4 de setembro de 2026

Apostas às cegas

O capitalismo e os mercados.

Dylan Riley

Sidecar


O boom de investimentos em IA — seja ele uma bolha ou não, como tendo a acreditar — é uma demonstração vívida de quão enganoso é caracterizar o capitalismo como uma "economia de mercado". Os ideólogos do sistema falam incessantemente sobre mercados. Segundo eles, os mercados transmitem informações sobre as vontades e os desejos das pessoas a produtores distantes, que então orientam suas ações de acordo com essas informações. O culto aos mercados, portanto, resume-se a uma afirmação sobre a relação entre informação e investimento. Para os entusiastas do mercado, nem mesmo o planejador central mais bem-intencionado do mundo consegue atender adequadamente às necessidades das pessoas, pois o planejamento destrói o sistema de preços — o mecanismo que transmite a informação necessária para que um planejamento racional possa ocorrer.

Deixando de lado debates complexos sobre cálculo e planejamento, considere por um momento se os mercados desempenham o papel que deveriam no capitalismo. Uma breve reflexão revela que, se o capitalismo pudesse de fato ser descrito como uma economia de mercado tout court, ele não teria nenhuma das características revolucionárias que evidentemente possuiu no passado. A característica mais óbvia do sistema é sua tendência de transformar constantemente as técnicas e a organização da produção, com o objetivo de aumentar os lucros em um ambiente competitivo. Não é nada óbvio que a IA e a expansão associada de centros de dados levarão a tal transformação radical (Umwälzung). É evidente, no entanto, que alguns atores importantes acreditam nisso — ou, pelo menos, gostariam de passar a impressão de que acreditam.

Qualquer que seja o resultado final do atual boom de investimentos, uma coisa é clara: ele não pode ser uma resposta a informações sobre as preferências existentes dos consumidores. Precisamente porque a IA generativa é uma tecnologia radicalmente nova — cujo uso ainda está sendo definido —, os investimentos e a expansão que ela impulsiona são independentes da demanda ou, na melhor das hipóteses, baseiam-se em suposições que não podem se apoiar em preços. Essa falta de resposta aos sinais do mercado é justamente o que torna esses investimentos potencialmente revolucionários.

Considere a situação em novembro de 2022, pouco antes do lançamento do ChatGPT. A demanda por IA generativa, naquele momento, era praticamente inexistente. Mas, após o lançamento, enormes volumes de investimento foram direcionados ao desenvolvimento da tecnologia. Por que todo esse investimento fluiu para um negócio cujos produtos não tinham demanda evidente? Isso ocorreu porque o ritmo do investimento capitalista é determinado por expectativas futuras de lucratividade, algo amplamente desconectado dos desejos e anseios existentes da população — para não mencionar quaisquer considerações mais amplas sobre necessidades sociais.

O sistema de oferta e demanda, na verdade, desempenha um papel subordinado no capitalismo. A característica mais marcante do capitalismo é o grau de independência do investimento em relação à demanda: o quanto ele se volta para um futuro especulativo e o quão pouco depende de informações. Em contrapartida, uma sociedade de mercado pura seria totalmente diferente daquilo que passamos a conceber como capitalismo em seu sentido clássico e dinâmico. Em tal sociedade, os produtores obteriam informações precisas sobre as demandas existentes. Isso levaria a uma divisão do trabalho altamente desenvolvida, cuja consequência última seria um declínio na concorrência, à medida que cada produtor encontrasse exatamente o nicho ao qual estivesse perfeitamente adaptado. A sociedade seria tecnologicamente conservadora, justamente porque todos os fatores de produção (particularmente o trabalho e o capital) seriam remunerados de acordo com sua contribuição produtiva. Consequentemente, a acumulação seria baixa, e haveria pouco incentivo ou oportunidade para fazer grandes apostas no futuro. Fundamentalmente, para funcionar adequadamente, uma sociedade de mercado exigiria um baixo nível de desigualdade de renda, pois somente assim a utilidade marginal do dinheiro seria equivalente, permitindo que os preços refletissem a demanda real. O grande teórico de tal sociedade é Durkheim, cujo utopismo foi tantas vezes erroneamente identificado como positivismo.

Os mercados desempenham certo papel na alocação de recursos existentes no capitalismo; mas o que realmente distingue o sistema não pode ser descrito em termos de mercados. Se o sistema de preços funcionasse como sugerem seus defensores mais fervorosos, por que haveria crescimento econômico e, em particular, por que ele assumiria a forma marcadamente descontínua que apresenta ao longo da história do capitalismo? É concebível um sistema de alocação via preços perfeitamente funcional sem qualquer crescimento; o crescimento, de fato, pareceria exigir o uso de recursos para produzir bens e serviços para os quais não há demanda atual e, portanto, depende de romper o vínculo entre oferta e demanda que o sistema de mercado deveria preservar e regular.

Historicamente, os mercados têm, na melhor das hipóteses, apenas uma conexão contingente com o crescimento. Existem inúmeros exemplos de expansão de mercado que levaram à involução econômica — sendo o tráfico de escravos africanos talvez o exemplo mais terrível e evidente. Aquele continente pagou por sua participação nos mercados globais com uma perda demográfica massiva da qual, pode-se argumentar, ainda não se recuperou. Poder-se-ia mencionar também o impacto do comércio de grãos na Alemanha a leste do rio Elba, a partir do século XVI, que levou à consolidação de controles trabalhistas repressivos nas grandes propriedades rurais, ou a penetração de comerciantes florentinos na zona rural da Toscana, que minou os prósperos mercados locais de terras no século XV.

Houve muitas sociedades de mercado no passado que não eram capitalistas, e é provável que haja outras no futuro. O ponto decisivo sobre o capitalismo é, na verdade, que se trata de uma sociedade na qual os principais meios de produção são de propriedade privada e na qual, consequentemente, as decisões de investimento são tomadas de maneira descoordenada e anárquica, com base em suposições mais ou menos cegas sobre o que o futuro pode oferecer em termos de lucros. Os próprios mercados de futuros são notoriamente especulativos. Eles não fornecem informações reais sobre o futuro, mas, na melhor das hipóteses, conferem uma aparência de racionalidade a uma atividade econômica que não passa de uma aposta. A questão, em todo caso, é que a produção orientada para a demanda existente desempenha, no máximo, um papel limitado no capitalismo.

Tudo isso aponta para um problema crucial: a notável falta de correspondência entre as necessidades humanas e o investimento capitalista. Voltemos novamente ao final de 2022. Quais eram as necessidades existentes que poderiam ter sido, pelo menos parcialmente, atendidas por um investimento de um trilhão de dólares? Inúmeros candidatos se apresentam: a transição para tecnologias verdes, a expansão de oportunidades educacionais, a melhoria do acesso à saúde... O fato de que, em vez disso, uma quantia inimaginável foi canalizada para uma tecnologia para a qual — por mais atraente que fosse — não havia demanda evidente, muito menos uma necessidade premente, deve ser considerado uma falha flagrante do capitalismo e um argumento poderoso para organizar a economia com base em princípios fundamentalmente diferentes.

Poder-se-ia responder enfatizando que é precisamente essa disposição de lançar-se em um futuro desconhecido que confere ao capitalismo seu dinamismo específico. Mas será que realmente precisamos de uma cegueira especulativa para descobrir o melhor caminho a seguir? Existem muitas outras fontes de informação — além das oportunidades de obter lucros enormes no futuro — que forneceriam um guia mais racional para a aplicação da riqueza acumulada de nossas sociedades extremamente ricas. Nunca se pergunta "quais são as coisas que não descobrimos, quais são os caminhos que não trilhamos", porque nos foi imposta uma enorme aposta em algo que ninguém disse querer e que nenhuma ciência apontou como necessário. O falso determinismo do progresso tecnológico impede que tais perguntas sejam feitas. Talvez o ponto mais importante a ter em mente seja que a história é uma árvore de ramificações infinitamente complexa, e não uma linha ascendente — e é a política que articula a sua estrutura.

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