31 de janeiro de 2014

UE deve parar a hipocrisia do comércio de armas

Andrew Smith

New Internationalist
“Não apenas a proteção dos direitos humanos, mas também a promoção da paz e dos valores europeus, são a própria razão para a existência da União Europeia.” 
Herman Van Rompuy

Crédito: BRQ.

Enquanto no Egito se celebra o terceiro aniversário da Primavera Árabe, a situação ainda é instável. Quarenta e nove pessoas foram mortas nos protestos que marcam o aniversário, o qual acontece no mesmo momento que um ex-presidente vai a julgamento e um novo está para ser eleito.

Com esse cenário, era de se esperar que as potências europeias iriam apoiar o povo egípcio e promover a reforma democrática na região. Infelizmente isso não acontece. No mais recente relatório sobre exportações de armas da União Europeia (UE), o qual inclui números de 2012, mostra que os países do bloco adicionaram à instabilidade – ao bater um recorde de vendas – mais de 363 milhões de euros em vendas ao governo egípcio, incluindo 16 milhões em “equipamentos para armas de fogo”; 28 milhões em “dispositivos explosivos” e 46 milhões em “veículos militares” – todo em euro.

Infelizmente, o Egito não foi o único país instável a contar com esses números significativos. Omã e Emirados Árabes também foram grandes clientes, comprando mais de 3 bilhões e 2 bilhões de dólares em armas, respectivamente. De fato, das 51 autoridades governamentais listadas pelo Índice da Unidade de Inteligência em Democracias da publicação The Economist, de 2012, 43 delas contaram com vendas militares, totalizando um recorde de 13 bilhões em vendas de armas para o Oriente Médio, o que representa um assustador aumento em 22% nas vendas.

A UE era para ser reconhecida pelo seu comprometimento aos direitos humanos e democráticos, e isso precisa ser central em sua política externa. As políticas de seus Estados-membros não foram apenas antiéticas, mas também de uma extrema visão a curto prazo. Em nenhum lugar isso é tão evidente como no caso da Líbia.

Em 2004, o embargo à venda de armas da UE na Líbia foi removido e quase que imediatamente os países passaram a cortejar Qadafi com venda de armas. Apenas em 2010, a UE vendeu ao país armas, equipamentos, munição e explosivos, totalizando 484 milhões de dólares. Essa política continuou até a Primavera Árabe, quando Qadafi usou as exportações europeias contra os manifestantes pró-democracia. Seguindo a queda de Qadafi, as vendas para a Líbia continuaram, com quase 30 milhões de exportações militares sendo autorizadas.

Mas claro, os países da União Europeia estão longe dos países a quem vendem. E na realidade, grande parte dessas exportações é destinada a governos opressores, enquanto a UE tem influência global e deveria usá-la para promover a liberdade e a democracia, ao invés de promover a legitimidade de ditaduras e violadores dos direitos humanos.

No início desse mês, a DAPA, agência de exportação da Coreia do Sul, anunciou que, na sequencia de uma campanha internacional contra o comércio de armas, eles iriam cancelar um envio de 1,6 milhões de latas de gás lacrimogênio ao Bahrein. Isso estabelece um importante precedente que a Europa deveria seguir.

A Primavera Árabe deveria ser vista como um novo modelo de como a Europa faz negócios com esses países, mas a mudança foi negligenciada. Em seu relatório recente, o Comitê do Parlamento para Assuntos Internacionais disse: “Tanto o governo como a oposição no Bahrein, enxergam nas vendas do Reino Unido como um sinal de apoio ao governo”. Só essa fala já dá duas boas razões para se opor ao papel da UE no comércio global de armas.

Nesse ano ocorrerá eleição no Parlamento Europeu e é importante que o tema dos direitos humanos seja central nos debates a respeito do futuro da Europa. Ativistas estão implorando a todos os candidatos a mostrarem seu compromisso com a paz, segurança e direitos humanos, garantindo que o comércio de armas e esse relatório específico sejam discutidos no Parlamento Europeu. Não pode ser permitido que tal comércio seja apenas mais um tipo de negócios para os governos europeus e sua inegável contradição e hipocrisia nas políticas externas – no qual os direitos humanos de todos os civis são muito frequentemente colocados em segundo plano para o lucro rápido das fabricantes de armas.

30 de janeiro de 2014

Abe está começando a tratar a administração Obama como um pato manco?

E Joe Biden foi designado saco de pancadas?

Por Peter Lee [*]

Sempre houve uma contradição implícita entre o desejo declarado de Shinzo Abe de “trazer de volta o Japão” e o desejo dos Estados Unidos de liderar a “Ásia Livre”. A divergência dos objetivos foi obscurecida pela ansiedade obcecada do establishment da Defesa dos Estados Unidos, empenhado em estimular o ímpeto crescente do Japão como “ativo pacifista” da “segurança” e da “defesa”. Bem, falemos logo de poder “militar”, para acrescentar credibilidade à dominação dos Estados Unidos no Pacífico Ocidental; e da consciência, do Japão, de que o apoio militar dos Estados Unidos - se devidamente explorado, mediante o Tratado de Segurança EUA-Japão – pode dar aos japoneses empurrão significativo na confrontação com a República Popular da China (RPC).

O governo Abe fez exatamente como desejavam os estrategistas militares americanos, tanto na disposição, pode-se falar até de forte empenho, para reconstruir seus exércitos e endossar o conceito de “autodefesa coletiva”, como, também, na questão altamente controversa de impor a relocação da base aérea de Futenma ao resistente povo de Okinawa, mediante uma combinação de afagos financeiros e pressão política nua e crua.

No entanto, há sinais de tensão no love-affair EUA-Japão, em larga medida porque o governo Obama realmente está decidido a explorar o potencial japonês de “intermediário honesto”, para escavar um papel para o próprio Estados Unidos como intermediador necessário entre Japão e China – movimento que a China está encorajando, para cavar, ela, uma ravina entre Tóquio e Washington.

Por isso, os Estados Unidos não estão dando ao Primeiro-Ministro, Shinzo Abe, o apoio em alto e bom som, que ele acredita que precise e merece. É possível também que o governo Abe esteja interpretando a atual política asiática moderada do Presidente Obama, do Vice-Presidente, Joe Biden e do Secretário de Estado, John Kerry como sonho transitório, precário, de um governo que entra em fase de “pato manco”, e que pode ser desafiado (cuidadosamente), enquanto o Japão espera um sucessor mais militantemente pró-Japão na Casa Branca.

Um dos aspectos menos comentados da política dos Estados Unidos para a Ásia foi a marcada divergência entre as respostas dos Estados Unidos e do Japão à criação, pelos chineses, de sua Zona Aérea de Identificação da Defesa (ZAID) no Mar do Leste da China. O Primeiro-Ministro Abe mergulhou imediatamente na retórica à moda Churchill de “não vai funcionar”, e declarou que nenhuma aeronave japonesa – inclusive os aviões de transporte comercial civil, que já haviam declarado que aceitavam a exigência de identificação – de modo algum respeitaria a ZAID chinesa.

Os Estados Unidos, conscientes talvez de que mantêm uma ZAID furiosamente defendida sobre a América do Norte, decidiram afirmar, apenas, o direito de aeronaves militares americanas voarem por onde quisessem dentro do espaço aéreo chinês; e despacharam para lá dois bombardeiros B-52, que decolaram de Guam e surgiram, sem se identificarem, na ZAID chinesa. Mas os Estados Unidos não recomendaram que empresas civis ignorassem a ZAID. A Coreia do Sul aproveitou o tumulto e expandiu sua própria ZAID, o que, parece, desejava fazer há muito tempo, ação que a China aprovou. Parece que hoje aeronaves civis da República da Coreia respeitam a ZAID chinesa.

Isso deixou o Japão praticamente fora, bastante isolado, estado de coisas que a imprensa-empresa ocidental cuidou atentamente de ignorar completamente, mas que parece ter despertado algum ressentimento contra os EUA, talvez no governo Abe, mas certamente entre os que, nos EUA, simpatizam com sua atitude de desafiar a China.

O Primeiro-Ministro Abe não conseguiu construir uma frente unida contra a ZAID chinesa, da primeira vez; durante o convescote da elite global em Davos, Suíça, tentou outra vez dar algum fôlego àquela frente.

Ian Bremmer, “especialista” em questões internacionais e um muito suspeitamente enorme exército de “especialistas” de think-tanks estavam todos preparados para amar o discurso (o texto, como é praxe em Davos, não foi distribuído para a patuleia). E amaram.

Primeiro, Bremmer:

E o Primeiro-Ministro Abe veio, e fez um grande discurso. O pessoal está otimista com a economia. A parte do discurso que mais preocupou o pessoal foi sobre Japão-China. E é compreensível que assim seja. Ele está criticando os chineses, por serem agressivos e militaristas. Comparou as relações Japão-China explicitamente às relações entre Alemanha e Grã-Bretanha em 1914, quando as relações econômicas eram boas, mas as tensões de segurança, digamos assim, não eram muito boas. E ele sabe o que aconteceu lá. 
Eu não diria que Abe está diretamente despertando o espectro da guerra, mas ele disse que a China está agindo de forma inaceitável, e que o Japão não tolerará essa ação [1].

Bremmer também sugeriu que a China estaria tirando vantagem de uma certa falta de decisão testicular dos EUA:

É claro que os chineses querem engajar-se seriamente com os EUA. Há muitas razões para isso: a economia dos EUA está em plena recuperação. Mas eles também estão vendo uma janela aqui, porque todos os linha-dura contra a China que havia no governo dos EUA já deixaram o governo. Hillary [Clinton] já não está no governo, Kurt Campbell já se foi, [o ex-Secretário do Tesouro Timothy] Geithner, sempre muito focado nessa região, também já se foi, e [ex-Conselheiro de Segurança Nacional Thomas] Donilon também já se foi. Assim sendo, eles veem uma oportunidade, agora que quem está conduzindo as relações EUA-China é Biden, ao mesmo tempo que vai mudando as regras em campo com o Japão.

Ao mesmo tempo, dois paus-mandados do Center for a New American Security,think-tank de segurança de “centro-esquerda”, declararam-se preocupados com a possibilidade de fazer-se paz entre EUA e a China e, em vez de paz, propuseram aumentar as tensões, com ajuda empenhada do Japão e outros aliados asiáticos:

Funcionários dos EUA tiveram o cuidado de não provocar a China, que parece cada dia mais interessada em acionar a musculatura militar que os chineses acabam de descobrir. Talvez por isso Biden tenha invocado o conselho que recebeu do pai, e invocou justamente na véspera de sua visita a Pequim. Disse que “o único conflito pior que conflito que alguém deseja é conflito que ninguém deseja”. Mas superenfatizar a estabilidade pode ser perigoso.” 
O ponto é, simplesmente, que um país com o poder de URSS ou China, insatisfeito com a ordem existente, motivado para fazer alguma coisa para mudá-la, e que não creia na firme decisão dos EUA, pode bem iniciar uma política de coerção e diplomacia temerária, mesmo sob a sombra de armas atômicas. 
Os EUA têm de injetar uma boa dose de risco saudável no cálculo de Pequim, por mais que lhes interesse cooperar com a China. Não implica abandonar o engajamento ou tentar conter a China, nem, muito menos, implica fomentar o conflito. Mas, sim, significa comunicar que Pequim tem menor habilidade para controlar a escalada do conflito do que parece supor. A China tem de entender que tentativas para agitar as águas podem resultar em precisamente os mesmos tipos de custos e conflitos que visam a evitar. 
Para que isso funcione, os EUA devem implementar políticas que realmente aumentem os riscos – políticos, econômicos ou outros – para Pequim, no caso de agir assertivamente. (...) Os militares dos EUA precisam de capacidades e de planos que não apenas os preparem para uma grande guerra, mas que, também ofereçam opções plausíveis, concretas, para responder às tentativas chinesas de explorar a percebida aversão dos EUA a qualquer instabilidade. Líderes em toda a Ásia estarão vigilantes e atentos. Excesso de cautela, sobretudo se a China é claramente o agente iniciador, pode ser lido como fraqueza dos EUA, o que perpetuará, em vez de reduzir, os incentivos da China na direção do aventureirismo. 
Os Estados Unidos podem aumentar ainda mais as apostas, aprofundando seus laços militares com o Japão... [2]

O senador John McCain, cujo confidente, Roy Pflauch, manobra o acesso, informa, cuidadoso e extensivo do governo Abe à direita norte-americana, também invocou a analogia com 1914 durante a sessão de aprovação do nome do novo embaixador dos EUA à República Popular da China, Max Baucus, indicação de que talvez todos os aliados de Abe em Washington cantam pelo mesmo hinário.

Uau, parece que todo mundo está louquinho para unir-se ao Japão contra a China, exceto o Vice-Presidente dos EUA, VPOTUS, Joe Biden! Quer dizer: quase todo mundo.

As relações entre o presidente Obama e o Primeiro-Ministro Abe do Japão são, na avaliação mais favorável, frias.

Abe, deve-se não esquecer, é Cheney-ita não reconstruído no que tenha a ver com a admiração e emulação da visão de mundo maniqueísta de Dick Cheney, especialmente no que se refira à China. (Deve-se notar, en passant, que foi “Scooter” Libby, escoteiro leal a Cheney, que apresentou Abe, na conferência que fez de setembro de 2013, no Hudson Institute).

Abe também tem sido insistente em seu silencioso acesso aos Republicanos, falcões linha mais dura, e elementos anti-Obama em Washington, mais recentemente, num esforço para obter a concordância dos EUA para a visita de Abe ao santuário de Yasukuni, e, como resultado, não tem nenhum amigo conhecido na Casa Branca, exceto o amigável e frequentemente demonizado como “suave com qualquer coisa”, Joe Biden.

Talvez a equipe de Obama não tenha avaliado a implicação de terem de manter-se agora ao lado do Japão! 1914! (acho meio esquisitas as analogias com a 2ª Guerra Mundial) – numa aliança anti-China, ou corre o risco de ser marcada pelo pincel do apaziguamento, e deixou ver seu desprazer.

Seja como for, Abe rapidamente retrocedeu da analogia com 1914, pondo a culpa no erro de interpretação de um intérprete, e correndo imediatamente para o modo de diz-que-diz. Ele não disse que é possível a guerra, se o mundo não enfrentar a China! Disse o contrário: que a guerra é impossível! Segundo o Japan Times:

O governo está dizendo com insistência que o que Abe quis dizer foi que uma guerra entre Japão e China é impossível, porque causaria devastação, não só nos dois países, mas em todo o mundo. 
“Esclareceremos pelos canais diplomáticos o que o primeiro-ministro quis dizer” – disse em conferência de imprensa o secretário do Gabinete Yoshihide Suga. 
Quando do encontro com jornalistas no Fórum Econômico de Davos, Suíça, Abe foi perguntado se uma guerra entre Japão e China é concebível e, na resposta, comparou as atuais tensões entre os países à rivalidade entre Grã-Bretanha e Alemanha, nos anos anteriores à I Guerra Mundial. 
Abe disse que seria “situação similar”, segundo o Financial Times e alguns outros veículos. 
Na sexta-feira pela manhã, o governo informou à BBC sobre a intenção de Abe, disse uma fonte no Ministério do Exterior. A emissora pública britânica estava entre os veículos que noticiavam intensamente os comentários do Primeiro-Ministro. Tóquio também inromaria imediatamente a Agência Reuters, disse a fonte. 
Muitas matérias “deixaram a impressão de que Abe não negara [a possibilidade de] um confronto militar (entre Japão e China) e daí brotou a interpretação errada” – disse outra fonte do governo.

E então, Abe voou para os ambientes acolhedores da Índia, onde foi convidado de honra nas celebrações do Dia da República, e assinou um pacote de acordos – e não houve vozes dissidentes quando tratou de fazer avançar uma aliança de segurança indiana-japonesa contra a República Popular da China.

A viagem, ao que parece, foi arranjada no último momento, a ponto de Abe ter de faltar aos preparativos para a abertura dos trabalho do Parlamento japonês [ing.Diet]. Pode-se especular livremente se seu desapontamento ante o governo Obama levou-o a dizer que o Japão, não, de modo algum, depende exclusivamente do patrão EUA para traçar o caminho que o levará até a Ásia do século XXI.

Abe descreveu o relacionamento Japão-Índia como “o maior potencial de relações bilaterais que há em todo o mundo”. Pode-se inserir aqui uma ilustração que mostre a águia careca em prantos, porque é outra indicação de que a rejeição, pelo governo Abe, da “justiça do vitorioso” da 2ª Guerra Mundial não é só questão de enfurecer a China; é uma rejeição contra a tutela diplomática e de segurança dos EUA e um anúncio de que o Japão dará prioridade aos próprios interesses, em vez de sacrificá-los como leal aliado dos EUA.

A visita foi anotada por um especialista indiano que escreveu na Nikkei Asia Review e explicitamente argumentou a favor da aliança Índia-Japão para conter a China e, de fato, apresentou os laços de segurança como o fundamento mais estável para laços econômicos.

Como em:

Japão e Índia, aliados estratégicos naturais, localizados nos flancos opostos do continente, têm papel protagonista a desempenhar para garantir o equilíbrio regional de poder e salvaguardar águas vitalmente importantes na ampla região do Indo-Pacífico – portal essencial para o comércio e o fornecimento de energia globais. (...) A lógica para a cooperação estratégica não é menos determinante. Se China, Índia Japão são o triângulo escaleno da Ásia – com a China como o lado A, mais longo; a Índia como lado B; e o Japão como lado C – a soma de B + C sempre será maior que A. Não chega pois a surpreender que Japão e Índia busquem acrescentar conteúdo estratégico ao relacionamento entre ambos, que rapidamente se aprofunda. 
De fato, as parcerias econômicas mais estáveis do mundo, como a comunidade Atlântica e a parceria Japão-EUA, foram construídas sobre a base sólida da colaboração de segurança. Laços econômicos nos quais não haja esse substrato estratégico tendem a ser menos estáveis e até voláteis, como se vê aparente nas relações econômicas da China com Japão, Índia e com os EUA. 
A “entente” transformadora Índia-Japão promete modelar positivamente a dinâmica de poder na Ásia. [4]

Após o retorno de Abe para Tóquio, imediatamente vazou para a rede de notícias Kyodo que o Vice-Presidente Biden tentara, sem sucesso, persuadir Abe a não visitar o Santuário Yasukuni em dezembro.

É situação muito interessante, porque a versão anterior dessa história era que o Primeiro-Ministro Abe recebera mensagens conflitantes de um pacote misto de enviados informais japoneses a Washington, sobre a atitude oficial dos EUA em relação àquela visita.

Mas telefonema de uma hora de duração, do Vice-Presidente dos EUA, dizendo “Por favor, não vá” é mensagem bem clara; absolutamente sem ambiguidades.

E, deve-se acrescentar, que o Primeiro-Ministro Abe desconsiderar o telefonema de Biden e ir, mesmo assim, ao santuário de Yasukuni, também é mensagem bem clara de que ele não está comprando seja o que for que Biden esteja vendendo.

Como escreve a Agência France Press: "Mas a notícia de que intervenções pessoais de Joe Biden, que sempre manteve boas relações de trabalho com altos funcionários japoneses, foram rejeitadas será um embaraço para a Casa Branca."

É possível que Abe supusesse que mereceria ser conversado, nessa questão vital, pelo Presidente Obama em pessoa; e que tenha desconsiderado o pedido dos norte-americanos por pura birra; mas o mais provável é que tenha querido deixar claro que os EUA não receberão fidelidade automática do Japão em questões que Abe entenda que andem contra interesses japoneses.

Também é possível que Abe tenha querido enviar a mensagem de que governo dos EUA que não apoie completamente o gambito do Japão contra a China não é, de fato, verdadeiro aliado – nem é líder real da coalizão asiática.

Será interessante observar para ver se Abe e seus aliados veem o presidente Obama como “pato manco”, e passarão a criticar organizadamente sua estratégia chinesa – atacando o conveniente intermediário Joe Biden – enquanto esperam novo governo, mais militante, em 2016, seja sob o comando da timoneira-arquiteta do “pivô” e detonadora-mór da China, Hillary Clinton; seja um adequado governo Republicano anti-China.

Indicadores chaves da atitude do governo Abe podem incluir uma leva de colunas em jornais nos EUA que digam que o governo Obama está sendo excessivamente circunspecto no confronto com a China; e que reforcem a já rotineira crítica contra o Vice-Presidente Biden (descrito como peso excessivamente leve na política exterior, tema que voltou a aparecer na imprensa-empresa norte-americana, depois que a China, sem delongas, recusou vistos de entrada a dois correspondentes do New York Times designados para trabalhar em Pequim, apesar da empenhada campanha que Biden fez a favor dos dois junto à liderança chinesa).

Afirmação ainda mais clara de uma política japonesa independente nos anos finais do governo Obama seria qualquer tipo de contato unilateral com a Coreia do Norte, que quebraria a frente unida China-Coreia do Sul-EUA, que tem sido a pedra de toda das negociações atualmente em curso. O chefe de gabinete de Abe já foi convocado para negar matérias publicadas segundo as quais enviados japoneses já se teriam encontrado com enviados da Coreia do Norte (República Popular Democrática da Coreia, RPDC) em Hanói.

Além disso, o embaixador indiano em Pionguiangue e o regime da RPDC já se manifestaram, com excesso, muito suspeito, de manifestações de mútua consideração. Segundo a imprensa norte-coreana, o embaixador da Índia recepcionou na embaixada enviados da RPDC, ocasião em que declarou:

A Índia valoriza e estimula os laços de tradicional amizade com a Coreia do Norte, na esperança de que o país prospere e obtenha progresso dinâmico. 
Declarou também sobre o fato de os dois países, nações-membro do Movimento dos Não Alinhados, terem visões semelhantes sobre várias questões internacionais. 
Declarou esperar que as tensões se dissipem, e que a Coreia possa ser reunificada pacificamente mediante o diálogo – e que a Índia dará todo o apoio possível a esse movimento. 
[O embaixador da Índia em Pionguiangue] Disse que o povo indiano reverencia o Presidente Kim Il Sung e o líder Kim Jong Il, líderes eternos do povo coreano. E observou que o Marechal Kim Jong Un, líder supremo do povo coreano está acompanhando com profunda atenção o desenvolvimento de relações bilaterais amistosas; e manifestou a certeza de que, sob sua liderança sábia, a causa da construção de uma nação pujante na Coreia do Norte será bem-sucedida. [5]

De qualquer forma, devem esperar surpresas na evolução da postura do Japão sobre segurança “no futuro próximo”. E, em relação aos Estados Unidos, não assumir que todas as surpresas serão agradáveis.

Notas:


2. Elbridge Colby e Ely Ratner, Roiling the Waters, Foreign Policy, 21 de janeiro de 2014.

3. Abe's remarks on WWI parallels to be clarified, Japan Times, January 24, 2014.

4. Brahma Chellaney, Japan and India: a transformative entente, Nikkei Asian Review, 23 de janeiro de 2014.

5. Indian Ambassador Hosts Reception, Korean Central News Agency (KCNA), 23 de janeiro de 2014.

[*] Peter Lee é um jornalista estadunidense de origem chinesa que escreve sobre assuntos dos países do sul e leste da Ásia e a intersecção de negócios entre essa região e os Estados Unidos. Além de articulista de várias publicações mantem o blog China Matters.

29 de janeiro de 2014

OGM: a maior fraude alimentar

Vandana Shiva
The Asian Age

"Onde a mente é sem medo, e a cabeça é erguida
Onde o conhecimento é livre..."
Rabindranath Tagore

A liberdade de conhecimento é a liberdade de pensar livremente, sem a influência de interesses poderosos. É a liberdade de desenvolver a própria compreensão de uma realidade em evolução de modo a melhorar o bem estar de todos.

Nós, como sociedade, nos tornamos indiferentes quanto à poluição material — produzindo o crescimento de montanhas de lixo, rios poluídos, inclusive os sagrados Ganges e Yamuna que agora parecem “nalas” (esgotos), e o ar poluído que respiramos. Mas há uma poluição ainda mais séria e invisível — que afeta nossas mentes.

A intensificada brutalidade e a frequência da violência contra as mulheres é um sintoma; um estrelado Saifai Mahostav, enquanto as vítimas das rebeliões de Muzaffarnagar congelam na onda de frio, é outro sintoma.

De modo similar, a imposição de utilizar organismos geneticamente modificados está poluindo nossas sementes e nossos alimentos, nossa ciência e nossa democracia. A liberdade do conhecimento e a soberania do conhecimento está ameaçada pelos OGMs em múltiplos níveis. Primeiro, o conhecimento é “livre”, quando pode ser compartilhado livremente, quando o o conhecimento é um bem intelectual comum.

Os OGMs têm sido utilizados para privatizar o conhecimento e as sementes através dos Direitos de Propriedade Intelectual (Intellectual Property Rights, ou IPR), o que inclui patentes e copyrights. Se por um lado isso está impedindo a pesquisa pública relativa à melhoria no cultivo das plantas, por outro lado nega aos agricultores o direito de conservar sementes e compartilhar conhecimento e de continuar o processo de evolução da semente. Os IPR também negam a inovação coletiva e cumulativa das culturas indígenas e promovem a biopirataria. Por exemplo, vejamos o caso da patente do nim, concedida pelo Departamento de Agricultura dos Estado Unidos à multinacional WR Grace. A Índia ganhou a batalha que durou 10 anos junto ao Instituto Europeu de Patentes (European Patent Office, ou EPO) contra a patente concedida para um produto antifúngico derivado do nim. O EPO tinha concedido a patente ao Departamento de Agricultura dos Estados Unidos e à WR Grace em 1995, mas o governo da Índia argumentou com êxito que a planta medicinal do nim é parte do conhecimento tradicional indiano.

Segundo, o paradigma do reducionismo genético e determinismo genético (a crença de que os genes, em certas condições ambientais determinam os fenótipos morfológicos e comportamentais) — nos quais se baseia a engenharia genética — é uma violação da soberania do conhecimento. É um modelo artificial de como a vida funciona, pressupondo que os genes são “moléculas dominantes”, dando direção ao RNA (ácido ribonucleico) e às proteínas. Nas palavras da geneticista Dr. Mae Wan Ho: “Em vez do fluxo de informação linear e unidirecional estipulado pelo dogma central, do DNA ao RNA e às proteínas e à função biológica ‘de cima para baixo’, há uma intricada ‘conversa cruzada’ entre o organismo e o seu meio-ambiente, em todos os níveis, com ciclos de ‘feed-forward’ (alimentação para frente) e feedback (retroalimentação) nas redes epigenéticas e metabólicas das interações moleculares que marcam e modificam os genes, enquanto o organismo continua com sua função de vida... O organismo está fazendo sua própria modificação genética com grande fineza, uma dança molecular da vida que é necessária à sobrevivência. Infelizmente, os engenheiros genéticos não conhecem os passos ou o ritmo e a música da dança”.

A soberania do conhecimento na ciência da vida vai passo a passo com a consciência da soberania e a auto-organização dos sistemas vivos, das células até os organismos, aos ecossistemas, ao planeta vivo.

A terceira violação contra a soberania do conhecimento é o ataque contra os cientistas independentes que empreendem pesquisas e investigações científicas independentemente dos interesses corporativos.

O primeiro exemplo de um cientista que foi atacado foi o Dr. Arpad Putzai, bioquímico e nutricionista húngaro que foi solicitado pelo governo do Reino Unido para estudar a segurança dos OGMs. Em 1998, o Dr. Pusztai anunciou que os resultados de sua pesquisa mostraram que alimentar ratos com batatas geneticamente modificadas tinha um efeito negativo no revestimento de seu estômago e no sistema imunitário. Apesar de ser um especialista de fama internacional em lectinas vegetais, sendo o autor de 270 artigos especializados e três livros sobre o assunto, ele foi removido de seu laboratório no Rowett Research Institute, em Aberdeen, Escócia, onde tinha dedicado 36 anos. Foi-lhe imposta uma ordem de silêncio, impedindo-o de falar de seus resultados. Mais recentemente, em 2012, foi publicado um artigo no the Journal of Food and Chemical Toxicology pelo Dr. Seralini, da França, o qual tinha conduzido um estudo durante dois anos sobre a segurança dos OGMs. Quando foi pedido que a publicação retirasse o artigo, os editores recusaram, afirmando que o artigo tinha sido revisto por colegas especializados e avaliado. Daí a Monsanto indicou seu próprio editor de biotecnologia, o Dr. Goodman, que fez retirar o artigo.

Na Índia, dois ministros para o meio-ambiente que tentaram prosseguir com o trabalho de biossegurança, conforme sacramentado nas Regras para Organismos Geneticamente Modificados (Rules for Genetically Engineered Organisms) estipuladas pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (US Environmental Protection Agency), foram sacrificados para tentar abrir caminho aos OGMs. O novo ministro para o meio-ambiente da Índia, Veerappa Moily, indicou que procurará derrubar o impedimento de cultivo de OGM instituído por seus predecessores.

Espera-se que o apoio do Sr. Moily abrirá o caminho para que o governo submeta uma declaração junto à Corte Suprema de Justiça, consentindo testes no campo de alimentos GM numa base condicional. Essa é uma tentativa de subverter a comissão de especialistas técnicos, estabelecida pela Corte Suprema, a qual solicitou uma moratória sobre os testes de campo de 10 anos, até que seja criada uma robusta infraestrutura de biossegurança para a avaliação e a regulamentação. Há também uma tentativa de substituir as regras do EPA com desregulamentação e aprovação rápida para os OGMs, através da criação de uma Lei para a Entidade Reguladora de Biotecnologia (Biotechnology Regulatory Authority Act).

A quarta violação da liberdade do conhecimento e soberania do conhecimento é impedir a evolução do conhecimento público sobre como funciona a vida, como podemos produzir alimentos em maior quantidade e de melhor qualidade ecologicamente, o que é feito por meio do controle de publicações científicas assim como da mídia, de modo a promover um paradigma obsoleto de reducionismo genético e ciência mecanicista, e de se fazer falsas declarações de supostos milagres da engenharia genética.

Há uma adequada evidência de que os OGMs não aumentam a produção e não tratam da fome. Os “milagres” de biofortificação através da engenharia genética, como o do Golden Rice (arroz dourado) por remover a deficiência em vitamina A, e a banana GM por remover a deficiência em ferro, são menos evidentes do que as alternativas disponíveis pelo conhecimento e biodiversidade indígenas. Além disso, ao invés de controlar pragas e ervas daninhas, os OGMs levaram ao aparecimento de superpragas e de ervas super daninhas. O imperador dos OGMs está nu, mas a influência do setor da biotecnologia sobre a ciência, a mídia e as políticas públicas afetou todos aqueles cujas mentes estão submetidas, enquanto aplaudem esperando que novas roupas sejam dadas ao imperador.

A quinta violação da liberdade do conhecimento nega aos cidadãos seu direito de saber o que estão comendo. O setor de biotecnologia e alimentar gastou 40 milhões de dólares para influenciar e minar as iniciativas a favor de etiquetagem nos estados da Califórnia e Washington, e esse é um exemplo de poluição do conhecimento que erode a democracia alimentar.

A ironia é que os OGMs estão sendo promovidos em nome da ciência, enquanto ciência e conhecimento estão sendo sacrificados diariamente em nome de mentiras para alimentar a máquina de ganância e não as pessoas. Sem soberania do conhecimento não há soberania alimentar. Sem liberdade de conhecimento não há nem liberdade nem democracia.

Vandana Shiva é uma feminista e ativista ambiental da Índia. Ela é a fundadora e diretora do Navdanya Research Foundation for Science, Technology, and Ecology.

28 de janeiro de 2014

O mito do republicano moderado

O colapso do republicanismo liberal não surgiu a partir de uma certa perda de decência em uma época de polarização, mas a partir da transformação da luta de classes na América.

Kristoffer Smemo


Gov. de Michigan George Romney e seu filho, Mitt, olhando para o recinto da Feira Mundial de Nova Iorque em Maio de 1964. Fonte: AP

Tradução / A ascensão do Tea Party tem gerado uma poderosa nostalgia entre os liberais por uma geração de republicanos "sãos" e "razoáveis". Era uma vez, e assim o conto vai, esta raça de moderados estava disposta a fazer concessões, para acomodar muitas das reformas básicas do New Deal.

Essa narrativa nostálgica de republicanismo moderado venera um momento político cujo mais claro exemplo é o governo de Dwight Eisenhower, que disse, em carta frequentemente citada ao seu irmão direitista, Edgar, que qualquer republicano que "tentasse abolir a segurança social, o seguro-desemprego e pusesse fim às leis trabalhistas e aos programas de agricultura familiar" seria aniquilado nas eleições.

A acomodação emburrada de Eisenhower ao estado do bem-estar representou uma concessão tática a alguns específicos elementos da ordem política despertados pelas reformas do New Deal. Mas outro conjunto de republicanos – que emergiram pela primeira vez nos anos 1930 e 1940 nos níveis local e dos estados por toda a área urbano-industrial, no nordeste, no meio-oeste e na costa oeste dos EUA, locais onde a população trabalhadora mobilizara-se mais efetivamente sob os auspícios do New Deal – foi adiante. Esses republicanos, autoidentificados "republicanos liberais", fizeram concessões muito maiores, concessões estratégicas.

Essas concessões brotaram de um entendimento segundo o qual mobilizações de massa do povo trabalhador haviam criado um mundo no qual o New Deal estaria permanentemente integrado na paisagem política. Esses Republicanos liberais, de fato, tomaram a retórica e as instituições do próprio New Deal para forjar uma nova política conservadora, capaz de reprimir e de conter a constelação ascendente dos movimentos trabalhistas e de defesa de direitos civis.

Em muitos sentidos, foi o entrincheiramento defensivo da política do New Deal consumado por esses republicanos – muito mais, até, que a adesão proativa de seus contrapartes liberais democratas – que cimentou a hegemonia do liberalismo do meio do século. Sobretudo, foi o empoderamento político e econômico dos trabalhadores do chão de fábrica, que ativamente fizeram um novo pacto [New Deal], que fez nascer a notável habilidade daquele governo para transformar a paisagem política.

Embora projetado para priorizar a recuperação econômica capitalista, e eivado de exclusões discriminatórias, a legislação do New Deal, como as leis Wagner, da Seguridade Social e dos Padrões Justos de Trabalho, mesmo assim essas leis forçaram Republicanos e Democratas a se entender, fosse como fosse, com uma noção mais capacitante de "direitos civis" – noção que se ampliou, do direito do trabalho, diretamente para organizar na direção da igualdade racial e de gênero.

A avançada da militância trabalhista, para não falar das grandes migrações rumo às cidades norte-americanas, dividiram claramente o Partido Republicano entre representantes de distritos rurais e profundamente ansiosos ante o avanço da mudança social, e políticos urbanos, desesperados para preservar a própria relevância e viabilidade eleitoral, no meio do que Samuel Lubell chamou de "a revolta da cidade".

Um segmento significativo do Partido Republicano efetivamente se "New Dealizou" em um esforço para se adaptar a essas insurgências. New Dealizados ou Republicanos liberais não só reconheceram a legitimidade dos sindicatos; eles também cederam à pressão organizada para identificar a pobreza, a segregação e a discriminação no trabalho como problemas sociais que exigem a intervenção do governo. Bem como os seus antepassados Progressistas, os republicanos New Dealizados reconheceram que a produção em massa e a sociedade de consumo de massa só poderia ser governado por um estado expansivo.

Em termos bem claros, esses Republicanos liberais que primeiro chegaram a ter proeminência nacional nos anos 1940 e 1950 – como o governador de New York e duas vezes candidato à presidência Thomas Dewey; o governador da Califórnia e Juiz da Suprema Corte Earl Warren; o ex-executivo da indústria automobilística e governador de Michigan George Romney; e o herdeiro (e também ele) barão-ladrão e governador de New York Nelson Rockefeller – todos esses lutaram com unhas e dentes contra as possibilidades social-democrtas que o New Deal despertara e conjurara. Mas cada um desses fez uma imensa concessão estratégica, e todos assumiram que o New Deal permaneceria como realidade política.

Instituições como a Comissão Nacional de Relações Trabalhistas, ou a Administração da Seguridade Social serviram como alicerces para a estabilidade social, mas tiveram de ser despolitizadas e isoladas da pressão de baixo para cima, para assim preservarem as hierarquias profundamente entrincheiradas na sociedade norte-americana. Assim, o Republicanismo 'New Deal-izado' incorporou a luta entre reformadores que queriam remodelar a sociedade norte-americana e conservadores que lutavam para retardar as transformações sociais forjadas pela Grande Depressão, II Guerra Mundial e a distribuição profundamente desigual da riqueza do pós-guerra.

Para diferenciar os republicanos liberais e seus rivais conservadores da "Velha Guarda", como Robert Taft de Ohio, é preciso distinguir entre o campo da política eleitoral e a política legislativa. No momento crucial, no final dos anos 1940 quando a social-democracia norte-americana do pós-guerra ainda era uma (evanescente) possibilidade, Taft era um político com ambições presidenciais e, o mais importante de tudo, era um político que precisava ser reeleito senador. Havia co-patrocinado a legislação sobre moradias públicas do pós-guerra, ao lado do leão liberal Robert Wagner de New York, e depois de tremenda mobilização sindical contra seu projeto de reforma da legislação trabalhista, ele suavizara a própria posição sobre o trabalho organizado e estava à caça dos votos da classe trabalhadora no estado de Ohio, em campanha para a reeleição em 1950.

Diferente do troglodita, odiador-de-sindicalistas e Republicano conservador de New Jersey Fred Hartley Jr., Taft precisava de votos em todos o estados, não só num único distrito conservador. Como Corey Robin argumentou recentemente (e corretamente), Taft, anticomunista, antisindicalista, anti-New-Deal, não pode ser reabilitado hoje como alguma espécie de ícone da moderação; defini-lo como líder dos Republicanos de direita significa reconhecer as concessões táticas parceladas que Taft teve de fazer, sob as circunstâncias de um movimento trabalhista ainda potente. Como Eisenhower (e mais tarde Nixon), as concessões táticas que Taft teve de fazer só reconheceram o poder imediato e a popularidade da ordem do New Deal, não a sua legitimidade a longo prazo.

Republicanos realmente liberais registraram seu máximo impacto no plano estadual, ao assumir a durabilidade do New Deal como ordem política. Embora as eleições de 1936 sejam lembradas como o início de um regime federal de Democratas-pró-New Deal, apenas dois anos depois os Republicanos tiveram sua reestreia, que foi ganhando gás, estado após estado, e assim persistiu pelas duas décadas seguintes. Na eleição de 1944, 26 estados e 70% da população do país elegeram governadores Republicanos. Em estados como Califórnia, Michigan e New York, Republicanos New-Deal-izados pela primeira vez chegaram ao governo, capitalizando elementos da reforma do New Deal, ao mesmo tempo em que criticavam furiosamente a política de classe do mesmo New Deal.

Harold Stassen de Minnesota e Earl Warren ambos conseguiram ser eleitos defendendo resolutamente as virtudes da "livre" negociação coletiva, para minimizar o envolvimento coercitivo e desequilibrador dos governos, nas relações de trabalho. Warren opôs-se firmemente a leis antissindicais de direito ao trabalho, e até convenceu empresas fabricantes de aviões do sul da Califórnia e furiosamente conservadoras a retirar o apoio que estavam dando a um projeto de lei, de 1944, que proibia as closed shop, argumentando que esses ataques só faziam energizar o movimento operário.

George Romney, que denunciou Walter Reuther como "o homem mais perigoso em Detroit" durante a onda de greves 1945-46, também lutou para manter um sindicalismo aceitável para a comunidade empresarial, desconfiada depois de décadas de conflito no chão de fábrica. Como presidente da American Motors, lutou para tornar rotineira a livre negociação, e pregava que se limitasse a 10 mil o número de membros por sindicato. Esses esforços contribuíram para que os sindicatos acabassem cercados, como num gueto, naquele regime de relações trabalhistas privadas que reafirmava o tremendo poder de classe do capital sobre os trabalhadores.

A luta contra a militância favorável ao trabalho, nas indústrias, levou Republicanos New Deal-izados a forjar alianças com os segmentos mais elitizados da classe trabalhadora nos EUA. Enquanto o chão de fábrica de corporações gigantescas como a General Motors tornava-se ninho para a "cultura da unidade" proletária dos sindicatos reunidos no Congress of Industrial Organizations (CIO), os sindicatos reunidos na American Federation of Labor (AFL) da economia socialmente homogênea de trabalhadores especializados, brancos e do sexo masculino, representavam um mundo muito menos interessado no potencial igualitarista do New Deal.

A ravina cultural e ideológica que separava a massa de trabalhadores não especializados e diversos, e a "aristocracia do trabalho" dos tipicamente "velha guarda", do sexo masculino e nascidos nos EUA, criava um eleitorado ansioso para preservar seu lugar privilegiado num mercado de trabalho altamente estratificado e ansioso por mais e mais alianças. (O fato de os sindicatos ligados à AFL, caminhoneiros e empregados da construção civil, dentre outras categorias, tenham crescido duas vezes mais depressa que os sindicatos ligados ao CIO entre 1937 e 1945 só tornou mais atrativos os sindicatos organizados por categoria.)

Republicanos New Deal-izados viram nos sindicatos organizados por categoria uma classe trabalhadora fracionada, capaz de neutralizar a influência do CIO, de tendência esquerdizante; e de dividir a base laboral da tão alardeada coalizão do New Deal. Assim, o governador da California durante a guerra Earl Warren contava, como importantes aliados, com os Teamsters (então engajados numa feroz disputa por jurisdição contra o [sindicato] International Longshore and Warehouse Union ligado aos comunistas). Em Minnesota, o governador Harold Stassen e os Republicanos que o seguiram nos anos 1940s e ’50s indicaram sindicalistas de sindicatos de categorias para administrar a burocracia de mediação do trabalho estabelecida para paralisar o poderoso sindicato local dos Teamsters, liderado por trotskistas.

A posição dos Republicanos New-Deal-izados sobre discriminação no trabalho, a principal questão de direitos civis naquele momento, também cresceu a partir de um esforço para conter ou esterilizar qualquer oposição. Contra ativistas sindicalizados a favor de direitos civis, que reivindicavam a criação de uma agência institucionalmente forte, nos moldes da [comissão] National Labor Relations Board, competente para fazer frente à discriminação racial sistemática, os Republicanos aprovaram comissões fracas, sem poder algum, apenas 'investigativas' e para educação pública, e deixaram os serviços de processar e condenar para cortes judiciais, que avaliariam os confrontos, caso a caso.

Em New York, Thomas Dewey hasteou a bandeira do Partido de Lincoln sob intensa pressão da Frente Popular Negra da Cidade de New York [New York City’s Black Popular Front] e implantou no estado uma Comissão para Práticas de Emprego Justo [Fair Employment Practices Commission (FEPC)], que se basearia no que o sociólogo Anthony Chen descreve como "modelo de regulação social individualizado e indiferente à cor". Em Michigan, no final dos anos 1940 e início dos 1950, um bloco minoritário de Republicanos liberais, na luta para ultrapassar os rivais conservadores, construiu alianças cautelosas e frágeis com Democratas trabalhistas liberais, próximos da União dos Trabalhadores na Indústria Automobilística [United Auto Workers] para tentar aprovar (sem sucesso) a legislação da Comissão para Práticas de Emprego Justo.

Mais recentemente, nos anos 1960, George Romney foi presidente da primeira Comissão para Práticas de Emprego Justo estadual, mas, como no modelo que Dewey apoiara, lhe faltavam poderes efetivamente capacitantes; a Comissão sofreu de falta crônica de funcionários e de fundos, e os trabalhadores relatavam que preencher uma queixa gerava mais problemas do que ajudava a solucionar.

O governador Earl Warren também jogou com os direitos civis, mas mais como meio para esvaziar o que ele via como subversão "comunista" entre as minorias raciais. Na verdade, a mais bem conhecida opinião de Warren para a Suprema Corte, em Brown v. Board of Education, que sancionou um processo hesitante, em etapas, para a de-segregação racial das escolas, emergiu, funcionalmente, como gesto simbólico não concebido para desmontar as hierarquias racistas da sociedade norte-americana.

Nos últimos anos da década de 1960, contudo, Republicanos New Deal-izados descobriram que sua versão de moderação acabara sem eleitores. O Movimento dos Direitos Civis tornara-se cada vez mais militante, a Guerra do Vietnã desacreditara o internacionalismo da política exterior bipartidária e grande parte do movimento trabalhista acabara presa no tipo de negociação coletiva muito estreitamente concebida pela qual os Republicanos liberais tanto lutaram. Assim se abriu uma via para uma direita Republicana armada com livre mercado obrigatório, nada de sindicatos e nada de governo que oferecesse alguma moderação ou acomodação.

A fracassada campanha de Barry Goldwater em 1964 e a eleição de Richard Nixon quatro anos depois puseram fim às aspirações presidenciais dos Republicanos Romney e Rockefeller – o que evidenciou a vulnerabilidade eleitoral da posição dos Republicanos New Deal-izados. O viés "lei e ordem" da campanha de Nixon, por exemplo, empurrou Rockefeller a ordenar que policiais do estado de New York abrissem fogo no pátio da prisão de Attica e a aprovar leis antidrogas draconianas. Enquanto isso, o esforço de Nixon para construir uma "Nova Maioria" com a classe trabalhadora tinha raízes profundas em estratégias muito anteriores, entre os Republicanos New Deal-izados, para fraturar a nascente coalizão do New Deal.

Mas a destruição provocada pela fuga de capitais continuou a devorar a economia política sindicalizada do Nordeste e Meio-oeste do país, desestabilizando a base eleitoral, não só do trabalhismo liberal dos Democratas, mas também de um Republicanismo liberal baseado numa détente política com a classe trabalhadora organizada. As oportunidades econômicas e políticas que o conservadorismo do "Cinturão do Sol" criou finalmente capacitaram o Partido Republicano a abandonar de vez qualquer apoio a impostos, taxas, regulações e relações trabalhistas de cunho industrial antigo, em meio às crises dos anos 1970.

As lições têm dois aspectos. Primeiro, mesmo quando enfrentaram o novo consenso por trás da reforma social patrocinada pelo estado, os Republicanos New Deal-izados propuseram-se muito precisamente a restringir aquelas forças – um amálgama poderoso de classe trabalhadora e ativismo pró-direitos civis – que haviam sido empoderadas pelas políticas e ideologias igualitárias do New Deal.

Em segundo lugar, e mais importante: se há algo a considerar com nostalgia na política de meados do século, não é alguma ausência, ou alguma falta que façam Republicanos cujo conservadorismo foi temperado com mínimas pitadas de racionalidade e compaixão. É o fato notável de que a classe operária, quando organizada, tem o poder de remodelar até os setores mais reacionários da política americana.

27 de janeiro de 2014

Luta de classes no coração dos tigres asiáticos

Ásia. Como é o continente asiático do ponto de vista dos conflitos e lutas dos trabalhadores?

Simone Pieranni

Il Manifesto

Vietnã, Camboja, Indonésia, Coreia do Sul, Hong Kong, Mianmar, Bangladesh, Índia e, naturalmente, China: o que une esses países asiáticos no período entre o fim de 2013 e o início de 2014? Alguns fatores econômicos, certamente, mas sobretudo um elemento socioeconômico: as lutas de trabalhadoras e trabalhadores. Tratam-se de batalhas diversas, com desdobramentos e dinâmicas diferentes, mas que insistem em uma única diretriz: a melhoria das condições econômicas, a exigência dos direitos sindicais, o aumento dos salários e uma profunda crítica das condições de trabalho. No âmago dessas lutas se encerram também alguns elementos da economia globalizada: produções a baixo custo que sustentam economias inteiras, terceirização e produção para grandes marcas, tudo isso unido a um modelo de “fábrica do mundo” que limita as possibilidades de inovação sob o verniz da exportação, negócio seguro e requisitado pelas grandes marcas internacionais. E o campo onde isso tudo se desenrola é a Ásia, continente com conflitos vários e enormes diferenças políticas internas e frequentemente distante das bússolas da atenção midiática.

Em certo momento alguns desses países, como Hong Kong, Taiwan e a Coreia do Sul, foram denominados “tigres asiáticos”: nações integradas ao núcleo mais duro do capitalismo, capazes de exaltar e reunir o consenso dos mais notáveis expoentes do liberalismo mundial. A conclusão sempre foi a mesma: as contradições do liberalismo recaem sobre os direitos das pessoas e sobre a total ausência de tutelas sociais, provocando também empecilhos de natureza puramente econômica, financeira, fiscal, retributiva, inflacionária ou ambiental. O sistema não se sustenta. Mas sempre haverá – pelo menos é o que muitos esperam – uma zona franca na qual cravar fábricas com facilidades fiscais e empregar a dois centavos centenas de trabalhadoras e trabalhadores a serem enfiados em galpões, lá onde a vida dedicada ao trabalho e aquela “normal” se sobrepõem até a completa anulação dessa última.

A crise ocidental agravou ainda mais essa situação, pelo menos nos países que fizeram da exportação o próprio modelo produtivo. Sob essa colcha de exigências econômicas globais, capazes de criar estranhas alianças entre capital e regimes políticos discutíveis, escondem-se as armadilhas, constituídas por novas classes de trabalhadoras e trabalhadores que além de salários maiores pedem também direitos trabalhistas. É uma batalha que certamente não começou hoje, mas que na Ásia abriu uma nova fase de lutas sociais de natureza histórica.

A ex-fábrica do mundo

Os últimos anos na China puderam testemunhar as novas batalhas dos chamados “novos trabalhadores chineses”: jovens, em muitos casos possuidores de diploma universitário (no último ano, a China formou o número recorde de 7,5 milhões de graduados) e que se encontram nas cadeias de montagem de fábricas que produzem bens de consumo tecnológicos, tablets e smartphones, e que ao contrário de seus pais, que teriam aceitado qualquer condição de trabalho com o objetivo de sair da pobreza, são combativos e capazes de se mobilizar, desfrutando justamente os produtos de cuja fabricação participam.

Nokia, Apple e tantos outros produtores de eletrônicos viram seus estabelecimentos sacudidos por greves e protestos, enquanto Pequim e o governo chinês pressionaram não pouco por aumentos salariais, até porque a estratégia da nova liderança chinesa é de fato abandonar gradualmente a produção a baixo custo, em nome da inovação e do mercado interno.

Essa mudança na orientação do governo chinês significa consentir às trabalhadoras e aos trabalhadores a possibilidade de gastar menos por serviços sociais, nos quais estão sendo testados modelos baseados na experiência norte-americana, e consumir mais os produtos do mercado nacional, aliviando-as também dos custos sociais determinados pela existência do “hukou”, a licença de residência que fixa o acesso a programas sociais ao local de proveniência da trabalhadora ou do trabalhador.

Significa também redistribuição e melhorias na qualidade de vida, mesmo em face de um envelhecimento da população que cria impensáveis lacunas na disponibilidade de mão de obra nos pulmões produtivos da exportação chinesa. A China mesma atualmente terceiriza a produção, e busca novas trabalhadoras e trabalhadores para a produção a baixo custo – que certamente não pretende desmantelar por completo. Aliás, algumas empresas têm se desdobrado para manter a atual força de trabalho.

Como lembrou o Financial Times, “muitas fábricas em todo o delta do rio das Pérolas, a ‘fábrica do mundo’ na província de Guangdong, estão buscando maneiras de não perder a mão de obra empregada. Essa necessidade tem se tornado cada vez mais premente visto que as mudanças demográficas – especialmente a política do filho único e o estímulo do governo à criação de postos de trabalho nas províncias do interior – fizeram com que a contratação de pessoal se tornasse uma tarefa cada vez mais difícil”.

Vietnã, Indonésia e Mianmar

Assim como no gigante asiático – atualmente a segunda maior potência econômica mundial – tantas outras marcas estrangeiras encontram nos países vizinhos força de trabalho a baixo custo, além de contextos inicialmente pouco hostis. Mas os confrontos e os protestos são cada vez mais frequentes. No Vietnã, no início de janeiro, 11 pessoas ficaram feridas em confrontos entre trabalhadoras e trabalhadores e oficiais de segurança de uma fábrica da coreana Samsung. As motivações nasceram em um bate-boca entre guardas e trabalhadores e foram parar em reivindicações de melhores condições de trabalho.

A dinâmica vietnamita, porém, apresenta muitos pontos de contato com outros países da área: as empresas estrangeiras gozam de facilidades fiscais para estabelecerem-se em determinadas áreas, talvez pouco desenvolvidas ou mal aproveitadas pelos mecanismos de produção, e acabam criando cidades-fábrica, fazendo uso de salários baixíssimos. Em dezembro de 2013, 130 trabalhadoras e trabalhadores da Thazin Biscuit Factory, na zona industrial de Pyi­gy­i­da­gun em Mandalay, Mianmar, voltaram a protestar na porta da fábrica depois de um acordo prévio sobre o pagamento de horas-extras ter sido cancelado. O Departamento do Trabalho chegou a prometer considerar as exigências das trabalhadoras e trabalhadores por uma melhor retribuição das horas-extras e do trabalho em feriados nacionais e aos domingos, mas nada parece ter se movido desde então.

Ou ainda na Indonésia: segundo o “Global Voices”, em novembro de 2013 “as organizações de trabalhadores anunciaram greve geral por dois dias para exigir que o governo aumentasse o salário mínimo para US$ 334 ao mês. Segundo os organizadores, dois milhões de trabalhadoras e trabalhadores em 20 províncias cruzaram os braços. Uma série de protestos foi organizada em todo o país para chamar a atenção para a greve geral realizada nos dias 31 de outubro e 1º de novembro, com o fechamento das fábricas e manifestações para convencer outras pessoas a aderirem à greve. No dia 21 de outubro, os sindicatos conseguiram reunir 20 mil trabalhadoras e trabalhadores para abrir uma mesa de diálogo nacional”. Além do aumento dos salários, trabalhadoras e trabalhadores avançaram em outras exigências: aumento de 50% do salário mínimo, plano de saúde para todos, proibição da terceirização e abolição da lei antissindical.

26 de janeiro de 2014

As três principais mentiras da imprensa sobre as negociações de paz com a Síria

Por Shamus Cooke [*]


Créditos: Narciso Contreras/AP.

A máquina de mentiras da mídia está novamente girando em alta rotação, perfeitamente programada para acompanhar as negociações de paz para a Síria de “Genebra 2”. As mentiras são necessárias para garantir que o governo Obama continue a jogar com as cartas que esconde na manga, nas  negociações, as quais não estão sendo conduzidas para gerar paz alguma, mas, isso sim, para que levem ao sucesso o plano de “mudança de regime” do governo Obama para a Síria. Aqui, listo as três principais mentiras que se espalham pelo mundo graças à contribuição da imprensa ocidental e de seus jornalistas e “especialistas” empregados, sobre as conversações de “Genebra 2”.

1) A saída do presidente Bashar al-Assad do governo sírio teria sido “precondição” discutida e aprovada em Genebra 1, para Genebra 2.

Essa mentira tem sido repetida pelo governo Obama e pelos veículos da imprensa ocidental. Não tem fundamento. O governo Obama inventou que essa “precondição” teria sido registrada no “Comunicado de Genebra”, que foi um mapa do caminho redigido para orientar as conversações de paz de Genebra 2, discutido e aceito por alguns dos principais envolvidos nas negociações, inclusive pela Rússia.

O Comunicado fala, sim, de uma transição política negociada, mas NÃO diz, em lugar algum, que essa transição não poderia incluir o presidente Assad (e qualquer cláusula dessa natureza teria sido imediatamente rejeitada pela Rússia).

A verdade é que o Comunicado de Genebra inclui a seguinte cláusula:

“[um governo de transição] poderá incluir membros do atual governo sírio e da oposição, além de outros grupos; e terá de ser constituído por consentimento mútuo”.

Nada, em local algum daquele documento, menciona ou implica diretamente o presidente Assad.

Recentemente, o Los Angeles Times pisou fora da linha e expôs, clara e completamente a mentira:

“[John] Kerry tem citado repetidas vezes o “Comunicado de Genebra”, espécie de mapa do caminho redigido em junho de 2012, durante reunião organizada pela ONU. Mas esse documento absolutamente não exige a saída de Assad”.

A incansável repetição dessa mentira, pelo governo Obama, só provoca divisões e dificuldades para o processo de paz, enquanto vai minando qualquer chance de alcançar-se alguma paz.

O governo Obama tem batido o pé a respeito dessa pré-condição “Assad tem de sair”, porque sabe que, em eleições limpas, livres e justas que se disputem na Síria – como parte de um “processo transicional” apoiado pela ONU – o presidente Assad será, praticamente com certeza, reeleito. Esse é o resultado da união de várias minorias étnicas e religiosas sírias no apoio ao presidente, apoio cada vez mais assumido e declarado, desde que começaram a testemunhar as atrocidades sectárias diárias cometidas por “rebeldes” apoiados pelos EUA (atrocidades que a imprensa-empresa dos EUA existe para fazer ignorar e impedir de ver).

Assad provavelmente será eleito, se houver eleições, dado que simplesmente não há qualquer outro nome, no governo ou na oposição, que se compare a ele no reconhecimento que merece dos sírios e na popularidade. Os “rebeldes” apoiados pelos EUA que estão fazendo guerra contra a Síria fortaleceram a imagem política do presidente Assad – mas essa é informação que ninguém jamais obterá da imprensa-empresa ocidental, monoliticamente contra os sírios.

“Exigir” a saída de Assad tampouco tem qualquer sentido, se se considera a situação em campo. Os “rebeldes” apoiados pelos EUA jamais conseguiram controlar mais que uma única cidade síria, de nome Raqaa, a qual é dominada pela al-Qaeda e governada sob uma interpretação à moda dos Talibã da lei islâmica, e que inclui, dentre outros, o banimento de qualquer tipo de música. Os “rebeldes” não têm poder em campo que os autorize a exigir seja o que for, muito menos que “Assad tem de sair”.

2) As milícias “rebeldes” apoiadas pelos EUA seriam grupos terroristas islamistas “moderados”.

O simples fato de alguém dizer publicamente tal absurdo, sem provocar gargalhadas, é prova do grande sucesso da propaganda que se faz pela empresa-imprensa jornalística ocidental. A narrativa jornalística ocidental pinta os rebeldes financiados pelos EUA como “bons”, em luta contra, ao mesmo tempo, o governo sírio e os “maus” rebeldes associados à al-Qaeda.

Mas os tais “bons” terroristas que integram a Frente Islâmica apoiada pelos EUA partilham a mesma visão quanto ao futuro da Síria que os rebeldes da al-Qaeda: todos defendem uma versão fundamentalista da lei da Xaria, segundo a qual as mulheres vivem praticamente em prisão domiciliar e minorias religiosas são cidadãos de segunda classe (grupos muçulmanos não sunitas seriam massacrados na Síria, como já estão sendo, nas áreas das quais o governo sírio ainda não conseguiu varrer os terroristas – mais um fato minimizado ou apagado do noticiário pela imprensa-empresa jornalística ocidental).

A mentira sobre os “rebeldes moderados” foi também exposta recentemente, quando um alto comandante da mais poderosa das milícias em guerra contra o governo sírio, o grupo Ahrar al Sham, integrante da Frente Islamista e apoiado pelos EUA, declarou que seu grupo é o único “verdadeiro” representante da al-Qaeda na Síria.

O grupo Ahrar al Sham é conhecido há muito tempo como grupo extremista terrorista do tipo al-Qaeda; a imprensa-empresa jornalística ocidental simplesmente apagou essa informação. Mas quando essa associação foi divulgada e “oficializada”, os jornais, televisões e jornalistas norte-americanos optaram por ignorar a evidência, porque noticiar o fato destruiria a mentira sobre “terroristas moderados”. Jornais, televisões e jornalistas ocidentais também continuaram a ignorar o fato de que a Frente Islâmica “moderada” apoiada pelos EUA lançou, ela própria, um manifesto no qual se filia às ideias extremistas do grupo Ahrar al Sham, a al-Qaeda “autêntica”.

3) Haveria novas provas de que o governo sírio pratica tortura “em escala industrial”.

Recentemente, a empresa-imprensa ocidental apareceu com “plantão de notícias” no qual se “informava” sobre novas provas que mostrariam “tortura e assassinatos em massa ao estilo nazista”, pelo governo sírio, matéria divulgada exatamente no início das negociaçõess de paz de Genebra 2. Não se sabe se o governo sírio mata ou não mata. E continua-se sem saber depois do “noticiário”, porque não há ali sequer uma prova válida de coisa alguma. A mentira, nesse caso, é que o “jornalismo” ocidental apresentou como verdade indiscutível o que nada assegura que não seja, do começo ao fim, só mentiras.

Tudo o que realmente sabemos é que existem centenas de fotos de pessoas mortas que alguma “fonte confiável” diz que foram mortas pelo governo sírio. A tal fonte confiável sempre é assim qualificada por intelectuais pró-ocidente que conquistaram “credibilidade” midiática porque ajudaram a condenar criminosos de guerra na Corte Internacional Criminal [orig. International Criminal Court (ICC)]. Mas, como escreveu Diane Johnstone em seu excelente livro Fools Crusade, sobre a guerra contra a Iugoslávia – e também em vários artigos – a Corte Internacional Criminal tem sido, há muito tempo, usada como ferramenta das potências ocidentais para criar pretexto para uma ou outra guerra, ou como ferramenta para justificar uma guerra, depois do fato.

As evidencias da atrocidade “nazista” foram escritas em estudo pago pelo governo do Qatar, o qual há muito tempo mobiliza dinheiro, armas, jihadistas para ajudar os rebeldes anti-Assad na Síria.

Mais uma vez, não se pode saber se a história é verdadeira ou falsa. Mas investigação dessa magnitude e importância teria de ser feita pela ONU ou por outra instituição mais respeitável [que um escritório privado de advocacia]. A mesma dinâmica enviesada viu-se no caso do ataque com armas químicas, do qual jamais apareceu qualquer prova, embora longa fila de “especialistas” tenham sido vistos e ouvidos na televisão ou citados em longas matérias jornalísticas, todos “comprovando” a culpa do governo sírio. Até que, afinal, Seymour Hirsch jornalista premiado com o Pulitzer, desmontou as “versões” dos “especialistas” e demonstrou que o governo Obama mentira sobre os rebeldes não terem capacidade para executar ataque químico daquele tipo. As empresas-imprensa do “jornalismo” ocidental ignoraram o trabalho de Hirsh.

Como essas mentiras implantam-se a ponto de se tornarem traços permanentes na imprensa-empresa ocidental? Artigo excelente publicado no The Guardian recentemente discutiu em profundidade as principais fontes de que se serviu a imprensa-empresa ocidental para compreender o conflito sírio.

O artigo expôs o quase inacreditável viés de algumas das principais fontes ouvidas pelas empresas de jornalismo ocidentais sobre a Síria, e o motivo pelo qual se escolheram sempre fontes “especializadas”: para assegurar que as fontes tivessem agendas políticas alinhadas com as decisões da política externa dos EUA. O outro lado do conflito permaneceu completamente ignorado nos veículos da grande imprensa-empresa, exceto quando foi tomado como alvo a ser ridicularizado. Por isso, norte-americanos e europeus têm visão completamente tendenciosa, quando não completamente irreal e fantasiosa, sobre o que está acontecendo na Síria. E foi assim sistematicamente, desde o início do conflito – exatamente como aconteceu nas guerras da Iugoslávia, Afeganistão, Iraque e Líbia.

O resultado da ignorância construída pela imprensa e seus jornalistas foi mais mortes num país que, hoje, já tem milhões de refugiados e mais de 100 mil mortos.

Obama parece decidido a explorar o atual momento exclusivamente para fazer crer que, se as conversações de paz fracassarem, a culpa terá sido do governo sírio.

Sem ter conseguido derrotar Assad em campo e em guerra à distância, guerreada por seus prepostos, o governo Obama tenta, agora, vencer a guerra de propaganda. Assim, se as conversações pró-paz fracassarem, Obama poderá reiniciar suas conversações pró-guerra, “porque” “todas as demais opções fracassaram”.

[*] Shamus Cooke é assistente social, sindicalista e escritor da Workers Action.

Shamus Cooke, "Top Three Media Lies About the Syrian Peace Talks", CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names, 26 de janeiro de 2014.

Retificação de nomes II: Vamos chamar um golpe um golpe

Por Peter Lee [*]

Como parte da campanha deste autor para retificar nomes, que já retificou o nome da política externa do Japão – a qual deve ser referida a partir de agora como “Restauração Militar do Japão” – tenho a honra de decretar que os eventos que ocorrem no Egito, Tailândia e Ucrânia não são revoluções, são golpes.


Uma revolução, como a palavra diz, implica o fim de um sistema de governo existente, quase sempre autoritário, em favor de um sistema de governo novo, usualmente mais democrático.

Um golpe, por outro lado, envolve grupos ruidosos usando ação de rua para derrubar um governo eleito que consideram desagradável.

Egito-2013 foi um golpe contra um governo eleito, por uma massa critica de pessoas nas ruas e quarteis que não queriam esperar um ano ou dois para disputar o poder através das eleições.

Esse estado de coisas feias tem provocado dano em pessoas encantadas pela visão de heroicas massas liberais, amantes da democracia, que derrubam governos autoritários.

Juan Cole insiste em vender a derrubada do governo de Mursi no Egito como uma “revocouption”, metendo à força uma certa dose de legitimidade no golpe dos militares; declarando que o golpe seria continuação da revolução original, graças às manifestações de rua contra Mursi e à redação de uma nova constituição (e, assim, excluindo da história revolucionária oficial o papel da Fraternidade Muçulmana na derrubada do governo Mubarak). Não venda, oh poderoso promotor da intervenção na Líbia, que suponho poder ser rebatizada “fuckupalotaboomboom”, com a descida daquele país ao caos.

Atualmente, o mandato popular para o golpe contra Mursi repousa sobre um precário cálculo, segundo o qual cerca de 5% de egípcios a mais votaram no referendo constitucional de 2014 boicotado pela FM (que passou por um Saddam Hussein-digno 98,1%), que no referendo de 2012 boicotado pelos anti-FM.

Uma situação semelhante ocorre na Ucrânia, onde a oposição decidiu que um golpe é preferível a esperar por outra eleição, sobretudo quando o ocidente trabalha tão empenhadamente em defesa das forças antigoverno. O empenho da Europa e dos Estados Unidos em promover seus interesses geoestratégicos à custa de eleições seria cômico, se não fosse o fato de que grupos neonacionalistas estão sendo usados como tropas de choque para abalar o governo da Ucrânia. Vai ser interessante ver até que ponto irão os “analistas” distantes ao elogiar a paisagem de coquetéis Molotov e “ativistas” contra “o governo”. Como Belle Waring escreveu e depois apagou no blog Crooked Timber – quando percebem que tais cenas podem ser encenadas em seus países.

Quanto à Tailândia, os Camisa Amarela pretendem especificamente: a) derrubar o governo; b) impedir a possibilidade de uma nova eleição que eles possam perder; e c) convencer o exército a intervir do lado deles. Nada pode ser mais golpe do que isso.

Quando eu fui para a escola em um período reconhecidamente ingênuo e otimista da história, ensinaram-me a respeitar eleições, aprendi que respeito ao processo eleitoral por ambos os vencedores e perdedores era primordial, porque senão o país iria para o inferno... como está acontecendo no Egito, na Ucrânia e na Tailândia (e nos Estados Unidos em 1860).

Embora eu tenha considerado corrompido todo o processo da recontagem de votos nas eleições presidenciais, do primeiro momento até a decisão da Suprema Corte no processo Bush vs. Gore, depois que a Suprema Corte se manifestou dei o caso por encerrado. Felizmente Al Gore não exigiu que eu fosse para a praça, com meu capacete, taco de beisebol, e garrafa de gasolina misturada com detergente, para derrubar o governo Bush (embora seja compreensível que milhões de pessoas atacadas, feridas e mortas pelo governo terrorista de Bush, a começar pelo povo do Iraque, pensem diferente.) Alguns anos depois, os Democratas afinal chegaram à presidência. Assim, os Democratas tiveram oportunidade legal e legítima para fuder tudo & todos à sua própria maneira especial, e a agitação para um golpe de Estado contra o governo ainda parece ser algo com poucos adeptos nos Estados Unidos.

No exterior, a história é diferente. O atual trio de golpes que está em andamento no mundo não suscitou  o apaixonado “temos que respeitar o processo eleitoral”: silêncio total nessa direção, tanto do governo, quanto dos “especialistas” da mídia. Na Ucrânia, a avidez dos Estados Unidos em defesa do movimento antigoverno é notável; no Egito, não queremos irritar o exército e colocar em perigo o acordo de paz com Israel; e na Tailândia, não entendo nada. Talvez estejamos apenas interessados em ficar do lado do exército.

No fundo, suponho, está a ideia de que não importa se é uma “revolução colorida” ou um golpe de Estado; agitação local é apenas mais um meio para promover e proteger os interesses dos Estados Unidos. Mas sempre dão alguma munição extra à República Popular da China, que pode argumentar que os Estados Unidos não têm interesse algum em democracia (eu poderia apontar que os Estados Unidos são uma república e não uma democracia, uma distinção que 200 anos de proteção da riqueza e da propriedade, e limites de jure e de fato contra a soberania popular, já comprovaram que não é distinção trivial) – nem em eleição alguma; os Estados Unidos só têm interesses no próprio caminho.

[*] Peter Lee é um jornalista estadunidense de origem chinesa que escreve sobre assuntos dos países do sul e leste da Ásia e a interseção de negócios entre essa região e os Estados Unidos. Além de articulista de várias publicações mantem o blog China Matters.

Ucrânia: “know-how” de desestabilização colocado em prática

por Nikolai Malishevski

Strategic Culture Foundation

A intensificação repentina da ação de extremistas na Ucrânia parece ser provocada pelos americanos que não podem esperar até as eleições presidenciais de 2015. A principal tarefa é impedir a reaproximação entre Ucrânia e Rússia e impedir que Kiev mova-se em direção ao leste, sob influência da “expansão econômica de Putin”, como os americanos designam os acordos bilaterais entre Rússia e Ucrânia estabelecidos em 17 de dezembro de 2013. Washington e Bruxelas têm pressa, porque a decisão da Ucrânia de estreitar a cooperação com a União Aduaneira fará crescer rapidamente o apoio eleitoral para Viktor Yanukovich, o que pode levá-lo a vencer as eleições de 2015...

O momento para começar a “balançar o barco” parece ter sido escolhido tendo em vista as lições aprendidas no “cenário georgiano” montado em 2008. Dessa vez, a coisa está sendo encenada antes dos Jogos Olímpicos de Sochi. Os ativistas estão ocupando prédios públicos, já se ouvem os primeiros tiros e já há notícia de um morto. O almirante do Pentágono, John Kirby, diz que aviões dos Estados Unidos permanecerão em alerta em solo alemão durante os jogos, a duas horas de voo de distância de Sochi, para garantir socorro médico e material e evacuar cidadãos americanos no caso de emergência. Navios dos Estados Unidos mover-se-ão para o Mar Negro com o mesmo objetivo (o Pentágono não explicou como, exatamente, navios de guerra podem ajudar a impedir atos terroristas).

Alguns “especialistas” em organizar protestos de rua, como o cidadão americano Fink Brian, que chegou a Kiev em 27 de outubro de 2013, recomendou que a oposição ucraniana recorra à ação violenta, mesmo que haja vítimas, para preparar o cenário indispensável à derrubada do governo. O processo estava marcado para começar 8 de dezembro de 2013, com uma declaração a ser feita na praça central que apresentaria à opinião pública um novo governo comandado por Arseniy Yatsenyuk, com discurso dirigido aos militares e à população, tomada de prédios públicos etc. O plano foi coordenado com algumas embaixadas de outros países, mas a implementação foi suspensa, ao que se sabe, porque Yatsenyuk deu sinais de indecisão.

Agora, no cenário atual, o plano está sendo implementado. Um ativista na praça, o ex-deputado Taras Stetskiv, do Parlamento, já disse publicamente que a praça já declarou que Yanukovych é presidente ilegítimo, e que um novo governo revolucionário de transição está sendo formado. Os clérigos da Igreja Ucraniana Unida [orig. Ukrainian Uniate Church] estão trabalhando ativamente na incitação à agitação e às hostilidades armadas; por exemplo, o cardeal Lyubomir Guzar já falou a favor da insurgência, e Arsenich quer a eliminação dos “inimigos ucranianos da Ucrânia”. As forças da oposição estão recebendo armas, inclusive armas de fogo. O sangue já foi derramado.

Um deputado do Partido das Regiões, que está no governo, Yevgeny Balitsky, disse que um atirador especializado foi recrutado pelo ocidente: "Não se pode excluir a possibilidade de que um profissional atirador tenha sido recrutado num dos países da OTAN, e que foi trazido para cá sob ordens de grupos radicais", disse ele. Circulam panfletos na praça que clamam por “10 inimigos da Ucrânia mortos, por cada patriota da oposição”.

Segundo o Departamento de Combate ao Crime Organizado, subdivisão do Departamento Central do Ministério de Assuntos Internos da Ucrânia, são cerca de 20 os grupos criminosos organizados em Kiev, que reúnem cerca de mil extremistas armados com rifles Kalashnikov. O Departamento diz em Kiev que a oposição já está armazenando armamento nos prédios “capturados”. O presidente do Partido Liberdade para Todos os Ucranianos, Oleg Tyagnibok, usou o palanque da praça para declarar o início da mobilização do seu partido e convocou “todos os não indiferentes” a ir a Kiev e enfrentar o governo. O deputado Andrey Pavlovsky, do “Batkivschyna” foi ainda mais longe: anunciou o início da guerra civil na Ucrânia...

Marcus Papadopoulos, editor-chefe da revista britânica Politics First, diz que os protestos em Kiev foram organizados pela União Europeia e pelos Estados Unidos. O ex-embaixador dos Estados Unidos à ONU, John Bolton, disse que “placas tectônicas estão sendo realinhadas na Europa” e que “o grande prêmio” é a Ucrânia. Pogroms e sangue são o argumento derradeiro que o ocidente usa para fazer a Ucrânia tender na direção da “escolha europeia”. Mais de 200 estrangeiros já foram evacuados do país: são os que trabalharam no planejamento dos pogroms e deram treinamento aos militantes. A maioria deles são cidadãos de estados ocidentais que trabalham sob o disfarce de jornalistas. 35 especialistas em “mudança de regime” dos Estados Unidos, União Europeia e Georgia, entre os quais o americano Alexander Ross, já foram declarados persona non grata na Ucrânia.

Até especialistas americanos, como Doug Bandow, diretor do Cato Institute em Washington, D.C., admite que Washington e Bruxelas não têm nenhuma razão formal que justifique a interferência sem precedentes nos assuntos internos da Ucrânia. Por isso, inventaram a questão de “leis antidemocráticas” aprovadas pelo Parlamento ucraniano dia 16 de janeiro de 2013 (o momento em que aquelas leis entraram em vigência está sendo apresentado como a verdadeira razão para a exacerbação da situação).

É significativo que muitas declarações oficiais ocidentais relacionadas às “leis de 16 de janeiro” estejam sendo insistentemente distribuídas, apesar de o texto das leis nunca ter sido publicado. De fato, se comparadas a leis vigentes nos Estados Unidos, as novas leis ucranianas são exemplo de extrema moderação e retidão política. Nem na Alemanha, França, Espanha ou Polônia, ou em inúmeros outros países a lei é tão equilibrada e moderada: nesses países, a ação de extremistas é punida com muito mais rigor. Na França, a pena de prisão por incitar protestos de rua é de cinco anos e no caso de a incitação levar a movimentos de massa de grandes proporções a sanção penal é de até 30 anos, 15 anos para a construção de barricadas e apreensão de prédios públicos etc.

25 de janeiro de 2014

Por que não há nenhum protesto

Robert B. Reich

The Huffington Post

As pessoas perguntam-me muito frequentemente porque é que nós não temos uma revolução nos Estados Unidos ou, pelo menos, uma onda colectiva de contestação que leve a uma reforma similar àquela que deu origem à era progressiva ou ao New Deal ou à Grande Sociedade.

Os rendimentos médios estão a afundar-se, os patamares de pobreza estão a ficar preenchidos com cada vez mais gente , quase todos os ganhos económicos estão a ser canalizados para os rendimentos de topo e as grandes fortunas estão a corromper a nossa democracia. Assim, como é que não há perturbações da ordem pública?

A resposta é complexa, mas destacam-se três razões:

Primeira, a classe trabalhadora está paralisada pelo medo de poder perder os empregos e os salários que já tem.

Nas décadas anteriores, a classe trabalhadora fomentou a reforma. O movimento dos trabalhadores conseguiu impor um salário mínimo, 40 horas semanais, seguro-desemprego e Segurança Social.

Não, de modo nenhum. Os trabalhadores não se atrevem. A percentagem de americanos em idade activa com empregos seguros é agora menor do que em qualquer outro momento nestas últimas três décadas e 76% deles estão a viver do dia a dia, do salário de mês a mês.

Ninguém tem qualquer segurança de emprego. A última coisa que querem é a de fazerem parte da agitação social e com o risco de perderem o muito pouco que têm.

Além disso, os seus principais meios de organização –sindicatos –foram dizimados. Há quatro décadas, mais de um terço dos trabalhadores do sector privado eram sindicalizados. Agora, menos de 7 por cento pertencem a um sindicato.

Em segundo lugar, os estudantes não se atrevem a agitar o barco. .

Em décadas anteriores, os estudantes foram uma grande força na criação de condições para a mudança social. Eles desempenharam um papel activo no movimento dos direitos civis, o movimento de liberdade de expressão e contra a guerra do Vietname.

Mas os alunos de hoje não querem fazer nenhuma contestação. Eles estão sobrecarregados de dívidas. Desde 1999, que as dívidas dos estudantes aumentaram mais de 500 por cento, enquanto que a média salarial para o início de carreira tenha caído de 10 por cento, ajustado pela inflação. As dívidas dos estudantes não poderão ser canceladas por declaração de situação de falência. Uma situação de incumprimento implica sanções e arruína-lhes o seu rating de crédito.

Para tornar a situação ainda pior, o mercado de trabalho para os recém-formados continua péssimo. Isso é o que os registos de moradas nos indicam, ou seja que eles ainda continuam a viver em casa dos pais

Reformistas e revolucionários não estão preocupados por viverem com a mãe e o pai, nem inquietos com a questão dos ratings de crédito e com as recomendações do trabalho.

Em terceiro lugar e, finalmente, o público americano tornou-se tão cínico sobre o governo que muitos já não pensam sequer que a reforma é possível.

Quando se lhes pergunta se acreditam que o governo fará as coisas que devem e como devem ser feitas na maioria das vezes, são menos de 20 por cento dos americanos os que concordam. Há cinquenta anos atrás, quando essa pergunta foi pela primeira vez levantada em sondagens eram mais de 75% dos americanos que que estavam de acordo.

É difícil conseguir que as pessoas trabalhem para mudar a sociedade ou mesmo para mudar algumas leis quando elas não acreditam que o governo venha a funcionar como seria de esperar, face ás mudanças desejadas.

Nós teríamos de acreditar numa conspiração gigante para pensar que tudo isso era obra das forças na América mais resistentes a mudanças sociais positivas.

É possível, obviamente, que tenham cortado intencionalmente empregos e salários nem que seja só para intimidar trabalhadores comuns, que tenham encharcado estudantes com tantas dívidas que eles nunca venham para as ruas e que tenham tornado muitos Americanos tão cépticos em relação ao governo que eles nunca ponderem a mudança..

Mas é mais provável que simplesmente tenham deixado destapar tudo isto como se se tratasse de um enorme lençol molhado sobre o ultraje e a indignação que a maior parte dos americanos sentem mas não exprimem.

De toda a maneira o sentimento de revolta começa a dar sinais, a mudança de uma maneira ou de outra ir-se-á verificar. Não toleramos que uma parte cada vez maior do rendimento do país e da riqueza seja apropriada pelas gentes mais ricas enquanto os rendimentos do agregado familiar médio continuam paralelamente a cair e em demasia, enquanto um em cada cinco das nossas crianças vivem em extrema pobreza, enquanto muito dinheiro está a minar a nossa democracia.

Em qualquer altura, os trabalhadores, os estudantes e a população em geral irão sentir que basta, já é demais. Quando tal acontecer, eles irão exigir outra economias, irão exigir a Democracia. Esta tem sido a lição central da história americana.

A Reforma é menos arriscada do que a revolução, mas quanto mais esperarmos pela mudança , o mais provável, então, será que se venha a verificar esta última.

24 de janeiro de 2014

Clichês ou verdades sobre a I Guerra Mundial? Resposta a Nicolas Offenstadt

Por Annie Lacroix-Riz [*]

Crédito: Autor desconhecido.

O Le Monde tem por hábito enunciar a “doxa” histórica (sobre a URSS e o seu “tirano vermelho”, sobre o patronato não “colaborador”, com Louis Renault à cabeça, sobre o democrático coronel de La Rocque, etc.). Anunciando, em 4 de novembro de 2013, o matraquear ideológico de um ano (no mínimo) que nos espera, o “jornal de referência” encarregou, pois, o medievalista Nicolas Offenstadt, de resto especialista em “memórias” da Grande Guerra, de “terminar com dez ideias recebidas sobre” ela. Porque, explica-nos este último, “o seu forte impacto sobre a sociedade francesa alimenta a circulação de imagens e clichês que não correspondem ao estado dos conhecimentos dos historiadores”. Na conferência do panteão mitológico figuraria a ideia de que “a guerra era desejada pelos industriais e financeiros”. Citemos: 

As interpretações marxistas das origens da guerra, assentes nas reflexões de Lenin sobre o imperialismo como estágio supremo do capitalismo, atribuem um papel central às rivalidades econômicas acentuadas pela baixa tendencial da taxa de lucro e ao caráter predatório dos meios industriais. Há algumas relações de forças comerciais entre os blocos na China ou no Império otomano, entre britânicos – inquietos com o “made in Germany” – e alemães. A corrida aos armamentos no período imediatamente anterior à guerra, em todos os países, reforça esta interpretação. Mas a historiografia mostrou que as interdependências eram de fato muito fortes entre as economias e que, para alguns setores (seguros, sociedades mineiras...), a paz era preferível à guerra. A City era pois empurrada para defender a paz. Além disso, em matéria de política externa, os meios industriais e financeiros não estavam unidos. [1] 

O “clichê” presumido não levanta qualquer espécie de objeção. Os marxistas contentam-se em analisar a economia capitalista antes de 1914 sem referência ao eventual “desejo” dos banqueiros e dos industriais: Lenin, tão hegeliano como Marx, observa as práticas dos “capitalistas fora da sua vontade e da sua consciência”. 

Respiga, no Imperialismo, fase suprema do capitalismo, na véspera da guerra, as práticas do “capital financeiro [,] resultado da fusão do capital de alguns grandes bancos monopolistas com o capital de grupos industriais monopolistas” na fase imperialista nascida da primeira crise sistêmica do capital (1873): fala, não dos banqueiros e industriais, mas de um “punhado de monopolistas”, “cartéis e trusts” que levaram então a cabo a “partilha do mundo”.

A “oligarquia financeira” – atualmente mais do que centenária – resistiu à baixa dos preços e da taxa de lucro cartelizando, baixando os salários e os lucros não monopolistas, em resumo, lançando o peso da crise “sobre o resto da população”. Mas não conseguiu abolir a sobreprodução, isto é, a insuficiência da taxa de lucro esperado em relação ao capital investido ou a investir, nem superar as rivalidades e contradições que a dilaceram. Criou ou reforçou cartéis e trustes (efetivamente ”interdependentes”, para citar Nicolas Offenstadt), mas estes frutos e aceleradores do desenvolvimento desigual do capital não “suprimem as crises”. Agravando a concorrência dos setores cartelizados, a crise obriga os monopólios a destruir maciçamente o capital e a repartilhar o globo: a sua “caça às colônias” ou zonas equiparadas (impérios otomano e russo) reforça-se “depois de 1880”; no início do século XX, desenvolvem-se “guerras periféricas” até ao coração do continente europeu e os planos visando “anexar, não apenas as regiões agrícolas, mas também as regiões industriais (a Bélgica é cobiçada pela Alemanha, a Lorena pela França.)”

É então que Kautsky, o mais prestigiado marxista vivo depois da morte de Engels, alia o reformismo, ideologia na altura triunfante dos “agentes da burguesia dentro do movimento operário”: forja a “teoria do ultra-imperialismo” [ou super-imperialismo] pacífico, segundo o qual os capitais concentrados-cartelizados “preferem” o compromisso ao conflito. Este sonho desmobilizador valeu-lhe os ataques de Lenin, antes da guerra generalizada eclodir. “Os cartéis internacionais, nos quais Kautsky vê o embrião do ultra-imperialismo (do mesmo modo que a fabricação de comprimidos de laboratório “pode” ser proclamado embrião da ultra-agricultura) não nos dão o exemplo de uma partilha e repartilha do mundo, da transição da partilha pacífica para a partilha não pacífica e inversamente? […] O capitalismo transformou-se num sistema de opressão colonial e de estrangulamento financeiro da imensa maioria da população do globo por um punhado de países “avançados”. E a partilha deste saque tem lugar entre duas ou três aves de rapina universalmente poderosas, armadas da cabeça aos pés (América, Inglaterra, Japão) [sem esquecer a Alemanha e a França], que arrastam toda a terra para a partilha do seu saque.”

Em cada país, uma historiografia documentada, nem sempre marxista, corroborou, tanto para 1914 como para 1939, “as interpretações marxistas das origens da guerra”. A tese do conservador Fritz Fischer, Dozent (assistente universitário) no tempo de Hitler, Os Objetivos da Guerra da Alemanha Imperial 1914-1918, demonstra a unanimidade a favor da guerra de saque do “punhado” de decisores alemães, apoiados pela quase totalidade das forças políticas (SPD “maioritário” inclusive). Essa obra com mais de 50 anos (1961, traduzida em 1970) não tem uma única ruga. Por certo, a historiografia dominante exclui-o das bibliografias oficiais dos concursos de admissão em história desde os anos 2000: essa não menciona senão Georges-Henri Soutou, O Ouro e o Sangue, Os Objetivos Econômicos de Guerra da I Guerra Mundial (1989), que contesta o consenso dos decisores alemães na matéria e refuta Fischer em tudo ou quase tudo. Que importância tem o fato de as fontes originais confirmarem o consenso sobre a guerra e sobre os seus objetivos econômicos (após hesitações sobre os compromissos possíveis) do bloco Banco da França, Comitê siderúrgico e hulheiro, mentor do Estado francês. “A City […] está mais virada para defender a paz”? Não, antes de 1914 procurou estabelecer um compromisso colonial com o Reich em detrimento dos seus rivais comuns, franceses, portugueses, belgas e recomeçou antes de 1939. Em 1937, o embaixador da França em Londres, Charles Corbin, demonstrou, através dos arquivos, que o objetivo do Pacto de não agressão do tandem Chamberlain-Halifax (então centrado na expansão para a Áustria e a Checoslováquia) tinha traços do de 1912 aplicado ao terreno colonial: Londres tinha então entregado de bandeja a Berlim a possibilidade de suplantar todos os impérios coloniais europeus salvo o britânico [2]. Estas duas tentativas tão duradouras e acrisoladas, falharam finalmente porque a crise sistêmica do capitalismo condenava momentaneamente o compromisso. O que é válido para a Inglaterra também o é para as relações dos Estados Unidos com o Reich e com o Japão.

Nicolas Offenstadt não se refere à “historiografia”, mas apenas “à historiografia dominante” antimarxista, ministrada hoje em dia pela Universidade aos futuros professores e exclui toda a outra: a dos Sonâmbulos de Christopher Clark que, em qualquer coisa como 670 páginas, pretende demonstrar, suscitando a admiração geral, que os dirigentes de todos os países “caminharam para a guerra” manipulados por este ou aquele (ah, o tema de Helena e a Guerra de Tróia proclamado “novo”!), vítimas de maldições (mas Clark não se esquece de desculpar a Alemanha arrastada pela Áustria pela eclosão do conflito para oprimir os sérvios, os russos, etc.). Este ruído alimenta a propaganda sobre “a União Europeia” como penhor da paz eterna – como os cartéis dos séculos XVIII e XIX? – enterra os arquivos diplomáticos, econômicos e militares que anunciaram sem descanso a guerra geral no decurso das crises que precederam 1914 e 1939 [3].

A historiografia americana, tão rica a respeito da “partilha do mundo”, demonstra desde os trabalhos de William Applemen Williams (A Tragédia da Diplomacia Americana, 1ª edição, 1959) a pertinência do juízo de Lenin sobre as relações germano-americanas de 1916: “O capital financeiro da América e dos outros países, que partilham pacificamente o mundo com a participação da Alemanha, por exemplo no sindicato internacional das ferrovias e o truste internacional da marinha mercante, não estão a proceder a uma repartilha na base de novas relações de forças que mudam de uma maneira absolutamente não pacífica?”

O Pacto de não agressão, antes de 1914 (como antes de 1939), visava impedir a guerra? Não, apenas negociar as condições do ocorrido e depois as consequências nas melhores condições para os rivais-aliados. Existem boas amizades entre banqueiros “inimigos”, não se “faz votos” de se extirparem, ainda se visitam mutuamente em tempos de guerra. Mas, porque é necessário, mesmo pelas armas – objeto de super lucros gigantescos – desembaraçarem-se do capital “excedentário”, incluindo forças produtivas humanas, e abrir os mercados aferrolhados, manda-se para o inferno os povos que não souberam dizer não (outro objeto de “cliché” que mereceria ser posto no seu lugar). Recusar examinar, pela teoria e pelas fontes históricas, a natureza bélica do capital leva a dar crédito à mitologia “psicológica” do desencadeamento fatal mas evitável (!) dos acontecimentos. É mais sedutor, certamente, do que a lembrança de Lenine acerca das “dezenas de milhões de cadáveres e de mutilados deixados pela guerra feita para determinar qual dos dois grupos de salteadores financeiros – inglês ou alemão [americano, etc.] deve receber a maior parte do saque.”.

Na conjuntura atual, triunfam de novo confrontos inter-imperialistas sobre a ”repartilha” dos recursos mundiais tão impiedosos como os que desembocaram nas duas guerras mundiais, sobre um fundo de “união sagrada” europeia e nacional, “apequena história sentimental de Kautsky sobre o “ultra-imperialismo “pacífico”“. O que é atribuído “à historiografia” é da responsabilidade da cortina de chumbo antimarxista que cai sobre a sociedade e a Universidade. A Primeira Guerra mundial foi mesmo, tal como a segunda, uma guerra de rapina e de “repartilha do mundo” entre gigantes imperialistas. Sobre a natureza do capital, as suas crises e as suas guerras, não se cinjam ao Le Monde nem à “historiografia” antimarxista. Vão a correr ler Marx e Lenine (O imperialismo, fase suprema do capitalismo esclarece as coisas sobre o “capitalismo financeiro” pretensamente recente e permite, mais geralmente, não morrer idiota), e informem-se acerca da “historiografia” crítica.

Notas:

Entre as “dez ideias recebidas” que Nicolas Offenstadt combate aparece, em nº. 3, uma grande mentira pregada aos estudantes da França há cerca de cem anos, que “os táxis desempenharam um papel decisivo na batalha do Marne”. Mas porque é que o historiador, que argumenta normalmente contra os alegados “clichês”, renuncia aqui a estabelecer a verdade? Será porque seria necessário lembrar que, segundo a fórmula de março de 1939 do Subsecretário de Estado permanente do Foreign Office, Robert Vansittart, “a França não teria tido a mínima hipótese de sobreviver em 1914, se não tivesse havido a frente oriental? [4]

[1] Itálico da minha autoria. As citações seguintes, extraídas de O Imperialismo fase suprema do capitalismo, em itálico no texto.

[2] Despachos 918 e 924, Londres, 15 e 16 de novembro de 1937 (em duas colunas escolher comparativo de textos intitulado “as viagens a Berlim de Lord Haldane e de Lord Halifax, 1912-1937”), Grã-Bretanha 19181940, 287-287 bis, MAE, Comparação, Annie Lacroix-Riz, Le Choix de la défaite: les élites françaises dans les années 1930 [A escolha da derrota: as elites francesas nos anos 30 (NT)], Paris, Armand Colin, p. 418-419.

[3] Ver designadamente a riquíssima Nouvelle, série 1897-1918, arquivos do ministério dos Negócios estrangeiros (La Courneuve). Questões da formação de professores, Lacroix-Riz, L'histoire contemporaine toujours sous influence, Paris, Le temp des cerises, 2012, cap 1 e passim.

[4] Michael Carley, 1939, The alliance that never was and the coming of World War II, Ivan R. Dee, 1999, p.4, sublinhado no texto (tradução francesa, PU de Montreal, 2001).

[*] Professora emérita de História contemporânea, Universidade de Paris VII.

Annie Lacroix-Riz, "Clichés ou vérités sur la première guerre mondiale? Résponse à Nicalas Offenstadt", Initiative Communiste, n°. 140, janeiro, 2014, p. 14-15.