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29 de abril de 2018

Cuba em 1968

1968 foi um ponto de virada decisivo na Revolução Cubana.

Samuel Farber

Jacobin

Uma passeata em memória das vítimas da explosão do La Coubre em Havana, Cuba, em 5 de março de 1960. Wikimedia

Tradução / Em 1960, menos de dois anos depois de ter derrubado a ditadura de Batista, a Revolução Cubana avançava com a implementação do modelo soviético. A maioria das pessoas ainda apoiava a revolução. Apesar da escassez de bens de consumo e a crise de moradia, a maioria dos cubanos se havia beneficiado do novo estado de bem-estar, que assegurava um nível de vida austero, porém seguro.

Graças a esse apoio e à entusiasta resposta popular em forma de resistência ao imperialismo estadunidense, os dirigentes cubanos prosseguiram em seus objetivos de política exterior, com um espírito revolucionário ausente até mesmo no bloco soviético, mais cauteloso e conservador.

Cuba avançou com uma política anti imperialista particularmente vigorosa na América Latina, apoiando – e às vezes até organizando – grupos guerrilheiros, com o objetivo de derrubar governos ditatoriais. O governo de Fidel Castro prestou uma atenção especial aos países que haviam cortado relações com Cuba, obedecendo as diretrizes de Washington. Ou seja, a política exterior militante de Castro se baseava não só em suas ideias revolucionárias, como também nos interesses do Estado cubano.

Isso ajuda a explicar por que Castro manteve relações amistosas com um México corrupto e autoritário, já que foi o único país da América Latina que se negou a romper as relações diplomáticas com a Cuba revolucionária. Aliás, o governo de Castro se absteve de criticar os crimes do México, incluindo a matança de Tlatelolco, de outubro de 1968.

O Granma, órgão oficial do Partido Comunista de Cuba, adotou uma postura jornalística puramente “objetiva” na cobertura de Tlatelolco, o que permitiu evitar qualquer análise crítica dos fatores políticos por trás da matança. Enquanto a esquerda mexicana denunciava o assassinato de centenas de manifestantes, o Granma informou, com estilo acrítico, as cifras “provisórias” proporcionadas pelas “fontes oficiais”: somente 30 falecidos, 53 feridos graves e 1,5 mil detidos.

Razões de Estado também explicam porque, depois de um começo difícil, Fidel estabeleceu relações amistosas com a ditadura de Franco, e porque a hierarquia revolucionária cubana, seus sindicatos oficiais e organizações de estudantes, não apoiaram o movimento de Maio de 68 francês. Não só o presidente francês Charles De Gaulle se negou a seguir a linha dos Estados Unidos contra Cuba como também manteve o comércio, que era de vital importância para a ilha após o embargo estadunidense. Como no caso de Tlatelolco, no México, o Granma se limitou a informar “objetivamente” os acontecimentos de Maio de 68. Simplesmente, evitou fazer análises ou conclusões políticas.

Apesar destas contradições, a política exterior inicial dos Castro foi regida por um conjunto de ideias revolucionárias cujo objetivo era estabelecer sistemas similares ao de Cuba em toda a América Latina. Seu governo apoiava e organizava grupos de foco que seguiam o modelo cubano, o que provocou ásperos conflitos com os partidos comunistas gradualistas e pró-Moscou em países como Venezuela e Bolívia. Também teve fricções com a própria União Soviética, porque estas políticas de Castro colocavam em perigo o velho acordo entre os soviéticos e os Estados Unidos, segundo o qual as duas potências imperiais e seus sócios não deveriam intervir nas esferas de influência do outro.

Esta tensão chegou a um ponto máximo em 1967, quando Moscou começou a reduzir significativamente seus envios de petróleo a Cuba, para pressionar a ilha e moderar sua agressiva política exterior. Mas Castro não se deixou influir. Respondeu denunciando os gestos amistosos da URSS a Venezuela e Colômbia, apesar de sua repressão anticomunista. Se negou a enviar uma figura política cubana de alto nível à celebração do 50º aniversário da Revolução Russa, em novembro de 1967. E, na celebração do 9º aniversário da Revolução Cubana, em janeiro de 1968, de forma expressa, embora diplomaticamente, incluiu o racionamento de petróleo em Cuba, com os atrasos nos envios soviéticos, em seu discurso. Em consequência, a URSS suspendeu o fornecimento de equipes militares e a assistência técnica.

Quando começou a se plantear o conflito entre o governo comunista reformista da Tchecoslováquia e Moscou, muitos se perguntaram qual seria a resposta cubana. Durante meses, o Granma publicou muito pouco sobre a Tchecoslováquia, ignorando por completo as reformas da Primavera de Praga e seu impacto na esquerda internacional. Isso mudou, entretanto, em meados de julho, quando o periódico começou a cobrir a crescente confrontação entre Tchecoslováquia e URSS com mais profundidade.

O mais provável é que Castro tenha reconhecido que os pontos centrais da dinâmica dos acontecimentos tchecos haviam mudado. No começo, os manifestantes pediam reformas internas e a democratização, que Castro não queria que se conhecesse na Ilha – da mesma forma, o Granma não cobriu os movimentos estudantis na Polônia e na Iugoslávia, que ocorreram em março e junho daquele ano. Mas em julho, ficou evidente que a confrontação entre Tchecoslováquia e a URSS era inevitável, e que plantearia a questão da soberania nacional. A agressão do imperialismo estadunidense fez com que a questão se tornasse especialmente importante para Castro, e o incipiente conflito entre Cuba e a URSS fazia com que a disputa fosse ainda mais urgente.

O Granma se centrou no conflito externo entre URSS e Tchecoslováquia, ignorando a dimensão interna, e escreveu com detalhes as reações de outros partidos comunistas diante desta confrontação, independentemente de qual lado apoiava. Era evidente que o periódico – e consequentemente Fidel Castro, seu governo, e o Partido Comunista de Cuba – não tomariam partido. Aliás, o comandante tentou recolher as posições de ambos os lados com o mesmo cuidado.

Mas tudo isso mudou quando Fidel, sem ter dito sequer uma palavra sobre o conflito, apoiou a invasão soviética, em agosto. O Granma imediatamente adotou a linha soviética, e começou a publicar declarações das organizações de massas cubanas, elogiando o apoio de Fidel à invasão. Se produziram outros sinais para apaziguar os soviéticos e merecer mudanças a seu favor. Cuba cortou seu apoio às guerrilhas na América Latina e, nos anos 70, levou a cabo uma aproximação com os partidos pró-comunistas de Moscou na região, reconhecendo que a luta armada era só uma das vias possíveis da luta revolucionária. Em contrapartida, os partidos comunistas reconheceram o papel de vanguarda de Cuba na luta anti imperialista no hemisfério.

Este foi o começo do que o ex-diplomata soviético Yuri Pavlov chama de “tardia lua de mel” entre a URSS e Cuba, que se prolongou até os anos 80. Em junho de 1969, o representante de Cuba na Conferência Internacional de Partidos Comunistas, em Moscou se uniu à maioria pró soviética na denúncia da posição “sectária” da China. Em troca, a União Soviética enviou uma frota de guerra a visitar Cuba. Logo, se produziu um intercâmbio de delegações militares. O marechal Andrei Grechko, ministro de Defesa soviético, foi a Havana, em novembro de 1969, e Raúl Castro, ministro de Defesa de Cuba, viajou a Moscou, em abril e outubro de 1970. O fluxo de armas soviéticas passou a ser mais intenso, e Fidel Castro aprovou a construção de uma base para os submarinos soviéticos em águas profundas, na região de Cienfuegos.

Até que chegou o tempo das mútuas visitas de Estado, e em 1972 Cuba se uniu ao Conselho de Assistência Econômica Mútua (CAEM), dirigido pelos soviéticos. Nesse período, Cuba se voltou para a África, como foco principal de sua política exterior revolucionária. Diferente da América Latina, seus interesses estratégicos eram os mesmos que os de Moscou.

Castro conseguiu apaziguar as relações com os soviéticos, mas manteve seu direito a estar em desacordo com algumas das políticas soviéticas, o que fazia de Cuba um sócio menor, em vez de um satélite da URSS. Tanto é assim que Castro havia tido esta posição desde o começo. Em seu discurso de apoio à invasão da Tchecoslováquia, não só criticou o “liberalismo” de Alexander Dubcek como também a política de coexistência pacífica da União Soviética com os Estados Unidos. O líder cubano se perguntou, sarcasticamente, se os soviéticos enviariam tropas do Pacto de Varsóvia para ajudar a defender Cuba de um ataque dos imperialistas ianques.

Nacionalização completa
Nesse mesmo ano, Castro iniciou o que chamou de “ofensiva revolucionária”: uma política destinada a nacionalizar totalmente a economia da ilha. O estado já havia assumido as grandes e médias empresas durante os Anos 60, mas os negócios familiares permaneceram em mãos privadas.

Depois de 16 dias de campanha, a imprensa oficial anunciou que mais de 55 mil pequenas empresas haviam sido nacionalizadas, incluindo armazéns, barbearias e milhares de comércios. A ofensiva revolucionária fez com que Cuba tivesse o índice mais alto do mundo de propriedade nacionalizada.

Segundo o economista cubano Carmelo Mesa-Lago, 31% destas pequenas empresas eram comércios varejistas de alimentos, e 26$ proporcionavam serviços de consumo, como conserto de automóveis ou de sapatos. Os restaurantes e as pequenas lanchonetes representavam 21%, e também havia 17% de lojas de roupas ou calçados. O resto (cerca de 5%) eram pequenos estabelecimentos artesanais de couro, produtos de madeira e têxteis. A metade dessas pequenas empresas eram familiares ou trabalhadas pelos próprios donos, sem empregados.

Pouco depois da nacionalização, o Estado fechou um terço das pequenas empresas. A única atividade privada que restou em Cuba foi a pequena agricultura, na que 150 mil agricultores possuíam 30% da terra em explorações de menos de 165 acres cada uma.

Um dos objetivos da ofensiva revolucionária foi fechar os milhares de bares em Cuba, tanto privados como estatais. O regime queria que encerrassem essas atividades, não devido à uma proibição às bebidas alcoólicas, mas porque acreditava que esses bares fomentavam um ambiente social pré-revolucionário, antitético a favorecia campanhas militaristas e anti urbanas contra o governo de Castro para forjar o “homem novo”.

Estas campanhas se iniciaram em 1963, quando Castro atacou a homossexualidade e o não conformismo cultural. Com a esperança de insistir na centralidade do estado na vida dos cidadãos, também perseguiu os dissidentes religiosos, incluindo as testemunhas de Jeová, católicos e seguidores da sociedade secreta afro-cubana abakuá. Os membros destes grupos foram encarcerados nas Unidades Militares de Ajuda à Produção (UMAP), campos de trabalhos forçado estabelecidos em 1965 e dissolvidos em 1968.

A nacionalização de todas as pequenas empresas da ofensiva revolucionária também pretendia dar ao Estado um controle completo sobre a produção agrícola. Muitos dos comerciantes desapropriados compravam produtos agrícolas a preços elevados, o que reduzia a quantidade disponível para a distribuição estatal.

Além disso, concedeu ao Estado mais poder sobre a força de trabalho. O abandono do trabalho, gerado pela falta de bens de consumo, se havia transformado em um problema importante. Para combatê-lo, a direção cubana redigiu uma lei contra a desocupação, que se promulgou em 28 de março de 1971. A legislação ordenou a todos os homens adultos a trabalhar em jornada completa e estabeleceu uma variedade de castigos que iam desde a prisão domiciliar ao internamento em centros de reabilitação de trabalho forçado. Não há informações sobre sua aplicação.

A ofensiva revolucionária exemplifica o foco “idealista” super voluntarista de Castro da socialização. A política equiparava a propriedade privada em geral com a propriedade privada capitalista em particular, uma má interpretação do socialismo utópico ao socialismo científico de Friedrich Engels.

Nessa obra, Engels diferencia o capitalismo moderno, no que os capitalistas individuais se apropriam dos produtos da atividade social e coletiva, do socialismo, onde a produção e sua apropriação estão socializadas. Em consequência, o objetivo da socialização é a propriedade produtiva que implica trabalho coletivo, não o trabalho individual ou a unidade produtiva familiar, para não falar da propriedade pessoal.

Ademais desta confusão, o governo cubano não estava em condições de arcar com a questão da distribuição de bens e serviços das pequenas empresas: o programa de nacionalização piorou, em vez de solucionar a escassez de bens de consumo.

A campanha da safra de açúcar prevista, desde janeiro de 1969 até julho de 1970, é outro exemplo da orientação voluntarista de Castro. Esse esforço exagerado nunca alcançou seu objetivo. Em seu lugar, desviou recursos de produção e de logística escassos, causando graves transtornos na economia da ilha.

Como mostra a historiadora Lillian Guerra, a campanha foi muito mais que um exercício de voluntarismo ou de “idealismo”. Seu objetivo era não só “reativar o otimismo popular” dos primeiros anos da Revolução, portanto, recuperar os níveis de apoio incondicional às políticas do governo, “e ainda mais importante, demonstrar também o valor da disciplina do trabalho e impor seu cumprimento”.

Da mesma forma, Castro utilizou a ofensiva revolucionária para mobilizar a maior quantidade de mão de obra possível para a produção, particularmente na agricultura, com o fim de reforçar a disciplina, otimizar recursos e exortar os trabalhadores a aumentar a produtividade e fazer trabalho voluntário. Em abril de 1968, a confederação sindical oficial recrutou um quarto de milhão de trabalhadores para realizar tarefas agrícolas sem pagamento doze horas por dia, durante três ou quatro semanas. Cerca de 2,5 milhões de jornadas foram “doadas” pelos trabalhadores que passaram 14 semanas nas plantações de café.

Estas campanhas foram lançadas em resposta à crise econômica daquela década, que piorou qualitativamente com o criminoso bloqueio econômico dos Estados Unidos imposto no começo daquela década. Mas a administração vertical burocrática e caótica da economia gerou essa crise.

Como Andrés Vilariño, um economista do governo cubano apontou a ineficiência dos investimentos foi uma das principais causas da queda da produtividade econômica nos Anos 60. Por exemplo, uma parte da cara maquinária importada terminou se enferrujando sem sair dos portos e armazéns. Enquanto isso, o fornecimento inadequado de bens de consumo, combinado com a falta de controle dos trabalhadores do processo de produção e a ausência de sindicatos independentes, gerou um sentimento de apatia entre os trabalhadores cubanos. A falta de transparência na tomada de decisões, para não falar da inexata informação econômica procedente de pequenos gestores com medo de represálias se informavam de más notícias, produziu um mau planejamento e desperdício, agravados pelas intervenções e a caprichosa micro gestão de Fidel Castro.

Em um caso revelador, tentou-se introduzir uma nova raça de gado, contrariando a opinião dos especialistas britânicos que o próprio governo havia levado a Cuba. O projeto desperdiçou milhões de dólares.

Novos objetivos
Em 1968, Castro deteve a repressão que já estava em marcha contra os inimigos do seu governo (inclusive contra os setores críticos dentro da esquerda pró revolucionária). Em primeiro lugar, o governo eliminou algumas das formas mais duras de castigo, desativando, por exemplo, os campos de trabalho agrícola (UMAPs). Em segundo lugar, os esforços policiais do governo se centraram em qualquer expressão política e cultural que se desviasse da linha oficial do partido.

Um exemplo disso foi o do antigo líder comunista Aníbal Escalante. Em 1962, ele foi purgado do governo e do partido, e logo preso, acusado de sectarismo, por tentar acumular poder mediante a exclusão dos revolucionários que não pertenciam ao antigo Partido Comunista pró-Moscou de posições de governo. Em 1968, foi novamente purgado e preso, dessa vez acusado de formar uma microfacção dentro do Partido Comunista de Cuba, de criticar as políticas econômicas de Castro. Também foi acusado de se reunir com diplomatas do Leste Europeu, com o fim de obter seu apoio. Para Fidel – e seu irmão Raúl, responsável oficial da investigação sobre Escalante – esta microfacção colocava em perigo seus esforços para impor uma só linha no partido.

O “caso Escalante” demonstra a desproporção entre a suposta ofensa e o castigo. Não só eram corretas muitas das críticas de Escalante das políticas econômicas de Castro – em especial com respeito à desastrosa “safra das dez milhões de toneladas” – senão que não havia a menor evidência de que Escalante e seu pequeno grupo estiveram conspirando para eliminar ou derrubar o governo cubano, com ou sem o apoio dos diplomatas do Leste Europeu. O grupo podia ser “antipatriota”, como acusou o governo, mas suas atividades eram pacíficas e, portanto, objeto do debate político público. Por outro lado, o regime, seguindo a tradição stalinista, o transformou num processo criminal.

Castro levou 35 dos 37 membros do grupo de Escalante a julgamento, por um Conselho de Guerra, que o governo orquestrou especialmente para impor penas severas. Escalante foi condenado a 15 anos de prisão e 34 dos seus colaboradores foram condenados a penas de entre 1 e 12 anos. Os dois membros restantes pertenciam as Forças Armadas e, portanto, foram colocados à disposição do promotor das Forças Armadas Revolucionárias para seu processamento.

Com estes procedimentos processuais paralelos, o governo reconheceu implicitamente que a maior parte do grupo de Escalante eram civis que, se supunha, deviam ser processados de forma diferente e com códigos legais menos duros que os militares. Apesar desta diferença implícita, enfrentaram a um Conselho de Guerra, onde foram ditadas sentenças mais duras do que se seria num julgamento normal.

Castro também dirigiu sua atenção aos dissidentes cubanos no âmbito cultural. Em janeiro de 1968, o governo abriu o Congresso Cultural de Habana, convidando a mais de quinhentos intelectuais de setenta países, entre eles proeminentes científicos sociais de esquerda e historiadores, como Ralph Miliband e Eric Hobsbawm, reconhecidas personalidades literárias caribenhas e latino-americanas, como Aimé Césaire, Julio Cortázar e Mario Benedetti, escritores europeus famosos, como Michel Leiris, Jorge Semprún e Arnold Wesker, assim como políticos de esquerda e vários dirigentes dos Estados Unidos. O Congresso, que se centrou no tema do anti imperialismo, desde uma perspectiva política, econômica e cultural, transcorreu ostensivamente de uma maneira aberta. Segundo observadores independentes, todas as apresentações e resoluções propostas pelos participantes foram recolhidas sem nenhuma interferência.

Graças a esta aparente abertura, nem os estrangeiros, nem muitos dos intelectuais cubanos convidados suspeitaram que um importante grupo de intelectuais e artistas cubanos negros – entre eles Rogelio Martínez Fure, Nancy Morejón, Sara Gómez, Pedro Pérez-Sarduy, Nicolás Guillén Landrián, e Walterio Carbonell – haviam sido excluídos.

Segundo o autor cubano negro Carlos Moore, o grupo esteve reunido para discutir a falta de medidas do governo cubano contra o racismo, um problema que os líderes revolucionários afirmavam ter resolvido com a abolição da segregação racial nos Anos 60. Em resposta a um rumor desses intelectuais, haviam redigido um documento programático sobre raça e cultura em Cuba, para apresentá-lo durante o Congresso. O então ministro de Educação, José Llanusa Gobe, os chamou a uma reunião privada, dias antes do evento. Depois de escutar as críticas, Llanusa os acusou de ser “sediciosos” e disse a eles que a “revolução” não permitiria criar uma “brecha” racial no povo cubano. Explicou que a ideia em si de seu “manifesto negro” era uma provocação da qual deveriam se retratar, ou enfrentar as consequências.

Depois, foram proibidos de assistir ao Congresso. Todos os assinantes do manifesto sofreram algum grau de castigo. Os mais que não quiseram se retratar ficaram com as penas mais duras, como Nicolás Guillén Landrián, sobrinho do famoso poeta nacional e então presidente da União de Escritores e Artistas de Cuba, Nicolás Guillén Batista. Depois do Congresso, ele foi detido em várias ocasiões e, mais tarde, abandonou o país como exiliado.

Walterio Carbonell, um dos líderes do grupo, também se negou a retratar sua posição. Um expoente cubano da política de Poder Negro, havia pertencido ao antigo Partido Comunista Cubano pró-Moscou. Ironicamente, havia sido expulso dessa organização por apoiar o ataque de Fidel Castro ao quartel Moncada, em 26 de julho de 1953. Depois da Revolução, foi nomeado embaixador de Cuba para a Frente de Liberação Nacional da Argélia (FLN). Em 1961, publicou seu livro “Crítica: Como surgiu a cultura nacional de Cuba”, no qual sustentava que os negros cubanos tiveram um papel importante na guerra da independência e no estabelecimento da República, um fato que a cultura racista branca e as instituições de antes da Revolução haviam apagado. Por outra parte, afirmou que a experiência cubana negra estava no coração do radicalismo da Revolução cubana: em consequência, a luta contra o racismo fortalecia em vez de debilitar a Revolução.

Como consequência destes argumentos, Carbonell sofreu diversas formas de detenção, entre 1968 e 1974, incluindo a de trabalho forçado. Segundo Lillian Guerra, depois de ser liberado, em 1974, continuou defendendo suas ideias, e por isso foi internado em vários hospitais psiquiátricos e submetido a eletrochoques e terapias com medicamentos por dois ou três anos. Depois disso, Carbonell passou seus últimos anos como um investigador pouco conhecido na Biblioteca Nacional.

Diferente do que aconteceu com Carbonell, o caso da repressão ao poeta e jornalista cubano Heberto Padilla se fez muito conhecido rapidamente. Em 1968, Padilla foi premiado com o mais prestigioso prêmio da União Nacional de Escritores e Artistas de Cuba (UNEAC) por seu livro de poemas “Fora de Jogo”. Mas o governo se opôs ao espírito crítico e inconformista de Padilla, e condenou sua obra, obrigando a UNEAC a mudar sua posição também.

Condenado ao ostracismo e sem poder publicar em Cuba, Padilla foi preso por ter se atrevido a ler vários de seus novos poemas em público e tentar publicar uma nova novela. Em 1971, foi obrigado a confessar, de forma stalinista, seus pecados políticos. Isso provocou um escândalo internacional, e um grande grupo de conhecidos intelectuais simpatizantes da Revolução Cubana, como Jean-Paul Sartre e Julio Cortázar, protestaram. Em resposta, o regime proibiu e retirou das bibliotecas do país as obras de qualquer intelectual latino-americano e europeu que se opôs à forma como se tratou o caso de Padilla.

Em 1968, o governo começou a usar a repressão para impor uma linha cultural monolítica. Esta guinada criou as bases do que logo se chamou Quinquênio Cinza – o período entre 1971 e 1976 –, no qual o regime de Castro reprimiu brutalmente qualquer tipo de expressão inconformista. Em 1971, o Congresso Nacional de Educação e Cultura atacou brutalmente os artistas e intelectuais homossexuais, proibiu os gays de representar a Cuba no exterior em missões artísticas, políticas e diplomáticas, além de qualificar a irmandade afro cubana Abakuá afro cubana de “foco de criminalidade” e “delinquência juvenil .”Durante esses cinco anos, o governo impôs “parâmetros’ aos profissionais dos campos da educação e da cultura com a finalidade de examinar suas preferências sexuais, suas práticas religiosas e que relações mantinham com as pessoas no exterior, entre outras questões políticas e pessoais.

O falecido arquiteto cubano Mario Coyula Cowley insistiu durante anos em dizer que o Quinquênio Cinza havia sido, na verdade, “quinze anos de amargura”, porque começou, de verdade, na segunda metade dos A. A esperança de que Castro apoiasse a autodeterminação nacional da Tchecoslováquia e os acontecimentos revolucionários de 1968 para traçar um caminho independente e mais democrático para a Revolução Cubana, evaporaram rapidamente.

Sobre o autor
Samuel Farber nasceu e se criou em Cuba, país ao qual dedicou grande parte do seu trabalho de investigação nos Estados Unidos. Foi um dos dirigentes do movimento pela liberdade de expressão na Universidade de Berkeley, Califórnia, nos Anos 60, e um reconhecido ativista da esquerda socialista dos Estados Unidos.

23 de maio de 2016

Avaliando Che

Che Guevara foi um revolucionário honesto e comprometido mas nunca abraçou a sua essência mais democrática.

Samuel Farber

Jacobin

Greta Gabaglio / Shutterstock

Tradução / Os principais líderes da Revolução Cubana — Fidel Castro, Raúl Castro e Che Guevara — tinham estilos de liderança política diferentes. Fidel Castro, de longe o líder mais importante, foi, até se retirar por questões de saúde em 2006, um astuto e táctico político revolucionário com a intenção de consolidar o seu poder e inicialmente adverso a correr riscos que o levassem a perder o controlo da ilha por implementações prematuras de objectivos ideológicos.

O segundo em comando era o irmão mais jovem de Fidel, Raúl, que rapidamente adquiriu uma reputação pelas suas actividades repressivas assim como pela sua disciplina organizativa e competência. Raúl era um antigo membro da Juventude Socialista, o grupo de jovens do Partido Socialista Popular (PSP) cubano, porém mostrava ainda empatia pela União Soviética. Depois havia Che Guevara, cuja imagem icónica sobreviveu ao colapso da União Soviética e ao declínio do comunismo Cubano.

De alguma forma, quase cinquenta anos após a sua morte, Che emergiu como o mais importante dos três líderes. No entanto, tal como tenho referido, as políticas de Che Guevara tinham muito mais em comum com as políticas dos irmãos Castro do que os seus admiradores actuais estão dispostos a admitir.

Primeiro, compartiu com estes uma política revolucionária de cima [para baixo] que lhe permitiu reter, juntamente com os Castro, o controlo político e a iniciativa na ilha, baseado na concepção política monolítica de um tipo de socialismo imune a qualquer controlo democrático e a iniciavas a partir de baixo.

Tal como os irmãos Castro, Guevara tinha um compromisso profundo a um estado de um só partido e a uma versão extrema de vanguardismo, que por vezes lavou ao nível do absurdo. Por exemplo, a sua resposta às condições sociais e políticas que encontrou na parte oriental do Congo, quando se deu conta de não estarem reunidas quaisquer condições necessárias para uma revolução socialista — tais como a demanda por terra por parte da vasta população rural, uma classe trabalhadora (que não existia na região Katanga), e uma presença significativa imperialista que pudesse provocar um sentimento nacional de resistência — foi criar um Partido Comunista de vanguarda que iria liderar isoladamente a revolução nessa parte do país.

Tão cedo quanto os dias de luta de guerrilha na Serra Maestra, Guevara, articulava explicitamente a concepção dos líderes revolucionários cubanos, atribuindo-lhes, na revolução, um papel de apoio e subordinado à classe trabalhadora e campesina. Mais tarde, quando liderava a sua pequena força de guerrilha, na Bolívia, subordinava as necessidades e o potencial político dos militantes e trabalhadores bolivianos politicamente conscientes aos guerrilheiros das suas reduzidas forças sob o seu comando.

Mesmo quando ocasionalmente se referia à classe trabalhadora como tendo um papel na tomada do poder, fá-lo a respeito de uma putativa ideologia da classe trabalhadora do Partido Comunista, tratando a classe trabalhadora como uma abstracção ideológica. Mais tarde, após ter deixado o governo cubano para empenhar-se na luta de guerrilha, fora do país, aprofundou o seu compromisso com uma perspectiva que colocava a autonomia tecnológica e o determinismo — não a classe trabalhadora — no centro da economia socialista de uma maneira reminiscente da novela utópica, Looking Backward, de Edward Bellamy, uma novela que este muito admirava .

As idiossincrasias de Che Guevara

Mas Che Guevara era também diferente dos irmãos Castro em alguns aspectos importantes. Era um igualitário radical, uma característica que tinha raízes na sua formação boémia na Argentina. Os seus quase seis anos no poder em Cuba (1959-1965) não lhe diminuíram esta característica de todo. O mesmo caso com a sua honestidade política, particularmente em comparação com o muito manipulador Fidel Castro. Tinha também um lado profundamente ascético que o levou, por exemplo, a tentar impor, em contraste com outros líderes revolucionários, políticas puritanas durante a sua ocupação da vila Sancti Spiritus no centro de Cuba, em 1958, e considerar, numa reunião do ministério da indústria, que ele dirigia, que o desenvolvimento da “consciência” poderia inverter o progresso material em bens de consumo.

De acordo com Guevara, o povo cubano podia ser educado a construir [o socialismo], sem televisão, baseado no exemplo dos vietnamitas, que não tinham televisão e no entanto estavam a construir o socialismo.

O Internacionalismo de Guevara ou, mais precisamente, a sua vontade de expandir a revolução fora da ilha, particularmente no resto da América Latina, estava mais vincada que nos irmãos Castro. Sem embargo, estava baseada num claro ultra-vanguardismo e na substituição da classe trabalhadora e do campesinato pela “ditadura do proletariado” do Partido Comunista, levando ao estabelecimento de uma nova classe dirigente.

O igualitarismo e internacionalismo de Che estava também ligado ao voluntarismo que se expressava a si mesmo tanto na política como na política económica através dos seus sublinhados sobre os incentivos morais e na criação de um “Homem Novo” que seria totalmente dedicado à sociedade e alheio às suas satisfações pessoais.

As características políticas e pessoais de Guevara – a sua honestidade política e o seu radicalismo igualitário — talvez o tivessem feito mais capaz de ser um comunista oposicionista do que um dirigente comunista a longo termo, que teria que lidar com o crescimento da desigualdade e a corrupção que acompanhou a Revolução Cubana.

Apesar de que o seu igualitarismo, honestidade e ascetismo o pudessem ter ajudado a construir e consolidar a Revolução Comunista Cubana, o sistema que ele ajudou a construir iria quase de certeza virar-se contra os seus valores mais elementares.

Max Weber famosamente arguia que a ética ascética puritana teve um papel essencial no desenvolvimento original do capitalismo, mas isso mais tarde, depois

do ascetismo se comprometer em remodelar o mundo e a desenvolver os seus ideais pelo mundo, os bens materiais ganharam um crescente e finalmente poder inexorável sobre a vida dos homens como em nenhum outro período anterior da história. Hoje o espírito ascético religioso — de forma definitiva, quem sabe? — escapou da jaula. Mas o capitalismo vitorioso, uma vez que se apoia em fundações mecânicas, já não precisa do seu suporte. O mesmo pode também ser aplicado ao Comunismo que Guevara ajudou a construir em Cuba.

O objetivo comum

Não obstante as diferenças que Guevara tinha com os irmãos Castro e os comunistas cubanos pró-Moscovo, este partilhava com eles, até mesmo ao fim, o mesmo projecto para derrubar o capitalismo e construir uma nova sociedade socialista. Este projecto que compartiam estava fundado na criação de um novo sistema de classes baseado em um colectivismo estatal, um modelo de propriedade no qual o estado detém e controla a economia e a burocracia política central “detém” o estado. A pertença à classe dirigente é determinada pela ocupação de um lugar na burocracia que está no centro do poder numa sociedade e que une o poder político ao económico.

Tais sociedades burocráticas são caracterizadas pela produção de valores de uso que satisfazem as necessidades sociais determinadas pela classe dirigente. Neste sistema, a maior parte do excedente não é apropriado pela empresa individual que produziu o excedente, nem tampouco é obtido primariamente pelo mercado.

Em vez disso, é apropriado pelo estado para a economia como um todo. O estado apropria o excedente através dos seus mecanismos de planeamento e controlo — determinando o quê, quanto e onde os bens são produzidos. O excedente não vai financiar primariamente os salários e privilégios dos burocratas (não mais do que os lucros vão financiar principalmente os consumos privados da classe capitalista), ainda que os oficiais do estado possam de facto desfrutar de alguns privilégios especiais.

Vai primeiramente financiar a acumulação e investimento, defesa e outras formas de despesas assim decididas pela burocracia tal como fazem os capitalistas e o capitalismo de mercado sob o capitalismo.

Existe uma contradição determinante neste sistema social entre a necessidade de planeamento e a ausência de liberdade política essencial para a eficiência e precisão do planeamento. Sem liberdade política não há autenticidade de respostas, informação verdadeira e iniciativa independente a partir de baixo que torna possível os planos económicos serem bem desenvolvidos. Os rebeldes anti-burocráticos e revolucionários que possam ter sido inspirados pelo espírito revolucionário intransigente representado por Guevara podem apenas atingir os seus objectivos através de um processo que traz no mesmo saco políticas socialistas, democracia e revolução.

Socialismo: porque a verdadeira libertação da classe trabalhadora apenas pode ser alcançada quando tanto a economia como a política estejam sobre o controlo dos homens e mulheres que através do seu trabalho façam a existência social possível. Democracia: porque a regra da maioria e o respeito pelos direitos das minorias e liberdades civis é a única maneira da classe trabalhadora poder, de facto, e não apenas em teoria, controlar o seu destino. Revolução: porque nem mesmo as reformas mais bem-vindas e autênticas podem trazer uma verdadeira emancipação e libertação. Em qualquer caso, a resistência dos poderosos à mudança social radical faz com que seja provável tornar a revolução tanto inadiável como desejável.

Republished from Haymarket Books.

Colaborador

Samuel Farber was born and raised in Cuba and is the author of numerous books and articles dealing with that country. He is a member of Jewish Voice for Peace and supports BDS.

14 de janeiro de 2016

A ameaça de um Haiti livre

Como a Revolução Haitiana semeou o medo nos corações da classe escravocrata de Cuba.

Samuel Farber 


Batalha em San Domingo, uma pintura de January Suchodolski, representando uma luta entre as tropas polonesas ao serviço francês contra os escravos rebeldes e soldados revolucionários libertados. Wikimedia.

Tradução / Em 1791, enquanto a França entrava nos estágios iniciais de sua revolução, os escravos de sua colônia caribenha, Santo Domingos, rebelaram-se e pegaram em armas. Foi a primeira revolta de escravos bem sucedida na história, uma revolta que derrubou o domínio colonial branco e estabeleceu o novo estado do Haiti em 1804.

A Revolução Haitiana causou arrepios nas propriedades européias no Caribe e na América Latina, e nos Estados Unidos então recém-independentes. Tornou-se um tremendo símbolo de esperança para os povos escravizados nesses países e um tremendo terror para os senhores proprietários, em especial para aqueles que viviam nas colônias. Seus efeitos se estenderam ao movimento de independência sul-americano liderado por Simon Bolívar e à França, particularmente durante os momentos mais radicais de sua própria revolução.

Em “Espelho da Liberdade: Cuba e Haiti na Era da Revolução”, a historiadora Ada Ferrer faz uma avaliação abrangente do impacto da Revolução Haitiana sobre Cuba, então uma colônia espanhola localizada a apenas 80 quilômetros das fronteiras marítimas ocidentais do Haiti.

Ferrer – cujo livro anterior, “Cuba Insurgente”, examinava as dimensões raciais do movimento pró-independência na ilha na segunda metade do século XIX – desenvolve uma avaliação abrangente de como a Revolução Haitiana levou à intensificação do latifúndio escravista em Cuba, fomentando a uma só vez o poder crescente dos senhores de escravos e um novo espírito de rebeldia entre os escravos, intensificando um antagonismo que culminou em várias conspirações e rebeliões de escravos fracassadas.

Quando a revolta eclodiu em 1791, Santo Domingos tinha oitocentos latifúndios de cana de açúcar que juntos produziam tanto açúcar quanto todas as colônias do Caribe britânico juntas. Quando chegou ao fim, a produção de açúcar havia colapsado no Haiti, juntamente com a escravidão e o domínio francês.

Com a insurgência de escravos levando ao colapso da plantação e manufatura do açúcar no Haiti, a produção explodiu na vizinha Cuba, assim como se desenvolveu um novo sistema de plantação de café estabelecido por refugiados brancos de Santo Domingos, na parte oriental da ilha.

Nos trinta anos que se seguiram, aproximadamente 325.000 africanos foram trazidos para Cuba como escravos, mais de quatro vezes o número trazido nas três décadas anteriores. Em 1804, as exportações de açúcar cubano aumentaram de 15.000 toneladas para 40.000. Entre 1791 e 1810, a população de Havana duplicou. A economia e a sociedade de Cuba foram rapidamente transformadas.

O crescimento da produção de açúcar e a importação maciça de escravos converteram Cuba numa sociedade distintamente escravagista. Governantes e a elite branca cubana ficaram obcecados com o “equilíbrio racial” da população. Já em 1815 as autoridades coloniais estabeleceram uma “Junta de Población Blanca” (Conselho da População Branca) encarregada de aumentar a imigração branca.

Em 1817, as autoridades espanholas emitiram um decreto real, especificamente desenhado para atrair colonos brancos para a ilha, estendendo os direitos de propriedade e isenções fiscais para todos os europeus que migrassem. Assim, a elite dirigente cubana conseguiu restabelecer a maioria branca após a primeira metade do século XIX.

Colônias sangrentas

Entre as muitas virtudes do trabalho de Ferrer está sua vívida descrição da mentalidade dos senhores de escravos cubanos ao se verem frente às conseqüências da Revolução Haitiana, que disseminou terror, ainda que a chegada de cerca de 35.000 refugiados brancos de Santo Domingos (nem todos permaneceram em Cuba) tenha servido para fortalecer seu poder de classe.

Assombrados ao longo de todo o século XIX pelo espectro do Haiti, escreve Ferrer, proprietários de escravos cubanos incessantemente invocavam uma imagem dessa revolução, na qual “os escravos se levantaram, mataram mestres, cobriram de sangue a mais rica colônia do mundo e a transformaram em uma montanha de cinzas “.

Essa imagem convenientemente obscurecia as atrocidades francesas, que aceleraram a rebelião de escravos, tais como as narradas por Nicolas Geffrard, uma testemunha ocular citada por Ferrer, que conseguira escapar de Santo Domingos em outubro de 1802, quando as forças francesas na cidade portuária de Le Cap cercaram e afogaram milhares de membros negros do exército colonial francês.

Simultaneamente, o relato de Ferrer revela que por trás da ideologia racista e colonial dessas histórias de horror se escondia um medo de classe fundamentalmente racional. Entre as muitas expressões de medo, a obsessão dos proprietários de escravos na congregação de muitos “negros franceses”, se referindo aos negros haitianos, em Havana, que foram identificados como uma fonte potencial de contágio político para escravos nascidos em Cuba – uma preocupação validada pela descoberta de cinco pequenas conspirações de escravos e rebeliões na região perto da capital entre 1802 e 1803.

Em 1811, as Cortes de Cádiz na Espanha – pressionadas a estabelecer uma monarquia constitucional liberal pela resistência nacionalista à ocupação francesa que acompanhou a Guerra Ibérica – começaram a considerar uma série de reformas no sistema escravista, incluindo a possibilidade de sua abolição.

O delegado cubano à convenção constitucional em que ocorreram as discussões insistiu que as considerações a respeito de tais medidas fossem mantidas em segredo, expressando ansiedade de que a mera discussão de reformas levaria a uma catástrofe na ilha. Sua proposta foi aprovada por unanimidade. Os temores dos cubanos brancos de “outro Santo Domingos” atrasaria a abolição da escravidão e a luta armada pela independência da Espanha até a segunda metade do século XIX.

A escravocracia cubana não suportaria a própria existência da nação negra independente vizinha. A preocupação primordial dos donos de escravos não era a ameaça de uma invasão, nem mesmo a instigação à revolta em Cuba, mas o perigo que representava para o comércio marítimo cubano, que trazia a mão de obra escrava para a ilha e levava o açúcar para fora. No entanto, como mostra Ferrer, o medo dos proprietários de escravos cubanos de rebelião negra e a desconfiança com seus novos vizinhos nunca poderiam competir com o fascínio dos lucros do tráfico de escravos.

Com a cumplicidade de compradores locais e autoridades governamentais, os proprietários de fazendas cubanas continuaram a comprar e vender escravos, incluindo negros livres capturados em Santo Domingos, ex-insurgentes entre eles. Por um constante flerte com a anexação americana, a classe dominante colonial de Cuba repeliu qualquer gesto de reforma vindo do império espanhol.

Contágio político

Em um dos episódios mais elegantemente narrados no livro, Ferrer relata como a chegada de um navio negreiro em Cuba durante os primeiros estágios da Revolução Haitiana trouxe a notícia do levante negro vitorioso, bem como alguns de seus protagonistas recapturados para serem vendidos: a destruição e reconstrução do sistema caribenho de escravidão em um único momento.

Apesar dos dados limitados, Ferrer é capaz de oferecer uma variedade de fontes que atestam o impacto dos escravos vindo de Santo Domingos e dos materiais gráficos e escritos que vieram juntos com eles. Ela descreve encontros de negros capturados recém chegados da África e escravos caribenhos, tanto aqueles nascidos em Cuba quanto aqueles transplantados do Haiti; as notícias (às vezes falsas ou incoerentes) e as opiniões que trocavam conforme tentavam antecipar o que o levante no Haiti significaria para Cuba, e a forma como mobilizavam essas notícias como um símbolo de sua própria libertação futura.

As pessoas e material gráfico chegaram rapidamente a Cuba vindo do Haiti. Ferrer descreve como os trabalhadores portuários negros carregavam cartazes impressos de líderes negros como Toussaint Louverture e os compartilhavam com escravos quando podiam. Apesar de tentativas de censura, a Declaração da Independência do Haiti foi traduzida para o espanhol e publicada em um jornal que circulava entre os negros cubanos, livres ou escravizados.

Os escravos rebeldes em Santo Domingos, assim como em Cuba, bebiam de um conjunto diverso de influências ideológicas. Ferrer cita o exemplo bem conhecido de um escravo rebelde capturado e executado em Santo Domingos em 1791, que estaria carregando pólvora, um talismã africano e panfletos de “Direitos do Homem” [do revolucionário britânico Thomas Paine]: símbolos da modernidade, da tradição africana e da Revolução Francesa em um único bolso.

A Revolução Francesa, então em escalada, parece ter exercido a influência mais significativa, particularmente em suas fases mais radicais. Mas o sinal viajou em ambas as direções: embora Ferrer não o mencione, em janeiro de 1794 a delegação multirracial de Santo Domingos foi recebida, como CLR James [intelectual marxista negro de Trinidad e Tobago] descreve de modo comovente em “Os Jacobinos Negros”, com grande entusiasmo pela Convenção Revolucionária Francesa, que procedeu a abolir a escravidão em todos os territórios franceses.

Da mesma forma, as tradições intelectuais e políticas sincretizadas influenciaram as conspirações e rebeliões de escravos em Cuba. Neste contexto, Ferrer discute a insurreição de 1812 liderada por José Antonio Aponte, homem negro livre, que era carpinteiro, artista e, possivelmente, um padre na religião afro-cubana da Santería.

Aponte e seus associados elaboraram um plano para queimar as usinas de açúcar e atacar as fortalezas e arsenais de Havana, apreendendo arsenal para armar os quatrocentos homens que, segundo Aponte, estavam organizados e esperando para se levantar quando convocados. Chegado o momento, Aponte emitiu uma declaração pública de libertação para todos os escravos, que mais tarde foi pregada às portas do palácio do governo.

O movimento foi violentamente esmagado e Aponte enforcado em 9 de abril de 1812. Sua rebelião teve lugar no período de atividade antiescravista efervescente nas colônias do Atlântico que se seguiram à Revolução Haitiana, ao lado de tramas e conspirações em Trinidad, Jamaica, Estados Unidos, Porto Rico e Brasil.

Liderança revolucionária

Nos anos que antecederam o estabelecimento formal do Estado haitiano, Ferrer mostra, a liderança revolucionária da ilha adotou uma política externa militante e antiescravista, ordenando ataques a navios espanhóis envolvidos no tráfico de escravos e enviando agentes para agitar contra a escravidão dentro das colônias espanholas.

Esta política foi renovada em 1809, após as autoridades coloniais em Havana, contra as orientações de Madrid, se recusarem a reconhecer o Haiti e estabelecer relações amistosas. Em resposta, Henri Christophe, governante de um estado estabelecido na parte norte do Haiti, começou a interceptar navios de escravos destinados a Havana e redirecioná-los a portos haitianos, convidando os escravos a bordo para desembarcar como cidadãos livres e devolvendo a embarcação e sua tripulação ao porto de origem.

Alexandre Petion, presidente do estado do sul do Haiti, ofereceu assistência moral e material a Simón Bolívar em sua luta pela independência da Espanha em troca da promessa do revolucionário venezuelano de abolir a escravidão nos países libertados e não vender como escravos os africanos a bordo dos navios tomados pelos insurgentes bolivarianos.

No papel, no papel, o artigo trinta e seis da Constituição do Haiti de 1805 prometia que o país não “perturbará a paz e a administração interna de colônias estrangeiras”. Mesmo antes, em 1799, Toussaint Louverture havia informado os britânicos de uma conspiração francesa para provocar uma rebelião de escravos na Jamaica, a fim de proteger o comércio do Haiti com os britânicos e americanos. Alguns anos mais tarde, em 1804-5, Jean-Jacques Dessalines, agindo no interesse do Estado haitiano, proclamou que o antiescravismo continuaria sendo uma política exclusivamente interna.

Ferrer aponta para considerações de longo e curto prazo por trás de tais mudanças políticas. Na visão de longo prazo, o Haiti era um Estado fraco, sujeito a ataques armados por parte dos franceses, e vulnerável ao isolamento econômico e político de outras potências escravistas operando no Caribe.

Mas a liderança haitiana adaptava suas políticas em resposta a questões imediatas. Entre 1805 e 1806, tomaram uma posição cautelosa sobre as rebeliões de escravos no exterior. De 1808 a 1811, no entanto, eles se envolveram mais agressivamente nas lutas antiescravistas estrangeiras porque consideraram as novas condições estratégicas como mais promissoras.

A análise de Ferrer sugere que, embora a Revolução Haitiana tenha ocorrido no momento em que a revolução industrial começou a decolar, o jovem Estado já enfrentava as pressões exercidas pelo capital organizado internacionalmente. Mesmo no final do século XVIII, um estado revolucionário como o Haiti enfrentou o dilema, típico do século XX, de pesar o internacionalismo solidário em relação a interesses nacionais mais urgentes.

Existem notáveis paralelos entre a política externa, cambiante, dos líderes revolucionários haitianos e a dos líderes da Revolução Cubana de 1959. A política externa cubana oscilou entre a ofensiva revolucionária e a defesa nacional, tanto em resposta a mudanças históricas quanto em relação a diferentes países e regiões.

Uma política agressiva em Angola e na África do Sul coexistiu com uma abordagem conservadora, condicionada pela Guerra Fria, na Etiópia e na Eritreia. O apoio aos guerrilheiros comunistas em muitos países latino-americanos não impediu relações amigáveis com o partido governista corrupto do México, o Partido Revolucionário Institucional, e com a Espanha de Franco. Como o Haiti, Cuba era um Estado fraco, vulnerável às agressões de uma superpotência imperialista, e dependia do apoio econômico e militar soviético.

No entanto, a influência sobre Cuba do marxismo stalinista importado da URSS, com suas premissas políticas da realpolitik, cristalizou a inconstante política externa cubana em um método que converteu a necessidade em virtude. Já no caso do Haiti, as limitações que impediram a Revolução Haitiana de realizar plenamente seus objetivos transformaram o destino da revolução em tragédia.

Colaborador

Samuel Farber nasceu e foi criado em Cuba e escreveu extensivamente sobre esse país. Seu mais novo livro, The Politics of Che Guevara: Theory and Practice, já saiu pela Haymarket Books.

4 de março de 2014

Trotsky em Cuba

Como seu narrador em O Homem que Amava os Cachorros, Leonardo Padura foi feito para importar menos do que deveria.

Samuel Farber

Jacobin

Trotsky, a esposa Natalya e filho Sedov em Alma Ata (1928). Wikimedia.

Tradução / Há algum tempo, o escritor cubano Leonardo Padura explora seu desencanto com algumas das realidades de sua amada cidade por meio de seus romances sobre o detetive Mario Conde. Mas é em seu O Homem que Amava os Cachorros, que suas reflexões sociais e políticas sobre o socialismo e a liberdade – em Cuba e fora dela – alcançam sua maior profundidade.

Padura entrelaça as histórias do revolucionário russo Leon Trotsky e de seu assassino, o comunista catalão Ramón Mercader, que ele traz pelas lentes de um narrador cubano, um jornalista despedido do cargo por motivos políticos e forçado a trabalhar como revisor para um diário veterinário.

O fato histórico de que Mercader viveu em Cuba por cerca de quatro anos no final dos anos setenta, trabalhando como assessor do repressivo Ministério do Interior (e que sua mãe Caridad trabalhou durante sete anos como funcionária encarregada de relações públicas na embaixada cubana em Paris nos anos 60), dá a Padura os meios para conectar o assassino com o jornalista. Eles se encontram um dia quando Mercader, acompanhado por um guarda-costas, está passeando com seus amados cachorros na praia de Santa María del Mar onde o jornalista tinha ido ver o pôr do sol.

Sem expor sua identidade, Mercader revela muito de sua vida ao jornalista cubano, fingindo que está falando de uma terceira pessoa e não de si mesmo. E é por meio dessa convenção artística que Padura articula suas idéias sobre o stalinismo, sua psicologia e seus horrores, tanto na esfera da alta política quanto no plano individual. Ao contrário do estereótipo de comunistas semelhantes a robôs, Padura apresenta uma visão diferenciada de uma série de personalidades comunistas. Apesar do peso esmagador da ortodoxia ideológica e do terror, a individualidade de Mercader permanece.

Mercader é inicialmente um comprometido revolucionário lutando do lado republicano na Guerra Civil Espanhola, uma pessoa pensante com uma mente independente. Essa independência começa a ruir sob a pressão de seus camaradas comunistas, que continuamente o lembram de que “o partido está sempre certo e se você não entende, não importa: você tem que obedecer”.

Isso é minado ainda mais quando, depois de ter sido recrutado por oficiais da inteligência soviética, seu superior o informa no meio da Guerra Civil que o próprio Stalin ordenou o expurgo do comando republicano leal ao presidente socialista Largo Caballero. Com isso, Padura também desafia um dos muitos mitos sobre o papel do Partido Comunista e da URSS como salvadores da República Espanhola que ainda prevalecem em grande parte da esquerda internacional.

O golpe final na capacidade já decadente de Mercader de raciocinar de forma independente ocorre quando, em uma das cenas mais assustadoras do livro, o ativista comunista é transformado, em um campo de treinamento na URSS, no soldado anônimo número treze e é compelido a matar um homem desamparado e esfarrapado por ser um “cachorro trotskista, inimigo do povo”.


O outro comunista no romance de Padura é Trotsky, um homem que também amava cães. Com profundo conhecimento e compreensão da obra do líder bolchevique, o escritor cubano o descreve com genuína simpatia: perdido no exílio, privado da cidadania soviética e incapaz de encontrar asilo em qualquer país até que o presidente mexicano Lázaro Cárdenas lhe dá abrigo no México.

O Trotsky de Padura é um homem perseguido – muitos de seus parentes e seguidores foram assassinados por ordem de Stalin. Mas existem diferentes tipos de pessoas perseguidas. Existem aqueles como Nelson Mandela que, durante suas décadas sombrias na prisão, foi apoiado por um grande movimento social e político. E há quem, como Trotsky, perceba, como Padura o fez dizer: “Estou cada vez mais só, sem amigos, sem camaradas, sem família… Stalin levou todos eles. ”

Compreender essa solidão permite a Padura descrever um Trotsky que não se surpreende com as confissões absurdas extraídas das vítimas dos grandes expurgos dos anos 30 na URSS, mas que se entristece muito com a confissão auto-incriminatória de Christian Rakovsky, seu antigo camarada na luta contra Stalin, no terceiro julgamento de Moscou em 1938.

Instigado pela simpatia ao líder russo, Padura mostra Trotsky censurando-se internamente por não ter reconhecido os excessos que ele mesmo cometeu ao tentar defender a sobrevivência da revolução, “embora nunca o admitisse publicamente”, afirma o autor. O Trotsky imaginado por Padura lamenta as ações que tomou para militarizar os sindicatos ferroviários e as políticas coercitivas aplicadas durante a reconstrução pós-Guerra Civil, a substituição de dirigentes sindicais e até mesmo seu papel no esmagamento sangrento da revolta de Kronstadt.

Estas são especulações plausíveis, embora excessivas, de Padura à luz das revisões que Trotsky fez durante os anos 30 sobre muitas das idéias políticas que ele havia adotado particularmente durante a Guerra Civil de 1918-20 – revisões que o fizeram rejeitar, por exemplo, o princípio do partido único como pedra angular do socialismo no poder. Ao mesmo tempo, essas podem muito bem ser as projeções de Padura refletindo retrospectivamente sobre como um sistema semelhante foi implantado em seu próprio país.

Padura, vivendo sob uma espécie de comunismo em Cuba, também destaca Trotsky como um crítico literário que afirma, sem hesitar, que “tudo é permitido na arte”. Não por acaso, o escritor cubano destaca a ocasião em que André Breton, em sua visita ao México, diz a Trotsky que tudo é permitido na arte exceto ataques à revolução proletária. Trotsky responde que na arte nenhuma restrição pode ser permitida – que não há nada que uma ditadura deva impor ao criador sob a desculpa de necessidade histórica e política, e que a arte deve obedecer apenas às suas próprias exigências.


Com tanta simpatia e respeito pela verdade histórica como pela forma que trata Trotsky, seria um grande erro ver Padura como simpatizante do trotskismo. Sem diminuir a notável realização de Padura em retratar não apenas Trotsky, o homem, mas também Trotsky, o pensador político, ele falha em compreender, talvez por causa de sua própria formação política, certos conceitos estratégicos do pensamento trotskysta.

Padura apresenta com precisão a dura crítica de Trotsky ao comunismo alemão e sua política suicida em relação ao nazismo que tratava a social-democracia (“social fascismo”, de acordo com a linguagem dos stalinistas) como equivalente ao nazismo. Mas ele erroneamente deixa implícito que Trotsky defendeu uma espécie de Frente Popular de todas as forças de “centro e esquerda” para combater o nazismo e o fascismo. Em vez disso, ecoando o Comintern do início dos anos 20, Trotsky propôs uma política da Frente Unida que reuniria todas as forças da classe trabalhadora, que incluía a social-democracia, mas excluía os partidos burgueses, independentemente de quão liberais e democráticos eles fossem.

Em outras palavras, Trotsky apoiava uma política de classe, não uma política “popular”. Ele supôs, como no caso da Espanha, que a oposição ao fascismo só poderia ter sucesso se fosse baseada na mobilização dos interesses de classe, o que acabaria por levar à revolução socialista – a única alternativa real ao fascismo para Trotsky, dada a decadência da sociedade capitalista, mesmo em suas versões democráticas.

Qualquer dúvida que possa ter permanecido sobre as possíveis inclinações trotskistas de Padura foi removida por sua recente entrevista ao Espacio Laical, a publicação liberal católica cubana, onde ele disse que Trotsky tinha sido tão “fanático” quanto Mercader – uma declaração que parece completamente em desacordo com o espírito e a letra de O Homem que Amava os Cachorros.


Ainda assim, o personagem principal de O Homem que Amava os Cachorros não é Leon Trotsky nem Ramón Mercader. É a única figura da trama totalmente fictícia, a única das três que é cubana: o próprio narrador. Iván é um jovem jornalista que já foi punido duas vezes pelo sistema por ser muito independente na época que conhece Mercader.

Pouco depois de se formar na universidade, as autoridades o enviaram para a longínqua cidade de Baracoa para trabalhar como chefe da estação de rádio local – uma ação destinada a servir como um “corretivo” do governo cubano para “me derrubar e me impor este mundo”. Na segunda vez, ele foi enviado para trabalhar para uma revista veterinária como revisor. Então, para aumentar seus infortúnios profissionais, seu irmão é excluído da universidade por ser gay e desaparece ao tentar fugir para os EUA.

A história pessoal de Iván começa a se desenrolar na década de setenta, período que marca os quatro anos em que Mercader residiu em Cuba como assessor do Ministério do Interior e também o ponto alto da repressão política e cultural do stalinismo na ilha.

Foi durante esses anos “amargos” que Iván foi marginalizado e reprimido pelas autoridades cubanas – justamente quando começava a se revelar como escritor sério. Iván esclarece que a vida de escritores como ele não corria perigo naquela época. Em vez disso, o sistema os transformou em nada. Ou seja, conta Iván, quando soube o que era o medo:

Acho que naqueles anos devemos ter sido os únicos membros de nossa geração em toda a civilização estudantil ocidental que, por exemplo, nunca colocaram um baseado entre os lábios e que, apesar do calor correndo em nossas veias, nos libertaríamos tardiamente do atavismo sexual, liderado pelo maldito tabu da virgindade (não há nada mais próximo da moralidade comunista do que os preceitos católicos); no Caribe espanhol éramos os únicos que vivíamos sem saber que estava nascendo a salsa ou que os Beatles (os Rolling Stones e Mamas and the Papas também) eram os símbolos da rebelião e não da cultura imperialista, como nos diziam muitas vezes; e além disso, éramos, na época, os menos informados sobre a extensão das feridas físicas e filosóficas produzidas em Praga por tanques que funcionavam como mais do que ameaças, sobre o massacre de estudantes em uma praça mexicana chamada Tlatelolco, sobre a devastação histórica e humana desencadeada pela Revolução Cultural do nosso querido camarada Mao, e sobre o nascimento, para as pessoas da nossa idade, de outro tipo de sonho, morto nas ruas de Paris e nos concertos de rock da Califórnia.

Em seguida, situando-se nos anos 90, Iván revisita o nascimento e a morte das esperanças suscitadas pela Perestroika, a descoberta da verdade sobre o ditador romeno Nicolae Ceaucescu, os horrores da Revolução Cultural na China e a decepção por ter descoberto que o grande sonho de emancipação humana e igualdade estava mortalmente doente, e que genocídios como o cometido no Camboja pelo regime do Khmer Vermelho de Pol Pot foram cometidos em seu nome. O que parecia indestrutível havia se rasgado nas costuras.


Leonardo Padura, é um dos principais representantes de um novo ambiente intelectual e cultural da ilha que apoia a liberalização e democratização da sociedade cubana. Mas ele está em uma posição única no sistema cubano: embora tolerado e até festejado, sua obra mais crítica não foi divulgada ao grande público. Ele parece ter alcançado um grau muito maior de independência das autoridades do que outros artistas e intelectuais conhecidos na ilha.

Assim, ele tem apoiado criticamente o programa de reforma do governo, mas tem agido com muito mais independência do regime do que outros artistas e intelectuais cubanos de renome – por exemplo, abstendo-se de endossar muitas das declarações denunciando dissidentes patrocinados pelo aparato cultural do Estado cubano. Como o próprio Padura sugeriu em várias ocasiões, isso foi possível em parte devido à sua independência econômica do governo, que foi conquistada com a publicação de suas obras no exterior.

Nos agradecimentos ao final de O Homem que Amava os Cachorros, Padura escreve que a “semente” do livro começou a germinar em sua mente durante uma visita que fez, pouco tempo antes do colapso do bloco soviético, a casa de Trotsky no bairro de Coyoacán na Cidade do México, um museu que para ele era “um verdadeiro monumento à ansiedade, ao medo e ao triunfo do ódio durante a época em que os Trotsky moravam lá”.

Quinze anos depois, com a URSS morta e enterrada, diz o romancista cubano, ele contou a história do assassinato de Trotsky “para refletir sobre como a grande utopia do século XX foi corrompida”. Vergonhosamente, após ter sido publicado e comentado favoravelmente pela imprensa oficial da ilha, e mesmo tendo recebido o Prêmio Nacional de Literatura em 2012, a tiragem da edição cubana de seu livro foi tão pequena que ficou indisponível logo após sua apresentação pública.

O governo cubano quer matar dois coelhos com uma cajadada só: relaxar alguns controles políticos e ao mesmo tempo impedir a difusão de idéias que podem subverter seu monopólio de poder. Padura não foi censurado ou reprimido pelo governo cubano. Mas, semelhante a seu narrador Iván, ele foi modulado para ter menos importância do que deveria.

Colaborador

Samuel Farber nasceu e foi criado em Cuba e é autor de vários livros e artigos que tratam desse país. Ele é membro do Jewish Voice for Peace e apoia o BDS.

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