31 de julho de 2015

Morte por dívida

Minha resposta ao Ministério das Finanças da Alemanha

Jeffrey Sachs [*]


Créditos: Aris Messinis / AFP.

Tradução / Dr. Ludger Schuknecht, economista sênior no Ministério das Finanças da Alemanha, explica o ponto de vista de seu Ministério sobre a Grécia. O núcleo desse ponto de vista é que os países da Eurozona devem viver dentro do limite de seus meios reais; ajustar-se ao peso das próprias dívidas; e tomar todas as doses do remédio da reforma, como lhes sejam prescritas. Se o fizerem, terão sucesso, como se vê nos casos de Irlanda, Espanha e Portugal. A culpa por a Grécia estar como está é dela mesma. Já estava até em vias de se recuperar, o que teria acontecido se, no final de 2014, não se tivesse desviado da rota certa.

Tenho enorme respeito pelo Dr. Schuknecht como economista hábil e cuidadoso. Mas entendo que ele não vê uma realidade histórica. Por mais que as prescrições de sua política estejam corretas em muitos casos – os países devem pagar o que devem e empreender as reformas necessárias para poder pagar –, em outros casos acontece de aquelas prescrições estarem erradas. Estão erradas, quando o serviço da dívida, combinado com outras doenças econômicas, acaba por empurrar a sociedade até o ponto de ruptura. A sabedoria está em saber quando a receita foi errada e, nesses casos, agir criativamente.

A receita foi errada no caso da Alemanha de Weimar nos anos 1920 e início dos 1930, quando a Alemanha foi empurrada para a hiperinflação e, depois, para a depressão. Os alemães pediram aos EUA um alívio financeiro de longo prazo, para o pagamento das reparações de guerra e das dívidas, mas não o recebeu a tempo. Primeiro, veio a hiperinflação; depois, o desemprego em massa; depois o colapso dos bancos; e então uma corrida total ao sistema bancário alemão em 1931, que levou a um fechamento dos bancos (como na Grécia, hoje). O presidente Herbert Hoover depois concedeu uma moratória da dívida, mas tarde demais: em janeiro de 1933, Hitler chegou ao poder.

A receita do Dr. Schuknecht estava errada no caso de muitos países latino-americanos nos anos 1980. Nos anos 1970, empréstimos mal dados por bancos norte-americanos e mal tomados por governos latino-americanos levaram à calamitosa crise da dívida latino-americana dos anos 1980, logo depois de os EUA subirem fortemente sua taxa de juros em 1981. Por vários anos, na década dos anos 1980, os EUA insistiram numa política de "prorrogar-e-fingir", quer dizer, emprestar ao país devedor cada vez mais dinheiro para pagar juros de uma dívida que nunca para de crescer; e fingir que o país poderá algum dia quitar sua dívida. E aqueles países afundaram em alta inflação e instabilidade política. Eventualmente, os EUA intermediaram um pacote de reformas e alívio da dívida.

Com certeza a receita também estava errada na Polônia em 1989, quando a dívida da era soviética estava matando qualquer esperança, criando alta inflação, ameaçando matar no berço a então nascente democracia pós-comunista. Naquele momento eu era conselheiro econômico da Polônia, e insisti fortemente em que os países do G7 garantissem forte alívio da dívida dos poloneses. Os EUA concordaram rapidamente e inteligentemente. Na sequência os demais países do G7 acompanharam os EUA. A Alemanha foi o último país a ceder, mas a Polônia conseguiu seu alívio da dívida, a economia polonesa recuperou-se e uma nova democracia prosperou.

Foi erro insistir em que a Rússia pagasse toda sua dívida em 1992, quando Yeltsin herdou uma economia pós-soviética falida. Como na Polônia em 1989, também pedi muito por um alívio da dívida russa. Mas dessa vez, EUA, Alemanha e outros rejeitaram meu conselho. A consequência foi que a Rússia conheceu vários anos de tumulto financeiro e instabilidade, que levaram os russos a perder a confiança nas novas e frágeis instituições democráticas. O modo como o ocidente abordou a questão da dívida russa disparou uma onda nacionalista dentro da Rússia, semelhante à que se vira na Alemanha de Weimar quando da cobrança das duras reparações de guerra.

Meu argumento é que em nove, de dez casos, insistir que devam sempre pagar tudo que devem é bom princípio com o qual trabalhar; mas pode ser completo desastre no décimo daqueles dez casos. Não se deve empurrar as sociedades até o ponto de ruptura, mesmo que sejam, elas mesmas, as culpadas pela inadimplência.

A Alemanha do pós-guerra "fez por merecer" o Plano Marshall? Não. O Plano Marshall e as políticas dos acordos para a dívida de 1953 foram políticas inteligentes para garantir à Alemanha a chance de recomeçar? Sim. E a Rússia "merecia" o alívio da dívida em 1992? Não. Teria sido inteligente garantir à Rússia aquele alívio? Sim, teria.

A Grécia "merece" o alívio da dívida? Não. A economia grega foi mal administrada ao longo de décadas. E garantir alívio na dívida grega é boa ideia? Sim.

A Grécia tomou empréstimos em excesso; não atacou o nepotismo e a corrupção; e não conseguiu implantar indústrias novas, competitivas. O resultado é que a Grécia não pode pagar tudo que teria de pagar. A economia está quebrada. A base exportadora é estreita demais para que o país possa buscar crescimento puxado pelas exportações – como foi feito com sucesso na Irlanda e noutros países. Os bancos estão quebrados, portanto não há onde as empresas buscarem capital de giro para se reerguerem. A Grécia foi apanhada numa espiral mortal de austeridade, descapitalização, êxodo de cérebros, fuga de capitais e agitação social crescente.

Como sei disso? Acompanho diariamente há seis anos, e já tentei ajudar vários governo gregos – de direita, de centro e de esquerda – a construir acordo inteligente de pagamentos com a Alemanha e com o resto da Eurozona, para apressar alguma recuperação. Na medida do que vi com meus próprios olhos, o Ministério das Finanças da Alemanha jamais, em todos esses anos, buscou qualquer solução real e efetiva.

A Grécia vive crise econômica não menos dramática que a que a Alemanha viveu no governo de Heinrich Brüning em 1930-33. A taxa de desemprego é de 27%; o desemprego entre os jovens é de quase 50%; a produção caiu cerca de 30%; os bancos estão em pânico e em colapso. A Grécia já chegou ao ponto de ruptura. A Alemanha pode dar à Grécia quantas lições de moral quiser dar, e exigir do país o que bem entenda, e a Grécia em todos os casos entrará em colapso, se for forçada a pagar todas as dívidas que tem e a cortar correspondentemente seu gasto público. Todas essas são políticas impossíveis de aplicar – como também eram impossíveis no caso da Alemanha no governo de Brüning. Resultado disso é que nenhum governo democraticamente eleito na Grécia conseguirá sobreviver por mais de uns poucos meses. A Grécia está sendo empurrada para uma trilha que só leva a desastre e mais desastre.

Os contribuintes alemães creem que teriam sido extremamente generosos, ao conceder repetidos empréstimos financeiros aos gregos. Essa noção é verdade só em parte; na outra parte, é fantasia: os contribuintes alemães emprestaram generosamente aos seus próprios bancos, não à Grécia.

Em 2010, todo o dinheiro emprestado à Grécia no primeiro resgate, 100 bilhões de euros, não foi dinheiro usado na Grécia: todo aquele dinheiro foi usado para pagar dívidas bancárias, principalmente a bancos alemães e franceses. Nos casos do segundo e terceiro resgates, o dinheiro também teve de ser usado para pagar dívidas a credores externos. Praticamente nada, dos fundos de resgate do país chegou a ser usado como apoio a investimentos de que a Grécia necessita para alcançar crescimento puxado por exportações, ou para atender qualquer de suas necessidades sociais urgentes.

Agora, a Grécia está em vias de receber um 4º pacote de resgate, que mais uma vez será usado para pagar o FMI, o Banco Central Europeu, o Fundo Europeu para Estabilidade Financeira e outros credores, e para pôr algum dinheiro nos próprios bancos gregos falidos. Ah, sim, os contribuintes alemães foram muito generosos – com os bancos credores e outras instituições. Não foram absolutamente generosos com o povo grego.

Pagar prestações da dívida é como o golpe do jogo dos dedais: deem à Grécia dezenas de bilhões de euros a cada três, quatro anos, para que a Grécia possa pagar o que deve. Quem entende chama esse processo de "prorrogar-e-fingir". O problema é que a dívida cresce; os bancos gregos morrem; e as pequenas e médias empresas gregas entram em colapso. A evasão de cérebros prossegue na Grécia. É o que chamo de morte por dívida. É estratégia que não funcionou na América Latina nos anos 1980, e não permitirá que a Grécia escape da armadilha econômica mortal em que se vê hoje.

Em resumo, quando a crise é de tal profundidade como a da Grécia hoje, o credor mais poderoso que se veja em cena tem responsabilidades históricas. É dever da Alemanha ajudar a Grécia a recomeçar, não fazê-la afundar em colapso. A Alemanha precisa agir e garantir alívio pelo menos parcial da dívida grega, em nome da prosperidade, da democracia e da unidade da Europa.

Claro que esse alívio na dívida tem de vir acompanhado de reformas estruturais na Grécia. Mas, como a Alemanha sabe muito bem, graças à sua própria Agenda de reformas implantada durante o governo do chanceler Schröder – reformas no mercado de trabalho, na administração pública, no Judiciário, abertura de "profissões fechadas" – exigem tempo, até que se traduzam em maior crescimento econômico. Naquele momento, a Alemanha transgrediu critérios de Maastricht. Hoje, a Grécia, em estado muito pior, precisa de alívio na dívida, para ter chance de sucesso nas próprias reformas.

[*] Jeffrey Sachs, 60, diretor do The Earth Institute da Universidade Columbia e Conselheiro Especial do Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, sobre os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio.

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