30 de setembro de 2018

Munique e os muniquenses, 80 anos mais tarde

Annie Lacroix-Riz

La Presse Nouvelle

Tradução / "O Ocidente", recentemente rebatizado "comunidade internacional", trata como "muniquenses" todos os que criticaram a cruzada que Washington levou a cabo contra a URSS, acusada de "expansão mortífera", mal tinha secado a tinta dos compromissos forçados firmados com ela em Ialta e Potsdam, e a ininterrupta política da canhoneira, depois de 1950 (e da "guerra da Coreia"), intensificada depois dos anos de 1990.

O tema floriu em Paris contra «Nasser-Hitler» depois do anúncio pelo líder egípcio, em julho de 1956, da sua nacionalização do canal do Suez. Não conheceu tréguas depois da primeira guerra, com o Iraque, no Próximo Oriente, ou, na Europa, contra «Milosevic-Hitler» como diziam os cartazes colados nas paredes da União Europeia para denunciar a expansão da «Grande Sérvia» ou a sua «Operação Ferradura»[a] .

A verdadeira história da execução da Checoslováquia...


Os mesmos cruzados, porém, nunca explicam aos povos, assim dissuadidos de entrar em pactos com as forças dos novos Hitler que ameaçam «o Ocidente», o que foi a conferência de Munique. Realizada na noite de 29 para 30 de setembro de 1938 entre Hitler, ladeado por Mussolini, casamenteiro oficial, Chamberlain (Londres) e Daladier (Paris), a conferência foi o resultado do velho abandono francês da Checoslováquia e o momento-chave do «Apaziguamento» franco-inglês face ao imperialismo alemão abertamente belicoso.

A Checoslováquia tinha sido o símbolo por excelência da vitória do imperialismo francês sobre os impérios centrais, único «Estado sucessor», stricto sensu, do império austro-húngaro – os outros dois eram a Roménia e a Sérvia, que se tornou Jugoslávia (oficialmente «Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos» até 1929), não sendo mais do que acrescentos dos despojos dos austro-húngaros. As fronteiras deste Estado, criado pela França e que continuou fiel até à sua morte ao imperialismo francês, foram fixadas conforme os interesses metalúrgicos e mineiros do grupo Schneider du Creusot (Eugène Schneider em pessoa). Este tinha convencido o Quai d’Orsay[b] a integrar o território de Teschen, rico em carvão, neste Estado recém-nascido, em vez de o entregar à Polónia, porque os trabalhadores checos eram menos combativos que os mineiros polacos. Schneider recebeu também a propriedade ou, mais tarde, o controloecompleto, à custa dos retoques cosméticos do capital, do fabricante de armamentos Skoda, equivalente austríaco da Krupp. A norma francesa de preservação do aliado principal tinha em grande medida motivado a proibição do Anschluss[c], de que o Reich foi devidamente notificado, quer pelo tratado de Versalhes, quer pelo de Saint Germain: os «meios bem informados» clamavam que, em 1918-1919, a anexação da Áustria arrastaria fatalmente, e a breve trecho, a da Checoslováquia.

Foi também Schneider que ditou a sua morte, num contexto que esclarecia bem as relações entre o imperialismo francês e os imperialismos dominantes. O «Diktat» de Versalhes não tinha sido respeitado desde logo em diversos domínios, dada a inclinação do capital financeiro francês para lidar com o seu homólogo alemão, parceiro essencial, no Sarre e em outras zonas, e protegido do grande aliado americano, credor imperioso. Desde os anos de 1920 da «reconciliação» franco-alemã oficial e, mais ainda, no decênio de 1930, que os cartéis metalúrgicos consagraram a superioridade esmagadora da indústria alemã, com o aval do grande capital francês, incluindo o feudo colonial do leste da Europa que lhe tinha proporcionado a vitória de 1918 («Estados sucessores» e a Polônia).

Durante a crise, que fez afundar as exportações, e quando "os mercadores de canhões" franceses se recusavam a rearmar a França contra o Reich, Schneider rejeitava a concorrência da Skoda. A casa mãe violou os acordos anteriores, designadamente sobre o monopólio "checoslovaco" sobre o mercado romeno, tão próspero, assim como sobre o mercado polaco, cujos Estados se armavam até aos dentes contra... a URSS; depois, considerou mais rentável vender a Skoda ao Reich que, ele sim, se rearmava e tinha necessidade do notável potencial militar-econômico da Praga.

Paris nada tinha a recear do alto pessoal político da «democracia» checoslovaca, único apresentável dos Estados aliados antissoviéticos, estando a Romênia, a Jugoslávia e a Polônia nas mãos de ferozes ditaduras consolidadas pelas armas e pelos auxiliares franceses: cumulada de prebendas, entre as quais os lugares dos conselhos de administração na Skoda-Schneider e outros, a Checoslováquia vinha comer à mão dos seus benfeitores franceses.

Tão sensível às sirenes alemãs como o seu tutor francês, resignou-se, a partir de 1928 ao... Anschluss, Benès[d] e os seus incluídos. A segurança nacional do país dependia do domínio dos Sudetos montanhosos, pilar geográfico e econômico da sua resistência militar, onde se concentrava o material Schneider, com uma réplica da linha Maginot[e] e da sua aliança «do avesso» antialemã.

A aliança militar defensiva Benès-Herriot de 1924-1925 não valia nada. Joseph Barthélémy, o impedido do Comité das Forjas[f], fascista eminente e futuro ministro da Justiça de Pétain, foi encarregado de comunicá-lo aos iminentes crucificados, em 11 de abril de 1938, num artigo retumbante do sobredito Comité, Le Temps [O Tempo], voz do Quai d’Orsay e predecessor do Monde [Mundo]. Esta aliança era tão oca que Paris quis suprimir o seu adido militar em Praga desde o fim dos anos 1920, depois renunciou a esta confissão prematura, deixando no seu posto até ao grito final o tchecófilo e impotente general Faucher, privado de «missão militar».

A única aliança que teria podido salvar Praga era com a URSS, assinada em 16 de maio de 1935 e ligada à aliança franco-soviética de 2 de maio. A outra estava neutralizada porque Laval, os seus sucessores, o secretário-geral do Quai d’Orsay, Alexis Léger (1933-maio de 1940)[1] e o ministério da Guerra, furioso contra os bárbaros do leste, se barricaram com eficácia, mesmo até ao início de agosto de 1939, contra a assinatura de acordos militares e aeronáuticos, os únicos que lhe podiam dar vida. Proibiram também aos seus fiéis, entre os quais Benès, de aplicar a aliança checo-soviética que Moscovo tinha proposto, em Praga, tornar-se bilateral, de 1936 até à capitulação checoslovaca perante o diktat franco-inglês.

Entre as benfeitorias que, em 1938, os Apaziguadores contavam proporcionar ao Reich, completamente incapaz de se lançar na guerra mas tão bom cliente, devedor compreensivo e tão resoluto a livrar dos Sovietes o mundo inteiro (mas também obcecado pela «Vingança» contra o ocidente), estava o Anschluss. Este aconteceu, tranquilamente, em março de 1938, como tinha sido previsto na reunião franco-inglesa realizada em Londres, a 29 de novembro de 1937, onde os radicais Chautemps, presidente do Conselho, e Yvon Delbos, Ministro dos Negócios Estrangeiros, fingiram ceder à “governação inglesa” – Chamberlain, Primeiro Ministro e Eden, secretário no Ministério dos Negócios Estrangeiros –, que os intimava a satisfazer também as «legítimas» reivindicações nacionais dos Sudetas emitidas pelo fantoche de Berlim, Henlein. Paris e Londres recolheram os aplausos calorosos de Washington, que então parecia indiferente à tutela alemã sobre a Europa, e do Vaticano, instrumento incondicional da expansão do Reich, desde que Bento XV se envolveu, no início de 1919, a ajudá-lo a conquistar o «Altreich»[g] (nas suas fronteiras de novembro de 1918) e a conquistar a totalidade do império austro-húngaro, cujos povos eram guiados pela Igreja romana desde o nascimento até à morte.

A esta penúltima etapa da invasão, levada a cabo em 1 de outubro de 1938, juntamente com a dos Sudetas, seguiu-se facilmente a última: o assalto alemão contra o coto checoslovaco, a 15 de março de 1939. Entretanto, em dezembro de 1938, Schneider, sob a máscara «checa», vendeu a Skoda ao conglomerado Dresdner Bank-Krupp, através do futuro primeiro-ministro das Finanças de De Gaulle, Aimé Lepercq, chefe da União Europeia Industrial e financeira (Schneider) e, durante a ocupação, «diretor responsável» do comité de organização das hulheiras (ditas «combustíveis fósseis»). O «Sedan diplomático»[2] [h], com o compromisso da invasão da França, tinha sido ratificado em 4 de outubro na Câmara de Deputados por 535 votos – da SFIO [Secção Francesa da Internacional Operária] a toda a direita reunida – contra 75: os 73 dos deputados comunistas, do direitista mas antinazi Henri de Kerillis e do deputado da SFIO Jean Bohey.

O «sobressalto» oficial dos «pacifistas», depois de 15 de março de 1939, puro engodo, não é defendido a não ser pelos historiadores indiferentes às fontes originais, e por todos os que, em 10 de julho de 1940, votaram os plenos poderes a Pétain, ratificaram Munique e concordaram com tudo o que se lhe seguiu.

A eterna defesa dos "Muniquenses": o pacto germano-soviético


Como descrever publicamente o que foi "Munique", onde, intencionalmente, os Apaziguadores permitiram ao Reich, não apenas liquidar um aliado apresentado aos franceses durante tanto tempo como pivô da "aliança no reverso", mas também apagar a sua vitória de 1918?

Para quê falar daquilo que incomoda, agora que se pode continuar a atacar a «traição» dos Sovietes, o pacto de não-agressão germano-soviético e a esconder a dupla realidade para que os embaixadores e os adidos militares franceses e britânicos tinham alertado incansavelmente, no virar de 1932 (momento em que foi claramente compreendido, em Londres e Paris, a viragem antialemã da política externa soviética), até ao próprio dia da assinatura do pacto, em 23 de agosto de 1939: 1.º, perante o perigo militar alemão, «os Russos» queriam regressar à aliança tripartida de 1914; 2.º, se eles rejeitavam vivamente o veto de Paris e Londres deveriam negociar um compromisso provisório com Berlim.

O obstinado ódio antissoviético realizou todas as previsões de setembro de 1938, e não apenas as dos comunistas, sobre as funestas consequências do «Sedan diplomático» assinado em Munique: a invasão iminente, que a aliança e as divisões russas (não «os taxis de la Marne») tinham evitado à França em 1914-1915. É o assassinato franco-inglês da Checoslováquia, seguido pela rejeição das ofertas de alianças soviéticas, formais e renovadas, o que define os «Muniquenses». Aqueles cujos herdeiros contemporâneos se deixam espezinhar, tão alegremente como outrora, pelos seus poderosos «aliados» ou tutores, espadeirando contra os «Muniquenses» imaginários.

Notas


[1] NDLR Marie-René Auguste Alexis Leger, dito Saint-John Perse, foi também poeta, escritor e laureado com o prémio Nobel de literatura em 1960.

[2] Gabriel Péri, L’Humanité, 01/10/1938.

Referências


Michel Collon, especialista da «propaganda de guerra», Poker menteur. Les grandes puissances, la Yougoslavie et les prochaines guerres [Poker Mentiroso. As grandes potências, a Jugoslávia e as próximas guerras], EPO, Bruxelas, 1997, esgotado mas indicado nos sítios da FNAC e da Amazon e Libye, OTAN et médiamensonges: Manuel de contrepropagande [Líbia, NATO e Mentiras mediáticas: Manual de contrapropaganda]. Investig’action, 2011.

Géraud André (Pertinax), Les fossoyeurs: défaite militaire de la France, armistice, contrerévolution [Os coveiros: derrota militar francesa, armistício, contrarrevolução], New-York, Ed. de la Maison française, 1943, 2 vol., 284 p.

Annie Lacroix-Riz, Le Vatican, l’Europe et le Reich de la Première Guerre mondiale à la Guerre froide (1914-1955), [O Vaticano, a Europa e o Reich da Primeira Guerra mundial à Guerra fria (1914-1955)], Armand Colin, Paris, 2010, 710 p., 21,10 € ; Le Choix de la défaite: les élites françaises dans les années 1930 [A escolha da derrota: as elites francesas nos anos de 1930], Armand Colin, Paris, 2010, 688 p., 40,60 € ; De Munich à Vichy, l’assassinat de la 3e République, 1938-1940, [De Munique a Vichy, o assassinato da III República, 1938-1940], Armand Colin, Paris, 2008, 416 p., 32 € ; Aux origines du carcan européen, 1900-1960 [Nas origens do jugo europeu, 1900-1960]. La France sous influence allemande et américaine, [A França sob influência alemã e americana] Delga-Le temps des cerises, Paris, 2016, 197 p., 10,81 €.

Constituição mudou preferência eleitoral dos mais pobres, diz professora

Hoje eleitorado revela, segundo cientista política, racionalidade similar a democracias mais desenvolvidas

Marta Arretche

Folha de S.Paulo

Ilustração: Ana Elisa Egreja

Rios de tinta foram dedicados ao comportamento desviante dos eleitores da América Latina. Com a possível exceção da Argentina e do Uruguai, aqui, os eleitores mais pobres pareciam não se revelar propensos a votar em partidos com plataformas redistributivas. Estes catalisavam com mais frequência a simpatia de eleitores progressistas mais escolarizados.

Haveria, portanto, algo radicalmente distinto no perfil do eleitor latino-americano que o impediria de se comportar como o das democracias avançadas, nas quais a renda e a escolaridade seriam bons indicadores das preferências partidárias.

Lá, à esquerda e à direita corresponderiam bases eleitorais distintas. Pobres votariam em partidos que prometem melhorar seu bem-estar ao passo que os mais afortunados votariam em partidos que prometem reduzir os impostos.

Na América Latina, diferentemente, a fragilidade programática do sistema partidário se combinaria à irracionalidade do eleitorado, que não votaria de acordo com seus interesses materiais. Há quem culpe os partidos, por não apresentarem claramente suas plataformas. Há quem culpe o eleitor, por não saber escolher seus candidatos. Mas, causas à parte, os diagnósticos convergem para afirmar nossa inferioridade em relação às democracias avançadas.

O voto econômico —isto é, preferências partidárias alinhadas à renda dos eleitores— parece ser mais evidente em países em que a desigualdade é menor, tais como as democracias europeias. Onde a desigualdade é maior, como na América Latina, não é claro que quanto mais baixa a renda dos eleitores, maior a probabilidade de voto em partidos cujas plataformas eleitorais priorizam o bem-estar da maioria.

De fato, no Brasil, partidos clientelistas obtiveram por longo tempo sucesso eleitoral nos distritos com maior concentração de população vulnerável. O fenômeno não é restrito à região Nordeste. Redutos eleitorais de partidos conservadores abunda(ra)m nas regiões mais ricas. Alguma forma de irracionalidade ou de desinformação acometeria esses eleitores, concluem os analistas.

Mas, por que apenas os eleitores latino-americanos e brasileiros se comportariam desse modo? Por que a irracionalidade seria um atributo dos trópicos? Falta de escolaridade, respondem prontamente alguns observadores.

De fato, a ciência política acumulou fartas evidências da relação positiva entre níveis de escolaridade e informação política. Mas o fato é que o apoio aos partidos com plataformas redistributivas na Europa começou a ocorrer ainda no século 19, sob baixos níveis de escolaridade.

Na democracia limitada de 1946, bem como no regime democrático atual, a associação entre renda e preferências partidárias dos eleitores ocorreu de modo gradual, à medida que a operação regular do sistema politico se adensava, também sob baixos níveis de escolaridade.

Estudo sobre as preferências dos eleitores latino-americanos publicado neste ano na World Politics por Alisha C. Holland, da Universidade Princeton, nos apresenta uma proposição útil para melhor entender o quadro eleitoral —da eleição em curso e muito provavelmente de eleições futuras.

Eleitores que não recebem benefícios sociais apresentam expectativas deprimidas. Não acreditam que seu voto poderá se converter em políticas que aumentarão seu bem-estar. Os indivíduos precisam experimentar políticas que lhes trazem benefícios tangíveis para apoiar plataformas redistributivas.

Logo, a diferença entre a América Latina e as democracias avançadas não estaria no eleitor, mas na credibilidade de que os eleitos de fato entreguem as políticas que prometem.

A Constituição de 1988 mudou muito o desenho das políticas sociais brasileiras. Até ali, só tinha direito a aposentadoria e a assistência médica quem tivesse carteira assinada, cerca de 40% da força de trabalho no final dos anos 80. Até ali, o mundo escolar era praticamente inacessível para a maioria da população.

Em 1980, 26% da população adulta brasileira era analfabeta. Ou seja, cerca de um quarto do eleitorado (potencial) não sabia ler ou escrever. Quase 22% tinham até três anos de estudo. Eram analfabetos funcionais. De cada 100 jovens que entravam na escola, apenas 55 completavam quatro anos de estudo antes dos 16 anos de idade. As chances de uma criança de origem pobre concluir o ensino fundamental eram muito menores do que aquelas das famílias de maior renda.

Em suma, as políticas sociais do regime militar produziam uma legião de excluídos permanentes. Mais que isso, esta exclusão era cumulativa. Baixa escolaridade, inserção precária no mercado de trabalho, exclusão da assistência médica e do direito a aposentadoria se superpunham sobre os mesmos indivíduos. Este era o Brasil de 40 anos atrás!

A Constituição de 88 foi o resultado de um processo inclusivo de redemocratização que erodiu alguns dos pilares desta histórica exclusão. Ao criar o SUS, eliminou as vantagens conferidas apenas aos trabalhadores com carteira assinada. Ao criar o Benefício de Prestação Continuada, garantiu um ganho ao fim da vida para trabalhadores pouco qualificados que tiveram inserção irregular no mercado de trabalho.

Ao estabelecer um piso para os benefícios previdenciários, produziu um patamar, a ser definido politicamente por ocasião da elaboração do Orçamento, abaixo do qual nenhum idoso deveria viver.

Sob os dispositivos da Constituição, incremental e sistemática incorporação foi alcançada nos últimos 30 anos. Os outrora 60% excluídos e seus familiares obtiveram ganhos incrementais de acesso ao atendimento em saúde, via SUS.

Cerca de 25% dos eleitores (estimativa para 2015) foram progressivamente incorporados à politica do salário mínimo, seja via aposentadorias ou benefícios assistenciais, seja via mercado de trabalho. Os níveis de escolaridade modificaram muito. Entre 1980 e 2010, os concluintes do fundamental completo saltaram de 3,3 milhões para 12,5 milhões; os concluintes do ensino médio passaram de 3,8 milhões para 29 milhões e o mundo universitário incluiu mais de 20 milhões de jovens.

Parece muito distante, mas precisa ser lembrado: em 1980, quase metade dos eleitores brasileiros era analfabeta ou semianalfabeta e 60% não tinha direito à assistência médica ou aposentadoria. A situação atual é muito ruim, mas sua dramaticidade deriva de uma métrica móvel. Nossas expectativas se elevam à medida que ganhos civilizatórios são obtidos.

A Constituição de 88 não foi obra dos partidos de esquerda, que eram francamente minoritários na Assembleia Constituinte. Foi resultado da percepção, também entre os conservadores, de que a democracia não seria sustentável no Brasil sem que um mínimo de proteção social fosse provida à massa de excluídos.

É muito razoável supor que a incremental inclusão inaugurada pela Constituição de 1988 tenha alterado as expectativas dos eleitores brasileiros, em particular os de baixa renda. Assim, a distribuição de preferências do eleitorado na eleição atual estaria revelando a mesma racionalidade que orienta o eleitor das democracias desenvolvidas.

Eleitores pobres tendem a preferir candidatos que apresentam plataformas orientadas ao bem-estar ao passo que eleitores mais ricos temem ser expropriados caso estes candidatos sejam eleitos.

Neste caso, a Constituição e as políticas que lhe sucederam contribuíram para minimizar expectativas deprimidas. Estas últimas seriam compatíveis com as políticas excludentes do regime militar, mas incompatíveis com algumas poucas décadas de progressiva incorporação a padrões mínimos de vida civilizada.

Sem dúvida, a gravidade de nosso quadro fiscal imporá definição de prioridades, do que decorrerá frustração de expectativas. Não é possível atender a todas as demandas. Mas a experiência das democracias avançadas, confirmada pelo insucesso do governo Temer, demonstra que políticas de austeridade requerem governos com créditos políticos para queimar. Governos com baixa legitimidade não podem se dar a este luxo.

Por isso, é certamente um equívoco interpretar esta reta final da campanha presidencial como um quadro de polarização eleitoral, entre extremos do espectro ideológico que se equivalem em termos de compromisso com os padrões de uma sociedade civilizada.

Seja a violência sofrida pelo candidato à presidente que está a frente nas pesquisas eleitorais, seja a violência que este próprio incita em seu eleitorado nos fazem duvidar de que a promessa civilizatória da Constituição de 1988 tenha sido uma conquista irreversível.

Sobre a autora


Marta Arretche é professora titular do Departamento de Ciência Politica da USP e diretora do Centro de Estudos da Metrópole.

28 de setembro de 2018

Alexandre Schwartsman perde o decoro ao ofender Marcio Pochmann

Não podemos esquecer que a qualidade mais importante que um bom economista deve apresentar é aceitar a contradição

Paulo Feldmann

Folha de S.Paulo

O economista Marcio Pochmann é um dos formuladores da agenda econômica do PT. Eduardo Anizelli/Folhapress

Há um problema que se repete no Brasil em vésperas de eleições: Trata-se da visão futebolística de que nosso time é o melhor e tudo que vem do adversário não presta. Este fato, aliado à intensa rivalidade existente entre PSDB e PT, é uma das causas da tragédia brasileira.

Ambos partidos já fizeram coisas muito boas pelo país —o Plano Real de FHC e a melhoria da renda dos mais pobres de Lula são exemplos inequívocos de que há coisas boas dos dois lados e que precisam ser mutuamente reconhecidas.

Além disso, não podemos esquecer que a qualidade mais importante que um bom economista deve apresentar é aceitar a contradição, pois a mesma está presente em quase todos aspectos que envolvem a teoria econômica.

Em economia raramente há uma única forma de se enxergar ou interpretar fatos. É isso que surpreende em Alexandre Schwartsman. Em seu artigo de quarta-feira (26) nesta Folha ele se põe a ofender Marcio Pochmann, professor da Unicamp, chamando-o de desonesto ao invés de se contrapor com bons argumentos ao que Marcio coloca.

Poucos contestam que um dos maiores problemas do Brasil é a péssima distribuição de renda. O que Marcio quis dizer, e certamente Alexandre entendeu, é que aumentando um pouco a alíquota paga pelas famílias muito ricas, já se conseguiria arrecadar o suficiente para cobrir praticamente todo o déficit primário de cerca de R$ 170 bilhões.

Segundo dados da Receita Federal, as 70 mil famílias (0,14 % do total) mais ricas do país pagam um imposto efetivo de apenas 6% da renda, enquanto a classe média paga 12%. Se os muito ricos passassem a pagar um imposto efetivo igual ao pago pela classe média, acabaríamos com o déficit primário. Simples assim.

Segundo Alexandre, a segunda mentira de Pochmann é com relação à evolução do endividamento. Como ex- diretor do Banco Central, Alexandre deveria consultar as informações e estatísticas desta instituição. Por ali fica muito claro o que Pochmann quis dizer: Sim, o endividamento cresceu —tanto bruto quanto o líquido— durante o segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, mas a taxa de crescimento foi muito menor do que nestes dois últimos anos de Temer.

Alexandre se ressente por Marcio não ter dito qual o período em que o desemprego subiu? Ora, como um economista que tem obrigação de conhecer os dados da economia brasileira, ele deveria saber de cor que 8,4% foi no último ano de Dilma, e 11,7% foi no primeiro ano de Temer.

A última das quatro mentiras apontadas por Alexandre não somente se trata de pura verdade como é o que se faz necessário para o país voltar a crescer. Pochmann estima que haja um potencial arrecadatório de 1,5% do PIB (equivalente a R$ 120 bilhões) possível de ser conseguido com pequenas mudanças, como a da alíquota do IR e mudanças no imposto sobre heranças, hoje muito baixa —além de tratar-se de um imposto estadual.

Claro que discordar é natural e necessário, mas sem perder o decoro. E Alexandre perdeu o decoro ao ofender de forma grave um economista como Marcio Pochmann, que já foi presidente do Ipea, talvez o posto mais importante do país em termos de fórum para a discussão das grandes questões brasileiras.

Sobre o autor


Paulo Feldmann é professor de economia brasileira da FEA-USP.

27 de setembro de 2018

Vitória e derrota

Os abusos de poder contra os direitos civis não estão na caserna, estão no Judiciário

Janio de Freitas
A preocupação com a possibilidade de que militares oponham as armas ao voto encobre, mas não enfraquece, outra possibilidade negativa.

O juiz e os procuradores da Lava Jato, o tribunal federal da região Sul (o TRF-4), o Tribunal Superior Eleitoral e o Supremo já ganharam parte do seu confronto com a maioria do eleitorado, mas as pesquisas comprovam que há dificuldade para ir além. Lula ficou excluído das eleições, no entanto o PT e seu candidato mais do que sobrevivem. Meia vitória é, no mínimo, meia derrota.

Aquelas forças, que já foram chamadas de partido da justiça ou do Judiciário, há semanas mantêm-se como espectadoras. Não é um silêncio confiável, até por não terem experimentado sequer uma derrota nos seus quatro anos, e não se sabe como a receberiam agora. Ou como recebem a perspectiva de tê-la.

Comparados os anos recentes de militares e do sistema judicial, não é na caserna que se encontram motivos maiores de temer pelo estado democrático de direito. Os avanços sobre poderes do Legislativo e do Executivo, os abusos de poder contrários aos direitos civis, ilegalidades variadas contra os direitos humanos —a transgressão da ordem institucional, portanto— estão reconhecidos nas práticas do Judiciário e da Procuradoria da República.

Em tais condições, seria pouco mais do que corriqueiro o surgimento, nos dez dias que nos separam das eleições, de um petardo proveniente de juiz ou procurador para perturbar a disputa eleitoral, na hierarquia a que chegou.

Além disso, as eleições deste ano têm uma peculiaridade: são vistas por muita gente, não como meio de proceder à sucessão democrática de governo, por vitórias e derrotas, mas como oportunidade de fazer o país retroceder ao período pré-Constituinte de 1988 sem, contudo, a caracterização ostensiva de golpe. E nessa corrente não estão só o general Hamilton Mourão e demais apoiadores de Jair Bolsonaro.

Com a hipótese da caserna encobrindo a de varas e tribunais, a formação dos militares voltou à discussão. Reformá-la é velha questão. Tanto que, nos primeiros anos da década de 1960, ainda antes do golpe de 1964, tal discussão já levara o Exército a formar um grupo para estabelecer novo currículo de ensino aos futuros oficiais. Apresentado o plano ao Estado-Maior, porém, teve rejeição sumária.

Entre as novas matérias, estava introdução à sociologia. Sobre a qual o Estado-Maior emitiu sentença definitiva: é marxismo. A reforma não poderia ser apenas na parte de baixo.

Sobre o autor


Jornalista e membro do Conselho Editorial da Folha.

26 de setembro de 2018

A verdade é que Trump tem um ponto sobre a globalização

A crença do presidente de que o Estado-nação pode curar males econômicos não é sem mérito

Larry Elliott


"O crescimento estupendo registrado pela China nas últimas quatro décadas foi o resultado de fazer o oposto do que os livros didáticos sobre globalização recomendam". AFP / Getty Images

Uma vez a cada três anos, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial realizam sua reunião anual fora de casa. Em vez de ir e voltar a Washington, a reunião dos ministros das Finanças e dos governadores dos bancos centrais é realizada por um Estado membro. Desde que a reunião de 2000 em Praga sofreu o cerco dos desordeiros antiglobalização, os distantes encontros tendem a ocorrer em lugares que não são fáceis de chegar ou nos quais o regime tende a levar os protestos a sério: Cingapura, Turquia, Peru.

A reunião deste ano terá lugar em algumas semanas na ilha indonésia de Bali, onde o FMI e o Banco Mundial podem estar razoavelmente confiantes de que as reuniões não serão interrompidas. Pelo menos não do lado de fora. A ameaça real não vem mais de anarquistas vestindo capuzes jogando coquetéis Molotov, mas de dentro. Agora é Donald Trump quem lança as bombas de gasolina e para as organizações multilaterais, como o FMI e o Banco Mundial, elas representam uma ameaça muito maior.

O presidente dos Estados Unidos colocou desta forma em seu discurso às Nações Unidas na terça-feira: "Rejeitamos a ideologia do globalismo e abraçamos a doutrina do patriotismo". Durante décadas, a mensagem do FMI insistiu em que derrubar as barreiras ao comércio, permitindo que o capital se movesse sem obstáculos através das fronteiras e restringisse a capacidade dos governos de regulamentar as corporações multinacionais era o caminho para a prosperidade. Agora o homem mais poderoso do planeta está dizendo algo diferente: que a única maneira de remediar os males econômicos e sociais causados ​​pela globalização é através do Estado-nação. O discurso de Trump foi ridicularizado por colegas líderes mundiais, mas a verdade é que ele não é uma voz solitária.

A outra grande superpotência econômica do mundo - a China - nunca desistiu do Estado-nação. Xi Jinping gosta de usar a linguagem da globalização para fazer um contraste com o protecionismo de Trump, mas o crescimento estupendo da China nas últimas quatro décadas tem sido o resultado de fazer o oposto do que os livros didáticos de globalização recomendam. As medidas tradicionalmente desaprovadas pelo FMI - indústrias estatais, subsídios, controles de capital - têm sido centrais para o capitalismo administrado por Pequim. A China certamente não se fechou para a economia global, mas se envolveu nela em seus próprios termos. Quando o regime comunista queria tirar as pessoas do campo e mandá-las para as fábricas, o fez através do mecanismo de uma moeda desvalorizada, que tornou as exportações chinesas altamente competitivas. Quando o partido decidiu que queria passar a uma fabricação mais sofisticada e de alta tecnologia, insistiu que as empresas estrangeiras que desejassem investir na China compartilhassem sua propriedade intelectual.

Esse tipo de abordagem não é novo. Foi assim que a maioria dos países ocidentais operou nas décadas após a Segunda Guerra Mundial, quando os controles de capital, a imigração gerenciada e uma abordagem cautelosa para remover as barreiras comerciais eram consideradas necessárias para que os governos atendessem às demandas públicas de pleno emprego e aumento dos padrões de vida. Os EUA e a UE agora dizem que a China não está jogando de maneira justa porque está prosperando com uma estratégia econômica que supostamente não funciona. Há alguma ironia nisso.

A ideia de que o Estado-nação iria desaparecer baseava-se em três argumentos separados. O primeiro era que as barreiras à livre circulação global de bens, serviços, pessoas e dinheiro eram economicamente ineficientes e que removê-las levaria a níveis mais altos de crescimento. Este não foi o caso. O crescimento foi mais fraco e menos uniformemente compartilhado.

O segundo era que os governos não poderiam resistir à globalização, mesmo que quisessem. Essa foi, em geral, a visão adotada por Bill Clinton e Tony Blair, e que agora é mantida viva por Emmanuel Macron. A mensagem aos trabalhadores deslocados era de que o poder do mercado era - como um furacão ou uma nevasca - uma força irresistível da natureza. Este sempre foi um argumento duvidoso porque não existe um mercado livre puro. A globalização foi moldada por decisões políticas que, nas últimas quatro décadas, favoreceram os interesses do capital sobre o trabalho.

Finalmente, argumentou-se que a natureza transnacional do capitalismo moderno tornava o Estado-nação obsoleto. Simplificando, se a economia fosse cada vez mais global, a política também teria que se tornar global. Há algo de verdade nisto, porque os mercados financeiros impõem restrições a governos individuais e seria preferível que houvesse uma forma de governança global que promovesse estabilidade e prosperidade para todos. O problema é que, na medida em que tal mecanismo institucional existe, ele foi capturado pelos globalistas. Isso é tão verdadeiro para a UE quanto para o FMI.

Assim, enquanto o estado-nação está longe de ser perfeito, é onde uma alternativa ao atual modelo falido começará inevitavelmente. Cada vez mais, os eleitores estão olhando para a única forma de governo em que eles têm uma palavra a dizer para fornecer segurança econômica. E se os partidos tradicionais não estiverem preparados para oferecer o que esses eleitores querem - um emprego decentemente remunerado, serviços públicos devidamente financiados e controles sobre a imigração -, então eles procurarão em outros lugares partidos ou movimentos que o farão. Isto provou ser um problema particular para os partidos de centro-esquerda - os democratas nos EUA, o New Labour na Grã-Bretanha, o SDP na Alemanha - que aderiram à ideia de que a globalização era uma força imparável.

Jeremy Corbyn certamente não aceita a ideia de que o Estado é obsoleto como ator econômico. O plano é construir um tipo diferente de economia de baixo para cima - local e nacionalmente. Isso não será fácil, mas supera a abordagem atual, fracassada e de cima para baixo.

Começou o terceiro turno

Mercado financeiro já cobra do futuro presidente

Paulo Nogueira Batista Jr.


O economista Paulo Nogueira Batista Jr, em evento no Palácio do Planalto. Alan Marques/Folhapress.

Ainda nem chegamos ao primeiro, mas já temos indícios de que o terceiro turno começou. Terceiro? Sim, leitor, a turma da bufunfa não descansa. Quando perde o primeiro e o segundo turnos em eleições presidenciais, ela não demora a providenciar um terceiro. Como a sua derrota nos dois turnos regulamentares está desenhada, os bufunfeiros trataram de se movimentar desde logo.

A turma é afoita e não prima pela sutileza. Recentemente, o jornal Valor Econômico publicou extensa reportagem sobre as inquietações eleitorais do mercado financeiro, apoiada sobretudo em declarações off the record. Bolsonaro preocupa menos, pois entregou o terceiro turno por antecipação, anunciando a nomeação para a Fazenda de um economista ultraliberal. O problema é Haddad, neste momento o favorito.

Um dos entrevistados anônimos do jornal, identificado como "um gestor", avisou que o mercado não dará o benefício da dúvida ao candidato do PT. "O estresse vai ser enorme", ameaçou.

Outro interlocutor anônimo do jornal, um economista do mercado, sugeriu que Haddad anuncie imediatamente nomes liberais para sua equipe. "Algum estelionato eleitoral vai ter que haver", avisou.
Ora, quem conhece a história do Brasil sabe que estelionato eleitoral equivale a suicídio político. Haddad é experiente e hesitará muito antes de embarcar nessa canoa. Mas as pressões nos mercados financeiro e cambial podem ser intensas. Não basta saber; é preciso também ter nervos de aço.

As esperanças da turma da bufunfa têm lá os seus fundamentos. O PT perdeu o terceiro turno duas vezes, pelo menos. A primeira ocorreu em 2002, quando Lula comprou tranquilidade, nomeando Antonio Palocci ministro da Fazenda e Henrique Meirelles para presidente do Banco Central. Em 2014, Dilma perdeu o terceiro turno fragorosamente, cedendo o comando da Fazenda a Joaquim Levy.

A derrota no terceiro turno não se dá pela manutenção pura e simples da equipe econômica do governo anterior. Lula não deu ouvidos aos que queriam a continuação de Pedro Malan e/ou Armínio Fraga. Também não serão ouvidos os que recomendam conservar a equipe econômica de Temer.

Mas isso pouco importa. A turma da bufunfa dispõe de dezenas, para não dizer centenas, de nomes aceitáveis, equivalentes a Meirelles, Ilan Goldfajn ou Fraga. Para seguir a cartilha, não precisa ser nenhum gênio. Profissionais medianos, sempre encontradiços, são até preferíveis, pois seguem ordens com mais satisfação e menos escrúpulos.

Tudo indica, entretanto, que o terceiro turno de 2018 não vai ser tão fácil quanto em 2002 ou 2014. Por duas razões. Primeiro, a centro-esquerda aprendeu com a experiência —particularmente com a de 2014, que foi desastrosa e está viva na memória de todos. Segundo —e talvez mais importante—, o quadro econômico brasileiro, embora muito difícil, não é desesperador, como era por exemplo o de 2002.

A inflação está sob controle, apesar da alta do dólar. As expectativas de inflação continuam próximas do centro da meta. As taxas de inflação corrente e os núcleos de inflação (as medidas de inflação subjacente) estão bem comportados.

Ainda mais significativa é a força do setor externo da economia brasileira. O déficit de balanço de pagamentos em conta corrente é muito pequeno; os ingressos de investimentos diretos estrangeiros equivalem a várias vezes o déficit corrente.

Além disso, o país dispõe de reservas internacionais da ordem de US$ 380 bilhões. O Banco Central pode se valer ainda de swaps cambiais, que equivalem a venda futura de dólares sem a entrega de moeda estrangeira.

Ataques especulativos são sempre possíveis. Mas desta vez a turma da bufunfa vai ter que suar a camisa.

Sobre o autor

Economista, ex-vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (estabelecido pelos Brics em Xangai) e ex-diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países.

25 de setembro de 2018

Destruindo o Iêmen tão humanamente quanto possível

Charles Pierson

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Foto: Felton Davis

Que alívio saber que, apesar de a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos estarem bombardeando o Iêmen, eles estão fazendo isso com humanidade. Em 12 de setembro, o Secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, em conformidade com a Lei de Autorização de Defesa Nacional do John S. McCain para o Ano Fiscal de 2019 (“NDAA”), certificou que a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos "estão realizando ações demonstráveis ​​para reduzir o risco de dano para civis e infra-estrutura civil" em sua guerra contra os rebeldes houthi no Iêmen.

Isso foi o que demonstraram. O Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos divulgou um relatório sobre o Iêmen no final de agosto. Kamel Jendoubi, presidente do Grupo de Eminentes Peritos Internacionais e Regionais do Iêmen, autor do relatório, declarou: “Há poucas evidências de que qualquer tentativa das partes no conflito minimize as baixas civis”. Isso desmente o secretário de Defesa James Mattis que afirma que a presença militar dos EUA no Iêmen ajuda a conter os sauditas.

No entanto, Pompeo teve que certificá-lo. Não fazê-lo significaria que a administração Trump não poderia continuar a ajudar o esforço de guerra liderado pelos sauditas. Esses foram os termos estabelecidos pelo Congresso na Seção 1290 do NDAA. A ação de Pompeo se tornaria compreensível em pouco tempo.

Em 20 de setembro, o Wall Street Journal divulgou que o secretário Pompeo decidiu abençoar a conduta da coalizão saudita depois que o Departamento de Assuntos Legislativos do Departamento de Estado o aconselhou que a retenção da certificação poderia colocar em risco futuras vendas de armas dos EUA, incluindo uma venda pendente de mais de 120.000 mísseis guiados para os sauditas e Emirados Árabes Unidos. A vendedora do acordo de US $ 2 bilhões é a Raytheon, uma das cinco maiores fabricantes de armas dos EUA. Ah, caso você esteja interessado, a equipe de assuntos legislativos do Departamento de Estado é chefiada pelo secretário de Estado adjunto interino Charles Faulkner, um nomeado de Trump, que era lobista da Raytheon até se juntar ao Departamento de Estado em junho.

Acabando com uma guerra ilegal

Desde 2015, os EUA, sob as administrações de Obama e Trump, forneceram à coalizão saudita armas, inteligência, aconselhamento sobre alvos e reabastecimento em voo de aviões - sem a autorização do Congresso, conforme exigido pela Constituição dos EUA. [1]

Alguns membros do Congresso estão tentando acabar com o envolvimento inconstitucional dos EUA na guerra, invocando a Resolução dos Poderes de Guerra de 1973. Invocar a Resolução dos Poderes de Guerra obrigaria a administração Trump a encerrar a ação militar no Iêmen, a menos que a Casa Branca faça com que o Congresso autorize o papel dos EUA na guerra.

O Congresso já tentou duas vezes, sem sucesso, invocar a Resolução dos Poderes de Guerra. A resolução apresentada na Câmara em setembro de 2017 nunca chegou a ser votada. Uma segunda resolução foi apresentada pelo Senado em março deste ano.

Em 6 de setembro, onze democratas da Câmara anunciaram que fariam uma terceira tentativa, desta vez sob a forma de uma resolução privilegiada, uma manobra parlamentar que significa que a resolução não pode ser apresentada; tem que ser votado "up" ou "down". Qual será?

Por que estamos no Iêmen?

A Resolução dos Poderes de Guerra tem uma chance maior de sucesso desta vez. Graças ao The Wall Street Journal, as justificativas declaradas de Washington para apoiar a coalizão saudita parecem questionáveis. Washington diz que os EUA devem apoiar os sauditas para se oporem ao Irã, que apoia os houthis. Washington também diz que os EUA devem combater a divisão local da Al-Qaeda, a Al-Qaeda na Península Arábica (AQAP), bem como o ISIS. Não importa que a AQAP tenha crescido tanto quanto cresceu devido ao caos da guerra.

Não, seguindo a exposição do The Wall Street Journal, parece muito que os EUA estejam no Iêmen simplesmente para engordar as carteiras dos negociantes de armas dos EUA. "A Arábia Saudita é uma nação muito rica", disse o presidente Trump durante a visita do príncipe herdeiro saudita Mohammad Bin Salman à Casa Branca em março, "e eles vão dar aos Estados Unidos um pouco dessa riqueza, esperançosamente, na forma de empregos, sob a forma de compra dos melhores equipamentos militares em todo o mundo. ”[2]

Os EUA devem acabar com essa guerra monstruosamente destrutiva e ilegal. Falando em 2016, Bruce Reidel, da Brookings Institution, disse que "se os Estados Unidos da América e o Reino Unido disserem ao rei Salman que esta guerra tem que acabar, ela acabará amanhã". O movimento anti-guerra deve pressionar a Casa Branca para que isso aconteça. Os ativistas da paz devem pressionar o Congresso a invocar a Resolução dos Poderes de Guerra, bem como bloquear as vendas de armas aos sauditas. A esquerda deve insistir em uma investigação ética do Congresso e também deve exigir a renúncia de Pompeo e do secretário de Estado adjunto em exercício Charles Faulkner.

Notas:

[1] Para quem está apenas começando a aprender sobre o conflito no Iêmen, um artigo recente do cientista político Rajan Menon, Descida ao Inferno do Iêmen: uma guerra de terror saudita-americana, http://www.tomdispatch.com/ (20 de setembro de 2018), é uma ótima maneira de se atualizar.

[2] Palavras do Presidente Trump e do Príncipe Herdeiro Mohammed Bin Salman, do Reino da Arábia Saudita Antes do almoço, https://www.whitehouse.gov/, 20 de março de 2018 (grifo nosso).

24 de setembro de 2018

Os socialistas pensam

por Asad Haider


Tradução / Nos debates da esquerda contemporânea, muitas intervenções começam com uma variação sobre um tema particular: “os socialistas pensam que...”

Às vezes, ouve-se “os marxistas acreditam que...” Outras, “os socialistas entendem que...” Qualquer que seja a estrutura da frase, o ponto é sempre o mesmo.

Seguem-se diferentes proposições. Podem ser afirmações teóricas gerais, concernentes à relação entre “raça e classe” ou “reforma e revolução”. Ou podem ter um caráter imediato, urgente, marcando uma posição sobre uma questão atual ou debate estratégico.

Infelizmente, há muito já não podemos dizer: “Os socialistas pensam que o mar deveria ser feito de limonada.” Mas recordemos afetuosamente que, um dia, alguns de fato o pensaram...

Este, é claro, é o problema da afirmação “Os socialistas pensam que...” Ao longo da história, os socialistas pensaram muitas coisas diferentes, por vezes coisas tão incompatíveis que dividiram organizações ou mergulharam nações inteiras em disputas de facções. Estudar esses debates pode ser útil, pois pode forçar-nos a reconstruir o raciocínio por detrás de uma posição particular que, do contrário, teríamos ignorado.

Mas há um problema mais grave com essa formulação: quando alguém diz “os socialistas pensam que...”, essa pessoa está te exortando a não pensar. Ela está dizendo, “nós pensaremos por você.”

Apesar disso, as pessoas pensam. Nada pode parar isso. Esse ponto é tão simples que é frequentemente esquecido, às vezes de propósito. Na realidade, porém, possui uma importância central. O militante francês Sylvain Lazarus elaborou toda uma estrutura política com base nessa afirmação: as pessoas pensam.

Reconhecer que as pessoas pensam não é o mesmo que falar sobre consciência, o que acaba por trazer mais problemas que soluções. Muitas vezes ouvimos falar de uma consciência de classe, que expressaria as condições objetivas da classe trabalhadora, mas que nem sempre é realizada. Os socialistas que detém esse conhecimento, geralmente intelectuais, deveriam levar aos trabalhadores a consciência de suas condições objetivas.

Mas a consciência não é tão unitária e direta. Os trabalhadores têm consciências que são determinadas por uma série de fatores: nação, etnia, gênero, religião etc. O processo pelo qual a consciência passa a refletir uma posição de classe pode ser uma tradução por meio de um desses termos. É por isso que o populismo tende a mobilizar as classes em termos nacionais.

Além disso, surge uma questão embaraçosa a respeito da consciência dos intelectuais socialistas. Se a consciência da classe trabalhadora é determinada pelo seu ser social, como então os intelectuais adquirem uma consciência socialista? Como escreve Rossana Rossanda, essa linha de raciocínio acaba por representar os intelectuais como “milagrosamente livres de seu ser social e abstraídos de sua classe.”

Num relato de investigações fabris que ele conduziu na França nos anos 1980, Lazarus propõe que, ao invés de falarmos de consciência de classe, digamos simplesmente: os trabalhadores pensam. Mas o que os trabalhadores pensam não é apenas determinado pelas características da produção, ou pela consciência coletiva de um grupo objetivamente constituído. Ao invés disso, temos que descobrir o que eles pensam. Temos que ter a humildade de perguntar e aprender, ao invés de imaginar de antemão o que sua consciência deveria ser.

Usarei a seguir dois exemplos de Lazarus.

Em primeiro lugar, a descrição que Lazarus faz da greve e ocupação da fábrica da STECO em Gennevilliers, em 1991. A fábrica produzia baterias para carro, um tipo de trabalho altamente perigoso. A empresa decidiu fechar a fábrica e demitiu centenas de trabalhadores. Na fábrica ocupada, a assembléia da greve se reuniu com os patrões, que ofereceram indenização, mas apenas para os trabalhadores mais antigos, excluindo os jovens, as mulheres e os recém-contratados. A questão passou a ser, então: quem conta como trabalhador, e quem decide isso?

Os trabalhadores grevistas elaboraram sua própria análise: do ponto de vista dos patrões, as demissões refletiam seu controle da fábrica. Eles decidiam quem trabalharia – ficar ou sair não era uma decisão que cabia ao trabalhador. Com o pagamento da indenização, os patrões reconheciam que as demissões prejudicavam os trabalhadores. Mas ao decidir quem receberia ou não o benefício, os patrões decidiam, ao mesmo tempo, quem contava e quem não contava como trabalhador.

Havia, porém, uma alternativa à contagem dos trabalhadores pelos patrões, que era a contagem dos trabalhadores pelos próprios trabalhadores. A assembléia da greve decidiu que “a indenização deve ser paga a todos, homens e mulheres, jovens e velhos, recém-contratados ou não”, pois esse era seu princípio de contagem. Essa não era apenas uma repetição de uma definição sociológica do trabalhador, cuja exposição clara e luminosa nos livros não garante em absoluto que ela se efetivará na situação política concreta. O igualitarismo da demanda não é dado de antemão; muitas lutas fabris são incapazes de superar as divisões no interior da força de trabalho.

Lazarus argumenta que, na situação da luta fabril, a demanda foi tornada possível pelo que ele chama de prescrição política.Uma prescrição nos mostra o que é possível – isto é, nos mostra a capacidade do povo, uma capacidade que não pode ser capturada ou compreendida desde cima por um partido ou pelo estado. A prescrição abre o horizonte do possível numa situação específica: no caso em análise, ela declara que são os trabalhadores, não os patrões, que decidem quem é um trabalhador. A demanda de “indenização para todos” é interior ao que é tornado possível ao se introduzir a prescrição “o trabalhador decide quem é trabalhador.” Por fim, os patrões cederam e a demanda foi atendida.

O segundo exemplo tem seu momento decisivo em 1983 – o ano da virada “socialista” de Mitterrand em direção à austeridade e das primeiras vitórias eleitorais do Front National de Le Pen. Os trabalhadores imigrantes foram desproporcionalmente afetados pelas demissões na indústria automobilística, e se organizaram contra elas. Funcionários do governo menosprezaram a então crescente onda de greves, caracterizando os trabalhadores grevistas como estrangeiros, árabes e muçulmanos fundamentalistas que não conheciam a realidade francesa. Racismo e xenofobia foram mobilizados contra os grevistas, muitas vezes resultando em violência.

Para responder a essa conjuntura, em que o racismo estatal era usado para negar a figura do trabalhador, Lazarus perguntou aos trabalhadores da fábrica de Renault-Billancourt, em 1985, o que significava, para eles, ser um “trabalhador imigrante”.

Seguem-se três citações:
“Eu sou um trabalhador imigrante na fábrica, mas lá fora eles me consideram apenas um imigrante, porque não sabem que eu sou trabalhador.”
“Eu sou um imigrante e um trabalhador. Na fábrica, eles nos consideram trabalhadores imigrantes, mas do lado de fora somos considerados imigrantes. Os franceses esquecem que estamos aqui pra trabalhar e que de fato trabalhamos.”
“Eu sou um trabalhador imigrante na França mas, apesar de ser imigrante, trabalho como todos os demais trabalhadores.”

Nesses relatos, aponta Lazarus, a categoria de “trabalhador imigrante” é atribuída à fábrica, e a de “imigrante” ao lado de fora, à sociedade como distinta da fábrica. Enquanto o estado prega a “a identificação do país pela noção jurídica de nacionalidade”, pode-se vislumbrar detrás desse frágil edifício “uma rede permanente de vigilância e perseguição dos ‘não-franceses.’ A palavra “imigrante’” é usada pelo grupo dominante, nesse caso os franceses, para negar cidadania aos trabalhadores estrangeiros.

Em seguida, mais duas citações:
“Eu sou um trabalhador imigrante, isso é uma coisa. É verdade que sou estrangeiro, mas também sou trabalhador, e isso é mais importante. Mas eles estão sempre dizendo ‘imigrante, imigrante’.
“Na fábrica, sou um trabalhador imigrante. Nas ruas, sou imigrante, mas trabalhador imigrante ou apenas imigrante, é quase a mesma coisa – é diferente de ser um trabalhador.”

Aqui, argumenta Lazarus, ainda que o termo “trabalhador imigrante” seja preservado, a palavra “imigrante” ganha prevalência sobre ele, sobrepondo-se à figura do trabalhador mesmo no ambiente da fábrica. Isso significa que a palavra “imigrante” nega a figura do trabalhador não apenas na sociedade, mas também no interior da fábrica. Trata-se do “retorno no interior da fábrica dos fenômenos sociais, ou, mais exatamente, do retorno na fábrica da imagem que a sociedade tem dos trabalhadores imigrantes.” Assim, os trabalhadores imigrantes passam a ser entendidos “em termos culturais e confessionais e, assim, exclusivamente como ‘imigrantes’, isto é, como outros.”

Os próprios movimentos, em toda sua autonomia, abrem um campo para novas afirmações políticas. Tais afirmações são elaboradas a partir da especificidade de cada situação. Contra a alegação do estado capitalista de que não há nenhum agente político relevante na fábrica, a resposta é que há o trabalhador. Contra a alegação do estado-nação de que há um “problema de imigração”, a resposta é que um país consiste em todos os que nele moram e trabalham e que o “problema de imigração” é uma falsa questão.

Esses são princípios ativos porque não são simplesmente extraídos de um cânone teórico. Eles não expressam uma consciência já existente ou uma consciência trazida de fora – são imanentes às situações políticas em que aparecem.

Não podemos saber de antemão quais princípios serão ativos em futuras conjunturas. Para conhecê-los em sua especificidade, temos que conduzir investigações que comecem pelo reconhecimento de que os trabalhadores pensam. Essa é uma investigação que não presume que saibamos o que os trabalhadores pensam, mas que atribui prioridade ao aprendizado sobre seu pensamento.

Adotemos esse princípio em nossas próprias discussões internas e nas decisões que dizem respeito a nossa organização. Rejeitemos os ditados vindos de cima, que fornecem respostas prontas para questões impostas de fora, e digamos em alto e bom som: os socialistas pensam.

Sobre o autor


Asad Haider é editor de Viewpoint e autor de Mistaken Identity: Anti-Racism and the Struggle Against White Supremacy (Verso, Spring 2018).

A estratégia de demonização da Rússia

Manlio Dinucci


Tradução / O acordo de governo, estipulado em maio último pelo Movimento Cinco Estrelas e a Liga, reafirma que a Itália considera os Estados Unidos seu “aliado privilegiado”. A relação foi reforçada pelo primeiro-ministro Conte que, no encontro com o presidente Trump em julho, estabeleceu com os EUA “uma cooperação estratégica, quase uma geminação, em virtude do qual a Itália torna-se interlocutor privilegiado dos Estados Unidos para os principais desafios a enfrentar”. Ao mesmo tempo, o novo governo se comprometeu com “uma abertura para a Rússia, a ser encarada não como uma ameaça mas como parceiro econômico” e até mesmo como “potencial parceiro para a OTAN”.

É como querer conciliar o diabo com a água benta. De fato ignora-se, seja no governo, seja na oposição, a estratégia dos EUA de demonizar a Rússia, que visa a criar a imagem de um inimigo ameaçador contra o qual devemos preparar-nos para combater. Tal estratégia foi exposta em uma audiência no Senado (21 agosto), por Wess Mitchell, vice-secretário do Departimento de Estado para os Assuntos europeus e euro-asiáticos: “Para enfrentar a ameaça proveniente da Rússia, a diplomacia estadunidense deve ser sustentada por uma potência militar inigualável e plenamente integrada com os nossos aliados e todos os nossos instrumentos de potência”.

Aumentando o orçamento militar, os Estados Unidos começaram a “recapitalizar o arsenal nuclear”, incluindo a nova bomba nuclear B61-12 que a partir de 2020 serão deslocadas na Itália e outros países europeus, contra a Rússia. Os Estados Unidos – especifica o vice-secretário – gastaram, desde 2015, 11 bilhões de dólares (que chegarão a 16 em 2019) para a “Iniciativa de dissuasão europeia”, ou seja, para potenciar a sua presença militar na Europa contra a Rússia. No interior da OTAN, conseguiram aumentar em mais 40 bilhões de dólares a despesa militar dos aliados europeus e estabelecer dois novos comandos, entre os quais o do Atlântico contra a “ameaça dos submarinos russos”, situado nos EUA.

Na Europa, os Estados Unidos apoiam em particular “os Estados na linha de frente”, como a Polônia e os países bálticos, e removeram as restrições de fornecer armas à Geórgia e Ucrânia (ou seja, aos Estados que, com a agressão à Ossétia do Sul e o golpe da Praça Maidan, provocaram a escalada dos EUA e da OTAN contra a Rússia). O expoente do Departamento de Estado acusa a Rússia não somente de agressão militar, mas de atuar nos Estados Unidos e nos Estados europeus em “campanas psicológicas de massa contra a população para desestabilizar a sociedade e o governo”. Para conduzir tais operações, que entram no “contínuo esforço do sistema putiniano para o domínio internacional”, o Kremlin usa “o armamento de política subversiva empregado no passado pelos bolcheviques e pelo Estado soviético, atualizado na era digital”.

Wess Mitchell acusa a Rússia daquilo em que os Estados Unidos são mestres: possuem 17 agências federais de espionagem e subversão, entre as quais a do Departamento de Estado. O mesmo que recentemente criou uma nova figura: "o Conselheiro senior sobre as atividades malignas da Rússia", encarregado de desenvolver estratégias inter-regionais. 

Sobre esta base, todas as 49 missões diplomáticas dos EUA na Europa e Eurásia devem aplicar, nos respectivos países, planos específicos de ação contra a influência russa. Não sabemos qual é o plano de ação da embaixada dos EUA na Itália. Quem saberá, como “interlocutor privilegiado dos Estados Unidos”, é o primeiro-ministro Conte. Que o comunique ao parlamento e ao país, antes que as “atividades malignas” da Rússia desestabilizem a Itália.

21 de setembro de 2018

O cessar-fogo acordado pela Rússia e pela Turquia prova até que ponto Putin chegou ao topo na Síria

É difícil lembrar agora, quando a Rússia está sendo retratada no Ocidente como uma potência predatória agressiva que ameaça a todos, até que ponto ela foi marginalizada sete anos atrás, quando a Otan estava realizando uma mudança de regime na Líbia.

Patrick Cockburn

The Independent

O retorno da Rússia como uma grande potência sempre foi inevitável, mas foi acelerado pelo oportunismo bem-sucedido e pelos erros grosseiros dos estados rivais (AP).

Tradução / Um cessar-fogo raramente consegue uma boa impressão. Se conseguir acabar com a violência ou desarmar uma crise, a mídia rapidamente se aborrece e perde o interesse. Mas se a luta continuar, então aqueles que chamaram o cessar-fogo são condenados como hipócritas sem coração que ou nunca pretenderam acabar com a matança ou são culpando por não fazê-lo.

Os especialistas mantêm-se previsivelmente céticos sobre o acordo a que chegaram o presidente russo Vladimir Putin e o presidente Recep Tayyip Erdogan em Sochi, na segunda-feira, para evitar uma iminente ofensiva pelas forças do presidente Bashar al-Assad dirigida contra rebeldes na província em Idlib. É o último enclave da oposição armada na Síria ocidental, oposição que, ao longo dos dois últimos anos, perdeu suas bases em Aleppo, Damasco e Daraa.

É compreensível que haja dúvidas quanto ao acordo, porque, se for implementado, os grupos anti-Assad em Idlib acabarão desdentados, em termos militares. Verão uma zona desmilitarizada policiada pela Rússia e Turquia devorar o território deles; verão “grupos terroristas radicais” arrancados de lá, e todas as armas pesadas, de tanques a morteiros, retiradas de lá. Os rebeldes perderão o controle sobre as duas principais rodovias que cruzam Idlib, e que ligam as cidades de Aleppo, Latakia e Hama controladas pelo governo.

Há acentuado tom de autoconfiança imperial no documento, pelo qual todos os lados da guerra na Síria são instruídos a fazer as pazes. Pode não acontecer exatamente como o previsto, porque é difícil encontrar algum motivo pelo qual grupos de tipo al-Qaeda, como Hayat Tahrir al-Sham, abririam mão voluntariamente da alavancagem que ainda têm. O governo sírio disse que cumprirá o acordo, mas pode calcular que, em prazo médio, conseguirá recuperar Idlib, pedaço a pedaço, como fez com outros enclaves rebeldes.

O mais interessante sobre o acordo não são os detalhes, mas, sim, o que o acordo diz sobre o equilíbrio de forças na Síria, a região e, mesmo, sobre todo o mundo. Até pode ser frágil, mas todos os acordos, afinal, são frágeis, disse o general Charles de Gaulle: “acordos são como mulheres jovens e rosas: brilham enquanto brilham”. A implementação do acordo Putin-Erdogan pode ser difícil, mas os benefícios atenderão ao objetivo do acordo, se menos sírios forem mortos em Idlib.

A guerra na Síria há muito tempo deixou de ser guerra lutada por participantes locais. A Síria tornou-se uma arena onde outros estados confrontam-se entre eles, guerreando guerras ‘por procuração’, como agentes locais de interesses externos, e põem sob teste a própria força e a própria influência. O resultado internacional mais importante da guerra até agora é que a Rússia capacitou-se para se re-estabelecer como grande potência. Moscou ajudou Assad a afirmar o próprio governo, depois do levante popular em 2011, e depois, pela intervenção militar direta legal – a convite do governo Assad, em 2015 –, garantiu ao presidente a vitória sobre os golpistas. Veterano diplomata de um pais árabe lembra que, no início da guerra na Síria, perguntou a um general dos EUA com comando na região, qual era a diferença entre a crise na Síria e a crise que acabou com a deposição de Muammar Gaddafi na Líbia. O general norte-americano respondeu com uma só palavra: “Rússia.”

É difícil lembrar agora, quando a Rússia está sendo retratada no Ocidente como uma potência predatória agressiva que ameaça a todos, até que ponto ela foi marginalizada sete anos atrás, quando a Otan estava realizando uma mudança de regime na Líbia.

Na verdade, a Rússia sempre foi mais forte do que parecia, porque continuou a ser superpotência nuclear capaz de destruir o mundo, mesmo depois da implosão da União Soviética em 1991, como já era antes. Esse fato gigante, extraordinariamente importante, deveria ser difícil de esquecer. Mas políticos e analistas continuam, jubilosos, a recomendar que se isole a Rússia; a fingir que seria possível e seguro isolar bombas atômicas.

A volta da Rússia à posição de grande potência sempre foi inevitável, mas foi acelerada por oportunismo bem-sucedido e erros crassos dos estados rivais dos russos. Assad na Síria sempre foi mais forte do que parecia. Mesmo no ponto mais baixo da popularidade do presidente da Síria, em julho de 2011, a embaixada britânica em Damasco tinha o apoio de 30-40% dos sírios, como se lê em The Battle for Síria: International Rivalry in the New Middle East de Christopher Phillips – leitura que se deve recomendar como essencial para todos que se interessem pela Síria. Os especialistas não conseguiram abalar a convicção, entre estadistas mundiais, de que Assad estaria a um passo de ser derrubado facilmente. Quando o embaixador francês Eric Chevallier manifestou dívidas semelhantes sobre a mudança de regime, que não lhe parecia assim tão iminente, recebeu um tranco de funcionários em Paris, que lhe disseram: “Sua informação não nos interessa. Bashar al-Assad tem de cair e cairá.”

O mesmo pensamento desejante e distante da realidade mantém-se até hoje. Erros e mais erros cometidos por Washington, Paris e Londres deram a Putin o terreno político ideal sobre o qual pôde reassentar o poder do estado russo. O acordo assinado por Rússia e Turquia na segunda-feira passada decidindo o futuro da província de Idlib é signo de o quanto a posição da Rússia na Síria é superior e forte. Putin pôde assinar um acordo bilateral com a Turquia, segunda maior potência militar na OTAN, sem precisar de qualquer referência aos EUA ou a qualquer outro membro da OTAN.

O acordo significa que a Turquia aumentará seu efetivo no norte da Síria, mas só pode fazer tal movimento sob licença de Moscou. A prioridade, do ponto de vista da Turquia, é impedir que se crie na Síria um statelet curdo sob proteção dos EUA – e para isso precisa da cooperação da Rússia. Foi a retirada do guarda-chuva russo que protegia o enclave curdo de Afrin, no início desse ano, que permitiu ao exército turco invadir e tomar o poder.

Como aconteceu com a Coreia do Norte, há alta probabilidade de que os instintos do presidente Trump acertem muito mais que a tão louvada experiência do establishment da política exterior de Washington e seus clones em todo o mundo. Não aprenderam a lição mais importante das guerras de intervenção lideradas pelos EUA no Iraque e na Síria: ter agitado o caldeirão nesses dois países não fez avançar nenhum dos interesses do ocidente. Apesar disso, o establishment continua a defender a presença militar continuada dos EUA no nordeste da Síria, sob o pretexto de que os militares norte-americanos enfraqueceriam Assad e garantiriam que qualquer vitória dele seria pírrica.

Tudo que aconteceu desde 2011 sugere o oposto disso: ao tentarem enfraquecer Assad, as potências ocidentais o forçarão a depender sempre mais – não menos – de Moscou e Teerã. O ocidente condenará mais sírios à morte, à mutilação, a se tornarem refugiados e está dando mais espaço para que brotem clones da al-Qaeda.

A dominação russa no norte do Oriente Médio tem possivelmente algo de oportunista, mas está sendo reforçada por outro processo. O presidente Trump pode ainda não ter iniciado qualquer guerra, mas a vacilação e a incerteza da política dos EUA significa que muitos países no mundo estão hoje à procura de uma política de resseguro com a Rússia, porque já não confiam nos EUA. Putin talvez não consiga acertar todos os malabarismos de diferentes oportunidades que se lhe apresentem. Mas até aqui tem conseguido surpreendente sucesso.

20 de setembro de 2018

A morte do consenso: como o conflito voltou à política

Andy Beckett


Ilustração: Eleanor Shakespeare

Tradução / A política está crua na atual Grã-Bretanha. Os Remainers se enraivecem com os Brexiters. Os pensionistas se juntaram contra os millennials; os nacionalistas contra imigrantes; os populistas contra elites; os tradicionalistas rurais contra os liberais urbanos. A política partidária é caracterizada pelo desprezo e pelo dogma. Para seus muitos inimigos, Jeremy Corbyn é um extremista e jamais será um legítimo líder nacional. Para os “corbynistas”, seus críticos internos são maus perdedores e traidores do Partido Trabalhista. Para os eleitores não-conservadores e para muitos parlamentares, o governo da primeira-ministra Theresa May é um experimento imoral e prejudicial ao país.

Para cada questão aparentemente fundamental, a Grã-Bretanha se sente mais dividida do que era nos turbulentos anos de 1970 e 1980. Há furiosos conflitos sobre liberdade de expressão, direitos de minorias, tamanho do Estado, modelos econômicos, valores sociais e culturais, e mesmo sobre a verdade e a seleção dos fatos políticos relevantes. Em muitas democracias, dos Estados Unidos, passando pela Itália até chegar à Austrália, a política se fragmentou em tribos aparentemente fora de controle. As facções em oposição não parecem mais capazes de conversar umas com as outras ou em concordar sobre o que elas mesmas devem falar.

Para os muitos eleitores que não gostam do confronto e acreditam que a democracia deveria ser feita de diálogos e compromissos, a nova desordem política é assustadora. Mesmo os políticos veteranos estão horrorizados e confusos, como expressou o ex-primeiro ministro da Grã-Bretanha, Tony Blair, em uma entrevista ao The Guardian: “Não tenho certeza se entendo completamente a política agora”. Os articulistas repetidamente usam a palavra “tóxico” para descrever o momento.

Há pouco tempo, a política ocidental não era assim. Durante boa parte dos anos 1990 e 2000, nossa política era – por padrões históricos –extraordinariamente ordenada, estável e suave. Havia concordâncias sobre o que era um bom governo. A maioria dos grandes partidos era liderada por figuras não tão claramente ideológicas, mas antes políticos que buscavam o consenso – aparentemente pragmáticos –, como os ex-presidentes dos EUA, Bill Clinton, e da França, Jacques Chirac, o ex-chanceler alemão Gerhard Schröder e o britânico Tony Blair. Muitos eleitores pareciam satisfeitos com eles: não à toa, os quatro foram reeleitos. A vida política se movia lenta e previsivelmente: muitas democracias ocidentais pareciam iguais ano após ano.

Essa política sem dramas se enraizou no que parecia para muita gente uma análise persuasiva do mundo moderno. Um dos seus textos-chave foi o ensaio Brave New World: The New Context of Politics, publicado pelo sociológico britânico Anthony Giddens em 1994, onde ele argumentava que as sociedades estavam se tornando mais cosmopolitas e individualistas e menos tradicionais e tribais. Esse mundo mais fluido, com suas economias capitalistas interligadas e com crises ambientais compartilhadas, precisava de uma política que fosse calma e não divisora, “uma arena pública em que questões controversas (...) possam ser resolvidas, ou ao menos manipuladas, por meio do diálogo”. O conflito entre ideologias, classes sociais, partidos políticos ou outros grupos de interesse deveriam se tornar uma coisa do passado.

Durante a metade da década de 1990, as ideias de Giddens foram entusiasticamente absorvidas pelo movimento New Labour, do Partido Trabalhista (LP), que se excitou com sua aparente modernidade e viu nelas uma forma de escapar dos conflitos entre esquerda e direita que tinham tomado conta do partido. Giddens se tornou o intelectual favorito de Tony Blair. O reverenciado sociólogo e o jovem líder partidário, que estava procurando uma grande ideia para direcionar seu período à frente do número 10 da Downing Street, destilaram seus pensamentos políticos no que eles acreditavam ser a última filosofia: a “terceira via”.

Essa perspectiva apareceu já no primeiro manifesto do New Labour para as eleições gerais de 1997 da Grã-Bretanha: “Queremos deixar as batalhas políticas para trás (...) que atormentaram nosso país por muitas décadas. Muitos desses conflitos não têm mais relevância no mundo moderno – público versus privado, patrões versus trabalhadores, classe média versus classe trabalhadora”. Ao invés disso, um eventual governo do New Labour unificaria antigos grupos de interesse antagônicos e resolveria os problemas do país sem “paixões”. “O que resolve é o que funciona”, dizia outro trecho do texto. Blair venceu e, no ano seguinte, declarou que a terceira via era a “nova política para o novo século”.

As coisas não aconteceram dessa forma. Desde o referendo do Brexit – um tipo de guerra civil em forma de referendo – e a captura do Partido Trabalhista por Corbyn, um dos mais implacáveis oponentes da terceira via dentro do partido, muitas pessoas que acreditaram em uma política mais consensual durante os anos 1990 e 2000 ficaram incrédulas. Por três anos, a imprensa e as redes sociais expressaram, assim como os políticos centristas, os ativistas e os jornalistas, uma recusa em aceitar que a “nova política” estava obsoleta – e que era um fenômeno passageiro ao invés de uma solução permanente aos problemas do mundo moderno. De alguns outros menos otimistas com o projeto da terceira via, por sua vez, houve apenas um silêncio ensurdecedor. Como um ex-ministro do New Labour que ajudou Giddens a refinar a terceira via me disse: “Uma catástrofe atingiu meu tipo de política”.

O retorno do ódio e da ideologia a uma cultura política que supostamente os havia superado são atribuídos a muitas forças: da crise financeira de 2008 ao referendo de independência da Escócia, em 2014, do Twitter ao escândalo de gastos dos parlamentares britânicos. Muito menos atenção tem sido dada a se a promessa sedutora de uma política sem conflito - e sua realidade na Grã-Bretanha durante os anos 1990 e 2000 - também contribuiu para a queda da terceira via. A tentativa de criar uma política sem conflito ajudou a criar seu oposto?


Em 2005, o ano em que o New Labour venceu sua terceira eleição geral consecutiva, Chantal Mouffe, uma teórica política belga que tinha lecionado na Grã-Bretanha por mais de 30 anos sem atrair muita atenção para além dos muros da academia, publicou um pequeno livro chamado On the Political (Sobre o político, Martins Fontes, 2015). Seu título genérico esconde um argumento original e inquietante que Mouffe estava aperfeiçoando por duas décadas.

Apesar de se declarar uma radical de esquerda, Mouffe definia “o político” de forma similar aos autores geralmente associados com a direita, como Maquiavel: uma arena de competição de interesses e conflitos perpétuos. “Os teóricos liberais são incapazes de reconhecer (...) a realidade primeira do confronto na vida social”, diz um trecho do livro. Em uma democracia, grupos diferentes competem por recursos econômicos e espaços culturais e físicos. O político, portanto, envolve escolhas incompatíveis e dilemas “para os quais soluções racionais” – ou podemos dizer “soluções objetivas” – “podem nunca existir”. Os conflitos resultam apenas em vitórias temporárias; então, o balanço do poder entre os vencedores e os perdedores muda, graças aos rumos sociais ou outro fator de mudança, e o conflito se reinicia.

Cada batalha que não se resolve, diz Mouffe, não significa uma ameaça à democracia, mas o contrário, é sua essência vital. “Para ser capaz de mobilizar paixões”, ela escreve, “para se ter uma troca real dos desejos e fantasias das pessoas (...), a política democrática deve ter um caráter partidário”. Uma democracia saudável requer “campos opostos com os quais as pessoas possam se identificar”: para que todos sejam politicamente engajados, é necessário que existam um “nós” e um “eles”. Além disso, todas as tentativas de erradicar tribalismos por meio do consenso fracassaram – porque nenhum consenso pode incluir todo mundo.

Mouffe relembra a terceira via do New Labour como o primeiro exemplo dessa estratégia equivocada. “Longe de criar as condições para uma forma mais madura e consensual da democracia”, ela escreveu, o projeto levaria “exatamente ao seu oposto”. Ele criaria uma sociedade onde os conflitos que o New Labour tinha tentado suprimir, ou cuja existências tinham sido negadas, voltariam à superfície mais fortes do que antes, porque os antagonistas não veriam mais uns aos outros como competidores legítimos, mas como “inimigos que precisariam ser destruídos”. Na Grã-Bretanha e em todo o Ocidente, ela alertava na obra, “as condições estão maduras para demagogos políticos, (...) para desilusões com os partidos políticos e para o crescimento de outros tipos de identidades coletivas, (...) nacionalistas, religiosas ou étnicas”. Em particular, ela previu o surgimento de um “populismo de direita”.

Com extrema precisão, Mouffe antecipou o mundo político de hoje. Em 2005, no entanto, seu livro foi considerado muito alarmista pelas poucas pessoas que o leram. Ela me contou: “Eu lembro bem que ouvia: ‘Seu modelo não funciona. O centro da política está mudando. Não há partidos políticos populistas levados realmente à sério'”. Até a eleição de 2005, o Ukip[4] tinha conseguido, no máximo, 2% dos votos. “E eu respondia: ‘Não, vocês estão certos, o momento para populistas e inimigos que precisam ser destruídos’ ainda não chegou. Mas todas as condições estão dadas'”.

Mouffe vive em um elegante e ao mesmo tempo austero apartamento no Norte de Londres, uma região onde outros famosos provocadores da esquerda viveram, como Ken Livingstone[5] e Stuart Hall[6]. Quando eu a entrevistei, ela parecia orgulhosa de que suas previsões sobre as consequências da política de consenso estavam recebendo algum reconhecimento. “O que eu disse em 2005”, disse entre um café e outro, “se provou verdadeiro”. Hoje, Mouffe tem 75 anos, mais ainda continua escrevendo e lecionando e, assim como no livro, não costuma medir as palavras.

Apesar dos esforços e de todos os desastres sofridos pelos centristas nos últimos anos, o sonho de uma política menos conflituosa não desapareceu – de fato, o anseio por essa política está crescendo novamente. Esse desejo toma forma na esperança de que a política turbulenta de hoje possa ser acalmada por pessoas racionais e moderadas que apareçam juntas.

Quinze dias depois do meu encontro com Mouffe, em abril, o jornal The Observer – provavelmente o mais simpático, ainda hoje, ao New Labour – publicou uma reportagem dizendo que o lançamento de um novo partido de centro estava sendo considerado na Grã-Bretanha por um grupo endinheirado de ex-doadores dos partidos Trabalhista e Conservador. Eles eram liderados por Simon Franks, co-fundador da extinta produtora de cinema LoveFilm e um antigo conselheiro informal do parlamentar Ed Miliband quando ele era líder do LP. O grupo se dizia desiludido com a “natureza tribal” e a “polarização” da política contemporânea. O plano, dizia o jornal, é ter uma “plataforma política que supere as ideias da esquerda e da direita”. Seu nome provisório tem um caráter consensual, mas sem graça, que remete a Blair: United for Change (“Unidos por Mudança”).

Desde o início do ano, as especulações sobre esse e outros partidos de centro cresceram significativamente na mesma medida dos lamentos constantes na imprensa e em todos os lugares sobre a política de hoje. Enquanto isso, dentro do LP e do Partido Conservador (Conservative Party – CP), no parlamento e em outros partidos que disputam as eleições, a divisão entre aqueles que ainda acreditam em um consenso político e aqueles que creem na confrontação se tornou mais evidente. Por trás das suas brigas sobre o Brexit e o corbynismo urge uma outra grande disputa: qual deveria ser o tom e a substância da política em uma democracia?

Na política e para além dela, a década de 1990 parecia um tempo para recomeços. “Você tem que pensar naquele sentimento de liberação”, disse-me Anthony Giddens. “O comunismo soviético tinha desaparecido e havia um novo mundo”.

Da África do Sul à Irlanda do Norte, reconciliações políticas antes impensáveis sugeriam um novo modelo que havia se espalhado por meio do jornalismo e da academia. “Graças a pessoas como Giddens e [do filósofo político estadunidense] John Rawls, a teoria política basicamente apoiava a ideia de que quanto mais consenso melhor”, lembra Mouffe. Na Grã-Bretanha, o mandato profundamente divisor da ex-primeira ministra Margaret Thatcher tinha terminado em 1990, e as lutas entre esquerda e direita que tinham dominado a política durante os anos 1970 e 1980 pareciam estar no fim.

Em 1991, quando crescia o número de cadeiras do LP no parlamento britânico, Tony Blair analisou o estado da política mundial para a revista Marxism Today. “Todos os pontos fixos no horizonte mudaram”, escreveu excitado. “Tudo e todos podem ser pensados e repensados. Nós começamos outra vez”.

Apesar de ainda ser o veículo oficial do pequeno Partido Comunista da Grã-Bretanha, desde os anos 1980 a revista vinha tentando formular – de forma ambiciosa – uma nova política que, em muitos aspectos, pode ser considerada uma precursora da terceira via. Essa política, esperava-se, seria menos dogmática e tribal, e mais atenta ao que a publicação chamava de “novos tempos”, ou seja, para as imensas mudanças forjadas pela revolução do livre-mercado global dos 20 anos anteriores. Como Giddens, a Marxism Today viu essa revolução como um fenômeno permanente, e acreditou que muitos elementos dele deveriam ser aceitos. Mas a revista também acreditou que remédios precisavam ser encontrados para os danos que essa revolução tinha causado.

A revista considerou que a maior parte da esquerda, dentro e fora do LP, estava ultrapassada em suas visões de mundo e estratégias, comparando-a com os apoiadores de Thatcher – “a cavalaria contra tanques” – e ansiando por um líder do partido que não se inserisse nessa crítica. O editor da Marxism Today, Martin Jacques, identificava Blair como um político talentoso que estava buscando ideias novas e concordava com ao menos algumas das ideias da publicação, e tratou de procurá-lo. “Eu pensei que ele era algo novo”, Jacques me contou. “Não tinha raízes na tradição do partido” – o pai de Blair era do CP – “e quando ele surgiu com argumentos como ‘duro com o crime, duro com as causas do crime’, isso sugeria que ele sabia que estava pensando de forma diferente do LP. Gostei daquilo”.

O sonoro argumento de Blair contra o crime assegurou a ele sua primeira atenção nacional, tornando-o foco tanto da direita quanto da esquerda, e de alguma maneira de nenhuma das duas – respondendo ao crime simplesmente como um problema social que precisava ser resolvido e não como um tipo de ideologia. Ele se tornou líder do LP já no ano seguinte. Apresentar-se quase sempre como uma figura apolítica se tornou fácil para Blair, porque era a forma como ele mesmo costumava se enxergar. “Quando eu era jovem, nunca me interessei realmente por política”, disse em uma entrevista já como primeiro-ministro no ano 2000. “Não me sinto um político mesmo hoje”.

Durante os primeiros anos de sua liderança do partido e de seu mandato à frente da Grã-Bretanha, Blair foi influenciado nesse tipo de pensamento por outro cético político, Geoff Mulgan. Ele era um precoce, intelectualmente impaciente ex-ativista de esquerda que tinha rapidamente se cansado do que chamava de “facciosismo” e “pensamento morto” de muitos socialistas durante os anos 1970 e 1980. Mulgan gravitou em torno da Marxism Today e do New Labour, trabalhando como conselheiro do também ex-primeiro-ministro Gordon Brown (2007-2010) e do próprio Blair. Em 1994, ele transformou suas experiências na Grã-Bretanha e seu vasto conhecimento em política ocidental e tendências sociais em um livro, Politics in an Antipolitical Age (sem tradução para o português), onde afirma que os credos em guerra na política não interessam mais aos eleitores, ou não os atendem bem. “A política precisa retornar à arte de administrar interesses divergentes”, escreveu.

Naquele mesmo ano, Giddens publicou seu próprio livro, rejeitando o socialismo e todas as outras grandes ideologias do século XX, Beyond Left and Right: The Future of Radical Politics (Para além da esquerda e da direita, Unesp, 1996). Ele argumenta que esses credos eram muito rígidos e fora de moda para resolver os problemas ambientais e sociais do século XXI. Mulgan conhecia Giddens, que apoiou por muito tempo o LP, e o convidou para compartilhar suas ideias no círculo do New Labour.

Ambos costumam escrever de forma esquemática e simples, mas suas certezas e a abrangência de referências podem ser inebriantes para políticos acostumados com a cultura insular de Westminster. Pessoalmente, eles eram diretos e informais. Nos anos 1980, Mulgan tinha dirigido vans de turismo para as bandas que apoiavam o LP. O pai de Giddens tinha sido escriturário na London Transport[7]. Como intelectuais, Mulgan e Giddens eram figuras pragmáticas e eficientes para a hierarquia do New Labour – que via a si mesma nestes termos.

A visão deles de uma política mais harmoniosa, sem as brigas habituais da profissão e as ambições conflitivas, também se juntaram à fé cristã de Blair, o que fez dele um instintivo formador de coalizões. “Tony gosta de inclusão”, Mulgan me contou. “Ele sempre pensa: ‘Consiga colocar todo mundo em uma mesa e nós podemos resolver”. Em uma coleção de ensaios feita por cristãos do partido, em 1993, Blair escreveu que sua política era “baseada em uma visão fundamentalmente otimista. (…) Que há potencial em todos os seres humanos”.

Durante o ano de 1995, Blair começou a empregar a “terceira via” como um lema em seus discursos: esporadicamente, no começo, como uma descrição das políticas particulares do New Labour, então mais regularmente, até chegar ao ponto de ser a explicação para a postura do seu governo. Mas o que isso significava exatamente? Blair, na época um mestre da retórica vaga, nunca explicou direito. Jornalistas políticos fundiram seus cérebros com a frase. Articulistas melhor informados passaram a pontuar as variantes que o termo tinha adquirido nas décadas anteriores por muita gente – dos marxistas dissidentes aos fascistas italianos – que queria simbolizar suas rejeições às ortodoxias políticas existentes.

Por três anos, Blair usou a terceira via como slogan propagandístico, como uma metáfora atrativa, mas quase sem conteúdo, para definir a suposta novidade do New Labour em relação ao caráter estático dos seus oponentes. Então, em 1998, ele e Giddens decidiram definir o termo mais concretamente. Eles publicaram um panfleto e um livro, respectivamente, intitulados The Third Way(Para uma terceira via: a renovação da social-democracia, de Giddens, foi editado no Brasil pela Record em 1998; o texto de Blair não foi traduzido para o português). “Eu reconheci que aquela frase tinha uma leve nocividade histórica”, contou-me Giddens. “Mas a usei para conseguir atenção”.

O panfleto de Blair era enérgico, mas sem foco. Ele variava entre conclusões vagas sobre os valores da sociedade somadas a precisos, mas previsíveis ataques à esquerda “fundamentalista” – que ele continua fazendo atualmente – e alertas de que os “impostos devem ser mantidos sobre controle”. O texto é geralmente lido mais como um padrão retórico da centro-direita – da mesma estirpe dos artigos produzidos pelos vários partidos democrata-cristãos da Europa – do que uma nova fusão política.

O livro de Giddens é mais profundo e matizado. Além de advogar pelo consenso político, ele alertava que os governos de terceira via ainda precisariam tomar decisões controversas: para frear o crescente poder das indústrias financeiras, por exemplo, e para exigir comportamentos socialmente responsáveis de empresas, bem como dos defensores do lucro. Os dois insistiam que aceitar o livre-mercado global em princípio – e, assim, efetivamente removendo-o da política – era uma parte central do projeto da terceira via.

Pelos cinco anos seguintes, de 1998 a 2003, Blair promoveu essas e outras ortodoxias da terceira via regularmente, vastamente reportado pela imprensa e algumas vezes exaltando a si próprio em encontros internacionais na Grã-Bretanha, na Itália, na Alemanha e nos Estados Unidos. A maioria dos participantes era líderes de partidos de centro-esquerda que tinham entrado em territórios políticos ambíguos e, consequentemente, alcançado algum sucesso eleitoral. Giddens também participou de algumas dessas reuniões, mas já naqueles dias ele tentava diminuir seu envolvimento. “Eu nunca fui conselheiro de Tony Blair”, ele argumentou para mim. “Eu era apenas um membro daquelas discussões”.

Em junho de 1999, Blair e Schröder lançaram um manifesto conjunto da terceira via (o chanceler alemão chamava-a de “novo meio”) na Millbank Tower, o quartel-general do mitológico New Labour em Londres, onde o partido tinha orquestrado sua vitória nas eleições gerais dois anos antes. “Os social-democratas estão no governo em quase todos os países da União Europeia”, começava o manifesto. A terceira via parecia ter triunfado.

A eleição geral seguinte, em 2001, sugeria uma nova era de harmonia política e equilíbrio. Quase 95% das cadeiras do parlamento foram preenchidas pelos mesmos partidos de antes, deixando a já imensa maioria do New Labour conquistada em 1997 completamente intacta.

Havia uma única diferença significativa entre os dois contextos. O comparecimento às urnas foi extremamente baixo: o menor em 83 anos. Muitos observadores e membros do LP afirmaram que o fenômeno era consequência da eleição de um único lado. O CP ainda oferecia políticas tchatheristas aos eleitores cansados e tinha a desajeitada liderança de William Hague. “A fraqueza dos conservadores saturou a eleição”, diz David Miliband, uma das figuras mais ponderadas do Partido Trabalhista, que se tornou parlamentar em 2001. “A política era como bater palmas com uma única mão”.

Giddens estava relativamente otimista com a situação. Em 2007, ele argumentou que a “democratização cotidiana” da Internet – uma visão otimista do papel político da web – significava que as eleições estavam se tornando menos importantes para a vida dos eleitores. “Um baixo comparecimento eleitoral não significa necessariamente um sinal de insatisfação com o governo”, postulou.

Mas no começo dos anos 2000 ficou mais claro que algumas pessoas estavam infelizes com a terceira via. “Beyond Left and Right [o livro de Giddens] tinha soado grande e ambicioso, mas não era. Ele era um regresso. Essa noção da política era extremamente pequena”, diz Jacques, editor do Marxism Today. Sem categorias ideológicas, sem uma crítica da economia e do status quo social, sem inimigos definidos – longe do que Blair preguiçosamente se referia como as “forças conservadoras” –, a política do New Labour era fraca. Governar se tornou principalmente competência e formas de mensurá-la. Em 2000, a administração Blair tinha 600 prioridades oficiais. Mesmo ele costuma criticar, em algumas ocasiões, a baixa qualidade do seu governo. “De vez em quando pode parecer que governar é um mero exercício tecnocrático bem ou mau administrado, mas sem nenhum propósito moral dominante”, disse em um discurso em 2002.

As inadequações da vida política ocidental na perspectiva da terceira via se tornaram um foco dos cientistas políticos. Em um ensaio de 2006 chamado Ruling the Void, o cientista político irlandês Peter Mair descrevia o que acreditava ser um “esvaziamento” da política: os eleitores tinham perdido sua função democrática porque muitas das questões antigas haviam sido retiradas da discussão pública pelo New Labour e seus membros estrangeiros. Em 2000, o sociólogo britânico Colin Crouch alertou que os países ocidentais estavam se aproximando de um estado de “pós-democracia”, em que as eleições simplesmente mantinham a mesma elite no governo. Mas a crítica mais vigorosa da terceira via veio do melodramático filósofo conservador alemão Peter Sloterdijk em 2006. “O que é discutido pelos governos se tornou chato. O que se espera deles é que sentem em torno de grandes mesas para chegar à uma fórmula mundial de compromisso”. A política desse tipo foi “o maior monstro sem forma já visto. (…) O que quer que ela toca se torna, como ele mesmo, dócil e sem caráter”.

Ex-ministros do New Labour reclamam que essas críticas radicais ignoram os muitos sucessos dos seus governos, como a introdução de um salário mínimo na Grã-Bretanha e o Acordo de Belfast (Good Friday)[8], na Irlanda do Norte. David Miliband diz: “Nós estávamos tentando mensurar o progresso unidade por unidade’, é assim que as pessoas medem as coisas'”. Mulgan incrementa: “Fazer promessas relativamente pequenas e cumpri-las funcionou muito bem por um tempo”.

Mulgan também pontua que a administração do New Labour não se confinou apenas ao partido. “Tony Blair chegou ao poder em parte porque ele estava alinhado com a visão de mundo do establishment dos negócios”, que era gradativamente mais liberal e cosmopolita e, assim como o movimento, acreditava que muitos problemas podiam ser resolvidos por uma coleta cuidadosa de dados, a customização de grupos focais e boas relações públicas, e então avaliar os resultados a partir deles – “é o que funciona”.

No entanto, o fato de ex-figuras do New Labour geralmente responderem às críticas dos seus governos com detalhes políticos é revelador: sugere que eles pensam que este é o único critério com que os governos devem ser julgados. Mais do que isso, em governos, assim como nos negócios, basear o apelo público em competência e em eficiência é um risco. Quando algumas das políticas mais ambiciosas de Blair, como resolver o abandono e os problemas sociais deixados por Thatcher no Norte do país, tiveram menos progresso do que o esperado, ou falharam totalmente, os eleitores sentiram-se desiludidos, e o New Labour se viu incapaz de apelar para as lealdades emocionais e ideológicas de outrora.

Partidos populistas de direita tinham começado a contabilizar avanços eleitorais na França, na Áustria e na Itália durante a década de 1980 e no começo nos anos 1990. Em cada caso, os populistas entraram nos espaços políticos deixados vazios pelos grandes partidos congregados mais ou menos no centro. Em 1994, Giddens escreveu preocupado sobre a volta de “neo-fascistas às ruas” da Europa. O Ukip tinha sido fundado em 1993 e, apesar de uma vida inicialmente amadora, fora capaz de captar 16% do eleitorado nas eleições de 2004 para o parlamento europeu.

Mas o crescimento das políticas de conflito não atingiram as conversas internas do New Labour. Ed Miliband, que durante os anos 1990 e 2000 estava ocupado demais como conselheiro de Gordon Brown, depois como parlamentar e depois como ministro, relembra: “Qualquer um pensaria que todo o apoio do partido de extrema-direita de Jörg Haider, na Áustria, era ruim. Mas esta ameaça não parecia muito… presente”. Seu irmão David complementa: “Havia um senso de que a Grã-Bretanha estava protegida, parte pelo que nós estávamos alcançando no governo, parte pelo nosso sistema eleitoral”.

Outros no New Labour convenceram a si mesmos que a terceira via tinha sua própria dimensão populista. Blair amava invocar o “povo”. Em uma conferência em 1999 do Partido Trabalhista, ele atacou “as velhas elites (…) que tinham levado nossas profissões e nosso país por muito tempo”. Ele era um educado ex-advogado, e seus parlamentares eram mais de classe média do que qualquer outra bancada trabalhista; mas, em primeiro lugar, esse tom anti-establishment era completamente absurdo. Durante boa parte das décadas de 1980 e 1990, o partido tinha sido bastante evitado pelos antigos centros britânicos do poder, como a City de Londres (o equivalente à Wall Street, nos EUA). Milhões daqueles que votaram no LP em 1997 o fizeram com um vago espírito rebelde: tirar o fracassado partido que estava no poder e eleger um governo reformista.

Mas à medida que o governo de Blair se alongava, e suas principais figuras pareciam muito mais adequadas, o senso do New Labour como um emergente populista diminuiu vigorosamente. Como um dos seus ex-ministros colocou em uma linguagem burocrática: “O governo drena suas narrativas”.

Sempre um político intelectualmente curioso, Ed Miliband leu Sobre o Políticode Mouffe, quando ele foi lançado, em 2005. “Na sua descrição da terceira via como uma tentativa de fazer política sem inimigos, eu lembro de pensar: ‘Ela chegou no ponto exato'”, contou ele. “Há um lado da terceira via que dizia que o que era bom para os negócios era sempre bom para os trabalhadores. Diga isso a um motorista do Uber! Você não pode ignorar este tipo de disputa”.

No entanto, na metade dos anos 2000, Miliband era uma figura nova no New Labour e, além disso, poucas pessoas no governo compartilhavam com suas reflexões. “O blairismo não tinha uma cultura de autocrítica”, diz o cientista político Alan Finlayson, cujo livro Making Sense of New Labour (sem traduções para o português) permanece como um dos estudos mais claros da atmosfera amorfa do governo de Tony Blair. “Os apoiadores dele tinham medo de críticas internas depois de toda a divisão entre esquerda e direita no Partido Trabalhista durante as décadas de 1970 e 1980. E eles eram estranhamente anti-intelectuais de alguma forma, em acreditar que a globalização era como o clima e que eles tinham a única compreensão do mundo moderno”.

As duas convicções significavam que, geralmente, políticos do New Labour viam apenas o que eles esperavam em textos favoráveis, como os da Marxism Today e os dos livros de Giddens – principalmente que a globalização e o thatcherismo tinham transformado a Grã-Bretanha – enquanto ignoravam as mensagens embutidas nestes mesmos textos sobre suas consequências potencialmente explosivas.

“A falha fundamental do New Labour foi aceitar o neoliberalismo”, diz Giddens hoje. “Eles não fizeram o que deveriam fazer para restringi-lo. O contraste é impressionante com o intervencionismo de Blair em questões militares”. David Miliband, apesar de ser um membro mais ortodoxo do New Labour do que seu irmão, concorda em partes. “Nós não gostávamos que a globalização fosse tão desigual, tão instável. Estavam acontecendo coisas mais profundas na economia do que nós notávamos”.

Finlayson argumenta que os pontos cegos da terceira via sobre as desvantagens do capitalismo não eram um acidente, mas uma escolha – um sinal de suposições direitistas por trás da retórica de estar “além da direita e esquerda”. “Nós não devemos levá-los a sério quando eles afirmam que não eram ideológicos”. A ideologia era evidente na administração do partido pelos apoiadores de Blair, que aos poucos foram marginalizando a esquerda do LP. Um dos paradoxos – poderíamos dizer “hipocrisias” – do New Labour era que, em busca de criar uma política mais consensual, ele primeiro necessitou dominar aqueles que não acreditavam nas suas ideias.

Por todo o interesse da terceira via na modernidade e em uma linguagem quase científica, seus arquitetos e verdadeiros seguidores estavam fora de moda. Eles tinham sido projetados, assim como muitos de nós, pela forma como viam a política durante a fase adulta. Tinham crescido com a ideia de que a esquerda havia se tornado forte e agressiva nos anos 1970, e que o thatcherismo, com todas as suas falhas, fora responsável por resgatar a Grã-Bretanha nos anos 1980. Eles não notaram totalmente que, quando o Partido Trabalhista finalmente retornou ao poder em 1997, e quando já governava sozinho na década de 2000, as duas forças tinham sumido. Com seus sindicatos fracos e bancos superpoderosos, a Grã-Bretanha não era um país que precisava de um governo que freasse a esquerda e reverenciasse os negócios.

Porém, o New Labour e seus gurus da terceira via tinham muita confiança em seus próprios julgamentos para ajustar seus pensamentos e políticas para quando a imagem da Grã-Bretanha como uma história de sucesso do livre-mercado se tornasse velha. Eles também nutriam um desprezo pela esquerda – obsoleta, em seu ponto de vista, porque ela ainda acreditava no conflito e na divisão entre esquerda e direita –, para levar em conta suas válidas percepções sobre as fragilidades do capitalismo moderno. “Eles se encantaram por sua própria mitologia”, diz Finlayson. “Ficaram presos nela”.

A terceira via gradualmente saiu de moda, assim como o New Labour na metade dos anos 2000. A guerra no Iraque, em 2003, com seus prelúdios e consequências amargas, e mesmo a disputa óbvia entre Blair e Brown, fizeram ser cada vez mais difícil sustentar a noção que estavam praticando uma política de consenso. Blair deixou o cargo de primeiro-ministro em 2007. Quando ele publicou suas memórias, tempos depois, mencionou a terceira via apenas cinco vezes em 700 páginas. Giddens nem isso.

Nos nossos dias, ex-blairites raramente conversam sobre a terceira via. Sua fé no consenso político, no entanto, permanece. De todos com quem eu falei, exceção feita a Ed Miliband, ninguém está preparado para aceitar que Corbyn está certo ao fazer o LP ser um partido de confronto novamente. “Muitas pessoas estão simplesmente em negação”, Mouffe argumenta. “Eu tenho visto isso na academia: quando as pessoas precisam defender uma teoria por toda a vida, é necessário muita coragem para dizer: ‘Eu estou errado'”.

Surpreendentemente, meus entrevistados elogiaram o presidente da França, Emmanuel Macron, em sua juventude, suas camisas com mangas arregaçadas, e supostamente unificando ecos políticos de um Blair dos anos 1990. “Macron é um modernizador francês”, disse David Miliband. Mouffe concorda. “Macron está tentando fazer o que Blair fez”. No entanto, a popularidade irregular de Macron, apenas um ano depois de sua eleição, sugere que consenso político não seduz mais como antes.

David Miliband insistiu que as políticas de ódio no Ocidente hoje são uma fase passageira. “O populismo é popular até ser eleito”. Mulgan argumenta que o tom da política na Grã-Bretanha – e por implicação, em outras democracias – é cíclica. Era confrontacional nos anos 1970 e 1980, consensual nos anos 1990 e 2000, e agora é confrontacional novamente. Cada fase, ele acredita, eventualmente produz seu oposto: quando o consenso começa a saturar, eleitores e políticos procuram uma ruptura; quando os confrontos se tornam exaustivos, eles procuram a calma. É possível estender seu argumento para dizer que os dois tipos de política estão inseridas na democracia britânica, com as paixões na Câmara dos Comuns e primeiros-ministros ferozes de um lado, e sua reverência pelo “compromisso britânico” e moderação de outro.

Mas Finlayson acredita que qualquer retorno ao consenso vai levar um longo tempo. “A política mudou fundamentalmente. Os centristas sofreram uma derrota de legitimidade profunda por conta do Iraque e da crise financeira. Não haverá retorno ao centrismo até que eles se redirecionem”. Ele também argumenta que as redes sociais fragmentaram a política positivamente, e prevê que a frágil habilidade do capitalismo em prover uma vida boa para a maioria das populações significa que as competições por recursos vão permanecer ferozes.

David Miliband, o menos otimista das antigas figuras do New Labour com quem eu conversei, chama isso de “política da torta que diminui”. “Quando nós estávamos no governo, a torta não estava encolhendo, então, decisões difíceis sobre como dividi-la foram esquecidas”. A terceira via contornava questões antigas, de alguma forma saturadas, sobre quem obtém o poder e a riqueza. Acabou sendo uma abordagem para os bons tempos.

Em seu apartamento no Norte de Londres, Mouffe falou gravemente sobre as perspectivas para a democracia nesses tempos difíceis. Ela não acredita que a política de consenso vai ter um grande papel neste momento. “A principal batalha será entre os populismos de direita e de esquerda”, diz. “Isso poderá abrir o caminho para uma forma mais autoritária de neoliberalismo” – a expansão do estilo Trump de governar por decretos e desregulações – “ou a uma política nova e muito mais democrática”, continuou a autora belga. Mouffe vê agitações dessa segunda possibilidade no Partido Trabalhista de Corbyn.

Mas ela segue: “A democracia em seu pleno funcionamento – com conflito, mas onde as pessoas aceitam a existência dos seus adversários – não é fácil de se estabilizar”. Ela olha novamente para seu café preto. “Eu não sou tão otimista”.

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