3 de julho de 2015

O anarquismo poderia salvar o mundo

O socialismo de Estado falhou, por isso há o mercado. Precisamos redescobrir o pensador anarquista Peter Kropotkin

David Priestland

The Guardian

A peregrinação tarde da noite de Ed Miliband ao apartamento de Russell Brand, dias antes da eleição passada, foi interpretada por apoiadores como uma tentativa sagaz pelo voto dos jovens, e pelos críticos foi vista como uma tentativa embaraçosa de se aproveitar do carisma do Messias de Shoreditch [personagem de Brand]. No entanto, nenhuma dessas duas visões captura o significado real como um sinal da fraqueza profunda da democracia social convencional e seus esforços desesperados em cooptar as energias do elemento mais dinâmico da esquerda atual: o anarquismo. Com sua ânsia em ridicularizar as “divagações” de Brand, os comentadores ignoram a forte identificação dele com a tradição anarquista-esquerdista. Pois, entre os trabalhos que o comediante recomenda a seus seguidores está uma coleção de escritos por uma outra figura carismática que, por vezes, morou em Londres, o pai do comunismo anarquista: o príncipe Peter Kropotkin.

As comparações entre Kropotkin e Brand são exageradas. O histórico de Kropotkin como o descendente de uma das famílias aristocráticas russas mais antigas é bem distante das origens mais humildes de Brand. Kropotkin era um polímata com altíssima formação, enquanto Brand – embora inegavelmente inteligente – vem desempenhando um papel de comediante popular.

Todavia, assim como Brand, o exilado Kropotkin se tornou uma figura da moda em Londres, elogiado pela vanguarda artística e intelectual vitoriana tardia, desde William Morris até Ford Madox Ford. Numa estranha prefiguração do cortejar entre Miliband e Brand, Kropotkin até mesmo recebeu o primeiro líder do Partido Trabalhista inglês, Keir Hardie, em sua casa no Bromley. E da mesma forma como se fazem comparações satíricas entre Brand e o filho de Deus, também Oscar Wild descreveu Kropotkin como um “Cristo branco bonito”.

Não é surpresa que sábios e profetas anarquistas devem estar tão na moda, em épocas passadas e hoje. Na Europa, antes da Primeira Guerra, tais variações do socialismo que colocavam a sua fé na reforma social liderada pelo Estado – a democracia social e o marxismo-leninismo – ainda não haviam começado a eclipsar o competidor anarquista. Mas agora aquela era de otimismo estatista acabou, uma esquerda revigorada pela crise atual do capitalismo globalizado está em busca de alternativas mais adequadas à nossa era individualista.

Peter Alexeyevich Kropotkin, nascido em 1842, atingiu a maioridade em tempos difíceis. Humilhado pela derrota na Guerra da Crimeia em 1856, Alexandre II pôs-se a reformar a ordem aristocrática arcaica da Rússia, ao mesmo tempo preservando os seus fundamentos, e os Kropotkins eram grandes representantes do antigo sistema. Quando jovem, Kropotkin entrou para o exército na academia militar mais elitizada do país, e a sua distinção intelectual ainda garantiu que fosse escolhido para trabalhar como um pajem no tribunal do czar. Logo veio a desprezar as crueldades do antigo regime, identificando-se não com a nobreza, e sim com os campesinos que cuidaram quando criança.

Esta aliança de simpatia pelos pobres com o compromisso com a vida intelectual, especialmente nas ciências, passou a definir a carreira de Kropotkin – seja a serviço do Estado czarista, seja na busca da revolução anarquista. Mandado para a Sibéria pelos militares, buscou melhorar a vida dos condenados, além de liderar expedições geográficas pioneiras. Uma vez no exílio da Rússia (perseguido por sua atividade revolucionária), dedicou-se a reconciliar a sua profunda indignação moral para com a desigualdade social com o seu amor pelas ciências, desenvolvendo uma visão anarquista coesa – destacando-se dos antecessores anarquistas menos intelectualmente ambiciosos, Pierre-Joseph Proudhon e Mikhail Bakunin.

Pode-se encontrar a síntese de Kropotkin em dois dos textos mais importantes – e fáceis de ler – do anarquismo: “A conquista do pão” (1892) “Campos, Fábricas e Oficinas” (1899). Segundo ele, a sociedade poderia ser administrada de acordo com as diretrizes das comunidades campesinas que viu na Sibéria, com uma “organização fraternal semicomunística”, livre da dominação seja do Estado, seja do mercado. E isso, insistiu Kropotkin, não era mera nostalgia ou utopianismo, pois as novas tecnologias e a agricultura moderna tornariam altamente produtivo um tal desenvolvimento descentralizado. Mas Kropotkin tinha ciência também das necessidades do meio ambiente, preocupação nascida de seus interesses geográficos e científicos; ele é hoje grandemente considerado um dos teóricos pioneiros das políticas ambientais.

O pensador embasava o seu anarquismo na ciência evolutiva. O texto “Ajuda mútua” (1902) sustentava que as comunidades fundadas na igualdade radical e na democracia participativa eram viáveis porque a natureza humana era intrinsecamente colaborativa. Diferentemente de darwinistas sociais como Herbert Spencer, que defendia que todas as formas de vida se orientavam por uma “luta competitiva pela existência” entre os organismos, Kropotkin insistiu que um outro tipo de luta era mais importante: entre os organismos e o ambiente. E, nessa luta, a “ajuda mútua” era o meio mais eficaz de sobrevivência.

Entre as décadas de 1880 e 1920, o anarquismo comunista de Kropotkin competiu por influência com um marxismo mais estatista, e conquistou muitas conversões entre os intelectuais, camponeses e comunidades da classe trabalhadora, especialmente no sul da Europa e nos EUA, incluindo os Trabalhadores Industriais do Mundo (os Wobblies). Na Ásia também, o anarquismo infundiu o pensamento do início do Partido Comunista Chinês, e deu base às campanhas indianas de desobediência civil de Gandhi (embora que se aproximasse mais do anarquismo com tendências religiosas de Tostoi).

A luta própria dos anarquistas seria perdida, em parte porque o comprometimento deles com a participação democrática enfraqueceu a sua capacidade de manter estáveis organizações massivas e porque foram minados pela violência defendida por certos grupos internos (contra a vontade de Kropotkin), o que provocou uma repressão estatal implacável. No fim, o destino deles foi selado por uma mudança intelectual mais ampla, na medida em que ascendia o prestígio dos Estados na esteira da guerra total – especialmente nas décadas de 1950 e 1960, quando tanto o leste comunista quanto o ocidente capitalista apresentavam visões rivais da “modernização progressista” liderada pelo Estado.

Mas hoje os Estados já caíram novamente na estima popular, prejudicados pela crise das economias keynesianas e comunistas desde os anos 1970, e com a ascensão dos “valores dos anos 60”, que prezam a autoexpressão individual e a realização pessoal em detrimento da lealdade aos Estados-nação e outras instituições centralizadas.

Este individualismo é particularmente forte entre os jovens e pessoas com formação, da mesma forma como era entre os boêmios da Inglaterra vitoriana. Não é surpresa que o anarquismo se tornaria importante de novo na esquerda nos últimos anos – desde os “antiglobalisadores” do final da década de 1990 até o Movimento Occupy, de 2011. De fato, o principal teórico do Occupy, David Graeber, é um entusiasta kropotkiniano.

Em grande parte os desafios do anarquismo permanecem os mesmos da época de Kropotkin. Como um grupo que suspeita tanto das instituições estabelecidas pode construir um movimento eficiente de longo prazo? Como pode conquistar uma maioria viciada no crescimento infinito e em padrões de vida sempre mais elevados? E como pode o seu ideal de ordem social, fundada na democracia participativa local, controlar as concentrações enormes de poder nos Estados e nos mercados internacionais?

Mesmo assim, muita coisa mudou para o bem do anarquismo. Uma sociedade com um grau maior de formação está se tornando cada vez mais deferente e possivelmente menos materialista. Enquanto isso, os fracassos tanto do socialismo estatal em 1989 quanto do capitalismo global em 2008, e a incapacidade inconteste deles em lidar com a degradação ambiental, exige que questionemos, como nunca antes, a forma como vivemos. Kropotkin não é nenhum messias, porém os seus escritos nos forçam a imaginar uma política que pode simplesmente ajudar a salvar o mundo.

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