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21 de outubro de 2021

Ursula K. Le Guin (1929-2018)

As obras magistrais de Ursula Le Guin levaram os leitores a expandir sua visão do que é possível.

Nicole M. Aschoff


Ursula Le Guin fotografada em maio de 2009. Foto: Oregon State University / Flickr

Ursula K. Le Guin era amada. Seus romances, poemas, suas reflexões sobre seu gato Pard e suas exortações para que se fale a verdade na cara do poder a tornaram querida por milhões de pessoas. Escrever um tributo adequado a uma pessoa como essa é uma tarefa difícil, até porque, embora eu seja uma fã de longa data de Le Guin, não sou das mais obcecadas.

Forcei agressivamente meus amigos não iniciados a lerem A Mão Esquerda da Escuridão, mas não me lembro com qualquer nitidez dos meandros do Ciclo de Hain, e além de saber que Le Guin era uma Oregoniana com pais e hobbies interessantes, não me debrucei sobre os detalhes biográficos de sua vida.

Não obstante, me sinto compelida a me juntar ao coro de tristeza e lembrança. As histórias de Ursula Le Guin deram forma à minha imaginação sociológica de maneiras só rivalizadas pelas minhas primeiras incursões no campo da Economia Política. Na verdade, minha descoberta de Le Guin coincidiu com minha descoberta do marxismo; as duas formas de pensar pareciam perfeitamente complementares.

Minha crença na compatibilidade entre elas resultava em parte das críticas de Le Guin ao capitalismo e a todos os sistemas sociais enraizados em coerção e opressão. Ao longo de sua vida, ela não manteve em segredo suas visões políticas, fosse a oposição à Guerra do Vietnã e ao colonialismo ou seu corajoso discurso na premiação do National Book Awards em 2014, no qual condenou as corporações vorazes que passaram a dominar o mundo editorial, declarando: "Nós vivemos no capitalismo; seu poder nos parece inevitável. O mesmo se dava com o direito divino dos reis. Qualquer poder humano pode ser resistido e transformado pelos seres humanos."

Mas o apelo da visão de Le Guin para mim era mais profundo do que sua visão política - eu me apaixonei pelo seu método.

Le Guin era uma materialista. O vínculo que ela estabeleceu entre o capitalismo e os reis sugere esse materialismo - uma ênfase na História que Le Guin compartilhava com materialistas históricos convictos, como Ellen Meiksins Wood e E.P. Thompson.

Ellen Meiksins Wood - outra grande intelectual que partiu cedo demais - definia o materialismo histórico como uma forma de ver o mundo que:

[...] não permite nenhuma sequência pré-ordenada ou unilinear, e na qual [...] o capitalismo - ou qualquer outro modo de produção - é algo que precisa ser explicado, não pressuposto, e que busca explicações não em alguma lei natural trans-histórica, mas nas relações sociais, contradições e conflitos historicamente específicos.

Le Guin era mestre em enxergar e construir relações sociais. Ela era uma construtora de mundos.

Ela poderia esculpir um mundo em poucas páginas - Aqueles Que Abandonam Omelas - ou através de um conto épico - Os Despossuídos. Seus mundos eram, a meu ver, projetados com o olhar de uma materialista histórica; cada um deles capturava as relações sociais, contradições e conflitos que definem a sociedade. As batalhas pessoais de seus muitos protagonistas - Tenar, Selver, Ai - contra o racismo, sexismo, colonialismo e a tradição encapsularam a dinâmica da vida real entre estrutura e agência de uma maneira incomparável.

O interesse de Le Guin na colisão de biografia e história fomentou uma interrogação que atravessou toda a sua carreira sobre o desejo humano de dar forma à sociedade. Em Floresta é o Nome do Mundo, a sociedade é despedaçada por colonos brutais vindo da Terra; em A Mão Esquerda da Escuridão vemos as maquinações do "soft power" e da diplomacia; e em A Curva do Sonho e Os Despossuídos, Le Guin se engalfinha com a questão do desejo pela utopia.

Em um momento no qual a profunda crise e as contradições do capitalismo neoliberal têm despertado um retorno do impulso utópico (e distópico), o tratamento de Le Guin sobre o assunto é mais relevante do que nunca. Tanto A Curva do Sonho quanto Os Despossuídos (com o seu subtítulo adotado pelos fãs como "Uma Utopia Ambígua") são contos de advertência, destacando o conflito entre desejos utópicos, historicidade e estruturas sociais.

A Curva do Sonho apresenta as tentativas de um psiquiatra ambicioso de usar os "sonhos eficazes" do protagonista (que transformam a realidade) como atalhos para resolver os profundos problemas sociais de racismo, colapso ambiental, pobreza e guerra. Os resultados são horríveis: guerra nuclear, autocracia, ataque alienígena e pele cinza para todos. Os Despossuídos explora a vida em uma colônia anarco-sindicalista no planeta estéril Anarres; o romance solapa fantasias utópicas prescritivas com questões espinhosas sobre ambição, coletivismo e poder.

Ambas as histórias estão enraizadas em uma visão de mundo materialista, destacando como nossas interações com a natureza produzem as condições de vida. Não há um desdobramento ou ponto final; há uma visão e uma luta contínua por algo melhor - uma visão de mundo que ecoa a visão política de figuras da vida real como Ella Baker.

O objetivo do materialismo histórico sempre foi interpretar o mundo para poder transformá-lo. A romântica em mim acredita no poder da arte, segue talhando a noção de que mundos criados pela ficção especulativa carregam a possibilidade de mudar para melhor o mundo em que vivemos.

No mínimo do mínimo, histórias como as contadas por Le Guin destacam a indissociabilidade entre a cultura e o capitalismo. Há muito tempo, em um trem público para o norte de Nova Jérsei, vi um pôster de uma minissérie do canal Sci-Fi baseada nos livros do Ciclo de Terramar de Le Guin. Foi emocionante - até que percebi que o cara de cabelos loiros e olhos azuis no meio do pôster era para ser Ged.

Ged não deveria ser branco. Incomodava Le Guin o fato da literatura infantil e juvenil ser quase desprovida de protagonistas negros e pardos. (De acordo com Centro Cooperativo de Livros Infantis, nove em cada dez livros infantis publicados nos EUA em 2013 tinham um protagonista branco.) Ela queria expandir a noção de quem poderia ser um herói, então ela escreveu Ged como um garoto com "pele marrom avermelhada".

Os produtores da minissérie aparentemente estavam mais preocupados com o lucro do que com essas aspirações, então escalaram um ator branco. Le Guin ficou furiosa. Ela publicou um artigo desautorizando a série, dizendo aos leitores que o esquema de cores em seus livros era "consciente e deliberado" e que "Ged com um rosto branco [era] uma mentira, uma traição - uma traição do livro e do seu leitor em potencial."

Le Guin levava a sério seu papel como criadora de mundos e foi uma crítica veemente do fato de que a fantasia e a ficção científica estavam preocupadas principalmente com "as aventuras de pessoas brancas em mundos brancos". A ficção especulativa continua tendo de enfrentar o racismo e o sexismo, mas Le Guin, ao lado de grandes nomes como Octavia Butler, forçou o gênero a uma direção nova e mais radical.

A visão materialista de Le Guin e sua apaixonada interrogação da sociedade lhe permitiram criar verdadeiras obras-primas, elevando a ficção e, o mais importante para mim, a nossa visão do que é possível.

Ela fará muita falta.

Sobre o autor

Nicole faz parte do conselho editorial da Jacobin. Ela é autora dos livros "The New Prophets of Capital e The Smartphone Society: Technology, Power" e "Resistance in the New Gilded Age", prestes a ser publicado.

15 de junho de 2020

Smartphones mudaram a luta contra a violência policial

Antes dos smartphones, a violência policial era praticamente invisível - mas interações muito mais violentas nunca são capturadas em filme. O problema do policiamento racista não será resolvido com mais visibilidade.

Nicole M. Aschoff


Pessoas filmam com smartphones e filmadoras ação policial no Harlem (NY), 30 de maio de 2020. David Dee Delgado / Getty


Tradução / “Quantos não foram filmados ?!” Essas palavras apareceram em uma placa de papelão levada por um homem num recente protesto em Decatur (Geórgia, EUA), contra o assassinato de George Floyd pelo policial Derek Chauvin, em Minneapolis.

Essas palavras também apareceram em letras maiúsculas num banner carregado por manifestantes em Manchester (Inglaterra), rabiscadas a caneta na máscara de uma mulher em Nova York, e em cartazes em cidades de outros lugares.

A questão retrata a realidade complexa da brutalidade policial na era dos smartphones. Alude, por um lado, a como os smartphones passaram a ser usados como ferramenta para denunciar a polícia. Por outro lado, se refere às limitações dos celulares como ferramenta para lutar contra uma instituição gigantesca, militarizada e descentralizada, que tem uma história profundamente enraizada de violência contra pessoas pobres, particularmente as pessoas pobres de cor.


A pergunta também encoraja o olhar um pouco mais próximo para os notebooks, para enxergar os smartphones como mais do que apenas uma ferramenta. O pensador Gilles Deleuze argumentou uma vez que as máquinas “expressam as formas sociais capazes de produzi-las e usá-las”.

Os smartphones são máquinas incrivelmente expressivas. A maneira como são usados revela as relações sociais e as estruturas de poder que sustentam a sociedade moderna – incluindo suas divisões raciais.

Antes dos smartphones, a violência policial era praticamente invisível. O ataque mortal a Rodney King em Los Angeles, 1991, é uma exceção, em parte, porque a absolvição dos quatro policiais que o espancaram cruelmente provocou uma resposta violenta da população. Mas o ataque também se destaca porque foi filmado por uma pessoa com uma câmera de vídeo e enviado à estação de notícias, dando evidência visual relativamente rara da realidade do policiamento nos EUA.

Hoje, os smartphones são parte integrante das estratégias para controlar ação da polícia. Organizações de vigilância da polícia, que existem há décadas nas cidades do país, reconheceram imediatamente que os smartphones poderiam ser adaptados para documentar e reduzir potencialmente a opressão das pessoas de cor pelas forças da lei.

Quando, em 2016, Alton Sterling foi morto pela polícia. em Baton Rouge, Louisiana, por vender DVDs fora de uma loja de conveniência, o dono da loja, Abdullah Muflahi, filmou o assassinato, da mesma forma como a ONG “Stop the Killing” (Parem os Assassinatos, em tradução livre) cujos voluntários estavam monitorando o trabalho da polícia.

O advento da transmissão ao vivo, em particular, mudou o jogo, impedindo a polícia de criar uma narrativa falsa, confiscando celulares e apagando as imagens registradas pelos espectadores. A União Americana das Liberdades Civis (ACLU) e outros grupos criaram aplicativos para smartphones, como o Mobile Justice Michigan, aue facilitam a vigilância da ação da polícia e tornar mais fácil a transmissão das imagens.

As estratégias e sensibilidades digitais usadas pioneiramente por grupos de vigilância policial e organizações de direitos civis permearam movimentos progressistas na última década. Agora, manifestantes de todo tipo estão armados com celulares e mídias sociais.

Estratégias de enfrentamento digital

Walter Scott foi assassinado em 2015 em North Charleston, Carolina do Sul, pelo oficial Michael Slager. Scott, desarmado, foi baleado cinco vezes nas costas e nas pernas enquanto tentava fugir.

Em seu funeral, o pastor agradeceu a Deus por Feidin Santana, o homem cujo vídeo do assassinato, em seu celular, levou o assassino de Scott à justiça. “Mantenha seu celular à mão, mantenha sua carga”, implorou o pastor aos participantes do funeral.

Para muitas pessoas de cor, o sentimento de incerteza, de nunca saber quando a violência patrocinada pelo Estado pode ocorrer, está inscrito em seu relacionamento com o celular.

O impulso de Diamond Reynolds, depois de ver seu namorado, Philando Castile, ser baleado durante uma parada de trânsito de rotina em Minnesota em 2016, imediatamente pegou seu celular e transmitiu ao vivo a vida de Philando sendo extinta no banco do carro, ao lado dela. Ela queria que o mundo soubesse que “essa polícia não está aqui para nos proteger e servir. Eles estão aqui para nos assassinar. Eles estão aqui para nos matar porque somos negros.”

Tanya Marshall, mãe negra, professora e membro ativo de sua comunidade em Cambridge, Massachusetts, lida com a incerteza usando o celular como recurso constante para seus filhos. Sua regra é rígida – seus filhos devem manter seus celulares sempre à mão e carregados, para ligar imediatamente se tiverem um encontro com um policial, para que ela possa intervir e, esperançosamente, impedir uma violência.

A estratégia digital de Marshall para lidar com o medo persistente de que um policial prejudique seus filhos, ela a compartilha com outros pais negros.

Mas essa dinâmica está completamente ausente nas narrativas da mídia sobre celulares, que quase não se refere a esse uso dos celulares, especialmente aqueles quando usados por adolescentes.

São preocupações sérias. Mas o fato de que, na última década, os celulares passaram a ser vistos como elemento essencial em estratégias de enfrentamento por minorias oprimidas, bem como nos movimentos políticos mais amplos que lutam por justiça racial, sugerem a necessidade de uma compreensão mais sutil da tecnologia, que examinando as maneiras como os celulares refletem e reconfiguram divisões de longa data sobre raça, classe e gênero.

A polícia tem suas próprias câmeras

Uma análise mais aprofundada das normas para celulares também revela os mecanismos de opressão densos e em evolução usadas na violência policial contra cidadãos negros e pardos – mecanismos que podem diminuir o poder das estratégias digitais de defesa e denúncia.

No sentido mais básico, quem filma policiais tem um alvo nas costas. As histórias apimentam a teia de pessoas que foram intimidadas, perseguidas, espancadas, presas por filmar ações policiais contra civis.

Os policiais também aproveitam a conexão das pessoas com seus celulares para monitorar e assediar digitalmente. O Departamento de Polícia de Baltimore, por exemplo, usou uma plataforma de inteligência de mídia social para monitorar e prender manifestantes durante os distúrbios após a morte de Freddie Gray, em 2015. Era um jovem de Baltimore cuja medula espinhal havia sido cortada quase pela metade após uma “viagem difícil”, na traseira de uma van da polícia.

Ao mesmo tempo, as agências policiais responderam às táticas dos celulares adquirindo suas próprias câmeras. Seis em dez departamentos de polícia locais e quase a metade dos escritórios de xerifes nos EUA implantaram câmeras corporais, em seus uniformes, em 2016.

Isso foi inicialmente visto com entusiasmo pelos departamentos policiais e também por grupos de direitos civis. Acreditavam que as câmeras corporais dariam proteção e responsabilidade: os policiais pensavam que as câmeras os protegiam, enquanto grupos de direitos civis como a ACLU acreditavam que as câmeras reduziriam o uso da força e aumentariam a responsabilidade policial.

Da perspectiva dos grupos de direitos civis, os resultados foram decepcionantes. As pessoas comuns não têm opinião sobre como os policiais usam suas câmeras, que os policiais ligam e desligam livremente. Assim, não há imagens de câmeras corporais, por exemplo, quando a polícia de Louisville (Kentucky), usou, em 13 de março de 2020, um aríete para invadir o apartamento de Breonna Taylor, no meio da noite, e a matou a tiros, em sua cama.

Mesmo quando as câmeras corporais dos policiais são ativadas, há relativamente poucos casos em que as imagens levaram policiais a serem punidos ou presos por violência. Além disso, embora os promotores tenham se mostrado ansiosos para usar imagens de câmeras corporais como evidência nos tribunais, os defensores dos direitos civis acham difícil acessar essas imagens e usá-las como evidência contra eles – imagens que são filmadas sem consentimento, geralmente em espaços privados.

Perversamente, o poder dos celulares para criar um instantâneo visual vívido da agressão policial também teve o efeito de diminuir a importância de interações violentas que não são capturadas pelos celulares.

Num dia em 2017, Elena Mondragon, de 16 anos, estava andando com o namorado em Fremont, Califórnia (no Vale do Silício) quando policiais disfarçados, armados com rifles AR-15, dispararam em seu veículo, e a mataram. Poucos casos exemplificam melhor a má conduta policial grosseira e violenta, mas, como disse ao “Guardian” a advogada Melissa Nold, que representa a família. Segundo ela, o caso não teve força porque não havia um filme. “Quando não há vídeo, é uma batalha para nós. As pessoas tendem a acreditar no que é relatado pela polícia.”

Esses obstáculos e falhas reforçam o ponto óbvio, mas importante, de que celulares, câmeras corporais e outros dispositivos digitais são ferramentas, não soluções; não há correção tecnológica para o policiamento racista.

No entanto, as maneiras pelas quais as pessoas usaram seus dispositivos digitais na luta política pela justiça racial nos últimos dez anos são esclarecedoras.Suas estratégias revelam um terreno dinâmico de resistência, no qual os celulares são sendo usados para expandir a ação individual e amplificar um pedido de mudança que, cada vez mais, não pode mais ser ignorado.

Sobre o autor

Nicole Aschoff is on the editorial board at Jacobin. She is the author of The Smartphone Society: Technology, Power, and Resistance in the New Gilded Age and The New Prophets of Capital.

4 de abril de 2020

Os títulos pandêmicos são uma farsa que mantém o sul global refém

Os “títulos pandêmicos” do Banco Mundial demonstram como o capital global tem uma capacidade extraordinária de lucrar com problemas sociais. Até agora, os investidores ganharam cerca de US$ 96 milhões em juros, enquanto os países em desenvolvimento ainda não receberam um centavo.

Nicole M. Aschoff

Jacobin

Os cambojanos sentam-se ao longo do oceano assistindo o navio de cruzeiro MS Westerdam atracado em Sihanoukville, Camboja, em 17 de fevereiro de 2020. Paula Bronstein / Getty.

Tradução / O surto de Ebola de 2013-2014 devastou o oeste africano, matando aproximadamente 11 mil pessoas, em maior número na Guiné, Libéria e Serra Leoa. Se esses países tivessem acesso ao financiamento no início, argumentaram os especialistas, eles estariam melhor equipados para conter a crise, podendo salvar milhares de vidas.

Prometendo dar um salto em futuros surtos, o Banco Mundial lançou seus inéditos “títulos pandêmicos” em 2017 que poderiam ser usados para financiar e desenvolver nações no caso de uma nova pandemia. Este momento é agora. Mas o banco ainda precisa desembolsar o dinheiro.

“Investimentos sustentáveis” é a palavra do dia nos dias atuais. Os títulos pandêmicos são apenas um item de um menu crescente de produtos de investimento ambiental, social e de governança (ESG, sigla em inglês). Diante de mudanças climáticas catastróficas e da disparidade global crescendo vertiginosamente, os gestores de ativos e os bancos de investimento insistem que a melhor maneira de combater a pobreza, as doenças e a destruição ambiental, é colocar os mercados em funcionamento.

Os títulos pandêmicos, que arrecadaram US$ 320 milhões, pareciam um exemplo perfeito de incentivos econômicos fazendo sua mágica. Os investidores podem escolher entre duas classes de títulos, um para doenças como SARS (e COVID-19) e outro, um pouco mais arriscado (com pagamento mais alto) para doenças como o Ebola. Se esses títulos atingissem o vencimento (o que deve acontecer em julho), os investidores recuperariam seu dinheiro e, nesse meio tempo, ganhariam juros. Se uma pandemia fosse revelada antes dos títulos chegarem à maturidade, os investidores poderiam perder parte de seu investimento original, mas os países em desenvolvimento receberiam fundos necessários para combater o surto da doença. Vantajoso para as duas partes.

Bem, um grupo ganhou. Até agora, os investidores ganharam cerca de US$ 96 milhões em juros sobre os títulos pandêmicos. No entanto, conseguir dinheiro para combater realmente os surtos de doenças se mostrou difícil para os países em desenvolvimento, provavelmente devido às condições rigorosas (que aparentemente levaram 386 páginas para serem explicadas) que devem ser atendidas para que o pagamento ocorra.

No ano passado, por exemplo, o Ebola invadiu a República Democrática do Congo (RDC) e muitos esperavam que os títulos de pandemia fossem usados ​​para fornecer assistência financeira. Mas o Banco Mundial insistiu que o surto não atingia o limite para o pagamento, porque não haviam morrido um número suficiente de pessoas em outros países além da RDC. Os investidores conseguiram manter seu capital e continuar ganhando juros.

A crise do COVID-19 parece atender aos critérios macabros do Banco. Mas os países em desenvolvimento à beira da catástrofe ainda não viram um centavo do dinheiro dos títulos pandêmicos. Aparentemente, o coronavírus precisou se espalhar por doze semanas em vários países, incluindo países em desenvolvimento, antes que as partes pagassem seu valor direcionado ao Fundo de Financiamento para Emergências Pandêmicas do Banco Mundial. Os países elegíveis para financiamento do Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento e que atingiram um limite de mortes por coronavírus podem então solicitar o recebimento do dinheiro.

Doze semanas se passaram até final de março e a morte está pipocando em países ricos e pobres. Mais de 770.000 casos de coronavírus foram relatados em todo o mundo e, em alguns lugares, infecções e mortes dobram a cada poucos dias. No entanto, o Banco Mundial diz que os países elegíveis – até agora Afeganistão, Paquistão, Nigéria, Camboja, Senegal e Nepal – não saberão se conseguirão algum dinheiro até 9 de abril, no mínimo.

Isso é desprezível. Até países ricos não estão conseguindo conter o vírus mortal. Os países pobres que, durante séculos, viram sua riqueza e recursos roubados e saqueados por nações ricas, enfrentam uma onda de infecções e mortes sem suprimentos e instalações médicas adequadas. Milhões de pessoas nesses países comprometeram o sistema imunológico devido à desnutrição, vivem em habitações e comunidades que precárias que impossibilitam o distanciamento social e carecem das necessidades mais básicas de prevenção de doenças, como acesso a água e sabão para lavar as mãos.

No entanto, neste momento de crise, quando cada segundo conta, o capital global espera sentado de braços cruzados, mantendo reféns desesperadamente carentes, enquanto os investidores decidem se são obrigados a honrar o acordo.

Os títulos pandêmicos foram anunciados pelo Banco Mundial como uma ótima maneira de “combater os males sociais por meio do investimento privado”. Em vez disso, os títulos são mais um exemplo de quão oco é o chamado investimento em ESG. Eles demonstram como os investidores privados têm uma capacidade extraordinária de lucrar com os males sociais – e como, mesmo em épocas em que a solidariedade global é desesperadamente necessária, o capital global parece não olhar para além do resultado final.

Sobre a autora

Nicole M. Aschoff faz parte do conselho editorial da Jacobin. Ela é autora dos livros "The New Prophets of Capital e The Smartphone Society: Technology, Power" e "Resistance in the New Gilded Age", prestes a ser publicado.

17 de fevereiro de 2020

As empresas te matariam, literalmente, para obter mais lucro

A Coca-Cola matou sindicalistas na América Latina. A General Motors construiu veículos conhecidos por se auto incendiarem. As empresas de tabaco esconderam as pesquisas sobre o câncer. E a Boeing sabia que seus aviões eram perigosos. As empresas não se importam se matam pessoas – desde que seja lucrativo.

Nicole M. Aschoff


Um Boeing 737 MAX 9 em seu primeiro voo em 13 de abril de 2017. Wikipedia

Tradução / A roupa suja da Boeing foi ao ar este mês quando a empresa divulgou mais de cem páginas de e-mails e mensagens trocadas por funcionários da empresa a investigadores do Congresso. As revelações ofereceram um retrato sombrio da cultura corporativa dentro da Boeing – funcionários de alto escalão insultando os funcionários, discutindo maneiras de enganar as agências reguladoras da aviação, lamentando sua própria torpe moral.

A comunidade jurídica ficou chocada com os documentos, chamando-os de “surpreendentes e apavorantes” e “incrivelmente condenáveis”. O presidente do Comitê de Transportes e Infraestrutura da Câmara, Peter DeFazio, disse que os e-mails “mostram uma imagem profundamente perturbadora dos comprimentos que a Boeing aparentemente estava disposta a fazer para evitar o escrutínio dos reguladores, das tripulações de voo e do público”.

Em uma matéria para o Financial Times, Bjorn Fehrm, analista da consultoria de aviação Leeham, culpa o aparente “problema cultural” da Boeing em sua fusão há duas décadas com o escritório de defesa McDonnell Douglas, cujo CEO Harry Stonecipher priorizou os resultados da empresa acima de tudo. Cynthia Cole, ex-engenheira da Boeing, concorda. Em uma entrevista em outubro de 2019 à NPR, Cole diz que, após a compra em 1997, a segurança e a qualidade começaram a “ocupar um segundo lugar no cronograma e no custo”.

É um tanto intrigante que ainda haja quem se surpreenda ao saber que as empresas e seus executivos, deixados por conta própria, se envolvem em comportamentos inescrupulosos e, às vezes, mortais. A Coca Cola matou sindicalistas na América Latina. A General Motors construiu veículos conhecidos por pegar fogo em colisões. As empresas de tabaco ocultaram as propriedades causadoras de câncer de seus produtos por décadas. O catálogo dos crimes éticos e morais das empresas é impressionante.

Essas falhas éticas e morais da Boeing, Coca Cola, General Motors e muitas outras empresas são a norma, não a exceção.

É claro que pode ser que, no caso da Boeing, uma nova obsessão por lucros crescentes tenha interrompido as normas corporativas mais antigas, transformando a cultura da Boeing de tal forma que colocaria em risco a vida das pessoas se isso significasse um retorno trimestral. Certamente, é fácil encontrar exemplos de empresas cuja cultura corporativa mudou para pior depois que o conselho colocou um clone de Jack Welch no comando, ou uma empresa de “private equity” procurando ganhos extraordinários comprando até os donos originários da empresa.

Mas devemos ter cuidado ao ler a história da “Boeing que deu errado”. Seu apelo baseia-se em uma poderosa ficção: que o objetivo das empresas, impedindo a infecção de uma força maligna, é operar de acordo com os padrões morais das comunidades em que elas estão inseridas.

Essa suposição, como a elevação do lucro acima de tudo – uma característica definidora do capitalismo -, cria um desalinhamento permanente entre as motivações e os objetivos das empresas e os de seus acionistas.

Além disso, vemos evidências desse desalinhamento ao nosso redor. O desejo de acesso à internet de alta velocidade esbarra na relutância dos provedores de telecomunicações em investir em bairros de baixa renda ou áreas rurais. As empresas de energia suja trabalham com tenacidade para impedir que as comunidades desenvolvam alternativas viáveis de energia solar e eólica. As empresas farmacêuticas aumentam o preço dos medicamentos que podem salvar vidas.

Esse desalinhamento não apenas gera uma barreira entre as empresas e seus clientes. Também azeda a relação entre chefes e trabalhadores, e entre os próprios trabalhadores.

O caso da Boeing é um exemplo extremo de um fenômeno mais amplo. Todos os dias somos solicitados de forma implícita e explícita a ficarmos calados diante de improbidade contábil, violações de saúde e segurança, assédio e abuso de colegas de trabalho e roubo de salário. Os efeitos são corrosivos, destruindo a confiança e a solidariedade, e fortalecendo o poder que as empresas têm para buscar mais lucros com impunidade.

Diante de um declínio acentuado no poder do trabalho organizado e do desembaraço e desequilíbrio das agências reguladoras federais, as opções para os trabalhadores destacarem os abusos corporativos – sem arriscar seu emprego ou reputação – são extremamente limitadas. Na escolha entre saída e voz, a maioria das pessoas tenta encontrar um emprego diferente ou exteriorizam suas preocupações agarrando-se aos colegas de trabalho em vez de confrontar o chefe. Isso deixa práticas e pessoas podres no lugar, perpetuando abusos e más práticas.

No capitalismo, a divergência fundamental entre os valores das empresas e os valores das pessoas comuns é constantemente encoberta. Mas, às vezes, como no caso da Boeing e das centenas de vidas perdidas no último ano e meio, a desconexão é impossível de ignorar.

É nesses momentos que devemos enfatizar esse desalinhamento – gritar aos berros que, apesar do poder das empresas de moldar a existência de pessoas comuns, os valores das empresas não nos definem.

Amor, honestidade, bondade, dignidade e orgulho são os valores que motivam a maioria das pessoas. Em vez de permitir que o capital molde a sociedade de acordo com seus valores, devemos criar instituições que forçam as empresas a operar de acordo com nossos valores.

Sobre o autor

Nicole M. Aschoff faz parte do conselho editorial da Jacobin. Ela é autora dos livros "The New Prophets of Capital e The Smartphone Society: Technology, Power" e "Resistance in the New Gilded Age", prestes a ser publicado.

9 de fevereiro de 2020

Wall Street não pode consertar o meio ambiente

As recentes promessas de desinvestimento da BlackRock são medidas de interesse próprio, não passos significativos na luta contra o aquecimento global.

Nicole M. Aschoff


Larry Fink, CEO of BlackRock, speaks at the New York Times DealBook conference on November 1, 2018 in New York City. (Stephanie Keith / Getty Images)

Tradução / Larry Fink, presidente e CEO da BlackRock, recentemente enviou mais uma de suas famosas cartas. Construída em prévias promessas de valorizar todos os acionistas, a mensagem desse ano para os CEOs descreve o novo papel da BlackRock como uma responsável campeã do meio ambiente – ela promete tanto salvaguardar o dinheiro das pessoas e promover um “capitalismo sustentável e inclusivo”.

A maior empresa de gestão de ativos do mundo diz que ainda no começo desse ano vai desinvestir no carvão térmico e “fazer sustentabilidade integral às carteiras de construção e gestão de risco.” Fink insiste que no futuro a BlackRock “vai ser cada vez mais disposta a votar contra diretores e diretoria quando as empresas não estão fazendo suficiente progresso em divulgação relacionada à sustentabilidade e práticas de negócios e planos subjacentes a elas.”

Mas, em um exame mais de perto, os detalhes do plano da BlackRock são menos empolgantes. A promessa da empresa de afastar-se do carvão térmico se refere a suas carteiras gerenciadas ativamente. Aproximadamente três quartos das carteiras da empresa são gerenciadas passivamente, seus ativos automaticamente selecionados para seguir o mercado global. (O forte crescimento da BlackRock na década passada se deve quase inteiramente ao fluxo de investimento em seus fundos negociados em Bolsa e outros tipos de investimento passivo). A vasta maioria dos mais de $17 bilhões de dólares investidos em carvão está em carteiras investidas passivamente.

A carta de Fink também diz pouco à massiva presença da empresa em outros setores da indústria de combustíveis fósseis. A BlackRock é a maior acionista do mundo em petróleo e gás. Só no ano passado, ela completou um investimento de $4 bilhões de dólares (junto com a KKR) na Companhia Nacional de Petróleo de Abu Dhabi. A empresa também coloca dinheiro em indústrias associadas com desmatamento, como óleo de palma.

A estratégia primária da BlackRock para construir “sustentabilidade” parece ser uma medida: “Pelo fim de 2020, todas as carteiras ativas e estratégias consultivas vão ser totalmente integradas ESG (métricas de meio ambiente, sociais e de controle) – significando que, no nível das carteiras, nossos gerentes vão ser responsáveis por apropriado gerenciamento de exposição aos riscos ESG e documentar como essas considerações afetaram decisões de investimentos.”

Métricas de meio ambiente, sociais e de controle (ESG), enquanto não inteiramente sem valor, são profundamente falhas. Na próspera indústria caseira das métricas ESG há centenas de medidas, muitas das quais não são comparáveis umas com as outras. E essas medidas – que não são legalmente obrigatórias – geralmente contam com dados auto reportados das companhias. O “The Wall Street Journal” informa que “oito a cada dez dos maiores fundos sustentáveis dos EUA são investidos em empresas de petróleo e gás.”

Não obstante, alguns grupos de meio ambiente expressaram entusiasmo com a última carta de Fink.

Diana Best, estrategista sênior para o Sunrise Project, chamou o anúncio da BlackRock de um “fantástico começo” que “coincide com o tamanho da crise”. A gerente de campanha da ShareAction, Jeanne Martin, louvou a decisão da BlackRock de desinvestimento em carvão como “ainda outro golpe significativo no mercado que já está morrendo.” Ben Cushing, da Sierra Club, chamou as promessas de Fink de “um grande passo na direção certa e um testemunho do poder da pressão pública chamando por ações climáticas.”

Seu otimismo foi temperado por preocupações sobre como a BlackRock irá basear-se na sua decisão de parcialmente abandonar carvão térmico. Martin diz que permanecem perguntas sobre “qual é o objetivo da BlackRock, e como sua administração oferece o desempenho social, ambiental e financeiro que os seus clientes estão procurando.” Cushing, enquanto isso, argumenta que a BlackRock deve ir além: “É a hora de desligar o gasoduto do dinheiro para combustíveis fósseis para sempre. A BlackRock deve expandir em seus compromissos e outras instituições financeiras devem seguir o exemplo.” Caroline Lucas, uma integrante do Partido Verde do parlamento do Reino Unido pediu para a Black Rock “combinar a retórica com ações reais e rapidamente desinvestir em petróleo e gás, assim como carvão”, tanto nas suas carteiras gerenciadas ativamente e passivamente.

Obviamente, essas organizações sabem que a BlackRock continua uma grande investidora em energia suja. Mas suas declarações demonstram uma esperança de que a decisão de Fink sobre carvão térmico é um primeiro passo significativo em uma ampla reorganização para a empresa a longo prazo – e um sinal claro que a pressão de grupos ambientalistas está funcionando.

É uma lógica de organização que é comum em grupos ambientalistas hoje: empresas como a BlackRock são grandes e poderosas, com um vasto potencial para moldar a economia global, então mesmo se as mudanças que elas fazem são relativamente pequenas, o pensamento vai, a batida nos efeitos será bastante significativa. Portanto, grupos ambientalistas devem investir suas energias em campanhas de pressão corporativa.

Campanhas de desinvestimento têm substancial valor político, organizacional e educacional, e as decisões recentes da BlackRock são certamente um resultado, pelo menos em parte, de sentir o calor de grupos ambientalistas. Mas é importante ter os olhos claros sobre os limites da estratégia de pressão corporativa. É altamente duvidoso que os recentes movimentos da BlackRock vão adicionar algo significativo para o movimento ambientalista.

Ao invés, o desinvestimento parcial da BlackRock em carvão, sua recém-descoberta ênfase em métricas ESG e produtos de investimento verde, e suas promessas de valorizar todos os acionistas são uma tentativa de ter seu bolo e come-lo também. Experts crescentemente concordam que exposição térmica a carvão se tornou um passivo financeiro; não é apenas politicamente esclarecido para a BlackRock começar a despeja-lo, também é financeiramente inteligente. Ao mesmo tempo, fundos verdes se tornaram descontroladamente populares e altamente lucrativos, então empresas como a BlackRock estão felizes em fornece-los. Por trás das cenas, a BlackRock e o resto dessas firmas de Wall Street vão manter seus investimentos passivos, lucrando com energia suja enquanto for lucrativo.

O “propósito” da BlackRock é claro – fazer dinheiro. Pequenas mudanças direcionais para seu modelo de administração são destinadas a evitar censura política e atrair clientes amigáveis ao verde, não fundamentalmente alterar a natureza da empresa. Ela pode até “combinar retórica com ação real”, e desinvestir de combustíveis fósseis em algum ponto, mas apenas se é lucrativo faze-lo – não importa quão forte grupos ambientalistas pressionem.

Ao mesmo tempo, enquanto “desligando o gasoduto do dinheiro para combustíveis fósseis paras sempre” é importante, deixa um buraco que o mercado não vai preencher. As firmas de Wall Street estão interessadas em lucros rápidos e fáceis; elas não vão bancar infraestrutura verde de maneira significativa. Apenas os governos, empurrados por movimentos sociais democráticos de base ampla, podem prover os financiamentos de longo prazo e visão necessários para transformar nossa infraestrutura de energia – e forçar as empresas a fazer mais do que apenas oferecer promessas retóricas e reformas que interessam a elas mesmas.

Sobre o autor

Nicole Aschoff is on the editorial board at Jacobin. She is the author of The Smartphone Society: Technology, Power, and Resistance in the New Gilded Age and The New Prophets of Capital.

3 de fevereiro de 2020

O mundo não quer uma guerra fria digital

A falha de Donald Trump em conseguir apoio internacional para apoiar sua guerra contra a companhia chinesa Huawei mostra o enfraquecimento da hegemonia dos Estados Unidos. Coerção não vai ser suficiente para Washington seguir o seu caminho.

Nicole M. Aschoff


Attendees walk by the Huawei booth during CES 2020 at the Las Vegas Convention Center on January 8, 2020 in Las Vegas, Nevada. David Becker / Getty

Tradução / The United Kingdom joins a long list of countries that have ignored US orders to avoid using Huawei technology in building its 5G mobile phone network. Last week, British prime minister Boris Johnson announced that, after weighing the costs and benefits, Britain had decided to proceed with using Huawei equipment to supply a portion of its non-core network needs.

The United States is not pleased. Johnson’s embrace of Huawei is seen as a direct assault on the sanctity of the “Five Eyes” intelligence-sharing arrangement between the United States, UK, Canada, Australia, and New Zealand. Huawei, despite its insistence that it operates independently of the Chinese government, is seen as a front for the Chinese Communist Party (CCP) by many US officials. China hawks say allowing Huawei to supply 5G infrastructure could provide China a back door to sensitive data.

Over the past year, the Trump administration has implemented a number of measures that have effectively shut Huawei (along with other Chinese companies) out of the US market. Government agencies such as the Pentagon and NASA are forbidden from purchasing Huawei equipment, and the company has been placed on the Commerce Department’s “entity list,” essentially barring US firms from supplying it, or its affiliates, with products. Huawei’s chief financial officer, Meng Wanzhou (daughter of Huawei founder Ren Zhengfei), was also arrested in Canada on accusations of bank fraud. She remains under house arrest in Vancouver, British Columbia.

At the same time, secretary of state Mike Pompeo and commerce secretary Wilbur Ross went on a world tour, attempting to pressure elected officials to implement similar restrictions — and threatening to stop sharing intelligence information if they did not. The US officials insisted that their message centered on political rather than economic concerns. In Delhi, Ross declared that “anybody who thinks we are doing this for protectionism simply doesn’t know the facts. We hope that our geopolitical partner India does not inadvertently subject itself to untoward security risk.”

Supporting the cause, Steve Bannon produced a fifty-minute film, Claws of the Red Dragon, “inspired by true events ripped from the headlines of the Huawei affairs.” The film depicts a Huawei-like Chinese tech company (complete with spoiled daughter executive) that is acting as a “trojan horse” for the CCP. After a screening of the film, Bannon told the audience: “It’s ten times more important to shut down Huawei in the US than to do a trade deal.”

The pressure campaign hasn’t worked, however. So far, only Australia and Japan have followed US orders. Some countries, such as India, have yet to make a final decision but insist that they won’t be swayed by outside pressure. Others have agreed to grant partial access. Germany, for example, despite fierce debate within the ruling Christian Democratic Union and warnings from within its own intelligence community, has agreed to let Huawei invest in the country.

Many countries have embraced Huawei with open arms. Mexico, Chile, and Cuba have signaled their support. Russia is a firm yes. Thailand, Singapore, the Philippines, Malaysia, Indonesia, and soon Cambodia are all on Team Huawei. Despite the Trump administration’s efforts, forty countries signed contracts with Huawei last year, half of them in Europe.

The blatant disregard for White House wishes and threats, including by major US allies and trade partners, is significant and demonstrates the evolution of global capitalism over the past two decades. Three points stand out.

First, while production (including the production of digital technology) has become deeply integrated on a global scale, many sectors are dominated by a few key multinational firms. One of these is 5G network infrastructure. Huawei, Ericsson, and Nokia are the primary suppliers of 5G network technology for the globe. Developing 5G technology promises a thousandfold increase in data capacity — potentially a game-changing advance. But building out 5G networks is a costly endeavor even for wealthy countries, in many cases requiring a total overhaul of existing network infrastructure. Huawei is substantially cheaper (30 percent by some estimates) than Ericsson and Nokia and has allocated a great deal more money toward research and development than the Swedish and Finnish companies. So even if countries were politically inclined to follow the dictates of the United States, the economic costs of banning Huawei are steep.

The second point concerns the power of China as a global trade partner. Since 2000, China has leapfrogged the United States, becoming the dominant exporter to nearly every country in the world. On the flip side, its domestic market is a major source of purchasing power for countries that rely on exports, both in the Global North and South. At a time when most countries are struggling with low rates of growth and hitting the limits of monetary policy, elected officials are hesitant to jeopardize their relationship with China. Banning Huawei could trigger a retaliation with huge implications for employment and growth.

Finally, there’s the issue of hegemony. Over the past two decades, the United States has leaned more heavily on coercion than consent in superintending global capitalism. In the process, it has lost a great deal of legitimacy. In the Huawei saga, US moves to ban Huawei are interpreted more as an attempt to prevent China from getting ahead in the fields where the United States has long dominated than as a genuine concern over security. Indeed, as Wilbur Ross said himself during his trip to Mexico to convince President Andrés Manuel López Obrador not to engage with Huawei, “We don’t want very active participation of Chinese investment in Mexico, especially not in strategic projects.”

The prime minister of Malaysia, Mahathir bin Mohamad, paints the United States as a bully who threatens other countries that “if you are ahead I will ban you, I will send warships to your country.” Mahathir says, “That is not competition, that is threatening people.”

Moreover, on the issue of security, the United States is increasingly not seen as “the good guy.” The German economy minister, Peter Altmaier, articulated this sentiment last year when he implied a parity between the United States and China in terms of the security threat they posed, reminding the audience during a television talk show that the NSA (National Security Agency) had tapped Angela Merkel’s phone.

The United States is trying to foment a digital cold war to weaken China and shore up its supremacy. It doesn’t seem to be working.

Sobre o autor

Nicole M. Aschoff é autora de The New Prophets of Capital e The Smartphone Society: Technology, Power, and Resistance in the New Gilded Age (não traduzidos para o português).

12 de janeiro de 2020

O problema não é a globalização — é o capitalismo

A direita seqüestrou a visão de uma vida além da globalização neoliberal. É hora de um novo internacionalismo progressista, que coloque solidariedade e justiça acima dos lucros das empresas.

Nicole M. Aschoff

Jacobin

Steve Bannon, ex-presidente executivo do Breitbart News e ex-estrategista-chefe da Casa Branca no governo Trump. (Nordiske Mediedager / Flickr)

Tradução / No novo documentário de Errol Morris, American Dharma, ele pergunta a Steve Bannon — ex-presidente executivo do Breitbart News, idealizador da campanha vitoriosa presidencial de Donald Trump em 2016 e tema do filme — se ele poderia apontar um momento decisivo na cristalização de sua visão política do mundo. Refletindo sobre a pergunta, Bannon relembra uma visita à Academia Militar dos Estados Unidos em West Point, em algum momento da década de 2000, onde sua filha mais velha era cadete e participava do time de vôlei. Um dia, assistindo o treino da filha, Bannon conta que viu uma pilha de caixas com os novos uniformes da equipe. Ao puxar uma peça para fora da caixa, ele notou, horrorizado, que os uniformes tinham sido fabricados no Vietnã.

O fato de o uniforme do exército da sua filha ter sido fabricado no Vietnã — um país onde milhares de soldados norte-americanos haviam morrido — parecia ser mais do que Bannon podia suportar. Cheirava a “globalismo” — a explicação de Bannon para tudo de errado com o mundo hoje.

Para Bannon, o globalismo resume a visão de mundo de uma elite internacional — o “Partido de Davos” — que se perdeu no meio do caminho. No lugar dos princípios judaico-cristãos de piedade, parcimônia e orgulho nacional que supostamente guiaram o capitalismo ocidental, Bannon vê um mundo governado por uma seita de capitalistas obcecados por receitas trimestrais e preços de ações na bolsa de valores. O resultado, afirma Bannon, é uma classe trabalhadora alienada, pronta para explodir.

O colunista do New York Times, David Brooks, manifesta uma antipatia semelhante em relação aos globalistas “cujos corações a topofilia desvaneceu”. Como Bannon, ele clama por um espírito renovado de nacionalismo para combater o sentimento generalizado de desesperança e raiva nos Estados Unidos de hoje: “As pessoas começam a sentir que não há nada além de injustiça na sociedade estadunidense e que não há esperança de salvação. Elas sentem vontade de queimar tudo”.

Coincidentemente, o próprio documentário American Dharma termina com uma poderosa conflagração — a demonstração irônica de Morris sobre a ânsia de Bannon para atear fogo no establishment. Os impulsos de homens como Bannon são pesadelos para os centristas que desejam preservar em vez de desmantelar, e que lucraram bastante com o status quo do pós-Guerra Fria. Eles alertam sobre os perigos de abandonar o internacionalismo liberal ou, como é frequentemente chamado o conjunto de ideias que definem o consenso político ocidental desde os anos 90, a globalização.

Por décadas, os defensores da terceira via sustentaram a globalização como a evolução da humanidade para além dos erros grosseiros do keynesianismo. Com o livre comércio e o livre mercado, barcos seriam levantados [como no aforismo keynesiano “Uma maré alta levanta todos os barcos], o conhecimento e a tecnologia floresceriam, a pobreza e a corrupção seriam solucionadas através da inovação e os lucros transbordariam para toda população.

A esquerda foi rápida em desafiar a fantasia da globalização. Antes de o globalismo se tornar o epíteto do momento, já havia duas escolas críticas à globalização: os céticos da globalização e o movimento antiglobalização.

Os céticos da globalização, escrevendo nos anos 90 e no início dos anos 2000, questionaram a veracidade das alegações de que o Estado estava diminuindo, que a produção havia se tornado verdadeiramente integrada globalmente e que as culturas estavam se homogeneizando. Eles argumentavam que o Estado continuava sendo uma força dominante na formação do terreno do capitalismo global e que as empresas não eram tão livres e desimpedidas quanto professavam. Os céticos enfatizaram que a globalização era um projeto político, não uma força implacável da natureza e, como tal, poderia ser desafiada e moldada por movimentos sociais.

Nisso, os céticos se cruzavam com o movimento antiglobalização, composto por grupos que talvez fossem menos céticos em relação à realidade da globalização, mas consideravelmente mais vigorosos na rejeição de seus processos e efeitos. A última década do século XX testemunhou batalhas ferozes nas cidades do mundo todo, enquanto os ativistas tentavam desarticular o funcionamento do Consenso de Washington.

Mas os centristas mantiveram a vantagem. O 11 de setembro e a segunda Guerra ao Terror do governo Bush puxaram o tapete do crescente movimento antiglobalização. Nos Estados Unidos, muitos esquerdistas voltaram suas energias para o trabalho antiguerra e para a mobilização contra os esforços de criminalização antimuçulmana e anti-imigrante. A luta contra a globalização ficou em segundo plano.

Após a crise financeira de 2008, a noção do “global” voltou à imaginação popular. Mas a crítica ao projeto de globalização tornou-se mais moldada pela direita do que pela esquerda. A antiglobalização deu lugar ao antiglobalismo — uma visão de mundo voltada à uma política muito diferente.

Os movimentos antiglobalização enfatizavam justiça e equidade para todos. As organizações defendiam a soberania alimentar, os direitos dos trabalhadores e o fim das fábricas para imigrantes [fábricas clandestinas com condições de trabalho degradantes]. Eles se organizaram em torno dos direitos dos imigrantes e dos povos indígenas e exigiram que as empresas fossem responsabilizadas por seus abusos contra as pessoas e o meio ambiente.

O antiglobalismo, embora também denuncie o status quo da elite, está fundamentado em um nacionalismo agressivo que vê imigrantes, muçulmanos e progressistas como o problema. Em vez de destacar as contradições inerentes ao capitalismo global, os antiglobalistas querem construir um muro em torno dos Estados Unidos, imaginando que, se expulsarem ou reprimirem os “indesejáveis”, seriam capazes de reconstruir um paraíso capitalista judaico-cristão com cercas e empregos em fábricas locais. O espectro do globalismo gerou uma fantasia de direita ainda mais perigosa do que o projeto centrista de globalização.

Sem dúvida, os problemas identificados pelo movimento antiglobalização continuam. Na verdade, eles pioraram, agravados por uma profunda desconfiança popular das instituições em meio à inação e ineficácia de governos, corporações e grandes ONGs em questões de destruição ambiental, pobreza e desigualdade. Mas a visão de uma alternativa à globalização neoliberal está sendo moldada pelas ideias erradas — ideias enraizadas no ódio e na exclusão.

No entanto, o retorno à antiglobalização não é a resposta. Precisamos de uma visão global que vá além da negação e construa uma agenda de esquerda positiva — ligando movimentos sociais fortes e fundamentados a um programa internacional concreto de solidariedade e justiça.

Sobre o autor

Nicole M. Aschoff faz parte do conselho editorial da Jacobin. Ela é autora dos livros "The New Prophets of Capital e The Smartphone Society: Technology, Power" e "Resistance in the New Gilded Age", prestes a ser publicado..

5 de setembro de 2019

O brilhante Immanuel Wallerstein foi anticapitalista até o fim

O falecido intelectual Immanuel Wallerstein nos deixou uma mensagem importante: embora seja urgente a necessidade de elegermos líderes progressistas, as soluções para os males do capitalismo não serão encontradas em um único país.

Nicole M. Aschoff 


Immanuel Wallerstein fala com a imprensa no Ministério das Relações Exteriores do Equador, em 1º de agosto de 2011. Cancillería del Ecuador / Flickr

Tradução / Em 31 de agosto nos deixou, aos oitenta e oito anos, Immanuel Wallerstein - um sociólogo imensamente influente e um intelectual radical. Nunca conheci Wallerstein pessoalmente. Eu o assistia em conferências acadêmicas de tempos em tempos, sempre acompanhado por sua esposa, Beatrice, que fazia questão de sentar na primeira fileira em suas palestras. No entanto, Wallerstein foi uma influência gigante no meu desenvolvimento intelectual.

Wallerstein era o último sobrevivente do grupo carinhosamente apelidado de "Gangue dos Quatro" - um conjunto de intelectuais dedicados ao estudo (e à abolição) do capitalismo global, que também incluía Samir Amin, Andre Gunder Frank e meu orientador de doutorado, Giovanni Arrighi. Giovanni e Wallerstein passaram muitos anos juntos no Fernand Braudel Center - um instituto fundado por Wallerstein na Universidade de Binghamton, nos EUA. Ouvi muitas histórias, muitas vezes hilárias, sobre a unida comunidade de acadêmicos radicais que floresceu por lá.

Vou deixar que outras pessoas contem essas histórias. Para mim, Wallerstein deixa como legado uma maneira de pensar - uma abordagem que ele chamava de "análise de sistema-mundo" - que, em sua essência, permanece tão atraente hoje quanto quando comecei a ler o primeiro volume de O Sistema-Mundo Moderno.

A análise de sistemas-mundo se cristalizou no final de 1968. Ao redor de todo o mundo pessoas tomavam as ruas, lutando contra as agressões militares dos EUA e por uma renovação e reconfiguração dos princípios fundamentais da Revolução Russa. O levante mundial durou pouco, mas seu legado foi inesperadamente poderoso, principalmente no meio universitário.

No final dos anos sessenta, uma insatisfação generalizada com os modos de pensar dominantes se espalhou entre os intelectuais radicais. De fato, a análise de sistemas-mundo era apenas uma de várias estruturas de análise dissidentes (teoria da dependência, economia política internacional, sociologia histórica) que surgiram nessa época.

Para Wallerstein, a análise de sistemas-mundo era tanto uma empreitada intelectual quanto protesto político:

A análise de sistemas-mundo... não é uma teoria, mas um protesto contra questões negligenciadas e epistemologias enganosas. É um apelo à mudança social; de fato, é um apelo ao “des-pensar” das premissas da ciência social do século XIX. É uma tarefa intelectual que é e que precisa ser também uma tarefa política, porque a busca pelo verdadeiro e pelo bem é uma busca única.

O ano de 1968 foi fundamental, mas o apelo de Wallerstein por uma nova abordagem também estava enraizado em sua própria trajetória intelectual. Após um período no exército e um mestrado na Universidade de Columbia, Wallerstein foi para a África no início dos anos 50. Por vinte anos ele viajou pelo continente observando os movimentos de massa que lutavam pela descolonização.

Wallerstein vinha de uma família politicamente consciente e havia se envolvido com ativismo na cidade de Nova York, mas suas pesquisas em Gana e na Costa do Marfim mudaram a maneira como ele via o mundo. Ele creditou seus estudos africanos "por abrir meus olhos para as questões políticas candentes no mundo contemporâneo e para as questões acadêmicas sobre como analisar a história do sistema-mundo moderno. A África foi responsável por desafiar as partes mais estupidificantes da minha educação."

Esse despertar intelectual foi solidificado em um chamado pelo rompimento com as suposições que dominavam a academia desde o século XIX. Em particular, Wallerstein argumentava contra as fronteiras disciplinares e, por extensão, metodológicas e epistemológicas que definiam e dominavam as ciências sociais. Sua argumentação, que não foi calorosamente recebida na época, era que "as três arenas presumidas da ação humana coletiva - a arena econômica, a política e a social ou sociocultural, não são arenas autônomas da ação social. Eles não possuem 'lógicas' separadas".

Ao invés de modelos de pesquisa que isolavam vários "fatores", ou que se baseavam em comparações de Estados-nações conceituados como caixas de dados discretas seguindo trajetórias independentes, Wallerstein insistia que a economia mundial era um sistema único e interconectado, conectado por uma divisão de trabalho compartilhada e um conjunto único de restrições - o capitalismo.

Porém, ao caracterizar a economia mundial moderna como uma economia-mundo capitalista, Wallerstein não estava defendendo uma abordagem de cima para baixo, na qual um modelo fixo ou um conjunto de regras é usado para descrever e analisar a realidade. Em vez disso, ele insistia que o capitalismo era um sistema histórico, com começo e fim. Para compreendê-lo - e às suas normas e funções – precisávamos examinar sua evolução no tempo e no espaço.

Wallerstein instava os estudiosos a abandonar suposições retrógradas sobre os estágios históricos e a inevitabilidade do "progresso" e, em vez disso, a desafiar os paradigmas dominantes, desenvolvendo hipóteses e estruturas de análise sistêmicas que capturassem a complexidade do capitalismo como um sistema global e histórico.

Wallerstein foi um estudioso prolífico, propondo muitas de suas próprias hipóteses sobre a natureza do sistema-mundo capitalista em dezenas de livros e artigos. Não concordo com muitos desses argumentos - e o mesmo acontece com outros membros da "Gangue dos Quatro", acadêmicos de Binghamton e membros da seção sobre Política Econômica do Sistema Mundo da Associação Sociológica Americana.

Mas Wallerstein nunca insistia que todos deveriam concordar com ele, ele adorava o debate.

Em última análise, uma abordagem de sistemas-mundo não é sobre sustentar esta ou aquela hipótese sobre as estruturas e instituições do capitalismo global. Trata-se, isso sim, de reconhecer que estamos conectados através do tempo e do espaço – que não podemos compreender o que está acontecendo em um lugar do mundo sem situarmos esse lugar dentro de um quadro global, sem reconhecer a natureza global do capitalismo moderno.

A esse respeito, a análise de sistemas-mundo permanece tão relevante hoje quanto em qualquer outro momento. Ela nos fornece as ferramentas para compreendermos os sobressaltos e os engasgos de nossa economia financeirizada; da turbulência política que envolve Londres, Hong Kong e tantos outros lugares; da carapaça ideológica em ruínas do neoliberalismo.

Uma abordagem de sistemas-mundo também oferece uma lição útil: embora seja urgente a necessidade de elegermos líderes progressistas, as soluções para os males do capitalismo não serão encontradas em um único país.

O nacionalismo é uma rua sem saída. Em vez de fechar as fronteiras e colocar trabalhadores locais contra os trabalhadores de outros países, devemos exigir programas e plataformas que reconheçam nosso destino em comum. Reformas em nível nacional são essenciais, com certeza, mas conquistas duradouras contra as mudanças climáticas e as vorazes corporações multinacionais só podem ser alcançadas no nível do sistema como um todo.

O corolário de nosso destino compartilhado é a força de nossa luta compartilhada. O capital já tem sido global por centenas de anos, mas o mesmo se dá com a luta contra o capitalismo, mesmo que em um grau muito menor. Hoje, apesar dos desafios serem antigos, essa luta tem um novo potencial, recém-descoberto.

Wallerstein foi, ao longo de toda a vida, um participante nessa luta. Sua obra acadêmica, ousada e criativa, foi um protesto político contra o status quo intelectual. À medida que nos esforçarmos para criar algo melhor, vamos nos lembrar dele - e usaremos as ferramentas que ele nos deixou.

Colaborador

Nicole Aschoff faz parte do conselho editorial da Jacobin. Ela é autora de The Smartphone Society: Technology, Power, and Resistance in the New Gilded Age e The New Prophets of Capital.

19 de maio de 2019

A China não é o problema, o capitalismo é

Tom Friedman e Steve Bannon estão, como sempre, errados. As dificuldades nos Estados Unidos não podem ser atribuídas à "guerra econômica" da China à democracia. É culpa das corporações e elites americanas.

Nicole M. Aschoff

Jacobin


Tradução / C. S. Lewis disse que as pessoas se tornam amigas porque “vêem a mesma verdade”. Em um episódio recente da Squawk Box, da CNBC, Tom Friedman e Steve Bannon pareciam francos ao defender a recente decisão do presidente Trump de aumentar em 200 bilhões de dólares as as tarifas das importações da China. Talvez este seja o começo de uma linda amizade entre eles.

Friedman pode até mesmo ser convidado para a nova academia da direita instalada por Bannon em um antigo mosteiro italiano. Os dois podiam usar roupas combinando e ensinar num seminário sobre Como Trump Salvou a Civilização Ocidental. Os dois parecem pensar que o destino do mundo livre, ou pelo menos do "capitalismo democrático de livre mercado", está em jogo na guerra comercial EUA-China.

A história de Friedman/Bannon é mais ou menos assim: durante décadas a China violou as regras do comércio internacional, praticou subsídios ilegais, roubou propriedade intelectual, fez espionagem industrial, com transferências forçadas de tecnologia, praticou, trabalho escravo, etc. Mas por um longo tempo, ninguém realmente se importou porque a China lidava principalmente com brinquedos e camisetas.

Hoje, no entanto, Friedman e Bannon dizem que o campo do jogo mudou. As empresas chinesas competem frente a frente com as dos EUA em setores avançados e sua visão para o futuro - China 2025 - é na verdade um plano para dominar o mundo.

Para eles, o plano comercial de Bob Lighthizer vai além de equilibrar soja e televisões - trata-se de impedir que a China domine o campo da inteligência artificial, supercomputação e aeroespacial, e ganhe o controle militar do Mar do Sul da China. Trump, nos é dito, é o único com coragem para tomar uma posição contra a ascensão da China, o único político disposto a "peitar o jogo".

O diagnóstico de Friedman/Bannon inclui uma solução: nossa relação comercial “desalinhada” com a China pode ser consertada forçando-a a cumprir as regras já acordadas há vinte anos, quando se juntou à OMC. Os EUA podem usar a alavancagem do acesso contínuo aos mercados e capitais estadunidenses como incentivo e forçar o fim da espionagem industrial, transferência forçada de tecnologia e subsídios ilegais.

No momento, “o modelo de negócios da China é uma ameaça existencial para as democracias industriais”, diz Bannon. Mas forçar a China a cumprir as regras será um "ganha-ganha", especialmente para os trabalhadores dos EUA: com Trump eles "finalmente tem uma voz na sala que olha por eles e para seus filhos e netos”. Agricultores e trabalhadores industriais podem ter que suportar uma “dor de curto prazo”, mas entendem o que está em jogo.

Nós já ouvimos essa história antes. No final dos anos 1980 e início dos 1990, o Japão era a ameaça global ao capitalismo.

Romances como "Sol Nascente", de Michael Crichton, e "Dívida de Honra", de Tom Clancy, capturaram o sentimento de raiva nos EUA pelo “comércio injusto” e um profundo temor de que as empresas japonesas representassem uma ameaça “existencial” às manufaturas e ao domínio tecnológico dos EUA, particularmente no setor de alta tecnologia. Empresas dos EUA reclamaram que o capitalismo global estava contra elas, que sem um rebalanceamento entrariam em colapso.

Ao mesmo tempo, foi prometido aos trabalhadores, especialmente aos sindicalizados, que se ficassem do lado de seus patrões (e por extensão, de seu país) e estivessem dispostos a suportar uma dor de curto prazo - colocando os interesses nacionais acima dos interesses pessoais - todos se beneficiariam a longo prazo. Enfrentando ameaças constantes de fechamento de fábricas e declínio do poder de barganha, muitos trabalhadores optaram por se alinhar a seus patrões. Um adesivo popular dos anos 80 dizia: “Toyota, Datsun, Honda - Pearl Harbor!”

Sem dúvida, muitas empresas, especialmente em setores como o automobilístico, lutaram legitimamente durante esse período. Mas em retrospectiva, é claro que o "perigo amarelo" foi usado como uma cortina de fumaça para facilitar uma reorganização muito mais ampla em favor do capital. A retórica nacionalista e o pânico geopolítico permitiram que as empresas e as elites reescrevessem as regras do comércio global em benefício próprio, facilitando o caminho para a terceirização e o offshoring, a reestruturação, a financeirização e a redução dos custos trabalhistas.

A nova arquitetura do comércio global, cristalizada na fundação da OMC em 1995, foi extremamente lucrativa para as empresas e as elites dos EUA. E os trabalhadores que colocaram “o interesse nacional” acima dos seus tiveram cortes salariais e de benefícios, desemprego e deterioração permanente de seu padrão de vida.

Assim como o problema para os trabalhadores nos anos 80 não era o Japão, o problema agora não é o Partido Comunista Chinês. Desigualdade vertiginosa, ausência de caminhos para uma vida decente para pessoas comuns e a alienação e desconfiança generalizadas não podem ser atribuídas à “guerra econômica à democracia industrial” feita pela China. A guerra contra as famílias trabalhadoras está sendo travada pelas empresas e as elites dos EUA.

Com o projeto da Terceira Via deslegitimado e as eleições que ocorrem no mundo, jogam a carta da China, contando aos eleitores fábulas sobre como forçar a China a "seguir as regras" do capitalismo global; esta é a chave para a criação decente de meios de subsistência para os estadunidenses comuns. Chuck Schumer twittou: “Aguente firme a China, Presidente @realDonaldTrump. Não recue. A força é a única maneira de vencer a China. ”

Apesar da recém-descoberta camaradagem entre Friedman e Bannon, Trump e Schumer, os apelos de elite para fazer a China seguir as regras não são para tornar o capitalismo global justo ou para criar bons empregos nos Estados Unidos. Trata-se de ressuscitar a hegemonia política e militar dos EUA e ajudar suas empresas a capturar novos setores e mercados.

Uma alternativa é a chamada Green New Deal (New Deal Verde): uma política industrial verde - que desfaça o complexo industrial militar - atenderia às necessidades dos trabalhadores, tanto dentro quanto fora dos EUA, desenvolvendo modelos de produção e consumo ecologicamente sustentáveis.

A China não é o problema. O capitalismo é.

Sobre a autora

Nicole M. Aschoff faz parte do conselho editorial de Jacobin e é autora de "The New Prophets of Capital" ("Os novos profetas do capital").

4 de abril de 2019

Xadrez nas nuvens

The battle between the US and China over global hegemony has moved to the technological arena. But what we really need is a democratic digital commons.

Nicole M. Aschoff

Jacobin

Monitoring technology is seen at the exhibition hall at the Huawei Technologies Co. headquarters on March 29, 2019 in Shenzhen, China. Billy H.C. Kwok / Getty

Tradução / Os usuários do Grindr podem ficar tranquilos. O governo dos EUA tornou os usuários do aplicativo de encontros mais popular do mundo para pessoas gays, bi, trans e queer salvos de chantagens em potencial pelo Partido Comunista da China (PCC). No final do mês passado, o Comitê de Investimentos Estrangeiros nos Estados Unidos (CFIUS) exigiu que a Beijing Kunlun Tech, uma empresa global de jogos e tecnologia e atual proprietária da Grindr, vendesse a unidade de aplicativos móveis em uma liquidação.

Autoridades dos EUA citaram preocupações de que informações confidenciais coletadas pelo aplicativo – status de HIV, orientação sexual, idade – possam comprometer usuários do Grindr (alguns dos quais são oficiais do governo e militares ou tenham autorização de segurança civil), possivelmente tornando-os vulneráveis a “lançamentos frios” pelo governo chinês para espionar os Estados Unidos.

O caso Grindr é apenas uma das várias disputas geopolíticas recentes sobre a tecnologia digital. Os fundos de pensão da Califórnia e do Estado de Nova York estão enfrentando pressão do Comitê de Relações Exteriores do Senado para se desfazer da Hikvision, a maior empresa de vigilância do mundo. A firma, sediada em Hangzhou, está sob os holofotes sobre relatórios de que é uma fornecedora líder dos “centros de treinamento em educação vocacional” da China na região de Xinjiang, onde cerca de 1 milhão de uigures estão confinados.

Os fundos de mercados emergentes da Goldman Sachs, Fidelity, Fullerton Global e vários outros bancos de investimento já retiraram seu dinheiro da Hikvision, mas as autoridades americanas estão tendo menos sorte em sua campanha para deslegitimar outra potência chinesa: a Huawei. Maior fabricante mundial de equipamentos de telecomunicações por participação de mercado, a Huawei é uma importante fornecedora global de tecnologia 5G. Está também, argumentam os críticos, trabalhando de braços dados com o PCCh, fazendo com que qualquer governo ou país que use seus equipamentos seja vulnerável aos olhos curiosos da China.

No final de 2018, o governo canadense, após ser pressionado pelos Estados Unidos, prendeu Meng Wanzhou, diretor financeiro da Huawei, sob a acusação de violar as sanções americanas contra o Irã. Ela permanece em prisão domiciliar em sua mansão em Vancouver, aguardando extradição para os Estados Unidos. O governo Trump também ameaçou repercussões para os países europeus que buscam modernizar sua infra-estrutura de telecomunicações com a tecnologia Huawei, enquanto o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, um dos principais beneficiários do financiamento do governo, cortou recentemente laços com a Huawei. No entanto, a empresa sediada em Shenzhen ganhou um recorde de US $ 9 bilhões em lucros no ano passado e aumentou sua receita em todas as regiões do mundo.

Alguns observadores das recentes manobras do CFIUS os consideram instrumentalmente, como parte da guerra tarifária mais ampla entre as administrações Trump e Xi. Outros falcões mais clássicos, incluindo Robert Lighthizer, representante comercial dos EUA, argumentam que as autoridades americanas devem despertar para os perigos geopolíticos em um mundo onde os Estados Unidos não são mais o líder incomparável da esfera digital.

Independentemente das razões exatas por trás das recentes decisões do CFIUS, a crescente tensão geopolítica sobre a tecnologia é mais uma manifestação da reorganização caótica e incerta resultante da crise global do neoliberalismo. As batalhas pelo futuro digital refletem a luta das elites norte-americanas, atualmente liderada por Trump, para reescrever as regras do capitalismo global para adequar as prioridades políticas em casa, em meio ao desencanto generalizado com o status quo da Terceira Via.

No período pós Segunda Guerra Mundial, os formuladores de políticas americanos foram capazes de ajustar os acordos internacionais para favorecer as corporações norte-americanas e garantir a dominação geopolítica dos EUA em relação à Europa e ao Sul Global. Mas o caso da Huawei, em particular, demonstra a crescente incapacidade dos funcionários dos EUA de “colocar o gênio da expansão econômica chinesa de volta na garrafa da dominação dos EUA”.

Após décadas de discussão e dedicação, parece que o “século asiático” está chegando. Usando dados do PIB / PPP do Fundo Monetário Internacional, o Financial Times descobriu que as economias asiáticas (conforme definido pela UNCTAD) “serão maiores do que o resto do mundo combinado em 2020, pela primeira vez desde o século XIX”.

A China é hoje a maior economia do mundo (medida pela paridade do poder de compra), com 19% da produção global.

Isso não significa que os Estados Unidos estão desaparecendo ou que veremos um retorno ao século XVII, com a Europa como um ponto no mapa econômico global. Os EUA ainda se orgulham da maior economia do mundo medida pelo valor de troca do mercado, e a diferença de renda per capita entre a China, a Índia e o Ocidente continua bastante grande.

Mas o que está se solidificando é um novo e poderoso centro de poder em uma economia global profundamente integrada. A China tornou-se uma força motriz da expansão comercial e econômica, particularmente no emergente reino digital.

O resultado é que as conversas e preocupações sobre a tecnologia digital e o papel dos smartphones, aplicativos, dados pessoais, algoritmos, etc. foram recriados em um proverbial tabuleiro de xadrez geopolítico. Conversas e preocupações sobre o poder das empresas de tecnologia e governos para moldar o cenário digital emergente são reconfiguradas como peças em uma disputa global de segurança nacional e hegemonia econômica e militar.

Essa tendência é mais forte nos Estados Unidos, cujo poder depende em grande parte de suas forças armadas – sua extensa rede de bases militares e, cada vez mais, sua capacidade de realizar “vigilância em massa onipresente” em escala global. Ao reescrever questões sobre o futuro da tecnologia digital como questões de segurança nacional, o governo dos EUA ganha ainda mais poder para controlar a direção do reino digital.

Assim, enquanto nos sentimos mais seguros na noção de que as forças de inteligência dos EUA estão protegendo os usuários do Grindr da possível espionagem por estrangeiros, a reformulação de questões tecnológicas como questões de segurança nacional pode ser profundamente incapacitante na luta por uma verdadeiro comunidade digital.

Tanto a China quanto os Estados Unidos estão construindo estados de vigilância em uma escala sem precedentes, com implicações terríveis. Ambos fortalecem os monopólios modernos, cujas plataformas, hardware, software e aplicativos são a infra-estrutura da vida política, econômica e social moderna – infraestrutura que não está sujeita ao controle democrático.

Na luta pela hegemonia global – uma luta em que o controle sobre o mundo digital será central – espera-se que as pessoas comuns assistam do lado de fora, abandonando o poder sobre a estratégia e a direção para os funcionários do governo e titãs da tecnologia.

Mas uma visão progressista é impossível sem controle democrático sobre a esfera digital. É hora de entrar no jogo.

Sobre o autor

Nicole M. Aschoff is on the editorial board at Jacobin and the author of The New Prophets of Capital.

5 de maio de 2016

Por que as elites odeiam Trump

Batalhas sobre a candidatura de Trump revelam as tensões subjacentes ao projeto capitalista global liderado pelos Estados Unidos.

Nicole M. Aschoff


Donald Trump em Las Vegas, Nevada em fevereiro de 2016. Gage Skidmore / Flickr

Tradução / Cruz e Kasich estão fora. O Donald está dentro. A brigada #NeverTrump, estratégia de dividir e conquistar hesitante do Partido Republicano, e os próprios erros retóricos aparentemente intermináveis ​​de Trump simplesmente não foram o suficiente para impedi-lo.

Até agora, apenas as garantias calmas de especialistas de que Trump não pode ganhar em novembro parecem estar protelando um colapso.

Comentaristas ocupam-se sem parar com detonar uma a uma as razões para algum inimaginável sucesso de Trump. Mas, além do perturbador apetite que os eleitores republicanos manifestam pelo impulso racista, xenófobo, misógino de Trump, estão em ação aí também outros fenômenos.

Nate Cohn, do New York Times lista o grande número de candidatos Republicanos (17); o comportamento estranho de Republicanos nos estados tradicionalmente azuis; a cobertura ininterrupta da mídia; e o fracasso da elite do establishment Republicano, que absolutamente não conseguiu agir como partido organizado e não se uniu contra Trump.

Christopher R. Barron nota, com sensibilidade, que dados de pesquisa das primárias mostram que os Republicanos estão irritados com a prática, que já se converteu em tradição, de o partido deles sempre acabar por trair os valores conservadores.

E Thomas Frank fez belo trabalho, ao fazer ver aos liberais enrustidos que Trump realmente fala de coisas que realmente dizem respeito aos trabalhadores norte-americanos, como os tratados de livre comércio que destroem empregos nos EUA; e o medo – que já tem raízes fundas –, de que a boa-vida (pelo menos, a boa-vida dos trabalhadores brancos) já é passado remoto nos EUA.

Mas uma pergunta diferente vale a pena ser feita: por que a elite americana está tão aterrorizada com uma presidência Trump?

Todas as pesquisas põem os milionários firmemente plantados no Campo Hillary. E como Corey Robin discutiu ontem (e Doug Henwood documentou), os Republicanos estão tão furiosos com Trump que já estão pulando do navio ou, pelo menos, já ameaçam pular.

Alguns, como o ex-governador de New Jersey Christie Whitman, dizem que votarão em Clinton; outros, como o governador de Massachusetts Charlie Baker, declararam quarentena contra as duas casas. Charles Koch manifestou profundo incômodo contra a candidatura de Trump, a qual, para ele "destruirá a sociedade livre".

Mas será que as ideias de Trump – uma muralha estratosférica ao longo da fronteira EUA-México, seus planos para cadastrar todos os muçulmanos, a propensão a desmoralizar e ofender as mulheres – seriam realmente excessivas, para a sensibilidade republicana?

Possivelmente. Mas o muro na fronteira - na realidade e na ideia - não é nova; remonta pelo menos a Nixon, e foi expandida enormemente após o NAFTA. Imigrantes e estudantes muçulmanos (incluindo os não-muçulmanos vindos de países predominantemente muçulmanos como Bangladesh) já foram forçados a se registrar com Homeland Security após o 9/11. E enquanto a franqueza de Trump pode constranger a multidão jet-set, muitos de seus pontos de vista são amplamente compartilhados por outros da elite norte-americana.

O que se vê contudo é que tampouco os embaraços conseguem explicar o desdém que Trump recebe do establishment. A chave de todo esse incontrolável Terror de Trump pode estar em outros dos itens da campanha eleitoral do candidato.

Como Thomas Frank apontou há meses, Trump e Bernie Sanders são os únicos dois candidatos a falar seriamente e regularmente sobre acordos de livre comércio e a perda de postos de trabalho associada a eles.

Trump chama o acordo NAFTA de "o pior tratado comercial de todos os tempos" e prometeu "consequências graves" contra empresas que mudem suas fábricas para outros países, mas continuem aproveitando as vantagens do mercado norte-americano.

E advoga confronto direto com a China, a ser "imediatamente declarada manipuladora de moedas"; e quer "reforçar a presença militar dos EUA nos mares do Sul e do Leste da China, para desencorajar o aventureirismo chinês".

Há mais. Em recente "discurso sobre a política exterior", Trump expôs um papel muito diferente para os EUA no cenário global. Condenou os desaforos que os EUA têm recebido no exterior – em visitas a Cuba e à Arábia Saudita, Obama não foi recebido na saída do avião pelos líderes principais; os EUA perderam a disputa para ser sede dos Jogos Olímpicos, apesar de Obama ter ido pessoalmente a Copenhagen; e a "lista de humilhações continua e continua".

Tem mais. Em seu recente "discurso sobre política externa" Trump expôs um papel muito diferente para os Estados Unidos no cenário mundial. Ele condenou os desaforos que ele diz que os EUA tem experimentado no exterior - em visitas a Cuba e Arábia Saudita Obama não foi recebido na chegada por líderes dos países; a candidatura olímpica dos Estados Unidos falhou apesar de uma visita pessoal de Obama a Copenhague; e a "lista de humilhação continua e continua."

Segundo Trump, tudo começou a cair ladeira abaixo depois que o país venceu a Guerra Fria. Para fazer que os EUA voltem à grandeza de antes, é preciso focar nos próprios EUA – e usar todos os meios necessários para garantir-lhe poder e honra.

De acordo com Trump, tudo foi por água abaixo depois que ganhamos a Guerra Fria. Para tornar a América grande outra vez temos de nos concentrar no número um - América - e usar todos os meios necessários para assegurar o nosso poder e orgulho.

Claro, Trump não é o único candidato a optar pela via de desqualificar a China ou lamentar a atual situação geopolítica. Mas quando quem o faz é gente como Hillary Clinton ou Marco Rubio, são só piscadelas, acenos. Eles são iniciados. Eles são previsíveis. A elite do poder sabe onde suas lealdades se encontram.

Também se sabe, mais ou menos, onde estão as alianças de Trump. Quer preservar o seu dinheiro e fazê-lo render (um de seus planos é o de reduzir a taxa de imposto sobre as corporações.) Mas ele é um outsider – um outsider bilionário, mas um outsider, no entanto.

É imprevisível e parece não se preocupar com queimar pontes. Quando fala de romper acordos comerciais e de despachar aliados na OTAN, deixa o establishment nervoso.

Todos ali levam a sério essas ameaças, porque Trump é atirador solitário – e atirador solitário que já teria sido varrido do mapa se as coisas tivessem andando como andam normalmente.

As elites se consolam com o fato de que Trump não conseguirá fazer tudo que ostensivamente quer fazer. Mas mesmo assim se sobrassaltam, porque Trump terá muito mais poder como presidente do que ensinam os livros de Educação Moral e Cívica para a quinta série nos EUA.

Acadêmicos como Nitsan Chorev e outros já mostraram que decisões de política internacional e de política econômica nacional foram aos poucos, nos últimos setenta anos, transferidas do Congresso para o Executivo.

E por mais que Trump esteja certo na avaliação de que a política exterior dos EUA é "completo e total desastre", o papel de Washington é muito maior do que suas ações de construção da nação e diplomacia.

O híbrido Tesouro dos EUA-Federal Reserve tem a função de superintendente da economia global – e desde o final da II Guerra Mundial. Faz a gestão (com a ajuda das elites globais) de uma estrutura internacional de comércio, regulação e lucratividade que subjaz a toda a economia global. O capitalismo global carece de um estado para assegurar as estruturas e fazer valer as leis e regras que tornam possível a acumulação capitalista. O híbrido Tesouro dos EUA-Federal Reserve fazem esse papel.

Onde Trump vê fracasso na trajetória do pós-Guerra Fria, o capital norte-americanos e respectivos políticos eleitos – pelo menos até recentemente – veem sucesso. Veem um projeto neoliberal vitorioso que restabeleceu o poder do big business à custa da classe trabalhadora, tanto nos EUA como em outros países, e construiu novas estruturas de integração global, e construir novas estruturas de integração global, subjugando mais e mais países às prerrogativas do capital.

E veem essas estruturas se solidificarem e aprofundarem-se no futuro, com projetos como a Parceria Trans-Pacífico e a Parceria Trans-Atlântico para Comércio e Investimento.

Por isso a irreverência e os ataques de Trump contra elementos centrais desse projeto é tão insuportável para eles. A atitude de Trump põe em risco todas as estruturas e práticas e normas que sustentam os negócios de sempre para o capital global.

Mas, por mais que seja alarmante para as elites, o tom bombástico de Trump contra o livre-comércio não é surpresa. Não é de hoje que cresce o ceticismo quanto ao papel dos EUA na gestão de toda a economia global.

O capitalismo global torna-se mais volátil a cada instante; como Sam Gindin e Leo Panitch dizem, ultimamente o principal serviço do Fed-Tesouro parece ser fazer o serviço de limpeza. Houve 72 crises financeiras em países de baixa e média renda, só na década de 1990.

Os EUA ajudaram a gerir todas elas, seja mediante empréstimos-ponte silenciosos, pela porta dos fundos, ou à luz do sol, mediante o Fundo Monetário Internacional, FMI. E a crise financeira de 2008 alcançou o ápice: custou trilhões, até amainar. Mas até aí, o custo dessa contenção é meramente pecuniário.

Mas o custo de contenção não é meramente pecuniário. A candidatura Trump destaca a tensão palpável entre a responsabilidade do Estado dos EUA para com a sua própria população soberana e suas funções em supervisionar a economia global.

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