4 de setembro de 1995

Quando todos os homens são iguais

Eugene D. Genovese

The New Republic

Lars T. Lih, Oleg V. Naumoy e Oleg V. Khlevniuk. Letters to Molotov, 1925-1936. Yale University Press: 1996.

Tradução / Em 1969, Viacheslav Molotov divulgou 86 cartas que recebeu de Josef Stálin entre 1925 e 1936, traduzidas para o inglês em "Stalin's Letters to Molotov" (As Cartas de Stálin a Molotov).

A maior parte da correspondência (71 cartas) foi escrita de 1925 a 1930, em tempos de ásperas disputas internas no Partido Comunista. Empreendia-se nessa época a sangrenta coletivização da agricultura, além da industrialização em ritmo forçado.

Os bolchevistas construíram então "o socialismo num só país", à medida que se desvaneciam as esperanças de outras revoluções comunistas na Europa e na China. Como era de se esperar, as cartas de Stálin contêm apenas traços das atrocidades que campeavam nos anos 20 e atingiram uma amplitude aterrorizante na década de 30.

Sem dúvida, Molotov aparou sua coleção com todo o cuidado. Além de não ter incluído suas próprias missivas a Stálin, deixou de fora as cartas de 1928 e 1934, anos particularmente críticos. Em 1934, assistiu-se às manobras políticas para manter Stálin no poder e ao assassinato de Kirov, que ofereceu uma pequena amostra dos amplos expurgos que estavam por vir.

A maioria das cartas foi escrita à mão, algumas às pressas, outras com cuidadosa elaboração. Elas confirmam o argumento de Lars T. Lih de que Stálin trabalhava numa "perspectiva antiburocrática", baseada na aquisição por parte da União Soviética de tudo o que era necessário ao estabelecimento de uma industrialização socialista. O menor fracasso era logo explicado como deliberada sabotagem de inimigos de classe que se insinuavam no aparato estatal. Mais do que uma disputa pessoal pelo poder, os intermináveis expurgos de Stálin foram uma extensão da guerra das classes.

Muitas vezes o ditador demonstrava um temperamento intempestivo que transformava vinganças em sérios erros políticos -o que contrasta com sua reputação de calculista. A prisão e o julgamento de técnicos e especialistas "burgueses" em 1928, por exemplo, abalou todo o país. No entanto, era só o início de um longo processo de mutilação.

Stálin considerava qualquer fracasso como traição, por mais leal ou até heróico que tenha sido o empenho dos camaradas em questão. Se uma fábrica não atingisse o nível de produtividade designado pelo partido, era sinal de que os gerentes eram sabotadores, ou então de que tinham se tornado preguiçosos ou corruptos.

Stálin desconfiava de todas as elites, principalmente dos antigos burocratas do regime czarista e dos "técnicos burgueses" que viraram a casaca e aderiram ao partido, ou passaram a trabalhar para o Estado soviético. Precisava deles para erguer uma economia socialista, mas a desconfiança e o ressentimento não tardavam a se transformar em fúria defensiva. No fundo, não via a hora de se livrar de todos eles.

Sempre que algo ia mal, como era frequente, buscava-se o motivo não em dificuldades reais ou no próprio sistema socialista, cuja validade não podia ser questionada, mas sim na possibilidade de subversão. Quanto mais cedo o partido abandonasse a tolerância do erro -ou seja, as concessões ao apodrecido sentimentalismo burguês- e quanto mais cedo expurgasse sem piedade esses perniciosos sabotadores, mais cedo poderia se lançar plenamente à construção do socialismo.

Assim, Stálin verberava "esses 'comunistas' que se infiltraram na nossa organização como ladrões e maliciosamente ajudam a afundar a causa do Estado dos trabalhadores" (...) "Vamos expulsar essa gente de Moscou e pôr no seu lugar jovens companheiros, gente nossa, comunistas".

Dotado de um engenho excepcional, Stálin sabia muito mais sobre o mundo do que se imaginava. No entanto, sua inteligência e seus conhecimentos mostravam-se ineptos quando o sistema se revelava essencialmente impraticável. A visão partidária de um novo mundo era sustentada pela razão dialética e sua filosofia materialista não podia ser criticada; sua teoria política, econômica e social estava cientificamente embasada.

Diante de dificuldades financeiras, Stálin propunha sua solução preferida: "Vamos fuzilar de uma vez por todas duas ou três dúzias de sabotadores, junto com várias dúzias de tesoureiros comuns".

No trato com os subordinados, Stálin provava que realmente não era bobo. Pai do comportamento politicamente correto, recrutava todos para sua causa, desde o mais vil oportunista até o mais desinteressado idealista.

Ele sabia que os oportunistas, que se venderam a ele, poderiam vender-se também a seus inimigos, e sabia que os revolucionários poderiam "engolir qualquer coisa". Stálin sabia, em suma, que nunca poderia confiar nos homens que executavam suas ordens. Era o bom senso que o mandava fuzilá-los depois de terem servido a seus propósitos.

Por mais que o talento político de Stálin apegasse as pessoas à sua personalidade, seus melhores colaboradores estavam a seu lado por lealdade à causa que ele personificava. Não importavam seus crimes: era ele o guia dos soviéticos e de toda a humanidade progressista rumo à terra prometida.

Stálin tirou proveito do mito do bom czar às voltas com funcionários maus. O povo se referia ao mais brutal dos expurgos políticos como "Yezhovschina" -os tempos terríveis de Yezhov, chefe da polícia secreta-, mas nunca como "Stálinschina".

Em seu sermão final, no último congresso partidário de que participou, Stalin expôs todo o seu ideal visionário. Exortou os camaradas a cumprir sua sagrada obrigação para com a causa. Stalin entusiasmou o congresso com a profecia que - mal sabia ele - acrescentava os últimos retoques à sua petição de imortalidade. Cabe a nós, exultou, criar "um futuro radiante para os povos".

1 de agosto de 1995

O que é a agenda pós-moderna? Uma introdução

Ellen Meiksins Wood

Monthly Review

Tradução / Durante a Primeira Guerra Mundial, Oswald Spengler escreveu seu famoso e detestável livro O declínio do Ocidente, anunciando O fim da civilização ocidental e de seus valores dominantes. Os vínculos e tradições que uniram a sociedade estavam se decompondo, enquanto os laços cotidianos de solidariedade se desagregavam, juntamente com a unidade de pensamento e cultura. Como qualquer outra civilização que tivesse vivido seu ciclo natural, o Ocidente passara inevitavelmente de seu outono (já destrutivo) de "iluminismo" ou "esclarecimento" para um inverno de individualismo e niilismo cultural.

Quatro décadas mais tarde, C. Wright Mills anunciava: "Estamos no final do que se denomina a Idade Moderna". Essa época "está sendo substituída por um período pós-moderno", no qual todas as expectativas históricas que caracterizaram a "cultura ocidental" deixaram de ser relevantes. A fé do Iluminismo no progresso unificado de razão e liberdade, ao lado das duas principais ideologias fundadas nessa fé - o liberalismo e o socialismo "virtualmente faliram como explicações adequadas do mundo e de nós mesmos". J. S. Mill e Karl Marx estavam ultrapassados (1).

Entre esses dois anúncios do declínio de uma época, um de 1918 e o outro de 1959, há certamente grandes diferenças ideológicas - os sentimentos antidemocráticos de Spengler em contraposição ao radicalismo de Mills, a hostilidade (ou no mínimo a ambivalência) de Spengler diante do Iluminismo em contraposição ao apego persistente, embora um pouco sem esperanças, de Mills aos valores do Iluminismo. Mas há no intervalo a catastrófica história de depressão, guerra e genocídio, seguida pela promessa de prosperidade material, uma excedendo os piores temores da humanidade até então e outra suas mais visionárias esperanças. Quando Spengler escreveu O declínio do Ocidente, a Europa estava sem dúvida tumultuada, num tempo de guerra e revolução, para não mencionar a ameaça aparente às classes dominantes, até mesmo em situações não revolucionárias advindas da difusão da democracia de massas.

A perspectiva de Mills era bastante diferente. Desde 1918, o mundo passara por horrores muito maiores do que os imaginados por Spengler e, no entanto, ele escrevia na calma dos anos 50, na maré montante da prosperidade capitalista (a "sociedade afluente") e num clima de apatia política. E ensinava uma geração de estudantes universitários que, embora vivendo à sombra da Guerra Fria e da ameaça nuclear, podia esperar um futuro material particularmente brilhante. Essa "Era de Ouro" do capitalismo (como a chamou Eric Hobsbawm [2]) apenas começava a convencer outros acadêmicos da geração de Mills (a maioria deles aparentemente cega ao que Michael Harrington chamou "a outra América", para não falar do imperialismo dos EUA) de que os problemas da sociedade ocidental tinham sido mais ou menos solucionados, as condições de harmonia social de certa forma preponderavam e a realização do progresso do Iluminismo estava próxima ou concluída. Nada melhor era possível, necessário ou mesmo desejável. Foi isso o que o colega de Mills, Daniel Bell (que, numa edição posterior de seu famoso livro, atacaria Mills com maldade como traidor no caso de Cuba), chamou de o "fim da ideologia".

Desse modo, para Mills, a morte do otimismo iluminista não foi o resultado de alguma catástrofe inevitável. Ao contrário, seu pessimismo nasceu tanto do sucesso como do fracasso. Como ele
sugeriu, muitos dos principais objetivos do Iluminismo tinham sido efetivamente alcançados: a "racionalização" da organização social e política; o progresso científico e tecnológico inconcebível ao mais otimista sonhador iluminista; a difusão do ensino universal nas sociedades ocidentais avançadas e assim por diante. Contudo, tais avanços pouco fizeram para aumentar a "racionalidade substantiva" dos seres humanos; e, de qualquer modo, a "racionalização", a burocracia e a tecnologia moderna restringiram mais que aumentaram a liberdade humana. Foram mesmo a fonte de muitos males inesperados. A conseqüência assustadora dessa falta de relação entre "racionalidade" e liberdade foi o advento de seres humanos alienados, ou "robôs felizes", que se adaptaram a condições organizações gigantes e forças avassaladoras- sobre as quais sentiam que não tinham controle e efetivamente não tinham. Pessoas às quais não mais se podia atribuir anseios de liberdade ou desejos de razão.

Alguns desses temas fizeram parte, por muito tempo, da teoria social ocidental - na sociologia de Max Weber ou Karl Mannheim, por exemplo, para não falar das teorias marxistas da alienação. E a ambivalência para com o Iluminismo, ao lado do pessimismo quanto ao progresso, foi um tópico comum da cultura do século XX, na esquerda e na direita, por razões boas e ruins. Mas, no tempo de Mills, havia uma outra dimensão que também tinha menos a ver com fracasso que com sucesso: o florescimento do capitalismo do "bem-estar" e do "consumidor". Este se tomou um fator determinante fundamental no desenvolvimento da teoria social de esquerda. Muitos críticos sociais - Marcuse é um exemplo primordial- afirmaram que esse novo tipo de capitalismo marcara de forma indelével as "massas" e a classe operária em particular. Mills, que convocava a esquerda a abandonar a "metafísica do trabalho", por certo não estava só quando pensou que a classe operária não estava mais disponível como força de oposição. Até mesmo pessoas que se viam como marxistas compartilharam de algum modo essa visão; e este seria um tema dominante nas "revoluções" dos anos 60, no radicalismo estudantil e em formas da teoria marxista que deram crescente relevo aos estudantes e intelectuais como principais agentes de resistência e "revolução cultural (3)".

Hoje, novamente, enquanto alguns à direita proclamam o "fim da história" ou o triunfo final do capitalismo, certos intelectuais de esquerda nos dizem que uma época terminou, que vivemos numa era "pós-moderna": o "projeto do Iluminismo" está morto, todas as antigas verdades e ideologias perderam sua relevância, os velhos princípios de racionalidade não valem mais, e assim por diante. Desta vez, pelo menos para muitos acadêmicos e estudantes universitários, parece que o verdadeiro divisor de águas ocorreu em algum ponto no final dos anos 60, ou mesmo em 1989, com o colapso do muro de Berlim. Contudo, embora muita história tenha passado entre os marcos iniciais dessa época e os eventos mais recentes, o que surpreende no diagnóstico presente da pós-modernidade é que tenha tanto em comum com atestados de óbito passados, nas suas versões progressistas ou reacionárias. Aparentemente, o que terminou não foi uma época diversa ou diferente, mas a mesma época, outra vez.

Outra coisa que vale registrar, porém, é que as análises mais recentes da pós-modernidade, que combinam tantos traços de velhos diagnósticos de declínio da época, mostram-se notavelmente inconscientes de sua própria história. Em sua convicção de que o que dizem representa uma ruptura radical com o passado, elas se esquecem sublimemente de tudo que outrora foi dito tantas vezes. Mesmo o ceticismo epistemológico, o assalto às verdades e aos valores universais, o questionamento da auto-identidade, parte tão importante das modas intelectuais correntes, têm uma história tão antiga quanto a filosofia. Mais particularmente, o senso pós-moderno de novidade de época depende de se ignorar ou negar uma realidade histórica avassaladora: que todas as rupturas do século XX se unificam num todo histórico particular pela lógica e pelas contradições do capitalismo, o sistema das mil mortes.

Isso nos conduz à característica mais específica dos novos pós-modernos: a despeito de sua insistência nas diferenças e especificidades de época, apesar de sua reivindicação de ter exposto a historicidade de todos os valores e "conhecimentos" (ou precisamente devido à sua insistência na "diferença" e na natureza fragmentada da realidade e do conhecimento humano), eles são notavelmente insensíveis à história. Tal insensibilidade revela-se sobretudo na surdez aos ecos reacionários de seus ataques contra os valores do "Iluminismo" e em seu fundamental irracionalismo. Aqui, então, se situa uma diferença crucial entre os anúncios atuais de mudança de época e todos os outros. As teorias anteriores se baseavam - por definição - em alguma concepção particular de história e pressupunham a importância da análise histórica. C. Wright Mills, por exemplo, insistiu que a crise da razão e da liberdade que marcaram o nascimento da era pós-moderna representavam

... problemas estruturais, e localizá-los requer que trabalhemos nos termos clássicos da biografia humana e da história de uma época. Somente nesses termos podem ser hoje traçadas as conexões de estrutura e ambiente que afetam esses valores e ser conduzida sua análise causal.

Mills também tomava como certo, na forma clássica iluminista, que o objetivo central dessa análise histórica era destacar o espaço de liberdade e agência humanas, formular nossas opções e "alargar o escopo das decisões humanas na feitura da história". E apesar de todo seu pessimismo ele assumia que os limites da possibilidade histórica em sua época eram, "na verdade, bastante amplos [4]".

Essa afirmação é em quase tudo antitética às teorias correntes da pós-modernidade, que negam efetivamente a própria existência de estrutura ou de conexões estruturais e a própria possibilidade de "análise causal". Estruturas e causas foram substituídas por fragmentos e contingências. Não existe uma coisa chamada sistema social (por exemplo, o sistema capitalista) com sua própria unidade sistêmica e suas "leis de movimento". Há somente muitos tipos diferentes de poder, opressão, identidade e "discurso". Não apenas temos que rejeitar as antigas "grandes narrativas", como os conceitos iluministas de progresso, mas devemos renunciar a qualquer ideia de processo e causalidade histórica inteligível e, com isso, evidentemente, a toda ideia de "fazer história". Só existem diferenças anárquicas, desconectadas e inexplicáveis. Pela primeira vez, estamos diante de uma contradição em termos: uma teoria de mudança de época histórica, baseada na negação da história.

Há uma outra coisa especialmente curiosa sobre a nova ideia de pós-modernidade, um paradoxo particularmente notável. Por um lado, a negação da história na qual ela se baseia é associada a uma espécie de pessimismo político. Uma vez que não há sistemas ou história suscetíveis de análise causal, não podemos chegar às raízes dos muitos poderes que nos oprimem; e certamente não podemos aspirar a algum tipo de oposição unificada, de emancipação humana geral, ou mesmo de contestação geral do capitalismo, do tipo em que os socialistas costumavam acreditar. O máximo que podemos esperar é um conjunto de resistências particulares e separadas. Por outro lado, esse pessimismo político parece ter suas origens numa visão bastante otimista da prosperidade e das possibilidades capitalistas. Os pós-modernos de hoje (sobreviventes típicos da "geração dos 60" e de seus alunos) parecem ter uma visão do mundo ainda calcada na "Era de Ouro" do capitalismo, cujo traço dominante é o "consumismo", a multiplicidade de padrões de consumo e a proliferação de "estilos de vida". Aqui também eles revelam seu a-historicismo fundamental, uma vez que as crises estruturais do capitalismo desde aquele momento "dourado" parecem ter passado à sua margem, ou, pelo menos, parecem não ter deixado neles nenhuma impressão teórica significativa.

Para alguns, isso quer dizer que as oportunidades de oposição ao capitalismo estão severamente limitadas. Outros parecem dizer que, se não podemos realmente transformar ou sequer entender o sistema (ou mesmo pensar nele enquanto sistema) e se não dispomos ou somos incapazes de dispor de uma perspectiva por meio da qual criticar o sistema, que dirá fazer oposição a ele, é melhor relaxar e aproveitar. Os expoentes dessas tendências intelectuais certamente sabem que nem tudo está bem; mas pouco existe nesses modismos que ajude, por exemplo, a entender a pobreza e a falta de moradia hoje crescentes, a classe de trabalhadores pobres cada vez maior, as novas formas de trabalho inseguro e de tempo parcial, e assim por diante. As duas faces da ambígua história do século XX - tanto seus horrores como suas maravilhas - desempenharam indubitavelmente uma parte na formação da consciência pós-moderna; mas os horrores que minaram a antiga ideia de progresso são menos importantes para definir a natureza peculiar do pós-modernismo atual que as maravilhas da tecnologia moderna e as riquezas do capitalismo de consumo. O pós-modernismo se assemelha por vezes às ambiguidades do capitalismo tal como vistas da perspectiva daqueles que aproveitam seus benefícios e não sofrem seus custos.

Se, para Mills, o problema central de sua época era a impossibilidade de esperar que robôs felizes ansiassem por liberdade ou razão, os novos pós-modernos encaram tais valores ameaçados do Iluminismo como o problema e os rejeitam abertamente como intrinsecamente opressivos. Talvez em sua submissão derrotista a forças aparentemente incontroláveis, combinada com uma rendição ao consumismo e, às vezes, mesmo uma exaltação dele, a corrente pós-moderna atualmente represente uma manifestação intelectual daqueles robôs. Enquanto Mills parece ter sustentado a visão bastante elitista de que os trabalhadores estavam mais sujeitos a virar robôs, deixando aos estudantes e aos intelectuais o papel de se levantarem acima de tal condição, hoje são esses próprios intelectuais que se tomaram, por assim dizer, a consciência teórica do robô feliz.

Robôs felizes ou críticos sociais?

Depois de dizer tudo isso, seria fácil desconsiderar as modas vigentes. Mas, apesar de todas as suas contradições, falta de sensibilidade histórica, aparente repetição inconsciente de velhos temas e derrotismo, elas também respondem a algo real, a condições reais no mundo contemporâneo, nas condições correntes do capitalismo, com as quais a esquerda socialista precisa acertar suas contas.

Primeiro, apresento uma lista dos mais importantes temas da esquerda pós-moderna (uso esse termo genérico para abranger uma variedade de tendências intelectuais e políticas que emergiram nos anos recentes, incluindo o "pós-marxismo" e o "pós-estruturalismo"): ênfase na linguagem, na cultura e no "discurso" (com o argumento de que a linguagem é tudo o que podemos conhecer sobre o mundo e de que não temos acesso a nenhuma outra realidade), em detrimento das preocupações "economicistas" tradicionais da esquerda e das velhas preocupações da economia política; rejeição do conhecimento "totalizante" e dos valores "universalistas" (incluindo as concepções ocidentais de "racionalidade", as ideias gerais de igualdade, liberais ou socialistas, e a concepção marxista da emancipação humana geral), em benefício da ênfase na "diferença", em identidades particulares diversas como gênero, raça, etnicidade, sexualidade e em várias opressões e lutas particulares e separadas; insistência na natureza fluida e fragmentada do eu humano (o "sujeito descentrado"), que toma nossas identidades de tal modo variáveis, incertas e frágeis, que é difícil ver como podemos desenvolver o tipo de consciência capaz de formar a base para a solidariedade e a ação coletivas fundadas numa "identidade" social comum (como a classe), numa experiência e em interesses comuns - uma exaltação do "marginal" -; e repúdio das "grandes narrativas", tais como as idéias ocidentais de progresso, incluindo as teorias marxistas da história.

Todos esses temas tendem a ser agrupados na desconsideração do "essencialismo", em particular do marxismo, que supostamente reduz a variada complexidade da experiência humana a uma visão monolítica do mundo, "privilegiando" o modo de produção como um determinante histórico, bem como a classe, em contraposição a outras "identidades", e os determinantes "econômicos" e "materiais", em contraposição à "construção discursiva" da realidade. Essa denúncia do "essencialismo" tende a recobrir não apenas as explicações do mundo efetivamente monolíticas (como as variantes stalinistas do marxismo) mas toda espécie de análise causal.

O significado desse jargão pós-moderno deve ficar mais claro no curso dos artigos; para o momento, deve parecer óbvio que a principal tendência que perpassa todos esses princípios pós-modernos é a ênfase na natureza fragmentada do mundo e do conhecimento humano, e a impossibilidade de qualquer política emancipatória baseada em algum tipo de visão "totalizante". Mesmo uma política anticapitalista é demasiado "totalizante" ou "universalizante", uma vez que dificilmente se pode dizer que exista o capitalismo como sistema totalizante, num discurso pós-moderno, de tal modo que mesmo uma crítica do capitalismo está excluída. Com efeito, a "política", em qualquer sentido tradicional do termo, em referência aos poderes abrangentes de classes ou Estados ou à oposição a estes, está efetivamente eliminada, dando lugar às lutas fraturadas da "política de identidade" ou do "pessoal enquanto político" embora haja alguns projetos mais universais que mantenham algumas atrações para a esquerda pós-moderna, como a política ambientalista. Em resumo, forte ceticismo epistemológico e profundo derrotismo político.

Contudo, nenhum de nós negaria a importância de alguns desses temas. Por exemplo, a história do século XX dificilmente poderia inspirar confiança nas noções tradicionais de progresso, e aqueles de nós que professam acreditarem algum tipo de política "progressista" devem enfrentar tudo aquilo que conseguiu solapar o otimismo iluminista. E quem negaria a importância de "identidades" diversas da classe, das lutas contra a opressão sexual e racial ou das complexidades da experiência humana num mundo tão móvel e mutável, com solidariedades tão frágeis e mutantes? Ao mesmo tempo, quem pode ignorar o ressurgimento de "identidades" como o nacionalismo, forças históricas tão poderosas e com freqüência destrutivas? Não temos que acertar contas com a reestruturação do capitalismo, hoje mais global e segmentado que nunca? Nesse sentido, quem não percebe as mudanças estruturais que transformaram a natureza da própria classe operária? E que socialista sério alguma vez desprezou as divisões raciais e sexuais no seio da classe operária? Quem subscreveria o tipo de imperialismo ideológico e cultural que suprime a multiplicidade de valores e culturas humanas? E como podemos negar a política da linguagem e da cultura num mundo tão dominado por símbolos, imagens e "comunicação de massas", para não falar da "superestrada da informação"?

Quem negaria essas coisas num mundo de capitalismo global tão dependente da manipulação de símbolos e imagens numa cultura de propaganda, onde os "meios de comunicação" medeiam nossas próprias experiências mais pessoais, às vezes ao ponto em que aquilo que vimos na televisão parece mais real que nossas próprias vidas e em que os termos do debate político são colocados - e estreitamente constrangidos - pelos ditames do capital em sua forma mais direta, na medida em que o conhecimento e a comunicação estão crescentemente nas mãos das corporações gigantes?

Não é preciso aceitar os pressupostos pós-modernos para enxergar todas essas coisas. Ao contrário, esses processos reclamam uma explicação materialista. Nesse sentido, há poucos fenômenos culturais na história humana cujas fundações materiais sejam mais vivamente óbvias que o próprio pós-modernismo. Não há, com efeito, melhor confirmação do materialismo histórico que o vínculo entre cultura pós-moderna e um capitalismo global segmentado, consumista e móvel. Nem tampouco uma abordagem materialista significa que temos que desvalorizar ou denegrir as dimensões culturais da experiência humana. Uma compreensão materialista constitui, ao contrário, passo essencial para liberar a cultura dos grilhões da mercantilização.

Se o pós-modernismo nos diz alguma coisa, de uma maneira distorcida, sobre as condições do capitalismo contemporâneo, a ideia está em descobrir quais são exatamente essas condições, por que o são e qual o caminho a seguir a partir daí. A ideia, em outras palavras, é sugerir explicações históricas para tais condições, ao invés de apenas submeter-se a elas, consentindo em adaptações ideológicas. É identificar os problemas reais para os quais as modas intelectuais vigentes oferecem soluções falsas - ou não - e, ao fazê-lo, desafiar os limites que eles impõem à ação e à resistência. É, portanto, responder às condições do mundo atual não como robôs felizes (ou infelizes), mas como críticos.

Esta edição especial de Monthly Review pretende sugerir algumas das formas pelas quais o materialismo histórico pode lançar luz sobre esses temas, embora evidentemente, num espaço tão limitado, possamos apenas arranhar a superfície. Ao organizar esta edição, John Foster e eu enviamos uma carta aos colaboradores em potencial, explicando o que tínhamos em mente. Assim deixem-me concluir esta introdução com alguns extratos desta carta. Ela começa com uma citação de meu artigo, no número do verão de 1994, que tratava da obra de E. P. Thompson:[5]

A crítica do capitalismo está fora de moda - e há aqui uma curiosa convergência, uma espécie de sagrada aliança entre triunfalismo capitalista e pessimismo socialista. A vitória da direita se reflete na esquerda numa aguda contração das aspirações socialistas. Os intelectuais de esquerda, se não abraçam efetivamente o capitalismo como o melhor dos mundos possíveis, têm pouca esperança em algo mais que um pequeno espaço nos interstícios do capitalismo; e anteveem, na melhor das hipóteses, apenas resistências locais e particulares. E há outro efeito curioso de tudo isso. O capitalismo está se tornando tão universal, tão garantido, que passa a ser invisível. Hoje há certamente muitos motivos para sermos pessimistas. Fatos recentes e atuais fornecem-nos fundamento suficiente. Mas existe algo de curioso na forma como muitos de nós reagem a tudo isso. Se o capitalismo efetivamente triunfou, devíamos pensar que, mais do que nunca, precisamos de uma crítica do capitalismo. Por que seria a hora de acolher modos de pensamento que parecem negar a própria possibilidade não apenas de suplantar o capitalismo mas até mesmo de compreendê-lo criticamente? [...] 
Penso que estamos atualmente numa situação sem precedentes, algo que não presenciamos em toda a história do capitalismo. Vivemos agora não apenas uma carência de ação, ou a ausência dos instrumentais e da organização para a luta (embora estes sejam frágeis, sem dúvida). Não se trata somente de saber como agir contra o capitalismo, mas de esquecer até mesmo como pensar contra ele.

A carta prosseguia, explicitando nossas intenções:

É este o contexto em que planejamos a edição especial. Partimos da ideia de que uma obra histórica como a de E. P. Thompson e a economia política, no que tem de melhor, são essenciais para o projeto crítico da esquerda. [...] O ponto central, contudo, é o seguinte: não podemos hoje tomar como certo que outros intelectuais de esquerda compartilhem nossa visão; e, falando como professores, temos ambos bastante consciência de que muitos, se não a maior parte, de nossos alunos - mesmo aqueles que se vêem como de esquerda - dificilmente concordam seja com nosso entendimento do capitalismo, seja com nossos pressupostos epistemológicos e históricos. E essas discordâncias se expressam numa agenda intelectual, para não dizer política, muito diferente [...]. 
O que propomos, então, é uma coletânea de artigos que oferecerá algumas sugestões sobre como o materialismo histórico pode enfrentar essa outra agenda de maneira mais frutífera, vigorosa e liberadora que a das correntes intelectuais e políticas em voga. Não estamos sugerindo que as pessoas como nós abandonem seu próprio terreno. Ao contrário, parte de nosso objetivo é demonstrar que nosso terreno está onde devia - por exemplo, que as velhas questões triviais da esquerda (como a ligação entre "política" no velho sentido, Estado e poder de classe) estão ainda no centro das coisas, e permanecem importantes para outros projetos emancipatórios, não apenas para as formas tradicionais de política de classe. Mas podemos prender a atenção de nossos alunos e de gente como eles se os confrontarmos em seu terreno favorito.

É isso, portanto, o que pretendemos fazer, de uma forma muito limitada.

Os temas desta edição, e com freqüência o estilo, podem ser diferentes do que os leitores de MR habituaram-se a ter, mas a motivação fundamental e o compromisso político continuam os mesmos. Nossa mensagem principal é que esta pode ser a hora certa de revitalizar a crítica marxista. O mundo está cada vez mais povoado não por robôs felizes, mas por seres humanos muito enraivecidos. Do jeito que estão as coisas, há muito poucos recursos intelectuais disponíveis para compreender esse sentimento, e (pelo menos na esquerda) os recursos políticos para organizá-las são muito raros. O pós-modernismo atual, apesar de todo seu aparente pessimismo derrotista, ainda está calcado no capitalismo da Era de Ouro. Já é tempo de deixar para trás esse legado, a fim de enfrentar as realidades dos anos 90 e do século XXI.

Notas:

1. C. Wright Mills, The. Sociological imagination, Oxford e Nova York, 1959, pp.165-7.

2. Em Era dos extremos: o breve século XX, 1914-1991 de Hobsbawm, a "Era de Ouro" (aproximadamente 1947-73) está espremida entre a "época da catástrofe" e o "desmoronamento" (Ed. brasileira: São Paulo, Companhia das Letras, 1995, tradução de Marcos Santarrita).

3. Discuto alguns desses processos em "A chronology of the new left, or: who's old-fashioned now?", Socialist Register 1995, Nova York e Londres, 1995.

4. Mills, The Sociological Imagination, pp. 173-4.

5. Ver "From opportunity to imperative: the history of the market", Monthly Review 46 (3),julyaug. 1994.

21 de junho de 1995

A arte moderna como "arma" da CIA

Revelado: como a agência de espionagem usou artistas inconscientes como Pollock e de Kooning em uma Guerra Fria cultural

Frances Stonor Saundes


Tradução / Durante décadas nos círculos de arte isso ou era um boato ou uma piada, mas agora confirma-se como um fato. A Agência Central de Inteligência usou-se da arte moderna americana, incluindo as obras de artistas como Jackson Pollock, Robert Motherwell, Willem de Kooning e Mark Rothko, como uma arma na Guerra Fria. Na forma de um príncipe da Renascença, exceto por agir secretamente, a CIA fomentou e promoveu a pintura Expressionista Abstrata Americana em todo o mundo por mais de 20 anos.

A conexão é improvável. Este foi um período, na década de 50 e 60, em que a grande maioria dos americanos não gostava ou mesmo desprezava a arte moderna, o presidente Truman resumiu o ponto de vista popular ao dizer: "Se isso é arte, então sou Hottentot". Para os próprios artistas, muitos eram ex-comunistas que mal eram aceitos na América da era mccarthista, e certamente não o tipo de pessoas que normalmente recebiam apoio do governo americano.

Por que a CIA passou a apoiá-los? Por que na guerra de propaganda contra a União Soviética, esse novo movimento artístico poderia ser apresentada como prova da criatividade, da liberdade intelectual, e o poder cultural dos EUA. A arte russa, presa na camisa de força ideológica comunista, não poderia competir.

A existência dessa política, presente em rumores e contestada por muitos anos, agora foi confirmada pela primeira vez por ex-oficiais da CIA. Desconhecida para os artistas, a nova arte americana era secretamente promovida sob uma política conhecida como "longa coleira", acordos semelhantes aos do apoio indireto da CIA ao jornal Encounter, editado por Stephen Spender.

A decisão de incluir a cultura e a arte no arsenal da Guerra Fria nos EUA foi tomada assim que a CIA foi fundada em 1947. Consternada com o apoio que o comunismo ainda tinha entre muitos intelectuais e artistas no ocidente, a nova agência organizou uma divisão, os Ainventários Ativos de Propaganda(Propaganda Assets Inventory), que em seu auge pôde influenciar mais de 800 jornais, revistas e formadores de opinião pública. Eles brincavam dizendo que era como uma caixa de música Wurlitzer: quando a CIA apertava o botão, podia-se ouvir qualquer música tocando pelo mundo inteiro.

O próximo passo decisivo veio em 1950, quando a Divisão de Organizações Internacionais(IOD) foi instituída por Tom Braden. Foi este escritório que subsidiou a versão animada de A Revolução dos Bichos de George Orwell, que patrocinou artistas americanos de jazz, recitais de ópera, a programada turnê internacional da Orquestra Sinfônica de Boston. Seus agentes foram colocados na indústria cinematográfica, em editoras, assim como escritores viajantes para os celebrados guias Fodor. E, agora sabemos, ela promoveu o movimento de vanguarda anárquico Expressionismo Abstrato.

Inicialmente, mais tentativas abertas foram feitas para apoiar a nova arte americana. Em 1947, o Departamento de Estado organizou e pagou por uma exibição internacional chamada "Avançando a Nova Arte Americana", com o escopo de refutar sugestões soviéticas de que a América era um deserto cultural. Mas o show causou indignação em casa, levando a Truman e sua observação sobre Hottentott e um congressista amargurado a declarar: "Eu sou só um americano idiota que paga impostos para este tipo de lixo". A turnê teve que ser cancelada.

O governo dos EUA agora enfrenta um dilema. Esse filistinismo, combinado com as denúncias histéricas de Joseph McCarthy de que tudo o que era de vanguarda ou não ortodoxo era profundamente embaraçoso. Ele desacreditou a ideia de que a América era uma sofisticada e culturalmente rica democracia. Ele também impediu o governo dos EUA de consolidar uma mudança de supremacia cultural de Paris para Nova Iorque desde 1930. Para resolver esse dilema, a CIA foi chamada.

A conexão não é tão estranha quanto pode parecer. Neste momento a nova agência, composta principalmente por graduados de Yale e Harvard, muitos dos quais colecionavam arte e escreviam romances em seu tempo livre, eram um refúgio do liberalismo quando comparado com um mundo político dominado por McCarthy ou com o FBI de J. Edgar Hoover. Se havia uma instituição política estava em posição de celebrar uma coleção de leninistas, trotskistas e alcólatras que compunham a Escola de Nova Iorque, esta era a CIA.

Até agora não houve nenhuma evidência em primeira mão para provar que esta ligação foi feita, mas nela, pela primeira vez alguém antes oficial no caso quebrou o silêncio. Sim, ele diz, a agência viu o Expressionismo Abstrato como uma oportunidade e sim, ele correu com ela.

"No que diz respeito expressionismo abstrato, eu adoraria ser capaz de dizer que a CIA inventou isso apenas para ver o que acontece em Nova York e no centro SoHo amanhã!", brincou. "Mas eu acho que o que fizemos realmente foi reconhecer a diferença. Foi reconhecido que o Expressionismo Abstrato era o tipo de arte que fez realismo socialista olhar ainda mais estilizado e mais rígido e confinado do que era. E essa relação foi explorada em algumas das exposições.

"De certa forma o nosso entendimento foi ajudado porque Moscou naqueles dias era muito cruel na sua denúncia de qualquer tipo de não-conformidade com os seus próprios padrões muito rígidos. Assim, pode-se de forma adequada e precisa raciocinar que qualquer coisa que eles criticavam muito e com mão pesada valia a pena ser apoiado de uma forma ou de outra".

Para prosseguir em seu interesse clandestino na vanguarda esquerdista da América, a CIA tinha que ter certeza de que seu patrocínio não poderia ser descoberto. "Questões desse tipo só poderia ter sido feito em dois ou três removes", o Sr. Jameson explicou, "de modo que não haveria qualquer questão de ter que limpar Jackson Pollock, por exemplo, ou fazer qualquer coisa que possa envolver essas pessoas com a organização. E não poderia ter sido melhor, pois a maioria deles eram pessoas que tinham muito pouco respeito pelo governo, em particular, e, certamente, nenhum pela CIA. Se você tivesse que usar pessoas que se consideravam de uma forma ou de outra mais próximas de Moscou do que Washington, bem, tanto melhor, talvez".

Essa foi a "longa coleira". A peça central da campanha da CIA tornou-se o Congresso pela Liberdade Cultural, um grande congresso de intelectuais, escritores, historiadores, poetas e artistas, que foi criado com recursos da CIA em 1950 e dirigido por um agente da CIA. Era a cabeça de praia a partir da qual a cultura pôde ser defendida dos ataques de Moscou e seus "colegas de viagem" no Ocidente. No seu auge, ela tinha escritórios em 35 países e publicou mais de duas dezenas de revistas, incluindo a Encounter.

O Congresso para a Liberdade Cultural também deu à CIA a frente ideal para promover sua participação secreta no Expressionismo Abstrato. Seria o patrocinador oficial de exposições itinerantes, suas revistas iriam fornecer plataformas úteis para os críticos favoráveis à nova pintura americana; e ninguém, os artistas incluídos, seria mais sábio.

Esta organização reuniu várias exposições do Expressionismo Abstrato nos anos 50. Uma das mais significativas, "A nova pintura americana", visitou cada grande cidade europeia em 1958-59. Outros shows influentes incluindo a "Arte Moderna nos Estados Unidos"(1955) e "Obras-primas do século XX" (1952).

Pelo fato do Expressionismo Abstrato ser caro para se movimentar e apresentar, milionários e museus foram chamados para o jogo. Preeminente entre estes estava Nelson Rockefeller, cuja mãe foi cofundadora do Museu de Arte Moderna de Nova York. Como presidente do que ele chamou de "Museu da Mamãe", Rockefeller era um dos maiores apoiadores do Expressionismo Abstrato (que ele chamou de "pintura de livre empresa"). Seu museu foi contratado para o Congresso para a Liberdade Cultural para ser organizador e curador da maioria de suas importantes mostras de arte.

O museu também estava ligado à CIA por várias outras pontes. William Paley, o presidente da difusora CBS e um dos fundadores da CIA, sentou-se na mesa de membros do Programa Internacional do museu. John Hay Whitney, que tinha servido em tempos de guerra antecessores da agência, a OSS, foi o seu presidente. E Tom Braden, primeiro chefe da Divisão de Organizações Internacionais da CIA, foi secretário-executivo do museu, em 1949.

Agora em seus oitenta anos, o Sr. Braden mora em Woodbridge, Virgínia, em uma casa repleta de trabalhos do Expressionismo Abstrato e guardada por enormes alsacianos. Ele explicou o objetivo do IOD.

"Queríamos unir todas as pessoas que eram escritoras, que eram músicos, que eram artistas, para demonstrar que o Ocidente e os Estados Unidos eram dedicados à liberdade de expressão e de realização intelectual, sem quaisquer barreiras rígidas sobre o que e como você deve escrever, e o que você deve dizer, e o que você deve fazer, e o que você deve pintar, que era o que estava acontecendo na União Soviética. Eu penso que foi a divisão mais importante que a agência tinha, e eu penso que ela desempenhou um papel enorme na Guerra Fria".

Ele confirmou que sua divisão agiu secretamente por causa da hostilidade do público à vanguarda: "Foi muito difícil fazer o Congresso acompanhar algumas das coisas que queríamos fazer, enviar a arte ao exterior, enviar sinfonias ao exterior, publicar revistas no exterior. Essa é uma das razões por que tinha de ser feito de forma encoberta, tinha que ser um segredo. Para incentivar a abertura tivemos que ser secretos".

Será que o Expressionismo Abstrato teria sido o movimento de arte dominante dos anos do pós-guerra sem este patrocínio? A resposta é provavelmente sim. Igualmente, seria errado sugerir que quando você olha para uma pintura expressionista abstrata você está sendo enganado pela CIA.

Mas olhe onde esta arte acabou: nos salões de mármore dos bancos, nos aeroportos, nas prefeituras, salas de reuniões e grandes galerias. Para os guerreiros frios que a promoveram, estas pinturas foram um logotipo, uma assinatura da sua cultura e sistema que eles queriam mostrar em todos os locais possíveis. Eles conseguiram.

Operação secreta
Em 1958, a exposição itinerante "The New American Painting " , incluindo obras de Pollock, De Kooning , Motherwell e outros, estava em exibição em Paris. A Tate Galery fez questão de recebê-la em seguida, mas não tinha dinheiro para trazê-la. No final do dia, um milionário americano e amante de arte, Julius Fleischmann , entrou em cena com o dinheiro e a mostra foi trazida para Londres.

O dinheiro que Fleischmann forneceu, porém , não era seu, mas da CIA. Ele veio através de um órgão chamado a Fundação Farfield, da qual Fleischmann foi presidente, mas longe de ser um milionário caridoso, a fundação era um canal secreto para os fundos da CIA.

Então , desconhecido para a Tate , o público ou os artistas , a exposição foi transferido para Londres às custas dos contribuintes americanos para servir a fins de propaganda da Guerra Fria sutis. Um ex- agente da CIA , Tom Braden, descrito como tais condutas como a Fundação Farfield foram criadas . "Gostaríamos de ir para alguém em Nova York, que era uma pessoa rica bem conhecido e que dizia: 'Queremos criar uma fundação . Gostaríamos de dizer a ele o que estávamos tentando fazer e prometer-lhe que o segredo , e ele diria: ' É claro que eu vou fazer isso ', e então você iria publicar um papel timbrado e seu nome seria nele e haveria uma fundação. foi realmente um dispositivo muito simples".

Então, desconhecida para a Tate, o público ou os artistas, a exposição foi transferida para Londres às custas dos contribuintes americanos para servir a fins de propaganda da Guerra Fria sutis. Um ex-agente da CIA , Tom Braden, descreveu como tais condutas como a Fundação Farfield foram criadas. "Nós recorreríamos a alguém em Nova York que fosse rico e bem conhecido e que diria: 'Queremos criar uma fundação'. Nós lhe contaríamos o que estávamos tentando fazer e exigir dele o segredo, e ele diria: 'É claro que eu vou fazer isso', e então você iria publicar um papel timbrado e seu nome estaria nele e haveria uma fundação. Foi um dispositivo realmente muito simples".

Julius Fleischmann estava bem colocado para esse papel. Ele sentou-se na mesa do Programa Internacional do Museu de Arte Moderna de Nova York - como fizeram várias figuras poderosas perto da CIA.

3 de janeiro de 1995

Podemos escrever a história da Revolução Russa?

Este texto, aqui publicado pela primeira vez, foi apresentado como “Isaac Deutscher Lecture” em Londres, em 3 de dezembro de 1996. Seu objetivo é discutir, entre outros temas, o problema da história contrafactual (“e se...”).

Eric J. Hobsbawm

The Deutscher Memorial Lecture

Escolhi meu tema como um tributo a Isaac Deutscher, cuja obra mais permanente é um clássico na história da Revolução Russa, ou seja, sua biografia de Trótski. Assim, a resposta imediata a essa pergunta do título é, obviamente, sim.

Mas isso deixa em aberto a questão mais ampla: podemos algum dia escrever a história definitiva de alguma coisa — não apenas a história conforme vista hoje, ou em 1945 —, inclusive, é claro, da Revolução Russa? Nesse caso, em um sentido óbvio a resposta é não, a despeito do fato de que há uma realidade histórica objetiva, que os historiadores investigam, para estabelecer, entre outras coisas, a diferença entre fato e ficção. Somos livres para crer que Hitler fugiu dos russos e se refugiou no Paraguai, mas não foi assim. Todavia, cada geração faz suas próprias perguntas novas sobre o passado. E todas continuarão a fazer isso. Lembremos também que na história do mundo moderno estamos lidando com uma acumulação quase infinita de registros públicos e privados. Não há jeito nem mesmo de imaginar o que os futuros historiadores procurarão e descobrirão neles que nós não havíamos pensado. Os arquivos revolucionários franceses mantiveram os historiadores ocupados durante duzentos anos, e não há nenhum indício de que os retornos estejam decrescendo. Mal estamos começando a escalar o himalaia de documentação dos arquivos soviéticos. Portanto, não é possível uma história definitiva. No entanto, a história como atividade séria é possível porque os historiadores podem concordar sobre o que estão falando, sobre quais questões estão discutindo e até sobre boa parte das respostas para reduzir suas diferenças o bastante para o debate significativo.

No campo da história russa do século XX, durante muito tempo, isso foi quase impossível. Agora, o fim da União Soviética inevitavelmente alterou o modo como todos os historiadores encaram a Revolução Russa, porque agora são capazes ou, de fato, obrigados a vê-la numa perspectiva diferente, como um biógrafo de uma pessoa morta, em contraste com o de uma pessoa viva. É claro que levará muito tempo até que as paixões daqueles que escrevem a história da URSS se reduzam à temperatura morna daqueles que hoje escrevem a história da Reforma Protestante, que costumava ser um assunto de grande rancor entre estudiosos católicos e protestantes, ou daqueles que escrevem sobre a Revolução de 1688 fora dos distritos de Derry de Martin McGuiness e Bushmills do reverendo Ian Paisley, terra daquilo que uma vez me foi descrito por um ideológico bebedor irlandês como “um uísque protestante”. Na ex-URSS e sucessores dos Estados socialistas, a história da Revolução Russa ainda é escrita nesse espírito, motivo pelo qual nada além de novas fontes para história, embora não para boa história, tenda a vir de lá. Mesmo do lado de fora, a maioria de nós ainda é emocionalmente muito próxima e parcial para considerar a Guerra Fria entre capitalismo e comunismo — uma vez que os dois sistemas jamais combateram um contra o outro no campo de batalha — com os mesmos olhos com que consideramos a Guerra dos Trinta Anos.

Há ainda outra coisa. Podemos fazer um juízo da revolução que deu início à URSS, mas não ainda do seu fim, e isso certamente afetará o juízo histórico. A catástrofe na qual mergulhou a gente comum da antiga URSS ao final do antigo sistema ainda não acabou. Penso que o salto súbito, revolucionário, do antigo sistema para o capitalismo que lhes foi imposto talvez tenha perturbado mais a economia que a Segunda Guerra Mundial e mais que a Revolução de Outubro, e a economia da região já levou mais tempo para se recuperar disso que nos anos 1920 e 1940. Nossa avaliação de todo o fenômeno soviético continua provisória. Não obstante, podemos agora começar a perguntar: sobre o que podem hoje legitimamente concordar os historiadores da Revolução Russa? Podemos alcançar um consenso sobre algumas perguntas que precisam ser feitas quanto à história da Revolução Russa, e sobre alguns de seus elementos que possam ser solidamente estabelecidos pelas regras da pesquisa e da evidência e que, portanto, sejam realmente indiscutíveis?

Um problema é que as mais complexas dessas questões residem fora do alcance habitual da prova e refutação, porque dizem respeito ao que poderia ter acontecido. Muito do que de fato aconteceu pode agora ser conhecido porque se dispõem de informações, embora durante praticamente toda a existência da URSS grande parte fosse inacessível, oculta atrás de arquivos trancados e barricadas de mentiras e meias verdades o􀆘ciais. É por isso que um volume enorme da literatura surgida naquele período agora terá de ser sucateada, apesar de sua engenhosidade na utilização de fontes fragmentárias e da plausibilidade de suas conjecturas. Simplesmente não precisaremos mais dela. The Great Terror [O grande terror], de Robert Conquest, por exemplo, desaparecerá como grande abordagem de seu tema, simplesmente porque as fontes dos arquivos encontram-se agora disponíveis, ainda que elas não eliminem toda discussão. Conquest será lido como um notável esforço pioneiro de avaliar o Terror de Stálin, mas um livro que inevitavelmente se tornará obsoleto enquanto abordagem dos fatos terríveis que tentou investigar. Em suma, acabará lido mais por aquilo que seu livro nos conta sobre a historiografia da era soviética que por aquilo que nos conta sobre sua história. Quando dados melhores ou mais completos se tornam disponíveis, devem tomar o lugar dos dados deficientes e incompletos. Por si só, isso transformará a historiografia da era soviética, mas não responderá, contudo, a todas as nossas perguntas, particularmente as concernentes ao período soviético inicial antes da burocratização plena do regime, quando o governo e o partido soviéticos de fato não sabiam muito do que estava acontecendo em seu território.

Por outro lado, os debates mais acalorados sobre a história russa do século XX não giram em torno do que aconteceu, mas do que poderia ter acontecido. Eis aqui algumas questões. Era inevitável uma revolução na Rússia? O czarismo podia ter se salvado? Estaria a Rússia a caminho de um regime capitalista liberal em 1913? Uma vez ocorrida a revolução, dispomos de um conjunto ainda mais explosivo de contrafactuais. E se Lênin não tivesse voltado para a Rússia? A Revolução de Outubro teria sido evitada? O que teria acontecido na Rússia se ela tivesse sido evitada? Mais centrais aos marxistas: o que levou os bolcheviques a decidirem tomar o poder com um programa de revolução socialista obviamente irrealista? Deviam ter tomado o poder? E se a revolução europeia — ou seja, a revolução alemã, na qual apostavam suas 􀆘chas — tivesse acontecido? Os bolcheviques poderiam perder a Guerra Civil? Mas não fosse a Guerra Civil, como teriam se desenvolvido o Partido Bolchevique e a política soviética? Vencendo-a, havia alternativas para o retorno a uma economia de mercado sob a NEP (“Nova Política Econômica”)? O que poderia ter acontecido se Lênin tivesse continuado em plena atividade? A lista não tem fim, e apenas mencionei algumas das questões contrafactuais óbvias do período até a morte de Lênin. O objetivo desta conferência não é dar a minha resposta a essas perguntas, mas tentar colocar essas questões na perspectiva de um historiador em atividade.

Elas não podem ser respondidas com base na evidência sobre o que aconteceu porque giram em torno do que não aconteceu. Assim podemos dizer, para lá da dúvida relevante, que no outono de 1917 uma onda enorme de radicalização popular, da qual os bolcheviques foram os principais beneficiários, varreu para o lado o governo provisório, de sorte que, no momento da Revolução de Outubro, tratava-se menos de capturar o poder que recolhê-lo de onde havia caído. Dispomos de fortes evidências disso. A ideia de que Outubro não foi mais que uma espécie de golpe conspiratório simplesmente não conseguiria ser sustentada. Para reconhecer isso temos apenas de ler o relato, escrito antes da Revolução de Outubro pelo então correspondente do Manchester Guardian, Philips Price, após uma viagem de várias semanas pelas províncias do Volga. A propósito, não sei de nenhuma outra testemunha estrangeira, com bom conhecimento da Rússia e fluência na língua, que tenha feito semelhante viagem pelo coração da Rússia naquela época. “Os fanáticos maximalistas”, escreveu, “que ainda sonham com uma revolução social por toda a Europa, segundo minhas observações nas províncias, recentemente adquiriram, ainda que amorfo, um imenso número de seguidores.” No momento que o artigo, enviado de Yaroslav, chegava a Manchester, os bolcheviques haviam tomado o poder e, por isso, o jornal o publicou em dezembro de 1917 com a manchete “Como os maximalistas obtiveram o comando”, mas na verdade havia sido enviado antes de outubro.

Mas, naturalmente, questões sobre alternativas não podem ser solucionadas dessa maneira — o que poderia ter acontecido, por exemplo, se os bolcheviques não tivessem decidido tomar o poder, ou tivessem se disposto a tomar o poder à frente de uma ampla coalizão com os demais partidos socialistas e social-revolucionários. Como poderíamos saber? Philips Price, por exemplo, no mesmo despacho, sugeria a possibilidade de que o enorme ódio da guerra, que, segundo ele imaginava, era o que organizara “a confusa massa social” da revolução (palavras suas), produziria “um Napoleão — um ditador da paz [...] que colocará um fim à guerra mesmo à custa de perdas territoriais para a Rússia e ao preço das liberdades políticas conquistadas pela Revolução”. Sabemos que alguma coisa desse tipo aconteceu. Retrospectivamente, podemos notar que, na situação de 1917, ele certamente tinha razão de supor que, de um modo ou de outro, era inevitável que a Rússia logo saísse da guerra. Mas ele também supunha que logo que isso acontecesse a Revolução se dividiria em facções em luta que resultariam em sua derrota. Isso não aconteceu, mas, para um excelente observador contemporâneo, também parecia muito provável. Como não aconteceu, mesmo os historiadores não podem fazer mais que especulações a respeito.

Mas como exatamente especulamos? E qual o sentido de, pelo menos, algumas dessas especulações? A dificuldade reside em que há pelo menos três tipos diferentes de contrafactuais. Um deles, apesar de fascinante, é analiticamente inútil. Considere-se Lênin, ou a esse respeito, Stálin. Sem a presença pessoal desses homens singulares, a história da Revolução Russa certamente teria sido muito diferente. A despeito de uma série de evasivas gerais de ordem política e ideológica, os indivíduos nem sempre fazem tanta diferença assim na história. Os EUA, por exemplo, perderam de fato sete presidentes antes do final de seu mandato devido a assassinato ou outras circunstâncias desde 1865, mas, na perspectiva do século, isso não parece ter feito muita diferença ao perfil da história norte-americana. Por outro lado, às vezes os indivíduos realmente fazem diferença, como no caso de Lênin e Stálin — ou, nesse sentido, nos últimos anos da URSS. Um ex-diretor da CIA contou ao professor Fred Halliday em uma entrevista à BBC: “Acredito que, se Andropov fosse quinze anos mais novo quando tomou o poder em 1982, ainda teríamos conosco uma União Soviética, continuando a declinar economicamente, cada vez mais deficiente tecnicamente [...] mas ainda sobrevivente”.1 Não gosto de concordar com diretores da CIA, mas isso me parece totalmente plausível. Entretanto, após dizer isso, quase não há muito mais a ser dito. Pode-se analisar o tipo de situações históricas nas quais pessoas singulares podem representar uma drástica diferença, tanto positiva quanto negativamente. Talvez, como faz Alan Bullock em suas biografias paralelas de Hitler e Stálin, possamos investigar as maneiras como as mesmas se combinam para reforçar seu poder pessoal, como certamente fez Stálin, mas Lênin claramente não tentou fazer. Podemos estabelecer os limites daquilo que tais indivíduos dotados de poder interno absoluto podem alcançar, ou de que maneira suas metas e políticas não eram específicas a si mesmos enquanto indivíduos, mas essenciais a seu tempo, lugar e situação.

Pode-se afirmar, por exemplo, com total plausibilidade, que havia margem para mais ou menos rigidez no projeto de industrialização acelerada pelo planejamento estatal soviético, mas se a URSS se envolvesse em semelhante projeto na época, por maior que fosse o envolvimento genuíno a ele dedicado por milhões de pessoas,2 iria exigir uma boa dose de coerção, mesmo se a URSS tivesse sido governada por alguém não tão implacável e cruel quanto Stálin. Ou então se pode afirmar, com Moshe Lewin, que mesmo o poder total não propiciaria a Stálin controle sobre a máquina burocrática em constante dilatação na qual a URSS necessariamente se convertia. Apenas o terror, o medo da morte para funcionários temporariamente onipotentes, poderia garantir que obedecessem ao autocrata e não o enredassem na teia de aranha burocrática. Ou, além disso, pode-se demonstrar que, dados antecedentes históricos determinados, mesmo o que fazem os autocratas obedece a velhos padrões. Tanto Stálin quanto Mao sabiam que eram os herdeiros de imperadores absolutos, e se conformaram, pelo menos até certo ponto, a seus predecessores imperiais — certamente tinham consciência de que seriam vistos a essa luz por seus súditos. Mas, quando se disse tudo isso e mais, ainda não se respondeu a questão das alternativas históricas. Tudo que se disse é: “as coisas teriam sido diferentes se Lênin não tivesse conseguido sair da Suíça até 1918”, ou, no extremo, “as coisas teriam sido muito diferentes” ou “não muito diferentes”. E não se pode ir mais longe, exceto na ficção.

Uma segunda série de contrafactuais é um pouco mais interessante, no mínimo porque de fato ajuda a história da Revolução Russa a remover os antolhos da polêmica ideológica. Tomemos o exemplo da queda do czarismo. Nenhum observador sério, mesmo antes de 1900, esperava que o czarismo sobrevivesse muito tempo no século XX. Uma revolução russa era universalmente prevista. O próprio Marx, em 1879, esperava “um grande desastre e não muito distante na Rússia; imagina-se que começará por reformas de cima para baixo que o velho edifício não será capaz de suportar e que levarão ao seu desabamento total”,3 e o político britânico que relatou suas opiniões à filha da rainha Vitória achava essa visão “não despropositada”. Retrospectivamente, parece inegável que as chances do czarismo, após sobreviver a sua primeira revolução em 1905, eram pequenas, e praticamente nulas bem antes da Grande Guerra; e não havia muitas pessoas na época que pensassem o contrário durante mais que um momento. Não precisamos nos incomodar muito com a teoria de que a Rússia czarista fazia progressos no sentido de se tornar uma próspera sociedade capitalista liberal quando a Primeira Guerra Mundial e os bolcheviques surgiram, como se do nada, e a arruinaram. Não fosse por necessidade do argumento antimarxista, essa teoria jamais teria sido levada a sério.

A propósito, nem mesmo os liberais afirmaram com confiança que uma Rússia liberal, democrático-parlamentar, era uma possibilidade muito grande após a queda do czar. Muitos deles gostariam de acreditar que não foi mais que um golpe leninista que cortou a garganta de uma promissora democracia liberal russa, mas eles o fazem sem convicção. Posso lembrar apenas, de passagem, que nas únicas eleições relativamente livres, realizadas logo após a Revolução de Outubro, para a Assembleia Constituinte, os liberais burgueses somaram 5% e os mencheviques 3%.

Por outro lado, os comunistas também dispõem de seus mitos sobre possibilidades diferentes de história. Minha geração, por exemplo, foi educada no conto da traição da Revolução Alemã de 1918 pelos líderes social-democratas moderados. Os Ebert e os Scheidemann abortaram a Revolução Alemã potencialmente socialista e proletária, a Rússia soviética continuou isolada — e o desenvolvimento lógico esperado por Marx e Engels não aconteceu, ou seja, uma revolução russa acendendo o pavio da revolução proletária em países menos obviamente despreparados para erigir uma economia socialista.

Ora, esse mito difere daquele sobre um czarismo liberal em um aspecto importante. Antes de 1917, nenhum observador realista esperava, durante mais que um único momento, que o czarismo sobrevivesse, e muito menos superasse seus problemas, mas em 1917-8, o roteiro de Marx e Engels parecia muito provável. Não culpo os revolucionários alemães e russos por terem essas esperanças no período de 1917 a 1919, embora eu tenha afirmado alhures que Lênin não deveria ter acreditado nisso até 1920. Durante algumas semanas ou mesmo meses no período de 1918 a 1919, poderia parecer provável uma expansão da Revolução Russa para a Alemanha.

Mas não era. Penso que hoje há um consenso histórico a esse respeito. A Primeira Guerra Mundial abalou profundamente todos os povos nela envolvidos, e as revoluções de 1917-8 foram, acima de tudo, revoltas contra aquele holocausto sem precedentes, principalmente nos países do lado que estava perdendo. Mas em certas áreas da Europa, e em nenhuma outra mais que na Rússia, foram mais que isso: foram revoluções sociais, rejeições populares do Estado, das classes dominantes e do status quo. Não acho que a Alemanha pertencesse ao setor revolucionário da Europa. Não acho que parecesse pelo menos provável uma revolução social na Alemanha em 1913. Ao contrário do czar, acredito que, não fosse pela guerra, a Alemanha do kaiser poderia ter solucionado seus problemas políticos. Isso não quer dizer que a guerra fosse um acaso inesperado e inevitável, mas essa é uma outra questão. Claro que os líderes social-democratas moderados desejavam impedir que a Revolução Alemã caísse nas mãos dos socialistas revolucionários, porque eles próprios não eram nem socialistas nem revolucionários. De fato, nem mesmo desejavam se livrar do imperador. Mas não é esse o ponto. Uma revolução de outubro na Alemanha, ou algo parecido, não era um risco sério e, portanto, não precisou ser traída.

Penso que Lênin estava enganado ao apostar suas fichas em uma revolução alemã, mas não acho que ele pudesse ter percebido isso em 1917 ou 1918. Simplesmente não parecia provável. É nisso que a retrospecção histórica difere da avaliação contemporânea das possibilidades. Se em política temos de tomar decisões, como Lênin teve, nós as tomamos conforme as percebemos — e para ele era natural percebê-las dessa maneira. Mas o passado aconteceu, a partida não pode ser jogada de novo e, por isso, podemos perceber as coisas com mais clareza. A Revolução Alemã não foi um partida perdida comparada ao ponto da jogada anterior do time. A Revolução Russa estava destinada a erigir o socialismo em um país atrasado e logo extremamente arruinado, embora eu ainda precise ser convencido por Orlando Figes, que afirma que em 1918 Lênin já havia desistido de pensar em uma revolução se expandindo para mais algum lugar da Europa. Ao contrário, desconfio que os arquivos irão mostrar que, por vários anos ainda, a liderança soviética, ainda que não preparada para colocar em risco sua base doméstica na Rússia, permanecia tão envolvida com a revolução internacional quanto Fidel Castro e Che Guevara o estiveram, e, se assim posso dizer, muitas vezes com tantas ilusões e a mesma ignorância que os cubanos sobre a situação no exterior.4

Tendo a pensar que Lênin teria desejado tumultuar o Palácio de Inverno mesmo se tivesse certeza que os bolcheviques seriam derrotados, naquilo que poderia ser chamado pelos irlandeses de princípio da “Ascensão da Páscoa”: fornecer inspiração para o futuro, mesmo da forma como a derrotada Comuna de Paris havia feito. Todavia, tomar o poder e declarar um programa socialista apenas fazia sentido se os bolcheviques esperassem uma revolução europeia. Ninguém acreditava que a Rússia pudesse fazê-la por si mesma. Então, a Revolução de Outubro deveria ter sido feita? E se deveria, com que objetivos? Isso nos remete para o terceiro tipo de contrafactuais, que, na verdade, diz respeito a alternativas consideradas possíveis na época. De fato, a questão não era se alguém mais devia arrebatar o poder ao governo provisório de Kerensky. Esse já estava morto. Tampouco era a de quem deveria assumir, porque os bolcheviques eram os únicos em condições, isoladamente ou como parceiro dominante em uma aliança. A questão era como: se com ou sem uma insurreição planejada, antes, durante ou após o iminente Congresso dos Sovietes, como parte de uma ampla coalizão ou não, e com que objetivo, dado que não se tinha a menor ideia se um governo bolchevique, ou um governo russo central, poderia sobreviver. E sobre essas questões havia discussões reais na época, não só entre bolcheviques e outros, mas entre os próprios bolcheviques.

Mas, lembrem-se: se hoje, como historiadores, achamos que Kamenev, por exemplo, estava certo, e não Lênin, não estamos realmente avaliando as chances de Kamenev convencer o Partido Bolchevique em outubro de 1917. Estamos dizendo: se nos encontrássemos nessa situação hoje, deveríamos adotar sua opinião. Estamos falando do jogo agora ou no futuro, não do jogo em 1917, cujo placar não pode mais ser alterado. E, mais uma vez, o que exatamente estamos dizendo, se decidirmos, retrospectivamente, que teria sido melhor, digamos, se os bolcheviques não tivessem se envolvido, com efeito, no governo de partido único? Estaremos sugerindo que um governo de coalizão teria sido realmente melhor para dar conta da situação desesperada da Rússia na época, ou no longo prazo — se tivesse havido um longo prazo? Ou estaremos simplesmente concordando com Gorbachev que teríamos preferido que a Revolução de Fevereiro evoluísse de maneira diferente? O fato de que teria sido melhor se da revolução tivesse brotado uma Rússia democrática é algo com que a maioria das pessoas concordaria. Mas é uma proposição sobre nossas ideias políticas e não sobre a história. Em 1917, outubro veio depois de fevereiro. A história deve partir do que aconteceu. O resto é especulação.

Mas neste ponto devemos deixar de lado a especulação e voltar para a situação concreta de uma Rússia em revolução. Grandes revoluções de massa que eclodem de baixo para cima — e a Rússia em 1917 talvez tenha sido o exemplo mais impressionante de uma revolução desse tipo na história — são, em certo sentido, “fenômenos naturais”. São como terremotos e grandes enchentes, principalmente quando, como na Rússia, a superestrutura do Estado e instituições nacionais virtualmente se desintegram. Numa grande medida, são incontroláveis. Devemos parar de pensar a Revolução Russa em termos das metas e intenções dos bolcheviques e dos demais, de sua estratégia de longo prazo, e de outras críticas marxistas de sua prática. Por que, de fato, não caíram, ou não aceitaram a derrota, como poderiam muito simplesmente ter feito? Inicialmente, o novo regime não tinha poder nenhum — certamente nenhuma força armada significativa. A única vantagem real com que o novo governo soviético contava, além de Petrogrado e Moscou, era sua capacidade de articular o que o povo russo desejava ouvir. O que Lênin almejava — e, em última análise, ele conseguia impor sua vontade no partido — era irrelevante. Ele “poderia não ter nenhuma estratégia ou perspectiva além da escolha, dia após dia, entre as decisões necessárias para a sobrevivência imediata e aquelas que corriam o risco do desastre imediato. Quem poderia se permitir considerar as possíveis consequências de longo prazo de decisões que tinham de ser tomadas agora, caso contrário, a Revolução chegaria ao fim e não haveria nenhuma consequência ulterior a ser considerada?”.5 Nada estava predeterminado. A qualquer momento as coisas poderiam dar errado. Somente depois de 1921 o regime poderia contar com sua permanência, avaliar a situação assustadora à qual a Rússia havia se reduzido, ou começar a pensar em termos de anos, e não mais de meses ou mesmo de semanas. Nesse momento seu curso futuro estava mais ou menos determinado, e era muito diferente de tudo que os marxistas, inclusive Lênin, teriam imaginado para a Rússia antes da Revolução. Tanto a doutrina soviética ortodoxa quanto a teoria da conspiração anticomunista imaginavam a Revolução como controlada e dirigida de cima para baixo: Lênin não acreditava nisso.

Então, como a Revolução de Outubro passou a sobreviver? Em primeiro lugar — e aqui concordo inteiramente com Orlando Figes em seu excelente A People’s Tragedy 6 — os bolcheviques venceram porque lutaram sob a bandeira vermelha e, conquanto enganosamente, em nome dos sovietes. Em última análise, os camponeses e operários russos preferiam apoiar os vermelhos contra os brancos, que, segundo pensavam, iriam confiscar a terra e trazer de volta o czar, a pequena nobreza e os chamados boorzhooi (burgueses). Os vermelhos defendiam a revolução desejada pela maioria dos russos. E, lembrem-se, a Revolução Russa foi feita pelas massas e, durante seus dez anos iniciais, seu destino foi determinado pelas massas russas — por aquilo que elas desejavam ou não apoiariam. O stalinismo colocou um fim nisso.

Em segundo lugar, os bolcheviques sobreviveram porque eram a única força potencial de governo nacional depois do czar. A alternativa em 1917 não era, e não poderia ser, entre uma Rússia democrática e uma ditatorial, mas entre Rússia e não Rússia. Aqui era essencial a estrutura leninista centralizada do Partido Bolchevique, uma instituição formada para a ação disciplinada e, portanto, de facto para a construção do Estado, embora a um custo maior para a liberdade que sob o czarismo. Mas: se não os bolcheviques, então, ninguém. De fato, uma das poucas realizações da Revolução Russa que não é negada nem mesmo por seus inimigos é que, ao contrário dos outros impérios multinacionais derrotados na Primeira Guerra Mundial, o dos Habsburgo e dos otomanos, a Rússia não se esfacelou. Foi salva como Estado multinacional bicontinental pela Revolução de Outubro. Constantemente subestimamos a simpatia que a Rússia soviética despertava, portanto, em russos apolíticos, e mesmo nos patriotas de direita, tanto durante quanto depois da Guerra Civil: de que outro modo poderíamos explicar o curioso retorno de um contingente pequeno mas influente de exilados russos, civis e militares, no período do Plano Quinquenal? (Mais tarde, alguns podem tê-lo lamentado.)

Em terceiro lugar, sobreviveram porque o apelo de sua causa não era meramente russo. As potências estrangeiras podem ter ficado desestimuladas a apoiar os diversos e mutuamente hostis exércitos brancos na Guerra Civil, por vários motivos — mas após o fim da Grande Guerra sabiam que não poderiam ter enviado grandes contingentes próprios para participar na guerra, muito menos contra o regime considerado por seus soldados como o da revolução dos trabalhadores. Além disso, depois da guerra, os bolcheviques retomaram o controle da Transcaucásia essencialmente porque a Turquia os via como uma força contra o imperialismo britânico e francês. Até a derrotada Alemanha, confiante em sua própria imunidade ao bolchevismo, estava preparada para chegar a um acordo com eles. Em todo caso, enquanto o Exército Vermelho derrotava a ofensiva polonesa em 1920 e avançava na direção de Varsóvia, o general Seeckt, do exército alemão, enviava Enver Pasha para a Rússia para sugerir algo surpreendentemente parecido com a partilha da Polônia prevista nas cláusulas secretas do tratado Molotov-Ribbentrop de 1939. A derrota do Exército Vermelho na entrada de Varsóvia colocou um fim em tais sugestões.

Mas o impacto internacional de Outubro me remete ao último ponto, que é também minha conclusão. A Revolução Russa tem realmente duas histórias entrelaçadas: seu impacto sobre a Rússia e seu impacto sobre o mundo. Não podemos confundir os dois. Sem o segundo, nada mais que uns poucos historiadores especializados teriam se interessado por ela. Fora dos EUA não há muitas pessoas que sabem sobre a Guerra Civil norte-americana alguma coisa além do fato de que ela é o cenário de E o vento levou... No entanto, foi a maior guerra entre 1815 e 1914 e, de longe, a maior da história dos EUA, e também pode merecer ser chamada de segunda revolução norteamericana.

Teve e tem muito significado dentro dos EUA, mas bem pouco significado exterior, pois exerceu pouco efeito óbvio sobre o que aconteceu em outros países que não aqueles abaixo de suas fronteiras sulistas. Por outro lado, tanto na história russa quanto na história mundial do século XX, a Revolução Russa é um fenômeno imponente — mas não o mesmo tipo de fenômeno. O que significou para os povos russos? Ela levou

a Rússia ao pico de seu poder e prestígio internacionais — muito além de tudo alcançado sob os czares. Stálin certamente ocupa um lugar tão permanente e importante na história russa quanto Pedro, o Grande. A revolução modernizou grande parte de um país atrasado, mas, embora suas realizações tenham sido titânicas — principalmente a capacidade de derrotar a Alemanha na Segunda Guerra Mundial —, seu custo humano foi enorme, sua economia fechada estava fadada a se esgotar e seu sistema político, fadado a se esfacelar. Reconhecidamente, para a maioria de seus habitantes que consegue se lembrar, a velha era soviética certamente parece muito melhor que a situação pela qual os ex-soviéticos estão hoje passando, e continuarão a passar por um bom tempo. Mas ainda é muito cedo para fazer um balanço histórico.

Devemos deixar que os diversos povos socialistas e ex-socialistas façam sua própria avaliação do impacto da Revolução de Outubro em sua história. Quanto ao resto do mundo — apenas a conhecemos em segunda mão. Como uma força para a libertação no antigo mundo colonial e, em toda a Europa, antes e durante a Segunda Guerra Mundial; como o inimigo supremo para os EUA e, de fato, para todos os regimes conservadores e capitalistas durante a maior parte do século, exceto entre 1933 e 1945; como um sistema profundamente (e compreensivelmente) detestado por liberais e democratas parlamentaristas, mas, ao mesmo tempo, reconhecido, a partir dos anos 1930, na esquerda do mundo industrial, como algo que assustava e obrigava os ricos a conceder alguma prioridade política aos interesses dos pobres. O terrível paradoxo da era soviética é que o Stálin vivenciado pelos povos soviéticos e o Stálin visto no exterior como força libertadora eram a mesma pessoa. E era o libertador para os primeiros porque, pelo menos em parte, era o tirano para os de fora.

Poderão os historiadores chegar a um consenso sobre semelhante personalidade e semelhante fenômeno? Não consigo imaginar como poderiam, até onde o futuro é previsível. Tal como a Revolução Francesa, a Revolução Russa continuará a dividir as opiniões.