17 de fevereiro de 2018

Zeev Sternhell: "Em Israel, cresce um racismo próximo do nazismo em seus primórdios"

Em artigo publicado no Le Monde, o historiador, especialista em fascismo, compara a situação dos judeus antes da guerra à dos palestinos hoje

Zeev Sternhell


Uma bandeira israelense tremula no Monte das Oliveiras, a leste da Cidade Velha de Jerusalém, que aparece ao fundo, 22 de janeiro. AHMAD GHARABLI / AFP

Tradução / Tento às vezes imaginar como o historiador de daqui a cinquenta ou cem anos tentará explicar o nosso tempo. Em que momento começamos, ele se perguntará sem dúvida, a entender, em Israel, que o país, que se tornou um Estado constituído com a Guerra de Independência de 1948, fundado nas ruínas do judaísmo europeu e ao preço do sangue de 1% de sua população, incluindo milhares de combatentes sobreviventes do Holocausto, havia se tornado um monstro para os não-judeus sob seu jugo? Quando, exatamente, os israelenses, pelo menos em parte, perceberam que sua crueldade com os não-judeus sob seu controle nos territórios ocupados, sua determinação de destruir a esperança da liberdade e independência dos palestinos ou sua recusa em conceder asilo aos refugiados africanos começavam a minar a legitimidade moral de sua existência nacional?

A resposta, dirá talvez o historiador, se encontra no microcosmo das ideias e atividades de dois importantes membros da maioria, Miki Zohar (Likud) e Bezalel Smotrich (Lar Judaico), representantes fiéis da política governamental, que passaram a ocupar recentemente os holofotes. Mais importante ainda é o fato de esta mesma ideologia estar na raiz dos chamados projetos de lei "fundamentais" – isto é, constitucionais – que a Ministra da Justiça, Ayelet Shaked, com o imediato consentimento do primeiro-ministro Benyamin Netanyahu, propõe levar rapidamente à votação no Knesset.

Shaked, número dois do partido da direita religiosa nacionalista, o Lar Judaico, além de seu nacionalismo extremo, representa perfeitamente uma ideologia política segundo a qual uma vitória eleitoral justifica o controle de todos os órgãos do Estado e da vida social, desde a administração à justiça, passando pela cultura. No espírito desta direita, a democracia liberal não passa de infantilidade. O significado de tal movimento é fácil de entender para um país de tradição britânica que não possui uma Constituição escrita, apenas regras de comportamento e um quadro legislativo que pode ser mudado por maioria simples.

O elemento mais importante desta nova jurisprudência é uma legislação chamada "lei do Estado-nação": trata-se de duro ato constitucional nacionalista, que não seria renegado pelo nacionalismo integral de Charles Maurras, e que nem a Sra. Le Pen, hoje, se atreveria a propor – mas que poderia ser acolhido com satisfação pelos movimentos nacionalistas autoritários e xenófobos polonês e húngaro. Eis-nos diante de judeus que esqueceram que seu destino, desde a Revolução Francesa, está ligado ao liberalismo e aos direitos humanos e hoje produzem um nacionalismo alinhado com o mais empedernido chauvinismo europeu.

A impotência da esquerda

Esta lei tem o objetivo declarado de submeter os valores universais do Iluminismo, do liberalismo e dos direitos humanos aos valores particularistas do nacionalismo judaico. Ela forçará a Suprema Corte – cujas prerrogativas Shaked, em todo caso, se empenha em reduzir, além de minar seu caráter liberal tradicional, substituindo, sempre que possível, os juízes que se aposentam por advogados próximos – a dar veredictos sempre em consonância com a letra e o espírito da nova legislação.

A ministra vai ainda mais longe: ela acaba de declarar que os direitos humanos terão que se curvar à necessidade de garantir uma maioria judaica. Mas como nenhuma ameaça pesa sobre esta maioria em Israel, onde 80% da população é judaica, trata-se de preparar a opinião pública para a nova situação: no caso da anexação dos territórios palestinos ocupados, desejada pelo partido da ministra, a população não-judaica será privada do direito de voto.

Graças à impotência da esquerda, esta legislação será o primeiro prego no caixão da antiga Israel, da qual restará apenas a declaração de independência como peça de museu para lembrar às gerações futuras o que nosso país poderia ter sido se nossa sociedade não tivesse se degenerado moralmente em meio século de ocupação, colonização e apartheid nos territórios conquistados em 1967, hoje ocupados por cerca de 300 mil colonos.

Hoje, a esquerda já não é capaz de fazer frente a um nacionalismo que, em sua versão europeia, bem mais extrema que a nossa, havia quase conseguido aniquilar os judeus da Europa. Por isso é aconselhável que sejam lidas, em Israel e no mundo judeu, as duas entrevistas feitas por Ravit Hecht para o Haaretz (de 3 de dezembro de 2016 e 28 de outubro de 2017) com Smotrich e Zohar. Fica claro como cresce, sob nossos olhos, não um mero fascismo local, mas um racismo próximo ao nazismo em seus primórdios.

Como toda ideologia, o racismo alemão também evoluiu e, originalmente, atacava apenas os direitos humanos e cidadãos dos judeus. É possível que, sem a Segunda Guerra, o "problema judeu" se resolvesse por uma emigração "voluntária" dos judeus dos territórios controlados pela Alemanha. Afinal, quase todos os judeus da Alemanha e da Áustria conseguiram sair a tempo. Não se deve excluir a hipótese de que, para alguns setores da direita, a mesma sorte possa ser reservada aos palestinos. Seria necessária apenas uma oportunidade, uma boa guerra, por exemplo, acompanhada por uma revolução na Jordânia, que pudesse empurrar a maioria dos habitantes da Cisjordânia ocupada para o Leste.

O espectro do apartheid

Os Smotrich e os Zohars, sejamos claros, não pretendem atacar fisicamente os palestinos, desde que, obviamente, estes aceitem a hegemonia judaica sem resistência. Eles simplesmente se recusam a reconhecer os direitos humanos dos palestinos, seu direito à liberdade e independência. Da mesma forma, no caso da anexação oficial dos territórios ocupados, eles e seus partidos políticos já anunciam sem rodeios que negarão a nacionalidade israelense aos palestinos, bem como, é claro, o direito ao voto. Para a maioria no poder, os palestinos estão condenados para sempre ao status de população ocupada.

A razão é simples e claramente enunciada: os árabes não são judeus e, portanto, não têm o direito de reivindicar a propriedade de qualquer parte da terra prometida ao povo judeu. Para Smotrich, Shaked e Zohar, um judeu do Brooklyn que talvez nunca tenha posto os pés nesta terra, é um proprietário legítimo, mas o árabe que nasceu ali, assim como seus antepassados, é um estranho cuja presença é aceita apenas pela boa vontade dos judeus e sua humanidade. O palestino, diz Zohar, "não tem direito à autodeterminação porque ele não é dono da terra. Eu o quero como residente, por causa de minha honestidade, uma vez que ele nasceu aqui, mora aqui, não vou dizer-lhe para ir embora. Lamento dizê-lo, mas [os palestinos] sofrem de uma lacuna importante: não nasceram judeus".

O que significa que, mesmo que os palestinos decidissem se converter, começassem a deixar os peiot crescer e a estudar a Torá e o Talmud, de nada adiantaria. Assim como aos sudaneses e eritreus e seus filhos, que são israelenses em todos os aspectos – língua, cultura, socialização. Era a mesma coisa entre os nazistas. Depois vem o apartheid, que, de acordo com a maioria dos "pensadores" da direita, poderia, em certas condições, se aplicar aos árabes cidadãos israelenses desde a fundação do estado. Para nosso infortúnio, muitos israelenses que se envergonham de tantos de seus representantes eleitos e desprezam suas ideias, por variadas razões, continuam a votar na direita.

* Historiador, membro da Academia de Ciências e Letras de Israel, professor da Universidade Hebraica de Jerusalém, especialista em história do fascismo

Nenhum comentário:

Postar um comentário