Editorial
Choldraboldra
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| Cornell University Press |
How China Escaped the Poverty Trap
Yuen Yuen Ang
Nova York: Cornell University Press, 2016. 344 p.
Em How China Escaped the Poverty Trap, Yuen Yuen Ang oferece uma das interpretações mais inovadoras e influentes sobre o desenvolvimento chinês nas últimas décadas. Distanciando-se tanto das explicações liberal-institucionalistas quanto das leituras estatistas tradicionais, a autora propõe um novo paradigma analítico para compreender como sociedades pobres e institucionalmente frágeis podem romper ciclos persistentes de subdesenvolvimento.
O ponto de partida do livro é uma crítica frontal às três respostas dominantes da economia política do desenvolvimento: a ideia de que é preciso primeiro crescer para depois construir instituições; a tese inversa, segundo a qual boas instituições são pré-condição para o crescimento; e, por fim, o argumento determinista de que apenas países “afortunados” herdaram instituições adequadas ao desenvolvimento. Para Ang, essas abordagens compartilham pressupostos problemáticos — causalidade linear, visão mecanicista do Estado e uma leitura teleológica da história — que falham em explicar trajetórias reais de transformação econômica.
Em oposição a esses modelos, a autora desenvolve uma abordagem inspirada nos sistemas adaptativos complexos, enfatizando interdependência, aprendizado incremental e inovação institucional. A experiência chinesa é apresentada não como um caso de excepcionalismo cultural ou de autoritarismo eficiente, mas como o resultado de um processo contínuo de experimentação política e econômica. A chave desse processo seria o que Ang denomina “improvisação dirigida”: diretrizes gerais definidas pelo centro político combinadas com ampla autonomia local para experimentar soluções, adaptar políticas e criar novos arranjos institucionais.
A força empírica do livro reside em um extenso trabalho de campo, baseado em mais de 400 entrevistas com burocratas e empresários chineses. A partir desse material, Ang reconstrói como governos locais, mesmo operando em contextos de escassez extrema, utilizaram recursos limitados para fomentar mercados, atrair investimentos e impulsionar a industrialização. Ao contrário da noção de que a China teria primeiro “construído boas instituições”, o livro demonstra que muitas instituições consideradas hoje fundamentais foram produto do próprio processo de crescimento, e não sua causa inicial.
Um dos argumentos mais provocativos da obra é a rejeição da ideia de que corrupção e informalidade seriam necessariamente obstáculos absolutos ao desenvolvimento. Ang distingue diferentes tipos de corrupção e sugere que, em contextos de pobreza extrema, certos arranjos informais funcionaram como mecanismos de coordenação e incentivo, ainda que carregassem custos e contradições. Isso não implica uma defesa normativa da corrupção, mas uma análise histórica que recusa julgamentos anacrônicos baseados em padrões institucionais do Norte Global.
Do ponto de vista teórico, o livro dialoga criticamente tanto com o neoliberalismo quanto com versões simplificadas do estatismo desenvolvimentista. A China não teria seguido um roteiro pré-definido, nem reproduzido modelos ocidentais de governança. Seu caminho foi marcado por soluções pragmáticas, frequentemente “imperfeitas”, que desafiaram normas internacionais sobre propriedade, legalidade e administração pública — mas que, ainda assim, produziram resultados extraordinários em termos de redução da pobreza e transformação produtiva.
Ao mesmo tempo, How China Escaped the Poverty Trap não ignora os limites e tensões desse modelo. A adaptabilidade que impulsionou o crescimento também gerou desigualdades regionais, conflitos sociais e dilemas ambientais, apontando para desafios estruturais que acompanham o estágio atual do desenvolvimento chinês. Ainda assim, a principal contribuição do livro é deslocar o debate sobre desenvolvimento de receitas universais para uma compreensão histórica, processual e contextualizada.
Em síntese, a obra de Yuen Yuen Ang representa uma inflexão decisiva nos estudos sobre desenvolvimento e economia política comparada. Ao mostrar que a China escapou da armadilha da pobreza não apesar de suas instituições “fracas”, mas por meio de sua capacidade adaptativa e experimental, o livro desafia paradigmas consolidados e oferece ferramentas analíticas valiosas para pensar trajetórias alternativas no Sul Global em um mundo marcado pela crise do neoliberalismo e pela fragmentação da ordem internacional.
Em How China Escaped the Poverty Trap, Yuen Yuen Ang oferece uma das interpretações mais inovadoras e influentes sobre o desenvolvimento chinês nas últimas décadas. Distanciando-se tanto das explicações liberal-institucionalistas quanto das leituras estatistas tradicionais, a autora propõe um novo paradigma analítico para compreender como sociedades pobres e institucionalmente frágeis podem romper ciclos persistentes de subdesenvolvimento.
O ponto de partida do livro é uma crítica frontal às três respostas dominantes da economia política do desenvolvimento: a ideia de que é preciso primeiro crescer para depois construir instituições; a tese inversa, segundo a qual boas instituições são pré-condição para o crescimento; e, por fim, o argumento determinista de que apenas países “afortunados” herdaram instituições adequadas ao desenvolvimento. Para Ang, essas abordagens compartilham pressupostos problemáticos — causalidade linear, visão mecanicista do Estado e uma leitura teleológica da história — que falham em explicar trajetórias reais de transformação econômica.
Em oposição a esses modelos, a autora desenvolve uma abordagem inspirada nos sistemas adaptativos complexos, enfatizando interdependência, aprendizado incremental e inovação institucional. A experiência chinesa é apresentada não como um caso de excepcionalismo cultural ou de autoritarismo eficiente, mas como o resultado de um processo contínuo de experimentação política e econômica. A chave desse processo seria o que Ang denomina “improvisação dirigida”: diretrizes gerais definidas pelo centro político combinadas com ampla autonomia local para experimentar soluções, adaptar políticas e criar novos arranjos institucionais.
A força empírica do livro reside em um extenso trabalho de campo, baseado em mais de 400 entrevistas com burocratas e empresários chineses. A partir desse material, Ang reconstrói como governos locais, mesmo operando em contextos de escassez extrema, utilizaram recursos limitados para fomentar mercados, atrair investimentos e impulsionar a industrialização. Ao contrário da noção de que a China teria primeiro “construído boas instituições”, o livro demonstra que muitas instituições consideradas hoje fundamentais foram produto do próprio processo de crescimento, e não sua causa inicial.
Um dos argumentos mais provocativos da obra é a rejeição da ideia de que corrupção e informalidade seriam necessariamente obstáculos absolutos ao desenvolvimento. Ang distingue diferentes tipos de corrupção e sugere que, em contextos de pobreza extrema, certos arranjos informais funcionaram como mecanismos de coordenação e incentivo, ainda que carregassem custos e contradições. Isso não implica uma defesa normativa da corrupção, mas uma análise histórica que recusa julgamentos anacrônicos baseados em padrões institucionais do Norte Global.
Do ponto de vista teórico, o livro dialoga criticamente tanto com o neoliberalismo quanto com versões simplificadas do estatismo desenvolvimentista. A China não teria seguido um roteiro pré-definido, nem reproduzido modelos ocidentais de governança. Seu caminho foi marcado por soluções pragmáticas, frequentemente “imperfeitas”, que desafiaram normas internacionais sobre propriedade, legalidade e administração pública — mas que, ainda assim, produziram resultados extraordinários em termos de redução da pobreza e transformação produtiva.
Ao mesmo tempo, How China Escaped the Poverty Trap não ignora os limites e tensões desse modelo. A adaptabilidade que impulsionou o crescimento também gerou desigualdades regionais, conflitos sociais e dilemas ambientais, apontando para desafios estruturais que acompanham o estágio atual do desenvolvimento chinês. Ainda assim, a principal contribuição do livro é deslocar o debate sobre desenvolvimento de receitas universais para uma compreensão histórica, processual e contextualizada.
Em síntese, a obra de Yuen Yuen Ang representa uma inflexão decisiva nos estudos sobre desenvolvimento e economia política comparada. Ao mostrar que a China escapou da armadilha da pobreza não apesar de suas instituições “fracas”, mas por meio de sua capacidade adaptativa e experimental, o livro desafia paradigmas consolidados e oferece ferramentas analíticas valiosas para pensar trajetórias alternativas no Sul Global em um mundo marcado pela crise do neoliberalismo e pela fragmentação da ordem internacional.

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