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1 de abril de 2009

Os caminhos sinuosos do capital

O autor de "Um Longo Século XX" e Adam Smith em Pequim, entrevistado por David Harvey, sobre desapropriação e desenvolvimento, crises capitalistas e o futuro da China. A formação política de um jovem gerente de fábrica, através das lutas de libertação africanas e da autonomia operária; e as influências — Braudel, Gramsci, Smith, Marx — na obra de Arrighi.

Giovanni Arrighi


NLR 56 • Mar/Apr 2009

Você poderia nos falar sobre a história de sua família e de sua educação?

Eu nasci em Milão no ano de 1937. Pelo lado de minha mãe, meus antepassados são burgueses. Meu avô, filho de suíços que emigraram para a Itália, saiu das fileiras da aristocracia operária para estabelecer, no início do Século XX, suas próprias fábricas, produzindo inicialmente máquinas têxteis e mais tarde, aquecedores e condicionadores de ar. Meu pai era filho de um trabalhador ferroviário nascido na Toscana. Ele veio para Milão e conseguiu um emprego na fábrica do meu avô materno – em outras palavras, ele acabou casando com a filha do patrão. Existiam tensões, que acabaram por levar meu pai a montar seu próprio negócio, em competição com seu sogro. No entanto, os dois compartilhavam sentimentos antifascistas e isto teve grande influência no início da minha infância, dominada como foi pela guerra: a ocupação nazista do Norte da Itália após a rendição de Roma em 1943, a resistência e a chegada das tropas aliadas.

Meu pai morreu de repente em um acidente de carro, quando eu tinha 18 anos. Contrariando os conselhos de meu avô, eu decidi manter a empresa funcionando e entrei na Universidade de Bocconi para estudar economia, acreditando que isto me ajudaria a entender como administrar a firma. O Departamento de Economia era um reduto neoclássico, intocado por qualquer tipo de keynesianismo, e não auxiliou em nada em relação aos negócios do meu pai. Finalmente percebi que teria de fechar o negócio. Então, eu passei dois anos no chão de fábrica de uma das empresas de meu avô, coletando dados sobre a organização do processo de produção. O estudo me convenceu que os elegantes modelos de equilíbrio geral da economia neoclássica eram irrelevantes para entender a produção e distribuição da renda. Isto se transformou na base de minha dissertação. Fui então designado “assistente volontario”, ou docente assistente não remunerado do meu professor – naqueles dias, o primeiro degrau na hierarquia das universidades italianas. Para ganhar a vida eu fui trabalhar como gerente trainee na Unilever.

Como foi que você acabou indo para a África, para trabalhar na University College da Rodésia e Niassalândia, em 1963?

O porquê de eu ter ido para lá foi muito simples. Eu fiquei sabendo que as universidades britânicas estavam efetivamente pagando pessoas para ensinar e pesquisar – ao contrário da posição na Itália, onde você tinha de trabalhar como “assistente volontario” por 4 ou 5 anos antes de qualquer expectativa de um emprego remunerado. No início dos anos 1960 os britânicos estavam instalando universidades em todo seu antigo império colonial, como faculdades das universidades britânicas. A UCRN[5] era uma faculdade da Universidade de Londres. Eu havia me candidatado para duas vagas, uma na Rodésia e outra em Singapura. Eles me chamaram para uma entrevista em Londres e, por causa do interesse da UCRN, ofereceram-me um trabalho como Professor de Economia. Assim, eu fui.

Foi um verdadeiro renascimento intelectual. A tradição neoclássica modelada em termos matemáticos, na qual eu havia sido treinado, não tinha nada a dizer sobre os processos que eu observava na Rodésia, ou as realidades da vida africana. Na UCRN eu trabalhei ao lado de antropólogos sociais, particularmente Clyde Mitchell, que já estava realizando um trabalho sobre análise de redes, e Jaap Van Velsen, que estava introduzindo a análise situacional, mais tarde reconceitualizada como análise de estudos de caso estendido. Eu assisti regularmente aos seminários deles e fui muito influen- ciado por ambos. Gradualmente, fui trocando a modelagem abstrata pela teoria da antropologia social, fundamentada em termos concretos, empíricos e históricos. Eu comecei minha longa marcha da economia neoclássica para a sociologia histórico-comparativa.

Este foi o contexto de seu ensaio de 1966, “A Economia Política da Rho- desia”, que analisa as formas de desenvolvimento das classes capitalistas e suas contradições específicas – explicando a dinâmica que levou, em 1962, à vitória dos fundadores do Partido da Frente da Rodésia, e à Declaração unilateral de Independência por Smith, em 1965. Olhando para trás, qual foi o impulso inicial por trás deste ensaio, e qual a importância dele para você?

“A Economia Política da Rodésia” foi escrita por incentivo de Van Velsen, que era um implacável crítico do meu uso de modelos matemáticos. Eu fiz uma revisão do livro de Colin Leys, “A Política Européia na Rodésia do Sul”, e Van Velsen sugeriu que eu deveria desenvolvê-la em um artigo mais longo. Neste, e em “Ofertas de Trabalho em Perspectiva Histórica”, eu analisei as formas como a proletarização completa do campesinato rodesiano criava contradições para a acumulação de capital - de fato, acabaram produzindo mais problemas do que vantagens para o setor capitalista[6]. Enquanto foi parcial, a proletarização criou condições nas quais os camponeses africanos subsidiavam a acumulação de capital, pois eles produziam parte de sua própria subsistência; porém, quanto mais o campesinato se proletarizava, mais esses mecanismos começaram a quebrar.

O trabalho totalmente proletarizado podia ser explorado, somente se fosse pago um salário de subsistência integral. Assim, ao invés de tornar mais fácil a exploração do trabalho, a proletarização estava, na realidade, tornando mais difícil esta exploração, e muitas vezes tornando o regime mais repressivo. Martin Legassick e Harold Wolpe, por exemplo, afirmavam que o Apartheid sul africano deveu-se principalmente ao fato de que o regime tinha de se tornar mais repressivo, porque a força de trabalho sul-africana era totalmente proletarizada, e já não podia subsidiar a acumulação de capital como tinha feito no passado.

Toda a região Sul da África - estendendo-se desde a África do Sul e Botsuana através das antigas Rodésias[7], Moçambique, Malavi, que então era Niassalândia, até Quênia, como o posto avançado do nordeste, era caracterizada pela riqueza mineral, agricultura de colonização e desapropriação extrema do campesinato. Isto é muito diferente do restante da África, incluindo o Norte. As economias do Oeste Africano eram essencialmente de base camponesa. Mas o Sul – região que Samir Amin denominou “a África das reservas de trabalho” – foi, em muitos aspectos, o paradigma da extrema desapropriação dos camponeses e, portanto, de proletarização. Muitos de nós estávamos mostrando que este processo de extrema desapropriação era contraditório. Inicialmente, ele criou as condições para o campesinato subsidiar a agricultura capitalista, a mineração, a indústria e assim por diante. Mas cada vez mais ele criava dificuldades para explorar, mobilizar e controlar o proletariado que estava sendo criado. O trabalho que estávamos então realizando – o meu “Labour Supplies in Historical Perspective”, e os trabalhos relacionados, como de Legassick e o de Wolpe, estabeleceram o que veio a ser conhecido como o paradigma sul africano dos limites da proletarização e da desapropriação.

Ao contrário daqueles que ainda identificam o desenvolvimento capitalista com proletarização tout court - Robert Brenner, por exemplo - a experiência do Sul da África mostrou que a proletarização, em si e por si mesma, não favorece o desenvolvimento capitalista - toda uma variedade de outras circunstâncias são necessárias. Para a Rodésia, eu identifiquei três estágios de proletarização, dos quais apenas um era favorável à acumulação capitalista. No primeiro estágio, os camponeses respondiam ao desenvolvimento capitalista rural através do fornecimento de produtos agrícolas, e somente vendiam sua força de trabalho em troca de altos salários. Toda a área, assim, passou a ser caracterizada por uma falta de mão-de-obra, porque sempre que a agricultura capitalista ou a mineração começavam a se desenvolver, criavam uma demanda por produtos locais, que os camponeses africanos supriam rapidamente; eles podiam participar da economia monetária através da venda da sua produção em vez de a venda de seu trabalho. Um dos objetivos do apoio do Estado à agricultura dos colonos era criar uma concorrência para os camponeses africanos, de modo que estes se veriam obrigados a ofertar trabalho ao invés de produtos. Isso levou a um longo processo de expropriação que foi da proletarização parcial até a proletarização completa; mas, como já mencionado, se tratava de um processo contraditório. O problema da simplificação do modelo “proletarização como desenvolvimento capitalista”, é que ele ignora não apenas toda a realidade do capitalismo de colonos do Sul da África; mas também muitos outros casos, como os próprios Estados Unidos, que se caracterizaram por um padrão totalmente diferente - uma combinação de escravidão, genocídio da população nativa e imigração de mão-de-obra excedente da Europa.

Você foi um dos nove professores da UCRN presos por atividades políticas durante a repressão promovida pelo governo de Smith em Julho de 1966?

Sim, nós ficamos presos por uma semana, e depois fomos deportados.

Você foi para Dar es Salaam, que, em muitos aspectos, era visto na época como um paraíso para diálogos intelectuais. Você pode nos contar sobre este período, e sobre o trabalho lá realizado em colaboração com John Saul?

Foi um período muito empolgante, tanto intelectual como politicamente. Quando cheguei a Dar es Salaam em 1966, a Tanzânia estava independente há apenas alguns anos. Nyerere estava defendendo o que considerava ser uma forma de socialismo africano. Ele conseguiu manter-se equidistante de ambos os lados durante a cisão sino – soviética, e conservou relações muito boas com os escandinavos. Dar es Salaam, tornou-se o posto avançado dos exilados de todos movimentos de libertação nacional da África Meridional
- das colônias portuguesas, Rodésia e África do Sul. Passei três anos na universidade, e encontrei todo tipo de gente: ativistas do movimento Black Power dos EUA, como também acadêmicos e intelectuais, como Immanuel Wallerstein, David Apter, Walter Rodney, Roger Murray, Sol Picciotto, Catherine Hoskins, Jim Mellon (que mais tarde foi um dos fundadores da Weathermen), Luisa Passerini, que estava fazendo uma pesquisa sobre a Frelimo, e muitos outros, incluindo, naturalmente, John Saul.

Em Dar es Salaam, trabalhando com John eu mudei meus interesses de pesquisa da oferta de trabalho para a questão dos movimentos de libertação nacional e os novos regimes que estavam emergindo com a descolonização. Nós dois éramos céticos quanto à capacidade destes regimes se emanciparem daquilo que estava apenas começando a ser chamado de neocolonialismo, e de realmente cumprirem suas promessas de desenvolvimento econômico. Mas havia também uma diferença entre nós dois, que penso persistir até hoje: eu estava muito menos chateado com isso do que o próprio John. Para mim, estes movimentos eram movimentos de libertação nacional; de forma alguma eram movimentos socialistas, ainda que eles abraçassem a retórica do socialismo. Eram regimes populistas e, portanto, eu não esperava muito além da libertação nacional, que ambos viam como algo muito importante em si mesmo. Mas se existiam possibilidades de evolução política para além disso, é algo sobre o qual John e eu dialogamos, com bom humor, até hoje, sempre que nos encontramos. Porém, os ensaios que escrevemos juntos[8] foram a crítica sobre a qual estávamos de acordo.

Quando você voltou para a Europa, encontrou um mundo muito diferente daquele que havia deixado seis anos antes?

Sim. Eu voltei para a Itália em 1969, e me envolvi imediatamente em duas situações. Uma delas foi na Universidade de Trento, onde me tinha sido oferecida uma vaga como professor. Trento era o principal centro de militância estudantil, e, na época, a única universidade na Itália que oferecia doutorados em Sociologia. A minha nomeação foi patrocinada pelo comitê organizador da universidade, formado pelo democrata-cristão Nino Andreatta, pelo socialista liberal Norberto Bobbio e por Francesco Alberon. Era parte de uma tentativa de domesticar o movimento estudantil, através da contratação de um radical. No primeiro seminário que eu dei, eu tinha apenas quatro ou cinco alunos, mas no semestre do outono, após a publicação do meu livro sobre a África, no Verão de 1969, eu tinha quase 1.000 alunos tentando entrar na minha sala de aula. Meu curso tornou-se o grande evento de Trento. Isto até mesmo dividiu a Lotta Continua: a facção de Boato queria que os estudantes fossem às aulas para ouvir uma crítica radical das teorias do desenvolvimento, enquanto a facção de Rostagno tentava perturbar as aulas, jogando pedras na sala a partir do pátio.

A segunda situação foi em Turim, por meio de Luisa Passerini, que era uma proeminente propagadora dos escritos situacionistas e, portanto, tinha uma grande influência em muitos quadros da Lotta Continua que estavam começando a conhecer o situacionismo. Eu viajava de Trento para Turim, via Milão, partindo do centro do movimento estudantil para o centro do movimento dos trabalhadores. Eu me sentia atraído e, ao mesmo tempo, incomodado com alguns aspectos desse movimento – particularmente, a sua rejeição da “política”. Em algumas das assembleias, trabalhadores muito militantes se levantavam e diziam: “Chega de política! A política está nos arrastando para a direção errada. Precisamos de unidade.” Para mim, foi um choque muito grande, vindo da África, descobrir que os sindicatos comunistas eram considerados reacionários e repressivos pelos trabalhadores em luta - e havia um importante elemento de verdade nisso. A reação contra os sindicatos do PCI tornou-se uma reação contra todos os sindicatos. Grupos como o Potere Operaio, a Lotta Continua colocaram-se como alternativas, tanto para os sindicatos, como para os partidos de massa. Com Romano Madera, que então era um estudante, mas também um quadro político e um gramsciano - uma raridade na esquerda extraparlamentar – começamos a desenvolver a ideia de encontrar uma estratégia gramsciana de se relacionar com o movimento.

Foi aí que a ideia de Autonomia - da autonomia intelectual da classe operária - surgiu pela primeira vez. A criação deste conceito é hoje geralmente atribuída a Antonio Negri. Mas, na verdade, originou-se na interpretação de Gramsci que desenvolvemos no início da década de 1970, no Gruppo Gramsci co-fundado por Madera, Passerini e eu. Nós vimos que nossa principal contribuição para o movimento não era fornecer um substituto para os sindicatos ou para os partidos, mas como estudantes e intelectuais que estavam envolvidos em ajudar as vanguardas dos trabalhadores a desenvolverem a própria autonomia – Autonomia Operária – através da compreensão dos processos mais amplos, nacionais e globais, nos quais suas lutas estavam ocorrendo.

Em termos gramscianos, isto era concebido como a formação de intelectuais orgânicos da classe trabalhadora em luta. Para este fim nós formamos a Colletivi Politici Operai (CPOS), que ficou conhecida como a Area dell’Autonomia. Na medida em que estes coletivos desenvolvessem suas próprias práticas autônomas, o Gruppo Gramsci deixaria de ter uma função e poderia se dissolver. Quando ele realmente foi dissolvido, no outono de 1973, Negri entrou em cena, e levou a CPOS e a Area dell’Autonomia para uma direção aventureira, muito distante da sua intenção original.

Houve alguma lição comum que você aprendeu com as lutas africanas de libertação nacional e as lutas da classe trabalhadora italiana?

As duas experiências tiveram em comum o fato de que, em ambas, eu tinha relações muito boas com os movimentos mais amplos. Eles queriam saber em que bases eu estava participando em suas lutas. Minha posição era: “Eu não vou lhe dizer o que fazer, porque você conhece a sua situação muito melhor do que jamais conhecerei. Mas eu estou em melhor posição para compreender o contexto mais amplo em que isto se desenvolve. Então, a nossa troca tem que ser baseada no fato de você me dizer qual é a sua situação, e eu lhe dizer como ela se relaciona com o contexto mais amplo, o qual você não pode ver, ou pode ver apenas parcialmente, de onde você opera.” Esta sempre foi a base de excelentes relações, tanto com os movimentos de libertação na África Meridional, quanto com os trabalhadores italianos.

Os artigos sobre as crises capitalistas originaram-se em uma troca deste tipo, em 19729. Aos trabalhadores era dito “Agora há uma crise econômica, temos que nos manter quietos. Se continuarmos lutando, os empregos industriais irão para outro lugar”. Então os trabalhadores colocaram a questão para nós: “Estamos em uma crise? E se assim é, quais são suas implicações? Devemos ficar quietos agora, apenas por causa disso?”. Os artigos que compunham “Para uma Teoria das Crises Capitalistas” foram escritos dentro desta problemática particular, enquadrada pelos próprios trabalhadores, que estavam dizendo: “Conte-nos sobre o mundo lá fora, e o que podemos esperar.” O ponto de partida dos artigos era: “Olha, crises ocorrem com vocês lutando ou não, elas não resultam da militância dos trabalhadores, ou de ‘erros’na gestão econômica, mas são sim fundamentais para as operações da própria acumulação capitalista.” Esta foi a orientação inicial. O artigo foi escrito bem no início da crise, antes da existência desta ser amplamente reconhecida. Ele se tornou importante como um referencial que eu tenho usado ao longo dos anos para monitorar o que está acontecendo. Desse ponto de vista, tem funcionado muito bem.

Nós voltaremos à teoria das crises capitalistas, mas antes eu gostaria de perguntar sobre seu trabalho na Calábria. Em 1973, justo quando o movimento estava começando a declinar, você aceitou a oferta de um posto de professor em Consenza?

Para mim, uma das atrações para ir a Calábria, era a possibilidade de continuar, em um novo lugar, minha pesquisa sobre a oferta de trabalho.

Eu já tinha visto na Rodésia como, quando os africanos foram todos proletarizados – ou, mais precisamente, quando eles se tornaram conscientes de que estavam agora completamente proletarizados – passavam a lutar para obter um salário mínimo nas áreas urbanas. Em outras palavras, a ficção de que “nós somos homens solteiros, nossas famílias continuam a viver como camponeses lá no interior” já não podia ser mantida, pois eles realmente tinham que viver nas cidades. Eu tinha destacado isto em “Labour Supplies in Historical Perspective”. E ficou ainda mais claro na Itália, porque lá existia esse quebra-cabeças: nos anos 1950 e começo dos 1960, imigrantes do sul eram levados ao norte industrial como peões[10]. A partir da década de 1960 e especialmente no fim dela, eles haviam se transformado na vanguarda da luta de classes, o que é a experiência típica dos imigrantes. Quando eu iniciei um Grupo de Pesquisa na Calábria eu fiz os componentes lerem os textos dos antropólogos sociais sobre a África, principalmente sobre imigração, e então analisamos a oferta de trabalho na Calábria. As questões eram: o que estava criando as condições para esta imigração? E quais eram seus limites – dado que, até certo ponto, em lugar de criar uma força de trabalho dócil que poderia ser usada para minar o poder de barganha da classe trabalhadora do Norte, os próprios imigrantes se tornavam uma vanguarda militante? Duas coisas emergiram da pesquisa. Primeiro, o desenvolvimento capitalista não depende necessariamente da proletarização completa. Por outro lado, a imigração de trabalhadores de longa distância estava acontecendo em lugares onde não estava ocorrendo nenhuma desapropriação; onde havia inclusive possibilidade dos trabalhadores comprarem terras dos latifundiários. A imigração estava relacionada com o sistema de primogenitura, pelo qual somente o filho mais velho herdava a terra. Tradicionalmente, os filhos mais jovens acabavam entrando para a Igreja ou para o exército, até que a imigração de longa distância e em grande escala ofereceu um caminho alternativo cada vez mais importante para obter o dinheiro que permitiria comprar terra na cidade natal e instalar suas próprias fazendas. Por outro lado, nas áreas realmente pobres, onde o trabalho já estava totalmente proletarizado, em geral eles não tinham como financiar a imigração. A única maneira para fazer isto foi, por exemplo, quando o Brasil aboliu a escravidão em 1888 e necessitou de uma força de trabalho substituta e barata. Eles então recrutavam trabalhadores destas áreas profundamente pobres do Sul da Itália, pagavam-lhes a viagem e os assentavam no Brasil para substituir os escravos emancipados. Estes são padrões muito diferentes de migração. Mas de um modo geral, não eram os realmente pobres que migravam, porque era necessário ter alguns meios e contatos para fazê-lo.

A segunda conclusão da pesquisa na Calábria tinha similaridades com os resultados da pesquisa na África. Aqui também, a disposição dos imigrantes para se engajarem nas lutas dos trabalhadores nos lugares para onde eles haviam se mudado dependia de eles considerarem que as novas condições determinavam de modo permanente suas vidas. Não é suficiente dizer que a situação nas áreas de origem determina o salário e as condições pelas quais os migrantes irão trabalhar. É necessário também dizer em que ponto os migrantes percebem que a maior parte de sua subsistência provém do trabalho assalariado – é uma mudança que pode ser detectada e monitorada. Mas a principal questão que emerge é um tipo diferente de crítica à ideia da proletarização como o processo típico do desenvolvimento capitalista.

Como a versão inicial desta pesquisa foi roubada de um carro em Roma, a redação final foi feita já nos Estados Unidos, vários anos depois de você ter se mudado para Binghamton em 1979, onde a análise dos sistemas-mundo estava sendo desenvolvida. Foi esta a primeira vez em que você explicitamente colocou sua posição sobre a relação entre proletarização e desenvolvimento capitalista vis-à-vis às posições de Wallerstein e Brenner?

Sim, embora eu não tenha sido suficientemente explícito sobre isso, mesmo tendo mencionado Wallerstein e Brenner de passagem; mas o trabalho inteiro é, de fato, uma crítica a ambos[11]. Na teoria de Wallerstein, as relações de produção são determinadas pela posição na estrutura centro-periferia. Segundo ele, na periferia tendem a prevalecer relações de produção que são coercitivas; você não tem a proletarização completa, que é uma situação que você encontra no centro. Brenner possui, em alguns aspectos, a visão contrária, mas em outros pontos, ela é muito parecida: que as relações de produção determinam a posição [de uma determinada região] na estrutura centro-periferia. Em ambos, você tem uma relação específica entre a posição na estrutura centro-periferia e as relações de produção. A pesquisa na Calábria mostrou que este não é o caso. Ali, na mesma localidade periférica, nós encontramos três vias se desenvolvendo simultaneamente e se reforçando mutuamente. E mais ainda, as três vias tinham fortes semelhanças com desenvolvimentos que, historicamente, caracterizaram diferentes regiões centrais. Uma é muito similar à via “Junker” de Lênin – latifúndio com proletarização completa; outra ao “caminho americano” de Lênin, de pequenos e médios fazendeiros (agricultores), imersos no mercado. Lênin não tem a terceira via que nós chamamos de caminho Suíço: migração de longa distância com investimento e manutenção da propriedade na localidade de origem. Na Suíça não há desapropriação dos camponeses e sim uma tradição de imigração que permitiu a consolidação da pequena propriedade rural. O que é interessante acerca da Calábria, é que todas as três vias, que em outros autores estão associadas a uma posição no centro, aqui foram encontradas na periferia – o que é uma crítica tanto ao processo único de proletarização de Brenner, quanto à correspondência, feita por Wallerstein, da posição das relações de produção [na estrutura centro-periferia].

Seu “Geometria do Imperialismo”12 apareceu em 1978, antes de sua ida para o EUA. Relendo-o, fiquei impressionado pela metáfora matemática – a geometria – que você usa para construir a compreensão da teoria do imperialismo de Hobson, e que desempenha uma função muito útil. Mas, além disso, há uma interessante questão geográfica: quando você coloca Hobson e o capitalismo juntos, a noção de hegemonia emerge de repente, como uma mudança da geometria para a geografia naquilo que você está fazendo. Qual foi a motivação inicial para escrever “A Geometria...” e qual a importância dele pra você?

Na época, eu estava incomodado pela confusão terminológica que estava se formando em torno do termo “imperialismo”. Meu objetivo era dissipar algo dessa confusão através da criação de um espaço topológico onde os diferentes conceitos, que eram com frequência equivocadamente entendidos como “imperialismo”, pudessem ser diferenciados uns dos outros. Mas como um exercício sobre o imperialismo, sim, ele também funcionou para mim como uma transição para o conceito de hegemonia. Eu disse isso explicitamente no postscriptum da 2ª. edição de 1983 de “A Geometria do Imperialismo”, no qual argumentei que o conceito gramsciano de hegemonia poderia ser mais útil que “imperialismo” para analisar a dinâmica contemporânea do sistema interestatal. Deste ponto de vista, o que eu – e outros – fizemos foi simplesmente reaplicar a noção gramsciana de hegemonia às relações interestatais, onde ela originalmente estava antes que Gramsci a empregasse para a análise das relações de classe no interior de uma jurisdição política nacional. Com isso, Gramsci certamente enriqueceu o conceito em muitos aspectos que não tinham sido percebidos antes. Nossa reexportação dele para a esfera internacional beneficiou-se enormemente desse enriquecimento.

Braudel teve uma influência central na concepção de “O Longo Século XX”, publicado em 1994. Depois de tê-lo absorvido, você tem alguma crítica significativa a respeito dele?

Esta crítica é relativamente fácil. Braudel é uma fonte de informação incrivelmente rica sobre mercados e capitalismo, mas ele não tem um marco teórico. Ou mais precisamente, como Charles Tilly observou, ele é tão eclético que tem inúmeras teorias parciais, cuja soma não é uma teoria. Você não pode simplesmente contar com Braudel. Você tem que consultá-lo com uma ideia muito clara do que você está procurando, e do que você está extraindo dele. Uma coisa que eu enfoquei, que distingue Braudel de Wallerstein e de todos os outros analistas dos sistemas-mundo – para não falar de historiadores econômicos mais tradicionais, marxistas ou não –, é a ideia de que o sistema de estados nacionais, que emergiu nos séculos dezesseis e dezessete, foi precedido por um sistema de cidades-Estado; e que e as origens do capitalismo devem ser buscadas lá, nas cidades-Estado. Esta é uma característica distintiva do Ocidente, ou Europa, comparada com outras partes do mundo. Mas você se perde facilmente se você apenas segue Braudel, porque ele leva você para muitas direções diferentes. Eu por exemplo, tive que extrair esse ponto e combiná-lo com o que eu esta- va aprendendo em “Pursuit of Power”, de William McNeill, que de uma perspectiva diferente também argumenta que o sistema de cidades-Estado precedeu e preparou o surgimento de um sistema de estados territoriais.

Outra ideia, à qual você dá uma profundidade teórica muito grande, mas que, no entanto, também vem de Braudel, é a noção de que a expansão financeira anuncia o outono de uma hegemonia sistêmica particular e precede a mudança para um novo hegemon. Isso seria visto como o “in- sight” central de “O Longo Século XX”?

Sim. A ideia é que as organizações capitalistas líderes, de uma determinada época, seriam também as líderes da expansão financeira, que sempre ocorre quando a expansão material das forças produtivas chega a seu limite. A lógica deste processo – ainda que, de novo, Braudel não a forneça – é que, quando a competição se intensifica, o investimento na economia material se torna cada vez mais arriscado e, portanto, acentua-se a preferência pela liquidez dos acumuladores, o que, por sua vez, cria as condições de oferta das expansões financeiras. A questão seguinte, naturalmente, é como são criadas as condições de demanda para as expansões financeiras. Para explicar isso, eu me baseei na ideia de Weber de que a concorrência interestatal pelo capital circulante constitui a especificidade histórico-mundial da era moderna. Esta competição, argumentei, cria as condições de demanda para a expansão financeira. A ideia braudeliana do “outono” – como a fase de conclusão de um processo de liderança na acumulação, que passa do material para o financeiro, e finalmente à substituição por outro líder – é crucial. Mas também o é a ideia de Marx de que o outono de um determinado Estado que experimenta a expansão financeira, é também a primavera para uma outra região: lucros que se acumularam em Veneza vão para Holanda; aqueles que se acumularam na Holanda vão então para a Grã-Bretanha; e aqueles acumulados na Grã-Bre- tanha vão para os Estados Unidos. Assim, Marx nos permite complementar o que nós temos em Braudel: o outono se transforma em primavera em outro lugar, provocando uma série de desenvolvimentos interligados.

“O Longo Século XX” traça esses ciclos sucessivos de expansão capitalista e poder hegemônico da Renascença até o presente. Na sua narrativa, fases de expansão material finalmente se tornam mais fracas sob a pressão de uma competição excessiva, dando lugar a fases de expansão financeira, cujo esgotamento então dá lugar a uma época de caos interestatal que é resolvido pela emergência de uma nova potência hegemônica, capaz de restaurar a ordem global e reiniciar mais uma vez o ciclo de expan- são material, apoiado em um novo bloco social. Estes hegemons foram consecutivamente Genova, Holanda (Províncias Unidas) Inglaterra e os Estados Unidos. Até onde você considera o aparecimento regular deles, cada um pondo um fim a uma época anterior de problemas, como um conjunto de contingências?

Uma questão boa e difícil! Há sempre um elemento de contingência. Ao mesmo tempo, a razão pela qual essas transições demoram tanto, e atravessam períodos de turbulência e caos é que os próprios agentes, na forma como eles surgem para organizar o sistema, passam por um processo de aprendizagem. Isso fica claro se nós olhamos para o caso mais recente, o dos EUA. No final do século XIX, os EUA já apresentavam algumas características que faziam deles um possível sucessor da Grã-Bretanha como líder hegemônico. No entanto, demorou mais de meio século, duas guerras mundiais e uma catastrófica depressão, antes que os Estados Unidos de fato desenvolvessem estruturas e ideias que, depois da II Guerra Mundial, habilitassem-nos para ser verdadeiramente hegemônicos. Foi este desenvolvimento do EUA no século XIX, como potencial hegemon, estritamente uma contingência, ou há aí algo mais? Eu não sei. Claramente, havia um aspecto geográfico contingencial – a América do Norte tinha uma configuração espacial diferente da Europa, que possibilitou a formação de um Estado que não poderia ser criado na Europa, exceto na parte Leste, onde a Rússia também estava se expandindo territorialmente. Mas também havia um elemento sistêmico: A Grã-Bretanha tinha criado um sistema de crédito internacional que, depois de certo ponto, favoreceu em formas específicas a consolidação dos Estados Unidos.

Certamente, se no final do século XIX não houvesse um Estados Uni- dos, com sua particular configuração histórico-geográfica, a história teria sido muito diferente. Quem teria se tornando hegemônico? Nós só podemos conjecturar. Mas havia os Estados Unidos, que estavam construindo uma hegemonia, em muitos aspectos, na tradição da Holanda e da Grã-Bretanha. Genôva era um pouco diferente: eu nunca disse que ela foi hegemônica; ela era mais próxima de um tipo de organização financeira transnacional que ocorre nas diásporas, incluindo a diáspora chinesa contemporânea. Mas ela não foi hegemônica no sentido gramsciano em que o foram a Holanda, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos. A Geografia tem muita importância; mas ainda que sejam três hegemonias espacialmente muito diferentes, cada uma se construiu com características organizacionais aprendidas da anterior. A Grã-Bretanha tomou muita coisa emprestada da Holanda e os Estados Unidos da Grã-Bretanha; esses são um conjunto interligado de Estados – há um tipo de efeito bola de neve. Então, sim, há contingências; mas há também ligações sistêmicas.

O Longo Século XX não aborda o destino do movimento operário. Você o omitiu porque, na época, você o considerava menos importante, ou porque a arquitetura do livro – seu subtítulo é Dinheiro, Poder e as Origens de Nossa Época – já era tão ampla e complexa que se você incluísse o trabalho ela ficaria sobrecarregada?

Mais pela última razão. Originalmente, O Longo século XX seria escrito em coautoria com Beverly Silver – quem eu encontrei pela primeira vez em Binghamton – e era pra ser em três partes. Uma seria sobre as hegemonias, que agora compõem o primeiro capítulo do livro. A segunda parte se esperava que fosse sobre o capital – a organização do capital, a empresa; basicamente, a competição. A terceira seria sobre o trabalho – as relações trabalho-capital e os movimentos trabalhistas. Mas a descoberta da financerização como um padrão recorrente do capitalismo histórico afetou todo o projeto. Isso me forçou a voltar no tempo, o que eu nunca quis fazer, porque o livro era realmente pra ser sobre o “Longo Século Vinte”, ou seja, da Grande Depressão da década de 1870 até o presente. Quando eu descobri o paradigma da financeirização eu fiquei completamente fora de rumo, e “O Longo Século XX” se tornou basicamente um livro sobre o papel do capital financeiro no desenvolvimento histórico do capitalismo, desde o século quatorze. Por isso, Beverly assumiu a pesquisa sobre o trabalho em seu Forces of Labour, que veio à luz em 200313.

Escrito em coautoria por vocês dois em 1999, “Caos e Governabilidade” parece respeitar o tipo de estrutura que vocês haviam inicialmente planejado para o “O Longo século XX”.

Sim, em Caos e Governabilidade14 há capítulos sobre geopolítica, empresas, conflitos sociais e assim por diante. Assim, o projeto inicial nunca foi abandonado. Mas isso certamente não foi incorporado em O Longo Século XX, porque eu não poderia enfocar a recorrência cíclica das expansões financeiras e expansões materiais e, ao mesmo tempo, tratar do trabalho. Depois que você muda o foco na definição do capitalismo para uma alternância de expansões materiais e financeiras, torna-se muito difícil retornar para a questão do trabalho. Não apenas há muito o que cobrir, mas há também uma considerável variação temporal e espacial nas relações entre capital e trabalho. Por um lado, como nós assinalamos em Caos e Gover- nabilidade, há uma aceleração da história social. Quando você compara as transições de um regime de acumulação para outro, você percebe que, na transição da hegemonia holandesa para a britânica no século dezoito, os conflitos sociais aconteceram tarde em relação às expansões financeiras e às guerras. Na transição da hegemonia britânica para norte-americana, no começo do século vinte, a explosão do conflito social foi mais ou menos simultânea ao desabrochar da expansão financeira e das guerras. Na atual transição – para um fim desconhecido – a explosão dos conflitos sociais do fim dos anos 1960 e começo da década de 1970 precedeu a expansão financeira e se deu sem guerras entre as principais potências.

Em outras palavras, se você toma a primeira metade do século vinte, as maiores lutas dos trabalhadores aconteceram na véspera e depois das guerras mundiais. Esta foi a base da teoria da revolução de Lênin: ao acabarem em guerras, as rivalidades intercapitalistas criariam condições favoráveis para a revolução, o que é algo que pode ser observado empiricamente até a Segunda Guerra Mundial. Em certo sentido se poderia argumentar que na presente transição, a aceleração do conflito social impediu os estados capitalistas de deflagrarem guerras entre si. Assim, para voltar à sua pergunta, em O Longo Século XX, eu escolhi me concentrar na elaboração completa do argumento sobre expansões financeiras, ciclos sistêmicos de acumula- ção de capital e hegemonias mundiais; mas em Caos e Governabilidade, eu retornei à questão das inter-relações entre conflito social, expansões financeiras e transições hegemônicas.

Na sua discussão da acumulação primitiva, Marx escreve sobre a dívida pública nacional, o sistema de crédito, as falências – de uma certa maneira, a integração entre finanças e Estado ocorreu durante a acumulação primitiva – como sendo absolutamente crítica para o modo como sistema capitalista evolui . Mas a análise em “O Capital”, recusa-se a tratar do sistema de crédito, até que você chega ao Volume Três, porque Marx não quer lidar com o juro, ainda que o sistema de crédito continue se revelando crucial para a centralização do capital, para a organização do capital fixo e assim por diante. Isto levanta a questão de como a luta de classes de fato opera em torno das conexões finanças-Estado, que desempenha o papel central que você está assinalando. Parece haver uma brecha na análise de Marx: por um lado, dizendo que a dinâmica importante é aquela entre o capital e o trabalho; por outro lado, o trabalho parece não ser crucial ao processo sobre o qual você está falando – transferência de hegemonia, saltos de escalas. É compreensível que “O Longo Século XX” tenha tido dificuldade para integrar o trabalho nesta história, porque, num certo sentido, a relação capital-trabalho não é central para este aspecto da dinâmica capitalista. Você concorda com isto?

Sim, eu concordo com uma ressalva: o fenômeno da aceleração da história social que eu mencionei. As lutas operárias dos anos 1960 e come- ço dos 1970, por exemplo, foram um fator decisivo na financeirização do final dos anos 1970 e dos 1980, e no modo como ela evoluiu. A relação das lutas dos trabalhadores e das classes subalternas com a financeirização é algo que muda com o tempo, e recentemente apresentou características que certamente não tinha antes. Mas se você está tentando explicar a recorrên- cia das expansões financeiras, você não pode focar demasiado no trabalho, porque senão você estará falando somente do último ciclo; você provavel- mente cometerá o erro de considerar o trabalho como causa das expansões financeiras, quando as anteriores se desenvolveram sem a intervenção das lutas dos trabalhadores e das classes subordinadas.

Ainda sobre a questão do trabalho, então, poderíamos voltar ao seu ensaio de 1990 sobre a reconstrução do movimento operário mundial, “Século Marxista, Século Americano”[15]. Lá você argumenta que a explicação de Marx para a classe trabalhadora em O Manifesto é profundamente contraditória, pois ele destaca ao mesmo tempo a crescente força coletiva do trabalho, à medida em que prossegue o desenvolvimento capitalista, e seu crescente empobrecimento, correspondendo, de fato, a um exército industrial ativo e a um exército de reserva. Marx, você observou, pensava que as duas tendências se unificariam na mesma massa humana; mas você argumentou que, no começo do século vinte, elas de fato se tornaram espacialmente polarizadas. Na Escandinávia e na esfera inglesa, prevaleceu a primeira, na Rússia e mais ao Leste, a segunda – Bernstein captando a primeira situação e Lênin a segunda – o que levou à divisão entre as alas reformistas e revolucionárias do movimento operário. Por outro lado, na Europa Central – Alemanha, Áustria e Itália – você argumentou que havia um equilíbrio mais variável entre exército ativo e de reserva, levando aos equívocos de Kautsky, incapaz de escolher entre reforma ou revolução, o que contribuiu para a vitória do fascismo. No fim do ensaio você sugeriu que poderia estar acontecendo uma recomposição do movimento operário – miséria reaparecendo no Ocidente, com o retorno do desemprego generalizado; e o poder coletivo dos trabalhadores, com o crescimento do Solidariedade, no Leste, talvez reunindo o que o espaço e a história tinham dividido. Como você vê este prognóstico hoje?

Bem, a primeira coisa é que junto com este cenário otimista do ponto de vista de unificar globalmente as condições da classe trabalhadora, havia no ensaio uma consideração mais pessimista, que assinalava algo que eu sempre considerei uma séria falha no “O Manifesto” de Marx e Engels. Há um salto lógico que realmente não se sustenta, intelectual ou historica- mente – a ideia de que, para o capital, aquelas coisas que hoje chamamos gênero, etnias, e nacionalidade não importa. Que a única que coisa que importa para o capital é a possibilidade da exploração; e, portanto, o grupo de status dentro da classe trabalhadora que pode ser mais explorado será empregado, sem nenhuma discriminação com base na raça, gênero e etnia. Isto certamente é verdade. No entanto, daí não se segue que os vários grupos da classe trabalhadora simplesmente aceitarão isto. De fato, é precisamente no ponto em que a proletarização se torna generalizada, e os trabalhadores estão submetidos aos desígnios do capital, que eles mobilizarão qualquer diferença de status que eles possam identificar ou construir para obter um tratamento privilegiado por parte dos capitalistas. Eles vão se mobilizar em torno de gênero, nacionalidade, etnia ou o que seja, para merecer um trata- mento privilegiado do capital. “Século Marxista, Século Americano” não é, pois, tão otimista quanto possa parecer, porque ele aponta para esta tendência interna dentro da classe trabalhadora de acentuar diferenças de status, para proteger a si própria da tendência do capital de tratar os trabalhadores como uma massa indiferenciada que seria empregada somente na medida em que possibilitasse o capital a obtenção de lucros. Assim, o ensaio termina com uma nota otimista, esta de que há uma tendência para uma equiparação; mas ao mesmo tempo em que se deveria esperar que os trabalhadores lutem para se proteger, através da formação ou da consolidação de grupos de status, contra aquela mesma tendência.

Isso significa que a diferenciação entre o exército ativo e o exército industrial de reserva também tende a ser dividida por status – em termos raciais (por exemplo), se você quiser?

Isso depende. Se você observar o processo globalmente – onde o exército de reserva é não somente o desempregado, mas também o desem- pregado disfarçado e o excluído – então definitivamente há uma divisão de status entre os dois. A nacionalidade tem sido usada por segmentos da classe trabalhadora, do exército ativo, para diferenciar-se do exército de reserva global. No âmbito nacional isto não é tão claro. Se você toma os EUA e a Europa, é muito menos visível que de fato existe uma diferença de status entre o exército ativo e o exército de reserva. Mas com os imigrantes atualmente vindos de países muito mais pobres, tem crescido sentimentos anti-imigração que são uma manifestação desta tendência para criar dis- tinções de status dentro da classe trabalhadora. Assim, é um quadro muito complicado, particularmente se você olha para os fluxos transnacionais de migração, e para a situação na qual o exército de reserva está concentrado principalmente no Sul global ao invés do Norte.

Em seu artigo de 1991, “A Desigualdade Mundial de renda Mundial e o Futuro do Socialismo”16, você mostrou a extraordinária estabilidade a da hierarquia da riqueza regional no século XX, na medida em que a diferença de renda per capita entre o núcleo do Norte/Ocidente e a semiperiferia e periferia Sul/Leste do mundo permaneceu inalterada, ou na realidade se aprofundou após meio século de desenvolvimentismo. O Comunismo, você apontou, não conseguiu preencher essa lacuna na Rússia, na Eu- ropa Oriental e na China, apesar de não ter feito pior a respeito, do que o capitalismo na América Latina, no Sudeste da Ásia ou na África. E, e em outros aspectos – na distribuição de renda mais igualitária dentro da sociedade e uma maior independência do Estado do centro Norte/Ociden- tal – havia feito significativamente melhor. Duas décadas mais tarde, a China obviamente quebrou o padrão que você então estava descrevendo. Até que ponto isso foi – ou não – uma surpresa para você?

Antes de tudo, não devemos exagerar na extensão em que a China tem quebrado o padrão. O nível de renda per capita da China era tão baixo, e ainda é baixo se comparado aos países ricos, que mesmo grandes avanços precisam ser ponderados. A China duplicou sua posição em relação ao mundo rico, mas ainda significa apenas ir de 2 por cento da renda média per capita dos países ricos para 4 por cento. É verdade que a China tem sido decisiva na produção de uma redução nas desigualdades de renda entre os países. Se você retirar a China, a posição relativa do Sul agravou-se desde os anos 80; se você a mantém, o Sul melhorou um pouco, isto devido quase que exclusivamente ao avanço chinês. Mas, claro, tem havido um grande crescimento da desigualdade dentro da RPC [República Popular da China]. Assim, o país também contribuiu, nas últimas décadas, para o aumento em escala mundial das desigualdades dentro dos países. Tomando juntas as duas medidas de desigualdade - entre países e dentro deles -, a China provocou, estatisticamente, uma redução no total da desigualdade global. Não devemos superestimar isto – o padrão mundial ainda é de enormes brechas, que estão sendo reduzidas de maneiras muito pequenas. No entanto, é importante por- que isto muda as relações de poder entre os países. Se continuar, pode até mudar a divisão global de renda de uma distribuição que ainda está muito polarizada, para uma mais normal, de tipo paretiana.

Eu fiquei surpreso com isso? Em certa medida, sim. Na verdade, é por isso que eu, nos últimos quinze anos, mudei meu interesse de pesquisa para o estudo do Leste Asiático: porque percebi que, embora a Ásia Oriental – com exceção do Japão, é claro – fosse uma parte do Sul, essa região tinha algumas peculiaridades que lhe permitiu gerar um tipo de desenvolvimento que não se encaixava perfeitamente dentro do padrão de desigualdade estável entre regiões. Ao mesmo tempo, ninguém defendeu – eu certamente não – que a estabilidade na distribuição da renda também significava imobilidade de determinados países ou regiões. Uma estrutura de desigualdades razoavel- mente estável pode persistir, com alguns países subindo e outros descendo. E isso, em certa medida, é o que vem acontecendo. A partir dos anos 1980 e 1990, em particular, o desenvolvimento mais importante tem sido a bifur- cação de um Leste Asiático altamente dinâmico e de mobilidade ascendente e de uma África estagnada e de mobilidade descendente em particular da África Austral – mais uma vez “A África das reservas de trabalho”. Esta bifurcação é a coisa que mais me interessa: por que a África meridional e o Leste da Ásia se moveram em direções tão opostas? É muito importante tentar compreender este fenômeno, porque fazê-lo poderia modificar também nosso entendimento dos fundamentos do sucesso do desenvolvimento capitalista, e na medida em que este depende, ou não, da desapropriação – a proletarização completa do campesinato – como aconteceu no Sul da África; ou da proletarização parcial, que ocorreu na Ásia Oriental. Assim, a divergência destas duas regiões traz uma grande questão teórica, que mais uma vez desafia a identificação do desenvolvimento capitalista de Brenner, com a proletarização completa da força de trabalho.

“Caos e Governabilidade”, em 1999, argumentou que a hegemonia americana iria declinar principalmente pela a ascensão da Ásia Oriental e, sobretudo da China. Ao mesmo tempo, o livro apresentou a previsão de que esta seria também a região onde o trabalho poderia representar, no futuro, o maior desafio para a capital, em todo o mundo. Por vezes tem sido sugerido que existe uma tensão entre essas perspectivas, a ascensão da China como um centro de poder rivalizando com os Estados Unidos, e o crescimento de distúrbios entre as classes trabalhadoras na China. Como você vê a relação entre os dois?

A relação é muito estreita, porque, em primeiro lugar, ao contrário do que muitos pensam, os camponeses e os trabalhadores chineses têm uma tradição milenar de inquietação que não tem paralelo em nenhum outro lugar do mundo. Na verdade, muitas das transições dinásticas foram ocasionadas por rebeliões, greves e manifestações, não apenas de trabalhadores e camponeses, mas também dos comerciantes. Esta é uma tradição que continua até o presente. Quando Hu Jintao, disse a Bush, há alguns anos atrás, “não se preocupe com a China tentando desafiar o domínio dos EUA; temos muitas preocupações em casa”, ele estava apontando para uma das principais características da história chinesa: como combater a combinação de rebeliões internas pelas classes subordinadas com invasões externas, os chamados bárbaros, das estepes, até o século XIX e, em seguida, desde a Guerra do Ópio, a partir do mar. Estas sempre foram as preocupações fundamentais dos governos da China, e eles definiram limites estreitos do papel chinês nas relações internacionais. O Império chinês do final século XVIII e do século XIX era basicamente uma espécie de estado de bem-estar pré-moderno. Estas características foram reproduzidas ao longo de sua subsequente evolução. Durante a década de 1990, Jiang Zemin deixou o gênio capitalista sair da garrafa. As tentativas atuais para trazê-lo de volta têm que ser definidas no âmbito desta longa tradição. Se rebeliões atuais das classes subordinadas chinesas se materializarem em uma nova forma de Estado de Bem Estar, em seguida, irão influenciar o padrão de relações internacionais durante os próximos vinte ou trinta anos. Mas o equilíbrio de forças entre as classes na China ainda está em disputa no momento.

Existe uma contradição entre ser um grande centro de agitação social e ser uma potência em ascensão? Não necessariamente. Os Estados Unidos na década de 1930 estiveram na vanguarda das lutas operárias, ao mesmo tempo em que estavam emergindo como potência hegemônica. O sucesso nestas lutas, em meio à Grande Depressão, foi um fator importante na transformação dos EUA como socialmente hegemônicos também para as classes trabalhadoras. Este certamente foi o caso da Itália, onde a experiência norte-americana se tornou o modelo para alguns dos sindicatos católicos.

Declarações recentes da China sugerem uma grande preocupação com os níveis de desemprego resultantes de uma recessão global, com uma série de medidas para combatê-lo. Mas isso também implica a continuação do modelo de desenvolvimento sobre formas que podem, no fim, desafiar o resto do capitalismo global?

A questão é se as medidas que os governantes chineses tomam, em resposta às lutas dos grupos subordinados, podem funcionar em outros lugares onde as mesmas condições não existem. O fato de a China poder se tornar um modelo para outros Estados, particularmente de outros grandes Estados do Sul, como a Índia, é dependente de uma série de especificidades históricas e geográficas que não podem, talvez, serem reproduzidas em outros lugares. Os chineses sabem disso, e eles na realidade não se colocam como um modelo a ser imitado. Logo, o que acontece na China, será crucial em termos da relação entre a RPC e o resto do mundo, mas não em termos da criação de um modelo para os outros seguirem. No entanto, existe uma interpenetração de lutas ali, de operários e camponeses nas lutas contra exploração, mas também de lutas contra problemas ambientais e destruição ecológica; que você não encontra, na mesma medida, em outros lugares.

Essas lutas estão crescendo, no momento, e será importante ver como a liderança responde. Eu acho que a mudança de liderança de Hu Jintao e Wen Jiabao está relacionada ao nervosismo, pelo menos, sobre o abandono de uma tradição de bem-estar de longa data. Então, vamos ter que acompanhar a situação e prestar atenção para os possíveis resultados.

Para voltar à questão das crises capitalistas. Seu ensaio de 1972, “Rumo a uma Teoria da Crise Capitalista”, traz uma comparação entre a longa recessão de 1873-1896 e a previsão, que se revelou completamente precisa, de outra crise, que historicamente começou em 1973. Você retornou a esse paralelo diversas vezes desde então, apontando as semelhanças, mas também diferenças importantes entre os dois períodos. Mas você escreveu menos sobre a crise de 1929 e suas consequências. Você considera a Grande Depressão, como um processo, de menor relevância?

Bem, não menos relevante, porque na verdade ela é a crise mais grave que o capitalismo histórico experimentou; certamente foi um ponto decisivo. Mas isto também educou os poderosos em termos do que devem fazer para que não se repita essa experiência. Há uma variedade de instrumentos, reconhecidos e menos reconhecidos, para prevenir que esse tipo de crise aconteça novamente. Mesmo agora, embora o colapso na bolsa de valores esteja sendo comparado a 1930, eu acho, e posso estar errado, que tanto as autoridades monetárias como os governos dos Estados, que são quem realmente importa nisto, vão fazer todo o possível para evitar que o colapso nos mercados financeiros resulte em efeitos sociais similares aos da década de 1930. Eles simplesmente não podem pagar isso politicamente. E assim, para se recuperar, vão fazer tudo o que for preciso. Mesmo Bush, e Reagan antes dele, e toda sua ideologia de livre mercado, baseou-se num tipo extremo de gasto keynesiano deficitário. Sua ideologia é uma coisa, o que eles realmente fazem é outra, porque eles estão respondendo a situações políticas as quais não podem permitir que se deteriorem muito. Os aspectos financeiros podem ser semelhantes aos de 1930, mas há uma maior consciência e restrições mais rígidas para as autoridades políticas não deixarem que esses processos afetem a chamada economia real, na mesma medida que fizeram em 1930. Eu não estou dizendo que a Grande

Depressão é menos relevante, mas não estou convencido de que vai ser repetir no futuro próximo. A situação da economia mundial é radicalmente diferente. Na década de 1930 estava altamente segmentada, e isto pode ter sido um fator para produção das condições para aquele colapso. Agora tudo é muito mais integrado.

Em “Rumo a uma Teoria da Crise Capitalista”17 você descreve um profundo conflito estrutural no capitalismo, no qual você diferencia crises que são causadas por uma excessiva taxa de exploração, que levam, devido à de- manda efetiva insuficiente, a uma crise de realização, e aquelas causadas por uma taxa muito baixa de exploração, o que corta a procura de meios de produção. Hoje, você ainda mantém essa distinção geral, e se assim for, diria que estamos em uma crise de realização subjacente, mascarada pela expansão do endividamento pessoal e financeirização, devido à repressão salarial que tem caracterizado o capitalismo nos últimos trinta anos?

Sim. Penso que ao longo dos últimos 30 anos houve uma mudança na natureza da crise. Até o início de 1980, a crise era tipicamente ligada à queda na taxa de lucros, devido à intensificação da concorrência entre as organizações capitalistas, e devido às circunstâncias, nas quais o trabalho estava muito melhor equipado para se proteger do que nas depressões anteriores – tanto na do final do século XIX quanto na da década de 1930. Esta era situação durante a década de 1970. A contrarrevolução monetária Reagan-Thatcher foi realmente destinada a minar esse poder, essa capacidade das classes trabalhadoras de protegerem a si mesmas. Isto não era o único, mas foi um dos principais objetivos. Eu acho que se você citar alguns assessores de Thatcher, dizendo que o que eles fizeram foi para criar um exército industrial de reserva, exatamente o que Marx diz que eles deveriam fazer! Isso mudou a natureza da crise. Na década de 1980 e 1990 e agora, na década de 2000, estamos realmente diante de uma crise de superprodução, com todas as suas características típicas. Rendimentos foram redistribuídos em favor de grupos e classes que têm alta liquidez e disposições especulativas, de modo que a renda não volta para circulação sob a forma de demanda efetiva, mas eles a colocam para a especulação, criando bolhas que estouram regularmente. Então, sim, a crise foi transformada de uma de típica crise de queda da taxa de lucro, devido à intensificação da concorrência entre as capitais, para uma de superprodução devido a uma falta sistemática de demanda efetiva, criada pelas tendências do desenvolvimento capitalista.

Um recente relatório do Conselho Nacional de Inteligência previu o fim da dominação global dos EUA em 2025, e o surgimento de um mundo mais fragmentado, multipolar, e potencialmente conflituoso. Você acha que o capitalismo como sistema mundial exige, como condição de sua existência, uma única potência hegemônica? A ausência de uma, necessariamente equivale à instabilidade e caos sistêmico? Um equilíbrio de poder entre estados centrais aproximadamente comparáveis é impossível?

Não, eu diria que não é impossível. Depende muito se o provável poder hegemônico aceita uma acomodação ou não. O caos dos últimos seis, sete anos é devido à resposta da administração Bush ao 11/09, que em alguns aspectos, foi um caso de suicídio entre as grandes potências. O que a potência em declínio faz é muito importante, porque ela tem a capacidade de criar o caos. Todo o “Projeto para um Novo Século Americano” era uma recusa em aceitar o declínio. Isto tem sido uma catástrofe. Houve o desastre militar no Iraque e a tensão financeira relacionada à posição dos EUA na economia mundial, transformando os Estados Unidos de um país credor a nação mais devedora da história mundial. Como derrota, o Iraque é pior do que o Vietnã, porque, na Indochina, havia uma longa tradição de guerrilha: eles tinham um líder do calibre de Ho Chi Minh, eles já haviam derrotado os franceses. A tragédia para os americanos no Iraque é que, mesmo nas melhores circunstâncias possíveis, eles têm dificuldade em vencer a guerra, e agora eles estão apenas tentando sair com algum dispositivo para salvar a sua cara. Sua resistência à acomodação tem levado, em primeiro lugar, a uma aceleração do seu declínio, e em segundo lugar, a muito sofrimento e caos. O Iraque é um desastre. O tamanho da população desalojada lá é muito maior do que em Darfur.

Não está claro o que Obama realmente quer fazer. Se ele acha que pode reverter a queda, ele vai ter algumas surpresas muito desagradáveis. O que ele pode fazer é controlar a queda de forma inteligente, em outras palavras, mudar a política de: «Nós não estamos acomodados. Nós queremos mais um século», para uma gestão declínio de facto, elaborando políticas que se adaptem à mudança nas relações de poder. Eu não sei se ele vai fazer isso porque ele é muito ambíguo; ou porque na política não se pode dizer certas coisas; ou porque ele não sabe o que fazer; ou porque ele simples- mente é ambíguo, não sei. Mas a mudança de Bush para Obama abre uma possibilidade de gestão e acomodação do declínio dos Estados Unidos de uma maneira não catastrófica. Bush teve o efeito oposto: a credibilidade do exército americano foi ainda mais prejudicada e a situação financeira tornou-se ainda mais desastrosa. Então, a tarefa que Obama agora enfrenta, eu acho, é administrar o declínio inteligentemente. Isso é o que ele pode fazer. No mínimo, sua ideia de uma escalada da intervenção dos EUA no Afeganistão é preocupante, para dizer o mínimo.

Ao longo dos anos, sempre baseando seu trabalho na concepção de Marx sobre a acumulação de capital, você nunca hesitou em expressar uma série de críticas a Marx, e sua subestimação da luta pelo poder entre os Estados, sua indiferença para com o espaço, as contradições em suas atribuições a classe trabalhadora, entre outros. Por muito tempo você também foi fascinado por Adam Smith, que desempenha um papel central no seu mais recente trabalho, “Adam Smith em Pequim”. Quais seriam as suas ressalvas comparáveis sobre ele?

As ressalvas comparáveis sobre Smith são as mesmas que as reservas de Marx sobre ele. Marx tirou muita coisa de Smith, a tendência da queda da taxa de lucro sob o impacto da competição intercapitalista, por exemplo, é uma ideia smithiana. “O Capital” é uma crítica da economia política: Marx estava criticando Smith por não notar o que estava acontecendo nas residências ocultas da produção, como ele disse: a concorrência intercapitalista pode reduzir a taxa de lucro, mas isso foi compensado pela tendência e capacidade dos capitalistas em mudar as relações de poder com a classe trabalhadora em seu favor. Deste ponto de vista, a crítica de Marx à economia política de Smith tocou em um ponto fundamental. No entanto, a pessoa também tem de olhar para a evidência histórica, porque a obra de Marx foi uma construção teórica, com pressupostos que podem não corresponder à realidade histórica de determinados períodos ou lugares. Não podemos in- ferir realidades empíricas a partir de uma construção teórica. A validade de sua crítica a Smith deve ser avaliada com base no registro histórico, isto se aplica a Smith, tanto quanto ela se aplica a Marx, ou qualquer outra pessoa.

Uma das conclusões de Marx em “O Capital”, particularmente no primeiro volume, é que a adoção de um sistema de livre mercado smithiano levaria a aumentos de desigualdade entre as classes. Até que ponto a introdução de um regime smithiano em Pequim carrega o risco de produzir desigualdades de classe ainda maiores na China?

Meu argumento no capítulo teórico sobre Smith, em “Adam Smith em Pequim”, é que não há nenhuma noção, em sua obra, de mercados autorregulados, como no credo neoliberal. A mão invisível é a do Estado, que deveria governar de forma descentralizada, com mínima interferência burocrática. Substantivamente, a ação do governo em Smith é pró-trabalho, e não pró-capital. Ele é bem explícito que não é a favor de que os trabalha- dores compitam para redução dos salários, mas sim de fazer os capitalistas competirem, para reduzir os lucros a um mínimo aceitável como recompensa por seus riscos. As concepções correntes colocaram-no completamente de cabeça para baixo. Mas não é claro para onde a China se dirige hoje. Na era de Jiang Zemin, nos 1990, foi certamente direcionada a fazer os trabalhadores concorrerem em benefício do capital e do lucro, não há dúvida sobre isso. Agora, há uma inversão, uma que, como eu disse, tem que ser levada em conta não só a tradição da Revolução e do período de Mao, mas também dos aspectos de bem-estar da China imperial tardia sob a dinastia Qing, no final do Século XVIII e início dos XIX. Eu não estou colocando as apostas sobre qualquer resultado em particular na China, mas temos que ter uma mente aberta para enxergarmos para onde tudo isso irá.

Em Adam Smith em Pequim, você também utilizou o trabalho Sugihara Kaoru ao contrastar uma “revolução industriosa”, baseada no trabalho intensivo e gestão da natureza, no início da era moderna da Ásia, e uma “revolução industrial”, baseada na mecanização e utilização predatória de recursos naturais, e fala da esperança de que poderia ocorrer uma convergência entre os dois caminhos para a humanidade no futuro. Como avalia o equilíbrio entre eles na Ásia Oriental de hoje?

Muito precária. Eu não sou tão otimista como Sugihara em pensar que a tradição do leste asiático de “revolução industriosa” é tão bem estabelecida que pode, se não tornar-se dominante, novamente, pelo menos, desempenhar um papel importante em qualquer formação híbrida que poderá surgir. Estes conceitos são mais importantes para monitorar o que está acontecendo do que dizer que o Leste Asiático está indo nesta direção, ou os Estados Unidos estão indo na direção contrária. Precisamos ver o que eles realmente fazem. Há evidências de que as autoridades chinesas estão preocupadas com o meio ambiente, bem como com os distúrbios sociais. Contudo, em seguida, eles fazem coisas que são pura estupidez. Talvez haja um plano em andamento, mas não vejo muita consciência sobre desastres ecológicos nas civilizações do automóvel. A ideia de copiar os Estados Unidos, a partir deste ponto de vista, já foi uma loucura na Europa, e é uma loucura ainda maior na China. E eu tenho dito sempre aos chineses que, na década de 1990 e 2000, eles foram olhar para a cidade errada. Se eles desejam ver como ser rico sem ser ecologicamente destrutivos, eles devem ir a Amsterdã, em vez de Los Angeles. Em Amsterdã, todo mundo anda de bicicleta, existem milhares delas estacionadas na estação durante a noite, porque as pessoas vêm de trem, pegam suas bicicletas na parte da manhã e as deixam lá novamente à noite. Observando que na China, quando estive lá pela primeira vez, em 1970, havia apenas alguns ônibus em um mar de bicicletas, agora, cada vez mais, as bicicletas são preteridas. Desse ponto de vista é uma visão muito misturada, muito preocupante e contraditória. A ideologia da modernização está desacreditada em outros lugares, mas até agora está vivendo, um tanto ingenuamente, na China.

Mas a implicação de “Adam Smith em Pequim” é que parece ser necessária uma espécie de revolução industriosa no Ocidente, e que, portanto, esta é uma categoria que não é específica para a China, mas pode na realidade ser muito mais ampla?

Sim. Mas o ponto básico de Sugihara é que o desenvolvimento típico da revolução industrial, a substituição de trabalho por máquinas e energia, não somente tem limites ecológicos, como sabemos, mas possui também limites econômicos. Na realidade, os marxistas costumam esquecer que a ideia de Marx sobre o aumento da composição orgânica do capital, provocando uma queda da taxa de lucro, tem a ver substancialmente com o fato de que a utilização de mais máquinas e energia intensifica a concorrência entre os capitalistas de tal forma que torna os negócios menos rentáveis, além de ser algo ecologicamente destrutivo. O ponto de Sugihara é que a separação entre a gestão e o trabalho, o crescente domínio da gestão sobre o trabalho, e o fato de que o trabalho é desprovido de habilidades, inclusive às de autogestão, que é típico da revolução industrial, tem limites. Na “revolução industriosa” há uma mobilização de todos os recursos domésticos que desenvolvem, ou pelo menos preservam, as competências de gestão entre os trabalhadores. Finalmente, as vantagens destas habilidades de autogestão tornam-se mais importantes que as vantagens decorrentes da separação de concepção e execução, que era típica da revolução industrial. Eu acho que Sugihara tem um argumento que considero muito importante para a compreensão da ascensão chinesa atual: que, tendo preservado estas habilidades de autogestão através de sérias limitações nos processos de proletarização em sentido substantivo, a China agora pode ter uma organização do processo de trabalho que é mais dependente das habilidades de autogestão do trabalho do que em outros lugares. Esta é provavelmente uma das principais fontes da vantagem competitiva da China, sob as novas circunstâncias.

O que nos levaria de volta para a política do Grupo de Gramsci, em termos do processo de trabalho e a Autonomia?

Sim e não. São duas formas diferentes de autonomia. O que estamos falando agora é a autonomia de gestão, enquanto a outra foi a autonomia em luta, no sentido de antagonismo dos trabalhadores e o capital. Lá, a ideia de autonomia foi: como podemos formular nosso programa de forma que os trabalhadores se unam na luta contra o capital, ao invés de dividir o trabalho e criar as condições para a capital para restabelecer sua autoridade sobre os trabalhadores no local de trabalho? A atual situação é ambígua. Muitos olham para habilidade chinesa de autogestão e a veem como uma forma de subordinação do trabalho ao capital; em outras palavras, o capital reduz seus custos de gestão. Temos que colocar essas habilidades de autogestão no contexto: onde, quando e com que finalidade. Não é assim tão fácil classificá-lo de uma forma ou de outra.

Você acabou “Desigualdades de Renda no Mundo”18 em 1991, argumentando que, após o colapso da URSS, o aprofundamento e a ampliação dos conflitos por recursos escassos dentro do Sul, a Guerra Irã-Iraque, ou a Guerra do Golfo, podem ser tomadas como emblemáticas; foram forçando o Ocidente a criar estruturas embrionárias de governança mundial para regular isto: o G7 como um comitê executivo da burguesia mundial; o FMI e o Banco Mundial como o Ministério das Finanças; o Conselho de Segurança, do Ministério da Defesa. Estas estruturas, você sugeriu, talvez em quinze anos, poderiam ser assumidas por forças não conserva- doras. Já em “Adam Smith em Pequim”, você fala de uma sociedade de mercado mundial como um futuro potencialmente promissor, onde não existe mais um poder como hegemon. Qual é a relação entre as duas, e suas concepções sobre eles?

Primeiro, eu na realidade não disse que as estruturas de um governo mundial surgiram devido aos conflitos no Sul. A maioria delas eram organizações de Bretton Woods, estabelecidas pelos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial como mecanismos que foram necessários para evitar as armadilhas da autorregulação dos mercados na economia global, e como instrumentos de governança. Assim, desde o início da era do pós-guerra, havia estruturas embrionárias de governança mundial se estabelecendo. O que aconteceu na década de 1980 foi uma crescente turbulência e instabilidade, na qual estes conflitos no Sul eram um aspecto e, portanto, estas instituições foram trazidas para gerir a economia mundial de uma forma diferente de antes. Elas poderiam ser assumidas por forças não conservadoras? Minha atitude para com essas instituições sempre foi ambivalente, porque, em muitos aspectos, elas refletem um equilíbrio de poder entre os estados do Norte e do Sul – dentro do Norte, entre o Norte e o Sul, e assim por diante. Não havia nada, em princípio, que descartasse a possibilidade de que essas instituições poderiam ser realmente colocadas a serviço para governar a economia global de maneira a promover uma distribuição mais equitativa da renda a nível mundial. No entanto, o que aconteceu é exata- mente o oposto. Na década de 1980, o FMI e o Banco Mundial tornaram-se os instrumentos da contrarrevolução neoliberal e, portanto, promoveram uma distribuição mais desigual dos rendimentos. Mas mesmo assim, como eu disse, o que aconteceu no final não foi tanto uma distribuição mais de- sigual entre o Norte e o Sul, mas uma grande bifurcação dentro do próprio Sul, com a Ásia Oriental se saindo muito bem, o Sul da África muito mal, e outras regiões em algum lugar no meio.

Como isso se relaciona com o conceito da sociedade de mercado mundial que eu discuto em Adam Smith em Pequim? É agora claro que um Estado mundial, mesmo dos mais embrionários, tipo confederado, seria muito difícil de realizar. Não é uma séria possibilidade num futuro próximo. Haverá uma sociedade de mercado mundial, no sentido de que os países irão se relacionar uns com os outros por meio de mecanismos de mercado que não são de maneira alguma de autorregulação, mas sim regulados. Isso também aconteceu com o sistema desenvolvido pelos Estados Unidos, que foi um processo altamente regulado pelo qual a eliminação de tarifas, quotas e restrições à mobilidade do trabalho sempre foi negociada pelos Estados – sobretudo pelos Estados Unidos e Europa, e em seguida, entre esses e os outros. A questão agora é qual regulamento será introduzido para evitar um colapso do mercado no estilo dos anos 1930. Assim, a relação entre os dois conceitos é que a organização da economia mundial será fundamentalmente baseada no mercado, mas com uma importante participação dos estados na regulação da economia.

Em “O Longo Século XX”, você esboçou três possíveis resultados do caos sistêmico em que a longa onda de financeirização, que começou no início de 1970, estava levando: um império mundial, controlado pelos Estados Unidos, uma sociedade de mercado mundial no qual nenhum estado dominava os outros, ou uma nova guerra mundial que iria destruir a humanidade. Em todas as três eventualidades, o capitalismo, como historicamente se desenvolveu, teria desaparecido. Em Adam Smith em Pequim, você conclui que, com os fracassos da administração Bush, o primeiro já pode ser descartado, restando apenas os dois últimos. Mas não há, logicamente, pelo menos, uma possibilidade dentro do seu próprio quadro de análise, de que a China possa emergir, ao longo do tempo, como uma nova potência hegemônica, substituindo os Estados Unidos, sem alterar as estruturas do capitalismo e territorialismo como você os descreve? Você exclui esta possibilidade?

Eu não excluo essa possibilidade, mas vamos começar por colocar o registro sobre o que eu realmente digo. O primeiro dos três cenários que eu previa no final de “O Longo Século XX” foi um império mundial controlado não apenas pelos Estados Unidos, mas pelos Estados Unidos, em cooperação com seus aliados europeus. Eu nunca pensei que os EUA seriam tão irresponsáveis a ponto de tentarem, sozinhos, ir para um Novo Século Americano. Aquilo era simplesmente algo muito louco para ser contemplado, e, é claro, o tiro imediatamente saiu pela culatra. Na verdade, há uma forte corrente dentro do sistema de política externa do EUA que deseja consertar a relação com a Europa, que foi fatigada pelo unilateralismo da administração Bush. Isso ainda é uma possibilidade, embora agora seja menos provável do que costumava ser. O segundo ponto é que a sociedade de mercado mundial e o maior peso da China na economia global não são mutuamente exclusivos. Se você olhar para a maneira pela qual a China tem se comportado em relação aos seus vizinhos, historicamente, sempre houve um relacionamento baseado mais sobre o comércio e os intercâmbios econômicos do que no poder militar; este ainda é o caso. Muitas vezes as pessoas confundem isso: eles pensam que eu estou descrevendo os chineses como sendo mais suaves ou melhores do que o Ocidente, não tem nada a ver com isso. Tem a ver com os problemas da governança de um país como a China, o que já discutimos. A China tem uma tradição de rebeliões que nenhum outro território de tamanho similar e densidade de população tenha enfrentado. Seus governantes são também altamente conscientes da possibilidade de novos invasores vindos do mar, em outras palavras, os Estados Unidos. Como eu indico no capítulo dez de “Adam Smith em Pequim”, existem vários planos americanos de como lidar com a China, nenhum dos quais é exatamente reconfortante para Pequim. Salvo o plano de Kissinger, que é um plano de cooptação, os outros consideram a realização de uma nova Guerra Fria contra a China ou envolvê-la em guerras com seus vizinhos, enquanto para os EUA sobraria o papel de “tertius gaudens”19. Se a China emergir, e eu penso que irá, como um novo centro da economia global, seu papel será radicalmente diferente dos hegemons anteriores. Não apenas por causa de contrastes culturais, enraizados como estão nas diferenças histórico-geográficas; mas justamente porque a diferença na história e na geografia da região da Ásia Oriental terá um impacto sobre as novas estruturas da economia global. Se a China vai tornar-se hegemônica, será hegemônica de maneira muito distinta dos outros. Por um lado, o poder militar será muito menos importante do que o poder cultural e econômico, particularmente o econômico. Eles têm que jogar a carta econômica muito mais do que jamais fizeram os EUA, ou os ingleses ou holandeses.

Você prevê uma maior unidade dentro do Leste da Ásia? Fala-se, por exemplo, de uma espécie de instituição como FMI asiático, de unificação da moeda. Você vê a China como o centro de uma hegemonia do Leste Asiático, em vez de um solista? E em caso afirmativo, como isso se encaixa com o crescente nacionalismo na Coréia do Sul, Japão e China?

O que é mais interessante sobre o Leste Asiático é como, no final, a economia é determinante das disposições dos Estados-Membros e as polí- ticas de um para outro, apesar de seus nacionalismos. Os nacionalismos são muito enraizados, mas eles estão relacionados a um fato histórico, muitas vezes esquecido no Ocidente: a Coréia, China, Japão, Tailândia, Camboja, todos esses Estados eram Estados Nacionais muito antes de existir um único Estado-Nação na Europa. Todos têm histórias de reações nacionalistas de um contra o outro, em uma lógica que era predominantemente econômica. Ocasionalmente, houve guerras, e a atitude dos vietnamitas em relação à China, ou dos coreanos para com Japão, está profundamente enraizada na memória destas guerras. Ao mesmo tempo, a economia parece dominar. Foi notório que o ressurgimento nacionalista no Japão, sob o governo Koizumi, cessou de repente, quando se tornou claro que as empresas japonesas estavam interessadas em fazer negócios com a China. Na China, também, houve uma grande onda de manifestações antijaponesas, mas depois elas pararam. O quadro geral no Leste da Ásia é que há disposições nacionalistas profundas, mas ao mesmo tempo, elas tendem a ser suprimidas por interesses econômicos.

A atual crise do sistema financeiro mundial parece à defesa mais espetacular que qualquer um poderia imaginar de suas longas previsões teóricas. Existem aspectos da crise que surpreenderam você?

Minha previsão era muito simples. A tendência repetitiva de financeirização era, como Braudel colocou, um sinal do outono de uma determinada expansão material, centrada em um particular Estado. Em “O Longo Século XX”, apontei o início da financeirização como sinal da crise de um regime de acumulação, e salientei que, ao longo do tempo, normalmente cerca de meio século, a crise terminal viria. Para os hegemons anteriores, foi possível identificar tanto a crise sinalizadora como a crise terminal. Para os Estados Unidos, eu coloquei a hipótese de que a década de 1970 foi a crise sinalizadora. A crise terminal ainda não havia chegado, mas certamente viria. Como isso aconteceria? A hipótese básica é que todas essas expansões financeiras eram fundamentalmente insustentáveis, porque elas estavam colocando em especulação mais capital do que realmente podia ser gerido, em outras palavras, houve uma tendência nessas expansões financeiras para o desenvolvimento de bolhas de vários tipos. Eu previ que esta expansão financeira acabaria por levar a uma crise terminal, porque as bolhas são tão insustentáveis hoje como foram no passado. Mas eu não previa os detalhes das bolhas: o boom das dot.com, ou da bolha imobiliária.

Além disso, eu era ambíguo sobre onde estávamos no início de 1990, quando escrevi “O Longo Século XX”. Pensei que em alguns aspectos a Belle Èpoque dos Estados Unidos já havia terminado quando, na verdade, era apenas o começo. Reagan a preparou ao provocar uma grande recessão, que criou as condições para a expansão financeira subsequente, mas foi Clinton quem na verdade supervisionou a Belle Époque, que, em seguida, terminou com o colapso financeiro dos anos 2000, especialmente do Nasdaq. Com o estouro da bolha imobiliária, o que estamos observando agora é, claramente, a crise terminal dos EUA, da centralidade financeira e da hegemonia.

O que diferencia o seu trabalho de quase todos os outros em seu campo é a sua apreciação da adaptabilidade, flexibilidade e fluidez do desenvolvimento capitalista, dentro do quadro de análise do sistema interestatal. No entanto, na longue durée, com quadro de 500, 150 e 50 anos, que você adotou para a análise coletiva da situação do Leste Asiático no sistema interestatal, os modelos que surgem são surpreendentemente claros, quase rígidos em sua determinação e simplicidade. Como você caracterizaria a relação entre contingência e necessidade em seu pensamento?

Há aqui duas questões diferentes: uma diz respeito a uma valorização da flexibilidade do desenvolvimento capitalista e a outra é a repetição de padrões, e em que medida estes são determinados por contingência ou necessidade. No primeiro, a adaptabilidade do capitalismo: isso é parcialmente relacionado com a minha experiência pessoal no mundo dos negócios, quando jovem. Inicialmente eu tentei gerir negócios de meu pai, que era relativamente pequeno, então eu fiz uma dissertação sobre o negócio do meu avô, que era maior, uma empresa de médio porte. Então, eu briguei com meu avô e fui para a Unilever, que em termos de funcionários era a segunda maior multinacional na época. Então eu tive sorte, do ponto de vista da análise dos negócios capitalistas, de entrar em em- presas sucessivamente maiores, o que me ajudou a entender que não se pode falar de empresas capitalistas em geral; porque as diferenças entre as empresas do meu pai, o negócio do meu avô e a Unilever eram incríveis. Por exemplo, meu pai gastava todo seu tempo indo visitar clientes nos distritos têxteis, e estudando os problemas técnicos que tinham com suas máquinas. Então, ele retornava para a fábrica e discutia os problemas com seu engenheiro. Eles personalizavam a máquina para o cliente. Quando eu tentei tocar esse negócio, eu estava totalmente perdido, a coisa toda era baseada em habilidades e conhecimentos que faziam parte da prática e da experiência do meu pai. Eu poderia sair e visitar os clientes, mas eu não podia resolver os seus problemas, eu não poderia nem mesmo entendê-los. Então, não tinha jeito. Na verdade, na minha juventude, quando dizia ao meu pai: “Se os comunistas chegarem, você vai estar em apuros”, e ele dizia, “Não, eu não vou estar em apuros, eu vou continuar a fazer o que eu estou fazendo. Eles precisam de pessoas que fazem isso”.

Quando eu fechei o negócio do meu pai, eu fui para o do meu avô, que já era uma organização mais fordista. Eles não estavam estudando problemas dos clientes, eles estavam produzindo máquinas padronizadas: ou os clientes queriam ou não. Seus engenheiros estavam projetando máquinas com base em um mercado futuro de acordo com seus pensamentos, e informando os clientes: - é isso que nós temos. Era a produção em massa embrionária, com linhas de montagem embrionárias. Quando fui para a Unilever, eu mal via o lado da produção. Havia muitas fábricas diferentes, uma fazendo a margarina, outra sabonete, outra perfumes. Havia dezenas de produtos diferentes, mas o principal local de atividade não era nem o marketing da organização, nem o local de produção, mas as finanças e a publicidade. Então, isto me ensinou que é muito difícil identificar uma forma específica como “tipicamente” capitalista. Mais tarde, estudando Braudel, eu vi que essa ideia da natureza eminentemente adaptável do capitalismo era algo que você pode observar historicamente.

Um dos grandes problemas da esquerda, mas também da direita, é pensar que há apenas um tipo de capitalismo que se reproduz historicamente, e que o capitalismo transformou-se substancialmente, particularmente sob uma base global, de uma forma inesperada. Por diversos séculos o capitalismo se baseou na escravidão, e a escravidão parecia tão entranha- da de todos os pontos de vista que parecia que o capitalismo não poderia sobreviver sem ela. A escravidão acabou por ser abolida, e o capitalismo não apenas sobreviveu, mas prosperou mais do que nunca, agora se desenvolvendo sob a base do colonialismo e do imperialismo. Neste momento, parecia que o colonialismo e o imperialismo eram essenciais para a ope- ração do capitalismo, mas novamente, após a Segunda Guerra Mundial, o capitalismo conseguiu desfazer-se deles, sobreviver e prosperar. Mundial e historicamente, o capitalismo tem continuamente se transformado, e esta é uma de suas principais características; seria muita miopia tentar definir o que é capitalismo, sem olhar para essas transformações cruciais. O que permanece constante através de todas essas adaptações, e define a essência do capitalismo, é melhor percebido pela fórmula do capital de Marx, D – M – D', a qual me refiro repetidamente, para identificar a alternância de expansões materiais e financeiras. Olhando para a China de hoje, pode-se dizer que talvez seja capitalismo, talvez não seja, mas acho que é ainda uma questão aberta. Mas, supondo que isto é o capitalismo, e que não é o mesmo de períodos anteriores, ele está completamente transformado. A questão é identificar as suas especificidades, como ele difere dos capitalismos ante- riores, se o chamamos de capitalismo ou qualquer outra coisa.

E a segunda parte da pergunta – o surgimento de padrões tão distintos de “longue durée” em seu trabalho, e as transformações de escala?

Um ponto é que há uma dimensão geográfica muito clara para os recor- rentes ciclos de expansões material e financeira, mas você apenas pode ver esse aspecto se você não focar em um determinado país, porque então você vê um processo totalmente diferente. Isto é o que a maioria dos historiadores tem feito, eles se concentram em um determinado país, e traçam a evolução lá. Considerando que em Braudel, a ideia é justamente que a acumulação de capital dá saltos; se você não salta com ela, se você não a segue de lugar para lugar, você não a vê. Se você ficar focado na Inglaterra ou na França, você perde o que mais importa no desenvolvimento do capitalismo históri- co mundial. Você tem que se mover com ele para entender que o processo de desenvolvimento capitalista é essencialmente este processo de saltar de uma condição, onde o que você tem chamado de “ajuste espacial” tornou-se demasiado restritiva, e a competição está se intensificando; a outra, onde uma nova condição espacial de maior escala e de maior escopo permite o sistema experimentar um novo período de expansão material. E então, naturalmente, o ciclo se repete até 
certo ponto.

Quando eu estava formulando isto pela primeira vez, inferindo os padrões de Braudel e Marx, eu ainda não tinha apreciado completamente o seu conceito de “ajuste espacial”, no duplo sentido da palavra – fixidez do capital investido, e uma correção para as contradições anteriores de acumulação capitalista. Há uma necessidade vinculada nestes padrões que deriva do processo de acumulação, que mobiliza o dinheiro e outros recursos em uma escala crescente, o que cria problemas de intensificação da concorrência e da acumulação excessiva de diversos tipos. O processo capitalista de acumulação de capital, em oposição à acumulação não capitalista do capital, tem um efeito de bola de neve, o que intensifica a concorrência e reduz a taxa de lucro. Aqueles que estão melhor posicionados para encontrar uma nova posição espacial o fazem, cada nova vez em um “recipiente” maior. A partir de cidades-estados, que acumularam uma enorme quantidade de capital em “recipientes” pequenos;a Holanda do século XVII, que foi mais que uma cidade-estado, mas menos que um Estado nacional; em seguida, para Grã-Bretanha do século XVIII e século XIX, com o seu império de abrangência mundial; e depois para o século XX, dos Estados Unidos de tamanho continental.

Agora, o processo não pode continuar da mesma maneira, porque não há nenhum “recipiente” novo, maior, que pode afastar os Estados Unidos. Há grandes Estados nacionais, como a China e a Índia, que não são maiores do que os Estados Unidos em termos de espaço, mas tem quatro ou cinco vezes sua população. Então, agora estamos mudando para um novo padrão: - em vez de ir de um “recipiente” para outro, espacialmente maior, vamos partir de um recipiente com uma baixa densidade populacional para “recipientes” com altas densidades populacionais. Além disso, anteriormente era uma mudança de ricos para ricos, em termos de países. Agora nós estamos indo de países muito ricos para países que ainda são basicamente pobres. A renda per capita da China ainda é um vigésimo da renda per capita dos Estados Unidos. Em certo sentido, pode-se dizer, “Ok, agora a hegemonia, se é isso que está acontecendo, está se deslocando dos ricos para os pobres.” Mas, ao mesmo tempo, esses países têm enormes diferenças e desigualdades internas. É tudo muito misturado. Estas são tendências contraditórias, e precisamos desenvolver mais ferramentas conceituais para compreendê-las.

Você acaba “Adam Smith em Pequim” com a esperança de uma comunidade de civilizações que vivem em condições de igualdade umas com as outras, em um respeito mútuo para com a Terra e seus recursos naturais. Você usaria o “socialismo” como termo para descrever esta visão, ou você o considera como ultrapassado?

Bem, eu não teria objeções de que ela fosse chamada de socialismo, só que, infelizmente, o socialismo tem sido muito identificado com o controle estatal da economia. Eu nunca pensei que era uma boa ideia. Eu venho de um país onde o Estado é desprezado e, em muitos aspectos, desacreditado. A identificação do socialismo com o Estado cria grandes problemas. Portanto, se esse sistema-mundo fosse chamado de socialista, teria de ser redefinido em termos de respeito mútuo entre os seres humanos e respeito coletivo pela natureza. Mas isso tem que ser organizado através de trocas de mercado reguladas pelo Estado, de modo a capacitar trabalhadores e enfraquecer o capital à moda smithiana, em vez da propriedade e controle estatal dos meios de produção. O problema com o termo socialismo é que ele foi usado de forma exagerada de muitas maneiras diferentes, e, portanto, também está desacreditado. Se você me perguntar o que seria um termo melhor, eu não tenho ideia, acho que deveríamos encontrar um. Você é muito bom em encontrar novas expressões, assim você deveria vir com algumas sugestões.

Ok, eu vou ter que trabalhar nisso.

Sim, você tem que trabalhar em um substituto para o termo “socialista” que o separe da identificação histórica com o Estado, e, se aproxime mais da ideia de uma maior igualdade e respeito mútuo. Então, vou deixar essa tarefa para você!

11 de junho de 2002

A crise africana: Aspectos regionais e sistêmicos do mundo

O que desencadeou a queda na miséria de tantas sociedades subsaarianas nos últimos vinte anos? As raízes regionais dos distúrbios da África e as transformações estruturais no sistema mundial lideradas pelos EUA que os ofuscaram.

Giovanni Arrighi

New Left Review


No último quarto de século, a crise africana do final da década de 1970 transformou-se no que foi corretamente chamado de “Tragédia Africana” . Em 1975, o PNB regional per capita da África subsaariana foi de 17,6% do PNB per capita “mundial”; em 1999, caíra para 10,5%. Em relação à tendência geral do Terceiro Mundo, os níveis subsaarianos de saúde, mortalidade e alfabetização de adultos deterioraram-se num ritmo comparável. Hoje a expectativa de vida ao nascer é de 49 anos, e 34% dos habitantes da região são classificados como subnutridos. A taxa africana de mortalidade infantil era de 107 por mil nascidos vivos em 1999, contra 69 no sul da Ásia e 32 na América Latina. Quase 9% dos habitantes subsaarianos entre 15 e 49 anos vivem com HIV/Aids, número que se eleva muito acima do de outras regiões. Os casos de tuberculose são 121 a cada 100 mil habitantes; os números respectivos do sul da Ásia e da América Latina são 98 e 45.

O principal objetivo deste ensaio é recontextualizar essa transformação de uma perspectiva histórica mundial, inserindo a experiência da África subsaariana na bifurcação mais ampla dos destinos do Terceiro Mundo que vem ocorrendo desde 1975. Essa recontextualização, por sua vez, serve a dois propósitos. De um lado, visa a avaliar em que extensão a crise e a tragédia poderiam ter sido previstas usando a variedade específica de economia política que John Saul e eu apresentamos no final da década de 1960 . Por outro lado, busca remediar as deficiências que, em retrospecto, parecem-me as mais gritantes, não só da nossa (“antiga”) variedade de economia política como também e especificamente da “nova” variedade que os teóricos e praticantes da opção racional apresentaram nos anos 1980 em resposta à crise.

Eis como vou prosseguir. Primeiro descrevo as teses principais que Saul e eu apresentamos antes que a crise se instalasse e comparo-as com as determinações da “nova” economia política. Depois, analiso os fatos convencionais da crise africana para mostrar que os anos em torno de 1980 constituem um importante ponto de virada do destino subsaariano na economia política global; e apresento uma primeira explicação, concentrando-me na mudança radical do contexto geral do desenvolvimento do Terceiro Mundo que aconteceu entre 1979 e 1982. Na parte final do ensaio, passo para uma segunda explicação, que se concentra no impacto irregularíssimo dessa mudança do contexto global sobre regiões diferentes do Terceiro Mundo, dando atenção especial ao contraste marcante entre o destino da África e da Ásia oriental; e concluo com uma breve avaliação do que as elites e os governos africanos poderiam ter feito para evitar a tragédia africana ou para neutralizar seus aspectos mais destrutivos.

I. ECONOMIA POLÍTICA DA ÁFRICA, “NOVA” E “ANTIGA”

Nos últimos vinte anos, a interpretação dominante da crise africana ligava-a a uma suposta tendência das elites e dos grupos governantes da África às “más políticas” e ao “mau governo”. A definição disso, assim como as razões para esse suposto vício africano, variam. Mas a idéia de que a responsabilidade primária pela tragédia africana é das elites e dos governos africanos é comum à maioria das interpretações. Como veremos, nos últimos anos essa idéia foi questionada por algumas investigações convincentes sobre os determinantes do desempenho econômico dos países do Terceiro Mundo. Esse questionamento, entretanto, ficou implícito e teve pouco impacto sobre a opinião dominante sobre a crise.

O texto mais influente a apresentar a interpretação padrão foi um documento de 1981 do Banco Mundial conhecido como Relatório Berg. Sua avaliação das causas da crise africana foi altamente “internalista”, muito crítica das políticas dos governos africanos por terem minado o processo de desenvolvimento ao destruir os incentivos aos produtores agrícolas para aumentar a produção e a exportação. A supervalorização da moeda nacional, o descuido com a agricultura familiar, indústrias manufatureiras altamente protegidas e o excesso de intervenção do Estado foram destacados como as “más” políticas mais responsáveis pela crise africana. A desvalorização substancial da moeda, o desmantelamento da proteção industrial, os incentivos fiscais à produção e à exportação agrícolas e a substituição das empresas públicas por privadas – não só na indústria, mas também na prestação de serviços sociais – foram destacadas como “boas” políticas contrastantes que poderiam salvar a África subsaariana de suas dificuldades.

Os diagnósticos e prognósticos do Relatório Berg coincidiram com os de outro texto muito influente também publicado em 1981: Markets and States in tropical Africa [Mercados e Estados na África tropical], de Robert Bates, que logo adquiriu status de clássico como apresentação tanto da “nova” economia política quanto dos perigos da intervenção do Estado em países subdesenvolvidos . Na opinião de Bates, as autoridades estatais nos países africanos de independência recente usaram os instrumentos poderosos de controle econômico herdados do regime colonial para beneficiar a elite urbana e, em primeiríssimo lugar, a si mesmos. Ao acabar com os incentivos aos fazendeiros para que aumentassem a produção agrícola, essas políticas solaparam o processo de desenvolvimento. A resposta de Bates ao problema – desmantelar o poder do Estado e deixar o campesinato livre para aproveitar as oportunidades do mercado – era parecida com aquela defendida pelo Banco Mundial no Relatório Berg e em relatórios posteriores sobre a África.

Ainda assim, sua interpretação da crise era, ao mesmo tempo, mais pessimista e mais radicalmente antiestatista que a do Banco Mundial. Afinal, as avaliações do Banco Mundial sobre a situação baseavam-se ostensivamente em duas pressuposições. Partiam do princípio de que uma razão importante das “más” políticas era que os governos africanos tinham deixado de entender seus efeitos negativos e que os efeitos positivos das “boas” políticas, assim que implementadas, gerariam apoio generalizado à sua continuação. A única (ou principal) coisa necessária para resolver a crise, portanto, era convencer os governos africanos de que a troca das políticas más pelas boas era do seu maior interesse e do interesse do eleitorado. Ao apresentar considerações históricas e socioestruturais – os poderosos instrumentos de dominação que as elites africanas herdaram do domínio colonial; os conflitos pelo poder entre classes e grupos étnicos, regionais e econômicos –, a “nova” economia política (daqui para a frente, NEP) era muito mais cética do que o Banco Mundial quanto à probabilidade de que os governos africanos pudessem ser convencidos a passar das políticas “más” para as “boas” e que, depois da troca, mantivessem as “boas” . Portanto, pelo menos em termos implícitos, o antiestatismo da NEP não buscava apenas libertar as forças do mercado das restrições e dos regulamentos governamentais, como defendia o Banco Mundial. Visava também a minar a legitimidade das coalizões sociais que controlavam as forças do Estado, vistas como irremediavelmente comprometidas com as “más” políticas como meio eficaz de reprodução de seu próprio poder e seus próprios privilégios.

Os diagnósticos “internalistas” e de “Estado minimalista” do Banco Mundial e da NEP não deixaram de ser questionados. O maior questionamento veio dos próprios governos africanos. Num documento publicado no mesmo ano em que o Relatório Berg, mas assinado, em 1980, numa reunião no Lagos, os líderes dos Estados da OUA vincularam a crise a uma série de choques externos. Entre eles, estavam a deterioração dos termos de comércio de produtos primários, o protecionismo crescente dos países ricos, o grande aumento dos juros e o comprometimento cada vez maior com o serviço da dívida. O Plano de Ação de Lagos, como veio a ser chamado, via, assim, a solução da crise numa maior dependência não dos mecanismos do mercado mundial, mas da capacidade dos Estados africanos de mobilizar os recursos nacionais e patrocinar mais integração e cooperação econômicas mútuas . Ao dar ênfase à confiança coletiva própria por meio da criação posterior de um mercado comum continental, o Plano refletia a influência na época da teoria da dependência, assim como a sensação de fortalecimento que os Estados africanos obtiveram com o término próximo da descolonização formal do continente. No entanto, nem a influência da teoria da dependência nem a sensação de fortalecimento duraram muito.

Pouco depois da promulgação do Plano e em meio a uma situação econômica em rápida deterioração, a seca e a fome atacaram o Sahel com espantosa violência e chegaram ao ponto máximo em 1983-4. No ano seguinte, uma nova cúpula da OUA reuniu-se em Adis Abeba com o objetivo específico de preparar um plano de ação sobre os problemas sociais e econômicos da África a ser apresentado numa sessão especial da Assembléia Geral da ONU. A cúpula produziu um documento, o Programa de Prioridades para a Recuperação Econômica da África, 1986-1990 (PPREA, em inglês Africa’s Priority Programme for Economic Recovery, 1986-1990), que enfatizou mais uma vez o papel dos choques externos no aprofundamento da crise e a necessidade de maior autoconfiança para superá-la. Em marcante contraste com o Plano de Lagos, contudo, o PPREA admitia abertamente a responsabilidade dos governos africanos na crise e as limitações de quaisquer ações realizadas isoladamente pelos Estados africanos. Alinhado com essa admissão, concordava em implementar várias reformas políticas coerentes com o Relatório Berg e pedia à comunidade internacional que agisse para aliviar o fardo esmagador da dívida externa da África e para estabilizar e aumentar os preços pagos por suas exportações. O resultado foi um “pacto” de ação conjunta dos Estados africanos e da “comunidade internacional” para a solução da crise, estabelecido no Programa de ação das Nações Unidas para a Recuperação e o Desenvolvimento Econômico Africano, 1986-1990 (Panurdea, em inglês United Nations Programme of Action for African Economic Recovery and Development, 1986-1990).

Ao mostrar que os Estados africanos cumpriram seu lado no pacto enquanto as potências ocidentais não, Fantu Cheru caracteriza o Panurdea como “simples reencarnação do Relatório Berg”10. Essa caracterização é bastante exata, mas encobre as mudanças ocorridas na posição do próprio Banco Mundial. Enquanto um número crescente de Estados africanos submetia-se aos programas de ajuste estrutural do FMI e do Banco Mundial, com resultados no máximo inconclusivos, tanto a NEP quanto o Banco Mundial começaram a revisar suas receitas neo-utilitárias e de Estado minimalista e a enfatizar o papel das instituições e do “bom governo”11. Em 1997, o Banco Mundial abandonara, para todos os propósitos práticos, a visão minimalista do Estado. Em seu Relatório de Desenvolvimento Mundial daquele ano, as antigas preocupações com o tamanho do aparelho de Estado e a extensão da intervenção pública na economia foram completamente superadas pela necessidade de burocracias eficientes e Estados ativistas na implementação de programas de ajuste estrutural. Entretanto, os novos imperativos conferiam responsabilidade maior ainda às elites e aos governos africanos, tanto pelo fracasso da recuperação de suas economias quanto pelos desastres sociais que acompanharam aquele fracasso. Os surtos de otimismo baseados na maior integração da África na economia mundial, a libertação dos mercados do controle governamental e as oportunidades maiores para empresas privadas – ou seja, a obediência africana às receitas do FMI e do Banco Mundial – foram logo seguidos por avaliações ainda mais pessimistas da capacidade dos governos e das elites da África em solucionar a crise permanente12.

Ao reler nosso Essays on the political economy of Africa [Ensaios sobre a economia política da África], espanto-me tanto com as semelhanças quanto com as diferenças entre a nossa postura e a da NEP, que se tornou dominante nas décadas de 1980 e 1990. Nossa análise antecipava a maior parte das criticas às elites africanas que Bates apresentou treze anos depois. Muito antes do início da tragédia africana, estivemos entre os primeiros a ressaltar que os grupos governantes da época, fosse qual fosse sua tendência ideológica, tinham mais probabilidade de ser parte do problema do que da solução do subdesenvolvimento da África subsaariana. Num ensaio publicado pela primeira vez em 1968, argumentamos que o mais central desses problemas era um padrão de “absorção de excedentes” que patrocinava o consumo ostentatório das elites e subelites urbanas empregadas na burocracia, o consumo de massa relativamente elevado das “aristocracias operárias” e a transferência para o exterior de lucros, juros, dividendos e vários tipos de remuneração. Ao restringir o crescimento da produtividade agrícola e dos mercados domésticos, esse padrão perpetuava a dependência das economias africanas ao crescimento da demanda mundial de produtos primários. A menos que o padrão mudasse, observamos, “a aceleração do crescimento econômico na África tropical dentro do arcabouço político existente é altamente improvável, e, quando for superada a fase de substituição fácil das importações, pode-se esperar na verdade uma desaceleração”.

Ao mesmo tempo, uma mudança do padrão de absorção de excedentes capaz de estimular a produtividade agrícola exigia “um ataque aos privilégios daquelas mesmas classes que constituem a base do poder da qual, provavelmente, depende a maioria dos governos africanos”. Portanto, na década de 1960 caracterizamos o desenvolvimento econômico da África tropical como “crescimento perverso”, ou seja, “crescimento que mina em vez de aumentar a potencialidade da economia para o crescimento a longo prazo”. Numa época de otimismo generalizado com a possibilidade de desenvolvimento econômico da África e, em especial, com o papel desenvolvimentista das elites africanas, estávamos, assim, muito céticos em relação aos dois. Na verdade, chegamos a observar como “o caráter da competição interna na elite da África contemporânea e, em particular, a ascensão dos militares a uma posição de destaque especial mostram o poderio das forças que impelem a situação no sentido contra-revolucionário”13.

No entanto, apesar desses paralelos diagnósticos, nossa variante de economia política diferia radicalmente da NEP em dois aspectos: dava atenção muito maior ao contexto global em que se desenrolava o esforço desenvolvimentista africano e era muito mais neutra quanto ao papel dos Estados nos processos de desenvolvimento. O contexto global se elevava em nossa visão das coisas. Ao contrário da NEP, atribuíamos papel fundamental ao capitalismo mundial, que restringia e configurava o esforço de desenvolvimento e seus resultados em nível nacional. O padrão de absorção de excedentes que solapou o potencial de crescimento a longo prazo das economias africanas – inclusive o consumo ostentatório das elites urbanas e o nível relativamente elevado de consumo de massa de várias “aristocracias operárias” – devia-se, pelo menos, tanto à integração dessas economias nos circuitos globais do capital quanto às políticas das elites africanas voltadas para a apropriação da maior parte possível do excedente econômico. Além disso, como mostra um dos trechos já citados aqui, percebemos que a suplantação da fase de substituição fácil de importações envolveria um aperto das restrições impostas pelo capitalismo mundial ao desenvolvimento nacional da África.

Como veremos, tratava-se de uma economia política capaz de prever e explicar a crise africana da década de 1970. Ainda assim, não foi um guia para o entendimento das forças que, mais tarde, transformariam a crise em tragédia. Não demonstramos perceber o torvelinho incipiente do capitalismo mundial e menos ainda o impacto especialmente desastroso que teria sobre a economia política da África, em forte contraste com seus efeitos benéficos em outras regiões do Terceiro Mundo, mais notadamente na Ásia oriental. Para destacar e tentar corrigir essas deficiências, começarei mostrando o que previmos e o que não previmos na crise africana.

II. O DESENVOLVIMENTO IRREGULAR DA CRISE AFRICANA

Apesar da tendência generalizada de tratar a África subsaariana como um desastre desenvolvimentista uniforme, o subcontinente teve seu quinhão de histórias de sucesso. Em um estudo das experiências de crescimento econômico sustentado na África entre 1960 e 1996, Jean-Claude Berthélemy e Ludvig Soderling identificam até vinte experiências assim, quatro no norte da África e as outras dezesseis na África subsaariana14. São desempenhos excelentes que se comparam de modo bastante favorável com as economias do “milagre” da Ásia oriental. Como tal, constituem um indício conclusivo de que, com todo o respeito à Economist, os países africanos, em comparação com outros países de baixa renda, não têm nenhuma “falha de caráter” que os torne incapazes de desenvolvimento sustentado. No entanto, para nossos atuais objetivos, o principal interesse dessas experiências é sua distribuição no decorrer do tempo.

Na Tabela 1, classifiquei as dezesseis histórias de sucesso subsaarianas pelo ano em que começaram e o ano em que terminaram. Como se pode ver na tabela, a maioria das histórias de sucesso (12 das 16) se aglomera em dois grupos: um maior (8 experiências), que começou nos anos 1960 e terminou na década de 1970, e um menor (4 experiências), iniciado nos anos 1980 e ainda não acabado em 1996. Com exceção de Maurício, demograficamente insignificante, o grupo menor consiste de países que sofreram experiências de desenvolvimento desastrosas nos anos anteriores. Como o crescimento mais tardio não compensou a contração preliminar, seu “sucesso” foi, em grande parte, fictício. O grupo maior, pelo contrário, consiste de verdadeiras histórias de sucesso e fornece indícios circunstanciais bem fortes em apoio à nossa tese de 1968 de que o crescimento econômico vivido pelos países africanos na época era “perverso”, ou seja, seguia um padrão que minava em vez de aumentar seu potencial de desenvolvimento a longo prazo. Na verdade, todas as oito experiências bem-sucedidas começadas no início dos anos 1960 terminaram na década de 1970, com exceção de uma, e a que sobreviveu àquela década (Quênia) terminou no início dos anos 1980. Além disso, nenhum dos países que tiveram esse sucesso precoce volta a surgir no grupo posterior.


Ainda assim, há um aspecto da distribuição temporal da Tabela 1 que nosso diagnóstico de 1968 deixa praticamente inexplicado. É o declínio acentuado do número de histórias de sucesso iniciadas em subperíodos sucessivos: de oito em 1960-64 a três em 1965-69, uma em 1970-74 e nenhuma em 1975-79. Em parte, tal declínio pode ser atribuído à dinâmica do “crescimento perverso”. A extensão do declínio, entretanto, indica alguma mudança maior das condições do desenvolvimento africano – isto é, uma mudança que reduziu de forma drástica as oportunidades não só de continuação das experiências de crescimento forte e sustentado como também de início de novas experiências do tipo. A idéia de que havia mais alguma coisa envolvida na deterioração das condições econômicas da África subsaariana no final da década de 1970 além do “crescimento perverso” é confirmada pelo desempenho geral da região. A Tabela 2, a seguir, mostra o PNB per capita de diversas regiões e países do Terceiro e do Primeiro Mundo como percentual do PNB “mundial” per capita, enquanto a Tabela 3 indica a mudança percentual dos valores da Tabela 2 em subperíodos selecionados e no período 1960-99 como um todo15.


Tomadas em conjunto, as duas tabelas permitem uma visão geral e sintética do sucesso ou fracasso comparativos das regiões do mundo. Três características principais dos dados devem ser comentadas aqui. A primeira é que, embora a África subsaariana tenha, de longe, o pior desempenho dentre as regiões do Terceiro Mundo, esse resultado negativo é, quase inteiramente, um fenômeno pós-1975. Até então, o desempenho africano não era muito pior que o da média mundial e mostrava-se melhor que o do sul da Ásia e até do que as mais ricas regiões do Primeiro Mundo (América do Norte). É só depois de 1975 que a África sofre um verdadeiro colapso, um mergulho seguido de declínio constante nas décadas de 1980 e 1990, principal razão para o desempenho comparativamente ruim no período 1960-99 como um todo. Também nesse caso o “crescimento perverso” pode ajudar a explicar o colapso, mas dificilmente responderia por sua extensão. Em segundo lugar, o colapso africano de 1975-90 foi parte integrante de uma grande mudança da irregularidade inter-regional do desempenho econômico do Terceiro Mundo. Nesse período, desenvolveu-se uma forte bifurcação entre o desempenho em queda da África subsaariana, da América Latina e, em menor extensão, do Oriente Médio e do norte da África, de um lado, e, do outro, o desempenho em ascensão da Ásia oriental e meridional (ver a Tabela 3). O colapso africano foi uma manifestação especialmente extrema dessa divergência. Surge assim a questão de por que a divaricação aconteceu quando aconteceu e por que foi tão deletéria para a África e tão benéfica para a Ásia oriental.

Por fim, tanto o colapso africano quanto a bifurcação inter-regional foram associados a uma reversão importante das tendências dentro do próprio Primeiro Mundo. Como mostram os números aqui indicados, desde 1960 o desempenho comparativo das regiões do Primeiro Mundo caracterizou-se por três tendências principais. Uma é a melhoria muito substancial, até 1990, da posição do Japão e seu nivelamento a partir daí. Outra é a melhoria menos substancial da posição da Europa ocidental, também até 1990, com um nivelamento menos marcante na década de 1990. A terceira é a deterioração da posição norte-americana até 1975 e sua melhoria depois16 . Surge então a questão de como essas tendências se relacionam entre si e se os colapsos africano e latino-americano dos anos 1980 estão ligados de alguma forma à inversão contemporânea dos resultados da América do Norte.

Em suma, o que transformou a crise da África subsaariana em tragédia, com conseqüências desastrosas não só para o bem-estar de seu povo como também para sua posição no mundo em geral, foi o colapso econômico da região na década de 198017. Embora único em sua gravidade, o colapso foi parte integrante de uma mudança mais ampla das tendêtncias entre as regiões do Primeiro e do Terceiro Mundo. Portanto, a tragédia africana deve ser explicada tanto a partir das forças que provocaram essa transformação quanto daquelas que tornaram especialmente grave seu impacto sobre a África. Ou seja, devemos dar respostas às duas perguntas básicas seguintes. Primeira: o que explica a mudança do destino das regiões do mundo no final dos anos 1970? E segunda: por que a mudança afetou positivamente o desempenho de algumas regiões do Terceiro Mundo e negativamente outras, e o desempenho da África subsaariana de forma muito mais negativa do que todas as outras regiões do Terceiro Mundo?

CONTEXTO MUNDIAL SISTÊMICO DA CRISE AFRICANA

Boa parte da resposta à primeira pergunta está na natureza da crise que atingiu o capitalismo mundial na década de 1970 e na conseqüente reação da potência hegemônica, os Estados Unidos. A crise global dos anos 1970 foi uma crise ao mesmo tempo de lucratividade e de legitimidade18. A crise de lucratividade deveu-se em primeiro lugar à intensificação mundial das pressões competitivas sobre as empresas em geral e as indústrias em particular que se seguiu à grande expansão do comércio e da produção mundiais nas décadas de 1950 e 1960. Até certo ponto, a crise de legitimidade emanou da crise de lucratividade. As políticas e ideologias que tiveram papel essencial para provocar e manter a expansão mundial do comércio e da produção nos anos 1950 e 1960 – o chamado keynesianismo em sentido ampliado – tornaram-se contraproducentes, tanto em termos sociais quanto econômicos, depois que a expansão intensificou a competição por recursos humanos e naturais cada vez mais escassos. Mas a crise de legitimidade também se deveu ao custo social e econômico crescente do emprego da coação pelos Estados Unidos para conter o desafio comunista no Terceiro Mundo.

A resposta inicial dos Estados Unidos à crise – sua retirada do Vietnã e a abertura para a China, mas uma adesão constante ao keynesianismo em casa e no exterior – só a piorou, provocando um declínio violento do poder e prestígio norte-americano. Parte integrante desse declínio foi o desencanto generalizado (especialmente forte na África) com as realizações do que Philip McMichael chamara de “projeto de desenvolvimento” iniciado sob hegemonia norte-americana19. Isso não se deveu à deterioração das condições econômicas do Terceiro Mundo. Afinal, de início a crise global pareceu melhorar as perspectivas econômicas desses países, inclusive dos Estados africanos. No início da década de 1970, os termos do comércio – sobretudo para os países produtores de petróleo, mas não só para eles – melhoraram. Além disso, a crise de lucratividade nos países do Primeiro Mundo, combinada à inflação da receita do petróleo depositada rotineiramente nos bancos ocidentais e nos mercados financeiros “extraterritoriais”, criou uma abundância excessiva de liqüidez. Já esse excesso de liqüidez foi reciclado como capital para empréstimos em termos favorabilíssimos a países do Terceiro e do Segundo Mundo, inclusive aos Estados africanos. Em conseqüência, no início da década de 1970 a posição de todas as regiões do Terceiro Mundo, com exceção da Ásia meridional, no mínimo melhorou (ver Tabela 2). Mas foi nessa época que os países do Terceiro Mundo, cada vez mais impacientes com o “projeto de desenvolvimento”, buscaram renegociar os termos de sua incorporação na economia política global por meio da criação de uma Nova Ordem Econômica Internacional (NOEI). Havia pelo menos três boas razões para isso.

A primeira foi que, mesmo nas regiões do Terceiro Mundo com melhor desempenho, o progresso econômico ficou bem abaixo das expectativas geradas pela descolonização e pela industrialização e modernização generalizadas. Como mostram as tabelas 4 e 5, em relação aos países do Primeiro Mundo, todas as regiões do Terceiro aumentaram seu grau de industrialização (medido pela parcela industrial do PIB) e de urbanização (medido pela parcela não-rural do total da população) num nível bem maior do que aumentaram seu PNB per capita. Em outras palavras, em termos comparativos os países do Terceiro Mundo agüentavam o custo social do aumento da industrialização e da urbanização sem os benefícios econômicos que tinham esperado colher com base na experiência histórica dos países do Primeiro Mundo.


Uma segunda razão para a crise do “projeto de desenvolvimento”, em parte relacionada à primeira, foi que o crescimento econômico pouco fazia para minorar a pobreza no Terceiro Mundo. Já em 1970, o presidente do Banco Mundial, Robert McNamara, reconhecera que as taxas elevadas de crescimento do PNB nos países de baixa renda deixavam a mortalidade infantil “alta”, a expectativa de vida “baixa”, o analfabetismo “generalizado”, o desemprego “endêmico e crescente”, e a distribuição de renda e riqueza “gravemente deformada”20. Embora na maior parte da década de 1970 a renda de muitas nações do Terceiro Mundo tenha aumentado em termos absolutos e relativos, o bem-estar de sua população continuou melhorando no máximo em ritmo lento21.

Finalmente, a melhoria da posição econômica das regiões do Terceiro Mundo ou de, pelo menos, algumas delas em relação ao Primeiro Mundo parecia bem aquém da mudança geral percebida no equilíbrio do poder político mundial que se seguiu ao fracasso norte-americana no Vietnã, à derrota portuguesa na África, às dificuldades israelenses na Guerra de 1973 e à entrada da República Popular da China no Conselho de Segurança das Nações Unidas. O primeiro e o segundo choques do petróleo foram, em parte, tanto efeito quanto causa dessa mudança da percepção do equilíbrio mundial de poder. O mesmo aconteceu com o crescimento do fluxo de capital norte-sul, tanto público quanto privado. A exigência do Terceiro Mundo por uma NOEI tinha em vista aumentar e, ao mesmo tempo, institucionalizar essa redistribuição de recursos em andamento22. O Plano de Ação de Lagos, assinado pelos chefes de Estado africanos em 1980, ainda exprimia a sensação de fortalecimento que os governos do Terceiro Mundo obtiveram com a crise de hegemonia norte-americana. Mas o Plano também refletia circunstâncias em rápida transformação. Eram, em parte, efeito da desaceleração do comércio e da produção mundiais, que, depois de 1975, fizeram piorar os termos de comércio para a maioria dos países do Terceiro Mundo não-produtores de petróleo. No entanto, o mais importante foi uma resposta radicalmente nova dos Estados Unidos à queda constante de seu poder e seu prestígio. Esse declínio chegou a seu ponto mais baixo no final da década de 1970, com a Revolução Iraniana, uma outra elevação dos preços do petróleo, a invasão soviética do Afeganistão e uma nova e curiosa crise de confiança no dólar norte-americano. Foi nesse contexto que, nos últimos anos do governo Carter – e depois, com maior determinação, no governo Reagan –, ocorreu uma mudança drástica da política dos Estados Unidos.

Em termos militares, o governo norte-americano começou a evitar o tipo de campo de batalha que o levara à derrota no Vietnã, preferindo, em vez disso, a guerra por procuração (como na Nicarágua, em Angola e no Afeganistão), os confrontos de valor meramente simbólico com inimigos insignificantes (como em Granada e no Panamá) ou bombardeios aéreos, nos quais a alta tecnologia de sua máquina de guerra lhe dava vantagem absoluta (como na Líbia). Ao mesmo tempo, os Estados Unidos iniciaram uma escalada da corrida armamentista com a União Soviética bem além do que esta podia suportar. O mais importante foi que o governo norte-americano passou a recorrer a políticas econômicas – uma contração drástica da oferta de moeda, juros mais altos, redução de impostos para os ricos e liberdade de ação praticamente irrestrita para a iniciativa capitalista – que liquidaram não só o legado do New Deal doméstico mas também, e especialmente, o Fair Deal para os países pobres ostensivamente lançado por Truman em 194923. Com essa bateria de políticas, o governo dos Estados Unidos começou a competir agressivamente pelo capital mundial para financiar o déficit comercial e de transações correntes cada vez maior de sua própria balança de pagamentos, provocando assim um aumento pronunciado dos juros reais em todo o mundo e uma grande inversão do sentido do fluxo global de capitais.

Assim, os Estados Unidos, que nas décadas de 1950 e 1960 tinham sido a principal fonte mundial de liquidez e investimento direto, tornaram-se, nos anos 1980, a maior nação devedora do mundo e, de longe, o maior receptor de capital estrangeiro. A extensão da virada pode ser medida pela mudança nas transações correntes da balança de pagamentos dos Estados Unidos24. Num período de cinco anos, de 1965 a 1969, essa conta ainda registrava um superávit de 12 bilhões de dólares, quase a metade (46%) do superávit total dos países do G7. Em 1970-74, o superávit contraiu-se para 4,1 bilhões de dólares, 21% do total dos países do G7. Em 1975-79, o superávit transformou-se num déficit de 7,4 bilhões de dólares. Depois disso, o déficit atingiu níveis antes inimagináveis: 146,5 bilhões em 1980-84; 660,6 bilhões em 1985-89; 324,4 bilhões em 1990-94; e 912,4 bilhões em 1995- 99. Em conseqüência dessa escalada de déficits norte-americanos, a exportação de capital de 46,8 bilhões de dólares dos países do G7 na década de 1970 (medida por seus superávits consolidados de transações correntes no período 1970-79) transformou-se num ingresso de capitais de 347,4 bilhões em 1980-1989 e de 318,3 bilhões em 1990-199925.

Essa foi uma inversão de proporções históricas que refletiu uma extraordinária capacidade absoluta e relativa da economia política norte-americana de atrair capitais do mundo inteiro. É provável que esse tenha sido o fator determinante de maior importância na inversão contemporânea do destino econômico da América do Norte e da bifurcação do destino econômico das regiões do Terceiro Mundo. Afinal de contas, o redirecionamento do fluxo de capital para os Estados Unidos reinflacionou a demanda efetiva e o investimento no país, enquanto os deflacionava no resto do mundo. Ao mesmo tempo, esse redirecionamento permitiu aos Estados Unidos suportar os grandes déficits em sua balança comercial, que criaram a expansão da demanda de importação de mercadorias que as empresas norte-americanas não consideravam mais lucrativo produzir. Como as pressões competitivas tinham se tornado especialmente intensas na indústria, as tais mercadorias importadas tendiam a ser produtos industrializados, e não agrícolas.

Esses efeitos contrastantes tenderam a dividir as regiões do mundo em dois grupos. De um lado estavam aquelas que, por razões históricas e geográficas, tinham mais vantagem na competição por uma parcela da crescente demanda norte-americana de produtos industrializados baratos. Essas regiões tenderam a beneficiar-se com o redirecionamento do fluxo do capital, já que a melhoria de sua balança de pagamentos reduziu a necessidade de competir com os Estados Unidos no mercado financeiro mundial. Do outro lado estavam regiões que, por razões históricas e geográficas, tinham mais desvantagem na competição por uma parcela da demanda norte-americana. Essas áreas tenderam a enfrentar dificuldades na balança de pagamentos que as deixaram na posição desoladora de competir diretamente com os Estados Unidos no mercado financeiro mundial. Em linhas gerais, parece-me ser essa a fonte primária da bifurcação do destino das regiões do Terceiro Mundo que se iniciou no final da década de 1970 e se materializou por completo nos anos 1980. Uma fonte secundária mas ainda assim significativa da bifurcação foi o surgimento do chamado Consenso de Washington, que acompanhou a mudança da política norte-americana nas esferas militar e financeira e que John Toye chamou com toda a justeza de “contra-revolução” na teoria do desenvolvimento26. O Relatório Berg e a série seguinte de relatórios do Banco Mundial sobre a África, assim como boa parte da NEP, integravam essa contra-revolução. O regime favorável ao desenvolvimento dos trinta anos anteriores estava oficialmente extinto, e os países do Terceiro Mundo foram convidados a obedecer às regras de um jogo bem diferente – ou seja, abrir sua economia nacional ao vento gelado da competição intensificada no mercado mundial e a competir entre si e com os países do Primeiro Mundo para criar, dentro de sua jurisdição, a maior liberdade possível de movimento e ação para a iniciativa capitalista. Principalmente na África, essa nova estratégia de “ajuste estrutural” foi apresentada como antídoto a um modelo estatizante cada vez mais desacreditado e que predominara nos trinta anos anteriores. Na prática, a cura foi muitas vezes pior do que a doença27. Ainda assim, embora a nova estratégia não tivesse cumprido suas promessas de desenvolvimento, conseguiu – querendo ou não – levar os países do Terceiro Mundo a adaptar suas economias às novas condições de acumulação em escala mundial criadas pelo redirecionamento do fluxo de capitais para os Estados Unidos28. Assim, o Consenso de Washington contribuiu para consolidar a bifurcação dos destinos das regiões do Terceiro Mundo.

A CRISE AFRICANA DO PONTO DE VISTA COMPARATIVO

No entanto, por que a Ásia oriental e, em menor extensão, a Ásia meridional tiveram desempenho tão melhor que o da América Latina e, especialmente, que o da África subsaariana nessas mesmas condições? Pelo menos parte da resposta é que, na década de 1970, a América Latina e a África subsaariana tornaram-se bem mais dependentes do capital estrangeiro que a Ásia oriental e meridional. Quando o redirecionamento do fluxo de capitais para os Estados Unidos ganhou ímpeto, essa dependência ficou insustentável. Depois que a crise mexicana de 1982 revelou de forma dramática como o padrão anterior se tornara inviável, a “inundação” de capital que os países do Terceiro Mundo (e, em particular, os países latino-americanos e africanos) tinham sofrido na década de 1970 transformou-se na “seca” repentina dos anos 1980. No caso da África, a seca literal do Sahel deixou as coisas muito piores. Ainda assim, precisamos ter em mente que a versão mexicana da seca atingiu a África antes da seca do Sahel, reduzindo consideravelmente sua capacidade de cuidar dos subseqüentes desastres naturais e causados pelo homem.

A maior dependência anterior ao capital externo pode explicar por que a América Latina e a África subsaariana ficaram mais vulneráveis que a Ásia meridional e oriental à mudança drástica das circunstâncias econômicas mundiais que aconteceu por volta de 1980. Ainda assim, isso mal explica por que, sob as novas condições, a Ásia meridional e oriental teve desempenho tão melhor do que antes de 1980. Também não explica a persistência da melhoria do sul e do leste da Ásia em relação à deterioração latino-americana e, sobretudo, africana. Suspeito que, para entender por que a mudança do contexto global teve um impacto tão irregular e persistente sobre as regiões do Terceiro Mundo, precisamos ver essas regiões como “indivíduos” geo-históricos com uma herança pré-colonial, colonial e pós-colonial específica que lhes conferiu capacidades diferentes de lidar com a mudança.

Isso é mais fácil de dizer que de fazer. Em retrospecto, um dos principais pontos fracos de nossos ensaios sobre a economia política da África é que praticamente não demos atenção às dotações de recursos nem à configuração político-econômica que a África subsaariana herdara das épocas colonial e pré-colonial, em comparação com aquelas herdadas por outras regiões do Terceiro Mundo. Enquanto as relações entre as regiões do Terceiro Mundo foram predominantemente não-competitivas, como no início da década de 1970, essa herança comparativa tinha sua importância, é claro, mas bem menos do que quando tais relações tornaram-se, cada vez mais, predominantemente competitivas, como aconteceu nos anos 1980 e 1990. Aqui, vou me limitar a ilustrar a questão com algumas observações sobre as duas regiões que conheço melhor, a Ásia oriental e a África subsaariana, que também são as de melhor e pior desempenho no período considerado. Vou me concentrar em três questões distintas mas inter-relacionadas: mão-de-obra, iniciativa empresarial e formação do Estado e da economia nacional.

O argumento clássico de Arthur Lewis de que as regiões subdesenvolvidas caracterizam- se por uma “oferta ilimitada de mão-de-obra” na verdade nunca se aplicou à África, onde a mão-de-obra parece ter sido sempre escassa29. A principal forma de interação da África subsaariana com o mundo ocidental na época précolonial – importação de armas e exportação de escravos – piorou, sem dúvida, qualquer escassez estrutural de mão-de-obra com relação aos recursos naturais que pudessem ter existido na região antes daquela interação. Eric Wolf observa que, antes ainda que o comércio de escravos decolasse, “a África não era [...] uma área de população crescente [...] O fator escasso [...] não era a terra, mas a mão-deobra” 30. Os subseqüentes despovoamento e desorganização das atividades produtivas, associados direta ou indiretamente à captura e à exportação de escravos, deixaram uma herança de baixa densidade populacional e pequenos mercados locais que, em várias partes da África, persistiu durante toda a época colonial31.

Sob o colonialismo, a oferta de mão-de-obra se expandiu; mas também cresceu a demanda quando aumentou a exploração dos recursos naturais africanos. Era comum haver grande excedente populacional, prontamente disponível para emprego nas condições oferecidas nos setores formais, nas áreas urbanas. Essas condições, no entanto, só existiam para aquela minoria da força de trabalho que os empregadores privados ou públicos preferiam incorporar de forma estável às suas organizações; isto é, eram as condições de um “mercado de trabalho interno”. Embora de fato houvesse ali uma mão-de-obra excedente, nas condições realmente disponíveis no mercado de trabalho “externo” a oferta tendia a ser, em geral, sempre menor que a procura32.

Durante a descolonização e depois dela, a escassez básica de mão-de-obra reproduziu- se, em parte, com a demanda de recursos naturais da África, que permaneceu elevada durante meados da década de 1970, e, em parte, com o esforço dos Estados recém-independentes para se modernizarem e industrializarem. Só depois do colapso da década de 1980 foi que o déficit estrutural de mão-de-obra da África subsaariana transformou-se em mão-de-obra excedente, visível no aumento acentuado, durante os anos 1980, da migração na maioria dos países da região, apesar do colapso do “mercado de trabalho interno” urbano e da redução da diferença de renda entre a área rural e a urbana. Basta mencionar que, no final da década de 1980, as cidades africanas cresciam 6% a 7% ao ano, contra apenas 2% nas áreas rurais33.

Num forte contraste, a Ásia oriental herdou das épocas colonial e pré-colonial uma condição de subdesenvolvimento que se aproximava mais do tipo ideal de Lewis do que qualquer outra região do Terceiro Mundo – com certeza mais do que a África subsaariana, a América Latina, o Oriente Médio ou o norte da África, e pelo menos tanto quanto a Ásia meridional. A abundância estrutural de mão-de-obra com relação aos recursos naturais da Ásia oriental teve várias origens. Em parte, deveu- se ao predomínio, na região, da cultura material da produção de arroz. Em parte, foi conseqüência da “explosão populacional” centrada na China que acompanhou e seguiu a intensificação das trocas comerciais e outros tipos de troca com o mundo ocidental nos séculos XVI e XVII. Em parte, também, deveu-se à obsolescência e ao abandono gradual das técnicas de uso intensivo de mão-de-obra das indústrias tradicionais, precipitados pela incorporação da região à estrutura do sistema mundial centrado na Europa no final do século XIX e início do XX.

Durante as décadas de 1950 e 1960, a abundância estrutural de mão-de-obra barata com relação aos recursos naturais da região foi preservada pela concentração do esforço desenvolvimentista nas técnicas de uso intensivo de capital e recursos naturais típicas da industrialização ocidental. Só na década de 1980, quando, ao mesmo tempo, esse esforço passou a fazer uso mais intensivo de mão-de-obra e ter mais sucesso, o excedente de mão-de-obra começou a ser absorvido. No entanto, em termos comparativos, esse excedente da Ásia oriental continua a ser um dos maiores dentre as regiões do Terceiro Mundo. Especialmente na China, o crescimento econômico sustentado associou-se à intensificação do fluxo migratório para os centros de expansão que, em números absolutos, ultrapassa e muito os processos semelhantes da África subsaariana.

Essa primeira diferença foi fundamental porque, sob as condições do aumento rápido da competição entre as regiões do Terceiro Mundo na década de 1980, a disponibilidade de uma oferta grande e flexível de mão-de-obra tornou-se o principal fator determinante da capacidade de um país de colher os benefícios em vez de suportar os custos da nova conjuntura. Contudo, foi igualmente importante a presença de um estrato empresarial nativo capaz de mobilizar a oferta de mão-deobra para o acúmulo de capital dentro da região, de modo a expandir sua participação no mercado mundial e na liqüidez global. Felizmente para a Ásia oriental e infelizmente para a África subsaariana, a discrepância entre os recursos empresariais locais herdados do passado colonial e pré-colonial também era muito mais favorável à Ásia oriental. Nesse aspecto, com efeito, a dotação asiática oriental era de fato excepcional. A rede empresarial mais antiga e extensa da região era aquela incorporada à diáspora marítima chinesa. Foi uma rede que dominou a região durante séculos; continuou a fazê-lo até ser superada pelos rivais ocidentais e japoneses, que cresceram sob a carapaça de seus respectivos imperialismos, na segunda metade do século XIX. Depois da Segunda Guerra Mundial, a disseminação do nacionalismo econômico limitou a expansão de todos os tipos de iniciativa multinacional no leste da Ásia. Mas com freqüência promoveu, como que em uma estufa, a formação de novas camadas empresariais em nível nacional. Além disso, ao mesmo tempo, a abundância estrutural de mão-de-obra com relação aos recursos naturais na Ásia oriental continuou a oferecer um ambiente favorável ao surgimentos desses estratos no comércio e na indústria. Mas a maior oportunidade para os novos e antigos estratos lucrarem com a mobilização – dentro e fora das fronteiras – da oferta regional de mão-de-obra veio exatamente quando a crise dos anos 1970 e a reação dos Estados Unidos a ela transformaram a oferta de mão-deobra barata e flexível numa alavanca poderosa na concorrência por um quinhão da crescente demanda norte-americana por produtos industrializados34.

Não se observa nada do gênero na África subsaariana. Ao mesmo tempo, a escassez estrutural de mão-de-obra com relação aos recursos naturais criou um ambiente pouco propício para o surgimento e a reprodução de estratos empresariais no comércio e na indústria. Na época pré-colonial, o comércio de escravos não só intensificou a escassez de mão-de-obra e de empreendedores como também redirecionou os recursos empresariais já minguados para a “indústria de produzir proteção” – tomando emprestada a expressão de Frederic Lane35. Na época colonial, as atividades produtoras de proteção foram assumidas pelo governo e pelo exército coloniais, enquanto as funções empresariais no comércio e na produção passaram a ser exercidas predominantemente por estrangeiros – na verdade, muitas vezes os africanos foram proibidos de administrar negócios36. Como observou Bates, “os povos autóctones de boa parte da África passaram rápida, vigorosa e habilmente a produzir para o mercado colonial”, com integrantes das sociedades agrárias nativas chegando a defender a causa da propriedade privada. Ironicamente, no entanto, os principais agentes do capitalismo na região – os governos das potências coloniais – opuseram-se muitas vezes a essas tendências, defendendo e impondo os direitos de propriedade “comunitária”37.

Depois da independência, o nacionalismo econômico, quer fosse capitalista ou anticapitalista, assustou um grande número de pequenos negócios não-africanos sem criar um número equivalente de novos empresários africanos. Assim, no final dos anos 1970, a África subsaariana estava em desvantagem na incipiente luta competitiva, não só em função da sua escassez estrutural de oferta de mão-de-obra barata e flexível como também da exigüidade do estrato empresarial local capaz de mobilizar de forma lucrativa a pouca oferta de mão-de-obra barata e flexível existente38 . Ainda resta saber se a maior abundância de oferta de mão-de-obra barata e flexível provocada pelo colapso da África subsaariana dos anos 1980 criará, com o tempo, um ambiente mais favorável para o crescimento de uma classe empresarial nativa. Por enquanto, ao provocar uma contração acentuada do mercado interno, o colapso reduziu – em vez de aumentar – a possibilidade dessa evolução.

Por fim, essas vantagens competitivas do leste da Ásia e desvantagens da África subsaariana foram acentuadas pelos legados muito diferentes que cada região herdou no domínio da formação do Estado e da integração econômica nacional. Ao contrário do que se costuma acreditar, durante o século XVIII o leste da Ásia estava à frente de todas as outras regiões do mundo, inclusive a Europa, em ambos os aspectos. Tal precocidade não impediu, no século seguinte, a incorporação subordinada do sistema de Estados e economias nacionais centrado na China à estrutura do sistema centrado na Europa. Mas isso não apagou a herança histórica do sistema centrado na China. Em vez disso, deu início a um processo de hibridação entre as estruturas dos dois sistemas que, depois da Segunda Guerra Mundial (e principalmente depois da crise dos anos 1970), criou condições bastante favoráveis à acumulação de capital39.

Em forte contraste com o leste da Ásia, a África subsaariana herdou das fases colonial e pré-colonial uma configuração político-econômica que dava pouco espaço para a construção de economias nacionais viáveis ou Estados nacionais fortes. A tentativa de, apesar de tudo, construí-los não foi em geral muito longe, não obstante a legitimidade considerável de que gozaram na época da independência40. Naquele período, como enfatizou Mahmood Mamdani, a pauta central dos nacionalistas africanos compreendia três tarefas básicas: “desracializar a sociedade civil, destribalizar o governo nativo e desenvolver a economia no contexto das relações internacionais desiguais”. Embora os regimes nacionalistas de todas as orientações políticas tenham dado grandes passos para desracializar a sociedade civil, pouco ou nada fizeram para destribalizar o poder rural. Na opinião de Mamdani, foi por essa razão “que a desracialização não foi sustentável e que o desenvolvimento acabou fracassando”41. O argumento aqui exposto sugere que os Estados africanos provavelmente fracassariam em termos econômicos ainda que conseguissem se destribalizar. Mesmo assim, o fato de que as elites africanas precisariam destribalizar as estruturas sociais herdadas do colonialismo, se quisessem criar Estados nacionais viáveis, constituiu mais uma desvantagem no ambiente de intensa concorrência criado pela crise global dos anos 1970 e pela reação norte-americana à crise.

Temos de acrescentar que a discrepância entre o potencial de desenvolvimento das duas regiões foi ampliado antes da crise pelo tratamento preferencial que os Estados Unidos conferiram aos seus aliados da Ásia oriental nos primeiros estágios da Guerra Fria. Como ressaltaram muitos observadores, esse tratamento preferencial teve papel importantíssimo na “decolagem” do renascimento econômico da região. A Guerra da Coréia – observa Bruce Cumings – funcionou como o “Plano Marshall do Japão”. As encomendas bélicas “impeliram o Japão em seu triunfante caminho industrial”42 . No total, no período de vinte anos entre 1950 e 1970, a ajuda norte-americana ao Japão foi, em média, de 500 milhões de dólares por ano43 . A ajuda à Coréia do Sul e a Taiwan, combinadas, foi ainda mais maciça. No período 1946-78, o auxílio militar e econômico à Coréia do Sul chegou a 13 bilhões de dólares (600 dólares per capita), e, a Taiwan, a 5,6 bilhões (425 dólares per capita). A verdadeira dimensão dessa prodigalidade revela-se na comparação dos quase 6 bilhões de dólares de ajuda econômica dos Estados Unidos à Coréia do Sul em 1946-78 com o total de 6,89 bilhões de dólares para a África inteira e de 14,8 bilhões para toda a América Latina no mesmo período44 .

Teve a mesma importância o fato de os Estados Unidos darem às exportações de seus aliados do leste asiático acesso privilegiado ao mercado interno norteamericano, tolerando ao mesmo tempo seu protecionismo, seu intervencionismo estatal e até a exclusão das multinacionais norte-americanas, num nível sem paralelos na prática dos Estados Unidos no resto do mundo. “Assim, as três economias políticas do nordeste asiático [Japão, Coréia do Sul e Taiwan] tiveram, na década de 1950, um raro espaço para respirar, um período de incubação permitido a poucos povos do mundo.”45 As economias políticas da África não tiveram essa pausa. Ao contrário, a peça central das práticas da Guerra Fria norte-americana na África foi a substituição do governo democrático de Lumumba pelo regime predatório de Mobuto, no coração do próprio continente. Quando, portanto, a crise econômica mundial da década de 1970 se estabeleceu, a Guerra Fria aumentou ainda mais a possibilidade de que a Ásia oriental tivesse sucesso e a África fracassasse na futura luta competitiva das duas décadas seguintes.

“MÁ SORTE” E “BOM GOVERNO”

Segue-se desta análise que, ao contrário dos fundamentos do Consenso de Washington (e, mutatis mutandis, da maior parte das teorias de desenvolvimento nacional), não existe política que seja, por si só, “boa” ou “má” no decorrer do tempo e do espaço. O que é bom numa região pode ser mau em outra região na mesma época ou na mesma região em outra época. É interessante que, partindo de premissas diferentes, um importante economista do Banco Mundial, William Easterly, chegou recentemente a conclusões muito parecidas. Ele já publicou em co-autoria, no início da década de 1990, um estudo chamado “Good policy or good luck? Country growth performance and temporary shocks” [Boa política ou boa sorte? Crescimento nacional e choques temporários], que mostrava que o desempenho econômico individual dos países variava consideravelmente com o tempo apesar de seus governos continuarem a seguir o mesmo tipo de política. Assim, o bom desempenho econômico parecia depender mais da “boa sorte” do que da “boa política”46. Num artigo recente, Easterly avançou mais um passo em sua posição ao mostrar que uma importante “melhora das variáveis políticas” nos países em desenvolvimento desde 1980 – ou seja, a maior obediência ao programa do Consenso de Washington – associou-se não a uma melhora, mas a uma deterioração violenta de seu desempenho econômico; a taxa média de crescimento da renda per capita caiu de 2,5% em 1960-79 para 0% em 1980-9847.

Easterly não questiona explicitamente os méritos das políticas defendidas pelo Consenso de Washington. Ainda assim, as duas explicações principais que apresenta para o fato de não terem cumprido suas promessas constituem uma crítica devastadora da própria idéia de que seriam “boas” políticas em algum sentido absoluto, como sustentavam seus divulgadores. Em primeiro lugar, sugere que estariam sujeitas a um retorno decrescente; quando impostas além de um certo ponto em algum país específico ou impostas ao mesmo tempo num número crescente de países, deixavam de gerar resultados “bons”. “Embora alguém possa crescer mais depressa do que o vizinho caso seu envolvimento secundário seja maior, seu próprio crescimento não aumenta necessariamente quando a razão do envolvimento secundário (e a de todos os outros) cresce.” A segunda explicação – e, na opinião de Easterly, a mais importante – é que “fatores mundiais, como o aumento mundial da taxa de juros, a elevação do peso da dívida dos países em desenvolvimento, a desaceleração do crescimento do mundo industrializado e a mudança técnica voltada para o talento, podem ter contribuído para a estagnação dos países em desenvolvimento”48.

Embora não formulada especificamente tendo em vista os países africanos, para os nossos propósitos o espantoso dessa dupla explicação é ser muito mais próxima do diagnóstico da crise africana que está por trás do Plano de Ação de Lagos do que daquele apresentado pelo Relatório Berg e pela NEP. Afinal, a explicação é uma admissão inconfundível, embora implícita, da falta de justificativa factual para a afirmativa do Banco Mundial e da NEP de que as “más” políticas e o “mau” governo das elites africanas seriam as principais causas da crise na África. Em vez disso, sugere que a crise deveu-se em primeiro lugar aos processos estruturais e conjunturais da economia global, como concordariam sinceramente os signatários do Plano de Ação de Lagos.

Os processos estruturais da economia global correspondem mais ou menos à primeira parte da explicação de Easterly, que aponta para o fato de que as políticas e as atividades associadas a atributos desejáveis – como riqueza nacional, bemestar e poder – podem estar, e muitas vezes estão, sujeitas a um “problema de composição”. Sua generalização é capaz de criar uma competição que prejudica o objetivo original49. Os processos conjunturais da economia global, pelo contrário, correspondem à segunda explicação de Easterly. Afinal, por mais importantes que fossem os processos estruturais na deflagração da crise global dos anos 1970, a mudança súbita das circunstâncias sistêmicas mundiais ocorrida por volta de 1980 resultou, principalmente, da reação dos Estados Unidos a ela. Foi essa reação, mais do que tudo, que provocou o aumento mundial dos juros, o aprofundamento da recessão global e o fardo crescente da dívida dos países do Terceiro Mundo. A “melhora das variáveis políticas” promovida pelas gestões do Consenso de Washington nada fez para contrabalançar as repercussões negativas dessas mudanças nos países do Terceiro Mundo e, com toda a probabilidade, fortaleceu a tendência deles de reexpandir o poder e a riqueza dos Estados Unidos.

Hoje essa possibilidade é cogitada até nas colunas do New York Times. Seu correspondente Joseph Kahn noticiou recentemente, a respeito da Conferência Internacional de Financiamento e Desenvolvimento das Nações Unidas em Monterrey, México:

Além da China, talvez o único país que parece ter se beneficiado indubitavelmente da tendência mundial para o mercado aberto seja os Estados Unidos, onde o enorme ingresso de capitais ajudou os norte-americanos a gastar mais do que poupam e a importar mais do que exportam. “A tendência da globalização é que o capital excedente está vindo dos países da periferia para o centro, que são os Estados Unidos”, disse George Soros [...] [que] veio a Monterrey para convencer os líderes a apoiar sua idéia de criar uma reserva de 27 bilhões de dólares [...] para financiar o desenvolvimento, principalmente quando o fluxo de capital privado se esgota. “A opinião do governo dos Estados Unidos é que o mercado está sempre certo”, disse Soros. “A minha opinião é que o mercado está quase sempre errado e tem de ser corrigido.”50

Para as baixas da chamada globalização – em primeiro lugar os povos da África subsaariana –, o problema não é que “o mercado est[eja] quase sempre errado e te[nha] de ser corrigido”. O verdadeiro problema é que alguns países ou regiões têm o poder de fazer o mercado mundial trabalhar em seu benefício enquanto outros não têm esse poder e acabam bancando o custo. Tal poder corresponde em boa medida ao que Easterly e seus co-autores chamam de “boa sorte”. Do ponto de vista aqui exposto, o que, em qualquer momento dado, parece ser boa ou má sorte tem, na verdade, raízes profundas numa herança histórica específica que posiciona um país ou uma região de forma favorável ou desfavorável em relação aos processos estruturais e conjunturais dentro do sistema mundial. Se é isso que entendemos por esses termos, então a tragédia africana de fato se deveu a uma grande dose de má sorte – ou seja, a uma herança pré-colonial e colonial que prejudicou gravemente a região no ambiente global de intensa competição gerado pela resposta dos Estados Unidos à crise dos anos 1970. Ainda assim, nem a responsabilidade norte-americana pela mudança da conjuntura mundial nem a má sorte dos africanos de estarem mal-equipados para competir nas novas condições absolvem as elites africanas de não terem feito o que estava a seu alcance para que o colapso da década de 1980 fosse menos grave e para aliviar suas conseqüências sociais desastrosas.

Deixem-me declarar rapidamente quais são, na minha opinião, as três falhas mais visíveis. Primeiro, embora houvesse pouquíssima coisa que os grupos dominantes da África pudessem fazer para impedir a mudança das circunstâncias sistêmicas que precipitaram o colapso econômico da região na década de 1980, ainda assim poderiam tê-la mitigado se fossem mais realistas quanto à sustentabilidade do padrão anterior de crescimento econômico da região. Isso pode ter levado a restrições maiores, não só pela promoção do consumo ostentatório, como também, e principalmente, pela adoção de níveis de endividamento externo que ampliaram a vulnerabilidade da região à mudança do clima sistêmico. Nesse aspecto, a conclamação à autoconfiança coletiva do Plano de Ação de Lagos acertou bem no alvo. Infelizmente, veio tarde demais e, pior ainda, não levou a nenhuma ação.

Em segundo lugar, depois que a mudança aconteceu, seria provavelmente menos danoso suspender os pagamentos da dívida externa do que renegociá-la sob as condições ditadas pelo Banco Mundial. A curto prazo, o colapso teria sido mais grave; mas os efeitos negativos a longo prazo das “boas políticas” impostas pelos órgãos do Consenso de Washington teriam sido evitados. Nesse caso, o Panurdea foi, desde o princípio, um mau negócio para a África, ainda mais porque os Estados africanos cumpriram sua parte no acordo, enquanto os países ricos e seus órgãos não.

Em terceiro lugar, e mais importante, mesmo supondo que não houvesse nada que os grupos governantes da África pudessem fazer para prevenir ou mesmo mitigar o colapso econômico dos anos 1980, havia muito que poderiam fazer para aliviar seu impacto sobre o bem-estar dos cidadãos. Isso nos leva à questão da relação entre riqueza nacional e bem-estar nacional. No último meio século, vem ficando cada vez mais evidente que a hierarquia global da riqueza, medida pelo PNB relativo per capita, é muito estável. Com poucas exceções, os países de baixa renda tendem a permanecer pobres, os de alta renda tendem a permanecer ricos, e os países de renda mediana tendem a ficar no meio51. Ao mesmo tempo, também tornou-se evidente que, dentro de cada estrato, há uma variação considerável do grau de bem-estar (medido por vários indicadores sociais) usufruído pelos cidadãos de Estados diferentes.

Segue-se que, embora talvez haja pouca coisa que a maioria dos Estados possa fazer para que sua economia nacional suba na hierarquia global da riqueza, sempre há algo que cada um deles pode fazer para aumentar (ou reduzir) o bem-estar de seus cidadãos em qualquer nível dado de pobreza ou riqueza52. No contexto africano, o tipo de destribalização que Mamdani defende traria provavelmente mais resultado do que qualquer outra estratégia. Desse ponto de vista, a maioria dos grupos governantes africanos fez, possivelmente, muito menos do que poderia. Mas não está nada claro se, em geral, foram mais deficientes, e até que ponto o foram, que os grupos governantes de outros países e regiões, inclusive dos Estados Unidos. Na verdade, se levarmos em conta as diferenças de riqueza e poder, parece provável que, na comparação, foram é bem melhores.

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1 Este artigo, apresentado pela primeira vez na conferência “The Political Economy of Africa Revisited” [Reexame da Economia Política da África], no Institute for Global Studies, na Johns Hopkins University, em abril de 2002, nasceu de um projeto conjunto com John Saul que tinha como objetivo avaliar nossos textos sobre a economia política da África trinta anos depois de sua publicação. Para preparar esta versão do artigo, contei bastante com a ajuda de Ben Brewer, Jake Lowinger, Darlene Miller e Cagla Ozgur e com os comentários de John Saul, Beverly Silver e José Itzigsohn sobre as versões anteriores. A expressão “tragédia africana” é de Colin Leys: “Confronting the African tragedy”, New Left Review, I/204, março-abril de 1994, p. 33-47.

2 Ver o relatório do Programa de Desenvolvimento da ONU, Human Development Report 2001, p. 144, 165, 169. Os números desse relatório vêm da ONU, da OMS e da FAO.

3 Isso se fez numa série de artigos mais tarde reunidos em Essays on the political economy of Africa (Nova York, 1973). Naquela coletânea, assim como neste artigo, “África” refere-se à África subsaariana.

4 Banco Mundial, Accelerated development in Subsaarian Africa: an agenda for action (Washington, DC, 1981).

5 Robert Bates, Markets and States in tropical Africa: the political basis of agricultural policy (Berkeley, 1981). Sobre o surgimento da “nova” economia política da África nos anos 1980, ver, entre outros, Carol Lancaster, “Political economy and policy reform in Sub-Saharan Africa”, em Stephen Commins (org.), Africa’s development challenges and the World Bank (Boulder, 1988).

6 Ver especialmente, do Banco Mundial, Toward sustained development in Sub-Saharan Africa: a joint programme of action (Washington, DC, 1984); e Financing adjustment with growth in Subsaarian Africa: 1986-1990 (Washington, DC, 1986).

7 Ver Lancaster, “Political economy and policy reform”, cit., p. 171-3.

8 OUA, The Lagos Plan of Action for the economic development of Africa 1980-2000 (Genebra, 1981).

9 Akilagpa Sawyerr, “The politics of adjustment policy”, em Adedeji, Rasheed e Morrison (eds.), The human dimension of Africa’s persistent economic crisis (Londres, 1990), p. 218-23.

10 Fantu Cheru, The silent revolution in Africa: debt, development and democracy (Londres, 1999), p. 15-6.

11 Robert Bates, Beyond the miracle of the market: the political economy of agrarian development in Kenya (Cambridge, 1989); ver também Banco Mundial, Sub-Saharan Africa: from crisis to sustainable growth: a long-term perspective study (Washington, DC, 1989), e idem, Governance and development (Washington, DC, 1992).

12 Ver Ray Bush e Morris Szeftel, “Commentary: bringing imperialismo back in”, Review of African Political Economy, n. 80, 1999, p. 168. Duas matérias de capa da revista Economist também dão uma boa medida desse tipo de mudança. Apenas três anos depois de afirmar, em matéria de capa, que “a África subsaariana está em melhor forma do que há uma geração”, na capa de seu número de 13 a 19 de maio de 2000 a Economist declarou que a África era “O continente sem esperanças”. Depois de repreender a “péssima produção de líderes” da África, que, por “personalizar o poder”, tinham “minado em vez de promover as instituições nacionais” e transformaram seus países em “Estados-fantoches”, vestidos de modernidade mas ocos por dentro, a revista perguntava: “A África tem alguma falha inerente de caráter que a mantém atrasada e incapaz de se desenvolver?”. Observando o contraste entre as duas matérias de capa, a revista empresarial Financial Mail, de Johannesburgo, retorquiu: “Os editores da Economist têm alguma falha de caráter que os torna incapazes de opiniões coerentes?”; ver “The hopeless continent”, World Press Review, outubro de 2000, p. 24-5.

13 Arrighi e Saul, Essays on the political economy of Africa, cit., p. 16-23, 33, 34; destaques acrescentados.

14 Define-se uma experiência de crescimento forte e sustentado como “um período ininterrupto de dez anos ou mais no qual a média móvel do crescimento anual do PIB em cinco anos exceda 3,5%”. As dezesseis experiências subsaarianas que correspondem a esse padrão tiveram duração média de 15,4 anos e taxa de crescimento médio anual de 7,1%. Ver Jean-Claude Berthélemy e Ludvig Soderling, “The role of capital accumulation, adjustment and structural change for economic take-off. Empirical evidence from African growth episodes”, World Development, n. 2, 2001; as médias acima foram calculadas com base na Tabela 1 do citado trabalho.

15 Os valores do PNB relativo per capita mostrados na Tabela 2 são especialmente adequados para aferir as diferenças nacionais de renda e riqueza, assim como o avanço ou a queda na classificação mundial das nações e regiões pela renda e pela riqueza. Como observaremos mais adiante, são medidas muito imperfeitas das diferenças de bem-estar social.

16 Uma quarta característica notável são as oscilações cíclicas e mutuamente contrárias dos valores norte-americanos e europeus ocidentais que podem ser verificadas na Tabela 2. A discussão dessa tendência ultrapassa o escopo deste artigo. Ainda assim, as oscilações são levadas em conta na identificação de tendências que vem a seguir.

17 Quanto às conseqüências sociais mais amplas do colapso africano, ver Mary Chinery-Hesse, “Divergence and convergence in the New World Order”, em Adebayo Adedeji (org.), Africa within the world: beyond dispossession and dependence (Londres, 1993), p. 144-7.

18 Ver meu The long twentieth century: money, power and the origins of our times (Londres, 1994), p. 300-56 [ed. bras.: O longo século XX: dinheiro, poder e as origens de nosso tempo, 4. ed., Rio de Janeiro, Contraponto, 2003]; e Arrighi, Beverly Silver et al., Chaos and governance in the modern world system (Minneapolis, 1999) [ed. bras.: Caos e governabilidade no moderno sistema mundial, Rio de Janeiro, Contraponto, 2001].

19 Philip McMichael, Development and social change: a global perspective (Thousand Oaks, Califórnia, 1996).

20 Robert McNamara, “The true dimension of the task”, International Development Review, v. 1, 1970, p. 5-6.

21 Dudley Seers, “The birth, life and death of development economics”, Development and Change, outubro de 1979.

22 Stephen Krasner, Structural conflict: the Third World against global liberalism (Berkeley, 1985).

23 Ver McMichael, Development and social change, cit.

24 Deixando de lado “erros e omissões”, o superávit das transações correntes indica a exportação líquida de capital, e os déficits, o ingresso líquido de capital.

25 Todos os valores foram calculados com base em dados do FMI.

26 John Toye, Dilemmas of development: reflections on the counter-revolution in development economics (Oxford, 1993).

27 Ver, entre outros, Yusuf Bangura e Bjorn Beckman, “African workers and structural adjustment: the Nigerian case” e Richard Sandbrook, “Economic crisis, structural adjustment, and the State in Subsaarian Africa”, ambos em Dharam Ghai (org.), The FMI and the South: the social impact of crisis and adjustment (Londres, 1991); Sawyerr, “The politics of adjustment policy”; Paul Mosley e John Weeks, “Has recovery begun? Africa’s adjustment in the 1980s revisited”, World Development, n. 10, 1993; Susan George, “Uses and abuses of African debt”, em Adebayo Adedeji (org.), Africa within the world, cit.; Ademola Ariyo e Afeikhena Jerome, “Privatization in Africa: an appraisal”, World Development, n. 1, 1998; Sarah Bracking, “Structural adjustment: why it wasn’t necessary and why it did work”, Review of African Political Economy, n. 80, 1999; e Jake Lowinger, “Structural adjustment and the neoclassical legacy in Tanzania and Uganda”, artigo não-publicado.

28 Ver meu “World income inequalities and the future of socialism”, New Left Review I/189, setembro-outubro de 1991; McMichael, Development and social change, cit.; Bracking, “Adjustment”, cit.; Manfred Bienefeld, “Structural adjustment: debt collection device or development policy?”, Review (Fernand Braudel Centre), n. 4, 2000.

29 Arthur Lewis, “Economic development with unlimited supplies of labour”, Manchester School, n. 2, 1954. Ver meu “Labour supplies in historic perspective”, republicado como capítulo 5 de Arrighi e Saul, Essays on the political economy of Africa, cit. O artigo era uma crítica não tanto a Lewis (que tinha consciência da limitada aplicabilidade de sua teoria à África), mas à aplicação de sua teoria ao sul da Rodésia por W. L. Barber em The economy of British Central Africa (Londres, 1961).

30 Eric Wolf, Europe and the people without history (Berkeley, 1982), p. 204-5.

31 Ver, entre outros, Bade Onimode, A political economy of the African crisis (Londres, 1988), p. 14-5; e Walter Rodney, How Europe underdeveloped Africa (Washington, DC, 1974), p. 95-113.

32 Ver Arrighi e Saul, Essays on the political economy of Africa, cit., p. 116-29.

33 Vali Jamal, “Adjustment programmes and adjustment: confronting the new parameters of African economies”, em Vali Jamal (org.), Structural adjustment and rural labour markets in Africa (Nova York, 1995), p. 22-3.

34 Sobre a mobilização da oferta regional de mão-de-obra através das fronteiras na Ásia oriental, ver Arrighi, Satoshi Ikeda e Alex Irwan, “The rise of East Asia: one miracle or many?”, em Ravi Palat (org.), Pacific-Asia and the future of the world-system (Westport, 1993); e o meu “The rise of East Asia: world-systemic and regional aspects”, International Journal of Sociology and Social Policy, n. 7, 1996. Sobre a vitalidade dos chineses ultramarinos como estrato empresarial transnacional nas épocas pré-colonial, colonial e pós-colonial, ver Arrighi, Po-keung Hui, Ho-Fung Hung e Mark Selden, “Historical capitalism, East and West”, versão revista de um artigo apresentado no Institute for Global Studies da Johns Hopkins University, em dezembro de 1999.

35 Ver Frederic Lane, Profits from power readings in protection rent and violence-controlling enterprises (Albany, 1979).

36 John Iliffe, The emergence of African capitalism (Minneapolis, 1983).

37 Robert Bates, “Some conventional orthodoxies in the study of agrarian change”, World Politics, n. 2, 1984, p. 240-4.

38 Lancaster, “Political economy and policy reform”, cit., p. 174-5.

39 Ver Arrighi, Hui, Hung e Selden, “Historical capitalism, East and West”, cit.

40 Discordo aqui da tese de Pierre Englebert de que “os Estados de baixa legitimidade não são exclusivos da África, mas sua concentração no continente é única dentre todas as regiões do globo e responde, em parte, pelo diferencial de desempenho econômico entre a África e o resto do mundo” (State legitimacy and development in Africa, Boulder, 2000, p. 6). Suspeito que qualquer indicador válido e confiável da legitimidade do Estado – indicador que, até onde sei, ainda não foi inventado – mostraria que, na época da independência, não se podia observar tal concentração e que toda redução posterior da legitimidade relativa dos Estados africanos foi mais resultado do que causa do desempenho econômico comparativamente ruim da África na década de 1980.

41 Mahmood Mamdani, Citizen and subject: contemporary Africa and the legacy of late colonialism (Princeton, 1996), p. 287-8.

42 Bruce Cumings, “The political economy of the Pacific rim”, em Ravi Palat (org.), Pacific-Asia and the future of the world-system, cit., p. 31.

43 William Borden, The Pacific alliance: United States foreign economic policy and Japanese trade recovery 1947-1955 (Madison, WI, 1984), p. 220.

44 Bruce Cumings, “The origins and development of the Northeast Asian political economy: industrial sectors, product cycles, and political consequences”, em F. C. Deyo (org.), The political economy of New Asian industrialism (Ithaca, 1987), p. 67.

45 Cumings, “The origins and development of the Northeast Asian political economy”, cit., p. 68.

46 William Easterly, Michael Kremer, Lant Pritchett e Lawrence Summers, “Good policy or good luck? Country growth performance and temporary shocks”, Journal of Monetary Economics, v. 32, 1993.

47 William Easterly, “The lost decades: developing countries’ stagnation in spite of policy reform 1980-1998”, Journal of Economic Growth, v. 6, 2001.

48 Easterly, “The lost decades”, cit., p. 135, 137, 151-5.

49 Para uma análise inicial desse tipo de processo, ver Arrighi e Jessica Drangel, “The stratification of the world economy: an exploration of the semiperipheral zone”, Review (Fernand Braudel Centre), verão de 1986; e o meu “Developmentalist illusion: a reconceptualization of the semiperiphery”, em W. G. Martin (org.), Semiperipheral states in the world-economy (Westport, 1990). Há uma análise mais recente em Arrighi, Beverly Silver e Benjamin Brewer, “Industrial convergence and the persistence of the North-South divide”, versão revista de um artigo apresentado na International Studies Association em fevereiro de 2001.

50 “Globalization proves disappointing”, New York Times, 21/3/2002.

51 Ver Arrighi e Drangel, “Stratification of the world economy”, cit.; e Roberto Patricio Korzeniewicz e Timothy Patrick Moran, “World-economic trends in the distribution of income, 1965-1992”, American Journal of Sociology, n. 4, 1997, p. 1000-39, principalmente a Tabela 5.

52 Peter Evans ressaltou recentemente essa possibilidade com referência específica às experiências de Kerala, na Índia, e Porto Alegre, no Brasil, em “Beyond ‘institutional monocropping’: institutions, capabilities, and deliberative development”, artigo não-publicado. Ver também Santosh Mehrotra e Richard Jolly, Development with a human face: experience in social achievements and economic growth (Oxford, 1997).

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