16 de junho de 2005

Stalin e a Luta pela Reforma Democrática

Grover Furr

Cultural Logic

Parte Um

Introdução

Tradução / Este artigo sublinha as tentativas de Josef Stalin, desde os anos 30 até à sua morte, de democratizar o governo da União Soviética.

Esta afirmação, e o artigo, surpreenderá muitos, e escandalizará alguns. De fato, fiquei surpreso perante os resultados desta investigação, o que me levou a escrever este artigo. Suspeitei durante muito tempo que a versão típica da "guerra fria" da história soviética tinha importantes lacunas. Apesar disso, não estava preparado para a magnitude das falsificações de que tive conhecimento.

Esta história é bem conhecida pelos russos, onde o respeito e também a admiração por Stálin é comum. Yuri Zhukov, o principal historiador russo que avançou com o paradigma de "Stalin democrata", e cujos trabalhos são a principal fonte individual, mas não a única, deste artigo, é uma figura reconhecida, relacionada com a Academia de Ciências. Os seus trabalhos são amplamente conhecidos.

Porém, esta história, assim como os feitos nos quais assenta, é virtualmente desconhecida fora da Rússia, onde o paradigma da Guerra Fria "Stalin, o terrível" domina tanto a bibliografia que os trabalhos aqui citados são referidos muito raramente. Por isso, muitas das fontes utilizadas no artigo só são acessíveis em russo. [1]

Este artigo não só informa os leitores de novos fatos e das suas interpretações sobre a história da URSS. Constitui uma tentativa de fazer chegar aos leitores não-russos o resultado de novas investigações, baseadas nos arquivos soviéticos, sobre o período de Stalin e sobre o próprio Stalin. Os feitos discutidos neste artigo são compatíveis com uma determinada linha de paradigmas históricos soviéticos, na medida em que ajudam a desmistificar um determinado número de interpretações. Serão inaceitáveis por completo (inclusive escandalosos) para aqueles cujas perspectivas políticas e históricas se baseiam em certas noções erradas, baseadas na Guerra Fria, sobre o "totalitarismo" soviético e o "terror" stalinista.

A interpretação khrucheviana de Stalin como um ser sedento de poder, traidor do legado de Lenin, foi uma criação necessária para os interesses da nomenclatura do Partido Comunista nos anos 50. No entanto, apresenta muitas semelhanças e compartilha muitas premissas com o discurso canônico sobre Stalin herdado da Guerra Fria, que esteve ao serviço do desejo das elites capitalistas de apresentar as lutas pelo comunismo, ou qualquer luta da classe operária pelo poder, como um caminho que dirige necessariamente a algum tipo de horror. [2]

Ajusta-se também à necessidade do trotskismo de argumentar que a derrota de Trotsky, o "revolucionário autêntico", teve que ser obra de um ditador que é dado como certo que violou cada um dos princípios pelos que lutou a Revolução. Khruchevistas, anti-comunistas da Guerra Fria, e os paradigmas trotskistas sobre a história soviética são iguais na sua dependência de uma demonização de Stalin, de sua liderança e da URSS durante o seu mandato.

A visão sobre Stalin apresentada neste ensaio é compatível com outros paradigmas históricos contraditórios. As interpretações comunistas anti-revisionistas e pós-maoístas da história soviética contemplam Stalin como um herdeiro lógico e criativo do legado de Lenin, se bem que fracassado em certos aspectos. Igualmente muitos nacionalistas russos, que difícilmente aprovariam os enganos de Stalin enquanto comunista, respeitam a sua figura como responsável por fazer da Rússia uma potência industrial e militar. Stalin é para todos eles uma figura essencial, se bem que a partir de uma ótica diferente.

Este trabalho não tenta "reabilitar" Stalin. Estou de acordo com Yri Zhukov quando escreve:


Tenho que dizer, sinceramente, que me oponho à reabilitação de Stalin, porque me oponho às reabilitações em geral. Nada nem ninguém deve ser reabilitado, devemos, apenas, descobrir a verdade e dá-la a conhecer. Porém, desde os tempos de Khruchev que as únicas vítimas das repressões de Stalin que ouvimos falar, são aquelas que tomaram parte nelas, ou que as facilitaram, e que não se opuseram a elas. (Zhukov, KP Nov. 21 02)

Tão pouco quero afirmar que, caso Stalin tivesse conseguido atingir todas as metas, estariam resolvidos os muitos e variados problemas da construção do socialismo e do comunismo.

Durante o período analisado neste ensaio, a liderança de Stalin preocupou-se não só em potencializar a democracia no governo do Estado, mas também, em favorecer a democracia interna no Partido. Este ponto, importante e relacionado, precisa de um estudo em separado, e não é o ponto central deste trabalho. Apesar de ser conhecido o conceito de "democracia", este tem um significado distinto no contexto de um partido guiado pelo centralismo democrático, formado por membros voluntários, que no contexto de um grande Estado de cidadãos, não se podem dar por supostas bases de consenso político. [3]

Este artigo baseou-se em fontes de primeira mão sempre que foi possível. Ainda que se baseie com maior fundamento nos trabalhos acadêmicos de historiadores russos que têm acesso a documentos não publicados, ou de mais recente publicação, dos arquivos soviéticos. Muitos documentos soviéticos de grande importância só estão à disposição de acadêmicos com acesso privilegiado. Muitos outros permanecem completamente sequestrados e "classificados", incluídos muitos do arquivo pessoal de Stalin, os materiais da condenação e de investigação dos processos de Moscovo de 1936-1938, os materiais de investigação sobre o caso Tukhachevski de 1937 e muitos outros.

Yuri Zhukov descreve a situação dos arquivos da seguinte forma:


Com o começo da Perestroika, sendo um dos seus lemas a glasnost... o arquivo do Kremlin, antes aberto aos investigadores, foi fechado. Os seus conteúdos começaram a trasladar-se [para vários arquivos públicos]. Este processo começou, mas não chegou a ser concluído. Sem publicidade ou explicação, em 1996 os materiais mais importantes e essenciais foram reclassificados e arquivados no arquivo do Presidente da Federação Russa. Foram prontamente evidentes as razões desta operação: permitir o ressurgimento dos velhos e lamentáveis mitos. (6)

Zhukov refere-se aos mitos "Stalin o terrível" e "Stalin o grande líder". Só o primeiro destes mitos é familiar aos leitores da historiografia ocidental e anti-comunista. No entanto, as duas escolas estão bem representadas tanto na Rússia como na Comunidade de Estados Independentes.

Uma das obras de Zhukov, fonte de muito do contido neste artigo, intitula-se Inoy Stalin - Um Stalin diferente, "diferente" dos mitos, mais perto da verdade, baseado nos documentos de arquivo recentemente desclassificados. A capa do livro de Zhukov apresenta uma fotografia de Stalin e, frente a ela, a mesma fotografia em negativo: o seu oposto. Em poucas ocasiões Zhukov utiliza fontes de segunda mão. Na maior parte das vezes, ele cita documentos de arquivo não publicados, ou recentemente desclassificados e publicados. A sua descrição da política do Politburo de 1934 a 1938 é muito diferente de tudo o que tenha a ver com os mitos que ele rejeita.

Zhukov remata a sua introdução com as seguintes palavras:


Não presumo ter terminado a tarefa. Tento só evitar pontos de vista pré-concebidos, evitar os dois mitos; tentar reconstruir o passado, uma vez muito conhecido, mas agora esquecido intencionalmente, deliberadamente não citado, ignorado por todos.

Assim como Zhukov, este artigo também tenta manter-se à margem dos dois mitos.

Sob estas condições qualquer conclusão tem que ter o carácter de tentativa. Esforcei-me por utilizar sensatamente todos os materiais, já foram de primeira ou segunda mão. Com a condição de não interromper o texto coloquei as fontes referenciais no final de cada parte.

A investigação que este artigo resume tem importantes consequências para aqueles de nós que queremos levar adiante uma análise de classe da história, incluindo a história da União Soviética.

Um dos melhores investigadores do período de Stalin na URSS, J. Arch Getty, denominou a investigação histórica realizada durante o período da Guerra Fria como "produto propagandístico", "investigação" que não merece nem crítica nem emenda, tem que ser feita de novo, desde o começo. [4] A minha opinião coincide com a de Getty, ainda que acrescentaria que esta investigação tendenciosa, "política" e desonesta continua nos dias de hoje.

O paradigma Guerra Fria-Khruchevista foi o ponto de vista dominante da história dos "anos de Stalin". A presente investigação pode dar uma luz sobre a matéria, "um princípio desde o mesmo princípio". A verdade que surge terá também um grande significado para o projeto marxista de compreender o mundo para transformá-lo, da construção de uma sociedade sem classes, uma sociedade com justiça econômica e social.

Na seção final do ensaio sublinhei algumas áreas para uma posterior investigação, apontadas pelos resultados deste artigo.

Uma Nova Constituição

Em dezembro de 1930, o VIII Congresso Extraordinário dos Sovietes aprovou o rascunho da nova constituição soviética. Convocou uma votação secreta e eleições abertas. (Zhukov, Inoy 307-9)

Admitiram-se candidatos não só do Partido Bolchevique - chamado então Partido Comunista da União (bolchevique) [5] - mas também de outros grupos de cidadãos, baseados na zona de residência, filiação (como grupos religiosos), ou organizações dos centros de trabalho. Isto nunca foi levado à prática. Nunca houve eleições abertas.

Os aspectos democráticos da Constituição foram incluídos ante a expressa insistência de Stalin. Juntamente com os seus mais chegados colaboradores no Politburo do Partido Bolchevique, Stalin lutou para manter este projeto (Getty, "State"). Ele, e eles, cederam apenas quando enfrentaram a rejeição total do Comitê Central do Partido, e ante o pânico que criou a descoberta de sérias conspirações para derrocar o governo soviético com a colaboração do fascismo alemão e japonês.

Em janeiro de 1935, o Politburo indicou o trabalho de desenhar os conteúdos de uma nova constituição a Avel Ynukidze [6] que, meses mais tarde, voltou com a ideia de eleições abertas. Quase imediatamente, a 25 de janeiro de 1935, Stalin expressou o seu desacordo com a proposta de Yenukidze, insistindo nas eleições secretas (Zhukov, Inoy 116-21).

Stalin tornou público este desacordo de forma muito notória em março de 1936, durante uma entrevista com o magnata da imprensa americana Roy Howard. Stalin declarou que todas as votações seriam secretas. O voto teria uma base de igualdade, tendo o mesmo valor o voto de um camponês que o voto de um operário; uma base territorial, como no Ocidente, assim como seria baseada no status, como na época czarista. O voto seria direto: todos os Sovietes seriam eleitos pelos cidadãos, não por representantes indiretos. (Stalin-Howard Interview; Zhukov, "Repressii" 5-6).


Disse Stalin: "Adotaremos a nossa nova constituição provavelmente no final deste ano. A comissão encarregada de redigi-la está a trabalhar e finalizará em breve o seu trabalho. Como já se anunciou, de acordo com a nova constituição, o sufrágio será universal, igual, direto e secreto". (Entrevista Stalin-Howard)

E o mais importante: Stalin declarou que em todas as eleições participariam diferentes forças políticas:


Você está confuso pela possibilidade de apenas um partido se apresentar às eleições. E não compreende como pode ter lugar uma campanha eleitoral nestas condições. Evidentemente, os candidatos serão apresentados não só pelo Partido Comunista, mas também por toda classe de organizações públicas, alheias ao Partido. E temos centenas. Não temos partidos, na medida em que não temos uma classe capitalista em luta com uma classe trabalhadora que é explorada pelos capitalistas. A nossa sociedade consiste exclusivamente em trabalhadores livres do campo e da cidade; trabalhadores, camponeses e intelectuais. Cada um destes segmentos tem os seus especiais interesses, interesses expressos através das numerosas organizações que existem. (13-14)

Diferentes organizações cidadãs apresentariam candidatos que competiriam com os candidatos do Partido Comunista. Stalin declarou a Howard que os cidadãos marcariam os nomes de todos os candidatos, exceto aqueles que desejavam votar.

Também salientou a importância de eleições nas quais a competência surgiria como forma de lutar contra a burocracia:


Você pode pensar que não haverá eleições. Mas, sim, haverão e vejo campanhas muito agitadas. Não são poucas as instituições no nosso país que funcionam mal. Dão-se casos em que este ou aquele governo local não são quem deveria satisfazer esta ou aquela das variadas e crescentes necessidades dos trabalhadores da cidade e do campo. Edificou-se uma boa escola ou não? Melhoraram as condições de vida? Você é um burocrata? Ajudou você a tornar mais eficaz o nosso trabalho e as nossas vidas mais civilizadas? Assim serão os critérios com que milhões de eleitores medirão as propostas dos candidatos, rejeitarão os não aptos, suprimirão os seus nomes das listas de candidatos e favorecerão e elegerão os melhores. Sim, as campanhas eleitorais serão disputadas, e estarão centradas em numerosos e agudos problemas, sobretudo de natureza prática, de primeira importância para o povo. O nosso novo sistema eleitoral reforçará todas as instituições e organizações, que serão obrigadas a melhorar o seu trabalho. O sufrágio universal, igualitário, direto e secreto será uma arma nas mãos do povo contra os órgãos governamentais que funcionem mal. Na minha opinião, a nova constituição soviética será a constituição mais democrática do mundo. (15)

A partir deste ponto de vista, Stalin e os membros do Politburo mais próximos dele, Vyacheslav Molotov e Andrei Zhdanov, apoiaram as eleições abertas e secretas em todos os debates dentro do Partido. (Zhukov, Inoy, 207-10; Entrevista Stalin-Howard)

Stalin também insiste no fato de que muitos cidadãos soviéticos, que foram privados dos seus direitos, agora os recuperariam. Isto incluía membros das classes exploradoras, como os grandes proprietários, e aqueles que lutaram contra os bolcheviques durante a Guerra Civil de 1918-1921, mais conhecidos como "guardas brancos", assim como aqueles condenados por crimes (como hoje nos USA). Os grupos mais importantes e provavelmente mais numerosos entre os lishentsy (expropriados) foram dois: os kulaks, os principais visados durante a coletivização, e os que violaram a "lei dos três ouvidos" [8] (roubar propriedades estatais, assim como cereais, às vezes simplesmente para combater a fome). (Zhukov, Inoy 187)

Estas reformas eleitorais seriam desnecessárias, a não ser que a direção soviética quisesse mudar a forma de governo da União Soviética. O que perseguiam era expulsar o Partido Comunista da direção direta da União Soviética.

Durante a Revolução Russa e os críticos anos que se seguiram, a URSS foi governada por uma hierarquia eleita de sovietes, desde o nível local ao nacional, com os Sovietes Supremos como órgãos legislativos, o Conselho de Comissários do Povo, como o poder executivo, e o Secretário deste Conselho como primeira figura do Estado. Mas na prática, em todos os níveis, a eleição destes estava nas mãos do Partido Bolchevique. Houve eleições, mas a nomeação direta por parte dos líderes do Partido, denominada "cooptação" era também habitual. Inclusive as eleições foram controladas pelo Partido, já que ninguém podia candidatar-se sem a aprovação dos seus dirigentes.

Para os bolcheviques isto era lógico. Era a forma que tornava a ditadura do proletariado nas condições históricas específicas da União Soviética revolucionária e pós-revolucionária. Sob a Nova Política Econômica, ou NEP, [9] o trabalho e as capacidades dos exploradores foram necessárias. Ainda que só quando estivessem ao serviço da ditadura do proletariado, do socialismo. Não se deixou que reconstruíssem as relações capitalistas além de certos limites, nem que recuperassem poder político.

Durante os anos 20 e princípios dos 30, o Partido Bolchevique recrutou membros entre a classe trabalhadora de forma intensa. No final dos anos 20, a maioria dos membros do Partido eram trabalhadores e uma alta percentagem dos trabalhadores estava no Partido. Este recrutamento massivo e os grandes projetos de educação política coincidiram com as enormes tensões do primeiro Plano Quinquenal, a industrialização com marchas forçadas, e a coletivização, normalmente forçada, das propriedades individuais (passando a constituir fazendas colectivas – kolkhoz –, ou soviéticas – sovkhoz). A direção bolchevique foi tão sincera na sua tentativa de proletarizar o Partido como bem sucedida nos seus resultados. (Rigby, 167-8;184;199)

Stalin e os seus seguidores dentro do Politburo deram determinados motivos para apoiar a sua vontade de democratizar a União Soviética. Essas razões reforçaram a ideia dessa direção de que começara um novo estágio do socialismo.

A maior parte dos camponeses estava em propriedades coletivas. Com a progressiva diminuição de propriedades individuais, a direção soviética pensou que, objetivamente, os camponeses já não constituíam uma classe sócio-econômica independente. As semelhanças entre camponeses e trabalhadores eram maiores que as diferenças.

Stalin argumentava que, com o rápido crescimento da indústria coletiva e, sobretudo, com a classe operária a controlar o poder político através do Partido Bolchevique, o termo "proletário" já não era apropriado. "Proletariado", declarou Stalin, define a classe trabalhadora sob a exploração capitalista, ou trabalhando sobre relações capitalistas de produção, como as que existiam durante os primeiros anos da União Soviética, especialmente durante a NEP. Mas uma vez abolida a exploração direta dos trabalhadores pelos capitalistas, a classe trabalhadora não deveria ser chamada de "proletariado".

Segundo essa análise, os exploradores do trabalho alheio já não existiam. Os trabalhadores, que agora dirigiam o país no seu próprio interesse através do Partido Bolchevique, já não eram o clássico proletariado. Então, a "ditadura do proletariado" já não era um conceito pertinente. Essas novas condições supunham um novo tipo de Estado. (Zhukov, Inoy, 231;292; Stalin, "Draft" 800-1).

A Luta Contra a burocracia

Os líderes do Partido também estavam preocupados com o papel do Partido neste novo estágio do socialismo. Stalin enfrentou a luta contra o "burocratismo" já desde janeiro de 1934, no seu relatório ao XVII Congresso do Partido. [10] Stalin, Molotov e outros dirigentes denominaram o novo sistema eleitoral como "arma contra a burocratização".

Os líderes do Partido controlavam o governo, tanto decidindo quem entrava nos Sovietes como exercendo diversas formas de fiscalização sobre eles. Molotov, dirigindo-se ao VII Congresso dos Sovietes, o 6 de fevereiro de 1935, afirmou que as eleições secretas "golpearão com grande força os elementos burocráticos, propiciando-lhes um útil toque de atenção". O informe de Yenukidze não recomendava, nem indicava, eleições secretas nem a ampliação dos direitos civis. (Stalin, Relatório ao XVII Congreso do P.C.; Zhukov, Inoy 124)

Os ministros e os seus colaboradores tinham que conhecer os assuntos de que se encarregavam se queriam ser eficazes na produção. Isto significava educação, e também conhecimentos técnicos no seu campo. Mas os líderes do Partido fizeram aos poucos as suas carreiras só através da ascensão aos altos escalões do Partido. Não se precisava muito conhecimento técnico para esse tipo de ascensão. E bem eram necessários critérios políticos. Estes funcionários do Partido exerceram o controle, ainda que lhes faltassem os conhecimentos práticos que, teoricamente, lhes facilitariam uma ótima supervisão. (Stalin-Howard Entrevista, Zhukov, Inoy, 305;Zhukov, "Represii" 6)

Isto era, aparentemente, o que a direção de Stalin entendia por "burocratismo". Era algo visto como perigoso - no que coincidiam todas as correntes marxistas - mas não era considerado inevitável. Cuidaram que podia ser derrotado modificando o papel do Partido numa sociedade socialista.

O conceito de democracia que Stalin e os seus seguidores na direção do Partido desejavam aplicar na União Soviética incluía uma mudança qualitativa no papel do Partido Bolchevique no seio da sociedade.


Os documentos postos à disposição dos investigadores permitem compreender que já nos finais da década dos anos 30, houve intentos de separar o Partido e o Estado, e de limitar o papel do Partido na vida do país. (Zhukov, Tayny 8)

Stalin e os seus continuaram a luta com a oposição de outros elementos no Partido Bolchevique, com resolução, ainda que com cada vez menos possibilidades de vitória, até à morte de Stalin em 1953. A decisão de Lavrentii Beria de continuar esta luta talvez seja a autêntica causa da sua morte às mãos de Khruchev e dos seus colaboradores, se bem que de forma judicial, através de um processo baseado em acusações inventadas em dezembro de 1953, ou bem - como muitas provas indicam - mediante o simples assassinato, em junho desse mesmo ano.

O Artigo 3 da Constituição de 1936 manifesta: "Na URSS todo o poder pertence aos trabalhadores da cidade e do campo, representado pelos Sovietes de Deputados Operários". O Partido Comunista menciona-se no Artigo 126 como "a vanguarda da classe operária na luta por reforçar e desenvolver o sistema socialista, o partido é o núcleo dirigente de todas as organizações de trabalhadores, tanto estatais como públicas". Noutras palavras, o Partido dirigia "organizações", mas não os órgãos legislativos ou executivos do Estado. (Constituição de 1936; Zhukov, Tayny 29-30)

Parece que Stalin cuidou que, uma vez separado o Partido do controle directo sobre a sociedade, o seu papel devia limitar-se à agitação e à propaganda, e à participação na selecção de quadros. Que significaria isto? Talvez algo como o seguinte:



  • O Partido regressaria à sua função essencial de ganhar o povo para os ideais do comunismo.
  • Isto significaria o fim dos trabalhos cômodos, e o regresso ao estilo de trabalho duro que caracterizou os bolcheviques durante o Czarismo, a Revolução, a Guerra Civil, o período da NEP e a não menos dura etapa dos planos de industrialização e coletivização. Era algo necessário para conseguir uma base real entre as massas (Zhukov, KP Nov. 13 02; Mukhin, Ubiytvo).
  • Assegurar que a direção da produção, e de toda a sociedade soviética, estivessem nas mãos de gente tecnicamente preparada.
  • Deter a degeneração do Partido Bolchevique, e fazer regressar os militantes do Partido, especialmente os seus líderes, às suas funções primárias: protagonizar a liderança na política e na moral, mediante o exemplo e a persuasão do resto da sociedade.
  • Reforçar o trabalho do Partido entre as massas.
  • Granjear o apoio dos cidadãos para o governo.
  • Criar as bases para uma sociedade sem classes e comunista.

Durante a guerra

  • Seria finalmente institucionalizada a Constituição de 1936, reforçando os laços entre a população e o Estado soviético.
  • Seria devolvida a direção dos órgãos estatais àqueles realmente qualificados.
  • Impedia-se que os níveis superiores do Partido se convertessem numa casta de parasitas e corruptos.
  • A exposição de uma infundada falta de confiança no Partido significaria um péssimo exemplo para outros países do mundo, onde os Partidos Comunistas ainda não estavam no poder.
  • Tinha contra si o Comitê Central e a nomenclatura do partido, como já acontecera antes da guerra.
  1. Colocar em prática o voto universal na tomada de decisões, das questões fundamentais da vida governamental, tanto na esfera social como econômica, assim como em questões relacionadas com a vida, as condições de vida e o desenvolvimento cultural.
  1. Ampliar a iniciativa legislativa a partir da base, concedendo às organizações sociais o direito a apresentar propostas legislativas ao Soviete Supremo.
  1. Confirmar o direito dos cidadãos e organizações sociais para apresentar diretamente propostas ao Soviete Supremo relacionadas com as questões mais importantes da política nacional e internacional.
  • O nome do Partido, até então "Partido Comunista de Toda a União (Bolchevique)”, foi oficialmente mudado para "Partido Comunista da União Soviética". A mudança ia no sentido de fazer uma aproximação à maior parte dos partidos comunistas do mundo, ligando o partido ao Estado. [5]
  • Um "Presidium" subtituiu o Politburo do Comitê Central. Este nome também foi utilizado para designar outros órgãos representativos, como, por exemplo, o Presidium do Soviete Supremo. Eliminou-se, ainda, o "político" do nome, depois de tudo, "político" era todo o Partido e não só os dirigentes.



Stalin insistia que os comunistas tinham que ser gente afeita ao trabalho duro, cultos, capazes de fazer uma contribuição positiva à produção e à criação da sociedade comunista. O próprio Stalin foi um incansável estudioso. [11]

Resumindo, as provas indicam que Stalin considerava o novo sistema eleitoral apropriado para cumprir os seguintes objetivos:




A Derrota de Stalin

Durante 1935, sob o mandato de Andrei Vyshinski, Fiscal chefe da URSS, muitos cidadãos que foram exilados, que foram encarcerados e - o fundamental para o nosso estudo - foram privados do direito ao voto, recuperaram os seus direitos. Centenas de milhares de antigos kulaks, proprietários ricos que foram vítimas da coletivização, e aqueles que foram encarcerados ou expulsos do país por se oporem à coletivização, foram libertados. Vyshinski criticou duramente o NKVD (Comissariado Popular para Assuntos Internos) pela "enorme quantidade de erros e equívocos" na deportação de quase 12.000 pessoas de Leningrado após o assassinato de Kirov em dezembro de 1934. Declarou que adiante o NKVD não poderia prender ninguém sem autorização prévia do fiscal. Então, centenas de milhares de pessoas tiveram motivos para pensar que o Estado e o Partido foram injustos com eles. (Thurston 6-9; Zhukov, KP Nov 14. 1902 Zhukov, Inoy 187; Zhukov, "Represii" 7)

Originalmente, entre as intenções de Stalin para a nova Constituição estava a da participação de todas as forças políticas. Declarou isso na sua entrevista com Roy Howard a 1 de março de 1936. Na reunião do Comitê Central de junho de 1937, Yakovlev - um dos membros do Comitê Central que, juntamente com Stalin, mais trabalhara no desenho da nova Constituição (Zhukov, Inoy 223) - afirmou que a ideia de eleições abertas fora feita por Stalin. Esta sugestão encontrou uma ampla oposição por parte dos líderes regionais do Partido, dos Primeiros Secretários, ou a "partitocracia", como Zhukov os denominava. Após a entrevista com Howard não teve nem mesmo sequer um apoio nominal à declaração de Stalin sobre eleições abertas nos principais jornais, a maioria sob o controle direto do Politburo. O Pravda publicou um só artigo, a 10 de Março, e não mencionou o tema das eleições.

De tudo isto, Zhukov deduz:


Isto só podia significar uma coisa. Não só a "ampla liderança" (os Primeiros Secretários regionais) mas também uma grande parte do aparelho do Comitê Central, não aceitou as inovações de Stalin, e não quis aprovar, nem sequer de forma meramente nominal, as eleições, um perigo para muitos que, como se deduzia das palavras de Stalin que o Pravda sublinhou, ameaçava a posição e o poder dos Primeiros Secretários, os Comitês Centrais dos partidos comunistas das nacionalidades, e os comitês regionais de cidade e de outras áreas. (Inoy, 211)

Os Primeiros Secretários mantinham os cargos, sem poder ser expulsos em nenhuma eleição. O imenso poder de que gozavam procedia do controle do Partido sobre cada um dos aparelhos econômicos e estatais: kolkhoses, fábricas, educação, exército... O novo sistema eleitoral privaria os Primeiros Secretários da sua condição de delegados nos Sovietes, e impediria que pudessem eleger delegados a seu gosto. Uma derrota deles, ou dos seus "candidatos" (os candidatos do Partido) nas eleições aos Sovietes seria uma chamada de atenção sobre o seu trabalho. Um Secretário cujos candidatos não fizessem frente aos candidatos não pertencentes ao Partido evidenciaria a sua fraca ligação com as massas. Durante as campanhas, os candidatos opositores centrariam as suas críticas em temas centrais como a corrupção, o autoritarismo ou a incompetência dos candidatos do Partido. Os candidatos derrotados mostrariam as suas fraquezas como comunistas, o que conduziria provavelmente à sua remoção do posto (Zhukov KP Nov. 13 02; Inoy 226; cf. Getty,"Excesses" 122-3)

Os líderes veteranos do Partido acumulavam muitos anos de militância, veteranos dos perigosos dias do czarismo, da Revolução, da Guerra Civil e da coletivização, quando ser comunista significava numerosos perigos e dificuldades. Muitos deles tinham uma pobre formação acadêmica. Diferente de Stalin, Kirov ou Beria, a maior parte deles ou não tinham vontade ou não podiam "desenvolver-se a si mesmos" através da auto-educação. (Mukhin, Ubiystvo 37; Dimitrov 33-4; Stalin, Zastol'nye 235-6)

Todos estes militantes eram desde sempre os defensores das políticas de Stalin. Foram os que levaram adiante a dura coletivização do campesinato, na qual centenas de milhares foram deportados. Durante os anos 1932 e 1933, muita gente, talvez três milhões de pessoas, morreram de fome, uma fome originada por causas naturais e não humanas que fez ainda mais dura a expropriação e a coletivização do cereal para o campesinato, ou morreram nos levantes armados dos camponeses (que também causaram muitas vítimas entre os bolcheviques). Estes líderes do Partido estiveram de acordo com a industrialização acelerada, que se deu em pobres condições de vida (poucos alimentos, péssimas casas, paupérrimos cuidados médicos, salários baixos, etc.).

Agora, as eleições nas que podiam participar aqueles que até esse momento estavam privados do direito ao voto por terem combatido as políticas soviéticas, era provável que muitos militantes veteranos temessem que estes novos eleitores votassem contra os seus candidatos ou qualquer outro candidato bolchevique. A derrota dos seus candidatos punha em perigo o poder e os privilégios com que contavam. (Zhukov, KP Nov. 13 02; 1936 Const., Ch. X; cf. Getty, "Excesses" 125, sobre a importância do sentimento religioso no país).

Julgamentos, Conspirações, Repressão

Os planos para a nova Constituição e as eleições foram discutidos na reunião do Comitê Central de junho de 1936. Os delegados aprovaram por unanimidade o rascunho constitucional. Mas ninguém disse nada em prol do mesmo. Este fracasso em dar ao menos um apoio ritual a uma proposta de Stalin indicava certamente uma "oposição latente da direção ampliada", uma "evidente falta de compromisso" (Zhukov, Inoy 232, 236; "Repressii" 10-11)

Durante o VIII Congresso dos Sovietes de toda Rússia, nos meses de novembro e dezembro de 1936, Stalin e Molotov insistiram de novo na importância de ampliar o direito ao voto e de eleições secretas e abertas. Na linha do espírito da entrevista de Stalin com Howard, Molotov sentiu os efeitos benéficos, para o Partido, de permitir candidatos não comunistas aos Sovietes:


Este sistema... não pode fazer outras coisas que golpear a quem se move no burocratismo, facilitando a promoção de novas forças... tem que se potencializar para mudar os elementos mais atrasados ou burocratizados. Sob essa nova forma de eleições, é possível a eleição de elementos inimigos. Mas também este perigo, em última instância, tem que ajudar-nos, já que servirá de chicote para aquelas organizações que o precisem, e para os trabalhadores (do Partido) que ficaram adormecidos. (Zhukov, "Repressii" 15)

O próprio Stalin foi mais além:


Alguns dizem que isto é perigoso, já que os elementos hostis ao poder soviético poderiam chegar aos níveis mais altos, alguns dos antigos guardas brancos, kulaks, sacerdotes, etc. Mas, que há a temer? Se tens medo dos lobos, não caminhes no bosque. Por um lado, nem todos os antigos kulaks, guardas brancos e padres são hostis ao poder soviético. Por outro, se o povo se deixa levar ali ou aqui por forças hostis, isto significará que o nosso trabalho de agitação está pobremente organizado, e que merecemos esta desgraça. (Zhukov,Inoy 293; Stalin, "Draft")

Novamente, os primeiros secretários demonstraram uma tácita hostilidade. A reunião do Comitê Central de dezembro de 1936, cujas sessões coincidiram com as do Congresso, reuniu-se o 4 de dezembro. Mas não houve nenhuma discussão do primeiro ponto da ordem do dia, o rascunho da Constituição. O relatório de Yezhov, "Sobre as organizações anti-soviéticas de direita e trotskistas" estava muito mais perto das preocupações dos membros do Comitê Central. ("Fragmenty” 4-5; Zhukov, Inoy 310-11)

Em 5 de dezembro de 1936 o Congresso aprovou o rascunho da nova Constituição, ainda que não tenha ocorrido realmente discussão. Contra essa discussão, os delegados (líderes do Partido) enfatizaram as ameaças dos inimigos exteriores e interiores. Mais que discursos de aprovação da Constituição, (tema principal sobre o qual tratou Stalin) os delegados Molotov, Zhdanov, Litvinov e Vyshinsky ignoraram virtualmente o tema da Constituição. Nomeou-se uma comissão para o posterior estudo do rascunho constitucional, sem decidir nada sobre as eleições abertas. (Zhukov, Inoy 294; 298; 309)

A situação era efetivamente muito tensa. A vitória dos fascistas na Guerra Civil do Estado espanhol era só uma questão de tempo. A União Soviética estava rodeada por potências hostis. Na segunda metade da década dos anos 30, absolutamente todos esses países eram regimes abertamente autoritários, militaristas, anti-comunistas e anti-soviéticos. Em outubro de 1936, a Finlândia disparou contra a fronteira soviética. Nesse mesmo mês nasce o eixo Berlim-Roma, entre Hitler e Mussolini. Um mês mais tarde, o Japão une as suas forças à Alemanha nazista e à Itália fascista para formar o Pacto Anti-Komintern. Os esforços soviéticos para formar alianças militares contra a Alemanha nazista encontrou rejeição nas capitais ocidentais. (Zhukov, Inoy 285-309)

Na época em que o Congresso tratava da nova Constituição, tiveram lugar os dois principais julgamentos de Moscou. Zinoviev e Kamenev foram julgados juntamente com outros em agosto de 1936. O segundo julgamento, em janeiro de 1937, afetava alguns dos principais seguidores de Trotsky, dirigidos por Yuri Piatakov, que até à bem pouco fora o Comissário Delegado de Indústria Pesada. [12]

A reunião do Comitê Central de fevereiro-março de 1937 trouxe prontamente as contradições dentro da direção do Partido: a luta contra os inimigos internos, e a necessidade de preparar eleições abertas e secretas sob a nova Constituição para o final do ano. A descoberta paulatina de mais e mais grupos que conspiravam para derrubar o governo soviético produziu um aumento da vigilância interna. Mas a preparação de eleições autenticamente democráticas, e o aperfeiçoamento na democracia interior do Partido (tema continuamente apoiado pelos mais próximos de Stalin dentro do Politburo) requeria precisamente o contrário: impulso à crítica e à autocrítica, eleições secretas dos líderes do Partido e acabar com a "cooptação" por parte dos Primeiros Secretários.

Essa reunião, a mais longa na história da URSS, prolongou-se por duas semanas. Mas nada disto soubemos até 1992, quando a volumosa transcrição dessa reunião começou a ser publicada no Voprosy Istorri, publicação que se prolongou durante quatro anos.

O relatório de Yezhov para continuar as investigações sobre as conspirações no país foi posto na sombra por Nikolai Bukharin, que, através de eloquentes confissões de passadas deslealdades, tentava distanciar-se dos seus antigos aliados, assegurando o seu compromisso com o governo soviético, mas que só lhe valeu para culpar-se a si mesmo posteriormente. (Thurston, 40-42; Getty e Naumov confirmam, 563)

Três dias depois, Zhadanov falou da necessidade duma maior democracia tanto no país como no Partido, invocando a luta contra a burocracia e a necessidade de laços mais fortes com as massas.


O novo sistema eleitoral dará um poderoso impulso para o aperfeiçoamento do trabalho dos organismos soviéticos, a liquidação de instituições burocráticas, a eliminação de defeitos burocráticos e a deformação no trabalho das organizações soviéticas. Esses defeitos, como você sabe, são muito importantes. Os organismos do nosso Partido devem estar preparados para a luta eleitoral. Nas eleições teremos que contar com a agitação dos inimigos e com candidatos inimigos. (Zhukov, Inoy 343)

Não há dúvida que, como porta-voz da direção estalinista, previa disputas eleitorais com candidatos não pertencentes ao Partido e opostos aos processos que se davam na União Soviética. Só este fato já derruba as versões da Guerra Fria e as explicações khruchevistas.

Zhdanov também repetiu durante longo tempo a necessidade de desenvolver normas democráticas dentro do mesmo partido bolchevique.


"Se queremos o respeito dos trabalhadores soviéticos e do Partido às nossas leis, das massas à Constituição soviética, temos que garantir a renovação do Partido sobre a base do estabelecimento das bases da democracia interna, como se reflete nos regulamentos do nosso Partido." 
"Enumero a continuação das medidas essenciais, já contidas no projeto de resolução do seu relatório: a eliminação da cooptação, a proibição das votações abertas; garantir o direito ilimitado dos membros do Partido a afastar os candidatos eleitos e o direito ilimitado para criticar estes candidatos". (Zhukov, Inoy 345)

O relatório de Zhdanov perdeu-se, porém, entre as discussões de outros pontos da ordem do dia, principalmente discussões sobre os "inimigos". Certo número de Primeiros Secretários ficou alarmado com o fato de alguns dos candidatos que se preparavam ou se supunha que se preparavam para as eleições soviéticas eram contrários ao poder soviético: sociais-revolucionários, padres e outros "inimigos". [13]

Molotov replicou ressaltando, mais uma vez, "o desenvolvimento e o reforço da autocrítica", opondo-se diretamente à "procura de inimigos":


"Não faz sentido procurar culpados, camaradas. Se quiseres, todos somos culpados, começando nos órgãos centrais do Partido e acabando nas organizações de base". (Zhukov, Inoy 349)

Mas as posteriores intervenções ignoraram o seu relatório, teimando na procura de "inimigos", na denúncia de "saboteadores", e a luta contra a "sabotagem". Na seguinte intervenção de Molotov, este fala da falta de atenção dada, fundamentalmente, à sua intervenção, que voltou a repetir, após resumir o que se estava a fazer contra os inimigos internos.

O discurso de Stalin de 3 de Março envolvia realçar a necessidade de melhorar o trabalho do Partido, suprimindo os incapazes, buscando novos camaradas. Como o de Molotov, o discurso de Stalin foi virtualmente ignorado.


Desde o começo das discussões, os temores de Stalin foram compreensíveis. Parecia estar isolado por uma parede surda de incompreensão, de má vontade dos membros do Comitê Central que ouviram do relatório somente o que queriam ouvir, e discutiram só o que queriam discutir. Das 24 pessoas que participaram nas discussões, 15 falaram principalmente sobre os "inimigos do povo", ou seja, pode-se dizer, os trotskistas. Falaram com convicção, com agressividade, como o fizeram antes os relatórios de Zhdanov e Molotov. Reduziram todos os problemas a um: a necessária busca de "inimigos". E ninguém retomou o principal ponto de Stalin, sobre o mau funcionamento do trabalho nas organizações do Partido e a preparação para as eleições do Soviete Supremo. (Zhukov, Inoy, 357)

No seu discurso final do 5 de Março, último dia da reunião, Stalin minimizou a necessidade de procurar inimigos, inclusive trotskistas, muitos dos quais, segundo afirmou, regressaram ao Partido. O seu ponto principal foi a necessidade de impedir os funcionários do Partido de dirigir todos e cada um dos aspectos econômicos, combater a burocracia e elevar o nível político. Pode-se dizer, Stalin apostou em elevar o nível de crítica aos Secretários.

"Alguns camaradas pensam que sendo eles Comissários Populares, sabem tudo que há a saber. Cuidam que o posto, por si mesmo, garante grandes e infinitos conhecimentos. Ou bem pensam: 'se sou um membro do Comitê Central, não o sou por acidente, então significa que sei tudo'. Isso não é assim." (Stalin, Zakliuchitel'noe;Zhukov, Inoy 360-1)

Algo que soava ameaçador para todos os dirigentes do Partido, incluindo os Primeiros Secretários, foi a afirmação de Stalin de que deveriam eleger dois quadros para substituí-los para que participassem do curso de educação política que ocorreria durante seis meses. Esta substituição era perigosa para os Secretários do Partido, que temiam que durante esse espaço de tempo fossem destinados a outros lugares, quebrando desta forma a estrutura do seu "clã" (outros dirigentes ao seu serviço), uma das primeiras causas da burocracia. (Zhukov, Inoy 362)

Thurston define o discurso de Stalin como "notavelmente suave", defendendo "a necessidade de aprender das massas, e de emprestar atenção às críticas de baixo". Inclusive a resolução no relatório de Stalin tocava só superficialmente o tema dos "inimigos", tratando principalmente dos erros na organização do Partido e na sua direção. Segundo Zhukov, que menciona esta resolução não publicada, nem um só dos seus 25 pontos estava relacionado principalmente com os "inimigos". (Thurston, 48-9;Zhukov, Inoy 362-4) [14]

Após a reunião, os Primeiros Secretários protagonizaram virtualmente uma rebelião. Primeiro Stalin, e depois o Politburo, emitiram mensagens lembrando a necessidade de efetuar votações secretas no seio do Partido, opor-se à conduta de cooptação favorecendo as eleições, e a necessidade de generalizar a democracia interna no Partido. Os Primeiros Secretários continuaram a fazer as coisas como antes, independentemente das resoluções da reunião.

Nos meses seguintes, Stalin e os seus colaboradores mais chegados tentaram que o problema dos "inimigos" não fosse a principal preocupação dos membros do Comitê Central, insistindo na luta contra a burocracia no Partido, e em preparar as eleições ao Soviete. Entretanto "os líderes locais do Partido fizeram tudo o que a disciplina do Partido lhes permitia, e às vezes um pouco mais, para suspender ou retardar as eleições". (Getty, "Excesses" 126; Zhukov, Inoy 367-71)

A repentina descoberta, em abril, maio e primeiros dias de junho de 1937, do que aparentemente era um amplo complô militar e policial fez crescer o pânico no governo de Stalin. Genrikh Yagoda, diretor de segurança e Ministro de Interior, foi preso no final de março de 1937, começando as confissões em abril. Em maio e princípios de 1937, militares de alta patente confessaram a sua conspiração com o comando alemão para derrotar o Exército Vermelho no caso de uma invasão por parte da Alemanha e dos seus aliados. Também confessou as suas relações de natureza conspirativa com políticos, incluindo muitos que ocupavam posições destacadas. (Getty, "Excesses" 115, 135; Thurston, 70, 90, 101-2; Genrikh I Agoda) [15]

Esta situação era muito mais séria que todas as anteriores. Durante os julgamentos de Moscou de 1936 e 1937, o governo concentrou todo o seu tempo a preparar os processos e a organizar julgamentos públicos, dotando-os de uma máxima publicidade. Mas esta conspiração militar foi tratada de uma forma muito diferente. Pouco mais de três semanas tinham passado, desde a data de detenção de Mikhail Tukhachevsky, finais de maio, até ao julgamento e execução deste e de outros sete militares de alta patente nos dias 11 e 12 de junho. Durante este período, centenas de milhares de comandos militares foram convocados para Moscou para escutar as provas contra os seus colegas - os seus superiores, para a maior parte deles - e para escutar as alarmantes análises de Stalin e do marechal Voroshilov, Comissário do Povo para a Defesa, o militar de maior graduação no país.

Nas datas da reunião, fevereiro e Mamço, nem Yagoda nem Tukhachevsky tinham sido ainda presos. Stalin e o Politburo tinham como objetivo que a Constituição fosse o principal ponto da agenda, colocando-se à defensiva ante o fato de que a maioria dos integrantes do Comitê Central, ignorando este ponto, insistiram na batalha contra os "inimigos". O Politburo planejou que as reformas constitucionais fossem também o ponto essencial da reunião seguinte a celebrar em junho de 1937. Mas a situação em junho era muito diferente. A descoberta de complôs na direção do NKVD e entre muitos destacados líderes militares para derrubar o governo e matar os seus dirigentes, mudou totalmente o clima político.

Stalin foi colocado na defensiva. No seu discurso de 2 de junho à sessão ampliada do Soviete do Exército (reunido de 1 a 4 de junho), descreveu as conspirações recentemente descobertas [16] como "limitadas", e encerradas com grande êxito. Também, na reunião de fevereiro-março, ele e os seus apoiadores no Politburo minimizaram as amplificadas preocupações dos Primeiros Secretários sobre os "inimigos internos". Mas, como sublinha Zhukov, a situação "lenta, ia escapando decisivamente das suas mãos (de Stalin)". (Stalin, "Vystuplenie"; Zhukov, Inoy Ch. 16, passim; 411)

A reunião do Comitê Central de junho de 1937 [17] começou com as propostas de reprovação, em primeiro lugar, de sete membros do Comitê Central e candidatos por "falta de confiança política", e depois com as de mais 19 por "traição e atividades contra-revolucionárias". Estes 19 foram presos pelo NKVD. Outros dez membros do Comitê Central foram expulsos por acusações da mesma natureza.

Yakovlev e Molotov criticaram o fracasso dos dirigentes do Partido em organizar eleições independentes nos Sovietes. Molotov defendeu inclusive a medida de afastar do caminho os revolucionários que evidentemente não estavam preparados para as tarefas do momento. Insistiu que os dirigentes dos Sovietes não eram "trabalhadores de segunda categoria". Evidentemente, os dirigentes do Partido estavam a tratá-los desse modo.

Yakovlev argumentou e criticou o fracasso dos Primeiros Secretários na hora de realizar eleições secretas para os postos do Partido, apoiando-se, por estar contra, as nomeações ("cooptação"). Destacou a necessidade de que os membros do Partido eleitos nos Sovietes não estivessem às ordens de grupos do Partido, fora dos Sovietes, que condicionavam as suas posições. Que o seu voto não fosse o assinalado pelos seus superiores no Partido, como os Primeiros Secretários. Tinham que ser independentes. Yakovlev utilizou os termos mais duros para se referir à necessidade de "colocar a mão na mais rica reserva dos novos quadros para substituir aqueles corrompidos ou burocratizados". Todas estas afirmações constituem um ataque explícito aos Primeiros Secretários. (Zhukov, Inoy 424-7; Tayny, 39-40, citando documentos de arquivo)

A Constituição foi finalmente concluída, fixando-se o 12 de dezembro de 1937 como data das primeiras eleições. Os dirigentes chegados a Stalin argumentaram, mais uma vez, as vantagens da luta contra a burocracia e de criar laços com as massas. Porém - para repetir - tudo isto foi posterior à expulsão sumária e sem precedentes de 26 membros do Comitê Central, dezenove dos quais foram diretamente acusado de traição e atividade contra-revolucionária. (Zhukov, Inoy 430)

Talvez o mais revelador seja a seguinte observação de Stalin, comentada por Zhukov:


Concluindo as discussões, quando o tema era a procura de um método mais confiável para a recontagem dos votos, (Stalin) comentou que no Ocidente, graças a um sistema multi-partidário, este problema não existia. Imediatamente depois, murmurou uma frase bastante rara para um encontro desse tipo: "Nós não temos partidos políticos diferentes. Afortunada ou desafortunadamente temos só um partido." (Sublinhado por Zhukov) Para passar a propor, ainda que só provisoriamente, utilizar para essa recontagem e supervisão de membros de todas as organizações sociais existentes, menos as do Partido Bolchevique... O desafio à autocracia do Partido estava sobre a mesa. (Zhukov,Inoy 430-1; Tayny 3)

O Partido Bolchevique padecia de uma grave crise, sendo impossível pensar que as coisas se desenvolveriam com suavidade. Era a pior situação possível para organizar eleições democráticas (secretas, universais, abertas). A ideia de Stalin de reformar o governo soviético e o papel do Partido Bolchevique nessa mesma reforma estava condenada.

Concluindo essa reunião, Robert Eikhe, Primeiro Secretário da região do Krai, no oeste siberiano, falou em particular com Stalin, como também o fizeram outros Primeiros Secretários. Provavelmente, solicitaram os poderes que pouco depois obtiveram: a autorização para formar troikas, grupos de três dirigentes organizados para combater a possibilidade de conspirações contra o governo soviético nas suas regiões. [18] (Estas troikas receberam o poder de execução sem apelação. Impuseram-se limites no número de executados e prisioneiros baseando-se no poder destas troikas. Quando estes limites foram esgotados, os Primeiros Secretários solicitaram limites superiores, petição que foi concedida. Zhukov pensa que Eihke podia estar a representar um grupo informal de Primeiros Secretários (Getty, "Excesses" 129; Zhukov, Inoy 435).

Quem foram os visados desses draconianos julgamentos por parte destas troikas? Zhukov pensa que foram os lishentsy, aqueles cujos direitos de cidadania, incluindo o direito a voto, foram recentemente restaurados, e que supunham potencialmente o maior perigo para a continuidade no poder dos Primeiros Secretários. Zhukov descarta totalmente a existência de conspirações reais. Mas os documentos de arquivo recentemente publicados evidenciam que, no mínimo, a direção central estava continuamente a receber relatórios de conspirações, incluindo transcrições de confissões. Stalin e outros, certamente, acreditaram nestas conspirações. A minha opinião é que pelo menos algumas das conspirações foram reais, e que os Primeiros Secretários acreditaram nelas. (Zhukov, KP Nov. 13 02; Inoy, Ch. 18; "Repressii" 23; Lubianka B)

Outra hipótese é a de que qualquer um que estivesse relacionado com qualquer tipo de movimento opositor era impiedosamente visto como "inimigo", e sujeito a detenção e interrogatório por parte do NKVD, que tinham sempre um membro como parte da troika. Outro grupo eram aqueles que expressaram abertamente desconfiança ou ódio no que diz respeito ao sistema soviético em conjunto. Thurston cita provas de que estes indivíduos eram imediatamente presos. Porém, aqueles que manifestavam críticas aos líderes locais do Partido não eram molestados, enquanto os criticados, incluindo membros do Partido, às vezes, sim, eram presos. (Thurston, 94-5)

Portanto, contra aqueles que argumentam que as conspirações foram ilusões na mente paranoica de Stalin ou, ainda pior, mentiras destinadas a reforçar a sua obsessão megalômana pelo poder, existem provas abundantes que demonstram a existência de conspirações reais. Os relatos dos conspiradores que conseguiram sair mais tarde da URRS confirmam isto. A numerosa documentação policial sobre estas conspirações, muito pouco publicada, é um poderoso argumento contra a teoria de que tudo foi uma montagem. E mais, as anotações de Stalin nestes documentos reafirmam o fato de que pensava que eram certas. (Getty, "Excesses" 131-4; Lubianka B)

Getty resume esta contradição da seguinte maneira:

Stalin ainda não era partidário de retirar as eleições, e em 2 de julho de 1937 o Pravda desautorizou claramente os secretários regionais publicando o primeiro decreto das novas regras eleitorais, animando e apoiando as eleições secretas e universais. Mas Stalin lançou um compromisso. No mesmo dia que se publicou a lei eleitoral, o Politburo aprovou uma campanha massiva contra, precisamente, os elementos de que se queixaram os líderes locais, e horas mais tarde, Stalin enviou um telegrama aos líderes internos do Partido ordenando a Operação Kulak [contra os lishentsy]. É difícil evitar a conclusão de que ao contrário de obrigar os líderes locais do Partido a participar nas eleições, Stalin decidiu ajudá-los a ganhar dando-lhes licença para eliminar ou deportar centenas de milhares de "elementos perigosos". ("Excesses" 126)

Independentemente de qual fosse a história destes expurgos, execuções extra-judiciais e deportações, parece que Stalin pensava que se estavam a criar as condições para as eleições livres e abertas. Porém, estas ações minaram qualquer possibilidade de eleições de qualquer tipo.

O Politburo tentou num primeiro momento limitar a campanha de repressão ordenando que parasse dentro de cinco dias. Ainda não sabemos a razão, se foi por convencimento ou por ver-se obrigados, o certo é que o NKVD teve permissão para ampliar este período em quatro meses, de agosto a dezembro. Foi pelo alto número de detidos? Pelo convencimento da existência de numerosas conspirações que constituíam uma grande ameaça interna? Não conhecemos os detalhes dessa repressão massiva.

Este era precisamente o período no qual ia ter lugar a campanha eleitoral. O Politburo continuou a organizar estas eleições, regulamentando o sistema de votação e informando os funcionários como tinham que agir, os chefes locais controlavam a repressão. Assim, estes podiam determinar que oposição ao Partido (a eles mesmos) se podia considerar "leal" e qual era merecedora de repressão. (Getty, "Excesses," passim.; Zhukov, Inoy 435)

Existem documentos originais que demonstram que Stalin e seu grupo no Politburo estavam convencidos que os conspiradores anti-soviéticos estavam ativos, e que tinham de enfrentá-los. Isto foi o que afirmaram os líderes regionais do Partido durante a reunião de fevereiro-março. Nestas datas, a direção de Stalin minimizava o perigo, e mantinha a atenção na Constituição, na necessidade de preparar eleições e a troca da burocratizada e velha liderança por outra formada por novos líderes.

Para a reunião de junho, os secretários regionais estavam numa posição em que podiam dizer: "Estava avisado. Tínhamos razão, e ainda a temos; há perigosos conspiradores ativos, prontos para utilizar a campanha eleitoral com o propósito de provocar revoltas contra o governo soviético". Foi assim que sucederam as coisas? Parece possível, mas não podemos estar seguros.

Stalin e a direção central não conheciam a extensão destas conspirações. Não sabiam o que podiam fazer os nazistas alemães e os fascistas japoneses. No dia 2 de junho, no encontro ampliado do Soviete Militar, Stalin afirmou que o grupo de Tukhachevsky entregara ao Alto Comando alemão os planos operacionais do Exército Vermelho. Isto significava que os japoneses, unidos por uma aliança militar (o Eixo) e uma aliança política anti-comunista (o Pacto Anti-Komintern na realidade, era um pacto anti-soviético) com a Itália fascista e a Alemanha nazista, também os teriam.

Stalin disse aos líderes militares que os conspiradores queriam converter a URSS em outro Estado espanhol, ou seja, numa Quinta Coluna coordenada com um exército fascista invasor. Dado este terrível perigo, a direção soviética estava decidida a reagir com uma determinação brutal. (Stalin, "Vystuplenie")

Ao mesmo tempo, muitas provas apontam que o comando central (Stalin) queria reduzir a repressão das troikas impulsionada pelos Secretários regionais e continuar a integrar as eleições na nova Constituição. De 5 ao 11 de julho a maioria dos Secretários copiou a iniciativa de Eikhe de comunicar cifras precisas dos presos, mediante execução (categoria 1) ou encarceramento (categoria 2). De início, em 12 de junho, o Comissário delegado do NKVD, Frinovskii, enviou um telegrama urgente a todas as oficinas da polícia local: "Não iniciem operações de repressão contra antigos kulaks, Repito, não as iniciem". (Getty, "Excesses" 127)

9Depois dos chefes locais do NKVD serem chamados a Moscou para conversar, foi emitida a ordem número 447. Esta longa e detalhada instrução ampliava o campo de repressão (basicamente padres com histórico de oposição ao sistema soviético e criminosos), ainda que, de modo geral "diminuía os limites e as cifras requeridas pelos secretários das províncias". [19] Todas estas hesitações fazem pensar em desacordos e lutas entre o "centro" - Stalin e o seu grupo no Politburo - e os Secretários das províncias. Não há dúvida que Stalin não tinha o comando (Order No. 00447; Getty, "Excesses" 126-9).

O plenário do Comitê Central de outubro de 1937 foi o da suspensão definitiva do projeto para eleições abertas. Um modelo de candidaturas, com diversos candidatos, fora já desenhada. Conservam-se bastantes em diferentes arquivos. [100] Como substituição estabeleceu-se que, para as eleições aos Sovietes de dezembro de 1937, os candidatos do Partido compartilhavam as listas com uma percentagem de candidatos alheios ao Partido de entre os 20 e os 25%. Zhukov encontrou nos arquivos o documento original em que Molotov, a 11 de outubro às seis da tarde, cancelava as eleições abertas. Isto representou uma derrota para Stalin e seus seguidores no Politburo (Zhukov, KP 19 Nov. 02; Zhukov, Tayny. 41; Inoy 443).

Foi também no Plenário do Comitê Central que se pronunciou o primeiro protesto contra a repressão massiva, por parte do Primeiro Secretário de Kursk, Peskarov:


Eles [o NKVD?, as troikas?] condenam pessoas por minúcias... ilegalmente, e quando nós levamos a questão ao Comitê Central, recebemos o decidido apoio dos camaradas Stalin e Molotov, que enviaram uma brigada de funcionários da Corte Suprema e da Oficina do Fiscal para fiscalizar estes casos... após três semanas de trabalho desta brigada, o resultado foi que 56% destas sentenças em 16 regiões foram consideradas ilegais. Ainda mais, em 45% destas sentenças não existiram provas de que se cometera algum delito". (Zhukov, Tayny, 43)

Na reunião de janeiro de 1938, Makenkov apresentou uma forte crítica da grande quantidade de membros do Partido expulsos e de cidadãos julgados, na maior parte inclusive sem proporcionar listas de nomes, somente indicando o número de expulsos. Postyshev, Primeiro Secretário de Kuybyshev, foi eliminado como candidato ao Politburo por dizer que "não havia nenhum elemento honrado" entre todos os funcionários do Partido.

Parece que o NKVD funcionava de forma independente, pelo menos em algumas zonas. Sem dúvida, os Primeiros Secretários também faziam assim. (Zhukov, KP 19 Nov. 02; Tayny, pp. 47-51; Thurston 101-2; 112) Porém, a preocupação dos líderes do Politburo era a existência de conspiradores. A magnitude dos abusos do NKVD não foi reconhecida. Como indica Zhukov, o relatório de Malenkov (culpando os oportunistas no interior do Partido pelas expulsões massivas e detenções) foi continuado por Kaganovich e Zhadanov, que seguiram insistindo na luta contra os inimigos e prestaram apenas uma ligeira atenção à "ingenuidade e ignorância" do trabalho dos "bolcheviques honrados".

O Pravda, sob controle dos seguidores de Stalin, fazia ainda avisos para afastar o Partido da direcção direta dos assuntos econômicos, e a necessidade de promover os não-militantes aos postos de liderança. (Zhukov, Tayny 51-2) Enquanto Nikita Khrushev, que em 1937 exigira autorização para poder executar 20.000 pessoas quando era responsável do Partido em Moscou, foi enviado para a Ucrânia, onde, no prazo de um mês, reclamou poderes para reprimir 30.000 pessoas. (Zhukov, Tayny 64, ver n.23)

Parece que Nicolai Yezhov, substituto de Genrikh Yagoda em 1936 no comando do NKVD, estava estreitamente relacionado com os Primeiros Secretários. A massiva repressão dos anos 1937-1938 esteve tão ligada ao seu nome que ainda se conhece como a "Yezhovshchina". Yezhov deixou o seu posto em 23 de setembro de 1938, [22] sendo substituído em novembro desse ano por Lavrentii Beria.

Sob o comando de Béria, muitas das chefias do NKVD e Primeiros Secretários responsáveis por milhares de execuções e deportações foram julgados, e muitos deles executados por levar à morte gente inocente e fazer uso da tortura contra os detidos. As transcrições dos julgamentos de alguns dos funcionários policiais que utilizaram a tortura foram publicadas. Numerosos presos e acusados, deportados ou enviados aos campos de trabalho foram libertados. O próprio Béria manifestou que a sua missão era "acabar com a Yezhovshchina". Stalin disse ao engenheiro aeronáutico Yakovlev que Yezohv foi executado por assassinar milhares de inocentes. (Lubianka B, Nos. 344; 363; 375; Mukhin, Ubiystvo 637; Yakovlev)

Foi feito um incalculável dano à sociedade soviética, ao governo soviético e ao Partido Bolchevique. Há muito tempo que sabemos isto, evidentemente. O que não sabíamos até agora é que a implantação das troikas e as cotas de execuções e deportações se deviam à insistência dos Primeiros Secretários, e não a Stalin. Zhukov pensa que a estreita relação entre isto e a ameaça de eleições abertas, e o fato do Comitê Central conseguira forçar a direção de Stalin e os seus colaboradores a cancelar essas eleições, indica que a forma de evitar essa "ameaça eleitoral" foram as detenções massivas e as execuções da "Yezhovshchina". [23] (Zhukov, KP)

Nada pode absolver Stalin e os que o apoiaram, das amplas responsabilidades que tiveram nas execuções, que foram de bastantes centenas de milhares. [24] Se as vítimas fossem encarceradas ao invés de executadas a maioria teria sobrevivido. Muitos veriam os seus casos revistos, e seriam libertados. Para os nossos objetivos neste trabalho, a pergunta chave é: Porque cedeu Stalin ante as solicitações dos Primeiros Secretários, solicitações que lhes concediam o destino de milhares de pessoas? Pode ser que não existam desculpas, podem existir razões.

Nenhum outro governo está preparado para traições simultâneas por parte de altos comandos militares, figuras de primeira fila do governo nacional e de governos regionais, e da direção da polícia secreta e de fronteiras.

Um grave conjunto de conspirações, que incluía tanto atuais líderes do Partido como anteriores, com ligações a todo o país, acabava de ser descoberto. O mais ameaçador era a participação de destacados militares dos níveis mais altos, com a revelação dos planos secretos militares aos inimigos fascistas. A conspiração militar tinha contatos em toda a URSS, e nela estavam também os principais líderes do NKVD, incluindo Genrikh Yagoda, que dirigiu este organismo entre os anos 1934 e 1936. Pode-se dizer que não se conhecia a amplitude da conspiração e quanta gente estava implicada. O caminho prudente era pensar o pior. [25]

O Politburo e Stalin estavam no cume de duas amplas hierarquias, a do Partido e a governamental. O que sabiam sobre o Estado das coisas no país era o que os seus subordinados lhes diziam. No decorrer dos seguintes doze meses reprimiram muitos dos Primeiros Secretários, indo parar à prisão metade deles. Na maioria dos casos, os cargos concretos e as transcrições dos seus interrogatórios continuaram sem ser publicados, inclusive na Rússia pós-soviética e anti-comunista. Mas agora contamos com bastantes provas das investigações que efetuaram Stalin e o Politburo para fazer uma ideia da alarmante situação que enfrentavam. (Lubianka B)

O Partido Bolchevique guiava-se pelo centralismo democrático. Malgrado a sua popularidade em toda a URSS, Stalin (como qualquer outro líder do partido) podia ser derrotado por uma maioria do Comitê Central. Não estava em situação de ignorar pressões e urgências por parte de um amplo número de membros do Comitê Central.

Como ilustração da incapacidade de Stalin para impedir que os Primeiros Secretários burlassem os princípios que inspiravam as eleições democráticas, Zhukov menciona um incidente que teve lugar num plenário do Comitê Central em outubro de 1937. Kravtsov, Primeiro Secretário do Kraikom [Comitê Regional] de Krasnodar foi o único que reconheceu o que os seus colegas fizeram secretamente nas semanas anteriores. Fixou um perfil da seleção daqueles candidatos a deputados do Soviete Supremo que se ajustavam aos interesses da "liderança ampla".
"Apresentamos os nossos candidatos ao Soviete Supremo", manifestou com sinceridade Kravtsov. "Quem são estes camaradas? Oito são membros do Partido, dois não são membros nem do Partido nem do Komsomol. Assim cumprimos com a percentagem de candidatos não membros do Partido que aprovou o Comitê Central. Por sua ocupação, estes camaradas classificam-se em: quatro empregados do Partido, dois empregados no Soviete, um secretário de Kolkhoz, um condutor, um tratorista, um trabalhador do setor do combustível...
Stalin: Quem são?

Kravtsov: Entre os dez está Yakovlev, Primeiro Secretário do Kraikom e secretário do Comitê Executivo do Krai.

Stalin: Quem te aconselhou isso?

Kravtsov: Tenho que dizer, camarada Stalin, que fui aconselhado aqui, no Comitê Central.

Stalin: Quem?

Kravtsov: Aqui, no Comitê Central, designamos o nosso secretário do Comitê Executivo do Krai, o camarada Simochkin, e contou com a aprovação do Comitê Central.

Stalin: De quem?

Kravtsov: Não sei, não posso dizer quem.

Stalin: É uma pena, porque te informaram muito mal." (Zhukov, Inoy 486-7)

Evidentemente, todos os Primeiros Secretários estavam a fazer o que só Kravtsov afirmou, ignorar o princípio de eleições secretas ao Soviete, princípio que eles votaram num plenário anterior, mas que nunca aceitaram na prática. Isto assinala a derrota definitiva de Stalin neste tema, as reformas constitucionais e eleitorais que ele e outros líderes centrais encabeçaram durante dois anos.

A reforma democrática foi derrotada, e o antigo sistema político manteve o seu lugar. O plano de Stalin para eleições abertas desapareceu para sempre: "Deste modo, a tentativa de Stalin e do seu grupo de reformar o sistema político da União Soviética resultou num rotundo fracasso". (Zhukov, Inoy 491)

Zhukov pensa que, se Stalin rejeitasse as exigências de poderes extraordinários por parte dos Primeiros Secretários, seria provável que este fosse destituído, detido por ser contra-revolucionário e executado. "... Hoje Stalin estaria entre as vítimas da repressão de 1937, e o "Memorial" e a comissão de A. N. Yakovlev estaria desde há muito tempo reclamando a sua reabilitação". (Zhukov, KP 16 Nov. 02)

Em novembro de 1938, Lavrentii Beria assumiu o posto de Yezhov como chefe do NKVD. As "troikas" foram abolidas. As execuções extra-judiciais acabaram e os responsáveis pelos terríveis excessos foram julgados e executados ou encarcerados. [26] Mas a guerra estava perto. O governo francês negou-se a continuar com a já muito fraca aliança franco-soviética (A URSS desejava uma muito mais forte). Os aliados cederam a Checoslováquia a Hitler e aos fascistas polacos, sem nenhum tipo de luta. A Alemanha nazista conseguiu um acordo e uma aliança com o governo fascista da Polônia, com a ideia de invadir a URSS. No Estado espanhol, o grupo republicano, a quem os soviéticos tanto ajudaram, estava à beira de perder a guerra. A Itália invadiu a Etiópia, sem que a Liga de Nações fizesse nada. França e Inglaterra, com o apoio da maioria da Europa ocidental, incentivavam descaradamente Hitler para que invadisse a URSS. (Lubianka B, No. 365; Leibowitz)

Japão, Itália e Alemanha tinham um tratado de mútua defesa, e um pacto "Anti-Komintern", ambos expressamente dirigidos contra a União Soviética. Todos os países europeus fronteiriços (Polônia, Romênia, Bulgária, Hungria, Finlândia, Estônia, Letônia e Lituânia) eram ditaduras militares de pendor fascista. Em 1938, um ataque japonês em Khazan causou uns 1.000 mortos no Exército Vermelho. Um ano depois, outro ataque japonês, desta vez em Khalkin-Gol, foi repelido pelo Exército Vermelho. As baixas soviéticas ascenderam a 17.000, incluindo quase 5.000 mortos; apesar das baixas, o triunfo soviético foi decisivo já que o Japão não voltou a atacar a URSS. Porém, nesse período, o governo soviético não tinha certeza disso. (Rossiia I SSSR v Voynakh)

Após 1938, o governo de Stalin não voltou a tentar colocar em prática o sistema democrático eleitoral refletido na Constituição de 1936. Isto mostrava o ponto morto a que se chegara entre Stalin e os Primeiros Secretários no Comitê Central? Ou, pelo contrário, dominava a ideia que, com uma guerra às portas, os esforços democratizantes tinham que aguardar tempos mais pacíficos? As provas com que contamos não permitem uma conclusão firme.

Porém, com a substituição de Yezhov por Beria (formalmente em dezembro de 1938, na prática umas semanas antes) teve lugar um contínuo processo de reabilitações. Beria libertou uns 100.000 prisioneiros de campos de trabalho forçado e prisões. Isto foi seguido dos julgamentos contra os dirigentes do NKVD acusados de torturas e execuções extra-judiciais. (Thurston 128-9)

Notas

[1] Leon Trotsky's version of Soviet history preceded Khrushchev's, and has dovetailed into it as a kind of "left" version of the latter, though little credited outside Trotskyist circles. Both Khrushchevite and Trotskyist accounts portray Stalin in an extremely negative light; the word "demonize" would scarcely be an exaggeration. On Trotsky, see McNeal.

[2] The widespread use of the term "terror" to characterize the period of Soviet history from roughly mid-1937 to 1939-40 can be attributed to an uncritical acceptance of Robert Conquest's highly tendentious and unreliable 1973 work The Great Terror. The term is both inaccurate and polemical. See Robert W. Thurston, "Fear and Belief in the USSR's 'Great Terror': Respose To Arrest, 1935-1939." Slavic Review 45 (1986), 213-234. Thurston responded to, and critiqued, Conquest's attempt to defend the term in "On Desk-Bound Parochialism, Commonsense Perspectives, and Lousy Evidence: A Reply to Robert Conquest." Slavic Review 45 (1986), 238-244. See also Thurston, "Social Dimensions of Stalinist Rule: Humor and Terror in the USSR, 1935-1941." Journal of Social History 24, No. 3 (1991) 541-562; Life and Terror Ch. 5, 137-163.

[3] Marxist-Leninist political thought rejects capitalist "representative democracy" as essentially a smokescreen for elite control. Many non-Marxist political thinkers agree. For one example, see Lewis H. Lapham (editor of Harper's Magazine), "Lights, Camera, Democracy! On the conventions of a make-believe republic," Harper's Magazine, August 1996, 33-38.

[4] Quoted by Yuri Zhukov, "Zhupel Stalina," Komsomolskaia Pravda Nov. 5 2002. Prof. Getty confirmed this in an email to me.

[5] The Party's name was changed to Communist Party of the Soviet Union in 1952.

[6] Yenukidze, an old revolutionary, fellow Georgian, and friend of Stalin's, had long occupied a high position in the Soviet government and never been associated with any of the Opposition groups of the '20s. At this time he was also in charge of the Kremlin Guard. Within a few months he was one of the first to be exposed as a member of the plan for a "palace coup" against the Stalin leadership. Zhukov (KP 14 Nov. 02) notes that this must have been especially upsetting to Stalin.

[7] Part II, Chapter 3, Article 9 of The Soviet Constitution of 1924, the one in force at this time, gave urban dwellers a far greater influence in society -- one Soviet delegate to 25,000 city and town voters, and one delegate to 125,000 country voters. This was in conformity to the far greater degree of support for socialism among workers, and with the Marxist concept of the state as the dictatorship of the proletariat.

[8] This is actually not a law but a "decision of the Central Executive Committee and the Council of People's Commissars" -- i.e. of the legislative and executive branches of government. The fact that it is commonly called a "law" even in scholarship simply shows that most of those who refer to it have not actually read it at all. It is printed in Tragediia Sovetskoy Derevni. Kollektivizatsiia I Raskulachivanie. Documenty I Materialy. 1927-1939. Tom 3. Konets 1930-1933 (Moscow: ROSSPEN, 2001), No. 160, pp. 453-4, and in Sobranie zakonov i rasporiazhenii Raboche-Krest'ianskogo Pravitel'stva SSSR, chast' I, 1932, pp. 583-584.. My thanks to Dr. G·bor T. Rittersporn for this last citation.

[9] To build up the economy as quickly as possible after the devastation of the Civil War and subsequent famine, the Bolsheviks permitted capitalism to flourish and encouraged profit-seeking businessmen, though under government scrutiny. This was called the New Economic Policy.

[10] Stalin, "Report to 17th P.C.," 704, 705, 706, 716, 728, 733, 752, 753, 754, 756, 758.

[11] This is not widely known, nor its significance understood. Our view of Stalin has been largely shaped by those who hated him (McNeal 87). Stalin had been an excellent student at the seminary in Tblisi, Georgia, to which his mother had sent him. Devoting his life from his teenage years to the working-class revolutionary movement, he had never had the opportunity for higher education. But he was highly intelligent, and a voracious reader whose learning ranged from philosophy to technical subjects like metallurgy. Contemporary records attest to his attention to details and thorough knowledge of many technical areas. A Russian scholar who has studied Stalin's library gives impressive figures: 20,000 volumes at Stalin's dacha after the war; many of the 5,500 taken to the Institute of Marxism-Leninism after his death are annotated and underlined. (Ilizarov). Roy Medvedev, who hates Stalin, grudgingly admits Stalin's considerable reading. (Medevedev, "Lichnaia")

Many of the people whom he picked as his closest associates reflected this same dedication to self-improvement. Sergei Kirov, Leningrad Party leader and close ally of Stalin's who was assassinated in 1934, was noted for his wide reading in literature. (Kirilina 175). "When Kirov was killed, experts from the investigation photographed everything that could aid the investigation including the top of Kirov's work desk. To the right lay H¸tte's engineering manual, on the left a pile of scientific and technical journals, the top title of which was 'Combustile Shale.' Wide indeed was the sphere of interests of this party worker -- as Stalin's was." (Mukhin Ubiystvo 625)

In 1924 Lavrenty Beria, fresh from several years of very dangerous underground revolutionary work, some of it as a Bolshevik infiltrator in violent anti-communist Caucasian nationalist groups, wrote his Party autobiography. His purpose in listing his deeds -- he had been awarded the rank of general at the age of 20 -- was to plead, not for a cushy job, as most "Old Bolsheviks" demanded and usually got, but to be allowed to return to his engineering studies, so he could make a contribution to the building of a communist society. (Beria: Konets Kar'ery, 320-325)

[12] Thurston, Chapters 2 through 4, is the best single summary, as of the early '90s, of the evidence concerning the Moscow Trials. This article will not deal directly with these trials, the trial and execution of Marshal Tukhachevsky and other top-ranking military leaders in June 1937, or the interrelationship among all the anti-Soviet conspiracies alleged in them. As documents from the Soviet archives make clear, Stalin and other top Soviet leaders were convinced that the conspiracies existed, and the charges at the Moscow Trials, plus those against the military leaders, were, at least in large part, accurate.

[13] Getty notes that CC members pointedly refused to respond to Zhdanov's speech, putting the Chair, Andreev, into confusion ("Excesses"124). Zhukov places less emphasis on this, as Eikhe and other First Secretaries did reply at the next session, while emphasizing the struggle against "enemies." (Inoy 345)

[14] For the Resolution, see Zhukov, Inoy 362-3; Stalin, Zakliuchitel'noe. Like the resolution (which remains unpublished), Stalin's speech touches only very briefly on the subject of "enemies," and even then to warn the CC against "beating" everyone who had once been a Trotskyist. Stalin insists that there are "remarkable people" among former Trotskyists, specifically naming Feliks Dzerzhinsky.

[15] This volume (Genrikh IAgoda ) consists mainly of investigators' interrogations of Yagoda and a few of his associates, and Yagoda's confessions of involvement in the conspiracy to carry out acoup against the Soviet government; Trotsky's leadership of the conspiracy; and, in general, all that Yagoda confessed to in the 1938 Trial. There is no indication that these confessions were other than genuine. The volume's editors deny that any of the facts cited in the interrogations are accurate, and declare the interrogations themselves "falsified." But they do not give any evidence that this is the case. Jansen and Petrov, p. 226 n. 9, though very anti-Stalin, cite this volume as evidence and without comment. Furthermore, there is good evidence that this was so in fact -- that these conspiracies did exist, that the confessions given at the public trials were genuine rather than coerced, and that the major charges against the defendants were true. Another large volume of primary documents published in 2004 contains a great many NKVD reports of conspiracies and texts of interrogations (see Lubianka B). The most plausible explanation for the existence of all this evidence is that some of it, at least, is true.

[16] Called the klubok, or "tangle," by the NKVD investigators at the time and by Russian historians today.

[17] No transcript of the June 1937 Plenum has ever been published. Some authors have claimed that no transcript was kept. However, Zhukov quotes extensively from some archival transcript unavailable to others.

[18] The order for setting up a "troika" in Eikhe's Western Siberian region exists. Eikhe's request has not been found, but he must have made such a request, either in writing or orally. See Zhukov, "Repressii" 23, n. 60; Getty, "Excesses" 127, n. 64.

[19] Getty, Excesses 131-134 discusses some statistics about this. See Order No.00447.

[20] The sample ballot is reproduced in Zhukov; Inoy, 6th illustration.

[21] As late as February 1, 1956, less than four weeks before his "Secret Speech" to the XX Party Congress, Khrushchev was still referring to Yezhov as "undoubtedly not to blame, an honest man."Reabilitatsia: Kak Eto Bylo. Mart 1953-Febral' 1956 (Moscow, 2000), p. 308.

[22] His resignation was not formally accepted until November 25, 1938; see Lubianka B Nos. 344 and 364.

[23] Khrushchev requested "to execute 20,000 people", Zhukov, KP 3 Dec. 02. Yakovlev's criticism of Khrushchev's massive expulsions is quoted above. Eikhe was arrested in October 1938, tried, convicted, and executed in February 1940. According to Khrushchev, Eikhe repudiated his confession, saying he had given it after being beaten (i.e. tortured). Zhukov's analysis suggests that the real reason for Eikhe's fate may have been his leading role in the mass executions of 1937-38. See Jansen and Petrov, 91-2. The Politburo and January 1938 Plenum began to attack party secretaries who victimized rank-and-file members (Getty, Origins 187-8). The full record of Eikhe's investigation and trial is still classified. A desire to deflect attention and blame away from himself and his fellow First Secretaries of the time is one of the bases of Khrushchev's lies in his "secret speech."

[24] Getty ("Excesses" 132) cites evidence that 236,000 executions were authorized by "Moscow," meaning the Stalin leadership, but that over 160% of that number, or 387,000 people, were in fact executed by local authorities.

[25] At the 1938 Moscow Trial Yagoda confessed to involvement in the plot for a coup d'Ètat against the Soviet government, to the murders of Maxim Gorky and his son, and other heinous crimes, but vigorously rejected the prosecution's accusation that he was guilty of espionage. The fact that the charge of espionage was still raised over a year after Yagoda had been arrested shows, at least, that the Soviet government thought he might have given such information to a foreign enemy (Germany, Japan, Poland). As the head of the Ministry of the Interior, including the secret police and border police, Yagoda would have been able to do incalculable harm to Soviet security if he had given information to foreign governments.

[26] Thurston has the best discussion in English of this in Life and Terror 128 ff.

Notas adicionais

Nota sobre o trabalho de Yuri Zhukov:

To date there has been one extended scholarly attack on Zhukov's thesis -- that by Prof. Irina V. Pavlova, "1937: Vybory kak mistifikatsiia, terror kak real'nost'," Voprosy Istorii 10, 2003 19-36. Pavlova is a strident anti-communist of the "totalitarianism" school whose ideological hostility to communism undermines her historical research. For example, she has lied about Getty's research in order to try to discredit him. Pavlova is writing propaganda, not history.

Pavlova refers only to Zhukov's articles in KP; she wrote it before the publication of Inoy Stalin. Pavlova's criticism relies on the assumption that the Moscow Trials and that of Tukhachevskii et al. were frame-ups, and the whole constitutional and electoral campaigns a deliberate "cover" for this repression.

Pavlova also asserts that, because the Supreme Soviet did not have real political power in 1936, contested elections for it would not have given it any power either. If by "power" Pavlova means the ability to unseat the Bolshevik Party from its dominant position in the USSR and to undo socialism, she is undoubtedly right: surely Stalin had no intention of allowing a counter-revolution through constitutional means. Nor is this permitted in any bourgeois democratic country. But if she means "power" to influence state policies and exert pressure, within limits, on the specific social policies and on the Bolshevik Party itself -- that is, the kind of powers determined by elections in bourgeois democracies -- then she cannot possibly be right.

Nota sobre Iuri Mukhin, Ubiystvo Stalina i Beriia:

This book of Mukhin's is often dismissed by those unsympathetic to his conclusions on the grounds that he has made remarks that can be construed as anti-semitic. It should be noted that Mukhin makes remarks opposing anti-semitism in this same book. This paper does not draw upon any of the passages in which anti-semitic statements can be alleged.

Mukhin has also taken eccentric positions on some subjects not dealt with in this book. I do not draw upon any of those works either.

The same thing could, and should, be said when anti-communist scholars are cited -- the fact of their anti-communist prejudices does not mean that they cannot, on occasion, have some valuable insights. And, of course, anti-communism is normally closely aligned with anti-semitism. Neither a communist nor Jewish, Mukhin shows some hostility to both, but is neither a conventional anti-communist nor a conventional anti-semite.

Mukhin's analysis of primary and secondary sources is often very sharp, and I use, and cite, it where I find it helpful. Naturally, citation of those of Mukhin's analyses that the author thinks are useful does not imply agreement to parts of his analysis which are not cited. Nor is Mukhin responsible for any use I have made of his research..

I have checked every reference made by Mukhin and all other scholars cited here, except in the case of primary sources available only to those who work in the archives.

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Parte Dois


Quando estava a terminar a Segunda Guerra Mundial, Stalin e os seus seguidores no Politburo tentaram de novo afastar o Partido Bolchevique do controle direto do governo soviético. Yuri Zhukov descreve o que aconteceu:


Em Janeiro de 1944... pela primeira vez durante a guerra, foi convocado conjuntamente o Comitê Central e uma sessão do Soviete Supremo da URSS. Molotov e Malenkov prepararam um rascunho de um decreto do Comitê Central em que se afastava legalmente o Partido do poder. O Partido manteria as suas funções de agitação e propaganda, assim como a seleção de quadros; ninguém poderia afastá-lo destas tarefas próprias de partido. O esboço impedia o Partido de intervir nas questões econômicas e no funcionamento dos órgãos do Estado. Stalin leu o rascunho, trocou seis palavras, e escreveu: "De acordo". O que aconteceu depois continua a ser um mistério... 
... Esta era uma nova tentativa de reduzir o papel do Partido no Estado, retendo apenas as funções que teve, de fato, durante a guerra. O esboço tinha cinco assinaturas: Molotov, Malenkov, Stalin, Khrushchev e Andreev. Não existe nenhum registo taquigráfico, pelo que só podemos especular sobre o sentido do voto dos restantes participantes na reunião. Nem sequer o influente Comitê Estatal de Defesa, com quatro membros no Politburo, desejou mudar o estado das coisas. Isto mostra, mais uma vez, que Stalin nunca teve o poder que lhe é reconhecido tanto por anti-stalinistas, como por stalinistas." (Zhukov, Kul'tovaia) [1]

Desconhecemos como se pensava distanciar o Partido das questões econômicas e do Estado. Provavelmente, previa-se um outro método para dotar os órgãos do Estado de pessoal. Significaria isto um regresso às eleições previstas na Constituição de 1936?

Independentemente das respostas a estas perguntas, parece claro que o Comitê Central, dominado pelos Primeiros Secretários do Partido, rejeitou novamente os projetos do grupo de Stalin para mudar o sistema soviético. No seu relatório Secreto, Khruschev nega que tenha ocorrida essa reunião! Já que a maior parte dos membros do Comitê Central presentes na leitura do relatório sabiam que isto era falso, pode ser que o objetivo desta mentira fosse deixar claro que esse perigoso movimento contra o seu poder estava formalmente enterrado.

Depois da Guerra

Vimos que Stalin se preocupava com um importante problema, tanto para a URSS como para o Partido Bolchevique, a situação de "duplo poder". O Partido, no governo, era quem realmente dirigia a sociedade. Cada vez mais, os funcionários deixavam as tarefas de incentivar a produção para se ocuparem do poder através da supervisão.

Afastando o Partido do controle direto do Estado atingiriam-se vários objetivos:


O Politburo reunia-se, antes da guerra, pelo menos duas vezes por semana. Em maio de 1941, Stalin converte-se no chefe oficial do Estado soviético, substituindo Molotov no posto de Secretário do Conselho de Comissários do Povo (Sovnarkom), órgão executivo oficial do governo da URSS.

Mas, durante a guerra, a URSS não foi dirigida nem por este órgão nem pelo Partido, e sim pelo Comitê Estatal de Defesa, composto por Stalin e três dos seus colaboradores mais próximos. Durante a guerra, o Comitê Central convocou uma só reunião, enquanto as reuniões do Politburo, não só durante a guerra, mas também no final da mesma, eram muito raras. Segundo Pyzhikov, "o Politburo, na prática, não exercia o poder". O dissidente soviético Zhores Medvedev afirma que o Politburo se reuniu apenas 6 vezes em 1950, 5 em 1951 e 4 em 1952 [2]. Pode-se dizer que Stalin distanciou o Politburo do controlo do Estado (Pyzhikov, 100; Medvedev, Sekretnyi).

Stalin parece ter negligenciado o seu papel como chefe do Partido. As reuniões do Comitê Central foram acontecendo cada vez mais distanciadas no tempo. Em 13 anos, de 1939 até 1952, não se convocou nenhum Congresso do Partido. Após a guerra, Stalin assinou decisões conjuntas do Partido e do governo simplesmente como Secretário do Conselho de Ministros (o famoso Conselho de Comissários Populares), delegando a um dos outros secretários do Partido, Zhdanov ou Malenkov, que assinassem em nome do Partido (Pyzhikov 100).

A autoridade do Partido continuava a ser grande. Ainda que, talvez, isto se verificasse apenas porque Stalin ainda era o Secretário Geral do Partido e o único líder do grupo de aliados que permanecia no ativo depois da guerra. Roosevelt morrera e Churchill perdera as eleições de 1945. Não exageramos se afirmamos que, entre os trabalhadores, Stalin era a pessoa mais conhecida e respeitada do mundo. O movimento comunista que ele encabeçava era a esperança de centenas de milhões de pessoas. A sua figura ainda se tornou mais famosa como consequência da vitória sobre o fascismo. O grande prestígio de Stalin como chefe de Estado, concedia autoridade ao conjunto da direção do Partido (Mukhin, Ubiystvo 622; Ch. 13).

As ações de Stalin sugerem que ele ainda tentava desalojar o Partido do controle direto do Estado. Porém, se assim aconteceu, deve tê-lo feito com muitas precauções. Podemos deduzir as razões desta atitude cuidadosa:


Eis as razões que explicariam a sua cautela, evitando possíveis choques. (Mukhin, Ubyistvo 611)

O Projeto de Programa de Partido de 1947

É provável que os projetos de democratização do grupo de Stalin fossem mais que aqueles que conhecemos hoje. Aleksander Pyzhikov, historiador anti-comunista e anti-stalinista, citou interessantes partes de um esboço de programa do Partido datado de 1947, no qual se impulsionava a democracia e o igualitarismo na URSS. Este fascinante e totalmente desconhecido projeto nunca foi, evidentemente, publicado e não está à disposição de outros investigadores.

As citações de Pyzhikov são as seguintes:


O desenvolvimento da democracia socialista como base da construção de uma sociedade socialista sem classes converterá, cada vez mais, a ditadura do proletariado na ditadura do povo soviético. A participação cada vez maior dos indivíduos na direção dos assuntos estatais, o aumento da consciência comunista e da cultura comunista na população, e o desenvolvimento da democracia socialista conduzirão ao progressivo desaparecimento das formas de coação da ditadura do povo soviético, sendo substituídas pela influência da opinião pública, estreitando-se cada vez mais as funções políticas do Estado, que ficaria como órgão de direção da vida econômica do país.

Pyzhikov resume assim outras partes deste documento inédito:


Particularmente, o esboço referia-se ao desenvolvimento da democratização da ordem soviética. Este projeto entendia como essencial a integração dos trabalhadores na direção do Estado, na atividade estatal e social diária sobre a base de um desenvolvimento estável do nível cultural das massas e uma simplificação máxima das funções de direção estatal. Na prática, estabelecia a unificação do trabalho produtivo com a participação na direção dos assuntos estatais, no caminho de conseguir a total direção do Estado por parte de toda a classe trabalhadora. O projeto apostava, também, no controle direto por parte do povo sobre a atividade legislativa. O caminho era o seguinte:
Também se tinha em conta o modo como se realizavam as eleições dos diretores. O projeto do programa do Partido apostava, de acordo com o grau de desenvolvimento caro ao comunismo, pela eleição de todos os cargos do Estado, por mudanças no funcionamento de uma série de órgãos estatais para convertê-los em instituições responsáveis da contabilidade e supervisão da economia. Para isto, o máximo desenvolvimento possível de organizações voluntárias e independentes foi considerado importante. Reforçou-se a importância da transformação comunista do conhecimento do povo, do desenvolvimento, sobre a base da democracia socialista, entre as massas populares da "cidadania socialista", do "heroísmo do trabalho" e do "valor do Exército Vermelho". [grifo do autor]

Seguindo Pyzhikov, Zhdanov informou sobre o trabalho da comissão de planejamento na reunião do Comitê Central de fevereiro de 1947. Propôs convocar o XIX Congresso do Partido nos finais de 1947 ou em 1948. Também deu a conhecer um plano para convocar uma conferência do partido uma vez por ano, "com a renovação obrigatória" de não menos que a sexta parte dos membros do Comitê Central anualmente. Com a finalidade de levar-se adiante o projeto, cuja "renovação" provocaria uma maior rotação dos membros do Comitê Central e que os Primeiros Secretários e outros líderes do Partido estivessem menos agarrados aos seus cargos, abria-se as portas do órgão mais importante do Partido a novos dirigentes, facilitando o exercício da crítica aos seus líderes. (Pyzhikov 96).

Este corajoso projeto repete muitas das ideias da “diminuição do Estado" contidas na obra de Lenin "O Estado e a Revolução", que por sua vez, reflete as ideias de Marx e Engels sobre o tema. Propondo a participação democrática direta em todas as decisões estatais vitais para o povo soviético e para as suas organizações populares, e a "renovação" - ou quando pelo menos, a possibilidade de substituição - de nada menos que uma sexta parte do Comitê Central a cada ano através de uma Conferência do Partido, o projeto desenvolvia a democracia de base tanto no Estado como no próprio Partido.

Mas o projeto não foi avante, como aconteceu com as propostas anteriores para a democratização do Estado soviético e do Partido. Mas, relativamente a esta situação, desconhecemos os detalhes do modo como sucedeu. Provavelmente foi rejeitado na reunião do Comitê Central. O XIX Congresso do Partido foi adiado até 1952. Tão pouco sabemos a razão. A natureza do rascunho do programa do Partido leva-nos a pensar que a postura contrária do Comitê Central – impulsionada pelos Primeiros Secretários – pudesse ser o motivo. [3]

O XIX Congresso do Partido

Parece que Stalin e os seus colaboradores fizeram um último esforço para afastar o Partido do controle direto do Estado no XIX Congresso do Partido em 1952 e na reunião do Comitê Central realizada pouco depois. A começar por Kruschev, a nomenclatura do Partido tentou destruir toda memória deste Congresso. No período de Brezhnev, foram publicadas as transcrições de todos os Congressos do Partido até ao XVIII. Até aos dias de hoje, ainda não foi publicada a transcrição do XIX. Stalin fez um breve discurso no Congresso que foi publicado, o que nunca foi publicado, a não ser breves referências ao mesmo, foi o discurso de noventa minutos que fez na posterior reunião do Comitê Central. Ninguém tem a transcrição dessa reunião. [4]

Stalin convocou o Congresso para mudar o Estado e a estrutura organizacional do Partido. Entre as mudanças destacavam-se:


Esta mudança, não restam dúvidas, sugere, também, um órgão que governa apenas o Partido, não o Partido e o Estado. O Politburo era um organismo composto por membros de diferentes origens: o Secretário do Conselho de Ministros (a primeira figura do órgão executivo do Estado – ou seja, o chefe de Estado); o Secretário do Presidium do Soviete Supremo (primeira figura do corpo legislativo); o Secretário Geral do Partido (Stalin); um ou dois Secretários do Partido; e um ou dois ministros do governo. As decisões do Politburo afetavam tanto o Partido como o Governo. [4]

Em comparação com posição suprema do Politburo no país, o papel do Presidium era muito mais limitado, uma vez que, nem o chefe de Estado nem o do Soviete Supremo tinham lugares reservados nele. O Presidium era simplesmente o órgão dirigente do Partido Comunista.

Houve mais mudanças:


  • O posto de Secretário Geral (do próprio Stalin) foi suprimido. A partir de agora, Stalin era apenas um dos 10 Secretários do Partido, [6] todos eles com lugar no novo Presidium, composto por 25 membros e 11 suplentes, quantidade muito maior que os 9 e 11 do antigo Politburo. A sua numerosa composição fazia dele um órgão mais deliberativo que executivo, impossibilitado de tomar decisões que se executassem de forma rotineira e rápida.
  • A maior parte dos membros do Presidium, acredita-se, eram funcionários do governo, ao invés de líderes do Partido. Khruchev e Malenkov perguntaram-se, mais tarde, como podiam conhecer, ainda que fosse só de ouvir falar, algumas pessoas que eles mesmos sugeriram para o Presidium, se não eram líderes famosos do Partido (pode-se dizer, não eram Secretários do Partido). Stalin nomeou-os, provavelmente, para as posições de liderança no Estado, em contraposição com a liderança no Partido. [7]


Depois de demitir-se como Secretário Geral do Partido no XIX Congresso, Stalin propôs a sua renúncia, na reunião do Comitê Central posterior a este Congresso, do seu cargo no Comitê Central, mantendo-se apenas como Chefe de Estado (Secretário do Conselho de Ministros).

Se Stalin não fizesse parte do Comitê Central, mantendo apenas o posto de Chefe de Estado, os funcionários do governo não sentiriam necessidade de fazer um relatório ao Presidium, o órgão mais alto do Partido. A renúncia de Stalin limitaria a autoridade dos funcionários do Partido, cujo papel "supervisor" no Estado não seria necessário em termos produtivos. Se Stalin não estivesse à frente do Partido, os líderes do Partido, ou seja, a nomenclatura, perderiam prestígio. Os militantes de base já não se sentiriam obrigados a "eleger" – ou melhor dizendo, a confirmar  os candidatos recomendados pelos Primeiros Secretários e pelo Comitê Central.

Partindo desta perspectiva, a demissão de Stalin do Comitê Central significava um desastre para a nomenclatura, que se sentia protegida das críticas impiedosas da base militante por estar à "Sombra de Stalin". Também significava que, no futuro, apenas as pessoas mais capacitadas permaneceriam tanto na nomenclatura do Partido como na direção do Estado.

A falta de uma transcrição sugere que o que aconteceu na reunião do partido, incluindo as palavras de Stalin no seu discurso, não foram do agrado da nomenclatura que não quis torná-las públicas. Também indica, é importante acentuá-lo, que Stalin não era "todo-poderoso". Por exemplo, as sérias críticas de Stalin a Molotov e Mikoian durante a reunião só foram publicadas muito depois da sua morte.

O conhecido escritor soviético Konstantin Simonov, presente nessa reunião como membro do Comitê Central, foi testemunha do sobressalto e do pânico de Makenkov quando Stalin propôs votar a sua saída do posto de Secretário do Comitê Central (Simonov, 244-5). Confrontado com a oposição vociferante, Stalin não insistiu. [9]

Enquanto tiveram possibilidade, os líderes do Partido tomaram medidas para anular as decisões do XIX Congresso. Numa reunião no dia 2 de março de um Presidium reduzido (essencialmente os membros do velho Politburo), com Stalin ainda vivo, mas já inconsciente, decidiram reduzir o Presidium de 25 para 10 membros. Este foi, basicamente, o velho Politburo novamente. O número de Secretários do Partido limitou-se outra vez a 5. Khruchev foi nomeado "coordenador" do secretariado e, cinco meses depois, "Primeiro Secretário". Finalmente, em 1966, o Presidium retomou o seu antigo nome, Politburo.

Durante o resto da história da URSS o partido continuou a governar a sociedade soviética, e os seus dirigentes formaram uma elite corrupta, que se auto-elegia e ampliava os seus privilégios. Sob Gorbachov, esse grupo dirigente aboliu a URSS, ficando com a riqueza econômica e o comando político da nova sociedade capitalista. Aliás, isto significou a perda das liberdades e das vantagens sociais da classe operária e do campesinato cujo trabalho foi o responsável pela imensa riqueza coletiva criada na URSS. Esta mesma nomenclatura continua a dirigir os estados pós-soviéticos na atualidade.

Lavrentii Beria [10]

28. Béria é a figura mais difamada da história soviética, tanto que o novo juízo histórico sobre a carreira de Béria, que começou repentinamente após a queda da União Soviética, ainda é mais intenso que a nova avaliação do papel de Stalin, tema principal deste artigo.

29. Os "Cem Dias" de Béria (na verdade 112 dias, desde a morte de Stalin a 5 de Março de 1953 até à sua destituição em 26 de Junho) testemunham o início de um grande número de reformas dramáticas. Se os líderes soviéticos permitissem que estas reformas se desenvolvessem totalmente, a história da União Soviética, do Movimento Comunista Internacional, da Guerra Fria – pode dizer-se, da última metade do século XX - seria radicalmente diferente.

30. Todas as iniciativas de reforma de Béria merecem um estudo especial. Apesar do governo russo impedir o acesso às principais fontes primárias, inclusive a investigadores de confiança, podemos concluir que algumas destas iniciativas seriam:

- A reunificação da Alemanha como um estado não-socialista, neutro, uma medida que seria mais popular entres os alemães, e claramente inoportuna para os aliados da NATO, incluindo os Estados Unidos.

- A normalização das relações com a Jugoslávia, que prometia abandonar a sua aliança com o Ocidente para voltar ao Kominform.

- Uma política a respeito das nacionalidades oposta à “russificação” das áreas recentemente anexadas no oeste de Ucrânia e nos Estados bálticos, juntamente com uma política de auxílio a alguns grupos, pelo menos, de nacionalistas na emigração. Uma reforma da política das nacionalidades noutras áreas não-russas, incluindo a Geórgia e Bielorússia.

- Reabilitações e compensações para aqueles injustamente condenados por corpos judiciais especiais (as troikas e as "Comissões Especiais" do NKVD) durante os anos 30 e 40. Sob Béria este processo seria muito diferente de como foi realizado mais tarde sob Khruschev, que "reabilitou" muitos que eram inquestionavelmente culpados.

31. Algumas reformas de Béria foram realizadas quase completamente, como:

- A amnistia para um milhão de prisioneiros por crimes contra o Estado.

- A Conclusão da investigação do "Complô dos Médicos", juntamente com o reconhecimento de que as acusações foram injustas, e o consequente castigo para os funcionários do NKVD implicados, e ainda a destituição do Comité Central de Kruglov, antiga liderança do NKVD.

- Limitação do poder da "Comissão Especial" do NKVD para sentenciar pessoas à morte ou a longas penas de prisão.

- Numa campanha não só contra o "culto" a Stalin, mas também, contra o "culto" a qualquer líder, proibição da exibição de retratos de líderes nos comícios. Esta, última, disposição foi anulada por ordens do Partido pouco depois da destituição de Béria.

Os movimentos de Béria a prol duma reforma democrática

32. Oficialmente, Béria foi detido pelos seus companheiros do Politburo e por alguns generais a 26 de Junho de 1953. Mas os detalhes desta suposta detenção são obscuros, e existem versões contraditórias. De qualquer modo, durante a reunião do Comité Central dedicada a acusar Béria de vários delitos, em Julho de 1953, Mikoyan afirmou:

Quando fez a sua apresentação na Praça Vermelha sobre a sepultura do camarada Stalin, depois do seu discurso, falei com ele: "No seu discurso há uma parte na qual você garante a todos os cidadãos os direitos e liberdades previstas na Constituição. Mas se, no discurso de um simples orador não tem que haver nenhuma frase verdadeira; o discurso de um ministro de política interior, que é um programa de acção, deve ser cumprido". Respondeu-me: vou cumpri-lo. (Beria 308-9; Mukhin 178)

33. Béria disse algo que alarmou Mikoyan. Aparentemente foi o facto de, durante a parte crucial do seu discurso na Praça Vermelha, quando fez referência à Constituição, Béria não mencionar o Partido Comunista, e apenas falar sobre o Governo Soviético. Béria falou em segundo lugar, depois de Malenkov, uma demonstração pública de que era agora o segundo no poder, no Estado soviético. O que Béria disse foi:

"Os trabalhadores, os camponeses das propriedades colectivas e a intelectualidade do nosso país podem trabalhar pacificamente com confiança, sabendo que o Governo soviético garante diligente e incansavelmente os seus direitos, tal e como figuram na Constituição de Stalin...A partir de agora, a política exterior do Governo soviético será a política leninista-stalinista de manter e reforçar a paz...” (Béria, Discurso)

34. Mukhin sugere a possível interpretação deste parágrafo:

"As pessoas comuns compreenderam apenas parte do sentido do que Béria disse, mas a nomenclatura do Partido entendeu que este era um duro golpe. Béria tinha a intenção de conduzir o país sem o Partido, pode-se dizer, sem eles; prometeu às pessoas proteger os seus direitos, que não os outorgava ao partido, mas sim à Constituição!" (Mukhin, 179)

35. Nesta mesma reunião de Junho de 1953, Khrushchev afirmou:

"Lembremos como Rakosi (líder comunista húngaro) disse: Gostaria de saber o que é que decide o Conselho de Ministros e que tipo de divisão deve existir no Comité Central...Beria contestou tranquilamente: Que Comité Central? Deixemos que o Conselho de Ministros decida e que o Comité Central se ocupe das suas funções de quadros e propaganda" (Béria 91).

36. Mais tarde, nessa mesma reunião, Lazar Kaganovich notou o que foi exposto por Khruchev:

"O Partido para nós é o mais importante. Não se permite que ninguém fale dele como esse despeitado (Béria), que disse: o Comité Central (para) quadros e propaganda, não para o poder político, não para dirigir toda a vida, como nós, os bolcheviques, o entendemos." (Béria 138)


37. Parece que estes homens temiam que Béria tentasse destituir o Partido do controlo directo do país. Isto era muito semelhante ao que Stalin e os seus colaboradores quiseram fazer durante as discussões constitucionais entre 1935 e 1937.Também aparece esta ideia no rascunho do programa do Partido de 1947, na reestruturação que Stalin realizou no XIX Congresso e na imediata reunião do Comité Central.

38. Sergei, filho de Béria, afirma que o seu pai e Stalin estiveram de acordo na necessidade de afastar o Partido da direcção directa da sociedade soviética.

As relações do meu pai com os órgãos do Partido foram complicadas...[O partido] jamais acatou as suas críticas ao aparelho partidário. Por exemplo, disse directamente a Khruchev e Malenkov que o aparelho do Partido corrompia as pessoas. Era necessário anos antes, quando o Estado soviético acabava de formar-se. Mas, o meu pai perguntava-lhes: "Quem precisa hoje destes controlos? [Beria] tinha este tipo de conversas francas com directores de indústrias e fábricas a quem, evidentemente, não lhes importavam nada os inúteis do Comité Central. O meu pai era igualmente sincero com Stalin. Joseph Vissarionovich estava de acordo que o aparelho do Partido tirasse de si mesmo responsabilidades em matérias concretas e não tinha nada que fazer além de debater. Sei que um ano antes da sua morte, quando apresentava o novo desenho do Presidium do Comité Central, Stalin fez um discurso centrado na necessidade de encontrar novas formas de dirigir o país, já que os velhos caminhos não eran os melhores. Começou então uma viva discussão sobre a actividade do Partido (Sergo Beria, Moy Otets Lavrentii Beria).

39. A reestruturação planeada por Béria das relações entre o Estado e o Partido, provavelmente seria muito bem acolhida pelos militantes de base, para não falar da maioria dos cidadãos soviéticos não militantes. Mas constituía uma grande ameaça para a nomenclatura.

40. Mukhin explica isso assim:

"Beria não desistiu de convencer as pessoas de que o país devia ser governado, em todo o território, pelos Sovietes, como reconhecia a Constituição, e que o Partido tinha que ser um órgão ideológico que, mediante a propaganda, ajudaria a garantir que todos os sovietes fossem comunistas. Béria propôs levar à prática o autêntico espírito da Constituição consagrado no lema: "Todo o poder aos Sovietes!" Ainda que Béria trabalhasse exclusivamente na esfera ideal, podia ser desagradável para a nomenclatura, mas não perigoso. Eles tinham o poder, podiam seleccionar delegados para o Soviete Supremo instruídos de tal forma que impossibilitasse que se colocasse em prática as ideias de Béria. Mas, se Béria não permitisse aos secretários e ao Comité Central dirigir as eleições e a sessão do Soviete Supremo, que decisões poderiam tomar os deputados?” (Ubiystvo 363-4)


41. Evidentemente, isto fez com que Beria colidisse com a maioria da nomenclatura do Partido (Ubiystvo 380). Khruchev representava os interesses deste grupo ou, pelo menos, uma parte grande e activa do mesmo. E Khruschev tinha um conceito completamente distinto da "democracia". O famoso director de cinema Mikhail Romm registou as palavras de Khruchev numa reunião com intelectuais:

"Por suposto que vos escutamos, e falamos convosco. Mas quem decidirá? No nosso país é o povo quem tem que decidir. E quem é o povo? É o Partido. E quem é o Partido? Nós somos o Partido. Isto significa que nós decidiremos. Decidirei eu. Entendido?" (Alikhanov)

42. Como Mukhin disse: "o Partido, como uma organização de milhões de comunistas, chegava ao seu fim. O grupo de pessoas das altas esferas converteu-se no Partido".(Mukhin, Ubiystvo 494)

Mortes de Stalin e Béria

43. Além das misteriosas circunstâncias da morte de Béria, existem suficientes provas para considerar que deixaram Stálin morrer, encontraram-o no chão do seu escritório depois de ter sido golpeado ou, talvez, até envenenado. Não temos tempo ou espaço para resumir esta questão aqui.

44. Porém, não é necessário para os objectivos deste trabalho. A enorme circulação e credibilidade destas suposições entre russos de todo o espectro político exemplifica que muitos russos supõem que as mortes de Stalin e Béria convinham muito à nomenclatura. Estas provas, independentes de outras que possam indicar que foram assassinados, demonstram que tanto Stalin como Béria queriam uma perestroika comunista, uma "reestruturação", ainda que política, não económica (como a que aconteceu no final dos anos 80), do poder.

45. O resultado imediato dos fracassos de Stalin e Béria na democratização foi a URSS ficar nas mãos dos líderes do Partido. Não se chegou à democracia operária na URSS. A nomenclatura do Partido continuou a monopolizar o controlo das questões-chave, inclusive no Estado e na economia, desenvolvendo uma elite parasitária e exploradora, com fortes semelhanças aos seus homólogos dos países abertamente capitalistas.

46. Realmente, este elite continua hoje no poder. Gorbachov, Ieltsin, Putin, e o resto dos líderes da Rússia e das antigas repúblicas soviéticas são todos antigos membros da direcção do Partido. Durante muito tempo aproveitaram-se dos cidadãos da União Soviética como funcionários super privilegiados. Com Gorbachov, foram eles os que dirigiram a privatização de toda a propriedade colectiva que pertencia à classe operária da URSS, empobrecendo não só os trabalhadores, mas também a maioria da classe média. Este processo foi qualificado como a maior expropriação na história do mundo. (The Party nomenklatura destroyed the Soviet Union. Bivens & Bernstein; O' Meara; Williamson)

47. Para esconder o seu protagonismo nas execuções massivas dos anos 30, os seus êxitos em frustrar as tentativas democratizantes de Stalin, os seus fracassos em colocar em prática as reformas de Stalin e Béria – pode dizer-se, então, esconder o seu fracasso em democratizar a União Soviética - Khruschev e os líderes do Partido culparam Stalin de tudo, mentindo sobre a existência de conspirações sérias na URSS dos anos 30, e escondendo o seu papel nas execuções em massa que se seguiram.

48. O "discurso secreto" de Khruchev foi o maior golpe contra o movimento comunista mundial na história. Estimulou os anti-comunistas de todo o mundo, que decidiram que agora havia um líder comunista em quem podiam confiar. Os documentos que vieram a público após a queda da URSS demonstraram que praticamente todas as acusações de Khruchev contra Stalin eram falsas. Esta evidência, da nossa sua parte, obriga-nos a investigar as verdadeiras motivações do ataque de Khruschev a Stalin. Os investigadores russos já demonstraram que as acusações "oficiais" contra Béria, citadas por Khruchev e pelos seus seguidores na direcção soviética, são falsas ou carecem absolutamente de provas. Béria foi assassinado judicialmente por razões que os seus executores jamais revelaram. O monte de mentiras que envolvem estes acontecimentos fazem com que nos tenhamos que perguntar: Que aconteceu realmente? O presente ensaio quer ser uma resposta.

Conclusão e futura investigação

49. Já que Stalin pensava na participação de vários partidos no seu projecto de eleições, que tipo de democracia seria esta? As perguntas sobre a democracia têm que começar com outra pergunta: "Que se entende por democracia?".

50. No mundo capitalista industrializado a "democracia" equivale a um sistema onde os partidos políticos competem em eleições, mas em que todos os partidos políticos são controlados pelas elites ricas e autoritárias. Tão pouco esta "democracia" permite mudar o sistema económico capitalista por outro alternativo. Esta "democracia" é uma criação da classe capitalista dirigente. Pode dizer-se, esta "democracia" é uma "falta de democracia".

51. Seriam possíveis eleições nas quais participam cidadãos e grupos de cidadãos dentro dos limites que supõe aceitar o poder dirigente da classe operária? Podem funcionar numa futura sociedade socialista? Qual é o papel da "democracia representativa", ou seja, das eleições, numa sociedade que busca acabar com as classes sociais? Como esta aposta recomendada na Constituição de 1936 nunca foi levada à prática, não podemos saber quais seriam os aspectos positivos e negativos da mesma. Marx e Engels fizeram importantes análises sobre a natureza da democracia proletária, baseando-se no estudo da prática da Comuna de Paris. É uma pena que não tenhamos contado com a experiência de eleições abertas na União Soviética na época de Stalin. Poderíamos aprender muito sobre as debilidades e as vantagens deste sistema.

52. Os estudos impulsionados pelo anti-comunismo seguem dando espaço ao velho e falso, ainda que não suficientemente desacreditado, paradigma Khrushchev/GuerraFria/Anti-stalinismo. Mas o processo de reinterpretar a história da União Soviética à luz dos documentos, anteriormente secretos, soviéticos começou há muito na Rússia. Chegará logo a outras partes do mundo. Um dos principais objectivos destes estudos é o de introduzir outras pessoas nesta nova interpretação.

53. Há um aspecto que surpreenderá quase todos os leitores. Através do "culto à personalidade", a adulação à figura de Stalin, fomos condicionados para ver em Stalin um "ditador todo-poderoso". Esta mentira fundamental no paradigma históricoKrushchev/Guerra Fria, feito em pedaços pelas investigações que apresento neste ensaio, deformou fatalmente a nossa compreensão da história soviética. De facto, Stalin nunca foi "todo-poderoso". Foi limitado pelos esforços combinados de outros líderes do Partido. Nunca foi capaz de atingir o seu objectivo de reformas constitucionais. Tão pouco podia controlar aos Primeiros Secretários e o NKVD.

54. O "culto" apagou estas lutas políticas. As transcrições da reunião do Comité Central demonstram que, ainda que às vezes os líderes bolcheviques divergissem abertamente de Stalin, isso aconteceu em raras ocasiões. As disputas políticas não eram tratadas abertamente até serem resolvidas, mas de outras formas, como foi o caso dos Primeiros Secretários em Julho de 1937. Outras vezes utilizavam-se métodos policiais, interpretando o desacordo político como uma oposição hostil.

55. Independentemente do mecanismo de resolução das discrepâncias, o resultado do "culto" foi um autoritarismo profundamente anti-democrático. Stalin pareceu ser um dos poucos líderes soviéticos a compreender isto. Ao longo da sua vida condenou o "culto" em muitas ocasiões. Porém, nunca se deu conta da intensidade dos danos que podia causar.

56. As conclusões a que chegamos, quase exclusivamente sobre a base de outras investigações, sugerem novos temas importantes para uma investigação adicional.

Que forma pode tomar a "democracia" numa sociedade socialista que tem como objectivo gerar uma sociedade sem classes? Um modelo como o previsto por Stalin na Constituição de 1936, democratizando a União Soviética e reestaurando o papel original do Partido Bolchevique, como uma organização de revolucionários cuja principal função é conduzir o país ao comunismo? Ou este modelo já incorpora aspectos capitalistas da democracia burguesa que acelerariam, no interesse de impedi-lo, a evolução de uma URSS que seria cara ao capitalismo?

- Qual é o papel apropriado de um partido comunista numa sociedade deste tipo? Quais são as formas específicas da direcção política compatíveis com a posse do poder democrático pela classe operária? Que formas de direcção política e económica são contrárias a estes objectivos?

57. Uma vez que nos perguntamos se as eleições e o governo "representativo" bastariam para expressar os interesses dos trabalhadores e camponeses, vemos que a Constituição de 1936, sendo posta em prática, tão pouco seria suficiente. Isto leva-nos a pensar que a “solução” tão pouco passa por fortalecer o Estado e debilitar o Partido - e parece que foi isto o que pensaram Stalin e Béria. Os marxistas imaginam que o estado pode ser dirigido tanto por uma classe quanto por outra, mas também é preciso antecipar se uma nova classe dirigente proveniente das camadas superiores do Partido, ou de alguma outra parte da sociedade, governaria e mudaria o estado para fazer este novo poder mais efectivo. Isto sugere que a diferença entre Partido e Estado é artificial e enganosa, e deve ser suprimida.

O termo burocratismo, ou burocracia, ainda que aponte um problema, cria outros. Sugiro que as questões expostas anteriormente - sobre a democracia e o papel do partido - devem levar-nos a empregar modos mais materialistas de pensar as relações, numa sociedade socialista, entre a parte organizada e politicamente mais consciente, e a menos organizada ou menos consciente politicamente, que representa a maioria produtiva.

Os bolcheviques geralmente, e Stalin expressamente, faziam uma grande distinção entre preparação política e habilidade técnica ou educação. Mas eles nunca estudaram suficientemente a contradição entre "militante" e "técnico", como se fez durante a Revolução Cultural chinesa. A ideia compartilhada por quase todos os socialistas de que se poderia separar a supervisão política do conhecimento técnico e a produção, reflecte, em parte, a noção errada de que a ciência - a técnica – é politicamente neutra, e de que uma produção económica eficaz já era politicamente de esquerda ou comunista. A contradição entre Estado-Partido é continuação desta outra contradição (entre o militante e o técnico).

Que significa "democracia interna" no contexto de um partido comunista? Na URSS, muitas das forças de oposição cujos pontos de vista foram derrotados nas Conferências e Congressos do Partido durante os anos 20, enveredaram por um caminho de conspirações que, no seu último fôlego, procuravam o assassinato de dirigentes do Partido, golpes de Estado e colaborações, através de actividades de espionagem, com as potências capitalistas inimigas. Ao mesmo tempo, líderes regionais do Partido desenvolveram hábitos ditatoriais que, por sua vez, os afastavam da militância do Partido (e, por suposto, da população não-comunista, que era muito mais numerosa), e por outro lado, garantiam privilégios materiais.

58. As vantagens materiais dos altos cargos do Partido jogaram um importante papel, decisivo até, no desenvolvimento do que se conheceu como nomenclatura. Igualmente, o evidente objectivo de Stalin de afastar o Partido do comando directo e devolvê-lo às tarefas de "agitação e propaganda" poderia sugerir uma tomada de consideração desta contradição por parte de Stalin e, talvez, também, por outros dirigentes. Até que ponto as grandes diferenças salariais eram essenciais para estimular a industrialização na URSS? E se estas diferenças fossem essenciais, foi um erro conceder privilégios materiais a membros do Partido (melhor salário, melhor alojamento, casas especiais, etc.? O contexto político em que se tomaram estas decisões, final dos anos 20 e princípios dos 30, deve ser estudado com mais vagar. Os debates, que ocorreram no princípio dos anos 30 e que por agora ainda não estão disponíveis, referentes ao salário máximo dos membros do Partido, têm que ser descobertos e estudados.

59. Parece que Zhukov e Mukhin pensaram que a táctica, que eles atribuem a Stalin e Béria, de afastar os líderes do Partido da direcção do Estado, era a melhor para impedir a degeneração do Partido. Como sugeri anteriormente, talvez a verdadeira causa da degeneração do Partido foi a defesa dos seus privilégios, mais que a contradição "militante-técnico".

60. Pensava-se, por suposto, na necessidade dos incentivos materiais, primeiro, para recrutar técnicos para edificar a base industrial da URSS, especialistas no seu trabalho, mas burgueses, anti-comunistas e inimigos da classe operária. Partindo deste princípio, podemos argumentar que os altos salários foram necessários para animar os técnicos especializados (incluindo trabalhadores especializados) que se filiassem ao Partido Bolchevique; ou para trabalhar duro en condições adversas, a miude perigosas para a saúde, e sacrificando a vida familiar. Isto serviria para justificar as desigualdades semelhantes ás do mundo capitalista.

61. Pode dizer-se que Stalin e Béria pensaram que devolvendo o Partido à sua função puramente política, poderiam impedir a sua degeneração. Mas como esta estratégia nunca foi levada à prática, não podemos saber se funcionaria. Acreditamos, contudo, que a questão dos "incentivos materiais", ou seja, da desigualdade económica, é fundamental. Nas conversas com Félix Chuev, um Molotov já idoso reflecte sobre a necessidade de aumentar o igualitarismo, preocupando-se com o futuro do socialismo na URSS, ameaçado com o maior crescimento das desigualdades. Molotov não via as raízes desta desigualdade nos tempos de Lênin e Stalin. De facto, Molotov, como Stalin, era incapaz de analisar criticamente o legado de Lenin, embora existisse a proposta de manter e ampliar algumas desigualdades com a finalidade de estimular a produção podemos encontrá-la em Lenin e, recuando ainda mais, em Marx na Crítica ao Programa de Gotha.

62. As perguntas que cada um faz reflectem inevitavelmente as preocupações próprias, e o meu caso não é uma excepção. Penso que a história do Partido Bolchevique durante a etapa de Stalin - uma história adulterada pelas calúnias anti-comunistas que ainda tem de ser escrita - tem muito que ensinar às futuras gerações. Os activistas políticos que estudam o passado para guiar-se, ou os investigadores com consciência política que entendem que suas melhores contribuições para um futuro melhor passam pelo estudo das lutas do passado, todos têm muito a aprender com a história da União Soviética.

63. Como marinheiros da Idade Média, com mapas mais imaginários que reais, nós fomos enganados por histórias canônicas sobre a URSS, a maior parte delas falsas. O processo de descobrir a história real da primeira experiência socialista acaba de começar. Como pode compreender qualquer leitor deste ensaio, acredito que isto é de uma enorme importância para o futuro.

Notas

[1] Full text of the resolution is in Zhukov, Stalin. See also Zhukov's earlier treatment in Tayny 270-276, where the text is also reproduced.

[2] Another reading of the archives suggests the numbers might be 6, 6 and 5. See Khlevniuk O., et al. eds, Politburo TsK VKP(b) i Sovet Ministrov SSSR 1945-1953. Moscow: ROSSPEN, 2002, 428-431.

[3] Pyzhikov attributes this democratic strain to Leningraders, especially to Voznesensky. (See also his article "N.A. Voznesenski" at <http://www.akdi.ru/id/new/ek5.htm>). This would imply Zhdanov's support for it too, although Zhdanov's sponsorship would not "fit" Pyzhikov's theory about the most pro-capitalist forces -- Voznesenskii and his fellow "Leningraders" -- being the most "democratic." Nor, since the "Leningraders" remained strong through 1947, does it explain why the draft was not adopted. Nor does it indicate, much less prove, any necessary connection between the pro-capitalist and "consumer-goods" orientation Voznesensky was famous for, and political democracy. Finally, it certainly does not indicate that Stalin did not support it.

[4] According to Zhores Medvedev, Stalin's personal archive was destroyed immediately after his death (Medvedev, Sekretnyi). If so, it's reasonable to assume, as Mukhin does (Ubiystvo 612) that some of his ideas must have been thought very dangerous, and among them, the ideas expressed at these two meetings. My analysis here and below mainly follows Mukhin, Ch. 13 and Medvedev, op. cit.

[5] It was surely meant as a unifying measure. Each of the constituent Republics in the USSR retained its own Party: the Communist Party of the Ukraine, of Georgia, etc. This had led some Party leaders to think that Russia, the largest of the Republics but the one that had no Party "of its own," was at a disadvantage. Apparently one of the most serious charges against the Party leaders tried and executed in the postwar "Leningrad Affair" was that they were planning to set up a Russian Party and moving the capital of the Russian Republic (not the USSR itself) to Leningrad. Arguably this might have made Russia even more powerful and exacerbated Great Russian chauvinism, when what was needed was to cement the various Soviet nationalities closer together. See David Brandenberger, "Stalin, the Leningrad Affair, and the Limits of Postwar Russocentrism," Russian Review 63 (2004), 241-255.

[6] The post of "First Secretary" was only created after Stalin's death, for Khrushchev.

[7] Cited in Mukhin, Ubiystvo 617.

[8] The earliest publication I have found is in the leftwing newspaper Sovetskaia Rossiia of January 13, 2000, at <http://www.kprf.ru/analytics/10828.shtml>; in English, at <http://www.northstarcompass.org/nsc0004/stal1952.htm>.

[9] Mukhin believes this was a fatal mistake. He argues that it was in the interest of the Party nomenklatura that Stalin die while still both a secretary of the Central Committee (though he was no longer "General Secretary") and Head of State -- in other words, while he still united, in one person, head of the Party and head of the whole country. Then his successor as secretary of the C.C. would most likely be accepted by the country and the government as head of state as well. If that happened, the movement to get the Party nomenklatura out of running the country would be at an end (Mukhin, Ubiystvo, 604 & Ch. 13 passim].

[10] I have drawn on the longer treatments of Beria's reforms, both those effected and those he proposed, in Kokurin and Pozhalov, Starkov, Knight, and Mukhin, Ubiystvo. All the recent books on Beria cited in the Bibliography discuss them as well.

[11] In his "Secret Speech" Khrushchev also denounced the "Doctors' Plot" as a frameup. But he had the effrontery to put the blame on -- Beria, who had in fact liquidated the investigation, while praising Kruglov, the NKVD head in charge of this frameup, whom Khrushchev restored to C.C. membership and who was seated in the audience as Khrushchev spoke.

[12] There is much evidence to suggest that Beria was in fact murdered on the day of his arrest. His son Sergo Beria, in his own memoirs, states he was told by officials at the "trial" that his father was not present. Mukhin says that Baybakov, the last living C.C. member from 1953, told him Beria was already dead at the time of the July 1953 Plenum, but the members did not know it at the time (Sergo Beria; Mukhin, Ubiystvo 375). Amy Knight, p. 220, reports that Khrushchev himself twice stated Beria had been killed on June 26, 1953, but later changed his story. Meanwhile, the Beria trial documents are said to have been "stolen" from their archive, so even their existence cannot be verified (Khinshtein 2003). However some researchers, like Andrei Sukhomlinov (pp. 61-2), continue to find the evidence for Beria's murder unconvincing.

[13] This term, "the greatest theft in history," is widely used to describe the "privatization" of the collectively-created and, formerly, collectively-owned, state property of the USSR. For a few examples only, see "The Russian Oligarchy: Welcome to the Real World," The Russian Journal March 17 2003, at <http://www.russiajournal.com/news/cnews-article.shtml?nd=36013>; Raymond Baker, Centre for International Policy, "A Clear and Present Danger," Australian Broadcasting Corp, 2003, at <http://www.abc.net.au/4corners/stories/s296563.htm>.

[14] As of November 2005 I am preparing an article documenting Khrushchev's lies in the "Secret Speech," with publication planned for February 2006, the 50th anniversary of Khrushchev's speech.

[15] Roy Medvedev, Let History Judge: The Origins and Consequences of Stalinism, quotes a number of passages in which Stalin does this. See pp. 150, 507, 512, 538, 547 of the 1971 Knopf edition. Still others have come to light since the end of the USSR. For an example, see The Diary of Georgi Dimitrov 1933-1949, ed. & intro. Ivo Banac (New Haven, CT: Yale University Press, 2003), 66-67.

Bibliografia suplementar

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Dobriukha, Nikolai. "Otsy I otchimy 'ottepeli'." Argumenty I Fakty, June 18 2003. At <http://www.aif.ru/online/air/1182/10_01>.

Koshliakov, Sergei. "Lavrentiia Beria rasstreliali zadolgo do prigovora." Vesti Nedeli June 29, 2003. At <http:// www.vesti7.ru/archive/news?id=2728>.

Prudnikova, Elena. Beria. Prestupleniia, kororykh ne bylo. St. Petersburg: Neva, 2005.

Prudnikova, Elena. Stalin. Vtoroe Ubiystvo. St.Petersburg: Neva, 2003.

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Rubin, Nikolai. Lavrentii Beria. Mif I Rea'nost'. Moscow: Olimp; Smolensk: Rusich, 1998.

Service, Robert. Stalin. A Biography. Cambridge, MA: Belknap Press, 2004.

Smirtiukhov, Mikhail. Interview, Kommersant-Vlast' February 8, 2000. At <http://www.nns.ru/interv/arch/2000/02/08/int977.html>.

Sul'ianov, Anatolii. Beria: Arestovat' v Kremle. Minsk: Kharvest, 2004.
Toptygin, Aleksei. Lavrentii Beria. Moscow: Yauza, Eksmo, 2005.