6 de maio de 2015

Este é o momento

“O medo de sair do euro não pode continuar a nos paralisar.”

Stathis Kouvelakis

Jacobin

Créditos: Kostas Tsironis/ Bloomberg.

Tradução / A decisão do governo do Syriza de transferir todos os fundos disponíveis do setor público ao Banco da Grécia marca uma virada política. Esse movimento de alto risco expõe de modo mais claro a natureza da situação que se desenvolveu nos dois meses e meio desde o acordo de 20 de fevereiro.

À época, o argumento em favor do acordo era de que "comprava tempo" para as negociações chave do verão.

A alegação era a de que por um período de 4 meses o Banco Central Europeu iria parar com a tortura imposta à economia do país desde 5 de fevereiro, quando decidiu cessar o mecanismo mais importante de financiamento dos bancos gregos. Como já é amplamente reconhecido, o governo foi forçado a assinar aquele acordo desigual em função da fuga acelerada de dinheiro e da ameaça de um colapso.

Agora, com os cofres públicos esvaziando para prevenir um corte nos serviços de débito e obrigações estatais inescusáveis, é evidente que o único "tempo comprado" foi o que trabalha a favor das instituições europeias e que expõe a Grécia a uma chantagem intensa.

O clima de guerra na reunião do Eurogrupo em Riga, com o ministro das finanças grego Yanis Varoufakis sendo exposto ao pelourinho e ridicularizado por suas contrapartes (mesmo aquelas de países com o peso de Eslováquia e Eslovênia), mostra claramente o quanto de humilhação o governo tem tido que engolir nos últimos dois meses.

Atrás do erro

Em uma declaração notável em 23 de abril, Euclid Tsakalotos, o ministro responsável pelas relações econômicas internacionais, sucessor de Varoufakis como chefe do time de negociação grego, disse: “quando assinamos o acordo do 20 de fevereiro cometemos o erro de não assegurar que aquele acordo seria um sinal para o Banco Central Europeu iniciar a contagem regressiva para a liquidez".

Mas este "erro" não tem a ver com algum aspecto secundário, mas com o ponto central do acordo. Há uma razão específica para isso, e essa razão é de natureza política, não técnica.

O lado grego não levou em consideração o que era óbvio desde o princípio, ou seja, que o Banco Central Europeu e a União Européia não iriam ficar sentados mexendo os polegares enquanto encaram um governo da esquerda radical. A maior arma em seu arsenal é a liquidez e era inteiramente lógico e previsível que iriam usar esse recurso imediatamente. Naturalmente, os credores têm toda a razão para continuar “a apertar o nó” (como o primeiro-ministro Alexis Tsipras coloca) até que tenham forçado o lado grego em total capitulação.

Dizendo de outro modo, se com o acordo do 20 de fevereiro os credores tivessem concordado em “assegurar liquidez”, se tivessem desvinculado sua provisão dos planos específicos de austeridade que querem impor, teriam simplesmente privado a si mesmos de seu maior poder de pressão. Tsakalotos acreditava que eles cometeriam essa ingenuidade política, se não cegueira intencional, particularmente quando uma seção maior do seu próprio partido tem alertado desde o principio em relação à inevitabilidade desse desenvolvimento.

O “erro”, portanto, resulta de uma hipótese fundamentalmente equivocada, na qual toda a estratégia do governo tem se baseado desde o princípio: “iremos finalmente chegar a um acordo com os credores permitindo que o Syriza implemente seu programa enquanto permanece na zona do Euro”. Eis a lógica maldita do “europeísmo de esquerda.”

O que vem a seguir?

Mesmo a frase tendo sido pisada e repisada, é difícil encontrar uma melhor forma de descrever a presente situação do país do que dizendo que está por um fio.

Com o método e conteúdo da legislação sobre a transferência de fundos, o governo se encontra numa situação muito complicada não só financeiramente mas também politicamente. As pré-condições para os panelaços gregos já começam a se criar.

A única rota para escapar do memorando e do descarrilamento do projeto do governo está na ativação da mobilização popular, recapturando o clima combativo e esperançoso que prevaleceu anteriormente ao acordo do 20 de fevereiro.

Não é tarde demais. Agora é a hora precisa para uma conversa curta e grossa - a única capaz de reativar o povo precisamente porque os trata com o devido respeito, como adultos e agentes de seu próprio destino.

O que está em jogo na Grécia é a possibilidade de uma mudança radical e uma virada política na direção da emancipação não só de um povo e de sua classe trabalhadora, mas dos trabalhadores de toda Europa.

O medo da saída da Grécia da zona do euro não deveria mais nos paralisar. É hora de esclarecer que quaisquer fundos canalizados sob a nova legislação nos cofres públicos estão destinados para a cobertura das necessidades públicas e sociais - não para o pagamento dos credores.

Chegou a hora de findarmos a enrolação anestesiante das “negociações indo bem” e dos "acordos a caminho".

Chegou a hora de acabar com as sonhadas referências às "soluções mutuamente vantajosas" e aos "parceiros" com quem somos supostamente “proprietários conjuntos da União Europeia”.

Chegou a hora de revelar à opinião publica grega e internacional os dados que exporiam a implacável guerra travada contra o governo grego.

Sobretudo, finalmente chegou a hora de preparar-se política, técnica e culturalmente para a única solução honrada: despedir-se da intransigência neoliberal.

Chegou a hora de tornar concreto o conteúdo e explicar a viabilidade da proposta alternativa, começando com a iniciativa dupla de uma suspensão de pagamentos aos credores e a nacionalização dos bancos e progredir, se necessário, à escolha de uma moeda nacional, aprovada pelo público por meio de um referendo popular.

Chegou a hora de propostas sérias e resolutas. Desastre e redenção encontram-se lado a lado.

Chegou a hora de reagir.

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