27 de setembro de 2013

Seymour Hersh sobre Obama, NSA e a "patética" mídia americana

O vencedor do Prêmio Pulitzer explica como corrigir o jornalismo, dizendo que a imprensa deve "queimar 90% dos editores e promover aqueles que você não pode controlar"

Lisa O'Carroll

The Guardian

Seymour Hersh tem algumas idéias extremas sobre como corrigir jornalismo - fechar as agências de notícias NBC e ABC, demitir 90% dos editores e voltar para o trabalho fundamental dos jornalistas que, segundo ele, é ser um outsider.

Não é preciso muito para incendiar Hersh, jornalista investigativo que tem sido a nêmese dos presidentes dos EUA desde os anos 1960s, quando escreveu que o Partido Republicano é “o parente mais próximo, dentro do jornalismo dos EUA, de um grupo terrorista”.

Vive enfurecido ante a timidez dos jornalistas nos EUA, o fracasso do jornalismo que não confronta a Casa Branca e não consegue ser mensageiro impopular da verdade.

Para Hersh, o New York Times “gasta mais dinheiro para promover Obama do que jamais pensei que fosse possível”. E enfurece-se ante qualquer referência a morte de Osama bin Laden. “Nenhum jornal, nenhum jornalista, ninguém, na imprensa-empresa dos EUA, moveu uma palha para desmascarar aquela mentira gigante. Tudo, ali, é mentira. Não há, na história contada sobre a morte de bin Laden, sequer uma palavra que seja verdade” – diz ele, sobre o dramáticoraid dos SEALS da Marinha dos EUA em 2011.

Hersh está escrevendo um livro sobre segurança nacional e dedica um capítulo ao assassinato de bin Laden. Diz que matéria recente, publicada por uma comissão paquistanesa “independente” sobre o complexo, em Abottabad, no qual Bin Laden foi cercado, não resiste a análise séria. “Nem quero começar a falar sobre o relatório dos paquistaneses! Digamos o seguinte: foi redigido com “apoio” norte-americano. É lixo. Não vale nada”. Para mais informação, teremos de esperar pelo livro.

O governo Obama mente sempre, sistematicamente, diz ele. Mas ninguém dos leviatãs da imprensa-empresa nos EUA o confronta, nem a televisão, nem os jornais, ninguém.

“É jornalismo patético. Os jornalistas são servis, obsequiosos, os jornalistas têm medo daquele cara [Obama]” – disse Hersh, em entrevista ao The Guardian.

“Antes, quando se tinha uma situação em que algo muito dramático aconteceu e o presidente e seu círculo de puxa-sacos controlavam a narrativa, sabia-se que algum jornalista trataria de trabalhar o mais possível para divulgar a verdadeira história. Hoje, não mais. Aproveitam o que o poder diga e tratam exclusivamente de reeleger o presidente.

Ele duvida, até, de que as recentes revelações sobre a profundidade e o alcance do estado de vigilância, imposto ao país pela Agência de Segurança Nacional dos EUA tenham algum efeito ou consequências duradouros.

Snowden mudou o debate sobre a vigilância

Ele não tem dúvidas de que Edward Snowden, que vazou segredos da Agência de Segurança Nacional “mudou completamente a natureza do debate” sobre o estado de vigilância. Diz que ele e outros jornalistas já haviam escrito sobre a vigilância, mas Snowden mudou o jogo, porque exibiu provas documentais irrefutáveis – mas ele não tem qualquer esperança de que as revelações venham a mudar a política do governo dos EUA.

“Duncan Campbell [jornalista investigativo britânico, que revelou a verdadeira história e desmascarou a Zircon], James Bamford [jornalista norte-americano] e Julian Assange e eu e a revistaNew Yorker, todos já havíamos escrito sobre a existência de vigilância constante, mas Snowden exibiu o documento. Isso mudou a natureza do debate: agora é fato” – diz Hersh.

“Editores adoram documentos”. “Editores acovardados, que jamais publicariam matérias como essas, só se deixam convencer por documentos”. “Os documentos de Snowden, sim, conseguiram mudar o jogo” – mas, na sequência, ele fala de suas poucas esperanças.

“Não sei se tudo isso significará alguma coisa no longo prazo, porque as pesquisas que tenho visto nos EUA... Basta que o presidente pronuncie as palavras “al-Qaeda, al-Qaeda”, para os eleitores aprovarem, com proporção de 2:1, qualquer tipo de vigilância. É reação perfeitamente idiota”.

Holding court to a packed audience at City University in London's summer school on investigative journalism, 76-year-old Hersh is on full throttle, a whirlwind of amazing stories of how journalism used to be; how he exposed the My Lai massacre in Vietnam, how he got the Abu Ghraib pictures of American soldiers brutalising Iraqi prisoners, and what he thinks of Edward Snowden.

Hope of redemption

Despite his concern about the timidity of journalism he believes the trade still offers hope of redemption.

"I have this sort of heuristic view that journalism, we possibly offer hope because the world is clearly run by total nincompoops more than ever … Not that journalism is always wonderful, it's not, but at least we offer some way out, some integrity."

His story of how he uncovered the My Lai atrocity is one of old-fashioned shoe-leather journalism and doggedness. Back in 1969, he got a tip about a 26-year-old platoon leader, William Calley, who had been charged by the army with alleged mass murder.

Instead of picking up the phone to a press officer, he got into his car and started looking for him in the army camp of Fort Benning in Georgia, where he heard he had been detained. From door to door he searched the vast compound, sometimes blagging his way, marching up to the reception, slamming his fist on the table and shouting: "Sergeant, I want Calley out now."

Eventually his efforts paid off with his first story appearing in the St Louis Post-Despatch, which was then syndicated across America and eventually earned him the Pulitzer Prize. "I did five stories. I charged $100 for the first, by the end the [New York] Times were paying $5,000."

He was hired by the New York Times to follow up the Watergate scandal and ended up hounding Nixon over Cambodia. Almost 30 years later, Hersh made global headlines all over again with his exposure of the abuse of Iraqi prisoners at Abu Ghraib.

Dar tempo ao tempo

Para os estudantes de jornalismo, a mensagem de Seymour Hersh é “deem tempo ao tempo, e andem”. Hersh já sabia da tortura de prisioneiros em Abu Ghraib cinco meses antes de poder escrever e publicar as denúncias, porque recebeu informes de um oficial do exército do Iraque que arriscara a vida numa viagem de Bagdá a Damasco para encontrar-se com Hersh e contar que havia prisioneiros que estavam escrevendo às famílias pedindo que viessem visitá-los para matá-los, porque haviam sido “desonrados”.

“Passei cinco meses à procura de alguma prova, porque, sem algum documento não havia notícia, e o que eu escrevesse seria desmentido facilmente”.

Hersh volta a falar do presidente Bush dos EUA. Disse antes que a confiança da imprensa-empresa norte-americana para desafiar o estado e o governo dos EUA entrou em colapso depois do 11/9, mas afirma, sem vacilar, que Obama é pior que Bush.

“Você acha que Obama está sendo avaliado por algum padrão racional? Guantánamo foi fechada? Alguma guerra acabou? Alguém está prestando atenção ao que está acontecendo no Iraque? Alguém diz coisa com coisa sobre o que está acontecendo na Síria? Os EUA, nesse momento, estão fracassando nas 80 guerras em que estão metidos. Por que, diabos, Obama quer meter-nos em mais uma guerra? E os jornalistas? Estão fazendo O QUÊ?” – pergunta ele.

Para ele, o jornalismo investigativo nos EUA está sendo assassinado pela crise de confiança, falta de recursos e por uma ideia errada do que seja o serviço jornalístico.

“A impressão que tenho é que há gente demais à caça de prêmios. É jornalismo que só visa ao Prêmio Pulitzer” – diz. – “É um pacote. Basta selecionar um tema (não quero diminuir os que trabalhem), mas basta escolher um tema, como segurança para atravessar as ruas ou coisa do tipo. Não quero dizer que isso não interesse, mas há outras questões sobre as quais absolutamente ninguém investiga”.

“Assassinato de civis, por exemplo. Como é possível que Obama continue a safar-se de críticas, ao mesmo tempo em que mantém o programa de assassinatos premeditados, por drones? Por que ninguém lhe pergunta sobre isso? O que o presidente tem a dizer em sua defesa? Por que não insistimos mais nessa investigação? Com que tipo de inteligência o presidente está operando? Por que ninguém abre a discussão sobre esse programa? Por que não descobrimos e divulgamos dados reais? Por que ninguém até hoje disse, pelos jornais, que se trata de assassinato premeditado apresentado como se fosse prática legal? Por que os jornais só fazem repetir dados de um ou dois grupos, sempre os mesmos, que monitoram a matança por drones? Por que nenhum jornal ou jornalista investiga diretamente os fatos, as fontes?”.

“O trabalho jornalístico não é apenas repetir que há um debate. Nosso serviço é ir além do debate como ele aparece e descobrir quem diz a verdade e quem mente, em todos os debates. Isso é o que já ninguém faz. Porque esse trabalho é caro, custa dinheiro, exige tempo, implica riscos. Ainda há uns poucos jornalistas de investigação – no New York Times, por exemplo. Mas os jornalistas só investigam para bajular o governo, mais do que jamais imaginei que fosse possível.

É como se mais ninguém tivesse coragem de pensar fora do padrão (patrão) dominante, e só”.

Diz que, em vários sentidos, era mais fácil escrever sobre o governo do presidente George Bush. “A era Bush, acho que era mais fácil criticar o governo, que hoje, no governo Obama. No governo Obama é muito mais difícil” – diz Hersh.

Para ele, os editores são covardes, e têm de ser demitidos.

Hersh tampouco entende por que o Washington Post segurou os arquivos que recebeu de Snowden e talvez nem os tivesse publicado, se não chegasse a informação de que o The Guardian se preparava para publicar tudo.

Se Hersh mandasse na empresa “Mídia Norte-americana Inc.”, sua política de terra arrasada não pararia na demissão de editores. “Eu fecharia também todas as agências de notícias de todas as redes. Fecharia tudo. Tabula rasa. Para começarem do zero. As grandes NBCs, ABCs, não gostariam da minha ideia. Nesse caso, que recomeçassem, que fizessem qualquer coisa melhor do que o que fazem hoje, qualquer coisa”.

Atualmente, Hersh não está trabalhando como repórter: está preparando um livro que com certeza nenhum jornalista gostará de ler, ou que os jornalistas provavelmente apreciarão tão pouco quanto Bush e Obama.

“A república está em perigo, nos EUA. Mente-se demais, mente-se, pelos jornais e noticiários sobre tudo e todos. A mentira virou o gancho”. E suplica que os jornalistas façam algo contra esse estado de coisas.

26 de setembro de 2013

Putin ao Resgate

David Bromwich

London Review of Books


Tradução / A insurgência contra o governo na Síria foi induzida a uma inebriante visão de triunfo, ao ouvir o que o presidente Obama disse em agosto de 2011, que foi traduzido, acertadamente, na manchete “Assad tem de sair”. Antes, Obama já emitira mensagens semelhantes: “Mubarak tem de sair” e “Gaddafi tem de sair”. Obama pode talvez se ter metido na cabeça a ideia de que desempenhava papel benigno na Primavera Árabe – mostrando-se “do lado certo da história” (como ele gosta de dizer). “Assad tem de sair” soou também como se o presidente tivesse incorporado o espírito de George W. Bush; mas talvez não. Obama tem uma queda pelo pouco caso, ou por tolices ditas como se fossem frases solenes para a história, com as quais bem faria se começasse a se preocupar. Em fevereiro de 2010, no auge da pressão para que seu governo agisse contra os "banksters" responsáveis pelo colapso financeiro de 2008, Obama respondeu uma pergunta sobre os CEOs Lloyd Blankfein (do Banco Goldman Sachs) e Jamie Dimon (de J.P. Morgan Chase): "Conheço esses dois caras: são homens de negócios muito bem informados." Era Obama tentando provar a si mesmo que estava “por dentro”, confortável naquele ambiente, suficientemente próximo de Wall Street, para impressionar um dos lados; mas suficientemente distanciado, para merecer a confiança dos eleitores. Não funcionou. O comentário valeu-lhe um grau a menos de confiança dos eleitores e livrou os culpados de boa dose de um saudável medo. Este verão, depois de encontro insatisfatório com Vladimir Putin, Obama disse: "Eu sei que a imprensa gosta de se concentrar na linguagem corporal, e ele tem esse tipo de desleixo, parecendo o garoto entediado no fundo da sala." É frase que até se pode arquivar para as Memórias, supondo que alguém a ache esperta e digna de nota – mas imprópria, vinda de um estadista que descreva outro líder mundial.

Já transcorridos 56 meses de governo Obama, não cabem dúvidas de que Barack Obama gosta de falar. Pensa que os americanos e outros anseiam por ouvir o que ele tenha para dizer, e sobre vários assuntos; conforme essa sua percepção, ele disse, em agosto de 2012, sobre a guerra civil na Síria: "Uma linha vermelha para nós é se começarmos a ver quantidades de armas químicas movidas de cá para lá ou sendo usadas. Isso mudaria meu cálculo." Em março, a versão era outra, para a mesma declaração: o uso de armas químicas por Assad “muda o jogo”. Dois comentários nada diplomáticos. Quem estivesse interessado em empurrar os EUA para mais guerras não diria melhor, nem mais claramente, dos próprios interesses. Quando surgiram algumas evidências de que se usaram armas químicas na Síria, esse ano, primeiro em março, perto de Aleppo, depois em agosto, perto de Damasco, as forças que pressionam a favor do envolvimento dos EUA exigiram, imediatamente, mudança de política. Quem são essas forças? Uma das maiores e das quais menos se fala nos EUA sempre foi a Arábia Saudita. Se é preciso fornecer armas e dinheiro a jihadistas para enfraquecer a Síria e, por essa via, enfraquecer também o Irã, os sauditas sempre se mostram dispostos a fazer tudo isso. Turquia e Qatar também apoiam os jihadistas, contando com auferir vantagem política; e a Israel interessa prolongar a guerra, mas sem deixar que a vitória penda para os jihadistas. Assim Israel brilha com renovado fulgor como único parceiro com que os EUA contam, numa região que vai sendo cada vez mais devastada. Uma matéria publicada pelo New York Times no dia 5 de setembro noticiava manifestação de um ex-diplomata israelense, sobre os jihadistas e o exército sírio: "Que sangrem os dois, hemorragia até a morte: por aqui, esse é o nosso pensamento estratégico. Enquanto continuarem assim, não haverá real ameaça síria."

Depois que emergiram notícias do uso de armas de gás em março, Obama concordou, pela primeira vez em público, com mandar armas norte-americanas para apoiar grupos “do bem” dentro da insurgência na Síria. Depois do incidente de agosto, no qual se registraram mais mortes, Obama anunciou sua conclusão de que Assad ordenara os ataques e que mísseis norte-americanos não tardariam a “punir” a infração atacando alvos significativos do Estado. Ao mesmo tempo, Obama insistia que não queria alterar o rumo da guerra, com a intromissão da força bélica dos EUA. Seu plano não iria além de um bem merecido castigo. Esta formulação parecia trair sua contínua relutância; também mostrava que Obama pode ser levado a agir contra suas inclinações e, mesmo assim, consegue acomodar a coisa aos seus próprios padrões morais.

Não há dúvidas de que houve um ataque. Ninguém sabe ainda, com razoável certeza, quem o ordenou. Assad poderia ter ordenado, mas, dado que estava em vantagem na guerra e o movimento seria suicídio, não se entende como Obama concluiu o que concluiu. Diz-se que os rebeldes não teriam competência técnica para usar o gás, mas há notícias de que estavam de posse de armas químicas; a ideia de uma operação forjada, de provocação, e bem-sucedida, exigiria alto grau de perversão e talento dissimulatório que também são difíceis de aceitar. O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, obscureceu a discussão no final de agosto, quando, primeiro, pediu inspeção do local por inspetores da ONU; e logo depois os alertou para que saíssem de lá, porque os EUA bombardeariam tudo imediatamente. A coisa trouxe de volta ecos de Bush no Iraque em 2003, e Kerry tratou de cancelar a própria ordem; mas, surpreendentemente, declarou que nada do que os inspetores da ONU descobrissem faria, para ele, qualquer diferença.

As quatro páginas de um resumo do “relatório de inteligência”, não sigiloso, que Kerry distribuiu para divulgação pública – e, segundo avaliação do congressista Alan Grayson, o relatório completo, 12 páginas, sigiloso, nada dizia de diferente disso – falam do ponto de vista de “Nós [o governo dos EUA]”. A razão desse uso pouco usual das fórmulas gramaticais é clara: o tal documento não foi produzido pela inteligência dos EUA. Gareth Porter, jornalista de Inter Press Service, examinou as pontas soltas, os “informes” vagos e genéricos, as omissões, as distorções gramaticais reproduzidas na fala de Kerry e concluiu que a ausência de assinatura de James Clapper naquele “relatório” é detalhe muito significativo. Clapper evidentemente se recusou a assinar, porque os dados haviam sido apenas alinhavados uns nos outros, sem qualquer investigação ou trabalho de inteligência (como os dados que Colin Powell apresentou na ONU, em fevereiro de 2003). Kerry falou de precisas 1.429 mortes no ataque de agosto; mas não há dado algum que confirme esse número, que varia muito nos relatos de primeira mão: a inteligência francesa estimou 281 mortos; os Médicos Sem Fronteiras, 355. Em menos de uma semana o “relatório” de Kerry foi desqualificado e desacreditado, mas nem a imprensa, nem o establishment político foram informados disso. Apoiado só em inferências forçadas e pressupostos, dos quais a melhor “pista” era uma comunicação interceptada – gravação de uma fala de um muito perturbado suposto comandante de forças sírias, entregue aos EUA pela inteligência israelense – Obama declarou sua intenção de ordenar um ataque. Em seguida, pediu autorização ao Congresso, para usar força militar e queria poderes para agir como entendesse necessário, para “responder a”, “deter” e “degradar” as capacidades militares e defensivas do governo sírio. Todas essas são palavras sem significado preciso, e foram escolhidas por essa razão. Em grau muito curioso, o pedido de Obama ao Congresso em setembro de 2013 é parecido com o pedido de Bush, para o mesmo fim, em outubro de 2002.

A conversa sobre “punir” Assad é toda ela marcada por uma posição de disciplina parental; não traz qualquer traço semântico da linguagem especializada do Direito Internacional. Não aconteceu por acaso. País que ataque estado soberano, sem agressão prévia, viola leis do Direito Internacional. Quanto a “punições”, até pode acontecer de um governo punir legalmente os próprios cidadãos, mas não é relação possível entre dois países. Um exemplo simples: um pai pode dizer ao filho “Vá para o seu quarto”. Mas ninguém pode dizer a um vizinho indesejável “Você tem de sair”. Obama confunde-se e atrapalha-se, de modo que parece bem genuíno, sempre que se trataria de não ultrapassar a importantes linhas vermelhas dos discursos e das palavras. Anda de um lado para o outro, com excessivo à vontade. No início da crise, tentou armar um estratagema retórico em torno da lei: os EUA e seus aliados, ao punir um ataque a gás contra sírios, que sem dúvida possível fora ordenado pelo presidente da Síria, estaria “fazendo valer normas internacionais”.“Normas internacionais” é expressão que, ultimamente, se ouve por toda parte. Um mundo sem normas (parece ser a implicação inevitável) é mundo em caos. Uma vez que a Rússia não levantaria o veto na ONU e confiado no que lhe diziam franceses e britânicos e o seu próprio governo... quem faria valer as normas internacionais? Quem, se não os EUA?

Muitas forças dentro da política norte-americana operaram para pressionar Obama em direção da guerra. Uma dupla de senadores Republicanos, Lindsey Graham e John McCain, ganharam extraordinário destaque nos veículos da imprensa-empresa, como especialistas em política externa. Comandaram a ala militarizada do Partido Republicano, apesar até da defecção de renegados do Tea Party e libertaristas free lance. E muitos Democratas guardaram para si as próprias dúvidas, para não parecer que se opunham ao presidente. Só quando a Câmara dos Comuns britânica votou contra, afinal a política de guerra dos EUA balançou. O presidente e equipe foram profundamente perturbados pelo resultado daquela votação. O povo e seus representantes respiraram fundo; e a política de guerra dos EUA começou a ser mais amplamente questionada. Que sentido teria o tal ataque “limitado e adequado” [orig. “limited and tailored”] (frase típica de Obama) que simultaneamente aplicaria golpe inesquecível ao “ditador” alvo?

Essa apresentação autocontraditória foi devida em parte a outra das forças que exigiam “castigo” americano ao sírio, a saber, os pregadores de guerra humanitária, e à líder deles, a assessora para segurança nacional de Obama, Susan Rice. A posição dela em pouco difere da antecessora, Condoleezza Rice (não são parentes), mas as duas desenvolveram suas credenciais internas por vias distintas: Condoleezza Rice, como acadêmica especializada em estratégia soviética; Susan Rice, num processo de ascensão dentro da elite política, com uma muito proclamada vocação de consciência para impedir “outra Rwanda”. A campanha doméstica a favor de ataque norte-americano aos sírios foi marcada por uma notável novidade vinda dos agentes promotores de guerra humanitária: mensagens de Twitter, enviadas por Rice e pela embaixadora dos EUA à ONU, Samantha Power, para promover também pelo lado de fora os objetivos pelos quais trabalhavam dentro do governo.

Todas elas são nomes que Obama nomeou recentemente e pelas quais expressou admiração. Mas, ao obedecer a elas e a um novo discípulo delas, recém conquistado, John Kerry, Obama passava a ignorar outra vozes dentro do governo, que teriam enorme peso. Todos os comandantes militares do Estado-Maior das Forças Armadas opunham-se à intervenção na Síria. O chefe dos chefes do Estado-Maior, general Martin Dempsey, já vinha dizendo há meses por que considerava perigoso o ataque. Que para nada serviria, exceto para prolongar a guerra civil; e que exporia bens norte-americanos na região à retaliação, no Afeganistão, na Líbia, por toda a parte. (Susan Rice comandou a campanha para que os EUA, com a OTAN, derrubassem o governo na Líbia. É possível que Obama ainda suponha que a guerra da Líbia tenha sido um sucesso, mas é ilusão só sua, da qual não partilham nem as forças armadas nem o serviço diplomático norte-americano). O depoimento de Dempsey ao Senado e à Câmara de Representantes foi feito com talento, mas, se visava a tranquilizar alguém, teve resultado oposto: a certa altura, o general recusou-se a prever efeitos futuros de algum ataque limitado; e o secretário de Defesa, Chuck Hagel, não conseguiu disfarçar as próprias emoções e respondeu a tudo como se não acreditasse em nenhuma palavra do que dizia. Juntos, esses dois faziam impressionante contraste com o secretário de Estado sentado ali ao lado. Kerry parecia tomado de renovada certeza, absoluta certeza, que ia aumentando a cada resposta, a cada pergunta que lhe era feita.

Verdade é que Kerry funcionava como o mais espetacular boneco de ventríloquo encarregado de vender uma política incoerente. “Não consigo parar de pensar em John Kerry, ontem, todo vaidoso” – disse o demagogo conservador e radialista Rush Limbaugh – “revelando que alguns países do Oriente Médio ofereceram-se para pagar pelo nosso ataque à Síria”. Quero dizer... Já não é ruim que chegue sermos chamados de policiais do mundo? Quem quer ser um policial subornado?! O que haveria de bom nisso? Quem somos nós, agora? Viramos mendigo, pedinte?!”. O provável maior problema de qualquer governo em total desalinho é que ele induz as pessoas a pensar duas vezes sobre tudo que o governo faça ou diga e sobre todas as suas políticas.

No final de agosto, com britânicos ou sem, os EUA estavam posicionados para ir à guerra. Mas a opinião pública já migrara para um ceticismo desconfortável – a proporção, que era de 3:1 a favor dos que não queriam a guerra, subiu, na segunda semana de setembro para mais de 2:1 contra. E foi no meio dessa deriva que o presidente resolveu enviar a questão ao Congresso e pedir que dividissem com ele a responsabilidade. Mas o Congresso, então, já estava refletindo a opinião pública. A consulta sugeriu que Obama queria mais tempo para pensar, e que não queria perder para a Grã-Bretanha, que seguira os procedimentos de um governo constitucional. Mas incongruente e muito estranhamente, Obama logo acrescentou que não seria pautado pela votação no Congresso. O que aí se vê é ambivalência pessoal privada, exposta para contemplação universal. Mas naqueles primeiros dias de setembro já se respirava outro ar, o ar de uma democracia que olhava a própria cara. John McCain foi acusado de leviandade, numa reunião popular no Arizona, por uma mulher que tem um primo sírio. O senador Rand Paul, o branco libertarista do Kentucky, e o Deputado Elijah Cummings, o negro liberal de Baltimore, relataram, ambos, que seus respectivos eleitores opunham-se a qualquer ataque, na proporção de quase 100:1. O presidente e sua secretaria de Estado, e com esses também uma vasta porção da elite política, haviam aprovado a ação militar para derrubar um quarto governo no Oriente Médio, depois de Afeganistão, Iraque e Líbia. Mas o povo dos EUA, dessa vez, disse “não”.

Mesmo assim, na primeira semana de setembro, Obama e Kerry ainda defendiam tanto a ambição delirante quanto a versão minimalista de seu ataque tão premeditado. Ataque decisivo e para incapacitar, que duraria poucos dias: essa parece ter sido a versão que o presidente apresentou a Graham e McCain. Mas o ataque que Kerry antevia, como disse à imprensa britânica dia 9 de setembro, seria: "(...) muito limitado, muito focado, esforço de curto prazo... Estamos falando é disso – esforço incrivelmente pequeno e limitado." E a confusão não fica aí. Recentemente em sua fala à nação, dia 10 de setembro, Obama contradisse Kerry e afirmou que o ataque não seria um beliscão, acrescentando em tom grave: "Os militares dos EUA não dão beliscões."

Dia 9 de setembro, Kerry deixou escapar um comentário, que seria carregado de consequências. O único meio pelo qual Assad conseguiria evitar ataque norte-americano seria ele entregar suas armas químicas a supervisão internacional e eventual destruição. “Claro” – Kerry acrescentou – “que não acontecerá”. Putin ouviu e entrou em cena. Mas, sim, disse Putin, é claro que acontecerá, porque a Síria entregaria suas armas químicas à inspeção internacional e até ao confisco, nos termos de um acordo que a Rússia intermediaria; em segundos, seu ministro de Relações Exteriores, Sergey Lavrov, apareceu com um plano diplomático no qual já vinha trabalhando há meses. A Casa Branca e o Departamento de Estado fizeram de tudo para ficar com os créditos por esse desenvolvimento, mas é quase impossível acreditar que tenha sido resultado de plano conjunto, do qual Kerry tivesse participado. Implicaria que o presidente ter-se-ia posto, ele próprio, numa situação que causaria embaraços ao governo, que o humilharia pessoalmente e que poria o mundo à beira de uma guerra, “porque” sabia da surpresa que surgiria no momento certo. A boia não requisitada que Putin empurrou para Obama levou o presidente a retirar a consulta que encaminhara ao Congresso – mas, isso, só depois de ter absoluta certeza de que a votação aconteceria dia 11/9. Estava a caminho de ser derrotado na Câmara de Representantes e, possivelmente, até no Senado.

Dia 10 de setembro, o presidente falou à nação. Precisou de mais tempo para justificar o ataque que estava devolvendo à prateleira, do que para explicar a nova rota na qual já estava comprometido, mas foi discurso “de abafa” também em outros sentidos: às vezes pedia, às vezes denunciava; dava lições de que o amor à paz tem às vezes de nos envolver em guerras, reiterando o imperativo de construir os EUA em casa, mas tomando o atento cuidado de falar do holocausto de judeus. E fechou com um apelo convencional ao onanismo nacional norte-americano: "(...) estamos sós no mundo, disse o presidente. Somos a nação “excepcional”. Por quase sete décadas os EUA têm sido a âncora da segurança global." Dia seguinte, o New York Times publicou coluna editorial assinada por Putin, que expressou sua esperança de que os norte-americanos escolheriam evitar guerra mais ampla. Falou com consideração, de Obama. Examinei atentamente a fala do presidente à nação, na terça-feira. E tenho de discordar da defesa do excepcionalismo norte-americano. O presidente disse que a política dos EUA é o que “faz diferentes os EUA, o que nos faz excepcionais”. É extremamente perigoso estimular as pessoas a que se vejam, elas mesmas, como diferentes, seja qual for a motivação. Verdade seca, de fonte questionável, mas impossível de negar. Nação que se suponha uma exceção aos padrões observados pelas demais nações é tão boa bisca quanto alguém que se veja, a si mesmo, como exceção.

É pouco provável que Obama mude outra vez, por hora. Mas deixar-se na posição passiva, de quem só ouve o que os russos digam, que responde às vezes sim, às vezes não, às vezes “Vamos analisar”, exporá todo seu governo à acusação de estar “liderando pela retaguarda” demais (foi Obama quem inventou essa, ao jactar-se do que fazia na Líbia). A diplomacia é coisa relativamente nova para Obama. Mas, dessa vez, não teve escolha. Nem Obama pode entregar essa carpintaria delicada às que mais alto gritavam a favor da guerra. Obama terá de trabalhar duro para resistir à pressão para bombardear o Irã que nunca para de vir de Israel e do lobby israelense nos EUA. Delegar grandes responsabilidades de governo pode ser compatível com um sinal de humildade – e até funcionou assim, para Reagan – mas há cenários nos quais essa atitude aproxima-se perigosamente da temeridade ou da irresponsabilidade. Em dezembro de 2011 pediram a Obama que ele confessasse um defeito pessoal; respondeu que o defeito que criticaria em si próprio era a preguiça. Mais uma vez (como o que disse sobre Putin e os banqueiros), melhor que não tivesse dito. Mas, seja como for, aí está a chance para se autorreformar: um tempo para comprometer-se pessoal e profundamente na construção de suas políticas, menos discursos palavrosos, menos comentários descuidados nas entrevistas; ocasião para trabalhar ativamente com novos parceiros, além de França, Grã-Bretanha e IsraelSe quer igualar-se a Putin nas artes da diplomacia e superá-lo no difícil exercício da autocontenção, Obama tem de aproveitar esse momento, também, para reconsiderar o extraordinário aparelho de sigilo em que seu governo está confinado, para tudo que tenha a ver com a segurança e com suas políticas externas.

Sobre o autor

David Bromwich teaches English at Yale. How Words Make Things Happen is out now.

22 de setembro de 2013

Recuperar a centralidade da classe

Ellen Meiksins Wood [*]

Solidarity

Tradução / Em 1963, quando E.P. Thompson publicou The Making of the English Working Class, ainda existia uma importante cultura anticapitalista na esquerda intelectual, que floresceu com um vigor especial entre os historiadores marxistas britânicos, um notável grupo ao qual pertencia E.P. Thompson Durante pouco mais de uma década, apesar (ou talvez por causa) das erupções militantes de 1968 e de algumas dramáticas lutas operárias nos anos posteriores, a vida intelectual da esquerda ocidental foi moldada por uma atitude de rendição ao capitalismo e por um “recuo da classe”.

A moda acadêmica mais influente na esquerda, começando com o pós-marxismo e culminando com o pós-modernismo, parece agora - para o bem ou para o mal - aferrada a um princípio, segundo o qual o capitalismo era a única opção viável e a luta de classes não está mais na agenda.

Essas modas tiveram seu início a partir década de 1970, e se desenvolveram mais ou menos em paralelo com a "Nova direita" e o neoliberalismo. Justamente quando os governos impulsados pela doutrina neoliberal estavam realizando uma luta classes aberta em nome do capital e contra o trabalho, o conceito de classe estava em declínio. Na Grã-Bretanha, por exemplo, quando o governo de Margaret Thatcher estava travando sua implacável guerra de classes luta de classes contra os trabalhadores, sua própria estratégia retórica consistia em negar a própria existência das classes.

Essa estratégia ideológica é mais alarmante ainda porque reaparece na esquerda intelectual como uma imagem no espelho. E não ocorre apenas com pós-marxismo. Até mesmo a Marxism Today, a revista teórica do partido comunista britânico, aderiu com entusiamo ao “recuo do conceito de classe”.

Estes novos guerreiros não classistas de esquerda aceitam na prática a construção neoliberal do universo social. Tão pouco para eles há classes ou política de classes; simplesmente um mundo pós-moderno no qual a fragmentação, a diversidade e as "múltiplas" identidades acabaram com as velhas solidariedades de classe.

É verdade, claro, que para muitos isso significava perseguir outras lutas necessárias contra outras formas de opressão, especialmente aqueles relacionados ao gênero e raça. Mas havia algo mais nesse recuo - ou talvez deveríamos dizer menos - que um interesse em formas alternativas de luta; e esse abandono do conceito de classe não pode simplesmente ser atribuído ao declínio do movimento operário nos anos 1970 e 1980. O recuo do conceito de classe, que compartilham alguns sectores da esquerda intelectual, tem outras raízes que o precedem. [1]

Os intelectuais de esquerda mais decididos a abandonar o conceito de classe também se inclinam a sugerir que não temos necessidade de desafiar o capitalismo como una totalidade sistêmica, porque não existiria algo assim como um sistema capitalista - se é que alguma vez existiu - na nova realidade fragmentada. Nos contam que se está dando uma tremenda expansão da “sociedade civil” que amplia consideravelmente o leque de nossas escolhas individuais. O modo de combater as doutrinas neoliberais consistiria aparentemente em aceitar seus pressupostos básicos e tratar de vence-los no seu próprio jogo retórico.

A crise capitalista real

Hoje nós estão confrontando o mundo real do capitalismo, de uma forma que não vemos há muito tempo. Desde a crise de 2008 e o desastroso projeto de austeridade que se seguiu, é quase impossível desconhecer os brutais efeitos sistêmicos do capitalismo ou a cruel realidade das classes.

Houve alguns sinais promissores de novos movimentos contestatórios, como o movimento “Occupy”, que se bem não produziram ainda um movimento político coerente, no entanto começaram a mudar o discurso sobre las consequências do capitalismo e as desigualdades de classe. Ainda mais que grande parte da esquerda intelectual perdeu o hábito, os meios ou sequer a vontade de se opor ao capitalismo não só na prática mas na teoria.

Por isso é o momento adequado para recuperarmos E.P. Thompson. Não somente porque ele, provavelmente mais que qualquer outro historiador, deu vida aos processos da formação e luta de classes, mas também porque mais que qualquer outro historiador e talvez qualquer acadêmico ou escritor, E.P. Thompson foi quem com mais acuidade definiu o capitalismo como uma forma social historicamente específica - não como una lei da natureza -, e nos obrigou a vê-lo com distância crítica e antropológica.

E isso é especialmente importante hoje, pois faz muito tempo que adquirimos o hábito de considerar o capitalismo como dado, como si se tratasse de algo tão universal e invisível como o ar que respiramos. E. P. Thompson desafiou os pressupostos básicos do capitalismo, entendendo-o como um conjunto de práticas sociais e princípios morais e estudando seu desenvolvimento como um processo constante de luta.

Não apenas mostrou este processo em seu livro La Formación de la Clase Obrera en Inglaterra, mas também em outros trabalhos, por exemplo em seu clássico ensaio Moral Economy and Popular Protest: Crowds, Conflicts and Authority no qual segue as pistas das lutas contra a racionalidade do mercado, imposta a pesar da resistência de grupos com costumes e expectativas distintas e com diferentes concepções do direito à subsistência; ou seu ensaio Custom, Law, and Common Right, no qual nos mostra o modo em que as definições de propriedade com base na produtividade para o lucro capitalista afirmaram-se à custa das costumes e as concepções de direito ao uso; ou seu ataque - especialmente em seu ensaio "Time, Work Discipline and Industrial Capitalism" - ao conceito de “industrialização” e sua insistência na especificidade do capitalismo industrial como um modo historicamente distinto de exploração - não como um processo neutro de mudança tecnológica -, com efeitos que afetaram as práticas laborais e também a algo muito mais central para nossa vida cotidiana, que é nossa experiencia do tempo. [2]

A abordagem da história por E.P. Thompson resume o que para mim é a essência do materialismo histórico, uma aproximação que lança luz sobre a teoria e a prática, sobre a historia e a política. Embora ele tentasse evitar a linguagem teórica, seu trabalho histórico sempre me pareceu tão fértil para a teoria como esclarecedora para a história.

Segundo E.P. Thompson, o conhecimento teórico não é sobre uma “representação conceitual estática”, mas sobre “conceitos apropriados para investigar os processos”. Isto significa, entre outras coisas, que não existe essa antítese entre história e teoria ou entre o empírico e o teórico na qual insistem algumas correntes muito influentes do marxismo.

O desafio, segundo E.P. Thompson, consiste em captar e iluminar os processos históricos, e não considerar a classe como uma localização estática em uma estrutura de “estratificação”, mas como um processo e uma relação social. Em outras palavras, E.P. Thompson levou a sério a ideia de Karl Marx de que o materialismo histórico se ocupa da “atividade prática” humana, da agência humana, dentro dos limites das condições históricas e sociais específicas. Isso é o que o converte em um estudioso tão efetivo do capitalismo entendido como um terreno disputado e alvo de luta.

Notas

[1] Esse assunto é discutido com maiores detalhes no meu artigo “A Chronology of the New Left and Its Successors, or: Who’s Old-Fashioned Now?” Socialist Register 1995, 22-49 e no Prefácio à edição de 1998 do meu livro The Retreat from Class: A New "true" Socialism.

[2] Estes ensaios estão incluídos em Customs in Common: Studies in Traditional Popular Culture (New York: New Press, 1993).

[*] Ellen Meiksins Wood foi durante muitos anos professora de ciência e filosofia política na York University de Toronto, Canadá. Entre 1984 e 1993 fez parte do conselho editorial da New Left Review britânica, e entre 1997 e 2000 co-editou, junto com Paul Sweezy e Harry Magdoff a revista norte-americana Monthly Review. Filósofa e historiadora marxista e feminista mundialmente reconhecida, fez contribuições fundamentais no campo da filosofia política, da história das idéias políticas e da história política e social. Seus últimos livros publicados: Citizens to Lords: A Social History of Western Political Thought from Antiquity to the Late Middle Ages (Verso, Londres, 2008) e The Origin of Capitalism: A Longer View (Verso, Londres, 2002). Atualmente reside em Londres.

10 de setembro de 2013

O silencioso golpe militar que se apoderou de Washington

Desta vez é a Síria, a última vez foi o Iraque. Obama escolheu aceitar o Pentágono inteiro da era Bush: suas guerras e crimes de guerra.

John Pilger

The Guardian

Children, many of whose deformities are believed to be the results of the chemical dioxin that the US used in the Vietnam war, play outside a hospital in Ho Chi Minh City. Photograph: Paula Bronstein/Getty Images

Tradução / Na minha parede está a primeira página do Daily Express de 5 de setembro de 1945 e as palavras: "Escrevo isto como uma advertência ao mundo". Assim começava a reportagem de Wilfred Burchett de Hiroshima. Foi o furo do século. Devido à sua jornada perigosa e solitária que desafiou as autoridades de ocupação estado-unidenses, Burchett foi posto no pelourinho, inclusive pelos seus colegas incorporados. Ele advertiu que um ato de assassinato em massa premeditado numa escala gigantesca lançara uma nova era de terror.

Agora, quase diariamente confirma-se o que ele disse. A criminalidade intrínseca do bombardeamento atômico fica patente através dos US National Archives e das décadas subsequentes de militarismo camuflado como democracia. O psicodrama da Síria exemplifica isto. Ainda mais uma vez somos mantidos reféns da perspectiva de um terrorismo cuja natureza e história é negada até pela maior parte dos críticos liberais. A grande coisa proibida de mencionar é que o mais perigoso inimigo da humanidade reside do outro lado do Atlântico.

A farsa de John Kerry e as piruetas de Barack Obama são temporárias. O acordo de paz da Rússia sobre armas químicas será, no devido tempo, tratado com o desprezo que todos os militares reservam à diplomacia. Com a Al-Qaida agora entre os seus aliados, e os golpistas armados pelos EUA seguros no Cairo, os EUA pretendem esmagar os últimos estados independentes no Oriente Médio . A Síria primeiro, a seguir o Irã. "Esta operação", disse em Junho o antigo ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Roland Dumas, "remete-nos a tempos distantes. Ela foi preparada, preconcebida e planejada".

Quando o público está "psicologicamente abalado", como descreveu o repórter do Channel 4 Jonathan Rugman a hostilidade esmagadora do povo britânico a um ataque à Síria, reforçar o que é proibido mencionar torna-se urgente. Seja Bashar al-Assad ou os "rebeldes" que utilizaram gás nos subúrbios de Damasco, são os Estados Unidos e não a Síria os mais prolíficos utilizadores do mundo destas armas terríveis.

Em 1970, o Senado relatou: "Os EUA despejaram sobre o Vietnã uma quantidade de produtos químicos tóxicos (dioxina) equivalente a seis libras [2,72 kg] por cada habitante". Isto foi a Operação Inferno (Operation Hades), posteriormente rebatizada com o nome mais amistoso de Operation Ranch Hand: a fonte do que médicos vietnamitas chamam um "ciclo de catástrofe fetal". Vi gerações de crianças com suas habituais deformidades monstruosas. John Kerry, com o seu próprio registro de guerra ensopado em sangue, as recordará. Vi-as também no Iraque, onde os EUA utilizaram urânio empobrecido (depleted uranium) e fósforo branco, tal como fizeram os israelenses em Gaza, despejando-o sobre escolas e hospitais das Nações Unidas. Para eles, nenhuma "linha vermelha" de Obama. Para eles, nenhum psicodrama decisivo.

O debate repetitivo sobre se "nós" deveríamos "ctuar" contra ditadores selecionados (isto é, apoiar os EUA e seus acólitos em ainda outra orgia de matança aérea) faz parte da nossa lavagem cerebral. Richard Falk, professor emérito de direito internacional e Relator Especial das Nações Unidas sobre a Palestina, descreve isto como "um écran legal/moral farisaico, unilateral, com imagens positivas de valores ocidentais e a inocência descrita como ameaçada, validando uma campanha de violência política irrestrita". Isto "é tão amplamente aceito de modo a ser virtualmente incontestável".

Isto é a grande mentira: o produtos de "realistas liberais" na política, na academia e nos meios de comunicação anglo-americanos os quais nomeiam-se a si próprios como os administradores da crise do mundo, ao invés de causadores de uma crise. Despindo a humanidade do estudo de nações e congelando-a com jargões que servem a desígnios do poder ocidental, eles marcam estados "falhados", "patifes" ("rogue") ou "maléficos" ("evil") para "intervenção humanitária".

Um ataque à Síria ou ao Irã ou a qualquer outro "demônio" dos EUA inspirar-se-ia numa variante da moda, a "Responsabilidade de proteger" ("Responsability to Protect, ou R2P), cujo fanático pregador público é o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros australiano Gareth Evans, co-presidente de um "Global Centre" com sede em Nova York. Evans e seus lobbistas generosamente financiados desempenham um papel vital e insistim com a "comunidade internacional" para atacar países onde "o Conselho de Segurança rejeita uma proposta ou deixa de tratar num período de tempo razoável".

Evans tem antecedente. Ele aparece no meu filme de 1994 Death of a Nation elevando sua taça de champanhe ao seu homólogo indonésio quando voavam sobre Timor Leste num avião australiano, tendo acabado de assinar um tratado que pirateava o petróleo e o gás daquele país abatido onde o tirano da Indonésia, Suharto, matou ou esfaimou um terço da população.

Sob o "fraco" Obama, o militarismo ascendeu talvez como nunca antes. Sem um único tanque sobre o relvado da Casa Branca, verificou-se um golpe militar em Washington. Em 2008, enquanto seus devotos liberais secavam os olhos, Obama aceitou todo o Pentágono do seu antecessor, George Bush: suas guerras e crimes de guerra. Quando a constituição é substituída por um emergente estado policial, aqueles que destruíram o Iraque com pavor e choque, e acumularam montanhas de escombros no Afeganistão e reduziram a Líbia a um pesadelo hobbesiano, estão dominando toda a administração estado-unidense. Por trás da sua fachada decorada, mais antigos soldados dos EUA estão matando-se a si próprios do que a morrendo sobre campos de batalha. No ano passado, 6.500 veteranos acabaram com as suas próprias vidas. Levantem mais bandeiras.

O historiador Norman Pollack chama a isto "fascismo liberal". "Para os que marcham a passo de ganso", escreveu ele, "substitui a aparentemente mais inócua militarização da cultura total. E para o líder bombástico, temos o reformador falhado, alegremente a trabalhar no planejamento e execução do assassinato, sorrindo o tempo todo". Toda terça-feira, o "humanitário" supervisiona pessoalmente uma rede mundial de terror com drones que corrompem pessoas, aqueles que as resgatam e as choram. Nas zonas de conforto do Ocidente, o primeiro líder negro da terra da escravidão ainda se sente bem, como se a sua própria existência representasse um avanço social, pouco importando o seu rastro de sangue. Esta reverência a um símbolo quase destruiu o movimento anti-guerra nos EUA: a façanha singular de Obama.

Na Grã-Bretanha, os diversionismos da falsificação de imagem e da política de identidade não tiveram êxito completo. Uma comoção já principiou, embora a consciência do povo devesse acelerar-se. Os juízes de Nuremberg foram sucintos: "Cidadãos individuais têm o dever de violar leis internas para impedir crimes contra a paz e a humanidade". As pessoas comuns da Síria, e de incontáveis outros países, e o nosso auto-respeito, não merecem nada menos neste momento.

Sobre o autor

John Pilger é um correspondente de guerra, cineasta e autor. Seu último filme é Utopia.

7 de setembro de 2013

Golpe chileno: há 40 anos, vi Pinochet esmagar um sonho democrático

Como o drama e a repressão promovidos por um golpe apoiado pelos EUA derrubou o governo de Allende em 11 de setembro de 1973.

Hugh O'Shaughnessy

The Guardian

Chilean troops make arrests during the military coup that overthrew President Salvador Allende. Photograph: Universal History Archive/Rex Features

Tradução
/ Restavam poucos repórteres estrangeiros em Santiago na manhã de primavera de 11 de setembro quando Augusto Pinochet, chefe do exército, armava seu bote.

No sábado anterior, ele havia finalmente se juntado ao golpe de estado que vinha sendo cozinhado havia tempo contra um governo eleito legitimamente, e apenas três dias depois, ele já revelava sua capacidade com terrorismo, tortura e traição, ao lado de um poder estrangeiro. Mas agora ele jogava com um governo dos EUA que detestava a coalizão, idealista mas mal costurada, de seis partidos, encabeçada pelo doutor Salvador Allende, o médico da nação, liberal, que introduzia elementos de social-democracia em um país que, havia tempo, era organizado em função dos donos de terra, industrialistas e financistas.

Por meses, os arquitetos do golpe mantiveram Pinochet afastado, achando que ele fosse leal demais para com o eleito – e, como mostraram os resultados da eleição, cada vez mais popular – Allende, e fiel demais à Constituição para entrar numa conspiração.

A maioria dos jornalistas estrangeiros desistiu e foi embora do Chile depois de semanas esperando, muitos saindo da empobrecida Santiago – orgulhosa mas provinciana – para a borbulhante Buenos Aires e suas casas, do outro lado dos Andes. O Washington Post tinha um correspondente, mas o New York Times não; a Newsweek tinha, mas a Time não.

Quando as tropas se movimentavam para fora da cidade, esperando a chegada dos jatos Hawker Hunter para bombardear e destruir o governo civil, Allende tentou desesperadamente, mas em vão, entrar em contato com Pinochet, e por horas estava convencido de que seu comandante militar havia sido raptado e silenciado pelos insurgentes.

Muitos dos repórteres estrangeiros, nas semanas anteriores a setembro de 1973, haviam se habituado a se encontrar no aconchegante barzinho do térreo do hotel Carrera – do outro lado da rua do palácio simples e sem luxos de Allende, o Moneda –, onde muitos de nós estávamos hospedados. Nós conversávamos por horas, regados a scotch e pisco sour, fazendo conjecturas sobre o futuro, e os que tinham passaporte dos EUA previam, de maneira correta, o pior para a “experiência socialista” chilena.

Na terça-feira, a contrarrevolução tinha toda a força, as linhas de telefone e telex foram cortadas. Antes das dez da manhã, meu colega e amigo Stewart Russel, da Reuters, e eu caminhamos pelas ruas desertas até a embaixada britânica, acima do Banco de Londres e da América do Sul, em busca de uma linha para contarmos nossa história para Londres. Não havia nenhuma disponível, mas como os tiroteios nas ruas aumentavam, nos deram abrigo e refrescos, e não podíamos deixar de perceber a alegria de muitos na embaixada, especialmente dos representantes da Marinha britânica, com o golpe.

Naquela altura, o almirante Gustavo Carvajal, um dos idealizadores do golpe, estava no telefone com Allende, oferecendo um avião para ele sair do país. Mas o presidente, que tinha pressão alta, foi conciso: “Quem vocês pensam que são, seus traidores de merda? Enfie esse avião na sua bunda! Você está falando com o presidente da República! E o presidente eleito pelo povo não se rende.”

No teto de nosso prédio, um resistente com um rifle calibre .22 disparava um ou outro tiro, até ser morto por um helicóptero de passagem. Pelas quatro da tarde, a cidade, rodeada pelos picos andinos, estava mais quieta, então Stewart e eu, sem conseguir nenhum tipo de conexão com Londres, marchamos pelas portas de bronze e pelo meio das ruas desertas até o hotel, com as mãos levantadas.

De volta dentro do Carrera bem fechado, reunidos na imponente recepção cercada de vidro preto, muitos dos endinheirados apoiadores de Pinochet faziam brindes a ele e aos seus três companheiros da Marinha, da Aeronáutica e do Exército, com champanhe. Eles vibraram quando ele anunciou na televisão o fechamento do Congresso, dos partidos políticos, dos sindicatos e dos tribunais.

Os funcionários, aterrorizados, se juntaram em um canto para assistir seu país sendo exaurido. Como precaução, para nossa segurança, eles prepararam camas para nós depois da lavanderia, no subsolo. Depois de uma boa noite de sono, subimos para ver o Moneda sendo continuamente consumido pelo fogo. Sob o toque de recolher, o estádio começou a se encher com os prisioneiros de Pinochet: alguns eram sumariamente alvejados, outros eram mandados para campos de concentração no deserto do Atacama. No começo, quando o toque de recolher foi marcado para as seis da tarde, havia pressa para se conseguir transporte, público ou privado, pois as pessoas corriam para se abrigar.

No começo os soldados eram assustadores, com suas armaduras de guerra e metralhadoras, quando eles irrompiam dentro das casas, bagunçavam tudo e levavam embora o que quer que quisessem. Estrangeiros que estavam sendo perseguidos – do Brasil, por exemplo – e que haviam recebido asilo político de Allende estavam especialmente ameaçados, bem como diretores de sindicatos. Depois de um tempo, os soldados, muitos vindos de zonas rurais, se tornaram figuras caricatas, quando julgavam que livros sobre cubismo, por exemplo, eram prova de que o morador da casa era um admirador de Fidel Castro e, consequentemente, suspeito, para ser levado e interrogado. Os comediantes na televisão faziam piada ao chamar as pessoas de burras como um soldado sem carro.

Uma onda de denúncias viu muitos serem presos injustamente pelos militares, que raramente confessavam quem eles tinham sob custódia. Com o passar das semanas, as chamas do Moneda continuavam consumindo tudo, deixando para trás um rastro de cinzas.

Assim começavam os dezessete anos de ditadura de Pinochet – ele logo reduziu seus companheiros de junta militar a uma nulidade – mantida pelo terrorismo. Como já havia acontecido no Brasil em 1964, então no Uruguai, Paraguai, Bolívia e Argentina, e como viria a ser o caso mais tarde no Iraque, no Afeganistão e na Baía de Guantánamo, os militares e policiais torturadores estavam a postos com seus eletrodos, alicates e equipamento de afogamento para defender a “civilização cristã ocidental”. Muitos se aperfeiçoaram nesse ofício dentro dos EUA ou em alguma de suas bases no Canal do Panamá, com instrutores estadunidenses.

Sete anos antes, num jantar em 1966, em uma estada mais longa na capital do Chile com minha esposa Georgie, eu conheci Allende e sua esposa Hortensia “Tencha”. Ele e eu nos demos bem até ele ser morto no ataque ao palácio presidencial. Nosso anfitrião, Álvaro, nos apresentou de maneira brincalhona ao líder da esquerda, dizendo: “Esse homem já tentou se eleger presidente e vai tentar mais uma vez. Mas ele nunca vai conseguir.” Allende respondeu também em tom de brincadeira: “Meu jovem, você sabe o que vai estar escrito na minha lápide?”

“Não, doutor”, eu respondi educadamente. “O que vai estar escrito na sua lápide?”

Em meio a risadas, o futuro chefe-de-estado chileno respondeu usando seu nome completo: “Aqui jaz Salvador Allende Gossens, futuro presidente do Chile”.

Em 21 de setembro de 1970, Allende foi declarado vencedor de eleições limpas, mas antes de ele assumir a presidência, depois de um esforço em vão de conservadores e de seus aliados dos EUA tentarem declarar a vitória inconstitucional, Edward Korry, o embaixador estadunidense em Santiago, relatou para Harry Kissinger, o estrategista de política externa do presidente Richard Nixon: “Assim que Allende assumir o poder, vamos fazer de tudo para que o Chile e os chilenos experimentem das piores privações e pobreza”.

Alguns dias antes, Richard Helms, diretor da CIA, escreveu algumas anotações durante uma reunião em Washington com Nixon, Kissinger e John Mitchell, o procurador-geral, em que o presidente exigia um golpe. As anotações diziam: “Uma chance em dez, talvez, mas salvem o Chile!/ gastos que valem a pena/ não importam os riscos/ não envolver a embaixada/ U$10.000.000 disponíveis, mais se necessário/ os melhores homens que tivermos/ plano de ação/ fazer a economia sofrer/ 48 horas para plano de ação”.

Depois de os inimigos de Allende finalmente declararem vitória sobre ele em 11 de setembro, os chilenos se protegeram da melhor forma possível enquanto Pinochet e seu grupo, com boas relações agora com Washington, fizeram fortuna com a privatização de serviços públicos e, sorrateiramente, do comércio de cocaína com a Bolívia, que os EUA nunca quiseram atacar ou criticaram.

Pinochet estava tão confiante em seu protetores no “mundo livre” que em 17 de setembro de 1976 ele ordenou o assassinato de Orlando Letelier, o antigo ministro da Defesa de Allende, com uma bomba plantada em seu carro, no Sheridan Circle, no coração diplomático de Washington. Tamanha atrocidade, fosse cometida por algum árabe ou iraniano, ou um muçulmano de qualquer lugar, teria sido imediatamente punida, podendo chegar até à guerra. Mas Pinochet não corria nenhum risco. Afinal, ele foi um dos homens de Nixon desde o início.

Sobre o autor

Hugh O'Shaughnessy é autor de "Pinochet: The Politics of Torture", publicado por Latin America Bureau e pela New York University Press.

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