12 de junho de 2002

Ahimsa

Arundhati Roy

The Hindustan Times

Tradução / Enquanto o resto de nós se encontra mesmerizado pela falação sobre a guerra e o terrorismo e as guerras contra o terror, (pode-se ir à guerra contra um sentimento?), em Madhya Pradesh um pequeno barco salva-vidas levanta as velas ao vento. Num pavimento de Bhopal, em uma área chamada 'Tin Shed' (Barraca de Lata), um pequeno grupo de pessoas embarcou numa jornada de fé e esperança.

Não há nada de novo naquilo que estão fazendo. O que é novo é o clima no qual o estão fazendo.

Hoje é o 23º dia da greve de fome por tempo indefinido empreendida por quatro ativistas da Narmada Bachao Andolan. Elas jejuaram dois dias a mais do que Gandhi, em seus jejuns durante a luta pela liberdade. Suas reivindicações são mais modestas do que as dele. Elas estão protestando contra o despejo forçado pelo governo de Madhya Pradesh de mais de mil famílias adivasi para que seja construída a represa de Maan. Tudo o que elas estão pedindo é que o governo de MP implemente sua própria política de providenciar terra para todos aqueles que são obrigados a abandonar as suas próprias terras. Não há nenhuma controvérsia sobre esse ponto. A represa foi construída. Os destituídos devem ser transferidos antes do enchimento do reservatório durante a monção, que fará submergir seus povoados.

Os quatro ativistas em greve de fome são: Vinod Patwa, uma das 114.000 pessoas desapropriadas em 1990 pela Represa Bargi (a qual, agora, doze anos mais tarde, irriga menos terra do que submergiu). Mangat Verma, que será desapropriado pela Represa de Maheshwar, se esta chegar a ser terminada algum dia. Chittaroopa Palit, que tem estado com a NBA por quase 15 anos. E Ram Kunwar, 22 anos, a mais jovem e frágil dos ativistas. O povoado dela é o primeiro que será submerso quando as águas subirão no reservatório de Maan. Desde o início da greve de fome, Ram Kunwar perdeu 9 quilos — quase um quarto do peso original de seu corpo.

Ao contrário das outras grandes represas, Sardar Sarovar, Maheshwar e Indira Sagar, onde a realocação de milhares e milhares de pessoas desapropriadas não é simplesmente possível (exceto no papel, em documentos dos tribunais, etc…) no caso de Maan o número total de pessoas desapropriadas é de cerca de 6.000. As pessoas até já identificaram terra que está disponível e que poderia ser comprada e distribuída à população pelo governo. Apesar disso, o governo se recusa.

Ao contrário, o governo está ocupado distribuindo ínfimas somas de dinheiro como compensação, o que é ilegal e viola a sua própria política. O que o governo está fazendo é dizer abertamente que se tivesse que ceder às reivindicações dos destituídos de Maan (ou seja, se tivesse que implementar a sua própria política), estaria estabelecendo um precedente para as centenas de milhares de pessoas (a maioria das quais são Dalits e adivasis) condenadas a ser submersas (sem reabilitação) pelas outras 29 represas planejadas para o vale do Narmada. E o empenho do governo do estado com relação a esses projetos permanece absoluto, independentemente dos custos sociais e ambientais.

Enquanto Vinod, Mangat, Chittaroopa e Ram Kunwar estão se enfraquecendo gradualmente, enquanto seus sistemas estão se fechando com o risco de parada irreversível de algum órgão ou mesmo de morte súbita, nenhum funcionário do governo nem sequer se incomodou em prestar-lhes uma visita.

Gostaria de contar um segredo — não é tudo firmeza resoluta e determinação de aço no pavimento que arde sob o sol impiedoso de Tin Shed. As piadinhas a respeito de emagrecer e perder peso estão se tornando mais comoventes agora. Há lágrimas de raiva e frustração. Há apreensão e medo real. Mas sob isso tudo, há puro pó.

O que acontecerá com elas? Será que acabarão nos livros razão como "o preço do progresso"? Essa frase postula astuciosamente toda a questão como sendo uma disputa entre aqueles que são pró-desenvolvimento e aqueles que são anti-desenvolvimento — e sugere a inevitabilidade da escolha que tem que ser feita: pró- desenvolvimento e ponto final. Ela sugere espertamente que movimentos como o NBA são antiquados e absurdamente anti-eletricidade e anti-irrigação. É óbvio que isso é um disparate. O NBA acredita que as Grandes Represas são obsoletas. Acredita que há modos mais democráticos, mais locais, mais economicamente viáveis e ecologicamente sustentáveis de gerar eletricidade e administrar sistemas hídricos. Portanto o que está sendo reivindicando é mais modernidade, não menos. E vejam só o que está acontecendo em lugar disso.

Mesmo no auge da retórica da guerra, mesmo enquanto a Índia e o Paquistão se ameaçam mutuamente com aniquilação nuclear, não foi levantada sequer a questão de se colocar em discussão o Indus Water Treaty entre os dois países. Mesmo assim, em Madhya Pradesh (o estado cujo ministro-chefe se gaba de ser o messias dos Dalits e adivasis), a polícia e o governo entraram nas cidades adivasi com buldôzeres. Selaram as bombas de água manuais, demoliram escolas e desmataram terras para forçar as pessoas a abandonarem suas casas. Eles selaram as bombas hidráulicas manuais. Daí, a greve de fome por tempo indefinido..

Qualquer condenação ao terrorismo da parte de qualquer governo só terá credibilidade se esse governo se demonstrar responsivo à dissidência persistente, razoável, bem argumentada e não violenta. Apesar disso, o que está acontecendo é justamente o oposto. Em todo o mundo, os movimentos de resistência não violentos estão sendo esmagados e destruídos. Se nós não os respeitarmos e honrarmos, estaremos automaticamente privilegiando aqueles que passam a usar de meios violentos. Em todo o mundo, quando os governos e os meios de comunicação esbanjam todo o seu tempo, atenção, fundos, pesquisa, espaço, sofisticação e seriedade na guerra contra o terrorismo, então a mensagem que é veiculada é inquietante e perigosa: quando se procura veicular e endereçar um ressentimento público, a violência é mais eficaz que a não violência. Infelizmente, se não for dada uma oportunidade à mudança pacífica, então a mudança violenta se tornará inevitável. E essa violência será (e já é) aleatória, feia e imprevisível. O que está acontecendo no Kashmir, nos estados do nordeste, em Andhra Pradesh é parte desse processo.

Agora mesmo, Narmada Bachao Andolan não está apenas lutando contra as Grandes Represas. Está lutando pela sobrevivência do maior legado da Índia ao mundo: a resistência não-violenta. Ela poderia ser chamada de Ahimsa Bachao Andolan.

No decorrer desses anos, nosso governo só tem mostrado desprezo para as pessoas do vale do Narmada. Desprezo pelos seus argumentos. Desprezo pelo seu movimento.

No século XXI, está sendo impossível ignorar a conexão entre fascismo religioso, nacionalismo nuclear e empobrecimento de inteiras populações devido à globalização corporativa. Embora o governo de Madhya Pradesh tenha dito categoricamente que não tem terra para a reabilitação das pessoas deslocadas, os relatórios dizem que está sendo preparado o terreno (" preparing the ground", desculpem o jogo de palavras) para tornar grandes glebas de terra disponíveis à agricultura corporativa. O que, por sua vez, detonará um outro ciclo de desarraigamento e empobrecimento.

Podemos prevalecer sobre o Sr. Digvijay Singh — o ministro-chefe laico, 'verde' , o advogado da ‘boa governança’, do direito à informação e aos sistemas de administração de água decentralizados — para substituir alguns de seus esforços de RP com uma mudança de política real? Se ele fizesse isso, passaria para a história como um homem de visão e de coragem política verdadeira.

Se o partido do Congresso deseja ser levado a sério como uma alternativa aos fundamentalistas religiosos destrutivos de direita que nos trouxeram à beira da ruína, deverá fazer mais do que condenar o comunalismo e participar de uma vazia retórica nacionalista. Terá que fazer mais do que trancar os MLAs em hotéis cinco estrelas (um zoo seria mais barato, certo?) para preveni-los de vender a si mesmos a partidos rivais. Terá que trabalhar duro e ouvir as pessoas que diz representar.

Quanto ao resto de nós, cidadãos preocupados, ativistas a favor da paz, etc. — não é suficiente cantarmos canções que pedem uma oportunidade para a paz. Fazer tudo o que podemos para apoiar movimentos como o Narmada Bachao Andolan é coma forma de podermos dar à paz uma oportunidade. Essa é a guerra real contra o terror.

Vá a Bhopal. E peça por Tin Shed.

1 de junho de 2002

Sob a sombra nuclear

Arundhati Roy

Dissident Voice

Nesta semana, enquanto os turistas e as famílias dos diplomatas sumiam rapidamente, jornalistas da Europa e dos EUA chegavam aos bandos. A maioria deles se hospeda no Imperial Hotel de Deli. Muitos deles me telefonam. Porque você ainda está aqui?, me perguntam. Porque você ainda não abandonou a cidade? A guerra nuclear é uma possibilidade real, não? É sim, mas onde é que eu poderia ir? Se vou embora e por aqui tudo e todos, cada amigo, cada árvore, cada casa, cada cachorro, esquilo e pássaro que conheci e amei for incinerado, como poderei continuar a viver? A quem deveria amar, e por quem seria amada? Que sociedade se tornará aquilo que eu sou e me permitirá ser esse hooligan que eu sou aqui em casa?

Decidimos todos que vamos ficar. Todos bem juntos, dando-nos conta do quanto nos amamos, pensando sobre a pena que seria se morrêssemos agora. A vida é normal, só porque o macabro se tornou normal. Enquanto esperamos a chuva, o futebol, a justiça, na TV os velhos generais e os ansiosos jovens âncoras falam de quem atacará primeiro e da magnitude do segundo ataque, como se estivessem discutindo de um jogo de tabuleiro familiar. Meus amigos e eu falamos de Profecia, o filme do bombardeio de Hiroshima e Nagasaki, dos corpos mortos sufocando o rio, dos vivos com a pele e o cabelo arrancados, nos lembramos especialmente do homem que simplesmente derreteu nos degraus do prédio e imaginamos nós mesmos daquele jeito, como manchas nas escadas.

O meu marido está escrevendo um livro sobre árvores. Ele tem uma seção sobre como os figos são polinizados, cada figo por sua vespa especializada. Há aproximadamente 1.000 espécies diferentes de vespas-de-figos. A detonação nuclear reduzirá a nada todas as vespas-de-figo, assim como o meu marido e o seu livro.

Uma querida amiga, ativista no movimento contra a construção da represa no Vale de Narmanda, está em greve de fome por tempo indefinido. Hoje é o décimo-segundo dia que ela está em jejum. Ela, assim como as outras pessoas que estão jejuando com ela estão enfraquecendo rapidamente. Estão protestando porque o governo está terraplenando escolas, abatendo florestas, desarraigando bombas hidráulicas manuais, forçando as pessoas a abandonarem seus vilarejos. Que ato de fé e esperança! Mas para um governo confortável com a noção de um mundo desperdiçado, o que é um valor desperdiçado?

Os terroristas têm o poder de desencadear uma guerra nuclear. A não-violência é tratada com desprezo. Deslocamento, destituição, fome, pobreza, doença, agora tudo isso parece apenas tiras de história em quadrinhos. Enquanto isso, emissários da coalizão contra o terror vão e vêm pregando o autocontrole. Tony Blair chega para pregar a paz – e, por outro lado, aproveitar para vender armas tanto à Índia quanto ao Paquistão. A última pergunta que cada jornalista visitante me faz é sempre: "Você está escrevendo um outro livro?"

Essa pergunta escarnece de mim. Um outro livro? Justo agora, quando parece que toda a música, a arte, a arquitetura, a literatura, toda a civilização humana não significam nada aos monstros que mandam no mundo? Que tipo de livro deveria escrever? Por enquanto, só por enquanto, só por um pouco, é o absurdo sem sentido o meu maior inimigo. É isso que fazem as bombas nucleares, usadas ou não. Elas violam tudo o que é humano, elas alteram o significado da vida.

Porque as toleramos? Porque toleramos os homens que usam armas nucleares para chantagear a inteira raça humana?