22 de novembro de 2021

Todos devem ter o direito de se desligar do trabalho

Portugal proibiu os empregadores de fazer contato não emergencial com funcionários fora do horário de trabalho. O "direito de desconectar" é uma boa ideia - mas é necessária mais proteção para os trabalhadores precários que não cumprem horários fixos.

Joana Ramiro

Jacobin

No início de novembro, os legisladores portugueses tornaram ilegal que os chefes contatassem os funcionários após o horário de trabalho. (Daria Nepriakhina / Unsplash)

Tradução / No início de novembro de 2021, os legisladores portugueses tornaram ilegal que os chefes contatassem os funcionários após o horário de trabalho. A nova lei estabelece que, exceto em casos de força maior, “o empregador tem o dever de abster-se de contactar o trabalhador durante o período de descanso”. As empresas que infringirem a nova regra correm o risco de ter que arcar com pesadas multas. A medida foi elaborada por um comitê parlamentar com foco no “admirável mundo novo” do trabalho em casa (home office). Mas, como se trata de uma mudança na legislação trabalhista, ela se aplicará a todos os funcionários, estejam estes trabalhando remotamente ou não.


As notícias dessa política sendo implementada em um pequeno país na extremidade da Europa rapidamente chegaram às manchetes no mundo todo. Em um mundo que ainda tenta descobrir quais arranjos de trabalho são temporários e quais são permanentes, após a pandemia, qualquer intervenção desse tipo será vista como vanguarda. No entanto, embora a medida pareça particularmente relevante em tempos de pandemia, ela não é inédita nem uma resposta a um problema específico do COVID-19.

Em 2016, o governo francês aprovou uma lei consagrando o “direito de desconectar”, protegendo os trabalhadores de quaisquer penalidades decorrentes de não responder a e-mails e ligações fora do horário de trabalho. Nesse mesmo ano, uma legislação semelhante foi introduzida pelos governos italiano e espanhol. Na Alemanha, embora a política ainda não seja lei, tem sido uma prática popular entre alguns dos maiores empregadores do país desde o início dos anos 2010. Em abril, a Irlanda introduziu um código de conduta que complementa a legislação existente que protege os funcionários contra o excesso de trabalho.

Mas a lei portuguesa também vai além da ideia do “direito de desligar” do trabalhador. Ele transfere para o empregador o ônus de deixar o empregado livre fora do horário de expediente. Isso não é uma mera diferença semântica, mas significa recuar contra os chefes que têm rédea solta. A lei elaborada em outros países europeus, no melhor dos casos, dá aos trabalhadores algumas ferramentas para se defenderem dos excessos dos patrões – se eles encontrarem forças para revidar. A versão portuguesa torna esses excessos ilegais desde o princípio.

No entanto, embora a nova lei tenha muito a ser comemorada, ela encontrou reações reveladoras e contraditórias do lado progressista da política portuguesa. Foi aprovado no parlamento sem o apoio do Partido Comunista ou de quaisquer forças centristas, com exceção aos socialistas governantes. O Bloco de Esquerda mostrou apoio vacilante à proposta, abstendo-se durante a fase de redação, mas acabou votando junto com o Partido Socialista. As razões para essas visões conflitantes talvez residam, em parte, na compreensão política dessas forças sobre o direito ao trabalho (e direitos no trabalho) sob um sistema capitalista. Mas, principalmente, eles se resumem à imprecisão da linguagem do documento e ao conhecimento de que, no terreno, há problemas maiores a serem resolvidos antes de saudar o direito – ou o dever – de desconectar.

Compensação para problemas maiores

Portugal está, desde muito tempo, entre os países da União Europeia com maior número de horas de trabalho anuais. No ano passado, ficou em décimo primeiro lugar no ranking da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), com uma média de 1.613 horas por trabalhador. Esta foi uma diminuição significativa em relação aos tempos pré-pandêmicos: os dados de 2019 mostraram trabalhadores portugueses colocando 1.745 horas do ano em trabalho. Para efeito de comparação, a média da União Européia é de 1.513 horas por ano, enquanto os trabalhadores na Alemanha, o país com classificação mais baixa, têm uma média de 1.332 horas. Isto significa que trabalham menos sete semanas de trabalho (de quarenta horas) por ano do que os trabalhadores portugueses.

Mas, embora essas estatísticas integrem considerações muitas vezes negligenciadas, como horas extras não pagas, elas não podem transmitir toda a cultura de trabalho destes países. Portugal, apesar de toda a sua poderosa história sindical, foi prejudicado por décadas de contra-reformas e doutrinação cultural, somadas a baixos salários endêmicos. Os direitos dos trabalhadores conquistados ao longo do revolucionário ano de 1974, estendendo-se até o final daquela década, foram destruídos em meados da década de 80 com o avanço da era neoliberal. Em seu lugar, sucessivos governos portugueses instalaram um sistema que fornece subsídios medíocres aos desempregados, em vez de defender os trabalhadores de uma demissão fácil ou seu direito a um salário decente.

Em 2019, o salário mensal médio era de cerca de € 1.300, segundo estatísticas oficiais, e o salário mínimo de € 600 por mês: este segundo, uma renda que 21% da população estimava viver e que considerava bem difícil de conseguir sobreviver com ela. Em 2021, Portugal entra na segunda geração de trabalhadores habituados à precariedade laboral, com salários miseráveis e um ambiente de trabalho fértil para abusos. O trabalho remoto apenas agravou uma situação já terrível.

Realidade desconectada

“Maria” é assistente de atendimento ao cliente em um call center. O problema dela não tem sido tanto seu gerente, mas a equipe de tecnologia da informação com a qual ela trabalha. Problemas com senhas e outros problemas de acessibilidade geralmente são resolvidos após o horário de trabalho, via texto. Mas as intrusões às vezes vão além de uma rápida troca no WhatsApp. No caso “mais grave”, Maria havia reclamado de um problema em sua tela e não recebia retorno dos técnicos responsáveis ​​há algum tempo. Mas “assim que saí de férias me ligaram às 7h e exigiram do meu supervisor que eu ligasse o computador”. Ela teve que discutir com seu gerente para que pudesse ter seu direito assegurado durante suas férias.

Há alguns anos, na região de Leiria, um hotel abandonado contratou os serviços do trabalhador de manutenção José Bettencourt Costa e Silva. O edifício estava particularmente degradado, fato pelo qual José era frequentemente chamado pela administração após o horário de trabalho para resolver vários problemas. “Como conseguia entender a infraestrutura, se era um problema de ar condicionado, aquecimento de água e etc., consegui fazer um guia pelo telefone.” Isso aconteceu muitas vezes — e sua mão de obra extra e não remunerada era tão apreciada que, mesmo depois de deixar o emprego, José era frequentemente chamado para treinar novos funcionários ou dar uma ajudinha quando não encontravam ninguém com tamanha facilidade. As interrupções acabaram atrapalhando também sua vida doméstica: “Tenho sono pesado, então não acordava, mas minha mulher acordava com as ligações e me acordava em seguida.”

José acha que a nova lei é um bom avanço, nem que seja para pressionar as empresas a pagar pelo tempo gasto pelos trabalhadores enquanto deveriam estar descansando. No entanto, José sabe que, em situações de crise, o chefe irá e ainda poderá contatar legalmente os trabalhadores, independentemente da hora do dia. Nesse ponto, José é pragmático: “Pode acontecer mas [de certa forma] que seja valorizado”. Só que no caso dele, ele “nunca foi valorizado ou remunerado, [então era] impossível quantificar [quanto disso era trabalho em hora extra]”.

E aqui reside a maior crítica à nova lei: a sua imprecisão. O sindicato dos trabalhadores de call centers portugueses, STCC, chamou-a de “insuficiente e pior… muito incerta”. Segundo o sindicato, o STCC foi convidado a contribuir para os trabalhos da comissão parlamentar, mas as sugestões apresentadas durante ficaram invisíveis no documento final. No mesmo comunicado, divulgado nas redes sociais do sindicato, o STCC questiona o que constitui um caso de força maior que permitiria aos empregadores interromper legalmente o descanso dos trabalhadores.

De fato, embora a maioria concorde que a leitura de “força maior” deva ser reservada para tragédias maiores, não é difícil imaginar alguns chefes distorcendo a definição de acordo com sua vontade. O hotel onde José trabalhava não poderia argumentar que as questões para as quais seus serviços eram necessários eram de fato emergências? Como a lei enfrentará o problema crescente da indisponibilidade repentina de um trabalhador para comparecer ao trabalho (digamos, se for diagnosticado com COVID) e a administração precisa substituí-lo com urgência?

Poderíamos nos perguntar especialmente como isso ajudaria uma trabalhadora como Ana Catarina. No último verão, a estudante de Lisboa candidatou-se a trabalho num camping. Ana Catarina nunca recebeu um “contrato real”, mas precisava muito do dinheiro e aceitou. Como membro da equipe, ela também acampou no local e trabalhou no café-bar, o que parecia um bom negócio. Mas as coisas rapidamente azedaram. “Assim que cheguei lá me vi trabalhando mais de 8 horas por dia, quase todos os dias. Acabei trabalhando até 14 horas, tendo efetivamente que ‘preencher turnos’ e tendo apenas uma folga por semana, que seria interrompida por ligações e mensagens do chefe.” Sempre que um colega não aparecia, independentemente da hora ou do dia, o gerente de Ana Catarina a assediava para os substituir.

Seu horário de trabalho ou quaisquer planos que ela pudesse ter feito para os dias de descanso eram constantemente arruinados. “Nós efetivamente não podíamos recusar e dizer não. No fundo, como tínhamos medo de não ser pagos, e como não havia um registro de que, sequer, trabalhávamos lá, tivemos de aguentar.” No entanto, a nova reforma faz poucas provisões para situações de trabalho ocasional não regulamentado, de que dependem muitos trabalhadores portugueses. Mas, mesmo que a situação fosse normal, a necessidade do chefe de Ana Catarina de substituir funcionários de emergência não poderia ser considerada por ele como sendo de “força maior”?

Tempo de fazer mais

A Autoridade para as Condições de Trabalho de Portugal (ACT) há muito tempo tem políticas sobre horas semanais máximas de trabalho (40), horas extras (nunca mais de 150 horas por ano) e descanso (a cada 5 horas trabalhadas e pelo menos 11 horas entre dois dias úteis). Dito isto, existem exceções e brechas legais, incluindo o chamado “regime de adaptabilidade” que muitos empregadores usaram indiscriminadamente durante a pandemia para legalizar seus funcionários que trabalham remotamente. É seguro dizer que é um sistema de trabalho cheio de “áreas cinzentas”, onde os trabalhadores muitas vezes são deixados à mercê da empresa devido ao seu analfabetismo legislativo.

“Mudar a lei não muda as práticas sociais. Os abusos de tempo têm muitas dimensões e as relações laborais são marcadas por uma grande desigualdade”, escreveu o deputado do Bloco de Esquerda José Soeiro na sua página de Facebook. “Mas o fato de a lei dar esse sinal é de grande significado político e jurídico. E isso significa que os trabalhadores têm mais uma arma para empunhar na luta por seu tempo.”

O problema então reside – como tantas vezes parece estar – no eterno malabarismo parlamentar da esquerda entre promover reformas imediatas sem comprometer o objetivo final. Além disso, com as eleições gerais no final de janeiro de 2022, a posição de cada partido no parlamento foi de sinalizar para seu próprio círculo eleitoral. Para o Bloco de Esquerda, valeu a pena votar nas conquistas da nova legislação trabalhista. Enquanto os comunistas estavam, aparentemente, determinados a ir mais longe.

No final, os trabalhadores em Portugal vão ver se os patrões cumprem o seu novo “dever” e se serão mesmo aplicadas sanções aos que não o fazem. E só os trabalhadores portugueses poderão dizer se valeu a pena todo o alarido na imprensa internacional sobre a política – ou se serão necessárias medidas mais revolucionárias.

Colaborador

Joana Ramiro é jornalista, escritora, radialista e comentarista política residente em Londres.

Vacina de Cuba pode acabar salvando milhões de vidas

Graças ao seu setor público de biotecnologia e ao profundo compromisso de seu governo com a saúde pública, Cuba é agora o único país de baixa renda a ter feito sua própria vacina contra a COVID-19. Já ajudou milhões de cubanos e está prestes a ajudar outros milhões em todo o mundo.

Branko Marcetic


Um trabalhador médico mostra uma dose da vacina Cuba Soberana 2 contra COVID-19 em uma escola em Havana, Cuba. (Joaquin Hernandez / Xinhua via Getty Images)

Tradução / Grande parte da cobertura da imprensa sobre Cuba na semana passada se concentrou nos protestos antigovernamentais que não ocorreram. Menos coberto pela mídia tem sido algo com um significado global potencialmente maior: sua campanha de vacinação.

Depois de 12 meses terríveis, quando uma reabertura apressada causou um novo surto de pandemia, o pico de mortes e o país de volta a uma nova paralisação, um programa de vacinação bem-sucedido reverteu a pandemia no país. Cuba é agora um dos poucos países de renda mais baixa que não apenas vacinou a maioria de sua população, mas o único que o fez com uma vacina que desenvolveu por conta própria.

A saga sugere um caminho a ser seguida pelos países em desenvolvimento, à medida que continua lutando contra a pandemia em face do apartheid de vacinas impulsionado pelas corporações e aponta de forma mais ampla o que é possível fazer quando a ciência médica é dissociada do lucro privado.

Uma jogada segura

De acordo com a Universidade Johns Hopkins, até o momento em que este artigo foi escrito, Cuba vacinou totalmente 78% de sua população, colocando-a em nono lugar no mundo, acima de países ricos como Dinamarca, China e Austrália (Estados Unidos, com pouco menos de 60% de sua população vacinada, está classificada em quinquagésimo sexto). A reviravolta desde o início da campanha de vacinação em maio reanimou a sorte do país frente o duplo choques da pandemia e uma intensificação do bloqueio dos EUA.

Após um pico de quase 10 mil infecções e quase 100 mortes por dia, ambos os números despencaram. Com 100% do país tendo tomado pelo menos uma dose de vacina até o final do mês passado, o país reabriu suas fronteiras em 15 de novembro para o turismo, que representa mais de um décimo de sua economia, e reabriu escolas. Isso torna Cuba uma exceção entre os países de baixa renda, que vacinaram apenas 2,8% de suas populações. Isso se deve em grande parte ao acúmulo de vacinas pelo mundo desenvolvido e à restrição dos monopólios de patentes, que impedem os países mais pobres de desenvolver versões genéricas das vacinas que foram produzidas com financiamento público – vale ressaltar.

A chave para obter este resultado foi a decisão de Cuba de desenvolver suas próprias vacinas, duas das quais – Abdala, cujo nome deriva de um poema escrito por um herói da independência, e Soberana 2 – receberam, finalmente, a aprovação regulamentar oficial em julho e agosto. Nas palavras de Vicente Vérez Bencomo, o aclamado internacionalmente chefe do Finlay Vaccine Institute do país, Cuba estava “apostando que era seguro” esperar mais tempo para fabricar suas próprias vacinas. Dessa forma, evitaria a dependência de aliados maiores, como Rússia e China, ao mesmo tempo em que acrescentaria uma nova exportação comercial em um momento de dificuldades econômicas contínuas.

Esses esforços já estão em andamento. O Vietnã, com apenas 39% de sua população vacinada, fechou um acordo para comprar 5 milhões de doses, com Cuba recentemente despachando mais de 1 milhão delas para seu aliado comunista, entre as quais 150 mil foram doadas. A Venezuela (32% totalmente vacinada) também concordou em comprar US$ 12 milhões da vacina de três doses e já começou a administrá-la, enquanto o Irã (51%) e a Nigéria (1,6%) concordaram em fazer uma parceria com o país para desenvolver sua próprias vacinas. A Síria (4,2%) discutiu recentemente com autoridades cubanas a perspectiva de fazer o mesmo.

As duas vacinas fazem parte de um conjunto de cinco vacinas de COVID que Cuba está desenvolvendo. Isso inclui uma vacina usada por via nasal que progrediu para a fase II de estudos clínicos. Ela é uma das apenas 5 vacinas em todo o mundo que têm uma aplicação nasal, de acordo com um de seus principais cientistas, que poderia ser particularmente útil se provada ser segura e eficaz, devido à entrada do vírus pela cavidade nasal. Também inclui uma injeção de reforço especialmente projetada para funcionar com aqueles já inoculados com outras vacinas e que foi recentemente testada em turistas italianos. Desde setembro, Cuba está em processo de obter a aprovação da Organização Mundial da Saúde (OMS) para suas vacinas, o que abriria a porta para sua adoção generalizada.

Uma vacina diferente

Vários aspectos tornam as vacinas cubanas únicas, além de seu país de origem, de acordo com Helen Yaffe, professora sênior de história econômica e social da Universidade de Glasgow. No cerne disso está a decisão de Cuba de buscar uma vacina de proteína mais tradicional, em vez da tecnologia de mRNA mais experimental usada para as vacinas da COVID com as quais nos familiarizamos, que estavam em desenvolvimento há décadas antes do início da pandemia forçar um avanço.

Por isso, a vacina cubana pode ser mantida na geladeira ou mesmo em temperatura ambiente, ao contrário das temperaturas subpolares que a vacina da Pfizer deve ser armazenada ou das temperaturas de congelamento exigidas pela vacina da Moderna. “No Sul Global, onde grande parte da população não tem acesso à eletricidade, é apenas mais um obstáculo tecnológico”, diz Yaffe.

E embora a tecnologia de mRNA, que nunca foi usada em crianças antes, significou um lapso entre a vacinação de adultos e crianças no mundo desenvolvido – e significa que vacinas para crianças menores de 5 anos ainda estão sendo desenvolvidas – Cuba pretendia desde o início criar uma vacina que as crianças poderiam receber. A partir deste mês, já foram totalmente vacinados mais de quatro quintos de todas as crianças de 2 a 18 anos.

Enquanto cerca de dois terços de todas as crianças foram excluídas da escola na América Latina e no Caribe em setembro, Cuba agora reabriu as salas de aula. Gloria La Riva, ativista e repórter independente que visitou Cuba durante todo o ano e está em Havana desde meados de outubro, descreveu a cena da Ciudad Escolar 26 de Julio quando pais e avós compareceram para a reabertura da escola.

“É muito importante para as famílias”, diz ela. “Todos sentem um orgulho enorme.”

O poder de iniciativas sem fins lucrativos

Há mais um fator que diferencia a vacina cubana. “A vacina cubana é 100% produto de um setor público de biotecnologia”, diz Yaffe.

Enquanto nos Estados Unidos, e em outros países desenvolvidos, medicamentos que salvam vidas são desenvolvidos em grande parte graças ao financiamento público antes que seus lucros e distribuição sejam cruelmente privatizados para o enriquecimento corporativo, o setor de biotecnologia de Cuba é de propriedade e financiamento totalmente públicos. Isso significa que Cuba desmercantilizou um recurso humano vital – a direção política exatamente oposta que vimos nas últimas quatro décadas de neoliberalismo.

Cuba despejou bilhões de dólares na criação de uma indústria doméstica de biotecnologia desde os anos 1980, quando uma combinação de surto de dengue e novas sanções econômicas do então presidente Ronald Reagan aconteceu. Apesar de um bloqueio esmagador dos Estados Unidos, responsáveis por um terço da produção farmacêutica mundial, o setor de biotecnologia de Cuba tem prosperado: faz quase 70% dos cerca de 800 medicamentos que os cubanos consomem e 8 das 10 vacinas da imunização nacional e exporta centenas de milhões de vacinas por ano. As receitas são então reinvestidas no setor.

“Todas essas vacinas que têm um impacto muito grande na ciência são vacinas muito caras, economicamente inacessíveis ao país”, disse Vérez Bencomo recentemente sobre a decisão de Cuba de desenvolver suas próprias vacinas.

O setor é aclamado internacionalmente. Cuba ganhou dez medalhas de ouro da Organização Mundial de Propriedade Intelectual das Nações Unidas (OMPI) por, entre outras coisas, desenvolver a primeira vacina contra meningite B do mundo em 1989. Em 2015, Cuba se tornou o primeiro país a eliminar a transmissão de mãe para filho do HIV e da sífilis, resultado tanto dos medicamentos retrovirais que produziu quanto de seu robusto sistema de saúde pública.

Desta forma, Cuba tem sido capaz de fazer o impensável, desenvolver sua própria vacina e ultrapassar grande parte do mundo desenvolvido na superação da pandemia, apesar de seu tamanho, nível de riqueza e de uma política de estrangulamento econômico promovido por um governo hostil muito poderoso e próximo. Os esforços de solidariedade internacional também foram vitais. Quando o bloqueio dos Estados Unidos resultou em falta de seringas na ilha, comprometendo sua campanha de vacinação, grupos solidários dos Estados Unidos enviaram 6 milhões de seringas a Cuba, com o governo mexicano enviando mais 800 mil e mais de 100 mil no topo disso vindo de cubanos na China.

Uma fonte de esperança

Mesmo assim, há alguma incerteza em torno das vacinas de Cuba. Seu uso na Venezuela encontrou a objeção dos sindicatos de pediatras e academias médicas e científicas do país, da mesma forma que outros críticos, que afirmam que os resultados do teste da vacina não foram revisados por pares e publicados em revistas científicas internacionais. A Organização Pan-Americana da Saúde pediu a Cuba que tornasse públicos os resultados.

Por sua vez, Vérez Bencomo culpa a comunidade internacional hostil a Cuba. Em uma entrevista em setembro, ele denunciou que os cientistas cubanos estavam sendo discriminados por grandes periódicos, que, segundo ele, rejeitaram propostas de cubanos, publicando posteriormente pesquisas semelhantes de outros países, e atuam como “uma barreira que tende a marginalizar os resultados científicos que vêm de países pobres”.

Essas são acusações muito sérias de um cientista respeitado globalmente. Vencedor do Prêmio Nacional de Química de Cuba e da Medalha de Ouro da WIPO em 2005, Vérez Bencomo liderou a equipe que trabalhou com um cientista canadense para desenvolver a primeira vacina semissintética do mundo, criando uma injeção mais acessível para proteger contra Haemophilus influenza tipo B, uma vacina de baixo custo contra a meningite. Ele foi impedido em 2005 de viajar para a Califórnia para receber um prêmio por ela, com o Departamento de Estado de George W. Bush considerando sua visita “prejudicial aos interesses dos Estados Unidos”. Em 2015, ele foi nomeado Cavaleiro da Legião de Honra pelo então ministro dos Assuntos Sociais e da Saúde da França, que o elogiou por seu trabalho e o chamou de “amigo da França”. (Vérez Bencomo não respondeu a um pedido de entrevista).

Embora a recuperação de Cuba na pandemia sugira que a confiança dele e do governo cubano nas vacinas não está errada, pode levar mais algum tempo para que elas obtenham o aval oficial da comunidade científica internacional. Caso venha a acontecer, provaria ser uma refutação poderosa do modelo corporativo de vacinas que tem dominado o debate até agora, que sustenta que, de acordo com os pontos de discussão da indústria farmacêutica, apenas a competição orientada para o lucro pode produzir o tipo de inovação que salva vidas num mundo desesperado por resultados.

Talvez o ponto mais importante é que agora há uma maneira de o mundo em desenvolvimento finalmente rastejar para fora do buraco em forma de pandemia do qual se encontra hoje, meses depois das vacinas terem sido lançadas nos países ricos. Os governos ocidentais continuaram a se opor aos apelos do Sul Global para renunciar às patentes de vacinas e permitir que fabricassem ou comprassem versões genéricas mais baratas, deixando a vasta maioria da população mundial ainda vulnerável ao vírus – e, ironicamente, colocando todos nós em perigo, caso novas cepas resistentes à vacina sofram mutação. Nesse sentido, todos devemos esperar que as vacinas de Cuba tenham tanto sucesso quanto seus cientistas fazem crer.

Sobre o autor

Branko Marcetic é escritor da redação da Jacobin e mora em Toronto, Canadá.

21 de novembro de 2021

Destruir a democracia é central para a privatização dos bens públicos

A obsessão dos liberais com a privatização não se resume em transformar bens públicos em uma fonte de lucro para um pequeno punhado de ricos. Trata-se também de atropelar os pilares da democracia.

Donald Cohen e Allen Mikaelian


Os conselheiros econômicos de Ronald Reagan reconheceram que nunca conseguiriam convencer os eleitores a desistir de serviços básicos do governo. Com a privatização como ferramenta, eles não precisavam. (Dirck Halstead / Getty Images)

Tradução / A privatização acontece porque faz parte de uma estratégia política ampla, por causa da desigualdade de acesso ao poder, e por causa da pura e simples ganância. A privatização também acontece quando os direitos, as liberdades e a democracia estão em seu caminho.

Em 2017, Kansas City, Missouri, enfrentou um grave problema com crimes e violência armada no distrito de Westport. Legitimamente preocupados com o aumento de incidentes com armas de fogo (nem todos eles envolveram um tiroteio), os empresários queriam um cordão colocado ao redor de um cruzamento particularmente problemático, que permitisse a circulação de um bloco em cada direção, que proibisse a entrada, a menos que os clientes concordassem com uma revista em busca de armas. Essa era a única maneira que eles podiam pensar em lidar com a violência.

O que as empresas queriam era claramente inconstitucional: não se pode parar as pessoas em uma rua pública para revistas pessoais em busca de armas sem causa provável. Mas e se as ruas não fossem públicas?

Em uma votação de 8-5, a prefeitura deu a um consórcio de restaurantes e bares a propriedade das ruas e calçadas em questão. De graça. O espaço público tornou-se propriedade privada, permitindo às empresas bloquear as ruas e exigir que todos os que entrassem se submetessem a uma revista por uma equipe de segurança privada.

A cidade concordou em continuar a manter este espaço privado com sua gama completa de serviços públicos municipais – reparos de estradas, abastecimento de água, saneamento – tudo às custas públicas. Mas se a cidade quiser suas ruas de volta, o acordo estipula que terá que pagar 132.784 dólares.

Diante de um problema público, este órgão eleito se concentrou em uma solução que utilizou a privatização como um ponto crucial para negar os direitos de seus próprios cidadãos. Este conselho municipal não é o primeiro a lidar com a violência relacionada às boates; no entanto, é provável que seja o primeiro a levantar as mãos e afirmar que a privatização das ruas públicas é a única solução.

Entrando na área privatizada em Westport, passa-se do conjunto de regras que todos nós tivemos a oportunidade de criar para um conjunto de regras criadas pelos novos proprietários do distrito. Passamos de um conjunto de arranjos recíprocos e mútuos para um arranjo de cima para baixo. Passamos de um contrato social para um conjunto de contratos individuais. Passamos de um cidadão com direitos a um consumidor que tenha entrado em um acordo com uma empresa – neste caso, um acordo que exige que sejamos revistados.

É aqui que a privatização nos leva, e vai contra as lutas de nossa nação para expandir a democracia e os direitos civis.

As liberdades que nós construímos

Há mais de cem anos, no último quarto do século XIX, os ricos residentes de várias cidades – Nova Iorque, Chicago e Cleveland, para citar algumas – fizeram uma parceria com o governo para construir arsenais no meio de complexos ricos. Os ricos pagaram por eles, mas os militares os ajudaram, e eles foram projetados para servir de redutos para os ricos se as massas se levantassem.

O arsenal de Chicago era cercado por casas opulentas e pago por seus residentes, que também se abasteciam de canhões, centenas de fuzis e uma Metralhadora Gatling. O novo arsenal de Nova York no Upper East Side tinha William Astor como chefe da arrecadação de fundos e colocou comodidades adequadas para um milionário – uma biblioteca de mogno e um “Veterans’ Room” projetado por Louis Comfort Tiffany – dentro de paredes adequadas para um cerco.

Durante este tempo de industrialização desenfreada, os medos dos ricos e poderosos sobre as massas trabalhadoras aumentaram e eles começaram a duvidar se os Estados Unidos era realmente tão diferente da Europa, onde a luta de classes estava bem à superfície. O problema, decidiram eles, era a liberdade demais. Demasiada democracia. O racismo e a xenofobia também desempenharam seus papéis já conhecidos; era mais fácil acreditar na capacidade do “povo” de governar antes que aquele corpo incluísse escravos libertados e um número sem precedentes de imigrantes. E assim as elites tomaram várias medidas para limitar a democracia e a liberdade depois de décadas de observação da sua expansão.

A democracia reduziu-se drasticamente no Sul, pois os escravos libertados perderam a liberdade sob Jim Crow. As oportunidades de cidadania se enfraqueceram, pois as leis antiimigração visavam os supostos indesejáveis. Os direitos e liberdades foram atacados, principalmente em benefício dos novos plutocratas. E a indústria privada tornou-se mais do que apenas uma forma de ganhar um dólar; tornou-se uma ferramenta para organizar a sociedade.

Enquanto muitos cidadãos se agarraram à ideia de que tinham o direito de organizar sindicatos de trabalhadores, protestar contra práticas injustas, votar em eleições e não ser linchados, a plutocracia e os políticos sob sua ala apertaram a definição de liberdade para proteger os direitos de propriedade acima de tudo. Isto foi concretizado no direito de contrato – o direito de celebrar um acordo vinculativo.

Este direito era, supostamente, tudo o que os cidadãos precisavam em uma sociedade capitalista. Portanto, as leis e ações de grupo que limitam o que os contratos podem fazer interferiam na liberdade. Na verdade, o próprio governo mal era necessário, pois todos nós podíamos ser governados por contratos – entre empregador e trabalhador, comprador e vendedor, marido e mulher, governo e empresa. Isto equivalia a uma privatização por atacado do governo, na qual seu único papel era defender os contratos e a riqueza que eles criavam – por trás das muralhas do arsenal, se necessário. Como o influente sociólogo de Yale William Graham Sumner afirmou na época, tudo o que devemos esperar do governo é que ele proteja “a propriedade dos homens e a honra das mulheres”.

No final do século XIX, os tribunais da nação abraçaram amplamente a ideia de que a propriedade deveria ser protegida, e o povo estava por conta própria. Em Illinois, a Suprema Corte do Estado disse que as leis que limitavam a semana de trabalho a quarenta e oito horas eram inconstitucionais – os empregadores eram livres para exigir qualquer número de horas que quisessem, e os trabalhadores eram livres para trabalhar essas horas ou encontrar trabalho em outro lugar. A relação de trabalho era um contrato privado entre empresa e trabalhador, e o povo não tinha o direito de interferir.

O Kansas aprovou leis tentando impedir que os empregadores discriminassem os membros do sindicato; a Suprema Corte dos Estados Unidos disse que a lei era um ataque à liberdade da empresa e do trabalhador individual de firmar um contrato. Foi o mesmo para a tentativa da Virgínia Ocidental de impedir que os empregadores pagassem no script da empresa em vez de dinheiro real. As empresas eram livres para pagar como quisessem, e os trabalhadores eram livres para aceitar ou encontrar trabalho em outro lugar.

A decisão infame da Suprema Corte em Lochner v. Nova Iorque sustentou que qualquer tentativa de legislar restrições à jornada de trabalho era inconstitucional. E os trabalhadores que tentavam melhorar as condições através de sindicatos e não através de legislação eram igualmente uma afronta à liberdade, de acordo com a lógica da época: os tribunais decretaram cerca de duas mil liminares contra greves e boicotes trabalhistas organizados entre 1880 e 1931, tudo em nome da liberdade. A ativista Florence Kelley, que havia visto seus esforços para melhorar as condições de trabalho de mulheres e crianças serem desfeitas pelos tribunais, observou como “sob o pretexto da liberdade republicana, nós degeneramos em uma nação de cidadãos escarnecedores”.

As massas nunca invadiram os arsenais dos milionários, mas não deixaram que a visão dos milionários sobre democracia e liberdade permanecesse de pé. Bem antes de Franklin D. Roosevelt articular suas Quatro Liberdades, o povo tinha começado a redefinir a liberdade por conta própria, e a fazer sentir sua redefinição.

Nas cartas que foram enviadas ao escritório do novo presidente e de seus indicados, os americanos sofredores da liberdade revalorizaram muito mais a liberdade do que o direito de assinar um contrato para trabalhar para outra pessoa: “Acredito que este país deve uma vida a cada homem, mulher e criança”, argumentou uma mulher de Nova Iorque. “Se não pode nos dar este sustento através da indústria privada, deve nos proporcionar através de meios governamentais”. Esse direito de sobreviver, insistiu ela, era “um direito inalienável de toda pessoa que vive sob este governo”.

O direito legal de contrato não havia libertado o povo; ele o havia escravizado. Os trabalhadores eram “escravos da depressão”, reivindicou um correspondente. Outro viu uma oportunidade para Roosevelt “ser outro Lincoln e nos libertar da escravidão em que nos encontramos”. Ainda outro concluiu: “Verdadeiramente, existe uma coisa chamada escravidão econômica”.

Estes trabalhadores estavam discutindo o lado negativo da afirmação de longa data de que o governo tem a todos nós no “caminho da servidão”, como diz o líder de torcida do laissez-faire Friedrich Hayek. Os cidadãos que apelaram para a FDR insistiam que sem a intervenção do governo para proteger seus direitos, eles eram mais como escravos do que cidadãos. Em meados da década, Roosevelt estava ecoando as reivindicações desses trabalhadores, proclamando que enquanto os “realistas da ordem econômica… mantinham que a escravidão econômica não era um assunto da conta de ninguém”, ele “se comprometeria com a proposta de que a liberdade não é um assunto meio a meio”. Se ao cidadão comum é garantida igualdade de oportunidades no local de votação, ele deve ter igualdade de oportunidades no mercado”.

Hoje os conservadores se referem ao New Deal, algo criado pelos trabalhadores americanos e pelos funcionários que eles elegeram em avalanches após avalanches, como uma forma de tirania. Eles querem criar uma divisão entre a ideia de um governo efetivo e suas ligações muito reais com cidadania, democracia, responsabilidade e liberdade. Mas a ascensão de um governo eficiente surgiu devido à expansão da consciência de liberdade e através de grupos cada vez maiores de pessoas que participam da democracia.

O New Deal era imperfeito, mas com o tempo ele iluminou um caminho. O povo criou uma democracia que abraçou certos valores – transparência, liberdade, política pública para o bem público – e um governo que protege a liberdade. Mas este impulso público sempre teve que enfrentar interesses privados que são hostis a todos estes valores.

Democracia e privatização não combinam

Após o New Deal, poucos poderiam negar que a liberdade deveria incluir a autossuficiência econômica – liberdade da carência – mas a era Reagan virou a contribuição do FDR de cabeça para baixo. Agora os sindicatos e o governo, ao invés das corporações monopolistas, eram os opressores. Não era o direito legal de contrato que criava a servidão, eram os impostos.

Ainda assim, os conselheiros econômicos de Ronald Reagan e seus companheiros de viagem reconheceram que nunca conseguiriam convencer os eleitores a desistir dos serviços públicos básicos. Com a privatização como sua ferramenta, eles não precisavam fazê-lo.

Robert Poole, fundador da Reason Foundation, descreveu uma abordagem gradual de privatização “desmantelando o Estado passo a passo” em vez de “esperar até que a maioria da população esteja convencida do caso de uma utopia libertadora”. Stuart Butler, escrevendo para a Fundação Heritage, viu que a “beleza da privatização” e o “segredo da privatização” estavam em como “a demanda de gastos governamentais é desviada para o setor privado”. ... Em vez de ter que dizer “não” aos círculos eleitorais, os políticos podem adotar uma abordagem mais palatável para cortar gastos”.

Há um certo engano nesta abordagem, e as principais luzes do conservadorismo econômico não se envergonharam disso. Honrar a vontade do povo era perigoso; a democracia tinha tornado os impostos necessários, portanto, falhou na proteção dos direitos de propriedade.

Alguns economistas contrários ao Estado lamentaram o “fracasso da democracia em preservar a liberdade”. A historiadora Nancy MacLean resume bem esta visão de mundo antigovernamental: a democracia é confusa e a política é governada pela “exploração e coerção”. Mas o reino da economia é um reino de liberdade e livre intercâmbio. Esta visão sustenta que a liberdade associada ao capitalismo, aos mercados livres e ao direito de contrato não está inexoravelmente ligada à democracia; ela é a vítima da democracia.

Assim, enquanto os políticos e o setor privado oferecem projetos de privatização como uma alternativa mais barata e mais eficiente, a verdadeira razão para a privatização é a marcha forçada para o desmantelamento do domínio democrático.

Mesmo que a privatização não seja mais barata, mais rápida, ou melhor, ela ajuda a servir a uma agenda maior. Os fracassos da privatização devem ser ocultados porque o povo pode votar a favor de que o Estado assuma o controle. Esta é uma das razões pelas quais a transparência é tipicamente a primeira vítima da privatização – a abertura é ruim para o movimento.

Este sigilo está intimamente relacionado à forma como a privatização reduz o controle e esquiva a responsabilidade, e tudo isso mina o princípio democrático fundamental da separação dos poderes. Quando privatizamos um bem público, várias coisas acontecem: Os contratos muitas vezes triunfam sobre a legislação. Os nomeados políticos do Poder Executivo passam a ter o poder de burlar os funcionários públicos. Isto enfraquece o controle legislativo e judicial. As decisões e o dinheiro fluem ao longo de um caminho corporativo, longe da responsabilidade pública. O resultado é um poder adicional do Poder Executivo que opera através de acordos com empresas privadas sem restrições.

Como escreveu o professor de direito da UCLA Jon D. Michaels, o resultado final não é um governo menor e menos poderoso, mas mais poder estatal:

O que realmente está acontecendo é que o governo está sendo transformado. Não há como negar que o Estado hoje é maior e mais potente do que nunca. Acontece que parece muito diferente – uma consequência de ter sido privatizado, comercializado e geralmente reconfigurado de acordo com linhas decididamente comerciais. Em resumo, Reagan não matou, e não pôde matar, o Estado. Mas ele substituiu nossa antiga babá familiar por uma empresa comercial de ponta, por assim dizer, uma corporação de babás.

Esta privatização da democracia pressagia uma grande perda de direitos e liberdades; muitas de nossas liberdades mais importantes não existem mais quando estamos em propriedade privada ou se as abrimos em um contrato. Junto com estas, muitas vezes desaparecem o direito ou mesmo a capacidade de participar na tomada de decisões públicas.

Não foi até a Lei dos Direitos de Voto e a Lei dos Direitos Civis que a lei americana finalmente reconheceu a definição ampla de liberdade e a definição ampla do público que a Constituição havia insinuado. A democracia americana ainda é imperfeita (e ainda hoje está sob ataque), mas é bastante admirada por aqueles que querem negar as demandas públicas por bens e serviços públicos estarem recorrendo à privatização como uma tática dissimulada. Sua marcha lenta criou um governo mais distante do povo, um Poder Executivo mais poderoso, um processo de elaboração de políticas mais dissimulado, e um povo menos livre.

Copyright© 2021 por Donald Cohen e Allen Mikaelian. Este trecho apareceu originalmente em The Privatization of Everything: How the Plunder of Public Goods Transformed America e How We Can Fight Back, publicado pela The New Press. Reproduzido aqui com permissão.

Colaboradores

Donald Cohen é o fundador e diretor executivo do In the Public Interest, um centro nacional de pesquisa e políticas com sede em Oakland, Califórnia, que estuda bens e serviços públicos. Ele mora em Los Angeles.

Allen Mikaelian é um autor best-seller do New York Times. Ele mora em Washington, DC.

19 de novembro de 2021

Como o misticismo e a pseudociência se tornaram centrais para o nazismo

Idéias sobrenaturais estavam se difundindo na virada do século 20, especialmente na Alemanha. Mas na crise social que se seguiu à Primeira Guerra Mundial, as ideias esotéricas e pseudocientíficas tornaram-se uma poderosa ferramenta de mobilização nazista, dirigida a demonizar os judeus e a esquerda.

Uma entrevista com
Eric Kurlander

Entrevistado por
Ondřej Bělíček

Jacobin

Adolf Hitler com Herr Lutze, seu chefe de gabinete, durante uma revisão das tropas de assalto em Berlim para marcar o terceiro aniversário da ascensão de Hitler ao poder. (©Hulton-Deutsch Collection / Corbis via Getty Images)

Tradução / No fim do século XIX, a Europa industrializada era o epicentro daquilo que Max Weber denominou de “desencantamento do mundo”. Práticas religiosas tradicionais vinham sendo desafiadas pelas forças da modernidade, com a Igreja incomodada com o avanço do Iluminismo, ciência e secularismo.

Entretanto, geralmente a famosa citação Weber omite a segunda parte de sua tese – que o mundo estava se encantando também por algo novo. Novos tipos de doutrinas esotéricas, religiosas e fronteiras emergiam como alternativas aparentemente modernas à religião e à ciência tradicional.

Isso incluía a antroposofia (uma variação austro-alemã sobre a doutrina esotérica da teosofia, que combinavam elementos da espiritualidade oriental com cristianismo, filosofia ocidental e ciência natural); ariosofia (uma versão mais explicitamente racialista e eugenista da teosofia), a Teoria do Gelo Mundial (uma teoria “acientífica” que insiste que o gelo é a substância básica por trás de todos os processos tanto cósmicos como geológicos e evolutivos da terra), astrologia e parapsicologia (o estudo dos fenômenos psíquicos e paranormais). Essa tendência incluiu também religiões alternativas, New Age, homeopatia, folclore e um interesse renovado pelo hinduísmo e budismo.

Em seu livro Hitler’s Monsters, Eric Kurlander analisa a específica influência de ideias sobrenaturais que tiveram ascensão e as consequências da ideologia nazista. Ele argumenta que a invocação e apropriação de crenças populares esotéricas, pseudocientíficas e religiosas ajudaram o partido de Adolf Hitler a atrair apoiadores, desumanizar seus inimigos e perseguir suas ambições imperiais e raciais. Porém – como diz o historiador a Ondřej Bělíček –, essas ideias também se enraizaram em um contexto sociopolítico particular – que se reproduz, se não na mesma escala, também em nosso próprio presente.

OB

No fim do século XIX, desenvolveu-se um forte movimento dedicado a ideias sobrenaturais, doutrinas esotéricas, espiritualismo e ocultismo. O que esse movimento na Alemanha e na Áustria teve de diferente, em comparação a outros lugares onde essas tendências também floresceram?

EK

A singularidade é dupla. Por um lado, o investimento naquilo que eu chamo de “imaginário sobrenatural” na Alemanha e na Áustria tinha uma influência maior. Não se tratava só de um aspecto discreto do dia a dia, tal qual quando você vai à igreja ou uma sessão espírita no domingo. Foi algo integrado à política e às teorias sociais de forma muito mais direta e onipresente. Muitas dessas figuras esotéricas passaram a delinear conclusões políticas baseadas nessas crenças.

Isso, por exemplo, ocorreu também na França e no Reino Unido, ainda que não na mesma medida. Por outro lado, o teor do imaginário sobrenatural, em que existiam muitos movimentos como teosofia, astrologia e assim por diante, também era bem mais racial-folclórico na Alemanha e na Áustria que na França ou Reino Unido.

Havia muitas pessoas falando sobre diferentes raças no século XIX, não só na Alemanha e na Áustria. Entretanto, quando se olha para a forma como tais doutrinas esotéricas e anti-científicas foram implantadas na esfera pública, a raça e o antissemitismo foram, ao que parece, mais proeminentes em comparação com a França, Reino Unido e até mesmo os Estados Unidos, que tinham seus próprios grupos esotéricos, como os “camisas prateadas” da KKK e William Pelley.

Em suma, a raça faz parte também da língua oficial da ciência e da reforma social no Reino Unido, França e Estados Unidos, mas não estava no centro das práticas científicas e ocultas; e tais práticas, inversamente, não desemprenharam um papel central nas ideologias ou teorias de direita na política ou na sociedade.

OB

Você também menciona que o folclore alemão, a mitologia, a religião indo-ariana e as teorias racistas frequentemente eram parte do sistema escolar alemão. Você menciona especificamente a influência que o professor Leopold Pötsch tinha no jovem Hitler. Isso também foi uma particularidade nacional?

EK

Isso chega ao conceito de ciência alternativa. Todos falavam sobre Charles Darwin e o declínio civilizacional do Ocidente, a ascensão de raças não brancas – tudo o que fazia parte das discussões científicas naturais e sociais da segunda metade do século XIX. Até mesmo progressistas liberais e socialistas utilizavam o conceito de raça naquele momento, que não seria aceito hoje.

Se você fosse à escola na França ou nos Estados Unidos nas décadas de 1880 e 1890, ouviria teorias sobre a superioridade racial de alguns grupos sobre outros, e teorias da história que tendiam a idealizar os homens brancos ou de seu país de uma forma muito nacionalista. A diferença é que, na Alemanha e na Áustria, a mitologia nórdica e o folclore se misturaram com esse chamado pensamento “científico” sobre raça, politizado e, então, integrado à pedagogia. Isso ocorreu não apenas nas escolas, mas na literatura popular e científica.

OB

Muitas das principais personalidades de movimentos sobrenaturais na República de Weimar, na Alemanha, depois se tornaram proeminentes nazistas. De alguma maneira, os partidos no entreguerras trabalharam politicamente com a crença do sobrenatural ou isso foi específico dos nazistas?

EK

Sem dúvida, existam alguns indivíduos nos partidos de centro esquerda interessados ​​em astrologia e mitologia alemã, mas, de modo geral, eles não os integraram em suas ideias políticas e sua propaganda. Se você fosse membro dos dois partidos liberais, dos social-democratas ou dos comunistas, seria improvável que você invocasse as imagens de vampiros e o diabo, lobisomens ou bruxas, para descrever seus oponentes políticos ou a si próprio. Nem você falaria frequentemente sobre suásticas ou antigos sóis negros ou runas como símbolo da raça ariana ou nórdica.

Só que não apenas os nazistas invocavam essa iconografia. Existiam grupos paramilitares famosos de toda sorte que recorriam a esses tipos de símbolos, que organizavam festivais de solstício e falavam em restaurar o Império Alemão e reassentar os europeus ocidentais com “camponeses guerreiros”.

Os partidos de centro esquerda alemães, como na maior parte dos países, almejavam certamente argumentar a respeito do que fazer com finanças, tributos e educação, mas os partidos de centro direita eram tão propensos a invocar propaganda emocional ligada a teorias baseadas em raça sobre a superioridade germânica e o perigo quase sobre-humano dos monstruosos judeus e bolcheviques, de uma forma difícil de se engajar racional ou empiricamente. Como argumentaria com alguém que apela ao caráter loiro e de olhos azuis quase míticos do povo alemão e diz que seu país foi colonizado por uma cabala de bolchevistas judaicos, maçons e raças inferiores?

Nem todos os alemães acreditavam nessas coisas: muitos – talvez até mesmo a maioria – não acreditava. E se recorde que apenas um terço deles votou em Hitler. Os nazistas nunca tiveram mais de 37% dos votos, apesar da crise vinda da Grande Depressão e outros fatores. Porém, as pessoas que votavam nazistas parecem ter sido desproporcionalmente inseridas no imaginário sobrenatural.

OB

Suponho que, depois da guerra perdida em 1918 e da Grande Depressão, essas ideias sobrenaturais devem ter se espalhado entre toda a população alemã. É possível afirmar qual tipo de pessoa tendia a apoiar essas ideias?

EK

A história, a sociologia e a ciência política nos mostraram que, enquanto os nazistas apelaram ao número substancial de alemães de todas as demografias, católicos e trabalhadores tendiam a não votar tanto nos nazistas. Por outro lado, os protestantes de classe média baixa ou de origem sociológica no meio rural votavam desproporcionalmente no partido de Hitler. Ao observar o modo como funciona o imaginário sobrenatural, é aquilo não aparece de forma proeminente nos socialistas urbanos e no meio social dos trabalhadores.

Não é que as classes trabalhadoras alemãs fossem imunes às ideias sobrenaturais – se a ciência oculta, a pseudociência ou a religião alternativa. De certo, alguns membros da classe trabalhadora liam seus horóscopos ou acreditavam em aspectos do paranormal. Só que, por variadas razões, as classes trabalhadoras eram, em geral, mais isoladas das consequências políticas dessas ideias graças ao caráter do meio urbano e proletário – poderosamente à esquerda e, de fato, muitas vezes suavemente marxista.

Além da força dessa cultura proletária, o próprio interesse socioeconômico dos trabalhadores e sua típica filiação partidária com os social-democratas ou os comunistas, temos uma ênfase intelectual da teoria marxista em explicações materialistas sobre a realidade sociopolítica. Por tais razões, era bastante difícil para os partidos não marxistas e ideologias não materialistas penetrarem nas classes trabalhadoras alemãs, sobretudo entre os habilidosos trabalhadores em áreas urbanas, que se mostraram nitidamente resistentes à política conservadora, clerical e, em menor grau, fascista no período entreguerras.

Mesmo entre o eleitorado com uma maior propensão ao pensamento não materialista, baseado na fé, como os católicos rurais e de cidades pequenas, a força do meio social e religioso católico – reforçado por décadas de perseguição protestante – isolou os católicos devotos de formas alternativas de pensamento sobrenatural, assim como os radicais-nacionalistas, partidos desproporcionalmente protestantes, como o Partido Nacionalista do Povo Alemão e os nazistas.

Essas ideias parecem ter sido mais populares entre os alemães de classe média que talvez não fossem mais devotos católicos ou protestantes, mas que ainda se interessaram em religiões alternativas, esoterismo meio cristão meio pagão e outras ideias sobrenaturais. Essas tendências esotéricas também parecem nitidamente ter se originado na Alemanha, especialmente onde a política é objeto de preocupação – o que parece ser outra diferença entre o jeito como essas doutrinas se espalham e como o “imaginário sobrenatural” funcionava na França, Reino Unido, Estados Unidos, por exemplo, em comparação com a Alemanha e a Áustria.

Nos países anteriores, parece que as mulheres participavam desses movimentos tanto quanto os homens, certamente como seguidoras, mas também, muitas vezes, como lideranças. Na Alemanha e na Áustria, propagando o esoterismo, a pseudociência e o paganismo folclórico pareciam ser um empreendimento quase exclusivamente masculino.

Você nota isso no movimento nazista, que era também muito masculino. Eram principalmente homens brancos que não foram particularmente educados em termos de conhecimento científico, mas tinham certa educação universitária. Trabalhadores de colarinho branco, pequenos empresários, engenheiros, esses são os tipos de pessoas que tornaram essas ideias mais interessantes. Um perfil demográfico similar ao daqueles que gostam de assistir shows sobre “alienígenas” ou relíquias perdidas ou soldados mortos-vivos do Himmler no History Channel hoje em dia. São as pessoas que têm algum tipo de educação, alguns conhecimentos sobre história, mas estão abertos a argumentos pseudocientíficos e baseados na fé.

OB

De várias maneiras, isso se assemelha aos grupos de pessoas de hoje que creem em teorias de conspiração, como QAnon, movimento antivacina e etc.. Como os intelectuais, cientistas e autoridades reagiram a essa tendência pseudocientífica naquela época?

EK

Muitas figuras líderes de centro esquerda ou liberais observaram esse investimento nada saudável no pensamento sobrenatural, baseado na fé, e afirmaram: “aqui está um fenômeno que é anticiência, irracional e preocupado com o pensamento mágico, a história alternativa e a religião mágica, e parece estar ajudando as forças antidemocráticas de extrema direita. Precisamos ter cuidado com isso”.

Na imprensa, Bertolt Brecht e alguns socialistas zombaram dos nazistas por flertarem com essas ideias. Eles acharam chocante que os alemães acreditassem nos apelos emocionais de Hitler e Goebbels – em alguns casos escritos por Hanns Heinz Ewers, um escritor de terror famoso por romances sobre vampiros, cientistas loucos e adoradores de diabo e, depois, um propagandista nazista. Não compreendiam como algum partido poderia chegar ao poder sendo algo equivalente contemporâneo de Stephen King ou Clive Barker na promoção de sua causa. Alguns apoiadores dos partidos liberais, que perderam muitos mais de seus eleitores para os partidos conservadores e de extrema direita que os social-democratas ou os comunistas, estavam realmente prontos para botar a culpa de seu fracasso político no comportamento irracional dos alemães.

Alfred Rosenberg, o ideólogo nazista, assumiu que muitas pessoas votaram nos nazistas porque estavam interessadas no oculto. O influente filósofo político conservador Carl Schmitt notou um investimento generalizado no que ele chamou de “romantismo político”. Então, com o declínio do centro liberal, os únicos partidos políticos que poderiam se opor aos nazistas eram os partidos de esquerda, mas eles falavam uma linguagem totalmente diferente e eram incapazes de competir com os nazistas nos termos do apelo emocional ao nacionalismo e ao renascimento folclórico, fundamentados no “desejo de mito dos alemães” e desejo de transcender as crises políticas e econômicas e as divisões sociais do período entreguerras.

OB

E quanto ao próprio Hitler? Você poderia descrever qual era sua relação com ideias sobrenaturais, ocultismo ou pseudociência?

EK

Hitler foi perfeitamente emblemático como um típico membro do Partido Nazista – ou, de certo, líder nazista – a esse respeito. Ele não era tão envolvido em ideias sobrenaturais, por exemplo, tal qual Himmler, Hess ou Alfred Rosenberg. Sempre foi mais cético quanto às teorias sobrenaturais mais amplas sendo usadas de forma muito proeminente como parte da propaganda nazista. Ele, todavia, ainda as elaborou, e sua retórica foi misturada com argumentos pseudocientíficos, a invocação da mitologia e o apelo às emoções. Ainda que não comprasse todas as doutrinas de raça esotérica que alguns de seus colegas fizeram, ele entendeu sua importância para o Partido Nazista e empregou essa linguagem.

No meu livro Hitler’s Monsters, menciono a famosa citação de Hitler em Mein Kampf alertando o Partido Nazista a não se tornar lar de “acadêmicos errantes envolvidos em bearskins”. Lembrando do xamã do QAnon com pele de animal que invadiu o prédio do Capitólio norte-americano em janeiro de 2021, esse comentário obscuro de Hitler parece bem mais relevante. Como Donald Trump ou Marine Le Pen, que se afastaram publicamente dos “xamãs do QAnon” em suas fileiras, Hitler estava preocupado se o Partido Nazista pudesse perder apoio entre os eleitores da classe média tradicional.

Mesmo se Hitler publicamente tentasse divulgar nazistas de grupos religiosos esotéricos e pagãos, como a Sociedade Thule e o folclore “errante dos estudiosos em bearskins”, ele, porém, reconheceu que seus apoiadores estavam atraídos por ideias sobrenaturais e teorias de conspiração para dar sentido a um mundo cada vez mais complexo e ameaçador.

OB

Qual foi a relação dos nazistas com ideias sobrenaturais depois que Hitler chegou ao poder? Você menciona que era perigoso para o Partido Nazista deixar crescerem o movimento sobrenatural e o ocultismo, pois temiam que pudesse sair de seu controle.

EK

Não é que eles rejeitaram o raciocínio sobrenatural. Eles estavam com medo especificamente de grupos ocultos que representassem um obstáculo sectário a uma “comunidade racial” unificada liderada pelo o Partido Nazista. Essas doutrinas e associações ocultas, como a teosofia, a ariosofia, o movimento da antroposofia de Rudolf Steiner, e outros grupos folclóricos e messiânicos – que tiveram seus próprios rituais, tradições secretas e, acima de tudo, seus próprios “Führer” – foram vistas pelos nazistas como sectárias. Isso significava que eles detinham sua própria identidade sociocultural e, potencialmente, uma ideologia em competição com o nazismo.

Portanto, muitos estudiosos apontam a repressão ao ocultismo durante o Terceiro Reich – equivocadamente, em minha visão, dizendo “olha, os nazistas odiavam o ocultismo”. Só que eles não odiavam. Eles tentaram controlar certos tipos de ocultismo e outros grupos “sectários” por várias razões, da mesma maneira que tentaram controlar a religião, os programas sociais, mulheres, trabalhadores, camponeses ou industriais. A propensão natural deles como um regime fascista era tentar controlar as coisas e fazer com que todo mundo “trabalhasse para o Führer”, mas isso não significa que eles rejeitassem o völkisch esotérico ou religioso ou o pensamento pseudocientífico.

Então, sua hostilidade aos ocultistas não era do mesmo tipo que aquela que envolvia atitudes nazistas em relação aos socialistas ou comunistas ou, de certo, aos judeus. Eles reiteradamente aceitaram no partido ex-líderes ocultistas, desde que parassem de tentar manter organizações esotéricas-folclóricas separadas, como a Sociedade Thule ou a Werewolf Bund ou a Tannenburg Bund.

Os nazistas estiveram também divididos sobre o que era “ocultismo científico” e o que era o ocultismo popular para ganhar dinheiro. O vice de Hitler, Rudolf Hess, os membros do Ministério da Educação do Reich, Himmler, a SS e até o Ministério de Propaganda de Goebbels trabalharam para diferenciar as doutrinas ocultistas e as ideias e indivíduos “científicos” alternativos ou, ao menos, pragmaticamente úteis daquilo que chamavam de ocultismo de Boulevard popular ou “judaico”, como Erik Hannusen – que, eles diziam, apenas roubava o dinheiro das pessoas.

Assim, os nazistas vigiavam e periodicamente prendiam ou interrogam os ocultistas que supostamente faziam dinheiro minando o “esclarecimento público”. Contudo, para Himmler, Hess, Walther Darré, e outros líderes nazistas, os ocultistas científicos “reais” e cientistas alternativos ainda podiam averiguar se o raio de Thor era mágico ou se a posição das estrelas e da lua promovia a agricultura orgânica.

Esses “cientistas” foram patrocinados por vários ministérios nazistas e especialmente pela SS de Himmler. Então, eles seletivamente rejeitavam algumas ideias e indivíduos ocultistas como não sérios e anticientíficos, mas também estavam dispostos a legitimá-los e até mesmo empregá-los quando eram simpáticos à doutrina esotérica e alternativa particular ou à crença völkisch religiosa. O conceito duvidoso da Teoria do Gelo do Mundo parecia reforçar a ideia de uma raça ariana antiga e sugerir o questionamento da “física judaica” da mesma maneira a lei relatividade e a mecânica quântica. Daí o porquê de tanto Himmler como Hitler tê-la patrocinado.

OB

Você menciona que a imaginação sobrenatural “propiciou um espaço ideológico e discursivo em que era possível desumanizar, marginalizar os inimigos dos nazistas e transformá-los em monstros”. Você poderia elaborar como funcionou isso?

EK

Quando você sai do reino da ciência moderna, como a biologia e a física, começa a operar no reino do “imaginário sobrenatural”, onde tudo é possível ou justificável, visto que passa a misturar a biologia com esoterismo, história e arqueologia com folclore e mitologia, pode transformar os judeus asquenazes de um povo parcialmente europeu que compartilharam com alemães uma ancestralidade da Europa Central e Oriental, em monstros biológicos totalmente alienígenas, com tendências cruéis e sobre-humanas, por trás de tudo de malévolo ocorrido na história.

O imaginário sobrenatural, que mistura a ciência e o ocultismo, a história e a mitologia, permitiu também que os nazistas escolhessem as características que gostariam de atribuir ao inimigo deles, comparando-os a vampiros, zumbis, diabos e demônios. Também permitiu a eles que atribuísse certas características superiores aos alemães, delineadas, muitas vezes, de forma idêntica da mitologia ou da ciência alternativa.

Em seu último esforço para criar uma divisão partidária na elite no fim de 1944, eles invocaram os nomes de lobisomens, do folclore germânico. Apesar de os lobisomens serem considerados heróis trágicos ou nobres possivelmente ligados à horda de Odin ou aos berserkers nórdicos, eles eram na França seres amaldiçoados ligados ao satanismo e à feitiçaria. No folclore alemão, os lobisomens eram, portanto, heróis trágicos, ligados enfim ao sangue e ao solo; criaturas que defenderiam suas florestas e terra contra os intrusos eslavos. Por outro lado, os vampiros não eram figuras românticas trágicas nem mesmo heróis, como foram retratados na França ou no Reino Unido, mas parasitas orientais degenerados ligados aos judeus e aos povos eslavos, que estavam tentando minar a pureza do sangue alemão.

Folclore, mitologia, teorias sobre alienígenas, Teoria do Gelo Mundial, gigantes de gelo, deuses e monstros foram usados para justificar por que os alemães teriam o direito de invadir o Leste Europeu e subjugar ou destruir raças inferiores e o chamado “judaico-bolchevismo”.

O pensamento sobrenatural tinha um efeito multiplicador sobre as políticas violentas já existentes na eugenia dessa época, abusadas em tantos outros países, incluindo o Reino Unido, a Suécia ou os Estados Unidos, mas nunca em uma extensão desenfreada. O ingrediente “secreto” aqui, argumento eu, era o pensamento “sobrenatural”.

OB

Que influência o imaginário sobrenatural teve sobre o esforço de guerra dos nazistas?

EK

Em primeiro lugar, o imaginário sobrenatural influenciou as visões geopolíticas dos nazistas, que manipularam a arqueologia, o folclore e a mitologia para fins de política externa. Himmler e Rosenberg desenvolveram os argumentos – com base, em larga medida, em folclore, mitologia e ciência alternativa – de que, há milhares de anos, as pessoas nórdicas eram a civilização dominante na Europa e que eles tinham o direito de reivindicar esse status. Arqueologia ruim, o uso seletivo de biologia e da antropologia e a mitologia alimentou várias ideias a respeito da Europa Oriental e por que os alemães teriam direito, tais quais cavaleiros teutônicos medievais, de (re)conquistar o Leste.

O pensamento sobrenatural não era o único fator na determinação da política nazista, mas certamente reforçou as relações racistas e imperialistas dos nazistas em relação aos europeus orientais. Sim, em algum momento durante a guerra, os nazistas negociaram acordos com os ucranianos e os Estados bálticos por razões pragmáticas, mas, em última instância, eles tinham esse gigantesco complexo de pensamento sobrenatural subjacente às suas concepções de raça e espaço. Isso ajudou a justificar, por exemplo, a deslocar os poloneses para fora de suas casas e botar alemães em seu lugar ou enviar os judeus para os campos de concentração.

O imaginário sobrenatural estava também diretamente ligado a experimentos de eugenia durante o Holocausto. Um dos piores médicos nazistas, Sigmund Rascher, era filho de um dos mais célebres antroposofistas, Hanns Rascher. Você tem esse importante médico muito aberto a essa ideia de raça e espaço – que acompanha Ernst Schaefer na expedição ao Tibet de Himmler para descobrir as antigas origens da raça ariana – e mais tarde está disposto a fazer experiências em seres humanos para testar suas teorias pseudocientíficas e de Himmler.

Quando você toma o nível de ingenuidade científica e de confiança que os alemães tinham nos anos 1930 e o mistura com um regime imerso no pensamento sobrenatural, liderado por Hitler e Himmler, que não tinham experiência em ciência natural, que eram autodidatas, que liam folclore e mitologia e sonhavam com espaçonaves, e propicia a plataforma de uma guerra terrível onde a violência massiva já se tornava aceitável, isso é bastante perigoso. Junto à eugenia, isso tudo compôs o combustível desses experimentos horríveis e até mesmo do Holocausto.

OB

Parece que os alemães que acreditavam no imaginário sobrenatural realmente achavam que os eslavos eram vampiros, os judeus vermes e os soviéticos basicamente monstros.

EK

Eu não posso dizer a você que milhões de soldados em campo de batalha realmente viam judeus como monstros sobre-humanos; muitos alemães tinham amigos e cônjuges judeus antes e depois do Terceiro Reich. Entretanto, os nazistas certamente usaram o imaginário sobrenatural para desumanizar judeus, eslavos e bolcheviques e transformá-los em um inimigo desumano. Alguns alemães étnicos relataram terem sido atacados, confessamente durante o trauma da guerra, por “bebedores de sangue” eslavos.

A questão é: como isso aconteceu? Meu argumento é que não era somente a ciência da biologia ou imperialismo ou capitalismo industrial ou a violência em massa e o trauma da “guerra total” – todos esses fatores eram importantes –, mas também o imaginário sobrenatural nazista. O quanto alguém acredita de fato nas várias doutrinas, contos e ideias que constituíam esse imaginário dependia da pessoa. Às vezes, todavia, parece que alguns nazistas realmente acreditavam que havia outras espécies e raças – em particular, os judeus, que eram simplesmente monstros desumanos, literal ou figurativamente, e que tinham que ser eliminados para que a civilização “ariana” sobrevivesse.

Sobre o entrevistado

Eric Kurlander é professor de história na Universidade Stetson.

Sobre o entrevistador

Ondřej Bělíček é editor do A2larm.cz.

18 de novembro de 2021

Não dê as boas-vindas aos nossos novos senhores bilionários

Os bilionários detêm hoje grande parte da riqueza global e seus apologistas acham que podemos confiar nos seus planos filantrópicos. Mas não podemos deixar a raposa cuidando do galinheiro: precisamos tributar os ultra-ricos até a extinção.

Luke Savage

Jacobin

O CEO da Tesla, Elon Musk, fala durante uma visita à fábrica da futura fundição da Tesla Gigafactory em 13 de agosto de 2021, em Grünheide, perto de Berlim, Alemanha. (Patrick Pleul — Pool / Getty Images)

No início deste mês, o diretor do Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas, David Beasley, fez um apelo aos super-ricos do mundo, nomeando especificamente o bilionário da tecnologia Elon Musk e argumentando que uma doação única de US$ 2 bilhões (representando apenas 2% do patrimônio líquido atual de Musk) poderia resolver a crise mundial da fome. Musk, que poderia muito bem se tornar o primeiro trilionário do mundo, conseguiu rapidamente dar um golpe de relações públicas com sua resposta: “Se o WFP puder descrever neste tópico do Twitter exatamente como US$ 6 bilhões resolverão a fome no mundo, venderei ações da Tesla agora e farei isso.” Beasley logo começou a oferecer uma súplica inútil e deferente.

O incidente é um momento tão bom quanto qualquer outro para mostrar a crítica padrão e correta aos bilionários e a filantropia privada: ou seja, que eles sempre tiveram menos a ver com problemas sociais e muito mais a ver com construção de marca e soft power cultivado entre os super-ricos do mundo. O escritor Anand Giridharadas, que chama esse processo de “lavagem de reputação”, apontou a hipocrisia básica no coração de todo esquema de benfeitor bilionário:

Você primeiro fica rico cortando todos os programas sociais possíveis que pode cortar – você evita impostos se puder evitá-los, usa fundos e contas nas Ilhas Cayman, faz lobby por políticas que são boas para você e seus amigos ricos e ruins para a maioria das pessoas. Você evita pagar as pessoas de forma criativa suprimindo o salário mínimo e terceirizando. Então, você começa a doar uma fração desse dinheiro com várias formas de caridade que a elite faz – filantropia, responsabilidade social corporativa, empresas sociais com fins lucrativos, talvez algo envolvendo a África, mesmo que você nunca tenha estado lá.

Em mais de uma maneira, ele argumenta, a caridade de elite se assemelha muito à venda das indulgências papais na Idade Média, sendo uma maneira relativamente simples e barata de “se colocar aparentemente no direito de justiça, sem ter que alterar os fundamentos de sua própria vida”.

Em meio à recente conversa entre Beasley e Musk, no entanto, um membro sênior da Brookings Institution apontou o que poderia se tornar uma variante nova e totalmente mais insidiosa do argumento geralmente usado em defesa da filantropia bilionária.

Em uma postagem no blog intitulada “Elon Musk, bilionários e as Nações Unidas: a solução do 1% para o desenvolvimento global”, Homi Kharas, da Brookings, argumenta que uma figura como Musk poderia de fato representar pelo menos uma parte importante da solução para uma série de problemas globais. Ao longo do artigo, Kharas faz uma série de observações interessantes – entre elas, que mesmo um único ponto percentual da riqueza bilionária somaria cerca de US$ 130 bilhões por ano, uma quantia que se aproxima dos US$ 160 bilhões combinados em ajuda anual comprometida por países e instituições multinacionais. O que pode ser feito com US$ 130 bilhões, acrescenta ele, inclui a erradicação da extrema pobreza, a redução da fome global e inúmeras iniciativas ambientais.

O problema é que esses dados, ilustrativos como são, não significam realmente o que Kharas pensa que eles fazem, o catalisador original para seu argumento sendo uma oferta inoperante. “Até recentemente”, ele começa,

mesmo os indivíduos mais ricos não tinham dinheiro suficiente para fazer uma diferença significativa nos problemas globais, muito menos “resolvê-los”. Comparado com o tamanho das economias nacionais, ou os orçamentos dos governos das economias nacionais, sua riqueza parecia pequena. Mas este não é mais o caso. Existem 2.755 bilionários no mundo hoje, com uma fortuna estimada em US$ 13,2 trilhões... A procura de contribuições de bilionários mudou para uma melhoria de nicho agradável para se tornar parte da conversa sobre financiamento para resolver problemas globais de grande escala… Pela primeira vez na história, um pequeno grupo de indivíduos privados poderia, se assim o desejarem, impactar materialmente o desenvolvimento global em uma escala que antes era domínio quase exclusivo dos governos.

O que realmente está sendo dito aqui é que a desigualdade global e a concentração de riqueza se tornaram tão agudas que os recursos necessários para resolvê-los (e toda uma série de outros problemas sociais) estão agora nas mãos de uma pequena classe de plutocratas. Embora ele inclua uma referência superficial à tributação, o desenvolvimento que o post de Kharas descreve é aquele que ele está nos convidando de olhos arregalados para comemorar, como se o retorno da desigualdade no nível da Era Dourada representasse uma oportunidade nova e emocionante, e não a própria essência de muitos problemas globais.

Ele pode estar certo, é claro, que a escala de concentração global de riqueza entre um punhado de indivíduos permitirá, por sua vez, que filantropos privados atinjam um nível de poder ainda não visto – potencialmente vinculando as condições materiais cotidianas de milhões, ou mesmo bilhões, aos caprichos individuais de alguns capitalistas. Mas esse é um caso para um imposto global sobre a riqueza, e não para uma nova era de feudalismo.

Sobre o autor

Luke Savage é redator da Jacobin.

Afeni Shakur confrontou o Estado e venceu

Grávida e enfrentando décadas de prisão, a mãe de Tupac Shakur lutou por sua vida – e triunfou – no julgamento do Panther 21.

Tashan Reed

Jacobin

Afeni Shakur na Convenção Constitucional do Povo Revolucionário na Filadélfia, Pensilvânia, em setembro de 1970. (David Fenton / Getty Images)

Tradução / Afeni Shakur nasceu pronta para lutar.

Ela já passou onze meses na Casa de Detenção Feminina e, embora tenha saído sob fiança, não está livre. É 8 de setembro de 1970, e ela está esperando dentro do Tribunal Criminal do Condado de Nova York, em Manhattan. Dezessete meses atrás, ela foi indiciada por acusações incluindo tentativa de assassinato, conspiração para cometer assassinato e conspiração para bombardear edifícios. Uma condenação ameaça mandá-la para trás das grades pelo resto de sua vida.

E, para acrescentar aos seus problemas, ela está grávida de seu primeiro filho – um menino.

Para o júri que decidirá seu destino, Afeni se parece com qualquer outro jovem membro do Partido Pantera Negra – uma mulher negra de tamanho médio, de pele escura, cabelo curto e vinte e três anos de idade. Um grupo sobre o qual a mídia havia passado anos conjurando histórias assustadoras nesta época.

Em breve, ela se apresentará diante de um juiz branco e enfrentará uma acusação totalmente branca, pois o governo do país em que ela vive trabalha ativamente para erradicar a organização da qual ela faz parte, como fizeram efetivamente com a maioria daqueles que consideraram uma ameaça.

No entanto, Afeni não pode se dar ao luxo de ficar esgotada pelas circunstâncias. Ela está prestes a se defender no julgamento sem a ajuda de um advogado – uma decisão amplamente vista como suicida.

A Afeni não está sozinha. Em The People of the State of New York v. Lumumba Shakur et al., há outros doze réus, todos fazem parte dos “21 Panteras”, que em 2 de abril de 1969, foram presos e indiciados sob a acusação de tentativa de assassinato, incêndio e bombardeio.

Mas provar a inocência de Afeni e ganhar sua liberdade é agora sua única responsabilidade. Se ela for considerada culpada, a pena é de 350 anos de prisão. Ela não tem experiência em tribunal, não tem qualquer formação jurídica.

“Nós não sabíamos com o que estávamos lidando”, disse Shakur, olhando para trás. “Não tínhamos nada a ver com isso”. E se ela falhar, sua vida – e a de seu filho por nascer – está efetivamente acabada.

Tanto violentamente como não violentamente, em seu tempo como Pantera e depois, como militante, Afeni Shakur procurou derrubar o sistema de opressão no qual ela havia nascido. Mas no final, ela acreditava que o Partido dos Panteras Negras, e ela mesma, falharam.

“Em vez disso, nos voltamos contra Deus, e como você vai ganhar assim? Você tem que ter um imperativo moral para vencer”, disse Afeni. “Nós não entendemos isso. Atraímos a violência para nós mesmos. Atraímos a amargura para nós mesmos”.

Mas nesta primeira luta de vida e morte, a Afeni ganhou, inquestionavelmente. Ela seria presa novamente, pagaria fiança novamente, e prosperaria como sua própria advogada de fato, desempenhando um papel fundamental na absolvição dos 21 Panteras de todas as acusações em maio de 1971. Um mês depois, ela deu à luz a seu filho.

Ela o via crescer e se tornar um homem que trouxe seus valores a uma audiência global, tornando-se um dos homens negros mais famosos e amados do mundo – apenas para vê-lo morrer baleado aos vinte e cinco anos de idade, a mesma violência que ela viu quebrar os Panteras tirando a vida de seu filho primogênito.

Afeni, que faleceu em 2016, teve uma vida cheia de problemas. Ela ficou viciada em drogas logo após ter conquistado sua liberdade, o que a fez ter um relacionamento difícil com seu filho, que se distanciou quando sua carreira musical decolou, assim como com sua filha, Sekyiwa. Ela era impulsiva e egoísta às vezes. Ela podia ser teimosa, e tinha um mau feitio.

Em nenhum momento, no entanto, ela esqueceu seu povo e sua luta. Como muitas mulheres negras nascidas no Sul nas décadas antes da derrota de Jim Crow, ela nasceu em meio a luta e a violência. O mundo, ao que parece, quis dividi-la em um milhão de pedaços.

Mas, uma e outra vez, até sua morte aos sessenta e nove anos de idade, Afeni triunfou sobre todas elas.

Afeni nasceu como Alice Faye Williams em Lumberton, Carolina do Norte, em 1947. Sua mãe, Rosa Belle, cuidava da casa enquanto seu pai, Walter Williams Jr., trabalhava como motorista de caminhão. Shakur descreveu seu pai como um “negro de rua” que espancava sua mãe com frequência.

“Aqui eu era… esta menina brilhante que queria tanto que seu pai descobrisse o seu especial e maravilhoso talento, e ele nunca o fez”, disse Afeni. “Eu precisava de um pai que estivesse lá. Eu precisava de um pai que não fosse uma ameaça para minha mãe”.

Rosa, que era de Lumberton mas havia se mudado para Norfolk por causa de sua família, conseguiu aturar o abuso doméstico de Williams durante anos. Mas, por fim, ela se desfez e chamou seu irmão para ajudá-la e suas duas filhas a se mudarem primeiro para Lumberton em 1958 e depois para o Bronx.

Em Nova York, Afeni estava livre de seu pai, mas ela ainda era assombrada pelas lembranças de seu abusador. “Durante a maior parte da minha vida, fiquei com raiva. Eu pensava que minha mãe era fraca e meu pai era um cachorro”, lembrou ela. “Essa raiva me alimentou por muitos anos”. No Bronx, ela se meteu em brigas tanto com meninos quanto com meninas na escola e em seu bairro. “Tudo ao meu redor me parecia doloroso”, disse Afeni. “Nós não tínhamos proteção. Eu nunca me senti segura.”

Apesar de sua fúria ardente, Afeni teve um bom desempenho na escola. Suas notas nos testes a levaram para a Escola de Ciências do Bronx, mas ela se interessou mais pelas ruas e se juntou ao Disciple Debs, uma gangue de mulheres no Harlem. “Tudo o que eu queria era proteção”, disse Afeni. “Isso é tudo o que toda mulher quer para se sentir segura.”

Ela finalmente encontrou essa proteção em 1968. Enquanto andava pela 125th Street naquele ano, ela notou um homem em pé numa esquina e falando na frente de uma multidão. Era o cofundador do Partido dos Panteras Negras, Bobby Seale. A multidão chamou sua atenção, mas o que a fez parar foram as palavras de Seale.

“Ele estava apenas dizendo que todos nós podíamos fazer algo sobre a polícia que estava em nossa comunidade”, disse Afeni em uma entrevista de 1972. “Eu acabei de me juntar [naquele mês de agosto] totalmente assustada que alguns jovens teriam a coragem para ir a uma assembleia estadual com armas e simplesmente ficar ali e dizer: ‘Tire as mãos da minha arma! Foi provavelmente o glamour e o romantismo que me trouxeram ao partido”.

Através dos Panteras, ela logo se encontrou e se apaixonou por Lumumba Shakur, o líder do comitê do Harlem. Com o carismático e inteligente Lumumba, Afeni aparentemente encontrou a segurança que ela procurava durante todos aqueles anos. “Quando conheci a família de Lumumba, toda minha visão dos homens e da família foi abalada”, constatou ela. “A família Shakur não era apenas forte, mas eles eram pensadores independentes.”

Era um romance de redemoinho, e os dois se casaram pouco depois, com a Afeni até mesmo se convertendo ao Islã. Ela foi designada ao orisha Oya, que é a divindade iorubá do tempo, morte e renascimento, e recebeu o nome de Afeni, que significa “querida” e “amante do povo”, em 1968.

Mas quando se trata da relação de Afeni com Lumumba, as circunstâncias eram, no mínimo, estranhas. Ele já tinha uma esposa, e o trio vivia junto por um período enquanto Lumumba saltava romanticamente de um lado para o outro entre as duas mulheres.

Enquanto isso, Afeni se jogou no trabalho com os Panteras. Foi o antídoto para a violência e as dificuldades de sua juventude e o início de um processo de cura, não só para ela, mas para toda uma geração de homens e mulheres negros que de repente, na juventude, se viram enfrentando o racismo institucional.

Ela escrevia boletim informativo, tornou-se líder de seção do comitê Harlem, e fez um extenso trabalho voluntário em lugares como o Hospital Lincoln – tudo isso enquanto ganhava dinheiro como professora. Através do partido, ela foi capaz não apenas de pegar sua raiva reprimida do início de sua vida e canalizá-la para fora em direção a seus opressores, mas também melhorar como indivíduo – uma história comum para muitos membros, que encontraram nos Panteras uma espécie de renascimento espiritual.

“Eles educaram minha mente e me deram direção”, recorda Afeni. “Com essa direção veio a esperança e eu os amei por me darem isso. Porque eu nunca tive esperança em minha vida. Nunca sonhei com um lugar melhor ou esperei um mundo melhor para minha mãe, minha irmã ou para mim.”

Mas nos Panteras, a polícia e o FBI viram algo completamente diferente: uma ameaça mortal tomando forma nas cidades dos Estados Unidos. E com a disposição de usar, se necessário, meios violentos para atingir fins revolucionários.

Entre 1967 e o início de 1969, o partido esteve envolvido em vários confrontos com a polícia, incluindo discussões, protestos, tiroteios, bombardeios e batidas que levaram a danos, ferimentos e mortes. Sua ideologia socialista e sua política de autodefesa armada era considerada uma ameaça existencial. Diz-se que o diretor do FBI J. Edgar Hoover declarou que “o Partido dos Panteras Negras, sem dúvida, representa a maior ameaça à segurança interna do país”.

Essas palavras não eram vazias. O governador da Califórnia, Ronald Reagan, assinou a Lei Mulford, revogando uma lei anterior que permitia aos cidadãos transportar armas de fogo carregadas, como medida explícita para reprimir os Panteras. Mas era apenas o começo. No final dos anos 60, os Panteras eram um alvo principal do programa COINTELPRO do FBI, projetado para infiltrar-se e desacreditar os Panteras e outros grupos radicais de esquerda. Em 4 de dezembro de 1969, o vice-presidente dos Panteras, Fred Hampton, foi assassinado pela polícia de Chicago junto com Mark Clark em uma batida policial anterior, tendo sido drogado mais cedo por um informante do FBI para garantir que ele não escapasse.

O Estado norte-americano estava agora atirando nos Panteras Negras, pronto para desencadear qualquer violência que fosse necessária para detê-los. O que havia dado esperança à Afeni e a atraído para o mundo deles logo a encheria com uma sensação de medo maior do que ela jamais havia conhecido.

Desde cedo, Afeni sabia que algo estava profundamente errado.

Era Yedwa Sudan, um colega do comitê do Harlem. Algo nele estava errado, e ela podia sentir isso. Ele era agressivo e de temperamento incerto. Ele falava avidamente e descuidadosamente sobre cometer atos de violência dirigidos à polícia de maneira mais descarada do que até mesmo os Panteras mais combativos estavam acostumados.

Afeni contou a Lumumba sobre suas suspeitas de que Yedwa não era quem ele dizia ser – talvez até mesmo um policial disfarçado.

“Cara, ele não podia ser um policial”, Lumumba disse mais tarde a um dos advogados. “Você deveria ter visto a merda que ele fez.”

Para Afeni, era outro exemplo de algo que há muito a incomodava sobre o Partido dos Panteras Negras – o machismo, tão comum nos Estados Unidos na época, que era difundido até mesmo em uma organização como a deles. Os homens do partido tendiam a recusar posições de autoridade das mulheres e a minimizar suas opiniões como algo trivial.

Mas a Afeni estava certa – “Yedwa Sudan” era realmente o oficial Ralph White da policia novaiorquina.

“Eu estava pressionando as mulheres para que tivessem mais direitos no partido”, disse Afeni. “E nós lutamos sobre [Yedwa] porque eu sabia que ele era um maldito policial desde o início e Lumumba não quis me ouvir”. E, no entanto, a própria violência de rua e a hiperagressividade que despertaram as suspeitas de Afeni só provaram, para alguns quadros dos Panteras, a sinceridade de Yedwa.

White, fazendo-se passar por Yedwa Sudan, havia sido enviado não apenas para se infiltrar nos Panteras, mas para destruí-los, levando-os por um caminho de violência, onde o braço brutal do Estado poderia mais facilmente desacreditar a organização e esmagá-la pela força – uma arena onde a polícia teria sempre a vantagem.

Se Lumumba tivesse ouvido a Afeni, talvez eles não tivessem sido pegos de surpresa às 5 da manhã do dia 2 de abril de 1969, quando o detetive Francis Dalton e outros quatro policiais de Nova York chegaram sem aviso prévio em sua casa, na 112 West 117th Street. Dalton acendeu um pedaço de pano, e os oficiais gritaram coletivamente “fogo!” para atrair Lumumba e Afeni de seu apartamento antes de prender o casal.

Junto com outros oito Panteras Negras, Afeni e Lumumba foram presos e acusados de 156 crimes decorrentes de ataques a quatro delegacias de polícia entre 1968 e 1969, e seu suposto planejamento de bombardear uma ferrovia, o Jardim Botânico de Nova Iorque, e arrastões em cinco lojas de departamento em Nova Iorque.

No total, vinte e um membros do partido, que ficaram conhecidos como os “21 Panteras”, foram nomeados na acusação. A fiança foi fixada em US$ 100.000 para os treze que foram presos e continuaram a comparecer no tribunal até hoje.

Acontece que não foram apenas os oficiais de White – Eugene Roberts e Carlos Ashwood também se infiltraram com sucesso em seu comitê, fornecendo um testemunho crucial que ajudou a assegurar as acusações.

Afeni negou veementemente as acusações. White, como Yedwa, não apenas os tinha espionado, mas os tinha conduzido a uma armadilha – uma única que o Afeni caiu.

“Eu sabia que minha agenda militante terminaria um dia aqui na sala da justiça”, disse Afeni, “mas não havia justiça na forma como estava acontecendo. Fomos espionados, infiltrados, enganados e manipulados psicologicamente. Eu vi pessoas que eu pensava conhecer mudar diante dos meus próprios olhos”.

A acusação foi liderada por Joseph A. Phillips, um hábil advogado da promotoria distrital de Manhattan. Felizmente, os Panteras conseguiram levantar dinheiro para obter uma defesa de advogados, com William Crain, Gerald Lefcourt, Carol Lefcourt, Robert Bloom, Sanford Katz, e Charles McKinney.

Lumumba escolheu a dedo Carol Lefcourt para servir como a principal defesa do Afeni. Mas Afeni imediatamente se opôs à escolha.

“Carol Lefcourt tinha uma voz pequena e estridente”, lembra Afeni. “E eu pensei: inferno, não, ela não pode me representar! Não soava assim. A juíza não poderia ouvir sua objeção, não com aquela voz. Não havia carne em sua voz, não havia ressonância, não havia garantia… Estou enfrentando os mesmos trezentos e cinquenta anos que todos os outros estão enfrentando, e não vou sair assim.”

Então, com sua vida em jogo, Afeni arriscou e tomou uma decisão que pareceu maluca para muitos – ela decidiu se auto-representar no tribunal.

Lumumba tentou persuadi-la a voltar atrás no plano, mas a Afeni se manteve firme quando a audiência pré-julgamento começou, em fevereiro de 1970. A equipe de defesa estava compreensivelmente apreensiva, mas a forma como a Afeni se comportou no tribunal chocaria a todos eles – não menos importante que a própria Afeni. “Achei que estava escrevendo meu próprio obituário.”

Mas a Afeni não estava inteiramente sozinha. Os Panteras haviam inspirado uma esquerda mais velha que, mesmo depois dos anos desastrosos de McCarthy, estava lá para dar uma mão quando necessário. Enquanto estava encarcerada na Casa de Detenção das Mulheres, Afeni desenvolveu um relacionamento com um grupo de mulheres de fora que haviam participado do movimento trabalhista nos anos 40 e 50.

Embora fossem mais velhas e muitas delas fossem brancas, eram radicais que sabiam o que significava enfrentar o Estado – especialmente como mulher.

Elas a escreviam, a visitavam e perguntavam como poderiam ajudar. Ela lhes pedia para criar um fundo de fiança para outras mulheres encarceradas que precisavam de menos de 500 dólares para sua fiança. Elas o fizeram, mas também criaram um fundo de fiança para a Afeni. E em março de 1970, após onze meses na prisão, a Afeni pagou a fiança.

Embora ela e outros acreditassem que sua vida estava essencialmente terminada neste ponto, ela estava se preparando para lutar com tudo o que ela tinha.

Durante seu tempo na prisão, Afeni e Lumumba haviam se distanciado. A acusação foi capaz de limitar com sucesso o tempo que os réus podiam passar juntos fora do tribunal. E nas poucas vezes em que puderam se encontrar, Lumumba pediu repetidamente a Afeni que fizesse sexo – mesmo com os outros réus e advogados presentes. Ela se recusou. Isto, juntamente com suas discordâncias recorrentes ao longo do julgamento, levou a uma deterioração ainda maior de seu relacionamento.

Enquanto ela estava fora sob fiança, Afeni ficou grávida do filho de outro colega dos Panteras Negras, Billy Garland. Uma vez que Lumumba descobriu, ele a deserdou como esposa – o status “aberto” de seu relacionamento aparentemente só se aplicava a ele. Com Lumumba dando as costas para ela, Afeni estava ainda mais só.

Incrivelmente, quando o julgamento começou, em setembro de 1970, isso não a dissuadiu de sua decisão de agir como sua própria advogada. Agora por conta própria, ela tomou gosto pela advocacia.

“Eu era jovem”, lembra Afeni. “Eu era arrogante e era brilhante no tribunal. Eu não teria sido capaz de ser brilhante se pensasse que ia sair da cadeia. Foi porque eu pensava que esta era a última vez que eu podia falar. A última vez antes que eles me prendessem para sempre”.

Ela não tinha medo de desafiar o juiz, de entrar em brigas com ele quando descontente e levantar objeções contra a acusação. Ela entrevistou testemunhas com tato e liderou interrogatórios cruzados como se fosse uma advogada experiente.

De fora, não havia nada que sinalizasse que a Afeni estava fora de sua zona de conforto. Cinco meses após sua gravidez, no entanto, seu bem-estar mental e físico começaria a desmoronar. Após dois réus saírem com fiança, Afeni teve sua fiança revogada em 3 de fevereiro de 1971. Pouco tempo depois, Huey P. Newton dispensou todos os réus além de Afeni e Joan Bird do Partido dos Panteras Negras. Como Afeni e Bird eram as duas únicas mulheres em julgamento e, ao contrário dos homens, não tentaram fugir sob fiança, elas foram poupadas.

Com a fiança revogada, Afeni estava mais uma vez atrás das grades na decrépita Casa de Detenção de Mulheres de Nova Iorque – ela ficou sem água quente, não comeu comida, foi submetida a revistas regulares nas cavidades corporais e recebeu apenas algumas folhas de papel higiênico por dia. Mais tarde, Afeni foi resgatada uma segunda vez pelo mesmo grupo de mulheres que investiu dinheiro na primeira vez, mas esse período de tempo nessas condições colocou não apenas sua saúde em risco, mas também a de seu filho por nascer.

“As condições não são apenas abomináveis, como eram antes; são desumanas”, disse Afeni ao Juiz John Murtagh. “As instalações não são mais ruins; são ridículas. As mulheres não devem ser colocadas lá.”

Quanto aos Panteras, Afeni estava ficando rapidamente desiludida com a organização. Não se sentiu bem que a maioria dos outros réus tivessem sido expulsos porque alguns poucos haviam conseguido pagar a fiança. Pior ainda, em 17 de abril de 1971, um homem chamado Sam Napier, o gerente de circulação do jornal Black Panther, que era um amigo próximo dela, mas inimigo do comitê Harlem, havia sido amarrado a uma cadeira e morto a tiros em um escritório dos Panteras em Corona, Queens. A violência que Afeni havia passado uma vida inteira tentando escapar estava agora assumindo o partido que ela havia visto como sua salvação. E ela foi apanhada de surpresa no meio de tudo isso.

Durante meses, Afeni não queria mais do que enfrentar o oficial Ralph White na sala do tribunal.

O primeiro dos três oficiais infiltrados a tomar posição, no entanto, foi Eugene Roberts. Ele foi considerado a principal testemunha da acusação, mas seus relatórios sobre o que ele observou dos 21 militantes dos Panteras Negras foram muito vagos para se enquadrar nas acusações. Nos interrogatórios, Roberts revelou que o grupo não tinha feito nenhum tipo de planejamento para uma suposta ação direta de bombardeio. Sua insistência de que as acusações eram verdadeiras, e que os bombardeios eram iminentes, era pouco credível.

“Eu pessoalmente acreditava que algo iria ser feito”, disse Roberts, “mas eu não sabia quando”.

O testemunho pouco inspirador de Roberts já havia infligido um duro golpe à acusação. Agora dependia de White. Para que o Estado vencesse, ele teria que fazer com que os réus, incluindo Afeni, não fossem apenas membros de um partido político radical – talvez até mesmo extremistas – mas terroristas violentos que, antes de serem presos, estavam à beira de desencadear uma onda de assassinatos e caos sobre os cidadãos de Nova York.

Isto também significava que Afeni finalmente enfrentaria o White – um contra um. Era obviamente pessoal para ela. White foi, afinal, uma das principais razões pelas quais ela foi forçada a sobreviver em condições tão terríveis em uma prisão durante meses durante sua gravidez.

Longe de perder a calma, Afeni o atraiu para uma armadilha – e foi essa armadilha que, uma vez armada, se tornou o momento crucial no julgamento.

“Por que, Yedwa, você fez isso conosco?”

Foi a primeira coisa que ela havia dito a White desde sua prisão e sua primeira pergunta a ele no tribunal. Ela estava diante dele agora na sala de audiências vestindo uma bata que abraçava com força sua barriga grávida, toda sua raiva e seu senso de traição contidos em oito palavras.

White e o Estado queriam fazer com que os Panteras encarnassem verdadeiramente a violência e a militância de sua retórica. Queriam que toda a conversa sobre “os porcos” fosse apoiada por uma sede muito real de violência nas ruas – para a qual a Afeni e os outros réus estavam ativamente se dirigindo.

Então Afeni lhe perguntou como ele caracterizaria, em suas palavras, não a retórica, mas o trabalho cotidiano que os Panteras Negras estavam fazendo – e, mais importante, como ele caracterizaria seu próprio trabalho.

White: Quanto ao seu envolvimento, eu pensava que você era mais militar do que política.

Shakur: Que envolvimento?

White: Não consigo me lembrar de tudo o que você disse ou tudo o que você fez ou mesmo de todas as suas ações; mas… Eu estava apenas baseando minha própria opinião no que eu via sobre você ou sobre qualquer outra pessoa.

Shakur: Entendo isso. Mas você disse que havia coisas que você me viu fazendo, eu só quero ouvir uma coisa.

White: Lembro-me de uma reunião no escritório dos Panteras, você entrou numa vibe sobre cercar os porcos, junto com aquela coisa militar, e muito emocionada. Lembro-me disso, mais outras coisas das quais não me lembro de jeito nenhum. Estou dizendo apenas como eu baseei minhas opiniões, no que… tinha visto e ouvido e tinha esquecido a maioria delas.

Shakur: Você já me viu trabalhando no Hospital Lincoln?

White: Sim, eu já vi.

Shakur: Você alguma vez me viu trabalhando nas escolas?

White: Sim, já vi.

Shakur: Alguma vez me viu na rua trabalhando?

White: Sim, eu já vi.

Shakur: Estas são algumas das coisas que o levaram a pensar que eu tinha uma mente militar?

White: Não, não era.

Shakur: Você não se lembra das outras coisas?

White: Na época, eu me lembrei delas. Você me lembrou das coisas boas que estava fazendo. Se você me lembrou de algumas das coisas que disse, eu poderia responder a isso.

Shakur: Sim, eu acho que sim.

O caso do Estado repousava quase inteiramente no testemunho de agentes infiltrados – e esse testemunho se baseava quase inteiramente na retórica militante. Palavras de luta, e pouco mais.

E em um contra-interrogatório, Afeni havia dado um duro golpe.

A escrita estava na parede em 2 de abril de 1971, dois anos após os membros dos 21 membros dos Panteras terem sido presos. O oficial Carlos Ashwood, que era a última testemunha do promotor Joseph Phillips, tinha tomado posição a partir do final de março, e ele não se mostrou mais útil para a acusação do que os dois oficiais anteriores. Afeni o fez parecer uma criança.

Shakur: Você já me viu matar alguém?

Ashwood: Eu nunca a vi matar ninguém.

Shakur: Você alguma vez me viu explodir alguma coisa?

Ashwood: Eu nunca te vi explodir nada.

Ao longo das semanas seguintes, Phillips recorreu ao descontrole emocional para lutar pelo seu caso desvendado. Tudo o que restava era que o advogado de defesa, o promotor e o juiz falassem diretamente ao júri.

Afeni foi selecionado para falar em segundo lugar entre os advogados de defesa. Apesar de seus contra-interrogatórios bem sucedidos, ninguém estava certo do resultado. Ironicamente, foi somente na hora que ela sentiu que tinha uma chance de lutar que ela amoleceu. Ela não era mais a jovem descarada que decidiu que iria balançar as estruturas. A raiva que tinha estado com ela quando era menina em um lar abusivo e mais tarde, quando ela encontrou um propósito nos Panteras Negras, tinha fugido dela.

De pé diante do júri com sua bata branca, ela era algo completamente diferente pela primeira vez em sua vida: vulnerável. Sua vida – e a vida de seu filho ainda por nascer – estava pendurada no equilíbrio da decisão de uma dúzia de estranhos. Ela abandonou a retórica justa e romântica que primeiro a atraiu para os Panteras quando jovem e, em vez disso, olhou de frente para as doze pessoas do júri, falando do coração.

Eu não sei o que devo dizer. Não sei como devo justificar as acusações que o Sr. Phillips apresentou perante o tribunal contra mim. Mas sei que nenhuma dessas acusações foi provada e não estou falando de uma prova que paire uma dúvida razoável. Estou dizendo que nenhuma das acusações foi provada, ponto final. Que nada foi provado neste tribunal, que eu ou qualquer um dos réus fizemos qualquer uma destas coisas que o Sr. Phillips insiste em dizer que fizemos. Então, por que estamos aqui? Por que qualquer um de nós está aqui? Eu não sei.

Mas eu gostaria que vocês acabassem com este pesadelo, porque estou cansada disto e não posso justificar isto em minha mente. Não há nenhuma razão lógica para que tenhamos passado os últimos dois anos como nós passamos, para sermos ameaçados de prisão porque alguém em algum lugar está observando e esperando a hora certa para justificar ser um espião. Portanto, faça o que tem que ser feito. Mas por favor, não se esqueça do que vocês viram e ouviram neste tribunal… Deixe a história registrá-los como um júri que não se ajoelharia diante da absurda ação do Estado. Mostre-nos que não estávamos errados ao assumir que vocês nos julgariam de forma justa. E lembre-se que é tudo o que estamos pedindo a você.

Phillips foi o próximo. Mas onde Afeni tinha sido sincera e vulnerável, ele era arrogante, até mesmo insultuoso – tentando endurecer o coração do júri contra a mulher grávida que tinha acabado de falar com eles para salvar sua vida. Entendendo uma crescente simpatia entre o júri pela Afeni, ele a acusou de esquecer dos principais fatos do caso. Apesar de estar indo mal, o Juiz Murtagh falou como se Phillips tivesse a vantagem quando a defesa se opôs durante seu monólogo.

“Aparentemente, ele está indo muito bem para você”, disse Murtagh. “Sente-se”.

Por volta das 16h do dia 12 de maio de 1971, Murtagh foi informado de que o júri havia proferido um veredito – só tinha levado cerca de vinte minutos. Supondo que o veredito seria culpado, ele passou trinta e cinco minutos tomando medidas de segurança.

Quando os jurados chegaram às 16h35, deram seu veredicto unânime: 156 afirmações de “inocente”.

Depois que o jurado James Ingram Fox disse “inocente” pela última vez, Afeni irrompeu em lágrimas, Lumumba gritou, e cada um dos réus se reuniu para chorar, gritar, e celebrar uns com os outros. Mais de vinte e cinco meses após sua prisão, todos eles estavam livres.

Depois disso, os réus e os jurados se reuniram nos escritórios de advocacia de Crain e Lefcourt para comemorar. Uma jurada, impressionada com a forma como a Afeni havia se defendido na sala do tribunal, perguntou-lhe qual era seu segredo.

“Medo”, respondeu Afeni. ” Puro medo”.

Pouco mais de um mês depois, Afeni deu à luz em 16 de junho de 1971. Ela deu o nome de Lesane Parish Crooks a seu filho. Alguns dias depois, ela mudou o nome dele para Tupac Amaru Shakur, em homenagem ao grande líder inca. “Eu queria que ele soubesse que ele fazia parte de uma cultura mundial e não apenas de um bairro”, disse ela. “Eu queria que ele tivesse o nome de revolucionários, povos indígenas do mundo”.

Ela não voltou ao Partido dos Panteras Negras e, em vez disso, casou-se com Mutulu Shakur, que era membro do Exército de Libertação Negra (BLA), em 1975, no mesmo ano em que sua filha, Sekyiwa Shakur, nasceu.

Mas em 1981, Mutulu, cinco outros membros do BLA, e quatro ex-membros do Weather Underground roubaram um carro blindado em Nanuet, Nova York, roubando US$ 1,6 milhão e deixando um segurança morto e outro gravemente ferido. Dois policiais foram mortos em sua fuga. Mutulu fugiu então, com o casal se divorciando logo em seguida. Finalmente, após perder seu emprego em 1984, Afeni se mudou com seus dois filhos de Nova Iorque para Baltimore, Maryland, para iniciar um novo capítulo de sua vida.

Mas ao invés disso, sua vida começou a ficar fora de controle. Afeni havia usado cocaína e LSD durante os dias mais estressantes na corte e continuou a usar drogas após o julgamento. Ela ficou limpa durante os dois primeiros anos que esteve em Baltimore, mas logo recaiu. À medida que seu vício se intensificou, ela enviou seus filhos para morar com uma amiga em Marin City, Califórnia. Ela explicou:

Meu vício não era apenas com substâncias, mas também com as pessoas que eu continuava a manter em minha vida. Fiquei ali mesmo com essas pessoas. Eu nunca segui em frente. Todo o tempo esses homens estavam sendo mortos ferozmente, sendo presos, desaparecendo, e eu simplesmente fiquei. Eu acreditava em meu coração que era isso. Estas pessoas eram a minha vida. Eu não sabia que tinha escolha para sair dela… Mesmo quando estava fumando crack no meu pior momento, eu dizia: “Deus, como vou sair disto?” E ele diria: “Bem, para você não há saída. Aonde você iria?

Eu pensava que a razão pela qual eu estava ficando drogada era para acalmar a visão de todas as pessoas que morriam e toda aquela violência e trauma. Então, eu diria coisas como: “Se você ficasse no meu lugar por um segundo, seu traseiro também ficaria drogado”. E eu acreditava nisso.

Afeni não foi a única ex-pantera a lutar naqueles anos. O co-fundador Huey Newton foi assassinado em 1989 por um traficante e membro da Família Black Guerrilla, uma gangue prisional nominalmente marxista-leninista. Muitos outros haviam sido mortos ou encarcerados até então.

Afeni acabou se mudando para Marin City para se juntar a seus filhos, mas ela foi desviada novamente quando iniciou um relacionamento com um homem preso. Ela ficou grávida e, depois de inicialmente lhe ter sido negado um aborto, começou a fumar muito crack, numa tentativa de acabar com a vida do bebê. Quando ela realmente recebeu um aborto, ela já era viciada em crack.

De lá, Tupac se ramificou por conta própria enquanto Sekyiwa foi deixada para se defender sozinha. Separada de seus filhos e enfiada nas drogas, Afeni atingiu seu limite.

“Eu estava morrendo, e sabia que estava morrendo porque meu espírito não estava mais lá”, recorda Afeni. “Eu ia para a cama à noite e realmente não me importava se eu acordava ou não.”

Foi só quando ela se mudou de volta para Nova York em 1990 que a Afeni chacoalhou seu vício em drogas através das reuniões de Narcóticos Anônimos. Tupac, que estava crescendo rapidamente para se tornar uma estrela do rap, ainda estava apreensivo com a possibilidade de se reconectar com ela. Isso machucou Afeni, mas ela entendeu o problema.

“Como garota, eu só magoava”, disse Afeni. “Minha mãe era fraca e doce. Meu pai era mau e arrogante. Éramos negros e pobres em um lugar onde isso significava que você era uma merda. Então, eu entendo Tupac. Ele procurava as razões em mim, assim como eu procurava as respostas em meus pais. Quando Tupac veio até mim com um monte de perguntas, eu sabia o que estava chegando”.

Mas a influência de Afeni sobre Tupac cresceu mesmo em sua ausência. Quando adolescente, ele entrou para a Liga dos Jovens Comunistas dos EUA. Mais tarde, quando sua fama cresceu, ele usou-a para falar contra o sistema de justiça norte-americano que sua mãe havia desafiado décadas antes, mesmo quando os movimentos sociais e culturais, com o “fim de história”, havia se afastado muito de qualquer tipo de política radical.

“Há muito dinheiro aqui”, disse Tupac em uma entrevista de 1992 à MTV News. “Não há como essas pessoas possuírem aviões enquanto há pessoas que não têm casas, apartamentos, barracos, cabanas, cuecas, calças.”

Afeni foi paciente, dando a seu filho o espaço que ele precisava, pois sua música começou a tocar primeiro em milhares e depois milhões de vidas. Com o tempo, eles se aproximaram mais do que nunca. Tupac até escreveu sobre seu relacionamento renovado em sua faixa de 1995 “Querida Mamãe”.

“E mesmo como um demônio do crack, Mama, você sempre foi uma rainha negra, Mama”, dizia Tupac em seu rap. “Eu finalmente entendo. Para uma mulher, não é fácil tentar criar um homem. Você sempre esteve comprometida. Uma pobre mãe solteira na assistência social, diga-me como você o fez. Não há como eu lhe pagar de volta, mas o plano é mostrar-lhe que eu entendo – você é apreciada.”

Em 1996, menos de dois anos depois da música “Querida Mamãe”, Tupac foi baleado e morto em Las Vegas. Isso poderia ter mandado Afeni por um caminho sombrio mais uma vez. Em vez disso, ela tomou conta do patrimônio de seu filho, criando uma empresa em sua homenagem chamada Amaru Entertainment. A perda de seu filho revigorou sua determinação de continuar a trajetória em sua homenagem.

“Quando perdi meu filho, tive que lembrar que tinha uma filha e tinha netos e tenho a responsabilidade com meu filho de ficar limpa e viver de acordo com minhas obrigações”, disse Afeni. “E meus deveres não terminaram quando Tupac morreu.”

Afeni continuou seu trabalho como militante e viajou com frequência para fazer aparições e palestras para convidados. Através da partilha de suas experiências, ela encontrou a paz. Em seus últimos anos, Afeni viveu em uma casa em Stone Mountain, Geórgia, comprada para ela por seu filho antes de sua morte. Ela acreditava que era a primeira vez que alguém de sua família possuía terra desde sua bisavó Millie Ann, que a perdeu depois que ela colocou para pagar a fiança de seus filhos na cadeia.

Quando Afeni faleceu em 2 de maio de 2016, ela era mais conhecida não por sua luta no entre os 21 militantes dos Panteras Negras, não por fazer frente ao Estado norte-americano em guerra com ela e vencer, mas por ser a mãe de uma carismática superstar que morreu antes de seu tempo – o bebê que ela estava se esforçando para proteger quase meio século antes.

Mas aqueles de sua geração que haviam nascido na violência, numa luta que já tinha séculos, que lutaram para sair, que perderam e depois se viram novamente, sabiam que ela era muito mais do que isso.

Uma fúria transformou Afeni Shakur – e não destruiu ela.

Este artigo baseia-se no material de origem do livro de Murray Kempton sobre o Panther 21, The Briar Patch: The People of the State of New York v. Lumumba Shakur et al (1973).

Sobre o autor

Tashan Reed cobre o time de futebol americano Las Vegas Raiders para a The Athletic.

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