29 de julho de 2019

Por uma Coreia pacífica e unida

George Burchett

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Monumento de Kim Il Sung, Mt Paektu, RPDC. Foto George Burchett.

Tradução / Acompanhei ao vivo pela TV todos os três encontros entre os presidentes Kim Jong Un e Donald Trump. O primeiro em Singapura em 12 de junho de 2018, o segundo em Hanói (onde vivo) entre 27 e 28 de fevereiro de 2019 e o último na zona desmilitarizada em 30 de junho de 2019.

Os três encontros foram momentos de grande expectativa e motivo de um otimismo cauteloso.

No entanto, todas as vezes eu também me recordei do que o presidente Kim Il Sung – avô do presidente Kim Jong Un – disse para o meu pai, jornalista australiano Wilfred Burchett em Pyongyang, quando eles se encontraram pela primeira vez em maio de 1967. É assim que meu pai relata esse encontro em seu livro Again Korea:

“‘Volte e nos visite de novo’, disse meu anfitrião. ‘Traga a sua esposa para passar umas férias aqui. Mas o aconselho voltar logo caso queira ver nosso país como está agora.’ Ele acenou com a mão na direção da janela que dava para uma larga avenida arborizada, com novos prédios e lojas. ‘É possível que tudo isso esteja destruído se a guerra deflagrar. Digo para os meus camaradas que eles não deveriam achar que podem manter os nossos belos teatros e coisas como elas estão agora; eles devem entender que, enquanto o imperialismo existir, a guerra pode deflagrar de novo. Especialmente enquanto a unificação do nosso país não for alcançada, as coisas podem ser destruídas de novo.’ Meu anfitrião foi o primeiro-ministro Kim II Sung da Coreia do Norte; o lugar, Pyongyang; e a data, 20 de maio de 1967. (Wilfred Burchett, Again Korea, 1969)

Constato que o presidente Kim Il Sung não especificou qual imperialismo quando ele alertou “enquanto o imperialismo existir, a guerra pode deflagrar de novo”. Ele tinha bastante propriedade para saber uma coisa ou outra sobre o imperialismo, tendo lutado com sucesso contra os imperialistas japoneses que ocuparam a Coreia e os imperialistas ianques e seus lacaios tentando aniquilar a Coreia do Norte, ocupando a Coreia do Sul e mantendo a Península Coreana dividida até hoje.

Dos escombros deixados pela Guerra da Coreia, a população da RPDC, sob a liderança do presidente Kim Il Sung, construiu um Estado socialista moderno e próspero. Desde a sua criação, esse Estado socialista, a República Popular Democrática da Coreia, tem armas nucleares dos EUA apontadas para si através do Sul, estando sob constante ameaça de aniquilação. Não vamos esquecer que, antes do histórico encontro em Singapura, Donald Trump também estava ameaçando a Coreia do Norte com “fogo e fúria” caso não cumprisse as imposições dos EUA.

Em 13 de abril de 2012, junto a delegados de diversos países, tive o privilégio de visitar o monte Paektu, em razão do 100º aniversário de nascimento do presidente Kim Il Sung. A paisagem é de tirar o fôlego. Para tornar tudo ainda mais dramático, fomos recebidos por uma forte tempestade de neve para nos lembrar das duras condições sob as quais o presidente Kim Il Sung e seus camaradas batalharam sua heroica guerra ou resistência contra os imperialistas japoneses e seus colaboradores locais.

Dois dias depois, em 15 de abril de 2012, eu estava na praça Kim Il Sung assistindo ao desfile militar para a celebração. Estava de pé ao lado do nosso intérprete, a pequena e sempre elegante Sra. Liu. Ela tinha me contado mais cedo que tinha cumprido o serviço militar em uma unidade de artilharia. Quando artilharias pesadas desfilavam diante da gente, eu ficava perguntando: “Você estava nesta unidade?”. Por fim, surgiu uma artilharia pesada realmente grande, e eu perguntei novamente: “Nesta?”. E ela disse: “Sim!”. O que me fez refletir sobre quantas Sra. Liu estavam prontas e preparadas para tomar essas armas pesadas em defesa da Pátria Mãe delas, inspiradas pelo exemplo heroico da geração de revolucionários liderados pelo presidente Kim Il Sung?

Naquela mesma ocasião, o presidente Kim Jong Un fez seu primeiro discurso público. Foi um momento de grande e notória emoção para as pessoas reunidas naquela praça e, sem dúvidas, para todos norte-coreanos, que pela primeira vez ouviram a voz de seu novo jovem líder.

Hoje, o presidente Kim Jong Un é saudado até mesmo pelo presidente dos Estados Unidos da América como um grande e sábio líder de seu povo, além de “amigo pessoal”. Quem acreditaria nisso em 2012? Não muitos, é certo.

Visitei a RPDC pela primeira vez em setembro de 2002 com meu filho Graham. Tínhamos chegado de Sydney, Austrália, onde morávamos naquela época. Tenho de confessar que estava um pouco apreensivo. Tenho vivido na Austrália desde 1985 e tive de aguentar uma interminável e prolongada campanha de demonização contra meu pai, Wilfred Burchett. Ele nunca foi perdoado pelo sistema político australiano e seus meios de comunicação por reportar, a partir do lado norte-coreano-chinês, as negociações de cessar-fogo para acabar com a Guerra da Coreia. Alguns ainda o denunciam como “um traidor moral da civilização ocidental”. Além de tudo, ele também reportou a Guerra do Vietnã a partir do lado “comunista”. A Austrália lutou em ambas as guerras ao lado dos EUA. Mas isso é uma outra história...

Em 2002, quando meu filho e eu viajamos, a RPDC estava saindo de um período de extrema miséria por conta de uma combinação de fatores adversos. Mas, quando estávamos lá, havia também uma grande esperança em normalizar as relações com os EUA e o Japão. A ex-secretária de Estado dos EUA, Madeleine Albright, visitou a RPDC e falou favoravelmente sobre o presidente Kim Jong Il. O primeiro-ministro do Japão, Koizumi, também visitaria Pyongyang para normalizar as relações entre os dois países. O presidente da Coreia do Sul, Kim Dae-jung, estava seguindo sua Política do Sol de apaziguamento com a Coreia do Norte. Então, George W. Bush declarou a Coreia do Norte como parte do “eixo do mal” e todas as relações mergulharam em um congelamento profundo novamente. Um “congelamento profundo” que durou bastante até a cúpula histórica de junho de 2018 entre os presidentes Kim Jong Un e Donald Trump.

Três gerações de líderes da RPDC tiveram, então, de enfrentar o “imperialismo” – Kim Il Sung, Kim Jong Il e Kim Jong Un.

Apenas o presidente Kim Il Sung teve de lutar militarmente contra os imperialismos japonês e estadunidense. Ele obteve sucesso nessa empreitada, para toda a Coreia, do Norte e do Sul. Alguém poderia imaginar que ambos os imperialismos tirariam alguma lição útil dessas derrotas. Mas temo que isso continue sendo apenas um pensamento esperançoso. Se a história nos ensina alguma coisa, é que o imperialismo se alimenta de guerras e destruição tal como um vampiro se alimenta de sangue. Lênin escreveu em 1917: o imperialismo é a fase superior do capitalismo. E a história confirma que ele estava certo.

Antes de encerrar este ensaio, gostaria de citar novamente uma passagem do livro do meu pai, Again Korea:

“Dirigindo de volta para casa ao longo da estrada de concreto que leva ao aeroporto, passando pelos edifícios reluzentes de Pyongyang, o ar pesado com o cheiro de flores de acácia, admirando novamente as aldeias brancas e cinzentas, os campos cuidadosamente tratados com arroz densamente plantado, meus pensamentos não podiam senão voltar-se para o aviso de Kim II Sung de que tudo poderia ser destruído em breve. Lembrei a solução para o Vietnã proposta pelo ex-chefe do Comando Aéreo Estratégico dos EUA , general Curtis LeMay: ‘Vamos bombardeá-los de volta à Idade da Pedra’. Então percebi quão certo o primeiro-ministro Kim está em preparar o país organizacional e psicologicamente para mais destruição. Mas também notei quão errado estava LeMay. Você pode bombardear o povo vietnamita e coreano para debaixo da terra, mas não pode bombardeá-los de volta à ‘Idade da Pedra’. Você não pode bombardear da existência as sólidas qualidades técnicas, intelectuais e morais adquiridas durante anos de construção e vida do socialismo. O que moralistas da idade da pedra como LeMay gostariam de bombardear até desaparecer da existência é indestrutível. Se o que foi construído na Coreia do Norte for destruído novamente, o ‘pomar abundante e frutífero’ florescerá mais rápido do que nunca. E da próxima vez se espalhará por todo o país”.

Em 1992, Francis Fukuyama proclamou “o fim da história” e o triunfo do “liberalismo” do livre mercado sobre “coletivismo” do Estado socialista ao estilo soviético. Quase três décadas depois, a RPDC provou que ele está errado. A Coreia do Norte continua sendo um orgulhoso Estado socialista que se mantém firme contra as ameaças dos autoproclamados donos do mundo. Não apenas isso – mas de repente o “socialismo” parece atraente novamente para as sociedades ocidentais que enfrentam miséria e desigualdades econômicas crescentes, disfuncionalidades sociais, guerras intermináveis, terrorismo e assim por diante.

O mundo agora olha para a RPDC com um respeito renovado. Esse respeito suado foi conquistado graças à liderança forte e sábia dos camaradas Kim Il Sung, Kim Jong Il e Kim Jong Un, que, nas circunstâncias mais difíceis, conseguiram não apenas defender seu país, mas também orientá-lo para um futuro brilhante e próspero.

Todas as pessoas progressistas e amantes da paz em todo o mundo só podem sinceramente desejar que o futuro próximo veja a Coreia reunida pacificamente e todos os coreanos unindo forças para construir uma Coreia forte, orgulhosa, independente e próspera. E se eu puder terminar com uma nota pessoal, acredito que somente o povo da Coreia, por sua vontade e esforços em comum, pode fazer isso acontecer, apesar de todos os esforços dos “imperialistas” para mantê-los separados e em constante estado de conflito.

Portanto, todos nós que apoiamos uma Coreia unida e pacífica temos muito trabalho a fazer. Há agora alguns vislumbres de esperança no horizonte – e devemos nos certificar de que a chama da esperança continue brilhando, cada vez mais intensamente, até que ilumine a todos nós, tal como o brilho do sol. Isso, tenho certeza, também seria o desejo do presidente Kim Il Sung e do camarada Kim Jong Il, que passaram o bastão para seu neto e filho, o presidente Kim Jong Un, que há poucos dias convidou Donald Trump para pisar no território norte-coreano, fazendo dele o primeiro presidente dos EUA em exercício a pisar em solo norte-coreano. Esperemos que esses poucos passos levem a passos mais firmes em direção à paz e à reunificação.

O modelo dos EUA do governo "soberanista"

Manlio Dinucci


O Presidente do Conselho, Giuseppe Conte, falou na XIII Conferência de Embaixadores e Embaixadoras da Itália no mundo que se realizou no Farnesina.

Tradução / Embora a oposição ataque sempre o governo e existam divergências no seio do próprio governo, em todo o arco parlamentar não se ergueu uma única voz, quando o Primeiro Ministro Conte expôs as linhas de orientação da política externa, na Conferência dos Embaixadores (em 26 de Julho), o que prova o amplo consenso multipartidário.

Conte definiu, antes de tudo, qual é o fundamento da posição da Itália no mundo: “O nosso relacionamento com os Estados Unidos continua qualitativamente diferente do que temos com outras Potências, porque é baseado em valores, em princípios partilhados, que são o próprio fundamento da República e parte integrante da nossa Constituição: a soberania democrática, a liberdade e a igualdade dos cidadãos, a salvaguarda dos direitos humanos fundamentais”. 

O Primeiro Ministro Conte não só reitera que os EUA são o nosso “aliado privilegiado”, como também afirma um princípio orientador: a Itália considera os Estados Unidos como um modelo de sociedade democrática. 

Uma mistificação histórica colossal.

No que diz respeito à “liberdade e à igualdade dos cidadãos”, basta lembrar que os cidadãos americanos ainda hoje são oficialmente registados com base na “raça” - brancos (distintos entre não hispânicos e hispânicos), negros, índios americanos, asiáticos, nativos havaianos - e que as condições de vida médias dos negros e dos hispânicos (latino-americanos pertencentes a todas “raças”) são, de longe, as piores.

No que diz respeito à “salvaguarda dos direitos humanos fundamentais”, basta lembrar que nos Estados Unidos mais de 43 milhões de cidadãos (14%) vivem na pobreza e cerca de 30 milhões não possuem plano de saúde, enquanto muitos outros possuem seguro de saúde insuficiente (por exemplo, para pagar uma longa quimioterapia contra um tumor).

E no que diz respeito à “salvaguarda dos direitos humanos”, basta recordar os milhares de negros desarmados, assassinados impunemente, por polícias brancos.

No que diz respeito à “soberania democrática”, basta recordar a série de guerras e golpes de Estado, efetuados pelos Estados Unidos, desde 1945 até hoje, em mais de 30 países asiáticos, africanos, europeus e latino-americanos, causando 20-30 milhões de mortes e centenas de milhões de feridos (ver o estudo de J. Lucas apresentado pelo Prof Chossudovsky em Global Research).

Estes são os “valores partilhados” sobre os quais a Itália baseia a sua relação “qualitativamente diferente” com os Estados Unidos. E, para demonstrar como ela é profícua, Conte assegura: “Encontrei sempre no Presidente Trump, um interlocutor atento aos legítimos interesses italianos". Interesses que Washington considera “legítimos” enquanto a Itália permanecer associada à OTAN, dominada pelos EUA, seguir os EUA, de guerra em guerra, aumentar a sua despesa militar, a seu pedido, colocar o seu território à disposição das forças e bases dos EUA, incluindo as nucleares.

Conte procura fazer crer que o seu governo, habitualmente designado como “soberanista”, tem um amplo espaço autônomo de “diálogo com a Rússia com base na abordagem da OTAN de duplo via” (diplomático e militar), uma abordagem que, na realidade, segue a via única de um confronto militar cada vez mais perigoso.

A este respeito - refere La Stampa - o Embaixador dos EUA, Eisenberg, telefonou ao Vice Presidente Di Maio (considerado por Washington o mais “confiável”), pedindo esclarecimentos sobre as relações com Moscou, em particular do Vice Presidente Salvini (cuja visita a Washington, apesar dos seus esforços, teve um “resultado decepcionante”).

Não se sabe se o governo Conte vai passar no exame. Sabe-se, no entanto, que prossegue a tradição, segundo a qual, na Itália, o governo deve ter sempre a aprovação de Washington, confirmando qual é a nossa “soberania democrática”.

Não há futuro para as empresas privadas de patinetes

Não importa se você ama ou odeia os patinetes que entopem as calçadas de muitas cidades ao redor do mundo, uma coisa está clara: os termos do seu uso precisam ser decididos democraticamente, pelo público.

Paris Marx


Pessoas usando patinetes elétricos da Bird na praia de Venice, em Los Angeles, nos EUA. (Foto por Mario Tama/Getty)

Tradução / Durante décadas os carros dominaram as ruas, relegando os pedestres e ciclistas às beiradas e calçadas. Porém, nos últimos anos, as pessoas têm se cansado da irritação do trânsito e das dificuldades para comprar e manter um carro. As cidades estão aumentando o investimento em ruas, ciclovias e infraestrutura para pedestres – mas nenhuma tentativa de enfrentar esses desafios tem sido mais visível do que os patinetes elétricos.

Há quase dois anos, os patinetes elétricos sem local definido para devolução começaram a aparecer nas calçadas das principais cidades dos Estados Unidos e se espalharam pela Europa, Ásia, Austrália, América Latina e etc.. Na maioria das cidades estadunidenses, as empresas nem se deram ao trabalho de obter licenças ou verificar se seus serviços seriam legais; elas simplesmente espalharam seus patinetes, provocando o que alguns jornalistas apelidaram de “guerras dos patinetes“.

As cidades entraram em colapso para atualizar suas leis e implementar programas de licenciamento porque moradores passaram a reclamar de patinetes bloqueando as calçadas (uma questão essencial para a acessibilidade dos usuários de cadeiras de rodas e pessoas com todos os tipos de dificuldades de mobilidade, além de pedestres tentando usar as calçadas); de usuários de patinetes que os atropelavam enquanto estavam caminhando e dos próprios patinetes não serem confiáveis e causarem acidentes. Os patinetes têm acelerado um debate sobre o futuro das ruas, mas a sua imposição sobre o espaço público tem sido preocupante. À medida que mais detalhes são divulgados sobre o modelo econômico das empresas de patinetes, fica claro que elas eventualmente terão de se tornar um serviço público se quiserem sobreviver – uma mudança que garantirá às cidades mais controle sobre elas.

Viés elitista
Não são só os patinetes; as empresas de tecnologia têm se tornado muito interessadas em todas as formas de transporte. Nas cidades por todos os cantos, a Uber e seus pares de “corrida” pioraram os congestionamentos, aumentaram as viagens de veículos e declararam guerra ao trânsito. A solução eventual da Uber será começar a oferecer carros voadores para as pessoas escaparem do problema (que ela ajudou a levar até o ponto de ruptura, em primeiro lugar), enquanto Elon Musk quer enviar carros por um sistema de túneis subterrâneos, porque qualquer futuro que não envolva todo mundo em veículos pessoais está simplesmente fora do reino da possibilidade para o “maior gênio do mundo”.

Essas visões de futuro estão limitadas pela posição elitista das pessoas que as imaginam. O consultor de transportes Jarret Walker chama a incapacidade das companhias de tecnologia de aceitar que as restrições espaciais das cidades não podem ser resolvidas apenas por tecnologia um exemplo de “projeção elitista“: a incapacidade de reconhecer que o que funciona melhor para eles pode não funcionar se for usado por todo mundo. Elon Musk respondeu o chamando de idiota. Esta, porém, não é a primeira vez que as pessoas que levam em frente a narrativa sobre os transportes não são capazes de reconhecer seus próprios preconceitos.

Num ensaio visionário de 1973, o filósofo social André Gorz descreveu o automóvel como um item de luxo cuja promessa de velocidade não poderia funcionar quando todos tivessem o seu: “Tendo prometido a todos que poderiam ir mais rápido, a indústria automobilística acaba tendo o resultado implacavelmente previsível de fazer com que todo mundo tenha de seguir tão lentamente quanto o mais lento no caminho, a uma velocidade determinada pelas leis simples da dinâmica dos fluidos.” Apesar de décadas construindo novas estradas e alargando as rodovias, o problema do congestionamento não pôde ser resolvido, porque cada tentativa de solução simplesmente atrai mais e mais carros.

O uso do automóvel em massa, escreveu Gorz, é “um triunfo absoluto da ideologia burguesa”, porque “sustenta em todos a ilusão de que cada indivíduo poderia buscar seu próprio benefício, às custas de todos os outros”. Depois de destruir as alternativas e de matar a cidade para abrir espaço para os carros, as pessoas ficaram sem alternativas. Entretanto, depois de várias décadas desse status quo, a maré está se voltando contra a o uso do automóvel.

As decisões sobre o aspecto desse futuro não podem, no entanto, simplesmente ser deixadas para outro grupo de bilionários distantes, motivados pelo acúmulo de capital e não pelo que seria melhor para promover comunidades justas e habitáveis.

O modelo de “compartilhamento” de patinetes privados não funciona
O afluxo de patinetes não foi um desastre completo. Eles forçaram um debate importante sobre o espaço público e sobre quem deve ter direito à rua – e facilitaram que milhares de pessoas experimentassem bicicletas e patinetes elétricos como alternativa aos seus padrões atuais de deslocamento. O resultado, porém, não pode ser simplesmente deixarmos que as empresas de patinetes definam os parâmetros, o que inevitavelmente privilegiará a expropriação de infra-estrutura pública para que elas obtenham lucros privados, como as empresas de “caronas” seguem fazendo.

Mesmo que essas empresas queiram que as pessoas pensem que não é assim, a viabilidade de longo prazo dos serviços privados de patinetes e bicicletas eletrônicas sem local de retorno levanta suspeitas. Assim como a Uber continua perdendo grandes somas de dinheiro mesmo dez anos após sua fundação, sem perspectivas de lucratividade no futuro previsível, as empresas de patinetes também têm lutado para fazer suas finanças fecharem – mas isso já em um estágio muito anterior de suas existências.

Empresas de patinetes como a Bird e a Lime conseguiram levantar centenas de milhões de dólares em capital de risco, mas estão queimando esse dinheiro, e os investidores não têm sido tão generosos com suas carteiras quanto têm sido com a Uber. O CEO da Bird, Travis VanderZanden, disse que embora o foco para 2018 tenha sido crescer em escala, 2019 seria sobre melhorar sua economia por unidade, mas não está claro quão bem sucedidos eles têm sido nisso. Os patinetes são notórios pela curta expectativa de vida das suas frotas.

VanderZanden disse anteriormente que os patinetes precisariam durar seis meses na frota da Bird para que as contas da empresa atinjam um ponto de equilíbrio, e mesmo que ele afirme que os modelos mais novos e robustos durarão de dez a doze meses, os dados independentes não dão sustentação às afirmações dele. Patinetes da Bird em Louisville, nos EUA, duraram uma média de apenas 28,8 dias entre agosto e dezembro de 2018, e 126 dias entre janeiro e abril de 2019, em Los Angeles – muito abaixo do que seria necessário.

Pior ainda, os dados de Los Angeles mostram que o mais novo modelo de patinetes nas ruas naquele momento, o Bird Zero, tinha uma vida útil menor do que a média de apenas 116 dias. A Lime vem tendo problemas semelhantes, com o seu mais novo modelo, o Gen 3, sofrendo problemas de manutenção significativos, que podem tornar ilusória a esperada redução de custos. Mesmo com as promessas de patinetes mais duráveis, a Bird subiu os preços em várias cidades em abril, criando novas dúvidas sobre se a sua estratégia de produto vem funcionando como esperado.

As coisas não andam muito melhores para as bicicletas sem ponto de devolução. A Jump, uma subsidiária da Uber, também tem aumentado seus preços recentemente, chegando a dobrá-los de $0,15 para $0,30 por minuto em Los Angeles. Esses preços não se comparam aos $1,75 por 30 minutos ou $ 17 por mês para todos os passeios com menos de 30 minutos do sistema público de compartilhamento de bicicletas L.A. Metro, que tem acrescentado mais bicicletas e que permite, em algumas partes da cidade, que elas sejam cadeadas em racks de bicicletas ao invés de entregues em docas de devolução.

Para qualquer um que os use regularmente, esses serviços privados já são mais caros do que os sistemas públicos existentes, e esses aumentos de preço só os tornarão mais como um produto de nicho – num momento em que as empresas ainda não conseguem cobrir seus custos. Dados públicos de Austin, nos EUA, mostram que asviagens diárias por patinete estão diminuindo e que 80% do uso está concentrado em uma região com apenas 10% da população.

Assim como com os serviços de “carona”, seus preços inevitavelmente terão de subir ainda mais para alcançar a lucratividade, os colocando fora do alcance da maioria dos moradores. O modelo privado simplesmente não funciona.

Mobilidade pública para cidades justas
Se for para o aluguel de patinetes ter algum futuro, inevitavelmente eles terão de ser integrados nos sistemas públicos de compartilhamento de bicicletas por meio de um modelo híbrido baseado primariamente em docas de devolução, mas que permita o uso sem ponto de devolução em áreas sem boa cobertura de docas. Isso terá de ser acompanhado por um plano para a expansão da infra-estrutura para que bicicletas e patinetes possam ser usados sem incomodar os pedestres, o que significará tomar espaço das ruas e de estacionamento que hoje são alocados para os carros. (Também seria bom se essas transformações fossem acompanhadas por uma campanha de educação pública para convencer os usuários de patinetes a não usá-los feito idiotas.)

Apenas pintar no chão alguns quadrados onde as empresas privadas possam deixar seus veículos sem ponto de devolução não é uma medida suficiente – e aborda a presença dessas empresas como se fosse um fato consumado. Essas empresas vão se valer do mantra neoliberal para dizer que esse serviço, assim como tantos outros serviços públicos urbanos, deveria ser deixado para o mercado privado. Porém, elas já provaram que não colocam as prioridades do público acima de seus próprios objetivos de dominação de mercado e de captura do espaço público. Ela já provaram que não parceiras, mas invasoras do espaço público.

Pode ser, no entanto, que fique comprovado que os patinetes não funcionam bem como frota, seja ela pública ou privada – e as cidades não devem hesitar em restringir ainda mais esses serviços em favor da propriedade individual, se for esse o caso. Os preços crescentes dos serviços de patinetes sem ponto de atracação já estão incentivando os usuários regulares a comprar os seus próprios patinetes, já que seus preços começam em poucas centenas de dólares e são mais portáteis que uma bicicleta. Poderiam ser criados incentivos para a compra de patinetes e bicicletas elétricos; os últimos já se provaram populares na Suécia e em breve serão oferecidos no estado canadense da Colúmbia Britânica para pessoas que abandonem seus carros.

A propriedade individual não deve ser vista como um fracasso. As plataformas tecnológicas têm adotado um modelo de negócios rentista “em que um proprietário de um ativo cobra dos outros o acesso a esse ativo, assim como um proprietário cobra dos inquilinos para lhes alugar uma casa que o proprietário possui”, e o “compartilhamento” de patinetes não é exceção. Incentivar a propriedade de bicicletas e patinetes para usuários regulares seria o preferível, pois eles duram muito mais tempo e estarão sempre disponíveis para o proprietário – não importa se isso não se alinha com as preferências dos capitalistas do Vale do Silício.

Uma transição para longe da dominação do automóvel é necessária não apenas para atingirmos nossos objetivos ambientais, mas para criarmos cidades mais eqüitativas, realocando o espaço das ruas que atualmente vem sendo capturado por carros para transporte ativo e espaços públicos urbanos, como Oslo realizou, ao remover a maior parte das vagas de estacionamento nas ruas e restringir uso de veículos no seu núcleo central.

As empresas de patinetes ajudaram a acelerar essa discussão, mas seu modelo privado tem as prioridades erradas, o que torna essencial um sistema público expandido e controlado democraticamente. No entanto, a mobilidade pública deve estar inserida em um programa socialista mais amplo para as cidades, a fim de garantir que a melhoria das condições de vida não resulte simplesmente numa gentrificação que empurre para subúrbios dependentes de automóveis aqueles que teriam mais a ganhar com essas melhorias. A mobilidade é apenas um dos aspectos para a criação de cidades para todos – e não apenas para aqueles que podem arcar com os preços em disparada dos aluguéis urbanos.

Sobre o autor

Paris Marx é um escritor socialista e urbanista. Ele é o editor do Radical Urbanist e já escreveu para a NBC News, CBC News e Toronto Star.

26 de julho de 2019

"Há razões para o otimismo"

Noam Chomsky

Entrevistado por John Nichols

Catalyst

Foto: Kevin Lamarque/Reuters

Tradução / 7 de dezembro é, como Franklin Delano Roosevelt explicou em 1941, “uma data que se viveria na infâmia”. É também o aniversário de Noam Chomsky. Quando o ataque japonês a Pearl Harbor ocorreu, Chomsky tinha treze anos de idade. Como resultado de uma série de discussões que tivemos antes e depois de seu nonagésimo aniversário, em 7 de dezembro de 2018, esse detalhe da sua infância é particularmente significativo para o homem que, em muitos sentidos, definiu a compreensão moderna do que é ser um intelectual público comentando sobre questões globais na época da sua adolescência. A entrevista a seguir foi conduzida por John Nichols em coordenação com a Catalyst. Chomsky aborda a ascensão da extrema-direita hoje, relacionando-a ao fascismo entre guerras, e então passa para uma discussão mais ampla sobre a conjuntura.

John Nichols: Quando tinha dez anos de idade, escreveu um pequeno artigo sobre as suas preocupações sobre a ascensão do fascismo. Estava a escrever após a queda de Barcelona no regime fascista de Francisco Franco, nos últimos dias da Guerra Civil Espanhola. Os americanos que lutaram naquela guerra, como membros da Brigada Abraham Lincoln, foram desacreditados como “antifascistas prematuros”, ao ousarem erguer armas contra os aliados de Hitler e Mussolini antes da entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial, em 8 de dezembro de 1941. Aos dez anos de idade aliou-se aos antifascistas. Lembra-se do artigo?

Noam Chomsky: O artigo foi para o jornal do quarto ano da escola. Eu era o editor e o único leitor e, pelo que me lembro, talvez a minha mãe. Por sorte, ela não salvou nada do jornal. Tenho certeza que seria bastante embaraçoso para mim. Tudo de que me lembro é a primeira frase, que descreve o meu pensamento na época: “a Áustria caiu, a Checoslováquia caiu, Toledo caiu e agora Barcelona também”.

Eu estava a escrever depois da queda de Barcelona, ​​em fevereiro de 1939, e pareceu, na época, que a disseminação do fascismo era inexorável. Nada iria parar isso. O artigo descrevia o que estava a acontecer no mundo, algo assustador. Eu tinha idade suficiente para ouvir os discursos de Hitler nos comícios de Nuremberg – sem entender as palavras, mas era fácil perceber o tom daquilo. Podia ver o que estava a acontecer enquanto essa praga se espalhava por toda a Europa e parecia não ter fim.

Quando o regime em Barcelona desmoronou, isso não foi apenas o fim do estado democrático liberal espanhol, mas, para mim, o mais importante, foi o fim da revolução social. [A Guerra Civil Espanhola] Não foi apenas uma simples guerra entre o fascismo e a democracia liberal; houve uma incrível revolução social em grande parte da Espanha e foi esmagada pelos esforços conjuntos dos comunistas, dos fascistas e das democracias liberais. Eles não concordaram muito entre eles, mas concordaram que a revolução social tinha que ser esmagada. Barcelona foi apenas o último símbolo naquele momento. As pessoas simplesmente fugiram para a França quando podiam escapar.

John Nichols: Ficou claro para si que uma guerra maior estava a chegar?

Noam Chomsky: Bem, como eu disse, parecia impossível de ser parado. Ia-se espalhar por toda a Europa, pelo mundo. Aprendi muito mais tarde que aqueles que planeavam as políticas dos Estados Unidos já estavam a reunir-se: o Departamento de Estado e o Conselho de Relações Exteriores – além de grupos a trabalhar sobre como seria a guerra e o período pós-guerra.

Nesta altura, em 1939, eles já estavam a antecipar que a guerra terminaria com uma divisão entre dois mundos: um dominado pelos EUA e outro dominado pelos alemães. Esse foi o cenário. Então, a minha perceção infantil não era totalmente irrealista.

John Nichols: A sua perceção foi influenciada pela sua própria experiência, ao crescer em Filadélfia?

Noam Chomsky: Foi influenciada por experiências locais. Passámos a ser a única família judia num bairro predominantemente alemão e irlandês. Os irlandeses odiavam os ingleses, alemães gostavam dos alemães e assim por diante… lembro-me bem de festas com cerveja quando em Paris o regime caiu. As crianças do bairro foram para uma escola jesuíta local. Odeio pensar o que era ensinado lá, mas elas saíram delirantemente antissemitas da escola. Levava algumas horas para essas crianças se acalmarem para que pudéssemos jogar à bola na rua.

Por isso, combinou experiências pessoais, que, aliás, nunca mencionei aos meus pais. Eles não tinham ideia sobre isso até o dia das suas mortes. Naquela época não falávamos com os nossos pais sobre essas coisas. Isso é pessoal. Mas foi uma combinação dessas coisas que levaram a esse [artigo].

John Nichols: Com a experiência de comentar sobre o fascismo por oitenta anos, qual é o entendimento de onde estamos hoje? Há uma grande discussão sobre fascismo e ameaças fascistas. Pilhas de livros estão a ser escritas sobre o assunto. Como devemos pensar sobre o que está a acontecer agora?

Noam Chomsky: Bem, estou um pouco relutante em usar a palavra “fascismo”. É usado de forma bastante frouxa agora. É usado para se referir a qualquer coisa horrível. Mas o fascismo realmente significava algo nos anos trinta. De facto, vale a pena lembrar que mesmo a opinião liberal tinha uma espécie de apreciação moderada do fascismo. Assim, por exemplo, Roosevelt descreveu Mussolini, o fascista original, como “aquele admirável cavalheiro italiano”.

Os fascistas tinham conseguido esmagar o movimento trabalhista e a esquerda social-democrata e comunista, e isso era algo em que a opinião do Ocidente era bastante favorável. Os industriais ocidentais e o Departamento de Estado em 1937 descreviam Hitler como moderado e George Kennan, nosso cônsul em Berlim na época, e mais tarde um dos estadistas mais respeitados do pós-período, estava a escrever de Berlim dizendo que não deveríamos ser muito duros com essas pessoas. Há coisas erradas com elas, mas elas estão a fazer algumas coisas que são muito boas, então provavelmente podemos dar-nos bem com elas.

O fascismo foi entendido como algo diferente naquela época. Não era algo horrível. Tinha uma política social e económica específica. Era para ser um estado poderoso que coordenaria todos os setores da sociedade. Seria um estado de dominação; os negócios floresceriam, mas sob o controlo de um estado poderoso. O trabalho seria entendido como um subsidiário desse sistema geral. Não é o que chamamos de fascismo hoje.

John Nichols: Qual é o seu entendimento do que as pessoas chamam de fascismo hoje?

Noam Chomsky: O que é chamado de fascismo hoje é algo podre.

John Nichols: Essa é uma definição ampla.

Noam Chomsky: Definição ampla.

John Nichols: Existe algum lugar, quando olha ao redor do mundo atualmente [e eu sei que você faz isso] onde vê ameaças emergindo em termos concretos?

Noam Chomsky: Bem, acho que o Brasil talvez seja o caso mais extremo agora. O Brasil está nas mãos do novo presidente [Jair Messias Bolsonaro]. Bolsonaro assumiu a presidência. O Brasil, como você sabe, teve uma horrenda ditadura militar: tortura, assassinato. Bolsonaro elogia a ditadura militar. Na medida em que ele critica, diz que a ditadura militar no Brasil não matou pessoas suficientes. Para ele, a ditadura no Brasil deveria ter sido como a da Argentina, a qual teve o pior desse tipo de estado de segurança nacional neonazista. Eles mataram 30.000 pessoas.

Tem havido um golpe, um golpe de direita a acontecer no Brasil há vários anos. O primeiro momento disso foi o impeachment totalmente fraudulento da presidente Dilma Rousseff [antiga líder do Partido dos Trabalhadores]. Quando Bolsonaro votou pelo impeachment, ele dedicou o seu voto ao principal torturador do regime militar, que tinha sido pessoalmente responsável pela tortura de Dilma Rousseff. Esse é o tipo de pessoa que estão lá.

As políticas de Bolsonaro são essencialmente para acabar com a população indígena, para vender totalmente o país. O seu ministro da Economia, Paulo Guedes, é um ultra neoliberal da Escola de Chicago, que trabalhou no Chile sob o regime de Pinochet, e tem como objetivo, como ele disse: privatizar tudo, vender todo o país para investidores estrangeiros. Ele quer abrir a Amazónia para a exploração de mineração e para o agronegócio: uma espécie de sentença de morte para o mundo, já que a Amazónia é um dos principais pulmões do mundo.

John Nichols: Fale-nos sobre como Bolsonaro chegou ao poder.

Noam Chomsky: A forma como ele foi eleito é bastante significativa. Devemos prestar atenção a isso. Veremos mais disso na nossa próxima eleição nos EUA. É um tipo de experiência. A primeira coisa que fizeram foi ir atrás da pessoa que iria ganhar a eleição. Julgando pelas sondagens, Lula da Silva – ex-presidente que presidiu um período que o Banco Mundial chamou de Década de Ouro do Brasil, com redução substancial da pobreza, abertura de oportunidades educacionais para minorias, para outras pessoas – fez políticas bastante eficazes. Muitos erros também, mas ele foi, de facto, provavelmente a figura política mais respeitada do mundo. Ele também estava a apoiar o papel do Sul Global e o seu esforço para escapar do legado do colonialismo, que ainda era muito severo.

Então, o que eles fizeram com Lula da Silva, que estava à frente nas sondagens, [foi colocá-lo] na prisão por vinte e cinco anos, em confinamento solitário. Ele não podia ler nada e nem fazer declarações. Eu e a minha esposa, Valeria, visitámo-lo na prisão. Vinte e cinco anos de solitária, isso é essencialmente uma sentença de morte. Mas, crucialmente, ele não tinha permissão para fazer uma declaração – ao contrário dos assassinos no corredor da morte nos EUA, que têm permissão para falar. O seu neto favorito morreu e, depois de muitas negociações, eles permitiram que ele comparecesse ao funeral por uma hora, mas não podia dizer nada… Se ele sobreviver, vai ser incrível. Ele é definitivamente o prisioneiro político mais importante do mundo.

John Nichols: Referiu que existiu pouca atenção às circunstâncias de Lula na maioria dos meios de comunicação dos EUA. Ou, realmente, de Bolsonaro. Isso faz parte de um problema mais amplo com os media dos EUA que não cobrem o mundo? Mas está especialmente preocupado com a negligência do que está a acontecer no Brasil.

Noam Chomsky: Bolsonaro é o mais próximo de algo como o fascismo – não no sentido técnico, mas no sentido de amargo, vicioso, profundamente autoritário e brutal.

John Nichols: Como ele chegou ao poder não é apenas perturbador em si mesmo. É uma indicação de como a política está a mudar em todo o mundo.

Noam Chomsky: A forma como a eleição foi ganha – e é isso que eu tinha em mente ao dizer que poderíamos pensar – foi por uma incrível campanha nos media sociais, que é a única coisa que a maioria dos brasileiros tem como fonte da chamada “informação”. O WhatsApp Foi inundado com as mais inacreditáveis ​​mentiras, distorções, invenções sobre as coisas supostamente hediondas que o PT, a oposição, faria... Suspeito que na nossa próxima eleição, na qual Bernie Sanders está a concorrer [contra Trump na eleição de novembro] será o que vai acontecer. Estes são os tipos de acusações que não dá para responder. É apenas nojento, feio, vilificação. Já está a começar, por exemplo, com as acusações da direita sobre o “socialismo”.

Notei que, no discurso do Presidente Trump sobre o Estado da União, havia um longo solilóquio sobre o socialismo e, claramente, que se tornou uma grande pedra de toque para muitas das críticas de pessoas dentro do Partido Democrata. Há um punhado de socialistas democráticos que se levantaram no Partido Democrata: Bernie Sanders, Alexandria Ocasio-Cortez, Rashida Tlaib e outros. E assim há uma realidade que temos pela primeira vez em muito tempo: um aumento de uma presença democrático-socialista aliado ao nosso discurso.

John Nichols: Pode falar-nos sobre como o presidente e alguns dos seus aliados políticos podem-se aproveitar deste termo?

Noam Chomsky: Bem, devemos ter em mente que os EUA é um país muito isolado, cultural e intelectualmente. Quer dizer, no resto do mundo, socialista é um termo normal. Comunista é um termo normal. As pessoas podem ser comunistas, o Partido Comunista pode participar em eleições. Ser socialista é apenas ser uma espécie de pessoa moderna. Aqui nos Estados Unidos, o socialismo é uma palavra de maldição – então, chamar alguém de socialista significa que ela é um monstro total, como um nazi, talvez como Estaline. Mas isso é exclusivo dos Estados Unidos.

Veja Bernie Sanders. As suas posições não teriam surpreendido [o ex-presidente Dwight] Eisenhower. Lê as declarações de Eisenhower, quando sugeriu que qualquer um que questione o New Deal não pertence ao nosso sistema político. Ou que qualquer um que pense que os trabalhadores devem ter a oportunidade de formar livremente sindicatos – e devem voltar a ser massas amontoadas e patéticas do passado – simplesmente não fazem parte do mundo civilizado.

John Nichols: De facto, Eisenhower pronunciou o discurso de “Cruz de Ferro”, em 1953, no qual ele disse que todo o avião de guerra que construímos poderia ser dinheiro a ser usado para a construção de escolas. Isso soa muito parecido com um Bernie Sanders.

Noam Chomsky: O país moveu-se muito para a direita durante o período neoliberal, desde os anos Reagan – os anos Carter-Reagan. Então, quando essas pessoas que se autodenominam “socialistas democráticos” aparecem, elas voltam essencialmente a uma tradição que é bem parecida com o New Deal. É muito saudável, penso eu, mas não tem nada a ver com socialismo ou com o sentido tradicional da palavra. Lembre-se do que o socialismo significava uma vez. O socialismo significava, no mínimo, o controlo sobre a produção pela força de trabalho, o controlo sobre outras instituições pelos participantes, o controlo democrático sobre todo o sistema social e económico.

[A maioria dos proeminentes socialistas democráticos na política americana contemporânea] não está a reivindicar isso. Eles estão a chamar o que na Europa seriam medidas social-democratas moderadas – o que para os Estados Unidos é muito importante. Então, acho que é uma coisa muito boa. Mas será banalizado com tiradas de infâmia, demonização e denúncia. Pode ter certeza disso. E o que aconteceu no Brasil, penso eu, vale a pena ser visto como uma espécie de modelo experimental do que pode vir.

John Nichols: Se, por acaso, Bernie Sanders for indicado para presidente dos Estados Unidos, qual é o sentido de como essa campanha pode ser jogada? Correndo o risco de fazer de Noam Chomsky um comentarista... o que acha que aconteceria?

Noam Chomsky: Eu acho que ele vai ser submetido – e isso é verdade se ele concorre ou se qualquer outra pessoa como ele concorre – a uma campanha muito cruel, vulgar sobre media social, através de notícias, rádio etc. Lembre-se de que todos esses instrumentos foram tomados pela extrema direita. Eu ouço rádio de vez em quando. Isso é realmente chocante. Quero dizer, isso faz a Fox News parecer liberal, sabe? E isso atinge muitas pessoas. Rush Limbaugh tem audiência de 20 ou 30 milhões de pessoas, dizendo-lhes por exemplo que existem – qual é a sua famosa frase? Instituições que existem com base no engano: governo, media, academia e ciência. Ele está a dizer às pessoas: não acreditem numa palavra que provenha destas instituições. Coisas como esta estão a atingir uma grande parte da população americana.

John Nichols: Sempre nos lembrou que as elites colocaram grande energia em restringir e estreitar o discurso político.

Noam Chomsky: O ativismo social é considerado pela classe política e empresarial como um cancro. Se ficar maligno, eles pensam: tem que pará-lo à força. Mas é muito mais rentável, no caso de um cancro, preveni-lo. E [existem] todos esses meios para impedir o surgimento de movimentos sociais organizados que desafiarão os eventos que estão a ocorrer.

Desviar a atenção das pessoas para outras direções é outra maneira de o faze. Então, existem mensagens [de Trump e dos seus aliados] sobre as hordas de estupradores, assassinos, terroristas prestes a invadir a fronteira, nos atacar e nos destruir. Ok, então eles querem que prestemos atenção nisso e não ao facto de os nossos salários reais não terem aumentado em trinta anos, que estamos a perder benefícios, que o sistema político está a entrar em colapso ou ainda, que todo o ato feito pelo governo é um ataque à força de trabalho e aos pobres. A mensagem é: “Não olhem para isso. Olhem para essas pessoas que estão a atravessar a fronteira. Preocupem-se com os seus filhos ou qualquer outra coisa”.

Existem meios muito concretos para distrair as pessoas. Eles foram desenvolvidos por muitos anos e são, em grande parte, produzidos pela indústria de publicidade – uma das mais poderosas do país – e estão a ser aplicados agora para evitar que pessoas como você, especialmente os jovens, tenham a “ideia errada” de se organizar, de serem ativos e fazer o tipo de coisas que Ocasio-Cortez está a fazer. Eles tentam, de alguma forma, impedir que você inicie qualquer tipo de coisa.

John Nichols: Eles não parecem estar a ter grande, porque Ocasio-Cortez tem mais de 3,3 milhões de seguidores no Twitter. Ela e as outras parlamentares que foram eleitas para o Congresso estão a tornar-se estrelas políticas. Existe um fenómeno lá. A sondagem mostra que pessoas com menos de trinta anos têm opiniões positivas sobre o socialismo democrático – pelo menos em oposição ao capitalismo, como é praticado atualmente. Bernie Sanders concorreu a presidência muito bem em 2016 e parece estar muito bem agora, à medida que se aproximam as eleições de 2020. Então, não há alguma evidência de que os progressistas estão a surgir? Que uma mudança está a ocorrer?

Noam Chomsky: Bem, eu colocaria de outro jeito. É por causa dos efeitos da era neoliberal que está a perceber essa reação. Há uma reação em todo o mundo e é em duas direções. Às vezes é apenas alguma coisa que está a descrever. Às vezes é neofascista mesmo.

Há uma questão real agora sobre o caminho a seguir. Na Europa, nos Estados Unidos, e em alguns outros lugares há um tremendo aumento de raiva, amargura, ressentimento. E a questão é: o que ocorrerá?

Do ponto de vista das elites políticas e financeiras do mundo, a estratégia da atenção centra-se realmente em: “violadores a atravessar a fronteira”. Do ponto de vista de Ocasio-Cortez, ou Bernie Sanders, o desejo é que seja pautada a questão social e políticas económicas que foram instituídas e que estão a marginalizar as pessoas, colocando-as de lado, minando o sistema político.

Então isso é uma luta nos Estados Unidos e em toda a Europa também. Mas a raiva e a amargura estão presentes e os diferentes [atores políticos] querem que ela seja focalizada de maneiras opostas. Alguns querem que você desvie a atenção das causas, para que eles possam controlá-lo melhor. Outros querem que preste atenção às causas, assim pode fazer algo. Esta é uma grande luta que está a formar-se em grande parte do mundo. Quero dizer: o sistema capitalista assumiu uma espécie de forma selvagem nos últimos trinta ou quarenta anos. As pessoas estão a sofrer e estão irritadas, e estão a reagir.

A questão é: como as pessoas vão responder? A esse respeito, é um pouco como nos anos 1930. Poderia ter ido em outras direções. Assim, por exemplo, nas décadas de 1920 e 1930, haviam movimentos ativistas e movimentos social-democratas muito animados, comunistas e outros movimentos de esquerda. Haviam também movimentos fascistas em ascensão. E havia uma pergunta: quem vai ganhar? Infelizmente, sabemos como isso terminou. Eu não acho que é tão dramático hoje, mas é similar estruturalmente.

John Nichols: O grande parlamentar britânico, Tony Benn, disse que nos anos 1930, quando ele era jovem e olhava ao redor do mundo, havia países que poderiam ter ido em qualquer direção. Benn disse que uma das grandes coisas que aconteceu foi que os Estados Unidos conseguiram um Roosevelt, enquanto que, noutros países, figuras muito mais perigosas e destrutivas chegaram ao poder. Agora, encontramo-nos numa era diferente, mas certamente um momento muito turbulento. Estamos há trinta anos na globalização, que está a mudar tudo sobre como nos relacionamos com o mundo, estamos há vinte anos numa revolução digital que está a mudar tudo sobre como nos comunicamos, estamos oito a dez anos numa revolução de automação que está a começar a mudar a forma como trabalhamos. As pessoas são claramente abaladas por tudo isso. O meu sentimento é que o Partido Democrata nos Estados Unidos não forneceu muitas respostas sobre como lidar com essas mudanças. É uma avaliação justa?

Noam Chomsky: Bem, temos de nos lembrar que as duas partes reconstruíram ao longo de linhas bastante diferentes no início dos anos 70. Naquela época, houve uma grande mudança em todo o sistema socioeconómico. Passámos de um período de liberalismo encorporado, capitalismo arregimentado, onde as medidas do New Deal ainda estavam essencialmente a governar a política. Agora este foi um período de enorme crescimento. O período de maior crescimento na história Americana, os anos 50 e 60. Às vezes, é chamado de “Idade de Ouro do Capitalismo”. Era o crescimento igualitário em termos proporcionais. Houve conquistas em direitos civis e outros aspetos dos direitos humanos.

Isso acabou no início dos anos 70. Há uma regressão, o chamado período neoliberal seguiu direções muito diferentes e as partes mudaram. O Partido Democrata mantinha uma espécie de coligação desconfortável entre racistas democratas sulistas e trabalhadores e liberais do norte. Isso desmoronou no momento do movimento dos direitos civis.

A próxima estratégia [alavancada pelo presidente Richard Nixon e os seus assessores políticos] foi tentar pegar nos elementos racistas do sul e trazê-los para o Partido Republicano. Enquanto isso, os democratas mudaram. Eles baseavam-se, pelo menos em parte, na classe trabalhadora e mantinham algum compromisso com os interesses e valores dos trabalhadores. Na década de 1970 isso mudou. Os democratas simplesmente abandonaram a classe trabalhadora, entregando-a essencialmente ao seu inimigo de classe. Isso foi o que aconteceu de facto. O último suspiro do Partido Democrata, de seu tipo de liberalismo moderado, foi o projeto de Emprego Completo da Humphrey-Hawkins, que o Congresso aprovou em 1978, mas que Carter enfraqueceu. Depois disso, não há sequer um gesto para a classe trabalhadora. Portanto, a classe trabalhadora foi essencialmente abandonada.

John Nichols: Abandonada pelos democratas, enquanto que os republicanos tentaram atrair pelo menos alguns dos seus votos.

Noam Chomsky: Os republicanos conseguiram capturar a classe trabalhadora principalmente pela técnica do desvio da atenção. E ainda está a conseguir. Mas nem sempre funcionou assim. É interessante quando Obama apareceu. Ele conseguiu os votos da classe trabalhadora. Muitos trabalhadores que votaram em Trump também votaram em Obama. Eles acreditavam na conversa sobre esperança e mudança. Mas rapidamente descobriram que não se veria uma real mudança e nem esperança.

Lembre-se do resgate dos bancos após o crash de 2008. A legislação do Congresso para esse resgate tinha duas questões: ou socorrer os criminosos que o criaram, as instituições financeiras, ou ajudar as vítimas, pessoas que perderam as suas casas – ou seja, os seus lares foram destruídos porque a economia despencou e assim por diante. Bem, poderia ter adivinhado qual parte ia ser socorrida. Na verdade, o inspetor-geral do Departamento do Tesouro, Neil Barofsky, ficou tão indignado com isso que escreveu um livro interessante sobre o assunto [Bailout: An Inside Account of How Washington Abandoned Main Street While Rescuing Wall Street].

Mas os trabalhadores puderam ver o que estava a acontecer. A reação foi: “Estamos a ser jogados aos lobos. Eles não se importam connosco. É apenas conversa”. Então a próxima coisa que fizeram foi votar no seu inimigo de classe, Trump, que está a fazer tudo o que pode para controlar os trabalhadores, tentando perceber se consegue manter algum tipo de base. Para tal, utilizando o discurso dos “violadores” ou dos “assassinos” ou alguma coisa do tipo.

Mas esta é uma situação muito desconfortável. E pessoas como Bernie Sanders, Ocasio-Cortez e outros estão a tentar trazer o Partido Democrata de volta, de facto, para o que uma vez foi – mas sem a pedra de mira dos democratas do Sul, que era um problema muito sério para Roosevelt e o New Deal e até o Movimento dos Direitos Civis.

John Nichols: Vê isso como um momento de crise política?

Noam Chomsky: Na verdade, vamos enfrentar uma crise constitucional. Se olhar para o que está a acontecer agora, apenas olhe para os números, até agora, os estados com cerca de 25% da população dirigem o Senado – a mais importante das instituições…. O Senado é dominado por membros que representam principalmente um setor rural, tradicional, mais antigo, notadamente supremacista branco, muito religioso que está a diminuir demograficamente. Mas eles vão tentar manter o seu poder. Agora é quase certo que isso levará a uma crise constitucional. E observe que não pode ser alterado nada por nenhum meio constitucional. Não pode ser modificado porque eles têm poder suficiente para bloquear qualquer tipo de possível alteração.

John Nichols: Eles têm o poder de bloquear emendas democratizantes. Mas preocupa-se com as alterações favorecidas pelas elites.

Noam Chomsky: Deve observar com muito cuidado as emendas. O mais cruel dos lobbies empresariais, e na minha opinião o mais forte deles, ALEC, o Conselho Legislativo de Intercâmbio Americano, está [a trabalhar] para conseguir que legislaturas estaduais concordem com uma emenda constitucional que estabelecerá um limite orçamental equilibrado no governo federal. O que significa um limite de orçamento equilibrado? Significa que acaba com todos os programas do estado social. Acaba com qualquer coisa que beneficie pessoas comuns. É claro, mantém o orçamento do Pentágono na estratosfera – e sem dúvida mantém grandes subsídios para o agronegócio, energia e instituições financeiras. Mas, esqueça a segurança social, a saúde ou a educação. Então, isso é um orçamento equilibrado. Então, pode ver essas coisas a acontecer nos estados que têm orçamentos equilibrados.

Há uma grande luta de classes a acontecer logo abaixo da superfície. Pedaços e partes dela são visíveis, mas isso vai levar a uma grande crise no futuro próximo.

John Nichols: No entanto, os media não divulgando, ou fazem-no de forma muito parcial. Consome muitos media e tem ideias de como obter informações de fontes inesperadas.

Noam Chomsky: Pode ler os artigos na imprensa de negócios a dizer que os grandes bancos, os maiores bancos estão a aumentar seus investimentos em combustíveis fósseis. Isso é muito interessante. É quando lê essas coisas começa a pensar. Veja, coloque-se na posição de Jamie Dimon, CEO do JPMorgan Chase. Ele sabe tudo o que sabemos sobre o aquecimento global e os seus efeitos extremamente perigosos e iminentes. Mas ele ainda está a investir dinheiro não apenas na extração de combustíveis fósseis, mas também no mais perigoso dos combustíveis fósseis: as areias asfálticas canadianas.

Então, o que ele pensa? Bem, se raciocinar sobre isso, não é muito complicado. Ele tem duas escolhas. Uma escolha é fazer exatamente o que está a fazer: tentar aumentar o lucro para o JPMorgan. A outra escolha que tem é demitir-se e ser substituído por outra pessoa que fará exatamente a mesma coisa. Este é um problema institucional profundo.

Não adianta falar sobre esses bandidos que fazem isso e aquilo. Na estrutura institucional, eles simplesmente não têm escolha, o que nos diz para onde devíamos estar a apontar: a estrutura institucional. É uma daquelas coisas das quais não quer ser desviado. Então, lê o New York Times, aprende muito. Lê a imprensa de negócios, o Wall Street Journal.

John Nichols: Aos noventa anos de idade parece que ainda está a ler tudo, a absorver tudo, a tentar influenciar o debate atual. Estamos a falar de aproximadamente cinquenta anos depois da publicação do seu ensaio sobre o papel de um intelectual na sociedade. Foi republicado pela New Press como “It is the Responsibility of Intellectuals to speak the truth to expose lies”.

Nesse ensaio, escreveu: “No que diz respeito às responsabilidades dos intelectuais, existem outras questões igualmente perturbadoras. Os intelectuais estão em posição de expor as mentiras dos governos, de analisar as ações de acordo com as suas causas e motivos e, muitas vezes, com intenções ocultas. No mundo ocidental, pelo menos, têm o poder que vem da liberdade política, do acesso à informação e da liberdade de expressão. Para uma minoria privilegiada, a democracia ocidental proporciona o lazer, as facilidades e a formação para procurar a verdade oculta por trás do véu da distorção e deturpação, ideologia e interesses de classe, através dos quais os eventos da história atual nos são apresentados. As responsabilidades dos intelectuais são muito mais profundas do que o que foi sugerido e o que eles chamam de responsabilidade das pessoas, dados os privilégios exclusivos dos intelectuais”.

Parece-me que em toda a sua vida se esforçou muito para cumprir esse dever. E acho que tem que haver um elemento de otimismo nisso.


Noam Chomsky: Bem, se quiser ser otimista, pense no período em que isso foi escrito. Foi em 1966 numa palestra para a Hillel Foundation, na Universidade de Harvard. Foi publicado pela New York Review of Books.

Como foi esse momento em 1966? Apenas pense no que foi. Primeiro de tudo, uma das piores guerras da história estava a acontecer. Neste ponto, os Estados Unidos tinham praticamente acabado com o Vietname do Sul. O principal historiador do Vietname, Bernard Fall, altamente respeitado pelo governo, escreveu na época que não sabia se era um estudioso vietnamita. Ele não sabia se o Vietname sobreviveria como uma entidade cultural e histórica depois do pior e mais cruel ataque que já havia sido lançado contra uma área daquele tamanho.

Quase não houve protestos nos Estados Unidos. Eu morava em Boston, uma cidade liberal. Em Outubro de 1965 deu-se o primeiro dia internacional de protesto. Então, tentámos fazer uma marcha em Boston, ir ao Cambridge Common, o lugar onde você dá palestras. Eu deveria ser um dos oradores. O espaço foi dividido pelos contramanifestantes, a maioria estudantes que não queriam ouvir esse tipo de discurso sobre o Vietname. O próximo dia internacional de protesto foi em março de 1966, pouco antes de isto ter sido escrito, incidentalmente, logo antes de a palestra ter ocorrido. Sabíamos que não poderíamos tê-la no Boston Common. Queríamos ter a reunião numa igreja. Na igreja de Arlington Street. A igreja foi atacada. Tomates, latas, contramanifestantes, policias do lado de fora. Isso é o que estava a acontecer em 1966.

E o que mais estava a acontecer no país? Bem, ainda tínhamos leis federais de habitação que exigiam segregação, exigiam habitação federal branca pura. E tínhamos leis de miscigenação e leis antimiscigenação tão severas que os nazistas se recusaram a aceitá-las. Quando os nazis procuravam modelos para as Leis de Nuremberg, as leis racistas, olhavam ao redor do mundo. Os únicos que eles poderiam encontrar residia nas leis americanas. Mas as leis dos EUA eram severas demais para os nazis. As leis dos EUA foram baseadas no que foi chamado de “Uma Gota de Sangue”. Então, se a sua bisavó era negra, você é negro. Isso foi demais para os nazis. [Essas leis] ainda estavam em vigor no final dos anos 1960. Leis anti sodomia, claro.

Não havia movimento de mulheres. As mulheres ainda não tinham sido reconhecidas pelo Supremo Tribunal como pares legais, como pessoas. Isso não aconteceu até 1975, quando [o tribunal] concedeu o direito de servir em júris federais como iguais. Podemos continuar. ... Mas quero dizer, que o país estava muito pior do que é agora.

O que mudou? Não haviam presentes dos céus. O que mudou é que muitas pessoas, principalmente jovens, começaram a organizar-se, começaram a manter-se ativos, lutaram, tornaram o país muito melhor.

John Nichols: E acredita que isso está a acontecer de novo agora?

Noam Chomsky: Veja o Green New Deal da Ocasio-Cortez, que agora é uma proposta muito séria. Hoje essa proposta está bem no centro da agenda. Um ano atrás, talvez, foi ridicularizada. Como isso aconteceu? Como essa mudança aconteceu? Bem, um grupo de jovens do Sunrise Moviment sentou-se no gabinete da [Presidente da Câmara] Nancy Pelosi, [e a sua questão foi] ouvida por um par de legisladores. Logo se tornou numa grande questão. [O governador de Washington] Jay Inslee acaba de anunciar a sua candidatura à nomeação presidencial democrata, com a sua principal prioridade a ser o perigo das alterações climáticas. Este é agora um assunto sobre o qual você pode falar, pode fazer algo a respeito. Não temos muito tempo. Bem, todos esses são motivos de otimismo. Muitas coisas melhoraram e foram aprimoradas por pessoas ativas, organizadas e comprometidas que trabalharam e mudaram o mundo. Esse é um motivo para ser otimista.

Sobre o autor

Noam Chomsky is professor emeritus of linguistics at MIT.

Sobre o entrevistador

John Nichols is the national affairs correspondent for the Nation and the author of The “S” Word: A Short History of an American Tradition … Socialism (Verso, 2015) and many other books.

25 de julho de 2019

A reforma do regime fiscal

Há alternativas para evitar que o governo aprofunde as recessões

Laura Carvalho


Ricardo Borges/Folhapress

Na mesma semana em que anunciou o novo plano de liberação de saques de contas ativas e inativas do FGTS, que pode injetar R$ 30 bilhões na economia em meio ao nosso grave quadro de insuficiência de demanda, a equipe econômica do governo teve mais uma vez de contingenciar recursos no Orçamento devido à redução nas previsões de arrecadação federal. O novo contingenciamento, de R$ 1,4 bilhão, vem somar-se aos R$ 29,8 bilhões bloqueados em março.

O reiterado bloqueio de recursos se deve à dificuldade de cumprimento da meta de resultado primário aprovada para 2019 em meio às sucessivas revisões do crescimento projetado para o ano, servindo para desnudar mais uma vez o caráter pró-cíclico de nossas regras fiscais.

Isso porque a meta de resultado primário —a diferença entre o que o governo arrecada e o que gasta (sem contar o pagamento de juros)— dá ao governo uma maior folga para gastar quando a economia está crescendo, mas obriga-o a cortar despesas justamente quando a economia mais precisaria de uma injeção de ânimo.

O que a imposição adicional do chamado "teto de gastos" fez foi eliminar a primeira possibilidade, qual seja, a de expandir as despesas quando a economia cresce mais: a arrecadação pode subir o quanto for que o limite para o crescimento de despesas continua sendo a taxa de inflação do ano anterior.

Mas, quando a economia está crescendo menos, a meta de resultado primário continua operando de forma totalmente pró-cíclica: as revisões para baixo da arrecadação podem exigir que se gaste até menos do que o permitido pelo "teto", como estamos vendo neste ano.

Já caminhamos a passos largos para um consenso de que o "teto de gastos" deve ser revisto, seja pela exclusão de investimentos públicos em infraestrutura da regra, seja pelo estabelecimento de limites plurianuais de crescimento das despesas mais em linha com o praticado em outros países (baseados nas projeções de médio prazo de crescimento do PIB, de 2% ou 3% ao ano em termos reais, por exemplo).

Tais mudanças são urgentes e necessárias, mas não são suficientes para solucionar o caráter pró-cíclico —e prejudicial ao bom planejamento orçamentário— das metas de resultado primário em cenários de crise.

Para evitar que o governo aprofunde as recessões, cortando seus gastos e investimentos como resposta à queda na arrecadação derivada da própria crise e/ou que utilize manobras fiscais para cobrir desequilíbrios, há diversas alternativas.

Uma delas, escolhida pelos países da União Europeia e muitos outros, estabelece as chamadas metas de resultado estrutural, que excluem as variações de receitas e/ou despesas oriundas do próprio ciclo econômico do cálculo do resultado primário.

Assim, um aumento ou uma queda na arrecadação que venha de uma mudança na taxa de crescimento da economia não altera em nada a meta que o governo tem de cumprir, evitando exatamente o problema que estamos tendo no Brasil desde o início da crise.

Outra opção é criar bandas para a meta de resultado primário (piso e teto), como no caso das metas de inflação, conferindo ao governo alguma margem de manobra para lidar com riscos inesperados e revisões das projeções de crescimento.

Se o objetivo fosse garantir o crescimento e a estabilidade da economia brasileira no longo prazo, deveríamos reformar as regras fiscais vigentes, em vez de continuar tentando anular o efeito recessivo do corte de gastos e investimentos públicos com medidas parafiscais de estímulo de curto prazo.

Sobre a autora

Professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, autora de "Valsa Brasileira: do Boom ao Caos Econômico".

Os chefes escondidos na Gig Economy

A DoorDash retirou da administração tradicional de restaurantes a ideia de tomar para si as gorjetas que são dadas aos trabalhadores. Mesmo revertendo a situação depois de pressão pública, a plataforma de delivery chamou a atenção para o foco da exploração capitalista no mercado de trabalho

Meagan Day

Jacobin


Um entregador da Pizza Hut em 29/6/18 em Shreveport, Lousiana (Shannon O'Hara/Getty)

Tradução / DoorDash, Postmates, GrubHub, Seamless, InstaCart: essas empresas de entrega de alimentos prometem interromper a relação empregador-empregado e inovar as desvantagens de trabalhar na indústria de serviços alimentícios.

Seu truque é fazer parecer que não há patrões nem trabalhadores. A empresa é um prestador de serviço, e qualquer pessoa que encomenda ou entrega um pedido é um usuário. A plataforma está simplesmente conectando usuários, alguns dos quais estão pagando e outros estão sendo pagos. Um trabalhador consegue fazer sua própria programação e aceitar trabalhos conforme sua conveniência, como um freelancer. Eles podem "ser seus próprios patrões". E aparentemente, isso soa muito melhor do que ser mandado por outra pessoa durante todo o seu expediente.

Mas mesmo que muitos entregadores tenham coisas boas a dizer sobre essas plataformas, eles estão rodeados de armadilhas. Desde plataformas de serviços de delivery até serviços de carona, as empresas que as operam podem facilmente se lavar as mãos em relação as obrigações mais básicas de um empregador para com seus funcionários de tempo integral - como fornecer benefícios de saúde, salários estáveis, segurança de emprego, etc. - e então dão as costas e agem exatamente como chefes da pior maneira.

Lembre-se: não é só porque você não vê seus chefes que significa que eles não estejam lá. E se eles estão lá, estão te explorando, porque é isso que os chefes capitalistas fazem.

A DoorDash recentemente mostrou como isso realmente funciona. A empresa foi fortemente criticada por agir como restaurantes tradicionais, ficam com as gorjetas de seus entregadores a fim de complementar o valor ao qual eles têm direito devido serviço prestado. No mundo dos restaurantes, os patrões podem usar as gorjetas que os funcionários recebem para inteirar o valor já estabelecido de salário mínimo que os empregados devem receber.

Isso é confuso, mas pense assim: você dá de gorjeta US $ 2 em um hambúrguer de US $ 10, se você nunca trabalhou na indústria alimentícia, você provavelmente vai achar que os dólares extras são como um “obrigado” ao servidor por anotar seu pedido e levar o hambúrguer à sua mesa. Em vez disso, no sistema de salários mais a gorjeta, é muito comum o restaurante apropriar se desses ‘extras’ e os usa para compensar a diferença entre a taxa fixa que eles estão dispostos a pagar - apenas $ 2,13 em muitos estados - e o salário mínimo estabelecido naquele estado.

Sua gorjeta não é realmente uma gratificação para o servidor. É um subsídio para o patrão.

DoorDash foi pego fazendo exatamente a mesma coisa. Imagine que você fez um pedido com o DoorDash em um horário X e o tempo estava horrível. Você sabe que o entregador está tendo dificuldades em chegar até você, mas ele está determinado a te encontrar, e você finalmente consegue seu frango frito tarde da noite. Você é uma pessoa consciente e percebe que não foi uma entrega fácil, então você dá uma gorjeta para o motorista do DoorDash como uma demonstração de respeito pelo esforço que ele fez.

No entanto, eles nunca veem a cor dessa gorjeta, ou até mesmo sabem dela. Eles simplesmente ganham a mesma taxa fixa de sempre, e a empresa tem um lucro maior naquela noite, mesmo que a entrega não tenha sido feita por um alto executivo, que estava desafiando a tempestade e a escuridão da estrada para atender às suas necessidades de beliscar um franguinho.

Assim como o InstaCart antes dele, o DoorDash só parou de pagar salários indevidos em resposta a um clamor público. A queixa não foi sem razão: os salários e as gorjetas são realmente enganosos e só funcionam a favor dos patrões, não dos trabalhadores. As pessoas dão gorjetas para os trabalhadores individuais com quem tiveram interações pessoais. Quando é dada a gorjeta, não se tem a intenção de coloca-las nos caixas das grandes corporações para que sejam distribuídas a fim de atender aos requisitos mínimos salariais para esses trabalhadores. Esse sistema salarial significa que quanto mais os trabalhadores trabalham e quanto maiores forem as gorjetas, menos os patrões precisam se preocupar em pagar os trabalhadores com dinheiro de seus próprios bolsos.

Os salários baixos e as gorjetas são uma fonte de controvérsia no mundo dos restaurantes. Obviamente, os trabalhadores querem ser pagos melhor, mas não sabem em quem acreditar. Por um lado, os donos dos restaurantes insistem que devem se apropriar e reembolsar as gorjetas como parte do salário para se manter abertos, e que, se os empregados ficarem com as gorjetas como um extra, eles estariam levando os empregos à ruina. Eles afirmam ficarem de mãos atadas - embora as vendas e os lucros dos restaurantes tenham crescido ininterruptamente por uma década inteira, e seus salários permaneceram estagnados.

Por outro lado, os defensores dos trabalhadores dizem que seria mais justo pagar aos trabalhadores o salário mínimo comum antes das gorjetas e considerar as gorjetas como uma gratificação genuína. Como prova de que isso seria melhor para os trabalhadores, o Instituto de Política Econômica cita pesquisas que mostram que nos estados em que os trabalhadores que são pagos juntos a gorjeta, recebem US $ 2,13 por hora e são usadas as gorjetas para chegar no salário mínimo comum, 18,5% dos garçons, garçonetes e bartenders; vivem na pobreza. Esse número cai para 11.1% quando os trabalhadores recebem um salário mínimo estabelecido. (O fato de as pessoas que receberem um salário mínimo e ainda assim estarem vivendo na pobreza é outra história, para outra conversa.)

O DoorDash tomou a decisão sobre essa controvérsia: isto é, decidiu se comportar exatamente como um restaurante comum. Mesmo mudando de ideia , demonstrou a natureza exploradora do emprego no capitalismo, os patrões têm o poder de fazer políticas unilateralmente, sem a contribuição dos trabalhadores (desculpe, usuários ). Eles podem então alegar que são as melhores políticas possíveis para os trabalhadores, dadas as circunstâncias, sem que esses funcionários tenham o poder de inspecionar os livros para ver se estão dizendo a verdade.

As plataformas prometiam derrubar tudo o que sabíamos sobre o trabalho - mas o que elas realmente queriam dizer era que elas não pagariam pelos cuidados de saúde de ninguém ou pela aposentadoria como um empregador decente. Eles só se comportariam como empregadores quando se trata de pagar mal os trabalhadores e aumentar os lucros.

A realidade é que o DoorDash tem funcionários e patrões, e assim como todas as outras empresas de plataformas gig. Quando dizem que você pode "ser seu próprio patrão", eles estão mentindo. Esse posto é tomado por outra pessoa, alguém que tem tanto - e em muitos casos mais - poder sobre suas condições de trabalho quanto um chefe normal.

A principal diferença é como os chefes invisíveis dessas plataformas são bons em esconder sua exploração sob a linguagem de inovação. Eles são, exatamente, chefes - eles apenas se esconde nas sombras.

24 de julho de 2019

Prepare-se para uma chefatura de Boris Johnson

Boris Johnson, um amigo de Steve Bannon e um inimigo autodeclarado do "socialismo de garras vermelhas" de Jeremy Corbyn, será um desastre para os trabalhadores.

Lauren Townsend

Jacobin

O recém-eleito primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, discursa durante o anúncio da Liderança Conservadora no QEII Center, em 23 de julho de 2019, em Londres, Inglaterra. Foto: Jeff J Mitchell / Getty

Tradução / Numa série de eventos digna de uma comédia pastelão, o tosco ex-prefeito de Londres, Boris Johnson, tornou-se o primeiro-ministro do Reino Unido. Amplamente visto como um excêntrico cativante, Johnson tem moldado cuidadosamente sua imagem com a mídia.Quem poderia esquecer como ele reagiu à controvérsia que se seguiu quando chamou as mulheres muçulmanas de “caixas de correio” e “ladras de bancos”? Logo em seguida, ele apareceu na televisão usando bermudas havaianas e oferecendo chá aos jornalistas em canecas caprichosamente incompatíveis ao invés de respostas ou um pedido de desculpas.

Johnson é um ex-aluno de Eton e Oxford, duas das instituições de ensino mais elitistas no Reino Unido, e fez parte da notória sociedade exclusivamente masculina “Bullingdon Club” – cuja cerimônia de iniciação incluía queimar uma nota de 50 libras na frente de um morador de rua. Mas isso não impedirá seus amigos na mídia de reformulá-lo como um homem do povo durante as próximas semanas. Mais de cinco milhões de pessoas no Reino Unido estão atualmente lutando para sobreviver, como resultado de empregos mal-remunerados e inseguros, juntamente com o aumento constante dos custos de vida. E o melhor que os conservadores podem lhes oferecer é a promessa de um belo corte de impostos para os ricos.

Um político de carreira cuja hipocrisia conhece poucos limites, pode ser fácil esquecer que o “herói do Brexit” de hoje disse certa vez que o único benefício de deixar a União Européia seria “nos fazer reconhecer que a maioria dos nossos problemas não são causados ​​por Bruxelas, mas pela visão de curto prazo, gestão inadequada, indolência, baixas qualificações, uma cultura de recompensa fácil e subinvestimento tanto em capital humano quanto em capital físico e infra-estrutura, que são crônicos na Grã-Bretanha.”

Qualquer pessoa que tenha lido a coluna de Johnson no Telegraph em abril de 2016 poderia ser perdoada por confundí-lo com um defensor da permanência na UE, ao delinear os benefícios da União Européia e afirmar que “o custo da filiação parece pequeno perto de todo o acesso ao mercado”. Ainda assim, naquele mesmo dia ele se viu no topo de uma campanha muito bem financiada em nome da saída.

Boris Johnson simboliza tudo o que o Partido Conservador representa. Um racista que já chamou os negros de “piccaninnies” e “sorrisos de melancia” (duas ofensas historicamente racistas nos EUA) e disse que Barack Obama tinha uma “aversão ancestral” à Grã-Bretanha por causa de sua herança queniana. Ele também já afirmou que o problema com os países colonizados “não é que nós já estivemos no comando, mas o fato de que já não estamos mais”.

Essa peça tem seguido por muitos anos – descrever o povo de Papua Nova Guiné como “canibais”; dizer que as mulheres só vão para a faculdade para “encontrar homens para se casar”; descrever homens gays como “passivos de regatas”. Um histórico bem controverso para um homem que prometeu, no lançamento de sua campanha, “unir o país”.

No entanto, com todas essas discussões durante as últimas semanas, uma parte da história sórdida de Boris Johnson tem sido deixada de fora: seu registro com relação aos trabalhadores. Johnson passou quase toda a sua carreira atacando sindicatos. Nos anos 2000, ele foi um dos mais proeminentes inimigos do salário mínimo, dizendo que ele iria “destruir os empregos”; e como prefeito de Londres, ele regularmente agredia os trabalhadores do sindicato RMT, que organiza trabalhadores do transporte ferroviário e marítimo.

Vale a pena lembrar por que isso aconteceu. Boris Johnson fez campanha para prefeito com a promessa de não fechar as bilheterias do metrô de Londres. Ele até chamou os fotógrafos da imprensa para assinar um contrato sobre isso. “A resposta para o número de fechamentos de bilheteria”, disse ele, “é nenhuma”. Quando Johnson renegou essa promessa, o RMT entrou em greve. Em vez de manter sua palavra, ele começou uma campanha para banir a greve. Ele exigiu um mínimo de 50% de participação nos votos dos sindicatos antes que qualquer greve pudesse ser convocada. Isso foi a base para as reformas anti-sindicais que foram introduzidas pelo Partido Conservador em 2016.

O ódio de Boris Johnson por pessoas da classe trabalhadora é profundo. Imagine, depois de tudo o que já se descobriu ao longo de tantos anos sobre o desastre de Hillsborough, em que morreram 96 pessoas e mais de 700 ficaram feridas, escrever que o povo de Liverpool estava “chafurdando” em “vitimismo”? Ou que eles precisavam reconhecer o papel desempenhado “por fãs bêbados no fundo da multidão que, sem pensar, tentaram abrir caminho para o chão”?

Hoje, 130.000 membros do Partido Conservador (em grande parte, ricos) catapultaram Boris Johnson para o número 10 da Downing Street. Eles não ligam para o seu histórico de apoio à austeridade, à privatização ou à desregulamentação. Na verdade, muitos deles aplaudiram quando ele disse em uma entrevista recente que “não conseguia pensar em ninguém que tivesse defendido os banqueiros” mais do que ele, na sequência da crise de 2008. “Eu os defendi”, ele nos lembrou, “dia após dia”.

Talvez seja por isso que ele está tão determinado a se opor ao “socialismo de presas e garras vermelhas” do Partido Trabalhista. Mas as apostas para os trabalhadores em qualquer eleição futura contra Boris Johnson serão duras. Isso deveria ficar claro, com sua amizade com Donald Trump e Steve Bannon – abutres que, podemos esperar, devem estraçalhar o setor público da Grã-Bretanha após um Brexit sem acordo com a União Europeia.

Conforme Boris Johnson leva o Reino Unido na direção de um precipício em 31 de outubro, quando se encerra o prazo para o Brexit, vale lembrar o que ele disse quando foi rebaixado da linha de frente do Partido Conservador em 2004. “Meus amigos, como eu mesmo descobri, não existem desastres, apenas oportunidades. E, de fato, oportunidades para novos desastres.” Quando se é tão rico quanto Boris, não há desastre tão grande a ponto de não ser possível se beneficiar dele.

Sobre a autora

Lauren Townsend é garçonete do TGI Fridays e ativista do sindicato Unite the union.

23 de julho de 2019

Guerra econômica dos EUA e prováveis defesas externas

Michael Hudson



Tradução / O mundo de hoje está em guerra em múltiplas frentes. As regras do direito internacional e da ordem posta em prática no fim da II Guerra Mundial estão a ser rompidas pela política externa dos EUA de escalar sua confrontação com os países que se abstêm de dar às suas empresas o controle dos seus excedentes económicos. Países que não dão aos Estados Unidos o controle dos seus sectores petrolíferos e financeiros ou não privatizam seus sectores chave estão a ser isolados pelos EUA através da imposição de sanções comerciais e de tarifas unilaterais que dão vantagens especiais a produtores estado-unidenses, em violação de acordos de livre comércio com países europeus, asiáticos e outros. 

Esta fractura global tem uma componente cada vez mais militar. Autoridades estado-unidenses justificam tarifas e quotas de importação, ilegais de acordo com as regras da OMC, em termos de "segurança nacional", alegando que os Estados Unidos podem fazer o que quiserem como a nação "excepcional" do mundo. Autoridades dos EUA explicam que a sua nação não é obrigada a aderir a acordos internacionais ou mesmo aos seus próprios tratados e promessas. Este alegado direito soberano de ignorar seus acordos internacionais foi explicitado depois de Bill Clinton e sua secretária de Estado, Madeline Albright, terem quebrado a promessa do presidente George Bush e do secretário de Estado James Baker de que a NATO não se expandiria para o leste depois de 1991. ("Você não tem isto por escrito", foi a resposta dos EUA aos acordos verbais efectuados). 

Da mesma forma, a administração Trump repudiou o acordo multilateral iraniano assinado pela administração Obama e está a escalar a guerra com seus exércitos por procuração (proxy) no Oriente Próximo. Políticos dos EUA estão a travar uma Nova Guerra Fria contra a Rússia, China, Irão e países exportadores de petróleo que os Estados Unidos procuram isolar se não puderem controlar seus governos, banco central e diplomacia externa. 

O quadro internacional que originalmente parecia equitativo era a favor dos EUA desde o princípio. Em 1945 isto foi encarado como um resultado natural do facto de a economia dos EUA ter sido a menos prejudicada pela guerra e de possuir de longe a maior parte do ouro monetário global. Ainda assim, a estrutura comercial e financeira do pós-guerra era ostensivamente baseada em princípios internacionais razoáveis e equitativos. Esperava-se que outros países se recuperassem e crescessem, criando paridade diplomática, financeira e comercial entre si. 

Mas na última década a diplomacia americana tornou-se unilateral ao transformar o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial, o sistema de compensação bancária SWIFT e o comércio mundial num sistema de exploração assimétrico. Este conjunto de instituições centrado unilateralmente nos EUA está a ser amplamente encarado não só como injusto mas também como força de bloqueio do progresso de outros países cujo crescimento e prosperidade são encarados pela política externa dos EUA como ameaça à sua hegemonia unilateral. O que começou como uma ordem internacional ostensivamente para promover a prosperidade pacífica tornou-se cada vez mais uma extensão do nacionalismo estado-unidense, da extracção predatória de renda e de um confronto militar mais perigoso. 

A deterioração da diplomacia internacional numa agressão financeira, comercial e militar mais claramente explícita em favor dos EUA estava implícita no modo como a diplomacia económica foi moldada no momento em que as Nações Unidas, o FMI e o Banco Mundial foram constituídos, sobretudo pelos estrategas económicos estado-unidenses. Sua beligerância económica está a levar países a retirarem-se da ordem financeira e comercial global, a qual foi transformada no veículo de uma Nova Guerra Fria para impor a hegemonia unilateral dos EUA. Reacções nacionalistas estão a consolidar-se em novas alianças económicas e políticas, desde a Europa até à Ásia. 

Ainda estamos atolados na Guerra do Petróleo que escalou em 2003 com a invasão do Iraque e que rapidamente se propagou à Líbia e à Síria. Em grande medida, a política externa americana baseia-se desde há muito no controle do petróleo. Isto levou os Estados Unidos a oporem-se aos acordos de Paris para deter o aquecimento global. Seu objectivo é dar aos responsáveis dos EUA o poder de impor sanções energéticas que forcem outros países a "congelarem-se no escuro" se não seguirem a liderança estado-unidense. 

Para expandir o seu monopólio petrolífero a América está a pressionar a Europa a opor-se ao gasoduto Nordstream II da Rússia, afirmando que isto tornaria a Alemanha e outros países dependentes da Rússia, em contraposição à dependência do gás natural liquefeito (GNL) dos EUA. Da mesma forma, a diplomacia petrolífera americana impôs sanções unilaterais contra exportações do Irão, até uma mudança de regime abrir as reservas de petróleo daquele país às grandes petrolíferas estado-unidenses, francesas, britânicas e outras aliadas. 

O controle americano do dinheiro e do crédito dolarizados é crítico para esta hegemonia. Como disse o congressista Brad Sherman, de Los Angeles, na audiência de 9/Maio/2019 do Comité de Serviços Financeiros da Câmara: "Grande parte do nosso poder internacional decorre do facto de o dólar americano ser a unidade padrão das transacções e finanças internacionais. Compensar através do Fed de Nova York é crítico para grandes transacções de petróleo e outras. É propósito anunciado dos defensores de criptomoedas retirar-nos este poder, a fim de nos colocar numa posição em que a maior parte das sanções mais significativas que aplicamos contra o Irão, por exemplo, se tornem irrelevantes". [1]

O objectivo dos EUA é manter o dólar como a divisa das transacções para o comércio mundial, poupanças, reservas de bancos centrais e empréstimos internacionais. Este status de monopólio permite aos Departamentos do Tesouro e de Estado dos EUA perturbarem o sistema financeiro de pagamentos e o comércio daqueles países com os quais os Estados Unidos estão em guerra económica ou abertamente em guerra militar. 

O presidente russo Vladimir Putin respondeu rapidamente ao descrever como "a degeneração do modelo de globalização universalista [está] a transformar-se numa paródia, numa caricatura de si próprio, em que as regras comuns internacionais são substituídas por leis... de um país". [2] Esta é a trajectória que agora se verifica com a deterioração do antigo comércio aberto internacional. Ela tem-se agravado desde há uma década. Em 5/Junho/2009 o então presidente russo Dmitry Medvedev mencionou esta mesma dinâmica destruidora em funcionamento na sequência da crise de hipotecas lixo e fraudes bancárias nos EUA. 

Aqueles cujo trabalho era prever acontecimentos... não estavam preparados para a profundidade da crise e revelaram-se demasiado rígidos, desajeitados e lentos na sua resposta. As organizações financeiras internacionais – e penso que precisamos declarar isto frontalmente e não tentar esconder – não estiveram à altura das suas responsabilidade, como tem sido dito bastante inequivocamente num certo número de grandes eventos internacionais tais como as duas recentes cimeiras do G20 das maiores economias mundiais. 

Além disso, tivemos confirmação de que a nossa análise anterior à crise das tendências económicas globais e do sistema económico global estava correcta. O sistema unipolar mantido artificialmente e a preservação de monopólios em sectores económicos globais chave são causas raízes da crise. Um grande centro de consumo, financiado por um défice crescente, e portanto com dívidas crescentes, uma divisa de reserva outrora forte e um sistema dominante de avaliação de activos e riscos – estes são os conjuntos de factores que levam a uma queda geral na qualidade da regulação e da justificação económica das avaliações efectuadas, incluindo avaliações de política macroeconómica. Em consequência, não havia como evitar uma crise global. [3]

Esta crise é o que agora provoca a presente ruptura do comércio e pagamentos globais. 

Guerra em muitas frentes, com a desdolarização sendo a arena principal 

A dissolução da União Soviética em 1991 não trouxe o desarmamento que era amplamente esperado. A liderança estado-unidense celebrou a morte soviética como um sinal para o fim da oposição estrangeira ao neoliberalismo patrocinado pelos EUA e mesmo como o Fim da História. A NATO expandiu-se para cercar a Rússia e patrocinou "revoluções coloridas" desde a Geórgia até a Ucrânia, enquanto estilhaçava a antiga Jugoslávia em pequenos estadozecos. A diplomacia americana criou uma legião estrangeira de fundamentalistas wahabistas desde o Afeganistão até o Irão, o Iraque, a Síria e a Líbia para apoiar o extremismo da Arábia Saudita e o expansionismo israelense. 

Os Estados Unidos estão a travar uma guerra contra a Venezuela pelo controle do petróleo, onde um golpe militar fracassou há poucos anos, tal como a façanha de 2018-19 de reconhecer um regime fantoche não eleito e pró americano. O golpe hondurenho sob o presidente Obama teve mais êxito pois conseguiu derrubar um presidente eleito que advogava a reforma agrária, continuando a tradição que remontava a 1954 quando a CIA derrubou o governo Arbenz na Guatemala. 

Responsáveis dos EUA têm um ódio especial a países que eles injuriaram, o que vai desde a Guatemala em 1954 ao Irão, cujo regime foi derrubado para instalar o Xá como ditador militar. Afirmando promover a "democracia", a diplomacia dos EUA redefiniu a palavra para significar pró americano e oposição à reforma agrária, propriedade nacional de matérias-primas e subsídios públicos à agricultura ou indústria como um ataque "não democrático" a "mercados livres", o que significa mercados controlados pelos interesses financeiros estado-unidenses e proprietários absenteístas da terra, dos recursos naturais e dos bancos. 

Um importante subproduto da guerra tem sido sempre os refugiados e a onda actual que foge do ISIS, Al Qaeda e outros apaniguados dos EUA no Oriente Próximo está a inundar a Europa. Uma onda semelhante está a fugir dos regimes ditatoriais, apoiados pelos Estados Unidos, das Honduras, Equador, Colômbia e países vizinhos. A crise de refugiados tornou-se um factor primordial para o ressurgimento de partidos nacionalistas por toda a Europa e para o nacionalismo branco de Donald Trump nos Estados Unidos. 

A desdolarização como o veículo para o nacionalismo estado-unidense 

O Padrão Dólar – dívida do Tesouro dos EUA a estrangeiros mantida pelos bancos centrais do mundo – substituiu o padrão divisas-ouro (gold-exchange standard) nas reservas dos bancos centrais do mundo para a liquidação de desequilíbrios de pagamentos entre si próprios. Isto permitiu aos Estados Unidos a [posição] única de incorrer em défices da balança de pagamentos durante aproximadamente setenta anos, apesar do facto de estes títulos do Tesouro (Treasury IOUs) terem pouca probabilidade visível de serem reembolsados – a não ser sob acordos em que os EUA buscam uma renda monopolista e um tributo financeiro directo de outros que lhes permita liquidar sua dívida externa oficial. 

Os Estados Unidos são o único país que pode incorrer em défices constantes da balança de pagamentos sem terem de vender barato os seus activos ou elevarem taxas de juro para captar empréstimos em moeda estrangeira. Nenhuma outra economia nacional no mundo poderia permitir-se despesas militares no exterior em grande escala sem perder seu valor de troca. Sem as Letras do Tesouro (Treasury-bill) padrão, os Estados Unidos estariam na mesma posição dos demais países. Eis porque a Rússia, China e outras potências que os estrategas dos EUA consideram serem rivais estratégicos e inimigos procuram restaurar o papel do ouro como o activo preferencial para liquidar desequilíbrios de pagamentos. 

A resposta dos EUA é impor mudanças de regime a países que preferem ouro ou outras divisas estrangeiras ao invés de dólares nas suas reservas cambiais. Um bom exemplo é o derrube de Omar Kaddafi, da Líbia, depois de ele ter procurado basear no ouro as reservas internacionais do seu país. A sua liquidação representa uma advertência militar a outros países. 

Graças ao facto de que economias com excedentes de pagamentos investem suas entradas de dólares em títulos do US Treasury, os défices da balança de pagamentos dos EUA financiam seu défice orçamental interno. Esta reciclagem por bancos centrais estrangeiros de gastos militares dos EUA no exterior mediante compras de títulos do Tesouro dos EUA dá aos Estados Unidos um almoço gratuito (free ride), financiando seu orçamento – que também é sobretudo de carácter militar – de modo a que possa tributar seus próprios cidadãos. 

Trump está a forçar outros países a criarem uma alternativa ao Padrão Dólar 

O facto de as políticas económicas de Donald Trump estarem a demonstrar-se ineficazes para a restauração da manufactura americana está a criar uma pressão nacionalista para explorar os estrangeiros através de tarifas arbitrárias sem consideração pelo direito internacional e pela imposição de sanções comerciais e intromissões diplomáticas para desestabilizar regimes que sigam políticas não apreciadas pelos diplomatas dos EUA. 

Aqui há um paralelo com Roma no fim do século I AC. Ela despojou suas províncias a fim de pagar o seu défice militar, o subsídio (dole) de cereais e a redistribuição de terra às expensas de cidades italianas e da Ásia Menor. Isto criou oposição estrangeira para expulsar Roma. A economia dos EUA é semelhante à de Roma: mais extractivista do que produtiva, baseada principalmente em rendas da terra e juros monetários. Como o mercado interno está empobrecido, os políticos dos EUA tentam tirar do exterior o que não está mais a ser produzido em casa. 

O que é extremamente irónico – e muito auto-derrotante para o almoço gratuito global da América – é o objectivo simplista de Trump de reduzir a taxa de câmbio do dólar para tornar as exportações norte-americanas mais competitivas em preço. Ele imagina que o comércio de commodities seja a balança de pagamentos inteira, como se não houvesse gastos militares, sem mencionar empréstimos e investimentos. Para reduzir a taxa de câmbio do dólar, ele está a exigir que o banco central da China e de outros países parem de apoiar o dólar reciclando os dólares que recebem pelas suas exportações através da compra de títulos do Tesouro dos EUA. 

Esta visão em túnel deixa de lado o facto de que a balança comercial não é simplesmente uma matéria de níveis comparativos de preços internacionais. Os Estados Unidos dissiparam sua capacidade de fabricação de sobressalentes e de fornecedores locais de peças e materiais, enquanto grande parte da sua engenharia industrial e mão-de-obra qualificada aposentou-se. Um imenso défice deve ser preenchido por novos investimentos de capital, educação e infra-estrutura pública, cujos encargos são muito superiores aos de outras economias. 

A ideologia da infraestrutura de Trump é uma Parceria Público-Privada caracterizada pelo alto custo financeiro exigido pelas altas rendas de monopólio a fim de cobrir seus encargos com juros, dividendos de acções e custos de gestão. Esta política neoliberal eleva o custo de vida para a força de trabalho dos EUA, tornando-a não competitiva. Os Estados Unidos são incapazes de produzir mais a qualquer preço que seja, porque passaram o último meio século a desmantelar sua infraestrutura, encerrando seus fornecedores e terciarizando sua tecnologia industrial. 

Os Estados Unidos privatizaram e financiaram infraestrutura e serviços básicos tais como saúde pública e cuidados médicos, educação e transporte que outros países mantiveram no seu domínio público a fim de tornar suas economias mais eficientes em termos de custo ao proporcionar serviços essenciais a preços subsidiados ou gratuitamente. Os Estados Unidos também lideraram a prática da pirâmide de dívidas, desde a habitação até as finanças corporativas. Esta engenharia financeira e de criação de riqueza pelo enchimento de bolhas imobiliárias e do mercado de acções financiadas por dívida tornaram os Estados Unidos uma economia de alto custo que não pode competir com êxito com economias mistas bem administradas. 

Incapaz de recuperar a dominância no sector manufactureiro, os Estados Unidos estão a concentrar-se nos sectores de extracção de renda que esperam monopolizar, encabeçados pela tecnologia da informação e pela produção militar. Na frente industrial, isto ameaça perturbar a China e outras economias mistas com a imposição de sanções comerciais e financeiras. 

A grande aposta é se esses outros países irão defender-se juntando-se em alianças que lhes permitam contornar(bypass) a economia dos EUA. Estrategas americanos imaginam seu país como a economia essencial do mundo, sem cujo mercado outros países devem sofrer depressão. A administração Trump pensa que não há alternativa(There Is No Alternative, TINA) para outros países, excepto os seus próprios sistemas financeiros dependerem do crédito em US dólares. 

Para se protegerem de sanções estado-unidenses, os países teriam de evitar utilizar o dólar e, portanto, bancos dos EUA. Isto exigiria a criação de um sistema financeiro não dolarizado para usarem entre si próprios, incluindo a sua própria alternativa do sistema de compensação bancária SWIFT. A tabela 1 mostra algumas possíveis defesas contra a diplomacia nacionalista dos EUA. 

Como observado acima, o que também é irónico na acusação do presidente Trump de que a China e outros países manipulam artificialmente sua taxa de câmbio em relação ao dólar (ao reciclarem seus superávites comerciais e de pagamentos em títulos do Tesouro para conterem a valorização da sua divisa frente ao dólar) envolve o desmantelamento do padrão Letras do Tesouro. O principal modo pelo qual economias estrangeiras estabilizaram sua taxa de câmbio desde 1971 tem sido na verdade a reciclagem das suas entradas de dólares em títulos do Tesouro dos EUA. Deixar o valor da sua moeda subir ameaçaria a competitividade das suas exportações frente aos seus rivais, embora isso não beneficiasse necessariamente os Estados Unidos. 

Acabar com esta prática deixa aos países como caminho principal para protegerem suas divisas da ascensão frente ao dólar a redução das entradas de dólares, através do bloqueio da concessão de empréstimos dos EUA aos seus tomadores internos. Eles podem cobrar tarifas flutuantes proporcionais ao valor em declínio do dólar. Os EUA têm uma longa história, desde a década de 1920, de elevação das suas tarifas contra moedas que estão a depreciar-se: o sistema American Selling Price (ASP). Outros países podem impor suas próprias tarifas flutuantes contra produtos norte-americanos. 

A dependência comercial como um objectivo do Banco Mundial, do FMI e da USAID 

O mundo enfrenta hoje um problema muito parecido com o enfrentado nas vésperas da Segunda Guerra Mundial. Tal como a Alemanha então, agora os Estados Unidos representam a principal ameaça de guerra e destrutivos regimes económicos neoliberais impõem austeridade, retracção económica e despovoamento. Diplomatas americanos ameaçam destruir regimes e economias inteiras que procuram manter-se independentes daquele sistema, através de sanções comerciais e financeiras apoiadas por força militar directa. 

A desdolarização exigirá a criação de alternativas multilaterais para as instituições "de primeira linha" dos EUA, como o Banco Mundial, o FMI e outras agências sobre as quais os Estados Unidos têm poder de veto para bloquear quaisquer políticas alternativas que supostamente não os deixem "ganhar". As agências de ajuda externa do Banco Mundial e dos EUA visam promover a dependência das exportações de bens alimentares dos EUA e de outros bens essenciais, enquanto contratam empresas de engenharia dos EUA para construir infraestruturas de exportação, subsidiando as suas empresas e investidores em recursos naturais. [4]

O financiamento é principalmente em dólares, fornecendo títulos sem risco para os EUA e instituições financeiras. A "interdependência" comercial e financeira resultante levou a uma situação em que uma interrupção repentina daquela oferta prejudicaria as economias estrangeiras, causando uma quebra na cadeia de pagamentos e produção. O efeito é trancar os países clientes na dependência da economia dos EUA e da sua diplomacia, qualificados com o eufemismo de "promoção de crescimento e desenvolvimento". 

A política neoliberal dos EUA através do FMI impõe austeridade e opõe-se a reduções significativas da dívida. O seu modelo económico finge que os países devedores podem pagar qualquer volume de dívida em dólares simplesmente pela redução de salários para extrair mais rendimento da força de trabalho a fim de pagar credores estrangeiros. Isto ignora o facto de que resolver o "problema orçamental" interno, tributando a receita local, ainda enfrenta o "problema da transferência" na conversão em dólares ou outras moedas fortes, nas quais a maior parte das dívidas internacionais são denominadas. O resultado é que os programas de "estabilização" do FMI na verdade desestabilizam e empobrecem os países forçados a seguirem seus conselhos. 

Empréstimos do FMI apoiam regimes pró EUA, como a Ucrânia, e subsidiam a fuga de capitais ao apoiarem as moedas locais durante o tempo suficiente para permitir que as oligarquias locais clientes dos EUA se desfaçam das suas moedas nacionais a uma taxa de câmbio pré-desvalorização em relação ao dólar. Quando a moeda local for finalmente autorizada a entrar em colapso, os países devedores são aconselhados a impor a austeridade anti-trabalhadores. Isso globaliza a guerra de classes do capital contra o trabalho enquanto mantém os países devedores sob uma curta trela financeira dos EUA.

A diplomacia dos EUA resume-se a impor sanções comerciais para perturbar economias que se afastem dos objectivos dos EUA. As sanções são uma forma de sabotagem económica, tão letal quanto uma guerra militar directa no estabelecimento do controle americano sobre as economias estrangeiras. A ameaça é empobrecer populações civis, na crença de que isso as levará a substituir os seus governos por regimes pró-americanos que prometem restaurar a prosperidade vendendo as suas infraestruturas internas aos EUA e outros investidores transnacionais.

Guerra dos EUA em muitas frentes
Defesa da desdolarização
Guerra militar (Oriente Próximo, Ásia) NATO e tratados bilaterais (saudita, ISIS, Al Qaida), revoluções coloridas e guerras por procuraçãoOrganização de Cooperação de Shangai e pressão para a Europa retirar-se da NATO a menos que os EUA aliviem suas ameaças de Nova Guerra Fria
Dolarização é guerra monetária. O padrão dos US Treasury-bill financia principalmente o défice da balança de pagamentos militar dos EUA. O SWIFT ameaça isolar o Irão e a Rússia.A desdolarização refreará bancos centrais estrangeiros de financiarem gastos militares além-mar dos EUA pela manutenção das suas poupanças em dólares. Criação de sistemas alternativos de câmaras de compensação de pagamentos.
O FMI financia regimes clientes dos EUA e procura isolar aqueles que não seguem a política estado-unidense.Organização de uma alternativa financeira global, tal como o INSTEX da Europa para contornar as sanções contra o Irão, bem como a alternativa ao SWIFT russo-chinesa.
Política do credor impondo austeridade a economias devedoras, forçando-as a privatizar e vender barato o seu domínio público para pagar dívidas.Um tribunal internacional com poderes para cancelar parcialmente (write down) em função da capacidade de pagar, com base nos princípio originais que guiaram a constituição do Bank of International Settlements (BIS) em 1931.
O Banco Mundial financia a dependência comercial às exportações alimentares dos EUA e opõe-se à auto-suficiência alimentar nacional.Uma organização de desenvolvimento alternativa baseada na auto-suficiência alimentar. Anulação da dívida ao Banco Mundial e FMI como "dívida odiosa".
Guerra comercial unilateral dos EUA baseada na cobrança de tarifas proteccionistas, quotas e sanções.Sanções compensatórias e criação de uma alternativa à OMC ou uma organização fortalecida liberta do controle dos EUA.
Ciber Guerra, spycraft via plataformas Internet dos EUA e sabotagem Stuxnet.Trabalhar com a Huawei e outras alternativas a opções de Internet dos EUA.
Guerra de classe: programa de austeridade para o trabalhoModerna Teoria Monetária (MMT, na sigla em inglês), tributação do rendimento do rentista e dos ganhos do capital.
Doutrina monetarista neoliberal da privatização e das regras orientadas para o credor.Promoção de uma economia mista com infraestrutura pública como um factor de produção.
Política de patentes dos EUA busca rendas de monopólio.Não reconhecimento de patentes monopolistas predatórias.
Controle de investimento.Desprivatização e buyouts de activos dos EUA no exterior
Lei internacional e diplomaciaOs EUA como a "nação excepcional" do mundo não sujeita a leis internacionais ou mesmo aos próprios tratados que acordou.

Problemas globais causados pela política dos EUA
Resposta à política destrutiva dos EUA
EUA recusam-se a aderir a acordos internacionais para reduzir emissões de carbono, aquecimento global e meteorologia extrema A diplomacia dos EUA está baseada no controle do petróleo para tornar outros países dependentes da dominância energética estado-unidense.Sanções comerciais e fiscais contra exportadores e bancos estado-unidenses. Impostos sobre a evasão fiscal dos EUA pelas "bandeiras de conveniência" da indústria do petróleo (conveniente para evitar impostos). Tributação ou isolamento de exportações dos EUA baseadas na produção com alto teor de carbono.
Tentativa de monopolizar a nova tecnologia G5 da Internet, sancionamento da Huawei, insistência na prioridade dos EUA em alta tecnologia.Rejeição de patentes sobre TI, medicina e outras necessidades humanas básicas.
Leis de patentes em produtos farmacêuticos, etc.Tributação das rendas de monopólio.

Existem alternativas, em muitas frentes 

Militarmente, a principal alternativa actual ao expansionismo da NATO é a Organização de Cooperação de Xangai (SCO), juntamente com uma Europa que seguisse o exemplo da França sob Charles de Gaulle e se retirasse da NATO. Afinal, não há ameaça real de invasão militar hoje na Europa. Nenhuma nação pode ocupar outra sem um enorme recrutamento militar e perdas tão pesadas de pessoal que os protestos internos destituiriam o governo que travasse essa guerra. O movimento anti-guerra dos EUA na década de 1960 sinalizou o fim do projecto militar, não apenas nos Estados Unidos, mas em quase todos os países democráticos. (Israel, Suíça, Brasil e Coreia do Norte são excepções). 

Os enormes gastos com armamentos para um tipo de guerra improvável não são realmente militares, mas simplesmente para proporcionar lucros ao complexo industrial militar. O armamento não é realmente para ser usado. Ele é simplesmente para ser comprado e, finalmente, transformado em sucata. O perigo, é claro, é que essas armas possam ser usadas, apenas para criar uma necessidade de nova produção lucrativa. 

Da mesma forma, títulos financeiros estrangeiros em dólares não devem ser realmente gastos em compras de exportações ou investimentos dos EUA. Eles são como colecções de vinhos caros, para guardar em vez de beber. A alternativa a tais haveres dolarizados é criar um uso mútuo de divisas nacionais e um sistema de pagamentos de compensação bancária alternativo ao SWIFT. A Rússia, a China, o Irão e a Venezuela já estão a desenvolver pagamentos em criptomoeda para contornar as sanções dos EUA e, consequentemente, o seu controlo financeiro. 

Na Organização Mundial do Comércio, os Estados Unidos tentaram afirmar que qualquer indústria que beneficie de infraestruturas públicas ou subsídios de crédito merece uma retaliação tarifária nas exportações para forçar a privatização. Em resposta às determinações da OMC de que as tarifas dos EUA são impostas ilegalmente, os Estados Unidos "em protesto bloquearam todas as novas nomeações para o organismo de apelação de sete membros, deixando-o em risco de colapso dado que pode não haver juízes suficientes que lhe permita actuar em novos casos. [5] Na visão dos EUA, apenas o comércio privatizado financiado por bancos privados e não públicos é um comércio "justo". 

Uma alternativa à OMC (ou a remoção de privilégio de veto dado ao bloco americano) é necessária para lidar com a ideologia neoliberal dos EUA e, mais recentemente, a farsa dos EUA alegando isenção dos tratados de livre comércio em nome da "segurança nacional", impondo tarifas ao aço e alumínio, e aos países europeus que contornem as sanções ao Irão ou ameacem comprar gás da Rússia através do gasoduto Nordstream II, em vez do gás natural liquefeito, "gás da liberdade", de alto custo dos Estados Unidos. 

No campo dos empréstimos para desenvolvimento, o Banco da China, juntamente com a sua iniciativa "Nova rota da seda", é uma alternativa incipiente ao Banco Mundial, cujo principal papel tem sido promover a dependência externa de fornecedores aos EUA. O FMI, por sua vez, funciona como uma extensão do Departamento de Defesa dos EUA para subsidiar regimes clientes como a Ucrânia, enquanto isola financeiramente países que não são subservientes à diplomacia norte-americana. 

Para salvar as economias endividadas que sofrem com austeridade ao estilo grego, o mundo precisa substituir a teoria económica neoliberal por uma lógica analítica de redução das dívidas com base na capacidade de pagamento. O princípio orientador da necessária lógica orientada para o desenvolvimento do direito internacional deveria ser que nenhuma nação fosse obrigada a pagar a credores estrangeiros tendo que vender património do domínio público e direitos de extracção de rendas a credores estrangeiros. O carácter definidor da soberania deveria residir no direito de tributar a exploração dos recursos naturais e respectivos retornos financeiros e criar o seu próprio sistema monetário. 

Os Estados Unidos recusam-se a aderir ao Tribunal Penal Internacional. Para ser eficaz, ele precisaria [ter] poder de execução dos seus julgamentos e penalidades, culminando com a capacidade de apresentar acusações por crimes de guerra na tradição do tribunal de Nuremberg. Os EUA num tribunal assim poderiam ser julgados, de acordo com o seu crescimento militar que agora ameaça uma Terceira Guerra Mundial. Isto sugere um novo alinhamento de países tal como o movimento das nações não-alinhadas dos anos 50 e 60. Não alinhado, neste caso, significa estar livre do controlo ou de ameaças diplomáticas dos EUA. 

Tais instituições necessitam de uma teoria económica e uma filosofia de operações mais realistas para substituir a lógica neoliberal anti-Estado, de privatizações, austeridade anti-trabalhadores e oposição a défices orçamentais e reduções de dívidas. A doutrina neoliberal de hoje conta os ganhos financeiros e o aumento dos preços da habitação como um acréscimo ao "produto real" (PIB), mas considera o investimento público como um peso morto, não como uma contribuição para a produção. O objectivo de tal lógica é convencer governos a pagarem aos credores estrangeiros através da venda das suas infraestruturas públicas e de outros activos do domínio público. 

Assim como o princípio de "capacidade para pagar" foi a pedra fundamental do Bank for International Settlements, constituído em 1931, é necessária uma base semelhante para medir a capacidade actual de pagar dívidas e, portanto, cancelar maus empréstimos efectuados sem a correspondente capacidade de pagamento dos devedores. Sem uma tal instituição e corpo de análise, o princípio neoliberal do FMI de impor depressão económica e queda dos padrões de vida para pagar aos EUA e outros credores estrangeiros irá impor a pobreza global. 

As propostas acima proporcionam uma alternativa à recusa "excepcionalista" dos EUA de integrarem qualquer organização internacional que tenha uma palavra a dizer sobre os seus assuntos. Outros países devem estar dispostos a virar a mesa e isolar bancos e exportadores dos EUA e a evitar o uso de dólares americanos e encaminhamento de pagamentos através de bancos dos EUA. Proteger a capacidade de criar um poder compensatório (countervailing power) exige um tribunal internacional e sua organização de suporte. 

Resumo 

O primeiro objectivo existencial é evitar a presente ameaça de guerra pelo atenuação da interferência militar dos EUA em países estrangeiros e a remoção das bases militares dos EUA como relíquias do neocolonialismo. O seu perigo para a paz e prosperidade mundial cria a ameaça de uma reversão para o colonialismo anterior à Segunda Guerra Mundial, dirigido por elites clientes segundo linhas semelhantes às do golpe ucraniano de 2014 por grupos neonazis patrocinados pelo Departamento de Estado dos EUA e pela National Endowment for Democracy. Tal controlo lembra os ditadores que a diplomacia americana estabeleceu em toda a América Latina nos anos 50. O terrorismo étnico de hoje promovido pelos EUA, apoiado pelo islamismo wahabi-saudita lembra o comportamento da Alemanha nazi na década de 1940. 

O aquecimento global é a segunda grande ameaça existencial. Bloquear tentativas de reverter isso é um fundamento da política externa americana, porque se baseia no controle do petróleo. Portanto, as ameaças militares, de refugiados e de aquecimento global estão interligadas. 

O militarismo dos EUA representa o maior perigo imediato. A guerra actual está fundamentalmente mudada em relação ao que costumava ser. Antes da década de 1970, as nações conquistadoras tinham de invadir os países e ocupá-los com exércitos formados por recrutamento militar. Mas nenhuma democracia no mundo de hoje pode reviver tal proposta sem desencadear a recusa popular generalizada de combater, votando pelo afastamento do governo do poder. 

O único meio pelo qual os Estados Unidos – ou outros países – podem combater outras nações é bombardeá-las. E como observado acima, as sanções económicas têm um efeito tão destrutivo sobre as populações civis em países considerados adversários dos EUA quanto a guerra aberta. Os Estados Unidos podem patrocinar golpes políticos (como nas Honduras e no Chile de Pinochet), mas não podem ocupar países, nem têm vontade de reconstrui-los, para não falar em assumir a responsabilidade pelas ondas de refugiados que nossos bombardeamentos e sanções estão a causar desde a América Latina até ao Próximo Oriente. 

Os ideólogos dos EUA vêem a expansão militar coerciva de seu país, a subversão política e a política económica neoliberal de privatizações e financeirização como uma vitória irreversível que assinala o "Fim da história". Para o resto do mundo, é uma ameaça à sobrevivência humana. 

A promessa americana é que a vitória do neoliberalismo é o "Fim da história", oferecendo prosperidade ao mundo inteiro. Mas, sob a retórica da livre escolha e do livre mercado está a realidade da corrupção, subversão, coerção, servidão pela dívida (debt peonage) e neofeudalismo. A realidade é a criação e subsídio de economias polarizadas, bifurcadas entre uma classe privilegiada rentista com sua clientela e seus devedores e arrendatários. Permite-se aos Estados Unidos monopolizarem o comércio de petróleo e cereais e os monopólios de alta tecnologia extractores de rendas, vivendo às custas da dependência dos seus clientes. 

Ao contrário da servidão medieval, as pessoas sujeitas a este cenário de "Fim da história" podem escolher onde querem viver. Mas onde quer que vivam devem endividar-se durante toda a vida a fim de terem acesso a uma casa própria e devem depender do controlo dos EUA sobre as suas necessidades básicas, dinheiro e crédito, aderindo ao planeamento financeiro americano das suas economias. Este cenário distópico confirma o reconhecimento de Rosa Luxemburgo de que a escolha definitiva que as nações enfrentam no mundo de hoje é entre socialismo e barbárie.

Notas:
  
[1] Billy Bambrough, "Bitcoin Threatens To 'Take Power' From The U.S. Federal Reserve," Forbes , May 15, 2019. Bitcoin Threatens To 'Take Power' From The U.S. Federal Reserve
[2] Vladimir Putin, discurso no Economic Forum, June 5-6 2019. Putin prosseguiu para advertir contra "uma política de egoísmo económico completamente ilimitado e um colapso forçado". Esta fragmentação do espaço económico global "é o caminho para conflitos intermináveis, guerras comerciais e talvez não apenas guerras comerciais. Figurativamente, este é o caminho para a derradeira luta de todos contra todos". 
[3] Discurso no St Petersburg International Economic Forum's Plenary Session, St Petersburg, Kremlin.ru, June 5, 2009, from Johnson's Russia List, June 8, 2009, #8, 
[4] Russia, China, Iran & Venezuela developing crypto to challenge US financial control – study. Já no final da década de 1950, o Plano Forgash propôs um Banco Mundial para Aceleração Económica. Concebido por Terence McCarthy e patrocinado pelo senador da Florida, Morris Forgash, o banco teria sido uma instituição mais voltada para o desenvolvimento, orientando o desenvolvimento estrangeiro para criar economias equilibradas e auto-suficientes em alimentos e outros itens essenciais. A proposta teve a oposição dos interesses dos EUA, alegando que os países que buscavam a reforma agrária tendiam a ser antiamericanos. Mais especificamente, eles teriam evitado a dependência comercial e financeira dos fornecedores e dos bancos dos EUA e, portanto, das suas sanções comerciais e financeiras para os impedir de seguirem políticas contrárias às exigências diplomáticas dos EUA. 
[5] Don Weinland, "WTO rules against US in tariff dispute with China," Financial Times , July 17, 2019.

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