a reagir desde uma perspectiva socialdemocrata e não de qualquer outra“.(66)

O Coletivo Rio Combahee, que foi talvez a mais autoconsciente organização de esquerda do feminismo negro nos anos 70, reconhecia sua adesão ao socialismo e ao anti-imperialismo, ao passo que corretamente clamava por mais atenção à opressão:


Sabemos que a libertação de todos os povos oprimidos exige a destruição do sistema político-econômico do capitalismo e do imperialismo, bem como do patriarcado. Nós somos socialistas porque acreditamos que o trabalho deve ser organizado para o benefício da coletividade daqueles que fazem o trabalho e criam os produtos, e não para o lucro dos patrões. Os recursos materiais devem ser igualmente distribuídos entre aqueles que criam estes recursos. Não estamos convencidos, entretanto, de que uma revolução socialista que não seja também revolução feminista e antirracista irá garantir nossa libertação… Embora estejamos de acordo com a teoria Marx no essencial, tal como ela se aplica às mesmas relações especificamente econômicas que ele analisa, sabemos que sua análise deve ser ampliada para que possamos entender nossa situação econômica específica enquanto mulheres negras.(67)

Ao mesmo tempo, a interseccionalidade não pode substituir o marxismo – e as feministas negras nunca tentaram fazê-lo. A interseccionalidade é um conceito para a compreender a opressão, não a exploração. Mesmo o termo ´´classismo“, comumente usado, descreve um aspecto da opressão de classe – esnobismo e elitismo – mas não a exploração. A maioria das feministas negras reconhece as raízes sistêmicas do racismo e do sexismo, mas põem muito menos ênfase que os marxistas na conexão entre o sistema de exploração e a opressão.

O marxismo é necessário porque ele fornece uma estrutura de compreensão das relações entre opressão e exploração (ou seja, opressão como um subproduto do sistema de exploração de classe), e também identifica a estratégia para a criação de condições materiais e sociais que tornarão possível acabar tanto com a opressão quanto com a exploração. Os críticos do marxismo depreciaram esta estrutura como um aspecto do ´´reducionismo econômico“ de Marx.

No entanto, como replica a feminista marxista Martha Gimenez, ´´afirmar, então, que a classe é fundamental não significa ´reduzir` a opressão de gênero ou de raça à de classe, mas reconhecer que o poder subjacente básico e ´inominado` que está na raiz do que se passa nas interações sociais fundadas na ´interseccionalidade´ é o poder de classe.

A luta de classes ajuda a educar os trabalhadores – às vezes muito rapidamente – a desafiar ideias reacionárias e preconceitos que mantém os trabalhadores divididos. Quando os trabalhadores fazem greve, confrontando o capital e seus agentes repressivos (a polícia), a natureza de classe da sociedade se torna clara subitamente. Ideias racistas, sexistas ou homofóbicas cultivada por toda uma vida podem desaparecer em questão de dias em uma onda de greves de massa. A visão de centenas de policiais alinhados para proteger a propriedade do patrão ou para conduzir um bando de pelegos para dentro das fábricas diz o mesmo que tratados inteiros acerca da natureza de classe do Estado dentro do capitalismo.

O processo de luta também expõe outra verdade oculta sob as camadas da ideologia da classe dominante: enquanto produtores de mercadorias e de serviços que mantêm a dinâmica do capitalismo, os trabalhadores têm a capacidade de parar o sistema através de uma greve de massas. E os trabalhadores não apenas têm o poder para parar o sistema, mas também para substituí-lo por uma sociedade socialista, baseada na propriedade coletiva dos meios de produção. Embora outros grupos na sociedade sofram opressão, somente a classe trabalhadora possui este poder objetivo.

Estas são as razões básicas graças às quais Marx afirma que o capitalismo criou seus próprios coveiros na classe trabalhadora. Mas quando Marx define a classe trabalhadora como agente da mudança revolucionária, ele está descrevendo seu potencial histórico, em vez de uma conclusão antecipada. Esta é a chave para entender as palavras de Lenin. Toda a concepção leninista de partido de vanguarda se apoia no entendimento de que uma batalha de ideias deve ser travada dentro do movimento da classe trabalhadora. Um grupo de trabalhadores ganhos para a alternativa socialista e organizado em um partido revolucionário pode tirar outros trabalhadores das malhas das ideologias da classe dominante e oferecer uma visão de mundo alternativa. Para Lenin, a noção de consciência política vincula-se à disposição dos trabalhadores para defender os interesses de todos os oprimidos na sociedade como parte integral da luta pelo socialismo.

Como um acréscimo à teoria marxista, a interseccionalidade abre o caminho para um nível muito mais elevado de entendimento do caráter da opressão que o desenvolvido pelos marxistas clássicos, permitindo o ulterior desenvolvimento de formas com que a solidariedade pode ser construída entre todos aqueles que sofrem opressão e exploração sob o capitalismo, para que forjem um movimento unificado.

Notas:

(1) The Combahee River Collective, April 1977. Quoted, for example, in Beverly Guy-Sheftall, ed., Words of Fire: An Anthology of African-American Feminist Thought (New York: The New Press, 1995), 235. The statement is available online at www.circuitous.org/scraps/combahee.html.

(2)Nota da tradutora: organização do feminismo negro norte-americano que atuou entre 1974 e 1980. O nome é uma referência à ação heróica da abolicionista negra estadunidense Harriet Tubman que, em 1863, libertou 750 escravos nas proximidades do Rio Combahee, na Carolina do Sul. Esta declaração de 1977 pode ser lida na íntegra em

(3)Barbara Smith, ed., Home Girls: A Black Feminist Anthology (New Brunswick: Rutgers University Press, 2000), xxxiv.

(4)Kimberlé Crenshaw, “Demarginalizing the Intersection of Race and Sex: A Black Feminist Critique of Antidiscrimination Doctrine, Feminist Theory, and Antiracist Politics,” University of Chicago Legal Forum, 1989, 139–67.

(5)Ibid., 149.

(6)Crenshaw, “Demarginalizing the Intersection of Race and Sex,” 142.

(7)Ibid., 143.

(8)Ibid

(9)See, for example, Guy-Sheftall, Words of Fire.

(10) Nota da tradutora: Ativista abolicionista e feminista negra estadunidense que atuou na primeira metade do século XIX. O referido discurso pode ser lido em tradução em

(11) Nota do tradutor: estado da região centro-leste dos EUA, a mais industrializada do país.

(12)Sojourner Truth, “Ain’t I a Woman?” Women’s Convention, Akron, Ohio, May 28-29, 1851. Quoted in Crenshaw, 153.

(13)Nota do tradutor: a autora usa o verbo inglês ´´denigrate“, em minha interpretação, propositadamente, por seu sentido etimológico (cf. American Heritage Dictionary), que é o de ´´enegrecer´´, ´´tornar mais negro´´ (latim: de [intensificador] + niger, um [negro, fúnebre] > denigrare [enegrecer]) e, por extensão, ´´difamar“, atribuir características que são associadas ao negro na cultura de matriz europeia, donde deriva o sentido pejorativo no uso comum da palavra. Em português o verbo tem a mesma etimologia e o mesmo sentido pejorativo no uso comum (cf. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa). Por isto decidi usar o polêmico e, no contexto, cacofônico termo português, colocando esta nota. O uso da palavra pela autora em meu ver acusa o fato de que se atribuem certas características à mulher negra que não se atribuem à branca, de modo a tornar sua condição, para além de feminina, ainda mais oprimida socialmente.

(14)Ibid

(15)Ibid., 140.

(16)Título original: Black Feminist Thought: Knowledge, Consciousness and the Politics of Empowerment

(17)Nota da Tradutora: Métodos contraceptivos de longa duração.

(18)Patricia Hill Collins, Black Feminist Thought: Knowledge, Consciousness, and the Politics of Empowerment, second edition (New York: Routledge, 2001), 11–12.

(19)Ibid., 18.

(20)Quoted in Guy-Sheftall, Words of Fire, 345.

(21)Danielle L. McGuire, At the Dark End of the Street: Black Women, Rape, and Resistance—A New History of the Civil Rights Movement from Rosa Parks to the Rise of Black Power (New York: Random House, 2010).

(22)Ibid., xix–xx.

(23)Nota da tradutora: diferentemente do que é mais comum no Brasil, o subúrbio nos EUA é, geralmente, considerado um lugar nobre para moradia, com suas enormes casas.

(24)Betty Friedan, The Feminine Mystique (New York: W.W. Norton, 1964).

(25)Stephanie Coontz, A Strange Stirring: The Feminine Mystique and American Women at the Dawn of the 1960s (Basic Books, 2011), 124.

(26)Título original: “The Negro Family: The Case for National Action.”

(27)Office of Planning and Research, US Department of Labor, “The Negro Family: The Case for National Action, (March 1965).” Available online at www.dol.gov/asp/programs/history/webid-m….

(28)Nota da tradutora: nome, bastante pejorativo, da lei de segregação racial dos EUA que vigorou, nos antigos Estados Confederados do sul entre o fim da Guerra Civil e 1965. A lei foi aprovada por um parlamento dominado pelo Partido Democrata e prescrevia separação entre negros e brancos em todos os locais e instituições públicos. ´´Jim Crow“, em inglês americano do sul, é um nome pejorativo para ´´negro“, mais ou menos como o nosso “Jeca“, no sudeste, o é para o caipira sudestino. O nome deriva do título de uma famosíssima música cantada pelo ator e dramaturgo Daddy Rice, que atuava como blackface (quando atores brancos se pintavam de negro para representar os afrodescendentes), imitando de forma caricata o falar característico dos negros do sul estadunidense.,

(29)Report of the National Advisory Commission on Civil Disorders (New York: Bantam Books, 1968), 1–29. Available online at www.eisenhowerfoundation.org/docs/kerner….

(30)Ibid.

(31)Nota do tradutor: Harriet Tubman liderou 150 soldados negros da União numa incursão ao Rio Combahee. Tubman, assim, ficou conhecida pela alcunha de ´´Moisés de seu povo“, porque fora uma escrava fugitiva e ajudou na libertação de centenas de seus irmãos de raça, durante muitos anos, através da Underground Railroad, que traduzindo literalemente designa ´´Ferrovia Subterrânea“. Este nome, obviamente, é enganoso, se tomado literalmente. Tratava-se de uma metáfora vigente entre os escravos dos EUA, associada à outra, a dos ´´Trens do Evangelho“, que tomava a referência bíblica para falar das rotas de fuga para o norte dos EUA e para o Canadá. Assim, as tais “Ferrovias Subterrâneas“ por onde corriam os supostos ´´Trens do Evangelho“ não eram nem ferrovias, nem subterrâneas, mas sim rotas secretas utilizadas pelos abolicionistas e escravos para organizar fugas. Estas rotas eram compostas de estradas secretas e locais de abrigo, percorrendo o território dos estados escravistas, chegando à fronteira do Canadá. Outras rotas de fuga para escravos dos EUA levavam da Flórida a Cuba e do Texas para o México. Estas rotas, portanto, incluíam, por vezes, trajetos marítimos por rios e por mar.

(32)Combahee River Collective Statement.

(33)Ibid.

(34)Coontz, A Strange Stirring, 140.

(35)Ibid., 126.

(36)Ibid., 247.

(37)Ibid., 101.

(38)Friedan, The Feminine Mystique, 263–64.

(39)Susan Brownmiller, Against Our Will: Men, Women and Rape (New York: Ballantine, 1993), 14–15.

(40)Angela Y. Davis, Women, Race, and Class (New York: Vintage, 1983), 178.

(41)Brownmiller, Against Our Will, 272.

(42)Ibid., 247.

(43)Alice Walker quoted in D.H. Melhem, Gwendolyn Brooks: Poetry and the Heroic Voice(Lexington, Ky.: University Press of Kentucky, 1987), 249.

(44)Davis, Women, Race, and Class, 188–89.

(45)Ibid., 178.

(46)Quoted in Cherríe Moraga and Gloria Anzaldúa, eds., This Bridge Called my Back: Writings by Radical Women of Color (New York: Kitchen Table: Women of Color Press, 1983), 61.

(47)Título original: Women, Race and Class

(48)Davis, Women, Race & Class, 213–15.

(49)Rickie Solinger, ed., Abortion Wars: A Half Century of Struggle, 1950–2000 (Berkeley: University of California Press, 1998), 132; Committee for Abortion Rights and Against Sterilization Abuse (CARASA) and Susan E. Davis, ed., Women Under Attack (Boston: South End Press, 1988), 28.

(50)Quoted in Meg Devlin O’Sullivan, “‘We Worry About Survival’: American Indian Women, Sovereignty, and the Right to Bear and Raise Children in the 1970s,” Dissertation, (Chapel Hill: 2007). Available online at www.cdr.lib.unc.edu/indexablecontent?id=uuid:7a462a63-5185-4140-8f3f-ad094b75f04d&ds=DATA_FILE.

(51)Guardian (US), April 12, 1989, 7.

(52)Jael Silliman, Marlene Gerber Fried, et al., Undivided Rights: Women of Color Organize for Reproductive Justice (Cambridge: South End Press, 2004), 10.

(53)Davis, 204.

(54)Ibid., 215.

(55)Ibid., 175.

(56)Ibid., 24.

(57)Ibid., 176.

(58)Lydia Sargent, ed, Women and Revolution: A Discussion of the Unhappy Marriage of Marxism and Feminism (Cambridge, Mass.: South End Press, 1981), 94.

(59)Davis, 182.

(60)Quoted in Davis, 174.

(61)Ibid., 173.

(62)Smith, op cit., xxxi.

(63)Moraga and Anzaldúa, The Bridge Called My Back, 146.

(64)Nota da tradutora: optei por uma versão aportuguesada do termo original, heterosexist, ainda que inexistente em português.

(65)Smith, Home Girls, 257–58.

(66)Vladimir Ilyich Lenin, “What Is To Be Done? Burning Questions of our Movement,” Lenin’s Collected Works Vol. 5 (Moscow: Progress Publishers, 1973), 412. Available online at www.marxists.org/archive/lenin/works/1901/witbd/iii.htm.

(67)Combahee River Collective.

17 de julho de 2011

O fracasso da OTAN na Líbia

Alexander Cockburn

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names
Depois de três meses e meio de bombardear e fornecer armas a vários grupos de oposição a Gaddafi, o fracasso da OTAN, nos esforços para promover “mudança de regime” na Líbia, já salta aos olhos.

Claro que os comandantes da OTAN ainda esperam que alguma bala perdida consiga matar Gaddafi, mas, até agora, Gaddafi continua onde sempre esteve, os líbios não se levantaram contra ele e, de fato, são as potências que compõem a OTAN que brigam furiosamente entre elas.

As matérias que vêm da Turquia sobre as “decisões” do Grupo de Contato da OTAN para a Líbia têm uma aura surreal. A secretária de Estado dos EUA e Hague, ministro de Relações Exteriores britânico, falam em tom solene sobre o compromisso de ambos com a “mudança de regime” e com fortalecer os laços com o Conselho de Transição em Benghazi.

Mas o fracasso de toda a “operação OTAN” já é tema para historiadores – perfeito sinal de alerta sobre os perigos dos delírios políticos a serviço do “intervencionismo humanitário”, da insuficiência dos serviços de inteligência, das fantasias sobre a eficácia da guerra aérea e da mais impressionantemente mentirosa cobertura de imprensa de que se tem notícia na história contemporânea.

Considere-se o primeiro-ministro britânico David Cameron. Cameron deve agradecer a Rupert Murdoch e até a Andy Coulson, já atirado aos tubarões, por um irônico favor que lhe prestam. O espantoso erro, a obstinação de Cameron, que insistiu em contratar e manter Coulson, ex-editor do jornal News of the world, no posto de seu principal conselheiro “midiático”, está ocupando tão completamente as manchetes de toda a imprensa britânica nos últimos dias, que a opinião pública está sendo levada a esquecer outro espantoso erro de Cameron. E assim, Cameron vai-se livrando do ridículo e do escárnio, também no plano internacional.

Quando Cameron correu, com o presidente Sarkozy da França, no início de março, para comandar o ataque contra Gaddafi, nada parece ter perturbado a autoconfiança cega do primeiro-ministro. Foi como se a cegueira, as trapalhadas e os erros de Blair no Iraque, que depois se repetiram incansavelmente por vários anos, jamais tivessem existido.

Deve-se pressupor que Cameron, como Sarkozy, Clinton e Obama receberam informes, de seus serviços de inteligência, sobre a situação na Líbia. Será que nenhum daqueles espiões foi capaz de ver que Gaddafi poderia ser inimigo muito mais duro de derrotar que os presidentes da Tunísia ou do Egito? Que mobilizaria apoio popular a seu favor em Trípoli e no oeste da Líbia, regiões em que há oposição histórica contra Benghazi e o leste do país? É grave, se não receberam esses informes. Mas é ainda mais grave, se receberam e não lhes deram qualquer atenção.

A imprensa ocidental – e al-Jazeera não fez melhor serviço – pouco ajudou. As ‘notícias’ iniciais, de que Gaddafi estaria cometendo “genocídio” contra o próprio povo, ou que teria ordenado estupros em massa, sempre foram simples reprodução de boatos jamais confirmados ou dos panfletos de propaganda produzidos em Benghazi. Hoje se sabe que foram decisivos, só, para comprometer de vez a credibilidade de organizações como Anistia Internacional e Human Rights Watch.

Qualquer ambição que a Corte Internacional de Justiça da ONU ainda tivesse, de ser vista pela opinião pública como corte de justiça imparcial, ficou definitivamente comprometida, agora que já se viu que aquela Corte Internacional pôs-se como braço ‘jurídico’ da OTAN, a emitir mandados de prisão contra Gaddafi e seus aliados próximos, no momento em que a agenda de propaganda da OTAN assim lhe ordenou.
Jornalistas em Benghazi atuaram como garotos-propaganda do que, desde o início, sempre foi bando desorganizado de facções ou grupamentos políticos. Em Trípoli, os correspondentes só fizeram pintar caricaturas as mais horrendas de Gaddafi, temerosos de desagradar os editores se oferecessem matérias equilibradas, que os editores considerariam “soft”. Gaddafi tinha de continuar como sempre o mostrou a imprensa ocidental, ao longo de 40 anos de governo: a personificação ‘do mal’. Os norte-americanos belicistas e pró-guerra de sempre exultaram porque, afinal, caía-lhes no colo, uma “guerra justa”. E puseram-se a comemorar os bombardeios da OTAN, tanto quanto a “clarividência” e o ânimo “democrático” e a “pureza” revolucionária da gangue de Benghazi.

A história está cheia de exemplos em que uma tempestade de milhares de bombas e mísseis, dos quais sempre se louvam os padrões de “acuidade e perfeição” dos tiros, jamais conquistou o apoio de civis-alvos dos tiros. Não aconteceria diferente, é claro, mesmo que cada bomba e cada míssil trouxesse o carimbo-certificado de “auxílio humanitário” e “intenções democráticas”.

Trípoli tem visto manifestações-monstro contra a OTAN. A Líbia tem população de cerca de 6 mi de habitantes, 4 mi em Trípoli. Gaddafi visita as defesas da cidade em Jeep aberto. Os comitês de defesa da cidade receberam grande quantidade de fuzis AK-47 e estão treinados para defender-se. Todos esses líbios terão sido forçados por Gaddafi a se mobilizar? Pouco provável.

Essa semana, a imprensa ocidental, excitada, noticiou que alguns prisioneiros estariam denunciando Gaddafi. Ora! Se você fosse prisioneiro, com uma arma apontada para sua cabeça, você juraria fidelidade ao objeto preferencial do ódio de quem o ameaça? Ou murmuraria qualquer coisa que pudesse adiar o tiro fatal? Esse jornalismo faz vergonha a qualquer jornalismo. Quem são os “mercenários negros”? Os que são pagos para matar líbios pró-Gaddafi, ou os líbios do sul, que nasceram negros e lutam hoje nas milícias pró-Gaddafi?
Outro item, na lista de erros de avaliação da OTAN, foi a desqualificação das acusações que lhe foram feitas por líderes africanos, russos, e até por países membros da OTAN (como a Alemanha), de que duas resoluções do Conselho de Segurança da ONU aprovadas em fevereiro e depois no dia 17 de março – para proteger populações civis – estavam sendo abertamente distorcidas a favor dos esforços para matar Gaddafi e instalar no poder na Líbia a gangue do “governo provisório” de Benghazi.

No início de março, Sarkozy, que despencava nas pesquisas como candidato à reeleição, acreditou no que lhe disse o “novo filósofo” Bernard-Henri Lévy, que estivera em vilegiatura por Benghazi dia 6 de março, que a Líbia e todo seu petróleo estariam ‘no ponto’ para ser confiscados. Dia 11 de março, Sarkozy, impulsiva e precipitadamente, reconheceu a gangue de Benghazi como legítimo governo da Líbia e pôs-se a esperar, cheio de fé, o colapso de Gaddafi. Em brilhante e hilária avaliação da derrota da OTAN, Vincent Jauvert do Le Nouvel Observateur noticiou recentemente que os serviços de inteligência franceses garantiram a Sarkozy e ao seu ministro Juppe, do Exterior, que “imediatamente depois do primeiro ataque [aéreo], milhares de soldados de Gaddafi desertarão” [1]. Também previram que os ‘rebeldes’ rapidamente ocupariam Sirte, cidade natal de Gaddafi e o obrigariam a fugir do país. Esse ‘informe de segurança’ chegou a ser ‘noticiado’ em tom triunfante pelas potências da OTAN, que ‘noticiaram’ que Gaddafi já fugira para a Venezuela. Sempre se pode optar decididamente pela Grande Mentira, como instrumento de propaganda. Mas não, por favor, quando a coisa possa ser desmentida, como aconteceu nesse caso, passadas 24 horas!

"Subestimamos Gaddafi" – disse um funcionário francês ao Nouvel Observateur. Gaddafi preparou-se, durante 40 anos, para uma invasão à Líbia. Nunca imaginamos que responderia tão rapidamente. Ninguém jamais esperou, por exemplo, que, para transportar soldados e baterias de mísseis, Gaddafi conseguiria comprar rapidamente centenas de pick-ups Toyota no Niger e no Mali. Foi golpe de mestre: os caminhões e pick-ups são idênticos aos que os rebeldes têm. A OTAN está paralisada. É obrigada a adiar missões. Antes de qualquer tiro, é preciso identificar o alvo, saber se não é caminhão é rebelde ou não. ‘Temos pedido que os rebeldes identifiquem seus veículos, com alguma marca nos capôs’ – disse um soldado, 'mas nunca sabemos com certeza. O pessoal lá é muito desorganizado...'"

Dado que o colapso não aconteceu como previsto na agenda, o governo francês confirmou, no início de julho, que está enviando, por mar e por paraquedas, mais armas para os grupos “rebeldes”. Pode-se assumir que os britânicos também estejam pondo em andamento suas próprias operações clandestinas – embora a captura da unidade SAS/MI6 por fazendeiros líbios não seja bom augúrio.

A coalizão da OTAN está desmanchando-se, embora não haja notícia disso na imprensa dos EUA. O ministro francês da Defesa, Gerard Longuet, em entrevista no final de semana a uma rede francesa de televisão, disse que a ação militar contra a Líbia fracassou. E que é hora de iniciarem-se negociações diplomáticas: “Agora, temos de nos sentar em torno de uma mesa, e negociar. Pararemos de bombardear a Líbia no instante em que os líbios começarem a conversar entre eles e todos os exércitos, dos dois lados, retornarem às bases”.

Longuet sugeriu também que Gaddafi provavelmente permanecerá na Líbia “em outra ala do palácio, com outro título”.

Se as espantosas palavras de Longuet visaram só ao público francês, às vésperas de votação importante na Assembleia Nacional, ou não, mesmo assim é evidente que foram um choque para Cameron e Clinton. Para encobrir a evidência de que há divisão dentro da OTAN, Cameron e Clinton apressaram-se a divulgar “declarações” em que dizem que não há alteração no objetivo de “mudança de regime”, e que a partida de Gaddafi seria condição sine qua non – exatamente como a gangue de Benghazi quer.

Mas Berlusconi, na Itália à qual chegam dezenas de milhares de líbios que fogem da guerra, já começou a dizer que sempre se opôs à “aventura da OTAN na Líbia” desde o início. Talvez não renove, no próximo outono, os acordos vigentes para manter em território italiano bases das potências da OTAN. A Alemanha nunca apoiou entusiasticamente a tal “aventura da OTAN”. França e Grã-Bretanha nutriram, sim, esperanças de relações militares bem íntimas, mas essa esperança também logo se desmanchou, pelas razões de sempre – inércia, mútuas desconfianças e simples incompetência.

As desconfianças de Sarkozy sobre Alemanha e Turquia parecem ter sido tão intensas, segundo o Nouvel Observateur, que ele chegou a pedir que os representantes de Turquia e Alemanha fossem afastados da estrutura de comando da OTAN, sob o argumento de que poderiam boicotar a guerra, uma vez que eram bem conhecidas as restrições que Berlin e Ankara faziam a toda a operação na Líbia. Pelo estatuto da OTAN, se o líder supremo da OTAN, um general norte-americano, e o n. 2, um britânico, tiverem de afastar-se, o comando geral da OTAN passa a um general alemão. Sarkozy tentou alterar essa regra do estatuto.

Obama faz jogo duplo, forçado pelas pressões domésticas e por suas prioridades políticas. No início, a corrida rumo ao Conselho de Segurança foi iniciativa, principalmente, da secretária de Estado Hillary Clinton. No plano interno, em meados de fevereiro a popularidade de Obama atingia o fundo do poço. Falava-se de ‘presidente de um só mandato’. Clinton correu a ocupar o que viu como tentador vácuo político, já começando a alimentar esperanças de acelerar o declínio de Obama, o que a beneficiaria como concorrente potencial à presidência em 2012. Obama, lutando já contra o rótulo de ‘pato manco’, autorizou (do Brasil, onde estava) a operação da OTAN, autorização que, hoje, enfrenta acusações de inconstitucionalidade. Imediatamente depois disso, Clinton anunciou que considerava a possibilidade de abandonar a política nacional depois de 2012.

Em termos de equipamento, os EUA têm sido crucialmente importantes. Segundo um general francês ouvido pelo Le Nouvel Observateur, "33 dos 41 aviões para transporte de tanques (Boeing 767, KC-767) usados na operação da OTAN são norte-americanos, como a maioria dos Sistemas Aéreos Embarcados de Alerta e Controle (Airborne Warning and Control System, AWACS), todos os aviões-robôs tripulados a distância (drones) e 100% dos mísseis anti-radar e kits de orientação a laser para bombas. E não é tudo. Os principais recursos de comando e controle da OTAN, como a banda gigantescamente larga, para transmitir todos os tipos de dados, também são norte-americanos."

O Diretor de Inteligência Militar, general Didier Bolelli, revelou que mais de 80% dos alvos dos pilotos franceses que operam na Líbia são alvos definidos pelos EUA. “Dão-nos o mínimo indispensável, só para que não percebamos que não somos aliados” – diz um diplomata.

Quem ainda se lembrar da débâcle de Suez, em 1956, talvez ainda lembre que Eisenhower ordenou que as forças britânicas, francesas e israelenses simplesmente desistissem da tentativa de derrubar Nasser. Talvez estejamos assistindo a um replay, menos explícito, daquela demonstração conclusiva da dominação dos EUA, pós-II Guerra Mundial. Dessa vez, o governo Obama está afirmando que qualquer esforço para afirmar o controle europeu sobre o Mediterrâneo dará em nada.

Antes de aposentar-se, o ex-Secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates, aproveitou um discurso em Bruxelas, para torcer a faca na ferida: “A mais poderosa aliança militar da história (…) luta em operação contra regime mal armado, em país de população rala – e muitos aliados já estão ficando sem munição, pedindo que os EUA, mais uma vez, façam a diferença”. E arrematou, em tom de ameaça: “Futuros presidentes dos EUA (…) talvez não aceitem que ainda valha a pena o que hoje os EUA obtêm como lucro de seu investimento na OTAN”. [2]

Ainda que Obama apoie sinceramente a troca de regime na Líbia, a temperatura política nos EUA não favorece nenhum tipo de “surge” na Líbia – imensamente caro e em oposição ao clima reinante na opinião pública –, que parece ser a única alternativa que hoje resta, depois do fracasso da campanha de bombardeio intenso.

Não há qualquer sinal de que o líder dos Trabalhistas britânicos Ed Miliband, tão ferozmente entusiasmado, hoje, para assumir o comando do trem anti-Murdoch, tenha a clareza política de denunciar Cameron pela farsa na Líbia. O mais provável é que, como Cameron, abrace as “intervenções humanitárias”. Talvez diga, no máximo, que Cameron não bombardeou suficientemente a Líbia.

Em resumo, a esquerda deve festejar que operação prevista para ser simples ação colonialista de detonar e ocupar a Líbia, esteja hoje em cacos; que tenha gerado graves danos à credibilidade da OTAN e à farsa de que a OTAN teria algum respeito pela lei internacional.

Essa jaula de canguru que é a Corte Internacional de Justiça, também foi ainda mais desacreditada; outro motivo de festa, para as forças progressistas.

E quanto ao futuro? O ar está denso de especulações sobre acordo que já teria sido firmado, salpicado de desejos delirantes de norte-americanos e britânicos de que Gaddafi esteja à beira de cair, de que esteja sem combustível, de que a gangue de Benghazi estaria “apertando o cerco” a Trípoli, de que os russos encontrarão meio para salvar a reputação de todos. Melhor apostar na conclusão segundo a qual, passados quatro meses e meio, a OTAN e os intervencionistas estão sendo derrotados. Acrescentem-se a isso os problemas pelos quais passa também Rupert Murdoch, e não há dúvidas de que os progressistas do mundo têm muito o que legitimamente comemorar.

10 de julho de 2011

Todo o pessoal da redação

Alexander Cockburn

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Depois de uma semana de “caso Strauss-Kahn” a ouvir jornalistas e especialistas a repetir que a justiça nos EUA seria melhor que a francesa, eis os EUA, agora, envolvidos na ‘questão’ imediatamente seguinte. A questão’, agora, é se o jornalismo dos EUA sobreviverá ao mergulho nas profundezas imundíssimas do escândalo do jornal News of the World– cujo fechamento a empresa de Murdoch, News International, anunciou. Para piorar, um dos ex-editores do mesmo jornal, Andrew Coulson, foi o principal assessor “de mídia” do ex-primeiro ministro inglês Cameron. Coulson já foi preso, acusado de “prática de corrupção e de grampeamento ilegal de telefones” durante o tempo que trabalhou como empregado de Murdoch e editor-chefe do jornal News of the World.

E se, por acaso, Rupert Murdoch construísse seu império ‘midiático’ nos EUA?

Como assim… “se”?! A primeira aventura norte-americanas de Rupert Murdoch já é velha de quase 40 anos! Ele fundou, nos EUA o jornal Star, e um tablóide semanal, para competir com os best-seller de supermercado, The National Enquirer, que chafurdava nas águas turvas dos escândalos de Hollywood e de crimes os mais horrendos.

Mas havia uma enorme diferença em relação aos tablóides britânicos. Nos EUA, The Enquirer e o Star jamais foram contabilizados como parte da “grande imprensa nacional”, como foi, na Inglaterra, o News of the World. Não tinham qualquer influência política e não pregavam que seus eleitores votassem em alhos ou em bugalhos. Vendiam em lojas de conveniência e supermercados, para um público que nunca os trocaria pelo New York Times.

A imprensa autoproclamada respeitável, nos EUA, ignorava o Star e o Enquirer mesmo quando publicavam denúncias “quentes”. O Star, que Murdoch vendeu em 1990 à empresa-mãe que controlava o Enquirer, foi o primeiro jornal que tornou públicas, em janeiro de 1992, as atividades extra-cerca conjugal de Clinton, durante a campanha eleitoral à presidência. Clinton só sobreviveu, porque a matéria sobre seu longo romance com Gennifer Flowers, foi publicada noStar, e a informação pôde ser desqualificada, na “grande mídia”, por ter aparecido num mero “tablóide de escândalos”.

O mesmo aconteceu com o Enquirer e John Edwards, que concorria à presidência, em 2008, e vivia vida dupla com a amante e com a esposa que morria de câncer. O Enquirer noticiou acuradamente a existência de um “filho do amor” de John e Rielle, no preciso momento em que Edwards se beneficiava, apresentado como vítima de mais um “tablóide”. Até que o Enquirer foi selecionado para concorrer a um prêmio Pulitzer de jornalismo… e a comissão julgadora, formada de respeitáveis “grandes” executivos da “grande” imprensa tomou as necessárias providências para que não fosse premiado.

Os dois jornais, o Star e o Enquirer eram dirigidos por jornalistas veteranos e nada autoriza a garantir que fossem, por traços genéticos inatos, talvez, de calibre moral muito superior à gangue que trabalha para Murdoch no News of the World, ou que sentiriam arrepios “éticos” ante a ideia de grampear telefones ou violar correspondência real ou virtual, ou de manter relações corruptas com policiais etc.

A verdade é que o Enquirer chegava com tal facilidade à informação em tempo real, sobre os movimentos de Edwards e da amante que, em retrospectiva, parece razoável supor que tivesse jornalistas tão infiltrados na vida privada de seus personagens quanto o hacker Glenn Mulcaire, que tanto trabalhou para atender as encomendas e pautas dos editores do jornal News of the World.

O momento mais negro da imprensa dos EUA aconteceu nos anos 1940s e 1950s. O filme “A montanha dos sete abutres” [orig. Ace in the hole] de Billy Wilder, de 1951, e, seis anos depois, “A Embriaguez do Sucesso”, filme inesquecível de Alexander McKendrick, com Burt Lancaster na pele de personagem inspirado no colunista social Walter Winchell, imensamente poderoso, expuseram com precisão e profundidade a mesma corrupção moral de jornalistas e jornais que, hoje, tanto escandaliza os britânicos, quando se descobre que News of the World invadiu, em 2002, a caixa de correspondência de Milly Dowler.

Foi o tempo em que Hoover, o todo-poderoso chefe do FBI, trabalhava aplicadamente, todas as semanas, com jornalistas que publicavam em todo o país, como Winchell e Hedda Hopper, para destruir todos que, para ele, fossem comunistas, negros influentes e subversivos em geral. Em meados dos anos 1970s, o radicalismo estava em baixa e a aliança tática entre jornalistas, colunistas e policiais já não era decisivamente importante para interferir na vida política do país. No final dos anos 1970s, o jornalismo “de celebridades”, sobre Hollywood, tornou-se dominante, absolutamente controlado pelos grandes estúdios.

Murdoch começou com o Star, porque os jornais das grandes cidades não estavam à venda naquele momento. Então, em 1976, quando pôde, comprou o New York Post, e parece ter-se desinteressado do Star.

Quando comprou o Post a “grande” imprensa tratou a venda do jornal liberal de Dolly Schiff como momento negro do jornalismo nos EUA. Time, Newsweek e a revista New York (mais tarde comprada também por Murdoch) publicaram caricatura de Murdoch na capa, como um macaco urrando no topo do Empire State.

Adiante, com o império já em formação, mas com os jornais comprados valendo cada dia menos e as dívidas crescendo e devorando sua fortuna pessoal, Murdoch saiu de foco. Os jornais dos EUA, então, eram quase todos monopólios regionais.

Mas nada como pressões competitivas para inspirar um editor-chefe ou um publisher, a convocar seus brucutus e arapongas. Só quando Murdoch, depois de comprar o Wall Street Journal em 2007, começou a ameaçar o nicho doNew York Times, o Times, comandado pelo editor recentemente demitido Bill Keller, decidiu publicar, em setembro passado, em longa matéria, revelações sobre o escândalo dos telefones clonados pelo News of the World, de 2005. A matéria deu nova vida às denúncias contra o império de Murdoch.

O que começou na Grã-Bretanha em 2005 como “furto de terceira classe” de mensagens de voz, supostamente limitadas à invasão criminosa, por um jornalista do News of the World e um detetive, converteu-se lindamente, sete anos depois, em escândalo “grau 7” na escala “midiática”, que ameaça as carreiras de dois dos principais executivos de Rupert Murdoch, além, é claro, de ameaçar seriamente o futuro do herdeiro presuntivo do império da News Corp. James Murdoch. E pegou pelos calcanhares o velho magnata, aos 80 anos, ameaçando o triunfo financeiro com o qual sempre esperou comprar passe livre para o Valhalla.

Cameron ainda não acabara de mudar-se para Downing Street n. 10, quando nomeou Andy Coulson como seu conselheiro “de mídia”. Foi declaração de compromisso, uma vez que Coulson era conhecido personagem do arquipélago Murdoch e já trabalhara como editor de News of the World – emprego equivalente ao de supervisor da distribuição de material de esgotos não tratado, diretamente nos lares de 3 milhões de britânicos, todos os domingos. O fato de tê-lo nomeado definiu Cameron como mais um morador da Downing St n. 10 empenhado em produzir e servir o que Murdoch ordenasse, exatamente como Blair, antes dele. Mas a nomeação de Coulson foi erro que levou Cameron a cometer erro ainda mais estúpido. Depois que Coulson foi preso, Cameron recusou-se a desculpar-se publicamente por tê-lo contratado. Disse que aceitara a palavra de Coulson – que lhe dissera que nada tinha a ver com o escândalo dos telefones grampeados, quando trabalhara como editor do News of the World – e que não tinha motivos para não acreditar nele. Disse que Coulson era “e continua(va) a ser” seu amigo. O primeiro-ministro britânico defendeu Coulson. Exatamente como Murdoch defende sua editora de hoje, Rebekah Brooks.

Ainda nos primeiros estágios do escândalo dos telefones grampeados, Coulson demitiu-se da editoria, quando um jornalista do News of the World, Clive Goodman, e o detetive Mulcaire foram condenados por ter grampeado telefones de membros da Família Real. Com Goodman e Mulcaire na cadeia e Coulson demitido, os altos executivos de Murdoch sem dúvida contaram com que o escândalo estaria enterrado para sempre.

A primeira linha de defesa do jornal, naquele processo – que Goodman e Mulcaire seriam jornalistas free-lancers sem vínculo com o jornal, e que não haviam seguido o padrão “ético” do jornal – veio abaixo logo no início, pelo absurdo flagrante. Como disse Nigel Horne, editor-executivo do diário The First Post britânico, “A ideia de um jornalista bandido distribuir dinheiro sem o conhecimento do chefe é piada”. O jornal pagava 2.000 libras por semana ao detetive Mulcaire.

Dia 21/1/2005, Coulson deixou o cargo de assessor de “mídia” de Cameron, dizendo que tinha de cuidar de sua defesa no processo.

Em 2002, o News of the World entrou ilegalmente na caixa de mensagens de voz de uma estudante desaparecida, Milly Dowler, imediatamente depois do desaparecimento. A notícia, publicada pelo Guardian inglês, na 2ª-feira passada, causou furiosa indignação na Grã-Bretanha.

Depois de gravar as mensagens, Mulcaire deletou mensagens mais antigas da caixa de mensagens de Milly Dowler, para deixar espaço para que o telefone recebesse as mensagens desesperadas da família e de amigos, que Mulcaire também interceptou e passou para os jornalistas do News of the World. Ao deletar as mensagens da caixa postal do telefone celular de Milly Dowler, o jornal levou a família a crer que a própria Milly esvaziara sua caixa postal, o que seria prova de que estaria viva. A família, cheia de esperanças, foi assunto do jornal por vários dias, que publicou entrevistas otimistas de familiares da jovem. Só o jornal, claro, sabia que nada havia que justificasse tantas esperanças.

Ao deletar as mensagens, o jornal também destruiu provas de crime sob investigação policial. Tanto a destruição das provas quanto o conteúdo das mensagens destruídas tiveram impacto negativo direto nas investigações sobre o desaparecimento de Milly.

Enquanto avança a sombria saga de News of the World impelida pelo material agora publicado pelo Guardian, vem-me à lembrança escândalo semelhante, muito norte-americano, que levou Richard Nixon a renunciar. Começou, de fato, quando um dos principais assessores de Nixon, John Ehrichman, formou uma “unidade de encanadores da Casa Branca”, com a específica tarefa de invadir telefones e escritórios, e despachou seus “encanadores” para o escritório de Daniel Ellsberg [que publicara os “Documentos do Pentágono”, sobre a guerra do Vietnã, vazados para o público], à procura de material que incriminasse Ellsberg. Se houvesse telefones celulares naquele tempo, também teriam sido invadidos.

Depois veio o falso “assalto” aos escritórios do Comitê Nacional do Partido Democrata, Os “assaltantes” lá entraram para instalar microfones clandestinos, mas foram apanhados. Foi quando, para Nixon, no início lentamente, os céus começaram a desabar. Foram dois anos. A investigação, por duas comissões do Congresso, com promotor independente e jornais dirigidos por adversários políticos de Nixon foram, aos poucos, empurrando a responsabilidade ladeira acima, diretamente rumo à Casa Branca, até chegar ao gabinete de John Ehrlichman. Para livrar-se de acusações de perjúrio e obstrução da justiça, vários suspeitos implicaram os superiores.

As revelações tornaram-se mais devastadoras, dia a dia. Nixon demitiu Ehrlichman. Por fim, um funcionário de baixo escalão da Casa Branca deixou escapar, numa audiência no Congresso, que Nixon gravara secretamente suas reuniões. A Promotoria exigiu que as fitas fossem apresentadas. Encontrou-se a indispensável “arma do crime”. Nixon renunciou poucos dias depois.

“Nunca acredite em coisa alguma, até que seja desmentida”, meu pai Claud costumava aconselhar a jornalistas jovens. Agora, aí está Murdoch a dizer que a principal executiva de News of the World na Inglaterra, Rebekah Brooks, estava em férias na Itália no momento em que outros executivos do News of the World pagavam 2 mil libras por semana a Mulcaire e enquanto a caixa de mensagens de Milly Dowler estava sendo invadida. Na Itália, com certeza, Brooks não tinha acesso a telefone, faxes e e-mails de Londres, em 2002.

Nem bem o caso da rua Downing n. 10 saíra das manchetes, começaram as revelações de que Coulson autorizara que News of the World subornasse altos oficiais da Scotland Yard; consumiu nisso, no mínimo, 150 mil libras. Famílias de soldados britânicos no Iraque e no Afeganistão também tiveram e-mails e telefones grampeados. Telefonemas e e-mails indignados começaram a chover sobre o jornal, o que levou a um boicote de anunciantes.

Murdoch, ao começar a entender a crise, trabalhou, primeiro, claramente, para salvar o grande negócio em está construindo hoje – a proposta de 20 bilhões de dólares que sua empresa, News Corp., acaba de apresentar para comprar o pleno controle da enormemente lucrativa rede BSkyB (hoje, a News Corp. controla cerca de 40% da BSkyB). O governo Cameron já autorizara o negócio – argumentando que o escândalo do News of the World não seria relevante. Mas a fúria popular depois que se divulgaram detalhes da história de Coulson com a rua Downing forçaram Cameron a tentar ganhar algum tempo. Refugiou-se no conhecido valhacouto de tantos crimes e bandidos – criou uma comissão de inquérito para investigar as práticas do jornalismo britânico, comissão que ainda não tem objetivo explícito, nem prazos e cuja única função é esvaziar o escândalo revelado por alguns jornais, sobre outros jornais concorrentes.

Os opositores de Murdoch argumentam que, em negócio tão importante, que afeta tão diretamente o controle de toda a televisão britânica, quanto a compra do controle acionário da BSkyB, os traços morais do comprador são obviamente relevantes.

No meio da semana, Murdoch tomou a decisão mais lógica, considerando que o News of the World está comprometido para sempre; que é fonte sem fim de problemas e de processos e acordos judiciais caríssimos; e que a carreira de Rebekah Brooks está acabada na Inglaterra. Seu filho James anunciou que News of the World será fechado. Que a última edição circula domingo, 10/7.

A cada semana sem o News of the World a empresa News International deixa de faturar mais de 2,5 milhões de libras. O jornal – que tem, de longe, a maior circulação nos domingos, na Grã-Bretanha: 2,66 milhões de exemplares – gerava 2 milhões de libras da venda em bancas e cerca de 660 mil libras de renda de anúncios, por semana. É muito, mesmo para os números estratosféricos da renda total da News International.

É o preço a pagar, para salvar o negócio da compra da BSkyB. Depois de curta quarentena, não há dúvidas de que o News of the World será substituído por edição dominical do outro grande tablóide de Murdoch na Grã-Bretanha. Talvez já no próximo outono, brote o Sun dominical. O escândalo não morrerá, porque as vítimas de telefones e e-mails invadidos já fazem fila nos tribunais à procura de acordos polpudos, e as investigações policiais com certeza levarão à prisão de outros jornalistas do News of the World. Mas é altamente provável que a cúpula das empresas escape da cadeia, a menos que Coulson – que claramente está sendo jogado aos tubarões – decida apresentar os documentos que, sem dúvida, ele tem.
As British journalist, Peter Burden, a British journalist who has written extensively about News of the World, wrote on his blog a few weeks ago:

"If Andy Coulson was involved, so was Rebekah Brooks. If Rebekah Brooks was involved, so was Master James [Murdoch]. And if they were, it’s very likely that Les Hinton, CEO of [Dow Jones and Company] (the brightest bird in Rupert Murdoch’s bush), was involved, too, because he was Executive Chairman of News International at the time."

Poucos empregados e executivos de grandes corporações são mais sensíveis às tendências, desejos, opções partidárias e ideias morais dos superiores que os jornalistas. Murdoch, empresário que sempre jogou muito duro e pouca atenção deu aos princípios morais ou éticos ao longo de toda sua vida profissional, lança sua longa sombra escura sobre todo o jornalismo na Austrália, Grã-Bretanha e EUA. Como dizem os desentupidores de canos, “a merda descendo pelo cano, o pagamento aparece, no fim do mês”. Da mais alta cúpula empresarial, até o menos afamado jornalista dessas redações, todos sempre se empenham muito em fazer o que os mandam fazer.

3 de julho de 2011

A ecologia da economia política de Marx

John Bellamy Foster [*]

Monthly Review

Tradução / Não é já segredo que estamos diante de uma emergência planetária ambiental, colocando em risco a maioria das espécies do planeta, incluindo a nossa, e que esta catástrofe iminente tem suas raízes no sistema econômico capitalista. No entanto, os perigos extremos que o capitalismo inerentemente representa para o meio ambiente são muitas vezes inadequadamente entendidos, dando origem à crença de que é possível a criação de um novo "capitalismo natural" ou "capitalismo climático", em que o sistema deixaria de ser o inimigo do meio ambiente, tornando-se seu salvador [1]. O principal problema com todas essas visões é que elas subestimam a ameaça cumulativa para a humanidade e para a Terra decorrente das relações de produção existentes. Na verdade, como vou aqui defender, a dimensão completa da crise ecológica planetária só pode ser entendida a partir de um ponto de vista informado pela crítica marxista do capitalismo.

Uma fraqueza comum de muitas críticas ambientais radicais do capitalismo é que elas estão ligadas a noções abstratas do sistema com base em condições do século XIX. Como resultado, muitos dos fundamentos historicamente específicos das crises ambientais relacionados com as condições do século XX (e XXI) não foram suficientemente analisados. A própria crítica ecológica indispensável de Marx foi limitada pelo período histórico em que ele escreveu, ou seja, a fase competitiva do capitalismo, e, assim, ele não foi capaz de captar certas características cruciais da destruição ambiental que estavam a surgir com o capitalismo monopolista. Na análise seguinte, por isso, vou discutir não apenas a crítica ecológica fornecida por Marx (e Engels), mas também a de economistas políticos marxistas e radicais mais tardios, incluindo figuras como Thorstein Veblen, Paul Baran, Paul Sweezy, e Allan Schnaiberg.

Marx e a Raubbau Capitalista

Raramente é reconhecido que o primeiro ensaio político-econômico de Marx - "Debates sobre a lei de roubo de madeira", escrito em 1842, durante sua editoria do jornal Rheinische Zeitung – se centrou na questão ecológica. A maioria das pessoas encarceradas, na Prússia dessa época, eram camponeses condenados por pegar madeira morta nas florestas. Na realização desse atos, os camponeses limitavam-se ao exercício do que tinha sido um direito costumeiro, mas que fora anulado com a disseminação da propriedade privada. Observando os debates sobre esta questão na Dieta Renana (a assembleia provincial da Renânia), Marx comentou que a disputa se centrava sobre qual a melhor forma de proteger os direitos de propriedade dos terratenentes, enquanto os direitos consuetudinários da população em relação à terra eram simplesmente ignorados. Camponeses empobrecidos eram vistos como o "inimigo da madeira", porque o exercício de seus direitos tradicionais para reunir lenha, principalmente como combustível para cozinhar e aquecer suas casas, transgredia os direitos de posse dos detentores de propriedade privada [2].

Não foi muito depois disso que Marx começou sua pesquisa sistemática sobre economia política. Não deve, portanto, surpreender-nos que já em seus Manuscritos Econômicos e Filosóficos de 1844 ele estava focando a questão da acumulação primitiva, ou seja, da desapropriação dos camponeses que estavam sendo retirados da terra no curso do desenvolvimento capitalista. Foi esta separação dos trabalhadores da terra, como meio de produção, que ele mais tarde referiria, em ‘O Capital’, ser a "condição histórica do modo de produção capitalista" e sua "fundação permanente", a base para o surgimento do proletariado moderno [3]. O capitalismo começou como um sistema de invasão da natureza e da riqueza pública.

Aqui é importante reconhecer que, na raiz da crítica de Marx à economia política, esteve a distinção entre valor de uso e valor de troca. Toda mercadoria, explicou nas páginas de abertura de ‘O Capital’, tinha tanto um valor de uso como um valor de troca, com o último cada vez mais dominando o primeiro. O valor de uso foi associada com as exigências da produção em geral e com a relação humana básica com natureza, ou seja, às necessidades humanas fundamentais. O valor de troca, ao contrário, foi orientado para a busca do lucro. Isto estabeleceu uma contradição entre a produção capitalista e a produção em geral (isto é, as condições naturais de produção).

Esta contradição foi muito evidente, nos tempos de Marx, naquilo que veio a ser conhecido como o Paradoxo Lauderdale, em homenagem a James Maitland, o oitavo conde de Lauderdale (1759-1839). Lauderdale foi um dos primeiros economistas políticos clássicos, autor da obra ‘Um inquérito sobre a natureza da riqueza pública e sobre os meios e as causas do seu aumento’ (1804). A riqueza pública, explicou ele, consiste em valores de uso, que, como a água e o ar, muitas vezes existem em abundância, enquanto que as riquezas privadas se sustentam em valores de troca, o que exigia a sua escassez. Sob tais condições – imputou ele a este sistema - a expansão das riquezas privadas passou a ir de par com a destruição de riqueza pública. Por exemplo, se o abastecimento de água que anteriormente estava disponível gratuitamente passa a ser monopolizado, sendo uma taxa cobrada nos poços, então a riqueza medida da nação seria aumentada, à custa da riqueza pública.

"O senso comum da humanidade", declarou Lauderdale, "revoltar-se-ia" a qualquer proposta de aumentar as riquezas particulares "criando uma escassez de qualquer produto geralmente útil e necessário para o homem". Mas a sociedade burguesa em que vivia, como ele reconheceu, já estava fazendo isso mesmo. Assim, colonos holandeses tinham, em períodos particularmente férteis, queimado "especiarias" ou pago a nativos para "recolher as flores jovens e folhas verdes das árvores de noz-moscada" para as matar; enquanto que os plantadores de Virgínia, por determinação legal, queimavam uma certa parte das suas culturas para manter o preço. "Assim existe realmente este princípio, compreendido por aqueles cujo interesse os leva a tirar vantagem disso", escreveu ele, "de que apenas a impossibilidade de concertação geral protege o patrimônio público contra a rapacidade da avareza privada" [4].

Marx via o Paradoxo Lauderdale, decorrente da "razão inversa entre dois tipos de valor" (valor de uso e valor de troca), como uma das principais contradições da produção burguesa. Todo o padrão de desenvolvimento capitalista foi caracterizado pelo desperdício e destruição da riqueza natural de sociedade [5]. "Pela sua mesquinhez", escreveu ele, "a produção capitalista é completamente desperdiçadora de material humano, do mesmo modo que a sua forma de distribuição de seus produtos através do comércio, e a sua forma de concorrência, a tornam muito desperdiçadora de recursos materiais, de forma que ela perde para a sociedade [riqueza pública] o que ganha para os capitalistas individuais [riquezas privadas]" [6]

A dominação do valor de troca sobre o valor de uso no desenvolvimento capitalista e o impacto ecológico que isso implica também podem ser vistos na fórmula geral do capital de Marx, M-C-M’. O capitalismo é comumente descrito como um sistema de produção de mercadorias simples, C-M-C, em que o dinheiro é simplesmente um intermediário num processo de produção e de troca, começando e terminando com valores de uso particulares incorporadas em produtos concretos. Em contraste, Marx explicou que a produção e troca capitalistas tomam a forma de M-C-M', em que o capital-dinheiro é avançado para o trabalho e os materiais com que se produz uma mercadoria, que pode ser vendida por mais dinheiro, ou seja, M', ou M + Dm (mais-valia), no final do processo. A diferença crucial aqui é que o processo nunca termina realmente, porque o dinheiro ou valor abstrato é o objetivo. O M' é reinvestido no período seguinte, resultando em M'-C-M'', o que leva a M’’-C-M'’’, no período a seguir a esse, e assim por diante.

Sob este sistema, a fim de manter uma determinada percentagem da riqueza, o capitalista deve procurar continuamente a sua expansão. A lei do valor, portanto, constantemente sussurra para cada capitalista individual e para a classe capitalista como um todo: "Vá em frente! Vá em frente!" Isso, no entanto, requer o revolucionamento incessante da produção, para substituir a força de trabalho e promover o lucro, ao serviço de uma acumulação cada vez maior. Além disso, enquanto a produção cresce, "o círculo de consumo dentro da circulação" deve crescer proporcionalmente. Intrínseca à relação capital, insistiu Marx, está a recusa em aceitar quaisquer limites absolutos para o seu avanço, que foram tratados como meros obstáculos a serem transpostos. Estas proposições, intrínsecas à Economia Política de Marx, constituíram as bases para o que mais tarde Schnaiberg viria a chamar o modelo de "produção em rodagem perpétua" (treadmill of production) [7].

A contribuição ecológica mais notável de Marx, no entanto, está em sua teoria da ruptura metabólica. Com base no trabalho do grande químico alemão Justus von Liebig, Marx argumentou que, ao enviar alimentos e fibras a centenas e milhares de quilômetros de distância, para os novos centros urbanos de produção industrial, nos quais a população estava cada vez mais concentrada, o capital acabou roubando a terra de seus nutrientes, tais como o azoto, o fósforo e o potássio, que em vez de ser devolvidos para a terra foram criar poluição nas cidades. Liebig chamou a isto de "Raubbau" ou de sistema de roubo. Como afirmou Ernest Mandel em sua Teoria Econômica Marxista:

“Cientistas sérios, nomeadamente o alemão Liebig, tinham chamado a atenção para um fenômeno realmente preocupante, o crescente esgotamento do solo, o Raubbau, resultante dos gananciosos métodos capitalistas de exploração destinados a obter o maior lucro no menor tempo. Enquanto que as sociedades agrícolas, como a China, o Japão, o Egito antigo, etc., tinham conhecido uma forma racional de fazer a agricultura, que conservava e até aumentava a fertilidade do solo ao longo de milhares de anos, o Raubbau capitalista tinha sido capaz, em certas partes do mundo, de esgotar a camada fértil do solo... em meio century” [8].

Para Marx, esta Raubbau capitalista tomou a forma de uma "racha irreparável" dentro da sociedade capitalista no metabolismo entre a humanidade e a Terra - "um metabolismo prescrito pelas leis naturais da própria vida" - exigindo sua "restauração sistemática como uma lei reguladora da produção social”. Na industrialização da agricultura, sugeriu ele, a verdadeira natureza da "produção capitalista" foi revelada como sendo a de que "só se desenvolve minando simultaneamente as fontes originais de toda a riqueza - o solo e o trabalhador".

A fim de compreender o significado desta crítica ecológica para a crítica geral do capitalismo de Marx, é necessário reconhecer que o processo de trabalho e de produção foi, ele próprio, designado, em sua análise, como uma relação metabólica entre os seres humanos e a natureza. A definição primária de Marx do socialismo/comunismo foi, portanto, de uma sociedade em que "os produtores associados regulam o metabolismo humano com a natureza de forma racional... realizando-a com o mínimo dispêndio de energia". Junto com isso, ele desenvolveu a concepção mais radical que é possível da sustentabilidade, insistindo em que ninguém, nem mesmo todos os países e povos do mundo tomados em seu conjunto, é proprietário da Terra; que esta está simplesmente legada à confiança e precisa ser mantida para sempre em linha com o princípio do boni patres familias (bons chefes de família). Sua crítica ecológica global, portanto, requeria que, em vez das fendas abertas desenvolvidos sob o capitalismo, houvessem ciclos metabólicos fechados entre a humanidade e a natureza. Isto permitiu-lhe incorporar conceitos termodinâmicos em sua compreensão da economia e da sociedade [9].

A totalidade dos conhecimentos ecológicos de Marx ia, naturalmente, para além dos pontos anteriormente referidos. O espaço, no entanto, não nos permite o tratamento completo deles aqui. Ainda assim, vale a pena observar que a sua análise, juntamente com a de Engels, também tocou em questões críticas como o "esbanjamento" de combustíveis fósseis e de outros recursos naturais; a desertificação; a desflorestação e mudanças climáticas regionais - já compreendidas por cientistas do tempo de Marx, como resultantes, em parte, da degradação dos ambientes locais produzida pelo homem [10].

O Capital Monopolista e o Meio Ambiente

Elementos da crítica ecológica geral de Marx refletiram desenvolvimentos na ciência material, proporcionando inspiração direta e indireta para uma série de importantes cientistas materialistas e filósofos da ciência, nas décadas que se seguiram. As coisas eram bem diferentes, porém, dentro da Economia Política marxista, onde a crítica de Marx ao Raubbau capitalista foi raramente reconhecida (ou aproveitada) entre finais do século XIX e o encerramento do século XX [11].

As principais descobertas da economia política marxista e radical na esfera ecológica, no século XX, podem ser vistas como decorrentes de respostas para as novas condições associadas com a fase monopolista do capital, e com o regime ambiental alterado que este trouxe à existência. Os primeiros teóricos do capitalismo monopolista foram Rudolf Hilferding, na Alemanha, e Thorstein Veblen, nos Estados Unidos. Hilferding, embora construindo a sua análise diretamente sobre a Economia Política de Marx, tinha, surpreendentemente, muito pouco a dizer sobre as condições ambientais. Em contraste, Veblen – um economista socialista influenciado por Marx, mas não em si mesmo um marxista - viu a transição da livre concorrência para a idade da corporação monopolista como tendo imensas implicações para o meio ambiente, o uso dos recursos e o desperdício econômico.

Em seu último trabalho, de 1923, Absentee Ownership and Business Enterprise in Recent Times (A Propriedade Absentista e a Empresa de Negócios em Tempos Recentes), Veblen sublinhou que "o plano americano" de exploração dos recursos foi um de acumulação por invasão, tanto do meio ambiente como das populações indígenas. Em linha com o Paradoxo de Lauderdale, ele tomou a forma de "uma prática constante de conversão de toda a riqueza pública para o ganho privado, em um plano de apreensão legalizada". O "costume", escreveu ele, foi "tomar em conta cada necessidade pública como um meio de ganho privado, e capitalizá-la enquanto tal".

Na fase de livre concorrência, Veblen argumentou, os "recursos básicos" tinham sido sobrexplorados "acelerando as saídas e baixando os preços", levando a "um esgotamento rápido, com desperdício, da oferta natural". Isto formou o palco para a entrada do capital monopolista, ou propriedade absentista (absentee ownership), com seus métodos mais colusivos de transformar a riqueza pública em ganho privado, por meio de uma regulação cuidadosa da escassez e dos preços de monopólio. Esta evolução foi especialmente evidente na madeira, carvão e indústrias de petróleo, cada uma das quais inicialmente envolvendo um prodigioso desperdício, levando por fim ao seu controle monopolista por um número relativamente pequeno de proprietários absentistas. Como resultado destes desenvolvimentos, Veblen observou, a "empresa de madeireiro, durante o período a partir de meados do século XIX, destruiu bastante mais madeira do que a que utilizou" [12].

As mais importantes idéias ecológicas de Veblen, no entanto, tiveram a ver com a transformação do valor de uso e do consumo sob o novo regime do grande negócio. Uma característica do capitalismo monopolista foi a virtual eliminação da concorrência de preços pelas empresas, que foi acompanhada pela restrição das saídas de produtos. Isso permitiu a formação monopolista (ou oligopolista) de preços, que produziu grandes ganhos para as empresas gigantes. Com a guerra de preços efetivamente proibida, a "estratégia competitiva" foi principalmente "confinada a duas linhas principais de atuação: reduzir o custo de produção de uma saída restrita; aumentar as vendas sem baixar os preços". Veblen apontou que a própria eficácia do capital monopolista na contenção dos custos de produção - mantendo os salários baixos e, portanto, em termos marxistas, aumentando a taxa de mais-valia - significava que, a qualquer preço dado, a margem disponível para aumentos nos custos de vendas (sem cortar as margens de lucro) era expandido. Assim, uma parte cada vez maior do custo total dos produtos foi associada com a promoção de vendas, em oposição à produção da mercadoria [13]. As implicações disso para a estrutura de valor de uso da economia foram profundas. "Um resultado", afirmou,

“tem sido um aumento muito substancial e progressivo dos custos de vendas; muito sensivelmente maior do que aquele que uma inspeção dos livros revelaria. Os produtores têm dado continuamente mais atenção para a negociabilidade de seus produtos, de modo que muito do que aparece nos seus livros como custo de produção deve ser devidamente qualificado como produção de aparências vendáveis. A distinção entre a fabricação e a mercantilização foi progressivamente esbatida, desta forma, até que, sem dúvida, é agora verdade que o custo de fabrico de muitos artigos destinados ao mercado está principalmente por conta da produção de aparências vendáveis” [14].

Ele viu isso como especialmente aplicável à “voga dos ‘bens empacotados’”:

A concepção e promulgação de recipientes vendáveis, - que o mesmo é dizer, de recipientes capazes de vender um conteúdo com base nos méritos do seu próprio efeito visual - tornou-se uma grande parte e, diz-se, um ramo muito lucrativo, do negócio da publicidade. Ela emprega um número formidável de artistas e redatores, bem como de porta-vozes itinerantes, demonstradores, intérpretes; mais do que um psicólogo de eminência foi retido pelas agências de publicidade para consulta e aconselhamento crítico sobre a viabilidade comercial competitiva de recipientes rivais e das etiquetas e notas doutrinárias que as embelezam. O custo de tudo isso é muito apreciável... É provavelmente seguro dizer que os recipientes são responsáveis por metade do custo de fabrico dos devidamente chamados «bens empacotados», e por algo que se aproximará também de metade do preço final pago pelo consumidor. Em alguns ramos, como, por exemplo, nos cosméticos e nos remédios caseiros, essa proporção é, sem dúvida, ultrapassada por uma margem muito substancial [15]

O resultado da infiltração de "arte de vender" na produção foi a proliferação de desperdícios econômicos definidos por Veblen, em The Theory of the Leisure Class (A Teoria da Classe Ociosa), como "despesas" que "não servem a vida humana ou o bem-estar humano como um todo". Na verdade, grande parte da procura inicial de bens adquiridos sob o capitalismo monopolista foi devida a "comparações pecuniárias acintosas", ou seja, a distinções de status decorrentes de ter algo para além do alcance de outras pessoas, bem como às diversas formas de "consumo conspícuo" e "desperdício conspícuo" associadas a isso. Quanto mais uma pessoa pudesse exibir ostentativamente a sua vida, maior o prestígio social de cada um. A publicidade corporativa incentivou essas comparações invejosas, primeiro entre os ricos e depois dentro das classes média e trabalhadora, muitas vezes incutindo nas pessoas um medo de perda de status social [16]

É crucial entender que o problema, levantado por Veblen, da transformação do consumo e da distorção dos valores de uso, sob o capitalismo, não desempenhara nenhum papel significativo no trabalho anterior, de Marx ou de seus seguidores imediatos (ou mesmo no de outros críticos do sistema no século XIX). É certo ter Engels escrito que, sob o capitalismo, "o efeito útil" de uma mercadoria "retira-se para segundo plano, tornando-se o único incentivo o lucro a ser feito sobre a sua venda" [17]. Implícita nessa visão estava a noção de que os valores de uso poderiam ser subordinados aos valores de troca e a estrutura de consumo às forças de produção. No entanto, em nenhum lugar em O Capital Marx fornece qualquer análise da "interação de produção e consumo resultante da mudança técnica" e das relacionadas transformações da estrutura de valor de uso da economia. O motivo foi que, no capitalismo competitivo do século XIX, os bens de consumo dos trabalhadores (diferentemente dos bens de luxo dos capitalistas) ainda não foram submetidos ao colossal "esforço de venda", que viria a surgir totalmente apenas com o capitalismo de monopólio [18]. Enquanto o desperdício foi lugar comum no capitalismo competitivo - decorrente da irracionalidade e da duplicação inerentes à competição em si - tais desperdícios não têm o mesmo papel "funcional" para a acumulação que mais tarde viriam a adquirir, sob o capitalismo monopolista, onde o principal problema já não era a eficiência da produção, no lado da oferta, mas a geração de mercados, no lado da procura. Por esta razão, publicidade e marketing em geral, juntamente com fatores como a diferenciação dos produtos, desempenharam apenas um papel minúsculo no século XIX. A análise destes desenvolvimentos teve assim de aguardar pela sua aparição, no início do século XX. Esta análise foi realizada primeiro por Veblen, e depois - numa síntese entre Marx e Veblen - em Monopoly Capital (Capital Monopolista), de Baran e Sweezy, em 1966.

Para Baran e Sweezy, o principal problema sob o capitalismo monopolista era a absorção do enorme excedente econômico, resultante da produtividade em constante expansão do sistema. Este excedente econômico poderia ser absorvido de três formas: o consumo capitalista, o investimento ou o desperdício [19]. O consumo capitalista foi limitado pela compulsão a acumular por parte da classe capitalista, enquanto que o investimento, em si próprio, foi limitado pela saturação do mercado (devido, principalmente, à compressão do consumo de base salarial e a condições de maturidade industrial). Assim, o capitalismo, na sua fase monopolista, foi ameaçado por um problema de mercados e por uma declinante taxa de utilização, tanto da capacidade produtiva como do trabalho empregável [20]. Sob tais circunstâncias, uma dependência aprofundada em relação ao desperdício econômico serviu para manter os mercados em funcionamento, tornando-se uma parte necessária da economia de monopólio capitalista.

Baran e Sweezy argumentaram que desperdício econômico tomou várias formas, nomeadamente, os gastos militares e no esforço de vendas, este último incluindo: "A publicidade, a variação na aparência dos produtos e embalagens, a 'obsolescência planejada', mudanças de modelo, planos de crédito, etc.." O esforço de vendas precedeu a fase monopolista do capitalismo, mas foi só sob o capital monopolista que assumiu “dimensões gigantescas".

A forma mais óbvia do esforço de vendas foi, é claro, a publicidade, que cresceu, por saltos e arranques, ao longo do século XX. Talvez a "função dominante" da publicidade para o sistema, como observaram Baran e Sweezy, seja "a de travar, em nome dos produtores e vendedores de bens de consumo, uma guerra implacável contra a economia e em favor do consumo" [21]. No entanto, a publicidade, reconheceram eles, era apenas a ponta do iceberg, no que respeita ao marketing moderno, que hoje também inclui a segmentação, a pesquisa de motivação, a gestão de produtos, a promoção de vendas e o marketing direto [22]. Segundo a Blackfriars Communications, os Estados Unidos, em 2005, gastaram para cima de $1 trilhão (milhão de milhões) de dólares, ou cerca de 9 por cento do PIB, em várias formas de marketing [23].

No entanto, o principal impacto estrutural do esforço de vendas no sistema de Baran e Sweezy, nisso seguindo Veblen, encontrava-se "no surgimento de uma condição na qual os esforços de vendas e de produção se interpenetram de tal forma a ponto de serem virtualmente indistinguíveis”. Isto marcou “uma mudança profunda no que constituem custos socialmente necessários de produção, bem como na própria natureza do produto social”. Nestas circunstâncias, as constantes mudanças de modelo, obsolescência de produtos, embalagens dispendiosas, etc., tudo serviu para reorganizar as relações de consumo - alterando a estrutura de valor de uso do capitalismo e ampliando os desperdícios incorporados na produção. Eles estimaram que só as mudanças de modelo automóvel custaram ao país uns 2,5 por cento do seu PIB. Em comparação com isso, as despesas dos fabricantes de automóveis em publicidade foram minúsculas. "No caso da indústria automobilística", escreveram eles, "e, sem dúvida, há muitos outros casos semelhantes, a este respeito, de longe, a maior parte do esforço de vendas é realizado não por trabalhadores obviamente improdutivos, tais como vendedores e redatores de publicidade, mas por trabalhadores aparentemente produtivos: fabricantes de ferramenta e moldes, desenhistas, mecânicos, operários de linha de montagem" Eles concluíram: "O que é certo é a declaração negativa, que, não obstante a sua negatividade, constitui uma das ideias mais importantes a serem obtidas na Economia Política: uma produção cujo volume e composição são determinados pelas políticas de maximização de lucros das empresas oligopolistas, nem corresponde às necessidades humanas, nem custa a quantidade mínima possível de esforço e de sofrimento humanos" [24].

Adotando uma perspectiva relacionada, Michael Kidron estimou conservativamente, em seu Capitalism and Theory (Capitalismo e Teoria) que, em 1970, 61 por cento da produção dos EUA poderia ser classificada como desperdício econômico - ou seja, recursos desviados para os militares, a publicidade, a finança e os seguros, desperdício nos negócios, consumo conspirativamente luxuoso, etc. [25]. Cada vez mais, o que estava sendo produzido sob o capitalismo monopolista eram valores de uso formais ou especificamente capitalistas, cuja "utilidade" primária estava no valor de troca por eles gerado para as corporações [26].

Padrões racionais de bem-estar humano e de utilização de recursos, Baran e Sweezy alegaram, exigem uma abordagem completamente diferente para a produção. Já em 1957, em The Political Economy of Growth (A Economia Política do Crescimento), Baran sugeriu que o excedente econômico ótimo, em uma economia planejada, seria menor do que o seu máximo potencial - exigindo assim um ritmo mais lento de crescimento econômico - devido, entre outras razões, à necessidade de reduzir determinados "tipos nocivos de produção (mineração de carvão, por exemplo)" [27]. Da mesma forma, Sweezy argumentara, na década de 1970, que a necessidade de cada trabalhador ter um carro para ir ao trabalho não era um produto da natureza humana, mas sim gerada artificialmente, como resultado de todo o "complexo automobilístico-industrial" da chamada sociedade capitalista "modernizada". O sistema de transportes privatizado (mas publicamente subsidiado) "externaliza" custos tais como a poluição do ar, a degradação urbana e as mortes no tráfego, para serem suportados pelo resto da sociedade, enquanto gera lucros enormes para as empresas. Em contraste, uma sociedade mais racional produziria valores de uso sociais: "funcionais, esteticamente atraentes e duráveis," aptos a satisfazer necessidades humanas genuínas, utilizando "métodos de produção compatíveis com processos de trabalho humanizados" [28].

Outros pensadores, no mesmo período, desenvolveram noções relacionadas. John Kenneth Galbraith desenvolveu a sua famosa tese do "efeito de dependência", aplicável ao capitalismo oligopolista em The Affluent Society (A Sociedade da Abundância), em 1958. Ele argumentou que o próprio processo de "produção de bens cria as necessidades que esses bens se presumem querer satisfazer" - uma tese projetada para derrubar a teoria neoclássica da soberania do consumidor. Joan Robinson na sua Palestra Richard T. Ely para a Associação Econômica Americana em 1971 (com Galbraith a presidir) levantou a questão da "segunda crise da teoria econômica". Erroneamente supondo que Keynes havia fornecido a solução para "a primeira crise", isto é, o nível ou a quantidade de produção, Robinson passou a afirmar que agora era a hora de nos voltarmos para a "segunda crise", isto é, para a qualidade ou o conteúdo da produção. Produção militar, poluição, desigualdade e pobreza foram todos sendo gerados, argumentou ela, não apesar de, mas por causa das estratégias adotadas para expandir o crescimento capitalista. No mesmo ano, Barry Commoner, em seu The Closing Circle (O Círculo que se Encerra), destacou os perigos ecológicos associados, em particular, com a indústria petroquímica, que ele argumentou estar profundamente enraizada num modo de produção cada vez mais tóxico, impulsionado pelo lucro [29].

Elementos desta crítica geral ecológica do capitalismo monopolista foram reunidos, em 1980, por Allan Schnaiberg, no seu tratado The Environment: From Surplus to Scarcity (O Meio Ambiente: do Excedente para a Escassez), um dos trabalhos fundadores da sociologia ambiental. Já na década de 1970, os ambientalistas começaram a falar de impacto ambiental, como resultado de três fatores: a população, a riqueza (ou consumo), e a tecnologia, com os dois últimos fatores, o consumo e a tecnologia, representando o papel da economia [30]. A estrutura do livro Schnaiberg foi claramente derivada desta conceção, com os capítulos de dois a cinco a focarem, sucessivamente, sobre a população, a tecnologia, o consumo e a produção. O brilho de Schnaiberg esteve em basear-se na Economia Política marxista e radical para mostrar que os primeiros três destes fatores foram condicionados pelo quarto, fazendo do que ele chamou "produção em rodagem perpétua" (treadmill of production) o problema fundamental do meio ambiente. Ele escreveu sobre o "capital monopolista em rodagem perpétua", e insistiu: "Tanto o volume como a fonte da produção em rodagem perpétua... são a indústria capital monopolista de alta energia".

Para Schnaiberg, a fase monopolista do capitalismo foi orientada para a economia de trabalho, pela produção intensiva em energia. Constantemente deslocando o trabalho e produzindo cada vez maior excedente econômico, que transbordou os cofres das empresas, o sistema gerou um problema crescente de procura efetiva - que então tentou resolver através da introdução de vários meios extraordinários de expansão do consumo. O consumo contemporâneo, argumentou ele em termos galbraithianos, não revelou tanto as preferências dos consumidores quanto as exigências de rentabilidade das empresas - com as escolhas do consumidor circunscritos pelo marketing moderno e pelas tecnologias da rodagem perpétua. A conclusão realista de Schnaiberg foi a de que as tentativas de enfrentar o problema ecológico concentrando-se sobre a população, o consumo, ou a tecnologia, inevitavelmente falharão - já que o problema real era a própria rodagem perpétua da produção [31].

A rodagem perpétua da produção (ou da acumulação), como já vimos, pode ser explicada, nos termos de Marx, utilizando a fórmula geral para o capital, ou M-C-M', a qual, no período seguinte de produção, torna-se M'-C-M'', e no período posterior a esse M''-C-M''', ad infinitum. Para Marx, o capital era um sistema de auto-expansão de valor. Como Sweezy viria a dizer, "ele não tinha nenhum mecanismo de frenagem que não fossem as periódicas crises econômicas" [32]. Esta é a base da crítica padrão ecológica dirigida ao capitalismo, que enfatiza o efeito de escada do crescimento capitalista, em relação à capacidade de suporte limitada do planeta. Por isso, é assumido que justamente para resolver o problema ecológico, é necessário intervir para abrandar, parar, inverter, e, finalmente, desmantelar o mecanismo de rodagem perpétua, especialmente no centro do sistema. No entanto, a perspectiva padrão da rodagem perpétua, se tomada por si só, tende a reduzir o problema ecológico a uma questão quantitativa, desenfatizando os aspectos mais qualitativos da dialética, representados hoje pela promoção de valores de uso especificamente capitalistas e, assim, do desperdício econômico.

Aqui é útil salientar que o C na relação a M-C-M’, representando o aspecto de concreto valor de uso da mercadoria, agora se transformou, sob controle monopolista, em um valor de uso especificamente capitalista, que podemos designar como CK – para representar a subordinação quase completa do valor de uso ao valor de troca no desenvolvimento da mercadoria. O problema de M-C-M' torna-se então um de M-CK-M', em que os problemas qualitativos, tal como os quantitativos, da acumulação/destruição ecológica se afirmam através da criação de valores de uso formais. Nos bens empacotados de hoje, o pacote, concebido para vender a mercadoria e incorporado nos custos de produção, é agora a maior parte da mercadoria. Assim, os comercializadores da Sopa Campbell comumente se referem à sopa como o simples substrato do produto. Ou, para usar um exemplo mais economicamente significativo, desde os anos 1930, o custo de produção do veículo a motor tem sido apenas uma pequena parte do preço de venda final, a maioria do qual está relacionada com marketing e distribuição. Como Stephen Fox depôs, no seu Mirror Makers: A History of American Advertising (Fabricantes de Espelhos: Uma História da Publicidade Americana), os carros de hoje são "bens empacotados de duas toneladas, variando pouco, por debaixo da epiderme do seu estilo cada vez mais estrambólico." O automóvel médio vendido nos Estados Unidos hoje tem menor eficiência de combustível que o Ford Modelo T [33]. Tudo isso sugere que o valor de uso, C, associado com as condições de produção em geral, tem cada vez mais dado lugar, sob o capitalismo monopolista, ao valor de uso especificamente capitalista, CK - incorporando todos os tipos de recursos socialmente improdutivos, com o objectivo de gerar maior volume de vendas, e, portanto, a realização de lucro, M'.

É esta redução implacável do consumo às necessidades de acumulação de capital, por meio da alienação do valor de uso (por exemplo, fazendo com que o embrulho de plástico faça parte do preço de produção de um pedaço de pão) que está por trás dos piores aspectos do que é erroneamente pensado como o "consumismo": a procura aparentemente infinita de produtos supérfluos, mesmo tóxicos, associados com a sociedade do descartável em que hoje vivemos [34]. De que outra forma explicar que, em todo o mundo, mais de 500 bilhões, talvez até um trilhão, de sacos de plástico de compras (dados de graça) são consumidos em cada ano, que cerca de 300 bilhões de quilos de embalagens são descartados todos os anos nos Estados Unidos, e que 80 por cento de todos os bens dos EUA são usados uma vez e depois jogados fora? Muito disso é lixo tóxico; os norte-americanos descartam sete bilhões de toneladas de PVC (policloreto de vinila) plástico - o mais perigoso produto plástico - anualmente. Em 2008, o Centro de Saúde, Meio Ambiente e Justiça divulgou um relatório indicando que uma cortina de chuveiro comum nova, que usa plástico PVC, lança 108 compostos voláteis separados no ambiente doméstico ao longo de vinte e oito dias de uso comum, criando um nível de acumulação destes compostos dezasseis vezes superior ao que foi recomendado pelo Conselho “Green Building” dos EUA [35].

Para além da sua natureza tóxica, o desperdício econômico e ecológico incorporado no processo de produção e consumo é enorme. "Para dizer que «o capitalismo tem sido, simultaneamente, o mais eficiente e o mais desperdiçador sistema produtivo da história»", escreveu Douglas Dowd em The Waste of Nations (Os Resíduos das Nações), “é apontar para o contraste entre a grande eficiência com que uma fábrica particular produz e empacota um produto, como pasta de dentes, e a ineficiência artificial e maciça de um sistema econômico que faz com que as pessoas paguem pelo dentífrico um preço do qual mais de 90 por cento se deve ao marketing, não à produção [36].

William Morris, que viu os primórdios do capitalismo monopolista, se referiu à "massa de coisas que nenhum homem sensato poderia desejar, mas que o nosso trabalho inútil produz - e vende" [37]. Hoje temos que reconhecer que muitos desses bens supérfluos representam enormes custos para o meio ambiente e para a saúde humana. Na verdade, muitos dos nossos valores de uso mais comuns, como Commoner explicou, são produtos da moderna química - introdução de produtos químicos sintéticos que são cancerígenos, mutagênicos e teratogênicos na produção, no consumo e no meio ambiente. Estes bens são baratos de produzir (sendo intensivos em energia e química, mas não em mão de obra), vendem e geram altas margens de lucro para as corporações. O facto de muitos deles serem praticamente indestrutíveis (não biodegradáveis) e, se incinerados - para impedir que assoberbem os aterros sanitários - emitirem dioxinas e outras toxinas mortais, é visto pelo sistema econômico como, simplesmente, uma questão lateral [38].

Em face de tais contradições, a economista radical Juliet Schor escreveu sobre o "paradoxo da materialidade", sugerindo que as pessoas em nossa sociedade não são demasiado materialistas, mas sim, na verdade, insuficientemente materialistas. Nós já não retemos, reutilizamos e reparamos os produtos, porque fomos ensinados a esperar que eles se quebrem ou desmoronem devido à obsolescência do produto, e a descartá-los então imediatamente. De facto, como uma sociedade, estamos presos a um padrão ainda mais profundo de obsolescência psicológica, promovido pelo marketing moderno, incentivando-nos a jogar fora o que acabamos apenas de comprar, assim que deixe de ser "novidade" [39].

O Significado da Revolução

A crítica ecológica gerada, no século XX, pela teoria do capital monopolista - cujos contornos essenciais tenho procurado apresentar aqui - somente acrescenta força adicional à clássica crítica ecológica de Marx ao capitalismo. Todos os dias estamos destruindo mais e mais riqueza pública - ar, água, solo, ecossistemas, espécies - na busca de riquezas particulares, o que torna o consumo em um simples complemento da acumulação, assumindo assim formas mais distorcidas e destrutivas.

A ruptura metabólica na relação da humanidade com a Terra, que Marx descreveu no século XIX, já evoluiu para múltiplas rupturas ecológicas, transgredir os limites entre a humanidade e o planeta. Não é apenas a escala de produção, mas ainda mais a estrutura dessa produção, que está em causa na versão contemporânea do Raubbau capitalista. "Tal é a dialética do processo histórico", escreveu Baran, "que, no quadro do capitalismo monopolista, as mais abomináveis e destrutivas características da ordem capitalista se tornam as próprias bases da sua contínua existência – tal como escravidão foi a condição sine qua non de seu surgimento" [40].

É a necessidade histórica de combater a destrutividade absoluta do sistema do capital, nesta fase - substituindo-o, como Marx previu, por uma sociedade de igualdade substantiva e sustentabilidade ecológica - que, estou convencido, constitui o sentido essencial da revolução em nosso tempo.

Notas:

[1] Paul Hawken, Amory Lovins, e L. Hunter Lovins, Natural Capitalism (New York: Little, Brown, and Co., 1999); L. Hunter Lovins e Boyd Cohen, Climate Capitalism (New York: Hill and Wang, 2011).

[2] Marx e Engels, Collected Works (New York: International Publishers, 1975), vol. 1, pp. 224–63; Franz Mehring, Karl Marx (Ann Arbor: University of Michigan Press, 1979), pp. 41–42.

[3] Karl Marx, Early Writings (London: Penguin, 1974), pp. 309–22; Karl Marx, Capital, vol. 3 (London: Penguin, 1981), p. 754.

[4] James Maitland, Earl of Lauderdale, An Inquiry into the Nature and Origin of Public Wealth and into the Means and Causes of its Increase (Edinburgh: Archibald Constable and Co., 1819), pp. 37–59; Lauderdale’s Notes on Adam Smith, ed. Chuhei Sugiyama (New York: Routledge, 1996), pp. 140–41.

[5] Karl Marx, The Poverty of Philosophy (New York: International Publishers, 1964), pp. 35–36.

[6] Marx, Capital, vol. 3, p. 180.

[7] Karl Marx e Frederick Engels, Selected Works in One Volume (New York: International Publishers, 1968), p. 90; Karl Marx, Grundrisse (London: Penguin, 1973), p. 408; Allan Schnaiberg, The Environment: From Surplus to Scarcity (New York: Oxford University Press, 1980), pp. 220–34.

[8] Ernest Mandel, Marxist Economic Theory (New York: Monthly Review Press, 1968), vol. 1, p. 295.

[9] Karl Marx, Capital, vol. 1 (London: Penguin, 1976), pp. 283, 290, 348, 636–39, 860; Marx, Capital, vol. 3, pp. 911, 949, 959. Sobre Marx e a termodinâmica, leia-se Paul Burkett e John Bellamy Foster, “Metabolism, Energy, and Entropy in Marx’s Critique of Political Economy”, Theory and Society, 35, no. 1 (Fevereiro de 2006), pp. 109–56.

[10] Sobre específicas idéias ecológicas de Marx, nestas áreas, veja-se John Bellamy Foster, Marx’s Ecology (New York: Monthly Review Press, 2000), pp. 165-66, 169. Engels e Marx abordaram a questão da mudança climática local, principalmente em relação às mudanças de temperatura e precipitação resultantes de desflorestação. Ver as notas de Engels sobre Carl Fraas em Karl Marx e Friedrich Engels, MEGA IV, 31 (Amsterdam: Akadamie Verlag, 1999), pp. 512-15; Paul Hampton, "Classical Marxism and Climate Impacts”, Workers’ Liberty, August 5, 2010 ; Clarence J. Glacken, "Changing Ideas of the Habitable World", em Carl O. Sauer, Bates Marston e William L. Thomas, Jr., eds., Man’s Role in the Changing Face of the Earth (Chicago: University of Chicago Press, 1956), pp. 77-81.

[11] Sobre a relação da Ecologia de Marx com desenvolvimentos científicos posteriors, veja-se John Bellamy Foster, The Ecological Revolution (New York: Monthly Review Press, 2009), pp. 153–60. A argumentação de Liebig-Marx sobre o metabolismo ecológico foi influente nas discussões sobre Economia Política marxista até ao final do século XIX - por examplo, nas obras de August Bebel e de Karl Kautsky – mas perdeu-se de vista durante a maior parte do século XX (uma excepção é K. William Kapp em The Social Costs of Private Enterprise [Cambridge, Massachusetts; Harvard University Press, 1950], pp. 35–36).

[12] Thorstein Veblen, Absentee Ownership and Business Enterprise in Recent Times (New York: Augustus M. Kelley, 1964), pp. 127, 168, 171–72, 190.

[13] Ibid., pp. 285–88, 299–300.

[14] Ibid., p. 300.

[15] Ibid., pp. 300–301.

[16] Thorstein Veblen, The Theory of the Leisure Class (New York: New American Library, 1953), pp. 78–80; Veblen, Absentee Ownership…, p. 309.

[17] Marx and Engels, Collected Works, vol. 25, p. 463.

[18] Paul M. Sweezy, “Cars and Cities,” Monthly Review, 24, n.º 11 (Abril 1973), pp. 1–3, republicado em 51, n.º 11 (Abril de 2000); Paul A. Baran e Paul M. Sweezy, Monopoly Capital (New York: Monthly Review Press, 1966), pp. 131–32.

[19] Baran e Sweezy, Monopoly Capital, p. 79.

[20] Sobre “A Decrescente Taxa de Utilização sob o Capitalismo”, veja-se István Mészáros, Beyond Capital (New York: Monthly Review Press, 1995), pp. 547–79.

[21] Baran e Sweezy, Monopoly Capital, pp. 114–15, 128. A concepção de desperdício económico de Baran e Sweezy (baseada na análise de Marx sobre trabalho improdutivo) era complexa, tomando em conta: (1) o desperdício como apercebido do ponto de vista do capital em geral (mas não reconhecido como tal pelo capitalista individual), e (2) o desperdício na perspetiva de uma sociedade racional, representando o ponto de vista da sociedade como um todo (equivalente à definição de Veblen). Para uma discussão detalhada, veja-se John Bellamy Foster, The Theory of Monopoly Capitalism (New York: Monthly Review Press, 1986), pp. 97–101.

[22] Para uma análise exaustiva do marketing modern, veja-se Michael Dawson, The Consumer Trap (Urbana: University of Illinois Press, 2003).

[23] Metrics 2.0 Business and Market Intelligence, “U.S. Marketing Spending Exceeded $1 Trillion in 2005”, 26 de junho de 2006; Dawson, The Consumer Trap, 1. A estimative da Blackfriars Communications é, claramente, muitíssimo subestimada, uma vez que eles não incorporam todos os efeitos da gestão de produto, isto é, a penetração do esforço de vendas no processo de produção.

[24] Baran e Sweezy, Monopoly Capital, pp. 131, 137–39. Pode defender-se que o argumento de Baran e Sweezy’s (como o de Veblen) estava dirigido à crítica do capitalismo do ponto de vista de uma sociedade socialista racional, em linha com o que eles denominaram “a confrontação da realidade com a razão” (Monopoly Capital, p. 134), não sendo, portanto, um argumento ecológico per se. No entanto, é precisamente esta “confrontação da realidade com a razão” que hoje em dia unifica os argumentos pela ecologia e pelo socialismo. Veja-se, por exemplo, Paul M. Sweezy, “Capitalism and the Environment”, Monthly Review, 41, n.º 2 (Junho de 1989), pp. 1-10.

[25] Michael Kidron, Capitalism and Theory (London: Pluto Press, 1974), pp. 35–60.

[26] Henryk Szlajfer, “Waste, Marxian Theory, and Monopoly Capital,” in John Bellamy Foster e Henryk Szlajfer, ed., The Faltering Economy (New York: Monthly Review Press, 1984), pp. 302­04, 310-13; John Bellamy Foster, The Theory of Monopoly Capitalism (New York: Monthly Review Press, 1986), pp. 39-42.

[27] Paul A. Baran, The Political Economy of Growth (New York: Monthly Review Press, 1957), p. 42.

[28] Paul M. Sweezy, “Comment,” in Assar Lindbeck, The Political Economy of the New Left (New York: Harper and Row, 1977), pp. 144-46.

[29] John Kenneth Galbraith, The Affluent Society (New York: New American Library, 1984), pp. 121–23; Joan Robinson, Contributions to Modern Economics (Oxford: Blackwell, 1978), pp. 1-13; Barry Commoner, The Closing Circle (New York: Alfred A. Knopf, 1971).

[30] Esta foi a famosa formula IPAT: Impacto = População x Riqueza (Affluence) x Tecnologia. Sobre a história da formula IPAT, veja-se Marian R. Chertow, “The IPAT Equation and Its Variants: Changing Views of Technology and Environmental Impact,” Journal of Industrial Ecology 4, n.º 4 (Outubro de 2000), pp. 13-29.

[31] Schnaiberg, The Environment, pp. 245-47; John Bellamy Foster, Brett Clark e Richard York, The Ecological Rift (New York: Monthly Review Press, 2010), pp. 193-206. A análise de Schnaiberg, baseando-se embora fortemente na Economia Política marxista, nunca aborda diretamente o problema fundamental da interpenetração entre o esforço de vendas e a produção, levantado tanto por Veblen como por Baran e Sweezy. Em trabalhos subsequentes, o seu modelo foi de-historicizado e reduzido a uma forma mais reificada e mecânica, com sistemática desenfatização da sua ligação à teoria marxista do capitalismo monopolista e mesmo da própria crítica do capitalismo. Assim, no seu último livro publicado - Kenneth A. Gould, David N. Pellow e Allan Schnaiberg, The Treadmill of Production (Boulder: Paradigm Publishers, 2008) – o capitalismo tem apenas uma aparição muito fugaz. No entanto, Schnaiberg nunca repudiou as suas concepções anteriores e continuou a tratar The Environment como a sua clássica e fundamental contribuição.

[32] Paul M. Sweezy, “Socialism and Ecology,” Monthly Review, 41, n.º 4 (Setembro de 1989), p. 7.

[33] Dawson, The Consumer Trap, pp. 88–92; Douglas Dowd, The Waste of Nations (Boulder: Westview Press, 1989), pp. 65–66; Stephen Fox, The Mirror Makers: A History of American Advertising and Its Creators (New York: William Morrow, 1984), p. 173; “Car Mileage: 1908 Ford Model T - 25 MPG 2008 EPA Average All Cars - 21 MPG”; Research and Innovative Technology Administration, Bureau of Transportation Statistics, Table, 4-23, “Average Fuel Efficiency of U.S. Light Duty Vehicles”. Baran e Sweezy referiram-se em Monopoly Capital, pp. 136–37, ao declíneo dos automóveis norte-americanos em eficiência de consumo entre 1939-1961.

[34] A evolução do fabrico de pão no capitalismo monopolista, incluindo a mudança das suas embalagens, foi usada por Baran para explicar como o esforço de vendas, o desperdício e despesas improdutivas são enxertadas no processo de produção da capital monopolista. Veja-se Baran, The Political Economy of Growth, XX.

[35] Susan Freinkel, Plastics: A Toxic Love Story (Boston: Houghton Mifflin, 2011), pp. 145–46; Annie Leonard, The Story of Stuff (New York: Free Press, 2010), pp. 68–71; Heather Rogers, “Garbage Capitalism’s Green Commerce,” in Leo Panitch e Colin Leys, eds., The Socialist Register, 2007 (New York: Monthly Review Press, 2007), p. 231.

[36] Douglas Dowd, The Waste of Nations (Boulder: Westview Press, 1989), p. 65.

[37] William Morris, News from Nowhere and Selected Writings and Designs (London: Penguin, 1962), pp. 121–22.

[38] Commoner, The Closing Circle, pp. 138–41; veja-se também John Bellamy Foster, The Vulnerable Planet (New York: Monthly Review Press, 1994), pp. 112-18.

[39] Juliet Schor, Plenitude (New York: Penguin, 2010), pp. 27, 40-41. Veja-se também Raymond Williams, Problems in Materialism and Culture (London; Verso, 1980), p. 185.

[40] Baran, The Political Economy of Growth, XV.

[*] John Bellamy Foster (n. 1953) é professor de Sociologia na Universidade de Oregon (E.U.A.) e o atual diretor da revista marxista norte-americana Monthly Review. Discípulo de Paul Sweezy e continuador da escola de pensamento crítico por este fundada (com Paul Baran e Harry Magdoff), tem publicado numerosos livros sobre a crise ecológica e sua interseção com a economia política do capitalismo. Merecem destaque: The Vulnerable Planet: A Short Economic History of the Environment (1994), Marx’s Ecology: Materialism and Nature (2000), Ecology Against Capitalism (2002), The Ecological Revolution: Making Peace with the Planet (2009), The Ecological Rift: Capitalism's War on the Earth, com Brett Clark e Richard York (2010), What Every Environmentalist Needs To Know about Capitalism: A Citizen's Guide to Capitalism and the Environment, com Fred Magdoff (2011). Este artigo é uma versão alargada de uma palestra concedida a 3 de julho de 2011 na University College de Londres no âmbito da Conferência Marxism 2011 promovida bienalmente pelo Socialist Workers Party. Tradução de Ângelo Novo.