28 de outubro de 2011

O Partido de Wall Street encontra o seu Nemesis

Por David Harvey

O Partido de Wall Street controlou os Estados Unidos sem dificuldades por tempo demais. Controlou totalmente (em contraste com parcialmente) as políticas dos presidentes por pelo menos quatro décadas (para não dizer mais), independentemente de se algum presidente individual foi ou não seu agente por vontade própria. Corrompeu legalmente o Congresso por meio da dependência covarde de políticos dos dois partidos em relação ao poder do dinheiro e ao acesso à mídia comercial que controla. Graças a nomeações feitas e aprovadas pelos presidentes e Congresso, o Partido de Wall Street domina muito do aparato estatal e do Judiciário, em especial a Suprema Corte, cujas decisões estão crescentemente a favor dos interesses venais do dinheiro, em esferas tão diversas quanto eleitoral, trabalhista, ambiental e comercial.

O Partido de Wall Street tem um princípio universal de dominação: não pode haver qualquer adversário sério ao poder absoluto do dinheiro de dominar absolutamente. E esse poder é para ser exercido com um único objetivo. Os detentores do poder do dinheiro não devem apenas ter o privilégio de acumular riqueza sem fim a seu gosto, mas também de herdar o planeta, tomando direta ou indiretamente o domínio da terra, todos os seus recursos e as potencialidades produtivas que nela residem. O resto da humanidade se torna nessa visão supérfluo.

Esses princípios e práticas não surgem da ganância individual, falta de horizonte ou abusos (por mais que todos esses ocorram aos montes). Esses princípios se formaram no corpo político de nosso mundo por meio da vontade coletiva de uma classe capitalista instigada pelas leis coercivas da competição. Se meu grupo de pressão gasta menos do que o seu, então receberei menos favores. Se esse departamento gasta para atender às necessidades das pessoas, então se torna menos competitivo.

Muitas pessoas decentes estão presas a um sistema que está completamente podre. Se querem ter um salário razoável não têm outra opção além de se render à tentação do diabo: só estão “seguindo ordens”, como Eichmann disse, “fazendo o que o sistema pede”, como se diz hoje em dia, aceitando os princípios e práticas bárbaras e imorais do Partido de Wall Street. As leis coercivas da competição nos forçam todos, em diferentes níveis, a obedecer às regras desse sistema cruel e insensível. O problema é sistêmico, não individual.

Os ideais de liberdade e autonomia do partido, a serem garantidos pelos direitos à propriedade privada, livre-mercado e livre-comércio, se traduzem na realidade pelo direito de explorar o trabalho alheio, de despossuir as pessoas de seus bens a seu bel prazer e a liberdade de saquear o meio ambiente para seus benefícios individuais ou de classe.

No controle do aparato estatal, o Partido de Wall Street geralmente privatiza todos os ramos de atividade interessantes, abaixo do valor de mercado, para abrir novas frentes para a acumulação do capital. Arranja esquemas de subcontratação (do qual o complexo militar industrial é um exemplo claro) e de tributação (subsídios ao agronegócio e baixos impostos sobre os ganhos do capital) que lhe permitem limpar livremente os cofres públicos. Estimula deliberadamente sistemas regulatórios complicados e níveis surpreendentes de incompetência administrativa no resto do aparato estatal (vide a Agência de Proteção Ambiental sob Reagan e a Agência Federal de Gestão de Emergências e o “baita trabalho” de Brown sob Bush), de modo a convencer um público inerentemente cético de que o Estado não consegue ter um papel construtivo ou de apoio para melhorar a vida ou as perspectivas futuras das pessoas. Por fim, usa o monopólio da violência, que todo Estado soberano reivindica, para excluir o público do espaço público e para por pressão, vigiar e, se necessário, criminalizar e prender quem não aceitar de modo amplo suas ordens. É exímio nas práticas de tolerância repressiva que perpetuam a ilusão de liberdade de expressão enquanto essa expressão não expuser claramente a natureza verdadeira de seu projeto e o aparato repressivo sobre o qual repousa.

O Partido de Wall Street articula incessantemente a guerra de classes: “Claro que há uma guerra de classes”, disse Warren Buffett, “e é minha classe, os ricos, que a está fazendo e vencendo”. Em grande parte, essa guerra é articulada em segredo, atrás de uma série de máscaras e ilusões pelas quais os planos e objetivos do Partido de Wall Street se escondem.

O Partido de Wall Street sabe muito bem que quando perguntas políticas e econômicas se transformam em questões culturais não há como respondê-las. Geralmente aciona uma enorme variedade de opiniões de especialistas cativos, na sua maior parte empregados em institutos de pesquisa e universidades que financia e espalhados na mídia que controla, para criar controvérsias sobre assuntos que de fato não importam e sugerir soluções a perguntas que de fato não existem. Num instante, só fala da austeridade necessária a todas as outras pessoas para tratar do déficit e, num outro, propõe a redução de sua própria tributação sem se importar sobre o impacto no déficit. A única coisa que nunca pode ser debatida ou discutida é a verdadeira natureza da guerra de classes que tem mantido de modo incessante e tão cruel. Descrever algo como “guerra de classes” é, no clima político atual e no julgamento dos especialistas, colocar-se fora do espectro de considerações sérias, sendo chamado de imbecil, senão de sedicioso.

Mas agora pela primeira vez há um movimento explícito que enfrenta o Partido de Wall Street e seu mais puro poder do dinheiro. A street (rua) de Wall Street está sendo ocupada — ô, horror dos horrores — por outros! Espalhando-se de cidade em cidade, as táticas do Ocupem Wall Street são tomar um espaço público central, um parque ou uma praça, próximo a onde muitos dos bastiões do poder estão localizados, e fazer com que corpos humanos convertam esse lugar de espaço público em uma comunidade de iguais, um lugar de discussão aberta e debate sobre o que esse poder está fazendo e as melhores formas de combater seu alcance. Essa tática, mais conspicuamente presente nas lutas nobres e atuais da praça Tahrir, no Cairo, se alastrou por todo o mundo (praça do Sol, em Madri, praça Syntagma, em Atenas, agora as escadarias de Saint Paul, em Londres, além da própria Wall Street). Mostra como o poder coletivo de corpos no espaço público continua sendo o instrumento mais efetivo de oposição, quando o acesso a todos os outros meios está bloqueado. A praça Tahrir mostrou ao mundo uma verdade óbvia: são os corpos na rua e praças, não o fluxo de sentimentos no twitter ou facebook, que realmente importam.

O objetivo desse movimento nos Estados Unidos é simples. Diz: “Nós, as pessoas, estamos determinadas a retomar nosso país dos poderes do dinheiro que atualmente o controlam. Nosso objetivo é mostrar que Warren Buffett está enganado. Sua classe, os ricos, não vai mais governar sem oposição e não vai mais herdar automaticamente a terra. Sua classe, os ricos, não está destinada a sempre vencer”.

Diz “Somos os 99%”. Somos a maioria e essa maioria pode, deve e vai prevalecer. Na medida em que todos os outros canais de expressão estão fechados por causa do poder do dinheiro, não temos outra opção a não ser ocupar os parques, praças e ruas de nossas cidades até que nossas opiniões sejam ouvidas e nossas necessidades atendidas.

Para ter êxito, o movimento precisa alcançar os 99%. Conseguirá e o está fazendo um passo por vez. Primeiro, há todas as pessoas jogadas na miséria pelo desemprego e aquelas que foram ou estão sendo despossuídas de suas casas e bens pela falange de Wall Street. Deve formar grandes coalizões entre estudantes, imigrantes, sub-empregados e todos os que estão ameaçados pelas políticas de austeridade, totalmente desnecessárias e draconianas, impostas sobre a nação e o mundo para atender ao Partido de Wall Street. Deve por o foco nos níveis estarrecedores de exploração nos locais de trabalho — dos empregados domésticos imigrantes que os ricos exploram tão cruelmente em suas casas aos funcionários de restaurantes que são escravizados por quase nada nas cozinhas dos estabelecimentos onde os ricos comem tão copiosamente. Deve unir os trabalhadores criativos e artistas cujos talentos são transformados tantas vezes em produtos comerciais pelo grande poder do dinheiro.

O movimento deve especialmente atingir todos os alienados, os insatisfeitos e os descontentes, todos os que reconhecem e sentem nas entranhas que há algo de muito errado, que o sistema que o Partido de Wall Street criou não é só bárbaro, antiético e moralmente errado, mas também está falido.

Tudo isso tem de ser unido democraticamente em uma oposição coerente, que também tem de contemplar livremente com o que se parecem uma cidade alternativa, um sistema político alternativo e, por fim, uma forma alternativa de organizar a produção, distribuição e consumo para o benefício do povo. Se não o fizer, o futuro para os jovens que se encaminha para uma crescente dívida privada e austeridade pública profunda, em benefício ao um porcento, não é um futuro.

Em resposta ao movimento Ocupem Wall Street, o Estado, apoiado pelo poder da classe capitalista, tem um argumento surpreendente: ele, e só ele, tem o direito exclusivo de regular e organizar o espaço público. O público não tem o direito comum ao espaço público! Com que direito prefeitos, chefes de polícia, oficiais militares e autoridades do Estado dizem ao povo que têm o direito de determinar o que é público em “nosso” espaço público e quem pode ocupar esse espaço? Quando consideram em seu interesse expulsar-nos, o povo, de qualquer espaço que nós, o povo, decidamos ocupar coletiva e pacificamente? Dizem que agem no interesse público (e se referem a leis para prová-lo), mas somos nós o povo! Onde está “nosso interesse” nisso tudo? E, aliás, não é “nosso” dinheiro que os bancos e financistas usam tão descaradamente para acumular “seus” bônus?

Diante do poder organizado do Partido de Wall Street de dividir e conquistar, o movimento que está emergindo também deve ter como um de seus princípios fundadores que não será dividido nem se desviará de seu curso até que o Partido de Wall Street caia na real — para ver que o bem comum tem de prevalecer sobre os estreitos interesses do dinheiro — ou de joelhos. Os privilégios corporativos de ter todos os direitos dos indivíduos sem as responsabilidades de verdadeiros cidadãos têm de ser eliminados. Os bens públicos, como educação e saúde, têm de ser oferecidos publicamente e acessíveis a todos. Os poderes monopolistas na mídia têm de ser abalados. A compra de eleições tem de ser considerada inconstitucional. A privatização do conhecimento e cultura tem de ser proibida. A liberdade de explorar e despossuir outras pessoas tem de ser controlada e, no fim, impedida.

Os estadunidenses acreditam na igualdade. Pesquisas de opinião pública mostram (independentemente da filiação partidária) que, para a população, os 20% deveriam ter 30% da riqueza total. O fato de os 20% mais ricos deterem 85% da riqueza é inaceitável. O fato de que a maior parte disso seja controlada pelos 1% mais ricos é totalmente inaceitável. O que o movimento Ocupem Wall Street propõe é que nós, o povo estadunidense, nos comprometamos a reverter esse nível de desigualdade, não só de riqueza ou salários, mas, ainda mais importante, o poder político que essa disparidade gera. O povo estadunidense tem orgulho, com razão, de sua democracia, mas ela está à mercê do poder de corromper do capital. Agora que é dominada por esse poder o tempo de fazer outra Revolução Estadunidense, como Jefferson sugeriu ser necessário há muito tempo, está se aproximando: e que seja baseada em justiça social, igualdade e cuidado e contato consciente na relação com a natureza.

A luta que se criou — o Povo contra o Partido de Wall Street — é crucial para nosso futuro coletivo. A luta é global assim como local em sua natureza. Reúne estudantes confinados a uma luta de vida ou morte contra o poder político no Chile para criar um sistema de educação gratuito e de qualidade para todos, desmantelando o modelo neoliberal que Pinochet impôs brutalmente. Engloba os ativistas da praça Tahrir que reconhecem que a queda de Mubarak (como o fim da ditadura de Pinochet) foi apenas o primeiro passo de uma luta para emancipar-se do poder do dinheiro. Inclui os indignados da Espanha, os trabalhadores em greve na Grécia, a oposição militante que surge em todo o mundo, de Londres a Durban, Buenos Aires, Shenzhen e Mumbai. A dominação brutal do grande capital e o poder do dinheiro estão na defensiva em todo lugar.

De que lado vamos estar, nós, indivíduos? Que rua vamos ocupar? Só o tempo dirá. Mas o que sabemos é que o tempo é agora. O sistema não está só quebrado e exposto, mas também incapaz de qualquer resposta a não ser a repressão. Então nós, o povo, não temos outra opção senão lutar pelo direito coletivo a decidir como o sistema será reconstruído e com base em qual modelo. O Partido de Wall Street teve sua vez e fracassou miseravelmente. Como construir uma alternativa em suas ruínas é tanto uma oportunidade inescapável quanto uma obrigação que nenhum de nós pode ou vai querer deixar de lado. [Verso Books] 

David Harvey é um dos marxistas mais influentes da atualidade, reconhecido internacionalmente por seu trabalho de vanguarda na análise geográfica das dinâmicas do capital. É professor de antropologia da pós-graduação da Universidade da Cidade de Nova York (The City University of New York – Cuny) na qual leciona desde 2001. Foi também professor de geografia nas universidades Johns Hopkins e Oxford. Seu livro Condição pós-moderna (Loyola, 1992) foi apontado pelo Independent como um dos 50 trabalhos mais importantes de não ficção publicados desde a Segunda Guerra Mundial. Seus livros mais recentes, além de O enigma do capital (Boitempo), são: A Companion to Marx’s Capital (Boitempo, no prelo) e O novo imperialismo (São Paulo, Loyola, 2004).

23 de outubro de 2011

Das guerras do ópio às guerras do petróleo

Domenico Losurdo


"A morte de Kadafi é uma viragem histórica", proclamam em coro os dirigentes da OTAN e do Ocidente, sem se incomodarem sequer em guardar distâncias em relação ao bárbaro assassinato do líder líbio e das mentiras desavergonhadas que proferiram os chefes dos "rebeldes". Sim, efetivamente trata-se de uma viragem. Mas para entender o significado da guerra contra a Líbia no âmbito do colonialismo é preciso partir de longe...

Quando em 1840 os navios de guerra ingleses surgem diante das costas e das cidades chinesas, os agressores dispõem de um poder de fogo de milhares de canhões e podem semear destruição e morte em grande escala sem temer a artilharia inimiga, cujo alcance é muito reduzido. É o triunfo da política das canhoneiras: o grande país asiático e sua civilização milenar são obrigados a render-se e começa o que a historiografia chinesa denomina acertadamente como "o século das humilhações", que termina em 1949 com a chegada ao poder do Partido Comunista e de Mao Zedong.

Nos nossos dias, a chamada Revolution in Military Affairs (RMA) criou em muitos países do Terceiro Mundo uma situação parecida com a que a China enfrentou no seu tempo. Durante a guerra contra a Líbia de Kadafi, a OTAN pôde consumar tranquilamente milhares de bombardeamentos e não só não sofreu baixas como sequer correu o risco de sofre-las. Neste sentido a força militar da OTAN, mais do que um exército tradicional, parece-se a um pelotão de execução. Assim, a execução final de Kadafi, mais do que um fato causal ou acidental, revela o sentido profundo da operação em conjunto.

É algo palpável: a renovada desproporção tecnológica e militar reaviva as ambições e as tentações colonialistas de um Ocidente que, a julgar pela exaltada auto-consciência e falsa consciência que continua a ostentar, nega-se a saldar contas com a sua história. E não se trata só de aviões, navios de guerra e satélites. Ainda é mais clara a vantagem com que Washington e seus aliados podem contar em capacidade de bombardeamento midiático. Também nisto a "intervenção humanitária" contra a Líbia é um exemplo de manual: a guerra civil (desencadeada, entre outras coisas, graças ao trabalho prolongado de agentes e unidades militares ocidentais e no decorrer da qual os chamados "rebeldes" podiam dispor desde o princípio até de aviões) apresentou-se como uma matança perpetrada pelo poder contra uma população civil indefesa. Em contrapartida, os bombardeamentos da OTAN que até o fim assolaram a Sirte assediada, faminta, sem água nem medicamentos, foram apresentados como operações humanitárias a favor da população civil da Líbia!

Hoje em dia este trabalho de manipulação, além de contar com os meios de informação tradicionais de informação e desinformação, vale-se de uma revolução tecnológica que completa a Revolution in Military Affairs. Como expliquei em intervenções e artigos anteriores, são autores e órgãos de imprensa ocidentais próximos ao Departamento de Estado os que celebram que o arsenal dos EUA se enriqueceu com novos e formidáveis instrumentos de guerra. São jornais ocidentais e de comprovada fé ocidental que contam, sem nenhum sentido crítico, que no decorrer das "guerras internet" a manipulação e a mentira, assim como a instigação à violência de minorias étnicas e religiosas, também mediante a manipulação e a mentira, estão na ordem do dia. É o que está a acontecer na Síria contra um grupo dirigente mais acossado do que nunca por haver resistido às pressões e intimidações ocidentais e se ter negado a capitular diante de Israel e a trair a resistência palestina. 

Mas voltemos à primeira guerra do ópio, que termina em 1842 com o Tratado de Nanquim. É o primeiro dos "tratados desiguais", ou seja, imposto com as canhoneiras. No ano seguinte chega a vez dos Estados Unidos. Também envia canhoneiras para arrancar o mesmo resultado que a Grã-Bretanha e inclusive algo mais. O tratado de Wahghia (nas proximidades de Macau) de 1843 sanciona o privilégio da extraterritorialidade para os cidadãos estado-unidenses residentes na China: mesmo que cometam delitos comuns, subtraem-se à jurisdição chinesa. O privilégio da extraterritorialidade, evidentemente, não é recíproco, não vale para os cidadãos chineses residentes nos Estados Unidos. Uma coisa são os povos colonizados e outra muito diferente a raça dos senhores. Nos anos e décadas posteriores, o privilégio da extraterritorialidade amplia-se aos chineses que "dissidem" da religião e da cultura do seu país e convertem-se ao cristianismo (com o que teoricamente passam a ser cidadãos honorários da república norte-americana e do Ocidente em geral).

Também nos nossos dias o duplo critério da legalidade e da jurisdição é um elementos essencial do colonialismo: os "dissidentes", ou seja, os que se convertem à religião dos direitos humanos tal como é proclamada de Washington a Bruxelas, os Quisling potenciais ao serviço dos agressores, são galardoados com o prémio Nobel e outros prémios parecidos depois de o Ocidente ter desencadeado uma campanha desaforada para subtrair os premiados à jurisdição do seu país de residência, campanha reforçada com embargos e ameaça de embargo e de "intervenção humanitária".

O duplo critério da legalidade e da jurisdição alcança suas cotas mais altas com a intervenção do Tribunal Penal Internacional (TPI). Os cidadãos estado-unidenses e os soldados e mercenários de faixas e estrelas espalhados por todo o mundo ficam e devem ficar fora da sua jurisdição. Recentemente a imprensa internacional revelou que os Estados Unidos estão dispostos a vetar a admissão da Palestina na ONU, entre outras coisas, para impedir que a Palestina possa denunciar Israel perante o TPI: seja como for, na prática quando não na teoria, deve ficar claro para todo o mundo que só os povos colonizados podem ser processados e condenados. A sequência temporal é em si mesma eloquente. 1999: apesar de não haver obtido autorização da ONU, a NATO começa a bombardear a Jugoslávia; pouco depois, sem perda de tempo, o TPI tratar de incriminar não os agressores e responsáveis da ruptura da ordem jurídica internacional estabelecida após a II Guerra Mundial e sim Milosevic. 2011: violentando o mandato da ONU, longe de se preocupar com o destino dos civis, a NATO recorre a todos os meios para impor a mudança de regime e ganhar o controle da Líbia. Seguindo uma pauta já ensaiada, o TPI trata de incriminar Kadafi. O chamado Tribunal Penal Internacional é uma espécie de apêndice judicial do pelotão de execução da NATO. Poder-se-ia dizer inclusive que os magistrados de Haia são como padres que, sem perder tempo a consolar a vítima, esmeram-se directamente em legitimar e consagrar o verdugo.

Uma última observação. Com a guerra contra a Líbia, perfilou-se numa nova divisão do trabalho no âmbito do imperialismo. As grandes potências coloniais tradicionais, como a Inglaterra e a França, valendo-se do decisivo apoio político e militar de Washington, centram-se no Médio Oriente e na África, ao passo que os Estados Unidos deslocam cada vez mais seu dispositivo militar para a Ásia. E assim voltamos à China. Depois de haver deixado para trás o século de humilhações que começou com as guerras do ópio, os dirigentes comunistas sabem que seria insensato e criminoso faltar pela segunda vez ao encontro com a revolução tecnológica e militar: enquanto liberta centenas de milhões de chineses da miséria e da fome a que os havia condenado o colonialismo, o poderoso desenvolvimento económico do grande país asiático é também uma medida de defesa contra a agressividade permanente do imperialismo. Aqueles que, inclusive na "esquerda", se põem a reboque de Washington e Bruxelas na tarefa de difamação sistemática dos dirigentes chineses demonstram que não se preocupam nem com a melhoria das condições de vida das massas populares nem com a causa da paz e da democracia nas relações internacionais.

22 de outubro de 2011

Império ou República: Como o Império destrói o seu próprio povo

De Joplin, no Missouri, a Cabul, no Afeganistão

James Petras


Em 29 de maio de 2011 o presidente Obama visitou Joplin, no Missouri, o local de um devastador tornado que matou 140 pessoas dizendo que era uma "tragédia” terrível. Mas foram estas mortes o resultado inevitável de “circunstâncias naturais” para lá do alcance da intervenção humana?

Coincidentemente na mesma semana o presidente afegão, Karzai, condenou o assassinato de uma família de 14 pessoas por um caça bombardeiro da NATO, somando-se ao total de várias centenas de mortos até à data, só este ano, e a milhares ao longo desta década.


A relação entre as mortes civis em Joplin e no Afeganistão suscita questões fundamentais acerca das prioridades, personalidade e direcção do império americano e do futuro da república americana.

Geografia dos tornados

Todos os anos pelo menos 20 grandes tornados violentos - com ventos que excedem as duzentas milhas por hora - atingem “a rota dos tornados” e não só, incluindo o Texas central, o norte do Iowa, o Kansas central, o Nebraska, o Ohio ocidental, o Missouri, o Indiana, o Mississipi, o Louisiana e o Alabama. Todos os anos pelo menos 60 pessoas morrem e várias centenas ficam feridas com maior ou menor gravidade. Este ano, durante o mês de Maio de 2011, já morreram mais de 519, 25% dos quais viviam em roullotes, cerca de três vezes mais do que aqueles que habitavam em casas convencionais.

Por outras palavras, estas mortes devidas aos tornados são previsíveis, anuais, em regiões específicas e incidem mais em lares de baixos rendimentos. As agências governamentais e os académicos compilaram dados e mapas cronológicos cartografando a rota, frequência e impacto dos tornados.

A informação acerca das características dos tornados assassinos é abundante. Não obstante o número de mortes aumenta de ano para ano. O medo e a insegurança assolam as regiões mais susceptíveis à violência dos ventos, ao mesmo tempo que o Congresso e a Casa Branca aumentaram o pessoal e o financiamento da “segurança interna” vinte vezes no decorrer da década. O corrente orçamento é de mais de 180 mil milhões de dólares. Se lhe somarmos as mortes causadas por outros desastres naturais como as cheias de Nova Orleães, o número de mortes é chocante. Como é que se explica esta relação perversa entre o gigantesco financiamento público da “segurança interna” e a acrescida insegurança de americanos vulneráveis em zonas de perigo claramente identificadas?

O motivo é claro: a “segurança interna” (SI) é um termo da novilíngua orwelliana. A agência não se preocupa com a segurança doméstica, civil, americana. A SI faz parte de uma resposta militar-policial a imaginadas ameaças externas, que não se materializaram ou, pelo menos, não produziram mortes comparáveis aos tornados e cheias dos últimos 11 anos.

A SI gasta milhares de milhões e emprega milhares para investigar, espiar e assediar cidadãos que estão empenhados em actividades legais sob o ponto de vista constitucional. A SI e o Pentágono gastam dezenas de milhares de milhões em infra-estruturas no estrangeiro - edifícios, bases, campos - e mais de novecentos milhares de milhões em armas. A SI e o Departamento da Defesa usam a força militar para intervir em todo o mundo através de operações às claras, ou clandestinas.

Para precisar, a SI intervém no estrangeiro de forma desproporcional, atacando alvos civis, ao mesmo tempo que não consegue empenhar-se em proteger civis americanos no próprio país, deixados indefesos perante desastres naturais previsíveis.

As violentas e continuadas operações no estrangeiro da Segurança Interna e do Pentágono são rejeitadas e vistas como uma intervenção imperial hostil pelos civis dos países que sofrem os seus efeitos adversos. Por contraste, os cidadãos indefesos nos Estados Unidos acolheriam de bom grado uma intervenção em larga escala que tomasse a forma de abrigos comunitários, que providenciassem sobrevivência, segurança, protecção vital e ajuda financeira para a reconstrução das suas vidas. Para além disso, os gastos do Pentágono e da SI em infra-estruturas no estrangeiro, bases e bombas, resulta em défice, enquanto que investimentos em abrigos contra tornados e cheias estimulariam a criação de empregos, o crescimento e o investimento nos Estados Unidos.

A actual actividade da SI destrói vidas no estrangeiro e negligencia a sobrevivência doméstica: nada tem que ver com a nossa “segurança” e ainda menos é “interna”. Cinco porcento do orçamento da Segurança Interna teria evitado muita da tragédia de Joplin (e ter-nos-ia salvo da oratória gasosa de Obama!) bem como as outras 400 mortes provocadas pela colheita de tornados deste ano.

Bases sistêmicas da negligência doméstica perpétua

A morta às mãos de eventos “naturais” coloca uma questão política fundamental: porque é que o orçamento da SI e do Pentágono é direccionado para o estrangeiro, para actividade militar destrutiva e desproporcional em vez de para actividade defensiva, doméstica, construtiva a fim de proteger vidas americanas e a actividade económica produtiva?

O problema é sistémico e por tal não é devido a uma qualquer falha pessoal ou idiossincrasia política do momento. As estruturas da economia dos Estados Unidos e as instituições militares são orientadas “para fora” a fim de conquistar mercados financeiros estrangeiros e construir um império militar. A ideologia que conforma os decisores políticos estratégicos é de inspiração imperial e não de inspiração republicana: não falam em desenvolver e aprofundar a economia e a segurança da região centro-oeste dos EUA. Todos e cada um dos membros da elite empresarial e política falam de liderança “mundial” ou “global” - um eufemismo tenuamente velado para sancionar o domínio mundial. Dentro dos parâmetros imperiais todo o orçamento da “segurança” é direccionado para a manutenção da supremacia militar ofensiva. Não admira que haja um declínio aprofundado em todas as esferas da segurança doméstica - natural, social, pessoal, na saúde e no emprego - um processo continuado que suscita pouco debate público. A única excepção é quando as ameaças à segurança colidem mais directa e forçosamente com um sector significativo da população. Por exemplo, note-se a tempestade de protestos por parte daqueles directamente afectados quando os políticos quiseram privatizar a Segurança Social e a Medicare.

Contudo, durante os últimos trinta anos todo o espectro político, os dois partidos, o Congresso e a Casa Branca, criaram um consenso artificial no qual guerras no estrangeiro, ajuda externa a patronos (Israel) e clientes (Paquistão e Egipto), absorver a grande percentagem dos gastos orçamentais. Nenhuma liderança político-económica se apresentou a fim de articular a conexão óbvia entre a expansão global e a decadência doméstica; para declarar forçosamente que a deterioração da República é o produto directo da canalização de vastos recursos para a criação de um Império militar e económico. Quem na Wall Street de Nova Iorque ou no Pentágono de Washington irá alguma vez dar uma vista de olhos ou tomar em consideração um “plano de segurança” no que diz respeito à geografia das catástrofes - a rota dos tornados que cobre uma dúzia de Estados e as cheias e mortes que assolam as terras baixas do Montana ao Louisiana?

Ouve, América, a sua mensagem é clara e audível

As pequenas cidades e os parques de roullotes não contam! Têm a vossa segunda emenda (o direito a usar armas), têm o vosso “pequeno governo”, e têm as vossas bandeiras: “ondeiem-nas e chorem” enquanto os tornados vos destroem as casas e os vossos filhos e filhas regressam enrolados em bandeiras ao som do hino de batalha do Império!

Conclusão

Poderemos argumentar que abrigos comunitários contra as tempestades não arruinarão o Tesouro ou abaterão o Império. Mais precisamente, a sua ausência, da agenda política local, estatal e federal, é emblemática da total subordinação da América doméstica à Washington imperial. O “custo” da construção de abrigos comunitários nas zonas comercias e nos parques de roullotes em Joplin, no Missouri, é menor que um posto de treino avançado regional em Kandahar, no Afeganistão. Não se trata de uma questão de dinheiro.

Conquistar aldeias afegãs aumenta o prestígio dos generais, do Estado Maior das Forças Armadas e dos funcionários da NATO. Será que salvar 145 vidas em Joplin, no Missouri, se lhe pode equivaler em termos de política global ou em termos da política de liderança imperial? No Afeganistão, Washington constrói inúmeros abrigos e bunkers à prova de bomba. No que aos americanos que vivem na rota dos tornados e nas planícies sujeitas a cheias do Mississipi diz respeito, cada um que se arranje como puder.

Quando ouvir o aviso de tornado, é lá consigo. Enquanto americano livre e orgulhoso bem pode arranjar uma pedra sob a qual se esconder e rezar: o Governo Federal e a Segurança Interna têm a guerra contra o terror, global e sem fim à vista, para travar e não estão para ser incomodados com lares de terceira idade em Joplin, no Missouri, na rota de um tornado.

Exageramos: Obama chegará de jacto e discursará perante as câmeras em termos solenes, acerca da “tragédia” e da “coragem” da população de Joplin... mas será que algum político local se erguerá e dirá a verdade ao poder? Muitas destas mortes, e muitas outras mais por vir, são evitáveis; numa República Americana Democrática, o governo “intervém” para providenciar proteção, saúde e emprego para a sua população.

Entretanto, enquanto o Império continua a crescer vai destruindo o seu próprio povo, tal como a porca que devora os seus próprios filhos.

21 de outubro de 2011

Chega de chiclete

Mike Davis

Los Angeles Review of Books

Tradução / Quem poderia prever que o Occupy Wall Street e sua proliferação ao estilo de uma planta selvagem aconteceriam em cidades grandes e pequenas? John Carpenter previu. Há quase 25 anos (1988), o mestre do terror (Halloween, A coisa) escreveu e dirigiu They Live [“Eles vivem”, no Brasil], retratando a Era Reagan como uma catastrófica invasão alienígena. O filme continua sendo seu tour de force. Aliás, quem poderia esquecer das primeiras cenas brilhantes em que uma grande periferia terceiro-mundista é mostrada ao longo de uma autoestrada e refletida pelos arranha-céus espelhados de Bunker Hill, em Los Angeles? Ou da maneira como Carpenter retrata banqueiros milionários e ricos midiocratas dominando a pulverizada classe trabalhadora dos Estados Unidos, que vive em barracas numa encosta cheia de entulhos e implora por trabalhos casuais?

Partindo dessa igualdade negativa entre falta de moradia e desesperança, e graças aos óculos escuros mágicos encontrados pelo enigmático “Nada” (interpretado por Kurt Russell), o proletariado finalmente alcança a unidade inter-racial, não se deixa enganar pelas fraudes subliminares do capitalismo e fica furioso, extremamente furioso. Sim, eu sei, estou adiantando as coisas. O movimento “Occupy the World” ainda procura seus óculos mágicos (programa, demandas, estratégia e assim por diante), e sua fúria permanece baixa, em estado gandhiano.

Mas, como previu Carpenter, arrancar um número suficiente de cidadãos norte-americanos de suas casas e/ou carreiras (ou pelo menos atormentar dezenas de milhões com essa possibilidade) para promover algo novo e de grandes proporções é um movimento lento e cambaleante em direção ao Goldman Sachs. E, ao contrário do “Partido do Chá” [Tea party], até agora não há fios de marionete. Um dos fatos mais importantes sobre a revolta atual é simplesmente que ela ocupou as ruas e criou uma identificação espiritual com os desabrigados.

Para ser bem franco, a minha geração, educada no movimento dos direitos civis, teria pensado em primeiro ocupar os prédios e esperar que a polícia colocasse todos porta afora na base de cacetadas. (Hoje, os policiais preferem spray de pimenta e “técnicas não letais”.) Em 1965, quando eu tinha dezoito anos e participava da equipe nacional dos Estudantes para uma Sociedade Democrática, planejei uma ocupação do Chase Manhattan Bank, “parceiro do apartheid” por conta de seu papel central no financiamento da África do Sul depois do massacre de manifestantes pacíficos. Foi o primeiro protesto em Wall Street em uma geração, e 41 pessoas foram arrastadas de lá pela polícia.

Ainda acho que tomar o comando dos arranha-céus é uma ideia esplêndida, mas para um estágio mais avançado da luta. Até o momento, a genialidade do Occupy Wall Street é o fato de ter liberado alguns dos imóveis mais caros do mundo e transformado uma praça privada em um espaço público magnético e catalisador de protestos.

Nossa ocupação há 46 anos foi uma incursão de guerrilheiros; a de agora é uma Wall Street sob o cerco dos liliputianos. Também é o triunfo do princípio supostamente arcaico do cara a cara, da organização dialógica. As mídias sociais são importantes, é claro, mas não onipotentes. O sucesso da auto-organização dos ativistas – a cristalização da vontade política a partir do livre debate – continua sendo melhor nos fóruns urbanos da realidade. Dito de outra forma, a maior parte das nossas conversas na internet equivale ao padre sendo ensinado a celebrar a missa; até mesmo megasites como o MoveOn.com são voltados para um grupo que já sabe do que é dito, ou pelo menos para seu provável grupo demográfico.

As ocupações também são para-raios, acima de tudo, para as menosprezadas e alienadas tropas dos Democratas, mas, além disso, elas parecem estar derrubando barreiras de geração, proporcionando as bases comuns, por exemplo, para que os professores de meia-idade, ameaçados e que trabalham na educação básica, troquem ideias com jovens graduados e empobrecidos.

De maneira ainda mais radical, os acampamentos tornaram-se lugares simbólicos para reparar as divisões dentro da coalizão do New Deal impostas nos anos do governo Nixon. Como observa Jon Wiener em seu impecável blog, The Nation, “operários e hippies – juntos, finalmente”. Evidentemente. Quem não se comoveria quando o presidente da AFL-CIO, Richard Trumka – que trouxe mineiros de carvão para Wall Street em 1989 durante uma greve cruel, mas bem-sucedida, contra a Pittston Coal Company –, convocou homens e mulheres cheios de energia para “montar guarda” no Zucotti Park, apesar do esperado ataque da polícia de Nova York? Ainda que velhos radicais como eu sejam propensos a declarar como messias qualquer recém-nascido, essa criança tem o sinal do arco-íris.

Acredito que estamos vivenciando o renascimento das qualidades que definiram de modo tão marcante as pessoas comuns da geração de meus pais (migrantes e grevistas da Crise de 1929): uma compaixão generosa e espontânea, uma solidariedade baseada em uma ética perigosamente igualitária: Pare e dê carona a uma família. Jamais fure uma greve trabalhista, mesmo se sua família não puder pagar o aluguel. Compartilhe seu último cigarro com um estranho. Roube leite quando não houver para seus filhos e dê metade para as crianças do vizinho (isso foi o que minha própria mãe fez repetidas vezes em 1936). Ouça atentamente aos sagazes e serenos que perderam tudo, menos a dignidade. Cultive a generosidade do “nós”. O que quero dizer, suponho, é que me sinto extremamente impactado por aqueles que se juntaram para defender as ocupações apesar de diferenças significativas de idade, classe social e raça. E, da mesma maneira, adoro as crianças corajosas que estão prontas para encarar o próximo inverno e passar frio nas ruas, bem como seus irmãos e irmãs desabrigados.

Mas voltemos à estratégia: qual o próximo elo na corrente (no sentido de Lenin) que precisa ser apreendido? Até que ponto é imperativo para as plantas selvagens formar uma convenção, assumir demandas programáticas e, dessa forma, colocarem a si próprias no leilão das eleições de 2012? Obama e os Democratas certamente, e talvez desesperadamente, precisarão de energia e autenticidade. Mas é improvável que os “ocupacionistas” se coloquem à venda, ou seu extraordinário processo de auto-organização. Pessoalmente, tendo para uma posição anarquista e seus imperativos óbvios.

Primeiro, exponham a dor de 99%, levem Wall Street a julgamento. Tragam Harrisburg, Laredo, Riverside, Camden, Flint, Gallup e Hooly Springs para o centro financeiro de Nova York. Confrontem os predadores com suas vítimas. Um tribunal nacional sobre o genocídio econômico.

Segundo, continuem a democratizar e ocupar produtivamente o espaço público (isto é, reivindicar os bens comuns). O veterano historiador e ativista Mark Naison, do Bronx, propôs um plano arrojado para transformar os espaços degradados e abandonados de Nova York em recursos de sobrevivência (jardins, áreas de acampamento, playgrounds) para desabrigados e desempregados. Os manifestantes do Occupy em todo o país agora sabem como é ser desabrigado e não poder dormir em parques ou numa barraca. Mais uma razão para arrebentar as amarras e escalar os muros que separam o espaço não usado das necessidades humanas urgentes.

Terceiro, fiquem atentos à verdadeira recompensa. A grande questão não é subir os impostos dos ricos ou realizar uma melhor regulamentação dos bancos. Trata-se de uma democracia econômica – o direito das pessoas comuns de tomar macrodecisões sobre investimento social, taxas de juros, fluxo de capital, criação de empregos, aquecimento global e afins. Se o debate não for sobre o poder econômico, ele é irrelevante.

Quarto, o movimento deve sobreviver ao inverno para combater o poder na próxima primavera. As ruas são frias em janeiro. Bloomberg e todos os outros prefeitos e autoridades locais estão contando com um inverno rigoroso para acabar com os protestos. Por isso é muito importante reforçar as ocupações durante as férias de Natal. Vistam seus casacos.

Por fim, precisamos nos acalmar – o itinerário do protesto atual é totalmente imprevisível. Mas se alguém erguer um para-raios, não podemos nos surpreender caso caia um relâmpago.

Banqueiros entrevistados recentemente no The New York Times parecem considerar os protestos do Occupy pouco mais que um incômodo baseado, segundo eles, numa compreensão rudimentar do setor financeiro. Eles deveriam ser mais humildes. Na verdade, deveriam tremer diante da imagem da carreta de munições. Quatro milhões e meio de empregos na área industrial foram perdidos nos Estados Unidos desde 2000, e uma geração inteira de recém-graduados encara agora a mais alta mobilidade descendente na história do país. Desde 1987, afro-americanos perderam mais da metade de seu patrimônio líquido; os latinos, inacreditáveis dois terços. Arruinar com o sonho americano e com as pessoas comuns será extremamente prejudicial para vocês. Ou, como Nada explica aos agressores imprudentes no excelente filme de Carpenter: “Vim aqui para mascar chiclete e quebrar tudo… e meus chicletes acabaram.”

18 de outubro de 2011

O capitalismo aprendeu a criar organismos hospedeiros

Em face da crise financeira, qualquer esperança de que o parasita vai morrer quando ele ficar sem comida é em vão - o capitalismo é muito inventivo

Zygmunt Bauman

The Guardian

A figura da chanceler alemã Angela Merkel com o slogan "acumulação de dinheiro" em um protesto contra o sistema bancário e financeiro, em Colônia. Foto: Wolfgang Rattay/Reuters

Tradução / As notícias sobre a morte do capitalismo são, parafraseando Mark Twain, um pouco exageradas. A capacidade surpreendente de ressurreição e regeneração é inerente ao capitalismo. Uma capacidade parecida com a dos parasitas – organismos que se alimentam de outros organismos, estando agregados a outras espécies. Depois de exaurir completa ou quase completamente um organismo hospedeiro, o parasita normalmente procura outro, que o nutra por mais algum tempo.

Há cem anos, Rosa Luxemburgo compreendeu o segredo da misteriosa habilidade do sistema em ressurgir das cinzas repetidamente, assim como uma fênix; uma habilidade que deixa atrás de si traços de devastação – a história do capitalismo é marcada pelos túmulos de organismos que tiveram suas vidas sugadas até a exaustão. Luxemburgo, no entanto, restringiu o conjunto dos organismos que aguardavam em fila, esperando a conhecida visita do parasita, às “economias pré-capitalistas”, cujo número era limitado e em constante regressão, sob o impacto da expansão imperialista.

A cada visita sucessiva, outra terra “intocada” era convertida em campo de pastagem para a exploração capitalista. Portanto, mais cedo ou mais tarde, não serviriam mais às necessidades da “reprodução ampliada” do sistema, já que não ofereceriam os lucros que tal expansão requeria. Pensando por essa trilha (um viés completamente compreensível, dado que a expansão há cem anos era principalmente territorial, mais extensiva que intensiva, mais lateral que vertical), Luxemburgo só poderia antecipar os limites naturais da duração concebível do sistema capitalista. Uma vez que todas as terras “intocadas” do globo fossem conquistadas e integradas à máquina de reciclagem capitalista, a ausência de novas terras de exploração iria forçar, ao fim, o colapso do sistema. O parasita morre, quando faltam organismos vivos de onde possa retirar alimento.

Hoje o capitalismo já atingiu uma dimensão global, ou está muito próximo disso – um cenário que Luxemburgo via em horizonte distante. Sua previsão estará a ponto de se concretizar? Penso que não. Nos últimos 50 anos, o capitalismo aprendeu a inimaginável e desconhecida arte de criar novas “terras intocadas”, em vez de se limitar às já existentes. Essa nova arte tornou-se possível porque o sistema viveu uma transição. A “sociedade de produtores” converteu-se numa “sociedade de consumidores”. E a fonte principal da “agregação de valor” já não está na relação capital-trabalho, mas na que há entre mercadoria e cliente. Lucro e acumulação baseiam-se principalmente na progressiva mercantilização das funções da vida; na mediação, pelo mercado, da satisfação de necessidades sucessivas; na substituição do desejo pela necessidade, como engrenagem principal da economia voltada para o lucro.

A crise atual deriva da exaustão de uma dessas “terras intocadas” criadas artificialmente. Milhões que pessoas foram obrigadas a abandonar a “cultura dos cartões de crédito” para se dedicar à “cultura das planilhas de gastos”. Por algum tempo, elas foram estimuladas a gastar o dinheiro que ainda não haviam ganhado, vivendo com crédito, falando de empréstimos e pagando juros. A exploração dessa “terra intocada” particular está, em linhas gerais, acabada. O sistema entregou para os políticos a tarefa de limpar os detritos deixados pela farra dos banqueiros. É algo que entrou na lista dos “problemas políticos”: passou de “problema econômico” para (citando a chanceler alemã, Angela Merkel) algo dependente de “vontade política”. Mas alguém poderia duvidar que estão em construção novas “terras intocadas” – as quais também terão vida bastante limitada, dada a natureza parasítica do capitalismo?

O sistema funciona por um processo contínuo de destruição criativa. O que se cria é capitalismo numa “fórmula nova e melhorada”; o que se destrói é a capacidade de auto-sustentação e vida digna nos inúmeros “organismos hospedeiros” para os quais todos somos atraídos e ou seduzidos, de uma maneira ou de outra. Suspeito que um dos recursos cruciais do capitalismo deriva do fato de que a imaginação dos economistas – incluindo os que o criticam – está muito atrasada em relação à sua invenção, a arbitrariedade do seu procedimento e crueldade com que opera.

17 de outubro de 2011

“Aos mais fracos, aos que já estavam cheios de sangue, batiam-lhe até à morte, eu vi”

Ariane Chemin

Le Monde

Foto: Elie Kagan.

As imagens são longínquas, as impressões confusas, mas ele se lembra de ter ouvido seu pai falar, um dia, da manifestação de 17 de outubro de 1961. Ele vivia então na favela de Sartrouville, e nessa noite, seu pai evocou a meia voz, com os primos, os golpes, os mortos e as violências dos policiais. “Foi nos anos 1970, eu devia ter 10 ou 12 anos. Desde que eles perceberam que eu ouvia, eles ficaram em silêncio”. Hoje, M’Hamed Kaki tem 50 anos, ele se tornou “transmissor de memória” e estará ao lado do prefeito de Nanterre, domingo, 16 de outubro, para inaugurar o primeiro boulevard da França trazendo o nome de 17 de outubro de 1961. “Essa história que a França há muito tempo esqueceu e da qual os antigos não querem falar para nos proteger, eu estou muito orgulhoso hoje”, ele sorri.

M’Hamed Kaki deixou a escola a 14 anos, ele tem formação técnica como carpinteiro, mas seu apetite por conhecimento o transformou rapidamente em “caçador do saber”: ele fez cursos noturnos, trabalhou como zelador noturno na Universidade de Nanterre e acabou por se tornar comediante. Em sete anos, Les Oranges, a associação que ele criou em 2004, organizou mais de 60 conferências sobre a história colonial e sobre o 17 de outubro de 1961. “Eu trabalho no teatro, sou atento ao corpo e aos gestos, e eu tenho a impressão que nesse dia, os argelinos levantaram a cabeça e marcharam. Durante décadas, o silêncio recobriu tudo, mas, hoje, nós retomamos a memória. Não é a história dos argelinos nem mesmo a dos filhos da imigração, é nossa história, de nós todos, a história da França”.

Durante as décadas de 1970 e 1980, a lembrança de 17 de outubro de 1961 esteve envolta numa espessa mortalha. Quem se lembra ainda daquele dia de outono em que homens, mulheres e crianças que se manifestavam em família, desarmados, nas ruas de Paris, foram mortos à coronhada pela polícia, lançados vivos ao Sena, enforcados em árvores? “Depois do século XIX, esta foi uma das raras vezes em que a polícia atirou contra operários, em Paris”, afirma o historiador Benjamin Stora. Nas semanas seguintes, dezenas de cadáveres de argelinos com rostos tumefactos foram retirados do Sena. Benjamin Stora supõe que a repressão fez uma centena de mortos, o historiador inglês Jim House pensa que, “no mínimo”, os mortos foram 120 ou 130, Jean-Luc Einaudi, autor de La Bataille de Paris [A Batalha de Paris], diz que foram mais de 150.

Naquele dia, os “franceses muçulmanos da Argélia”, convocados pela federação da França da Frente de Libertação Nacional (FLN), manifestaram-se contra o toque de recolher obrigatório que lhes tinha sido imposto pelo diretor da polícia de Paris, Maurice Papon. Habitualmente confinados aos bairros de lata dos subúrbios, mais de 20 mil homens, mulheres e crianças marcharam, então, pacificamente pelas ruas do Quartier Latin, pelas grandes avenidas e próximo dos Campos Elísios. A violência da polícia foi inaudita: os agentes esperaram-nos nas saídas do metrô e nas ruas para os espancarem e insultarem. “Aos mais fracos, aos que já estavam cheios de sangue, batiam-lhe até a morte, eu vi”, contou Saad Ouazen em 1997. Apesar de não terem oposto a mínima resistência, dezenas de manifestantes foram mortos a tiro, outros foram afogados no Sena. Ao todo, mais de 11.000 argelinos foram presos e levados para o Palácio dos desportos e para o estádio Pierre-de-Coubertin.

Mantidos durante vários dias em condições de higiene assustadoras, foram violentamente espancados pela polícia, que lhes chamava “porcos árabes” e “ratos”. No Palácio dos desportos, os detidos, aterrorizados, nem sequer ousavam ir ao banheiro, porque a maioria dos que ali iam era morta. "Três dias assim, sentado sobre uma cadeira, nada para comer nem beber, nem um cigarro, absolutamente nada. Ao meu redor, havia cinco ou seis feridos. Estávamos ali, todos chorando. Acreditávamos que todos íamos morrer”, conta Ali Djermani em Scènes de La guerre d’Algérie em France [Cenas da guerra da Argélia na França] de Jean-Luc Einaudi (Le Cherche Midi, 2009). Na manhã do dia seguinte, a prefeitura contava oficialmente três mortos – dois argelinos e um francês da metrópole. A mentira instala-se. O silêncio depressa a cobre. Perdurará por mais de 20 anos.

Esta longa ausência, nas consciências, do massacre de 17 de outubro não surpreende Benjamin Stora. “Nesses anos, a França ignorou em grande parte a história da Argélia, lembra-se. Quando eu escrevia minha tese, no fim dos anos 1970, eu era o único aluno do historiador e especialista sobre a Argélia Charles-Robert Ageron: ninguém se interessava pela história colonial, os grandes nomes da história política argelina eram desconhecidos, minha tese nem mesmo teve um editor. Havia um grande desconhecimento sobre aquilo que chamávamos de o nativo ou o imigrante, isto é, o outro. Quando se tem esta percepção do mundo, como é que alguém se interessa pelos imigrantes que vivem nas favelas da região parisiense? Os argelinos eram os ‘invisíveis’ da sociedade francesa”.

A esta indiferença da opinião se acrescenta, nos meses que se seguiram ao 17 de outubro, uma empreitada de dissimulação conduzida pelos poderes públicos. No senado, a comissão parlamentar convocada por Gaston Defferre foi descartada com firmeza: ela faria apenas “lançar um pouco de dúvida, um pouco de problema, um pouco de confusão no espírito e no coração de um grande número de funcionários da polícia”, afirma o ministro do interior Roger Frey. Em 27 de outubro, Claude Bourdet, diretor da revista France Observateur, exige – em vão – uma comissão de investigação ao conselho municipal de Paris. “O que precisamos, é muito simples e muito claro: a autorização e barcos suficientes (para colocar os argelinos), responde o conselheiro Alex Moscovitch. O problema que consistiria em fazer afundar esses barcos não diz respeito, infelizmente, ao conselho municipal de Paris”.

Os relatos que colocam em questão a versão oficial são censurados: Octobre à Paris, o filme que Jacques Panijel realiza durante o massacre, é projetado clandestinamente na capital em 1962, mas as bobinas são apreendidas pela polícia – ele passa nos cinemas hoje. François Maspero tenta editar um livro da jornalista Colette Péju, mas é proibido. A anistia que acompanha a independência da Argélia, em 1962, sela na sequência o silêncio da sociedade francesa: todas as denúncias são encerradas. “Eu tinha 6 anos em 1961 e eu estava na manifestação com meus pais, conta Samia Messaoudi, cofundadora da associação Au nom de la memoire. Um dia, na escola, eu fiz uma lição de francês sobre o 17 de outubro, mas minha professora não compreendeu: ela pensava que eu confundia com Charonne. Quando eu falava dos mortos de 1961 ao meu redor, as pessoas não acreditavam em mim”.

A memória de Charonne apaga de fato as raras lembranças do 17 de outubro: comemorando todo ano a manifestação contra a OAS de 8 de fevereiro de 1962, que teve nove mortos, a SFIO e o Partido comunista esperam assim conjurar as más lembranças dos anos 1956-1962. “Depois dos acordos de Evian, a esquerda, muito embaraçada, tentou fazer esquecer suas hesitações durante a guerra, explica Benjamin Stora. A SFIO votou pelos poderes especiais em 1956 e o PC militou durante muito tempo pela paz, não necessariamente pela independência. A celebração dos mortos de Charonne permite instalar no imaginário nacional a ideia de que houve, na França, uma resistência política longa contra a guerra da Argélia. É uma forma, para a esquerda, de esconder seus erros”.

Apesar do silêncio, a memória do 17 de outubro sobreviveu aqui e ali, fragmentada, quebrada, subterrânea. Ela permanece viva, seguramente, entre os imigrantes argelinos da região parisiense, que não podem esquecer os cadáveres abandonados sobre a calçada, os amigos gravemente feridos, os vizinhos que nunca mais foram vistos. “Esses homens falavam entre si ou nas associações da manifestação, mas a maior parte não transmitiu a memória desses acontecimentos aos seus filhos, explica o historiador Jim House. Nos anos 1980, eles sabem, mesmo que eles não gostem de admitir, que seus filhos permanecerão na França, e que eles tem medo de comprometer seu futuro lhes contando as violências policiais que eles sofreram”.

Quando Jean-Luc Einaudi começa a recolher testemunhos de argelinos, nos anos 1980 e 1990, muitos falam diante de seus filhos pela primeira vez. “Eu via frequentemente senhores argelinos que haviam permanecido silenciosos por toda sua vida se afundarem em lágrimas diante de sua família. Eles não haviam falado porque era doloroso demais, seguramente, mas também porque eles não queriam provocar reações de revolta em relação à França”. Foi a via escolhida pelo pai de M’Hamed Kaki, que permaneceu calado até a sua morte, em 2001. “Ele pensava que para ser respeitado, um imigrante devia ser silencioso e terno, explica seu filho. Ele queria nos proteger, evitar que tivéssemos essas imagens horríveis na cabeça”.

Nesses anos, a data de 17 de outubro não evoca nenhuma lembrança particular na imensa maioria dos franceses. Apenas o PSU, a extrema esquerda e os herdeiros do movimento anticolonialista tentam fazer viver a lembrança da repressão anti-argelina. “Essa memória é então quase clandestina, em todo caso tornada secundária”, constata o estudioso Olivier Le Cour Grandmaison, autor de muitas obras sobre a colonização. O historiador Pierre Vidal-Naquet, o realizador Jacques Panijel, o jornalista Claude Bourdet, o editor François Maspero tentam despertar as consciências, mas a sorte dos argelinos de 1961 não interessa muita gente. “Houve um enorme descompasso entre esse pequeno grupo para que o 17 de outubro pertencesse ao Panteão das histórias negras da república e a ignorância absoluta da maior parte”, constata Patrick Rotman, autor de muitos livros sobre a guerra da Argélia e roteirista da primeira ficção televisionada sobre o 17 de outubro.

Será preciso a chegada à idade adulta da segunda geração da imigração argelina para remexer em profundidade a paisagem memorial. Esses jovens frequentaram a escola da república, eles são eleitores e cidadãos franceses, mas eles têm a intuição que os preconceitos e os olhares de desprezo dos quais eles são vítima estão ligados à guerra da Argélia. “Frequentemente, esses filhos de imigrantes sentem que há um ele muito forte entre a hostilidade a seu respeito, notadamente entre os policiais, e o que aconteceu a seus pais muitas décadas antes, analisa o historiador Jim House. Eles não conhecem verdadeiramente o 17 de outubro de 1961, mas eles constatam que há, na França, uma continuidade na representação negativa do argelino, aquele que chamava-se anteriormente de ‘le bicot’”.

Em ocasião da marcha contra o racismo e pela igualdade de direitos de 1983, que reuniu 100.000 pessoas nas ruas de Paris, uma dezena de jovens imigrados se encontraram para homenagear os argelinos sufocados pela polícia. “Havíamos compreendido que essa história ocultada era importante para nossa dignidade e de nossos pais, explica o realizador Mehdi Lallaoui, organizador da marcha e cofundador da associação Au Nom de la Memoire [Em Nome da Memória]. Lançamos um trabalho de memória que durou muitos anos: reencontrar os testemunhos, os arquivos, as fotos”.

Pouco a pouco a memória se revela: nesses mesmos anos 1980, Jean-Luc Einaudi empreendeu um imenso trabalho de pesquisa sobre o 17 de outubro. Ele recolhe dezenas de testemunhos e revira todos os arquivos de cemitérios parisienses, sindicatos e associações, documentos da federação da França do FNL e as prestações de contas oficiais do conselho municipal de Paris, da Assembleia Nacional e do Senado. Quando seu livro sai, o ano do trigésimo aniversário do 17 de outubro, é o choque: La Bataille de Paris [A batalha de Paris], que retoma hora a hora o desenrolar dos fatos e o silêncio que se seguiu, suscita um debate sobre a repressão contra os argelinos.

Com esse livro e alguns outros, a memória do 17 de outubro de 1961 começa a entrar no espaço público: nesse ano de 1991, a televisão transmite em primeira mão um documentário de Benjamin Stora sobre “os anos argelinos” que se detém longamente sobre o 17 de outubro, e a associação Au Nom de la Mémoire vem à luz. Dois documentários vêm em seguida alimentar a memória do 17 de outubro: Le Silence du Fleuve [O silêncio do rio], de Agnès Denis e Mehdi Lallaoui, em 1991, e Une Journée Portée Disparue, de Philip Brooks e Alan Hayling, premiado em 1993 pelo FIPA de ouro no Festival international dês programmes audiovisuels. As autoridades da época se prendem sempre, no entanto, à verdade oficial: apesar dos trabalhos de historiadores se multiplicarem, Maurice Papon evoca obstinadamente os “mortos míticos” de 1961.

Segundo os historiadores e os militantes da memória, é a justiça que entra em cena: em ocasião do processo do antigo responsável de Vichy, em 1997, em Bordeaux, os magistrados se demoraram longamente sobre o 17 de outubro de 1961. Confrontado com Jean-Luc Einaudi, o ex-comissário de polícia acabou por admitir “quinze ou vinte mortos” durante essa “noite infeliz”, mas ele os atribui a acertos de contas entre argelinos. Pela primeira vez o poder faz um gesto: o primeiro ministro, Lionel Jospin, abre os arquivos, enquanto o ministro do interior, Jean-Pierre Chevènement, confia uma missão a um conselheiro de Estado. Fundando-se sobre o único registro de entrada do Instituto Médico Legal – a maior parte dos arquivos da prefeitura e da brigada fluvial desapareceram misteriosamente –, ele conclui, em 1998, pela existência de pelo menos 32 mortos.

Dois anos mais tarde, a justiça faz novamente renascer o 17 de outubro: Maurice Papon decide processar Jean-Luc Einaudi por difamação. Ruim para ele: manifestantes, testemunhas e policiais aposentados aparecem para narrar a “carnificina”. Dessa vez, Papon admite cerca de trinta mortos, mas o tribunal não lhe dá razão: prestando homenagem ao caráter “sério, pertinente e completo” do trabalho de Jean-Luc Einaudi, os juízes constatam que “certos membros das forças da ordem, relativamente numerosos, agiram com violência extrema, sob o império de uma vontade de retaliação”. Essa violência que se manifestou “no calor” da manifestação, mas também “no frio” dos centros de internamento, “não é justificada pelo comportamento dos militantes naquela noite”, conclui o julgamento.

A versão oficial do 17 de outubro fica daí em diante em farrapos. O tempo da comemoração chegou. Em ocasião do quadragésimo aniversário, em 2001, o prefeito de Paris, Bertrand Delanoë, afixa sobre a ponte Saint-Michel uma placa “à memória dos numerosos argelinos mortos na sanguinária repressão da manifestação pacífica de 17 de outubro de 1961”. Na região de Paris, duas dezenas de placas ou de monumentos inscrevem daí em diante esses dias de outono na memória coletiva. As tensões permanecem vivas – em 2001, o RPR e o UDF votaram contra a afixação da placa de Saint-Michel –, mas o clima mudou. “Em 2005, quando eu escrevi o roteiro para a primeira ficção sobre o 17 de outubro, Nuit Noire [Noite Negra], se acenderam brasas da paixão no tempo da história, conta Patrick Rotman. Nuit Noire tenta aliás compreender mais que denunciar”.

Foram necessários trinta, quarenta anos, para que o 17 de outubro de 1961 se tornasse uma página da história da França. Uma geração, quase duas. O tempo para que os dirigentes políticos dos anos 1960 deixem a cena, que os historiadores trabalhem ao abrigo das paixões, que os arquivos oficiais se abram e, sobretudo, que os filhos dos imigrantes argelinos nascidos na França cresçam. “Para as coisas muito dolorosas, há frequentemente um tempo misterioso de silêncio, suspira o realizador Mehdi Lallaoui. Os anos colocam as coisas à distância, as palavras se tornam possíveis. A ocultação aconteceu, mas o 17 de outubro acabou por se tornar uma memória compartilhada, comum, assimilada por todos os cidadãos: foi necessário para que se pudesse construir pontes de fraternidade entre a França e a Argélia”.

O quebra-cabeça da memória coletiva acabou por se reconstituir, mas, para muitos, ainda falta uma peça: o reconhecimento do Estado. “Não se exige que a França se ponha de joelhos para dizer seu arrependimento, continua M. Lallaoui. Não perseguimos nem vingança, nem punição. Gostaríamos apenas que o Estado nomeie o que se passou naquele dia”. “O reconhecimento do 17 de outubro está lá, mas ele apenas sublinha a ausência de reconhecimento desse crime de Estado, acrescenta o pesquisador Olivier Le Cour Grandmaison. É preciso oferecer justiça simbolicamente às vítimas de 1961. Isso passa por uma declaração pública das mais altas autoridades do Estado”.

O governo de François Fillon não parece esboçar o menor gesto, mas, com os anos, Mehdi Lalloui se tornou paciente. “Se não for esse governo, será um outro”, diz ele sorrindo.

11 de outubro de 2011

A verdadeira história de como Israel foi criado

Um direito derivado do poder

Alison Weir

CounterPunchTells the Facts and Names the Names

Tradução / Para compreender melhor a solicitação palestina da qualidade de membro pleno nas Nações Unidas, é importante compreender a ação original da ONU em 1947 a respeito de Israel-Palestina.

A representação comum do nascimento de Israel é que a ONU criou Israel, que o mundo era a favor dessa ação, e que o “establishment” governamental dos EUA a apoiou. Pode-se demonstrar que todas essas suposições são incorretas.

Primeiro: na realidade, embora a Assembleia Geral da ONU recomendasse a criação de um Estado judeu em parte da Palestina, essa recomendação foi não vinculante e nunca implementada pelo Conselho de Segurança.

Segundo: a Assembleia Geral só aprovou essa recomendação depois de que os proponentes de Israel ameaçassem e subornassem numerosos países com o objetivo de obter os dois terços de votos necessários.

Terceiro: o governo dos EUA apoiou a recomendação por considerações eleitorais internas, e adotou essa posição apesar de enérgicas objeções do Departamento de Estado, a CIA e o Pentágono.

A aprovação da recomendação da Assembleia Geral provocou um aumento da violência na região. Durante os meses seguintes, o ala armada do movimento pró-Israel, que tinha se preparado fazia tempo para a guerra, perpetrou uma série de massacres e expulsões em toda Palestina, implementando um plano para abrir o caminho para um Estado de maioria judia.

Foi esta agressão armada, e a limpeza étnica de pelo menos 750 mil palestinos autóctones, o que criou o Estado judeu em terra que tinha sido em um 95% não judia antes da imigração sionista e que inclusive depois de anos de imigração continuou sendo não judia em um 70%. e apesar da pátina superficial de legalidade que seus partidários extraíram da Assembleia Geral, Israel nasceu apesar da oposição de especialistas estadunidenses e de governos no mundo todo, que se opunham por motivos pragmáticos e morais.

Vejamos os fatos específicos.

Antecedentes da recomendação de partição da ONU

Em 1947, a ONU se ocupou da questão da Palestina, um território que então era administrado pelos britânicos.

Aproximadamente 50 anos antes, tinha começado na Europa um movimento chamado sionismo político. Sua intenção era criar um Estado judeu na Palestina mediante a expulsão de habitantes cristãos e muçulmanos que compunham mais de 95% de sua população e sua substituição por imigrantes judeus.

A medida que esse projeto colonial cresceu durante os anos seguintes, os palestinos autóctones reagiram com ocasionais estalidos de violência. Os sionistas já tinham previsto que a gente resiste normalmente à expulsão de seu próprio país. Em vários documentos citados por numerosos historiadores palestinos e israelenses, os sionistas discutiram sua estratégia: comprariam a terra até que todos os habitantes anteriores tivessem emigrado, ou, se isto não acontecesse, utilizariam a força para obrigá-los a irem embora.

Quando o esforço de adquisição só conseguiram obter um porcentagem pequeno da terra, os sionistas criaram uma série de grupos terroristas para combater tanto os palestinos quanto os britânicos. O terrorista e futuro primeiro ministro israelense Menachem Begin fez alarde posteriormente de que os sionistas tinham levado o terrorismo a Oriente Médio e ao mundo em general.

Finalmente, os britânicos anunciaram em 1947 que terminariam seu controle de Palestina, que tinha sido criado pela Liga de Nações depois da Primeira Guerra Mundial, e transferiu a questão da Palestina para as Nações Unidas.

Nesses dias, a imigração sionista e o projeto de adquisição de terras tinha aumentado a população judia de Palestina a um 30% e a propriedade da terra de um 1% a aproximadamente 6%.

Já que um princípio fundador da ONU era “a autodeterminação dos povos”, poderiam ter aguardado que a ONU apoiasse eleições limpas e democráticas na quais os habitantes criasem seu próprio país independente.

Em vez disso, os sionistas pressionaram por uma resolução da Assembleia Geral na qual entregariam a eles um desproporcionado 55% de Palestina. (Embora poucas vezes o anunciaram em público, seu plano declarado era se apoderar depois do resto de Palestina.)

Funcionários dos EUA se opõem ao plano de partição

O Departamento de Estado dos EUA se opôs energicamente ao plano de partição, já que considerava que o sionismo era contrário aos princípios fundamentais e aos interesses dos EUA.

O autor Donald Neff informa que Loy Henderson, diretor do Escritório do Departamento de Estado de Assuntos do Oriente Médio e África, escreveu um memorando ao secretário de Estado em que advertia que:
“... o apoio pelo governo dos EUA a uma política que favorece o estabelecimento de um Estado judeu na Palestina seria contrário aos desejos de uma grande maioria dos habitantes locais a respeito de sua forma de governo. Além do mais, teria um forte efeito adverso sobre os interesses estadunidenses no Oriente Médio...”

Henderson seguiu enfatizando:

“Os EUA têm atualmente prestígio moral no Oriente Médio que não pode ser igualado por nenhuma outra grande potência. Perderíamos esse prestígio e seríamos considerados durante muitos anos como traidores aos altos princípios que nós mesmo enunciado durante o período de guerra.”

Quando os sionistas começaram a pressionar por um plano de partição através da ONU, Henderson se opus energicamente ao apoio à proposta. Advertiu que uma partição teria que ser implementada pela força e sublinhou que “não se baseia em princípio nenhum.” Disse a continuação:

“... [a partição] garantiria que o problema palestino seja permanente e ainda mais complicado no futuro...”

Henderson seguiu sublinhando que:

“... [as propostas de partição] estão em contravenção definitiva com vários princípios estabelecidos na Carta [da ONU] assim como com princípios nos quais se baseiam os conceitos estadunidenses de governo. Essas propostas, por exemplo, ignoram princípios como a autodeterminação e o governo pela maioria. Reconhecem o principio de um Estado teocrático racial e inclusive chegam em vários casos a discriminar por motivos de religião e raça...”

Henderson estava longe de ser o único em fazer suas recomendações. Escreveu que seus pontos de vista não eram só da Divisão de Oriente Próximo toda, mas de “quase todos os membros do Foreign Service e do Departamento que se dedicou em uma medida apreciável aos problemas de Oriente Médio”.

Henderson não exagerava. Um funcionário após o outro e uma agência após a outra se opuseram ao sionismo.

Em 1947 a CIA informou que a dirigência sionista perseguia objetivos que poriam em perigo tanto os judeus como “os interesses estratégicos das potências ocidentais no Oriente Médio”.

Truman cede ante o lobby pró-Israel

O presidente Harry Truman, no entanto, ignorou esse conselho. O conselheiro político de Truman, Clark Clifford, acreditava que o voto judeu e as doações eram essenciais para ganhar a próxima eleição presidencial, e que o apoio do plano de participação garantiria esse apoio. (O oponente de Truman, Dewey, adotou posições semelhantes por motivos similares.)

O secretário de Estado de Truman, George Marshall, o reputado general da Segunda Guerra Mundial e autor do Plano Marshall, ficou furioso quando viu que considerações eleitorais primavam por sobre políticas baseadas no interesse nacional. Condenou o que qualificou de “subterfúgio transparente para ganhar uns poucos votos”, que levaria a que “a grande dignidade do escritório do presidente seja seriamente reduzida”.

Marshall escreveu que o conselho apresentado por Clifford “se baseava em considerações políticas internas, enquanto que o problema que nos enfrentava era internacional. Disse abertamente que se o presidente seguisse o conselho do senhor Clifford e se eu votasse nas eleições, eu votaria contra o presidente…”

Henry F. Grady, que foi chamado “o máximo diplomata dos EUA durante um período crítico da Guerra Fria”, dirigiu em 1946 uma comissão encarregada de apresentar uma solução para Palestina. Grady escreveu posteriormente sobre o lobby sionista e seu efeito nocivo sobre os interesses nacionais dos EUA.

Grady argumentou que sem a pressão sionista, os EUA não teriam tido “a má vontade dos Estados árabes, que são de tanta importância estratégica em nossa ‘guerra fria’ com os soviéticos”. Também descreveu o poder decisivo do lobby:

“Tenho muita experiência com lobbys, mas este grupo começou onde tinham terminado os que conhecia… Encabecei numerosas missões do governo, mas em nenhuma outra experimentei tanta deslealdade”… “nos EUA, já que não existe nenhuma força política que faça contrapeso ao sionismo, é provável que suas campanhas sejam decisivas.”

O ex-subsecretário de Estado Dean Acheson também se opus ao sionismo. O biógrafo de Acheson escreve que Acheson “se preocupava porque Ocidente pagaria um preço elevado por Israel”. Outro autor, John Mulhall, registra a advertência de Acheson:

“... a transformação [da Palestina] em um Estado judeu capaz de receber um milhão ou mais de imigrantes exacerbaria enormemente o problema político e poria em perigo nem só os interesses estadunidenses, mas todos os interesses ocidentais no Oriente Médio”.

O secretário da defesa James Forrestal também tentou, sem sucesso, se opor aos sionistas. Se indignou porque a política para Oriente Médio de Truman se basaria no que chamou “esquálidos propósitos políticos” e afirmou que “a política dos EUA deveria se basear nos interesses nacionais dos EUA e não em considerações políticas interiores”.

Forrestal representou o ponto de vista geral do Pentágono quando disse que “não se deveria permitir que nenhum grupo neste país possa influir em nossa política até o ponto de pôr em perigo nossa segurança nacional”.

Um informe do Conselho Nacional de Segurança advertiu que a agitação na Palestina punha gravemente em perigo a segurança dos EUA. Um informe da CIA destacou a importância estratégica de Oriente Médio e seus recursos petrolíferos.

Da mesma forma, George F. Kennan, diretor de Planejamento Político do Departamento de Estado, emitiu um documento ultrassecreto em 19 de janeiro de 1947, que descrevia o enorme dano feito aos EUA pelo plano de partição (“Report by the Policy Planning Staff on Position of the United States with Respect to Palestine”).

Kennan advertiu que “importantes concessões petroleiras e direitos a bases aéreas dos EUA.” poderiam se perder devido ao apoio dos EUA à partição, e advertiu que a URSS podia ganhar devido ao plano de partição.

Kermit Roosevelt, sobrinho de Teddy Roosevelt e um legendário agente de inteligência, foi outra pessoa profundamente inquieta pelos acontecimentos, e expressou:

“O processo pelo qual os judeus sionistas conseguiram promover o apoio estadunidense a favor da partição de Palestina demonstra a necessidade vital de uma política exterior baseada em interesses nacionais e não partidistas… Só quando os interesses nacionais dos EUA, em sus termos mais elevados, tomem precedência por sobre todas as demais considerações, pode se desenvolver uma política exterior lógica e visionaria. Nenhum dirigente político estadunidense tem direito a comprometer os interesses estadunidenses para conseguir votos partidistas...”

Seguiu dizendo:

“O atual curso da crise mundial obrigará cada vez mais aos estadunidenses a compreender que seus interesses nacionais e os do proposto Estado judeu em Palestina entrarão em conflito. Tem que esperar que sionistas e não-sionistas estadunidenses se enfrentem por igual com as realidades do problema.”

O chefe da Divisão de Assuntos de Oriente Médio do Departamento de Estado, Gordon P. Merriam, advertiu contra o plano de partição por motivos morais:

“O apoio dos EUA à partição da Palestina como solução a esse problema pode ser justificado somente sobre a base do consentimento árabe e judeu. De outra maneira violaríamos o princípio de autodeterminação estabelecido na Carta do Atlântico, a declaração das Nações Unidas, e a Carta das Nações Unidas –um princípio que está profundamente arraigado em nossa política exterior. Inclusive uma determinação a favor da determinação seria, ante a ausência de um consentimento semelhante, uma ridiculização e violação da própria carta da ONU.”

Merriam acrescentou que sem consentimento, teria “derramamento de sangue e caos”, um pronóstico tragicamente exato.

Um memorândum interno do Departamento de Estado predisse exatamente como Israel nasceria mediante a agressão armada disfarçada de defesa:

“... os judeu serão os verdadeiros agressores contra os árabes. Contudo, os judeus afirmarão que só estão defendendo as fronteiras de seu Estado que foram traçadas pela ONU… em caso de semelhante ajuda externa árabe os judeus virão correndo ao Conselho de Segurança com a afirmação de que seu Estado é objeto de agressão armada e utilizarão todos os meios para ocultar o fato de que sua própria agressão armada contra os árabes é a causa do contra-ataque árabe.”

E o vice-cônsul estadunidense William J. Porter previu outro resultado do plano de partição: que nenhum Estado árabe chegaria realmente a ser criado na Palestina.

Pressão pró-Israel sobre os membros da Assembleia Geral

Quando ficou claro que a recomendação de Partição não obteria os dois terços necessários da Assembleia Geral para ser aprovada, os sionistas pressionaram por adiar a votação. Utilizaram esse período para pressionar a numerosas nações para que votassem a favor da recomendação. Uma série de pessoas descreveram essa campanha:

Robert Nathan, um sionista que tinha trabalhado para o governo dos EUA e que foi particularmente ativo na Agência judia, escreveu mais adiante: “Utilizamos todos os instrumentos à nossa disposição”, como dizer a determinadas delegações que os sionistas utilizariam a sua influência para bloquear ajuda econômica a qualquer país que não votasse da maneira desejada.

Outro sionista declarou com orgulho:

“Cada pista foi meticulosamente comprobada e seguida. Nem o menor país ou mais remoto deixou de ser contactado e cortejado. Nada foi deixado ao acaso.”

O financista e conselheiro presidencial durante muito tempo, Bernard Baruch, disse à França que perderia a ajuda dos EUA si votasse contra a partição. o máximo assistente executivo da Casa Branca, David Niles, organizou a pressão sobre a Libéria; o magnate da borracha Harvey Firestone a pressionou.

Aos delegados latinoamericanos disseram que o projeto de construção da rodovia panamericana seria mais provável se votassem a favor. Esposas dos diplomáticos receberam casacos de pele de visom (a mulher do delegado cubano devolveu o seu); se informa que o presidente da Costa Rica, José Figueres, recebeu um talonário de cheques em branco. O Haiti teve a promessa de ajuda econômica se mudasse seu voto original contra a partição.

O sionista que fora durante muito tempo Juiz da Suprema Corte, Felix Frankfurter, junto com dez senadores e o conselheiro interior de Truman, Clark Clifford, ameaçaram as Filipinas (sete leis sobre as Filipinas estavam pendentes no Congresso).

Antes da votação sobre o plano, o delegado filipino tinha feito um discurso apaixonado contra a partição, defendendo os invioláveis “direitos primordiais de um povo a determinar seu futuro político e a preservar a integridade territorial de seu país nativo...”

Continuou dizendo que não podia crer que a Assembleia Geral aprovaria uma proposta que colocaria o mundo “de volta no caminho os perigosos princípios da exclusividade racial e os arcaicos documentos de governos teocráticos”.

Vinte quatro horas mais tarde, depois de intensa pressão sionista, o delegado votou a favor da partição.

A delegação estadunidense ante as Nações Unidas se indignou tanto quando Truman insistiu em que votassem a favor da partição que o diretor de Assuntos da ONU do Departamento de Estado foi enviado a Nova Iorque a impedir que os delegados se demitissem em massa.

Em 29 de novembro de 1947 foi aprovada a resolução da partição, 181. Embora esta resolução é citada frequentemente, foi de limitado (se algum) impacto legal. As resoluções da Assembleia Geral, a diferença das do Conselho de Segurança, não são vinculantes para os Estados membros (Negritas da Tradutora). Por este motivo, a resolução solicitou que “o Congresso de Segurança adotasse as medidas necessárias como foram previstas no plano para sua implementação”, o que nunca foi feito pelo Conselho de Segurança. Legalmente, a Resolução da Assembleia Geral foi uma “recomendação” e não criou nenhum Estado.

O que fez, porém, foi aumentar os combates na Palestina (e antes do que Israel menciona como data do início de sua guerra fundacional) os sionistas já tinham expulsado 413.794 pessoas. Unidades militares sionistas se tinham preparado ocultamente para a guerra antes da votação da ONU e tinham adquirido quantidades massivas de armamentos, alguns através de uma ampla rede de operações ilícitas de tráfico de armas nos EUA utilizando uma serie de grupos de fachada.

A ONU acabou por criar um cessar-fogo temporário e muito parcial. Um mediador sueco da ONU, quem previamente tinha resgatado milhares de judeus dos nazistas foi enviado para negociar um fim à violência. Assassinos israelenses o mataram e Israel continuou o que deveria chamar sua “guerra de independência”.

Ao final desta guerra, mediante uma força militar maior que as de seus adversários e a implementação implacável de planos para expulsar a maior quantidade possível de não judeus, Israel chegou a existir sobre um 78% de Palestina.

Perpetraram-se pelo menos 33 massacres de civis palestinos, a metade antes de que um só exército árabe entrasse ao conflito; centenas de aldeias foram despovoadas e arrasadas, e uma equipe de cartógrafos foi enviada para dar a cada cidade, aldeia, rio e monte um novo nome hebraico. Todos os vestígios de moradias, história e cultura palestinos deviam ser apagados da história, um esforço que quase teve sucesso.

Israel, que afirma que é a “única democracia no Oriente Médio ”, decidiu não declarar fronteiras oficiais nem escrever uma Constituição, uma situação que continua até a hoje. Em 1967 se apoderou de ainda mais terra palestina e síria, que agora é território ocupado ilegalmente, já que a anexação de terras mediante a conquista militar é ilegal segundo o direito internacional moderno. Desde então continua com a sua campanha de crescimento mediante a adquisição armada e confiscação ilegal de terras.

Israelenses individuais, como palestinos e outra gente, têm o direito legal e moral a uma série de direitos humanos.

Por outro lado, o elogiado “direito a existir” de Israel se baseia em um suposto “direito” derivado do poder, um conceito obsoleto que não é reconhecido pelas convenções legais internacionais, e que de fato é especificamente proibido.

A sombra de um espectro retorna para assombrar Moscou

Ellen Barry


No fim de semana passado, manifestantes lembraram a repressão de Boris Yeltsin de uma rebelião de 1993 liderada por legisladores comunistas. Sergey Ponomarev/Associated Press

No fim de semana passado, Moscou bloqueou duas ruas para abrir caminho para uma pequena manifestação comunista. Foi uma marcha em memória de cerca de 150 pessoas que foram mortas em outubro de 1993, quando deputados da linha dura no Parlamento tentaram arrancar o poder de Boris Yeltsin e interromper o curso da mudança que ele estava dirigindo para a democracia constitucional e capitalismo.

A inteira, vasta massa da Rússia pareceu oscilar por alguns dias. Os simpatizantes reuniram-se na Casa Branca de Moscou, onde os deputados ficaram amotinados, e assistiram ao redor de fogueiras, cheios de paixão pela União Soviética e pelo Partido Comunista. Não parecia impossível que os ganhos de cinco anos desapareceriam da noite para o dia.

Eu morava aqui na época. Não consigo lembrar o impulso que me levou a fazê-lo - talvez seja o suficiente dizer que eu tinha 22 anos, e que o tempo estava bom - mas em 3 de outubro, mostrei meu cartão de identificação internacional de estudante para os veteranos de guerra afegãos na porta e entrei na Casa Branca, um labirinto dos deputados exaustos e âncoras de noticiários de TV a cabo. Depois, segui os "defensores da Casa Branca", como se chamavam os defensores do Parlamento, quando subiram ao gabinete do prefeito, quebrando janelas e saqueando postais de uma loja de presentes no térreo.

A multidão estava eufórica, convencida de que seu momento tinha chegado, mas então comecei a ouvir tiros. Eu vi um homem arrastado para fora do gabinete do prefeito com sangue na cabeça, e observei uma mulher velha agarrada a uma árvore, lamentando, "O fascismo deve ser interrompido!" Ao anoitecer, dois jovens americanos que eu conhecia tinham sido baleados enquanto os rebeldes tentavam capturar a torre de televisão. Fiquei acordada a noite toda, escondida em um prédio de escritórios, e assisti na manhã seguinte, o momento em que os tanques entraram no centro de Moscou e começaram a bombardear o Parlamento.

Esses eventos - uma guerra civil muito curta, como poderíamos defini-los - foram neutralizados pela história que se seguiu: Yeltsin sobreviveu ao desafio comunista para obter um segundo mandato e a transformação econômica da Rússia assumiu o ar de inevitabilidade. A voz da esquerda ficou mais calma; então Vladimir Putin sucedeu a Yeltsin, trazendo estabilidade e crescimento e extinguindo a oposição política.

Na semana passada, quando um membro comunista da Duma, a câmara baixa do Parlamento, propôs um momento de silêncio em memória dos que morreram em 1993, a proposta foi rejeitada.

No sábado, os "defensores da Casa Branca" voltaram a se reunir em uma cidade que passaram por ela. No fim do quarteirão, maquetes cristalinas de novos arranha-céus estavam em exposição em uma loja. Moscou foi restaurada ao seu brilho pré-revolucionário, com fileiras de mansões pintadas com as cores dos ovos de Páscoa.

Atravessei uma multidão feliz em frente ao zoológico e, ao virar da esquina, lá estavam eles: os manifestantes, 15 anos mais velhos, marchando em linhas retas e lentas e carregando retratos dos mortos.

Era como ver fantasmas. Usavam tenos baratos de poliéster nas cores azul, cinza e marrom que vestiram gerações de soviéticos. Mulheres idosas usavam arcos em seu cabelo e meias pretas sob suas botas. Seus líderes envelhecidos montaram em um caminhão, gritando através de megafones.

Seus rostos registravam tristeza: perderam a Rússia. Eles estavam morrendo sozinhos. Na calçada, Valentina Ivanova, 56, estava enxugando as lágrimas. "Uma vez fomos um grande país", disse ela. "Agora estamos divididos entre os ricos e os pobres".

Eles eram pobres, as pessoas marchando na nossa frente. Igor Mishenev, marchando no final da procissão, descreveu a história pós-soviética da Rússia como um longo desgosto: A expectativa de vida para os homens é 59; a taxa de natalidade é metade do que era no final dos anos 80.

Uma pequena porção pode ter se tornado rica, disse ele, mas milhões sofrem. - Todos os nossos slogans - disse ele. "Todos eles se tornaram realidade."

Embora não o mencionasse, o novo capitalismo da Rússia estava experimentando sua pior semana em 10 anos. As ações caíram 53,2% desde 01 de janeiro. A ameaça da recessão global agora é tão grande que ameaça o boom do petróleo que definiu a presidência de Putin.

À medida que a Rússia chega a um período de angústia econômica, seria tolice esquecer o quanto o filme de riqueza é fino nesta sociedade e o vasto oceano que se encontra abaixo dele. Putin certamente não o fez; embora tenha silenciado virtualmente toda a oposição política durante sua presidência, seu desafio mais alarmante veio dos pensionistas irritados. Centenas de milhares deles - alguns dizem que até 2 milhões - tomaram as ruas em toda a Rússia em 2005, furiosos por sua decisão de converter benefícios como o transporte gratuito e subsídios de habitação em pagamentos em dinheiro. Putin retrocedeu, culpando os subordinados pela decisão.

E embora nossa atenção seja freqüentemente treinada sobre os homens mais ricos da Rússia, alguns economistas dizem que uma ameaça real ao monopólio do poder do Kremlin poderia eventualmente vir dos pobres, que sofreram o peso das altas taxas de inflação. Perguntei ao economista Mikhail Delyagin, um ex-conselheiro de Yeltsin, que evento recente marcou o fim da idade de ouro de Putin. A guerra com a Geórgia? As batalhas com oligarcas? A crise de liquidez? Ele apontou, em vez disso, para um dia em setembro, quando os preços do pão subiram de 30% para 60% em várias cidades russas.

Olga Kryshtanovskaya, um proeminente sociólogo, disse que "a popularidade de Putin está relacionada com o dinheiro, com o dinheiro do Estado", que poderia ser usado para enriquecer programas para pensionistas, a intelligentsia ou outros segmentos inquietos da sociedade. Com os preços do petróleo altos, ela disse, "ele estava nadando em dinheiro." Mas, ela acrescentou: "Se desaparecer, então, no início, haverá vozes fracas; mas então haverá uma voz mais forte de protesto. De onde elas vêm? - "De quem sofre."

Quando chegaram às portas do antigo edifício do Parlamento, a multidão de comunistas envelhecidos começou a se dispersar. Um homem cadavérico com um pano de pano gasto estava no meio da estrada, declamando as letras de um hino soviético e os retratos dos mortos foram colocados na parte de trás de uma van para a próxima manifestação. Mishenev, com um brilho, disse que esperava ver os comunistas de volta ao poder na Rússia antes de muito tempo.

E então ele se foi, acenando com sua bandeira com o martelo e a foice atrás dele. Máquinas de limpeza de rua rugiram pela avenida. A polícia de trânsito se afastou. Atrás deles havia um monte de motoristas irritados em carros estrangeiros de último modelo, e eles correram pela rua onde, um minuto antes, Mishenev estava parado.

10 de outubro de 2011

Celebração do centenário da revolução chinesa de 1911

Domenico Losurdo

Uno sguardo sulle ricerche de Domenico Losurdo

Tradução / Na China, em 1911, ocorre uma revolução, que viu a derrubada da dinastia Manchu e a proclamação da república. Sun Yat-sen é o primeiro a ocupar o cargo de presidente. Embora longe de ser um marxista, Sun Yat-sen congratula-se com a ascensão dos bolcheviques ao poder. A explicação que fornece alguns anos mais tarde sobre esse gesto encerra uma terrível acusação contra o colonialismo e o imperialismo: "Os índios americanos já foram exterminados" e o "extermínio" ameaça também os demais povos colonizados. Trágica é a sua situação; exceto que, "de repente, cento e cinquenta milhões de pessoas de raça eslava levantaram-se para se opor ao imperialismo, ao capitalismo, à injustiça no interesse da humanidade". E assim "nasceu, em um momento que ninguém esperava, uma grande esperança para a humanidade: a Revolução russa"; sim, "por causa da Revolução russa, toda a humanidade era agora animada por uma grande esperança". Claro, a resposta da reação não se fez esperar: "As potências atacaram Lenin porque querem destruir um profeta da humanidade".

Sim, Sun Yat-sen não era um marxista ou um comunista; mas é a partir da "grande esperança", que às vezes ele descreveu com uma linguagem ingênua, mas por isso muito mais eficaz, que se pode compreender a fundação do Partido Comunista da China, em 1º de julho de 1921. Mais tarde, então engajado na guerra nacional de resistência contra o imperialismo japonês, que pretendia "submeter toda a China e converter os chineses em escravos colonizados", Mao recorda sua primeira abordagem (nos últimos anos da dinastia Manchu) para a causa da revolução:

"Naquela época, eu comecei a ter algum vislumbre de consciência política, especialmente depois de ler uma brochura sobre o desmembramento da China [...] Esta leitura despertou em mim uma grande preocupação pelo futuro do meu país e eu comecei a entender que todos nós tínhamos o dever de salvá-lo".

Mais de 10 anos depois, falando na véspera da proclamação da República Popular, Mao recorda a história de seu país. Recorda, em particular, a resistência contra as potências protagonistas da Guerra do Ópio, a revolta dos Taiping "contra os Ching ao serviço do imperialismo", a guerra de 1894-1895 contra o Japão, "a guerra contra a agressão das forças da coalizão das oito potências" (após a revolta dos Boxers) e, finalmente, "a Revolução de 1911 contra os Ching, lacaios do imperialismo". Inúmeras lutas e inúmeras derrotas. Como explicar que a derrubada, em um certo ponto, ocorre?

"Por um longo tempo, durante esse movimento de resistência, isto é, há mais de 70 anos, desde a Guerra do Ópio, em 1840, até a véspera do Movimento de 4 de maio, em 1919, os chineses não tinham armas ideológicas para se defender contra o imperialismo. As velhas e imutáveis ​​armas ideológicas do feudalismo foram derrotadas, tiveram de ceder e foram declaradas fora de uso. Na falta de algo melhor, os chineses foram obrigados a se armar com armas ideológicas e fórmulas políticas como a teoria da evolução, a teoria do direito natural e da república burguesa, todos emprestadas do arsenal do período revolucionário da burguesia no Ocidente, pátria do imperialismo [...], mas todas essas armas ideológicas, como as do feudalismo, revelaram-se muito fracas, e por sua vez, tiveram de ceder, foram retirados e declaradas fora de uso. 
A Revolução Russa de 1917 marca o despertar dos chineses, eles aprendem algo novo, o marxismo-leninismo. Nasce na China o Partido Comunista, e este acontecimento marca uma época [...]
Uma vez que conheceram o marxismo-leninismo, os chineses deixaram-se de ser intelectualmente passivos e tomaram a iniciativa. A partir daquele momento colocaram fim ao período da história do mundo moderno em que a cultura chinesa e os chineses eram vistos com desprezo."

Estamos diante de um texto extraordinário. O marxismo-leninismo é a verdade finalmente encontrada, após uma extensa busca, a arma ideológica que pode acabar com a situação de opressão e de "desprezo" imposta pelo colonialismo e pelo imperialismo e assegurar a vitória da revolução nacional na China. E é uma busca que começou com as Guerras do Ópio, antes mesmo da formação não só do marxismo-leninismo, mas do marxismo enquanto tal: em 1840 Marx era apenas um jovem estudante universitário. O marxismo não provoca a revolução na China, mas é a resistência secular do povo chinês que, após longa e árdua busca, pode tomar plenamente consciência de si mesmo através da ideologia que conduz a revolução à vitória. É em 16 de setembro de 1949. Cinco dias depois, Mao declarou: "Não seremos mais uma nação mais sujeita a insulto e humilhação. Nós levantamos [...] A era em que o povo chinês foi considerado não-civilizado agora está terminada." Ao celebrar o resgate de uma nação há muito tempo submetida a "desprezo", "insulto e humilhação", Mao, provavelmente, tem em mente o aviso do final do século XIX exibido pela concessão francesa de Xangai: "Proibida a entrada de cães e chineses".

Um ciclo histórico tinha terminado.