22 de janeiro de 2014

O que aconteceu com os verdes alemães?

Joachim Jachnow

New Left Review

Em 24 de março de 1999 caíram as primeiras bombas sobre as centrais elétricas e de abastecimento de água de Belgrado, deitando abaixo a eletricidade da cidade e destruindo as infra-estruturas vitais, fábricas, ferrovias, pontes. [1] A Luftwaffe alemã estava de volta aos Bálcãs, quase 58 anos depois do último bombardeamento da capital jugoslava em 1941, os seus ataques estranhamente repetindo a infame estratégia do general Lohr de destruir os centros administrativos e logísticos de uma cidade já aberta, descrita agora no jargão da NATO, como alvos de "duplo objetivo". O ressurgimento militar alemão dificilmente poderia ter sido anunciado de forma mais tonitruante. A sua força aérea fez perto de quinhentos ataques no âmbito da Operação das Forças Aliadas contra o que restava da Jugoslávia já esgotada pela decomposição da economia, pela intervenção ocidental e pelo nacionalismo étnico – muitas vezes promovido externamente com a diplomacia austro-alemã na dianteira. O bombardeamento da NATO não só deixou civis mortos, incendiou hospitais e deixou escolas em ruínas, mas também serviu para fazer escalar a tragédia que, alegadamente, era suposto prevenir, lançando achas para a fogueira, intensificando os crimes da guerra civil e provocando a fuga em massa dos civis. O dirigente do Partido Verde Joschka Fischer tinha tido razão quando em 1994 declarou que o envolvimento das forças da Alemanha em países "onde as tropas de Hitler tinham entrado durante a Segunda Guerra" só iria atiçar as chamas do conflito. [2]

Os compromissos deste Manifesto foram abandonados poucos meses depois, quando os Verdes com uns meros 6.7 de votação nas eleições de setembro de 1998 assinaram um acordo de coligação com o SPD de Schröder que dava lugar de destaque à NATO. O próprio Fischer tinha sido referenciado nos planos da administração Clinton para a Jugoslávia mesmo antes de ser indicado para o ministério, durante uma viagem a Washington com Schröder e Lafontaine. [3] Como em cada passo da carreira de Fischer, a auto-promoção foi vendida como uma dolorosa realização de verdades mais elevadas cuja aceitação não significava trair, antes cumprir mais perfeitamente os ideais para uma melhor sociedade. Os órgãos de comunicação social alemães quase unanimemente promoveram a linha de Schröder-Fischer de intervenção militar, apoiada por intelectuais como Gunter Grass e Jurgen Habermas; críticos como Peter Handke foram anatemizados como amigos dos criminosos de guerra sérvios. Contudo, uma grande parte da população alemã estava relutante em desculpar o uso de armas em nome dos "direitos humanos" que incluía largamente a base eleitoral do Verdes; a resistência cresceu rapidamente. Os Verdes antiguerra exigiam que o partido convocasse um congresso extraordinário por altura dos bombardeamentos da NATO com uma presença massiva de polícias para "proteger" a reunião dos membros de base. Por um breve momento parecia que os Verdes se podiam partir e o governo cair. Superando mesmo a retórica de Blair, Fischer disse ao Congresso que a repressão sérvia dos Kosovares seria "outra Auschwitz"; quem se opusesse à intervenção da NATO seria pois responsável por um segundo holocausto. No fim do dramático, por vezes violento encontro, a resolução de compromisso do comité federal, efetivamente um arranjo que deu carta branca aos ministros Verdes, ganhou com 444 votos contra 318. Assim, o regresso dos militares alemães à guerra ofensiva, explicitamente proibido pela Constituição devido aos crimes de guerra nazi, foi legitimado através da exploração moral dos mesmos. Depois de o partido ter renunciado a esta pedra fundacional da política dos Verdes, tudo o resto estava à venda. No período imediatamente a seguir à guerra da Jugoslávia, cerca de um terço dos membros saíram e foram substituídos por novas admissões mais aptas a serem influenciadas pelas orientações da liderança. Antes defensores do Estado de bem-estar e proponentes da redistribuição econômica, os Verdes tornaram-se entusiásticos apoiantes da Agenda 2010 neoliberal de Schroder, que levou a um tremendo saque dos ativos públicos, da segurança social e dos fundos de pensões, ao mesmo tempo que continha salários e concedia cortes nos impostos às empresas em biliões de euros, ou seja, uma redistribuição da riqueza dos pobres para os ricos. Ainda mais surpreendente foi a total rendição dos Verdes à indústria nuclear alemã; a luta pela retirada faseada das fábricas nucleares tinha sido a questão central do partido, sobrevivendo como as promessas eleitorais sine qua non dos Verdes ao longo de muitos anos de compromissos parlamentares. Agora que os Verdes estavam no governo, reatores em fim de vida recebiam um aumento de vida de pelo menos mais dez anos, enquanto perigosos depósitos de lixo nuclear e uma garantia de dívida para toda a indústria eram empurrados pelo Ministro do Ambiente Jürgen Trittin que ficava indiferente à criminalização das manifestações contra o nuclear no governo de Schröder-Fischer. Num registo semelhante, os Verdes aprovavam novas leis de segurança, restrições aos direitos civis, discriminação contra os estrangeiros e militarização da polícia, fazendo com que a legislação de emergência de 1968 que tinha então provocado tanta controvérsia, parecesse quase trivial a posteriori. Foi a consubstanciação por parte do SPD e do seu parceiro Verde de forçar através de projetos legislativos, que eles próprios tinham obstaculizado com sucesso durante os longos anos de oposição na era Kohl. [4]

Fatos cinzentos

Mas será que esta conversão política de um partido antes dissidente é assim tão inesperada? O fenômeno do volte face dos Verdes é geralmente apresentado na mídia alemã como os últimos passos num lento movimento em dircção à maturidade e não uma perversão: os hippies de cabelos compridos de Birkenstock finalmente se desfaziam das suas fantasias utópicas de modo a tornarem-se maduros homens de estado nos seus ternos cinzentos, ombreando de boa vontade o peso da responsabilidade. Muito do coro dos representantes da mídia celebrava de forma narcísica a sua própria "maturidade" na medida em que eles próprios tinham feito parte dos mesmos movimentos. Os elogios ao novo modelo dos Verdes refletiam o grau de reconciliação das camadas dissidentes da sociedade alemã pós 68 com as condições dominantes; os adeptos dos órgãos de comunicação social eram muitas vezes antigos camaradas que tinham eles próprios passado por transformações impressionantes. Thomas Schmid é um caso paradigmático, um grande amigo de Fischer e de Cohn-Bendit no estreito meio da Frankfurt dos anos 70, compartilhando uma atitude compreensiva em relação à Fracção do Exército Vermelho, convertido num proponente da "política pragmática" em 1983 e agora editor-chefe do Die Welt, a publicação que, juntamente com o Bildzeitung, personificava o espírito de Adenauer por excelência, com a sua direção editorial enfeitada com antigos nazistas. Mais significativamente, órgãos da imprensa alternativa tais como jornais diários de Berlin há já muito haviam assumido um papel de "estadistas" permitindo o mínimo necessário de pensamento não conformista, de modo a tornar o pensamento único mais fácil de engolir.

He who pays/ plays the piper...? É uma expressão que reflete uma crítica corrente da esquerda e alguns Verdes que recentemente se retiraram e que se prostituíram desavergonhadamente aos seus antigos inimigos nas indústrias nuclear e farmacêutica a preços que, anteriores políticos recebendo subornos comparativamente modestos dos barões da indústria como Flick, nem sequer sonharam. [5] Pode-se certamente argumentar que alguns dos que se agruparam em torno de Fischer e de Cohn-Bendit, que tinham exigido políticas reformistas e participação no governo desde o princípio dos anos 80, ambicionavam agarrar o partido como um veículo das suas ambições pessoais com vista às manjedouras douradas do parlamentarismo, agora que entravam na meia-idade e estavam ultrapassados os seus sonhos de mudança revolucionária. Christian Schmidt, um jornalista freelancer na esquerda não-alinhada, activo no exíguo movimento dos anos 80, fornece um detalhado para não dizer repugnante relato dos Spontis de Frankfurt e do seu papel no Partido Verdes durante os anos 80 e 90 em "Wir sind die Wahnsinnigen" (Nós somos os Loucos) de 1998. Mais recentemente, Jutta Ditfurth, uma figura central no partido nos anos 80 que foi expulsa do comité federal pelos roaders parlamentares em 1989, publicou um ataque violento ad hominem. (6)

Contudo seria demasiado fácil atribuir exclusivamente a culpa a uma clique chauvinista entre os minoritários de Frankfurt cujos membros provaram ser eminentemente corruptíveis, ou sugerir que os dirigentes Realos tinham tido sempre a intenção de levar o partido para a direita. Isso seria confundir um sintoma com uma causa. O surgimento de um certo tipo de personalidade dentro do aparelho do partido é um fenómeno generalizado com o qual a esquerda se tem confrontado durante muito tempo. Significaria também ignorar a cooptação mais vasta dos movimentos sociais, da segunda vaga do feminismo até ao ambientalismo, dentro dos quais ocorreu a deformação dos Verdes; a capacidade do capitalismo contemporâneo de absorver os aspectos vitais das análises críticas dos novos movimentos sociais de modo a rejuvenescer os seus próprios processos de reprodução foi explorada por Luc Boltanski, Eve Chiapello e Nancy Fraser, entre outros. (7)

No extremo oposto a Schmidt e Ditfurth, "Die Grünen: Verstaatlichung einer Partei" ('Os Verdes: Estatização de um Partido') 1998 de Paul Tiefenbach, oferece um relato sociológico mais complexo inspirado na "Lei de Ferro da Oligarquia", que sugere que os partidos inevitavelmente se adaptarão e serão absorvidos pelo sistema político estatal existente. (8) Mas este funcionalismo fatalista serve para desvalorizar não só as verdadeiras lutas e escolhas que determinaram a trajectória do partido, mas também as especificidades dos desenvolvimentos políticos e económicos alemães e internacionais que ajudaram a dar forma ao seu curso ao longo das últimas três décadas. Um relato mais satisfatório precisaria de examinar a interacção dos factores subjectivo e objectivo. A experiência dos Verdes alemães é particularmente instrutiva como exemplo raro de projecto de construção de um partido que tentou destilar muito do pensamento associado aos movimentos anti-nuclear, ecológico e feminista e cujos protagonistas anteciparam o perigo da incorporação e procuraram muito conscienciosamente implementar contra medidas; o seu falhanço levanta a questão de que estratégias devem ser adoptadas para políticas emancipatórias no futuro. (9) Mas, tal como Gramsci uma vez disse, a história de um partido é a história de uma nação em forma de monografia. As últimas décadas trouxeram não só a reunificação da Alemanha mas o seu ressurgimento como a potência dominante na Europa. No que se tornou o Partido Verdes e que funções desempenha na nova Alemanha?

Movimento e partido

Os canteiros de onde brotou o Partido Verdes, nos negros anos de finais de 70 e princípios de 80 sob a chancelaria de chumbo de Helmut Schmidt, foram os grupos de acção de cidadãos –Bürgerinitiativen – mobilizados contra o programa intensificado de energia nuclear do SPD e contra a poluição industrial e as chuvas ácidas que estavam a matar rios e florestas. Ecologistas, feministas, estudantes e redes contra cultura juntaram-se a agricultores e donas de casa em protestos de massas que pararam locais onde iam ser construídas fábricas nucleares em Wyhl (Baden-Württemberg), Grohnde (Baixa Saxónia) e Brokdorf (Schleswig-Holstein).A crítica à política industrial apoiada por todos os três partidos do sistema foi o ponto de partida decisivo para este movimento heterogéneo que recebia o seu ímpeto não só do desassossego civil de 68 e dos anos seguintes, mas também de camadas mais conservadoras igualmente alienadas com a moderna sociedade capitalista e com o seu Estado que supostamente defendiam formas tradicionais de vida contra a "grande máquina". Foi um passo natural para estes grupos construírem listas alternativas "verdes" contra os partidos que governavam nas eleições locais, mas a maioria opunha-se, por uma questão cultural e não por razões teóricas profundas, a qualquer forma de centralização política. Uma primeira tentativa de ecologistas conservadores em torno do primeiro deputado Herbert Gruhl da CDU de unir as várias listas regionais verdes e grupos ambientalistas num único partido foi condenada ao fracasso porque era incompatível com a natureza anti autoritária e descentralizada dos grupos de acção local.

Concordaram, no entanto, em construir uma lista SPV – Die Grünen nas primeiras eleições para o Parlamento Europeu em Outubro de 1979, encabeçada por Petra Kelly, uma ambientalista de 32 anos a trabalhar na Comissão Europeia em Bruxelas. A lista teve 3.2 por cento de votos e uma boa subvenção para os custos da campanha dos Verdes. Foi um ponto de viragem. Rudolf Bahro, o eco-marxista dissidente da Alemanha Oriental recentemente chegado à Alemanha Ocidental depois de ter sido acusado na RDA, fez um apelo para uma nova política que fosse ao encontro do desafio existencial de uma catástrofe ambiental em que as necessidades das espécies se sobreporiam às de classe; apelou a uma aliança que se estendia de Herbert Gruhl a Rudi Dutschke. Em duas conferências tempestuosas em 1980, mil delegados das campanhas locais assim como mais várias centenas de grupos de esquerda, feministas e contra cultura, concordaram em constituir aquilo que Petra Kelly descreveria como um "partido contra-partido". Os conservadores de Gruhl e o agrupamento racista völkisch "sangue e terra" dirigido por Baldur Springmann lutaram ferozmente para barrar as organizações de extrema esquerda e maoistas mas foram derrotados pela maioria, que rejeitou por princípio qualquer forma de censura ou exclusão política. Muito conscientes do perigo da cooptação parlamentar, os Verdes montaram salvaguardas radicais contra ela: os membros eleitos para as assembleias estaduais ou federais deveriam demitir-se a meio do seu mandato para serem substituídos pelo seguinte membro Verde na lista, contra as normas da Constituição alemã da "liberdade" dos representantes eleitos de responderem pela sua consciência e não pelo programa do partido. Os deputados verdes deveriam ser mandatados pelas conferências do partido. Uma forte presença feminista assegurava rigorosa igualdade de género: 50 por cento dos lugaress partidários seriam ocupados por mulheres; os nomes de homens e de mulheres alternariam nas listas eleitorais (o princípio do "fecho de correr"). Um comité federal com uma liderança de três pessoas era eleito directamente pela conferência anual. Ser membro formal não era condição de participação: todas as reuniões e votações do partido eram abertas ao público.

O aumento de membros do partido foi enorme, passando de 16 mil na Primavera de 1980 para mais de 30 mil quatro anos mais tarde. Enquanto os Verdes mais conservadores se conservavam fortes nas terras do sul, sobretudo em Baden-Württemberg, nas cidades do Norte – Hamburg, Bremen, Frankfurt, Berlim Ocidental – a esquerda radical em breve se tornou hegemónica. Aqui, numerosos agrupamentos heterodoxos de esquerda, juntamente com os maoistas doutrinários do KBW (Kommunistischsr Bund Westdeutschland) e os Spontis de Frankfurt associados a Fischer e a Cohn-Bendit agruparam-se para se juntar ao projecto de construção do partido. De facto, para grande parte da esquerda alemã, os Verdes tornaram-se uma espécie de último refúgio. Desde que os comunistas tinham perdido o seu poiso no Bundestag em 1953 e desde então proibidos pelo Tribunal Constitucional, todas as tentativas para lançar um partido à esquerda do SPD tinham falhado. A repressão do Estado contra os dissidentes esquerdistas, claramente renovada no início dos anos 70 pelo Radikalenerlaß (promulgação do extremismo) e o Berufsverbot (interdição de trabalho) de Willy Brandt tornou ainda mais difícil construir uma nova formação. No outro lado da fronteira da Guerra Fria, um socialismo real burocrático e ditatorial provocava mais divisões dentro da esquerda alemã ocidental, indo da aprovação doutrinária à virulenta reprovação. Contudo, a extrema-esquerda enquanto tal, nunca predominou no partido, especialmente porque importantes partes dos membros e do núcleo duro do eleitorado dos Verdes apoiava essencialmente posições liberais em questões sociopolíticas ou tinha uma compreensão mais conservadora do ambientalismo. Nem os novos aderentes de esquerda foram capazes de desenhar uma moldura teórica comum para os Verdes.

No fim, o seu triunfo pode ter sido uma vitória de Pirro. Enquanto a junção de tantas correntes debaixo do chapéu Verde parecia a princípio ter unificado a esquerda estilhaçada da Alemanha Ocidental, contribuiu depois para a divisão e cooptação desses elementos. Muitos dos primeiros sectários, especialmente do KBW, passaram por rápidas conversões políticas, surgindo em meados dos anos 80 como eco libertários do mercado livre. (10) Há aqui óbvios paralelos com os nouveaux philosophes franceses de finais dos anos 70 ou com os ex esquerdistas neo conservadores nos EUA em muito menor número. Mas embora dificilmente se trate de um fenómeno novo na história, a forma como estas renegações colectivas acontecem tem algo a ver com os resultados. A literatura sobre ciência política geralmente falha em discutir esta conversão, preferindo repetir o mito que representa os Verdes como um surgimento de sucesso dos novos movimentos sociais que ajudaram a modernizar a sociedade alemã quebrando as suas "estruturas incrustadas". Contudo, o Partido Verdes foi, em boa medida, uma resposta ao declínio dos movimentos sociais: trouxe o legado da derrota e dos desvios frustrados – o sectarismo, o imediatismo, a "luta armada" que culminou no Outono Alemão de 1977, ou simplesmente a apatia – que esse fracasso tinha precipitado. Não representou o triunfo de uma geração sobre a ordem estabelecida, mas sim a obstrução das primeiras lutas emancipatórias.

As contradições inerentes dos Verdes também podiam ser vistas como sintomáticas da cultura política e intelectual pós moderna em que o partido se desenvolveu. Este eclectismo não reflectia apenas as origens dos Verdes como um "lugar de encontro" – Sammelbecken para citar os seus dirigentes – de diversas tendências políticas que queriam assegurar a entrada no parlamento. Todas as tentativas para forjar uma perspectiva teórica coerente destas correntes mostraram ser impossíveis devido às suas antinomias ideológicas; eco-libertários abraçando um individualismo hedonista ou as formas instintivas de imitação do socialismo dos ecologistas radicais eram, no fim de contas, expressões da falta de uma maior narrativa. O seu lugar estava cheio da ameaça percepcionada de uma natureza e humanidade em perigo, suficientemente abstracta para ser inclusiva; a prioridade era limpar a confusão que a modernidade tinha criado sem desenvolver um novo horizonte emancipatório. Esse minimalismo combinado com a máxima abertura aos diferentes olhares sobre o mundo era a condição da própria existência do partido já que era a única maneira de integrar os restos heterogéneos dos ecologistas, esquerdistas, pacifistas, conservantistas, antroposofistas, agricultores orgânicos ou cristãos. Tal como Bahro, Petra Kelly encontraria virtualidades nesta incoerência:

A variedade de correntes enriquece o nosso partido, mesmo na falta de um consenso comum na análise da sociedade. Não quero excluir comunistas ou conservadores e não tenho de o fazer. As correntes aprendem umas com as outras, Não há destruição mútua mas sim uma convergência de pontos de vista. É nisto que o nosso movimento é novo. (11)

Uma maioria partilhava a fervorosa crença de que "algo tem de ser feito" quanto à crise ambiental, mas as soluções propostas eram incompatíveis. (12) De igual modo, o compromisso do governo do SPD no início dos anos 80 para instalar mísseis nucleares Pershing II em território alemão, sob comando da NATO, i.e. dos Estados Unidos, mobilizou mais de um milhão de pessoas contra a intensificação da Guerra Fria. No entanto, embora os Verdes estivessem de acordo na sua oposição às armas nucleares e à energia nuclear "civil", nunca houve um consenso mais vasto sobre as causas mais profundas subjacentes a estes sintomas. O resultado final foi uma "estratégia adicional", um processo de acomodação que numa etapa resultou num programa de 500 páginas para os Verdes do Reno Norte – Vestefália.

A dialética do sucesso parcial

Nas eleições federais de 1983 no começo do reinado de 16 anos de Helmut Kohl como Chanceler alemão, os Verdes derrubaram a barreira dos 5% com dois milhões de votos, ganhando 27 lugares no Bundestag então dominado pela CDU; já tinham entrado nas assembleias rurais e das cidades-estado. (13) Os sucessos eleitorais trouxeram novas tensões: a necessidade de preencher postos e lugares com pessoal ameaçava dominar o grupo de membros que, segundo os padrões alemães era diminuto em comparação com o eleitorado dos Verdes. (14) Apesar dos princípios da rotatividade a meio do mandato, respeitados por quase todos os Verdes com excepção de Kelly, e dos mandatos do partido, uma fracção parlamentar do Bundestag, com pessoal a tempo inteiro dez vezes o tamanho da sede do partido, começava agora a cristalizar-se contra o comité federal mais radical, enquanto também se abriam diferenças sobre táctica de "coligação" ou de "tolerância" em relação ao SPD nas assembleias rurais e citadinas. Estas divisões coincidiram com a formação de quatro agrupamentos dentro do partido, frequentemente separados uns dos outros apenas por nuances tácticas, sobretudo relacionadas com o SPD.

A maior, embora mais mal definida destas tendências, era a dos ecologistas radicais, apelidados "fundamentalistas" ou Fundis pelos seus adversários do partido e também pelos aliados destes últimos na imprensa. Os ecologistas radicais dominaram grandemente o comité federal até 1988, com Jutta Ditfurth como sua dirigente mais conhecida. Agarravam-se à ideia de uma nova política ambiental como meio de uma mudança sistémica total, levando ao fim da sociedade militar-industrial e do seu Estado. Nesta perspectiva, o Bundestag era apenas uma arena que permitiria aos activistas dos movimentos sociais atingir um público muito mais vasto, com uma vaga ideia de criar uma crise geral no sistema político; por isso, opunham-se, por princípio, em entrar em governos de coligação com o SPD. Sob a sua direcção, os primeiros congressos Verdes estabeleceram condições impossíveis de alcançar para negociações de coligação: o encerramento imediato de todas as fábricas nucleares, fim dos mísseis nucleares da NATO em território alemão, etc.

Os eco socialistas concentrados sobretudo nas cidades do norte eram uma força menor mas a sua contribuição intelectual era mais substancial. Os debates teóricos no jornal eco-socialista Moderne Zeiten (Tempos Modernos) edição em Hanover, analisavam o desastre ecológico como resultado das forças destrutivas, quer "civis" quer militares, do modo de produção capitalista. (15) No seu O Futuro dos Verdes de 1984, Thomas Ebermann e Rainer Trampert previam uma aliança da classe trabalhadora e dos movimentos sociais, argumentando que os processos de produção não podiam ser transformados sem a agência dos trabalhadores. Embora hostis ao aparelho de Estado e a qualquer projecto reformista, estavam preparados para ver a política parlamentar como forma de se alcançar certos projectos de lei e obstruir outros; assim, a ideia de "tolerar" um governo SPD minoritário, apoiando-o ou opondo-se-lhe, caso a caso, era largamente discutido nestes círculos.

Em contraste, os reformistas como Fischer, Cohn-Bendit e Hubert Kleinert chamados de "realistas" ou "Realos" por uma imprensa favorável, viam os Verdes como um parceiro minoritário de coligação com o SPD e estavam preparados para fazer compromissos drásticos de modo a entrarem no governo e implementarem "pequenas mudanças para melhor". Não em vão foram apelidados de "Koalos" pelos seus opositores ecologistas radicais que os viam como tentando social democratizar os Verdes. A sua base situava-se em Hesse e no "Realo Sul" Baviera e Baden-Württemberg. Nos seus contributos para o debate interno, os Realos argumentavam que a mudança do governo federal ocorrida em 1982, com a troca dos decisores do FDP do SPD para a CDU, abria a possibilidade de uma coligação Vermelha-Verde como uma "nova esperança"; criticando a posição da maioria ecologista radical de "oposição fundamental ao sistema", exigiam "uma política de reforma ecológica". (16) Como Kleinert explicava à revista Stern em 1988, isto obrigava a "uma mistura de políticas reguladoras mediadas pelo Estado e também uma economia ecológica com elementos de mercado". Fischer era ainda mais claro no seu livro Der Umbau der Industriegesellschaft (A Reconstrução da Sociedade Industrial) de 1989: "a reforma ecológica do sistema industrial será determinada pelo modo económico existente do capitalismo ocidental"; as forças do mercado eram um meio melhor de reconfigurar a economia e o ambiente do que a intervenção política. (17) Nisto, as ideias de Fischer vinham alinhar-se com as da quarta tendência, os eco libertários. Inicialmente, uma pequena minoria de indivíduos bem relacionados, estes Verdes do mercado livre viriam exercer uma influência crescente no partido através da sua aliança com os Realos.

Momento decisivo

As diferenças relativamente à política de coligação foram temporariamente remendadas por um acordo da conferência de 1984 que dizia que estas deviam ser decididas a nível local. Mas elas irromperam de novo em 1985 quando os Verdes de Hesse entraram num governo rural (Land) com o SPD, apesar das claramente boas relações deste com as "sujas" companhias farmacêuticas e nucleares. Com Fischer a presidir como o primeiro ministro de estado verde para o ambiente, o partido começou a quebrar virtualmente todas as promessas que alguma vez tinha feito, inclusive permitir que as fábricas nucleares continuassem a toda a força depois da explosão de Chernobyl, literalmente contra a posição oficial dos Verdes, até que Fischer foi finalmente despedido por Holger Börner do SPD. Este rotundo falhanço levou a furiosas denúncias na conferência dos Verdes e Jutta Ditfurth , a principal crítica de Fischer foi reeleita para o comité federal com uma maioria de dois terços. Nas eleições federais de 1987, os Verdes tiveram 8,3% , com três milhões de votos. Formavam agora um bloco de 42 parlamentares no Bundestag com direitos alargados a pessoal a tempo inteiro e fundos para investigação.

Mas o peso conjunto dos parlamentares estava agora a virar-se contra os radicais, ajudados pelas maiorias estruturais a favor do reformismo e da construção de coligações entre as Bürgerinitiativen de base comunitária e a base eleitoral dos Verdes. Recebiam apoio externo da instituição política e dos seus aliados nos media, apreensivos com a perspectiva de "instabilidade" e de políticas anti-NATO no Bundestag, num momento em que Gorbachev apostava num novo acordo para a Europa. Internamente, discussões ferozes por causa de um Manifesto das Mães que atacava as feministas Verdes por inadvertidamente privilegiarem mulheres sem filhos, serviam para confundir e desmoralizar os ecologistas radicais e a esquerda. Uma nova facção Grüner Aufbruch (Levantamento Verde), dirigida pelo membro do Bundestag Antje Vollmer e pelo ex parlamentar de Bremen do KBW Ralf Fücks, que declarava querer pôr um fim às infinitas querelas internas entre Realos e Fundis, reuniu em 1988 a conferência de Karlsruhe para purgar Ditfurth e os ecologistas radicais do comité federal e instalar os Realos e eles próprios no poder. A conferência também viu a emergência do Forum da Esquerda (Linkes Forum) formado por Ludger Volmer e outros: outra facção "realista" que se via como "não dogmática" e apostava na participação no governo. Ocorreu um azedo contra-ataque mas os radicais e os eco socialistas tinham sido definitivamente postos de lado.

Os Verdes ainda andavam às voltas por causa da sangria interna que se seguiu a estes conflitos quando o Muro de Berlim foi derrubado no Outono de 1989. Tornou-se evidente a extensão do partido e do seu eleitorado na cultura política da Alemanha Ocidental com a implosão do socialismo real no Leste. Os Verdes reagiram com perplexidade à perspectiva de unificação andando atrás dos desenvolvimentos moldados por outros. O partido estava dividido entre a indiferença e a paralisia. A esquerda enfraquecida expressou as suas profundas preocupações acerca das prováveis consequências da anexação económica para o povo da RDA e o empurrão expansionista de uma nova Grande Alemanha e assim opôs-se ao movimento pela unificação. Embora os Verdes Ocidentais fossem praticamente a única formação política da RFA a ter tido algum contacto directo com um segmento da oposição da Alemanha de leste, o domínio dos Realos da fracção do Bundestag tornou impossível usar isso para articular alternativas de ambos os lados do muro caído. O Partido Verde Oriental tinha saído do movimento ambientalista dissidente na RDA; tinha-se posicionado como uma oposição interna à emulação do regime do crescimento industrial do ocidente e tinha sempre lutado pela ideia de direitos civis colectivos e não apenas individuais. Diferia assim de forma bastante profunda dos três grupos liberais de direitos civis que chegaram em 1990 com apoio do Ocidente, para formar a aliança eleitoral de Bündnis 90. (18) A liderança Realo exercia agora o seu poder para dar apoio unilateral, dinheiro e equipamento a Bündnis 90 nas eleições para a Câmara Popular (Volkskammer) em Março de 1990, enquanto abandonava os Verdes Orientais. Foi neste contexto de retrocesso social e político, com a colonização da economia e da vida do Leste pelo Ocidente no meio da crescente violência racista e ainda com a marginalização de quaisquer políticas alternativas quer no Oriente quer no Ocidente, que muitos dos ecosocialistas, Ebermann, Trampert e outros, finalmente deixaram o partido na primavera de 1990, denunciando a sua conversão num pilar do regime.

Contra fatos

As coisas podiam ter sido de outra maneira? As crises ambientais dos anos 70 e 80 provavelmente ofereceram uma oportunidade maior para uma crítica renovada do capitalismo industrial que colocaria em primeiro plano o desastre ecológico como uma consequência necessária das forças destrutivas, " civis" e militares, desse modo de produção. As tentativas corajosas dos eco-socialistas de chegarem a uma compreensão mais profunda da ameaça letal que se coloca aos recursos limitados do mundo natural, permaneceram embrionárias. Contudo, um ambientalismo nascente dava a oportunidade de reconstituir a classe trabalhadora como um sujeito político, uma genuína colectividade do trabalho, quer na prática quer na teoria. Longe de serem preocupações "pós-materiais", o medo da poluição, da radio actividade e outros perigos da sociedade industrial juntavam trabalhadores da indústria química com assalariados da classe média. Uma coisa é certa, a maior parte da classe trabalhadora continuava a ser a favor da expansão industrial, como condição da sua própria prosperidade. Mas a crise do fordismo tornava um número crescente de trabalhadores, geralmente aqueles que eram mais especializados, mais propensos às exigências ambientais. No entanto, as correntes de esquerda dentro dos Verdes eram incapazes de desenvolver uma estratégia consistente a longo prazo, destinada a integrar a classe assalariada numa concepção renovada de eco-socialismo.

Os ecologistas radicais, mesmo fazendo uso de uma fraseologia socialista, mostravam pouco interesse numa teorização mais profunda; com efeito, mostravam frequentemente até uma profunda aversão a tal. A sua prioridade era o activismo instintivo dos movimentos sociais, por cujo sustento lutavam, mesmo quando começavam a cair em declínio. Os seus esforços não eram sem sucesso; usavam o Bundestag para elevar a consciência do público para as piores formas de poluição industrial, reforçavam a aliança contra a construção de novas fábricas nucleares e desmascaravam o sujo rosto do lóbi industrial do regime político. Mas sem alianças mais profundas que fossem para além dos meios políticos dos Verdes, no futuro a sua estratégia estava destinada ao fracasso. As parcerias exitosas com o trabalho organizado eram por vezes formadas a nível local, mas nunca eram desenvolvidas pela direcção federal como parte de um plano coerente.

Nem os mecanismos com intenção de parar o surgimento de uma oligarquia partidária provaram afinal ser eficazes. Apesar da sua profunda consciência dos perigos da hierarquização e da ênfase na democracia participativa, desde o princípio que os Verdes dependiam das celebridades mediáticas. Os Realos sabiam bem como jogar essa carta, pois não só tinham redes de jornalistas simpatizantes, como eles próprios se podiam oferecer à comunicação social como figuras dinâmicas, bem colocadas para domesticar o conjunto do partido. Os princípios iniciais de rotatividade dos mandatos, emprestados da Comuna de Paris e do anarco sindicalismo espanhol mostraram ser ineficazes contra esta camada de personalidades sequiosas de poder. Desde uma fase inicial que o partido mostrou sintomas de uma vida dupla: enquanto as maiorias continuavam a votar uma agenda radical nas assembleias Verdes, a fracção parlamentar dominada por reformistas, ignorava-os tacitamente, até que finalmente o partido substituiu. Por detrás desta mudança estavam as tendências regressivas dos anos 80; as forças que se juntavam da reacção neoliberal no ocidente, a estagnação do capitalismo do bem-estar, a renovada Guerra Fria, a lenta implosão do bloco do Comecon. Uma grande parte do eleitorado Verde não só chegara à maioridade durante este período, como procurava encostar-se a um lugar para si próprio nas esferas superiores do emprego do estado, dos media, das indústrias dos serviços ou no sector de negócios "alternativo" ou "bio" em expansão. E assim ajudava a configurar o partido como um lóbi para esta camada da classe média bastante satisfeita consigo mesma.

O partido da guerra

Contudo, nas primeiras eleições federais da Alemanha reunificada em Dezembro de 1990, os Realos triunfantes viram a taça da vitória ser-lhes retirada dos lábios. Nas terras do ocidente (Western Länder) o Partido Verde teve apenas 4,8%, ficando abaixo do limiar mínimo; os seus 44 lugares e recursos federais foram apagados e os seus dirigentes máximos excluídos do Bundestag. Só os Verdes da Alemanha Oriental, agora num casamento forçado com os Bündnis 90 passaram a fasquia dos cinco por cento, com 6,1%. A resposta de Fischer foi culpar os elementos radicais residuais pela humilhação eleitoral. Na conferência dos Verdes de 1991 em Neumünster, os Realos começaram por limpar o partido: os princípios da democracia participativa foram abolidos, os papéis de liderança individual e a "profissionalização" abraçados. Ludger Volmer do Linkes Forum (Fórum da Esquerda) foi eleito porta-voz do partido e uma série de reformas extremamente modestas foi redigida como base para futuras coligações Vermelhas-Verdes. Esta conferência viu a partida dos ecologistas radicais em torno de Ditfurth do que viam como um partido "autoritário, dogmático e hierárquico". Em 1993, Fischer distribuiu um anteprojecto ideológico para a "esquerda depois do socialismo" que era tão ecléctico como intelectualmente árido. (19) A questão do liberal reformismo Verde, o "cidadão consumidor liberal urbano" definido pelo "estilo de vida individual" enquanto "protesta contra a energia nuclear" e tem empatia pelos" pobres e marginalizados", era agora muito útil. (20)

Com o entusiástico apoio aos novos Verdes "reformados" por parte da comunicação social, o partido recuperou a sua posição no Bundestag em 1994, com 7,3% dos votos e 49 lugares. A restante ala esquerda do partido, agora representada pelo Linkes Forum e seus co-pensadores no círculo Babelsberg, tinha ficado presa na dinâmica da Realpolitik, com propostas de reforma cada vez mais fracas como base para participação no governo, apesar de experiências menores nas Länder — Baixa Saxónia, Hesse, Norte do Reno – Vestefália, Berlim. Se o agrupamento do Linkes Forum–Babelsberg secou a neoliberalização do partido durante algum tempo, foi pelo preço do compromisso eterno com os Realos, cuja vitória final foi só adiada até ao momento da coligação federal Vermelha-Verde de 1998. No fim, a política externa foi o teste crucial, com o desmembramento da Jugoslávia a oferecer terreno fértil para o intervencionismo militar unilateral da Nova Ordem Mundial. Como acima foi dito, Cohn-Bendit e Fischer tinham estado a preparar o terreno para a remilitarização da Alemanha, embora mesmo eles considerassem essencial um mandato da ONU para qualquer operação da Luftwaffe. A grande mudança para o SPD em 1998 levou os Verdes ao poder como parceiros de coligação, embora a sua própria parte da votação tivesse caído para 6,7%. Poucos esperavam, contudo, que o novo governo acasalasse para a guerra de expansão da NATO na Jugoslávia, ou que dirigentes Verdes em breve andassemà volta do Pentágono nos seus apelos para uma invasão terrestre.

O Fórum da Esquerda (Linkes Forum) organizava agora a sua própria capitulação. Ludger Volmer, nesta altura secretário de Estado de Fischer, foi o mais proeminente desertor, rompendo as anteriores promessas, para se juntar pela "necessidade" da guerra. Ele e outros tornar-se-iam as cabeças da nova perspectiva. Privados de aliados poderosos no comité federal que desafiassem directamente os Realos, e com a comunicação social quase unanimemente a promover a linha Schröder–Fischer, os dissidentes que restavam foram facilmente derrotados. Alguns idealistas aguentaram-se até aos dias de hoje dentro do partido, sobretudo agrupados em torno da rede Grüne Emanzipatorische Linke (Esquerda Verde Emancipatória), mas a sua continuada presença fez mais para dar uma certa capa de "esquerda" à direcção do que para apresentar os seus próprios projectos. Outros voltaram aos movimentos sociais, envolveram-se em novas redes políticas tais como a ATTAC, ou juntaram-se ao PDS e, ao Die Linke, depois de 2007. (21)

Não deve ser subestimada a importância do papel de Fischer em trazer não apenas os Verdes mas uma muito maior camada dissidente da sociedade alemã pós-68, alinhada com os requisitos dos Aliados. O antes auto intitulado anti-imperialista estava bem posicionado para assegurar a um público incerto que a Luftwaffe não tinha outro propósito nos Balcãs do que impedir um alegado genocídio, ajudando assim uma Alemanha reunificada a preparar-se para as guerras do novo século. Mesmo o geralmente antiquado Frankfurter Allgemeine afirmaria que "sem Fischer e a sua biografia, esta guerra podia ter levado a uma emergência doméstica, uma emergência estilo guerra civil". "Se tivéssemos perdido apoio público na Alemanha, tê-lo-íamos perdido em toda a aliança", referia o porta-voz da NATO Jamie Shea, descrevendo Fischer como um exemplo de um líder político que não "corria atrás da opinião pública, antes sabia como moldá-la". (22) Os veteranos de 1968 e a invocação retórica do nazismo foram necessários para santificar o bombardeamento alemão de Belgrado.

Uma vez lançados, os Verdes provaram ser dos mais entusiastas adeptos da guerra no Bundestag. Enquanto o Partido Verde dos EUA se opunha resolutamente à decisão da administração Bush de avançar com a guerra no Afeganistão em 2001, Fischer fazia das tripas coração para assegurar que Schröder tivesse o apoio dos Verdes para enviar tropas alemãs. Tal como os Verdes americanos escreviam numa carta aberta:

A maior parte dos Verdes em todo o mundo reconhecem que esta é uma guerra pelo domínio do petróleo e político e não fará nada para proteger os cidadãos americanos ou outros povos do terrorismo. Joschka Fischer e os Verdes que estão a apoiar o governo alemão puseram o poder à frente dos princípios. A sua afirmação de que têm de participar no esforço de guerra de modo a torná-la mais humana, é obscena. Parecem estar a dizer que ao manterem-se no governo podem tornar "humanitárias" as bombas de fragmentação ou os revestimentos de urânio empobrecido "livres de produtos cancerígenos". É um disparate. (23)

A resposta de Fischer e Schröder foi uma tentativa grotesca de representar a oposição à guerra, análoga ao "unilateralismo alemão" da era nazi, isto é, à agressão militar. Numa carta conjunta aos deputados do Bundestag, eles afirmavam:

A alternativa à participação seria um unilateralismo alemão que vai contra a lição decisiva do nosso passado: ligações multilaterais sim, renacionalização não. Um "novo unilateralismo alemão", qualquer que fosse a sua justificação, causaria incompreensão e desconfiança entre os nossos parceiros e vizinhos. (24)

Em 2002, o expediente eleitoral provou ser mais significativo do que tais lições da história e Schröder optou por se opor ao apoio à invasão do Iraque. Mas esta postura, que foi boa para manter no poder a coligação SPD-Verdes, não deveu nada à influência de Fischer. Tal como ele próprio explicou, Schröder foi inteiramente responsável pela linha do governo. Os Verdes, o agora mais seguro atlanticista dos partidos alemães, sancionaram o envio das "nossas tropas", para citar Angelika Beer a porta-voz verde da Defesa, uma antiga maoista e co-fundadora do partido, para a "guerra do terror" sempre em expansão e da Marinha alemã para patrulhar a costa leste africana. Segundo uma sondagem de 2011, não há nenhum segmento da população alemã que apoie mais entusiasticamente o envolvimento militar do que o eleitorado verde. (25) Quando o governo de Merkel–Westerwelle decidiu não se juntar à guerra anglo-franco-americana à Líbia, os seus críticos mais ferozes encontraram-se no Partido verde; enquanto a força aérea da NATO despejava bombas de urânio empobrecido sobre Tripoli, o antes partido da paz condenava a "atitude irresponsável" dos que tinham deixado a Luftwaffe em terra. Ao que parece, apercebendo-se de que a analogia com Auschwitz começava a sofrer de desgaste, o deputado Tom Koenigs argumentou que a Alemanha devia juntar-se ao bombardeamento para compensar o facto de que tinha vendido muitas armas à ditadura criminosa de Kaddafi, tendo Schröder e Fischer levantado o embargo das armas.

Eco-comerciantes

O Partido Verde no seu todo nunca tinha verdadeiramente lutado com a contradição entre sustentabilidade ambiental e o expansionismo económico que é inerente à acumulação capitalista; nem a maioria tinha desenvolvido uma crítica consistente ao que a princípio era um pequeno grupo de eco-libertários no seu interior que pregavam o "evangelho da eco-eficiência"; a favor dos mercados livres e em oposição à intervenção do Estado, isto era inicialmente dirigido do mesmo modo contra a "grande máquina" do industrialismo e do estatismo. (26) As políticas pró mercado começaram a ficar em primeiro plano quando os Realos tomaram controlo firme do partido em fins dos anos 80; com os crescentes deficits fiscais impossibilitando a despesa keinesiana marginal necessária para as políticas social-democráticas verdes, o pensamento neoliberal tornou-se cada vez mais predominante, como a única possível solução para a crise profunda da Alemanha Modelo. Mas os eco-libertários também passaram por uma transformação: o discurso de uma economia descentralizada e do individualismo cívico liberto da excessiva burocracia deu lugar ao entusiasmo pela tecnocracia das corporações globalizadas e dos aparelhos de estado, alumiando o caminho para um supostamente "capitalismo verde" em total concordância com os diktats do FMI e do Banco Mundial, dependendo dos mecanismos do mercado e das soluções tecnológicas.

Com o governo de Schröder–Fischer, os Verdes emergiram como os mais dinâmicos proponentes do programa de terapia de choque neoliberal para a Alemanha – Agenda 2010 – uma vez que a curta tentativa de Lafontaine para recuperar o keinesisanismo social do Reno tinha sido derrotada. Os salários e os subsídios de desemprego foram amarrotados, as taxas colectivas cortadas; incentivada pela expansão do crédito internacional, o aumento das exportações pós 2005 da Alemanha descolou no meio de níveis crescentes de desigualdade e de privação social. Os protestos contra a Agenda 2010 partiram o SPD, com os dissidentes mais tarde a ajudar a fundar o Die Linke e a coligação Vermelha-Verde a ser despejada nas eleições de 2005. Mas a filiação do novo modelo do Partido Verde não tinha escrúpulos. Tendo internalizado a ideia de que "todos os outros sistemas são piores do que o capitalismo", os Verdes acham agora impensável a ideia do crescimento zero, deixemos o "negativo" em paz. Tornaram-se estridentes adeptos em nome das corporações que esperam aproveitar da transição para as fontes de energia "verde", e dos que vendem produtos "ecológicos". Muito do capital político do partido deriva deste sector como força modernizadora, fornecendo o tipo de pseudo-ambientalismo que promete tornar-se uma mercadoria lucrativa face ao desastre global, preparando novos terrenos para a acumulação de capital. (27) Dos e-carros ao Desertec, promovem activamente as chamadas "tecnologias verdes" que já provaram não serem nem pacíficas nem ecológicas nas suas repercussões. (28)

Embora Fischer descartasse a ideia de os Verdes entrarem numa coligação encabeçada pela CDU depois das eleições de 2005, tais alianças em breve iam sendo feitas a nível do estado (com efeito, elas tinham sido promovidas pelos eco-libertários como Thomas Schmid desde o início dos anos 80). Em 2008, o ascenso do Die Linke ofereceu a possibilidade de uma coligação Vermelho-Vermelho-Verde em Hamburgo; os Verdes arruinaram isso, fazendo uma coligação com a CDU: Em Saarland, no ano seguinte, uma forte mudança para Die Linke deixou de novo os Verdes como decisores; vetaram uma coligação de esquerda com o SPD e o Die Linke de Lafontaine e entraram no governo com a CDU e o FDP. Na empedernida conservadora Baden-Württemberg, uma série de protestos massivos contra planos ambiciosos promovidos pela CDU no poder para reconstruir a estação de Estugarda com custos enormes, levou à eleição em 2011 do primeiro ministro presidente Verde Winfried Kretschmann. Kretschmann, antes um veterano do KBW, não podia ter sido mais convencido e vaidoso ao apresentar-se ao eleitorado como um católico da província de boa cepa pequeno-burguesa. Uma vez no poder, começou a retroceder em cancelar a nova estação, declarando que teria de haver um referendo. Os Verdes estão presentemente à frente da sua construção.


Os Verdes pagaram pouquíssimo em termos eleitorais pela sua mutação política. O eleitorado dos Verdes não se expandiu muito ao longo dos anos – partindo de 8.3% em 1987 até 10.7% em 2009 – mas envelheceu, ficou mais rico e mais conservador, tal como os dirigentes do partido. O apoio aos Verdes cresceu entre os votantes com formação universitária e entre os profissionais, enquanto foi sempre piorando em termos da classe trabalhadora e (especialmente) dos sindicatos. Em 1987, 60% dos votantes Verdes tinham menos de 35 anos; em 2009, 60% tinham mais de 40. No entanto, o partido tem um número significativo de novos seguidores entre os novos ricos do "milénio", sobretudo jovens mulheres: em 2009, a percentagem de votantes entre os 18 e os 25 anos era de 15,4%, subindo para quase 19% de mulheres nessa faixa etária. (29) Em Abril de 2013, uma sondagem sugeria que 54% dos votantes Verdes apoiariam uma coligação federal com a CDU este Setembro, enquanto 64% dos votantes CDU ficariam satisfeitos com um governo Negro-Verde em Berlim. (30) Cohn-Bendit disse ao Bild (25 de Abril 2013) que uma aliança CDU-Verde seria uma "opção realista", na condição de os Verdes ficarem com os ministérios das Finanças e da Energia. No entanto, na conferência do Partido Verdes em Abril de 2013 em Berlim, Jürgen Trittin, Renate Künast e Claudia Roth conduziram uma rebelião pró-SPD, votando por um aumento nas taxas mais altas como política do partido, para desapontamento de Kretschmann e do Presidente da Câmara de Tübingen, Boris Palmer. (31)

Se esta posição vai sobreviver aos resultados das eleições de Setembro de 2013 é coisa que se irá ver. Os Verdes podem ainda jogar o rei (ou a rainha) em Berlim. Tempo houve em que essa perspectiva podia ter causado ansiedade em Washington, mas os Verdes são hoje em dia o partido alemão preferido da Embaixada americana. E por que não? O Partido Verdes reduziu a luta pela emancipação universal aos trocos do consumismo "orgânico" e do "comércio justo". A inofensiva memória de um passado dissidente serve agora como inesgotável fonte de legitimidade não só pelas suas acções mas pelo poder alemão e pelo próprio aparelho de estado. A realidade está de pernas para o ar: ao que parece não foram os Verdes que mudaram mas sim o mundo, tornando a oposição à guerra ontem, a fonte moral para a "intervenção humanitária" hoje. Hoje, a NATO surge como o instrumento chave para o desarmamento nos documentos políticos do partido, enquanto o Tratado de Lisboa, a carta de facto da UE para uma oligarquia tecnocrática, se torna um passo maior para a democracia e a transparência e o domínio económico sobre a Grécia é exercido em nome da solidariedade europeia. Deixemos os conservadores fazer guerra debaixo do estandarte dos interesses nacionais; os Verdes enviarão o exército em nome de um justo e honrado "governo mundial dos cultos". Isto não é para sugerir que os Verdes fazem deliberadamente o contrário do que pretendem; pelo contrário, e muito mais assustador, eles podem mesmo querer dizer isso.

Notas:

[1] Agradeço a Friedrich Heilmann e Frieder Otto Wolf por gastarem tempo em partilhar comigo as suas opiniões políticas sobre a trajectória do Partido Verdes.

[2 ]'Ich bin der festen Überzeugung, daß deutsche Soldaten dort, wo im Zweiten Weltkrieg die Hitler-Soldateska gewütet hat, den Konflikt anheizen und nicht deeskalieren würden': Die Tageszeitung, 30 Dezembro 1994.

[3] Os órgãos de comunicação social alemães continuam a reproduzir a narrativa de que o governo de Schröder–Fischer foi apanhado desprevenido pelos desenvolvimentos na Jugoslávia; permanece pouco claro até que ponto o governo da RFA – com Kohl e Schröder – foi, ele próprio, uma força por detrás da guerra dos Balcãs. Por outro lado, foi sugerido que os E.U.A., preocupados com o facto de que a U.E. pudesse ficar mais independente com a hegemonia da Alemanha reforçada, agarraram a oportunidade para firmar a remilitarização da RFA dentro de uma NATO refundada. Vide Richard Holbrooke, 'America, A European Power', Foreign Affairs, vol. 74, no. 2, Março–Abril 1995.

[4] A revolta com a traição dos Vermelho-Verde em breve encontrou vozes aguerridas nas ruas: os manifestantes agarraram num grito dos anos de Weimar —Wer hat uns verraten? Sozialdemokraten! ('Quem nos traiu? Os Sociais-democratas!') — e acrescentaram uma frase Wer war mit dabei? Die Grüne Partei! ('Quem estava com eles? Os Verdes!')

[5] Em 2009, Joschka Fischer foi contratado como assessor para o projecto do gasoduto Nabucco, com um salário milionário; serve como "conselheiro estratégico sénior" no grupo Stonebridge de Madeleine Albright e consta da folha de pagamentos da BMW, da Siemens e de outras como consultor e "lobista"; Andrea Fischer, anterior Ministra da Saúde Verde faz lobby pelas indústrias dos cuidados de saúde e farmacêuticas; Gunda Röstel, antigo porta-voz dos Verdes, juntou-se à administração de Gelsenwasser/eon que naturalmente tem uma ala nuclear; Margareta Wolf, secretária principal Verde (Staatssekretärin) de Jürgen Trittin no Ministério Federal do Ambiente, tornou-se uma lobista paga para a indústria nuclear; Matthias Berninger, secretária principal Verde de Renate Künast no Ministério Federal da Defesa do Consumidor, Alimentação e Agricultura, trabalha agora para a Mars, Inc.; Marianne Tritz, a activista anti-nuclear Verde faz agora lobby pela indústria tabaqueira; Cohn-Bendit trabalha para um lobby financiado pela Amazon, Microsoft, Google, Yahoo, Ebay e Facebook para influenciar a legislação da UE em seu favor e assim por diante.

[6] Christian Schmidt: Wir sind die Wahnsinnigen, ("Nós somos os Loucos"), Düsseldorf 1998; Jutta Ditfurth, Krieg, Atom, Armut, Was sie reden, was sie tun (Guerra, Átomo, Miséria, o que vocês dizem, o que vocês fazem): Os Verdes, Berlim 2011.

[7] Luc Boltanski e Eve Chiapello, The New Spirit of Capitalism (O Novo Espírito do Capitalismo), Londres, 2007; Nancy Fraser, 'Feminism, Capitalism and the Cunning of History' (Feminismo, Capitalismo e a Astúcia da História), nlr 56, Março – Abril 2009.

[8] Paul Tiefenbach, Die Grünen: Verstaatlichung einer Partei, (Os Verdes: Nacionalização de um Partido) Colónia 1998.

[9] Frieder Otto Wolf aborda a questão de se a construção do partido deve estar na ordem do dia no seu ensaio, 'Party-Building for Eco-Socialists', Socialist Register 2007.

[10] Na sua época áurea, o KBW tinha uma fortuna de milhões, possuindo propriedades no novo quarteirão dos bancos de Frankfurte, dúzias de automóveis do último modelo e uma moderna impressora; algumas destas coisas foram para apoiar os Verdes. Vários dos seus quadros fizeram o seu percurso em outras instituições do Estado e do negócio e também no Partido Verde. 'Die Beerdigung war "eher heiter" (O enterro foi mais sereno), Die Tageszeitung, 18 Fevereiro1985.

[11] Werner Hülsberg, The German Greens: A Social and Political Profile, Londres 1988, p. 124.

[12] Alguns recém-chegados nem sequer partilharam a preocupação com questões ambientais. Como Fischer disse: "Uma vez por todas, vamos ser honestos: quem de nós está interessado na crise da água em Vogelsberg, nas auto-estradas em Frankfurt ou nas fábricas de energia nuclear em qualquer sítio, porque eles se sentem pessoalmente preocupados?" Vide Ditfurth, Krieg, Atom, Armut, (Guerra, Átomo, Miséria) p. 69.

[13] Em 1980, os Verdes entraram na Assembleia de Baden-Württemberg com 5.3%; em 1981, em Berlim com 7.2%; em 1982, em Hamburgo com 7.7%, na Baixa Saxónia com 6.5% e em Hesse com 8%; em 1983, em Bremen com 5.4%. Em 1984 começaram a ter grandes ganhos em cidades universitárias conservadoras—Heidelberg, Freiburg, Tübingen— chegando a seguir à CDU com 14–20%.

[14] Nos anos 80, os Verdes tinham 30,000–40,000 membros para 2–3milhões de votantes, ao passo que o SPD tinha um milhão de membros para 14–15milhões de votantes. Os ratios em 1983 eram de 87 votantes verdes para cada membro do partido; em comparação, para a SPD e os Democratas Cristãos eram de 16:1 e 20:1 respectivamente: Hülsberg, The German Greens, p. 108. Uma sondagem de 1989 dos 5,000 Verdes em Hesse revelou que 4,000 eram funcionários ou detentores de um mandato. As pressões sobre as mulheres eram particularmente fortes, dada a quota dos 50%, visto que as mulheres constituíam apenas 30-35% dos membros filiados. Vide Margrit Mayer e John Ely, eds, The German Greens: Paradox Between Movement and Party, Philadelphia 1998, p. 10.

[15] Ver também Frieder Otto Wolf, 'Eco-Socialist Transition on the Threshold of the 21st Century', nlr 1/158, Julho–Agosto 1985.

[16] Wolfgang Ehmke, Joschka Fischer, Jo Müller e outros, 'Verantwortung und Aufgabe der Grünen', Grüner basis-dienst, (Responsabilidade e Tarefa dos Verdes) no. 1, 1985, p. 15, citado em Roland Roth e Detlef Murphy, 'From Competing Factions to the Rise of the Realos', em Mayer e Ely, German Greens, p. 58.

[17] Stern, 4 Abril 1988, e Joschka Fischer, Der Umbau der Industriegesellschaft: Plädoyer wider die herrschende Umweltlüge, (A Reconstrução da Sociedade Industrial: Defesas contra a Mentira Reinante do Ambiente) Frankfurt-no-Meno 1989, pp. 59–61. Fischer tinha sequestrado o título do programa dos Verdes de 1986 que tinha tido uma forte orientação operária, exigindo a socialização dos bancos e dos meios de produção.

[18] Infelizmente, pouca coisa foi publicada sobre os dissidentes Verdes na RDA. Um primeiro relato que permanece valioso pode ser encontrado em Carlo Jordan e Hans Michael Kloth, Arche Nova, Berlim 1995. Friedrich Heilmann deu uma breve retrospectiva sobre o debate em torno da reunificação em 'Green Environmental Politics: Basic Values and Recent Strategies', em Ingolfur Blühdorn, ed., The Green Agenda: Environmental Politics and Policy in Germany, Keele 1995, pp. 143–66.

[19] Joschka Fischer, Die Linke nach dem Sozialismus, (A Esquerda depois do Socialismo) Hamburgo 1993.

[20] Vide o Manifesto Realo por Joschka Fischer, Hubert Kleinert, Udo Knapp e Jo Müller, 'Sein oder Nicht-sein: Entwurf für ein Manifest grüner Realpolitik' (Ser ou Não Ser: Rascunho para um Manifesto da Realpolitik Verde), 1988.

[21] Claro que não há garantia que com o tempo o Die Linke rivalize com os Verdes. De acordo com uma fuga de informação, o dirigente do partido Gregor Gysi deu garantias privadas ao embaixador dos EUA acerca da político do Dia Linke em relação à NATO: a sua exigência de um novo pacto de segurança que envolvesse a Rússia foi uma mera manobra táctica para adocicar a ala radical do partido, que de outro modo poderia insistir para que a Alemanha abandonasse a NATO unilateralmente.

[22] Vide Frank Schirrmacher, 'Der lange Weg zu sich selbst: Wofür Joschka Fischer haftet'(O longo caminho para si próprio: por que responde Joschka Fischer?) , Jornal Frankfurter Allgemeine, 1 Outubro 2001; Jamie Shea: entrevista para a rádio Westdeutscher Rundfunk documentário televisivo, 'Es begann mit einer Lüge'(Começou com uma mentira), Fevereiro 2001.

[23] Carta Aberta aos Verdes, Open Letter to the German Greens, 7 Novembro 2001, citado em Jim Green, 'German Greens Off to War Again', Synthesis/Regeneration 27, Winter 2002.

[24] Citado em Verdes, 'German Greens Off to War Again'.

[25] Leipziger Volkszeitung, 22 Abril 2011.

[26] Pedi emprestado o termo "evangelho da eco-eficiência"que sintetiza perfeitamente a quimera de um capitalism amigo do ambiente, a partir do estudo inovador de Juan Martínez Alier, The Environmentalism of the Poor: A Study of Ecological Conflicts and Valuation, Cheltenham 2002. Este ramo ilusório de ambientalismo "amigo do mercado" é especialmente popular em Baden-Württemberg, coração da indústria automóvel alemã e também do eco-libertarismo e primeiro território (Land) a lançar um governo encabeçado por Verdes em 2011.

[27] Os representantes verdes são agora muito bem vindos para expor os seus pontos de vista junto aos accionistas dos velhos gigantes dos combustíveis fósseis tais como a RWE ou a EON, onde os podem avisar de que "não é só o planeta mas o valor das suas acções que está em risco" como recentemente fez o deputado europeu Sven Giegold.

[28] Ozzie Zehner escreveu uma crítica irresistível sobre o uso da tecnologia "eco-friendly"para fazer a lavagem um modelo insustentável de economia de crescimento sem fim com implicações catastróficas na natureza e na humanidade: Zehner, Green Illusions: The Dirty Secrets of Clean Energy and the Future of Environmentalism, Lincoln, ne 2012.

[29] Vide Lutz Mez, 'Who Votes Green?', em Mayer e Ely, German Greens, p. 82; Bernard Wessels, Jan Engels e Gero Maas, 'Demographic Change and Progressive Political Strategy in Germany', Centre for American Progress, Washington, dc 2011; Federal Returning Officer, Wahl zum 17 Deutschen Bundestag am 27 September 2009 (Eleição para 17 Bundestag Alemães), ch. 4, 'Wahlbeteiligung und Stimmabgabe der Männer und Frauen nach Altersgruppen' (Afluência às urnas e voto dos homens e das mulheres segundo grupos etários), Wiesbaden 2010.

[30] Forsa poll, citado em Derek Scally, 'Greens contemplate a post-election future with Merkel', Irish Times, 26 April 2013.

[31] A experiência de Trittin como Ministro do Ambiente na coligação federal Vermelha-Verde devia ter sido instrutiva. "Em áreas-chave, Trittin era forçado a implementar as directivas de Schröder, mas assumir a responsabilidade política. Em Junho de 1999, por exemplo, Schröder ordenou a Trittin que vetasse a passagem de uma nova directiva da UE sobre a reciclagem de carros velhos, aparentemente seguindo directamente intervenções da indústria automóvel alemã para o chanceler".Rüdig, 'Germany', em Ferdinand Müller-Rommel e Thomas Poguntke, eds, Green Parties in National Governments, Londres 2002, p. 98. A viagem de Trittin de Babelsberg para Bilderberg—ele participou na conferência do grupo em 2012 em Chantilly, Virginia—é quase tão impressionante como o caminho seguido por Joschka Fischer.

Mas Fischer era agora Ministro dos Negócios Estrangeiros e Vice-Chanceler do primeiro governo federal Vermelho-Verde da Alemanha. Esquecidas as suas previsões, Fischer e a direcção do Partido Verde viram como obrigação moral da Alemanha, se não entrar mais uma vez pela Jugoslávia adentro, pelo menos lançar bombas no seu território de uma altura segura e, naturalmente, para fins humanitários. As bases Verdes estavam mais relutantes: nenhum partido da Europa Ocidental tinha sido tão claramente identificado com as exigências do movimento da paz pelo desarmamento nuclear e pelo fim da NATO. Os Verdes alemães tinham raízes históricas profundas na oposição à militarização da Alemanha Ocidental e em movimentos de solidariedade com as lutas anti-imperialistas. Mas, depois de longas lutas internas, o partido tinha-se tornado num membro estabelecido dentro do sistema parlamentar alemão. Estava tacitamente compreendido que entrar no governo federal envolvia apoiar quer a NATO quer a "economia de mercado". O membro Verde do Parlamento Europeu Daniel Cohn-Bendit, um apoiante de longa data de Fischer, tinha estado a preparar o terreno para a intervenção militar desde o início das guerras de secessão da Jugoslávia e apelava agora para o envio de tropas terrestres – uma invasão terrestre. No entanto, o manifesto eleitoral dos Verdes de 1998 declarava que os Verdes alemães se oporiam quer à "aplicação da paz militar quer às missões de combate"; aspirava à retirada, não à expansão da NATO.

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