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27 de setembro de 2025

Sou marxista pra valer, ainda odeio a classe média e não quero entrar no século 21, diz Marilena Chaui

Marilena Chaui critica a fragmentação da esquerda por movimentos identitários, reafirma seu ódio à classe média e condena a cultura do cancelamento como um "assassinato socialmente aceito", defendendo a análise marxista para a transformação social.

Fernanda Mena
Mestre em direitos humanos pela LSE (London School of Economics), doutora em relações internacionais pela USP e repórter especial da Folha

[RESUMO] Em entrevista à Folha, Marilena Chaui, filósofa e professora emérita da USP, analisa que condenação de Bolsonaro abre nova percepção sobre o Brasil, mas se declara pessimista sobre o país, em um momento em que a extrema direita se fortalece e a esquerda parece perdida e fragmentada, até mesmo pela ação dos movimentos identitários. Na conversa ela reafirma e reforça a famosa declaração de que odeia a classe média, defende a visão marxista de que a economia é o melhor método de pensar o mundo e compara o cancelamento a um assassinato.

*

Doze anos depois de ter causado reações inflamadas à direita e à esquerda, ao declarar que odiava a classe média, a filósofa Marilena Chaui, 84, reitera sua opinião.

"Eu odeio a classe média até o fim dos meus dias", disse à Folha. "A classe média funciona oprimindo os dominados e bajulando os dominantes. Por isso ela é odiosa."

Chaui, que lança o livro "Filosofia, um Modo de Vida" (Planeta), tem acompanhado atentamente os acontecimentos recentes da vida política brasileira. Considera que o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) inaugurou uma nova percepção do Brasil como país, embora afirme ter uma visão "muito pessimista" da sociedade brasileira. "Sobretudo porque a autoimagem é de um povo generoso, acolhedor, sem preconceitos, mesmo quando no cotidiano a violência racista, machista e de classe está inscrita."

Mulher idosa com cabelo curto e óculos, vestindo suéter listrado em tons de bege, laranja e marrom, e cachecol laranja, sentada em cadeira preta, gesticulando com as mãos. Fundo apresenta padrão gráfico com linhas curvas brancas sobre azul e formas geométricas vermelhas e brancas.Mulher idosa com cabelo curto e óculos, vestindo suéter listrado em tons de bege, laranja e marrom, e cachecol laranja, sentada em cadeira preta, gesticulando com as mãos. Fundo apresenta padrão gráfico com linhas curvas brancas sobre azul e formas geométricas vermelhas e brancas.

Marilena Chaui, filósofa e professora emérita da USP, em entrevista, na editora Planeta, em São Paulo - Eduardo Knapp/Folhapress

Considerada uma das principais intelectuais brasileiras, suas reflexões sobre democracia, autoritarismo e ideologias ajudam a iluminar o atual momento histórico de certa forma simbolizado pela atuação de Donald Trump na Casa Branca. Chaui avalia que o presidente dos EUA está "desinstitucionalizando" seu país e representa o fim do império americano.

Neste ano, Chaui também teve seu grande livro de divulgação, "O que É Ideologia", da coleção Primeiros Passos, relançado sob o título "Ideologia, uma Introdução" pela Boitempo, com dois capítulos inéditos, um sobre ideologia da competência e outro sobre ideologia neoliberal. Os mesmos temas são abordados na série de reedições de sua obra pela editora Autêntica.

Na visão da professora emérita da USP, o neoliberalismo "de um lado fragmenta a classe trabalhadora e o pensamento de esquerda; de outro, agrupa e reúne a direita". Um de seus temores em relação ao campo político da esquerda é justamente a fragmentação que pode ser causada por movimentos identitários. "Na fragmentação, você não consegue formar uma totalidade política e se torna muito vulnerável à extrema direita, que é onde essa totalidade se forma."

Crítica feroz do que classifica como relação de dependência com o mundo digital, ela afirma não querer entrar no século 21, e que o celular e as redes sociais podem ser entendidos como uma alegoria contemporânea da caverna de Platão. "O celular como tal é isso: o mundo imaginário da imagem. Só."

Leia, a seguir, os principais trechos da conversa de Chauí com a Folha, em rara entrevista à imprensa.

O julgamento histórico da trama golpista e o relativo apoio popular da prisão de Bolsonaro significam que a sociedade brasileira está se tornando menos autoritária e mais democrática?
É a primeira vez na história do Brasil que um atentado contra a democracia é impedido e punido. Não acho que isso signifique que a sociedade brasileira se tornou menos autoritária.

A sociedade se deu conta de que os interesses privados da família Bolsonaro determinaram os acontecimentos na esfera pública dos direitos. Descobrimos que um dos pilares da democracia é a distinção entre interesse privado e direito público. A indistinção sempre foi a marca de nosso autoritarismo social e político.

Mas, se a intervenção de Trump não tivesse acontecido, ou melhor, a intervenção do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, talvez a coisa ficasse mais diluída. Os EUA agora interferiram na economia, no trabalho, no emprego, em tudo. E acrescente-se a isso eles acharem que tinham soberania para atacar o direito, atacar o Supremo brasileiro.

Como o imperialismo dos EUA se reconfigurou com Trump neste segundo mandato?
A visão que eu tenho do Trump é de que ele está desinstitucionalizando os Estados Unidos. Ele faz intervenções pontuais em lugares de conflito: Gaza, Ucrânia, Venezuela... E a resposta que deu a perguntas do motivo disso foi: "Porque eu posso".

Então, a imagem que eu tenho é a do fim do império americano. Trump se apresenta como o portador do antigo imperialismo, mas esse imperialismo está quebrado por dentro.

Do mesmo modo que, no fim do Império Romano, você teve figuras como Calígula e Caracala, nos EUA você tem Trump, ou seja, um desmando no nível da sua própria personalidade, do tipo eu quero, eu posso, eu faço. E isso desinstitui um país e põe em risco todas as relações planetárias estabelecidas.

Por enquanto, ele tem sustentação ideológica por causa do crescimento da extrema direita no mundo. Mas não sei até quando vai esse suporte político.

Quais os vetores da ascensão da extrema direita?
A partir do instante em que o neoliberalismo determina que o Estado deve se ausentar, isso vira um chamariz para a direita trazer o Estado de volta, porque é por meio dele que a direita opera. É um resultado duplo e simultâneo do neoliberalismo. De um lado, ele fragmenta a classe trabalhadora e o pensamento de esquerda. De outro, agrupa e reúne a direita.

Os elementos que organizavam a sociedade —a fábrica, a escola, o hospital— ficam diluídos em empresas. Então, a percepção que a esquerda tem é de uma desagregação do social, que por isso precisa do Estado forte para reintegrar tudo.

E há uma nova direita e uma extrema direita que usam os símbolos nacionais, que miram o Estado nacional e a posse dos instrumentos estatais, ao mesmo tempo em que dão uma resposta ideológica ao desamparo que o neoliberalismo traz.

É por isso que a extrema direita é inseparável do [pastor Silas] Malafaia, do [bispo] Edir Macedo e das versões religiosas que trazem um amparo para essa total fragmentação. A direita usa essa maneira de congregar os indivíduos como suporte social, ideológico e eleitoral da sua ascensão.

Como a condenação de Bolsonaro atinge a direita e a extrema direita no Brasil?
A minha interpretação é de que agora entramos num momento de espera. A extrema direita vai se rearticular, dependendo de qual liderança irá aparecer. Não sei se [o governador de São Paulo] Tarcísio de Freitas tem força para isso.

Se a política é a expressão da sociedade na qual ela se insere, o que dizer sobre um Brasil que elegeu Jair Bolsonaro e depois elegeu Lula por uma margem tão apertada?
Eu tenho uma visão muito pessimista da sociedade brasileira. Sobretudo porque a autoimagem é de um povo generoso, acolhedor, sem preconceitos. Somos o homem cordial. E a nossa bandeira exprime o que acontece conosco.

A nossa bandeira só representa a natureza: o verde das florestas, o amarelo das riquezas, o azul do céu, com as estrelas e o Cruzeiro do Sul, e a ordem e o progresso, que é o mito positivista. Então, é uma bandeira na qual a sociedade brasileira não existe. Existe só a natureza. E na qual, portanto, nós não existimos como história.

Foi produzido o que eu chamo de o mito fundador do Brasil, segundo o qual nós somos um dom de Deus, e um povo que é pacífico, ordeiro, acolhedor e generoso.

Essa ideia se mantém mesmo quando no cotidiano a violência está inscrita. Você tem a violência racista, a violência machista, a violência de classe. Você pode escutar uma dona de casa dizer: "A minha empregada é ótima, não rouba nada". E ela achar que não tem preconceito de classe!

O machismo está espalhado de tal maneira que frequentemente a ação feminista, num embate com esse machismo institucionalizado, erra o foco e atinge justamente aliados.

Um dos aspectos que mais me incomodam e me preocupam é que, no instante no qual a sociedade brasileira vai numa tentativa de democratização, de luta por direitos e garantia de direitos, o risco é esses movimentos se tornarem identitários e fragmentarem a sociedade.

E na fragmentação você não consegue formar uma totalidade política e se torna muito vulnerável à extrema direita, que é onde essa totalidade se forma. Essa fragmentação nos coloca sob o risco de um ataque contínuo da extrema direita, que, essa sim, é um bloco.

Não seria essa fragmentação uma das responsáveis pela atual crise da esquerda?
Em termos mundiais, a esquerda foi enfraquecida pelo neoliberalismo na medida em que ele fragmentou a economia, dispersou o solo em que a consciência de classe se realizava e deslocou o papel do Estado. As famílias se tornaram microempresas. Foram elaboradas a ideia calvinista do empresário de si mesmo e a figura do sucesso como a prova de que Deus está com você e que a sua salvação na vida eterna está garantida.

Se você toma o mundo pré-neoliberalismo, você tem a ideia de democracia social, e o Estado como fonte dessa democracia na promulgação e concretização dos direitos sociais.

Ora, a primeira tarefa que o neoliberalismo se deu foi de dizer que o Estado não pode ter gastos sociais. Desaparece, portanto, o Estado como aquele que investe no social e garante direitos. Você tem um caldo de cultura que esfacela a esquerda, pois todos os seus suportes econômicos, sociais e políticos foram desfeitos. O mundo neoliberal é totalitário.

Como assim?
A gente pensa que o totalitarismo é a hora em que você tem a figura do líder e a sociedade militarizada. Não é isso. O totalitarismo é o instante no qual todas as formas de vida, todas as formas das relações sociais são idênticas.

Então, a escola é uma empresa, o hospital é uma empresa, o indivíduo é uma empresa, a igreja é uma empresa. Isso é totalitário.

Repensar economicamente as referências sociais que garantem uma visão de esquerda, isto é, de transformação, de mudança e de garantia de felicidade, justiça e liberdade, tem sido obra dos movimentos sociais. E é por isso que eu me preocupo muito que eles possam se esfacelar em movimentos identitários, porque eles são os portadores da mudança.

Muito do que tem sido feito pelos governos de esquerda mundo afora é repensar e refazer o tecido social em que, malgrado a ideologia empresarial, as classes sociais existem e a dominação de classe existe. De alguma maneira, o neoliberalismo conseguiu apagar a dimensão econômica do conflito e fazer o conflito se dar só no campo jurídico, político e ideológico.

Desse ponto de vista, embora eu veja todas as mudanças e queira trabalhar com as mudanças, eu sou muito conservadora. Eu conservo a ideia de que, sem a determinação econômica e a compreensão de como a sociedade se estrutura em classes antagônicas, não dá para fazer nada.

Conservadora no sentido de que a senhora é marxista mesmo?
Sou, pra valer. Tem que pensar a partir da economia, senão você pensa só a partir da ideologia. Você começa a ideologizar tudo e corre o risco de ideologizar os movimentos sociais, que passam a ter conflitos entre si e a se dividir internamente também. Muito me preocupa o fato de que possam surgir bolsões de intolerância.

A cultura do cancelamento seria uma expressão desta intolerância?
Até um mês atrás eu não sabia que existia essa figura chamada cancelamento. Ou seja, é o assassinato, né? Não vi ninguém analisar o cancelamento como um assassinato socialmente aceito. E sobretudo entre os mais jovens, há casos de suicídio mesmo.

Eu costumo dizer o seguinte: nasci na primeira metade do século 20, em 1941, e não vou entrar no século 21. Não vou conseguir. A minha relação com o mundo digital e com tudo que ele representa é de antagonismo. Eu não quero, por favor, não quero, não quero. Estou fora.

A senhora não usa aplicativos ou redes sociais?
Uso o celular como telefone e para fazer Pix. Só. Essa coisa chamada WhatsApp, eu nem sei o que é. E nenhuma rede social. Nada, nada. Quando faço essas conferências online, eu peço para as pessoas: "Mande o tal do link 20 minutos antes e tenha uma santa paciência lá do seu lado que eu vou acertar".

E aí, você não imagina, tomo um calmante, porque sei que vou errar no link. Mas não erro. Eu sempre acerto.

O mesmo acontece com relação ao computador. Eu sempre acho que vou apertar um botão errado e vou perder tudo. Meu filho disse: "Não, mãe, você não perde porque está na nuvem". Eu falei: "Bom, então agora estou destruída, porque, se chover, acaba tudo, né?". [risos]

Ao mesmo tempo, tenho problemas filosóficos com o mundo digital e especialmente com esse objeto [faz gesto com a palma da mão como se fosse a tela de um celular]. Eu venho de uma formação pela fenomenologia e, em particular, pelo [filósofo francês Maurice] Merleau-Ponty, que é o universo da percepção. E portanto é o mundo da relação com o espaço vivido, com o tempo vivido, com os símbolos e com a linguagem.

A redução que o digital fez foi tornar o espaço isso aqui [o celular], o tempo isso aqui [o celular]. O mundo da percepção está destruído.

A tela do celular é a nova caverna da alegoria de Platão?
Sem a menor dúvida. E não é porque tem fake news, não. É porque o celular como tal é isso: o mundo imaginário da imagem. Só. Fico muito perturbada com a naturalidade com que isso faz parte da vida das crianças e dos jovens.

Isso aqui é uma droga com a qual se estabelece uma relação de dependência. Mas não só. Você usa esse objeto para se comunicar com quem está ao seu lado. Então, é um empobrecimento do mundo, da linguagem e da criação. Estou muito aterrorizada, mas, é claro, eu sou velha, então não vou ver o que vai acontecer. Eu gostaria de ficar mais uns anos para ter uma ideia do que vai ser.

No início da década de 2010, a senhora viralizou por ter declarado que odiava a classe média. A senhora ainda a odeia?
Ah, sim, com todas as minhas forças. Eu odeio a classe média até o fim dos meus dias.

Por que é que eu odeio a classe média? A sociedade capitalista tem duas classes fundamentais: a classe trabalhadora, que produz a mais-valia, e a burguesia. O trabalho da burguesia é explorar o trabalhador, porque uma parte do trabalho dele não é paga e vira capital.

O lugar, o papel, o significado, a relação dessas duas classes são claríssimos. Entre elas, tem uma terceira, que não tem lugar econômico porque não está nem na classe trabalhadora nem na classe burguesa. E a função da classe média é ideológica: espalhar as ideias da burguesia, da classe dominante.

Como a classe média não sabe muito bem onde está, ela fica insegura. Ela tem um sonho e um pesadelo. O sonho é se tornar burguesa. Pensa que se tiver um apartamento com dez suítes, churrasqueira na varanda, não sei o que mais, está já próxima disso. Mas ela não está.

Enquanto não receber a mais-valia, ela não entra na burguesia. Ela pode ficar rica, mas burguesa ela não é. E por isso ela tem um pesadelo, que é cair na classe dominada, na classe trabalhadora.

Então, a classe média funciona oprimindo os dominados e festejando e bajulando os dominantes. Por isso ela é odiosa. Ela é o cimento ideológico que garante que essa sociedade fique como está. É isso que acho odioso nela: não perceber que essa sociedade como está não pode ser.

Não é curioso que um dos índices do sucesso dos dois primeiros governos Lula tenha sido nomeado como ascensão de uma nova classe média, a mesma que depois se voltou contra o PT a partir do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff?
Não é isso. Eu contestei a Dilma sobre a ideia de que tinha crescido a classe média. Não cresceu. Vou começar do começo.

Em 1968, eu ganhei uma bolsa de estudos e fui para a França, onde os trabalhadores tinham automóvel, filhos nas escolas ou já nas universidades e férias no Mediterrâneo. E eu comparava essa classe média social-democrata com o que acontecia no Brasil.

Aqui a classe trabalhadora não virou classe média. O que aconteceu é que nós tivemos políticas sociais que fizeram com que melhorasse a condição da classe trabalhadora. O elemento que serve para avaliar a classe média é o consumo. E, com os direitos sociais, o consumo da classe trabalhadora aumentou e variou. Mas, como classe, ela ficou lá.

E como a senhora explica que parcelas das pessoas que tiveram os seus direitos ampliados durante um governo de esquerda tenham se voltado contra ele?
Não sei. Isso para mim é um mistério. Por um lado, eu me pergunto em que nós da esquerda falhamos. Alguma besteira nós fizemos para perder isso.

A política mais adequada no mundo neoliberal é a política individualista. E acho que nós da esquerda não levamos em conta o tamanho dessa transformação econômica e quais análises teríamos que fazer e que ações teríamos que propor.

A extrema direita é a política que o neoliberalismo pede. Ela é contemporânea, ela se atualizou.

A esquerda não se atualizou?
A esquerda não fez isso. Nós ainda não acertamos o passo da reflexão e da ação. Nós estamos um pouco antiquados. E corremos o risco, o que me deixa desesperada, de os movimentos identitários nos fragmentarem em vez de nos unirem.

A grande contradição da nossa sociedade continua a ser entre classe trabalhadora e classe burguesa, ou seja, a produção da mais-valia. Você só tem capital se tiver trabalho não pago. O que acontece é que nós não conseguimos ainda localizar onde, como e por que.

A senhora está lançando o livro "Filosofia, Um Modo de Vida". O que é tomar a filosofia como um modo de vida?
Quando você faz ciência no laboratório ou no seu centro de pesquisa e tal, depois vai para casa e tem sua vida. O caso da filosofia é muito peculiar, é uma relação ininterrupta com o mundo, seja uma relação de interrogação, seja uma relação de reconhecimento e identificação, seja uma relação de busca e de procura, mas ela está sempre com você.

Você não pode chegar em casa e dizer: "Cheguei em casa, e a filosofia acabou". Ela é uma maneira de você ver as coisas, de perguntar, de você responder, de se relacionar com o outro e de estar no mundo. Por isso ela é uma maneira de viver. É diferente da maioria das profissões, nas quais você pode fechar o expediente. No caso da filosofia, você não fecha o expediente nunca.

No livro, a senhora cita o filósofo Spinoza ao tratar da separação entre natureza e cultura e de sua reaproximação, ao tornar a natureza matéria-prima. Como o pensamento de Spinoza sobre a natureza pode informar o nosso cenário atual de crise ambiental e climática?
Ah, totalmente. Quando Spinoza diz "Deus é a natureza", o que ele diz é: Deus é uma substância absolutamente infinita e é constituído de infinitas qualidades, infinitos atributos.

Destes, nós conhecemos dois: o pensamento e a extensão. Pelo nosso corpo, nós somos uma expressão da extensão divina; pela nossa mente, somos uma expressão do pensamento divino. Cada um de nós é uma expressão singular de Deus.

Então, Deus é a natureza. E nós, nela. Nós com ela. De um ponto de vista spinozano, o que se está fazendo com a natureza é um crime absoluto porque você está destroçando expressões divinas. Ao fazer isso com a natureza, você está fazendo isso com você e com todos os outros.

O livro trata do conceito filosófico de servidão voluntária, criado pelo francês Étienne de la Boétie no século 16. De que maneira ele permite uma leitura do Brasil?
O La Boétie diz que a natureza nos fez livres. E a pergunta é: por que nós destroçamos essa liberdade? Ele diz que isso acontece no momento em que, estabelecida a desigualdade social, alguns consideram que têm o direito de mandar e se tornam tiranos, aos quais todos obedecem. E a sociedade vai reproduzir esse esquema.

Ou seja, cada um, no lugar que ocupa, determina os que lhe estão abaixo, sobre os quais ele manda. Ele serve porque quer ser servido. Ele obedece porque quer ser obedecido. Então, a servidão é voluntária nesse sentido. Eu quero a servidão no sentido de que ela garante para mim o meu poder.

Eu penso que esse modelo cabe bem para o Brasil. Sérgio Buarque e alguns dos sociólogos do período dele estudaram muito uma figura da sociedade brasileira que é o mandonismo, na época preso à figura dos coronéis. O mandonismo é uma coisa que ficou no Brasil. Basta que você se considere superior, independente de ser ou não, para imediatamente considerar o outro inferior e mandar nele.

A relação de mando e obediência forma o tecido do nosso cotidiano. A sociedade se estrutura entre um que manda e outro que obedece em todos os setores. Não é só na vida econômica, é na vida social, é na vida política, é na vida intelectual, em todo lugar.

Um amigo norte-americano gosta de dizer que quando dois brasileiros brigam, chega um instante em que um fala para o outro: "Você sabe com quem está falando?". E quando os americanos brigam, um diz para o outro: "Quem você pensa que é?". A nossa dinâmica imediatamente hierarquiza, e a outra imediatamente equaliza.

A senhora foi recentemente homenageada como uma docente negra da USP e disse que se autodeclara parda. Quando se reconheceu como tal?
Olha, foram os movimentos antirracistas e de cultura negra que abriram meus olhos. Nunca tinha percebido, porque em casa nunca foi assunto. Eu me dei conta olhando as fotos dos meus bisavós: "Mas eles são negros!". E a foto dos meus bisavós árabes: "Eles são brancos!". Então, o que eu sou? Mas sem os movimentos sociais, nunca teria pensado nisso.

Recentemente a senhora escreveu um artigo em defesa do sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, refutando as acusações que ele sofreu de assédio sexual. Ele mesmo, em artigo de 2023, disse reconhecer que pode ter tido "comportamentos inapropriados". Trata-se de uma questão semântica? Quando um comportamento inapropriado vira assédio?
Não faço ideia. E vou dar um exemplo. Em 1972, fui dar aula em Stanford, nos EUA, e, num dado instante, eu estava saindo da sala da diretoria com duas professoras. Aí um professor abriu a porta para nós. A professora fez um escândalo. Disse que aquilo era assédio sexual, que ele estava propondo o coito...

Eu caí das minhas tamancas. Então, eu me pergunto: o que é que se determinou como comportamento inapropriado? Para aquele grupo de Stanford, um homem abrir a porta para uma mulher era assédio sexual. Então, acho que as fronteiras da vida cotidiana e dos hábitos milenares precisam ser discutidos. Não há uma discussão a esse respeito. O que há é uma acusação.

E a minha dificuldade em lidar com as acusações é esta: você não tem um esclarecimento do proibido e do permitido, do aceitável e do inaceitável. A punição vem antes que você saiba qual é o crime. Então isso me deixa muito aflita.

Tive uma relação sempre de amizade profunda com Boaventura em muitas ocasiões e jamais poderia ter qualquer dúvida a respeito do comportamento dele comigo. Eu vi dois amigos meus serem destruídos e um colega meu de Córdoba, na Argentina, quase se matar porque alunas fizeram acusações contra eles.

Eu sempre acho que é preciso proteger os movimentos, mas é preciso ter cautela no momento da acusação. Você pode destruir uma pessoa que talvez tenha tido um gesto que não podia ter tido. Mas a acusação é de um grau de violência que eu ainda não concordo. É o tal do cancelamento. Eu acho que é um assassinato.

11 de junho de 2022

Quem foi Bárbara Pereira de Alencar, revolucionária e primeira presa política do Brasil

Avó do escritor José de Alencar, ela teve papel ativo na Revolução Pernambucana de 1817, movimento precursor da Independência

Fernanda Mena
Mestre em direitos humanos pela LSE (London School of Economics), doutora em relações internacionais pela USP e repórter especial da Folha

Folha de S.Paulo

[RESUMO] Ainda pouco conhecida, Bárbara Pereira de Alencar, avó do escritor José de Alencar, foi uma figura histórica notável, mulher (branca e rica) que administrou um engenho e teve participação ativa na Revolução Pernambucana de 1817, movimento precursor da Independência. Perseguida pela Coroa portuguesa, tornou-se a primeira presa política do Brasil

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Inimiga do rei, agitadora, revoltosa, conspiradora, liberal, sanguínea, nervosa, mulher-macho.

Uma rica sinhá sertaneja desafiou os costumes e os tabus de seu tempo e também o poder da Coroa portuguesa ao participar da articulação política que proclamou uma república no Vale do Cariri, onde o Ceará encontra Pernambuco.

Tamanha ousadia lhe rendeu a série de alcunhas que abrem este texto, mas também a denominação de patriota, e fez dela a primeira presa política do Brasil –ainda que pouca gente tenha aprendido sobre ela nas aulas de história.

Retrato de Bárbara de Alencar - Catarina Pignato/Folhapress

Bárbara Pereira de Alencar era viúva, tinha 57 anos e cinco filhos criados quando tomou parte ativa do movimento que incendiou o Nordeste brasileiro, no rastilho das ideias iluministas de liberdade, igualdade e participação política que desembarcavam no porto do Recife.

Única mulher branca e rica proprietária de terras a participar da Revolução Pernambucana de 1817, dona Bárbara, como era conhecida, integrou a articulação precursora da Independência e da República no Brasil, uma luta que marcou sua trajetória de vitórias, derrotas e sacrifícios, antes de relegá-la ao esquecimento.

A Revolução Pernambucana foi um movimento que se opôs, de uma só vez, ao domínio português e ao regime monarquista e elaborou uma ideia de pátria para além do antigo regime e do sistema colonial, ainda que paradoxalmente mantivesse intacto o estatuto da escravidão.

Os insurgentes declararam independência da então província de Pernambuco cinco anos antes do suposto grito de dom Pedro 1º às margens do rio Ipiranga, em 1822. Derrubada a monarquia, instauraram ali uma república mais de 70 anos antes de Deodoro da Fonseca, o marechal, expulsar o imperador e a família real do Brasil em 1889.

O chamado revolucionário bateu à porta de dona Bárbara na noite de 29 de abril de 1817, quando seu filho mais novo, o então seminarista José Martiniano de Alencar, apareceu inesperadamente no Crato.

No centro da imagem, dois homens usando batinas seguram duas bandeiras de Pernambuco. Outros homens em vestimentas solenes rodeiam a cerimônia. Há uma criança, também usando batina, e um cachorro, à frente. Ao fundo, uma multidão de civis assiste à cenaNo centro da imagem, dois homens usando batinas seguram duas bandeiras de Pernambuco. Outros homens em vestimentas solenes rodeiam a cerimônia. Há uma criança, também usando batina, e um cachorro, à frente. Ao fundo, uma multidão de civis assiste à cena

Ele havia viajado mais de 600 quilômetros desde o Seminário de Olinda, que havia se tornado uma espécie de centro irradiador das ideias iluministas derivadas da Guerra de Independência dos Estados Unidos (1776) e da Revolução Francesa (1789-1799).

O seminário era reduto de freis próximos da família Alencar e, particularmente, de Bárbara. Sua pregação liberal era recebida com entusiasmo pela aristocracia agrária brasileira da região, incomodada com a alta de impostos da Coroa e com o deslocamento do eixo econômico e político da colônia para o Rio de Janeiro, onde aportara a família real portuguesa em 1808, fugida das invasões de Napoleão Bonaparte na Europa.

Naquela noite de abril, o então subdiácono José Martiniano de Alencar chegou à casa da mãe, no sítio do Pau-Seco, não só como filho, mas também como emissário do novo governo revolucionário instaurado no Recife.

Sua missão era levar a conspiração ao Ceará e libertar a província do domínio português a partir do Vale do Cariri. Há registros de que sua mãe, Bárbara, teria atuado na costura de apoio entre os poderosos da região.

A articulação partia do princípio de que a vanguarda política tinha como limite a manutenção da escravatura –uma condição para colher apoio no mando local, todo escravocrata, assim como os Alencar.

Dias depois, José Martiniano deu início à insurreição política durante a missa na igreja matriz do Crato, quando subiu ao púlpito e leu o manifesto dos rebeldes patriotas.

Aplaudido, hasteou ali a bandeira branca da independência e seguiu com o público da missa para a frente da Câmara, onde o grupo deu vivas à República e "morras ao rei", para escândalo dos apoiadores da Coroa.

José Martiniano seria depois sacralizado não pela proclamação desta República do Crato, mas como senador do Império, presidente da província do Ceará e pai do escritor romântico José de Alencar, autor de obras clássicas da literatura brasileira como "O Guarani" e "Senhora".

A reação foi rápida, e seu foco era prender os líderes da revolução. Três deles eram filhos de Bárbara. Ela mesma, a única mulher da lista de insurgentes, foi classificada pelo juiz como "muito culpada".

"Bárbara foi acusada de queimar papéis", conta a historiadora Danielly Teles, pesquisadora da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). "Sabemos muito pouco sobre o papel dela na revolução. Bárbara é uma personagem construída e fica difícil ter noção do que ela realmente fez", aponta.

"A participação política feminina nesse período, em que a mulher se movimenta de acordo com o que é possível, não se resume apenas a pegar em armas", explica Teles, autora de artigo sobre Bárbara que integra o quinto dos seis volumes da coletânea "Brasil: Independências".

Para a historiadora, Bárbara de Alencar pode ser considerada uma mulher revolucionária da época, ainda que não tenha sido a única a se engajar em lutas políticas. "Ela representou a imagem de uma mulher forte, do sertão, que fugia dos padrões estabelecidos. Uma matriarca", diz.

O movimento republicano pernambucano foi chamado pelo historiador Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) de a mais "linda, inesquecível, arrebatadora e inútil das revoluções brasileiras" e resistiu por 75 dias à repressão das armas da Coroa Portuguesa antes de sucumbir.

Já sua versão cearense, conspirada e celebrada em serões, jantares e encontros no salão da casa de dona Bárbara, teve vida bem mais curta: a República do Crato durou apenas oito dias até que as ordens da Coroa levassem ao hasteamento de sua bandeira onde antes se via a flâmula dos revolucionários.

A contrarrevolução foi ágil, violenta e cruel. Levou Bárbara e três de seus filhos para as masmorras do quartel-general da capital cearense, a fortaleza Nossa Senhora de Assunção, construção que batizou a cidade.

Bárbara, uma mulher descrita como alta e forte, foi tratada como troféu e exibida pedagogicamente a cada povoado ao longo dos 500 quilômetros que separam o Vale do Cariri de Fortaleza. A viúva rebelde percorreu o trajeto acorrentada e a galope, desmilinguida sob o sol de verão do sertão cearense. Esse era só o começo de seu calvário.

Nascida na cidade de Exú (Pernambuco) em 1760 em uma família rica, proprietária de terras e de negros escravizados, Bárbara de Alencar cresceu acostumada ao poder e se tornou uma mulher livre e emancipada para os padrões da época.

"Era uma mulher decidida, abastada, que aprendeu desde cedo a ser dona do próprio nariz", diz a jornalista cearense Ariadne Araújo, autora de "Bárbara de Alencar", para o qual, afirma, montou um quebra-cabeças sobre a heroína sertaneja diante do desafio de obter informações a seu respeito.

"Ela se casou muito cedo e com um homem 30 anos mais velho, a contragosto do pai, o que demonstrava sua personalidade obstinada", afirma.

Casada, mudou-se para o sítio Pau Seco e passou a administrar o engenho de cachaça e rapadura e a produzir tachos contra a vontade do marido. Para o pensamento da época, essas eram atividades para homens, o que rendeu a Bárbara a imagem de mulher-macho.

"Nessa época, era o homem quem se colocava publicamente e nos negócios, mas Bárbara, ao contrário, não aceitava papel de bastidor", diz Araújo. "Ainda assim, ela não era totalmente transgressora: estava na vanguarda de alguns comportamentos e na tradição de outros. Não era abolicionista, mas era tratada como madrinha dos seus escravos, por exemplo."

O escritor cearense Gylmar Chaves, que pesquisa a vida de Bárbara de Alencar há mais de dez anos para uma biografia, conta que ela mantinha escravizados muito próximos.

Um deles, conhecido como Barnabé, teria sido pego e torturado pelos soldados da Coroa para revelar o paradeiro da sinhá, fugida de suas terras. "Para não traí-la, ele decepou com os dentes a própria língua e a cuspiu aos pés do torturador", diz Chaves.

De rica e poderosa proprietária, Bárbara passou quase quatro anos em masmorras e calabouços fétidos de Fortaleza, Recife e Salvador, com o corpo machucado pelos grilhões de ferro que carregava, enfraquecida pela má alimentação e pelas crueldades de alguns carcereiros.

Todos os seus bens foram confiscados pela Coroa e leiloados. A principal propriedade da família foi arrendada pelo rival e delator dos revolucionários, padre Francisco Gonçalves Martins, segundo Araújo.

No final de 1820, Bárbara foi posta em liberdade. Também soltos, seus dois filhos mais velhos, Tristão e Carlos, retomaram a luta revolucionária. Queriam se libertar de Portugal e, portanto, derrubar dom Pedro 1º.

Outorgada em 1824, a primeira Constituição na nação recém-independente não foi aceita pelos pernambucanos, que criaram a Confederação do Equador, organizada por frei Joaquim do Amor Divino Rabelo (1779-1825), mais conhecido como frei Caneca.

A Confederação tinha em Tristão uma liderança importante e reunia outras províncias do atual Nordeste, como Piauí, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte, em um regime federalista em que cada unidade manteria sua soberania e autonomia, a exemplo dos EUA.

Dom Pedro se organizou para reprimir os confederados e contratou mercenários ingleses, que promoveram um banho de sangue no Recife, executado por um exército de 3.500 homens. Segundo Araújo, os ingleses saquearam e incendiaram a capital pernambucana, último bastião da resistência, mas lideranças confederadas ainda não aceitaram a derrota.

Tristão, considerado presidente da Confederação no Ceará, foi morto dias depois pelas tropas imperialistas. Seu corpo mutilado ficou exposto por dias, postado de pé, com a mão direita decepada. Carlos, outro filho de Bárbara, também foi brutalmente assassinado, assim como outros 11 parentes do clã Alencar.

"As manifestações de poder da repressão da Coroa foram muito mais fortes e violentas em 1817 e em 1824 que durante a Inconfidência Mineira [1789]", afirma Maria Eduarda Marques, doutora em história e curadora da exposição "Revolução de 1817", organizada na Biblioteca Nacional por ocasião do bicentenário do levante iniciado em Pernambuco.

Exilada em uma fazenda entre o Ceará e o Piauí, Bárbara de Alencar morreu em 1832, aos 72 anos de idade. Seus restos foram sepultados na capela de Itaguá, local depois batizado de Poço das Pedras, em Campos Sales, no Ceará.

Para Marques, o Brasil vive um momento de resgate de nomes da história, e Bárbara emerge como uma figura de peso nessas descobertas. "Estamos desmistificando a história mainstream, o que abre possibilidades de uma visão mais diversificada da história brasileira e menos centrada no heroísmo clássico e nas figuras masculinas e brancas."

Em um artigo ainda inédito, Danielly Teles lembra que, em 2014, a então presidente Dilma Rousseff (PT) sancionou uma lei que ordenava que Bárbara Pereira de Alencar integrasse o Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, em Brasília, fazendo dela uma das poucas mulheres a receber a homenagem.

Para a pesquisadora, Bárbara de Alencar é "uma mulher que buscou pensar e fazer política, se movimentando e articulando relações em uma sociedade construída sobre as bases de um sistema de relações desiguais".

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