7 de janeiro de 2016

De militar para militar

Seymour M. Hersh sobre a partilha de inteligência dos Estados Unidos na guerra síria

Seymour M. Hersh

London Review of Books

Tradutor / A incansável insistência de Barack Obama, em que Bashar al-Assad teria de deixar o governo – e em que haveria grupos rebeldes moderados na Síria capazes de derrotá-lo – provocou, em anos recentes, dissidência silenciosa e até declarada oposição entre alguns dos mais altos oficiais do comando do estado-maior do Pentágono. As críticas focaram-se no que eles veem como uma fixação do governo no principal aliado de Assad, Vladimir Putin. Naquele ponto de vista, Obama estaria cativo do pensamento da Guerra Fria sobre Rússia e China, e não ajustara a própria visão sobre a Síria ao fato de que Rússia e China partilham a ansiedade de Washington sobre a disseminação do terrorismo na e além da Síria e, como Washington, acreditam que o Estado Islâmico tem de ser detido.

A resistência entre os militares data do verão de 2013, quando uma avaliação altamente sigilosa, construída pela Agência de Inteligência da Defesa e o Comando do Estado-maior das Forças Militares Conjuntas dos EUA, presidido pelo general Martin Dempsey, previu que, sem o regime de Assad, a Síria seria tomada pelo caos, e o Estado sírio poderia ser tomado por extremistas jihadistas, mais ou menos como já se via acontecer na Líbia.

Ex-conselheiro daquele estado-maior dos EUA disse-me que aquele documento era avaliação construída por multi-fontes, a partir de informações recolhidas de sinais de satélite e de inteligência humana, e avaliava muito duramente a insistência do governo Obama em continuar a financiar e armar os chamados rebeldes moderados. Naquele momento a CIA já conspirava há mais de um ano com aliados no Reino Unido, na Arábia Saudita e no Qatar para embarcar armas e suprimentos – a serem usados para derrubar Assad –, da Líbia, via Turquia, para a Síria. Aquela nova avaliação da inteligência especificava a Turquia como principal impedimento à política de Obama para a Síria. O documento mostrava, disse-me o ex-conselheiro, "que o que começou como programa clandestino dos EUA para armar e apoiar rebeldes moderados que combatiam contra o governo de Assad, já havia sido cooptado pela Turquia, e se metamorfoseara em programa de contrabando através da fronteira, de armas, treinamento e logística para toda a oposição, incluindo a Frente al-Nusra e o Estado Islâmico. Os chamados moderados haviam evaporado, e o Exército Sírio Livre não passava de bando esfarrapado acampado numa base aérea na Turquia". O parecer era sombrio: não havia qualquer oposição moderada contra Assad; e os EUA estavam entregando armas a extremistas.

O tenente-general Michael Flynn, diretor da DIA de 2012 a 2014, confirmou que sua agência havia enviado fluxo ininterrupto de alertas sigilosos para a liderança civil do país, sobre as graves consequências de derrubarem Assad. Os jihadistas, disse ele, controlavam integralmente a oposição. A Turquia não se esforçava para deter, na sua fronteira, o contrabando de armas e de mercenários recrutados pelo mundo. "Se a opinião pública americana conhecesse a informação que produzimos todos os dias, no nível mais sensível, haveria escândalo generalizado e muita indignação pelas ruas", disse-me Flynn. "Compreendemos a estratégia de longo prazo do ISIS e seus planos de campanha, e também discutimos o fato de que a Turquia fingia que não via o evidente crescimento do Estado Islâmico dentro da Síria." Os relatórios da DIA, disse ele, "encontraram feroz resistência dentro do governo Obama. Minha impressão foi que eles não queriam ouvir a verdade."

"Nossa política de armar a oposição contra Assad fracassou e, na verdade, está tendo impacto negativo", disse o ex-conselheiro do comando do estado-maior dos EUA. "Os comandantes do Estado-maior entendiam que Assad não devia ser substituído por fundamentalistas. A política do governo era contraditória. Queriam que Assad saísse, mas a oposição já estava dominada por extremistas." Assim sendo, quem o substituiria? Muito bem, declarar que Assad tem de sair, mas se você aprofunda a ideia, é como se "qualquer coisa é melhor". Esse ponto, "qualquer coisa é melhor" é o ponto que separa o estado-maior dos EUA e a política de Obama. Os comandantes do Estado-maior sentiam que desafiar diretamente a política de Obama tinha "chance zero de sucesso". Então, no outono de 2013 decidiram tomar medidas contra os extremistas sem seguir os canais políticos, fornecendo inteligência dos EUA a militares de outros países, com o combinado de que seria passada ao exército sírio, para ser usada contra o inimigo comum, Frente al-Nusra e Estado Islâmico.

Alemanha, Israel e Rússia tinham contato com o Exército Sírio e alguma influência sobre as decisões de Assad – e a inteligência dos EUA seria partilhada através desses países. Cada um dos três países tinha suas razões para cooperar com Assad: Alemanha, com medo de como reagira sua própria população de seis milhões de muçulmanos, se o Estado Islâmico se expandisse; Israel, preocupado com a segurança de fronteira; a Rússia tinha uma aliança há muito tempo com a Síria, e temia pela sua base naval no Mediterrâneo, em Tartus. "Não tínhamos intenção de nos desviar das políticas determinadas por Obama", disse-me o ex-conselheiro. "Mas partilhar nossa avaliação mediante relações de militar para militar com outros países poderia ser atitude produtiva. Era claro que Assad carecia de melhor inteligência tática e de aconselhamento operacional. O comando do estado-maior concluiu que, se se atendessem a essas necessidades, a luta geral contra o terrorismo islâmico seria melhorada. "Obama não sabia, mas Obama não sabe de nada que o comando do estado-maior das forças conjuntas dos EUA faz, o que vale para todos os presidentes."

Tão logo começou o fluxo de inteligência dos EUA, Alemanha, Israel e Rússia começaram a passar informações sobre os pontos onde estavam e os planos dos grupos jihadistas radicais, para o exército sírio; em troca, a Síria forneceu informações sobre suas capacidades e intenções. Não houve contato direto entre militares dos EUA e da Síria; em vez disso, o ex-conselheiro disse, "fornecíamos a informação – inclusive análises de longo prazo sobre o futuro da Síria reunidas por empresas contratadas ou um de nossos colégios de guerra – e aqueles países tinham liberdade para fazerem o que decidissem fazer com a informação, inclusive partilhá-la com Assad. Dizíamos, para os alemães e os demais: "Aqui está informação bastante interessante, e nosso interesse é mútuo". Fim da conversa. O comando do estado-maior dos EUA concluiu que resultaria algo benéfico – mas era assunto de militar para militar, não algum tipo de plano sinistro do estado-maior para enganar Obama e apoiar Assad. Na verdade, era muito mais inteligente que isso. Se Assad fica no poder, não seria porque nós o seguramos lá. Seria por ele teria sido esperto o bastante para usar a informação de inteligência e assessoria tática de primeira qualidade, que fornecemos a muita gente."

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A história pública das relações entre EUA e Síria ao longos das últimas poucas décadas é história de inimizade. Assad condenou os ataques do 11/9, mas se opôs à guerra do Iraque. George W. Bush repetidas vezes associou a Síria aos três membros do seu "eixo do mal" – Iraque, Irã e Coreia do Norte – durante todo o seu governo. Os telegramas do Departamento de Estado divulgados por WikiLeaks mostram que o governo Bush tentou desestabilizar a Síria, e os esforços continuaram nos anos Obama. Em dezembro de 2006, William Roebuck, então encarregado da embaixada dos EUA em Damasco, divulgou uma análise das vulnerabilidades do governo Assad e listou métodos que "irá melhorar a probabilidade" de oportunidades de desestabilização. Recomendava que Washington trabalhasse com Arábia Saudita e Egito para aumentar a tensão sectária e se focasse em divulgar "esforços sírios contra grupos extremistas" – dissidentes curdos e facções sunitas radicais – "de modo que sugira fraqueza, sinais de instabilidade e revide não controlado"; e que "o isolamento da Síria" deveria ser encorajada, mediante o apoio, dos EUA à Frente de Salvação Nacional liderada por Abdul Halim Khaddam, um ex-vice-presidente sírio cujo governo no exílio, em Riad, era patrocinado pelos sauditas e pela Fraternidade Muçulmana. Outro telegrama de 2006 mostrava que a embaixada gastara $5 milhões financiando dissidentes que concorreram como candidatos independentes à Assembleia Popular; os pagamentos continuaram, mesmo depois que ficou claro que a inteligência síria já sabia do que estava acontecendo. Um telegrama de 2010 alertava que financiamento para uma rede de televisão com sede em Londres e dirigida por um grupo da oposição síria seria visto pelo governo sírio "como um gesto secreto e hostil para com o regime".

Mas há também uma história paralela de cooperação sombria entre a Síria e os EUA durante o mesmo período. Os dois países colaboraram contra a al-Qaeda, inimiga comum. Um consultor com muitos anos de serviços prestados ao Comando de Operações Especiais Conjuntas disse que, depois do 11/9, "Bashar foi, durante anos, extremamente útil, quando nós, em minha opinião, fomos extremamente tolos, no uso que demos ao ouro que ele nos ofereceu. Essa cooperação silenciosa continuou também com outros elementos, mesmo depois que o governo [de Bush] resolveu pôr-se a demonizar Assad." Em 2002, Assad autorizou a inteligência síria a entregar centenas de arquivos internos sobre atividades da Fraternidade Muçulmana na Síria e na Alemanha. Mais tarde, nesse mesmo ano, a inteligência síria abortou um ataque da al-Qaeda contra os quartéis da Quinta Frota da Marinha dos EUA, no Bahrain, e Assad concordou que a CIA recebesse o nome de um informante vital da al-Qaeda. Em clara violação desse acordo, a CIA imediatamente fez contato direto com o informante; ele rejeitou a abordagem e rompeu relações com seus contatos sírios. Assad também entregou secretamente aos EUA parentes de Saddam Hussein que haviam procurado refúgio na Síria, e – como outros aliados dos EUA na Jordânia, Egito, Tailândia e em outros pontos – torturou a serviço da CIA suspeitos de terrorismo, numa prisão em Damasco.

Essa história de cooperação tornou possível crer, em 2013, que Damasco concordaria com o novo arranjo de partilha indireta de inteligência com os EUA. Os comandantes do estado-maior fizeram saber aos sírios que, em troca, os EUA queriam quatro coisas: Assad teria de impedir o Hezbollah de atacar Israel; teria de renovar as negociações paralisadas com Israel para alcançar um acordo sobre as Colinas do Golan; teria de aceitar conselheiros russos e de outros países; e teria de se comprometer com realizar eleições abertas depois da guerra, incluindo larga gama de grupos. "Tínhamos feedback positivo dos israelenses que estavam apoiando a ideia, mas eles queriam saber qual seria a reação do Irã e da Síria", disse-me o ex-conselheiro do comando do estado-maior das forças armadas conjuntas dos EUA. "Os sírios disseram que Assad não tomaria decisão unilateral – que queria o apoio de seus militares e aliados alauitas. A preocupação de Assad era que Israel dissese que sim e depois não defendesse a sua parte no trato." Um antigo conselheiro do Kremlin para assuntos do Oriente Médio contou-me que, no final de 2012, depois de sofrer revezes de combate e deserções, Assad aproximou-se de Israel mediante um contato em Moscou, e ofereceu para reabrir as conversações sobre as Colinas do Golan. Os israelenses rejeitaram a oferta. "Disseram 'Assad está acabado'", disse-me o funcionário russo. – "Disseram que 'Assad está chegando ao fim.'" Disse-me também que os turcos haviam dito exatamente a mesma coisa a Moscou. Mas em meados de 2013, os sírios achavam que o pior já tinha passado, e queriam garantias de que os americanos e outros falavam a sério, sobre ofertas de ajuda.

Nas fases iniciais das conversações, disse o ex-conselheiro, os comandantes do estado-maior tentaram fixar o que convenceria Assad, como sinal de suas boas intenções. A resposta chegou através de um amigo de Assad: "Tragam a ele a cabeça do príncipe Bandar." Não podia ser. Bandar bin Sultan serviu durante décadas à Arábia Saudita, nos serviços de inteligência e questões de segurança nacional, e passou mais de 20 anos como embaixador em Washington. Em anos recentes, tornou-se conhecido como empenhado militante a favor da derrubada de Assad, por quaisquer meios. Entre notícias de que estaria gravemente doente, Bandar renunciou ano passado ao cargo de diretor do Conselho de Segurança Nacional Saudita, mas a Arábia Saudita ainda é fornecedora de dinheiro para a oposição síria, estimado pelos EUA, ano passado, em pelo menos $700 milhões.

Em julho do ano passado, os comandantes do estado-maior das forças conjuntas dos EUA encontraram meio mais direto de demonstrar a Assad que, sim, queriam ajudá-lo. Naquele momento, o fluxo de armas patrocinado secretamente pela CIA da Líbia para a oposição síria, através da Turquia, já tinha mais de um ano (começou pouco depois da morte de Gaddafi, em 20 de outubro de 2011).[*] A operação era quase toda comandada por um anexo clandestino da CIA em Benghazi, com pleno conhecimento do Departamento de Estado. Em 11 de setembro de 2012, o embaixador dos EUA na Líbia, Christopher Stevens, foi morto durante demonstração anti-EUA que resultou no incêndio que destruiu completamente o consulado dos EUA em Benghazi; repórteres do Washington Post encontraram cópias da agenda do embaixador entre as ruínas queimadas do prédio. Ali se via que em 10 de setembro Stevens tinha se reunido com o chefe da operação da CIA. No dia seguinte, horas antes de ser morto, ele tinha se reunido com um representante da empresa de transportes marítimos Al-Marfa Shipping and Maritime Services, empresa com sede em Trípoli e que, como me disse o ex-conselheiro do Estado-maior, era conhecida também do próprio estado-maior como encarregada dos embarques e entregas de carregamentos de armas.

No final do verão de 2013, o parecer da Agência de Inteligência da Defesa já circulara amplamente, mas embora muita gente na comunidade de inteligência dos EUA soubesse que a oposição síria era dominada por extremistas, o fluxo de armas patrocinadas pela CIA continuava, e era continuado problema para o exército de Assad. O estoque de armas de Gaddafi criou um bazaar internacional de armas, embora os preços fossem altos. "Não havia como interromper os embarques de armas que o presidente Obama autorizara", disse o ex-conselheiro do comando do estado-maior dos EUA. "A solução acabou por envolver um apelo ao bolso. O comando do estado-maior dos EUA enviou representante para falar com a CIA, com uma sugestão: havia armas muito mais baratas disponíveis nos arsenais turcos, que podiam chegar em poucos dias aos rebeldes sírios, e sem viagens por mar." Mas a CIA não seria a única beneficiária do novo arranjo. "Trabalhávamos com turcos que sabíamos que não eram leais a Erdoğan e nos quais confiávamos", disse-me o ex-conselheiro. "E conseguimos que entregassem aos jihadistas na Síria todo o armamento obsoleto que havia no arsenal, inclusive carabinas M1 que nunca mais haviam sido usadas desde a Guerra da Coreia e muitas armas soviéticas. Era mensagem clara, que Assad entenderia: 'Temos poder para reduzir efeitos de uma política do presidente dos EUA já em andamento'."

O fluxo de inteligência dos EUA para o exército sírio e o rebaixamento na qualidade das armas fornecidas aos rebeldes aconteceram em momento crítico. O exército sírio sofrera pesadas perdas na primavera de 2013 em combates contra a Frente al-Nusra e outros grupos extremistas, e perdera o controle sobre a capital provincial de Raqqa. Continuaram durante meses raids esporádicos na área, pelo Exército Árabe Sírio e pela Força Aérea síria, com sucesso reduzido, até que decidiram retirar-se de Raqqa e de outras áreas pouca habitadas e difíceis de defender no norte e no oeste, para concentrar-se em consolidar as defesas do Estado sírio em Damasco e nas áreas densamente povoadas que legam a capital a Latakia, no nordeste. Mas, quando o Exército sírio ganhou potência com o apoio do comando do estado-maior das forças armadas conjuntas dos EUA, Arábia Saudita, Qatar e Turquia escalaram o apoio financeiro e o fornecimento de armas para a Frente al-Nusra e o Estado Islâmico, os quais, ao final de 2013 haviam tido ganhos enormes dos dois lados da fronteira Síria/Iraque. Os demais rebeldes não fundamentalistas viram-se combatendo – e perdendo – batalhas terríveis contra os extremistas. Em janeiro de 2014, o Estado Islâmico conseguiu controle completo em Raqqa e nas áreas tribais circundantes, derrotando a Frente al-Nusra e estabeleceu sua base naquela cidade. Assad ainda controlava 80% da população síria, mas perdera áreas gigantescas de território.

Os esforços da CIA para dar treinamento a forças rebeldes moderadas estavam também fracassando miseravelmente. "O campo de treinamento da CIA ficava na Jordânia e era controlado por um grupo tribal sírio", disse o ex-assessor do comando do estado-maior dos EUA. Havia uma suspeita de que alguns dos que se inscreviam para o treinamento eram realmente soldados do exército sírio, menos o uniforme. Já acontecera antes, no auge da Guerra do Iraque, quando centenas de membros de milícias xiitas apareciam nos campos americanos de treinamento, em busca de roupas limpas, armas e uns dias de treinamento e, em seguida, sumiam no deserto. E outro programa de treinamento que o Pentágono estabelecera na Turquia, também não ia bem. Em setembro, o Pentágono reconheceu que só "quatro ou cinco" de seus recrutas ainda combatiam contra o Estado Islâmico; poucos dias depois, 70 deles desertaram para a Frente al-Nusra, no instante em que atravessaram a fronteira e entraram na Síria.

Em janeiro de 2014, já desesperado com o progresso zero, John Brennan, diretor da CIA, convocou os chefes das inteligências americana e sunitas-árabes de todo o Oriente Médio, para uma reunião secreta em Washington, com o objetivo de tentar convencer a Arábia Saudita a parar de apoiar combatentes extremistas na Síria. "Os sauditas disseram que muito se alegravam com a iniciativa", disse-me o ex-assessor do estado-maior dos EUA. Assim sendo, sentaram-se todos eles para ouvir Brennan dizer que tinham de aliar-se aos chamados moderados. A ideia de Brennan era que, se todos na região parassem de apoiar a Frente al-Nusra e o Estado Islâmico, eles ficariam sem armas e munição, e os moderados venceriam." Mas a mensagem de Brennan foi ignorada pelos sauditas, disse-me o ex-assessor. Os sauditas voltaram para casa e aumentaram a ajuda aos extremistas e nos pediram mais e mais suporte técnico. "Então nós dissemos OK, e foi assim que acabamos reforçando os grupos mais extremistas."

Mas os sauditas não eram, nem de longe, o único problema. A inteligência dos EUA havia acumulado interceptações e inteligência humana que mostrava que o governo de Erdoğan já apoiava a Frente al-Nusra há anos, e que agora está fazendo o mesmo com o Estado Islâmico. "Podemos lidar com os sauditas", disse-me o ex-conselheiro, "podemos lidar com a Fraternidade Muçulmana. Pode-se dizer que todo o equilíbrio no Oriente Médio está baseado numa modalidade de destruição mútua assegurada entre Israel e o resto do Oriente Médio. Mas a Turquia pode romper esse equilíbrio (e esse é o sonho de Erdoğan). Dissemos a ele que queríamos que ele fechasse a torrente de jihadistas estrangeiros que não paravam de chegar à Turquia. Mas ele sonha grande – quer restaurar o Império Otomano – e não se dá conta da mínima probabilidade de conseguir ser bem-sucedido."

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Um dos relacionamentos mais constantes dos EUA, desde a queda da União Soviética, tem sido uma relação militar-a-militar com os russos. Depois de 1991, os EUA gastaram bilhões de dólares para ajudar a Rússia a proteger seu complexo de armas nucleares, incluindo uma operação conjunta altamente secreta para remover urânio enriquecido para ser usado em armas atômicas, retirando o material de onde estava, em silos sem segurança no Cazaquistão. Programas conjuntos para monitorar a segurança de materiais radioativos alto-enriquecidos continuaram durante as duas últimas décadas. Durante a guerra dos EUA contra o Afeganistão, a Rússia concedeu direitos de sobrevoo a aviões cargueiros e de transporte de tanques, além de acesso para manter o fluxo de armas, munição e água para manter diariamente a máquina de guerra dos EUA. Militares russos forneceram inteligência sobre o paradeiro de Osama bin Laden e ajudaram os EUA a negociar direitos para usarem uma base aérea no Quirguistão. O estado-maior dos EUA estiveram em contato frequente com seus contrapartes russos durante toda a guerra da Síria, e os laços entre os dois blocos militares começam pelo topo. 

Em agosto, poucas semanas antes de aposentar-se como comandante do estado-maior das forças conjuntas dos EUA, Dempsey fez uma visita de despedida ao quartel-general das Forças de Defesa da Irlanda em Dublin, onde disse, numa conferência a comandantes do estado-maior da Irlanda, que um dos pontos altos de sua carreira fora manter-se em contato com o comandante do estado-maior das forças conjuntas da Rússia, general Valery Gerasimov. "De fato, sugeri a ele que não terminássemos nossas carreiras como começamos", disse Dempsey, "um pilotando tanques na Alemanha Ocidental, o outro, na Alemanha Oriental".

No que tenha a ver com derrotar o Estado Islâmico, Rússia e EUA têm muito a oferecer um ao outro. Muitos no comando e nas fileiras do Estado Islâmico combateram durante mais de uma década contra a Rússia nas duas guerras chechenas que começaram em 1994, e o governo de Putin está pesadamente investido em combater contra o terrorismo islamista. "A Rússia conhece muito bem a liderança do Estado Islâmico", disse-me o ex-conselheiro do comando do estado-maior dos EUA, "inclusive suas técnicas operacionais, e tem muita inteligência a partilhar." Em troca, disse ele, "temos excelentes instrutores, com anos de experiência em treinamento de combatentes estrangeiros – uma experiência que a Rússia não tem." Minha fonte não discute que inteligência supõe-se que os EUA tenham: capacidades para obter dados sobre alvos, não raras vezes comprados por montanhas de dinheiro, de fontes dentro das milícias rebeldes.

Um ex-assessor da Casa Branca sobre assuntos russos me disse que antes de 9/11 que Putin costumava dizer-nos: "Temos os mesmos pesadelos sobre lugares diferentes." Ele estava se referindo a seus problemas com o califado na Chechênia e nossos primeiros problemas com al-Qaida. Hoje, depois do bombardeio que derrubou o Metrojet sobre o Sinai e dos massacres em Paris e em outros locais, impossível escapar da conclusão de que nós, realmente, temos os mesmos pesadelos sobre os mesmos locais."

Pois com tudo isso, o governo Obama continua a condenar a Rússia por causa do apoio que dá ao presidente Assad. Diplomata aposentado que serviu na embaixada dos EUA em Moscou mostrou compreensão quanto ao dilema de Obama, como líder da coalizão ocidental, que se opõe ao que Putin fez na Ucrânia: "A Ucrânia é questão difícil, e Obama até que a conduziu com firmeza, mediante sanções. Mas nossa política para a Rússia e muito frequentemente sem foco. E não é por causa do que fazemos na Síria. É porque os russos não podem permitir que Bashar seja derrubado. A verdade é que Putin não quer que o caos sírio se espalhe para Jordânia ou Líbano, como se espalhou para o Iraque, e não quer ver a Síria tombar em mãos do Estado Islâmico. O movimento mais contraproducente de Obama, e que atrapalhou gravemente nossos próprios esforços para acabar com os combates, foi declarar, como premissa das negociações, que 'Assad deve ir como premissa para a negociação.'" O mesmo diplomata repetiu também um pensamento que circula em alguns setores do Pentágono, ao aludir a um fator colateral por trás da decisão dos russos, de 30 de setembro, de lançarem ataques aéreos em apoio ao exército sírio: impedir que Assad tivesse destino semelhante ao de Gaddafi. Meu informante ouvira dizer que Putin assistiu três vezes a um vídeo do brutal assassinato de Gaddafi. O ex-assessor do estado-maior dos EUA também me falou de uma avaliação da inteligência dos EUA, que concluía que Putin ficou terrivelmente emocionado ante o destino de Gaddafi: "Putin culpou-se por ter deixado que acontecesse daquele modo, por não ter agido com mais firmeza nas coxias da ONU, quando a coalizão ocidental fazia lobby para ser autorizada a consumar os ataques que destruíram o regime líbio. "Putin convenceu-se de que, a menos que a Rússia se engajasse, Bashar também seria assassinado e mutilado – e a Rússia teria de assistir à destruição de seus aliados na Síria."

Em um discurso em 22 de novembro, Obama declarou que "os principais alvos" da artilharia russa "foram a oposição moderada". É linha da qual o governo e a mídia dominante nos EUA praticamente nunca se desviaram. Os russos insistem que só atiram contra grupos rebeldes que ameaçam a estabilidade na Síria – inclusive o Estado Islâmico. O assessor do Kremlin para o Oriente Médio explicou em entrevista que a primeira rodada de ataques aéreos russos teve o objetivo de reforçar a segurança em torno de uma base aérea russa em Latakia – fortaleza de forças alauitas. O objetivo estratégico, disse ele, foi estabelecer um corredor pelo qual não circulasse jihadistas, de Damasco a Latakia e a base russa em Tartus e, na sequência, mudar gradualmente o foco do bombardeio para o sul e leste, com maior concentração de missões de bombardeio sobre o território do Estado Islâmico. Ataques russos contra alvos do EI em e próximo de Raqqa foram noticiados já desde o início de outubro; em novembro, houve novos ataques contra posições do EI perto da cidade histórica de Palmyra, e na província de Idlib, fortaleza duramente disputada na fronteira turca.

Incursões russas no espaço aéreo turco começaram imediatamente depois que Putin autorizou os bombardeios, e a força aérea russa usou sistemas para misturar sinais e interferiu na operação do radar turco. A mensagem enviada à força aérea turca foi clara, diz o ex-conselheiro do estado-maior dos EUA: vamos voar quantas missões quisermos, onde quisermos e quando quisermos, e interferiremos no radar de vocês. Não se metam conosco. Putin mostrou aos turcos contra que forças lutavam." A ação russa levou a reclamações turcas e negativas russas, e a ações mais agressivas de patrulha na fronteira, pelos aviões turcos. Nada aconteceu de importante, até o dia 24 de novembro, quando dois jatos F-16 turcos, aparentemente obedecendo ordens mais agressivas, derrubaram um jato russo Su-24M que entrara em espaço aéreo turco por não mais de 17 segundos. Nos dias depois de o jato russo ser derrubado, Obama manifestou apoio a Erdoğan e, depois de os dois encontrarem-se privadamente dia 1º de dezembro, Obama disse numa conferência de imprensa que seu governo continuava "fortemente comprometido com a segurança e a soberania da Turquia." Disse que, enquanto a Rússia permanecesse aliada a Assad, "muitos alvos e recursos russos ainda serão alvo de grupos de oposição... que nós apoiamos... Assim sendo, não creio que devamos cultivar ilusões de que a Rússia comece a atirar exclusivamente contra alvos do EI. Não está acontecendo agora. Nunca aconteceu antes. Não acontecerá nas próximas várias semanas."

O conselheiro do Kremlin para o Oriente Médio, como os comandantes reunidos no estado-maior dos EUA e a Inteligência da Defesa, todos negam que haja coisa semelhante a "moderados" apoiados por Obama; para todos esses, só há grupos islamistas extremistas que lutam ao lado da Frente al-Nusra e do EI ("Não há necessidade desses jogos de palavras, e de separar terroristas em moderados e não moderados", disse Putin, em um discurso em 22 de outubro). Os generais americanos veem esses grupos como milícias exauridas que foram forçadas a acomodar-se ao lado da Frente al-Nusra ou do EI, para sobreviver. No final de 2014, Jürgen Todenhöfer, jornalista alemão que foi autorizado a visitar durante dez dias territórios ocupados pelo EI no Iraque e na Síria, disse à CNN que a liderança do EI "ri do Exército Sírio Livre. Não os levam a sério. Dizem: "os melhores vendedores de armas são eles, do ESL. Se encontram alguma arma boa, logo nos vendem.' Absolutamente não os levam a sério. Assad, sim, levam a sério, por causa das bombas. Mas o Exército Sírio Livre e nada, para eles, é a mesma coisa."

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As bombas de Putin provocaram inúmeros artigos anti-Rússia na mídia americana. Em 25 de outubro, o New York Times noticiou, citando funcionários do governo Obama, que submarinos russos e naves espiãs estariam em "agressiva" operação próximos de onde há cabos submarinos que transportam grande parte do tráfego da internet mundial – embora, como o artigo logo reconhecia, "ainda não houvesse" qualquer prova de que os russos tentavam interferir no tal tráfego. Dez dias antes, o Times publicou quadro sintéticos de intrusões russas nas suas ex-repúblicas satélites soviéticas, e referiu-se aos bombardeios russos na Síria como "em alguns sentidos uma volta aos ambiciosos movimentos militares do passado soviético". A matéria não explicava que o governo Assad solicitou a ação russa, nem falava dos bombardeios de aviões americanos dentro de território sírio, já em andamento desde setembro anterior, com autorização do governo sírio. Em outubro, em coluna assinada no mesmo jornal, Michael McFaul, embaixador de Obama na Rússia entre 2012 e 2014, declarava que a campanha aérea russa atirava contra qualquer coisa, "menos o Estado Islâmico". E a campanha anti-Rússia nesses veículos não diminuiu nem depois da tragédia do avião Metrojet – cujos duvidosos méritos foram reivindicados pelo Estado Islâmico. Poucos no governo dos EUA e na indústria da mídia questionaram-se sobre por que o Estado Islâmico atiraria contra avião civil russo, para matar 224 passageiros mais a tripulação, dado que a força aérea russa estaria atacando exclusivamente os "moderados".

Sanções econômicas, por sua vez, continuam vigentes contra a Rússia como castigo por atos que muitos americanos veem como crimes de guerra de Putin na Ucrânia, além de sanções do Tesouro dos EUA contra a Síria e contra americanos que tenham negócios lá. O New York Times, em matéria sobre as sanções do final de novembro requentou uma notícia nunca confirmada, dizendo que as ações do Tesouro "enfatizam um argumento que o governo tem usado cada vez mais frequentemente contra o Sr. Assad, quando pressiona a Rússia para que deixe de apoiá-lo: que por mais que diga que estaria em guerra contra terroristas islamistas, ele mantém relação simbiótica com o Estado Islâmico que ficou livre para crescer e prosperar durante o tempo que Assad manteve-se agarrado ao poder."

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Os quatro elementos núcleo da política de Obama para a Síria permanecem intactos até hoje: a obcecada insistência em que Assad tem de sair; que nenhuma coalizão anti-EI é possível com a Rússia; que a Turquia seria aliado confiável na guerra contra o terrorismo; e que existem forças moderadas de oposição para receberem o apoio dos EUA. Nem os ataques em Paris dia 13 de novembro, que mataram 130 pessoas, abalaram a posição da Casa Branca de Obama, embora muitos líderes europeus, entre os quais François Hollande, tenham advogado a favor de maior cooperação com os russos e aceitaram coordenar-se mais de perto com a força aérea russa; também houve conversas sobre a necessidade de flexibilizar a data para que Assad deixe o governo da Síria. Em 24 de novembro Hollande foi a Washington para discutir como França e EUA poderiam colaborar mais intimamente na luta contra o Estado Islâmico. Em uma conferência de imprensa conjunta, na Casa Branca, Obama disse que ele e Hollande concordavam que "os ataques russos contra a oposição moderada só fortalecem o regime de Assad, cuja brutalidade estimulou o crescimento" do EI. Hollande não foi tão longe, mas disse que o processo diplomático em Viena levaria "à saída de Bashar al-Assad [e a um] necessário governo de unidade". A conferência de imprensa nem tocou no assunto muito mais urgente para os dois governantes: o caso Erdoğan. Obama defendia o direito da Turquia de defender as próprias fronteiras; Hollande disse que "foi questão de urgência" para a Turquia agir contra os terroristas. O ex-conselheiro do estado-maior contou-me que um dos principais objetivos de Hollande naquela viagem a Washington foi tentar convencer Obama a acompanhar a União Europeia numa declaração conjunta de guerra contra o Estado Islâmico. Obama disse não. Claramente os europeus não procuraram a OTAN, da qual a Turquia é membro, para a tal declaração de guerra. "A Turquia é o problema", disse o ex-conselheiro do estado-maior dos EUA.

Assad, naturalmente não aceita que um grupo de governantes estrangeiros ponham-se a decidir o futuro dele. Imad Moustapha, hoje embaixador da Síria na China, era reitor da Faculdade de Tecnologia da Informação na Universidade de Damasco, e assessor muito íntimo de Assad, quando foi nomeado embaixador da Síria nos EUA em 2004, posto que ocupou durante sete anos. Moustapha ainda é homem muito próximo de Assad e é fonte confiável como fonte sobre o que pensa o presidente da Síria. Imad Moustapha disse-me pessoalmente que, para Assad, deixar a presidência da Síria significaria capitular ante "grupos terroristas armados" e ministros num governo de unidade nacional – como os europeus propunham – seria vistos como prepostos das potências externas que os nomeassem. As mesmas potências que logo fariam ver ao novo 'presidente' que "poderiam substituí-lo no poder, com a rapidez com que o puseram lá... Assad deve isso ao povo sírio: não pode deixar o poder, porque quem exige sua saída são inimigos históricos da Síria."

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Moustapha também falou da China, aliada de Assad e que teria aplicado mais de $30 bilhões na reconstrução da Síria pós-guerra. A China também está preocupada com o Estado Islâmico. "A China considera a crise síria a partir de três pontos de vista", disse ele. "Do ponto de vista da lei internacional e da legitimidade; do posicionamento estratégico global; e da perspectiva dos jihadistas uigures, da província de Xinjiang no extremo oeste do país. Xinjiang tem fronteiras com oito nações: Mongólia, Rússia, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão, Afeganistão, Paquistão e Índia – e, do ponto de vista da China, serve como um funil para o terrorismo em todo o mundo e dentro da China. Muitos combatentes uigures hoje na Síria são conhecidos membros do Movimento Islamista do leste do Turquistão – organização separatista quase sempre violenta que luta para estabelecer um estado uigur islamista em Xinjiang. "O fato de terem sido ajudados pela inteligência turca a mudarem-se da China para a Síria atravessando a Turquia causou muita tensão entre chineses e turcos da inteligência", disse Moustapha. "A China preocupa-se com a possibilidade de o que os turcos fizeram, ao apoiarem os combatentes uigures na Síria possa ser ampliado no futuro, para apoiar a agenda da Turquia em Xinjiang. Também estamos provendo o serviço chinês de inteligência com informação relativa àqueles terroristas e as rotas pelas quais viajaram para entrar na Síria."

As preocupações de Moustapha são preocupações também de um analista de questões de política exterior com base em Washington e que acompanhou de perto a passagem de jihadistas através da Turquia para a Síria. Esse analista, cujos pareceres muitos altos funcionários do governo buscam com frequência contou-me que "Erdoğan está trazendo uigures para a Síria em transporte especial, ao mesmo tempo em que seu governo têm feito propaganda a favor da luta deles na China. Terroristas muçulmanos uigures e de Burma, que escapam para a Tailândia, conseguem, não se sabe como, passaportes turcos, e são levados de avião até a Turquia, de onde passam para a Síria." O mesmo analista acrescenta que havia também o que, na prática, pode ser definido como uma outra "linha do rato", para a passagem de uigures – estimados entre algumas centenas e muitos milhares ao longo dos anos – que saem da China para o Cazaquistão, com eventual desvio para a Turquia, e depois para os territórios do Estado Islâmico dentro da Síria. "A inteligência dos EUA", disse esse especialista, "não está obtendo informação de boa qualidade sobre essas atividades, porque os agentes insiders nada satisfeitos com a política, não estão falando com os americanos". Disse também que "não está claro" se os funcionários responsáveis pela política para a Síria no Departamento de Estado e na Casa Branca "compreendem" tudo isso. Anthony Davis, do blog IHS-Jane's Defence Weekly estimava em outubro que prováveis 5 mil futuros combatentes uigures teriam chegado à Turquia desde 2013, dos quais prováveis dois mil passaram para a Síria. Moustapha disse que tem informações de que "até 860 combatentes uigures estão atualmente na Síria."

A crescente preocupação da China sobre o problema uigur e sua conexão com a Síria e o Estado Islâmico é também preocupação de Christina Lin, especialista que se dedicou a questões chinesas, quando, há cerca de dez anos, trabalhou no Pentágono, sob ordens de Donald Rumsfeld. "Cresci em Taiwan e cheguei ao Pentágono como crítica anti-China", contou-me Lin. "Demonizava os chineses como ideólogos, e sei que não são perfeitos. Mas, com os anos, vi os chineses abrindo-se e evoluindo, e comecei a mudar minha perspectiva. Vejo a China como parceira potencial para vários desafios globais, especialmente no Oriente Médio. Há muitos lugares – a Síria, por exemplo –, nos quais EUA e China podem cooperar na segurança regional e no contraterrorismo". Há poucas semanas, disse ela, China e Índia, inimigos da Guerra Fria, que "se odiavam uma a outra mais do que China e EUA odeiam-se hoje, fizeram importantes manobras conjuntas de exercício de contraterrorismo. E hoje China e Rússia querem cooperar na luta contra o terrorismo, com os EUA". Do modo como a China vê as coisas, Lin sugere, militantes uigures que chegaram à Síria estão sendo treinados pelo EI em táticas de sobrevivência, orientadas para ajudá-los quando voltarem como clandestinos ao território chinês, para futuros ataques terroristas. "Se Assad fracassar", Lin escreveu em artigo publicado em setembro, "combatentes jihadistas da Chechênia russa, da Xinjiang chinesa e da Caxemira indiana voltarão os olhos para o front doméstico, para continuar a jihad, apoiados por uma nova e bem suprida base operacional síria no coração do Oriente Médio".

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O general Dempsey e seus colegas no estado-maior dos EUA mantiveram sua dissidência distante dos canais burocráticos, e sobreviveram no cargo. Mas não o general Michael Flynn. "Flynn incorreu na ira da Casa Branca, insistindo em contar a verdade sobre a Síria", disse Patrick Lang, coronel do exército aposentado, que serviu por quase uma década como oficial comandante da inteligência civil da Agência de Inteligência da Defesa, no Oriente Médio. "Flynn entendia que a verdade era a melhor solução, e acabaram com ele. Flynn simplesmente não parou de falar". Flynn contou-me que seus problemas iam bem além da Síria. "Eu estava chacoalhando toda a Agência de Inteligência da Defesa – não estava só mudando de lugar as cadeiras do deck do Titanic. Foi reforma radical. Achei que o comando civil não queria ouvir a verdade. Sofri por isso, mas estou OK com tudo que fiz." Numa entrevista recente à revista Der Spiegel, Flynn foi muito claro sobre a entrada da Rússia na guerra síria: "Temos de trabalhar construtivamente com a Rússia. Gostemos ou não, a Rússia tomou a decisão de intervir e de agir militarmente. Estão lá, e a ação dos russos mudou dramaticamente a dinâmica. Não adianta dizer que a Rússia é malvada; que eles têm de sair de lá. Nunca acontecerá assim. Todos precisam cair na real."

Poucos, no Congresso dos EUA partilham esse ponto de vista. Mas uma exceção é Tulsi Gabbard, deputada Democrata pelo Havaí, nascida em Samoa, membro da Comissão das Forças Armadas da Câmara de Representantes, e major da Guarda Nacional do Exército, com dois períodos de serviço no Oriente Médio. Em entrevista à rede CNN em outubro, ela disse: "Os EUA e a CIA devem parar esta guerra ilegal e contraproducente para derrubar o governo sírio de Assad e devem manter o foco em lutar contra ... os grupos extremistas islâmicos."

"A senhora não se incomoda", perguntou o entrevistador, "que o regime de Assad seja brutal, que tenha assassinado 200 mil, talvez 300 mil de seu próprio povo?"

"As coisas que se dizem por aí sobre Assad", Gabbard respondeu, são exatamente as mesmas que diziam sobre Saddam Hussein as pessoas que pregavam que os EUA derrubassem aqueles regimes. Se acontecer aqui na Síria... acabaremos em uma situação de muito mais sofrimento, de muito mais feroz perseguição contra minorias religiosas e contra cristãos na Síria, e nosso inimigo estará muito mais forte".

"O que a senhora está dizendo", perguntou o entrevistador, "é que, com o envolvimento militar russo pelo ar, e dos iranianos por terra – eles estão fazendo um favor aos EUA?"

"Eles estão trabalhando para derrotar nosso inimigo comum", Gabbard respondeu.

Gabbard contou-me depois que muitos dos colegas dela no Congresso, Democratas e Republicanos, lhe agradeceram, privadamente, por ela ter falado. "Há muita gente, entre o público em geral, e também no Congresso, que precisa ouvir as coisas claramente explicadas de modo que entendam o que realmente se passa", disse Gabbard. "Mas é difícil quando há tal quantidade de mentiras e falsidades sobre o que acontece. A verdade não está incluída nas discussões." É raro que um político manifeste diretamente opinião tão absolutamente divergente da de seu partido em questões de política exterior, e em declarações para o grande público. Para o público interno, com acesso à inteligência mais altamente secreta, falar abertamente e criticamente é encurtar muito a própria carreira. Dissidência fundamentada pode ser encaminhada através de um jornalista e os de dentro, mas quase invariavelmente não inclui nomes e identificação. Mas, seja como for, a dissidência existe. Aquele ex-assessor do comando do estado-maior das forças militares conjuntas dos EUA não conseguiu esconder o desânimo quando lhe perguntei sobre sua opinião da política dos EUA para a Síria. "A solução para a Síria está bem aí diante do nosso nariz", disse ele. "Nossa principal ameaça é o Estado Islâmico e todos nós, EUA, Rússia e China – temos de trabalhar juntos. Bashar continuará na presidência e, mais tarde, quando o país estiver estabilizado, haverá eleições. Não há outra possibilidade."

A via indireta que ainda havia até Assad desapareceu quando Dempsey aposentou-se em setembro. Seu substituto no comando do estado-maior dos EUA, general Joseph Dunford, foi sabatinado na Comissão de Serviços Armados do Senado, em julho, dois meses antes de assumir o posto. "Se querem falar de nação que impõe ameaça existencial aos EUA, tenho de falar da Rússia", disse Dunford. "Se se examina o comportamento dos russos, é nada menos que alarmante." Em outubro, já como comandante do estado-maior, Dunford ridicularizou os esforços russos na Síria e disse àquela mesma comissão, que a Rússia "não está lutando contra o Estado Islâmico". Acrescentou que os EUA "têm de trabalhar com os parceiros turcos para proteger a fronteira norte da Síria" e "fazer tudo que pudermos para capacitar forças selecionadas da oposição síria" – i.e. os "moderados" – para que eles combatam os extremistas.

Implica dizer que Obama agora conta com Pentágono muito mais obediente. Não haverá contestação ou desafio indireto pelas lideranças militares à política obamista de desdenhar Assad e apoiar Erdoğan. Dempsey e seus associados continuam hipnotizados pela incansável defesa pública que Obama garante a Erdoğan, apesar do muito que a inteligência dos EUA teria a dizer sobre ele, mesmo que, no privado, acredite. "Nós sabemos o que você está fazendo com os radicais na Síria", disse Obama ao chefe da inteligência de Erdoğan, numa reunião tensa na Casa Branca (como relatei na LRB de 17/4/2014). O alto comando do estado-maior dos EUA e a Agência de Inteligência da Defesa nunca se cansaram de informar a liderança em Washington sobre a ameaça que são os jihadistas na Síria e sobre o apoio que a Turquia lhes dá. A mensagem nunca foi ouvida. Por quê?

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