30 de setembro de 2018

Constituição mudou preferência eleitoral dos mais pobres, diz professora

Hoje eleitorado revela, segundo cientista política, racionalidade similar a democracias mais desenvolvidas

Marta Arretche

Folha de S.Paulo

Ilustração: Ana Elisa Egreja

Rios de tinta foram dedicados ao comportamento desviante dos eleitores da América Latina. Com a possível exceção da Argentina e do Uruguai, aqui, os eleitores mais pobres pareciam não se revelar propensos a votar em partidos com plataformas redistributivas. Estes catalisavam com mais frequência a simpatia de eleitores progressistas mais escolarizados.

Haveria, portanto, algo radicalmente distinto no perfil do eleitor latino-americano que o impediria de se comportar como o das democracias avançadas, nas quais a renda e a escolaridade seriam bons indicadores das preferências partidárias.

Lá, à esquerda e à direita corresponderiam bases eleitorais distintas. Pobres votariam em partidos que prometem melhorar seu bem-estar ao passo que os mais afortunados votariam em partidos que prometem reduzir os impostos.

Na América Latina, diferentemente, a fragilidade programática do sistema partidário se combinaria à irracionalidade do eleitorado, que não votaria de acordo com seus interesses materiais. Há quem culpe os partidos, por não apresentarem claramente suas plataformas. Há quem culpe o eleitor, por não saber escolher seus candidatos. Mas, causas à parte, os diagnósticos convergem para afirmar nossa inferioridade em relação às democracias avançadas.

O voto econômico —isto é, preferências partidárias alinhadas à renda dos eleitores— parece ser mais evidente em países em que a desigualdade é menor, tais como as democracias europeias. Onde a desigualdade é maior, como na América Latina, não é claro que quanto mais baixa a renda dos eleitores, maior a probabilidade de voto em partidos cujas plataformas eleitorais priorizam o bem-estar da maioria.

De fato, no Brasil, partidos clientelistas obtiveram por longo tempo sucesso eleitoral nos distritos com maior concentração de população vulnerável. O fenômeno não é restrito à região Nordeste. Redutos eleitorais de partidos conservadores abunda(ra)m nas regiões mais ricas. Alguma forma de irracionalidade ou de desinformação acometeria esses eleitores, concluem os analistas.

Mas, por que apenas os eleitores latino-americanos e brasileiros se comportariam desse modo? Por que a irracionalidade seria um atributo dos trópicos? Falta de escolaridade, respondem prontamente alguns observadores.

De fato, a ciência política acumulou fartas evidências da relação positiva entre níveis de escolaridade e informação política. Mas o fato é que o apoio aos partidos com plataformas redistributivas na Europa começou a ocorrer ainda no século 19, sob baixos níveis de escolaridade.

Na democracia limitada de 1946, bem como no regime democrático atual, a associação entre renda e preferências partidárias dos eleitores ocorreu de modo gradual, à medida que a operação regular do sistema politico se adensava, também sob baixos níveis de escolaridade.

Estudo sobre as preferências dos eleitores latino-americanos publicado neste ano na World Politics por Alisha C. Holland, da Universidade Princeton, nos apresenta uma proposição útil para melhor entender o quadro eleitoral —da eleição em curso e muito provavelmente de eleições futuras.

Eleitores que não recebem benefícios sociais apresentam expectativas deprimidas. Não acreditam que seu voto poderá se converter em políticas que aumentarão seu bem-estar. Os indivíduos precisam experimentar políticas que lhes trazem benefícios tangíveis para apoiar plataformas redistributivas.

Logo, a diferença entre a América Latina e as democracias avançadas não estaria no eleitor, mas na credibilidade de que os eleitos de fato entreguem as políticas que prometem.

A Constituição de 1988 mudou muito o desenho das políticas sociais brasileiras. Até ali, só tinha direito a aposentadoria e a assistência médica quem tivesse carteira assinada, cerca de 40% da força de trabalho no final dos anos 80. Até ali, o mundo escolar era praticamente inacessível para a maioria da população.

Em 1980, 26% da população adulta brasileira era analfabeta. Ou seja, cerca de um quarto do eleitorado (potencial) não sabia ler ou escrever. Quase 22% tinham até três anos de estudo. Eram analfabetos funcionais. De cada 100 jovens que entravam na escola, apenas 55 completavam quatro anos de estudo antes dos 16 anos de idade. As chances de uma criança de origem pobre concluir o ensino fundamental eram muito menores do que aquelas das famílias de maior renda.

Em suma, as políticas sociais do regime militar produziam uma legião de excluídos permanentes. Mais que isso, esta exclusão era cumulativa. Baixa escolaridade, inserção precária no mercado de trabalho, exclusão da assistência médica e do direito a aposentadoria se superpunham sobre os mesmos indivíduos. Este era o Brasil de 40 anos atrás!

A Constituição de 88 foi o resultado de um processo inclusivo de redemocratização que erodiu alguns dos pilares desta histórica exclusão. Ao criar o SUS, eliminou as vantagens conferidas apenas aos trabalhadores com carteira assinada. Ao criar o Benefício de Prestação Continuada, garantiu um ganho ao fim da vida para trabalhadores pouco qualificados que tiveram inserção irregular no mercado de trabalho.

Ao estabelecer um piso para os benefícios previdenciários, produziu um patamar, a ser definido politicamente por ocasião da elaboração do Orçamento, abaixo do qual nenhum idoso deveria viver.

Sob os dispositivos da Constituição, incremental e sistemática incorporação foi alcançada nos últimos 30 anos. Os outrora 60% excluídos e seus familiares obtiveram ganhos incrementais de acesso ao atendimento em saúde, via SUS.

Cerca de 25% dos eleitores (estimativa para 2015) foram progressivamente incorporados à politica do salário mínimo, seja via aposentadorias ou benefícios assistenciais, seja via mercado de trabalho. Os níveis de escolaridade modificaram muito. Entre 1980 e 2010, os concluintes do fundamental completo saltaram de 3,3 milhões para 12,5 milhões; os concluintes do ensino médio passaram de 3,8 milhões para 29 milhões e o mundo universitário incluiu mais de 20 milhões de jovens.

Parece muito distante, mas precisa ser lembrado: em 1980, quase metade dos eleitores brasileiros era analfabeta ou semianalfabeta e 60% não tinha direito à assistência médica ou aposentadoria. A situação atual é muito ruim, mas sua dramaticidade deriva de uma métrica móvel. Nossas expectativas se elevam à medida que ganhos civilizatórios são obtidos.

A Constituição de 88 não foi obra dos partidos de esquerda, que eram francamente minoritários na Assembleia Constituinte. Foi resultado da percepção, também entre os conservadores, de que a democracia não seria sustentável no Brasil sem que um mínimo de proteção social fosse provida à massa de excluídos.

É muito razoável supor que a incremental inclusão inaugurada pela Constituição de 1988 tenha alterado as expectativas dos eleitores brasileiros, em particular os de baixa renda. Assim, a distribuição de preferências do eleitorado na eleição atual estaria revelando a mesma racionalidade que orienta o eleitor das democracias desenvolvidas.

Eleitores pobres tendem a preferir candidatos que apresentam plataformas orientadas ao bem-estar ao passo que eleitores mais ricos temem ser expropriados caso estes candidatos sejam eleitos.

Neste caso, a Constituição e as políticas que lhe sucederam contribuíram para minimizar expectativas deprimidas. Estas últimas seriam compatíveis com as políticas excludentes do regime militar, mas incompatíveis com algumas poucas décadas de progressiva incorporação a padrões mínimos de vida civilizada.

Sem dúvida, a gravidade de nosso quadro fiscal imporá definição de prioridades, do que decorrerá frustração de expectativas. Não é possível atender a todas as demandas. Mas a experiência das democracias avançadas, confirmada pelo insucesso do governo Temer, demonstra que políticas de austeridade requerem governos com créditos políticos para queimar. Governos com baixa legitimidade não podem se dar a este luxo.

Por isso, é certamente um equívoco interpretar esta reta final da campanha presidencial como um quadro de polarização eleitoral, entre extremos do espectro ideológico que se equivalem em termos de compromisso com os padrões de uma sociedade civilizada.

Seja a violência sofrida pelo candidato à presidente que está a frente nas pesquisas eleitorais, seja a violência que este próprio incita em seu eleitorado nos fazem duvidar de que a promessa civilizatória da Constituição de 1988 tenha sido uma conquista irreversível.

Sobre a autora


Marta Arretche é professora titular do Departamento de Ciência Politica da USP e diretora do Centro de Estudos da Metrópole.

28 de setembro de 2018

Alexandre Schwartsman perde o decoro ao ofender Marcio Pochmann

Não podemos esquecer que a qualidade mais importante que um bom economista deve apresentar é aceitar a contradição

Paulo Feldmann

Folha de S.Paulo

O economista Marcio Pochmann é um dos formuladores da agenda econômica do PT. Eduardo Anizelli/Folhapress

Há um problema que se repete no Brasil em vésperas de eleições: Trata-se da visão futebolística de que nosso time é o melhor e tudo que vem do adversário não presta. Este fato, aliado à intensa rivalidade existente entre PSDB e PT, é uma das causas da tragédia brasileira.

Ambos partidos já fizeram coisas muito boas pelo país —o Plano Real de FHC e a melhoria da renda dos mais pobres de Lula são exemplos inequívocos de que há coisas boas dos dois lados e que precisam ser mutuamente reconhecidas.

Além disso, não podemos esquecer que a qualidade mais importante que um bom economista deve apresentar é aceitar a contradição, pois a mesma está presente em quase todos aspectos que envolvem a teoria econômica.

Em economia raramente há uma única forma de se enxergar ou interpretar fatos. É isso que surpreende em Alexandre Schwartsman. Em seu artigo de quarta-feira (26) nesta Folha ele se põe a ofender Marcio Pochmann, professor da Unicamp, chamando-o de desonesto ao invés de se contrapor com bons argumentos ao que Marcio coloca.

Poucos contestam que um dos maiores problemas do Brasil é a péssima distribuição de renda. O que Marcio quis dizer, e certamente Alexandre entendeu, é que aumentando um pouco a alíquota paga pelas famílias muito ricas, já se conseguiria arrecadar o suficiente para cobrir praticamente todo o déficit primário de cerca de R$ 170 bilhões.

Segundo dados da Receita Federal, as 70 mil famílias (0,14 % do total) mais ricas do país pagam um imposto efetivo de apenas 6% da renda, enquanto a classe média paga 12%. Se os muito ricos passassem a pagar um imposto efetivo igual ao pago pela classe média, acabaríamos com o déficit primário. Simples assim.

Segundo Alexandre, a segunda mentira de Pochmann é com relação à evolução do endividamento. Como ex- diretor do Banco Central, Alexandre deveria consultar as informações e estatísticas desta instituição. Por ali fica muito claro o que Pochmann quis dizer: Sim, o endividamento cresceu —tanto bruto quanto o líquido— durante o segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, mas a taxa de crescimento foi muito menor do que nestes dois últimos anos de Temer.

Alexandre se ressente por Marcio não ter dito qual o período em que o desemprego subiu? Ora, como um economista que tem obrigação de conhecer os dados da economia brasileira, ele deveria saber de cor que 8,4% foi no último ano de Dilma, e 11,7% foi no primeiro ano de Temer.

A última das quatro mentiras apontadas por Alexandre não somente se trata de pura verdade como é o que se faz necessário para o país voltar a crescer. Pochmann estima que haja um potencial arrecadatório de 1,5% do PIB (equivalente a R$ 120 bilhões) possível de ser conseguido com pequenas mudanças, como a da alíquota do IR e mudanças no imposto sobre heranças, hoje muito baixa —além de tratar-se de um imposto estadual.

Claro que discordar é natural e necessário, mas sem perder o decoro. E Alexandre perdeu o decoro ao ofender de forma grave um economista como Marcio Pochmann, que já foi presidente do Ipea, talvez o posto mais importante do país em termos de fórum para a discussão das grandes questões brasileiras.

Sobre o autor


Paulo Feldmann é professor de economia brasileira da FEA-USP.

26 de setembro de 2018

Começou o terceiro turno

Mercado financeiro já cobra do futuro presidente

Paulo Nogueira Batista Jr.


O economista Paulo Nogueira Batista Jr, em evento no Palácio do Planalto. Alan Marques/Folhapress.

Ainda nem chegamos ao primeiro, mas já temos indícios de que o terceiro turno começou. Terceiro? Sim, leitor, a turma da bufunfa não descansa. Quando perde o primeiro e o segundo turnos em eleições presidenciais, ela não demora a providenciar um terceiro. Como a sua derrota nos dois turnos regulamentares está desenhada, os bufunfeiros trataram de se movimentar desde logo.

A turma é afoita e não prima pela sutileza. Recentemente, o jornal Valor Econômico publicou extensa reportagem sobre as inquietações eleitorais do mercado financeiro, apoiada sobretudo em declarações off the record. Bolsonaro preocupa menos, pois entregou o terceiro turno por antecipação, anunciando a nomeação para a Fazenda de um economista ultraliberal. O problema é Haddad, neste momento o favorito.

Um dos entrevistados anônimos do jornal, identificado como "um gestor", avisou que o mercado não dará o benefício da dúvida ao candidato do PT. "O estresse vai ser enorme", ameaçou.

Outro interlocutor anônimo do jornal, um economista do mercado, sugeriu que Haddad anuncie imediatamente nomes liberais para sua equipe. "Algum estelionato eleitoral vai ter que haver", avisou.
Ora, quem conhece a história do Brasil sabe que estelionato eleitoral equivale a suicídio político. Haddad é experiente e hesitará muito antes de embarcar nessa canoa. Mas as pressões nos mercados financeiro e cambial podem ser intensas. Não basta saber; é preciso também ter nervos de aço.

As esperanças da turma da bufunfa têm lá os seus fundamentos. O PT perdeu o terceiro turno duas vezes, pelo menos. A primeira ocorreu em 2002, quando Lula comprou tranquilidade, nomeando Antonio Palocci ministro da Fazenda e Henrique Meirelles para presidente do Banco Central. Em 2014, Dilma perdeu o terceiro turno fragorosamente, cedendo o comando da Fazenda a Joaquim Levy.

A derrota no terceiro turno não se dá pela manutenção pura e simples da equipe econômica do governo anterior. Lula não deu ouvidos aos que queriam a continuação de Pedro Malan e/ou Armínio Fraga. Também não serão ouvidos os que recomendam conservar a equipe econômica de Temer.

Mas isso pouco importa. A turma da bufunfa dispõe de dezenas, para não dizer centenas, de nomes aceitáveis, equivalentes a Meirelles, Ilan Goldfajn ou Fraga. Para seguir a cartilha, não precisa ser nenhum gênio. Profissionais medianos, sempre encontradiços, são até preferíveis, pois seguem ordens com mais satisfação e menos escrúpulos.

Tudo indica, entretanto, que o terceiro turno de 2018 não vai ser tão fácil quanto em 2002 ou 2014. Por duas razões. Primeiro, a centro-esquerda aprendeu com a experiência —particularmente com a de 2014, que foi desastrosa e está viva na memória de todos. Segundo —e talvez mais importante—, o quadro econômico brasileiro, embora muito difícil, não é desesperador, como era por exemplo o de 2002.

A inflação está sob controle, apesar da alta do dólar. As expectativas de inflação continuam próximas do centro da meta. As taxas de inflação corrente e os núcleos de inflação (as medidas de inflação subjacente) estão bem comportados.

Ainda mais significativa é a força do setor externo da economia brasileira. O déficit de balanço de pagamentos em conta corrente é muito pequeno; os ingressos de investimentos diretos estrangeiros equivalem a várias vezes o déficit corrente.

Além disso, o país dispõe de reservas internacionais da ordem de US$ 380 bilhões. O Banco Central pode se valer ainda de swaps cambiais, que equivalem a venda futura de dólares sem a entrega de moeda estrangeira.

Ataques especulativos são sempre possíveis. Mas desta vez a turma da bufunfa vai ter que suar a camisa.

Sobre o autor

Economista, ex-vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (estabelecido pelos Brics em Xangai) e ex-diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países.

24 de setembro de 2018

Os socialistas pensam

Asad Haider


Demonstration of striking workers at Talbot-Poissy, June 1982.

Tradução / Nos debates da esquerda contemporânea, muitas intervenções começam com uma variação sobre um tema particular: “os socialistas pensam que...”

Às vezes, ouve-se “os marxistas acreditam que...” Outras, “os socialistas entendem que...” Qualquer que seja a estrutura da frase, o ponto é sempre o mesmo.

Seguem-se diferentes proposições. Podem ser afirmações teóricas gerais, concernentes à relação entre “raça e classe” ou “reforma e revolução”. Ou podem ter um caráter imediato, urgente, marcando uma posição sobre uma questão atual ou debate estratégico.

Infelizmente, há muito já não podemos dizer: “Os socialistas pensam que o mar deveria ser feito de limonada.” Mas recordemos afetuosamente que, um dia, alguns de fato o pensaram...

Este, é claro, é o problema da afirmação “Os socialistas pensam que...” Ao longo da história, os socialistas pensaram muitas coisas diferentes, por vezes coisas tão incompatíveis que dividiram organizações ou mergulharam nações inteiras em disputas de facções. Estudar esses debates pode ser útil, pois pode forçar-nos a reconstruir o raciocínio por detrás de uma posição particular que, do contrário, teríamos ignorado.

Mas há um problema mais grave com essa formulação: quando alguém diz “os socialistas pensam que...”, essa pessoa está te exortando a não pensar. Ela está dizendo, “nós pensaremos por você.”

Apesar disso, as pessoas pensam. Nada pode parar isso. Esse ponto é tão simples que é frequentemente esquecido, às vezes de propósito. Na realidade, porém, possui uma importância central. O militante francês Sylvain Lazarus elaborou toda uma estrutura política com base nessa afirmação: as pessoas pensam.

Reconhecer que as pessoas pensam não é o mesmo que falar sobre consciência, o que acaba por trazer mais problemas que soluções. Muitas vezes ouvimos falar de uma consciência de classe, que expressaria as condições objetivas da classe trabalhadora, mas que nem sempre é realizada. Os socialistas que detém esse conhecimento, geralmente intelectuais, deveriam levar aos trabalhadores a consciência de suas condições objetivas.

Mas a consciência não é tão unitária e direta. Os trabalhadores têm consciências que são determinadas por uma série de fatores: nação, etnia, gênero, religião etc. O processo pelo qual a consciência passa a refletir uma posição de classe pode ser uma tradução por meio de um desses termos. É por isso que o populismo tende a mobilizar as classes em termos nacionais.

Além disso, surge uma questão embaraçosa a respeito da consciência dos intelectuais socialistas. Se a consciência da classe trabalhadora é determinada pelo seu ser social, como então os intelectuais adquirem uma consciência socialista? Como escreve Rossana Rossanda, essa linha de raciocínio acaba por representar os intelectuais como “milagrosamente livres de seu ser social e abstraídos de sua classe.”

Num relato de investigações fabris que ele conduziu na França nos anos 1980, Lazarus propõe que, ao invés de falarmos de consciência de classe, digamos simplesmente: os trabalhadores pensam. Mas o que os trabalhadores pensam não é apenas determinado pelas características da produção, ou pela consciência coletiva de um grupo objetivamente constituído. Ao invés disso, temos que descobrir o que eles pensam. Temos que ter a humildade de perguntar e aprender, ao invés de imaginar de antemão o que sua consciência deveria ser.

Usarei a seguir dois exemplos de Lazarus.

Em primeiro lugar, a descrição que Lazarus faz da greve e ocupação da fábrica da STECO em Gennevilliers, em 1991. A fábrica produzia baterias para carro, um tipo de trabalho altamente perigoso. A empresa decidiu fechar a fábrica e demitiu centenas de trabalhadores. Na fábrica ocupada, a assembléia da greve se reuniu com os patrões, que ofereceram indenização, mas apenas para os trabalhadores mais antigos, excluindo os jovens, as mulheres e os recém-contratados. A questão passou a ser, então: quem conta como trabalhador, e quem decide isso?

Os trabalhadores grevistas elaboraram sua própria análise: do ponto de vista dos patrões, as demissões refletiam seu controle da fábrica. Eles decidiam quem trabalharia – ficar ou sair não era uma decisão que cabia ao trabalhador. Com o pagamento da indenização, os patrões reconheciam que as demissões prejudicavam os trabalhadores. Mas ao decidir quem receberia ou não o benefício, os patrões decidiam, ao mesmo tempo, quem contava e quem não contava como trabalhador.

Havia, porém, uma alternativa à contagem dos trabalhadores pelos patrões, que era a contagem dos trabalhadores pelos próprios trabalhadores. A assembléia da greve decidiu que “a indenização deve ser paga a todos, homens e mulheres, jovens e velhos, recém-contratados ou não”, pois esse era seu princípio de contagem. Essa não era apenas uma repetição de uma definição sociológica do trabalhador, cuja exposição clara e luminosa nos livros não garante em absoluto que ela se efetivará na situação política concreta. O igualitarismo da demanda não é dado de antemão; muitas lutas fabris são incapazes de superar as divisões no interior da força de trabalho.

Lazarus argumenta que, na situação da luta fabril, a demanda foi tornada possível pelo que ele chama de prescrição política.Uma prescrição nos mostra o que é possível – isto é, nos mostra a capacidade do povo, uma capacidade que não pode ser capturada ou compreendida desde cima por um partido ou pelo estado. A prescrição abre o horizonte do possível numa situação específica: no caso em análise, ela declara que são os trabalhadores, não os patrões, que decidem quem é um trabalhador. A demanda de “indenização para todos” é interior ao que é tornado possível ao se introduzir a prescrição “o trabalhador decide quem é trabalhador.” Por fim, os patrões cederam e a demanda foi atendida.

O segundo exemplo tem seu momento decisivo em 1983 – o ano da virada “socialista” de Mitterrand em direção à austeridade e das primeiras vitórias eleitorais do Front National de Le Pen. Os trabalhadores imigrantes foram desproporcionalmente afetados pelas demissões na indústria automobilística, e se organizaram contra elas. Funcionários do governo menosprezaram a então crescente onda de greves, caracterizando os trabalhadores grevistas como estrangeiros, árabes e muçulmanos fundamentalistas que não conheciam a realidade francesa. Racismo e xenofobia foram mobilizados contra os grevistas, muitas vezes resultando em violência.

Para responder a essa conjuntura, em que o racismo estatal era usado para negar a figura do trabalhador, Lazarus perguntou aos trabalhadores da fábrica de Renault-Billancourt, em 1985, o que significava, para eles, ser um “trabalhador imigrante”.

Seguem-se três citações:

  • “Eu sou um trabalhador imigrante na fábrica, mas lá fora eles me consideram apenas um imigrante, porque não sabem que eu sou trabalhador.”
  • “Eu sou um imigrante e um trabalhador. Na fábrica, eles nos consideram trabalhadores imigrantes, mas do lado de fora somos considerados imigrantes. Os franceses esquecem que estamos aqui pra trabalhar e que de fato trabalhamos.”
  • “Eu sou um trabalhador imigrante na França mas, apesar de ser imigrante, trabalho como todos os demais trabalhadores.”

Nesses relatos, aponta Lazarus, a categoria de “trabalhador imigrante” é atribuída à fábrica, e a de “imigrante” ao lado de fora, à sociedade como distinta da fábrica. Enquanto o estado prega a “a identificação do país pela noção jurídica de nacionalidade”, pode-se vislumbrar detrás desse frágil edifício “uma rede permanente de vigilância e perseguição dos ‘não-franceses.’ A palavra “imigrante’” é usada pelo grupo dominante, nesse caso os franceses, para negar cidadania aos trabalhadores estrangeiros.

Em seguida, mais duas citações:

  • “Eu sou um trabalhador imigrante, isso é uma coisa. É verdade que sou estrangeiro, mas também sou trabalhador, e isso é mais importante. Mas eles estão sempre dizendo ‘imigrante, imigrante’.
  • “Na fábrica, sou um trabalhador imigrante. Nas ruas, sou imigrante, mas trabalhador imigrante ou apenas imigrante, é quase a mesma coisa – é diferente de ser um trabalhador.”

Aqui, argumenta Lazarus, ainda que o termo “trabalhador imigrante” seja preservado, a palavra “imigrante” ganha prevalência sobre ele, sobrepondo-se à figura do trabalhador mesmo no ambiente da fábrica. Isso significa que a palavra “imigrante” nega a figura do trabalhador não apenas na sociedade, mas também no interior da fábrica. Trata-se do “retorno no interior da fábrica dos fenômenos sociais, ou, mais exatamente, do retorno na fábrica da imagem que a sociedade tem dos trabalhadores imigrantes.” Assim, os trabalhadores imigrantes passam a ser entendidos “em termos culturais e confessionais e, assim, exclusivamente como ‘imigrantes’, isto é, como outros.”

Os próprios movimentos, em toda sua autonomia, abrem um campo para novas afirmações políticas. Tais afirmações são elaboradas a partir da especificidade de cada situação. Contra a alegação do estado capitalista de que não há nenhum agente político relevante na fábrica, a resposta é que há o trabalhador. Contra a alegação do estado-nação de que há um “problema de imigração”, a resposta é que um país consiste em todos os que nele moram e trabalham e que o “problema de imigração” é uma falsa questão.

Esses são princípios ativos porque não são simplesmente extraídos de um cânone teórico. Eles não expressam uma consciência já existente ou uma consciência trazida de fora – são imanentes às situações políticas em que aparecem.

Não podemos saber de antemão quais princípios serão ativos em futuras conjunturas. Para conhecê-los em sua especificidade, temos que conduzir investigações que comecem pelo reconhecimento de que os trabalhadores pensam. Essa é uma investigação que não presume que saibamos o que os trabalhadores pensam, mas que atribui prioridade ao aprendizado sobre seu pensamento.

Adotemos esse princípio em nossas próprias discussões internas e nas decisões que dizem respeito a nossa organização. Rejeitemos os ditados vindos de cima, que fornecem respostas prontas para questões impostas de fora, e digamos em alto e bom som: os socialistas pensam.

Sobre o autor

Asad Haider é editor de Viewpoint e autor de Mistaken Identity: Anti-Racism and the Struggle Against White Supremacy (Verso, Spring 2018).

17 de setembro de 2018

Estações tempestuosas

Adam Tooze



Verso, 432 pp., £20, January 2017, 978 1 78478 599 4

Tradução / “Se não fizermos isto, talvez não tenhamos uma economia na segunda-feira” – disse Ben Bernanke, então presidente do Federal Reserve dos EUA, em 18 de setembro de 2008, quando demandava uma ação do Congresso para apoiar o sistema bancário. Dez anos depois, ainda temos uma economia. Mas vale a pena perguntar se o pânico então observado levou à exclusão de outros caminhos. No terrível outono de uma década atrás, a primeira prioridade era a sobrevivência. Acomodar-se, deixar a coisa seguir o seu curso era cortejar o desastre, como provou o colapso do Lehman Brothers. Os resgates eram desagradáveis, mas era preciso ser bem fanático para dissociar-se do esforço de salvar os bancos, aceitando o risco de uma catástrofe. No entanto, daí também não decorreram consequências políticas como Trump e Brexit, assim como a ascensão do nacionalismo em grande parte da Europa Ocidental? A crise foi uma oportunidade perdida? Se há uma figura em particular cujas ideias eram pertinentes àquele momento profundamente ambíguo, esta é a de John Maynard Keynes. A implosão do sistema financeiro lhe deu razão contra os seus críticos, os quais haviam dito que os mercados se estabilizam por si mesmo e que a intervenção governamental era contraproducente. Com o colapso do investimento, do consumo e do comércio, com milhões de pessoas desempregadas, o mundo desesperou-se por estímulos fiscais; havia demanda generalizada por maiores controles dos mercados bancários e financeiros. E Keynes, como se sabe, é o padrinho do ativismo em política econômica. Tal como argumenta Geoff Mann em seu brilhante livro, para ele, “no longo prazo, todos estaremos mortos”. Assim, Keynes se mostra como uma grande esperança para todos aqueles que querem mobilizar os meios necessários para manter a coisa andando. Ele prometeu tanto evitar o desastre quanto a preservação do status quo.

A biografia de Keynes é emblemática. Ele nasceu em 1883. O seu pai era economista de Cambridge e sua mãe atuava como reformadora social; ele próprio cresceu como um brâmane numa era dourada, mas sua vida adulta foi marcada pela guerra total e pela revolução. Embora simpatizasse com a inquietação e com a insatisfação que dominava o mundo, ele sabia que, se a crise chegasse, ela o encontraria do outro lado das barricadas. Em resposta, tornou-se um intelectual reformista em política econômica. Após ter cursado a Universidade de Cambridge e depois de ter sido funcionário público na Embaixada da Índia por dois anos, ele começou sua carreira como economista profissional. Tratou, então, da questão altamente controversa da política monetária no Raj. Ele se manteve conscientemente contrário à Primeira Grande Guerra, mas trabalhou no Tesouro gerenciando créditos para os Aliados. Em 1919, ficou famoso por seu ataque ao Tratado de Versalhes; Lênin colocou seu livro As Consequências Econômicas da Paz na lista de leitura do Comintern. Na década de 1920, Keynes criticou a atuação de Winston Churchill como chanceler e denunciou o retorno ao padrão-ouro porque isto causaria um choque deflacionário prejudicial às indústrias exportadoras da Grã-Bretanha. Em 1936, publicou a Teoria Geral do Emprego, do Juro e do Dinheiro que transformou o debate sobre a política econômica em todo o mundo; Keynes apresentou o desemprego não como sintoma de uma falha do mercado de trabalho, mas como decorrência da falta de demanda na economia como um todo. Durante a Segunda Guerra Mundial, ele serviu como diretor do Banco da Inglaterra e, em 1944, representou o Reino Unido e a Comissão do Banco Mundial na conferência de Bretton Woods, na qual se forjou o grande projeto do sistema monetário do pós-guerra. Em uma época dominada pelo confronto entre o trabalho organizado e os inflexíveis políticos do Partido Conservador, Keynes permaneceu como membro do Partido Liberal até sua morte em 1946. Tal como via, era papel das classes profissionais fazer com que a sociedade fosse além do impasse trazido pela guerra de classes.

Existem muitas biografias de Keynes e muitos relatos sobre a “revolução keynesiana na forma de governar”. O livro de Mann não pertence a nenhuma dessas categorias. Não é também uma introdução à economia keynesiana (para os curiosos, Mann criou na web um guia para a leitura da Teoria Geral). Ao invés, o seu tema é a política implementada pela tecnocracia liberal à qual o nome de Keynes está ligado. Desde o início, o keynesianismo definiu-se em oposição a um liberalismo “antigo” ou “paleo”, o qual se ancorava na manutenção dos direitos individuais e se caracterizava primariamente pela defesa da propriedade. Com base nisso, mantinha uma insistência dogmática na liberdade de transacionar nos mercados, os quais, por sua vez, deveriam ser protegidos contra as políticas e as regulamentações. A liberdade de comércio era defendida como se fosse uma religião, de tal modo que Adam Smith e os economistas clássicos eram considerados como seus profetas. Na opinião de Keynes, tal dogmatismo e a consequente rigidez que fomentava eram o oposto do que era necessário para assegurar uma ordem liberal progressista.

Do ponto de vista atual, o keynesianismo também deve ser contrastado com a política e a economia da revolução pró mercado das décadas de 1970 e 1980, a qual é conhecida como neoliberalismo. Em termos terminológicos, não ajuda saber que o próprio Keynes teria ficado feliz em ser descrito como um “novo liberal”. Nos anos 1930 e 1940, ele se envolveu em discussões, muitas vezes amistosas, com os futuros luminares do neoliberalismo, incluindo Walter Lippmann e Friedrich Hayek. Mesmo na melhor das interpretações, o esforço para dar novas fundações à ordem do mercado figuraria, na percepção de Keynes, como uma espécie de nostalgia, fadada a fracassar na prática. Na realidade, o neoliberalismo costuma ser frequentemente desonesto, proclamando sua absoluta adesão ao governo do mercado, apenas para recorrer à massiva intervenção estatal. Foi isso que os salvamentos bancários de 2008 demonstraram. Nas condições atuais, o neoliberalismo é, de fato, uma política antidemocrática que procura resolver a tensão entre capitalismo e democracia seja limitando o alcance da opção democrática seja interferindo diretamente no processo democrático.

O propósito de Keynes, ao contrário, era desenvolver um liberalismo que não fosse retrógrado, baseado em má-fé ou antidemocrático, mas que enfrentasse diretamente o problema de juntar capitalismo e democracia para que funcionassem em consonância. Um caminho consistia em ampliar o escopo da política. Keynes, uma figura chave no Grupo de Bloomsbury, era um modernista cultural liberal. Ele achava que um liberalismo próprio para o século XX deveria abranger a questão das drogas, o controle de natalidade e a liberação sexual. Mas, no rescaldo da I Guerra Mundial e da Revolução Russa, em meio a um intenso conflito de classes nunca antes visto, ficou claro para ele que o liberalismo cultural tinha que ser acompanhado por um novo pensamento econômico. O liberalismo tinha que ser repensado não mais como uma esfera sacrossanta dos direitos privados, mas como uma questão de governo nacional.

Keynes e o keynesianismo são usualmente identificados com a ideia de Estado grande, mas é preciso enfatizar que o keynesianismo, em geral, não é uma política contra o mercado. Para o desgosto da esquerda, não se afigura como uma política baseada em nacionalização ou em planejamento central. Admite claramente que os mercados, sob circunstâncias adequadas, podem realizar coisas notáveis. Contudo, nem sempre os mercados funcionam bem. Quando afetam a economia como um todo, como ocorre com o mercado de capitais ou com o mercado de trabalho, ao funcionarem mal, geram consequências amplificadas, as quais assumem a forma de efeitos sistêmicos e macroeconômicos. O desemprego involuntário em massa, no período entre as duas grandes guerras, era uma realidade inegável na Grã-Bretanha. O que frustrava Keynes era que a teoria econômica de seus professores em Cambridge, na virada do século, pouco dizia sobre ele. “Os economistas” – considerou – “põem para si mesmo uma tarefa fácil demais, inútil demais”; “em tempos tempestuosos, eles só podem dizer que o mar se tornará plano de novo depois que a tempestade passar”. A teoria econômica deve enfrentar a tempestade assim como a calmaria: deve considerar tanto o pleno emprego quanto o desemprego crônico e persistente, a norma e a exceção. Foi isso que fez da Teoria Geral uma teoria geral. Ele não tomou como entendidas as condições que permitiam atingir o pleno emprego. Ao contrário, mostrou a necessidade de explicitá-las.

Em termos econômicos, isso implicou em mudar o foco de análise dos mercados individuais para o fluxo circular da demanda agregada, da produção e da renda nacional. Em termos políticos, isso envolveu desfazer certas suposições consolidadas durante o século XIX sobre as fronteiras apropriadas entre a sociedade política e a sociedade civil, entre o governo e a economia. Para Keynes, essas separações não eram razoáveis. Na verdade, havia boas razões para que se questionasse a separação entre a política e a economia em condições democráticas já que a economia de mercado tinha uma tendência inata para gerar desemprego em massa. Pior ainda, o esforço para manter as antigas fronteiras diante das pressões econômicas distorcia o discurso público e, como este estava fadado ao fracasso, poderiam ser criadas as condições para a revolução. Keynes, como Mann insiste, tinha alguma simpatia pelos defensores da mudança radical – ele chegou a se referir a si mesmo como um bolchevique em certa ocasião –, mas também havia absorvido a crítica de Edmund Burke à Revolução Francesa. Esta considerava que, por mais atraente que parecesse, a revolução produziria sempre um desastre. O desafio era seguir um curso intermediário entre uma regressão conservadora e um esforço empenhado em fazer revolução.

O que assusta tanto os paleoliberais quanto os neoliberais no keynesianismo é a situação para a qual ele pode deslizar. Uma vez que a necessidade da intervenção foi posta, onde esta vai parar? Keynes, como um verdadeiro liberal, entendeu esse medo. Uma solução tentadora era transferir a tomada de decisões para uma elite tecnocrática; a teoria econômica teria alcançado sua verdadeira vocação, brincou ele, se alcançasse o status da odontologia. Contudo, seria errado identificar o keynesianismo com a defesa, pura e simples, da tecnocracia. Como Mann diz, o seu ponto não era, “tal como se pensa, estabelecer um sistema burocrático ou o chamado capitalismo gerencial... com a finalidade de neutralizar a política, no interesse de uma sociedade apolítica despojada de debate e de vida pública”. Os keynesianos, de fato, têm uma visão mais ensolarada. O seu ideal é que o capitalismo e a democracia funcionem juntos sem se molestarem. Uma maneira de apresentar a questão keynesiana é perguntando até que ponto a intervenção política na economia é necessária para construir uma base de prosperidade estável o suficiente capaz de apoiar uma política democrática. A resposta se encontra no que Mann chama de táticas “maquiavélicas”, as quais tratam as fronteiras do político como maleáveis. A arte do governo moderno não consiste em elaborar constituições perpétuas que demarquem permanentemente uma linha entre o político e o não-político, mas que continuamente definam e redefinam o que precisa e o que não precisa ser administrado. Um exemplo clássico advém da consideração de Keynes de que, como os salários não são perfeitamente flexíveis devido ao poder dos sindicatos, querer quebrar os sindicatos equivale a abrir uma guerra de classes. Nesse caso, o meio mais conveniente para ajustar os salários reais tendo em vista alcançar um emprego mais elevado, sem pôr em perigo a democracia, vem a ser agir indiretamente por meio de um aumento modesto da inflação, o que reduz o custo real para os empregadores de contratar mais mão-de-obra. Por outro lado, fixar uma taxa de câmbio em um nível não competitivo é perigoso não apenas porque dificulta as exportações, mas também porque coloca uma pressão enorme no sistema político para forçar cortes de salários.

A consciência situacional e tática do keynesianismo se expressa em uma abordagem pragmática do tempo, a qual aparece no título do livro de Mann. O keynesianismo não abandona a visão de mundo progressista do liberalismo “ Whig”3 ; não nega que muitas das previsões da economia clássica, sob condições ideais, podem advir no longo prazo, assim que as várias forças tiverem tempo de atuar. Mas nega que tais presciências possam ser traduzidas em regras simples para agir no presente. A longo prazo, as tendências básicas do equilíbrio de mercado podem muito bem se manifestarem, mas, “no longo prazo, estaremos todos mortos”. Como Mann bem coloca, não se encontram no “longo prazo” ou mesmo no “médio prazo”, mas no “curto prazo”, aqueles “infinitos momentos de transição em que o problema de manter a ‘civilização’ precisa ser resolvido”. É aí que as pressões da necessidade se fazem sentir. E não é por acaso que qualquer “governo liberal, ao se defrontar com a necessidade, “comporta-se sempre como keynesiano”; em outras palavras, “reconhece a incerteza e a desarticulação do momento, reconhece a imperfeição e a indeterminação desse momento e se afasta da perspectiva do longo prazo para se concentrar em seu imediatismo”. A crise de 2008 demonstrou isso de modo patente. Aquilo que os banqueiros centrais, tais como Ben Bernanke, em setembro e outubro de 2008, pediram aos políticos que fizessem era impensável apenas algumas semanas antes.

Ao final, é claro, os momentos do tempo se somam para formar o longo prazo. Contudo, aceitar plenamente o keynesianismo significaria abandonar-se ao fluxo, sem qualquer objetivo de longo prazo. Ora, isso tornaria a política altamente imprevisível. A busca por “credibilidade” na política econômica tem sido uma preocupação primordial na era neoliberal; há, pois, uma batalha incessante contra a ação discricionária do governo. É preciso travar essa batalha, diz o argumento, porque tentar governar a economia sem ter estabelecido uma crença geral de que o governo segue alguma regra fixa, estimula comportamentos oportunistas na própria economia. A deterioração econômica na década de 1970 poderia ser entendida nesses termos, já que, então, os sindicatos e os empregadores buscavam proteção contra a inflação, pressionavam o governo a aumentar os gastos, o que aumentava ainda mais a inflação.

Assim, a atitude ad hoc característica do keynesianismo tem sido sempre questionada pelos modelos mais conservadores e mais restritivos de governo. Um dos contemporâneos de Keynes, o marxista polonês Michał Kalecki, percebeu a origem de certas flutuações nos interesses contraditórios que movem o próprio capitalismo. Em uma crise, os interesses das empresas não se oporão às intervenções massivas desde que elas atuem para manter a atividade econômica. Entretanto, de modo mais fundamental, elas não têm interesse em ver os salários e os custos aumentarem; então, quando a crise termina, elas tendem a recobrar o compromisso do governo com a disciplina e o rigor. Em consequência, o keynesianismo está condenado a existir para sempre no modo “vai-e-para”. Ora, isso está também assentado em sua história intelectual. Nunca há continuidade ininterrupta do pensamento keynesiano, tal como o próprio Mann mostra em uma brilhante série de observações. Apesar de distarem intelectualmente do próprio Keynes, os economistas modernos de feição reformista, tais como Thomas Piketty e Joseph Stiglitz, também reprimem a atitude típica do keynesianismo.

***

Keynes figura como um paradigma, mas foi ele o primeiro keynesiano? A resposta de Mann é ousada. Se o keynesianismo é uma resposta liberal construtiva à revolução, uma resposta que procura reorganizar a ordem social, política e econômica de modo a atenuar as tensões reveladas, mas não resolvidas, pela sublevação violenta possível, então os primeiros pensadores desse tipo emergiram na esteira da revolução – isto é, da Revolução Francesa – e seu padrinho é Hegel.

Tanto Hegel quanto Keynes viveram na esteira de revoluções. Ambos, entusiasticamente imersos no drama da história mundial, rejeitaram a suposição de que a ordem política e econômica possa ser derivada de fundações naturais. Hegel não acreditava que a ordem pudesse emergir espontaneamente da sociedade. Uma observação que fez aos seus alunos, na década de 1820, a qual não recomendava supor que “as coisas se ajustam por si mesmas, que elas cuidam de si mesmas”, poderia ser subscrita por Keynes. Como devotos de Hobbes, tanto Hegel quanto Keynes concordaram que providenciar ordem era uma “função política do Estado enquanto única... instituição universal legítima”. Para eles, cabe aos funcionários públicos fazer esse trabalho. Que ferramentas eles poderiam empregar? A lei, certamente, mas também as novas ciências sociais, sobretudo a Economia Política. A Economia, como 6 Hegel reconheceu, era “uma das ciências que surgira das condições do mundo moderno”. Ela tinha, por isso, “a tarefa de explicar as relações da massa humana e os movimentos dessa massa em sua complexidade, qualitativa e quantitativamente”. Para Hegel – Mann explica –, “a Economia Política é expressão do modo como o Estado Moderno pensa”.

A afirmação histórica sobre um alinhamento entre Keynes e Hegel não destaca apenas certos paralelismos. A linha que Mann traça de Hegel à Keynes e daí aos keynesianos dos dias atuais, demarca uma fronteira no interior da modernidade liberal. O pensamento político keynesiano, tal como o de Hegel, é impulsionado pela apreensão das profundas tensões existentes no interior da modernidade: eis que esta põe a existir um sistema socioeconômico altamente dinâmico, o qual produz perpetuamente pobrezas e crises, as quais não pode superar, mas que podem ser contidas por meio do ordenamento e do reordenamento político. Mann argumenta que se deveria ler Keynes hoje tal como Marx leu Hegel, isto é, como alguém que estava empenhado em manter a ordem sócio-política existente, mas cujo pensamento penetrou fundo nas articulações dessa ordem. Mas ele dá um passo adiante. Hegel foi “o primeiro a elaborar completamente uma razão keynesiana, ou seja, uma crítica relutantemente radical, mas imanente, do liberalismo, a qual, em última análise, chegou à plenitude… como poderosa realização histórica na Teoria Geral”. Hegel, em outras palavras, era um keynesiano. “Um esforço para colocar Keynes (ou Hegel) em seu próprio ‘lugar’ histórico – o que obviamente excluiria a ideia de que Hegel pudesse ser um keynesiano – seria apenas, para ele, resquício de uma época comandada pelo progresso”. De fato, a similaridade essencial problema político abordado pelos dois sugere que se ater à perspectiva do progresso é ilusório. Nenhum dos dois conseguiu encontrar uma saída para o impasse de um reformismo radical que recusasse a possibilidade de uma verdadeira revolução. É um impasse em que se está preso, de acordo com Mann, desde a reação conservadora contra a Revolução Francesa, no Termidor de 1794.

Uma característica que torna o livro de Mann tão convincente é que ele resiste ao gesto fácil de clamar por uma superação radical desse impasse. A mentalidade ativista, racionalista e combativa do keynesianismo, argumenta ele, “não é algo que a esquerda possa simplesmente renegar segundo a própria vontade no capitalismo liberal do Norte”, mesmo se disso resulta um certo conservadorismo. Quando a sobrevivência do sistema capitalista entra em questão, tal como em 2008, a grande maioria tem muito a perder: ela precisa, então, de bombeiros da crise. Além disso, como a experiência recente mostrou, há boas razões para defender um governo tecnocrático contra as paixões irracionais da democracia de massa. Atualmente, é bem óbvio que é importante ser capaz de identificar, para além da política, as questões com potencial técnico de acordo: seja, por exemplo, o tamanho do multiplicador fiscal, a eficácia da vacinação contra o sarampo ou a ameaça global da mudança climática. Sempre que isto é feito, volta-se ao terreno do keynesianismo. Passa a existir um engajamento não em um choque totalizador de valores – denunciando, assim, as “razões” deles, as “suas” verdades porque são “deles” –, mas um esforço razoável para encontrar os limites apropriados das decisões políticas.

Mann completou o seu livro em 2016. Sem dúvida, ele esperava que os EUA votassem em Hillary Clinton e em uma administração tecnocrática. E essa é a razão pela 7 qual ele se concentra em apresentar uma política verdadeiramente radical do ambiente, a qual poderia ir além da administração do clima keynesiana, a qual inclui apenas o gerenciamento de mudanças climáticas, a precificação de carbono e os subsídios ao uso da energia solar. Dois anos depois, o mundo enfrenta uma realidade diferente, ou seja, uma reafirmação grosseira do nacionalismo. Trump, os partidários do “brexit” e seus companheiros europeus são vistos agora como parte de um ataque geral à competência técnica. É certo que Trump profere um discurso bem abaixo daquele que poderia ser considerado como democrático. Mas até que ponto poder-se-ia considerar tal desvio, que resvala para a palhaçada, aquém da norma tecnocrática? Trump, é possível pensar, representa o triunfo daquela turba que os keynesianos apontam como perigosa. Porém, se se ignora a fealdade de seu comportamento e se se concentra na substância das políticas de sua administração, a situação se afigura como muito mais ambígua. Keynes não era nacionalista, mas, na década de 1930, ele defendeu abertamente o protecionismo. O que se vê hoje é uma divisão significativa dentro do campo keynesiano. A maioria dos economistas defende o status quo contra o ataque “populista”, ao passo que os oponentes da globalização, populistas de esquerda e membros do campo “lexit”, podem invocar o Keynes de 1933: “que as mercadorias sejam feitas domesticamente sempre que isto for possível, conveniente e razoável; acima de tudo, que a finança seja essencialmente nacional”.

O que toda essa confusão revela é que o relato altamente genérico de Mann sobre o “caráter do keynesianismo” que atravessa os tempos não nos permite distinguir as variedades dessa razão tecnocrática. Mas este não é apenas um problema de Mann: Keynes estava ciente da ambiguidade de sua própria posição. Eis o que disse no prefácio da edição alemã da Teoria Geral, publicada em setembro de 1936, exatamente quando Hitler e Goering anunciavam seu Plano Quadrienal: “a teoria da produção como um todo, aquilo que este livro pretende fornecer, é muito mais facilmente adaptável às condições de um estado totalitário, do que vem a ser a teoria da produção e da distribuição de uma dada produção, a qual está sendo gerada sob condições de livre concorrência e em larga medida de laissez-faire”. Keynes não tinha simpatia pelo nazismo. Contudo, ele entendeu claramente que a convergência da macroeconomia keynesiana com a democracia política havia sido um efeito da vitória dos Aliados – e não o resultado intrínseco de uma afinidade intelectual ou política. Os próprios especialistas, para ele, é que tem de escolher o lado que querem ficar.

Caso se procure um exemplo de governo keynesiano hoje, não se deve olhar primeiro para o Ocidente, mas para a China, onde um Partido Comunista que não tolera oposição preside a um regime tecnocrático por excelência. Os gestores econômicos da China não são apenas pragmáticos no modo como favorecem uma política de mercado, pois, o mais profundo que move os formuladores de políticas em Pequim é, no sentido que lhe deu Mann, um ímpeto verdadeiramente keynesiano. O que vigora na China hoje é o compromisso alcançado após Tiananmen: aceitar e apoiar o regime em troca de crescimento e transformação social. Muito tem sido dito sobre o papel de pensadores neoliberais no lançamento da revolução do mercado de Deng, nos anos 1980. Mas quando as coisas ficam difíceis, os chineses atuam mesmo como keynesianos. A resposta de Pequim à crise de 2008 produziu o estímulo mais dramático já visto para a criação de trabalho na história do mundo. Quando, em 2009, o governador do Banco Popular da China propôs um novo sistema monetário, ele invocou explicitamente as propostas de 8 Keynes, em Bretton Woods. A administração feita por Pequim do crescimento da China, que tem sido bem-sucedida, envolve controles de câmbio, condução da taxa de câmbio e regulamentação direta dos empréstimos bancários – isto é, ela busca empregar adequadamente as técnicas de ajuste fino keynesiano dos anos 50. E a atual prioridade pessoal do Presidente Xi é a eliminação do resíduo final da pobreza absoluta por meio de reassentamento e investimento em grande escala.

A justificação final do keynesianismo não tem sido, simplesmente, a preservação do status quo, mas a promessa de progresso. Keynes tornou-se lírico quando tratou das oportunidades econômicas para os nossos netos; as únicas coisas que poderiam impedir de realizá-las seriam as guerras e as crises econômicas. A política radical fez a mesma aposta. Como Mann mostra, a promessa marxista está “baseada na garantia de que, não importa quanto tempo seja necessário, uma luta implacável pelo progresso será eventualmente recompensada. Em outras palavras, quando Marx exortou o proletariado a fazer história, ele o fez postulando – por meio de análise, não de profecia – que havia uma luz no fim do túnel”. Mas se o crescimento é o denominador comum das filosofias políticas que herdamos do século XIX, seriam elas capazes de captar os desafios existenciais que são apresentados agora pelas mudanças climáticas? Enquanto o mundo derrete diante de nossos olhos, o que o gerencialismo keynesiano tem a oferecer aos nossos filhos e netos? Precisamos ainda de uma revolução? Mas então, em que consiste hoje a promessa da revolução? “Quaisquer que sejam as apostas radicais que possamos escolher” – escreve Mann – “subsiste a possibilidade muito real de que elas sejam feitas em vão. Não há vitória certa, mesmo no longo prazo e em última instância – ou, se ela existe, afigura-se atualmente inimaginável. Não importa quão longo e difícil seja o caminho, tudo pode acabar ainda em desastre”.

A leitura se torna, então, sombria. Mas ao se expandir o horizonte para além do modelo exaurido do keynesianismo ocidental – é assim que Mann claramente o considera –, talvez não seja ela ainda suficientemente sombria. Diante dos desafios ambientais fundamentais, se o keynesianismo está agora atingindo mesmo os seus limites, terminará ele com um gemido ou com um estrondo? Pequim enfrenta agora os dilemas keynesianos clássicos, os quais elevou já a novos extremos. O “sonho chinês” de Xi é a promessa keynesiana mais espetacular já feita. É palpável um medo subjacente da inquietação popular, a escala da repressão é espantosa, assim como, também, é a aposta no crescimento. Não há contrapartida na experiência ocidental de uma transformação tão grande nos destinos de uma população de mais de um bilhão de pessoas, em trinta anos. Mas, como qualquer outro exemplo de rápido crescimento capitalista, o boom da China está repleto de perigos. As finanças do país são altamente instáveis. O boom gerou profunda desigualdade doméstica, ao mesmo tempo em que produziu inveja no exterior, especialmente por parte dos Estados Unidos. Este último país, por outro lado, mantém-se por meio de uma hegemonia decadente, uma política externa errática e um histórico de agressões externas. Adicione-se, agora, que poucos lugares na terra experimentam os custos ambientais de crescimento mais agudamente do que na China. Grande parte do país corre o risco de se tornar simplesmente inabitável. A promessa de crescimento é real e ela está mudando a vida das pessoas de forma nunca antes vista. Mas também está chamando a possibilidade de uma catástrofe jamais observada. Os keynesianos insistem para que 9 se resista à calma suave do futuro para que se enfoque o tumulto do presente. Mas num planeta em rápido aquecimento, as perspectivas estão mais calmas hoje do que estarão amanhã. Apenas daqui a algumas décadas, uma grande parte da humanidade pode se considerar sortuda se apenas a longo prazo é que todos estarão mortos.

Sobre o autor

Adam Tooze’s Crashed, a history of the global financial crisis, is out in paperback.

14 de setembro de 2018

Responsabilidade fiscal precisa agora de um novo sentido

Experiências neoliberais têm sido marcadas pela promoção da desordem nas contas públicas e do agravamento da questão social

Marcio Pochmann

Folha de S.Paulo

Michel Temer durante inauguração da primeira etapa do Projeto Sirius, o novo acelerador de partículas de Campinas. Bruno Santos/Folhapress.

A desordem nas contas públicas deixada pelo governo Michel Temer exige um novo sentido para a responsabilidade fiscal, capaz de enfrentar, simultaneamente, a desigualdade na repartição da renda no Brasil.

Isso porque as experiências neoliberais de ajuste fiscal têm sido marcadas pela promoção tanto da desordem nas contas públicas como do agravamento da questão social.

No governo FHC (1995-2002), a dívida líquida do setor público (DLSP) saltou de 29,5% para 60,4% do PIB (Produto Interno Bruto), apesar da maior carga tributária (de 28,6% para 32,0% do PIB) e da significativa receita da privatização das estatais (US$ 93,4 bilhões).

Além disso, a situação social piorou inegavelmente, com a ampliação do desemprego (de 8,4% para 11,7% da força de trabalho), a prevalência da elevada pobreza (estacionada em 33,2% da população) e da desigualdade na repartição da renda (estável em 0,6 do índice de Gini) em uma economia guiada por "voo de galinha".

O mesmo se verifica em relação ao governo Temer, cuja retórica do ajuste fiscal transcorre concomitante ao desordenamento das contas públicas, cujo desmonte das políticas estatais revela crescente regressão social e econômica do país.

Mesmo com a volta de privatização e congelamento do gasto público não financeiro, por causa da exótica implementação da Emenda Constitucional 95, a DLSP/PIB subiu de 39,4% (maio/2016) para 52% (julho/2018).

Em relação ao quadro econômico, nem mais a fase do "voo de galinha" consegue ser reproduzida frente à armadilha recessiva que aprisiona o país por medíocre o receituário neoliberal.

Também em relação à situação social, os indicadores disponíveis a respeito do desemprego (de 11,2% em maio/2016 para 12,4% em junho/2018), pobreza (de 10,5% da população em 2015 para 11,2% em 2017), desigualdade de renda (0,56 em 2015 para 0,59 do Gini em 2017), entre outros como na educação e saúde, apontam para inegável retrocesso na sociedade.

Por isso que o país precisa de novo sentido para a responsabilidade fiscal.

Nos governos liderados pelo PT, as finanças públicas estiveram sob o controle, com queda na DLSP/PIB de 60,4%, em dezembro de 2002, para 39,4%, em maio de 2016, e sem elevação da carga tributária bruta (estável em 32% do PIB) e da receita de privatização.

Além disso, a melhora nos indicadores econômicos e sociais foi inquestionável, com queda na taxa de desemprego, pobreza e desigualdade de renda, entre outros.

A inédita inclusão dos segmentos na base da pirâmide se verificou, contudo, sem a reversão da enorme regressividade no sistema tributário. Para o próximo governo, a defesa da responsabilidade fiscal deve estar associada ao enfrentamento da desigualdade de renda, com redução dos tributos nos segmentos de menor renda (isenção do IRPF até 5 salários mínimos) e elevação aos super-ricos.

Com o imposto sobre grandes fortunas (progressividade na taxação de patrimônios acima de R$ 1 milhão) a atingir menos de 5% da população, a reformulação do Imposto sobre Heranças e Doações (ITCMD) e a taxação de dividendos, o potencial arrecadatório aproxima-se de 1,5% do PIB, permitindo colocar as finanças públicas novamente em ordem com justiça social.

Sobre o autor

Marcio Poshman é professor de economia da Unicamp e presidente da Fundação da Perseu Abramo (licenciado).

13 de setembro de 2018

Um novo eixo autoritário requer uma frente progressista internacional

Bernie Sanders

The Guardian

Illustração: Joan Wong

Estamos presenciando uma luta global que trará consequências importantíssimas. Está em jogo nada menos que o futuro do planeta, a nível econômico, social e meio ambiental.

Em um momento de enorme desigualdade de riqueza e de renda, em que o 1% mais rico da população possui mais riqueza que os demais 99% juntos, estamos sendo testemunhas da ascensão de um novo eixo autoritário.

Embora esses regimes mostrem algumas diferenças entre si, também compartilham certas semelhanças: são hostis às normas democráticas, enfrentam a imprensa independente, são intolerantes com as minorias étnicas e religiosas, e acreditam que os governos deveriam beneficiar seus próprios interesses econômicos. Esses líderes também estão profundamente conectados a uma rede de oligarcas multimilionários que pensam que o mundo é o seu brinquedo econômico.

Os que acreditamos na democracia, os que acreditamos que um governo deve prestar contas ao seu povo, temos que compreender a magnitude deste desafio, para poder enfrentá-lo de verdade.

A esta altura, deve estar bem claro para todos que Donald Trump e o movimento de direita que o apoia não é um fenômeno restrito apenas aos Estados Unidos. Em todo o mundo, na Europa, na Rússia, no Oriente Médio, na Ásia e em outros lugares estamos vendo movimentos liderados por demagogos que exploram os medos, os preconceito e a indignação das pessoas para chegar ao poder e se aferrar a ele.

É claro que esta tendência não começou com Trump, mas não há dúvida de que os líderes do mundo se inspiraram no fato de que o presidente da democracia mais antiga e mais poderosa parece adorar destruir as normas democráticas.

Há três anos, quem imaginaria que os Estados Unidos seriam neutros diante de um conflito entre o Canadá, vizinho democrático e seu segundo maior sócio comercial, e a Arábia Saudita, uma monarquia e estado clientelista, que trata suas mulheres como cidadãs de terceira classe? Também é difícil de imaginar que o governo de Netanyahu, em Israel, aprovaria a recente “lei do Estado-Nação” – que basicamente denomina como cidadãos de segunda classe a todos os residentes de Israel não judeus – com o respaldo de Donald Trump.

Tudo isso não é exatamente um segredo. Enquanto os Estados Unidos se afastam cada vez mais de seus tradicionais aliados democráticos, o embaixador estadunidense na Alemanha expressa o claro apoio do governo de Trump aos partidos de extrema direita da Europa.

Além da hostilidade de Trump para com as instituições democráticas, temos um presidente multimilionário que, de uma forma sem precedentes, integra às políticas de governo os seus próprios interesses econômicos e os de seus sócios, de forma descarada.

Outros estados autoritários estão muito mais adiantados neste processo cleptocrático. Na Rússia, é impossível saber onde acabam as decisões de governo e onde começam os interesses de Vladimir Putin e seu círculo de oligarcas. Eles operam como uma unidade. De igual forma, na Arábia Saudita sequer existe um debate sobre a separação de interesses, porque os recursos naturais do país, valorizados em quadrilhões de dólares, pertencem à família real saudita. Na Hungria, o líder autoritário de extrema direita, Viktor Orbán, é um aliado declarado de Putin. Na China, o pequeno círculo liderado por Xi Jinping acumula cada vez mais poder, com uma política interna que ataca as liberdades civis e, por outro lado, impulsa uma política exterior que promove uma versão autoritária do capitalismo.

Devemos compreender que estes líderes autoritários são parte de uma frente comum. Estão em contato entre si, trocam informações, estratégias e, em alguns casos de movimentos de direita europeus e estadunidenses, possuem os mesmos investidores e apoiadores. Por exemplo, a família Mercer, que financia a tristemente famosa Cambridge Analytica, apoia Trump e o Breitbart News (site de notícias de extrema direita), que opera na Europa, nos Estados Unidos e em Israel, para defender a mesma agenda anti imigrantes e anti muçulmanos. O mega doador republicano Sheldon Adelson financia generosamente as causas da direita tanto nos Estados Unidos como em Israel, promovendo um discurso de intolerância e conservadorismo em ambos os países.

Por tudo isso, se queremos nos opor de forma efetiva ao autoritarismo da direita, não podemos simplesmente voltar ao fracassado status quo das últimas décadas. Hoje, nos Estados Unidos e em muitos outros países do mundo, as pessoas trabalham cada vez mais horas por salários estagnados, e estão preocupadas se seus filhos terão uma qualidade de vida pior que a deles.

Nosso dever é lutar por um futuro no qual as novas tecnologias e a inovação trabalhem para beneficiar todo o mundo, não só alguns poucos. Não é aceitável que o 1% mais rico da população mundial possua a metade das riquezas do planeta, enquanto 70% dessa população em idade de trabalho tenha apenas 2,7% da riqueza global.

Os governos do mundo devem se unir para acabar com a hegemonia dos super ricos e das corporações multinacionais, que acumulam quase 18 trilhões de euros em contas escondidas nos paraísos fiscais do mundo, para evitar pagar impostos justos, e depois exigem dos seus respectivos governos que imponham uma agenda de austeridade às famílias trabalhadoras.

Não é aceitável que a indústria dos combustíveis fósseis siga tendo enormes lucros enquanto as emissões de carvão destroem o planeta em que viverão nossos filhos e netos.

Não é aceitável que um punhado de gigantescas corporações de meios de comunicação multinacionais, que são propriedade de pequenos grupos de multimilionários, controle uma enorme grande parte do fluxo de informações do planeta.

Não é aceitável que as políticas comerciais que beneficiam as multinacionais e prejudicam a classe trabalhadora de todo o mundo sejam escritas em segredo. Não é aceitável que, já estando tão longe da Guerra Fria, os países do mundo gastem mais de um trilhão de euros por ano em armas de destruição massiva, enquanto milhões de crianças morrem por doenças facilmente tratáveis.

Para poder lutar de forma efetiva contra a ascensão deste eixo autoritário internacional, precisamos de um movimento progressista internacional, que se mobilize dentro de uma visão de prosperidade compartilhada, de segurança e dignidade para todos, que combata a grande desigualdade no mundo, não somente econômica como de poder político.

Este movimento deve estar disposto a pensar de forma criativa e audaz sobre o mundo que queremos alcançar. Enquanto o eixo autoritário está derrubando a ordem global posterior à Segunda Guerra Mundial, já que a considera uma limitação ao seu acesso ao poder e à riqueza, não é suficiente que nós simplesmente defendamos esse paradigma ainda existente atualmente.

Devemos examinar honestamente como essa ordem fracassou em cumprir muitas de suas promessas e como os autoritários exploraram habilmente esses fracassos para construir mais apoio para seus interesses. Devemos aproveitar a oportunidade para reconceitualizar uma ordem realmente progressista, baseada na solidariedade. Uma ordem que reconheça que cada pessoa do planeta é parte da humanidade, que todos queremos que nossos filhos cresçam saudáveis, que tenham educação, um trabalho decente, que bebam água limpa, que respirem ar limpo e vivam em paz.

Nosso dever é aproximar essas pessoas em cada lugar do mundo, e compartilhar esses valores, para conseguir cada vez mais aliados na luta por um mundo melhor.

Em uma era cheia de riqueza e tecnologia, nós temos o potencial de gerar uma vida decente para todos. Nosso dever é construir uma humanidade comum e fazer tudo o que possamos para enfrentar essas forças (sejam elas dos governos ou das corporações) que tentam nos dividir e nos colocar uns contra os outros. Sabemos que essas forças trabalham unidas, sem fronteiras. Nós devemos fazer o mesmo.

11 de setembro de 2018

Os americanos querem acreditar que os empregos são a solução para a pobreza. Eles não são.

O desemprego nos EUA está em baixa e os empregos não são preenchidos. Mas para pessoas sem muita educação, a verdadeira questão é: esses empregos pagam o suficiente para sobreviver?

Matthew Desmond

The New York Times Magazine

Devin Yalkin para o New York Times

Tradução / Vanessa Solivan e seus três filhos abandonaram sua última residência em junho de 2015, depois que um rapaz foi alvejado e morto na esquina. Eles encontraram um teto sob o qual podem dormir na casa dos pais de Vanessa, na Avenida North Clinton, em East Trenton [Nova Jersey, EUA]. Não era um bairro mais seguro mas pelo menos era um lugar conhecido. Vanessa juntou tudo o que podia colocar em seu carro, um Chrysler Pacifica 2004, e deixou pra trás as camas infestadas por ácaros.

Na casa onde passou a infância, Vanessa passou a cuidar do pai adoentado. Ele foi um viciado em crack funcional durante a maior parte da vida, trabalhando como paisagista durante a primavera-verão e vivendo de seguro-desemprego quando os negócios entravam em baixa. “Era algo que você se acostumava a ver”, disse Vanessa sobre a drogadicção do pai. “Meu pai era um junkie, mas nunca nos abandonou.” Aos 33 anos, Vanessa tem o hábito de prender seu cabelo preto num coque e um par de óculos com cordinha que está sempre escorregando pelo nariz. Quando sente-se orgulhosa de si mesma, deixa escapar um sorriso tímido.

O pai de Vanessa faleceu um ano depois da mudança. A família montou um pequeno altar em sua memória na sala da casa: uma grande foto esmaecida de uma versão mais jovem dele, cercada por flores de papel e balões meio murchos. Tal como o marido, a mãe de Vanessa, Zaida, tem 62 anos e veio do Porto Rico. Ela usa um andador para se locomover. A morte do marido reduziu suas rendas e a própria Vanessa vivia quebrada. Com a saúde piorando, Zaida não podia cuidar direito dos filhos de Vanessa — Taliya, de 17 anos; Shamal, 14 e Tatiyana, 12. Quando as coisas ficavam agitadas demais ou as crianças davam trabalho demais, ela pedia que Vanessa levasse os filhos para outro lugar.

Se Vanessa tivesse dinheiro ou o apoio de uma ONG local, ela reservava um quarto de motel [N. do T.: motel, nos EUA, é geralmente um hotel barato de beira de estrada e não um ponto de encontros sexuais]. Ela gostava do Red Roof Inn, que considerava “mais civilizado” do que muitos outros motéis onde havia estado. A aparência era a de um motel rodoviário qualquer: dois andares com portas que se abrem para fora. Na última vez que a família ficou ali, as crianças levavam seu dever de casa até o quarto no andar de cima enquanto Vanessa as seguia com algumas sacolas com itens tirados da despensa. No caminho, dois homens bebendo cerveja pediam desculpas pela música alta.

Dentro do quarto Vanessa colocava sua insulina no frigobar enquanto as crianças escolhiam suas camas — que seriam divididas dois a dois. Depois, ela se largava numa pequena cadeira e dizia: “Ocêis não sabem como mamãe tá cansada”. Depois de um momento de silêncio, Vanessa se esticava e massageava as coistas de Shamal, dizendo que gostaria “que tivéssemos um lugar decente como esse.” Só então ela percebeu que uma barata zanzava pela parede de gesso. “Opa! Nem tão decente”, disse Vanessa. Com um peteleco, mandou o bicho voando na direção de Taliya, que soltou um gritinho e se remexeu. O quarto explodiu em risadas.

Quando Vanessa não podia bancar um motel, a família passava a noite no Chrysler. A traseira da perua guardava o essencial: travesseiros e lençóis, pentes e escovas de dentes, mudas de roupas, jaquetas e alimentos não-perecíveis. Também ficavam ali fotos amassadas das crianças. Uma mostrava Taliya na formatura da 8ª. série, com um vestido cor de creme e flores nas mãos. Outra registrava as três crianças numa quinceañera — Shamal na frente, ajoelhado, com uma gravata azul com elástico emoldurando sua carinha de criança e Tatiyana atrás com um sorrisão e covinhas à mostra.

Para que as crianças não fugissem por raiva ou vergonha, Vanessa aprendeu a estacionar ao lado da Route 1, em áreas tão vazias e abandonadas que ninguém ousaria abrir a porta antes do amanhecer. De manhã, Vanessa dirigia até a casa da mãe, onde as crianças se aprontavam para a escola e ela se arrumava para o trabalho.

Em Maio, Vanessa finalmente conseguiu uma vaga num programa de moradia popular. Mas durante quase três anos ela fez parte dos “trabalhadores sem-teto”, uma expressão indispensável na atual sociedade de baixos salários e altos aluguéis. Ela é uma assistente de saúde doméstica, o mesmo trabalho que sua mãe fazia antes de seus joelhos e costas ficarem fracos demais. Seu uniforme de trabalho é um jaleco com a Betty Boop, um par de tênis e um crachá da Bayada Home Healthcare pendurado num cordão vermelho.

Vanessa trabalha em horário fixo e gosta do que faz, mesmo das coisas difíceis como dar banho nos enfermos ou levantar alguém da cama. “Eu posso ajudar as pessoas”, diz, “e ficar cercada de gente mais velha e aprender muita coisa com eles.” Seu pagamento varia: 10 dólares por hora para um cliente, 14 para outro [N. do T.: nos EUA, é comum o pagamento de salário com base na carga horária em vez de um valor fixo; o salário-mínimo federal atualmente vale US$ 7,25 a hora]. Essa variação não tem nada a ver com a natureza do trabalho — “Às vezes os mais difíceis são os que pagam menos”, confessou Vanessa — mas com as taxas de reembolso, que são diferentes de acordo com o plano de saúde de cada cliente. Após se desdobrar para cuidar das crianças e controlar seu diabetes, Vanessa é capaz de trabalhar de 20 a 30 horas semanais, que lhe rende cerca de US$ 1 200 por mês — e isso quando as coisas vão bem.


Hoje em dia, ouvimos que a economia americana está forte. Desemprego em baixa, índice industrial da [bolsa de valores eletrônica] Dow Jones acima dos 25 000 [pontos] e milhões de vagas não-preenchidas. Mas para pessoas como Vanessa a pergunta não é “Posso arranjar um emprego?” (a resposta, quase certamente, é “sim”). Em vez disso, a pergunta é “Que tipo de trabalho está disponível para pessoas de educação escassa?” A resposta geralmente é “trabalhos que não pagam o bastante para viver.”

Nas últimas décadas, o tremendo crescimento econômico [dos EUA] não se refletiu numa elevação social coletiva. Os economistas chamam isso de “discrepância da produtividade e pagamento” — o fato de que, nos últimos 40 anos, a economia se expandiu e os lucros corporativos cresceram mas os salários reais permaneceram estagnados para pessoas sem educação superior. Desde 1973, a produtividade americana cresceu 77%, enquanto o pagamento por hora subiu apenas 12%. Se o salário-mínimo acompanhasse a produtividade, seria de mais de 20 dólares/hora e não o valor miserável de hoje, US$ 7,25.

Os trabalhadores americanos estão sendo excluídos dos lucros que eles ajudam a gerar. O declínio dos sindicatos é o principal motivo. Durante o século XX, a desigualdade diminuiu quado o sindicalismo cresceu, mas as transformações econômicas e os ataques políticos minaram as organizações trabalhistas, fortalecendo interesses corporativos e enfraquecendo os operários. Essa economia desequilibrada explica porque a taxa de pobreza nos EUA permaneceu constante nas últimas décadas mesmo que o investimento em programas sociais tenha aumentado. Não é que os programas de seguridade social não ajudem: ao contrário, eles tiram milhões de famílias da pobreza todo ano. Mas uma das soluções mais eficazes para a pobreza é um trabalho com salário decente, o que se tornou raro para pessoas como Vanessa. Hoje, 41,7 milhões de trabalhadores — quase um terço da força de trabalho norte-americana — ganha menos de 12 dólares/hora e quase nenhum de seus empregadores oferece seguro-saúde.

O Departamento de Estatísticas do Trabalho define “trabalhador pobre” como a pessoa abaixo da linha de pobreza que passou pelo menos um semestre trabalhado ou procurando emprego. Em 2016, cerca de 7,6 milhões de americanos se encaixavam nessa categoria. A maioria dos trabalhadores pobres tem mais de 35 anos, sendo que menos de 5% tem entre 16 e 19. Em outras palavras, o trabalhador pobre não é o adolescente que empacota as compras num supermercado ou vende casquinhas de sorvete. Eles são adultos — e geralmente pais de família — que limpam banheiros de hoteis, anotam pedidos e servem pratos em restaurantes, desossam frangos em frigoríficos, cuidam de crianças em creches 24 horas, colhem frutas, esvaziam lixeiras, repõem os produtos nas prateleiras de supermercados durante a madrugada, dirigem táxis e Ubers, tiram dúvidas em serviços de atendimento ao consumidor, aplicam asfalto fervente em rodovias, dão aulas em faculdades comunitárias como professores-assistentes e, também, empacotam compras e vendem sorvetes.

Os Estados Unidos se orgulham de ser o país da mobilidade econômica, um lugar onde seu status na vida só é limitado pela sua ambição e força de vontade. Mas as mudanças no mercado de trabalho diminuíram ainda mais as magras chances de passar da lavanderia no subsolo à suíte na cobertura. Para começar, o mercado de trabalho se dividiu, com uma diferença cada vez maior entre empregos bons e ruins. Trabalhar mais duro e por mais tempo não vai se traduzir em uma promoção se o empregador cortar os degraus da escada e oferecer posições de supervisão apenas para pessoas com diploma universitário. Como grandes empresas agora terceirizam muitos cargos para outras companhias, o pessoal que varre o chão na Microsoft ou lava os lençóis no [hotel] Sheraton normalmente não são empregados da Microsoft ou do Sheraton, o que impede qualquer esperança de avançar dentro da empresa.

Além disso, trabalhar mais e com mais esforço não é nem uma opção disponível para aqueles que estão à mercê de um cronograma imprevisível. Quase 40% dos trabalhadores em tempo integral pagos por hora só são informados de suas escalas de trabalho com uma semana ou menos de antecedência. E se você der tudo por um trabalho que pode conseguir com um diploma do Ensino Médio (ou menos), essa vaga pode não existir por muito tempo — metade das novas vagas abertas são eliminadas dentro de um ano. De acordo com o sociólogo do trabalho Arne Kalleberg, as demissões permanentes se tornaram “um componente básico da estratégia de reestruturação dos empregadores.”

Um exemplo desse tipo de trabalho novo e com baixo salário é o serviço de saúde doméstico. A demanda por cuidados de saúde em casa aumentou com o envelhecimento da população, mas segundo os dados mais recentes do Departamento de Estatísticas do Trabalho, a renda média anual para assistentes de saúde domésticos nos EUA em 2017 era de apenas US$ 23 130. Metade desses trabalhadores depende de recursos públicos para fechar as contas.

Vanessa criou afinidade com alguns de seus clientes, confessando que estava sem-teto. Um disse que gostaria de poder fazer algo por ela. Ao falar sobre sua situação com o supervisor, ele perguntou se ela precisava de folga, o que ela negou veementemente. Ela precisava é de dinheiro e passou a cobrir folgas e turnos extras. O supervisor estava preparado, pois já havia passado por aquilo. Ele abriu a gaveta e entregou a Vanessa um vale-combustível de 50 dólares e um vale-refeição de 100 dólares. Vanessa ficou grata pela ajuda e considerava Bayada um empregador simpático e generoso. No entanto, seu salário não melhorou nos três anos em que ela trabalhou lá. No total, Vanessa recebeu US$ 9 915,75 em 2015, US$ 12 763,94 em 2016 e US$ 10 446,81 no ano passado.

Para cobrir suas necessidades básicas, o governo federal estima que a família de Vanessa precisaria receber US$ 29 420 por ano. Vanessa não está nem perto disso — e ela ainda é uma sortuda entre os pobres. Atualmente, o sistema de seguridade social do país favorece mais o empregador, com benefícios como um crédito tributário de renda, uma isenção que se aplica apenas a pessoas que trabalham. No ano passado, Vanessa teve uma restituição de cerca de 5 mil dólares, o que inclui esse crédito tributário e isenções por ter filhos. Eles ajudaram a complementar sua renda, mas não a tiraram da linha de pobreza. Se os trabalhadores pobres estão se dando melhor do que os pobres que não trabalham não é tanto pelo trabalho em si, mas pelo fato de seu status como empregado lhes dá acesso aos programas governamentais de que tanto precisam. Isso causou uma crescente desigualdade abaixo da linha de pobreza, com o trabalhador pobre recebendo muito mais auxílio social do que o pobre que não trabalha ou está precariamente empregado, que mergulha num estado de destituição.

Quando a vida fica especialmente difícil, Vanessa costuma telefonar para Sheri Sprouse, sua melhor amiga desde os tempos da escola. “Ela é como eu, ela também é forte”, conta Vanessa. Sheri tem sido uma reserva de apoio emocional e incentivo, constantemente encorajando a amiga a ser paciente e grata pelo que tem. Mas a própria Sheri também precisa se virar para criar duas filhas com uma pensão fixa por invalidez. Como a moradia de Sheri é subsidiada federalmente, tem limites rígidos. “De acordo com a Seção 8 [do contrato], você não pode ter outras pessoas morando em sua casa”, explica Vanessa. Assim, quando Vanessa estava sem-teto, Sheri não podia lhe oferecer nada além de amor.

No ano passado, Vanessa recebeu alguma ajuda quando a filha mais nova, Tatiyana, foi aprovada para receber um Suplemento de Renda por apresentar dificuldades de aprendizagem. Vanessa começou a receber um cheque mensal de 766 dólares. Mas quando o Comitê de Serviço Social do Condado de Mercer soube desse adicional, Vanessa foi informada por carta que seu Supplemental Nutrition Assistance Program [Programa de Assistência à Nutrição Suplementar ou SNAP, espécie de bolsa-alimentação dos EUA] seria cortado de 544 dólares para 234. A alimentação era uma luta constante e a novidade não ajudou. Um estudo de 2013, feito pela Oxfam America, descobriu que 2/3 dos trabalhadores pobres preocupam-se com sua capacidade de pagar por comida suficiente. Quando Vanessa fica num hotel, suas opções de alimentação limitavam-se ao que ela podia aquecer num micro-ondas. Quando dormia no carro, a família tinha que optar por serviços de drive-through, que tendem a ser mais caros. Às vezes, Vanessa parava num bar e pedia quatro pratos de frango com arroz por 15 dólares. Outras vezes, as crianças iam à escola famintas. “Eu simplesmente não tinha nada”, disse-me ela numa manhã. Para o jantar, ela planejava passar num armazém, esperando que ainda tivessem o X-burguer que Shamal adora.


“Nos Estados Unidos, se você se trabalhar duro, será bem-sucedido. Portanto, os que não são bem-sucedidos não trabalharam duro”. Essa ideia está cravada na medula do país. William Byrd, latifundiário da Virginia no século XVIII, escreveu que os homens pobres seriam “intoleravelmente acomodados” e “preguiçosos em tudo menos em fazer filhos.” Thomas Jefferson defendia o confinamento de vagabundos que “desperdiçam seu tempo em ócio e caminhos dissolutos”. No século XX, Barry Goldwater dizia que os americanos com menos educação apresentavam “menor inteligência ou menor ambição” e Ronald Reagan reclamava das “welfare queens [rainhas do bem-estar social]”. “É preciso olhar alguém nos olhos e dizer-lhe que ele é irresponsável e preguiçoso”, disse Bill O’Reilly a respeito dos pobres em 2004. “Porque é isso que é a pobreza, senhoras e senhores.”

Os americanos costumam supor que os pobres não trabalham. Segundo uma pesquisa conduzida em 2016 pelo American Enterprise Institute, quase dois em cada três respondentes não pensava que os mais pobres mantêm um emprego. Na realidade, naquele ano, a maioria dos adultos em idade de trabalhar estava na população economicamente ativa. Cerca de 1/3 dos participantes dessa pesquisa acreditava que os beneficiários preferiam continuar a receber seus benefícios em vez de ganhar a vida com seu trabalho. Esse tipo de suposição sobre os pobres é um fenômeno americano [N. do T.: nem tanto, já que existe um preconceito parecido no Brasil em relação a quem recebe o Bolsa-Família]. Um estudo feito em 2013 pelo sociólogo Ofer Sharone descobriu que os trabalhadores desempregados nos EUA culpam a si mesmos enquanto os desempregados em Israel culpam o sistema de contratação. Quando os americanos veem um sem-teto enrolado num cobertor, eles se perguntam como ele falhou. Quando um francês vê um homem na mesma situação, se pergunta como ele foi abandonado pelo Estado.

Se você acredita que as pessoas são pobres porque não trabalham, então a solução não é fazer com que o trabalho tenha bons salários mas que os pobres trabalhem — forçando-os a aceitar qualquer coisa que aparecer, em qualquer lugar, cumprindo o máximo de horas possível. Mas lembre-se da Vanessa, cuja história é exemplo de um problema muito maior: o fato de que milhões de americanos trabalham com poucas esperanças de encontrar uma vida segura e confortável. Nas últimas décadas, os EUA viram a ascensão de trabalhos ruins, que oferecem baixos salários, nenhum benefício e pouca certeza. Quando se trata de pobreza, o problema não é a disposição para trabalhar e sim que o próprio trabalho já não é mais a única solução.

Até o fim do século XVIII, a pobreza era vista no Ocidente não apenas como algo durável mas desejável para o crescimento econômico. O mercantilismo, a teoria econômica predominante nessa alvorada do período moderno, pregava que a fome incentivava as pessoas a trabalhar e mantinha os salários em baixa. Quem dependia da caridade do público era preso e obrigado a trabalhar para se alimentar. Em tempos mais recentes, políticos e seus eleitores continuam exigindo sangue e suor dos mais pobres. Nos anos 1980, os conservadores queriam impor vínculo empregatício como exigência para os food stamps [espécie de vale-refeição público]. Nos anos 1990, eles queriam a mesma exigência para programas de moradia popular subsidiadas. Ambas as propostas não passaram, mas o impulso continuou vivo.

Os advogados das exigência de emprego marcaram um golaço com a reforma do sistema social em meados dos anos 1990. Proposta pelos deputados republicanos, liderados pelo [então] Presidente da Câmara, Newt Gingrich, e sancionada pelo presidente Bill Clinton, a lei de reforma do sistema social fixou exigências de emprego e limitações de tempo para a assistência em dinheiro. O número de benefícios caiu de 12,3 milhões (1996) para 4,6 milhões (2011).

Mas o modelo “do auxílio-para-o-trabalho” realmente funcionou? Houve algum grande sucesso na redução da pobreza e disseminação da prosperidade? Dificilmente, como demonstram Kathryn Edin e Laura Lein no livro Making Ends Meet [Apertando os Cintos]: empurradas para um mercado de trabalho com baixos salários, as mães solteiras ganhavam mais do que com os programas sociais. Ao mesmo tempo, também ganharam novas despesas, como transportes e creches, o que anulou seus ganhos modestos. Mais preocupante é o fato de que, sem garantia de assistência em espécie para os mais necessitados, a pobreza extrema nos EUA explodiu. O número de americanos que vivem com apenas 2 dólares ou menos por dia mais que dobrou desde a reforma do sistema social. Cerca de 3 milhões de crianças — mais do que a população de Chicago — agora sofrem sob essas condições. A maioria delas vive com um adulto que teve trabalho durante alguma parte do ano.

A prioridade número 1 do governo Trump é expandir a exigência de emprego para alguns dos principais programas de seguridade social. Em janeiro, o governo federal anunciou que permitiria aos Estados exigir que os beneficiários do Medicaid trabalhem [o Medicaid é o seguro-saúde público obrigatório para os mais pobres]. Dezenas de Estados já pediram autorização federal para aplicar exigências de trabalho em seus programas Medicaid. Quatro foram aprovados. Em junho, o Arkansas tornou-se o primeiro Estado a implementar as exigências recém-aprovadas. Se todos os Estados aplicassem exigências similares às do Arkansas, até 4 milhões de americanos perderiam sua cobertura de saúde.

Em abril, o presidente Trump assinou um decreto mandando que as agências federais façam uma revisão dos programas sociais, do SNAP aos subsídios à moradia, propondo novos padrões. Embora o SNAP já tenha exigência de trabalho, em junho a Câmara dos Deputados passou um projeto que negaria o SNAP a adultos em plenas condições físicas por um ano se eles não trabalhassem nem fizessem atividades relacionadas ao trabalho (como treinamentos) durante pelo menos 20 horas por semana por um mês. Quem receber uma negação pela segunda vez seria barrado do programa por três anos. No Senado, um esforço bipartidário removeu essas regras e penalidades rígidas, criando um desentendimento com a Câmara, cuja versão havia sido endossada por Trump. O Comitê Orçamentário do Congresso estima que essas exigências de emprego negariam a 1,2 milhão de pessoas um benefício que elas usam para se alimentar.

Exigências de emprego atreladas a outros programas criaram pressões semelhantes. No Kentucky, a proposta de exigência só seria cumprida após 80 horas mensais de trabalho ou atividade similar de treinamento. Num mercado de trabalho com baixos salários e caracterizado pelas jornadas flutuantes, empregos precarizados e trabalhos de meio-período involuntário, boa parcela dos trabalhadores vulneráveis jamais cumpriria as exigências. Dados nacionais colhidos pela Survey of Income and Program Participation mostram que quase 50% dos trabalhadores qualificados para o Medicaid cumpriam menos de 80 horas em pelo menos um mês do ano.

Em julho, o Conselho Econômico da Casa Branca lançou um relatório apoiando entusiasticamente as exigências de trabalho para os principais programas sociais do país. O conselho favorecia “incentivos negativos”, ligando a ajuda ao esforço do mercado de trabalho, e desprezava “incentivos positivos”, como isenções tributárias para trabalhadores de baixa renda, porque aquele seria mais barato. O conselho também afirmou que as políticas de bem-estar social dos EUA levaram a um “declínio em auto-suficiência.”

Será que isso é verdade? Pesquisadores começaram a estudar a dependência de programas sociais nos anos 1980 e 1990, quando esse assunto dominava o debate público. Eles não encontraram muita evidência disso. A maioria das pessoas começava a usar o auxílio em dinheiro após um divórcio ou separação e não ficavam muito tempo pendurados, mesmo que voltassem ao programa periodicamente. Um estudo descobriu que 90% das mulheres jovens beneficiadas pararam de depender do programa após um ou dois anos, ainda que muitas retornassem ao auxílio em algum momento posterior. Mesmo em seu auge, os programas de bem-estar social nunca funcionaram como uma armadilha de dependência para a maioria dos beneficiários. Ao contrário, era algo a que eles recorriam entre um emprego e outro ou após uma crise familiar. Um estudo de revisão publicado na Science em 1988 concluiu que “o sistema de bem-estar social não cria uma relação de dependência, mas age principalmente como um seguro contra um infortúnio temporário.”

Hoje como ontem, o adulto fisicamente capaz, pobre e ocioso continua sendo uma criatura rara. Em 2016, segundo o Brookings Institution, 1/3 dos que viviam na pobreza eram crianças, 11% eram idosos e 24% eram adultos na idade de trabalhar (dos 18 aos 64) e na força de trabalho, trabalhando ou procurando emprego. A maioria das pessoas pobres na faixa etária economicamente ativa estava ligada ao mercado como trabalhadores temporários. Muitos não podiam cumprir muitas horas ou por causa de cuidados com a família, como no caso de Vanessa, ou porque seus empregadores não lhes ofereciam essa opção, tornando-os trabalhadores de meio-período involuntários. Entre os adultos economicamente ativos restantes, 12% estavam fora do mercado por causa de uma deficiência (inclusive alguns inscritos em programas federais que limitam o trabalho), 15% eram estudantes ou trabalhadores domésticos e 3% haviam sido aposentados precocemente. Com isso, sobram apenas 2% de pessoas pobres que não se encaixam em nenhuma dessas categorias. Isso significa que, entre os pobres, 2 em cada 100 adultos em idade de trabalhar estão desconectados do mercado de trabalho por razões desconhecidas. O pobre que não trabalha e ganha algo a troco de nada é parecido com eleitor envolvido em fraude: um pária que assombra a imaginação americana com uma imagem muito maior do que tem na vida real.


Quando Vanessa não estava trabalhando para a Bayada, estava correndo atrás dos filhos. O que mais a preocupava era Shamal. Com mais de 1,80 m de altura, seu tamanho fazia dele tanto uma ferramenta quanto um alvo na vizinhança. Os moleques menores queriam fazer dele um guarda-costas ou um encrenqueiro. Outras crianças o viam como uma ameaça. No ano passado, Shamal foi suspenso da escola duas vezes por se meter em brigas. Como castigo, Vanessa o obrigou a raspar o cabelo afro que ele tanto preza. Mas ela também coloca as explosões das crianças num cenário mais amplo: “Como deveria ser o comportamento deles quando eles ficam por aí largados nessas ruas?”, perguntou-me uma Vanessa cheia de frustração.

Shamal me contou que os desconhecidos “devem achar que eu estou vendendo drogas. Mas não estou. Sou só um cara legal que gosta de sair e fazer as pessoas dar risada.” Ele sonha em se tornar chefe de cozinha. Vanessa, por sua vez, gostaria de dar a Shamal uma tornozeleira eletrônica, para rastrear os movimentos dele. Claro que isso é impossível, mas Shamal gostou da ideia. “Isso poderia me ajudar quando meus amigos quisessem me arrastar para algum lugar”, explicou. A tornozeleira lhe daria uma boa desculpa para ele se recusar sempre que seus amigos o tentam levar para o mau caminho.

O pai de Tatiyana e Shamal voltou a se mudar para Trenton, “carregando uma trouxa feito um mendigo”, segundo Vanessa. Além de um ou outro pagamento de pensão alimentícia e uma única vez no Chuck E. Cheese’s [uma franquia de pizzarias], ele não esteve muito presente na vida das crianças. O pai de Taliya foi preso quando ele tinha um ano. Libertado quando ela tinha 8, foi morto algumas semanas depois com um tiro no peito. Às vezes os filhos de Vanessa tiram sarro entre si por causa dos pais. “Seu pai tá morto”, diria Tatiyana. “É? E o seu que tá por aí mas não dá a mínima pra você”, rebateria Taliya.

Em outros momentos, porém, os irmãos se apoiam dizendo que a ausência dos pais não é problema deles. “Eu nem tenho tempo pra ele”, disse Tatiyana, como se fosse algo à sua escolha. “Só tenho tempo para os meus amigos de verdade.” Taliya olhava para a irmã mais nova e completava: “Cuidado, quando você estiver indo bem ele vai voltar a aparecer.”

Se Vanessa fizesse uma jornada mais longa, seria difícil manter a maneira como ela cuida da família: lava as roupas, marca consultas em dentistas, aconselha as crianças sobre sexo, estuda seus profundos mistérios para tirá-los de encrencas ou dar presentes. Apesar disso, nossos líderes políticos costumam se recusar a considerar esse tipo de cuidado como trabalho. Durante os primórdios da reforma do sistema social, algumas autoridades locais criavam trabalhos inúteis para que mães solteiras recebessem o benefício. Num caso escandaloso, os beneficiários tinham que separar pequenos brinquedos de plástico pela cor. No fim do dia, o supervisor misturava tudo de novo para que elas começassem a trabalhar novamente na manhã seguinte. Isso era considerado mais importante que manter as crianças com a mãe, seguras e bem-alimentadas.

O trabalho de cuidar de um parente adoentado ou moribundo também não conta. Vanessa dava arroz con gandules de colher, na boca do pai doente, administrava seus medicamentos e trocava suas fraldas. Mas só quando ela faz a mesma coisa para completos estranhos, como empregada da Bayada, é que ela “trabalha” e assim se torna digna de atenção. Como Evelyn Nakano Glenn argumenta em seu livro Forced to Care [Cuidados Forçados, 2010], a industrialização levou as famílias americanas a ficar cada vez mais dependentes de salários, o que teve o efeito de reduzir as tarefas normalmente deixadas para as mulheres (trabalho doméstico, cozinhar, cuidar de crianças) a “vocações morais e espirituais”. Diferente do trabalho assalariado dos homens, escreve Glenn, “os serviços de cuidados não-pagos pelas mulheres são simultaneamente sem preço e sem valor — isto é, não-monetizados. Para piorar, como nunca puderam cumprir o ideal da maternidade em tempo integral, as mulheres pobres de cor eram vistas como mães e mulheres deficientes.”

Vanessa atribui seus próprios atrasos educacionais — ela era boa estudante no fim do ensino fundamental, mas começou a matar aulas e se meter em encrencas no colegial — ao fato de que seus pais eram ausentes. Num momento crítico em que Vanessa precisava de orientação e disciplina, seu pai estava usando drogas e a mãe estava sempre fora, trabalhando. Ela não quer cometer o mesmo erro com seus filhos. A vida de Vanessa gira ao redor de uma pequena rotina: deixar as crianças na escola; trabalhar; tentar achar um apartamento com aluguel abaixo de mil dólares por mês; pegar as crianças; alimentá-las e dormir. Ela não gasta seu dinheiro em coisas supérfluas como álcool e cigarro. Contou que estava tentando guardar “o dinheirinho que ganho para que, quando pudermos ter uma casa, eu possa dar às crianças roupas de cama e de banho.”


Podemos pensar que a existência de milhões de trabalhadores americanos pobres como Vanessa nos levaria a questionar a noção de que indolência e pobreza andam de mãos dadas. Mas não. Embora outros mitos justificadores da desigualdade tenham perdido força diante da refutação coletiva, nós nos agarramos com força a essa fórmula devastadora. A maioria de nós não tem uma explicação confiável para a crescente polarização política, o abuso de drogas prescritas, a urbanização descontrolada ou qualquer um dos inúmeros males sociais. Mas quando nos perguntam porque os pobres são pobres, temos uma resposta na ponta da língua — só que ela é um projeto de explicação. Ou nos contentamos com isso ou temos que enfrentar uma vergonha nacional pesada demais para suportar. Como pode um país com uma taxa de pobreza tão elevada — maior do que a de lugares como Letônia, Grécia, Polônia, Irlanda e todos os outros membros da OCDE — alegar ser o melhor lugar do mundo? A presença de Vanessa é um julgamento. Mas em vez de assumir suas responsabilidades, os EUA invertem os papéis e jogam nos pobres a culpa por suas misérias.

O projeto é simples. Primeiro, valorize o trabalho como passaporte para sair da pobreza e desconsidere os cuidados domésticos como trabalho. Olhe para uma mãe solteira sem emprego formal e diga que ela não está trabalhando. Veja outra que trabalha em meio-período e exija que ela trabalhe ainda mais. Transforme amor em preguiça. Depois, force os pobres a acumular horas num mercado de trabalho que os trata como itens descartáveis. Garanta que eles recebam pouco e negue a eles licenças-saúde e seguros-saúde porque o contribuinte americano vai aparecer para subsidiar programas como descontos tributários e food stamps dos quais sua força de trabalho vai depender. Veja os gastos sociais subir enquanto a taxa de pobreza não diminui porque, bem, você está acumulando lucros. Quando isso acontecer, tire o seu da reta e bote a culpa na própria rede de seguridade social. Daí, faça os políticos inventar novas maneiras de negar alívio às famílias, como impor exigências irrealistas de trabalho para ajudar os mais pobres.

Os Democratas podem desprezar as exigências de trabalho dos Republicanos, mas eles ainda precisam desafiar a concepção predominante de pobreza por trás dessas políticas. Em vez de oferecer uma contra-narrativa ao lugar-comum moral americano de merecimento, os liberais normalmente se submetem a ele, abraçam-no, pensando que o público não vai apoiar auxílios que não exigem que os pobres se submetam aos empregos miseráveis abertos para eles. Até os campeões do movimento progressista parecem reservar a prosperidade econômica apenas para quem trabalha em tempo integral. Seguindo uma linhagem de Democratas que vieram antes e depois dele, o senador Bernie Sanders declarou em certa ocasião que “ninguém que trabalha 40 horas por semana deveria estar vivendo na pobreza.” Claro, mas e aqueles que trabalham 20 ou 30 horas semanais, como Vanessa?

Como os liberais permitiram que os conservadores definissem os termos do debate em torno da pobreza, eles se encontram discutindo soluções radicais onde imaginam ou uma nação de pleno emprego (como se trabalho pudesse ser garantido) ou uma sociedade pós-trabalho (com uma renda básica universal). Nenhum plano tem a menor esperança de ser implantado nacionalmente tão cedo, o que significa que nenhum deles é bom para Vanessa e milhões como ela.

Quando se dá muita atenção a soluções extraordinárias e utópicas, esquecemos a importância de trabalhar com as ferramentas que já temos. Programas de seguridade social, que ajudam as famílias a enfrentar períodos de insegurança alimentar, habitações impagáveis e ondas de desemprego, tiram milhões de pessoas da linha da pobreza todos os anos. Por si só, o SNAP tira 8 milhões da pobreza. Segundo um estudo de 2015, sem os benefícios tributários e transferências de renda federais, o número de americanos vivendo em pobreza extrema (abaixo da metade da linha de pobreza) saltaria de 5% para quase 19%. Programas de mobilidade social eficazes deveriam ser defendidos, expandidos e despidos de suas exigências de trabalho draconianas.

Embora Washington continue exigindo mais dos trabalhadores vulneráveis, cobra pouco dos empregadores na forma de salários dignos ou estabilidade no emprego, o que cria um mercado de trabalho onde o maior desincentivo a trabalhar não é a seguridade social e sim a má qualidade das vagas disponíveis. Ao observar o estado atual do debate nacional sobre pobreza, parece que a maioria das pessoas que criam políticas públicas federais e estaduais não conhecem gente como Vanessa. “Metade do pessoal da Prefeitura nem sequer vive em Trenton”, disse Vanessa em certa ocasião, frustrada. “Eles nem sabem o que acontece por aqui.”

Ao mesmo tempo, temos o Congresso mais rico de todos os tempos, com 13 membros que fazem parte do 1% mais rico. Do alto de seus gabinetes, a pobreza parece ser um problema menor e menos urgente e o trabalho uma solução maior e mais gratificante. Mas quando minimizamos o problema também minimizamos as soluções. Quando aplicamos pequenas soluções para um problema enorme, elas não vão funcionar. Daí, quando as iniciativas anti-pobreza não funcionam, muita gente lava as mãos e diz que deveríamos parar de colocar dinheiro nesse problema de uma vez por todas. Soluções baratas só encarecem o problema.

Esse mês, participei de um jantar de honra com calouros de uma universidade em Massachussetts. Alguns tinham inclinações esquerdistas, outros eram direitistas. Mas todos estavam juntos em sua incapacidade de explicar a pobreza de um modo que não responsabilize, de algum modo, os pobres pela própria desgraça. Pessoas pobres não têm ética de trabalho, diziam-me, ou então falta-lhes um comprometimento com melhorar de vida. Comecei a me arrepender a da falta de bebidas alcoólicas no evento quando um estudante mencionou o filme À procura da felicidade, onde o personagem de Will Smith tem um desempenho sobre-humano em seu trabalho para sair da miséria para a vida plena. O estudante não era nenhum filho de senador: ele nos falou que os tempos foram duros quando seus pais se separaram. Enquanto via esse rapaz se identificando com o personagem de Smith, me dei conta daquilo que seus pais, seus pastores, seus treinadores e conselheiros haviam dito para motivá-lo — “estude bastante, mantenha-se firme, tenha um grande sonho e será bem-sucedido” — havia sido internalizado por ele como uma teoria para a vida.

Nós precisamos de uma nova linguagem ao falar sobre pobreza. Dizemos “ninguém que trabalha deveria ser pobre” mas isso não é bom o bastante. Ninguém nos EUA deveria ser pobre. Ponto. Nenhuma mãe solteira deveria se desdobrar para criar os filhos sozinha; nenhum ex-presidiário que cumpriu sua pena; nenhum jovem usuário de heroína lutando contra a dor e o vício; nenhum motorista de ônibus aposentado cuja pensão foi achatada; ninguém. Se respeitamos o trabalho duro, deveríamos recompensá-lo decentemente em vez de usar esse valor para humilhar os pobres e justificar nossa desigualdade crescente e indefensável. Você pode dizer que trabalhou duro para chegar onde está. Muito bem. Só que a Vanessa também trabalhou duro para chegar onde ela está.

Sobre o autor

Matthew Desmond é colaborador da revista The New York Times Magazine e autor de "Evicted" [Despejado], que ganhou o Prêmio Pulitzer de 2017 na categoria de não-ficção.

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