2 de fevereiro de 2018

A contra-revolução keynesiana

O que há no capitalismo que faz do keynesianismo um horizonte até mesmo para aqueles revolucionários potenciais que têm dificuldade com o que veem no passado? 

Mike Beggs

Tradução / Marx viveu tempo suficiente para se declarar “não marxista”. Keynes não teve tanta sorte. Os seus seguidores costumam fazer distinção entre “economia keynesiana” e “economia de Keynes”. De qualquer modo, daí em diante, a palavra transcendeu verdadeiramente o homem. Um nome não se torna um “ismo” apenas por causa do gênio. A sua obra tem que pegar e montar numa onda histórica; ora, muitas delas nunca foram apanhadas; porém, quando uma é pega começam logo a surgirem novas associações. O “keynesianismo” passou a se referir a gastos deficitários, regulação e estado de bem-estar social – três elementos que a Teoria Geral menciona de passagem, se é que o faz.

Geoff Mann está bem ciente das distinções entre Keynes – o homem e a sua obra – e o “keynesianismo”. Mas seu livro sobre o keynesianismo, A longo prazo estaremos todos mortos, trata deliberadamente mais do “ismo” do que do homem. Para Mann, Keynes não é nem mesmo o criador do keynesianismo; ele teria sido inventado por Hegel – “se este último não foi o primeiro keynesiano, foi pelo menos a sua encarnação anterior mais próxima dele”. Assim, dedica vários capítulos sobre Hegel antes de pôr o foco no próprio Keynes. Para Mann, o keynesianismo é uma constante da modernidade; como Keynes se tornou simplesmente um de seus formuladores mais capazes, o conhecemos por meio de seu nome. Embora não seja por acaso que as grandes filosofias políticas da sociedade capitalista contenham muita Economia, o próprio Keynes aparece no livro como um filósofo político que se tornou um economista.

Segundo Mann, o keynesianismo é uma posição política que existe desde a revolução francesa. “Quando um indignado Robespierre perguntou à burguesa Convenção de 1792: ‘Cidadãos! Vocês querem uma revolução sem revolução?’ Os keynesianos de então eram aqueles que, na ocasião, disseram para si mesmos: sim, obviamente; isto soa muito bem.”

O livro é dirigido aos socialistas, mas ao contrário do que muitos marxistas apreendem de Keynes, a meta não é expor o keynesianismo como contrarevolucionário. O objetivo central é entender porque o capitalismo faz do keynesianismo um horizonte político até mesmo para revolucionários potenciais – inclusive o próprio Mann, ele mesmo admite – que têm dificuldade com o que veem no passado. Não se trata tanto de um bloqueio ideológico quanto de uma questão de estratégia.

Um filho rebelde do liberalismo 

O keynesianismo, tal como o vê Mann, é distinto do liberalismo, sem deixar de ser um ramo da tradição liberal. Tal como o liberalismo, vê o capitalismo moderno como a forma mais alta de civilização. Se ainda não é uma utopia realizada, mantém o potencial para realizá-la, pois contém a tendência de aumentar continuamente a produtividade. A visão de Keynes sobre o futuro inclui a semana de trabalho de quinze horas (mencionada em Possibilidades econômicas para nossos netos) e a “eutanásia do rentista” (postulada na Teoria Geral) – não por meio da guilhotina, mas por meio do sucesso da acumulação de capital. O capital se acumulará até o ponto em que deixará de ser escasso, quando então os ricos que o monopolizam deixarão também de obter dele qualquer retorno. A utopia keynesiana mantém as boas coisas do capitalismo - a “eficiência das decisões descentralizadas, assim como a responsabilidade individual” – sem as suas maldades, isto é, sem “o fracasso no provimento do pleno emprego, sem a distribuição arbitrária e desigual de riqueza e de renda”. O período em que certas pessoas obtêm renda simplesmente porque possuem riqueza é “uma fase transitória que desaparecerá quando todo o desenvolvimento já tiver acontecido”. A vinda da utopia “não ocorrerá de modo súbito, mas será alcançada apenas de maneira gradual, por meio de um prolongamento do que se tem visto recentemente na Grã-Bretanha, sem a necessidade de qualquer revolução”.

O keynesianismo, porém, afasta-se do liberalismo clássico ao não ver a sociedade liberal como natural ou autossustentável. Se permanece nos trilhos, ela se move no rumo da utopia, mas o capitalismo tende a descarrilar-se. Na Teoria Geral, Keynes explora uma dimensão dessa característica – a tendência para o investimento cair abaixo do nível necessário para manter o pleno emprego. Contudo, esse é apenas um exemplo de uma temática mais ampla contida no trabalho de Keynes – e no keynesianismo de forma mais geral. A saúde do capitalismo depende de uma gestão política deliberada que vá muito além dos deveres noturnos de proteger a propriedade. Parte dela pode não ser muito invasiva – por exemplo, a administração pelo banco central da taxa de juros –, mas também pode exigir nada menos do que “uma socialização um tanto abrangente do investimento”. (Keynes era vago sobre o que ele quis dizer com isso; certamente não se tratava da tomada dos meios de produção; no mínimo, entretanto, acreditava que a quantidade de investimento em um determinado período deveria ser decidida pelos formuladores de políticas.)

O capitalismo precisa de ajuda para permanecer nos trilhos em que, de certo modo, já se encontra: ele não pode ser conduzido para qualquer lugar. O modo de gerenciamento que ele requer não depende da vontade dos gerentes; depende da estrutura da própria economia. Ele não precisa apenas de gerenciamento, mas de um gerenciamento especializado – e isso tem duas grandes implicações.

Primeiro, ele rompe com o compromisso do liberalismo clássico com o laissez-faire. O entusiasmo liberal com a escolha individual sempre foi, como afirma Mann, “restringido por uma série de qualificações ad hoc”; o keynesianismo, porém, vai além já que sustenta que a liberdade individual em geral depende de que não se torne absoluta. A política deve restringir algumas liberdades para defender a Liberdade. A livre iniciativa deixada a si mesma tende a gerar pobreza, desigualdade e desemprego. Se estes males saem do controle, há um risco real de que uma rebelião política produza algo muito pior do que a burocracia.

Em segundo lugar, há a tensão com a democracia. Os pluralistas liberais veem o sistema político democrático como uma forma de enfrentar e de gerenciar os conflitos sociais e as insatisfações que o capitalismo produz. Os interesses são canalizados para a política, ficando assim obrigados a entrar em compromissos, de tal modo que as dificuldades vão sendo assim resolvidas, uma a uma. Mas, para Keynes, não há motivos para acreditar que a representação política dos interesses possa realmente resolver os problemas subjacentes. Como os problemas econômicos são complexos e como as suas soluções são delicadas, eles exigem capacidades especializadas. Em consequência, mesmo os compromissos políticos bem balanceados podem se afastar da solução realmente exigida pelo problema em mãos. Os concorrentes – ou seja, os partidos e seus eleitores – muitas vezes entendem mal as causas das dificuldades. Keynes, diz Mann, “não era definitivamente um democrata, pois qualquer aproximação maior com a soberania popular era em sua opinião antitética aos interesses de longo prazo da civilização”.

Ele disse explicitamente que “os burgueses e os intelectuais, apesar das falhas eventuais, estão melhor qualificados na vida social; eles portam seguramente as sementes de todo avanço humano”. Em outras palavras, ele perfilava com os burgueses não por seu papel de capitalistas ou de rentistas, mas porque eram pessoas devidamente socializadas e cultas. A longo prazo, é possível ampliar a educação e os privilégios de forma mais ampla, mas dar às massas agora o que pensam que querem põe em risco esse futuro.

Claramente, o keynesianismo definido dessa maneira não apenas se constitui num afastamento em relação ao liberalismo clássico, mas contribui também para um reposicionamento do liberalismo moderno. O centro político, atualmente, afasta-se das posições próximas ao liberalismo clássico – tais com a crença na estabilidade básica e na justiça do mercado – para abrigar uma gerência tecnocrática, infletida no sentido proposto por Keynes. Mann localiza as raízes desse espírito gerencial atual nas ideias macroeconômicas que se iniciaram com Keynes; nota especificamente que houve um recuo do “pleno emprego” para a “taxa natural de desemprego”: “exceto por meio de um acordo fascista ou autoritário, o capitalismo tem de ter desemprego. Deve permitir (nas palavras de Keynes) um empobrecimento suficiente e consistente”.

Liberalismo ou Barbarismo

Mann reserva o termo “keynesianismo” propriamente para uma postura de centro-esquerda, não socialista – um reformismo mais ou menos amplo. Mas o que pensa sobre o lado esquerdo do keynesianismo? Mann está bem à esquerda da atitude centrista do keynesiano:

(...) é um erro grave dos “progressistas” ou “radicais” tomar o medo das massas próprio das elites liberais ou capitalistas, como se ele fosse, de alguma forma, no fundo, medo de “nós” ou de “nossas ideias” (...) Contra tudo o que merece o nome de marxismo, os liberais acreditam que um uso científico de seu poder é capaz de lhes fornecer as ferramentas para mantê-lo para sempre. O corolário desta avaliação não é que, se falharem, o proletariado ou os 99 por cento ou a multidão irá se levantar (...). Mas sim que, se a sociedade civil burguesa cair, cairão também todos e tudo mais. Toda a ordem social a acompanhará nessa queda.

Em outras palavras, os keynesianos veem o socialismo como tolo e não como assustador. Eles não estão realmente preocupados com o seu sucesso, porque eles não pensam que ele possa funcionar. O que eles estão preocupados é com o “populismo”. Eis que este explora o descontentamento para minar a ordem existente, para bloquear a mudança racional. Ele não propõe soluções coerentes para os problemas que enfrenta; na melhor das hipóteses obstrui e quebra o ímpeto revolucionário.

O esquerdismo irrita os keynesianos – pelo menos quando este tem alguma popularidade – porque eles o veem como equivocado e desestabilizador. Keynes “não temia os radicais da classe trabalhadora por sua paixão igualitária pela justiça social. Na verdade, ele guardava de modo paternalista um bom lugar para eles. O que ele temia era a desordem social e a demagogia sempre gerada – criada – por tais políticas igualitaristas, assim como o reacionarismo involuntário em que sempre transforma – acreditava também – tal radicalismo”.

O engraçado é que, embora o esquerdismo repila os keynesianos, a repulsão não é mútua. O keynesianismo atrai os esquerdistas. O argumento de Mann examina aqui o longo caminho da crítica marxista usual do keynesianismo como sendo apenas uma sirene do reformismo ou um baluarte da contrarevolução. O autonomista Antônio Negri, por exemplo, afirmou que “a classe trabalhadora britânica aparece nos escritos de [Keynes] em toda sua autonomia revolucionária”; e que Keynes, por isso mesmo, planejou um remédio para o “antagonismo inerente da classe trabalhadora” que era mais sutil e mais eficaz do que a repressão autoritária das “classes dominantes imaturas”.

Mann vê tolice nessa opinião: mesmo se houvesse tal “antagonismo inerente” no capitalismo do século XX, “uma revolução proletária com consciência de classe que lutasse pelo comunismo na Europa Ocidental ou na América do Norte seria uma das coisas mais improváveis de se realizar”. Além disso, “qualquer coisa que se aproxime do que o Negri entende por “comunismo” teria parecido à Keynes e à Hegel como o menor de vários males”.

Em outras palavras, à medida que o keynesianismo salvou o capitalismo, ele o fez da barbárie e não do socialismo. E muitos esquerdistas são atraídos pelo keynesianismo porque, no fundo, também acreditam nisso. A maioria perdeu a confiança de que existe um caminho político viável para o socialismo; enquanto isso as ameaças da direita, com matizes variados, seguem-se uma após outra. Apesar das tendências antidemocráticas do keynesianismo, os socialistas de hoje dificilmente também se veem articulando as visões das massas.

O que Mann chama de “aposta marxista” sempre envolveu lances muito altos, com chances cada vez mais distantes: os marxistas sabem, por um lado, que uma revolução teria de atravessar o abismo entre o mundo como está e o mundo como deveria estar, mas, por outro lado, sabem também que as revoluções podem facilmente falhar, tornarem-se corrompidas, sangrentas, capazes de deixar as coisas piores do que teriam sido. Caso os marxistas ainda acreditassem que a lógica da história estava do seu lado, então “a aposta radical – o salto mortal – estaria baseado na garantia de que, por mais que demorasse, a luta implacável acabaria por ser recompensada”. O prêmio viria, em outras palavras, no longo prazo. Mas, “por razões tanto materiais quanto ideológicas, tal garantia não está mais presente atualmente, podendo, inclusive, nunca mais vir a estar outra vez. Assim, quaisquer apostas radicais feitas em face do capitalismo, do liberalismo e de suas formas ocasionais fascistas e totalitárias, enfrentarão a possibilidade muito real de que foram feitas em vão (...) Ora, isto parece ter tornado o keynesianismo mais sensato do que nunca”.

Mann admite que, no início, procurou escrever uma denúncia tradicional do keynesianismo tomando-o como ópio reformista, mas acabou ao longo do trabalho descobrindo em si mesmo “um relutante, e até mesmo um reprimido, keynesiano”. No entanto, Keynes – ele sugere – pode ser invertido, como Marx inverteu Hegel. Há um “núcleo radical no coração do keynesianismo” que os socialistas poderiam extrair. O livro não deixa claro o que isso significa na prática – ele termina por meio de uma nota vaga, a qual indicaria que Mann estava em dúvida sobre se ele próprio não amadurado como um reformista covarde: “o marxista nele existente deve sugerir o que deve ‘escolher’. E, nas palavras de Lênin, apenas um covarde envergonhado escolherá Keynes.”

Porém, o que a outra opção implica hoje em dia? A aposta marxista ainda está aberta? Mesmo estando dispostos a acolhê-la, onde exatamente seria colada a aposta? A pergunta parece sugerir que os socialistas poderiam recomeçar o 1917 assim que o desejassem, mas a escolha realista hoje consiste em decidir passar ou não os fins de semana tentando vender jornais em manifestações. Há muito tempo, a escolha dos socialistas tem sido pertencer a uma pequena seita impotente ou compartilhar a impotência dentro de um partido dominante que caminha para o centro.

Atualmente, não existe uma base óbvia para um movimento revolucionário de massa no qual seria possível apostar. Parece haver, no entanto, o início de um verdadeiro avivamento da socialdemocracia. Grande parte dos militantes da nova socialdemocracia é constituída por pessoas que se consideram mais à esquerda do que sugerem as posições assumidas por eles; no entanto, mesmo assim, seguem os seus instintos políticos acompanhando as vias abertas pelos surpreendentes Sanders e Corbyn. Alguns lamentam que o “socialismo” tenha sido assim rebaixado. Marx se queixou uma vez da responsabilidade dos trabalhadores alemães de fazerem uma revolução liberal porque a burguesia não estava à sua altura; ora, agora, parece ser tarefa dos socialistas fazer reaparecer a socialdemocracia.

O livro de Mann foi escrito muito cedo para que Sanders e Corbyn nele aparecessem, mas, mesmo assim, parece ter sido assaltado por uma premonição. Os programas de suas campanhas são keynesianos no sentido de Mann, mas a intuição dos radicais em suas fileiras é correta: ambos poderiam, potencialmente, trazer de volta uma situação em que a aposta marxista poderia ser feita de novo. Enquanto o keynesiano comum quer fortalecer o sistema, procura apenas uma política racional para estabilizá-lo, removendo assim os seus piores defeitos, o keynesiano radical aprendeu as lições do destino da socialdemocracia do século XX.

O pleno emprego acaba por ser um estado instável no capitalismo, pois ele reforça o poder econômico dos trabalhadores e alimenta as tendências inflacionistas que politizam a distribuição. Claro, qualquer programa de reforma que deixa o controle dos meios de produção em mãos privadas é vulnerável ao poder econômico e político do capital. Porém, é nesse ponto que a aposta marxista realmente vem ao caso, porque há agora uma escolha política real: impulsionar a expropriação do capital ou recuar.

A primeira escolha ainda seria uma grande aposta, ainda que com grande potencial de desastre e desilusão. Mas ainda assim parece ser a melhor opção. A de recuo, que pareceu politicamente mais seguro da última vez, produziu o seu próprio tipo de desastre.

Sobre o autor

Mike Beggs é editor e conferencista em Economia Política na Universidade de Sydney, Austrália.

Nenhum comentário:

Postar um comentário