28 de janeiro de 2014

O mito do republicano moderado

O colapso do republicanismo liberal não surgiu a partir de uma certa perda de decência em uma época de polarização, mas a partir da transformação da luta de classes na América.

Kristoffer Smemo


Gov. de Michigan George Romney e seu filho, Mitt, olhando para o recinto da Feira Mundial de Nova Iorque em Maio de 1964. Fonte: AP

Tradução / A ascensão do Tea Party tem gerado uma poderosa nostalgia entre os liberais por uma geração de republicanos "sãos" e "razoáveis". Era uma vez, e assim o conto vai, esta raça de moderados estava disposta a fazer concessões, para acomodar muitas das reformas básicas do New Deal.

Essa narrativa nostálgica de republicanismo moderado venera um momento político cujo mais claro exemplo é o governo de Dwight Eisenhower, que disse, em carta frequentemente citada ao seu irmão direitista, Edgar, que qualquer republicano que "tentasse abolir a segurança social, o seguro-desemprego e pusesse fim às leis trabalhistas e aos programas de agricultura familiar" seria aniquilado nas eleições.

A acomodação emburrada de Eisenhower ao estado do bem-estar representou uma concessão tática a alguns específicos elementos da ordem política despertados pelas reformas do New Deal. Mas outro conjunto de republicanos – que emergiram pela primeira vez nos anos 1930 e 1940 nos níveis local e dos estados por toda a área urbano-industrial, no nordeste, no meio-oeste e na costa oeste dos EUA, locais onde a população trabalhadora mobilizara-se mais efetivamente sob os auspícios do New Deal – foi adiante. Esses republicanos, autoidentificados "republicanos liberais", fizeram concessões muito maiores, concessões estratégicas.

Essas concessões brotaram de um entendimento segundo o qual mobilizações de massa do povo trabalhador haviam criado um mundo no qual o New Deal estaria permanentemente integrado na paisagem política. Esses Republicanos liberais, de fato, tomaram a retórica e as instituições do próprio New Deal para forjar uma nova política conservadora, capaz de reprimir e de conter a constelação ascendente dos movimentos trabalhistas e de defesa de direitos civis.

Em muitos sentidos, foi o entrincheiramento defensivo da política do New Deal consumado por esses republicanos – muito mais, até, que a adesão proativa de seus contrapartes liberais democratas – que cimentou a hegemonia do liberalismo do meio do século. Sobretudo, foi o empoderamento político e econômico dos trabalhadores do chão de fábrica, que ativamente fizeram um novo pacto [New Deal], que fez nascer a notável habilidade daquele governo para transformar a paisagem política.

Embora projetado para priorizar a recuperação econômica capitalista, e eivado de exclusões discriminatórias, a legislação do New Deal, como as leis Wagner, da Seguridade Social e dos Padrões Justos de Trabalho, mesmo assim essas leis forçaram Republicanos e Democratas a se entender, fosse como fosse, com uma noção mais capacitante de "direitos civis" – noção que se ampliou, do direito do trabalho, diretamente para organizar na direção da igualdade racial e de gênero.

A avançada da militância trabalhista, para não falar das grandes migrações rumo às cidades norte-americanas, dividiram claramente o Partido Republicano entre representantes de distritos rurais e profundamente ansiosos ante o avanço da mudança social, e políticos urbanos, desesperados para preservar a própria relevância e viabilidade eleitoral, no meio do que Samuel Lubell chamou de "a revolta da cidade".

Um segmento significativo do Partido Republicano efetivamente se "New Dealizou" em um esforço para se adaptar a essas insurgências. New Dealizados ou Republicanos liberais não só reconheceram a legitimidade dos sindicatos; eles também cederam à pressão organizada para identificar a pobreza, a segregação e a discriminação no trabalho como problemas sociais que exigem a intervenção do governo. Bem como os seus antepassados Progressistas, os republicanos New Dealizados reconheceram que a produção em massa e a sociedade de consumo de massa só poderia ser governado por um estado expansivo.

Em termos bem claros, esses Republicanos liberais que primeiro chegaram a ter proeminência nacional nos anos 1940 e 1950 – como o governador de New York e duas vezes candidato à presidência Thomas Dewey; o governador da Califórnia e Juiz da Suprema Corte Earl Warren; o ex-executivo da indústria automobilística e governador de Michigan George Romney; e o herdeiro (e também ele) barão-ladrão e governador de New York Nelson Rockefeller – todos esses lutaram com unhas e dentes contra as possibilidades social-democrtas que o New Deal despertara e conjurara. Mas cada um desses fez uma imensa concessão estratégica, e todos assumiram que o New Deal permaneceria como realidade política.

Instituições como a Comissão Nacional de Relações Trabalhistas, ou a Administração da Seguridade Social serviram como alicerces para a estabilidade social, mas tiveram de ser despolitizadas e isoladas da pressão de baixo para cima, para assim preservarem as hierarquias profundamente entrincheiradas na sociedade norte-americana. Assim, o Republicanismo 'New Deal-izado' incorporou a luta entre reformadores que queriam remodelar a sociedade norte-americana e conservadores que lutavam para retardar as transformações sociais forjadas pela Grande Depressão, II Guerra Mundial e a distribuição profundamente desigual da riqueza do pós-guerra.

Para diferenciar os republicanos liberais e seus rivais conservadores da "Velha Guarda", como Robert Taft de Ohio, é preciso distinguir entre o campo da política eleitoral e a política legislativa. No momento crucial, no final dos anos 1940 quando a social-democracia norte-americana do pós-guerra ainda era uma (evanescente) possibilidade, Taft era um político com ambições presidenciais e, o mais importante de tudo, era um político que precisava ser reeleito senador. Havia co-patrocinado a legislação sobre moradias públicas do pós-guerra, ao lado do leão liberal Robert Wagner de New York, e depois de tremenda mobilização sindical contra seu projeto de reforma da legislação trabalhista, ele suavizara a própria posição sobre o trabalho organizado e estava à caça dos votos da classe trabalhadora no estado de Ohio, em campanha para a reeleição em 1950.

Diferente do troglodita, odiador-de-sindicalistas e Republicano conservador de New Jersey Fred Hartley Jr., Taft precisava de votos em todos o estados, não só num único distrito conservador. Como Corey Robin argumentou recentemente (e corretamente), Taft, anticomunista, antisindicalista, anti-New-Deal, não pode ser reabilitado hoje como alguma espécie de ícone da moderação; defini-lo como líder dos Republicanos de direita significa reconhecer as concessões táticas parceladas que Taft teve de fazer, sob as circunstâncias de um movimento trabalhista ainda potente. Como Eisenhower (e mais tarde Nixon), as concessões táticas que Taft teve de fazer só reconheceram o poder imediato e a popularidade da ordem do New Deal, não a sua legitimidade a longo prazo.

Republicanos realmente liberais registraram seu máximo impacto no plano estadual, ao assumir a durabilidade do New Deal como ordem política. Embora as eleições de 1936 sejam lembradas como o início de um regime federal de Democratas-pró-New Deal, apenas dois anos depois os Republicanos tiveram sua reestreia, que foi ganhando gás, estado após estado, e assim persistiu pelas duas décadas seguintes. Na eleição de 1944, 26 estados e 70% da população do país elegeram governadores Republicanos. Em estados como Califórnia, Michigan e New York, Republicanos New-Deal-izados pela primeira vez chegaram ao governo, capitalizando elementos da reforma do New Deal, ao mesmo tempo em que criticavam furiosamente a política de classe do mesmo New Deal.

Harold Stassen de Minnesota e Earl Warren ambos conseguiram ser eleitos defendendo resolutamente as virtudes da "livre" negociação coletiva, para minimizar o envolvimento coercitivo e desequilibrador dos governos, nas relações de trabalho. Warren opôs-se firmemente a leis antissindicais de direito ao trabalho, e até convenceu empresas fabricantes de aviões do sul da Califórnia e furiosamente conservadoras a retirar o apoio que estavam dando a um projeto de lei, de 1944, que proibia as closed shop, argumentando que esses ataques só faziam energizar o movimento operário.

George Romney, que denunciou Walter Reuther como "o homem mais perigoso em Detroit" durante a onda de greves 1945-46, também lutou para manter um sindicalismo aceitável para a comunidade empresarial, desconfiada depois de décadas de conflito no chão de fábrica. Como presidente da American Motors, lutou para tornar rotineira a livre negociação, e pregava que se limitasse a 10 mil o número de membros por sindicato. Esses esforços contribuíram para que os sindicatos acabassem cercados, como num gueto, naquele regime de relações trabalhistas privadas que reafirmava o tremendo poder de classe do capital sobre os trabalhadores.

A luta contra a militância favorável ao trabalho, nas indústrias, levou Republicanos New Deal-izados a forjar alianças com os segmentos mais elitizados da classe trabalhadora nos EUA. Enquanto o chão de fábrica de corporações gigantescas como a General Motors tornava-se ninho para a "cultura da unidade" proletária dos sindicatos reunidos no Congress of Industrial Organizations (CIO), os sindicatos reunidos na American Federation of Labor (AFL) da economia socialmente homogênea de trabalhadores especializados, brancos e do sexo masculino, representavam um mundo muito menos interessado no potencial igualitarista do New Deal.

A ravina cultural e ideológica que separava a massa de trabalhadores não especializados e diversos, e a "aristocracia do trabalho" dos tipicamente "velha guarda", do sexo masculino e nascidos nos EUA, criava um eleitorado ansioso para preservar seu lugar privilegiado num mercado de trabalho altamente estratificado e ansioso por mais e mais alianças. (O fato de os sindicatos ligados à AFL, caminhoneiros e empregados da construção civil, dentre outras categorias, tenham crescido duas vezes mais depressa que os sindicatos ligados ao CIO entre 1937 e 1945 só tornou mais atrativos os sindicatos organizados por categoria.)

Republicanos New Deal-izados viram nos sindicatos organizados por categoria uma classe trabalhadora fracionada, capaz de neutralizar a influência do CIO, de tendência esquerdizante; e de dividir a base laboral da tão alardeada coalizão do New Deal. Assim, o governador da California durante a guerra Earl Warren contava, como importantes aliados, com os Teamsters (então engajados numa feroz disputa por jurisdição contra o [sindicato] International Longshore and Warehouse Union ligado aos comunistas). Em Minnesota, o governador Harold Stassen e os Republicanos que o seguiram nos anos 1940s e ’50s indicaram sindicalistas de sindicatos de categorias para administrar a burocracia de mediação do trabalho estabelecida para paralisar o poderoso sindicato local dos Teamsters, liderado por trotskistas.

A posição dos Republicanos New-Deal-izados sobre discriminação no trabalho, a principal questão de direitos civis naquele momento, também cresceu a partir de um esforço para conter ou esterilizar qualquer oposição. Contra ativistas sindicalizados a favor de direitos civis, que reivindicavam a criação de uma agência institucionalmente forte, nos moldes da [comissão] National Labor Relations Board, competente para fazer frente à discriminação racial sistemática, os Republicanos aprovaram comissões fracas, sem poder algum, apenas 'investigativas' e para educação pública, e deixaram os serviços de processar e condenar para cortes judiciais, que avaliariam os confrontos, caso a caso.

Em New York, Thomas Dewey hasteou a bandeira do Partido de Lincoln sob intensa pressão da Frente Popular Negra da Cidade de New York [New York City’s Black Popular Front] e implantou no estado uma Comissão para Práticas de Emprego Justo [Fair Employment Practices Commission (FEPC)], que se basearia no que o sociólogo Anthony Chen descreve como "modelo de regulação social individualizado e indiferente à cor". Em Michigan, no final dos anos 1940 e início dos 1950, um bloco minoritário de Republicanos liberais, na luta para ultrapassar os rivais conservadores, construiu alianças cautelosas e frágeis com Democratas trabalhistas liberais, próximos da União dos Trabalhadores na Indústria Automobilística [United Auto Workers] para tentar aprovar (sem sucesso) a legislação da Comissão para Práticas de Emprego Justo.

Mais recentemente, nos anos 1960, George Romney foi presidente da primeira Comissão para Práticas de Emprego Justo estadual, mas, como no modelo que Dewey apoiara, lhe faltavam poderes efetivamente capacitantes; a Comissão sofreu de falta crônica de funcionários e de fundos, e os trabalhadores relatavam que preencher uma queixa gerava mais problemas do que ajudava a solucionar.

O governador Earl Warren também jogou com os direitos civis, mas mais como meio para esvaziar o que ele via como subversão "comunista" entre as minorias raciais. Na verdade, a mais bem conhecida opinião de Warren para a Suprema Corte, em Brown v. Board of Education, que sancionou um processo hesitante, em etapas, para a de-segregação racial das escolas, emergiu, funcionalmente, como gesto simbólico não concebido para desmontar as hierarquias racistas da sociedade norte-americana.

Nos últimos anos da década de 1960, contudo, Republicanos New Deal-izados descobriram que sua versão de moderação acabara sem eleitores. O Movimento dos Direitos Civis tornara-se cada vez mais militante, a Guerra do Vietnã desacreditara o internacionalismo da política exterior bipartidária e grande parte do movimento trabalhista acabara presa no tipo de negociação coletiva muito estreitamente concebida pela qual os Republicanos liberais tanto lutaram. Assim se abriu uma via para uma direita Republicana armada com livre mercado obrigatório, nada de sindicatos e nada de governo que oferecesse alguma moderação ou acomodação.

A fracassada campanha de Barry Goldwater em 1964 e a eleição de Richard Nixon quatro anos depois puseram fim às aspirações presidenciais dos Republicanos Romney e Rockefeller – o que evidenciou a vulnerabilidade eleitoral da posição dos Republicanos New Deal-izados. O viés "lei e ordem" da campanha de Nixon, por exemplo, empurrou Rockefeller a ordenar que policiais do estado de New York abrissem fogo no pátio da prisão de Attica e a aprovar leis antidrogas draconianas. Enquanto isso, o esforço de Nixon para construir uma "Nova Maioria" com a classe trabalhadora tinha raízes profundas em estratégias muito anteriores, entre os Republicanos New Deal-izados, para fraturar a nascente coalizão do New Deal.

Mas a destruição provocada pela fuga de capitais continuou a devorar a economia política sindicalizada do Nordeste e Meio-oeste do país, desestabilizando a base eleitoral, não só do trabalhismo liberal dos Democratas, mas também de um Republicanismo liberal baseado numa détente política com a classe trabalhadora organizada. As oportunidades econômicas e políticas que o conservadorismo do "Cinturão do Sol" criou finalmente capacitaram o Partido Republicano a abandonar de vez qualquer apoio a impostos, taxas, regulações e relações trabalhistas de cunho industrial antigo, em meio às crises dos anos 1970.

As lições têm dois aspectos. Primeiro, mesmo quando enfrentaram o novo consenso por trás da reforma social patrocinada pelo estado, os Republicanos New Deal-izados propuseram-se muito precisamente a restringir aquelas forças – um amálgama poderoso de classe trabalhadora e ativismo pró-direitos civis – que haviam sido empoderadas pelas políticas e ideologias igualitárias do New Deal.

Em segundo lugar, e mais importante: se há algo a considerar com nostalgia na política de meados do século, não é alguma ausência, ou alguma falta que façam Republicanos cujo conservadorismo foi temperado com mínimas pitadas de racionalidade e compaixão. É o fato notável de que a classe operária, quando organizada, tem o poder de remodelar até os setores mais reacionários da política americana.

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