28 de fevereiro de 2018

Política britânica em transição: Austeridade, Brexit e o desafio Corbyn

Phil Hearse

Links International Journal of Socialist Renewal

Tradução / No meio do inverno mais rigoroso por mais de uma década, a Grã-Bretanha ainda se encontra dominada pelos dedos gelados da austeridade neoliberal. Tanto o serviço de saúde (NHS) quanto o governo local cambaleiam de crise em crise, enquanto os cortes de gastos do governo conservador de Theresa May fazem a provisão de serviços adequados - aqueles usados principalmente por idosos, deficientes, doentes, pobres e sem-teto - impossível. Oito anos de austeridade e contenção de salários duro entre os trabalhadores do setor público levaram o crescimento econômico a uma queda vertiginosa, reduzindo drasticamente as receitas tributárias, dando, assim, mais uma reviravolta à faca dos cortes conservadores.

Os efeitos negativos da deflação neoliberal podem ser vistos no recente colapso do gigantesco conglomerado de construção Carillion, uma empresa repleta de contratos com o governo. Como Alan Davies aponta:

Carillion destaca tudo de errado com um sistema de ganância do setor privado ao lado de anos de austeridade do setor público. Como os trabalhadores são demitidos aos milhares e subcontratados, os abutres estão vendo o que os ativos podem ser despojados e quais contratos podem ser adquiridos a preços baixíssimos. [1]

Esta saga grotesca só é possível por causa do resultado das eleições gerais de junho de 2017. Encorajado por pesquisas de opinião favoráveis, May convocou uma eleição geral na expectativa de perdas substanciais do Partido Trabalhista e um aumento significativo na maioria parlamentar conservadora. Os líderes conservadores falaram em particular de estar no poder pelos próximos 40 anos. As pesquisas de opinião estavam espetacularmente erradas: as eleições revelaram uma substancial reviravolta de 9,6% para os trabalhistas, com base nos votos de jovens e estudantes, especialmente, que se uniram atrás do líder mais esquerdista do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn. Os conservadores continuaram sendo o maior partido, mas tiveram que contar com os votos do Partido Unionista Democrático da Irlanda do Norte - um grupo legalista de direita dura - para assegurar uma maioria turba e incerta na Câmara dos Comuns. Os resultados foram também um golpe substancial para os liberais, reduzidos a apenas 12 deputados, e o UKIP - o Partido da Independência do Reino Unido de extrema-direita - que perdeu seu único deputado.

Os resultados das eleições enfraqueceram a autoridade de May no Partido Conservador e sua capacidade de controlar sua rebelde direita nacionalista, que exige um "Brexit duro" - que a Grã-Bretanha deixe a União Europeia com uma quebra máxima de regulamentação comercial e outros links com os outros 27 membros da União Europeia. Esses "brexistas" são representados dentro do gabinete por pessoas como o ex-prefeito de Londres Boris Johnson (agora secretário do Exterior) e o ex-secretário de educação Michael Gove (hoje secretário de Meio Ambiente). Fora do gabinete, os "brexistas" são liderados em particular pelo membro do parlamento Jacob Rees-Mogg, cuja personalidade arcaica e visões católicas ultra-reacionárias levaram-no a ser apelidado de "O Sr. Deputado para o Século 18".

Não foram apenas os conservadores cujos conflitos internos foram reformulados pelo resultado das eleições. Um número substancial de deputados trabalhistas de direita (chamados de "blairitas" depois do ex-primeiro-ministro Tony Blair) dificilmente esconderam sua esperança de que Corbyn sofreria um colapso eleitoral e, portanto, seria substituído por alguém bem à sua direita. Um documentário da BBC TV que acompanhou Stephen Kinnock, parlamentar trabalhista de Aberavon e filho do ex-líder do partido Neil Kinnock, durante a campanha eleitoral mostrou que ele e sua família estavam claramente chocados e desapontados quando as notícias sobre o sucesso de Corbyn foram divulgadas. As esperanças de um fim prematuro ao domínio da esquerda no Partido Trabalhista foram frustradas.

Para entender essas contracorrentes, precisamos responder a três questões relacionadas: a) O que explica a ascensão súbita e inesperada de Corbyn à liderança trabalhista? b) Por que a Grã-Bretanha votou para deixar a União Europeia no referendo de 2016? c) Por que o conflito na Europa ainda divide o Partido Conservador?

Oooh Jeremy Corbyn!

On June 24, 2017, just two weeks after the election, Corbyn appeared on the main stage of the internationally renowned Glastonbury music festival and was given a rapturous reception by tens of thousands of young people present. This reception, including the chant Ooooh Jeremey Corbyn! was a reprise of the barnstorming rallies Corbyn had held during the election campaign, all around the country – a return with a vengeance to ‘old fashioned’ political meetings.

Surveys showed that two thirds of people under the age of 25 had voted Labour. After this The Economist, a bellweather of pro-capitalist option, said ‘there are worse things than a Corbyn government’, and that such a government would a ‘setback, not a disaster’ – provided Corbyn could be controlled and his actions moderated.

Election results showed Labour had achieved some remarkable results where there were large numbers of students. For example, in Canterbury where there are two universities and more than 40,000 students, the incumbent Tory MP Sir Julian Brazier, a Brexiteer and former defence minister, saw his 9000 majority overturned. He put it down to ‘a student movement on social media’. Eight thousand new voters registered in the constituency before the election. And indeed the left-wing Corbynista faction Momentum ran a brilliant social media campaign.

In fact, young people delivered Corbyn not only his relative electoral success, but also his leadership of the party. He became Labour leader in 2015 when the party decided to offer cut-price party membership online and a leadership vote for new members. Membership of the Labour Party has gone up from about 120,000 under Blair, to more than 600,000 today – the biggest political party in western Europe. How can this apparent radicalism among young people be explained? On the one hand there has been a general radicalisation over the past two decades on issues like the environment, racism and human rights. This was expressed in the growth of the Green Party prior to the 2015 election, which went from around 40,000 members to around 50,000. The advent of Corbyn has swamped the Greens with a much bigger and more mainstream radicalisation.

But another key factor is the dire economic situation that many ‘millennials’ in the UK find themselves in.The Guardian, quoting a report by the Resolution Foundation said:

The report ... paints a gloomy picture for all young adults across the developed world – apart from the Nordic countries. It highlights how incomes are depressed, jobs scarce and home ownership is slumping for the millennial generation compared with the baby boomers that preceded them. 
But it also reveals that on many measures – apart from unemployment – British millennials have suffered a more significant decline than those in other countries.

The situation facing young people is a subset of the damage done by neoliberalism to the workforce in general. Because of the lack of social housing and an absurdly expensive housing market, many young people find themselves paying 50% of their income on housing – either for sky-high rents in private accommodation or a steep mortgage. Jobs are poorly paid and often based on ‘zero hours contracts’, with no guaranteed hours or pay levels. Because of the privatisation of utilities, charges for gas, water and electricity are also high. Factor in some of the highest transport prices in the world, and expensive restaurants, pubs and other places of entertainment, it results in just one thing: massive levels of debt and young people relying on credit cards for everyday spending – an unsustainable mountain of debt. No wonder lots of young people are fed up.

One would have thought that senior Labour figures would have been ecstatic about the huge surge in membership, but for scores of Labour MPs and hundreds of Labour local councillors, this is not the case. Without doubt the Blairite right would be happy to see an exit of some hundreds of thousands of Corbynistas who are making their life difficult. Sharp conflict has taken place across the party on a number of fronts. Organisationally, the right wing has fought a rear-guard action to keep control of the National Executive Committee (NEC), a fight they have for the moment lost. In January three vacant seats on the NEC were all won by supporters of Momentum, the left-wing grouping that supports Corbyn. Among the victors was Jon Lansman, Momentum’s secretary and a veteran of the ‘Bennite’[3] movement of the 1970s and ’80s. The left won these seats with votes between 62,000 and 68,000, as against a vote of 38,000 for the highest polling Blairite candidate Eddie Izzard, the well known stand-up comedian. Izzard claimed to stand for no faction or grouping, but his material was printed and published by the Blairite group Labour First.

The Labour right wing has lost control over the national disciplinary committee and has suffered another loss with the resignation of Blairite-leaning general secretary Ian McNichol.

But the Labour right wing is hanging on tenaciously at local level, in particular trying to prevent left-wingers being selected as local council candidates, but especially trying to prevent any MP being ‘re-selected’, that is, replaced with a more left-wing candidate. In fact the Corbynista left seems to have little stomach for such fights. Many of the new levy of members are inexperienced and reluctant to get involved in bitter local infighting. The net result is that even if Labour wins the next election, it may be very hard to mobilise the majority of Labour MPs in support of radical measures.

In some localities – for example Haringey and Walthamstow in London – bitter fights are taking place over ‘redevelopment’ projects. In these, right-wing Labour local councils are attempting to force through plans to demolish social housing and replace it with retail centres and expensive housing schemes, only a small part of which will be in any sense ‘affordable’. The left charges that these projects are in effect a form of ‘social cleansing’, where poor people will be pushed out – certainly pushed out of the borough and probably out of London. Corbyn has backed local Labour activists fighting alongside trade unionists and community activists against this social cleansing.[4]

Nationally the Labour right are waging a series of campaigns that in reality are aimed at Corbyn and his supporters. First, in a campaign run directly by Blair and his former press secretary Alistair Campbell, they accuse Corbyn, together with deputy leader John McDonnell of being too reluctant to come out in favour of Britain remaining in the European single market and customs union after Britain leaves the EU. However, on February 26, Corbyn changed Labour’s position on this, saying they would now fight to remain in the customs union, a move that will take the wind out of the Blairites’ sails on this issue. Potentially this could result in the government being defeated in the Commons, if pro-EU Tories form a bloc with Labour, the Liberals and the Scottish Nationalists.

Second, and scandalously, the Labour right is accusing the Corbynistas of being ‘anti-Semitic’. This campaign is based on just one real fact: the Corbyn team stands for Palestinian national rights. This is enough to qualify as ‘anti-Semitism’, and it is a slander repeated endlessly in the right-wing press and taken as good coin by some in the left of centre liberal media, for example some journalists on The Guardian newspaper and on the most radical TV news programme, Channel 4 News. Key people on both these outlets are viscerally hostile to Corbyn. The Israeli government itself has every reason to be interested in this debate. The last thing they want is a Corbyn government, which would disrupt their system of international alliances.

The Blairites are also trying to undermine a key trade union ally of Corbyn, UNITE general secretary Len McCluskey, by claiming there were irregularities in his election. If the government Certification Officer were to remove McCluskey, it would be a major blow to the left on the Labour NEC.

Finally the right wing is running another campaign aimed at the Corbynistas, one based on gender. Right wing MPs Jess Phillips and Harriet Harman, among others, are insisting that the next leader of the party ‘must be a woman’. This is based on the assumption that the left does not have a credible woman candidate, and will want to propose McDonnell when Corbyn retires (he is 69 and will likely be in his 70s when the next election occurs).

Brexit, UKIP and the Tory right

Labour’s internal fights are paralleled by acute tensions within the Conservative Party and the catastrophic crisis of UKIP. Although many people on the left didn’t see it this way[5], the 2016 vote to leave the European Union was a political disaster. The referendum was used by the hard right of the Conservative Party, aided by UKIP, to take control of the party and to impose their own anti-immigrant, anti-welfare state agenda. In particular, the Brexiteers want to pull Britain out of compliance with the European Court of Human Rights and make a bonfire of worker and environmental rights the EU insists on.

During the referendum campaign this was most precisely called by Nicola Sturgeon, Scottish First Minister and leader of the Scottish National Party, who described the referendum as an ‘attempted coup’ by the Tory right.[6]

Anti-Europeanism has always been the calling card of the Tory right, a badge of its extreme nationalism. The problem is that it doesn’t correspond to the objective interests of most sections of the British capitalist class: both the financiers of the City of London and large-scale manufacturers want to have access to the European single market and customs union. External investors in Britain, like Japanese carmakers, want their operations in the UK to have immediate access to the rest of Europe. As a result of these objective capitalist interests, a big majority of Conservative MPs were against leaving the European Union. But not their base: only 38% of Conservative voters cast their ballot to remain in the EU.

During the referendum campaign the majority of the Conservative leaders, together with Labour, the Liberals, the Scottish Nationalists and the Greens – as well as Sinn Fein in Northern Ireland – were all for staying in the EU. How then did the Brexiteers win by 52% to 48% (about 17 million to 16 million votes)?

The Brexit case was hammered home daily in the influential right-wing press, and the core of it was anti-immigrant racism. “Take back control” was the Brexiteers slogan and this mainly meant ‘take back control’ of ‘our’ borders to keep immigrants out.

At the same time the vote represented a rejection of mainstream politics by a significant number of working-class voters, especially in poor working class northern and Midlands towns. Ironically many of these voters will agree with Labour on properly funding the health service and local government, and on re-nationalising utilities like gas, electricity and the railways. But they will not agree with Labour on immigration. Racism and xenophobia are the Achilles heel of the more backward sections of the British working class. The right wing of the Labour Party is putting forward the demand for a new referendum, and are calling for Corbyn to take a much more clear-cut position in favour of Britain remaining inside the single market and the customs union. Corbyn has shifted on the latter but will not put forward the demand for a new referendum, which would open Labour up to accusations of defying a democratic vote.

UKIP has suffered catastrophically from the outcome of the referendum. In the pre-referendum election in 2015, UKIP won 3.8 million votes, 12.9% of the total. In 2017 this was down to 550,000, just 2.1% of the vote. A party set up on the single issue of getting Britain out of the EU naturally suffered when that objective seems to have been achieved. But more than that, UKIP’s right-wing politics post-referendum dominate the Conservative Party. What’s the point of UKIP when the governing party is adopting its policies? UKIP has suffered the same marginalisation fate that the fascist National Front suffered after Margaret Thatcher was elected prime minister in 1979.

After the 2015 election, UKIP’s leader and best known figure Nigel Farage went off to work in the media and hob-knob with the likes of Donald Trump and Rupert Murdoch. Farage expressed delight that he would no longer have to regularly mix with ‘low grade people’, a searing dismissal of the petit bourgeois reactionaries that make up UKIP’s activist base. Since Farage’s departure, UKIP has had three leaders, the latest of whom, Henry Bolton was forced out after it was revealed that his newly acquired glamour model girlfriend had tweeted posts referring to Black people as ‘ugly’, and saying that Prince Harry’s mixed-race fiancée Meghan Markle would ‘taint’ the British royal family.

As the European Union turns up the heat on May, demanding major concessions in return for a transitions period and new favourable relationship with the EU after Brexit, the conflicts inside the Conservative Party are becoming intense. At the same time the Tory feral right, represented by the parliamentary Brexiteers and the key right wing daily papers – the Telegraph, Sun and Daily Mail – keep up a barrage of slanders against Corbyn and his team. The latest, which ended very badly, was the accusation by Tory vice-chair Ben Bradley that Corbyn had sold British state secrets to Czech intelligence during the 1970s and ‘80s. This preposterous piece of mendacity – as if Corbyn were actually privy to state secrets – resulted in Bradley admitting the whole story was fabricated and having to pay libel damages.

In the wake of the referendum there was a spike in attacks against immigrant workers. The Home Office, Britain’s interior ministry, has utilised anti-immigrant sentiment to step up its deportation campaign against ‘illegal’ residents, including people who have lived in Britain for decades – indeed, some people who came to the UK from the Caribbean as children in the 1950s have been told to leave. A consequence of this is that sectors that depend on immigrant workers – for example the health service, care homes for the elderly and agriculture – are running short of staff. It is estimated that up to 40,000 European nurses who would otherwise have come to work in Britain, either went home or decided not to come after the referendum.

Disillusionment with mainstream politics runs right through the working class, especially the understanding that Britain is rapidly becoming more and more unequal. The disastrous July 2017 fire in the high-rise Grenville Tower in west London, in which more than 70 people died, was widely seen as a symptom of the contemptuous treatment of the poor by the rich elite. Grenville Tower was a centre of social housing, occupied by many low paid and immigrant workers, whose management was hived off by the Tory council to a semi-private management company that neglected basic safety concerns, despite repeated warnings.

Despite myths by some left wingers, working class disillusionment was not the core of the Brexit vote. About 65% of Labour voters voted to remain in the EU. The core of the Brexit vote was older voters and middle class voters in the shires and affluent suburbs, which parallels the core support for the Conservatives. A big majority of people under 45 voted against leaving the EU. Among under-25s it was nearly 70%. The majority against leaving the EU was huge in multi-racial London.

Conservative finance minister Phillip Hammond clearly sees the need for the British economy not to suffer a sudden lurch out of EU membership and has put forward a version of a ‘soft’ Brexit, which he said would be “a lot like the present situation”. This prompted a furious response from the Brexiteer right, and a retreat by Hammond under pressure from May. The central problem for May and her Brexit minister David Davis is this: they want at least a transition period during which Britain will have full access to the single market, but the price demanded by the EU for this is free access to Britain for EU workers, and the right for these workers to stay in Britain after Brexit. This is anathema to the Conservative right wing, for whom stopping immigration was the key point of the referendum in the first place.

Conflicts inside the Conservative Party are also fuelled by the obvious fact that the Brexiteers’ much vaunted economic ‘advantages’ for Britain going out of the EU are completely delusional. The idea that Britain will rapidly conclude super- advantageous trade deals with the rest of the world, which will be better for British trade than the existing EU deals, is a pipe dream.

Perhaps the most intractable post-Brexit dilemma for Theresa May is the border between Northern Ireland and the Irish Republic. For twenty years there has effectively been no border as far as trade and travel are concerned. Nobody on the island of Ireland, not even hard-line Loyalists in the north, want to see a new policed border and customs posts in place, which would damage the economy of both north and south and perhaps revive a Republican campaign against the border. But how can a hard border be avoided if the United Kingdom, of which Northern Ireland is a part, is outside of the European Union while the Republic remains inside the EU – which of course it will be? If there is no hard border, then goods, services and people can come into Northern Ireland from the EU, and once there it will be very difficult to stop them getting into the rest of the UK, especially as the Democratic Unionists will cease all support for the government if there is any attempt to construct a ‘border’ between Northern Ireland and the rest of Britain.

Conservative austerity holds sway for one reason only, because Thatcher’s anti-union laws, which subsequent Labour governments refused to repeal, prevent effective action strike against the public sector pay cap and public service cuts. Of course that does not mean a total absence of industrial struggle. The last six months have seen rail workers mounting days of action to ‘keep the guard on the train’. British Airways cabin crews have held repeated strikes over pay. In the manufacturing sector, BMW workers have been striking in defence of pensions and earlier in the year Fujitsu workers had walked out in protest against mass redundancies. There is currently a major national strike by university teachers over pensions. School teachers in the South East had been on strike against education cuts. And there have been many more small, if militant, strikes. But that cannot disguise the fact that the number of strike days is at an historically low level. Like the myriad of local campaigns against NHS, school and council service cuts, most of these are defensive struggles.

In this situation immense hopes have been invested in the possibility of a left Labour government led by Corbyn. Just as the Brexiteer Tories have marginalised UKIP, so the Corbynistas have for the moment marginalised the left that remains outside the Labour Party, although of course that left remains active in the unions and in the battles against public sector cuts. British politics has entered a period of intense turbulence and for the first time in decades the radical left is a key player at a national political level.

Notas:
[1] Make Carillion a watershed

[2] Kinnock is married to Helle Thorning-Schmidt, former Prime Minister of Denmark, seen in the BBC2 documentary Labour, the Summer Everything Changed, strongly advising him not to talk to the media after Corbyn’s success. See Labour documentary: Hang on, are the centrists the idiots?

[3] After Tony Benn, key Labour left leader in the 1970s, ‘80s and ‘90s.

[4] Jeremy Corbyn vows to end "social cleansing"

[5] For example the Socialist Workers Party, the Socialist Party and the Communist Party-Morning Star.

[6] See: Nicola Sturgeon: Leave campaign is an attempted coup by right-wing Tories

Phil Hearse é um membro do Conselho Editorial da Transform!.

O Brasil e a economia mundial: 2018, é possível uma virada?

Bernardo Kocher

Jornal dos Economistas

A economia brasileira, dada a extensão territorial do país e sua diversidade, é candidata natural a ocupar o posto de uma das maiores do mundo. Isto bastaria para atender as necessidades materiais e imateriais da sua população? E mais: em 2018 a rota de crescimento econômico será retomada, tendo em vista as reformas liberalizantes impostas à sociedade pelo golpe-impeachment de 2016?

Tais indagações não podem ser isoladas de uma perspectiva de longa duração, uma vez que dados consistentes de regressão social que ora vivenciamos encontram terreno fértil na história de nossa sociedade. A condição periférica da economia brasileira está fundada em rocha sólida, devido às estruturas gestadas pelo “pacto colonial” e seu “exclusivo” de comércio com a metrópole europeia. Quando da formação do Estado Nacional soberano, no século XIX, foram recriados os meios para se perpetuar a estagnação: foi mantido o controle do Estado pelos maiores beneficiários dos mecanismos de concentração de renda e propriedade, além de dividirem o poder e reelaborarem os principais mecanismos de predomínio econômico da colônia, a mão-de-obra escrava e a agricultura de exportação.

Somente na República as preocupações com a industrialização floresceram, principalmente a partir da década de 1930. Neste momento a manufatura ganhou força política nunca antes conhecida no interior da política pública. O desenvolvimentismo transformou a economia brasileira num dos melhores exemplos de sucesso de sua teoria. A partir de 1955, a articulação do “tripé” de sustentação composto pelo capital nacional, o internacional e o Estado alentou o desenvolvimento brasileiro e fez com que o produto industrial suplantasse em importância o agrícola.

Numa trajetória de longa duração a economia brasileira foi vitoriosa em números, mas criou um quadro social desfavorável para os trabalhadores e, também, para os pequenos e médios proprietários. Formou- -se um “desenvolvimentismo excludente” muito inferior em termos de prestação de serviços públicos ao seu congênere europeu, o welfare state. Nosso modelo econômico padeceu de uma orientação rentista e de altíssima concentração de renda, gerando uma estratificação social abissal, insistentemente mantida no interior do processo de modernização e industrialização. Foram reproduzidos sem pudores os mecanismos coloniais de privilégios e de dependência às decisões dos grandes centros de poder econômicos estrangeiros.

Quando da eclosão da crise do desenvolvimentismo (e no processo de formulação de soluções liberalizantes para a sua solução), nos anos oitenta, surgiram novos parâmetros para refazer a inserção da economia brasileira no plano internacional. O colonialismo, extinto na década de setenta, transformou- -se em polos de dominação formados por um conglomerado de países (e blocos econômicos) somados a instituições multilaterais públicas, além de organizações não governamentais think tanks, responsáveis pela disseminação da cultura da governabilidade e da globalização. Tais conceitos, firmemente ancorados no pensamento neoliberal, acabaram por colocar o desenvolvimento industrial em constante ataque, inviabilizando-o na prática. As debilidades intrínsecas, realçadas pela(s) crise(s) (do dólar, do fordismo, dos pleitos do Terceiro Mundo, da juventude etc.) e pela nova forma de articulação financeira internacional traziam forte instabilidade macroeconômica e, por fim, ensejaram a crise terminal do desenvolvimentismo.

Chegamos ao início do século XXI com um imenso impasse: as políticas de “ajuste” e as “reformas estruturais” implementadas nos anos noventa já haviam sido quase totalmente implementadas, mas sem o crescimento econômico que se esperava. Neste momento não pertencia mais ao mainstream a crença das indústrias como força econômica. A partir de 2003 um novo e inusitado elemento foi incorporado à economia brasileira: nos dois governos do Presidente Lula, surgiu uma inesperada conjuntura internacional alvissareira, passando a economia brasileira a “surfar” na onda de crescimento dos preços das commodities.

As autoridades governamentais alimentaram a crença de que um novo modelo econômico havia sido criado, baseando-se na percepção pouco consistente de que as políticas inspiradas no neoliberalismo se esgotaram. Os principais defensores deste ideário chamaram esta nova situação de “neodesenvolvimentismo”. Suas características mais gerais foram constituídas por um mix de tendências que, mesmo contraditórias (manutenção de alta remuneração do capital financeiro, incentivo à exportação de matérias-primas, criação de mecanismos de financiamento privilegiada para o capital produtivo nacional se internacionalizar, flexibilização de direitos trabalhistas, implantação de políticas sociais avançadas etc.), acabaram por produzir uma sensível melhoria nas condições de vida da população e nos índices econômicos.

Tal modelo faliu e está neste momento sendo profundamente reformulado. Fragilizada já ao final do terceiro mandato do PT, a economia brasileira não encontrou respostas fáceis para a desaceleração do crescimento chinês. Quando as debilidades do neodesenvolvimentismo tornaram-se claras, o que se assistiu não foi a afluência dos mais pobres ao status da cidadania. Ao contrário, a crise foi o meio pelo qual o protagonismo de setores conservadores e ressentidos tornou-se explícito; ao longo de trinta anos de democracia estes estavam desconfortáveis e a reboque das teses democratizantes e de políticas sociais avançadas. Tendo como marco inicial as manifestações de junho de 2013, a reversão política propiciada pelo golpe-impeachment aponta para uma ansiosa radicalização “final” do liberalismo, tido como interrompido por políticas populistas.

No quadro internacional, veio a se conjugar com estas novas circunstâncias a retomada da hegemonia americana, mas, simultaneamente, com a continuidade da sua debilidade, que se sustenta “fisicamente” mas é incapaz de criar uma onda sustentável de liderança e orientação para as economias nacionais. Vivemos em um mundo onde a economia política internacional expõe o esgotamento de uma correlação de forças pautada em conceitos elaborados ao final da Segunda Guerra Mundial. É a crise da hegemonia norte-americana que inibe o delineamento preciso para alguns países periféricos de que uma novíssima ossatura institucional é capaz de suplantar qualquer projeto econômico claro, como antes havia sido esposado pelo liberalismo, pelo keynesianismo, pelo comunismo ou pelo desenvolvimentismo.

Dentre todas as tendências possíveis de serem pautadas numa agenda de pesquisas para o funcionamento das novas diretrizes da economia mundial a partir de agora, ressaltamos: a) o papel da China e do regionalismo aberto da qual faz parte, além do crescimento do poder militar do país e do papel da sua moeda; b) o regionalismo fechado europeu; c) a longa crise política no Oriente Médio; d) o papel da Rússia, da sua política militar e energética; e) as transformações sociais e o contínuo e bem-sucedido crescimento econômico da Índia; f) o novo papel das nações que circundam o Oceano Pacífico na liderança da dinâmica econômica mundial; e, g) a crise da hegemonia dos EUA, considerando seu caráter de longa duração.

Em todos os casos acima considerados, merece destaque a ação proativa dos Estados Nacionais envolvidos em busca de novos atores supranacionais que se articulam pragmaticamente aos vizinhos e, simultaneamente, com o sistema internacional. Nosso país, preso à obliteração intelectual e política dos promotores/apoiadores do golpe-impeachment de 2016 – que apenas se preocupam em questionar acefalamente políticas públicas com custo financeiro –, tem desarticulado todas as amarras que nos ligam às transformações internacionais. Tudo que é público é sistemática e impiedosamente desconstruído em nome de um projeto de engenharia social monopolicamente vinculado aos interesses internos. Tais orientações – que se pretendem liberais mas que no fundo resgatam tendências profundas do passado –, são manifestações toscas de forças políticas e conceitos ancorados em nossa cultura colonial. Nesta o que vale é o benefício possível para setores privilegiados internos numa relação ponto a ponto (tipo metrópole-colônia) com o mundo exterior; despreza-se a complexidade do sistema internacional, composto por vários níveis de articulação. Construções internacionais sofisticadas (Brics, Mercosul, Unasul, etc.) são sonoramente desprezadas e o papel da diplomacia brasileira nestes cenários é neutralizado.

Neste início de ano já amargamos a metade do percurso do processo político iniciado em maio de 2016, e o resultado final das mudanças implementadas será conhecida em outubro. O pleito definirá o quanto das políticas de retrocesso serão incorporadas pelas instituições, tornando-se perenes. De qualquer forma, no curto prazo, as perspectivas de retomada do crescimento econômico não são alvissareiras. Constatamos que ao rentismo e a reinstituição de privilégios odiosos foi associado pelo governo atual mais um ciclo de transferência patrimonial do Estado para o capital privado, o que é entendido como forma exemplar de implementar uma economia liberalizada. Finalmente, anos preciosos estão sendo perdidos em políticas de ajuste fiscal permanente pelo lado da despesa, através de cortes irracionais e contínuos de importantes indutores de crescimento econômico (massa salarial e aposentadorias, ciência e tecnologia, educação, serviços de saúde, infraestrutura etc.). Esta orientação satisfaz-se com um precário equilíbrio macroeconômico “ancorado” na estabilidade dos preços, que a qualquer momento pode ser perdido.

No frenesi de reformas anti (sociais, patrimoniais públicas, liberdade de expressão e institucionais) muito se perde e nada se ganha. O mais grave, em termos de estabelecimento de parâmetros para a economia, é o colapso do papel proativo do Estado-Nação no interior de um sistema internacional complexo e dinâmico. Este se torna incapaz de afirmar claros interesses nacionais, base para aquisição das novas condições do crescimento econômico e bem-estar da população.

Sobre o autor

É professor de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense.

26 de fevereiro de 2018

Regressa o pesadelo dos mísseis em Comiso

Manlio Dinucci

Il Manifesto

Tradução / O plano foi pré-anunciado há três anos, durante a Administração Obama, quando os oficiais do Pentágono declararam que, "perante a agressão russa, os Estados Unidos estão a considerar a instalação de mísseis terrestres na Europa, com base no solo".

Agora, com a Administração Trump, o mesmo está oficialmente confirmado. No ano fiscal de 2018, o Congresso dos Estados Unidos autorizou o financiamento de "um programa de pesquisa e desenvolvimento de um míssil de cruzeiro lançado a partir do solo, por uma plataforma móvel numa estrada".

É um míssil de capacidade nuclear com um raio de alcance intermédio (entre 500 e 5500 km), semelhante aos 112 mísseis nucleares Cruise instalados pelos Estados Unidos em Comiso, na década de 1980. Eles foram eliminados, juntamente com os mísseis balísticos Pershing 2, colocados pelos EUA na Alemanha e com os SS-20 soviéticos, colocados na URSS, de acordo com o Tratado de Forças Nucleares Intermédias (INF), assinado em 1987. O mesmo proíbe a instalação de mísseis terrestres com base no solo e alcance entre 500 e 5500 km. Washington agora acusa Moscou de instalar mísseis desta categoria e declara que "se a Rússia continuar a violar o Tratado INF, os Estados Unidos não estarão mais vinculados por esse tratado", ou seja, serão livres para implantar, na Europa, mísseis nucleares de alcance intermédio com base de lançamento a partir do solo.

No entanto, é ignorado um fato decisivo: os mísseis russos (admitindo que eles são de alcance intermédio) estão instalados numa posição defensiva, no território russo, enquanto os mísseis de alcance intermédio dos EUA são colocados numa posição ofensiva, na Europa, perto do território russo.

É como se a Rússia tivesse colocado mísseis nucleares voltados para os Estados Unidos, no México. Visto que continua a escalada EUA/OTAN, a instalação de tais mísseis na Europa, é cada vez mais provável. Entretanto, no início de fevereiro, a Ucrânia testou um míssil de alcance intermédio terrestre, que certamente foi criado com a assistência dos EUA.

Os novos mísseis nucleares dos EUA - muito mais precisos e rápidos do que os Cruise dos anos oitenta - serão implantados na Itália e provavelmente também nos países do Leste, juntando-se às bombas nucleares norte-americanas B61-12, que chegarão à Itália e a outros países, a partir de 2020.

Na Itália, os novos Cruise, serão provavelmente posicionados, de novo, na Sicília, embora não necessariamente em Comiso. Na ilha existem duas instalações dos EUA, de primeira importância estratégica. A estação MUOS, de Niscemi, uma das quatro, em escala mundial (2 nos EUA, 1 na Austrália e 1 na Sicília) do sistema de comunicações por satélite que liga, a uma única rede de comando, todas as forças dos EUA, até mesmo as forças nucleares, em qualquer lugar do mundo onde se encontrem.

O JTAGS, uma estação de recepção e transmissão de satélite do "escudo antimíssil" dos EUA, está prestes a funcionar, em Sigonella. É um dos cinco a escala mundial (os outros estão nos Estados Unidos, na Arábia Saudita, na Coreia do Sul e no Japão).

A estação, que é transportável, serve não só a defesa anti-míssil, mas também as operações de ataque, conduzidas por bases avançadas como as da Itália. "Os Estados Unidos - explica o Pentágono no relatório "Nuclear Posture Review 2018" - empregam armas nucleares, instaladas em bases avançadas, na Europa, para a defesa da OTAN. Essas forças nucleares constituem, essencialmente, um vínculo político e militar essencial entre a Europa e a América do Norte". Ligando-nos à sua estratégia, não só militarmente, mas também politicamente, os Estados Unidos transformam cada vez mais o nosso país numa base avançada das suas armas nucleares apontadas para a Rússia e, portanto, num alvo avançado sobre o qual estão apontadas, as armas nucleares russas.

Robôs: o que eles significam para empregos e rendimentos?

Michael Roberts

The Next Recession

Tradução / A recente abertura pela Amazon de uma nova loja de varejo no porão de sua sede em Seattle provocou mais conversas sobre o trabalho humano logo que seria eliminado pela expansão de robôs e AI.

Na loja, que é claramente um “piloto”, os clientes entram, digitalizam seus telefones, escolhem o que querem das prateleiras e saem novamente. Não há check-out ou caixas. Em vez disso, os clientes primeiro baixam um aplicativo em seus Smartfones e, em seguida, as máquinas no sentido da loja que o cliente está ciente no que eles estão escolhendo nas prateleiras. Dentro de um minuto ou dois do comprador que saia da loja, um recibo aparece no telefone para itens que compraram. Este desenvolvimento em varejo “automático” espelha outra automação: em escritórios, carros sem motorista, assistência social e na tomada de decisões.

Isso também significa que os seres humanos serão substituídos em parte por máquinas e algoritmos inteligentes de aprendizado? Nas postagens anteriores, esbocei as previsões sobre o número de empregos que serão perdidos para os robôs na próxima década ou mais. Parece ser enorme: e não apenas no trabalho manual em fábricas, mas também no chamado trabalho de colarinho branco, como jornalismo, bancos e até economistas!

Os tecno-futuristas pensam que os robôs logo substituirão os humanos. Mas acho que eles estão correndo antes que eles possam caminhar - ou para ser mais exato, até agora, os robôs dificilmente podem correr e pegar em comparação aos humanos. Este é o paradoxo de Moravec, a saber, que “é comparativamente fácil fazer com que os computadores exibam desempenho em nível adulto em testes de inteligência ou jogos, e difícil ou impossível dar-lhes as habilidades de um ano de idade quando se trata de percepção e mobilidade” (Moravec). Então, os algoritmos podem votar sobre investir ou não em hedge-funds ou bancos, mas um robô não consegue atingir uma bola de tênis, e muito menos vencer um jogador do clube. Na verdade, o desenvolvimento de robôs está indo mais para “cobots”, que atuam como uma extensão do trabalhador, em fábricas com o trabalho pesado e em hospitais e cuidados sociais para o diagnóstico. Isso não substitui diretamente o trabalhador.

O debate econômico dominante é se a “tecnologia” criará mais empregos do que destrói. Afinal, o argumento diz que a nova tecnologia pode livrar-se de certos empregos (tecelões de mão no início do século 19), mas fornecer novos (fábricas de têxteis).

Um experimento de pensamento é o fornecido por Paul Krugman. No famoso exemplo de Krugman, imagine que há dois bens, salsichas e pãezinhos, que são combinados um para um para fazer cachorros-quentes. 120 milhões de trabalhadores são divididos igualmente entre as duas indústrias: 60 milhões produzindo salsichas, os outros 60 milhões de rolos produtores, e ambos levando dois dias para produzir uma unidade de produção.

Agora suponha que a nova tecnologia duplique a produtividade nas padarias. Menos trabalhadores são obrigados a fazer rolos, mas esse aumento de produtividade significará que os consumidores recebem 33% mais cachorros-quentes. Eventualmente, a economia tem 40 milhões de trabalhadores fazendo rolo e 80 milhões fazendo salsichas. No ínterim, a transição pode levar ao desemprego, particularmente se as habilidades são muito específicas para a indústria de panificação. Mas, em longo prazo, uma mudança na produtividade relativa reatribui em vez de destruir o emprego.

A história de caixas de banco vs caixa eletrônico (ATM) é outro exemplo de uma inovação tecnológica que substitui o trabalho humano por uma tarefa específica. Isso levou a uma queda maciça no número de caixas de banco? Entre a década de 1970 (quando o primeiro caixa eletrônico americano foi instalado) e 2010, o número de caixas bancários duplicou. Reduzir o número de caixas por ramo tornou mais barato executar uma filial, então os bancos expandiram suas redes de agências. E o papel evoluiu gradualmente para longe do tratamento de caixa e mais para o banco de relacionamento.

Essa é a visão otimista. Mas mesmo assim, como Marx apontou com o surgimento de máquinas no século 19, a perda de empregos em um setor e sua recreação em outro não é um processo de mudança contínuo. Como disse Marx: “Os fatos reais, que são travestidos pelo otimismo dos economistas, são estes: os trabalhadores, quando expulsos da oficina pela maquinaria, são jogados no mercado de trabalho. Sua presença no mercado de trabalho aumenta o número de poderes trabalhistas que estão à disposição da exploração capitalista... o efeito da maquinaria, que foi representada como compensação pela classe trabalhadora, é, ao contrário, um flagelo muito assustador. Por enquanto, só digo isso: os trabalhadores que foram jogados fora do trabalho em um determinado ramo da indústria podem, sem dúvida, procurar emprego em outro ramo... mesmo que eles encontrem emprego, que perspectiva miserável eles enfrentam! Acostumados como são pela divisão do trabalho, esses pobres demônios valem tão pouco fora do seu antigo comércio que não conseguem encontrar admissão em nenhuma indústria, exceto alguns ramos inferiores e, portanto, sobrecarregados e mal pagos. Além disso, todos os ramos da indústria atraem cada ano um novo fluxo de homens, que fornecem um contingente para preencher vagas e obter uma oferta de expansão. Assim que as máquinas libertarem uma parte dos trabalhadores empregados em um determinado ramo da indústria, os homens da reserva também são desviados para novos canais de emprego e se tornam absorvidos em outros ramos; Enquanto isso, as vítimas originais, durante a transição do período, morrem de fome e perecem.” (Grundrisse).

E então há a rentabilidade da tecnologia. Os robôs não serão amplamente aplicados, a menos que possam gerar mais lucros para proprietários e investidores em aplicações robotizadas. Mas, mais robôs e mão-de-obra relativamente menos humana significarão menos valor relativo por unidade de capital investido, porque a partir da lei de valor de Marx, sabemos que esse valor (incorporado na venda de produção com fins lucrativos) só é criado pela força de trabalho humana. E se isso diminui em relação aos meios de produção empregados, então há tendência de queda da lucratividade. Assim, a expansão dos robôs e AI aumenta a probabilidade e a magnitude das crises de rentabilidade. Portanto, é muito provável que as quedas na produção capitalista se intensifiquem à medida que as máquinas substituem cada vez mais o trabalho. Esta é a grande contradição do capitalismo: aumentar a produtividade do trabalho através de mais máquinas reduz a rentabilidade do capital.

A economia geral negaria a lei de valor ou a ignoraria. Em 1898, o economista neo-ricardiano Vladimir Dmitriev, para refutar a teoria do valor de Marx, apresentou uma economia hipotética onde as máquinas (robôs) faziam tudo e não havia trabalho humano. Ele argumentou que, como ainda havia um enorme excedente produzido sem trabalho, então a teoria do valor de Marx estava errada.

Mas o experimento de pensamento de Dmitriev é irrelevante porque ele e outros economistas convencionais não entendem o valor no modo de produção capitalista. O valor em uma mercadoria à venda é dupla face: existe um “valor de uso” físico no bem ou serviço vendido, mas também há “valor de troca” em dinheiro e lucro que deve ser realizado na venda. Sem este último, a produção capitalista não ocorre. E somente a força de trabalho cria esse valor. As máquinas não criam valor (lucro) sem que os seres humanos transformem máquinas. Na verdade, a única economia robótica absurda de Dmitriev não seria mais capitalista porque não haveria lucro para os capitalistas individuais.

E aqui está a grande contradição do capitalismo. À medida que as máquinas substituem a força de trabalho humana, sob o capitalismo, a rentabilidade diminui mesmo que a produtividade do trabalho cresça (mais coisas e serviços são produzidos). E a queda da lucratividade perturbará periodicamente a produção de capitalistas individuais, porque eles só empregam mão-de-obra e máquinas para fazer lucros. Então, as crises são intensificadas bem antes de chegar ao mundo do robô hipotético de Dmitriev.

Contudo, o que fazer se os trabalhos estão perdidos para os robôs? Alguns economistas liberais falam de um “imposto de robô”. Mas tudo isso faria é diminuir a automação – dificilmente um movimento progressivo na redução do trabalho. A ideia de renda básica universal (UBI) continua a ganhar força entre os economistas, tanto esquerdistas como a maioria (liberais). Eu discuti os méritos e deméritos da UBI antes. A UBI é defendida por muitos estrategistas econômicos neoliberais como uma forma de substituir o “estado de bem-estar” de saúde gratuita, educação e pensões decentes com renda básica. E está sendo proposto manter os salários baixíssimos para aqueles que trabalham. Qualquer nível decente de renda básica seria muito caro para o capitalismo pagar. E mesmo que UBI fosse conquistada por trabalhadores em luta, ainda não resolveria a questão de quem é dono dos robôs e dos meios de produção em geral.

Uma alternativa mais excitante, em minha opinião, é a ideia de serviços básicos universais, ou seja, o que são chamados de bens e serviços públicos, gratuitamente no ponto de uso. Uma sociedade superabundante é, por definição, onde nossas necessidades são atendidas sem esforço e exploração, ou seja, uma sociedade socialista [grifo da tradução]. Mas a transição para essa sociedade pode começar com o trabalho socialmente necessário para a produção de necessidades sociais básicas como educação, saúde, habitação, transporte e alimentos e equipamentos básicos.

Por que usar recursos para dar a todos uma renda básica para comprar essas necessidades sociais; por que não libertá-los no ponto de uso? Em vez de cortar as pessoas que não estão trabalhando fora daqueles que estão trabalhando com os folhetos de renda, precisamos construir a unidade no trabalho através da redução das horas de trabalho e da expansão (livre de uso) de serviços públicos e bens para todos.

Claro, isso exigiria que muitos possuíssem e controlassem os meios de produção e planejassem a aplicação desses recursos para necessidades sociais, e não o lucro de poucos. Robôs e AI passariam a fazer parte do avanço tecnológico que tornaria possível uma sociedade superabundante.

23 de fevereiro de 2018

23 de fevereiro de 1848 - 23 de fevereiro de 2018: os militantes verdadeiramente comunistas e republicanos não esquecem os gigantes de 1848!

Gilda Guibert-Landini

INITIATIVE COMMUNISTE

1848 em França: das ilusões da revolução fraterna à sangrenta luta de classes

Tradução / A "primavera árabe" corre mal na Tunísia... diz-se que a história não se repete, mas, por vezes, ela gagueja. Há 170 anos os povos europeus, seguindo a Revolução de fevereiro de 1848 em França, ergueram-se: foi a "primavera dos povos". Em França esta primavera foi curta: esta revolução que tinha suscitado, tal como nos países árabes, tantas esperanças, termina em junho com um banho de sangue. O do povo.

Por que razão a nova república – a Segunda República – quebrou as aspirações populares que tinha alimentado e desembocou no golpe de Estado de Napoleão III, em 1851? Como pode a revolução ser roubada a um povo? Eis um assunto que permanece muito atual.

Na realidade, esta revolução opõe desde o princípio forças antagônicas: as da burguesia dominante e as do povo operário da capital: Paris. A luta de morte entre estas duas forças é, no fundo, uma luta de classes que não diz o seu nome, mas que se revela desde os primeiros momentos e depressa se agudiza com conflitos violentos até àquele dramático mês de junho de 1848.

A monarquia de julho (1830-1848)

A partir de 1830, a Monarquia de Julho incarna na perfeição os interesses da «aristocracia financeira», como lhe chamava Marx. A recordação da «Grande revolução» ainda está muito viva para os burgueses. E toda a política conduzida durante estes anos visa proteger os seus interesses.

O aumento do custo de vida em 1847 provoca em França, como em todo o resto do continente, conflitos sangrentos. Proibida de reunir, a burguesia republicana francesa, a partir de 9 de julho de 1847, contorna a lei ao organizar banquetes que reúnem centenas de participantes em torno de alguns eminentes oradores. Contam-se mais de 70 em Paris e nas grandes cidades do reino, nos sete meses seguintes.

A revolução de fevereiro de 1848

Por causa da proibição de um destes banquetes, houve uma manifestação de estudantes e operários a 22 de fevereiro de 1848, em Paris. No dia seguinte, juntou-se-lhes a guarda nacional, composta por pequenos burgueses.

Durante os dias que se lhe seguiram, as manifestações populares e as barricadas erguidas nas ruas da capital obrigam o rei Luís-Filipe a abdicar, e a burguesia – que ficaria contente só com uma simples regência – a estabelecer uma nova forma de governo. Efetivamente, para não ser de novo enganado, como aconteceu com a revolução de 1830, o povo parisiense invadiu o Palácio-Bourbon, rejeitando qualquer solução monárquica, e reclama um governo provisório. São lançados nomes à pressa em listas e bocados de papel e a lista foi então submetida à aprovação, em pleno tumulto, de uma multidão variegada que se empurrava na sala invadida. Não se vota porque não há assembleia. Foi assim que foram nomeados os membros deste governo provisório, de que fazia parte Alphonse de Lamartine[1].

Este governo provisório, após este simulacro de eleições, decide dirigir-se à Câmara Municipal para, por assim dizer, dar-se a conhecer ao povo e, sobretudo, para se repartir por diferentes ministérios. Aqui está um verdadeiro sentido democrático! Mas aí, encontra uma corrente, vinda de outro lado, uma outra lista emanada da imprensa avançada e das sociedades secretas republicanas. Nela figuram Louis Blanc, republicano e organizador da campanha de banquetes e Alexandre Martin (conhecido como operário Albert), um mecânico.

Na sua composição, este governo provisório, que saiu das barricadas de fevereiro, reflete na realidade os diversos partidos que partilharam a vitória. Não podia deixar de ser um compromisso entre as várias classes que tinham derrubado juntas o trono de julho, mas cujos interesses se opunham hostilmente[2].

Governo heterogêneo com vozes discordantes, acerca do qual Proudhon afirmou: «não sabia, não queria, ousava». Mas sejamos claros: as vozes dominantes eram as da burguesia: os verbos «saber» e «ousar» não correspondiam à situação. Só o verbo “querer” estava no seu lugar. Este governo não QUERIA a República social! E a própria República quase não chegou a ser pronunciada!

Lamartine e os seus correlegionários hesitam, discutem, tergiversam durante horas sempre que se tratava de proclamar o novo governo: é que não se queria enfurecer a aristocracia nem a grande burguesia, que não tinha esquecido a grande Revolução e que não tinha interesse num governo que não se vergasse à sua vontade. Desde o início, Lamartine nega aos combatentes das barricadas o direito de PROCLAMAR a República. Como ele dizia, não é na rua que se fazem leis. Ora vejam! Pensávamos que estas frases tinham sido inventadas pelos senhores Sarkozy e Macron! Afinal, não! Já em 1848, a burguesia, tal como eles, tem medo do povo das ruas e esconde-se atrás de uma máscara democrática. É preciso, dizia Lamartine, esperar pelo voto da maioria dos franceses. A seus olhos, os operários parisienses que brandiam as armas debaixo das janelas da Câmara Municipal, demasiado revolucionários para o seu gosto, não representam a França! Contudo, estes combatentes das barricadas estão decididos a não deixar que lhes tirem a vitória como em 1830[3]. E, do meio dos grupos armados que enchem a praça de Grève crescem os apelos para se irem embora. Finalmente, foi François-Vincent Raspail, fervoroso republicano que, em nome do proletariado parisiense, dá duas horas ao governo para declarar a República, senão ele viria à frente de 200 000 homens! Ainda não tinha acabado o prazo, já os operários tinham escrito numa grande faixa branca, estas palavras em letras enormes:«A República una e indivisível é proclamada em França», «República francesa! Liberdade, Igualdade, Fraternidade!».

Assim, a rua que não faz a lei pode perfeitamente instaurar a República, de passagem! Os burgueses decidem então criar palavras que eles não compreendem: «Viva a República democrática e social!». Social! O que é que isso quer dizer?

O que isso significa, vão eles compreender no dia seguinte: na manhã de 25 de fevereiro, dos arrabaldes e dos bairros operários pobres, encaminham-se para a praça de Grève homens armados com espingardas, sabres e bandeiras vermelhas. Perante eles, o governo burguês sob a batuta do poeta [Lamartine] recusa esta bandeira e impõe a bandeira tricolor[4].

Mas, pouco depois, é uma delegação armada conduzida por um mecânico chamado Marche, um dos desconhecidos cuja energia faz milagres nos momentos difíceis, que se apresenta perante o governo. Exige o reconhecimento imediato do «direito ao trabalho».O governo recua perante esta exigência imperiosa. Lamartine, com a sua eloquência, esforça-se para embrulhar o seu discurso em belas palavras junto daquele que ele considera, sem dúvida, como um pobre operário ignorante. «Basta de palavras como essas», interrompe brutalmente o jovem, dando um murro na mesa. Desconcertados, os novos donos do poder são obrigados a aceitar naquela sessão o seguinte decreto: «O governo provisório da República compromete-se a garantir a subsistência do operário com o seu trabalho. Compromete-se a garantir trabalho a todos os cidadãos. Reconhece que os operários se devem associar entre si para usufruir da paga do seu trabalho.»

Todos assinam, e alguns fizeram-no, sem dúvida, contra vontade. Foi, de facto, o ato mais revolucionário que podia ter sido arrancado. O decreto é um compromisso solene do Estado a intervir no domínio económico a favor dos trabalhadores. Aponta, mesmo em termos imprecisos, a associação como meio de alcançar este objetivo. A Revolução social acaba de encontrar a sua fórmula vaga. Não se pode fazer nada senão esperar, dizem entre si os deputados, que os operários regressem a casa e se acalmem.

Mas não! Na manhã de 28 de fevereiro, dia em que a República devia ser oficialmente proclamada na praça da Bastilha, muitos milhares de operários, na praça de Grève, brandiam bandeiras em que se inscreviam estas palavras: Ministério do Progresso – Organização do trabalho – Abolição da exploração do homem pelo homem, e uma nova deputação dos operários se fez anunciar ao governo provisório, levando a exigência de um decreto mais explícito.

Lamartine e os moderados, a quem repugna claramente executar um decreto que ultrapasse a sua forma de pensar, mas que ainda têm medo das barricadas, procuram uma solução que não lhes custasse grande coisa. E então: ideia de génio! Nomeiam uma comissão especial, com sede no [Palácio de] Luxemburgo, que ficaria encarregada de procurar as formas de melhorar as condições de vida das classes trabalhadoras. Louis Blanc e Albert deixam-se prender na armadilha e concordam presidir-lhe. Atenção: trata-se apenas de uma Comissão, não de um ministério. Nada de dinheiro e, portanto, nenhum poder! Os dois representantes da classe operária que têm «a tarefa de encontrar a pedra filosofal, descobrir a terra prometida, proclamar o novo evangelho e dar ocupação ao proletariado parisiense[5] ficam, assim, banidos da sede do governo provisório, que detém na realidade o poder, uma vez que é lá – e lá apenas – que se tomam as decisões. Os representantes da classe operária não terão direito senão a «uma conversa à volta de um tacho vazio»[6].

O proletariado fica obrigado, nos primeiros tempos, a aceitar os limites da burguesia que lhe impõe o que Marx chama «um ministério da impotência, um ministério dos Desejos Vãos, uma comissão do Luxemburgo», em vez de reivindicar, de impor mesmo, o seu interesse como o interesse revolucionário da sociedade. Efetivamente, esta ilusão de colaboração entre duas classes é típica deste mês de fevereiro de 1848: sonha-se que talvez patrões e operários possam tornar-se «parceiros sociais», como se pretende também fazer hoje em dia… Será preciso o massacre de junho para que «a guerra de classes», como já lhe chamava Tocqueville[i], esmagasse, sem distinção de idade ou de sexo, quem tem a infelicidade de se opor à burguesia[7]. O proletariado pode fazer a Revolução COM (ou PARA) a burguesia, mas não CONTRA!

As reformas da República burguesa de fevereiro

Desde a véspera, 27 de fevereiro, para tirar o tapete a Louis Blanc, que reclama oficinas sociais, ou, dito de outra forma, cooperativas, o governo publica um decreto no qual estabelece a criação de oficinas nacionais. Nada tinham a ver com as oficinas sociais! Eram de fato oficinas de caridade que de nenhum modo se inspiravam em princípios socialistas! O próprio Lamartine dirá[8]: Essas oficinas foram sobretudo uma solução desdenhosa da burguesia para ocupar o lumpemproletariado, um proletariado esfarrapado que ela esperava viesse a tornar-se numa "guarda pretoriana" contra "os operários insubordinados dos clubes"[9]. Tal como a monarquia de julho foi obrigada a proclamar que era uma monarquia rodeada de instituições republicanas, a república de fevereiro foi forçada a anunciar-se como uma república rodeada de instituições sociais[10]. Mas nada revela melhor as dissidências entre os membros do governo do que estas oficinas nacionais que, rapidamente, se mostram, na verdade, tão caras como ineficazes e, pior que isso, focos de agitação revolucionária! Onde a maioria dizia: caridade, a minoria respondia: justiça. Apesar disso, ficarão muito tempo na memória como o símbolo da confraternização e do unanimismo republicano. O proletariado de Paris deixou-se ir nesta generosa embriaguez de fraternidade.

Muitas vezes se descreve a revolução de fevereiro de 48 como "uma revolução romântica". Pois foi: tomem nota! Que mudanças em alguns dias! A 2 de março, um decreto – que não durará mais do que o tempo dos belos dias – que estabelece a redução do tempo de trabalho para as 10h[11]. A 4 de março, é decretada a total liberdade de imprensa! A 5 de março, é a vez da abolição da escravatura. anunciada no Moniteur e o sufrágio universal masculino (as mulheres não eram julgadas aptas) – a forma que a burguesia arranjou para contrariar o que ela ousa chamar a violência política. Só ela, pois, tem o direito de fazer reinar a violência contra os que lutam pela sua sobrevivência: é a ditadura da burguesia. O único meio que ela aceita doravante de fazer escutar a sua voz, é o voto. A célebre imagem de Bosredon representando a imagem do operário que pousa a sua espingarda para colocar o seu boletim de voto na urna parece opor, assim, o sufrágio universal aos "movimentos de rua". Desde então, esta ideia surge incessantemente sempre que há manifestações. O operário não abandonou a sua espingarda. Mas deve conservá-la unicamente para lutar contra os inimigos externos, pela defesa da pátria. Se esta representação se tornou no símbolo da democracia eleitoral, também não é menos sarcástica. Em segundo plano, os cartazes eleitorais indicam "Atenção aos camaleões", "Aos grandes prestidigitadores". É evidente que o desenhador não é tolo. Os próprios operários não tardarão a aperceber-se de que os promotores do sufrágio universal conseguiram, em parte, convencer os partidários da ordem ao organizar estas primeiras eleições, uma vez que as classes camponesas e a pequena burguesia, maioritárias, revelam ser mais conservadoras. E com razão, como explica Tocqueville: "Na manhã das eleições, todos os eleitores, quer dizer, a população masculina com mais de 20 anos, se reuniram defronte da igreja. Todos os votos foram dados ao mesmo tempo e posso deduzir que votaram quase todos no mesmo candidato." É certo que, debaixo do olhar do padre ou do nobre da aldeia, é difícil haver um voto contestatário. Até porque, como a maioria dos camponeses eram analfabetos, utilizam os boletins de voto já preenchidos pelo presidente da câmara, quer dizer, pelo candidato que era ele próprio. Fosse de que forma fosse, o voto não era secreto. A pressão é demasiado forte para que este sufrágio fosse realmente democrático! É, pois, uma câmara predominantemente conservadora que se impõe a 4 de maio, e a forma reacionária do governo decorre dessa circunstância.

Cai o véu: a repressão burguesa é impiedosa!

Os novos eleitos atacam rapidamente alguns progressos sociais: para dominar os motins que se sucedem entre março e maio, a 12 de maio a Assembleia proíbe os clubes de apresentarem petições. Em 15 de maio, na altura de uma manifestação, os chefes socialistas são presos (Raspail, Blanqui, Albert, Barbès). O laço aperta-se. Chegou o tempo da confrontação. A partir de 17 de maio, a contratação fica suspensa.

São tomadas medidas cada vez mais draconianas contra as oficinas nacionais, consideradas dispendiosas e, sobretudo, fatores de difusão das ideias socialistas. Muitos operários encontram-se no desemprego, o que os empurra para o motim, em junho de 1848. «Os operários não tinham outra escolha: morrer ou lutar. Era uma luta pela manutenção ou o enfraquecimento da ordem burguesa. O véu que escondia a República caiu»[12].

No dia seguinte, 24 de junho, a Assembleia decreta o estado de sítio. A repressão foi impiedosa. É o general Cavaignac (célebre pelas suas fumaradas[iii] na Argélia) que é encarregado de reprimir o movimento. Pelo menos 4 000 insurretos pereceram nos combates e 1 500 foram fuzilados sem julgamento. São presas cerca de 12 000 pessoas. Duras condenações se seguirão e são deportados 4 350 insurretos sem julgamento. Louis Blanc tomou o caminho do exílio. Finalmente, em 4 de julho, as Oficinas Nacionais são dissolvidas. A burguesia podia, enfim, dizer «a ordem reina em Paris»!

Mas para o proletariado acabaram-se as ilusões fraternais. A República burguesa é a dominação do capital por todos os meios, incluindo a guerra civil. As palavras de ordem proletárias, como disse Marx, mudam, para se tornarem Derrubamento da burguesia! Ditadura do proletariado! A experiência histórica – concluída na tragédia de junho – que a classe operária acabava de fazer começou a instalar na consciência de um grande número de operários que era necessário, por isso, dotar a classe operária de um programa e de um partido capazes de conduzir a Revolução. E levou Marx a concluir, não como se estivesse em 1848, mas como se imaginasse em 2018: se acontecesse uma nova revolução ela seria obrigada a conquistar o terreno europeu, o único em que explodiria a revolução social! Pois não será senão embebida no sangue dos insurretos de junho de 1848 que a bandeira tricolor se tornou a bandeira da revolução europeia, a bandeira vermelha!

Para todos aqueles que estejam interessados nesta revolução esquecida dos manuais de história e que é, contudo, o berço das nossas ideias revolucionárias, fica a informação de que um artigo mais completo será publicado no próximo número de Etincelles, em junho.

Notas:

[1] Poeta de renome e político que primeiro foi legitimista, depois orleanista e por fim republicano (um verdadeiro cata-vento como V. Hugo).

[2] Idem, Karl Marx.

[3] Durante a revolução de julho de 1830, as massas populares que tinham lutado nas barricadas e que exigiam o sufrágio universal, a República e a convocação da Constituinte, não souberam apresentar-se de forma tão organizada como a burguesia. Os banqueiros tinham utilizado a vitória do povo e ajudado o duque de Orleães (Louis Philippe) a subir ao trono. (Karl Marx, a luta de classes em França, 1848-180).

[4] Quadro de H. F. E. Philippoteaux: Lamartine recusando a bandeira vermelha na câmara municipal, em 25 de fevereiro de 1848.

[5] K. Marx, idem.

[6] A segunda república francesa 1848-1851, de Georges Renard.

[7] Em 2006, é um dos maiores patrões do mundo, Warren Buffet, que ousa dizer: «a luta de classes existe e é a minha classe, a dos ricos, que está em vias de ganhar» antes de confirmar, em 2011, que esta guerra já estava perfeitamente ganha. E um dos magnatas financeiros americanos (falecido em 2016), Thomas Perkins, defendia que se adaptasse o peso do voto de cada cidadão em função do montante de impostos que paga… em resumo, o regresso ao sufrágio censitário!

[8] Lamartine, Histoire de la Révolution [História da Revolução] de 1848.

[9] Lamartine, idem.

[10] K. Marx, idem.

[11] Mas, a partir de setembro, depois das belas ilusões terem sido sufocadas no sangue dos operários, foi suprimido e passou a 12 horas.

[12] K. Marx, idem.

Sobre a autora

Gilda Landini é autora, entre outras obras, de “Le Fil Rouge”, um livro que todos devem ler.

22 de fevereiro de 2018

De Zuma a Ramaphosa

Jacob Zuma não será lembrado como um herói da libertação, mas como um líder corrupto que destruiu a esquerda sul-africana.

Sean Jacobs e Benjamin Fogel

Jacobin

Jacob Zuma comparece a um almoço para líderes mundiais na Assembleia Geral das Nações Unidas em 20 de setembro de 2016. Peter Foley / Getty Images

Tradução / No último Dia dos Namorados na África do Sul, em 14 de fevereiro, dia de São Valentim, Jacob Zuma anunciou ao mundo que renunciaria à presidência de seu país. No começo daquele dia, Zuma fez um discurso surreal e desconexo escamoteado de “entrevista”, no qual ele insistia que não tinha feito nada de errado em seus nove anos no governo. Se o objetivo de Zuma era projetar um ar triunfante, depois daquilo ele terminou numa situação digna de pena, isolado e triste. Estava muito longe de sua reputação de estrategista maquiavélico que, repetidamente, desafiou tanto a opinião pública quanto o seu próprio partido.

Zuma sobreviveu a oito moções de desconfiança no parlamento, inclusive uma do ano passado, na qual alguns membros de seu próprio partido, o Congresso Nacional Africano (CNA), romperam com a tradição e apoiaram a Oposição na votação sigilosa. No entanto, este ano ele renunciou para não se submeter à humilhação do dia seguinte no parlamento, quando os deputados do CNA planejavam se juntar à oposição na votação para depô-lo.

Alguns, desconfiados dos muitos obituários prematuros escritos para Zuma durante toda a sua carreira política, estavam preocupados de que ele poderia dar um derradeiro golpe. Em sua entrevista no Dia dos Namorados, ele fez vagas ameaças de violência e, dias antes, grupos sombrios como Hands of Zuma e Black First, Land First — o último envolvido em trollagem profissional em nome de Zuma — realizaram marchas declarando-o como uma espécie de figura radical, que só estava sendo perseguido porque liderava uma luta vagamente definida por algo chamado “Transformação Econômica Radical” contra o “Capital Monopolista Branco” e o neoliberalismo.

Mas na manhã de quinta-feira, a África do Sul ganhou um novo presidente, Cyril Ramaphosa, que naquela noite fez seu primeiro discurso sobre o Estado da Nação. A recepção positiva que Ramaphosa recebeu — mesmo pela Economic Freedom Front (EFF) geralmente combativa, que frequentemente barrava as visitas de Zuma ao parlamento — evidenciava que poucos sul-africanos lamentariam a partida de Zuma. Durante seus quase dois mandatos, Zuma conseguiu realizar um feito bastante notável: unir os sul africanos em desaprovação compartilhada. Uma pesquisa realizada há alguns meses registrou seu índice de aprovação em 18%.

Zuma

Os quase dez anos de Zuma no poder serão lembrados como a pior presidência da ordem pós-Apartheid. Nelson Mandela, primeiro presidente democrático da África do Sul, cimentou uma reputação como o grande unificador — um patriarca nacional. Como consequência, até mesmo os críticos mais severos de Mandela minimizam os efeitos negativos de suas políticas econômicas, ou mesmo do fracasso de seu governo em lidar com as heranças malditas do passado racista da África do Sul.

O sucessor de Mandela, Thabo Mbeki, foi amado pelas elites empresariais e fez nascer a classe média negra da África do Sul (inclusive os estudantes que tomaram frente do #FeesMustFall e #RhodesMustFall em 2015 e 2016). O governo de Mbeki, no entanto, registrou recordes de número de protestos de rua contra suas privatizações, despejos e, principalmente, a sua imperdoável resposta negacionista à crise sul-africana de HIV/AIDS.

Zuma era uma figura errática desde o início; CNA, sindicatos e líderes comunistas como Ronnie Kasrils (que serviu como ministro nos governo de Mandela, Mbeki e Zuma), há muito questionaram suas qualidades de liderança — e Zuma tinha sido implicado em corrupção generalizada, tendo sobrevivido a um julgamento de estupro (ele foi acusado de estuprar a filha de seu ex-companheiro de prisão na prisão de Robben Island). Em 2005, Mbeki demitiu Zuma, o então vice-presidente, por acusações de corrupção. As forças anti-Mbeki, incluindo a maioria da esquerda, se juntaram em torno de Zuma, alegando que ele foi vítima de uma conspiração política. O que ajudou Zuma foi sua postura humilde, algo que faltava a Mbeki. Enquanto os movimentos de aluguel queimavam as efígies da mulher que o acusava de estupro, e cantavam “queime a cadela”, a Esquerda – incluindo o então secretário geral da COSATU, Zwelinzima Vavi — declarou que Zuma iria reverter o neoliberalismo na África do Sul.

Três anos depois, Mbeki foi obrigado a se retirar da presidência do país e em 2009, com a força de um CNA fortalecido nas eleições, Zuma foi eleito presidente da África do Sul. Se os pobres esperavam uma pausa da recessão global ou o fim dos efeitos negativos das políticas neoliberais, o que eles obtiveram foi o aumento da repressão e da violência estatal, a fisiologização de instituições-chave do Estado (para resolver disputas políticas dentro do CNA), incompetência generalizada (por exemplo, caos temporário na prestação de assistência social), e um largo histórico de politicagem.

Os sul-africanos passaram a falar novamente sobre a “aparelhamento do Estado” — uma relação entre o Estado e os interesses externos (geralmente os capitalistas), na qual os interesses privados assumem o controle de elementos-chave do Estado e são capazes de influenciar, orientar e moldar diretamente a política. O aparelhamento do Estado remonta às eras coloniais e do Apartheid — quando o regime branco e os negócios dos brancos conluiavam para facilitar a super-exploração da maioria negra — mas, na sua versão pós-Apartheid, os Guptas, um clã indiano oligárquico próximo a Zuma, puderam nomear e demitir os ministros, orientaram a política de apropriação do Estado e, até mesmo, alteram a política oficial de ação afirmativa para incluí-los como sul-africanos negros naturalizados.

No entanto, talvez o que Zuma seja lembrado para a maioria é o massacre de Marikana. Em agosto de 2012, a polícia disparou, em plena luz do dia, contra trinta e quatro mineiros naquela cidade do noroeste. O governo do CNA e seus aliados no COSATU (Congress of South African Trade Unions) e o SACP (South African Communist Party) alegaram que os trabalhadores assassinados eram “criminosos” que, auxiliados por poções, induziram a polícia num surto suicida e, portanto, mereciam morrer. Mais tarde, surgiram evidências de que os políticos do CNA (incluindo Ramaphosa) pressionaram a polícia a intervir na greve e que o massacre não foi um trágico acidente, mas um ato premeditado. Como membro do conselho da mina, Ramaphosa enviou um e-mail dizendo que a greve era “criminosa e devidamente caracterizada como tal”. Sua conclusão: “é necessário que haja uma ação concomitante para resolver esta situação”.

Zuma mais tarde estabeleceu uma comissão pública de inquérito sobre Marikana, mas ela terminou como um mero espantalho. Ninguém foi acusado, e nenhum de seus ministros — nem mesmo o comissário da polícia — renunciou. Ninguém pagou qualquer preço político pelo massacre. Isso era de se esperar: a era pós-Apartheid tem amplamente significado violência, exclusão e degradação para os pobres negros da África do Sul.

O CNA assumiu o Estado sul-africano, um país onde as oportunidades econômicas até então estavam fechadas para sul-africanos negros, o que o fez não ser apenas mais um partido político, mas uma maneira de ganhar um salário decente. A concorrência para o cargo político no CNA, especialmente no nível local, se tornou cada vez mais a razão e o fim de tudo, porque significava o acesso a lucrativos contratos estaduais e à acumulação de riqueza. Chegar ao topo do partido logo virou uma ponte para ter acesso ao Estado através do CNA para quem desejava se enriquecer rapidamente.

Isso também criou uma nova classe política que atua como os senhores da guerra das antigas. A violência se tornou inseparável da política, especialmente na província natal de Zuma, em KwaZulu-Natal. Entre janeiro de 2016 e meados de setembro de 2017, pelo menos 35 pessoas foram assassinadas em violência política relacionadas a rivalidades do CNA. O próprio CNA contabilizou 80 representantes políticos seus mortos entre 2011 e 2017. Em um albergue masculino em Durban, a maior cidade da província, 89 pessoas foram assassinadas entre março de 2014 e julho de 2017 em atos de violência política. Quase nenhuma prisão foi feita.

A partida de Zuma indica o fim do saque total do Estado da África do Sul. Não é por acaso que, no mesmo dia em que Zuma renunciou, a polícia invadiu a casa dos Guptas em um rico subúrbio de Joanesburgo. A eleição de Ramaphosa, esperamos, significa o fim da corrupção parasitária que deixou muitas empresas estatais endividadas e pouco funcionais.

O regime de Zuma era um mar de instabilidade. Ele, com enorme frequência, nomeou e depois demitiu ministros (se calcula a média de um ministro das Finanças por ano), mas também manteve ministros bisonhos. Zuma governou de uma forma altamente personalista, falando sobre o seu reino como se fosse um observador externo e, ao mesmo tempo, usando seu poder para afastar ou aparelhar qualquer parte do Estado que pudesse ameaçar seus interesses — ou os de sua vasta família ou dos Guptas. Todos eram dispensáveis para Zuma; seus aliados de primeira hora em sua jornada para a presidência — como Blade Nzimande, ex-secretário geral do Partido Comunista e, crucialmente, Julius Malema, antigo líder da juventude do CNA — também se tornariam os maiores inimigos de Zuma.

Ao final de sua presidência, pouquíssimos sul-africanos se importaram que Zuma era um herói da libertação, que tinha passado uma década na prisão de Robben Island, ou que ele foi a chave para acabar com a violência entre o CNA e um grupo nacionalista zulu, que agia como uma cópia do regime do Apartheid, no final da década de 1980 e início dos anos 90. Zuma será lembrado como alguém que derrubou um movimento de libertação de 105 anos e quebrou a esquerda sul-africana.

Zuma foi hábil em tomar para si a crítica que a esquerda sempre fez sobre as desigualdades raciais e sociais da África do Sul, tudo isso para avançar seu próprio projeto político parasitário, subindo ao poder através da esquerda. Na maior parte da presidência de Zuma, a esquerda defendeu toda sua indignação. Em vários pontos, eles declararam que Zuma iniciaria um “momento Lula” em seu segundo mandato ou que todas as críticas de Zuma eram o produto de conspirações imperialistas contra os BRICS. Zuma era o líder de esquerda que o país precisava. Em vez disso, ele mostrou os becos sem saída de uma política que procura, desesperadamente, um líder messiânico para libertar o país de seu mal-estar.

Ramaphosa

Na conferência nacional do CNA de dezembro passado, Zuma tentou impedir que Ramaphosa, então presidente do partido, o sucedesse. Zuma favoreceu sua ex-esposa, Nkosazana Dlamini-Zuma, ex-ministra das Relações Exteriores e, mais recentemente, chefe da União Africana. Embora a facção de Zuma tenha terminado com metade dos seis melhores cargos do partido, ele não conseguiu impedir a eleição de Ramaphosa como presidente da CNA. Quando o resultado foi anunciado, Zuma aparentava choque; a vida parecia se esvair em seu rosto cansado.

O CNA ficou com um enigma. As eleições estavam programadas apenas para meados de 2019, e Zuma estava sangrando votos (nas eleições locais de 2011, em grande parte por causa do desempenho de Zuma, o CNA perdeu as prefeituras de Johanesburgo, Pretória e Port Elizabeth para a liberal Aliança Democrática). Para apressar sua partida, seus correligionários usaram um velho truque: quando Zuma arquitetou um golpe contra Mbeki em 2007, seus defensores alegaram que ter uma pessoa como presidente do CNA e outra como presidente do país resultou em “dois centros de poder”. Forçaram, assim, Mbeki a se demitir. Zuma estava agora na posição de Mbeki. Mas ao contrário de Mbeki, que partiu em silêncio, Zuma parecia determinado a terminar o seu mandato. O problema de Zuma era que Ramaphosa estava jogando contra ele, transformando até mesmo seus aliados em inimigos e, ainda, os os usando para condená-lo publicamente.

A jogada funcionou. Ramaphosa é agora presidente. Ele está sendo elogiado em opiniões editoriais, nas mídias sociais e na propaganda do CNA como o anti-Zuma. Ele é educado, articulado e suave, capaz de se deslocar tranquilamente dos gabinetes para eventos de massa. Ele é um político competente e estável, capaz de apelar aos mesmos eleitores de classe média que abandonaram, em larga escala, o CNA,  por causa de Zuma. Ele é caloroso e reconfortante, um excelente orador, um conciliador.

Ele está se saindo melhor do que por encomenda

Uma certa euforia acompanhou o rápido juramento de Ramaphosa como presidente do país. Mesmo aqueles nos movimentos sociais e organizações de direitos humanos combateram Zuma, e o governo do CNA, em temas como educação, habitação e saúde estão dispostos a lhe dar uma chance ou aplaudir abertamente sua presidência. O clima parece quase espelhar a esfuziante presunção da Nação do Arco-Íris de meados até o final dos anos 90, com referências ao fato de que estamos todos juntos nisso.

Apesar de Ramaphosa ser certamente preferível a Zuma, e se ele cumprir suas metas declaradas de estabilizar a economia, purgar o Estado de seus elementos parasitas e, por fim, restaurar as instituições falidas à prontidão operacional, isso será para um benefício para toda a África do Sul, o que não significa que a esquerda deve lhe dar um salvo-conduto.

Ramaphosa já liderou o então maior sindicato da África do Sul, o Sindicato Nacional de Mineiros, durante o período mais violento e politicamente caótico da história do país, enfrentando um governo racista e assassino. Mas ele trocou todo o capital político ganho da luta dos trabalhadores pelo capital de verdade — Ramaphosa agora tem uma fortuna pessoal estimada em mais de 450 milhões de dólares.

Seus defensores contam a velha história de que, como ele já é rico, ele não pode ser comprado, no entanto os exemplos de Donald Trump, Silvio Berlusconi, Mauricio Macri e muitos outros mostram que esse tipo de lógica é fantasia. Mesmo sua ascensão à imensa riqueza não foi tanto devido às suas habilidades como homem de negócios, mas sim porque o CNA o “implantou” no setor privado e, desse modo, os capitães brancos da indústria da África do Sul decidiram que ele era um homem com quem poderiam fazer negócios. Como resultado, ele foi catapultado para as diretorias de megaempresas como o McDonald’s e a Coca-Cola. Embora Ramaphosa não possa introduzir o mesmo tipo de abordagem parasitária à governança como Zuma, é improvável que ele prove ser amigo dos trabalhadores e dos pobres.

A grande bandeira de Ramaphosa é sua agenda anticorrupção. Muitos sul-africanos, revoltados com a corrupção aberta de Zuma, e com o cabide de imprestáveis que ele trouxe para o governo, foram influenciados pelas promessas anticorrupção de Ramaphosa. Em seu discurso sobre o Estado da Nação, Ramaphosa prometeu demitir os lacaios corruptos e incompetentes de Zuma e estabelecer comissões investigando o aparelhamento do Estado.

Os sul-africanos também estão esperando que ele melhore a economia. Em seu discurso, Ramaphosa apresentou medidas neoliberais recorrentes, como zonas econômicas especiais e parcerias público-privadas. Isso pode ser tudo “para restaurar a confiança e impedir um rebaixamento da nota de investimento” pelas agências de classificação, fato comum sob Zuma. Mas ele também está ciente de sua base. Ramaphosa prometeu “expropriar a terra sem compensação” para a agricultura, impor um salário mínimo nacional e introduzir educação superior gratuita para aqueles cujas famílias ganham menos de 350 rands mil por ano.

Podemos esperar que Ramaphosa seja visto como um parceiro confiável pelo capital global, e haverá algum aumento no investimento estrangeiro direto — mas não o suficiente para criar o tipo de empregos que os sul-africanos precisam desesperadamente. Apesar de toda a sua suavidade, nem Ramaphosa nem nenhum dos partidos da oposição têm uma visão econômica que possa proporcionar taxas de crescimento saudáveis, reduzir o desemprego e combater a terrível desigualdade estrutural.

O que Ramaphosa representa em um nível é um retorno ao modelo clássico de pacto social do CNA, apresentando uma visão coletiva que favorece o capitalismo desenvolvimentista, a aspiração coletiva, a harmonia social – mas pelas e para as elites, às custas dos trabalhadores. De fato, enquanto COSATU e o Partido Comunista apoiaram a campanha de Ramaphosa, Zuma esvaziou essas, outrora orgulhosas, organizações e o novo presidente, provavelmente, será capaz de aprovar políticas pró-negócios sem enfrentar qualquer oposição real da Esquerda.

Talvez os maiores perdedores na ascensão ao poder de Ramaphosa sejam os partidos de oposição da África do Sul, tanto a Aliança Democrática, de centro-direita, quanto, em menor grau, a EFF, nacional-populista. No últimos anos, ambos centraram sua estratégia política na remoção de Zuma e na erradicação da corrupção. Com Zuma fora do poder e um operador astuto como Ramaphosa empossado, a oposição terá que reconfigurar radicalmente sua estratégia política.

A Aliança Democrática não oferece uma visão política radicalmente diferente do CNA; Grande parte de seu apelo se baseou em sua suposta reivindicação de serem melhores administradores do Estado e administradores mais competentes das mesmas políticas que o CNA. Mas com o fracasso do partido opositor na histórica crise hídrica da Cidade do Cabo, combinada com as disputas generalizadas e o discurso superficial e não combativo do líder nacional Mmusi Maimane, o AD perderá a maioria de seus novos eleitores para o novo CNA de Ramaphosa. A EFF pode estar mais bem posicionada para manter sua posição, já que eles realmente têm uma plataforma política dramaticamente diferente do CNA — e estão preparados para trazer o passado sombrio do novo presidente (em particular, Marikana.) Fora do CNA, a EFF talvez, junto com a mídia do país, merecem a maior parte do crédito para influenciar a opinião pública contra Zuma.

Uma narrativa comum é que “este é o começo da renovação do CNA”. Que o CNA está reformado. Que os Guptas estão sendo presos e que os aliados de Zuma no CNA parecem nervosos e desorientados (e aparentemente sob ameaça de prisão). Mas esta é uma narrativa antiga, que simplesmente faz o CNA ganhar tempo e permite que ele ganhe a próxima eleição. Enquanto isso, o CNA continuará a dar desculpas e promessas. A última década comprometeu o CNA internamente, e o partido se encontra ainda na mesma bagunça que estava sob Zuma. Muitos dos comparsas e ajudantes de Zuma podem ser encontrados dentro do partido, não oferecendo nada em termos de introspecção ou contrição. E o CNA não oferece uma nova visão para o país.

Parte do apelo da narrativa de renovação é o estado patético dos partidos de oposição da África do Sul e o rápido declínio da esquerda. Sem uma oposição crível no parlamento ou nas ruas, sob a forma de um movimento sindical forte e independente, o CNA, mais uma vez, parece a muitos como o único jogo na cidade, e Ramaphosa, o principal jogador.

E as perspectivas políticas de Ramaphosa parecem cor-de-rosa. Ele provavelmente vencerá a eleição do ano que vem e recuperará muitos dos votos perdidos por Zuma. Mas os problemas econômicos e sociais da África do Sul serão um desafio mais difícil.

21 de fevereiro de 2018

Nossos gritos de indignação quanto ao sítio de Ghouta soam ocos porque não faremos nada para salvar os civis

Como podemos protestar quando nada fazemos contra a oposição islâmica armada a Assad (não falo aqui do Estado Islâmico, EI) ou quando não tentamos sequer organizar nosso próprio cessar-fogo, mesmo com a ajuda da Rússia? Afinal de contas, há anos que nós armamos esta gente

Robert Fisk



Tradução / Abaixo, algumas realidades cruéis a propósito do sítio de Ghouta que foram enterrados sob verdadeiros entulhos cobertos de sangue, assim como pelas apocalípticas e hipócritas manifestações ocidentais de horror. É Sergey Lavrov, o ministro russo das Relações Exteriores, que enunciou a primeira e a mais importante destas realidades ao declarar segunda-feira que Moscou e o governo sírio "poderiam fazer com que Ghouta se beneficiasse com a experiência adquirida aquando da libertação de Alepo". Esta simples frase – que se pode traduzir por "é preciso tirar as lições de Alepo" – foi considerada pelas raras pessoas que lhe prestaram atenção como uma advertência de que Ghouta iria ser destruída.

Mas durante numerosos meses os russos e os sírios tentaram tudo para fazer os civis sírios saírem de Alepo Leste antes de retomá-la; depois disso as tropas sírias progrediram enormemente na periferia, havendo, com efeito, um êxodo dos inocentes e dos oponentes armados que também puderam partir. Muitos foram escoltados por policiais militares russos e com uniforme até a fronteira turca. Outros preferiram – sem dúvida sem terem refletido bem – partir sob escolta, com suas famílias, para Idlib, o grande "depósito" de combatentes islâmicos que, evidentemente, agora é por sua vez sitiado.

Aquilo de que Lavrov queria falar era um acordo semelhante com os rebeldes armados de Ghouta. Os russos e os sírios têm contatos diretos com aqueles que consideram como "terroristas" – uma palavra cara ao ocidente quando atacam os mesmos grupos islâmicos de Nusrah (al-Qaida) que os russos. Eis porque, quando o sítio do último distrito rebelde de Homs acabou no fim do ano passado, soldados russos em uniforme escoltaram os islâmicos armados e frequentemente encapuçados que estavam autorizados a partir para Idlib. Assisti a isso com os meus próprios olhos.

Os "rebeldes"/"terroristas"/"islâmicos"/"oposição armada" – escolha a lenga-lenga que quiser – são, naturalmente, a outra "realidade" do banho de sangue de Ghouta que devemos ignorar, passar sob silêncio, esconder, negar. Pois os combatentes do Nusrah em Ghouta – quer tenham ou não exercido pressões sobre os civis do arrabalde para que lhes servissem de "escudos humanos" – fazem parte do movimento inicial da Al-Qaida que cometeu crimes contra a humanidade nos Estados Unidos em 2001 e que frequentemente na Síria cooperaram com o EI, a seita diabólica que os Estados Unidos, a UE, a OTAN e a Rússia (acrescentar aqui todos os outros defensores habituais da civilização) prometeram destruir. Os aliados da Nusrah são o Jaish al-Islam, um outro grupo islâmico.

É uma situação estranha. Ninguém deve duvidar da vastidão do ataque a Ghouta. Nem do sofrimento do civis. Certamente, não se pode indignar-se quando os israelenses atacam Gaza (utilizando o mesmo argumento de "escudos humanos" que os russos hoje) e ao mesmo tempo desculpar o banho de sangue em Ghouta sob o pretexto de que os "terroristas" sitiados são islâmicos da Al-Qauida próximos do EI.

Mas estes grupos armados são curiosamente esquecidos quando exprimimos nossa indignação sobre a carnificina de Ghouta. Não há jornalistas ocidentais para os entrevistar – porque estes defensores de Ghouta cortariam as nossas cabeças (um fato que preferimos deixar em silêncio) se tivéssemos a audácia de entrar no arrabalde sitiado. E – fato incrível – nas imagens que recebemos não há um único homem armado. Isso não quer dizer que as crianças feridas, as crianças mortas ou os cadáveres ensanguentados – cujos rostos são devidamente "desfocados" pelos sensíveis chefes de redação das nossas televisões – não sejam reais ou que os filmes sejam falsos. Isso quer dizer que as imagens não mostram toda a verdade. Estes filmes – e aqueles que os fazem – evitam cuidadosamente mostrar-nos os combatentes da al-Nusrah que estão em Ghouta. E não há nenhuma probabilidade de que algum dia eles nos mostrem. 

Nos filmes arquivados de sítios passados – Varsóvia em 1944, Beirute em 1982, Sarajevo em 1992 – vêem-se os combatentes que defendiam estas cidades e vêem-se as suas armas. Mas quando se olham as imagens de Ghouta – ou a quase totalidade dos filmes provenientes de Alepo Leste – dir-se-ia que não há nenhum combatente armado. Nas nossas reações sobre os sofrimentos dos civis nos meios de comunicação americanos e europeus não encontrei a menor menção, além da menção de que Ghouta é "mantida pelos rebeldes". Quem portanto lançou um morteiro sobre o centro de Damasco e matou seis civis – e feriu 28 outros – há 24 horas? É pouca gente em relação a todos os mortos de Ghouta, claro. Mas será que eles foram mortos por fantasmas?

Trata-se de uma omissão importante, pois para acabar com este massacre de civis – acaba de haver mais 250 mortos – é preciso poder estabelecer com toda urgência um contato entre os sitiados armados e os atacantes armados. As declarações de Lavrov dos últimos dois dias sugerem que os russos haviam aceitado retornar ao estatuto de "desconflicção" ("deconfliction") de Ghouta, uma maneira bizarra de nomear um cessar-fogo permitindo enviar ajuda humanitária a Ghouta e fazer sair os feridos. Mas – segundo Lavrov, naturalmente – o al-Nusrah rompeu o acordo.

Verdade ou não, como podemos nós nos queixar quando não nos queremos ocupar nós próprios da oposição islâmica armada a Assad (não me refiro aqui ao EI), ou quando não temos qualquer intenção de organizar o nosso próprio cessar-fogo, mesmo com a ajuda da Rússia? Afinal de contas, eles armados desde há anos! Mas não faremos nada disso. Então torcemos as mãos com hipérboles cada vez mais hipócritas. 

No decorrer das últimas 48 horas, por exemplo – e chamo a vossa atenção acima – ouvimos os Estados Unidos, ONGs e médicos em contacto com os hospitais de Ghouta dizerem que o arrabalde é teatro de "crimes de guerra flagrante com dimensão épica", falarem de "último julgamento", de "massacre do século XXI", de "violência histérica" – o que será que isso quer dizer? – e, mesmo a pobre ONU, ela própria – dizer que isso "ultrapassava a imaginação" e que "faltavam-lhe as palavras".

Mais uma vez, sim, são os russos e os sírios a causa dos sofrimentos desumanos, abomináveis e aberrantes dos habitantes de Ghouta unicamente pela boa razão de se encontrarem neste lugar da Síria durante esta guerra. Mas os pequenos santos ridículos da burocracia onusiana – que, infelizmente, nunca terão falta de palavras – e aqueles que descrevem o sítio de Gotha como "o julgamento final" saberão ao menos do que falam? Mantenhamos o sentido das proporções, apesar das atrocidades. Auschwitz e o holocausto judeu e o genocídio de Ruanda e o holocausto armênio e os inumeráveis massacres do século XX (pode-se aqui recordar discretamente as perdas da Rússia às mãos das hordas hitlerianas) estavam muito mais próximos do "julgamento final" do que Goutha. Comparar este terrível sítio com os crimes contra a humanidade do século passado é desonrar os milhões de vítimas inocentes de crimes bem piores.

A verdade é que estas expressões de horror do "nosso" campo são substitutivas. Por que a ONU não foi "curta de palavras" no primeiro ano da guerra? Numerosas vítimas sírias ficaram sem palavras desde 2012, nomeadamente porque um grande número delas estava morta. As estatísticas que utilizamos sugerem que 400 mil civis estão presos ali. Pode-se perguntar se este é o seu número real. Haviam-nos falado, em 2016, que 250 mil pessoas estavam presas em Alepo mas soube-se a seguir que não havia mais do que cerca de 92 mil. Mas ainda era bastante para poder falar em crime de guerra. E se apenas 200 mil pessoas estivessem presas em Ghouta? Naturalmente, isso também seria uma catástrofe espantosa.

A realidade é que o sítio de Ghouta continuará até à rendição e à evacuação. Nenhuma das palavras que pronunciamos impedirá que este cenário sombrio se desenrole até o fim e todos nós o sabemos – ou pelo menos os guardiões dos nossos mais altos valores morais o sabem. Nada mudará sobre o terreno. E quando Ghouta "cairá" – ou será "libertada", como os sitiantes sem dúvida nos dirão – então começará a destruição da cidade de Idlib. E, mais uma vez, este será o julgamento final, uma "violência histérica" e o "massacre do século XXI" (provavelmente pior que os sítios de Alepo e de Ghouta). Nenhuma condenação ocidental impedirá o inelutável. Estamos em falência, gritamos nossa indignação sem a menor esperança – nem a menor intenção – de salvar inocentes. É assim, receio, a triste história de Ghouta tal como será relatado pelos historiadores. E o pior é que terão razão.

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