20 de novembro de 2016

O fim do liberalismo identitário

Mark Lilla

The New York Times

Dan Gluibizzi

Tradução / É um truísmo o fato de que os EUA se tornaram um país mais diversificado. É também algo belo de se observar. Visitantes de outros países, particularmente daqueles com dificuldades de incorporar diferentes grupos étnicos e religiosos, ficam maravilhados com o modo que lidamos com isso. Não perfeitamente, é claro, mas certamente melhor do que qualquer nação europeia ou asiática hoje. É uma história de sucesso extraordinária.

Mas como essa diversidade deve moldar nossa política? A resposta liberal padrão para quase uma geração foi a que devemos nos tornar conscientes e “celebrar” nossas diferenças. Um princípio esplêndido da pedagogia moral – mas desastroso como fundamento para a política democrática em nossa era ideológica. Nos últimos anos, o liberalismo americano deslizou para dentro de uma espécie de pânico moral em torno das identidades racial, de gênero e sexual, que distorceu sua mensagem, impedindo que este se tornasse uma força unificadora capaz de governar.

Uma das muitas lições da recente campanha eleitoral presidencial e seu resultado repugnante é a de que a era do liberalismo identitário deve ser levada ao fim. Hillary Clinton estava no seu melhor e mais edificante momento quando falou sobre os interesses americanos nos assuntos mundiais e como estes se relacionam com a nossa compreensão da democracia. Mas, quando se referiu aos assuntos internos, ela pareceu perder, ao longo de sua campanha, essa visão ampla e adentrou na retórica da diversidade, apelando explicitamente em cada parada aos eleitores afroamericanos, latinos, LGBT’s e mulheres. Este foi um erro estratégico. Se você vai mencionar grupos na América, é melhor mencionar todos eles. Se você não fizer isso, aqueles deixados de fora irão notar e se sentir excluídos. Isso, como mostram os dados, foi exatamente o que aconteceu com a classe operária branca e aqueles com fortes convicções religiosas. Dois terços dos eleitores brancos sem diplomas universitários votaram em Donald Trump, assim como mais de 80% dos evangélicos brancos.

A energia moral dispendida em torno da identidade, naturalmente, surtiu bons efeitos. A ação afirmativa remodelou e melhorou a vida corporativa. Black Lives Matter proporcionou um chamado à consciência para cada americano. Os esforços de Hollywood para normalizar a homossexualidade em nossa cultura popular ajudaram a normalizá-la nas famílias americanas e na vida pública.

Mas, a fixação na diversidade em nossas escolas e na imprensa produziu uma geração de liberais e progressistas narcisisticamente inconscientes das condições exteriores a seus grupos autodefinidos, indiferentes à tarefa de alcançar todos os americanos em todas as partes. Desde muito jovens, nossos filhos estão sendo incentivados a falar sobre suas identidades individuais, mesmo antes de tê-las. Quando chegam à universidade, muitos assumem que o discurso da diversidade esgota o discurso político e têm escandalosamente pouco a dizer sobre questões tão perenes como a classe, a guerra, a economia e o bem comum. Em grande parte, isso se deve aos currículos de história da escola secundária, que anacronicamente projetam a política de identidade de hoje de volta ao passado, criando uma imagem distorcida das principais forças e indivíduos que moldaram nosso país. (As conquistas dos movimentos de direitos das mulheres, por exemplo, foram reais e importantes, mas você não pode compreendê-las se você não entender primeiro a conquista dos pais fundadores no estabelecimento de um sistema de governo baseado na garantia de direitos).

Quando os jovens chegam à universidade, eles são encorajados a manter esse foco em si mesmos por grupos de estudantes, membros do corpo docente e também administradores cujo trabalho em tempo integral é lidar com – e aumentar o significado de – “questões de diversidade”. A Fox News e outros meios de comunicação conservadores se divertem zombando da “loucura dos campi” que rodeia essas questões, que apenas servem de artifícios para demagogos populistas que querem deslegitimar a aprendizagem aos olhos daqueles que nunca puseram o pé em um campus. Como explicar ao eleitor médio a suposta urgência moral de dar aos estudantes universitários o direito de escolher os pronomes de gênero designados a serem usados ao abordá-los? Como não rir junto com aqueles eleitores na história de um brincalhão da Universidade de Michigan que escreveu “Sua Majestade”?

Essa consciência de diversidade própria ao público universitário foi, ao longo dos anos, filtrada pela mídia liberal, e não sutilmente. As ações afirmativas para mulheres e minorias dos jornais e das emissoras da América foi uma realização social extraordinária – e mudou mesmo, literalmente, a cara dos meios de comunicação de direita, como no caso de jornalistas como Megyn Kelly e Laura Ingraham que ganharam proeminência. Mas também parece ter encorajado a suposição, especialmente entre os jornalistas e editores mais jovens, de que simplesmente por se concentrar na identidade eles fizeram o seu trabalho.

Recentemente eu fiz um pequeno experimento durante um ano sabático na França: durante um ano inteiro li apenas publicações europeias, não americanas. Meu pensamento era tentar ver o mundo como os leitores europeus. Mas foi muito mais instrutivo voltar para casa e perceber como a lente da identidade transformou a reportagem americana nos últimos anos. Quantas vezes, por exemplo, a história mais preguiçosa do jornalismo americano – sobre o “primeiro X a fazer Y” – foi contada e recontada. A fascinação com o drama de identidade afetou até mesmo as notícias internacionais, que estão em oferta angustiantemente curta. Por mais interessante que seja ler, digamos, sobre o destino dos transgêneros no Egito, não contribui em nada para educar os americanos sobre as poderosas correntes políticas e religiosas que determinarão o futuro do Egito e, indiretamente, o nosso. Nenhuma grande fonte de notícias na Europa pensaria em adotar tal enfoque.

Mas é no nível da política eleitoral que o liberalismo identitário falhou mais espetacularmente, como acabamos de ver. Política nacional, em períodos saudáveis, não é sobre “diferença”, trata-se de comunalidade e será dominada por quem melhor captura a imaginação dos americanos sobre nosso destino compartilhado. Ronald Reagan fez isso de maneira muito hábil, seja o que for que se pense de sua visão. Também o fez Bill Clinton, que tirou uma página do livro de regras de Reagan. Ele retirou o Partido Democrata de sua ala identitária-consciente, concentrou suas energias em programas domésticos que beneficiariam a todos (como o seguro de saúde nacional) e definiu o papel da América no mundo pós-1989. Ao permanecer no cargo por dois mandatos, ele foi capaz de realizar muito para diferentes grupos na coalizão Democrática. A política de identidade, em contraste, é em grande parte expressiva, não persuasiva. É por isso que nunca ganha eleições – mas pode perdê-las.

O recém-descoberto interesse da mídia, quase antropológico, no homem branco irritado revela tanto sobre o estado de nosso liberalismo como sobre esta figura tão maligna e ignorada anteriormente. Uma interpretação liberal conveniente da eleição presidencial recente coloca que o Sr. Trump ganhou em grande parte porque conseguiu transformar a desvantagem econômica na raiva racial – a tese do “whitelash” (chicote branco, em tradução literal). Isto é conveniente porque sanciona uma convicção de superioridade moral e permite que os liberais ignorem o que esses eleitores disseram ser suas preocupações primordiais. Também incentiva a fantasia de que a direita republicana está condenada à extinção demográfica no longo prazo – o que significa que os liberais têm apenas de esperar que o país caia em seu colo. A porcentagem surpreendentemente alta do voto latino que foi para o Sr. Trump deve lembrar que quanto mais tempo os grupos étnicos estão aqui neste país, mais politicamente diversos eles se tornam.

Finalmente, a tese do whitelash é conveniente porque absolve os liberais de não reconhecer como sua própria obsessão, como a diversidade tem incentivado os americanos brancos, rurais, religiosos a pensar-se como um grupo desfavorecido cuja identidade está sendo ameaçada ou ignorada. Essas pessoas não estão realmente reagindo contra a realidade de nossa América diversificada (eles tendem, afinal, a viver em áreas homogêneas do país). Mas eles estão reagindo contra a retórica onipresente da identidade, que é o que eles entendem por “politicamete correto”. Os liberais devem ter em mente que o primeiro movimento de identidade na política americana foi o Ku Klux Klan, que ainda existe. Aqueles que jogam o jogo de identidade devem estar preparados para perdê-lo.

Precisamos de um liberalismo pós-identitário, e ele deve ser delineado a partir dos sucessos passados do liberalismo pré-identitário. Tal liberalismo concentrar-se-ia em alargar a sua base apelando para os americanos como americanos e enfatizando as questões que afetam a maioria deles. Ele falaria para a nação como uma nação de cidadãos que estão nisto juntos e devem ajudar uns aos outros. Quanto a questões mais restritas que são altamente carregadas simbolicamente e podem afastar aliados potenciais, especialmente aqueles que tocam a sexualidade e a religião, tal liberalismo funcionaria calmamente, sensivelmente e com um senso apropriado de escala. (Parafraseando Bernie Sanders, a América está cansada de ouvir sobre os malditos banheiros dos liberais.)

Os professores comprometidos com tal liberalismo reorientariam a atenção para sua principal responsabilidade política em uma democracia: formar cidadãos comprometidos e conscientes acerca de seu sistema de governo e das principais forças e eventos em nossa história. Um liberalismo pós-identitário também enfatizaria que a democracia não é apenas sobre direitos; confere também deveres aos seus cidadãos, tais como deveres de manter-se informado e votar. Uma imprensa liberal pós-identitária começaria a educar-se sobre partes do país que foram ignoradas, e sobre o que importa lá, especialmente a religião. E levaria a sério a responsabilidade de educar os americanos sobre as principais forças que moldam a política mundial, especialmente sua dimensão histórica.

Alguns anos atrás, fui convidado para uma convenção sindical na Flórida para falar em um painel sobre o famoso discurso das quatro liberdades de Franklin D. Roosevelt de 1941. A sala estava cheia de representantes locais – homens, mulheres, negros, brancos e latinos. Começamos cantando o hino nacional, e depois sentamos para ouvir uma gravação do discurso de Roosevelt. Quando olhei para a multidão e vi a variedade de diferentes rostos, fiquei impressionado com o quão concentrados estavam no que eles compartilhavam. E ouvindo a voz agitada de Roosevelt enquanto invocava a liberdade de expressão, a liberdade de culto, a liberdade da vontade e a liberdade do medo – as liberdades que Roosevelt exigia para “todos no mundo” – lembrou-me do que são os verdeiros fundamentos do liberalismo moderno.

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