23 de dezembro de 2010

Obscurantismo contemporâneo

Alain Badiou

Le Monde

Tradução / Como devemos chamar as construções intelectuais extraordinárias que são os trabalhos de Darwin, Marx e Freud? Elas não são estritamente ciências, mesmo se a biologia – incluindo a biologia contemporânea – for pensada dentro da moldura darwiniana. Elas certamente também não são filosofias, mesmo se a dialética, esse antigo nome platônico para filosofia, tenha ressurgido com Marx. Elas não podem ser reduzidas a práticas às quais esses autores jogaram luz, mesmo se a experimentação prova a razão de Darwin, mesmo se políticas revolucionárias tentam verificar a hipótese comunista de Marx, e mesmo se a cura psicanalítica coloque Freud nas fronteiras sempre confusas da psiquiatria.

Vamos chamar o “século 19” de período que vai da Revolução Francesa à Revolução Russa. Eu proponho chamar essas três tentativas de dispositivos de pensamento geniais e, afirmando isso, em um certo sentido esses dispositivos identificam o que o século 19 trouxe, como uma nova força, para a história da emancipação humana. Depois de Darwin, os movimentos da vida humana e da existência, irrevogavelmente desvencilhados de toda transcendência religiosa, foram deixados à imanência de suas próprias leis.

Depois de Marx, a história dos grupos humanos foi removida tanto da opacidade da providência e da onipotência quanto das inércias opressivas da propriedade privada, da família e do Estado. Ela foi deixada ao jogo livre das contradições dentro da qual um futuro igualitário deve ser ser escrito – mesmo se for com esforço e incerteza. Depois de Freud, ficou compreendido que não há alma, cujo treinamento seria sempre algo moralizante, opondo os desejos primordiais ao que a infância traz com o que será. Ao contrário, é no centro desses desejos, particularmente dos desejos sexuais, que a possível liberdade do sujeito está em jogo – uma liberdade em que ele ou ela dependem da linguagem, esse resumo da ordem simbólica.

Por muito tempo, todas as formas de conservadorismo atacaram esses três grandes dispositivos. É natural. É muito bem conhecido o fato de que nos Estados Unidos, mesmo hoje, as instituições educacionais são geralmente forçadas a opor o criacionismo bíblico à evolução em um sentido darwiniano. A história do anti-comunismo praticamente sobrepõe-se à da ideologia dominante em todos os grandes países em que o capital-parlamentarismo reina sob a capa da “democracia”. A psiquiatria positiva, que vê desvios e anomalias em todos os lugares que devem ser contra-atacados com o uso brutalidades químicas, tenta desesperadamente “provar” que a psicanálise é uma impostura.

Por muito tempo, particularmente na França, não obstante, os imensos efeitos emancipatórios, em pensamento e ação, de Darwin, Marx e Freud, prevaleceram em meio a argumentos ferozes, revisões agonizantes e críticas criativas. O movimento desses dispositivos dominou a arena intelectual. Conservadorismos estavam na defensiva.

Depois do vasto processo de normalização em escala global que começou nos anos 1980, todo tipo de pensamento ou mera crítica emancipatória é inconveniente. Portanto, nós temos visto um esforço atrás do outro para remover todos os traços desses grandes dispositivos de pensamento que são cunhados como “ideologias” onde eles são exatamente a crítica racional da ideologia por si só. A França, de acordo com Marx o “lugar clássico da luta de classes”, se viu sob a ação de pequenos grupos de renegados da “década vermelha” (1965-1975), que estão na linha de frente dessa reação. Nós temos testemunhado a multiplicação de “livros negros” sobre o comunismo, sobre a psicanálise, sobre o progressismo e sobre tudo que não é igual à estupidez contemporânea: consumir, trabalhar, votar e calar a boca.

Entre essas tentativas, que, sobre o rótulo de “modernidade”, reciclam as tolices obsoletas liberais da década de 1820, as menos detestáveis não são aquelas derivadas de um materialismo do prazer que atua como uma espécie de vigia, particularmente em relação à psicanálise. Longe de ser qualquer tipo de emancipação, o imperativo “aproveite!” é aquele que as tão proclamadas sociedades ocidentais nos ordenam a obedecer. E isso para nos prevenir de ver o que realmente conta: o processo em que algumas verdades disponíveis são liberadas, que os grandes dispositivos de pensamentos costumavam considerar.

Portanto, devemos chamar de “obscurantismo contemporâneo” todas as formas, sem exceção, de supressão e erradicação do poder contido, para o benefício de toda a humanidade, em Darwin, Marx e Freud.

9 de novembro de 2010

É hora de rejeitar o consenso de Washington

Em Seul, a reunião do G-20 tem a chance de abandonar o dogma que reteve o mundo em desenvolvimento

Ha-Joon Chang


A reunião do G-20 esta semana, nos dias 11 e 12, em minha cidade natal, Seul, na Coreia do Sul, tem uma importância simbólica - é a primeira vez que a nova principal mesa de negociações do mundo reúne-se fora dos países do G-7, assumindo o papel de principal organismo de coordenação mundial de políticas de governo.

Agora que a reação inicial à crise terminou, o G-20 está buscando uma missão. Meus colegas coreanos querem um foco em "desenvolvimento", especialmente dos países mais pobres do mundo. Mas antes de acolher a iniciativa com braços abertos, é preciso perguntar que tipo de desenvolvimento o G-20 deve tentar estimular.

Um lugar evidente onde buscar inspiração é a história recente do país anfitrião. No curso de minha vida, a Coreia do Sul viveu um dos maiores milagres desenvolvimentistas - meio século atrás, sua renda per capita anual era de cerca de US$ 80, ou menos de metade da de Gana, à época. Hoje, essa renda é de US$ 19 mil, colocando o país em pé de igualdade com Portugal e Eslovênia. Como isso foi possível?

A Coreia do Sul, evidentemente, fez coisas que a maioria das pessoas concorda, são importantes para o desenvolvimento econômico, como investimentos em infraestrutura de saúde e educação. Mas, além disso, praticou uma série de políticas hoje supostamente más para o desenvolvimento econômico: ampla utilização de política industrial seletiva, combinação de protecionismo com subsídios às exportações; duras regulamentações sobre investimentos estrangeiros diretos; ativa, ainda que não particularmente ampla, utilização de empresas estatais; frouxa proteção a patentes e outros direitos de propriedade intelectual; pesada regulamentação das atividades financeiras nacionais e internacionais em um país.

Se a proposta coreana for aprovada, a reunião em Seul pode representar um divisor de águas: o início de uma nova abordagem desenvolvimentista realista e historicamente esclarecida, após décadas de equivocado fundamentalismo de mercado.

O G-7 foi sempre extremamente relutante ao recomendar essas políticas "heterodoxas" e insistiu que o pacote do Consenso de Washington - abertura, desregulamentação e privatização - era a receita certa para todos. Quando confrontados com o caso coreano, os defensores do Consenso de Washington tentaram descartá-lo, qualificando-o de exceção. Entretanto, a história das decolagens desenvolvimentistas na maioria dos países do G-7 - especialmente no Reino Unido, EUA, Alemanha, França e Japão - é, na verdade, muito mais próxima do modelo coreano do que qualquer coisa parecida com a agenda Consenso de Washington. As políticas "não ortodoxas" usadas pela Coreia e quase todos os outros atuais países ricos precisam ser seriamente consideradas em qualquer discussão inteligente e aberta sobre opções de desenvolvimento.

Será que as coisas vão mudar, com o lançamento da agenda de desenvolvimento do G-20? Uma análise das propostas do governo coreano sugere que podemos assumir um otimismo cauteloso.

A Coreia quer que o G-20 se concentre numa longa lista de questões ligadas ao desenvolvimento: infraestrutura, investimento privado e criação de emprego, educação, maior acesso dos países pobres aos mercados dos países ricos, maior inclusão financeira; estabelecimento de elementos para resistir a choques financeiros ou climáticos, segurança alimentar; governança.

Esse é um bom começo. Os coreanos rejeitam deliberadamente a abordagem "tamanho único" de décadas anteriores, em favor do que denominam "modelo iPhone dinâmico" - um conjunto de aplicativos de desenvolvimento para cada ocasião, inspirados em experiências bem-sucedidas em diversos países.

Mas existem algumas lacunas, também. É visível a falta de uma política industrial. A experiência coreana mostra que o sucesso exportador sustentável durante um longo período, pelo qual o país é famoso, demanda proteção e incubação de "setores nascentes" mediante uma política industrial seletiva, em vez de livre comércio e desregulamentação.

Equanimidade recebe atenção insuficiente. Em especial, não há menção a reforma agrária e a outras medidas para redistribuição de riqueza, que criaram a coesão social que tornou o desenvolvimento coreano posterior politicamente mais sustentável.

Então, vem a questão do dinheiro. É verdade que a agenda do G-7 por vezes parecia equiparar desenvolvimento a ajuda. No entanto, as propostas coreanas foram muito longe em rumo oposto, fazendo menção apenas passageira à importância de melhorar os fluxos de ajuda, tanto em qualidade como em quantidade.

Se essas lacunas puderem ser sanadas, a reunião do G-20 em Seul poderá representar um divisor de águas: o início de uma nova abordagem desenvolvimentista realista e historicamente esclarecida, após décadas de equivocado fundamentalismo de mercado. Claro, o G-20 é um fórum de discussão, mas fórum de discussões têm um papel- eles confirmam ou contestam o "senso comum" de uma época. Um Consenso de Seul baseado na verdadeira história de meu país poderá ser mais justo e mais eficaz do que o de Washington, que perdeu sua credibilidade intelectual e pragmática.

1 de novembro de 2010

O capitalismo e a maldição da eficiência energética

O retorno do paradoxo de Jevons

John Bellamy Foster, Brett Clark e Richard York

Monthly Review

Tradução / A maldição da eficiência energética, mais conhecida como Paradoxo de Jevons – a ideia de que a maior eficiência energética (e de recursos materiais) resulta não em conservação, mas em seu uso aumentado – foi primeiramente colocada em questão por William Stanley Jevons, no século XIX. Apesar de esquecido durante a maior parte do século XX, o Paradoxo de Jevons foi redescoberto nas últimas décadas, e está no centro das disputais ambientais do presente.

O século XIX foi o século do carvão. Foi o carvão, acima de tudo, que moveu a indústria britânica, e, portanto, o império britânico. Mas em 1863 o industrial Sir William George Armstrong, em seu discurso anual para a Associação Britânica para o Avanço da Ciência, questionou se a supremacia mundial britânica na produção industrial poderia ser ameaçada no longo prazo pela exaustão das reservas disponíveis de carvão.[1] Naquele tempo, nenhum estudo econômico havia sido levado a cabo sobre o consumo de carvão e o seu impacto no crescimento industrial.

Em resposta, William Stanley Jevons, que se tornaria um dos fundadores da economia neoclássica, escreveu, em apenas três meses, um livro intitulado A questão do carvão: uma investigação sobre o progresso da nação, e a provável exaustão de nossas minas de carvão (1865). Jevons argumentou que o crescimento industrial britânico se baseava no carvão barato, e que o seu custo ascendente, à medida que minas mais profundas eram exploradas, acarretaria a perda da “supremacia comercial e manufatureira”, possivelmente “no período de uma geração”, e um limite do crescimento econômico, gerando um “estado estacionário” da indústria “em um século”.[2] Nenhuma tecnologia ou substituição do carvão por outras fontes energéticas, segundo ele, poderia alterar isso.

O livro de Jevons teve enorme impacto. John Herschel, uma das grandes figuras da ciência britânica, escreveu em apoio à tese de Jevons que “estamos usando nossos recursos e expandindo nossa vida nacional a uma taxa enorme e crescente, e assim é iminente um acerto de contas, mais cedo ou mais tarde”.3 Em abril de 1866, John Stuart Mill saudou A questão do carvão na Casa dos Comuns, discursando em favor da proposta de Jevons de compensar a exaustão desse recurso natural crítico através do corte da dívida nacional. Essa causa foi assumida por William Gladstone, chanceler de Exchequer, que instou o Parlamento a agir para reduzir a dívida, baseado nas expectativas incertas para o desenvolvimento nacional futuro, devido à prevista exaustão rápida das reservas de carvão. Como resultado, o livro de Jevons rapidamente se tornou um bestseller.4

Mas Jevons estava totalmente equivocado em seus cálculos. É verdade que a produção britânica de carvão, em resposta à demanda crescente, mais do que dobrou nos trinta anos seguintes à publicação do livro. Durante o mesmo período nos Estados Unidos, a produção de carvão, a partir de um nível muito menor, cresceu dez vezes, apesar de ainda permanecer abaixo do nível britânico. 5 Mas não ocorreu nenhum “pânico do carvão” duradouro, devido à exaustão dos suprimentos de carvão disponíveis, no final do século XIX e início do século XX. O maior erro de Jevons foi igualar a energia para a indústria com o carvão em si, sem prever o posterior desenvolvimento de energias substitutas do carvão, como o petróleo e a hidroeletricidade.6 Em 1936, setenta anos depois do furor parlamentar gerado pelo livro de Jevons, John Maynard Keynes comentou sobre a projeção de um declínio da disponibilidade de carvão feita por Jevons, observando que ela foi “dist orcida e exagerada”. Pode-se acrescentar que o seu escopo foi bastante estreito.7

O Paradoxo de Jevons

Mas há um aspecto do argumento de Jevons – o próprio Paradoxo de Jevons – que continua a ser considerado um dos insights pioneiros na economia ecológica.8 No capítulo 7 d’A questão do carvão, entitulado “Sobre a economia de combustível”, Jevons respondeu à noção comum de que, uma vez que “o suprimento decrescente de carvão será enfrentado com novos modos de usá-lo de maneira eficiente econômica”, não haveria problema de suprimento, e que, de fato, “a quantidade de trabalho útil extraído do carvão pode ser aumentada muitas vezes, enquanto a quantidade de carvão consumido permanece estacionária ou diminui”. Em aguda oposição a isso, Jevons contrapôs que a maior eficiência no uso do carvão como fonte energética apenas gerava um aumento de demanda para esse recurso, e não diminuição de demanda, como se poderia esperar. Isso porque a melhora na eficiência levava a uma expansão econômica adicional. “É uma grande confusão”, escreveu ele, “supor que o uso econômico de combustível equivale a uma diminuição de consumo. Na verdade ocorre exatamente o contrário. Como regra, novos modos de economia levarão a um aumento de consumo, de acordo com um princípio reconhecido em muitos casos semelhantes... Os mesmos princípios se aplicam, com ainda mais força e distinção, para o uso de um agente geral como o carvão. É a própr ia economia no seu uso que leva ao seu consumo extensivo”.9

“Tampouco é difícil ver”, escreveu Jevons, “como surge esse paradoxo”. Toda inovação tecnológica na produção de máquinas a vapor, destacou ele em uma detalhada descrição da evolução da máquina a vapor, resultara numa máquina termodinamicamente mais eficiente. E cada máquina nova, aperfeiçoada, resultara em uso aumentado de carvão. A máquina de Savery, uma das primeiras máquinas a vapor, destacou ele, era tão ineficiente que “praticamente, o custo do funcionamento impedia a sua utilização; ela não consumia carvão, porque a sua taxa de consumo era muito alta”.1 0 Modelos posteriores que eram mais eficientes, como a famosa máquina de Watt, levaram a cada vez maiores demandas por carvão, a cada aperfeiçoamento. “Cada um desses aperfeiçoamentos da máquina a vapor, quando levado a cabo, não faz mais do que acelerar novamente o consumo de carvão. Todo ramo da manufatura recebe um novo impulso – o trabalho manual é substituído ainda mais por trabalho mecânico, e obras muito prolongadas, que não eram comercialmente viáveis com o uso da energia mais cara, podem ser executadas.1 1

Ainda que Jevons tenha pensado que esse paradoxo se aplicava a numerosos casos, o seu foco n’A questão do carvão foi inteiramente no carvão como “agente geral” da industrialização e como estímulo para indústrias de bens de investimento. O poder do carvão para estimular o avanço econômico, o seu uso acelerado, apesar dos avanços na eficiência, e a severidade dos efeitos a ser esperados do declínio de sua disponibilidade, eram todas devido ao seu papel duplo como o combustível necessário para a moderna máquina a vapor e como a base para a tecnologia do alto-forno. Em meados do século XIX, o carvão era material-chave para altos-fornos e na fundição do ferro – o produto industrial crucial e base do domínio industrial.12 Foi em virtude de seu maior desenvolvimento nessa área, como “manufatura do mundo”, que a Grã-Bretanha foi responsável pela metade da produção mundial de ferro em 1870.13 A maior eficiência no uso do carvão, portanto, traduziu-se em maior capacidade de produzir ferro e expandir a indústria em geral, levando a uma crescente demanda por carvão. Como coloca Jevons:

Se a quantidade de carvão usado em um alto -forno, por exemplo, diminui em comparação com a produção, os lucros do comércio aumentarão, novos capitais serão atraídos, e o preço do ferro-gusa cairá, mas a demanda por ele aumentará; e, ao final, o maior número de fornos mais do que compensará a sua diminuição de consumo. E se nem sempre é esse o resultado em um ramo específico da manufatura, devemos lembrar que o progresso em qualquer de seus ramos estimula uma nova atividade em muitos outros, e leva indiretamente, se não diretamente, a mais incursões em nossos veios de carvão.[14]

O que tornou esse argumento tão poderoso à época é que pareceu imediatamente óbvio para todos os contemporâneos de Jevons que o desenvolvimento industrial dependia da capacidade de expandir a produção de ferro a baixo custo. Isso implicava que uma redução na quantidade de carvão necessário para um alto-forno seria imediatamente traduzida em uma expansão da produção industrial, da capacidade industrial, e sua habilidade de capturar uma maior porção do mercado mundial – e vem daí a maior demanda por carvão. A tonelagem de consumo de carvão pelas indústrias do ferro e do aço da Grã-Bretanha, em 1869, de 32 milhões de toneladas, excedeu a quantidade combinada usada nas manufaturas em geral (28 milhões de toneladas) e estradas de ferro (2 milhões de toneladas).1 5

Essa foi a era do capital e a era da indústria na qual o poder industrial era medido em termos da produção de carvão e ferro-gusa. A produção de carvão e ferro na Grã-Bretanha cresceu em estreita correlação nesse período, ambas triplicando entre 1830 e 1860.1 6 Como coloca o próprio Jevons: “Depois do carvão... o ferro é a base material do nosso poder. Ele é osso e o tendão de nosso sistema de trabalho. Analistas políticos trataram corretamente a invenção do alto-forno de carvão como aquela que mais contribuiu para a nossa riqueza material... A produção de ferro, o material de toda a nossa maquinar ia, é a melhor medida de nossa riqueza e poder”.1 7

Assim, nenhum dos leitores de Jevons deixaria de perceber os efeitos multiplicadores na indústria de uma melhora na eficiência no uso do carvão, ou as “incursões aumentadas” às “minas de carvão” que isso geraria. “A economia”, ele concluiu, “multiplica o valor e a eficiência de nosso material principal; ela aumenta indefinidamente a nossa riqueza e de nossos meios de subsistência, e leva ao aumento de nossa população, obras e comércio, o que é gratificante para o presente, mas deve levar a um fim antecipado”.18

Uma lei natural

Ao tratar o carvão como “o material chefe” da indústria britânica, Jevons enfatizou o que ele via como uma mudança no desenvolvimento industrial, a partir do que ele chamava de “produtos básicos do país”, para outro. A grande batalha sobre as Corn Laws já haviam apontado para o fato – já apontado por seu pai, Thomas Jevons, entre outros – de que um menor preço para um produto básico expandiria fortemente a sua demanda, e em último caso, escassez (que, no caso do trigo, deveria ser satisfeita com importações).1 9 Mas ao final do século XIX, era o carvão, e não o trigo, que estava no centro de um tipo de escassez malthusiana.20

“A tese de Jevons nesse livro”, observou Keynes, “era que a manutenção da prosperidade e liderança industrial da Grã-Bretanha requeria um crescimento contínuo de sua indústria pesada numa escala que implicaria uma demanda de carvão em progressão geométrica. Jevons propôs esse princípio como uma extensão da lei da população de Malthus, e a designou como Lei Natural do Crescimento Social... A partir daí, basta um pequeno passo para colocar o carvão na posição ocupada pelo milho na teoria de Malthus”.21

Estendendo a teoria de Malthus ao carvão, Jevons escreveu: “A nossa subsistência não depende mais da nossa produção de trigo. A decisiva revogação das Corn Laws nos impele do trigo para o carvão. Ela marca, de qualquer maneira, a época na qual o carvão foi finalmente reconhecido como o produto básico do país; ela marca a ascensão do interesse manufatureiro, que é apenas outro nome para o desenvolvimento do uso do carvão”. Jevons argumentou que embora a população tenha “quadruplicado desde o começo do século XIX”, o consumo de carvão cresceu “dezesseis vezes”, e que esse crescimento da produção de carvão “per capita” era uma necessidade do desenvolvimento industrial acelerado, que teria de acabar.22

Mas a maior contradição por detrás do paradoxo que Jevons levantou – a dinâmica global de acumulação ou reprodução expandida intrínseca ao capitalismo – não foi analisada n’A questão do carvão. Como um dos primeiros economistas neoclássicos, Jevons abandonou a ênfase central na classe e na acumulação que distinguiu o trabalho dos economistas clássicos. As suas análises econômicas tomaram a forma de uma teoria do equilíbrio estático. Não há nada no seu argumento que lembre a noção de Karl Marx do capital como valor que se autovaloriza, e a consequente necessidade de contínua expansão.

O quadro de referência econômico de Jevons estava, portanto, mal-equipado para tratar concretamente questões como acumulação e crescimento econômico. A explosão da população, da indústria e da demanda por carvão (como o “material central” da vida industrial) era, em sua visão, simplesmente o produto de uma abstrata Lei Natural do Crescimento Social, elaborada a partir de Malthus. Ao enfocar o capitalismo mais como um fenômeno natural do que como uma realidade socialmente construída, ele não podia encontrar uma explicação para a demanda econômica continuamente crescente, que não fosse mencionar o comportamento individual, a demografia malthusiana e o mecanismo do preço. Ao invés de enfatizar o próprio motivo do lucro, ele se baseou na lei abstrata da energia de Justus von Liebig: “A civilização, diz o Barão Liebig, é a economia de energia, e a nossa energia é o carvão”.23

As forças que comandam a expansão econômica, alimentando a industrialização e resultando na demanda crescente por carvão, eram assim estranhamente fracas e maldesenvolvidas n’A questão do carvão, refletindo o fato de que faltava a Jevons uma concepção realista da economia capitalista e da sociedade.

Hegemonia industrial, não sustentabilidade ecológica

A hegemonia britânica, e não a ecologia, é o pano de fundo das considerações de Jevons. Apesar da ênfase que ele coloca na escassez de recursos e da sua importância para a economia ecológica, seria um erro considerar o caráter d’A questão do carvão como predominantemente ecológica. Jevons não se concentrou nos problemas ambientais associados à exaustão das reservas energéticas da Grã-Bretanha ou do resto do mundo. Ele nem mesmo mencionou a poluição do ar, do solo e hídrica que acompanhava a produção de carvão. Charles Dickens, décadas antes, descreveu as cidades industriais, com a sua queima concentrada de carvão, como caracterizadas por uma “praga de fumaça, que obscurece a luz, e suja o ar melancólico” em uma progressão incessante de “vômito negro, manchando todas as coisas vivas ou inanimadas, apagando a face do dia, e embrulhando todos esses horrores com uma densa nuvem negra”.24 Disso, não há nem sequer um traço em Jevons. Da mesma maneira, as doenças e riscos ocupacionais enfrentados pelos trabalhadores nas minas de carvão e nas fábricas alimentadas a carvão não constaram em sua análise, como testemunhado pelas Condições da classe trabalhadora inglesa de Friedrich Engels.25

De fato, não havia em Jevons nenhuma consideração pela natureza como tal. Ele simplesmente assumiu que os distúrbios e degradações em massa da terra eram um processo natural. Ainda que a falta de carvão, como fonte energética, tenha originado questionamentos em sua análise sobre a possibilidade do crescimento sustentado, a questão da sustentabilidade ecológica em si nunca foi abordada. Já que a economia tem de permanecer em contínuo movimento, Jevons desconsiderou fontes sustentáveis de energia, como a água e o vento, como inconfiáveis, limitadas a um tempo e local particular.26 O carvão ofereceu ao capital uma fonte energética universal para operar a produção, sem distúrbios dos padrões comerciais.

Jevons, portanto, não tinha resposta real para o paradoxo que levantou. A Grã-Bretanha poderia ou rapidamente usar a sua fonte barata de combustível – o carvão sobre o qual a sua industrialização repousava – ou poderia usá-lo mais lentamente. Ao final, escolheu usá-lo rapidamente: “Se pródiga e corajosamente avançarmos na criação de nossas riquezas, tanto materiais quanto intelectuais, é difícil estimar a grandeza da influência positiva que podemos atingir no presente. Mas a manutenção de tal posição é fisicamente impossível. Temos que fazer a escolha decisiva entre uma grandeza breve, mas verdadeira, e uma longa e continuada mediocridade”.27

Expresso nesses termos, o caminho a ser tomado era claro: buscar a glória no presente e aceitar a perspectiva de uma posição drasticamente degradada para as gerações futuras. Uma vez que Jevons não tinha resposta para o que ele viu como a exaustão rápida e inevitável dos estoques de carvão da Grã-Bretanha – e a capital e o governo britânicos não viram outro curso concebível a não ser “business as usual” – a resposta ao livro de Jevons tomou a forma predominante, por estranho que pareça, de uma justificação adicional para a redução da dívida nacional. Isso foi apresentado como uma medida preventiva face à eventual desaceleração da indústria. Como escreveu Keynes, “A proposição de que estávamos vivendo às custas de nosso capital natural” levou à resposta irracional de que era necessário levar a cabo “uma rápida redução do peso da dívida”.28

De fato, a quase totalidade do impacto político do livro de Jevons ficou confinado, ironicamente, ao seu penúltimo capítulo, “Taxas e dívida nacional”. Jevons e outras figuras, como Mill e Gladstone, que assumiu o seu argumento, nunca defenderam seriamente a ideia da conservação do carvão. Não há nenhuma menção na análise de Jevons ao ponto levantado por Engels em uma carta a Marx, na qual o capitalismo industrial era caracterizado como um “esbanjador de energia solar passada”, como evidenciado pelo seu “esbanjamento [de] nossas reservas de energia, nosso carvão, metais, florestas, etc.”.29 Para Jevons, a ideia de uma alternativa ao business as usual nunca foi discutida, e sem dúvida nunca foi cogitada. Nada estava mais distante da sua visão econômica do que a transformação das relações sociais de produção em direção a uma sociedade governada não pela busca do lucro, mas pelas necessidades genuínas das pessoas e pelos requisitos sócio-ecológicos da sustentabilidade. Ao final, os problemas que ele previu foram adiados no curso real da história pela expansão do uso de outros combustíveis fósseis – petróleo e gás natural –, assim como de energia hidrelétrica, e pela corrente exploração de recursos no mundo inteiro. Tudo isso, porém, preparou o terreno para o nosso dilema planetário atual e para o retorno do Paradoxo de Jevons.

A redescoberta do Paradoxo de Jevons

O Paradoxo de Jevons foi esquecido no auge da era do petróleo durante três quartos do século XX, mas ressurgiu nos anos 70 devido à crescente preocupação sobre a escassez de recursos associada com a análise dos Limites do crescimento feita pelo Clube de Roma, exacerbada pela crise do petróleo e da energia de 1973-74. Enquanto medidas de eficiência energética eram tomadas, economistas se debruçavam sobre a sua efetividade. Isso levou à ressurreição, no fim dos anos 70 e início dos 80, da questão geral posta pelo Paradoxo de Jevons, na forma do que foi chamado de “efeito rebote”. Essa era a noção bastante simples de que ganhos de eficiência propiciados pela engenharia normalmente levam a uma diminuição do preço efetivo de uma mercadoria, com isso gerando aumento de demanda, de maneira que os ganhos de eficiência não causavam um decréscimo no consumo de igual medida. O Paradoxo de Jevons foi frequentemente relegado à versão mais extrema do efeito rebote, no qual há um backfire, ou um rebote de mais de 100% da “economia de engenhar ia”, resultando em aumento, e não em diminuição, do consumo de um dado recurso.30

Os otimistas da tecnologia tentaram argumentar que o efeito rebote é pequeno, e, portanto, os problemas ambientais podem ser resolvidos em grande medida tão somente através da inovação tecnológica, com os ganhos de eficiência sendo traduzidos em processamento reduzido de energia e materiais (desmaterialização). Porém, há fortes evidências empíricas de um efeito rebote substancial. Por exemplo, avanços tecnológicos nos veículos automotores, que aumentaram a quantidade média de milhas percorridas por galão em 30% nos Estados Unidos a partir de 1980, não reduziram a energia total utilizada pelos veículos. O consumo de combustível por veículo permaneceu constante, enquanto os ganhos de eficiência levaram ao aumento não apenas do número de automóveis e caminhões nas estradas (e das milhas viajadas), mas também do seu tamanho e “performance” (taxa de aceleração, velocidade de cruzeiro, etc.) – de maneira que hoje SUV’s e minivans povoam as autoestradas estadunidenses. No nível macro, o Paradoxo de Jevons pode ser constatado no fato de que, ainda que os Estados Unidos tenham dobrado a sua eficiência energética desde 1975, o seu consumo de energia aumentou dramaticamente. Juliet Schor nota que nos últimos 35 anos: a energia gasta por dólar do PIB foi cortada pela metade. Mas ao invés de cair, a demanda energética aumentou em cerca de 40%. Além disso, a demanda cresce mais rapidamente naqueles setores que têm os maiores ganhos de eficiência – uso de energia no transporte e residencial. A eficiência de refrigeradores aumentou 10%, mas o número de refrigeradores em uso aumentou em 20%. Na aviação, o consumo de combustível por milha caiu mais de 40%, mas o uso total de combustível cresceu 150%, porque a milhagem por passageiro aumentou. Veículos têm história semelhante. E com a explosão da demanda, tivemos explosão das emissões. O dióxido de carbono desses dois setores aumentou em 40%, o dobro da taxa da maior economia.

Economistas e ambientalistas que tentam medir os efeitos diretos da eficiência na diminuição do preço e o efeito rebote imediato geralmente tendem a ver esse efeito como relativamente pequeno, no intervalo de 10 a 30% em ramos de alto consumo energético, como aquecimento e resfriamento doméstico e automóveis. Mas uma vez que são incorporados os efeitos indiretos, aparentes no nível macro, o Paradoxo de Jevons permanece extremamente significativo. É no nível macro que os efeitos de escala se tornam claros: aperfeiçoamentos na eficiência energética podem diminuir o custo efetivo de vários produtos, impelindo a economia em geral e expandindo o consumo energético em geral.3 1 Economistas ecológicos como Mario Giampietro e Kozo Mayumi argumentam que o Paradoxo de Jevons somente pode ser entendido em um modelo macroevolucionário, onde aperfeiçoamentos na eficiência resultam em mudanças nas matrizes da economia, de maneira que o efeito agregado é o aumento da escala e do ritmo do sistema como um todo.[32]

A maior parte das análises do Paradoxo de Jevons permanece abstrata, baseadas em efeitos tecnológicos isolados, e apartados do processo histórico. Elas deixam de examinar, tal como Jevons, o caráter da industrialização. Além disso, elas estão ainda mais distantes de um entendimento realista do caráter orientado à acumulação do desenvolvimento capitalista. Um sistema econômico devotado aos lucros, à acumulação e à expansão econômica sem fim tenderá a usar todos os ganhos da eficiência energética ou redução de custos para expandir a escala agregada da produção. A inovação tecnológica será, portanto, claramente configurada para esses mesmos fins expansivos. Não é mera coincidência que todas as grandes inovações que dominaram os séculos XVIII, XIX e XX (ou seja, a máquina a vapor, a estrada de ferro e o automóvel) se caracterizaram pela sua importância no direcionamento da acumulação do capital e pela retroação positiva que geraram no que concerne ao crescimento econômico como um todo – de maneira que os efeitos de escala na economia que resultaram de seu desenvolvimento necessariamente suplantaram as melhoras na eficiência tecnológica.33 A conservação no agregado é impossível para o capitalismo, por mais que a razão entradas/saídas possa aumentar na engenharia de um dado produto. Isso porque todas as economias tendem a estimular a formação de mais capital (caso canais de investimento estejam disponíveis). Esse é especialmente o caso quando recursos industriais essenciais – o que Jevons chamou de “materiais centrais” ou “produtos básicos” – estão em jogo.

A falácia da desmaterialização

O Paradoxo de Jevons é o produto de um sistema econômico capitalista que é incapaz de conservar na macroescala, pois ele é configurado para maximizar o processamento energético e material, desde a fonte de recursos até o depósito de final de lixo. A economia de energia em tal sistema tende a ser usada como um meio para o desenvolvimento adicional da ordem econômica, gerando o que Alfred Lotka chamou de “máximo fluxo energético”, ao invés de uma mínima pr odução de energia.34 A desconsideração da conservação absoluta de energia (em oposição à relativa) está imbricada na natureza e na lógica do capitalismo, como um sistema integralmente devotado aos deuses da produção e do lucro. Como colocou Marx: “Acumulai! Acumulai! Esse é o mandamento!”35

Visto no contexto da sociedade capitalista, portanto, o Paradoxo de Jevons demonstra a falácia das noções correntes de que os problemas ambientais com que a sociedade se depara podem ser resolvidos com meios puramente tecnológicos. Economistas ecológicos hegemônicos frequentemente se referem à “desmaterialização” ou “desacoplamento” do crescimento econômico em relação ao consumo de energia e recursos. O aumento da eficiência energética é com frequência tomado como uma indicação concreta de que o problema ambiental está sendo resolvido. Mas a economia de materiais e energia, no contexto de um dado processo de produção, como vimos, não é nada novo; ela é parte da história cotidiana do desenvolvimento capitalista.36 Cada nova máquina a vapor, como enfatizava Jevons, era mais eficiente do que a anterior. “Processos de economia de matérias-primas”, como notou o sociólogo ambiental Stephen Bunker, “são mais velhos do que a Revolução Industrial, e foram dinâmicos ao longo da história do capitalismo”. Toda noção de que a redução do processamento material por unidade de renda nacional é um fenômeno novo é, portanto, “profundamente a-histórica”.37

O que se negligencia, então, em noções simplistas de que a uma maior eficiência energética normalmente leva a um aumento da economia agregada, é a realidade da relação do Paradoxo de Jevons – através da qual a economia de energia é usada para promover novas formações de capital e a proliferação de mercadorias, demandando recursos cada vez maiores. Ao invés de uma anomalia, a regra de que a eficiência aumenta o consumo energético e material é integral ao própr io “regime do capital”.38 Como colocado em O peso das nações, um estudo empírico importante das saídas materiais nas últimas décadas em cinco nações industrializadas (Áustria, Alemanha, Holanda, Estados Unidos e Japão): “Ganhos de eficiência propiciados pela tecnologia e novas práticas gerenciais tem sido compensadas por [aumentos da] escala do crescimento econômico”.39

O resultado é a produção de montanhas sobre montanhas de mercadorias e custos unitários decrescentes que levam a um maior gasto de recursos materiais. Além disso, no capitalismo monopolista tais mercadorias tomam cada vez mais a forma de valores de uso artificiais, promovidos por um vasto sistema de propaganda e projetados para instigar uma demanda cada vez maior por mercadorias e pelo valor de troca que elas representam – como um substituto para a satisfação de necessidades genuinamente humanas. Bens desnecessários e desperdício são produzidos com labuta inútil para incrementar valores puramente econômicos, em detrimento do ambiente. Qualquer desaceleração desse processo de destruição ecológica, sob o sistema atual, implica o desastre econômico.

Aos olhos de Jevons, a “escolha decisiva” levantada pela continuação do business as usual era simplesmente “entre uma breve mas verdadeira grandeza [nacional] e uma longa e continuada mediocridade”. Ele optou pela primeira – o máximo fluxo energético. Um século e meio mais tarde, em nossa economia muito maior e mais global – mas não menos cara – não é mais apenas a supremacia nacional que está em jogo, mas o destino do próprio planeta. Certamente, há aqueles que defendem que deveríamos “viver bem agora e deixar que o futuro cuide de si mesmo”. Escolher esse caminho, porém, é flertar com o desastre planetário. A única resposta real para a humanidade (incluindo as futuras gerações) e para a Terra como um todo é alterar as relações sociais de produção, para criar um sistema no qual a eficiência não seja mais uma maldição – um sistema mais elevado, no qual igualdade, desenvolvimento humano, comunidade e sustentabilidade sejam objetivos explícitos.

Notas

1. Sir William George Armstrong, Presidential Address, Report of the 33rd Meeting of the British Association for the Advancement of Science, Held at Newcastle-upon-Tyne (London: John Murray, 1864), li-lxiv. Ver também William Stanley Jevons, The Coal Question: An Inquiry Concerning the Progress of the Nation, and the Probable Exhaustion of Our Coal -Mines, ed. A. W. Flux (London: Macmillan, 1906 [1865]), 32-36.

2. Jevons, The Coal Question, xxxi, 274.

3. John Herschel, citado em Juan Martínez-Alier, Ecological Economics (Oxford: Basil Blackwell, 1987), 161 -62.

4. Mic hael V . White, “Frightening the ‘Landed Fogies’ Parliamentary Politic s and the Coal Question,” Utilitas 3/2 (November 1991): 289-302; Leonard H. Courtney, “Jevons’s Coal Question: Thirty Years A fter,” Journal of the Royal Statistical Society 60/4 (December 1897): 789; John Maynard Keynes, Essays and Sketches in Biography (New York: Meridan Books, 1956), 132. O enfoque de Gladstone em relação à obra de Jevons foi inicialmente um estratagema tático, usado politicamente para justificar o argumento a favor da redução da dívida, que nunca foi de fato implementada no orçamento

5. Courtney, “Jevons’s Coal Question,” 797.

6. Jevons não estava sozinho nesse erro. John Tyndall, um dos maiores físicos da época, observou em 1865: “Não vejo nenhuma perspectiva para um substituto do carvão como fonte de potência motriz.” Citado em Jevons, The Coal Question, xi. Vale mencionar que a perfuração do histórico poço de petróleo de Edwin Drake no noroeste da Pensilvânia ocorrera apenas seis anos antes, em 1859, e o seu significado ainda não havia sido bem compreendido.

7. Keynes, Essays and Sketches in Biography, 128.

8. Mario Giampietro and Kozo Mayumi, “A nother V iew of Dev elopment, Ecological Degradation, and North–South Trade,” Review of Social Economy 56/1 (1998): 24-26; John M. Polimeni, Kozo Mayumi, Mario Giampietro, and Blake Alcott, eds., The Jevons Paradox and the Myth of Resource Efficiency Improvements (London: Earthscan, 2008).

9. Jevons, The Coal Question, 137-41.

10. Ibid., 141 -43.

11. Ibid., 152-53.

12. Ainda em 1842 as fornalhas inglesas ainda consumiam dois terços do carvão do país, mas quando Jevons escreveu o seu livro, mais de duas décadas mais tarde, isso havia diminuído para cerca de um quinto do consumo nacional e dificilmente se aplicaria a esse argumento, que se focava na demanda industrial de carvão como a maior e indispensável origem da demanda. Como disse Jevo ns, “Não me refiro aqui ao consumo doméstico de carvão. Esse pode sem dúvida ser diminuído sem problemas maiores além de diminuir nosso conforto domésticos e alterar de alguma forma nossos hábitos nacionais arraigados”. Ver Jevons, The Coal Question, 138-39; Eric J. Hobsbawm, Industry and Empire (London: Penguin, 1969), 69.

13. Eric J. Hobsbawm, The Age of Capital, 1848-1873 (New York: Vintage, 1996), 39-40.

14. Jevons, The Coal Question, 140-42.

15. Os dados de 1869 foram fornecidos na edição anotada da obra de Jevons de A. W. Flux. Em 1903 as relações mudaram, com as indústrias do ferro e do aço respondendo por 28 milhões de toneladas de consumo de carvão (menos do que no tempo de Jevons), enquanto o consumo das manufaturas em geral cresceu para 53 milhões de toneladas e das ferrovias para 13 milhões de toneladas. Ver Jevons, The Coal Question, 138-39.

16 Hobsbawm, Industry and Empire, 70-71.

17. Jevons, The Coal Question, 245.

18. Ibid., 156.

19. Ibid., 195, 234-41; Thomas Jevons, The Prosperity of the Landholders Not Dependent on the Corn Laws (London: Longmans, 1840).

20. O próprio Malthus negou a possibilidade da escassez de minerais, argumentando que as matérias primas, em contraste com os alimentos, “ocorrem em grande abundância” e “a demanda... não deixará de criá-las em quantidades tão grandes quanto forem desejadas”. Ver Thomas Robert Malthus, An Essay on the Principle of Population and a Summary View of the Principle of Population (London: Penguin, 1970), 100.

21. Keynes, Essays and Sketches in Biography, 128-29.

22. Jevons, The Coal Question, 195-96. A discussão de Jevons sobre o desenvolvimento industrial em termos dos vários produtos básicos antecipou a obra de Harold Innis e a teoria dos produtos básicos do crescimento econômico. Ver Mel Watkins, Staples and Beyond (Montreal: McGill-Queens University Press, 2006).

23. Jevons, The Coal Question, 142.

24. Charles Dickens, The Old Curiosity Shop (New York: E.P. Dutton and Co., 1908), 327.

25. Frederick Engels, The Condition of the Working Class in England (Chicago: Academy Publishers, 1984). Ver também John Bellamy Foster, The Vulnerable Planet (New York: Monthly Review Press, 1994), 50-5 9; Brett Clark e John Bellamy Foster, “The Env ironmental Conditions of the Working Class: An Introduction to Selections from Friedrich Engels’s The Condition of the Working Class in England in 1844,” Organization & Environment 19/3 (2006): 375-88.

29. Karl Marx and Frederick Engels, Collected Works (New York: International Publishers, 1975), vol. 46, 411.

26. Jevons, The Coal Question, 164-71.

27. Ibid., 459-60.

28. Keynes, Essays and Sketches in Biography, 132.

30. Blake A lc ott, “Historic al Ov erv iew of the Jevons Paradox in the Literature,” in Polimeni, et al., The Jevons Paradox, 8, 63. For the Club of Rome study, see Donella H. Meadows, Dennis L. Meadows, Jørgen Randers, William W. Behrens III, The Limits to Growth (New York: Universe Books, 1972).

31. Juliet B. Schor, Plenitude (New York: Penguin Press, 2010), 88-90. Para uma discussão detalhada dos dados empíricos sobre o Paradoxo de Jevons, ver John M. Polimeni, “Empirical Ev idence for the Jevons Paradox,” in Polimeni, et al., The Jevons Paradox, 141 -71.

32. Mario Giampietro and Kozo May umi, “The Jevons Paradox,” in Polimeni, et al., The Jevons Paradox, 80-81.

33. Para uma discussão de inovações que marcam épocas, ver Paul A. Baran and Paul M. Sweezy, Monopoly Capital (New York: Monthly Review Press, 1966), 219-22.

34. A lfred J. Lotka, “Contributions to the Energetic s of Evolution” Proceedings of National Academy of Sciences 8 (1922): 147 -51; Giampietro and Mayumi, “The Jevons Paradox,” 111-15.

35. Karl Marx, Capital, vol. 1 (New York: Vintage, 1976), 742.

36. John Bellamy Foster, Ecology Against Capitalism (New York: Monthly Review Press, 2002), 22-24.

37. Stephen G. Bunker, “Raw Materials and the Global Economy,” Society and Natural Resources 9/4 (July -August 1996): 421.

38. Robert L. Heilbroner, The Nature and Logic of Capitalism (New York: W.W. Norton, 1985).

39. Emily Matthews, Christof Amann, Stefan Bringezu, Marina Fischer -Kowalski, Walter Hüttler, René Kleijn, Yuichi Moriguchi, Christian Ottke, Eric Rodenburg, Don Rogich, Heinz Schandl, Helmut Schütz, Ester van der Voet, and Helga Weisz, The Weight of Nations (Washington, D.C.: World Resources Institute, 2000), 35.

17 de outubro de 2010

O retorno da "cultura da pobreza"

Patricia Cohen

The New York Times

Por mais de 40 anos cientistas sociais investigando causas da pobreza tenderam a tratar explicações culturais como as trataria Voldemort: Aquilo Cujo Nome Não Deve Ser Dito.

A reticencia era herança de pesadas guerras que começaram depois que Daniele Patrick Moynihan, então assistente na secretaria de trabalho do governo Johnson, introduziu a ideia de uma "cultura da pobreza" ao público em um surpreendente relatório de 1965. Embora ele não tenha inventado a frase (a honra pertence ao antropólogo Oscar Lewis) sua descrição da família negra urbana como presa em um inescapável "emaranhado de patologia" de mães solteiras e dependência em serviços sociais era vista como atribuindo deficiências morais auto-perpetuantes aos negros, como se os culpasse por seu próprio infortúnio.

A análise de Moynihan nunca perdeu seu apelo para os pensadores conservadores, cujos argumentos no final da história sucederam quando presidente Bill Clinton assinou lei em 1996 "acabando com bem-estar como o entendemos". Mas nas trincheiras majoritariamente liberais da sociologia e antropologia acadêmicas a palavra "cultura" virou uma granada armada e a ideia que atitudes e padrões de comportamento mantinham as pessoas na pobreza foram evitadas.

Agora depois de décadas de silêncio esses estudiosos falam abertamente sobre você-sabe-o-que e concedem que cultura e pobreza persistente estão emaranhadas.

"Finalmente alcançamos um estágio das pessoas não terem mais medo de serem politicamente incorretos", disse Douglas S. Massey, sociólogo em Princeton que argumenta que Moynahan foi injustamente amaldiçoado.

O velho debate deu forma ao novo. Mês passado Princeton e o Brookings Institution publicaram uma coleção de trabalhos sobre pais solteiros, um assunto que observaram ter se tornado proibido depois do relatório Moynihan. No recente encontro anual da American Sociological Association os presentes discutiram a ressurgência da especialização de estudo sobre cultura. E em Washington na primavera passada, cientistas sociais participaram de um informativo do Congresso sobre cultura e pobreza relacionado com uma edição especial do "The Annals", jornal da American Academy of Political and Social Science.

"A cultura voltou à agenda da pesquisa sobre pobreza", declara a introdução, reconhecendo que ela nunca deveria ter sido removida.

O tema gerou interesse em Capitol Hill porque muito da pesquisa intersecta com os debates sobre políticas sociais. Visões das raízes culturais da pobreza "têm um importante papel em formatar como os legisladores escolhem se endereçar aos assuntos relativos à pobreza", notou Lynn Woolsey, democrata da Califórnia no encontro.

O tema gerou interesse em Capitol Hill porque muita pesquisa se interage com os debates políticos. As visões das raízes culturais da pobreza "desempenham papéis importantes na definição de como os legisladores escolhem abordar questões de pobreza", declarou a Representante Lynn Woolsey, democrata da Califórnia, no encontro.

Esse pico de pesquisa acadêmica também chega quando a porcentagem dos americanos vivendo em pobreza atingiu o maior nível em de 15 anos: um em sete, ou 44 milhões.

Com esses estudos veem muitas e variadas definições de cultura mas todos diferem do modelo dos anos 60 nesses aspectos cruciais: hoje, cientistas sociais estão rejeitando a noção de uma cultura de pobreza monolítica e imutável. E atribuem atitudes e comportamentos destrutivos não ao inerente caráter moral, mas ao racismo e isolamento persistentes.

Para Robert J. Samson, sociólogo de Harvard, cultura é melhor descrita como "entendimentos compartilhados".

"Eu estudo desigualdade e o foco dominante é em estruturas da pobreza", ele disse. Mas adiciona que a razão que um bairro se torna numa "armadilha de pobreza" tem também a ver com a percepção comum de como as pessoas na vizinhança agem e pensam. Quando pessoas veem grafiti e lixo, eles o acham aceitável ou veem que seria desordem? Eles respeitam o sistema legal ou têm alto nível de "cinismo moral", acreditando que "leis são feitas pra serem quebradas"?
Como parte de um grande estudo em Chicago o professor Sampson visitou vários bairros diferentes nesse verão, deixando cair envelopes endereçados e selados para ver quantas pessoas colocariam na caixa de correio, um sinal que cuidar do alheio é parte da cultura de uma comunidade.

Em alguns bairros como Grand Boulevard, aonde a notória favela de Robert Taylor se ergueu, quase nenhum envelope foi remetido; em outras, pesquisadores receberam mais de metade das cartas. Renda não explica necessariamente a diferença, disse professor Sampson, mas ao invés, as normas culturais da comunidade, os níveis de cinismo moral e desordem.

A percepção coletiva do bairro - está em ascensão ou estagnado? - é uma forma mais eficaz de prever o futuro de uma comunidade do que o nível real de pobreza, disse ele.

William Julius Wilson, cujo trabalho pioneiro francamente confrontou vida no ghetto enquanto focalizava explicações econômicas para pobreza persistente, define cultura como uma maneira dos "indivíduos de uma comunidade desenvolverem entendimento de como o mundo funciona e tomar decisões baseadas naquele entendimento".

Para alguns jovens negros, disse o sociólogo professor Wilson de Harvard, o mundo funciona assim: "se você não tem uma cara de forte você não sobrevive. Se você tem acesso a armas, tenha-as, e se brigar, use-as".

Tentando recapturar o tema dos economistas os sociólogos se aventuram em bairros pobres para entender mais aprofundadamente as atitudes dos residentes. Seus resultados desafiam algumas crenças comuns, com a crença que mães pobres ficam solteiras porque não dão valor ao casamento.

Na Filadélfia, por exemplo, mães pobres disseram às sociólogas Kathryn Edin e Maria Kefalas que elas achavam casamento profundamente importante, ate sagrado, mas não achavam que seus parceiros eram "próprios para o casamento". Esses resultados estão empurrando alguns experts em lei e pobreza a concluir que é improvável que programas que promovem casamento sem alterar condições econômicas e sociais funcionarão.

Mario Luis Small, a sociologist at the University of Chicago and an editor of The Annals’ special issue, tried to figure out why some New York City mothers with children in day care developed networks of support while others did not. As he explained in his 2009 book, “Unanticipated Gains,” the answer did not depend on income or ethnicity, but rather the rules of the day-care institution. Centers that held frequent field trips, organized parents’ associations and had pick-up and drop-off procedures created more opportunities for parents to connect.

Younger academics like Professor Small, 35, attributed the upswing in cultural explanations to a “new generation of scholars without the baggage of that debate.”

Scholars like Professor Wilson, 74, who have tilled the field much longer, mentioned the development of more sophisticated data and analytical tools. He said he felt compelled to look more closely at culture after the publication of Charles Murray and Richard Herrnstein’s controversial 1994 book, “The Bell Curve,” which attributed African-Americans’ lower I.Q. scores to genetics.

The authors claimed to have taken family background into account, Professor Wilson said, but “they had not captured the cumulative effects of living in poor, racially segregated neighborhoods.”

He added, “I realized we needed a comprehensive measure of the environment, that we must consider structural and cultural forces.”

He mentioned a study by Professor Sampson, 54, that found that growing up in areas where violence limits socializing outside the family and where parents haven’t attended college stunts verbal ability, lowering I.Q. scores by as much as six points, the equivalent of missing more than a year in school.

Changes outside campuses have made conversation about the cultural roots of poverty easier than it was in the ’60s. Divorce, living together without marrying, and single motherhood are now commonplace. At the same time prominent African-Americans have begun to speak out on the subject. In 2004 the comedian Bill Cosby made headlines when he criticized poor blacks for “not parenting” and dropping out of school. President Obama, who was abandoned by his father, has repeatedly talked about “responsible fatherhood.”

Conservatives also deserve credit, said Kay S. Hymowitz, a fellow at the conservative  ManhattanInstitute, for their sustained focus on family values and marriage even when cultural explanations were disparaged.

Still, worries about blaming the victim persist. Policy makers and the public still tend to view poverty through one of two competing lenses, Michèle Lamont, another editor of the special issue of The Annals, said: “Are the poor poor because they are lazy, or are the poor poor because they are a victim of the markets?”

So even now some sociologists avoid words like “values” and “morals” or reject the idea that, as The Annals put it, “a group’s culture is more or less coherent.” Watered-down definitions of culture, Ms. Hymowitz complained, reduce some of the new work to “sociological pablum.”

“If anthropologists had come away from doing field work in New Guinea concluding ‘everyone’s different,’ but sometimes people help each other out,” she wrote in an e-mail, “there would be no field of anthropology — and no word culture for cultural sociologists to bend to their will.”

Fuzzy definitions or not, culture is back. This prompted mock surprise from Rep. Woolsey at last spring’s Congressional briefing: “What a concept. Values, norms, beliefs play very important roles in the way people meet the challenges of poverty.”

2 de outubro de 2010

Dois pesos...

Maria Rita Kehl

O Estado de S.Paulo

Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.

Se o povão das chamadas classes D e E – os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil – tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.

Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por “uma prima” do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.

Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da “esmolinha” é político e revela consciência de classe recém-adquirida.

O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de “acumulação primitiva de democracia”.

Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.

Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.

20 de setembro de 2010

Vivo, sou militante... Odeio os indiferentes

Ernesto Salvi


Tradução / Hoje Il Fatto Quotidiano completa um ano e a melhor maneira de celebrá-lo, nesta era de voluptuosos e políticos à venda, é publicar em seu site um famoso escrito de Antonio Gramsci de "La Città Futura". Está datado de fevereiro de 1917 e é dedicado ao indiferente.

"Odeio os indiferentes. Como Friederich Hebbel acredito que 'viver significa tomar partido'. Não podem existir os apenas homens, estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão, e partidário. Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes.

A indiferença é o peso morto da história. É a bala de chumbo para o inovador, é a matéria inerte em que se afogam frequentemente os entusiasmos mais esplendorosos, é o fosso que circunda a velha cidade e a defende melhor do que as mais sólidas muralhas, melhor do que o peito dos seus guerreiros, porque engole nos seus sorvedouros de lama os assaltantes, os dizima e desencoraja e às vezes, os leva a desistir de gesta heroica.

A indiferença atua poderosamente na história. Atua passivamente, mas atua. É a fatalidade; e aquilo com que não se pode contar; é aquilo que confunde os programas, que destrói os planos mesmo os mais bem construídos; é a matéria bruta que se revolta contra a inteligência e a sufoca. O que acontece, o mal que se abate sobre todos, o possível bem que um ato heroico (de valor universal) pode gerar, não se fica a dever tanto à iniciativa dos poucos que atuam quanto à indiferença, ao absentismo dos outros que são muitos. O que acontece, não acontece tanto porque alguns querem que aconteça quanto porque a massa dos homens abdica da sua vontade, deixa fazer, deixa enrolar os nós que, depois, só a espada pode desfazer, deixa promulgar leis que depois só a revolta fará anular, deixa subir ao poder homens que, depois, só uma sublevação poderá derrubar. A fatalidade, que parece dominar a história, não é mais do que a aparência ilusória desta indiferença, deste absentismo.

Há fatos que amadurecem na sombra, porque poucas mãos, sem qualquer controle a vigiá-las, tecem a teia da vida coletiva, e a massa não sabe, porque não se preocupa com isso. Os destinos de uma época são manipulados de acordo com visões limitadas e com fins imediatos, de acordo com ambições e paixões pessoais de pequenos grupos ativos, e a massa dos homens não se preocupa com isso. Mas os fatos que amadureceram vêm à superfície; o tecido feito na sombra chega ao seu fim, e então parece ser a fatalidade a arrastar tudo e todos, parece que a história não é mais do que um gigantesco fenômeno natural, uma erupção, um terremoto, de que são todos vítimas, o que quis e o que não quis, quem sabia e quem não sabia, quem se mostrou ativo e quem foi indiferente. Estes então zangam-se, queriam eximir-se às consequências, quereriam que se visse que não deram o seu aval, que não são responsáveis.

Alguns choramingam piedosamente, outros blasfemam obscenamente, mas nenhum ou poucos põem esta questão: se eu tivesse também cumprido o meu dever, se tivesse procurado fazer valer a minha vontade, o meu parecer, teria sucedido o que sucedeu? Mas nenhum ou poucos atribuem à sua indiferença, ao seu ceticismo, ao fato de não ter dado o seu braço e a sua atividade àqueles grupos de cidadãos que, precisamente para evitarem esse mal combatiam (com o propósito) de procurar o tal bem (que) pretendiam.

A maior parte deles, porém, perante fatos consumados prefere falar de insucessos ideais, de programas definitivamente desmoronados e de outras brincadeiras semelhantes. Recomeçam assim a falta de qualquer responsabilidade. E não por não verem claramente as coisas, e, por vezes, não serem capazes de perspectivar excelentes soluções para os problemas mais urgentes, ou para aqueles que, embora requerendo uma ampla preparação e tempo, são todavia igualmente urgentes. Mas essas soluções são belissimamente infecundas; mas esse contributo para a vida coletiva não é animado por qualquer luz moral; é produto da curiosidade intelectual, não do pungente sentido de uma responsabilidade histórica que quer que todos sejam ativos na vida, que não admite agnosticismos e indiferenças de nenhum gênero.

Odeio os indiferentes também, porque me provocam tédio as suas lamúrias de eternos inocentes. Peço contas a todos eles pela maneira como cumpriram a tarefa que a vida lhes impôs e impõe quotidianamente, do que fizeram e sobretudo do que não fizeram. E sinto que posso ser inexorável, que não devo desperdiçar a minha compaixão, que não posso repartir com eles as minhas lágrimas.

Sou militante, estou vivo, sinto nas consciências viris dos que estão comigo pulsar a atividade da cidade futura que estamos a construir. Nessa cidade, a cadeia social não pesará sobre um número reduzido, qualquer coisa que aconteça nela não será devido ao acaso, à fatalidade, mas sim à inteligência dos cidadãos. Ninguém estará à janela a olhar enquanto um pequeno grupo se sacrifica, se imola no sacrifício. E não haverá quem esteja à janela emboscado, e que pretenda usufruir do pouco bem que a atividade de um pequeno grupo tenta realizar e afogue a sua desilusão vituperando o sacrificado, porque não conseguiu o seu intento.

Vivo, sou militante. Por isso odeio quem não toma partido, odeio os indiferentes."

13 de setembro de 2010

A teoria marxista da crise e a severidade da crise econômica atual

David M. Kotz

Science and Society

Tradução / A teoria da crise econômica ocupa desde há muito um lugar importante na teoria marxista. Uma razão para isso é a crença de que uma crise econômica severa pode desempenhar um papel chave na superação do capitalismo e a transição para o socialismo. Alguns antigos escritores marxistas procuraram desenvolver uma ruptura na teoria da crise econômica, na qual é identificada uma barreira absoluta para a reprodução do capitalismo.[1] Contudo, não é preciso seguir uma abordagem tão mecanicista para considerar a crise econômica como central para o problema da transição ao socialismo. Parece altamente plausível que uma crise de acumulação severa e duradoura criaria condições que são potencialmente favoráveis a uma transição, embora uma tal crise não seja garantia de tal resultado.[2]

Os analistas marxistas geralmente concordam em que o capitalismo produz duas espécies qualitativamente diferentes de crise econômica. Uma é a recessão do ciclo de negócios periódico, a qual é resolvida após um período relativamente curto pelos mecanismos normais de uma economia capitalista, embora desde a II Guerra Mundial a política monetária e fiscal do governo tenha sido empregada frequentemente para abreviar a recessão. A segunda é uma crise econômica duradoura que exige reestruturação significativa — isto é, mudança institucional — se a crise tiver de ser resolvida dentro do capitalismo e com o processo de acumulação de capital restaurado. Apesar do reconhecimento generalizado de que estes dois tipos de crise são diferentes, não há uma terminologia consensual para distingui-las. Aqui será usada a expressão "crise estrutural de acumulação" para o segundo tipo de crise econômica e "recessão do ciclo de negócios" para o primeiro tipo.

A história mostra que as crises estruturais de acumulação podem ser mais ou menos severas, como será discutido abaixo. O nosso objetivo aqui é identificar as condições que dão lugar a uma severa crise estrutural de acumulação, uma vez que é este tipo de crise que pode desempenhar um papel na morte do capitalismo. A Grande Depressão da década de 1930 foi, todos concordam, uma severa crise estrutural de acumulação. Embora ainda seja cedo para dizer, tudo indica que a crise econômica principiada em 2007-08 pode ser uma outra severa crise estrutural (ver seção 2 abaixo). Em contraste, será argumentado abaixo que a crise estrutural verificada na década de 1970 foi da variedade menos severa. Este documento esboçará uma análise da crise atual, comparando-a com as duas crises estruturais anteriores, a fim de fazer inferências acerca das condições que tendem a produzir uma severa crise estrutural de acumulação.

A teoria marxista localiza a causa da crise em mecanismos internos do sistema capitalista, os quais refletem o carácter contraditório do processo capitalista. A literatura marxista da teoria da crise apresenta análises de vários mecanismos internos que pode provocar uma crise. Tais mecanismos causais foram chamados tradicionalmente "tendências de crise", as quais incluem o subconsumo, a tendência da queda da taxa de lucro devido à elevação do valor do meios de produção em relação à força de trabalho, o esmagamento do lucro devido a um declínio do exército industrial de reserva (expressão de Marx para trabalhadores desempregados) e o super-investimento (ou super-acumulação), bem como outros mecanismos.

As tendências de crise que tradicionalmente povoam a literatura marxista são o ponto de partida necessário para considerar a(s) causa(s) possíveis de uma crise estrutural severa. Contudo, o nível de abstração da análise habitual das tendências tradicionais de crise é demasiado elevado para este objetivo. Este documento argumenta que uma crise estrutural severa tende a emergir uma forma institucional particular de capitalismo. Se alguém analisa apenas o capitalismo-em-geral — isto é, se se incluir apenas as características definidoras do capitalismo — então tendências de crise podem ser derivadas mas não pode ser determinado de um modo sistemático se qualquer tendência de crise particular provocará uma crise moderada ou severa.[3]

A seção 2 considera resumidamente a teoria da estrutura social de acumulação (ESA) da crise capitalista, concluindo que ela apresenta uma teoria fecunda da crise estrutural mas não proporciona uma explicação satisfatória dos fatores que causam uma crise estrutural severa. A seção 3 examina as raízes da atual crise econômica, centrando-se sobre a economia dos EUA na qual teve origem esta crise. Retira-se a lição de que a severidade da crise atual resulta do tipo de estrutura institucional capitalista que prevaleceu nas últimas décadas, nomeadamente uma estrutura institucional liberal. A seção 4 compara a crise atual com as crises estruturais das décadas de 1930 e de 1970, notando semelhanças com a primeira e diferenças com a segunda. A seção 5 apresenta comentários conclusivos.

2. A teoria da estrutura social de acumulação e crises estruturais severas

É comum na literatura marxista tradicional da teoria da crise suplementar uma análise de uma tendência particular de crise localizada no capitalismo-em-geral com a consideração de um evento histórico específico ou de uma política de estado, como um meio para explicar a emergência de uma crise que é severa e duradoura. Contudo, tal abordagem ad-hoc aproxima-se inconfortavelmente da teoria da crise devida ao "fator externo" encontrável na teoria econômica convencional. Há uma abordagem alternativa, a qual leva em conta o facto de que o capitalismo nunca existe somente "em geral" mas assume sempre uma forma institucional específica.

A escola da estrutura social de acumulação argumenta que, em países capitalistas individuais e no capitalismo global como um todo, pode ser identificada uma sequência de estruturas institucionais relativamente estáveis, cada uma delas perdurando por várias décadas (Gordon, Edwards, and Reich, 1982; Kotz, McDonough, e Reich, 1994; McDonough, Reich, e Kotz, 2010). Tal estrutura institucional é denominada uma estrutura social de acumulação (ESA). Esta literatura tem argumentado que cada ESA é um conjunto coerente de instituições que, por um longo período, promove a acumulação de capital. Com o tempo as contradições presentes em qualquer ESA intensificam-se, de modo que a ESA já não mais promove a acumulação, conduzindo a um longo período de crise estrutural. A crise continua até que uma ESA seja construída.

A teoria ESA pode apresentar uma explicação da razão porque se verificam crises estruturais de acumulação severas, mas os registos históricos mostram que alguns dos períodos de crise identificados na literatura ESA – tal como a década de 1970 – não parecem ajustar-se ao conceito de uma crise estrutural severa. Como notaram muitos analistas, nos países capitalistas com alto rendimento o desempenho macroeconómico piorou após 1973, em comparação com o período 1948-73. Nos EUA houve uma recessão relativamente aguda desde o quarto trimestre de 1973 até o primeiro trimestre de 1975, com o PIB caindo para uma taxa anual de 2,5% ao longo de cinco trimestres. O resto da década de 1970 foi caracterizado pelo crescimento económico reduzido, alta inflação e desemprego, além de instabilidade no sistema monetário internacional — isto é, foi um período de estagnação relativa e de instabilidade económica.

Pode-se argumentar que a década de 1970 representou uma crise estrutural da ESA capitalista regulada do pós-guerra, a qual levou ao seu passamento e substituição por uma estrutura institucional neoliberal bastante diferente no princípio da década de 1980. Contudo, o crescimento do PIB e da acumulação de capital recuperou rapidamente após a recessão de 1974-75. Utilizando uma medida do ciclo de negócios pico a pico, durante 1973-79 — o núcleo do período de crise estrutural identificado na literatura ESA — a economia estado-unidense realmente expandiu-se, com crescimento do PIB real a uma taxa anual média de 3,0% e o investimento interno privado bruto a 3,4%. [4] A taxa de desemprego, a qual havia ascendido a 8,8% em Junho de 1975, caiu para 5,6% em Maio de 1979. A taxa de desemprego não atingiu números com dois dígitos durante este período até a parte inicial da era neoliberal, quando chegou a 10,8% no fim de 1982. Isto resultou da política deliberada do governo, pois o Federal Reserve aplicou uma política monetária muito rígida a qual conduziu as taxas de juro a mais de 20%, tendo em vista destruir o poder de negociação do trabalho, travar a inflação e promover o valor internacional do US dólar.

A crise da década de 1970 não parece ser uma severa crise estrutural de acumulação da espécie representada pela Grande Depressão da década de 1930. De 1929-33 o PIB nos EUA declinou durante 3,5 anos, caindo em 30,5% ao longo daquele período. Dez anos depois ele havia recuperado para apenas 2,8% acima do seu nível de 1929. O investimento fixo dos negócios, o qual em 1933 caiu 28,7% em relação ao seu nível de 1929, dez anos depois (1939) ainda era apenas 57,7% do seu nível de 1929. A taxa de desemprego atingiu os 24,9% em 1933 e era de 17,9% em 1939. Todo o sistema bancário entrou em colapso em 1933, um contraste agudo com a década de 1970 quando não se verificou nenhuma crise financeira séria.

Há muitas evidências de que a crise actual tornar-se-á uma severa crise estrutural de acumulação, mais como aquela da década de 1930 do que a da de 1970. A recessão no sector real dos EUA começou oficialmente em Dezembro de 2007, embora o PIB não tenha iniciado um declínio constante até o terceiro trimestre de 2008. O lado financeiro da crise começou muito mais dramaticamente, ganhando momento na Primavera e Verão de 2008 e atingindo subitamente o ponto do colapso financeiro em Setembro de 2008, quando a maior parte das maiores instituições financeiras nos EUA e em muitos outros países tornaram-se subitamente insolventes. Um colapso financeiro total foi evitado pela Reserva Federal e o Departamento do Tesouro dos EUA providenciando uns estimados US$12,1 trilhões em várias formas de apoio a instituições financeiras gigantes e aos mercados financeiros em geral. [5]

Um estudo recente descobriu que, para a economia global, tanto a produção industrial como o comércio mundial contraíram-se pelo menos tão rapidamente no primeiro ano da crise actual como o fizeram no ano seguinte ao início da Grande Depressão (Eichengreen e O'Rourke, 2009). Um relatório das Nações Unidas projectou um declínio do PIB em 2009 de 6,5% no Japão e de 6,1% na Alemanha (UNCTAD 2009, p. 2).

Nos EUA, o PIB caiu em 3,8% no ano seguinte ao seu nível de pico no segundo trimestre de 2008. No primeiro trimestre de 2009, o investimento fixo privado mergulhou a uma espantosa taxa anual de 39,2%, a mais baixa taxa de declínio desde a II Guerra Mundial. A partir de Setembro de 2009, o emprego total havia experimentado o seu maior declínio desde 1945, caindo em 5,8% desde o seu pico, o que deve ser comparado aos declínios de 2,8% da recessão dos meados da década de 1970 e de 3,1% no princípio da recessão da década de 1980 (Norris, 2009). [6] A taxa de desemprego subiu de 4,8% em Fevereiro de 2008 para 10,3% em Outubro de 2009, uma ascensão precipitada que ultrapassou em muito o aumento da taxa de desemprego da crise dos anos 1970. Isto verificou-se apesar de um plano de estímulo governamental de US$787 mil milhões aprovado em Fevereiro de 2009.

Certos relatos de que a crise económica está a acabar deixam de distinguir uma recessão de ciclo de negócios de uma crise estrutural. O PIB dos EUA aumentou, a uma taxa anual de 2,8%, no terceiro trimestre de 2009, uma viragem que em grande medida parece ser devida a intervenções do governo. Contudo, uma expansão do ciclo de negócios pode, e habitualmente faz, ter lugar durante um período de crise estrutural, como aconteceu em 1933-37 e em 1975-79. Se a história serve de guia, as contradições que produziram esta crise — as quais são discutidas na próxima secção — podem ser resolvidas apenas pela reestruturação significativa do sistema e um tal processo de reestruturação mal começou neste momento.

A teoria ESA convencional, a qual encara as crises estruturais das décadas de 1930 e 1970 como fenómenos semelhantes, não proporciona uma explicação do(s) factor(es) que faz(em) com que uma crise estrutural de acumulação seja severa. Contudo, o foco da teoria ESA sobre o papel da forma institucional de capitalismo na explicação de crises económicas aponta na direcção correcta. O componente que falta é uma análise ainda mais concreta de estruturas institucionais capitalistas. Examinar o modo pelo qual a estrutura institucional nos EUA na era neoliberal deu lugar ao que parece ser uma outra crise estrutural severa pode iluminar os factores chave que produzem aquele tipo de crise.

3. A crise actual e estruturas institucionais liberais

A teoria ESA tradicionalmente tem asseverado que toda nova ESA é historicamente única. Contudo, argumenta-se em Kotz (2003a) e Wolfson e Kotz (2010) que estruturas institucionais capitalistas caem em dois tipos, liberais e reguladas. As principais características de uma estrutura institucional regulada são as seguintes: 1) o estado regula activamente a economia, incluindo regulação do comportamento dos negócios e das finanças; 2) a relação capital-trabalho no lugar de trabalho tem um elemento de compromisso significativo entre os dois lados, particularmente entre o grande capital e o trabalho; 3) os grandes negócios empenham-se numa forma de competição correspondente e restritiva; 4) a ideologia dominante enfatiza os benefícios da regulação dos negócios, da cooperação capital-trabalho e da competição "civilizada". Em contraste, a estrutura institucional liberal tem as seguintes características principais: 1) há apenas limitada regulação estatal da economia, dos negócios e das finanças; 2) o capital, incluindo o grande capital, esforça-se por dominar completamente o trabalho no local de trabalho; 3) grandes corporações empenham-se em competição sem restrições, implacável; e 4) uma ideologia de mercado livre, ou liberal clássica, é dominante, a qual vê o estado como um inimigo da liberdade e da eficiência e louva as virtudes da competição irrestrita. [7]

O neoliberalismo, que ascendeu cerca de 1980, deu lugar a estruturas institucionais liberais nos EUA, Reino Unido e muitos países (embora não todos) e também ao nível global em que as principais instituições económicas começaram a seguir o modelo neoliberal. A crise económica que começou em 2007-07 emergiu inicialmente nos EUA e emergiu das instituições neoliberais nos EUA e nas economias globais.

Um exame do processo que levou à crise actual mostra porque, e como, uma estrutura institucional liberal tende finalmente a produzir uma severa crise estrutural de acumulação. [8] O nosso exame centrar-se-á sobre a economia dos EUA, onde teve origem a crise actual. O capitalismo neoliberal nos EUA deu lugar a três desenvolvimentos que levaram à crise actual: 1) crescente desigualdade entre salários e lucros e entre famílias; 2) uma série de grandes bolhas de activos; e 3) um sector financeiro que se tornou cada vez mais absorvido em actividades especulativas e de risco.

A desigualdade cresceu rapidamente na era neoliberal, aumentando a um ritmo acelerado quando a estrutura neoliberal atingiu a maturidade no último ciclo de negócios completo da era neoliberal, de 2000 a 2007. De 1979 a 2007 os rendimentos horários reais médios de trabalhadores em funções não supervisórias declinou ligeiramente, em 1,1%, ao passo que a produção por hora cresceu em 69,8%, indicando que a totalidade do ganho de produtividade ao longo do período foi para o capital. Em meados dos anos 2000 o grau de desigualdade entre famílias havia atingido um nível nunca visto desde 1929 (Kotz, 2009a).

O aumento rápido da desigualdade tende a criar um problema de realização — isto é, uma insuficiência de procura agregada em relação ao produto. A ascensão de lucros estimula a acumulação rápida e o crescimento do produto, mas os salários estagnados ou em queda limitam o crescimento da procura. O aumento da concentração do rendimento no topo extrema limita o crescimento da procura, uma vez que os muito ricos não gastam uma grande fatia do seu vasto rendimento com o consumo.

Contudo, a estrutura institucional neoliberal tem características que adiam a realização da crise. Os lucros em crescimento rápido estimulam a elevação rápida de negócios de investimento, os quais constituem uma parte da procura pelo produto. Isto pode perpetuar uma expansão por algum tempo, mas se isto for o único mecanismo a operar para resolver o problema da realização, verificar-se-á rapidamente um desequilíbrio pois os meios de produção cresceriam demasiado rapidamente em relação ao produto. A estrutura institucional neoliberal produziu grandes bolhas de activos, as quais provocaram uma resolução muito mais demorada do problema da realização.

Uma bolha de activos é uma ascensão auto-perpetuadora do seu preço que resulta da expectativa de aumentos futuros no preço do mesmo. Exemplo: se investidores financeiros esperarem que o preço do imobiliário ascenda rapidamente no futuro próximo, eles terão um incentivo para comprar imobiliário a fim de obter ganhos de capital com a ascensão de preços. Isto pode tornar-se um processo auto-sustentador se os lucros ganhos pelos investidores com a ascensão do preço do activo atraírem cada vez mais investidores, cujas compras por sua vez fazem que o preço do activo continue a ascender. Cada uma das expansões económicas longas da era neoliberal nos EUA assistiu a uma grande bolha de activos, no imobiliário comercial do Sudoeste na década de 1980, no mercado de acções na de 1990 e no sector habitacional nos anos 2000.

Houve três expansões económicas longas nos EUA da era neoliberal: em 1982-90, 1991-2000 e 2001-2007. Uma bolha de activos pode prolongar uma expansão ao retardar a percepção de que a crise tende a resultar do aumento da desigualdade. Assim o faz pelo aumento da riqueza de papel daqueles que possuem o activo que passa pelo processo de bolha. O aumento da riqueza de papel leva o consumidor a gastar esse crescimento em relação ao rendimento.

O rácio entre as despesas do consumido e o rendimento após impostos tendeu a descer desde 1960 a meados dos anos 1980. A seguir o rácio tendeu a subir agudamente desde meados dos anos 1080, quando começou a recuperação do deprimido princípio da década de 1980, até 2005. A primeira bolha da era neoliberal que foi suficientemente grande para afectar claramente a economia dos EUA como um todo foi a bolha do mercado de acções dos anos 1990. Após 1992 o rácio dos gastos do consumidor em relação ao rendimento subiu drasticamente, atingindo 93,8% em 1999 quando era de 89,1% em 1992. Quando a bolha habitacional começou após 2002, o rácio subiu outra vez, dos 93,9% em 2002 para 95,9% no seu pico em 2005. [9] Ao longo de umas duas décadas de neoliberalismo, este rácio subiu em quase dez pontos percentuais, principiando em 1984 com 86,0% do rendimento. Em relação ao PIB, os gastos do consumidor ascenderam de uns baixos 62,0% em 1981 para 70,5% do PIB em 2008.[10]


Contudo, a elevação dos gastos do consumidor em relação ao rendimento familiar, se bem que adiando a realização da crise, tornou pior a crise final. As empresas respondem a um longo período de ascensão nos gastos do consumidor investindo fortemente em capital fixo para aumentar a sua capacidade produtiva. Além disso, uma bolha gigante gera expectativas optimistas acerca de lucros futuros do investimento real, as quais tendem a estimular um aumento no investimento e portanto no volume de capacidade produtiva. Uma vez estourada a bolha — como todas as bolhas de activos acabam por fazer — a despesa do consumidor cai para uma relação mais normal em relação ao rendimento enquanto as expectativas de lucros simultaneamente entram em colapso. O declínio súbito na procura do consumidor e de investimento revela uma grande quantidade de excesso de capacidade que não era aparente enquanto a bolha ainda estava a inchar. Isto pode deprimir o incentivo para investir por um longo período de tempo, acarretando uma severa e duradoura crise de sobre-investimento.

Quando a bolha do mercado de acções estado-unidense estourou em 2000, o investimento fixo das empresas caiu em 13,0% ao longo dos dois anos seguintes. Contudo, naquele momento foi evitada uma severa crise de sobre-investimento com a emergência em 2002 de outra bolha, desta vez ainda mais maciça, na habitação. Após 2002 o investimento fixo dos negócios recuperou, elevando-se em 29,1% durante 2002-2007. A bolha habitacional começou a entrar em colapso em 2007. No segundo semestre de 2008 os gastos do consumidor caíram rapidamente, a uma taxa anual de mais de 3%. O investimento fixo das empresas começou a cair muito rapidamente no quarto trimestre de 2008 e no terceiro trimestre de 2008 havia caído 20,2% em relação ao seu pico no segundo trimestre de 2008.

O sector financeiro, especulativo e propenso ao risco, é o terceiro desenvolvimento que desempenhou um papel chave na crise actual, somando-se ao aumento da desigualdade e às grandes bolhas de activos. Como toda a gente sabe, o sector financeiro estado-unidense empenhou-se numa orgia de actividade especulativa nos anos 2000, grande parte dela relacionada com o sector habitacional. Enquanto a bolha habitacional continuou a inchar, isto contribuiu para a expansão económica. Ao proporcionar um enorme volume de empréstimos hipotecários aos proprietários de casas existentes, incluindo proprietários com uma fraca classificação de crédito, o sector financeiro tornou possível a expansão rápida do gasto do consumidor baseada na elevação dos valores dos lares das pessoas. [11] Se o único meio para que os proprietários das casas pudessem gastar algo do valor em ascensão rápida das suas casas tivesse sido vender a casa, a bolha habitacional podia não ter continuado. Portanto, a concessão de empréstimos especulativos do sector financeiro tornou possível à bolha continuar a inchar enquanto permitia também que o valor em ascensão da habitação estimulasse a ascensão do gasto do consumidor.

Contudo, o resultado deste processo foi um sector financeiro cada vez mais frágil. Não só o sector financeiro estado-unidense criou milhões de milhões de dólares de maus activos cujo valor acabou por entrar em colapso como também tomou emprestados cada vez mais fundos para prosseguir as suas actividades especulativas altamente lucrativas. A figura 2 mostra a dívida total de cada um dos três principais sectores privados da economia estado-unidense. A dívida do sector dos negócios não financeiros subiu apenas modestamente na era neoliberal. A dívida do sector habitacional cresceu rapidamente após o princípio dos anos 1980 e a um ritmo acelerado após 2000. De 1980 a 2008 o rácio da dívida habitacional em relação ao PIB quase duplicou. Em 2008 a dívida das famílias tornara-se insustentável na ausência de uma bolha habitacional contínua, a qual permitia às famílias continuarem a retirar liquidez das suas casas para permanecerem à tona. Contudo, durante aquele mesmo período, de 1980 a 2008, a dívida do sector financeiro cresceu quase seis vezes.


Portanto, o sector financeiro especulativo e propenso ao risco estava preparado para um colapso em 2008. Um colapso do sector financeiro torna uma crise económica mais severa e mais difícil ao controle do estado. É este aspecto da crise actual que tem recebido a maior parte da cobertura nos mass media e é um factor importante para a explicação da sua severidade. Contudo, este é apenas um dos factores importantes. Todos os três desenvolvimentos — desigualdade crescente, uma série de grandes bolhas de activos e um sector financeiro especulativo e propenso ao risco — actuaram em conjunto para produzir o arranque do que parece como uma severa crise estrutural de acumulação em 2007-08. A causa fundamental é uma crise bolha-de-activos-induzida-pelo-sobre-investimento agravada por uma crise financeira severa.

Estes três desenvolvimentos — ascensão da desigualdade, grandes bolhas de activos e um sector financeiro especulativo e propenso ao risco — não são características inerentes do capitalismo-em-geral. Por exemplo: nos EUA durante o período da ESA regulada em 1948-73, os salários subiram a aproximadamente a mesma taxa da produtividade do trabalho, ao passo que a distribuição do rendimento familiar tornou-se ligeiramente menos desigual (Kotz, 2009a). Durante aquele período não houve bolhas de activos e as principais instituições financeiras empenhavam-se principalmente nas actividades financeiras tradicionais de efectuar e manter empréstimos, vender acções e títulos e oferecer segurança convencional. Não houve grandes falências bancárias ou pânicos financeiros naquele período.

Estes três desenvolvimentos são características da forma institucional liberal do capitalismo. A fraca posição negocial do trabalho numa forma liberal de capitalismo tende a provocar estagnação ou queda salarial enquanto os lucros ascendem rapidamente. A limitada intervenção do estado no mercado permite aos fortes arrebatarem, e manterem, uma fatia crescente do produto social.

Uma estrutura institucional liberal dá lugar a grandes bolhas de activos, por duas razões. Primeiro, o aumento da desigualdade leva a que os lucros, e o rendimento das famílias ricas, excedam as oportunidades disponíveis de investimento produtivo lucrativo. Portanto, algo daquele rendimento encontra o seu caminho na compra de activos tais como acções corporativas ou no imobiliário, o que inicia uma bolha de activos. Segundo, as instituições financeiras desreguladas numa estrutura institucional liberal são livres para efectuarem os empréstimos especulativos sem os quais uma bolha de activos não pode continuar a crescer.

O terceiro desenvolvimento que surge na era neoliberal — um sector financeiro que busca actividades especulativas e de risco — resultou primariamente da desregulamentação financeira. Uma vez que as instituições financeiras são livre para buscar lucros máximos sem supervisão ou regulação, elas buscarão tais actividades arriscadas, as quais prometem uma taxa de lucro muito mais elevadas do que as funções financeiras tradicionais e triviais. Pelo menos, isto é assim enquanto as grandes bolhas de activos perdurem e antes que os investimentos arriscados se revelem maus.

4. Os frenéticos anos 1920, a ESA do pós-guerra e a era neoliberal

De acordo com a visão convencional encontrada na literatura ESA, os anos 1920 tinha uma ESA que teve origem nos anos 1890. Aquela ESA era caracterizada pelo monopólio de poder e significativa regulação estatal dos negócios (Gordon et al, 1982, ch 4; Kotz, 1987). Contudo, após a I Guerra Mundial houve grandes mudanças no capitalismo estadunidense. As novas agências regulatórias do estado que haviam aparecido durante a Era Progressiva de 1900-16 foram capturadas pelos negócios e/ou cessaram de exercer qualquer supervisão. Os limitados movimentos dos grandes negócios rumo a uma relação cooperante com os sindicatos na Era Progressiva deram lugar a um assalto ao trabalho, iniciado pela ruptura de uma grande greve na indústria do aço em 1919. Em meados da década de 1920 o movimento dos trabalhadores estava em declínio pronunciado. O padrão de preços cooperativos estabelecido por J.P. Morgan e outros capitalistas financeiros após os anos 1890 enfraqueceram, quando a Wall Street perdeu poder para novos centros de finanças no Meio Oeste e no Oeste e quando emergiram novas indústrias (tais como automóveis) que estavam fora do controle da Wall Street (Kotz, 1978, ch. 3). Uma ideologia extremamente individualista tornou-se dominante. Os EUA da década de 1920 ajustavam-se estreitamente às características de uma estrutura institucional liberal.

Os anos 1920 nos EUA também assistiram aos mesmos três desenvolvimentos que surgiram na era neoliberal. A desigualdade cresceu drasticamente, quando os salários ficaram atrás do crescimento da produtividade e o rendimento familiar concentrou-se no topo. De 1920 a 1929 os salários horários reais na indústria manufactureira ascenderam 19,3% ao passo que o produto por hora de trabalho na manufactura ascendeu 62,6%.[12] A fatia do rendimento após impostos indo para os 1% do topo ascendeu de 11,8% em 1920 para 19,1% em 1928. Emergiram grandes bolhas de activos, no imobiliário da Florida em meados dos anos 1920 seguida pela bolha gigante no mercado estado-unidense de títulos no fim dos anos 1920. O sector financeiro tornou-se cada vez mais envolvido em actividades especulativas e arriscadas. Se bem que isto tenha começado com instituições financeiras de média dimensão, no fim dos anos 1920 os maiores bancos tradicionais estavam voltados para isso (Kotz, 1978, ch. 3).

A Grande Depressão foi desencadeada pelo colapso da bolha de títulos no fim de 1929. Isto foi seguido por um declínio rápido no consumo e no investimento, levando finalmente, em 1933, a um colapso completo do sistema bancário. Como foi observado acima, o investimento permaneceu deprimido durante uma década a seguir a 1929. Enquanto os conservadores atribuem a culpa disto ao temor dos negócios com as reformas do New Deal, pode-se argumentar que isto é explicado por uma severa crise de sobre-investimento induzida pelas grandes bolhas de activos da década de 1920. A combinação da bolha que induziu o sobre-investimento e de uma crise financeira é bastante semelhante às condições de hoje. [13] Portanto, os antecedentes históricos da crise actual, juntamente com a da Grande Depressão, dão apoio à visão de que uma forma institucional liberal de capitalismo cria condições que tendem finalmente a desencadear uma severa crise estrutural de acumulação.

As crises estruturais mais suaves e mais curtas que se seguiram ao colapso da forma de capitalismo regulado do pós II Guerra Mundial podem ser explicadas pelas diferentes tendências dominantes de crise em tal forma de capitalismo. Sob o capitalismo regulado, o trabalho tende a ter um poder significativo de negociação. Em consequência, as expansões económicas tendem a iniciar um tipo de crise de compressão do lucro, pois o exército de reserva em declínio leva à ascensão de salários suficientemente rápida para comprimir lucros (Kotz, 2009b; Wolfson e Kotz, 2010). Um estudo (Kotz 2009b) descobriu que toda recessão de ciclo de negócios do período 1948-73 foi provocada tendência de crise de compressão do lucro. [14]

As análises ESA mais comuns da crise estrutural dos anos 1970 vêem um factor chave na emergência daquela crise como sendo uma espécie versão da tendência à compra do lucro a longo prazo (Bowles et al., 1990, parte II). De acordo com este argumento, ao longo do período de capitalismo regulado, havia um aumento a longo prazo na força relativa do trabalho, bem como de outros grupos, em relação aos capitalistas dos EUA. Finalmente isto levou a um conjunto de conflitos agudos entre capitalistas e trabalho (e outros grupos tais como fornecedores de matérias-primas do terceiro mundo) que desestabilizaram a ESA capitalista regulada e o processo de acumulação que havia apoiado.

Por que as crises estruturais resultantes foram menos severas do que a Grande Depressão? Se a causa subjacente da crise foi o acrescido poder negocial do trabalho e outros grupos populares, aquele "problema" podia ser resolvidos por uns poucos anos de muito alto desemprego e punição económica politicamente induzidos no princípio dos anos 1980. A reestruturação neoliberal — a qual foi cumprida de modo relativamente rápido pela reafirmação do poder do capital, pelo desmantelamento da regulação estatal dos negócios e por um corte drástico em programas sociais — serviu para resolver a crise do capitalismo regulado.

Além disso, há uma diferença na capacidade administrativa do estado no fim dos dois tipos de estrutura institucional do capitalismo. Quando o capitalismo regulado entra numa crise, o estado tem experiência recente na administração da economia, a qual facilitar a resolução da crise. Contudo, quando o capitalismo liberal entra numa crise, o estado atravessou um longo período de esvaziamento e tem pouca capacidade para a administração efectiva da economia. Apesar dos programas arrojados da administração Roosevelt, a economia dos EUA não emergiu plenamente da Grande Depressão rumo a um novo caminho de acumulação vigorosa até após a II Guerra Mundial, uns quinze anos após 1929. Na crise actual temos testemunhado as dificuldades experimentadas pela administração Obama devido à falta de experiência recente, e ao compromisso para, de administração estatal activa da economia. O programa de estímulo económico de Fevereiro de 2009 foi concebido para criar ou salvar apenas 1,6 milhão de empregos, a comparar com os 15 milhões que estavam oficialmente desempregados no fim de 2009, e a sua implementação foi muito lenta. [15]

5. Comentários conclusivos

Tanto as considerações teóricas como a evidência histórica apoiam a visão de que uma forma liberal de capitalismo tende finalmente a causar uma severa crise estrutural de acumulação, ao passo que a forma regulada de capitalismo encontra no fim uma crise estrutural mais suave. Isto tem graves implicações.

Primeiro, há uma implicação para a teoria marxista. A análise acima sugere que é necessário ir para além da análise do capitalismo em geral, ou simplesmente suplementar tal análise com o acréscimo ad hoc de desenvolvimentos históricos particulares ou políticas de estado. Os marxistas deveriam procurar analisar sistematicamente as formas institucionais particulares de capitalismo que surgem na história para determinar as suas propriedades e tendências. Parece haver alguma relutância em assim fazer, talvez como resultado de uma preocupação em que focar a forma institucional particular de capitalismo desviará atenção dos males do próprio capitalismo e da necessidade de substituí-lo totalmente. Uma tal preocupação não tem lugar de ser. Para sermos eficazes no entendimento e desafio ao capitalismo devemos analisar as suas características particulares institucionais no tempo e lugar actual.

Segundo, a análise acima coloca um paradoxo para a transição ao socialismo. Um longo período de capitalismo regulado tende a fortalecer a classe trabalhadora. O levantamento radical à escala mundial do fim da década de 1960 ocorreu após vinte anos de capitalismo regulado. Contudo, o capitalismo regulado também tende a provocar uma ascensão do padrão de vida e expansão de serviços públicos para a classe trabalhadora, o que torna menos provável o desafio com êxito ao capitalismo. A estas considerações a análise acima acrescenta o argumento de que a crise de acumulação final do capitalismo regulado tende a ser relativamente branda, o que mais uma vez reduz a probabilidade de uma transição para o socialismo.

Em contraste, um longo período de capitalismo liberal tende a enfraquecer a classe trabalhadora e os movimentos radicais. Temos observado isto na era neoliberal e uma tendência semelhante verificou-se nos EUA na década de 1920. Se uma forma liberal de capitalismo tende finalmente a provocar uma severa crise económica, ele entra naquela crise com o movimento da classe operária e o movimento radical fracos e divididos. Portanto, o potencial que pode surgir para estar presente naquela severa crise estrutural que se segue a um período de capitalismo liberal a fim de promover uma transição para o socialismo incide no problema de que pode não haver um agente de tal transformação que esteja pronto para promovê-la.

Contudo, contra as considerações acima deve ser ponderada a conclusão de que crises estruturais que se seguem a uma forma institucional liberal de capitalismo provavelmente não serão fácil ou rapidamente resolvidas. Se a crise actual continuar por algum tempo, os efeitos desmobilizadores do neoliberalismo podem ser substituídos pelos efeitos radicalizantes de uma crise económica prolongada e severa. Na parte inicial da Grande Depressão nos EUA houve alguns protestos, mas o período de grande efervescência trabalhista e radical foi 1934-39. Embora qualquer analogia histórica seja altamente imperfeita, estamos agora num tempo análogo a 1930-31 — isto é, os primeiros um ou dois anos da actual crise estrutural.

Os principais estados capitalistas parecem neste momento estar a tentar ressuscitar o capitalismo neoliberal, mas a análise apresentada aqui sugere que neste momento ele não pode ser ressuscitado como uma base viável para acumulação capitalista renovada. Um novo estado de capitalismo regulado poderia constituir a base para a acumulação renovada, mas exigiria um período de tempo extenso construir uma tal nova forma de capitalismo. Esta crise apresenta uma oportunidade, a qual pode perdurar por alguns anos, para a esquerda organizar uma alternativa real ao capitalismo.

Notas 

1. Ver Sweezy (1970, cap. 11) para uma revisão das teorias marxistas da ruptura.
2. A História mostra que uma viragem para o fascismo também é um resultado possível de uma severa crise económica.
3. As características definidoras do capitalismo são, em suma, a produção mercantil e a relação de trabalho assalariado.
4. Os dados apresentados neste documento sobre PIB, investimento de empresas, desemprego, taxas de juro, salários, produtividade do trabalho e desigualdade de rendimento são, a menos que indicado em contrário, das seguintes fontes: Economic Report of the President 1967; U.S. Bureau of Economic Analysis, 2009; U.S. Bureau of Labor Statistics, 2009; U.S. Bureau of the Census, 1960; and U.S. Federal Reserve System, 2009a and 2009b.
5. Desde o princípio da crise financeira até 1 de Abril de 2009, o governo federal comprometeu com o sector financeiro US$7,7 milhões de milhões como investidor, US$2,3 milhões de milhões como prestamista e US$2,1 milhões de milhões para garantir a dívida do sector financeiro. Dos US$12,1 milhões de milhões comprometidos, US$2,5 milhões de milhões haviam sido gastos até 1 de abril (The New York Times, 2009).
6. Durante a desmobilização e reajustamento económico pós II Guerra Mundial, em 1945, o emprego caiu em 10,1%.
7. Nenhuma destas característica de uma ESA liberal impede os grandes negócios de aproveitar oportunidades para fazer lucros através das suas relações com o estado ou de procurar e obter poder monopolista em mercados.
8. Esta análise é retirada de Kotz (2009a), a qual proporciona exame pormenorizado das raízes da crise actual.
9. A elevação dos gastos dos consumidores em 2005 para 95,9% do rendimento disponível não implicava que a poupança pessoal fosse quase 4% do rendimento, uma vez que parte do rendimento disponível vai para o pagamento de juros e pagamentos de transferência. Naquele ano a taxa de poupança pessoal caiu para apenas 0,4% do rendimento.
10. Ver Kotz (2003b and 2008) para uma análise pormenorizada dos efeitos de bolhas sobre gastos do consumidor e procura agregada nas décadas de 1980 e 2000.
11. No período 2004-06 as famílias dos EUA tomaram emprestado contra os seus lares uma quantia que rondava os 9,5% do rendimento pessoal disponível (Greenspan and Kennedy, 2007).
12. Calculado do U.S. Bureau of the Census, 1960, pp. 92, 126, 600. Os salários nominal estavam estagnados mas os preços caíram ao longo da década.
13. Uma diferença pouco percebida entre a década de 1930 e os dias de hoje é que na crise actual o sistema financeiro se aproximou da insolvência bem antes do início da crise económica, ao passo que nos anos 1930 o colapso financeiro, que aconteceu na Primavera de 1933, seguiu-se a três anos e meio de declínio no sector real.
14. Por contraste, no período de expansão nas décadas de 1980, 1990 e 2000, o salários reais não subiram suficientemente rápido para comprimir lucros (Kotz, 2009b, suplementado com dados actualizados).
15. Por contraste, o estado chinês, o qual tem presidido um sistema que permaneceu fortemente regulado pelo estado ao longo da era neoliberal, foi capaz de aplicar um programa de estímulo relativamente muito mais amplo o qual teve efeito quase imediatamente e restaurou o crescimento económico rápido, embora fizesse isso promovendo investimento para um nível que pode ser insustentável.

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