29 de julho de 2019

Frear a mudança climática nunca será um "bom negócio"

O novo livro do ativista e escritor Bill McKibben é um registro de quão urgente é a crise climática. Mas ele falha ao tentar propor soluções verdes no interior do capitalismo para problemas que requerem mudanças radicais e sistêmicas.

Paul Fleckenstein

Jacobin

Bill McKibben aceita o EMA Lifetime Achievement Award no palco durante o 23º Annual Environmental Media Awards no Warner Bros. Studios em 19 de outubro de 2013 em Burbank, Califórnia. (Michael Buckner / Getty Images)

Resenha de Falter por Bill McKibben (Henry Holt and Co., 2019).

Tradução / Ativista pela justiça climática e fundador da 350.org, professor de estudos ambientais, autor de best sellers e jornalista, Bill McKibben dispensa apresentações. Ele contribuiu enormemente para a consciência pública sobre a necessidade de nos prevenirmos com a emergência climática. E ele continua a promover importantes avanços nessa luta, incluindo a Extinction Rebellion e a greve climática global, 20 de setembro.

Nos 30 anos entre O fim da Natureza e o lançamento do seu novo livro Falter, lançado este ano, o destino ecológico do planeta tomou o rumo ao pior dos cenários. Agora, confrontados com as catástrofes climáticas, nós precisamos urgentemente de livros que transmitam nossas terríveis condições ambientais e contribuam à compreensão política que sirva como guia para a ação. Falter cumpre o primeiro critério, mas falha desastrosamente no segundo.

Colapso ecológico

Falter é brilhante na explicação que faz sobre o colapso ecológico. Possui bases na ciência climática e narra as múltiplas formas que os gases do efeito estufa estão desestabilizando e alterando o planeta para sempre.

O aumento extremo de temperatura colocará 1,5 bilhões de pessoas em áreas de alto risco, submetidas a combinações de temperatura e umidade que humanos não são capazes de sobreviver por mais que poucas horas. A rápida mudança de condições climáticas ameaça desarranjar radicalmente as ecologias de solos, plantas e insetos que tornam a agricultura possível. Cerca de 93% do calor é retido pela água e a acidez do oceano tem aumentado em 30% por causa das emissões de CO². Além disso, aumenta o risco de colapso total dos ecossistemas oceânicos. A Organização Internacional de Migração avalia que haverá mais de duzentos milhões de refugiados climáticos por volta de 2050, ou talvez acima de um bilhão, na melhor das estimativas.

Naquilo que McKibben chama de jogo humano, o tabuleiro está afundando rapidamente. A destruição ecológica restringe o espaço de manobra dos humanos. Reinos inteiros da experiência humana com a natureza estão desaparecendo também. McKibben apresenta interpretações matizadas e persuasivas sobre essa catástrofe. Há muito pelo que lutar.

Raízes da catástrofe

A forma que analisamos um problema determina como somos capazes de lidar com ele. Por isso vale à pena explorar o que McKibben diz a respeito das raízes da emergência climática.

Ao longo do livro, McKibben lista os vilões que contribuem para os desastres ecológicos: companhias de óleo, os irmãos Koch, negacionismo climático, nossas expectativas por mais produtos tecnológicos, sistema de crescimento, hiper individualismo, as consequências psicológicas da participação em um paraíso de consumo, o zeitgeist e a desigualdade de renda. Por mais que às vezes mencione atores poderosos, na maior parte ele aponta para atitudes e crenças.

Consistente com a ênfase nas ideias que levam à destruição ecológica, o momento histórico chave para McKibben, no qual “os Estados Unidos podem ter decidido o futuro geológico e tecnológico do planeta”, foi a virada para o neoliberalismo na década de 1970. McKibben argumenta que os Estados Unidos entraram em uma Era mais predatória de desregulamentação, privatização, ganância individual, e desigualdade de renda, impedindo a habilidade do capitalismo de responder ao aquecimento global. Ele atribui a Ayn Rand as novas normas do capitalismo. Rand é a autora amplamente lida (entre os patrões) dos manifestos capitalistas A Revolta de Atlas e A Nascente. Para McKibben, a celebração que Rand faz do individualismo e do egoísmo deformaram o pensamento dos governantes norte-americanos e erodiram valores social-democratas, o que por sua vez conteve possibilidades de prevenir a emergência climática.

Essa narrativa demonstra como McKibben equivocadamente acredita que os problemas da destruição climática partem de más ideias e políticas, ao invés de questões sistêmicas. A virada da década de 1970 ao neoliberalismo originou-se, de fato, com a crise geral na lucratividade capitalista – não das idéias de Ayn Rand.

O boom pós Segunda Guerra Mundial terminou com a recessão de 1973. O período subsequente de estagnação econômica foi devido ao excesso de investimentos em produção e taxas reduzidas de lucro. Em todo lugar, capitalistas e seu governantes, de Houston à Suécia, começaram a operar reformas para reduzir o custo de produção cortando salários, regulações e impostos. A destruição de sindicatos, austeridade e o corte de programas governamentais – exceto os militares – ajudou a aumentar os lucros e a trazer rentabilidade de volta ao capitalismo norte-americano. O capitalismo continuou seguindo os mesmos imperativos de crescimento e lucro (falaremos mais sobre isso adiante), mas passou a exigir um novo conjunto de normas.

Se você, enquanto capitalista, adota a ideologia empresarial individualista de Ayn Rand, então isso vai te ajudar a ser mais bem-sucedido, a ignorar mais facilmente os danos causados aos trabalhadores, comunidades e ao meio ambiente. Mas a ideologia dela é uma consequência, não a causa da guinada neoliberal.

Falhar em compreender o caráter sistêmico do capitalismo e sua relação com a mudança climática também leva às duas tecnologias transformativas que McKibben defende: o potencial empreendedor da energia solar para remodelar o sistema energético capitalista e a política de protestos não-violentos, não como uma forma de tomada de poder dos governantes, mas de mudar suas mentes.

Falter nos leva a ter esperança com soluções verdes no interior do capitalismo. Enfatizando que isso é um “bom negócio”, McKibben traz para o primeiro plano o trabalho de um empreendedor graduado em Harvard que tenta promover investidores em projetos de energia solar de pequena escala (com margem de lucro marginais) na África rural: “Eu não sou um socialista… Eu não acho que seres humanos estão conectados dessa maneira. Mas eu também penso que o capitalismo extrativista está esgotado”. Painéis solares produzem energia diretamente do sol e a tecnologia tem se tornado cada vez mais barata, acessível e, no mercado, pode ultrapassar a energia elétrica produzida por combustíveis fósseis.

Tais propostas eco-capitalistas soam como utópicas, visto que elas dependem que agentes hostis e indispostos, os capitalistas, mudem seus comportamentos e o funcionamento total de seu sistema. Marx explicou (e Goldman Sachs concordaria) que o capitalismo é um sistema de expansão perpétua, não por causa das ideias dos capitalistas, mas porque os proprietários precisam investir capital, explorar trabalhadores por lucro, acumular mais capital do que o investido originalmente, e assim ciclicamente, eles vão ser ultrapassados e eliminados por outros capitalistas que estejam dispostos a gerar mais lucros. A competição nacional e internacional entre capitalistas impõe um imperativo de crescimento a todo custo. É um sistema cujo lema “cresça ou morra” determina a trajetória de todas as principais instituições econômicas.

A destruição ambiental é fabricada no núcleo do capitalismo. O capitalismo opera com base no trabalho assalariado. Quando proprietários expropriam a terra, a natureza é apenas uma mera fonte que é combinada com o trabalho produtivo para gerar lucros. Isso cria o que Marx chamou de “fratura metabólica”. Na primitiva separação capitalista entre cidade e campo, a produção capitalista era fundamentalmente descompassada com as exigências ecológicas da terra – nesse caso, Marx notou a destruição da fertilidade do solo quando cidades descartavam rejeitos humanos nos rios. John Bellamy Foster, em A Ecologia de Marx, elaborou sobre o insight de Marx, revelando a incompatibilidade fundamental do capitalismo com o resto da natureza.

Os combustíveis fósseis tiveram um papel fundamental ao longo dos últimos duzentos anos no desenvolvimento desse sistema. McKibben nota, e isso é importante, que “um barril de óleo, atualmente custando cerca de sessenta dólares, fornece energia equivalente a cerca de 23.000 horas de trabalho humano”. Mas ele não vai adiante. O fato, contudo, é crucial para entender que o capitalismo se desenvolveu atrelado aos combustíveis fósseis em razão de sua fonte de energia portátil e compacta, elevando enormemente o poder dos patrões sobre o trabalho, bem como da produtividade do trabalho e dos lucros. Não há substituto equivalente no capitalismo.

Para aqueles que querem se aprofundar nisso, leiam o livro de Fred Magdoff e Chris Williams, Criando uma Sociedade Ecológica. Magdoff e Williams partem de um lugar similar ao de McKibben, dos princípios e violações da ecologia do planeta. Mas eles mantêm uma aproximação científica na análise das causas materiais da destruição ambiental no capitalismo e disso extraem conclusões sobre políticas e estratégias para transformar a sociedade.

Existe alternativa?

Existe alternativa ao capitalismo? Que tal o socialismo? McKibben diz não a ambos. Ele concorda com o anticomunismo de Ayn Rand, descartando o socialismo (que ele confunde com stalinismo) como totalitário. Ele também aponta a destruição ambiental e estagnação social da Rússia durante a Guerra Fria.

Há uma questão importante aqui. Se você acredita que toda revolução da classe trabalhadora resulta em desastre, e que por isso é necessário priorizar a colaboração com os administradores existentes da sociedade (os capitalistas e os seus governantes representativos), então uma alternativa radical ao status quo é impossível.

Felizmente, desde a década de 1950, historiadores têm realizado muitas produções críticas, interessantes e investigativas sobre a breve Revolução Russa que buscam informar as atuais gerações sobre como conquistar uma alternativa ao capitalismo. Um excelente ponto de partida é o recentemente publicado Outubro: Uma História da Revolução Russa, por China Miéville.

A Suécia e a social democracia são, conforme McKibben argumenta, as bases potenciais de uma alternativa? Greta Thunberg afirma que apenas 2% da população sueca são negacionistas climáticos, ainda assim ela começou seus protestos na frente do parlamento sueco devido a sua inatividade.

Podemos todos concordar com McKibben que aspectos da sociedade sueca como sua educação, assistência médica e aposentadoria são melhores do que nos Estados Unidos. Mas vem ao caso que todas essas conquistas são conquistas da luta da classe trabalhadora depois das Primeira e Segunda Guerras Mundiais em uma região do mundo marcada por greves de massas, conselho de trabalhadores, partidos socialistas revolucionários e a primeira e inspiradora revolução da classe trabalhadora na Rússia. Conquistas da social democracia são debitarias disso, não existem graças às ideias dos governantes. E desde a década de 1970, na Suécia e em todo lugar, todos esses avanços estão sob ataque em um mundo de reestruturação e austeridade neoliberal.

Também é importante salientar que a Suécia está no topo da exportação de armas e que a Noruega é um petroestado, liderando a produção de gás e óleo nas reservas do Mar do Norte, e ainda está turbinando os investimentos na infraestrutura de extração. Em termos de crescimento, economias capitalistas mais reguladas também devem engajar-se em crescimento competitivo para evitar a se afundar em crises econômicas.

Tendo anulado a revolução, McKibben recomenda tecnologias de transformação como vilas de painéis solares em uma narrativa na qual boas tecnologias promovidas por capitalistas iluminados podem destituir as ruins com o passar do tempo. Dado o caráter sistêmico do problema, contudo, isso é um mero desejo. Assim como é ilusório o esgotamento do “capitalismo extrativista”. O investimento em extração continua em todo o mundo.

Existem trilhões de dólares em investimentos, não apenas em plataformas de óleo e oleodutos, mas também em plástico, plantas de energia, companhias aéreas, automobilísticas, náuticas, e outras indústrias que terão de ser abandonadas. Administradores capitalistas não tem incentivo algum para abandonar tais investimentos lucrativos, o que traria “sérios riscos” à rentabilidade caso o façam.

Justiça climática e anti-capitalismo

É uma pena que a narrativa de McKibben jogue um balde de água fria sobre o período recente de consciência de classe, greves de professores e suas vitórias, e o aprofundamento do sentimento anticapitalista.

Precisamos vencer as reformas de curto prazo que seguem o modelo New Deal – redirecionar os investimentos estatais para nova infraestrutura de transporte, plano de saúde universal e uso massivo de energia solar e eólica. Lutas de classes e greves, por causa do poder dos trabalhadores de paralisar e mesmo conduzir a produção, são as mais importantes capacidades de influência que a vasta maioria possui sobre os poucos que detém e concentram poder.

A greve global que ocorreu em setembro (para trabalhadores e estudantes) é um importante desenvolvimento, especialmente se entendido não apenas como mais um protesto global, mas como um passo no processo de cultivar a organização coletiva nos ambientes de trabalho para a luta climática. Isso demonstra uma alternativa ao mero lobbyng e à esperança que corporações tenham bom senso. Se o sistema é o problema, então as greves são onde temos o poder real de vencer o problema para aplicar as reformas.

E, finalmente, se a destruição ecológica é forjada no capitalismo, também precisamos de uma mudança radical sistêmica. O novo movimento socialista, o maior nos Estados Unidos desde a década de 1930 – uma das últimas vezes, por falar nisso, que os ganhos da social democracia foram conquistados nesse país – tem muito a contribuir para a integração entre as lutas climáticas e de classe.

Vale a pena ler esse livro, mas discuta e debata-o. A ameaça existencial que já ameaça milhões irá alcançar todos nós. Nós precisamos de políticas para as lutas de classe. Nós precisamos do socialismo, incluindo uma economia democrática que priorize necessidades humanas e as necessidades do resto da natureza.

Sobre o autor

Paul Fleckenstein é um ativista socialista e ambiental de Burlington, Vermont.

Não há futuro para as empresas privadas de patinetes

Não importa se você ama ou odeia os patinetes que entopem as calçadas de muitas cidades ao redor do mundo, uma coisa está clara: os termos do seu uso precisam ser decididos democraticamente, pelo público.

Paris Marx


Pessoas usando patinetes elétricos da Bird na praia de Venice, em Los Angeles, nos EUA. (Foto por Mario Tama/Getty)

Tradução / Durante décadas os carros dominaram as ruas, relegando os pedestres e ciclistas às beiradas e calçadas. Porém, nos últimos anos, as pessoas têm se cansado da irritação do trânsito e das dificuldades para comprar e manter um carro. As cidades estão aumentando o investimento em ruas, ciclovias e infraestrutura para pedestres – mas nenhuma tentativa de enfrentar esses desafios tem sido mais visível do que os patinetes elétricos.

Há quase dois anos, os patinetes elétricos sem local definido para devolução começaram a aparecer nas calçadas das principais cidades dos Estados Unidos e se espalharam pela Europa, Ásia, Austrália, América Latina e etc.. Na maioria das cidades estadunidenses, as empresas nem se deram ao trabalho de obter licenças ou verificar se seus serviços seriam legais; elas simplesmente espalharam seus patinetes, provocando o que alguns jornalistas apelidaram de “guerras dos patinetes“.

As cidades entraram em colapso para atualizar suas leis e implementar programas de licenciamento porque moradores passaram a reclamar de patinetes bloqueando as calçadas (uma questão essencial para a acessibilidade dos usuários de cadeiras de rodas e pessoas com todos os tipos de dificuldades de mobilidade, além de pedestres tentando usar as calçadas); de usuários de patinetes que os atropelavam enquanto estavam caminhando e dos próprios patinetes não serem confiáveis e causarem acidentes. Os patinetes têm acelerado um debate sobre o futuro das ruas, mas a sua imposição sobre o espaço público tem sido preocupante. À medida que mais detalhes são divulgados sobre o modelo econômico das empresas de patinetes, fica claro que elas eventualmente terão de se tornar um serviço público se quiserem sobreviver – uma mudança que garantirá às cidades mais controle sobre elas.

Viés elitista
Não são só os patinetes; as empresas de tecnologia têm se tornado muito interessadas em todas as formas de transporte. Nas cidades por todos os cantos, a Uber e seus pares de “corrida” pioraram os congestionamentos, aumentaram as viagens de veículos e declararam guerra ao trânsito. A solução eventual da Uber será começar a oferecer carros voadores para as pessoas escaparem do problema (que ela ajudou a levar até o ponto de ruptura, em primeiro lugar), enquanto Elon Musk quer enviar carros por um sistema de túneis subterrâneos, porque qualquer futuro que não envolva todo mundo em veículos pessoais está simplesmente fora do reino da possibilidade para o “maior gênio do mundo”.

Essas visões de futuro estão limitadas pela posição elitista das pessoas que as imaginam. O consultor de transportes Jarret Walker chama a incapacidade das companhias de tecnologia de aceitar que as restrições espaciais das cidades não podem ser resolvidas apenas por tecnologia um exemplo de “projeção elitista“: a incapacidade de reconhecer que o que funciona melhor para eles pode não funcionar se for usado por todo mundo. Elon Musk respondeu o chamando de idiota. Esta, porém, não é a primeira vez que as pessoas que levam em frente a narrativa sobre os transportes não são capazes de reconhecer seus próprios preconceitos.

Num ensaio visionário de 1973, o filósofo social André Gorz descreveu o automóvel como um item de luxo cuja promessa de velocidade não poderia funcionar quando todos tivessem o seu: “Tendo prometido a todos que poderiam ir mais rápido, a indústria automobilística acaba tendo o resultado implacavelmente previsível de fazer com que todo mundo tenha de seguir tão lentamente quanto o mais lento no caminho, a uma velocidade determinada pelas leis simples da dinâmica dos fluidos.” Apesar de décadas construindo novas estradas e alargando as rodovias, o problema do congestionamento não pôde ser resolvido, porque cada tentativa de solução simplesmente atrai mais e mais carros.

O uso do automóvel em massa, escreveu Gorz, é “um triunfo absoluto da ideologia burguesa”, porque “sustenta em todos a ilusão de que cada indivíduo poderia buscar seu próprio benefício, às custas de todos os outros”. Depois de destruir as alternativas e de matar a cidade para abrir espaço para os carros, as pessoas ficaram sem alternativas. Entretanto, depois de várias décadas desse status quo, a maré está se voltando contra a o uso do automóvel.

As decisões sobre o aspecto desse futuro não podem, no entanto, simplesmente ser deixadas para outro grupo de bilionários distantes, motivados pelo acúmulo de capital e não pelo que seria melhor para promover comunidades justas e habitáveis.

O modelo de “compartilhamento” de patinetes privados não funciona
O afluxo de patinetes não foi um desastre completo. Eles forçaram um debate importante sobre o espaço público e sobre quem deve ter direito à rua – e facilitaram que milhares de pessoas experimentassem bicicletas e patinetes elétricos como alternativa aos seus padrões atuais de deslocamento. O resultado, porém, não pode ser simplesmente deixarmos que as empresas de patinetes definam os parâmetros, o que inevitavelmente privilegiará a expropriação de infra-estrutura pública para que elas obtenham lucros privados, como as empresas de “caronas” seguem fazendo.

Mesmo que essas empresas queiram que as pessoas pensem que não é assim, a viabilidade de longo prazo dos serviços privados de patinetes e bicicletas eletrônicas sem local de retorno levanta suspeitas. Assim como a Uber continua perdendo grandes somas de dinheiro mesmo dez anos após sua fundação, sem perspectivas de lucratividade no futuro previsível, as empresas de patinetes também têm lutado para fazer suas finanças fecharem – mas isso já em um estágio muito anterior de suas existências.

Empresas de patinetes como a Bird e a Lime conseguiram levantar centenas de milhões de dólares em capital de risco, mas estão queimando esse dinheiro, e os investidores não têm sido tão generosos com suas carteiras quanto têm sido com a Uber. O CEO da Bird, Travis VanderZanden, disse que embora o foco para 2018 tenha sido crescer em escala, 2019 seria sobre melhorar sua economia por unidade, mas não está claro quão bem sucedidos eles têm sido nisso. Os patinetes são notórios pela curta expectativa de vida das suas frotas.

VanderZanden disse anteriormente que os patinetes precisariam durar seis meses na frota da Bird para que as contas da empresa atinjam um ponto de equilíbrio, e mesmo que ele afirme que os modelos mais novos e robustos durarão de dez a doze meses, os dados independentes não dão sustentação às afirmações dele. Patinetes da Bird em Louisville, nos EUA, duraram uma média de apenas 28,8 dias entre agosto e dezembro de 2018, e 126 dias entre janeiro e abril de 2019, em Los Angeles – muito abaixo do que seria necessário.

Pior ainda, os dados de Los Angeles mostram que o mais novo modelo de patinetes nas ruas naquele momento, o Bird Zero, tinha uma vida útil menor do que a média de apenas 116 dias. A Lime vem tendo problemas semelhantes, com o seu mais novo modelo, o Gen 3, sofrendo problemas de manutenção significativos, que podem tornar ilusória a esperada redução de custos. Mesmo com as promessas de patinetes mais duráveis, a Bird subiu os preços em várias cidades em abril, criando novas dúvidas sobre se a sua estratégia de produto vem funcionando como esperado.

As coisas não andam muito melhores para as bicicletas sem ponto de devolução. A Jump, uma subsidiária da Uber, também tem aumentado seus preços recentemente, chegando a dobrá-los de $0,15 para $0,30 por minuto em Los Angeles. Esses preços não se comparam aos $1,75 por 30 minutos ou $ 17 por mês para todos os passeios com menos de 30 minutos do sistema público de compartilhamento de bicicletas L.A. Metro, que tem acrescentado mais bicicletas e que permite, em algumas partes da cidade, que elas sejam cadeadas em racks de bicicletas ao invés de entregues em docas de devolução.

Para qualquer um que os use regularmente, esses serviços privados já são mais caros do que os sistemas públicos existentes, e esses aumentos de preço só os tornarão mais como um produto de nicho – num momento em que as empresas ainda não conseguem cobrir seus custos. Dados públicos de Austin, nos EUA, mostram que asviagens diárias por patinete estão diminuindo e que 80% do uso está concentrado em uma região com apenas 10% da população.

Assim como com os serviços de “carona”, seus preços inevitavelmente terão de subir ainda mais para alcançar a lucratividade, os colocando fora do alcance da maioria dos moradores. O modelo privado simplesmente não funciona.

Mobilidade pública para cidades justas
Se for para o aluguel de patinetes ter algum futuro, inevitavelmente eles terão de ser integrados nos sistemas públicos de compartilhamento de bicicletas por meio de um modelo híbrido baseado primariamente em docas de devolução, mas que permita o uso sem ponto de devolução em áreas sem boa cobertura de docas. Isso terá de ser acompanhado por um plano para a expansão da infra-estrutura para que bicicletas e patinetes possam ser usados sem incomodar os pedestres, o que significará tomar espaço das ruas e de estacionamento que hoje são alocados para os carros. (Também seria bom se essas transformações fossem acompanhadas por uma campanha de educação pública para convencer os usuários de patinetes a não usá-los feito idiotas.)

Apenas pintar no chão alguns quadrados onde as empresas privadas possam deixar seus veículos sem ponto de devolução não é uma medida suficiente – e aborda a presença dessas empresas como se fosse um fato consumado. Essas empresas vão se valer do mantra neoliberal para dizer que esse serviço, assim como tantos outros serviços públicos urbanos, deveria ser deixado para o mercado privado. Porém, elas já provaram que não colocam as prioridades do público acima de seus próprios objetivos de dominação de mercado e de captura do espaço público. Ela já provaram que não parceiras, mas invasoras do espaço público.

Pode ser, no entanto, que fique comprovado que os patinetes não funcionam bem como frota, seja ela pública ou privada – e as cidades não devem hesitar em restringir ainda mais esses serviços em favor da propriedade individual, se for esse o caso. Os preços crescentes dos serviços de patinetes sem ponto de atracação já estão incentivando os usuários regulares a comprar os seus próprios patinetes, já que seus preços começam em poucas centenas de dólares e são mais portáteis que uma bicicleta. Poderiam ser criados incentivos para a compra de patinetes e bicicletas elétricos; os últimos já se provaram populares na Suécia e em breve serão oferecidos no estado canadense da Colúmbia Britânica para pessoas que abandonem seus carros.

A propriedade individual não deve ser vista como um fracasso. As plataformas tecnológicas têm adotado um modelo de negócios rentista “em que um proprietário de um ativo cobra dos outros o acesso a esse ativo, assim como um proprietário cobra dos inquilinos para lhes alugar uma casa que o proprietário possui”, e o “compartilhamento” de patinetes não é exceção. Incentivar a propriedade de bicicletas e patinetes para usuários regulares seria o preferível, pois eles duram muito mais tempo e estarão sempre disponíveis para o proprietário – não importa se isso não se alinha com as preferências dos capitalistas do Vale do Silício.

Uma transição para longe da dominação do automóvel é necessária não apenas para atingirmos nossos objetivos ambientais, mas para criarmos cidades mais eqüitativas, realocando o espaço das ruas que atualmente vem sendo capturado por carros para transporte ativo e espaços públicos urbanos, como Oslo realizou, ao remover a maior parte das vagas de estacionamento nas ruas e restringir uso de veículos no seu núcleo central.

As empresas de patinetes ajudaram a acelerar essa discussão, mas seu modelo privado tem as prioridades erradas, o que torna essencial um sistema público expandido e controlado democraticamente. No entanto, a mobilidade pública deve estar inserida em um programa socialista mais amplo para as cidades, a fim de garantir que a melhoria das condições de vida não resulte simplesmente numa gentrificação que empurre para subúrbios dependentes de automóveis aqueles que teriam mais a ganhar com essas melhorias. A mobilidade é apenas um dos aspectos para a criação de cidades para todos – e não apenas para aqueles que podem arcar com os preços em disparada dos aluguéis urbanos.

Sobre o autor

Paris Marx é um escritor socialista e urbanista. Ele é o editor do Radical Urbanist e já escreveu para a NBC News, CBC News e Toronto Star.

26 de julho de 2019

"Há razões para o otimismo"

Noam Chomsky

Entrevistado por John Nichols

Catalyst

Foto: Kevin Lamarque/Reuters

Tradução / 7 de dezembro é, como Franklin Delano Roosevelt explicou em 1941, “uma data que se viveria na infâmia”. É também o aniversário de Noam Chomsky. Quando o ataque japonês a Pearl Harbor ocorreu, Chomsky tinha treze anos de idade. Como resultado de uma série de discussões que tivemos antes e depois de seu nonagésimo aniversário, em 7 de dezembro de 2018, esse detalhe da sua infância é particularmente significativo para o homem que, em muitos sentidos, definiu a compreensão moderna do que é ser um intelectual público comentando sobre questões globais na época da sua adolescência. A entrevista a seguir foi conduzida por John Nichols em coordenação com a Catalyst. Chomsky aborda a ascensão da extrema-direita hoje, relacionando-a ao fascismo entre guerras, e então passa para uma discussão mais ampla sobre a conjuntura.

John Nichols: Quando tinha dez anos de idade, escreveu um pequeno artigo sobre as suas preocupações sobre a ascensão do fascismo. Estava a escrever após a queda de Barcelona no regime fascista de Francisco Franco, nos últimos dias da Guerra Civil Espanhola. Os americanos que lutaram naquela guerra, como membros da Brigada Abraham Lincoln, foram desacreditados como “antifascistas prematuros”, ao ousarem erguer armas contra os aliados de Hitler e Mussolini antes da entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial, em 8 de dezembro de 1941. Aos dez anos de idade aliou-se aos antifascistas. Lembra-se do artigo?

Noam Chomsky: O artigo foi para o jornal do quarto ano da escola. Eu era o editor e o único leitor e, pelo que me lembro, talvez a minha mãe. Por sorte, ela não salvou nada do jornal. Tenho certeza que seria bastante embaraçoso para mim. Tudo de que me lembro é a primeira frase, que descreve o meu pensamento na época: “a Áustria caiu, a Checoslováquia caiu, Toledo caiu e agora Barcelona também”.

Eu estava a escrever depois da queda de Barcelona, ​​em fevereiro de 1939, e pareceu, na época, que a disseminação do fascismo era inexorável. Nada iria parar isso. O artigo descrevia o que estava a acontecer no mundo, algo assustador. Eu tinha idade suficiente para ouvir os discursos de Hitler nos comícios de Nuremberg – sem entender as palavras, mas era fácil perceber o tom daquilo. Podia ver o que estava a acontecer enquanto essa praga se espalhava por toda a Europa e parecia não ter fim.

Quando o regime em Barcelona desmoronou, isso não foi apenas o fim do estado democrático liberal espanhol, mas, para mim, o mais importante, foi o fim da revolução social. [A Guerra Civil Espanhola] Não foi apenas uma simples guerra entre o fascismo e a democracia liberal; houve uma incrível revolução social em grande parte da Espanha e foi esmagada pelos esforços conjuntos dos comunistas, dos fascistas e das democracias liberais. Eles não concordaram muito entre eles, mas concordaram que a revolução social tinha que ser esmagada. Barcelona foi apenas o último símbolo naquele momento. As pessoas simplesmente fugiram para a França quando podiam escapar.

John Nichols: Ficou claro para si que uma guerra maior estava a chegar?

Noam Chomsky: Bem, como eu disse, parecia impossível de ser parado. Ia-se espalhar por toda a Europa, pelo mundo. Aprendi muito mais tarde que aqueles que planeavam as políticas dos Estados Unidos já estavam a reunir-se: o Departamento de Estado e o Conselho de Relações Exteriores – além de grupos a trabalhar sobre como seria a guerra e o período pós-guerra.

Nesta altura, em 1939, eles já estavam a antecipar que a guerra terminaria com uma divisão entre dois mundos: um dominado pelos EUA e outro dominado pelos alemães. Esse foi o cenário. Então, a minha perceção infantil não era totalmente irrealista.

John Nichols: A sua perceção foi influenciada pela sua própria experiência, ao crescer em Filadélfia?

Noam Chomsky: Foi influenciada por experiências locais. Passámos a ser a única família judia num bairro predominantemente alemão e irlandês. Os irlandeses odiavam os ingleses, alemães gostavam dos alemães e assim por diante… lembro-me bem de festas com cerveja quando em Paris o regime caiu. As crianças do bairro foram para uma escola jesuíta local. Odeio pensar o que era ensinado lá, mas elas saíram delirantemente antissemitas da escola. Levava algumas horas para essas crianças se acalmarem para que pudéssemos jogar à bola na rua.

Por isso, combinou experiências pessoais, que, aliás, nunca mencionei aos meus pais. Eles não tinham ideia sobre isso até o dia das suas mortes. Naquela época não falávamos com os nossos pais sobre essas coisas. Isso é pessoal. Mas foi uma combinação dessas coisas que levaram a esse [artigo].

John Nichols: Com a experiência de comentar sobre o fascismo por oitenta anos, qual é o entendimento de onde estamos hoje? Há uma grande discussão sobre fascismo e ameaças fascistas. Pilhas de livros estão a ser escritas sobre o assunto. Como devemos pensar sobre o que está a acontecer agora?

Noam Chomsky: Bem, estou um pouco relutante em usar a palavra “fascismo”. É usado de forma bastante frouxa agora. É usado para se referir a qualquer coisa horrível. Mas o fascismo realmente significava algo nos anos trinta. De facto, vale a pena lembrar que mesmo a opinião liberal tinha uma espécie de apreciação moderada do fascismo. Assim, por exemplo, Roosevelt descreveu Mussolini, o fascista original, como “aquele admirável cavalheiro italiano”.

Os fascistas tinham conseguido esmagar o movimento trabalhista e a esquerda social-democrata e comunista, e isso era algo em que a opinião do Ocidente era bastante favorável. Os industriais ocidentais e o Departamento de Estado em 1937 descreviam Hitler como moderado e George Kennan, nosso cônsul em Berlim na época, e mais tarde um dos estadistas mais respeitados do pós-período, estava a escrever de Berlim dizendo que não deveríamos ser muito duros com essas pessoas. Há coisas erradas com elas, mas elas estão a fazer algumas coisas que são muito boas, então provavelmente podemos dar-nos bem com elas.

O fascismo foi entendido como algo diferente naquela época. Não era algo horrível. Tinha uma política social e económica específica. Era para ser um estado poderoso que coordenaria todos os setores da sociedade. Seria um estado de dominação; os negócios floresceriam, mas sob o controlo de um estado poderoso. O trabalho seria entendido como um subsidiário desse sistema geral. Não é o que chamamos de fascismo hoje.

John Nichols: Qual é o seu entendimento do que as pessoas chamam de fascismo hoje?

Noam Chomsky: O que é chamado de fascismo hoje é algo podre.

John Nichols: Essa é uma definição ampla.

Noam Chomsky: Definição ampla.

John Nichols: Existe algum lugar, quando olha ao redor do mundo atualmente [e eu sei que você faz isso] onde vê ameaças emergindo em termos concretos?

Noam Chomsky: Bem, acho que o Brasil talvez seja o caso mais extremo agora. O Brasil está nas mãos do novo presidente [Jair Messias Bolsonaro]. Bolsonaro assumiu a presidência. O Brasil, como você sabe, teve uma horrenda ditadura militar: tortura, assassinato. Bolsonaro elogia a ditadura militar. Na medida em que ele critica, diz que a ditadura militar no Brasil não matou pessoas suficientes. Para ele, a ditadura no Brasil deveria ter sido como a da Argentina, a qual teve o pior desse tipo de estado de segurança nacional neonazista. Eles mataram 30.000 pessoas.

Tem havido um golpe, um golpe de direita a acontecer no Brasil há vários anos. O primeiro momento disso foi o impeachment totalmente fraudulento da presidente Dilma Rousseff [antiga líder do Partido dos Trabalhadores]. Quando Bolsonaro votou pelo impeachment, ele dedicou o seu voto ao principal torturador do regime militar, que tinha sido pessoalmente responsável pela tortura de Dilma Rousseff. Esse é o tipo de pessoa que estão lá.

As políticas de Bolsonaro são essencialmente para acabar com a população indígena, para vender totalmente o país. O seu ministro da Economia, Paulo Guedes, é um ultra neoliberal da Escola de Chicago, que trabalhou no Chile sob o regime de Pinochet, e tem como objetivo, como ele disse: privatizar tudo, vender todo o país para investidores estrangeiros. Ele quer abrir a Amazónia para a exploração de mineração e para o agronegócio: uma espécie de sentença de morte para o mundo, já que a Amazónia é um dos principais pulmões do mundo.

John Nichols: Fale-nos sobre como Bolsonaro chegou ao poder.

Noam Chomsky: A forma como ele foi eleito é bastante significativa. Devemos prestar atenção a isso. Veremos mais disso na nossa próxima eleição nos EUA. É um tipo de experiência. A primeira coisa que fizeram foi ir atrás da pessoa que iria ganhar a eleição. Julgando pelas sondagens, Lula da Silva – ex-presidente que presidiu um período que o Banco Mundial chamou de Década de Ouro do Brasil, com redução substancial da pobreza, abertura de oportunidades educacionais para minorias, para outras pessoas – fez políticas bastante eficazes. Muitos erros também, mas ele foi, de facto, provavelmente a figura política mais respeitada do mundo. Ele também estava a apoiar o papel do Sul Global e o seu esforço para escapar do legado do colonialismo, que ainda era muito severo.

Então, o que eles fizeram com Lula da Silva, que estava à frente nas sondagens, [foi colocá-lo] na prisão por vinte e cinco anos, em confinamento solitário. Ele não podia ler nada e nem fazer declarações. Eu e a minha esposa, Valeria, visitámo-lo na prisão. Vinte e cinco anos de solitária, isso é essencialmente uma sentença de morte. Mas, crucialmente, ele não tinha permissão para fazer uma declaração – ao contrário dos assassinos no corredor da morte nos EUA, que têm permissão para falar. O seu neto favorito morreu e, depois de muitas negociações, eles permitiram que ele comparecesse ao funeral por uma hora, mas não podia dizer nada… Se ele sobreviver, vai ser incrível. Ele é definitivamente o prisioneiro político mais importante do mundo.

John Nichols: Referiu que existiu pouca atenção às circunstâncias de Lula na maioria dos meios de comunicação dos EUA. Ou, realmente, de Bolsonaro. Isso faz parte de um problema mais amplo com os media dos EUA que não cobrem o mundo? Mas está especialmente preocupado com a negligência do que está a acontecer no Brasil.

Noam Chomsky: Bolsonaro é o mais próximo de algo como o fascismo – não no sentido técnico, mas no sentido de amargo, vicioso, profundamente autoritário e brutal.

John Nichols: Como ele chegou ao poder não é apenas perturbador em si mesmo. É uma indicação de como a política está a mudar em todo o mundo.

Noam Chomsky: A forma como a eleição foi ganha – e é isso que eu tinha em mente ao dizer que poderíamos pensar – foi por uma incrível campanha nos media sociais, que é a única coisa que a maioria dos brasileiros tem como fonte da chamada “informação”. O WhatsApp Foi inundado com as mais inacreditáveis ​​mentiras, distorções, invenções sobre as coisas supostamente hediondas que o PT, a oposição, faria... Suspeito que na nossa próxima eleição, na qual Bernie Sanders está a concorrer [contra Trump na eleição de novembro] será o que vai acontecer. Estes são os tipos de acusações que não dá para responder. É apenas nojento, feio, vilificação. Já está a começar, por exemplo, com as acusações da direita sobre o “socialismo”.

Notei que, no discurso do Presidente Trump sobre o Estado da União, havia um longo solilóquio sobre o socialismo e, claramente, que se tornou uma grande pedra de toque para muitas das críticas de pessoas dentro do Partido Democrata. Há um punhado de socialistas democráticos que se levantaram no Partido Democrata: Bernie Sanders, Alexandria Ocasio-Cortez, Rashida Tlaib e outros. E assim há uma realidade que temos pela primeira vez em muito tempo: um aumento de uma presença democrático-socialista aliado ao nosso discurso.

John Nichols: Pode falar-nos sobre como o presidente e alguns dos seus aliados políticos podem-se aproveitar deste termo?

Noam Chomsky: Bem, devemos ter em mente que os EUA é um país muito isolado, cultural e intelectualmente. Quer dizer, no resto do mundo, socialista é um termo normal. Comunista é um termo normal. As pessoas podem ser comunistas, o Partido Comunista pode participar em eleições. Ser socialista é apenas ser uma espécie de pessoa moderna. Aqui nos Estados Unidos, o socialismo é uma palavra de maldição – então, chamar alguém de socialista significa que ela é um monstro total, como um nazi, talvez como Estaline. Mas isso é exclusivo dos Estados Unidos.

Veja Bernie Sanders. As suas posições não teriam surpreendido [o ex-presidente Dwight] Eisenhower. Lê as declarações de Eisenhower, quando sugeriu que qualquer um que questione o New Deal não pertence ao nosso sistema político. Ou que qualquer um que pense que os trabalhadores devem ter a oportunidade de formar livremente sindicatos – e devem voltar a ser massas amontoadas e patéticas do passado – simplesmente não fazem parte do mundo civilizado.

John Nichols: De facto, Eisenhower pronunciou o discurso de “Cruz de Ferro”, em 1953, no qual ele disse que todo o avião de guerra que construímos poderia ser dinheiro a ser usado para a construção de escolas. Isso soa muito parecido com um Bernie Sanders.

Noam Chomsky: O país moveu-se muito para a direita durante o período neoliberal, desde os anos Reagan – os anos Carter-Reagan. Então, quando essas pessoas que se autodenominam “socialistas democráticos” aparecem, elas voltam essencialmente a uma tradição que é bem parecida com o New Deal. É muito saudável, penso eu, mas não tem nada a ver com socialismo ou com o sentido tradicional da palavra. Lembre-se do que o socialismo significava uma vez. O socialismo significava, no mínimo, o controlo sobre a produção pela força de trabalho, o controlo sobre outras instituições pelos participantes, o controlo democrático sobre todo o sistema social e económico.

[A maioria dos proeminentes socialistas democráticos na política americana contemporânea] não está a reivindicar isso. Eles estão a chamar o que na Europa seriam medidas social-democratas moderadas – o que para os Estados Unidos é muito importante. Então, acho que é uma coisa muito boa. Mas será banalizado com tiradas de infâmia, demonização e denúncia. Pode ter certeza disso. E o que aconteceu no Brasil, penso eu, vale a pena ser visto como uma espécie de modelo experimental do que pode vir.

John Nichols: Se, por acaso, Bernie Sanders for indicado para presidente dos Estados Unidos, qual é o sentido de como essa campanha pode ser jogada? Correndo o risco de fazer de Noam Chomsky um comentarista... o que acha que aconteceria?

Noam Chomsky: Eu acho que ele vai ser submetido – e isso é verdade se ele concorre ou se qualquer outra pessoa como ele concorre – a uma campanha muito cruel, vulgar sobre media social, através de notícias, rádio etc. Lembre-se de que todos esses instrumentos foram tomados pela extrema direita. Eu ouço rádio de vez em quando. Isso é realmente chocante. Quero dizer, isso faz a Fox News parecer liberal, sabe? E isso atinge muitas pessoas. Rush Limbaugh tem audiência de 20 ou 30 milhões de pessoas, dizendo-lhes por exemplo que existem – qual é a sua famosa frase? Instituições que existem com base no engano: governo, media, academia e ciência. Ele está a dizer às pessoas: não acreditem numa palavra que provenha destas instituições. Coisas como esta estão a atingir uma grande parte da população americana.

John Nichols: Sempre nos lembrou que as elites colocaram grande energia em restringir e estreitar o discurso político.

Noam Chomsky: O ativismo social é considerado pela classe política e empresarial como um cancro. Se ficar maligno, eles pensam: tem que pará-lo à força. Mas é muito mais rentável, no caso de um cancro, preveni-lo. E [existem] todos esses meios para impedir o surgimento de movimentos sociais organizados que desafiarão os eventos que estão a ocorrer.

Desviar a atenção das pessoas para outras direções é outra maneira de o faze. Então, existem mensagens [de Trump e dos seus aliados] sobre as hordas de estupradores, assassinos, terroristas prestes a invadir a fronteira, nos atacar e nos destruir. Ok, então eles querem que prestemos atenção nisso e não ao facto de os nossos salários reais não terem aumentado em trinta anos, que estamos a perder benefícios, que o sistema político está a entrar em colapso ou ainda, que todo o ato feito pelo governo é um ataque à força de trabalho e aos pobres. A mensagem é: “Não olhem para isso. Olhem para essas pessoas que estão a atravessar a fronteira. Preocupem-se com os seus filhos ou qualquer outra coisa”.

Existem meios muito concretos para distrair as pessoas. Eles foram desenvolvidos por muitos anos e são, em grande parte, produzidos pela indústria de publicidade – uma das mais poderosas do país – e estão a ser aplicados agora para evitar que pessoas como você, especialmente os jovens, tenham a “ideia errada” de se organizar, de serem ativos e fazer o tipo de coisas que Ocasio-Cortez está a fazer. Eles tentam, de alguma forma, impedir que você inicie qualquer tipo de coisa.

John Nichols: Eles não parecem estar a ter grande, porque Ocasio-Cortez tem mais de 3,3 milhões de seguidores no Twitter. Ela e as outras parlamentares que foram eleitas para o Congresso estão a tornar-se estrelas políticas. Existe um fenómeno lá. A sondagem mostra que pessoas com menos de trinta anos têm opiniões positivas sobre o socialismo democrático – pelo menos em oposição ao capitalismo, como é praticado atualmente. Bernie Sanders concorreu a presidência muito bem em 2016 e parece estar muito bem agora, à medida que se aproximam as eleições de 2020. Então, não há alguma evidência de que os progressistas estão a surgir? Que uma mudança está a ocorrer?

Noam Chomsky: Bem, eu colocaria de outro jeito. É por causa dos efeitos da era neoliberal que está a perceber essa reação. Há uma reação em todo o mundo e é em duas direções. Às vezes é apenas alguma coisa que está a descrever. Às vezes é neofascista mesmo.

Há uma questão real agora sobre o caminho a seguir. Na Europa, nos Estados Unidos, e em alguns outros lugares há um tremendo aumento de raiva, amargura, ressentimento. E a questão é: o que ocorrerá?

Do ponto de vista das elites políticas e financeiras do mundo, a estratégia da atenção centra-se realmente em: “violadores a atravessar a fronteira”. Do ponto de vista de Ocasio-Cortez, ou Bernie Sanders, o desejo é que seja pautada a questão social e políticas económicas que foram instituídas e que estão a marginalizar as pessoas, colocando-as de lado, minando o sistema político.

Então isso é uma luta nos Estados Unidos e em toda a Europa também. Mas a raiva e a amargura estão presentes e os diferentes [atores políticos] querem que ela seja focalizada de maneiras opostas. Alguns querem que você desvie a atenção das causas, para que eles possam controlá-lo melhor. Outros querem que preste atenção às causas, assim pode fazer algo. Esta é uma grande luta que está a formar-se em grande parte do mundo. Quero dizer: o sistema capitalista assumiu uma espécie de forma selvagem nos últimos trinta ou quarenta anos. As pessoas estão a sofrer e estão irritadas, e estão a reagir.

A questão é: como as pessoas vão responder? A esse respeito, é um pouco como nos anos 1930. Poderia ter ido em outras direções. Assim, por exemplo, nas décadas de 1920 e 1930, haviam movimentos ativistas e movimentos social-democratas muito animados, comunistas e outros movimentos de esquerda. Haviam também movimentos fascistas em ascensão. E havia uma pergunta: quem vai ganhar? Infelizmente, sabemos como isso terminou. Eu não acho que é tão dramático hoje, mas é similar estruturalmente.

John Nichols: O grande parlamentar britânico, Tony Benn, disse que nos anos 1930, quando ele era jovem e olhava ao redor do mundo, havia países que poderiam ter ido em qualquer direção. Benn disse que uma das grandes coisas que aconteceu foi que os Estados Unidos conseguiram um Roosevelt, enquanto que, noutros países, figuras muito mais perigosas e destrutivas chegaram ao poder. Agora, encontramo-nos numa era diferente, mas certamente um momento muito turbulento. Estamos há trinta anos na globalização, que está a mudar tudo sobre como nos relacionamos com o mundo, estamos há vinte anos numa revolução digital que está a mudar tudo sobre como nos comunicamos, estamos oito a dez anos numa revolução de automação que está a começar a mudar a forma como trabalhamos. As pessoas são claramente abaladas por tudo isso. O meu sentimento é que o Partido Democrata nos Estados Unidos não forneceu muitas respostas sobre como lidar com essas mudanças. É uma avaliação justa?

Noam Chomsky: Bem, temos de nos lembrar que as duas partes reconstruíram ao longo de linhas bastante diferentes no início dos anos 70. Naquela época, houve uma grande mudança em todo o sistema socioeconómico. Passámos de um período de liberalismo encorporado, capitalismo arregimentado, onde as medidas do New Deal ainda estavam essencialmente a governar a política. Agora este foi um período de enorme crescimento. O período de maior crescimento na história Americana, os anos 50 e 60. Às vezes, é chamado de “Idade de Ouro do Capitalismo”. Era o crescimento igualitário em termos proporcionais. Houve conquistas em direitos civis e outros aspetos dos direitos humanos.

Isso acabou no início dos anos 70. Há uma regressão, o chamado período neoliberal seguiu direções muito diferentes e as partes mudaram. O Partido Democrata mantinha uma espécie de coligação desconfortável entre racistas democratas sulistas e trabalhadores e liberais do norte. Isso desmoronou no momento do movimento dos direitos civis.

A próxima estratégia [alavancada pelo presidente Richard Nixon e os seus assessores políticos] foi tentar pegar nos elementos racistas do sul e trazê-los para o Partido Republicano. Enquanto isso, os democratas mudaram. Eles baseavam-se, pelo menos em parte, na classe trabalhadora e mantinham algum compromisso com os interesses e valores dos trabalhadores. Na década de 1970 isso mudou. Os democratas simplesmente abandonaram a classe trabalhadora, entregando-a essencialmente ao seu inimigo de classe. Isso foi o que aconteceu de facto. O último suspiro do Partido Democrata, de seu tipo de liberalismo moderado, foi o projeto de Emprego Completo da Humphrey-Hawkins, que o Congresso aprovou em 1978, mas que Carter enfraqueceu. Depois disso, não há sequer um gesto para a classe trabalhadora. Portanto, a classe trabalhadora foi essencialmente abandonada.

John Nichols: Abandonada pelos democratas, enquanto que os republicanos tentaram atrair pelo menos alguns dos seus votos.

Noam Chomsky: Os republicanos conseguiram capturar a classe trabalhadora principalmente pela técnica do desvio da atenção. E ainda está a conseguir. Mas nem sempre funcionou assim. É interessante quando Obama apareceu. Ele conseguiu os votos da classe trabalhadora. Muitos trabalhadores que votaram em Trump também votaram em Obama. Eles acreditavam na conversa sobre esperança e mudança. Mas rapidamente descobriram que não se veria uma real mudança e nem esperança.

Lembre-se do resgate dos bancos após o crash de 2008. A legislação do Congresso para esse resgate tinha duas questões: ou socorrer os criminosos que o criaram, as instituições financeiras, ou ajudar as vítimas, pessoas que perderam as suas casas – ou seja, os seus lares foram destruídos porque a economia despencou e assim por diante. Bem, poderia ter adivinhado qual parte ia ser socorrida. Na verdade, o inspetor-geral do Departamento do Tesouro, Neil Barofsky, ficou tão indignado com isso que escreveu um livro interessante sobre o assunto [Bailout: An Inside Account of How Washington Abandoned Main Street While Rescuing Wall Street].

Mas os trabalhadores puderam ver o que estava a acontecer. A reação foi: “Estamos a ser jogados aos lobos. Eles não se importam connosco. É apenas conversa”. Então a próxima coisa que fizeram foi votar no seu inimigo de classe, Trump, que está a fazer tudo o que pode para controlar os trabalhadores, tentando perceber se consegue manter algum tipo de base. Para tal, utilizando o discurso dos “violadores” ou dos “assassinos” ou alguma coisa do tipo.

Mas esta é uma situação muito desconfortável. E pessoas como Bernie Sanders, Ocasio-Cortez e outros estão a tentar trazer o Partido Democrata de volta, de facto, para o que uma vez foi – mas sem a pedra de mira dos democratas do Sul, que era um problema muito sério para Roosevelt e o New Deal e até o Movimento dos Direitos Civis.

John Nichols: Vê isso como um momento de crise política?

Noam Chomsky: Na verdade, vamos enfrentar uma crise constitucional. Se olhar para o que está a acontecer agora, apenas olhe para os números, até agora, os estados com cerca de 25% da população dirigem o Senado – a mais importante das instituições…. O Senado é dominado por membros que representam principalmente um setor rural, tradicional, mais antigo, notadamente supremacista branco, muito religioso que está a diminuir demograficamente. Mas eles vão tentar manter o seu poder. Agora é quase certo que isso levará a uma crise constitucional. E observe que não pode ser alterado nada por nenhum meio constitucional. Não pode ser modificado porque eles têm poder suficiente para bloquear qualquer tipo de possível alteração.

John Nichols: Eles têm o poder de bloquear emendas democratizantes. Mas preocupa-se com as alterações favorecidas pelas elites.

Noam Chomsky: Deve observar com muito cuidado as emendas. O mais cruel dos lobbies empresariais, e na minha opinião o mais forte deles, ALEC, o Conselho Legislativo de Intercâmbio Americano, está [a trabalhar] para conseguir que legislaturas estaduais concordem com uma emenda constitucional que estabelecerá um limite orçamental equilibrado no governo federal. O que significa um limite de orçamento equilibrado? Significa que acaba com todos os programas do estado social. Acaba com qualquer coisa que beneficie pessoas comuns. É claro, mantém o orçamento do Pentágono na estratosfera – e sem dúvida mantém grandes subsídios para o agronegócio, energia e instituições financeiras. Mas, esqueça a segurança social, a saúde ou a educação. Então, isso é um orçamento equilibrado. Então, pode ver essas coisas a acontecer nos estados que têm orçamentos equilibrados.

Há uma grande luta de classes a acontecer logo abaixo da superfície. Pedaços e partes dela são visíveis, mas isso vai levar a uma grande crise no futuro próximo.

John Nichols: No entanto, os media não divulgando, ou fazem-no de forma muito parcial. Consome muitos media e tem ideias de como obter informações de fontes inesperadas.

Noam Chomsky: Pode ler os artigos na imprensa de negócios a dizer que os grandes bancos, os maiores bancos estão a aumentar seus investimentos em combustíveis fósseis. Isso é muito interessante. É quando lê essas coisas começa a pensar. Veja, coloque-se na posição de Jamie Dimon, CEO do JPMorgan Chase. Ele sabe tudo o que sabemos sobre o aquecimento global e os seus efeitos extremamente perigosos e iminentes. Mas ele ainda está a investir dinheiro não apenas na extração de combustíveis fósseis, mas também no mais perigoso dos combustíveis fósseis: as areias asfálticas canadianas.

Então, o que ele pensa? Bem, se raciocinar sobre isso, não é muito complicado. Ele tem duas escolhas. Uma escolha é fazer exatamente o que está a fazer: tentar aumentar o lucro para o JPMorgan. A outra escolha que tem é demitir-se e ser substituído por outra pessoa que fará exatamente a mesma coisa. Este é um problema institucional profundo.

Não adianta falar sobre esses bandidos que fazem isso e aquilo. Na estrutura institucional, eles simplesmente não têm escolha, o que nos diz para onde devíamos estar a apontar: a estrutura institucional. É uma daquelas coisas das quais não quer ser desviado. Então, lê o New York Times, aprende muito. Lê a imprensa de negócios, o Wall Street Journal.

John Nichols: Aos noventa anos de idade parece que ainda está a ler tudo, a absorver tudo, a tentar influenciar o debate atual. Estamos a falar de aproximadamente cinquenta anos depois da publicação do seu ensaio sobre o papel de um intelectual na sociedade. Foi republicado pela New Press como “It is the Responsibility of Intellectuals to speak the truth to expose lies”.

Nesse ensaio, escreveu: “No que diz respeito às responsabilidades dos intelectuais, existem outras questões igualmente perturbadoras. Os intelectuais estão em posição de expor as mentiras dos governos, de analisar as ações de acordo com as suas causas e motivos e, muitas vezes, com intenções ocultas. No mundo ocidental, pelo menos, têm o poder que vem da liberdade política, do acesso à informação e da liberdade de expressão. Para uma minoria privilegiada, a democracia ocidental proporciona o lazer, as facilidades e a formação para procurar a verdade oculta por trás do véu da distorção e deturpação, ideologia e interesses de classe, através dos quais os eventos da história atual nos são apresentados. As responsabilidades dos intelectuais são muito mais profundas do que o que foi sugerido e o que eles chamam de responsabilidade das pessoas, dados os privilégios exclusivos dos intelectuais”.

Parece-me que em toda a sua vida se esforçou muito para cumprir esse dever. E acho que tem que haver um elemento de otimismo nisso.


Noam Chomsky: Bem, se quiser ser otimista, pense no período em que isso foi escrito. Foi em 1966 numa palestra para a Hillel Foundation, na Universidade de Harvard. Foi publicado pela New York Review of Books.

Como foi esse momento em 1966? Apenas pense no que foi. Primeiro de tudo, uma das piores guerras da história estava a acontecer. Neste ponto, os Estados Unidos tinham praticamente acabado com o Vietname do Sul. O principal historiador do Vietname, Bernard Fall, altamente respeitado pelo governo, escreveu na época que não sabia se era um estudioso vietnamita. Ele não sabia se o Vietname sobreviveria como uma entidade cultural e histórica depois do pior e mais cruel ataque que já havia sido lançado contra uma área daquele tamanho.

Quase não houve protestos nos Estados Unidos. Eu morava em Boston, uma cidade liberal. Em Outubro de 1965 deu-se o primeiro dia internacional de protesto. Então, tentámos fazer uma marcha em Boston, ir ao Cambridge Common, o lugar onde você dá palestras. Eu deveria ser um dos oradores. O espaço foi dividido pelos contramanifestantes, a maioria estudantes que não queriam ouvir esse tipo de discurso sobre o Vietname. O próximo dia internacional de protesto foi em março de 1966, pouco antes de isto ter sido escrito, incidentalmente, logo antes de a palestra ter ocorrido. Sabíamos que não poderíamos tê-la no Boston Common. Queríamos ter a reunião numa igreja. Na igreja de Arlington Street. A igreja foi atacada. Tomates, latas, contramanifestantes, policias do lado de fora. Isso é o que estava a acontecer em 1966.

E o que mais estava a acontecer no país? Bem, ainda tínhamos leis federais de habitação que exigiam segregação, exigiam habitação federal branca pura. E tínhamos leis de miscigenação e leis antimiscigenação tão severas que os nazistas se recusaram a aceitá-las. Quando os nazis procuravam modelos para as Leis de Nuremberg, as leis racistas, olhavam ao redor do mundo. Os únicos que eles poderiam encontrar residia nas leis americanas. Mas as leis dos EUA eram severas demais para os nazis. As leis dos EUA foram baseadas no que foi chamado de “Uma Gota de Sangue”. Então, se a sua bisavó era negra, você é negro. Isso foi demais para os nazis. [Essas leis] ainda estavam em vigor no final dos anos 1960. Leis anti sodomia, claro.

Não havia movimento de mulheres. As mulheres ainda não tinham sido reconhecidas pelo Supremo Tribunal como pares legais, como pessoas. Isso não aconteceu até 1975, quando [o tribunal] concedeu o direito de servir em júris federais como iguais. Podemos continuar. ... Mas quero dizer, que o país estava muito pior do que é agora.

O que mudou? Não haviam presentes dos céus. O que mudou é que muitas pessoas, principalmente jovens, começaram a organizar-se, começaram a manter-se ativos, lutaram, tornaram o país muito melhor.

John Nichols: E acredita que isso está a acontecer de novo agora?

Noam Chomsky: Veja o Green New Deal da Ocasio-Cortez, que agora é uma proposta muito séria. Hoje essa proposta está bem no centro da agenda. Um ano atrás, talvez, foi ridicularizada. Como isso aconteceu? Como essa mudança aconteceu? Bem, um grupo de jovens do Sunrise Moviment sentou-se no gabinete da [Presidente da Câmara] Nancy Pelosi, [e a sua questão foi] ouvida por um par de legisladores. Logo se tornou numa grande questão. [O governador de Washington] Jay Inslee acaba de anunciar a sua candidatura à nomeação presidencial democrata, com a sua principal prioridade a ser o perigo das alterações climáticas. Este é agora um assunto sobre o qual você pode falar, pode fazer algo a respeito. Não temos muito tempo. Bem, todos esses são motivos de otimismo. Muitas coisas melhoraram e foram aprimoradas por pessoas ativas, organizadas e comprometidas que trabalharam e mudaram o mundo. Esse é um motivo para ser otimista.

Sobre o autor

Noam Chomsky is professor emeritus of linguistics at MIT.

Sobre o entrevistador

John Nichols is the national affairs correspondent for the Nation and the author of The “S” Word: A Short History of an American Tradition … Socialism (Verso, 2015) and many other books.

25 de julho de 2019

A reforma do regime fiscal

Há alternativas para evitar que o governo aprofunde as recessões

Laura Carvalho


Ricardo Borges/Folhapress

Na mesma semana em que anunciou o novo plano de liberação de saques de contas ativas e inativas do FGTS, que pode injetar R$ 30 bilhões na economia em meio ao nosso grave quadro de insuficiência de demanda, a equipe econômica do governo teve mais uma vez de contingenciar recursos no Orçamento devido à redução nas previsões de arrecadação federal. O novo contingenciamento, de R$ 1,4 bilhão, vem somar-se aos R$ 29,8 bilhões bloqueados em março.

O reiterado bloqueio de recursos se deve à dificuldade de cumprimento da meta de resultado primário aprovada para 2019 em meio às sucessivas revisões do crescimento projetado para o ano, servindo para desnudar mais uma vez o caráter pró-cíclico de nossas regras fiscais.

Isso porque a meta de resultado primário —a diferença entre o que o governo arrecada e o que gasta (sem contar o pagamento de juros)— dá ao governo uma maior folga para gastar quando a economia está crescendo, mas obriga-o a cortar despesas justamente quando a economia mais precisaria de uma injeção de ânimo.

O que a imposição adicional do chamado "teto de gastos" fez foi eliminar a primeira possibilidade, qual seja, a de expandir as despesas quando a economia cresce mais: a arrecadação pode subir o quanto for que o limite para o crescimento de despesas continua sendo a taxa de inflação do ano anterior.

Mas, quando a economia está crescendo menos, a meta de resultado primário continua operando de forma totalmente pró-cíclica: as revisões para baixo da arrecadação podem exigir que se gaste até menos do que o permitido pelo "teto", como estamos vendo neste ano.

Já caminhamos a passos largos para um consenso de que o "teto de gastos" deve ser revisto, seja pela exclusão de investimentos públicos em infraestrutura da regra, seja pelo estabelecimento de limites plurianuais de crescimento das despesas mais em linha com o praticado em outros países (baseados nas projeções de médio prazo de crescimento do PIB, de 2% ou 3% ao ano em termos reais, por exemplo).

Tais mudanças são urgentes e necessárias, mas não são suficientes para solucionar o caráter pró-cíclico —e prejudicial ao bom planejamento orçamentário— das metas de resultado primário em cenários de crise.

Para evitar que o governo aprofunde as recessões, cortando seus gastos e investimentos como resposta à queda na arrecadação derivada da própria crise e/ou que utilize manobras fiscais para cobrir desequilíbrios, há diversas alternativas.

Uma delas, escolhida pelos países da União Europeia e muitos outros, estabelece as chamadas metas de resultado estrutural, que excluem as variações de receitas e/ou despesas oriundas do próprio ciclo econômico do cálculo do resultado primário.

Assim, um aumento ou uma queda na arrecadação que venha de uma mudança na taxa de crescimento da economia não altera em nada a meta que o governo tem de cumprir, evitando exatamente o problema que estamos tendo no Brasil desde o início da crise.

Outra opção é criar bandas para a meta de resultado primário (piso e teto), como no caso das metas de inflação, conferindo ao governo alguma margem de manobra para lidar com riscos inesperados e revisões das projeções de crescimento.

Se o objetivo fosse garantir o crescimento e a estabilidade da economia brasileira no longo prazo, deveríamos reformar as regras fiscais vigentes, em vez de continuar tentando anular o efeito recessivo do corte de gastos e investimentos públicos com medidas parafiscais de estímulo de curto prazo.

Sobre a autora

Professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, autora de "Valsa Brasileira: do Boom ao Caos Econômico".

Os chefes escondidos na Gig Economy

A DoorDash retirou da administração tradicional de restaurantes a ideia de tomar para si as gorjetas que são dadas aos trabalhadores. Mesmo revertendo a situação depois de pressão pública, a plataforma de delivery chamou a atenção para o foco da exploração capitalista no mercado de trabalho

Meagan Day

Jacobin


Um entregador da Pizza Hut em 29/6/18 em Shreveport, Lousiana (Shannon O'Hara/Getty)

Tradução / DoorDash, Postmates, GrubHub, Seamless, InstaCart: essas empresas de entrega de alimentos prometem interromper a relação empregador-empregado e inovar as desvantagens de trabalhar na indústria de serviços alimentícios.

Seu truque é fazer parecer que não há patrões nem trabalhadores. A empresa é um prestador de serviço, e qualquer pessoa que encomenda ou entrega um pedido é um usuário. A plataforma está simplesmente conectando usuários, alguns dos quais estão pagando e outros estão sendo pagos. Um trabalhador consegue fazer sua própria programação e aceitar trabalhos conforme sua conveniência, como um freelancer. Eles podem "ser seus próprios patrões". E aparentemente, isso soa muito melhor do que ser mandado por outra pessoa durante todo o seu expediente.

Mas mesmo que muitos entregadores tenham coisas boas a dizer sobre essas plataformas, eles estão rodeados de armadilhas. Desde plataformas de serviços de delivery até serviços de carona, as empresas que as operam podem facilmente se lavar as mãos em relação as obrigações mais básicas de um empregador para com seus funcionários de tempo integral - como fornecer benefícios de saúde, salários estáveis, segurança de emprego, etc. - e então dão as costas e agem exatamente como chefes da pior maneira.

Lembre-se: não é só porque você não vê seus chefes que significa que eles não estejam lá. E se eles estão lá, estão te explorando, porque é isso que os chefes capitalistas fazem.

A DoorDash recentemente mostrou como isso realmente funciona. A empresa foi fortemente criticada por agir como restaurantes tradicionais, ficam com as gorjetas de seus entregadores a fim de complementar o valor ao qual eles têm direito devido serviço prestado. No mundo dos restaurantes, os patrões podem usar as gorjetas que os funcionários recebem para inteirar o valor já estabelecido de salário mínimo que os empregados devem receber.

Isso é confuso, mas pense assim: você dá de gorjeta US $ 2 em um hambúrguer de US $ 10, se você nunca trabalhou na indústria alimentícia, você provavelmente vai achar que os dólares extras são como um “obrigado” ao servidor por anotar seu pedido e levar o hambúrguer à sua mesa. Em vez disso, no sistema de salários mais a gorjeta, é muito comum o restaurante apropriar se desses ‘extras’ e os usa para compensar a diferença entre a taxa fixa que eles estão dispostos a pagar - apenas $ 2,13 em muitos estados - e o salário mínimo estabelecido naquele estado.

Sua gorjeta não é realmente uma gratificação para o servidor. É um subsídio para o patrão.

DoorDash foi pego fazendo exatamente a mesma coisa. Imagine que você fez um pedido com o DoorDash em um horário X e o tempo estava horrível. Você sabe que o entregador está tendo dificuldades em chegar até você, mas ele está determinado a te encontrar, e você finalmente consegue seu frango frito tarde da noite. Você é uma pessoa consciente e percebe que não foi uma entrega fácil, então você dá uma gorjeta para o motorista do DoorDash como uma demonstração de respeito pelo esforço que ele fez.

No entanto, eles nunca veem a cor dessa gorjeta, ou até mesmo sabem dela. Eles simplesmente ganham a mesma taxa fixa de sempre, e a empresa tem um lucro maior naquela noite, mesmo que a entrega não tenha sido feita por um alto executivo, que estava desafiando a tempestade e a escuridão da estrada para atender às suas necessidades de beliscar um franguinho.

Assim como o InstaCart antes dele, o DoorDash só parou de pagar salários indevidos em resposta a um clamor público. A queixa não foi sem razão: os salários e as gorjetas são realmente enganosos e só funcionam a favor dos patrões, não dos trabalhadores. As pessoas dão gorjetas para os trabalhadores individuais com quem tiveram interações pessoais. Quando é dada a gorjeta, não se tem a intenção de coloca-las nos caixas das grandes corporações para que sejam distribuídas a fim de atender aos requisitos mínimos salariais para esses trabalhadores. Esse sistema salarial significa que quanto mais os trabalhadores trabalham e quanto maiores forem as gorjetas, menos os patrões precisam se preocupar em pagar os trabalhadores com dinheiro de seus próprios bolsos.

Os salários baixos e as gorjetas são uma fonte de controvérsia no mundo dos restaurantes. Obviamente, os trabalhadores querem ser pagos melhor, mas não sabem em quem acreditar. Por um lado, os donos dos restaurantes insistem que devem se apropriar e reembolsar as gorjetas como parte do salário para se manter abertos, e que, se os empregados ficarem com as gorjetas como um extra, eles estariam levando os empregos à ruina. Eles afirmam ficarem de mãos atadas - embora as vendas e os lucros dos restaurantes tenham crescido ininterruptamente por uma década inteira, e seus salários permaneceram estagnados.

Por outro lado, os defensores dos trabalhadores dizem que seria mais justo pagar aos trabalhadores o salário mínimo comum antes das gorjetas e considerar as gorjetas como uma gratificação genuína. Como prova de que isso seria melhor para os trabalhadores, o Instituto de Política Econômica cita pesquisas que mostram que nos estados em que os trabalhadores que são pagos juntos a gorjeta, recebem US $ 2,13 por hora e são usadas as gorjetas para chegar no salário mínimo comum, 18,5% dos garçons, garçonetes e bartenders; vivem na pobreza. Esse número cai para 11.1% quando os trabalhadores recebem um salário mínimo estabelecido. (O fato de as pessoas que receberem um salário mínimo e ainda assim estarem vivendo na pobreza é outra história, para outra conversa.)

O DoorDash tomou a decisão sobre essa controvérsia: isto é, decidiu se comportar exatamente como um restaurante comum. Mesmo mudando de ideia , demonstrou a natureza exploradora do emprego no capitalismo, os patrões têm o poder de fazer políticas unilateralmente, sem a contribuição dos trabalhadores (desculpe, usuários ). Eles podem então alegar que são as melhores políticas possíveis para os trabalhadores, dadas as circunstâncias, sem que esses funcionários tenham o poder de inspecionar os livros para ver se estão dizendo a verdade.

As plataformas prometiam derrubar tudo o que sabíamos sobre o trabalho - mas o que elas realmente queriam dizer era que elas não pagariam pelos cuidados de saúde de ninguém ou pela aposentadoria como um empregador decente. Eles só se comportariam como empregadores quando se trata de pagar mal os trabalhadores e aumentar os lucros.

A realidade é que o DoorDash tem funcionários e patrões, e assim como todas as outras empresas de plataformas gig. Quando dizem que você pode "ser seu próprio patrão", eles estão mentindo. Esse posto é tomado por outra pessoa, alguém que tem tanto - e em muitos casos mais - poder sobre suas condições de trabalho quanto um chefe normal.

A principal diferença é como os chefes invisíveis dessas plataformas são bons em esconder sua exploração sob a linguagem de inovação. Eles são, exatamente, chefes - eles apenas se esconde nas sombras.

24 de julho de 2019

Por que Nicolás Maduro sobrevive?

Infortúnios desmoralizaram as forças oposicionistas

Breno Altman

Fabio Braga/Folhapress

Uma penca de analistas está às voltas com a corrosão de seus prognósticos sobre a situação venezuelana. Quando o líder da oposição, Juan Guaidó, se autoproclamou presidente interino, em 23 de janeiro, fartas foram as apostas de que o governo Nicolás Maduro estava por um fio.

Seis meses depois, quem exala o odor de um cadáver político é o encarregado de sucessivas e fracassadas intentonas.

O cálculo da direita venezuelana era que o estabelecimento de um cenário marcado pela dualidade de poder, sob forte tensão internacional e medidas de asfixia econômica, provocaria a divisão das Forças Armadas e a derrocada fulminante do chavismo.

Os seguidos infortúnios, porém, desmoralizaram e cindiram as forças oposicionistas, obrigando-as a se sentar à mesa de diálogo iniciada pela Noruega e transferida para Barbados. Míngua sua capacidade de mobilização interna, hoje restrita a círculos limitados. Aliados internacionais se afastam, enfraquecendo a opção intervencionista manejada pela Casa Branca.

Mas, afinal, como pode a revolução bolivariana sobreviver a um cerco poderoso, a uma crise econômica medonha e aos seus próprios erros? Por que tanto se equivocaram inimigos e até amigos do chavismo?

Apesar da confrontação extrema e da ameaça de agressão externa, a ação repressiva tem sido relativamente de baixa intensidade, embora o próprio governo reconheça atropelos a direitos humanos. O autoproclamado presidente interino, por exemplo, continua nas ruas e nenhum partido foi posto fora da lei. Até mesmo presos envolvidos em atos de violência estão sendo libertados.

Atentos à história latino-americana, Hugo Chávez e seu sucessor sempre tiveram como paradigma que as classes dominantes jamais aceitaram ou aceitariam, sem recorrer à contrarrevolução, quaisquer reformas que afetassem seus privilégios, riqueza e poder.

Ao contrário de outras experiências, como a conduzida por Salvador Allende ou a liderada pelo PT, o chavismo se preparou para enfrentar a inevitável ruptura antidemocrática, secularmente patrocinada pela burguesia regional e seus tutores imperialistas quando se sentem sob risco.

Além de constante empenho para educar, organizar e mobilizar sua base social como fator de governabilidade, ao mesmo tempo atendendo históricas reivindicações populares, os chavistas conduziram uma ampla reforma do Estado, fortalecendo a democracia direta, reestruturando corporações civis e militares que pudessem ser utilizadas para a sabotagem da ordem constitucional.

Em vez de fortalecer a autonomia dessas instituições não-eletivas, como o Ministério Público, o Poder Judiciário e as Forças Armadas, trataram de refundá-las sob a hegemonia política e cultural do processo revolucionário, legitimada seguidamente pelo voto popular.

Muitas das medidas tomadas são polêmicas e desconfortáveis. Diante da ferocidade histórica dos donos do dinheiro grosso, no entanto, qualquer outro caminho provavelmente conduziria à derrocada ou à capitulação.

É claro que o futuro é incerto e a situação venezuelana, de evidente instabilidade. Mas, até agora, a coesão social, militar e institucional lograda pelo chavismo, mesmo pressionada, faz de Nicolás Maduro um osso duro de roer.

Sobre o autor
Jornalista e fundador do site Opera Mundi

Prepare-se para uma chefatura de Boris Johnson

Boris Johnson, um amigo de Steve Bannon e um inimigo autodeclarado do "socialismo de garras vermelhas" de Jeremy Corbyn, será um desastre para os trabalhadores.

Lauren Townsend

Jacobin

O recém-eleito primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, discursa durante o anúncio da Liderança Conservadora no QEII Center, em 23 de julho de 2019, em Londres, Inglaterra. Foto: Jeff J Mitchell / Getty

Tradução / Numa série de eventos digna de uma comédia pastelão, o tosco ex-prefeito de Londres, Boris Johnson, tornou-se o primeiro-ministro do Reino Unido. Amplamente visto como um excêntrico cativante, Johnson tem moldado cuidadosamente sua imagem com a mídia.Quem poderia esquecer como ele reagiu à controvérsia que se seguiu quando chamou as mulheres muçulmanas de “caixas de correio” e “ladras de bancos”? Logo em seguida, ele apareceu na televisão usando bermudas havaianas e oferecendo chá aos jornalistas em canecas caprichosamente incompatíveis ao invés de respostas ou um pedido de desculpas.

Johnson é um ex-aluno de Eton e Oxford, duas das instituições de ensino mais elitistas no Reino Unido, e fez parte da notória sociedade exclusivamente masculina “Bullingdon Club” – cuja cerimônia de iniciação incluía queimar uma nota de 50 libras na frente de um morador de rua. Mas isso não impedirá seus amigos na mídia de reformulá-lo como um homem do povo durante as próximas semanas. Mais de cinco milhões de pessoas no Reino Unido estão atualmente lutando para sobreviver, como resultado de empregos mal-remunerados e inseguros, juntamente com o aumento constante dos custos de vida. E o melhor que os conservadores podem lhes oferecer é a promessa de um belo corte de impostos para os ricos.

Um político de carreira cuja hipocrisia conhece poucos limites, pode ser fácil esquecer que o “herói do Brexit” de hoje disse certa vez que o único benefício de deixar a União Européia seria “nos fazer reconhecer que a maioria dos nossos problemas não são causados ​​por Bruxelas, mas pela visão de curto prazo, gestão inadequada, indolência, baixas qualificações, uma cultura de recompensa fácil e subinvestimento tanto em capital humano quanto em capital físico e infra-estrutura, que são crônicos na Grã-Bretanha.”

Qualquer pessoa que tenha lido a coluna de Johnson no Telegraph em abril de 2016 poderia ser perdoada por confundí-lo com um defensor da permanência na UE, ao delinear os benefícios da União Européia e afirmar que “o custo da filiação parece pequeno perto de todo o acesso ao mercado”. Ainda assim, naquele mesmo dia ele se viu no topo de uma campanha muito bem financiada em nome da saída.

Boris Johnson simboliza tudo o que o Partido Conservador representa. Um racista que já chamou os negros de “piccaninnies” e “sorrisos de melancia” (duas ofensas historicamente racistas nos EUA) e disse que Barack Obama tinha uma “aversão ancestral” à Grã-Bretanha por causa de sua herança queniana. Ele também já afirmou que o problema com os países colonizados “não é que nós já estivemos no comando, mas o fato de que já não estamos mais”.

Essa peça tem seguido por muitos anos – descrever o povo de Papua Nova Guiné como “canibais”; dizer que as mulheres só vão para a faculdade para “encontrar homens para se casar”; descrever homens gays como “passivos de regatas”. Um histórico bem controverso para um homem que prometeu, no lançamento de sua campanha, “unir o país”.

No entanto, com todas essas discussões durante as últimas semanas, uma parte da história sórdida de Boris Johnson tem sido deixada de fora: seu registro com relação aos trabalhadores. Johnson passou quase toda a sua carreira atacando sindicatos. Nos anos 2000, ele foi um dos mais proeminentes inimigos do salário mínimo, dizendo que ele iria “destruir os empregos”; e como prefeito de Londres, ele regularmente agredia os trabalhadores do sindicato RMT, que organiza trabalhadores do transporte ferroviário e marítimo.

Vale a pena lembrar por que isso aconteceu. Boris Johnson fez campanha para prefeito com a promessa de não fechar as bilheterias do metrô de Londres. Ele até chamou os fotógrafos da imprensa para assinar um contrato sobre isso. “A resposta para o número de fechamentos de bilheteria”, disse ele, “é nenhuma”. Quando Johnson renegou essa promessa, o RMT entrou em greve. Em vez de manter sua palavra, ele começou uma campanha para banir a greve. Ele exigiu um mínimo de 50% de participação nos votos dos sindicatos antes que qualquer greve pudesse ser convocada. Isso foi a base para as reformas anti-sindicais que foram introduzidas pelo Partido Conservador em 2016.

O ódio de Boris Johnson por pessoas da classe trabalhadora é profundo. Imagine, depois de tudo o que já se descobriu ao longo de tantos anos sobre o desastre de Hillsborough, em que morreram 96 pessoas e mais de 700 ficaram feridas, escrever que o povo de Liverpool estava “chafurdando” em “vitimismo”? Ou que eles precisavam reconhecer o papel desempenhado “por fãs bêbados no fundo da multidão que, sem pensar, tentaram abrir caminho para o chão”?

Hoje, 130.000 membros do Partido Conservador (em grande parte, ricos) catapultaram Boris Johnson para o número 10 da Downing Street. Eles não ligam para o seu histórico de apoio à austeridade, à privatização ou à desregulamentação. Na verdade, muitos deles aplaudiram quando ele disse em uma entrevista recente que “não conseguia pensar em ninguém que tivesse defendido os banqueiros” mais do que ele, na sequência da crise de 2008. “Eu os defendi”, ele nos lembrou, “dia após dia”.

Talvez seja por isso que ele está tão determinado a se opor ao “socialismo de presas e garras vermelhas” do Partido Trabalhista. Mas as apostas para os trabalhadores em qualquer eleição futura contra Boris Johnson serão duras. Isso deveria ficar claro, com sua amizade com Donald Trump e Steve Bannon – abutres que, podemos esperar, devem estraçalhar o setor público da Grã-Bretanha após um Brexit sem acordo com a União Europeia.

Conforme Boris Johnson leva o Reino Unido na direção de um precipício em 31 de outubro, quando se encerra o prazo para o Brexit, vale lembrar o que ele disse quando foi rebaixado da linha de frente do Partido Conservador em 2004. “Meus amigos, como eu mesmo descobri, não existem desastres, apenas oportunidades. E, de fato, oportunidades para novos desastres.” Quando se é tão rico quanto Boris, não há desastre tão grande a ponto de não ser possível se beneficiar dele.

Sobre a autora

Lauren Townsend é garçonete do TGI Fridays e ativista do sindicato Unite the union.

19 de julho de 2019

Um músico para a luta de classes

A carreira do compositor italiano Luigi Nono conta a história do comunismo europeu em larga escala: ousado e revolucionário nos anos 60 e 70, reflexivo quando o Partido Comunista Italiano entrou em colapso e a possibilidade de mudança radical recuou. Sua vida é um lembrete de que nenhum artista está livre da política do nosso tempo.

Jackson Albert Mann


O compositor italiano Luigi Nono conduzindo sua peça "Canti di vita e d'amore: sul ponte de Hiroshima", em ensaio no Royal College of Music, em Londres, em 7 de setembro de 1963. Erich Auerbach / Hulton Archive / Getty

Tradução / No final de 1961, o compositor alemão Hans Werner Henze realizava uma encenação de sua ópera Elegy for Young Lovers, em Munique, Alemanha. Um velho amigo de Henze estava sentado na plateia. Na metade do primeiro ato, o amigo levantou-se de repente e forçou uma fileira inteira a se levantar para que ele saísse. Este homem era Luigi Nono, compositor mundialmente famoso e membro do Partido Comunista Italiano (PCI).

Em sua autobiografia, Henze relata que Nono, ao ser então questionado sobre seu comportamento naquela apresentação, derrubou violentamente uma mesa, quebrando porcelanas caras. Como um velho amigo, Henze devia estar ciente do que afetava Nono: sua Elegy não tinha conteúdo político explícito e contemporâneo.

Dada a vida e o trabalho de Nono, sua reação, por mais melodramática que fosse, tinha sentido. Ele era um antifascista e comunista que passou anos desenvolvendo uma teoria e prática revolucionária para a arte. Assistir seu colega Henze, comunista e também membro do PCI, encenar uma ópera que aparentemente não nada tinha de política foi irritante para Nono, especialmente dado o contexto histórico.

Para Nono, a revolução estava em todo lugar. Lutas anti-imperialistas surgiam na América Latina e Sudeste Asiático, e seu compromisso era apoiá-las através da música. Qualquer artista revolucionário que não estivesse imediatamente envolvido com essas questões não era, para Nono, um artista revolucionário. Um compositor revolucionário precisava ser um “músico-ativista, não acima, mas dentro da luta de classes”, disse.

A visão de Nono pode tê-lo feito, às vezes, impetuoso e obstinado. Mas também produziu um corpo de trabalho flexível e muitas vezes surpreendente ao longo de sua vida. Como as condições históricas mudaram e as perspectivas revolucionárias diminuíram, a música de Nono também se adaptou. Em diferentes momentos, incorporou notas carregadas de antifascismo, ou um reflexo do declínio do PCI e o fechamento de alternativas durante a ascensão do neoliberalismo.

Mas mesmo em períodos de derrota da classe trabalhadora, Nono não perdeu a perspectiva política de sua arte. Para os artistas que hoje olham para a realidade ao redor – das novas oportunidades para os socialistas à ameaça da extrema direita –, a vida e o trabalho de Nono oferecem muita inspiração.

Começos radicais

Nono nasceu em 29 de janeiro de 1924 em Veneza. Seu avô paterno e homônimo tinha sido um pintor conhecido por retratar a vida brutal dos pobres venezianos. Seu tio Urbano Nono, escultor, desenhou o monumento em Florença dedicado a Daniele Manin, líder da revolucionária República de San Marco (Veneza) no levante de 1848.

O pai de Nono era engenheiro e a família levava a uma vida sólida de classe média alta. Seus pais eram músicos amadores envolvidos nos animados círculos artísticos da cidade. Nono começou a estudar piano com um amigo da família aos doze anos, mas desistiu porque achou o instrumento tedioso. Passou então a explorar as paisagens sonoras de Veneza, particularmente os ecos da Basílica de San Marco, que começou a frequentar regularmente para contemplar a “acústica especial” da catedral.

A infância de Nono foi passada sob o governo fascista. Foi nessas condições opressivas que chegou pela primeira vez à política radical de esquerda. Quando adolescente, assistiu a reuniões socialistas e a mostras de arte subversivas. Depois de se formar em 1942, conseguiu evitar o recrutamento militar com a ajuda de um médico simpatizante dos socialistas, que lhe deu um diagnóstico de doença incurável. Matriculou-se na Universidade de Pádua e começou a estudar música seriamente.

Enquanto estava na universidade, começou a trabalhar secretamente para a Resistência Italiana. Durante a luta contra o regime decadente de Mussolini, ele se tornou comunista. Distribuía boletins informativos, escondia armas e auxiliou no movimento da resistência. No dia da libertação de Veneza, em 28 de abril de 1945, Nono, com 21 anos, estava em ação, ajudando os guerrilheiros a tomar e ocupar prédios importantes.

Aprendendo da esquerda

Logo após a guerra, Nono conheceu dois homens que tiveram impacto significativo em seu trabalho, Bruno Maderna e Hermann Scherchen. Em 1946, foi apresentado a Maderna, um companheiro veneziano apenas alguns anos mais velho que ele, e um prodígio musical que já tinha uma carreira de sucesso como intérprete e compositor. A “música viva” de Maderna foi a primeira grande influência na teoria e prática de Nono. Sua ideia básica era que as composições musicais eram historicamente contingentes e não podiam ser adequadamente entendidas fora de seu contexto histórico. Essa abordagem seria a base da arte revolucionária e da estética política de Nono.

Os dois homens conheceram Scherchen em 1948, quando participaram de um curso que ele ministrava em Veneza. O músico mais velho rapidamente os adotou. Foi Scherchen, um socialista, que apresentou Nono a movimentos europeus de esquerda fora da Itália.

Em 1950, com a ajuda de seus dois mentores, aos 26 anos de idade, Nono participou do Curso Internacional de Verão para a Nova Música (Internationale Ferienkurse für Neue Musik) em Darmstadt, na então Alemanha Ocidental. Era um encontro anual de jovens compositores, que incluía Karlheinz Stockhausen, Pierre Boulez, John Cage e o velho amigo Hans Werner Henze. A primeira apresentação pública de Nono, depois de quase uma década de estudo, ocorreu neste encontro. A peça, chamada Variazioni Canoniche (Variações Canônicas) foi uma série de variações baseadas na Ode de Napoleão, de Schoenberg. Nono voltaria a Darmstadt todos os verões na década seguinte.

Dois anos depois, em 1952, Nono e Maderna tentaram se filiar ao PCI que, inicialmente, não aceitou sua adesão. Ambos eram praticantes do serialismo, um método de composição musical que se originou com Arnold Schoenberg, que foi denunciado pelo realismo-socialista institucionalizado na União Soviética como “burguês” e “formalista”. O PCI, como muitos partidos comunistas na época, ainda estava sob influência da União Soviética e por isso se submeteu a esta orientação estética. Mas Nono, que nunca desistiu, fez um grande esforço para convencer o secretário veneziano do PCI de sua absoluta sinceridade, visitando-o pessoalmente para defender seu ponto de vista. Os líderes do partido cederam, e a filiação deles foi aceita.

Compromisso antifascista

Em meados da década de 1950, Nono havia desenvolvido a base de uma robusta prática artística revolucionária e uma teoria da estética política. Sua prática concentrou-se em localizar oposições na produção de arte – por exemplo, a luta entre os diferentes meios artísticos de música, design e dança em um palco de ópera. Nono acreditava que essas oposições poderiam ser superadas pelo compromisso artístico, um termo que tomou emprestados da teoria literária do filósofo Jean-Paul Sartre, que afirmou que a arte deve “revelar a situação (...), a fim de mudá-la.”

Para Nono, o objetivo comum era revelar o caráter criminoso do capitalismo, que poderia transformar a luta entre os meios artísticos em uma ação dialética. Na década de 1950, acreditava que, a fim de estar comprometido como compositor devia dedicar-se ao serialismo, ainda na vanguarda musical europeia, como uma ferramenta artística para garantir a hegemonia política e cultural dos movimentos de resistência antifascista. O principal tema da música de Nono nos anos 50 foi o antifascismo. Foi essa dedicação ao momento político contemporâneo que acabou levando-o à ruptura dramática com os outros compositores de Darmstadt.

A cantata antifascista de Nono para vozes solistas, coro e orquestra, Il Canto Sospeso causou muita controvérsia na estreia em Darmstadt em 1955. Isso foi em parte o resultado da cultura da Alemanha Ocidental na época, ainda traumatizada por sua participação nos piores crimes do nazismo. Mas também foi devido à resposta negativa de seus pares.

O texto da peça é composto de uma série de cartas de combatentes antifascistas presos, escritas logo antes de suas execuções. Stockhausen era altamente crítico do tratamento serialista que Nono havia dado ao libreto. Acreditou que isso tornava grande parte do texto difícil de entender e obscurecia a mensagem antifascista. Mas Stockhausen foi ainda mais longe: acusou Nono de ter feito isso conscientemente por vergonha.

Nono ficou enfurecido com a acusação de que ele estava escamoteando os crimes fascistas. Em resposta a Stockhausen, disse: “A mensagem dessas cartas (...) é esculpida em meu coração (...) como um exemplo do espírito de sacrifício e de resistência contra o nazismo”. Esse tratamento rigoroso não era para obscurecer a mensagem, mas “transpor o seu significado semântico para [minha] linguagem musical”. O mal-estar desse debate permaneceria por décadas. Vinte anos depois, em 1976, ele ainda se referia à crítica de Stockhausen a seus primeiros trabalhos.

Intolerância 1960

No final do seu período de Darmstadt, Nono, então com 36 anos, compôs sua primeira grande obra – ou, como chamava, uma “azione scenica” (“ação cênica”), Intolleranza de 1960 (Intolerância 1960), que estreou em 1961 no Teatro La Fenice em Veneza. 

Conta a história de um trabalhador migrante que é preso e levado a um campo de concentração. Nono deixa claro sua lealdade radical da esquerda, incorporando no libreto slogans como “No Pasaran” (Não passarão), “Nie Wieder” (Nunca mais) e “Morte ao fascismo e liberdade para o povo”. Por isso, a estreia teve censura política e houve infiltração de neofascistas, que gritam “Viva la Polizia” (Viva a Polícia) na cena em que o migrante era torturado por policiais.

Durante essa produção, Nono começou a sintetizar seus pensamentos sobre forma e conteúdo. Voltando à sua fascinação infantil pela paisagem sonora da Basílica di San Marco, reconheceu a aura e o formato físico do desempenho como uma forma em si mesma – um espaço que poderia ser organizado para apoiar o conteúdo político revolucionário de sua arte. Nono começou a democratizar o palco, abrindo-o e pondo o público no centro da ação. O uso de novas tecnologias foi fundamental para transformar o desempenho de uma experiência passiva em uma atividade ativa. Nono começou a experimentar a integração de novos meios, como filme e design de som em seu trabalho.

Intolleranza 1960 foi sua primeira peça importante a usar essas técnicas experimentais. Imagens projetadas, texto, filme, sons eletrônicos, vozes sampleadas e música amplificadas por alto-falantes colocados ao redor do teatro bombardearam o público. A sobrecarga sensorial e o conteúdo político altamente carregado combinaram com o estilo serialista de Nono para torná-lo um trabalho ousado e de confronto.

A segunda apresentação da ópera, em 1964, em Boston, novamente causou controvérsia. Foi negado a Nono, por sua filiação política, o visto exigido para entrar nos EUA, causando semanas de atraso nos ensaios. A política da peça criou uma séria tensão no set. Nono havia substituído muitas das imagens projetadas, filmes e textos originais por novos conteúdos específicos para os EUA, e o elenco e a equipe ameaçaram uma greve em protesto contra o enfoque “injusto” nos crimes de intolerância nos EUA. Em uma carta enviada após a apresentação, Nono acusou a diretora estadunidense Sarah Caldwell de censura por tentar tirar o termo “burguês” e a expressão “exploração capitalista”.

Lealdades internacionalistas

As décadas de 1960 e 1970 foram os anos mais politicamente engajados da vida de Nono; foram os anos dos movimentos anti-imperialistas e socialistas na América Latina e no Sudeste Asiático, e dos movimentos estudantis e de trabalhadores nos países do centro capitalista. A emoção dessas lutas está refletida em sua música: Siamo o Gioventù del Vietnam (Somos a juventude do Vietnã), Ricorda Cosa ti Hanno Fatto in Auschwitz (Lembre-se do que fizeram em Auschwitz) e Non Consumiamo Marx (Não consumimos Marx) são apenas algumas peças.

Uma peça, La Fabbrica Illuminata (A fábrica revelada), que estreou em 1964, foi composta em protesto contra as más condições de trabalho numa fábrica de aço em Gênova, a Italisider. Tem uma voz de soprano flutuante, solitária, atacada por todos os lados por coros pré-gravados e ruídos mecânicos de gravações que Nono havia coletado na fábrica. Enquanto a peça continua, samples da soprano são tocados, como se fantasmas do começo da peça viessem assombrar seu fim. O público da estreia incluiu uma delegação de trabalhadores da Italisider e Jean-Paul Sartre. La Fabbrica Illuminata teve enorme sucesso e Nono fez uma turnê de palestras, visitando sindicatos para apresentar e discutir a peça.

Em 1967, Nono viajou pela América Latina como embaixador cultural do PCI. No Chile, encontrou o lendário músico socialista Victor Jara e os dois se mantiveram em contato até o assassinato de Jara, durante o golpe militar de Pinochet, em 1973, com apoio dos EUA. No Peru, foi professor convidado na Universidade de San Marcos, em Lima. Por expressar apoio aos presos políticos que lá havia, foi preso e enfrentou um interrogatório, antes que o governo italiano intervisse por sua libertação. Passou algum tempo em Cuba, onde teve um encontro pessoal com Fidel Castro.

Em abril de 1975, seu segundo (e mais explicitamente político) trabalho operístico, Al Gran Sole Carico d’Amore (O grande sol cheio de amor), estreou no Teatro alla Scala, em Milão. A peça se move entre a Comuna de Paris de 1871 e a Revolução Russa de 1905. Textos de Bertolt Brecht, Karl Marx, Vladimir Lenin, Che Guevara e Fidel Castro foram combinados para formar um libreto fortemente político. O coro, que representa os heróis mártires da classe trabalhadora, estava virado para cima em lajes suspensas pairando atrás da cena.

Ascendente do neoliberalismo

A música de Nono começou a ter uma virada mais reflexiva durante o final dos anos 70. Sua agitação artística pelo futuro comunista foi substituída por um modo calmo e contemplativo de expressão. A evolução do seu estilo é por vezes atribuída a uma mudança na sua ideologia política, para a qual chamou a atenção o filósofo Massimo Cacciari, de quem Nono recentemente se tornara amigo. Não é uma opinião correta. Cacciari também foi membro do PCI. Sua filosofia era de fato menos agitadora, mas isso tinha pouco a ver com o estilo musical em evolução de Nono. Os acontecimentos históricos estavam levando ambos a conclusões semelhantes.

Nos países do centro capitalista, os ganhos social-democráticos e do New Deal, do pós-guerra, estavam prestes a ser erradicados pelo neoliberalismo que emergia. O realismo capitalista da ordem neoliberal viria a consumir a esquerda eleitoral, incluindo grande parte do movimento anti-imperialista que Nono tinha apoiado nos anos 60. Os efeitos disso se deram gradualmente na Itália. Nono juntou-se ao Comitê Central do PCI em 1975 e viu que ele teve ganhos eleitorais significativos. No entanto, após a tentativa de Berlinguer de um “compromisso histórico” com o centro político, Nono viu o PCI perder energia ao longo da década de 1980.

Foi um momento sombrio para um artista empenhado em se envolver com o momento contemporâneo. Não é de admirar que sua música tenha adquirido um estilo mais reflexivo. No entanto, dizer que sua ideologia política tenha mudado durante esse tempo não corresponde ao que ocorria. Nono ainda estava envolvido com o contemporâneo. Se sua música já não tinha conteúdo revolucionário, não é porque ele tenha deixado de ser um revolucionário, mas porque o momento contemporâneo não tinha potencial revolucionário. Havia ainda as lutas que aconteciam no mundo, por exemplo os sandinistas na Nicarágua ou o movimento socialista pan-africano de Thomas Sankara em Burkina Faso. Mas o estudante, o trabalhador e os movimentos anti-imperialistas dos anos 60 e 70 aparentemente desapareceram com a ascensão do neoliberalismo.

No início da década de 1980, Nono e Cacciari colaboraram em uma nova obra operística, Prometeo: Tragedia Dell’Ascolto (Prometeu: tragédia da escuta), que contou várias versões do mito de Prometeu usando textos de vários autores, incluindo Walter Benjamin e Rainer Maria Rilke. Prometeu foi composto especificamente para as propriedades acústicas da Basílica di San Marco, a igreja que intrigou Nono quando criança. Mas a estreia se deu em outra igreja em Veneza, San Lorenzo, em 1984.

Para Prometeu, Nono concentrou toda sua energia na democratização do espaço auditivo e físico. O “palco” não era mais uma cena estática da ação, mas uma apresentação centrada, titânica omnidirecional. Uma enorme câmara de ressonância de madeira foi construída com especificações exatas para que mesmo o mais minúsculo pianíssimo pudesse ser transportado através de San Lorenzo com total clareza. This chamber reached all the way to the church vaults Friedrich Spangemacher, um compositor e crítico de música a comparou a “uma moldura de navio.” Os cantores e instrumentistas foram colocados em todos os lados da igreja em níveis variados. Cada músico tinha um microfone. Os feeds desses microfones foram alterados eletronicamente e enviados para vários oradores colocados em torno do público.

Se abordada por conta própria, Prometeu é uma música triturante e cacofônica, cheia de saltos melódicos dissonantes e sopros de metais e de madeira. Mas, para o corpus de Nono, é muito manso. Há uma acentuada falta de cromatismo (o uso das 12 notas do sistema musical) que era uma característica típica de seu estilo serialista. Há um centro flutuante que o fundamenta. Intervalos consonantais como o 5º e o 8º são mais frequentes do que nunca.

A música de Nono é sempre inquietante, seja por suas referências aos crimes brutais do capitalismo ou por sua dissonância brutalmente alta. Prometeu, apesar de seu conteúdo menos explícito e linguagem musical mais fundamentada, é uma música muito perturbadora. O libreto é resmungado por duas vozes que são frequentemente abafadas pelo coro e pela orquestra. De vez em quando, um único “Prometeu, Prometeu” é ouvido sob as densas texturas vocais e instrumentais. Abaixo até mesmo das vozes murmurantes, um latão ou um sopro de madeira às vezes começa a ranger como uma porta quebrada ou um animal perdido.

Em vez de desenvolver uma ideia musical clara, Nono permanece em fragmentos de ideias melódicas, acordes únicos ou ritmos curtos antes de passar a algo novo. Mais tarde, ele descreveu Prometeu como um arquipélago de contradições musicais. Foi um arquipélago que explorou em sua busca por uma nova luta, uma nova resolução para o problema da “vida real [sendo] muito mais avançada do que a realidade política”.

Reflexão prospectiva

Nono permaneceu um membro ativo do PCI até sua morte, em 1990. E seu trabalho reflexivo não é politicamente agnóstico. Pelo contrário, é uma reflexão explicitamente marxista, caracterizada pelos textos com os quais ele estava envolvido na época, particularmente o trabalho de Walter Benjamin. Para Nono, continuar a agitar-se pelo futuro socialista era inútil em um mundo onde as forças dedicadas a criá-lo haviam sido derrotadas. Sem uma luta clara para se comprometer, sua música não poderia transcender as oposições dialéticas que ele via como endêmicas para a arte. Em vez disso, passou a acreditar que envolver-se com o momento atual significava refletir sobre essas duas oposições e por que a luta para transcendê-las artística e politicamente fora derrotada. Ele estava especialmente preocupado com a contradição entre o futuro aparentemente sombrio e as lutas heroicas do passado, uma atitude artística que chamou de “nostalgia pelo futuro”.

Durante os últimos anos de sua vida, Nono ficou obcecado com uma citação que viu pintada a spray na lateral de um mosteiro durante uma viagem em 1985 a Toledo, na Espanha. Era uma frase do poeta republicano espanhol Antonio Machado: “Viajantes, não há caminho para viajar, só se viaja”. A citação falava claramente da posição de Nono como músico-ativista em busca de uma causa. Durante a meia década seguinte, ele compôs cinco peças inspiradas por essa ideia. Mas, apesar da dura realidade política, Nono nunca foi um derrotista. Em vez disso, ele se deleitava examinando os atos de exploração e reflexão, esperando que a solução, a luta, acabasse se revelando.

Em 8 de maio de 1990, Luigi Nono faleceu em sua casa no Zaterre al Ponte Longo, em Veneza, aos 64 anos. 

No ano passado foi publicada uma coleção traduzida para o inglês dos escritos de Nono, apropriadamente intitulada Nostalgia para o Futuro. Para artistas de esquerda, ele oferece uma estrutura para criar e julgar a arte politicamente comprometida. Isso é desesperadamente necessário em um mundo que está começando a emergir da imaginação política do realismo capitalista. Embora o fim da hegemonia neoliberal seja animador, as catástrofes econômicas e climáticas assombram o renovado movimento socialista. Cabe aos artistas socialistas criar uma cultura de esquerda robusta que possa apoiar um movimento suficientemente forte para mudar radicalmente as nossas possibilidades políticas e sociais, se quisermos evitar a crise vindoura. Nono estava totalmente comprometido com as duas maiores lutas que ocorreram durante sua vida. Os artistas socialistas de hoje recusam ser assim tão comprometidos. Quando perguntado sobre sua razão para fazer música, Nono foi absolutamente claro: “A batalha contra o fascismo e o imperialismo é o meu propósito na vida”.

Sobre o autor

Jackson Albert Mann é um ativista, músico, e escritor de Boston, MA. He is a teaching artist at Berklee College of Music’s city music program, an adjunct professor of music at Bunker Hill Community College, and a member of the MCCC Teachers Union. He is also an active member of the Boston Democratic Socialists of America.

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