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18 de maio de 2026

As muitas vítimas da guerra de precisão

Em reportagem de Hawija, no Iraque, nosso correspondente descreve como os Estados Unidos construíram um sistema de guerra de coalizão vendido como preciso, no qual bombas caem, civis morrem e a responsabilidade é dispersa entre os estados aliados.

Jaclynn Ashly

Jacobin

Omar Ahmad Abdallah al-Jamili está em frente à sua casa em Hawija com seu pai, que se lembra de ter encontrado seu filho de quatro anos após o ataque de 2 de junho de 2015, “com o rosto em chamas e as roupas derretidas”. (Jaclynn Ashly / Jacobin)

Em reportagem de Hawija, no Iraque, nosso correspondente descreve como os Estados Unidos construíram um sistema de guerra de coalizão propagandeado como mais preciso, no qual bombas caem, civis morrem e a responsabilidade é dispersa entre os países aliados.

Omar Ahmad Abdallah al-Jamili não consegue abrir a boca completamente. Sua orelha está deformada e seu rosto é uma topografia de cicatrizes cirúrgicas — pele enxertada e esticada sobre os ossos em operações realizadas em Amsterdã, a capital do país cuja força aérea o queimou.

Omar tinha quatro anos na noite de 2 de junho de 2015, quando caças F-16 holandeses — agindo com base em informações fornecidas pelos EUA no âmbito da coalizão liderada pelos estadunidenses contra o Estado Islâmico do Iraque e da Síria (ISIS) — bombardearam uma fábrica de armas do ISIS em Hawija, uma cidade no norte do Iraque. Uma explosão secundária, provocada por dezenas de milhares de quilos de explosivos caseiros nos galpões da fábrica, lançou uma onda de fogo sobre os bairros vizinhos.

O ataque matou pelo menos oitenta e cinco civis e feriu centenas, destruindo ou danificando seis mil edifícios num raio de cinco quilômetros e arrasando 1.200 negócios da noite para o dia.

“Parecia que tínhamos sido atingidos por uma bomba nuclear”, relata Ahmad Abdallah al-Jamili, de 46 anos, pai de Omar. “Era noite e, de repente, surgiu uma luz, como se fosse dia. Então ouvimos a explosão e tudo pegou fogo.”

A família tinha uma rotina moldada por anos de guerra: se ouvissem aviões, corriam para o jardim para que seus corpos pudessem ser resgatados em vez de serem esmagados sob os escombros. Mas, ao saírem correndo, ouviram gritos. Omar e seus irmãos haviam entrado no carro da família quando a explosão atingiu o veículo, incendiando-o.

“Encontrei Omar com o rosto em chamas, as roupas derretidas”, recorda o pai. Levaram-no às pressas para o principal hospital de Hawija — então sob controle do Estado Islâmico — e abriram caminho em meio a uma multidão de feridos. Após três dias, fugiram, temendo que a presença dos jihadistas provocasse outro ataque.

Mais de uma década depois, grande parte da destruição permanece — escombros, nenhuma recuperação ambiental, taxas crescentes de câncer e anomalias congênitas entre crianças nascidas após a explosão.

O avô materno de Omar, ferido por estilhaços naquela noite, morreu de leucemia meses depois — a família atribui a morte às toxinas da explosão. Seu avô paterno, devastado pelo que aconteceu com Omar e pela perda da loja de materiais elétricos da família — seu único meio de subsistência — tentou suicídio duas vezes. A família diz que ele está vivo, mas mentalmente morto.

Omar Ahmad Abdallah al-Jamili em sua casa em Hawija, com o rosto marcado por cicatrizes cirúrgicas de enxertos de pele realizados em Amsterdã, capital do país cuja força aérea o queimou quando ele tinha quatro anos de idade. (Jaclynn Ashly/Jacobin)

Omar tornou-se o rosto de um caso jurídico histórico e em curso, sendo um dos cerca de vinte e cinco demandantes iraquianos que representam mais de trezentas vítimas que processam o Estado holandês por ter assumido um risco injustificável ao bombardear Hawija. Nenhuma indenização individual foi paga.

Apenas os holandeses estão sujeitos a escrutínio legal. Os Estados Unidos — que identificaram o alvo, forneceram as informações, aprovaram a missão, conduziram a investigação sobre as vítimas civis e editaram suas conclusões antes de compartilhá-las com a Holanda — nunca enfrentaram uma única acusação legal relacionada a Hawija.

Os eventos de Hawija refletem um padrão mais amplo. A guerra de coalizão moderna é concebida para ser remota e é propagandeada como mais precisa. Mas analistas afirmam que ela produz mais destruição, não menos — enquanto estruturas de comando compartilhadas distribuem o poder, mas diluem a responsabilidade.

As bombas eram holandesas. A inteligência era estadunidense. Os mortos eram iraquianos — e ninguém foi responsabilizado.

A noite de 2 de junho

Desde 11 de setembro de 2001, os Estados Unidos lançaram ou lideraram operações militares em pelo menos 85 países. Até 4,7 milhões de pessoas morreram como resultado direto ou indireto dessas guerras pós-11 de setembro, de acordo com o Projeto Custos da Guerra da Universidade Brown. Trinta e oito milhões foram deslocadas, a um custo financeiro superior a US$ 8 trilhões.

A invasão do Iraque pelos EUA em 2003 — lançada sob a falsa premissa de armas de destruição em massa — desmantelou o Estado iraquiano, dissolveu suas forças armadas e desencadeou uma guerra civil com consequências que se estenderam por décadas, entre as quais destaca-se a ascensão do Estado Islâmico. Em meados de 2014, o ISIS havia tomado o controle de grandes áreas do Iraque e da Síria, declarando um califado em um território aproximadamente do tamanho da Jordânia.

As bombas eram holandesas. A inteligência era estadunidense. Os mortos eram iraquianos — e ninguém foi responsabilizado.

Os Estados Unidos reuniram uma coalizão de pelo menos oitenta nações — a Operação Inherent Resolve — para destruir o chamado califado por meio de ataques aéreos, coordenando as operações a milhares de quilômetros de distância com jatos aliados, informações confidenciais e estimativas de danos geradas por computador.

Hawija, uma cidade tradicionalmente sunita, caiu nas mãos do Estado Islâmico em junho de 2014 e permaneceu sob seu controle até outubro de 2017. O alvo da coalizão — uma instalação do Estado Islâmico que montava veículos com dispositivos explosivos improvisados ​​— vinha sendo monitorado da Virgínia desde dezembro de 2014. Ela ficava no que os planejadores chamavam de “zona industrial”. No Iraque, isso não é um parque empresarial despovoado, mas sim uma área de uso misto: pessoas moram acima de oficinas, casas compartilham paredes com lojas e prédios governamentais ficam ao lado de pequenas fábricas.

“Havia uma falta básica de compreensão do contexto local”, diz Emily Tripp, diretora da Airwars, uma organização que monitora os danos causados ​​a civis por ataques aéreos e com drones. “Eles simplesmente presumiam que não havia civis lá.”

Os edifícios em Hawija permanecem marcados pela violência de anos de guerra, já que a cidade caiu sob o controle do Estado Islâmico em junho de 2014 e permaneceu assim até outubro de 2017. (Jaclynn Ashly/Jacobin)

Uma comissão de inquérito holandesa concluiu no ano passado que a coligação deveria ter tomado consciência da presença de civis — a Organização Internacional para as Migrações (OIM) havia documentado publicamente o fluxo de pessoas deslocadas para a zona industrial de Hawija já em fevereiro de 2015.

O direcionamento do ataque foi liderado e a inteligência controlada pelos EUA, passando pelo centro de operações da coalizão no Catar. As agências estadunidenses avaliaram o alvo, identificado como estando localizado em uma zona industrial urbana cercada por áreas residenciais. A CIA sinalizou especificamente a proximidade de uma dessas áreas. O ataque foi inicialmente classificado como CDE-5 Alto, a “Estimativa de Danos Colaterais”, indicando as baixas civis esperadas. Assim, os planejadores mudaram a carga bélica para bombas de pequeno diâmetro mais leves, reduzindo a classificação para CDE-5 Baixo.

Mas o modelo excluiu explosões secundárias, já que a quantidade de material armazenado era desconhecida. Todas as agências estadunidenses — incluindo a CIA — aprovaram o ataque, e a sinalização da CIA sobre o bairro residencial nunca foi repassada aos pilotos holandeses nem aos oficiais responsáveis ​​pela autorização.

A Holanda foi escolhida para o ataque por ser o único membro da coalizão, além dos Estados Unidos, a possuir bombas de pequeno diâmetro. Os detentores do “Cartão Vermelho” holandês — autoridades nacionais com poder de veto — perceberam que o alvo estava localizado em uma área populosa, com prédios residenciais próximos, além de uma mesquita. Incapazes de verificar de forma independente as informações da inteligência estadunidense, eles adiaram o ataque das 21h para a meia-noite, apostando que haveria menos civis nas ruas.

Paredes marcadas por balas servem como recordação dos conflitos multifacetados que moldaram Hawija, onde os moradores sofreram tanto com o domínio do Estado Islâmico quanto com a campanha aérea da coalizão para tirá-lo do poder. (Jaclynn Ashly/Jacobin)

Pouco depois da meia-noite, dois F-16 holandeses lançaram suas bombas. Uma enorme explosão secundária se seguiu — diferente de tudo o que se tinha visto em um ataque da coalizão. Presumiu-se imediatamente que haveria vítimas civis, mas o Ministério da Defesa holandês informou ao Parlamento que não havia indícios de danos à população local — posição que manteve por anos, apesar de informações internas da inteligência apontarem o contrário. Posteriormente, a inteligência militar holandesa estimou a presença de cinquenta mil a cem mil quilos de explosivos no local — até cinco vezes a estimativa inicial dos Estados Unidos logo após o ataque.

Ao passar por Hawija hoje, é possível ver que as cicatrizes permanecem — paredes crivadas de buracos, terrenos baldios, entulho espalhado pelo chão. Sentado no chão de sua casa, ainda com as janelas quebradas, cercado por seus filhos pequenos, Khaled Ahmad, de 47 anos, relembra o que aconteceu.

Khaled Ahmad sentado no chão de sua casa em Hawija, que ainda está com as janelas quebradas, ao lado de seus filhos, relembrando a noite de 2 de junho de 2015, quando estilhaços mataram seu irmão de vinte anos em poucos minutos e feriram sua mãe, que morreu de câncer de estômago um mês depois. (Jaclynn Ashly / Jacobin)

Ele estava dormindo no andar superior com a família. As janelas se estilhaçaram, as portas foram arrombadas e parte da casa desabou. As pernas de sua esposa foram cortadas por estilhaços de vidro. Seu filho mais novo sofreu um traumatismo craniano. Estilhaços atingiram seu irmão de vinte anos, matando-o em poucos minutos. Sua mãe, de sessenta anos, também ficou ferida; nas semanas posteriores, ela desenvolveu câncer de estômago e morreu um mês depois.

Khaled Ahmad mostra as janelas de sua casa em Hawija, ainda estilhaçadas mais de uma década após a explosão de 2015 que destruiu sua oficina de peças elétricas automotivas — sua única fonte de renda — a um quilômetro de distância. (Jaclynn Ashly / Jacobin)

Khaled Ahmad em pé do lado de onde ficava sua loja de peças elétricas automotivas — destruída no ataque de 2015 e nunca reconstruída. (Jaclynn Ashly / Jacobin)

A oficina de peças elétricas automotivas de Ahmad — sua única fonte de renda, a um quilômetro do local da explosão — foi destruída. E continua assim. “Minha mãe era o coração da nossa família, e penso no meu irmão todos os dias”, diz ele. “As famílias em Hawija ainda estão devastadas por isso.”

O que se seguiu não foi um resgate, mas o caos sob o controle do Estado Islâmico. O grupo administrava os hospitais e controlava a circulação de pessoas.

“O uso de armas explosivas em áreas urbanas sob controle insurgente cria uma situação extremamente difícil para os civis”, afirma Lauren Gould, professora associada de estudos de conflitos na Universidade de Utrecht. “Não há tropas no terreno para garantir o acesso a cuidados médicos. O Estado Islâmico politizou o acesso a serviços médicos — pessoas com ferimentos graves foram negligenciadas.”

Outros juraram lealdade em troca de tratamento. Alguns foram suturados por farmacêuticos sem anestesia. Aqueles que podiam pagar contrabandistas driblavam postos de controle e estradas minadas até hospitais em Mosul, Kirkuk ou Bagdá. Lesões tratáveis ​​tornaram-se permanentes.

Em uma sala de estar ensolarada do outro lado da cidade, Hussein Ibrahim Hussein, de cinquenta e seis anos, anda lentamente. Ele morava a quinhentos metros do local da explosão. “Nossa casa foi completamente destruída”, lembra. Muitos vizinhos eram famílias deslocadas que tentavam chegar à cidade de Kirkuk, controlada pelos curdos. “Seus corpos ficaram espalhados pelas ruas.”

Hussein Ibrahim Hussein com seu filho, agora com vinte e dois anos, que ficou cego do olho direito por um estilhaço de vidro de quinze centímetros da explosão de 2015: “Sinto que roubaram meu futuro de mim.” (Jaclynn Ashly/Jacobin)

Seu irmão foi encontrado morto na estrada, atirado para fora de casa. O rosto do filho estava coberto de sangue — um estilhaço de vidro de quinze centímetros estava alojado em seu olho direito. Os médicos, sobrecarregados, só puderam prestar os primeiros socorros, então Hussein tirou o filho de lá às escondidas. “Vendi todas as joias da minha esposa — tudo”, diz ele.

Após fugir para a Turquia e o Irã e passar cinco anos buscando tratamento, todos os diagnósticos eram os mesmos: descolamento de retina irreversível e cegueira permanente. Seu filho, Hussein Ibrahim, agora com vinte e dois anos, sofre de problemas de equilíbrio e dores de cabeça que o impedem de trabalhar. “Sinto que roubaram meu futuro”, diz ele, com os olhos fixos no chão.

Como muitas vítimas dos ataques aéreos da coalizão, os moradores de Hawija não sabiam de quem eram os aviões que os atingiram. Somente quando a mídia holandesa noticiou o ataque em 2019, a comunidade soube que as bombas eram holandesas.

A arquitetura do desconhecimento sistemático

Hawija expõe uma característica estrutural da guerra de coalizão: a responsabilidade está espalhada por toda a cadeia de comando, tornando a responsabilização praticamente impossível.

“As estruturas de coalizão podem permitir que os Estados se escondam atrás da estrutura e evitem a responsabilidade”, afirma Annie Shiel, diretora de defesa de direitos nos EUA do Centro para Civis em Conflito (CIVIC). Os civis ficam sem saber quem causou o dano ou onde buscar reparação.

“Quando bombas são lançadas, não é como se cada uma estivesse envolta em uma bandeira holandesa”, diz Tripp, da Airwars. Nem mesmo as declarações da própria coalizão especificam qual país realizou o ataque.

A comissão holandesa concluiu que altos funcionários tentaram minimizar o ataque a Hawija, omitindo informações sobre as baixas conhecidas e enganando o Parlamento. Quando jornalistas expuseram o incidente, o governo alegou incerteza — embora os militares dos EUA já tivessem registrado cerca de setenta mortes de civis em seu próprio banco de dados.

Se o público visse os bairros destruídos e as vidas arruinadas em lugares como Hawija, o custo político dessas guerras "de precisão" poderia se tornar muito alto.

Para Gould, isso não é uma falha, mas sim parte de como funciona o sistema. “Trata-se de uma recusa sistemática e estratégica em reconhecer os danos causados ​​aos civis”, afirma. “E isso mina a supervisão democrática. O debate passa a girar em torno de quem sabia o quê e quando, em vez do impacto — mortes de civis, ferimentos, destruição de casas e meios de subsistência. Nada disso foi debatido de forma significativa no parlamento.”

A investigação holandesa também concluiu que os Países Baixos “dependeram inteiramente da inteligência dos EUA durante a guerra no Iraque” e “não conseguiram desenvolver a sua própria posição de inteligência” — uma dependência na qual o Estado se apoiou desde então para se eximir da responsabilidade. Essa dependência estendeu-se para além do próprio ataque — os Países Baixos também dependeram dos Estados Unidos para investigar se civis tinham sido feridos posteriormente. Mas o próprio histórico das forças armadas dos EUA na contabilização de baixas civis tem sido amplamente criticado.

“Os EUA dependem muito de suas próprias informações e subutilizam os relatórios externos”, explica Shiel. “Em guerras aéreas, informações em terra são essenciais — e os militares muitas vezes não as possuem.” Gould atribui isso ao caráter remoto da guerra: “Eles dependem das mesmas imagens aéreas usadas para estimar os danos a civis. Não há um sistema de avaliação.”

“Parecia que tínhamos sido atingidos por uma bomba nuclear”, recordou um morador sobre o ataque de junho de 2015, cujas cicatrizes permanecem visíveis em Hawija até hoje. (Jaclynn Ashly/Jacobin)

As forças da coalizão realizaram aproximadamente 35.000 ataques aéreos no Iraque e na Síria e lançaram 120.000 bombas, mas reconheceram apenas cerca de 10% das baixas civis documentadas pela sociedade civil. A França não reconheceu nenhuma. O Reino Unido reconheceu uma — um caso que não existia. Mosul e Raqqa, por sua vez, foram destruídas em taxas de 70% a 80%. Em Raqqa, a coalizão reconheceu 23 mortes de civis; a Anistia Internacional identificou posteriormente cerca de 1.600.

Segundo Gould, isso não é mera coincidência. Para que as campanhas aéreas em áreas remotas continuem, os danos precisam ser ocultados. “Se você destrói uma cidade inteira e aniquila a infraestrutura civil, isso não é um erro. É estratégia”, afirma. “A curto prazo, isso pode enfraquecer o oponente, perturbar a vida cotidiana e dificultar a sobrevivência.”

Mil e duzentas empresas foram arrasadas pela explosão de 2015, dizimando da noite para o dia o sustento de centenas de pessoas em Hawija. (Jaclynn Ashly/Jacobin)

“A negação e o sigilo em torno dos danos causados ​​a civis também não são acidentais — fazem parte da estratégia”, continua ela. “Se o público visse os bairros destruídos e as vidas arruinadas em lugares como Hawija, o custo político dessas guerras ‘de precisão’ poderia se tornar muito alto.”

Portanto, o desconhecimento sistemático é mantido: “Os dados são mantidos em sigilo, aponta-se o dedo para os parceiros da coligação e a violência permanece invisível para as pessoas em nome das quais é perpetrada.”

O acerto de contas que não aconteceu

Sob pressão parlamentar, o governo holandês destinou € 4,5 milhões (cerca de US$ 5,3 milhões) em 2020 como “compensação voluntária” à Hawija. Pagamentos individuais foram recusados. No ano passado, o ex-ministro da Defesa, Ruben Brekelmans, pediu desculpas pelas “baixas civis não intencionais”, mas manteve a posição de que o ataque foi legal.

Os fundos foram canalizados através do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e da OIM para reconstruir infraestruturas, incluindo redes elétricas e lojas de propriedade municipal. No entanto, os projetos funcionaram como ajuda geral ao desenvolvimento, e não como compensação direcionada: as vítimas do ataque de 2015 não foram identificadas nem priorizadas. A PAX, uma organização holandesa pela paz, constatou que apenas 5% a 15% dos beneficiários eram provavelmente vítimas. Muitas famílias afetadas já tinham deixado Hawija quando os projetos começaram, e a relação entre a ajuda e o bombardeio holandês nunca foi comunicada, deixando a maioria dos residentes alheia ao fato de os Países Baixos estarem tentando reparar os danos.

Em janeiro, Brekelmans viajou para Hawija para se desculpar novamente e anunciar financiamento adicional. Ele reiterou que não haveria compensação individual, argumentando ser impossível determinar exatamente quem foi afetado. Isso apesar das substanciais evidências disponíveis sobre as vítimas, incluindo um banco de dados detalhado compilado por uma organização iraquiana local em parceria com a Universidade de Utrecht e a PAX, que documenta as repercussões do bombardeio nas vidas de mais de trezentas pessoas — informações repetidamente oferecidas ao governo holandês, mas nunca utilizadas.

Rania, de sete anos, com seu pai, Hazem Muhammad, em Hawija; ela nasceu com uma grave deformidade no braço que os médicos atribuem à contaminação ambiental causada pela explosão de 2015. (Jaclynn Ashly/Jacobin)

De volta a Hawija, Hazem Muhammad, de 48 anos, segura sua filha de sete anos, Rania, que nasceu com uma grave deformidade no braço, atribuída pelos médicos à contaminação ambiental causada pela explosão. Eles são uma das muitas famílias que afirmam que os efeitos se estenderam por várias gerações.

“Meu braço não é normal”, diz Rania timidamente, agarrando-se ao pai. “Por isso, as outras crianças não gostam de brincar comigo.”

A explosão secundária registrou 4,3 na escala Richter e deixou uma cratera de onze metros. Até 2026, nenhum teste oficial foi realizado no solo ou nos depósitos subterrâneos de água para avaliar o impacto toxicológico a longo prazo.

Mas, mesmo enquanto a Holanda lida com os danos causados, o poder que desencadeou o bombardeio não sofreu qualquer tipo de responsabilização.

O réu invisível

Os Estados Unidos conceberam e controlaram o sistema por trás do ataque — identificando o alvo, fornecendo informações de inteligência, realizando a estimativa de danos e aprovando a missão.

Posteriormente, liderou a investigação sobre as baixas civis em nome dos Países Baixos e realizou sua própria revisão interna. Ela foi concluída em agosto de 2015, mas compartilhada com os Países Baixos apenas em janeiro de 2016, em versão editada, omitindo o alerta da CIA sobre o bairro residencial próximo. Jornalistas obtiveram posteriormente, por meio de pedidos de acesso à informação, uma versão mais completa do que o Ministério da Defesa holandês havia recebido de seu próprio aliado.

A Lei de Responsabilidade Civil por Atos Ilícitos contra Estrangeiros (Alien Tort Statute) — que antes permitia que vítimas estrangeiras apresentassem queixas de violação de direitos humanos em tribunais dos EUA — foi significativamente restringida por decisões da Suprema Corte.

O Estado no centro da operação se colocou atrás de uma fortaleza legal. Os Estados Unidos não ratificaram o Estatuto de Roma, sancionaram o Tribunal Penal Internacional (TPI) e autorizaram medidas extraordinárias para libertar qualquer funcionário estadunidense detido por ele. A Lei de Responsabilidade Civil por Atos Ilícitos contra Estrangeiros (Alien Tort Statute) — que antes permitia que vítimas estrangeiras apresentassem queixas de violação de direitos humanos em tribunais dos EUA — foi significativamente restringida por decisões da Suprema Corte.

Mesmo o seu limitado mecanismo de compensação civil — um fundo de condolências anual de 3 milhões de dólares — está fora do alcance dos sobreviventes de Hawija. Como o bombardeio foi realizado por aeronaves holandesas, os Estados Unidos não aceitam as reivindicações, embora a inteligência, o direcionamento e a aprovação tenham sido todos estadunidenses.

Kevin Jon Heller, professor de direito internacional e segurança no Centro de Estudos Militares da Universidade de Copenhague, explica o padrão jurídico: um Estado que auxilia conscientemente outro na prática de um ato ilícito é ele próprio responsável. “Se você está fornecendo as informações de alvo [...] se sua permissão for necessária, isso claramente configuraria assistência substancial.”

A explosão secundária desencadeada pelo ataque holandês registrou 4,3 na escala Richter e deixou uma cratera de onze metros, sem que nenhuma limpeza ambiental tenha sido realizada nos anos seguintes. (Jaclynn Ashly / Jacobin)

Mas, na prática, “você não pode levar os EUA ao TPI”, Heller me disse. “E essencialmente não existem mecanismos internos nos EUA para responsabilizar o governo, e a maioria dos estados não tem poder para impor consequências — mesmo que quisessem.”

John Chappell, consultor jurídico e de defesa de direitos da CIVIC, salienta a ironia: “Os Países Baixos sediam o TPI, enquanto os Estados Unidos o sancionaram e ameaçaram implicitamente usar a força militar contra o tribunal na Lei de Proteção dos Militares Estadunidenses. Não se encontram dois países da OTAN com relações mais distintas em relação à justiça internacional.”

Essa disparidade raramente — ou nunca — é levada em consideração no planejamento operacional. “Os planejadores militares se concentram na interoperabilidade e na eficácia”, diz ele. “A responsabilização, caso algo dê errado, dificilmente será uma prioridade.”

A máquina de distanciamento

A Operação Inherent Resolve foi apresentada como a demonstração bélica mais precisa da história. Mas a guerra à distância não tornou a guerra menos destrutiva — tornou a destruição invisível para o público ocidental.

“Nos primeiros dez anos das guerras no Iraque e no Afeganistão, mais de 2.500 militares estadunidenses e da OTAN foram mortos em cada teatro de guerra”, diz Gould. “Na década seguinte, à medida que a guerra se tornou mais remota, cerca de vinte pessoas morreram em cada contexto. Mas isso não significa que a violência diminuiu para os civis locais. Significa que o público ocidental não a percebe mais.”

Hawija representa uma rara exceção — um caso em que a destruição não pôde ser contida e o sistema jurídico de um dos membros da coalizão permitiu que os sobreviventes buscassem respostas. “Para os moradores de Hawija, poder ir ao tribunal — ser reconhecido — fez toda a diferença”, diz Gould. “Isso rompeu essa distância, forçando uma conexão humana em um sistema projetado para permanecer frio e distante.”

Mais de uma década após o ataque de 2 de junho de 2015, os escombros ainda cobrem Hawija, onde 6.000 edifícios foram destruídos ou danificados num raio de cinco quilômetros. (Jaclynn Ashly/Jacobin)

Mas a lacuna entre capacidade e responsabilidade está aumentando. A guerra remota está dando lugar ao que Gould chama de guerra algorítmica — sistemas de IA gerando alvos mais rapidamente do que os humanos conseguem revisar, adicionando mais uma camada de distanciamento à cadeia de destruição. Em operações recentes em Gaza, soldados israelenses relataram ter apenas alguns segundos para aprovar alvos gerados por algoritmos.

“Os operadores se descrevem como meros instrumentos de manipulação”, explica Gould. “Isso desumaniza ainda mais aqueles que são alvos. Eles se tornam pontos de dados — não têm rosto. Mesmo com drones, havia alguma proximidade. Agora não há nenhuma, e isso altera fundamentalmente a relação entre aqueles que cometem a violência e aqueles que a sofrem.”

A responsabilidade fica ainda mais difusa nesses sistemas, observa Gould. “Quem é o responsável então — o engenheiro que construiu o sistema, o analista que o alimentou com dados ou o oficial que tem segundos para aprovar um alvo que não pode verificar?” Ao contrário de um soldado ou comandante, uma máquina não pode ser processada ou levada a um tribunal.

Alegações de precisão também se tornam um escudo. “Se os militares afirmam que esses sistemas de IA estão certos em 90% das vezes — independentemente de alguém verificar isso — então, mesmo quando os operadores veem erros, eles acreditam que têm as estatísticas a seu favor”, diz Gould. “E eles não precisam se sentir responsáveis ​​pela destruição.”

Estamos consolidando sistemas sociotécnicos que permitem tanto o encobrimento da responsabilidade quanto a rápida expansão da violência, de formas que horrorizariam muitas pessoas se elas entendessem como esses sistemas realmente funcionam.

Em 28 de fevereiro de 2026, os Estados Unidos e Israel lançaram ataques em todo o Irã, atingindo mais de 1.700 alvos em setenta e duas horas, utilizando sistemas de mira baseados em inteligência artificial. Unidades de monitoramento foram reduzidas e bancos de dados foram descartados sob a promessa de precisão algorítmica.

Um ataque à escola feminina Shajareh Tayyebeh, em Minab, matou pelo menos 165 pessoas, a maioria crianças. Investigações posteriores indicaram que o alvo havia sido identificado com base em informações desatualizadas.

“Estamos consolidando sistemas sociotécnicos que permitem tanto o encobrimento da responsabilidade quanto a rápida expansão da violência”, diz Gould, “de formas que horrorizariam muitas pessoas se elas entendessem como esses sistemas realmente funcionam”.

Como uma borboleta

Kurdi Fadhal, de cinquenta e cinco anos, está sentado em sua casa em Hawija, onde a luz do final da tarde é filtrada através das cortinas fechadas para bloquear a poeira e o calor.

Suas netas — filhas de seu filho — estão reunidas ao seu redor, trazidas nos fins de semana para quebrar o silêncio. A seu pedido, elas entram em outro cômodo e retornam carregando um grande cartaz, que desdobram. É um memorial para Shaima, a filha de nove anos de Fadhal, morta na explosão de 2015.


As netas de Kurdi Fadhal seguram um cartaz em memória de Shaima, sua filha de nove anos que foi atingida na cabeça por estilhaços da explosão de 2015 e morreu quase dois anos depois, após o Estado Islâmico impedir que a família buscasse tratamento fora de Hawija. (Jaclynn Ashly / Jacobin)

“Meu filho traz as filhas dele aqui para me fazer companhia”, diz Fadhal em voz baixa. “A casa parece muito vazia sem Shaima.”

“Ela era tudo para mim”, diz ele. “Uma aluna brilhante — tão ativa, tão cheia de alegria. Todos os dias, quando eu chegava do trabalho, ela estava lá fora me esperando… como uma linda borboleta, sempre voando ao meu redor.”

Kurdi Fadhal segura uma fotografia de sua filha Shaima no quarto onde ela morreu, descrevendo-a como “uma aluna brilhante — tão ativa, tão cheia de alegria... como uma linda borboleta, sempre voando ao meu redor”. (Jaclynn Ashly/Jacobin)

Shaima estava dormindo perto da janela. A explosão estilhaçou a moldura de ferro e vidro, atingindo sua cabeça. O hospital em Hawija não pôde tratá-la. Durante meses, Fadhal tentou conseguir atendimento médico para ela, mas o Estado Islâmico não permitia que os moradores saíssem. Ele a viu definhar — seus braços e pernas ficaram paralisados.

Por fim, ele encontrou um contrabandista. Por US$ 2.300, eles atravessaram o território do Estado Islâmico até Bagdá. Os médicos disseram que era tarde demais. Ela entrou em coma. Quase dois anos depois, em 17 de março de 2017, ela faleceu.

“Minha esposa e eu tentamos nos esconder das crianças quando choramos”, diz ele. “Mas cada canto desta casa me lembra dela.”

“Quando o Estado Islâmico tomou Hawija, pensei que a coalizão nos salvaria”, continua ele. “Mas, em vez disso, eles mataram nossa preciosa filha. Nem mesmo o Estado Islâmico fez isso conosco.”

“Com toda essa tecnologia sofisticada e inteligência que esses países ocidentais possuem, como é possível que não soubessem que esta área estava repleta de civis?”

Colaborador

Jaclynn Ashly é uma jornalista independente que reside atualmente nos Estados Unidos.

15 de outubro de 2025

Os Panteras Negras que nunca voltaram para casa

Cinquenta e nove anos após Huey Newton e Bobby Seale fundarem os Panteras Negras, Charlotte e Pete O'Neal permanecem exilados na Tanzânia. A história deles, contada por meio de entrevistas, arquivos e reportagens em primeira mão, revela o legado duradouro do movimento.

Jaclynn Ashly


Pete e Charlotte O'Neal no Centro Comunitário da Aliança Africana Unida (UAACC) na Tanzânia, onde vivem exilados desde 1972 (Jaclynn Ashly / Jacobin)

Charlotte Hill O’Neal é conhecida por vários nomes.

No norte da Tanzânia, onde vive há décadas, ela é conhecida como "Mama C", pois seu nome é difícil de pronunciar para os moradores locais. Ela também é chamada de "Mama África" ​​por sua aparência afrocêntrica — incluindo escarificação nas bochechas dos massai e um piercing labret no nariz — e por inspirar os jovens locais a se orgulharem de suas culturas.

Seu nome espiritual orixá, Osotunde Fasuyi, foi dado a ela durante sua iniciação como sacerdotisa na tradição orixá da fé iorubá — uma das tradições religiosas mais antigas do mundo.

Ela também é ex-membro do Partido dos Panteras Negras (BPP), fundado há exatamente 59 anos.

Charlotte, 74 anos, e seu marido Pete O’Neal, 85 — ex-líder da seção de Kansas City — fugiram dos Estados Unidos há mais de cinco décadas, depois que Pete foi alvo das autoridades. Eles moram na Tanzânia desde 1972.

Embora fale suaíli, a língua oficial da Tanzânia, o sotaque arrastado do Centro-Oeste de Charlotte permanece como uma lembrança de sua antiga vida em Kansas City. Sua pele é decorada com tatuagens de uma pantera negra no ombro esquerdo e Sankofa, um símbolo Akan para obter sabedoria do passado. Um nyatiti, um instrumento de cordas tradicionalmente tocado pelo povo Luo do Quênia, agora substituiu a arma que ela carregava durante seu tempo no partido.

O casal agora administra o Centro Comunitário da Aliança Africana Unida (UAACC) na vila de Imbaseni, nos arredores da cidade de Arusha. As paredes do centro são salpicadas de murais de ícones do poder negro e dos direitos civis, como Malcolm X e Martin Luther King Jr.

Sua história de décadas se entrelaça com o espírito revolucionário de milhares de jovens afro-americanos que tentaram se opor à injustiça, mas que, em vez disso, foram recebidos com prisão, assassinatos e repressão governamental.

Charlotte O’Neal carrega o apelido de “Mamãe África” por sua aparência afrocentrista e seu trabalho de promoção do orgulho cultural entre os jovens da Tanzânia. (Jaclynn Ashly / Jacobin)

Elevação comunitária

Embora o relacionamento deles seja agora um poderoso testemunho de amor duradouro, Pete admite que "desprezava" Charlotte quando se conheceram.

Pete ingressou no BPP em 1968, após um despertar político durante uma visita a Oakland, Califórnia, onde os Panteras foram fundados em 1966. Ele foi preso na adolescência, chamando a si mesmo de "bandido e ladrão".

"Minha vida espelhava a de muitos jovens negros, homens e mulheres, atraídos pela vida nas ruas do gueto", diz ele.

Seus amigos o convenceram a ir a Oakland para conhecer a nova organização, mas inicialmente ele não tinha "interesse" em elevar a comunidade e pensou que "apenas faria algumas coisas e ganharia algum dinheiro".

Como muitos, o foco dos Panteras na brutalidade policial atraiu Pete inicialmente. Ele disse ao cofundador do BPP, Bobby Seale, e ao membro de alto escalão, David Hilliard, que faria qualquer coisa para "se vingar [da polícia]". Mas eles o impediram, dizendo: "Irmão, não é isso que realmente queremos. Não queremos vingança. Estamos tentando mudar o mundo", relata Pete.

Pete ficou em Oakland por semanas, participando de sessões de educação política sobre revolucionários globais como Che Guevara e Mao Zedong. De repente, ele teve uma "epifania", diz ele. "Imagino que seja isso que acontece com os cristãos renascidos quando 'veem a luz'. Bem, eu vi a luz."

Abraçando uma causa maior do que ele mesmo, o ex-traficante de rua de 28 anos retornou a Kansas City, imbuído do desejo de mudança revolucionária, "não apenas para os negros, mas para as pessoas do mundo". Ele rompeu laços com sua antiga vida e fundou a filial do BPP em Kansas City, no Missouri.

Um pôster emoldurado em preto e branco de Huey Newton e Bobby Seale em frente à sede do Partido dos Panteras Negras em Oakland, Califórnia. (Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana)

Enquanto isso, Charlotte estava terminando o ensino médio em Kansas City, Kansas. Criada para se orgulhar de sua "africanidade", ela se inspirou em Malcolm X, Stokely Carmichael e nas imagens marcantes dos Panteras marchando em seus couros pretos, boinas e óculos escuros. Na época, ela recortava fotos de Pete de jornais e as colava nas paredes do seu quarto.

"Mas nunca pensei que o conheceria de verdade", diz Charlotte com um sorriso largo. No entanto, quando finalmente conheceu Pete pessoalmente, estava longe de ser amor à primeira vista.

O início ardente de um romance Pantera

Charlotte era uma aluna exemplar, mas frequentemente faltava à escola para cruzar a fronteira com o Missouri para cursos de educação política com a filial de Kansas City. Cerca de dois meses após a formatura, Charlotte, então com dezoito anos, ingressou oficialmente no BPP, embora Pete estivesse em uma turnê de palestras e organização.

Charlotte começou a morar em um "apartamento dos Panteras", onde jovens Panteras compartilhavam um espaço comunitário, modelando a sociedade socialista revolucionária que aspiravam criar. Juntos, eles cozinhavam, limpavam e treinavam com armas.

O BPP tinha regras de conduta rígidas contra o uso de narcóticos, álcool ou maconha durante o serviço. Os membros tinham que estar "muito atentos", diz Charlotte, porque a polícia os assediava e prendia constantemente, esgotando os recursos do partido. Placas espalhadas pelo local alertavam os membros contra a "falta de funcionalidade".

"Mas éramos adolescentes, e estávamos nos anos 60", diz Charlotte, inclinando a cabeça para trás com uma risada travessa.

Um dia, ela e outros jovens Panteras decidiram abandonar os "diabos vermelhos", o nome popular do Secobarbital — um comprimido sedativo-hipnótico usado clinicamente para insônia e epilepsia, mas amplamente abusado nas décadas de 1960 e 70.

"Estávamos fora de si", lembra Charlotte. "Nos divertindo — todo mundo fumando, fazendo isso e aquilo. Éramos completamente falidos."

Mas os jovens Panteras não sabiam que Pete voltaria para Kansas City naquele dia. "Entrei e senti cheiro de substâncias ilícitas no ar", lembra Pete. "Maconha por toda parte. Eles estavam festejando na varanda com a música alta."

"Então, de repente, cheguei e perguntei: 'Que diabos está acontecendo?'. Eles ficaram boquiabertos e todos ficaram em silêncio."

Charlotte finalmente estava conhecendo o homem cuja imagem havia coberto as paredes do seu quarto no Kansas. "Eu estava tão desligada", lembra ela. "Mal conseguia falar." Pete, furioso com os jovens Panteras, avistou uma jovem que não reconheceu — que descreveu como uma "menininha magrela com uma cabeça grande e gorda". Ele a encarou e perguntou: "E quem diabos é essa?"

Gaguejando nervosamente, Charlotte disse: "E-eu sou Ch-ch-arlotte Hill. Sou de K-K-Kansas City. E e-eu me juntei ao P-P-Partido dos Panteras Negras."

"Quem diabos a deixou entrar?", Pete disparou, virando-se para Charlotte e acrescentando: "Cale a boca e não diga mais nada!"

Mas Charlotte retrucou. "Você não pode me dizer para não falar. Meu pai disse que eu sempre tenho o direito de falar." Os outros jovens Panteras ficaram boquiabertos, lembra Pete. "Eles pensavam: 'Meu Deus, ela está morta agora.'"

Um mural de Malcolm X e Martin Luther King Jr. em um tanque de armazenamento de água na UAACC, na Tanzânia. (Jaclynn Ashly / Jacobin)

"Ele ficou realmente furioso com aquilo", diz Charlotte, sorrindo e balançando a cabeça ao se lembrar de ter conhecido o homem que se tornaria seu parceiro para a vida toda. "O irmão Pete comandava um grupo rigoroso, e eu estava aqui respondendo a ele."

"Lembro-me de pensar: não suporto essa garota", diz Pete. Como punição, Pete obrigou os Panteras "completamente disfuncionais" a se carregarem nas costas e correrem por aí. Ele então os trancou em um armário.

Apesar do primeiro encontro conturbado, Pete e Charlotte estavam morando juntos e se casaram poucas semanas depois. Pete diz que Charlotte se tornou, desde então, "o amor da minha vida, minha maior inspiração e minha melhor amiga".

Substituindo o medo pela ação

O relacionamento de Charlotte e Pete cresceu junto com a ascensão e queda do Partido dos Panteras Negras.

Fundado em 15 de outubro de 1966 por Huey Newton e Bobby Seale no Centro Antipobreza do Bairro de North Oakland, o partido — posteriormente rotulado pelo FBI como a "maior ameaça" à segurança dos EUA — foi construído sobre uma plataforma de dez pontos que clamava por autodeterminação, reparações, pleno emprego, educação centrada nas experiências negras e o fim da brutalidade policial, entre outras reivindicações.

Uma crença central era o direito à autodefesa, organizando grupos armados para defender a comunidade negra da opressão policial, citando a Segunda Emenda. Newton e Seale entendiam a brutalidade policial como uma realidade cotidiana para negros de todas as idades, gêneros e classes, observa Robyn Spencer em The Revolution Has Come: Black Power, Gender, and the Black Panther Party in Oakland.

Essa brutalidade não era apenas uma má conduta isolada, mas um reflexo de como as desigualdades raciais permeavam a lei e a ordem, com a polícia impondo o status quo racial. A autodefesa era uma ferramenta de organização para empoderar uma comunidade há muito brutalizada.

“Eles viam a posse de armas e a autodefesa como direitos há muito negados a pessoas de ascendência africana”, diz Spencer. “Leis feitas para pessoas brancas foram reaproveitadas pelos Panteras para fins revolucionários.” Newton e Seale lançaram patrulhas armadas em Oakland, intervindo em prisões com câmeras, livros jurídicos e armas de fogo legalmente portadas, uma visão que frequentemente atraía multidões.

Muitos membros dos Panteras vieram do exército ou de gangues, ou aprenderam a manusear armas de fogo caçando, observa Spencer. “A autodefesa armada era visceral e central para sua imagem, atraindo as pessoas. Mas aqueles atraídos por armas tiveram que estudar educação política, e aqueles atraídos pela política ainda tiveram que aprender a manusear uma arma.”

Emory Douglas, ministro da cultura do partido, desenhou caricaturas de policiais como porcos no jornal dos Panteras Negras, uma tática, juntamente com expressões como “fora com os porcos”, que ajudou a “substituir o medo pela ação coletiva”, diz Spencer. Ao transformar a polícia de figuras todo-poderosas em símbolos conquistáveis, os Panteras estavam derrubando dinâmicas de poder há muito estabelecidas.

Um pôster de Huey Newton sentado em uma cadeira de vime, usando uma boina e uma jaqueta de couro preta, segurando uma espingarda na mão direita e uma lança na mão esquerda. (Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana)

Força e esperança

Em resposta direta às patrulhas do BPP, o então governador da Califórnia, Ronald Reagan, assinou a Lei Mulford em 1967, revogando a lei que permitia o porte público de armas de fogo carregadas. Dezenas de Panteras Negras armados protestaram invadindo o Capitólio da Califórnia, em Sacramento, e interrompendo uma sessão legislativa.

Essa audácia e a remoção flagrante de um direito claramente não concebido para os negros americanos atraíram ainda mais membros. O assassinato de Martin Luther King Jr., um ícone da não violência, em 1968, fez com que o número de membros aumentasse, à medida que as pessoas buscavam os Panteras Negras como uma alternativa mais militante.

“Após o assassinato de Martin Luther King, suas portas se encheram de pessoas chocadas, magoadas e indignadas com o assassinato violento do principal defensor da não violência”, diz Spencer.

Células dos Panteras Negras surgiram em todo o país para atender às comunidades locais, criando programas educacionais, o Programa Café da Manhã Gratuito para Crianças em Idade Escolar e clínicas médicas gratuitas com médicos e enfermeiros voluntários. O BPP via sua luta como parte de uma luta de classes mais ampla, trabalhando ao lado de ativistas brancos e outros de toda a esquerda.

Fred Hampton, presidente da seção de Illinois assassinado pela polícia em conluio com o FBI em 1969, aos 21 anos, declarou que o BPP combateria o racismo com solidariedade, o capitalismo com o socialismo e "porcos reacionários e procuradores do Estado" com a revolução proletária internacional.

Em Kansas City, Pete lançou um programa de café da manhã gratuito que alimentava até 700 crianças diariamente, além de distribuição de roupas e alimentos, clínicas de saúde gratuitas e patrulhas policiais. Os Panteras também confrontaram proprietários de favelas sobre despejos ilegais. "Conversávamos com o irmão de forma enérgica até que ele mudasse de ideia", lembra Pete com um leve sorriso.

Um pôster com uma linha do tempo sobre a violência e os assassinatos cometidos pela polícia contra membros dos Panteras Negras. O texto na parte superior do pôster diz: "Evidências de Crimes Intimidados e Fascistas pelos EUA / A Guerra contra o Partido dos Panteras Negras 1968-1969". Na margem inferior do pôster, no canto direito, há o texto: "Fonte: The Black Panther Black Community News Service". (Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana)

Apesar do trabalho comunitário, "a mídia se concentrou em uma coisa: 'Um homem negro tem uma arma!'", diz Pete. "Eles não queriam falar sobre a beleza dos nossos programas de desenvolvimento comunitário. Eu tinha muito orgulho daquele trabalho — era algo que eu nunca tinha experimentado antes, algo tão grandioso e altruísta quanto isso."

A educação política do BPP transformou Pete, que passou a se dedicar à organização de programas educacionais para todos os membros da comunidade, incluindo pessoas brancas.

Charlotte disse que esses programas lhe deram força e esperança. "Aprendemos sobre movimentos e lutadores pela liberdade em todo o mundo, e foi aí que comecei a me sentir parte de uma comunidade internacional", diz ela. "Ainda me sinto assim — me deu conhecimento e confiança que continuo carregando no coração e na maneira como vivo e me relaciono com os outros."

"Em dobro"

Desde a sua fundação, o Partido dos Panteras Negras esteve sob o olhar atento das autoridades locais. A polícia começou a atacar veículos do BPP e a usar a lei criminal para prender membros, drenando as finanças do partido com fianças e custas judiciais exorbitantes.

Em 1967, o FBI expandiu o COINTELPRO, um programa de contrainteligência inicialmente voltado para grupos comunistas, para atingir grupos de direitos civis e de libertação negra. Em 1969, o diretor do FBI, J. Edgar Hoover, considerava o BPP a maior ameaça à segurança interna do país. Um memorando do FBI sugeria métodos para minar o BPP, incluindo a criação de facções entre líderes e suspeitas sobre finanças e aliados. O FBI utilizou informantes, cartas falsificadas e charges para criar ou explorar tensões, e os telefones e residências de líderes do partido, incluindo o de Pete, foram grampeados ilegalmente.

Em 30 de outubro de 1969, Pete foi preso por supostamente transportar uma arma através das fronteiras estaduais. Isso ocorreu duas semanas depois que ele e outros Panteras invadiram uma audiência no Senado em Washington, D.C., com informações de que a polícia de Kansas City estava entregando armas confiscadas a grupos de direita como a Ku Klux Klan.

Pete começou a temer por sua vida. Ao chegar ao tribunal, a polícia o ridicularizou durante as buscas, dizendo que ele sairia da prisão "em uma caixa". Um policial negro o alertou posteriormente de que a polícia planejava matá-lo. Pete foi condenado a quatro anos de prisão.

Apesar de seus antecedentes, que incluíam uma fuga da prisão, o juiz permitiu que ele permanecesse em liberdade sob fiança durante sua apelação, uma decisão inédita que Pete acreditava ter como objetivo impedi-lo de se tornar um "mártir" aos olhos da comunidade. Hoover havia emitido uma diretiva para "impedir a ascensão de um 'messias'" que pudesse unificar o movimento liberacionista negro.
Paul Magnarella, professor da Universidade da Flórida e autor de Pantera Negra no Exílio: A História de Pete O’Neal, afirma que o julgamento de Pete em 1970 "não ofereceu justiça". Estava repleto de "defeitos constitucionais", observa. Testemunhas-chave da acusação cometeram perjúrio, uma testemunha importante era um informante pago do FBI cujo status foi ocultado da defesa, a lei federal foi mal aplicada e grampos ilegais do FBI foram usados.

Pete sabia que precisava se candidatar, embora inicialmente odiasse a ideia de deixar os Estados Unidos — um plano que, por outro lado, "encantou" Charlotte. Na época, a esquerda americana mantinha o que Spencer chama de "ferrovia subterrânea moderna" — redes de pessoas e casas seguras que ajudavam ativistas procurados pelas autoridades a escapar do país.

Charlotte e Pete não foram os primeiros Panteras a fugir. Em 1968, Eldridge Cleaver escapou após ser acusado de tentativa de homicídio após um tiroteio com a polícia de Oakland, no qual Bobby Hutton, de dezessete anos — o primeiro recruta do partido, carinhosamente chamado de "Lil' Bobby" — foi morto. Cleaver mais tarde reapareceu na Argélia, onde fundou a seção internacional dos Panteras. Na época, a recém-independente Argélia era um centro de movimentos anticoloniais.

Ao planejarem a fuga, eles não podiam contar às famílias, mas acreditavam que ficariam fora por "talvez dois anos". Sua casa estava sob vigilância policial 24 horas por dia, então eles tiveram que sair sorrateiramente pelos fundos, disfarçados. Charlotte usava uma peruca e Pete alisou o cabelo. Eles se esconderam no porta-malas de um carro para atravessar as fronteiras estaduais.

Charlotte O’Neal agora se concentra em música e cultura na UAACC, tendo substituído a arma que carregava por um nyatiti. (Cortesia de Charlotte O’Neal)

Eles acabaram em Long Island, Nova York, onde "comunistas brancos ricos" prepararam seus documentos, e um advogado os levou ao aeroporto. Antes de embarcar, Pete ofereceu a Charlotte, que tinha uma bolsa integral para a faculdade de medicina no Texas, a chance de ficar.

"Eu disse a ela que ela poderia seguir com a vida — que ninguém estava procurando por ela e que ela estaria segura em Kansas City", lembra Pete. Mas, mesmo adolescente, a resposta de Charlotte foi firme: "Não, irmão presidente. Eu aceito duplas. Estou com você até o fim."

Eles embarcaram no avião e começaram sua vida no exílio.

Do subterrâneo ao exterior

A primeira parada foi a Suécia, onde permaneceram por vários meses, antes de voar de Maiorca, na Espanha, para Argel, na Argélia, onde se hospedaram em um hotel "infestado de insetos". Pete, sem contatos, pediu ajuda ao proprietário para entrar em contato com o BPP local.

Quando ele ligou, Cleaver ficou "muito desconfiado", lembra ele. Na época, uma grande divisão no BPP havia se formado entre Newton, em Oakland, e Cleaver, em Argel, sobre a direção do partido: Newton se concentrava em programas comunitários, enquanto Cleaver priorizava a militância e as conexões internacionais.

O COINTELPRO do FBI exacerbou as tensões. Spencer explica que o FBI via a seção de Argel, liderada por Cleaver, como "particularmente ameaçadora" devido ao seu potencial de forjar laços com movimentos de libertação internacionais e adversários dos EUA. O FBI respondeu trabalhando para isolar Cleaver do partido em casa, enviando cartas adulteradas a ambos para alimentar a desconfiança.

Newton começou a expulsar membros proeminentes do partido, incluindo Elmer Gerard Pratt, também conhecido como "Geronimo Ji-Jaga", um líder altamente respeitado da seção de Los Angeles. Após Cleaver criticar Newton publicamente, Newton, furioso, expulsou toda a seção internacional do BPP, resultando em uma cisão amarga que logo se tornou violenta. O escritório dos Panteras Negras em Argel era um espaço de convivência onde os membros se reuniam, socializavam e se conectavam com revolucionários de todo o mundo — de comunistas vietnamitas a combatentes antissionistas palestinos.

"Muitas pessoas morreram no Partido dos Panteras Negras por causa dessa cisão", diz Pete. "Dei a Charlotte todo o dinheiro que eu tinha e disse a ela: se eu não voltasse, que fosse embora e voltasse para Kansas City."

Quando Pete chegou ao escritório do partido em Argel, oficialmente chamado de Embaixada das Forças Revolucionárias Afro-Americanas da América do Norte, ele se apresentou a Cleaver. "Ele me olhou de cima a baixo", lembra Pete. "Então disse: 'Onde diabos você estava? Estamos esperando por você há meses.'" Pete soube mais tarde que sua mãe havia enviado cerca de vinte cartas para o escritório, sabendo que ele estaria a caminho.

"Todos saíram tão felizes e animados", diz Pete. "Era puro amor e camaradagem — eu senti como se finalmente tivesse voltado para casa."

O escritório dos Panteras Negras em Argel funcionava como mais do que uma embaixada; era um espaço de convivência onde os membros se reuniam, socializavam e se conectavam com revolucionários de todo o mundo — de comunistas vietnamitas a combatentes antissionistas palestinos.

Mas as relações entre o BPP e o governo argelino se deterioraram em 1972, depois que dois aviões sequestrados pousaram em Argel, trazendo dinheiro para resgate destinado aos Panteras Negras. As autoridades argelinas confiscaram os fundos e os devolveram aos Estados Unidos, deixando os Panteras sem dinheiro. Em resposta, os Panteras denunciaram o governo, que retaliou cortando suas linhas de comunicação e os colocando em prisão domiciliar por seis dias.

Juntamente com a aproximação da Argélia com Washington, essas tensões sinalizaram o declínio da seção internacional dos Panteras.

"Polo por pólo"

Centenas de afro-americanos, incluindo ex-Panteras de Kansas City, já viviam na Tanzânia na época, atraídos por seu primeiro presidente, Julius Nyerere, um ícone do pan-africanismo militante, e sua filosofia de socialismo africano, ujamaa.

Pete, no entanto, não tinha desejo de se estabelecer na Tanzânia. "Quando as coisas começaram a desmoronar na Argélia, eu queria voltar para a Suécia", diz ele. "Outros estavam se escondendo ou tentando voltar para os EUA, mas todos os camaradas que conseguiram acabaram passando décadas na prisão."

Foi Charlotte quem o convenceu a tentar a Tanzânia. "Ela insistiu muito", diz Pete. "Segui o conselho dela — e foi o melhor que já recebi."

A viagem deles para a Tanzânia em 1972 foi difícil: eles foram detidos no Egito por não terem o cartão de vacinação contra cólera. Mas Charlotte conseguiu alterar a documentação de febre amarela para "cólera", o que levou à sua libertação. Eles então tiveram uma "lua de mel em um hotel muito bom perto do Rio Nilo" antes de obterem seus vistos, diz Pete.

O governo tanzaniano os acolheu como "combatentes pela liberdade e refugiados políticos", conta Charlotte. Ela ficou "extasiada com a beleza" ao chegar, mas Pete, morador urbano de longa data, teve dificuldades para se adaptar.

"Mas, aos poucos, me acostumei", diz Pete. "Agora não dá mais para me arrastar — serei enterrado aqui."

Eles viveram na cidade costeira de Dar es Salaam por um ano, até que o calor e a umidade começaram a afetar a saúde de Pete, levando-o a se mudar para o interior, para a região mais fria de Arusha. Lá, aprenderam a cultivar e se tornaram autossuficientes. Por fim, conseguiram quatro acres em Imbaseni, uma pacata vila rural, onde vivem até hoje.

A área era então "apenas mato", sem eletricidade ou água encanada, exigindo que caminhassem oito quilômetros para coletar água em baldes. Charlotte conta que começaram a construir "poste por poste" sem dinheiro, muitas vezes fazendo seus próprios tijolos e constantemente encontrando maneiras criativas de construir e sobreviver.

Pete O'Neal, acolhido pela Tanzânia como um "combatente pela liberdade e refugiado político", afirma que será enterrado no país que agora chama de lar. (Jaclynn Ashly / Jacobin)

Construindo uma vila

Eles reciclavam tudo, e Pete até aprendeu a construir moinhos de vento para gerar eletricidade. Eles criavam galinhas, ordenhavam vacas, caçavam e cultivavam feijão, eventualmente produzindo salsichas que vendiam por toda a Tanzânia por quinze anos.

A ideia de um centro comunitário surgiu mais tarde. Anciãos locais, impressionados com o trabalho deles, cederam a eles um terreno perto de casa. Depois de construir um palco para aulas e atividades, o centro se tornou muito popular, e viajar de um lado para o outro era um incômodo. Eles decidiram construir o centro em sua casa. A primeira sala de aula foi para computadores, seguida por um prédio para aulas de inglês.

Em 1991, eles fundaram oficialmente o Centro Comunitário da Aliança Africana Unida (UAACC). Ele oferece aulas gratuitas de arte, costura, ioga, hip-hop, música e produção de vídeo para jovens tanzanianos. "Em tudo o que fazemos, insistimos que os jovens assumam um trabalho que demonstre amor por si mesmos e, em seguida, pela comunidade em geral", diz Charlotte.

Embora Pete nunca tenha conseguido retornar, Charlotte arrecada fundos para o centro por meio de turnês anuais de palestras nos Estados Unidos.

Geronimo Ji-Jaga, que foi alvo do COINTELPRO e passou 27 anos na prisão antes de sua condenação por assassinato ser anulada, também morou na Tanzânia por dez anos antes de sua morte em 2011. Geronimo, que obteve um acordo de US$ 4,5 milhões do FBI e do Departamento de Polícia de Los Angeles — quando foi revelado que os promotores haviam ocultado provas de sua inocência — doou US$ 10.000 a Pete e Charlotte para melhorar o acesso à água na vila. Em 1991, eles fundaram oficialmente o Centro Comunitário da Aliança Africana Unida. O local oferece aulas gratuitas de arte, costura, ioga, hip-hop, música e produção de vídeo para jovens tanzanianos.

Depois de encontrar água, eles instalaram uma torneira pública que eliminou a longa caminhada diária e, posteriormente, ajudaram a erguer 36 postes de eletricidade, dando à comunidade acesso a ambos. Outros ex-membros dos Panteras também apoiaram o centro, incluindo Emory Douglas, que ministrou aulas de arte para os alunos.

Em 2008, eles criaram o Leaders of Tomorrow Children’s Home, que fornece a vinte e oito crianças carentes moradia na casa do casal, educação e assistência médica, tornando-as parte integrante da família O’Neal.

Um legado duradouro

Casados ​​por apenas um ano antes de fugirem dos Estados Unidos, o amor de Charlotte e Pete floresceu no exílio. Juntos, criaram dois filhos, Malcolm e Ann Wood. E, apesar de todos os desafios, nunca tiveram uma discussão.

"Ela é a única com quem consigo ficar realmente bravo, mas tudo o que consigo fazer é ficar quieto e calado", diz Pete. "Se ela está chateada comigo, o máximo que ela diz é 'Tudo bem'. Essa tem sido a extensão dos nossos desentendimentos por 56 anos — apenas ficar bravo e não conversar."

Pete, que originalmente não acreditava no amor romântico, diz que Charlotte mudou de ideia. Décadas após seu primeiro encontro nada ideal na filial do BPP em Kansas City, Charlotte se tornou uma pessoa enérgica, fazendo vídeos, filmes e músicas com entusiasmo com os jovens, enquanto Pete se acostumou a ser mais caseiro.

"Eu era o homem mais velho dela", lembra Pete.

Eu era muito viajado e formado na universidade da vida. Cheguei a levá-la em sua primeira viagem de avião — ela era uma criança comparada a mim. Mas agora parece que os papéis se inverteram. Fico em casa e cuido das crianças. Nunca pensei que tivesse um osso de avô no corpo, mas agora elas passam o dia inteiro comigo. À noite, tenho vinte crianças amontoadas no meu quarto e vinte pais de chinelos esperando do lado de fora da minha porta.

Ele sorri. "E eu adoro isso. É isso que meu exílio se tornou."

Mais de meio século depois, Pete continua carregando o trauma da brutalidade policial nos Estados Unidos. Ele frequentemente se sente desconfortável ao se deparar com policiais tanzanianos locais — que o chamam carinhosamente de Mzee, ou ancião, e acenam para ele parar na estrada. "Todos me conhecem e só querem dizer oi", diz ele. "Mas ainda assim não consigo evitar a tensão."

O Partido dos Panteras Negras acabou entrando em colapso na década de 1980. Huey Newton — perseguido por muito tempo pelas autoridades locais e pelo FBI, e tendo passado anos na prisão por uma acusação duvidosa de assassinato, grande parte dela em confinamento solitário — tornou-se cada vez mais paranoico e desconfiado de seus próprios membros. Uma atmosfera autoritária se instalou, agravada por alegações de corrupção e uso de drogas por Newton.

Em 1989, Newton, ainda considerado uma das figuras mais brilhantes do movimento Black Power, foi morto a tiros na esquina de uma rua de West Oakland que ele havia tentado revolucionar.

Pete O’Neal com crianças no centro na Tanzânia. (Cortesia de Charlotte O’Neal)

Charlotte e Pete dizem que se esforçaram para levar o legado do Partido dos Panteras Negras para o seu trabalho na Tanzânia. "Sou uma pessoa profundamente falha", diz Pete, reclinado em sua cama em casa enquanto as crianças entram e saem timidamente para lhe fazer perguntas. "Eu era naquela época e continuo sendo hoje."

"Mas meu objetivo é sempre ser um pouco melhor do que era ontem. Nem sempre consigo — eu retrocedo — mas me apego à filosofia de libertação que descobri em 1968. Essa é a minha salvação. Não sou religioso, mas se o céu existir, acho que vou conseguir entrar."

Para Pete, o trabalho deles na Tanzânia é inseparável da visão do partido. "Nós vemos um problema e o enfrentamos. Eu não apenas alimento meus filhos — eu alimento todas as crianças. Tenho orgulho do que construímos aqui. Esta é a melhor coisa que fiz na minha vida, ainda mais do que no Partido dos Panteras Negras."

Quando perguntado se algum dia gostaria de retornar aos Estados Unidos, Pete responde rapidamente: "De jeito nenhum!"

Colaborador

Jaclynn Ashly é uma jornalista independente atualmente radicada nos Estados Unidos.

24 de janeiro de 2025

Os antigos pântanos do Iraque estão correndo risco

Reportagem da Jacobin revela como os pântanos do sul do Iraque, o berço da civilização humana, enfrentam um verdadeiro desastre da má gestão ambiental e política após a intervenção militar dos EUA. À medida que a água desaparece, o mesmo está acontecendo com uma cultura de 5.000 anos.

Jaclynn Ashly

Jacobin

"Sem água, não há vida nos pântanos", diz o criador de búfalos Haidar Waheed Hashim. (Jaclynn Ashly / Jacobin)

Búfalos-d’água deslizam suavemente por canais de águas rasas que serpenteiam pelos pântanos mesopotâmicos do sul do Iraque, sua pele preta brilhando sob o calor implacável do verão do país. Terra seca e rachada se expande para longe sob o sol escaldante do país. Um barco de madeira abandonado está encalhado no solo em ruínas.

Há apenas alguns meses, esta paisagem desolada era uma lagoa de água doce. Agora, a devastação tomou conta.

“Criamos búfalos aqui desde a época de Adão”, proclama Argeol Issa Omarah, de 73 anos, um dos vários criadores de búfalos — conhecidos como Ma’dan — que habitam os Pântanos Mesopotâmicos do Iraque, que muitos estudiosos bíblicos acreditam ser o local do Jardim do Éden. Tanto os Pântanos Mesopotâmicos quanto a cultura dos Ma’dan receberam o status de Patrimônio Mundial da UNESCO em 2016.

Essas zonas úmidas na parte sul do país já foram uma das paisagens mais distintas do mundo, alimentando uma cultura antiga que sobreviveu aqui por milênios. Os rios Tigre e Eufrates, fluindo do sul da Turquia através da Síria e do Iraque, se encontraram no rio Shatt al-Arab perto de Basra, criando vastos pântanos no Iraque e no Irã. As inundações sazonais transformaram a região em uma rede interconectada de zonas úmidas.

A vida nesses pântanos remotos esteve inalterada por milhares de anos, em grande parte inacessível a pessoas de fora. O isolamento terminou na década de 1980 com a Guerra Irã-Iraque, seguida pela Guerra do Golfo e a Revolta Xiita no início da década de 1990. O que se seguiu foi uma destruição deliberada e quase total dos pântanos.“Quando eu era criança, havia água até onde a vista alcançava”, diz Argeol Issa Omarah. (Jaclynn Ashly / Jacobin)

Nas últimas décadas, esforços foram feitos para restaurar e preservar os pântanos do sul do Iraque. No entanto, um desastre ambiental sem precedentes agora ameaça a região. As mudanças climáticas trouxeram temperaturas elevadas, enquanto a construção de represas a montante reduziu drasticamente o fluxo de água para o Iraque, fazendo com que os moradores de pântanos como Omarah tivessem que lidar com uma realidade dura e mutável.

Os árabes do pântano estão envolvidos em uma batalha difícil para salvar seu modo de vida.

O legado de Saddam

No auge, os pântanos eram o maior ecossistema de zonas úmidas do Oriente Médio, cobrindo a maior parte do sul do Iraque. Os talos de junco que se projetavam das águas forneciam amplo material para a construção de casas tradicionais de junco — conhecidas como mudhif —, bem como esteiras de junco usadas para sentar e dormir. A abundância de peixes nos pântanos garantia que os pescadores vivessem vidas confortáveis, enquanto espécies de pássaros migratórios e residentes eram abundantes. Até mesmo leões e hienas já vagaram por esse habitat único.

Os pântanos eram o lar de cerca de quinhentas mil pessoas, principalmente árabes dos pântanos que seguem o islamismo xiita. Esta antiga comunidade está entre as culturas vivas mais antigas do mundo, com raízes que remontam a seis mil anos até a antiga Suméria, a civilização mais antiga conhecida — que produziu os primeiros textos conhecidos do mundo — e o Império Acadiano, o primeiro império conhecido da Mesopotâmia. As cidades de Ur, que dizem ser o local de nascimento do profeta Abraão, e Uruk, a maior cidade do mundo em 3000 a.C., estavam localizadas ao longo do rio Eufrates nas bordas dos pântanos.

Embora os árabes dos pântanos falem árabe, seu dialeto incorpora palavras das línguas antigas, agora extintas, suméria e acádia. Durante séculos, sua cultura e meios de subsistência estavam intrinsecamente ligados à paisagem natural dos pântanos, com a água servindo como seu recurso mais precioso, do qual todas as outras coisas dependiam.

Os pântanos em si formam uma rede de três grandes zonas úmidas: o Pântano Hawizeh, que abrange o Iraque e o Irã, e os pântanos Central e Hammar, juntamente com oito pântanos menores.

O ecossistema criou um microclima único absorvendo calor, com temperaturas até 3°C mais frias do que as áreas ao redor. Ele sustentou uma biodiversidade excepcional, filtrando poluentes do Tigre e do Eufrates e protegendo a costa do Golfo da degradação ecológica.Uma mulher cuida de seu búfalo aquático em uma vila perto de Chibayish. (Jaclynn Ashly / Jacobin)

O delicado equilíbrio dos pântanos, no entanto, os tornava altamente vulneráveis ​​às vicissitudes dos anos secos e úmidos, dessecação e inundações. Em anos secos, os pântanos se fragmentavam em ilhas isoladas; em anos úmidos, formavam um sistema interconectado. O terreno de lama, juncos e água era quase intransitável, tornando muito difícil para qualquer exército invasor atravessar ou se locomover em cavalos. Essa vantagem natural tornou fácil para os árabes dos pântanos travar uma guerra de guerrilha e escapar da captura. Por essas razões, conquistar essa região do sul do Iraque era virtualmente impossível, de acordo com Steve Lonergan e Jassim Al-Asadi, que juntos escreveram o livro The Ghosts of Iraq’s Marshes [Os Fantasmas dos Pântanos do Iraquanos].

Mas Saddam Hussein, que governou o Iraque de 1979 até sua queda em 2003, tomaria como missão erradicar esse ecossistema único. Os pântanos há muito tempo forneciam refúgio não apenas para os árabes da região, mas também para comunistas e rebeldes que fugiam do governo. Erradicar os pântanos se tornou um elemento central da campanha de Saddam para esmagar a resistência e exercer controle sobre a região.

Drenando os pântanos

Durante a guerra Irã-Iraque na década de 1980, quando Saddam invadiu o vizinho Irã e mergulhou a região em um conflito que durou oito anos, os pântanos foram transformados em um campo de batalha estratégico. A água foi drenada de algumas áreas, enquanto outras foram intencionalmente inundadas. Estradas foram construídas para permitir a fácil movimentação de equipamentos militares pesados, bunkers foram escavados para o avanço das tropas e minas antitanque e antipessoas foram enterradas por toda a região. Essas ações, de acordo com Lonergan, professor de geografia na Universidade de Victoria, na Colúmbia Britânica, e líder da Iniciativa dos Pântanos Canadá-Iraque, causaram estragos no delicado ecossistema dos pântanos.

Os pântanos foram rearranjados para o teatro da guerra, deixando o meio ambiente devastado. Durante a revolta xiita de 1991, que durou de março a outubro, o exército iraquiano matou milhares de árabes xiitas dos pântanos. Muitos dos que participaram da revolta fugiram para o interior dos pântanos para escapar do exército.

Em 1992, Saddam decidiu se vingar dos desertores e elementos rebeldes nos pântanos, que então cobriam uma área de vinte mil quilômetros quadrados. Usando um plano de drenagem criado pelos britânicos na década de 1950 para converter os pântanos para uso agrícola, a administração de Saddam começou a eliminá-los sistematicamente.Os talos de junco que crescem nos pântanos são usados ​​para construir mudhif, casas tradicionais de junco. (Jaclynn Ashly / Jacobin)

Canais e diques foram construídos para desviar a água dos rios Tigre e Eufrates para longe dos pântanos. Simultaneamente, o exército iraquiano queimou e destruiu milhares de vilas e fazendas por toda a região, fazendo com que muitos moradores fugissem.

De acordo com Lonergan, um dos principais projetos do governo nesse esforço foi o Rio Prosperidade, um canal de dois quilômetros de largura e pouco mais de cinquenta quilômetros de comprimento que era paralelo ao Rio Tigre. Seu único propósito era transportar água para longe dos pântanos. Outro canal, conhecido como Rio Mãe de Todas as Batalhas — ou Umm al-Ma’arik — foi construído com o mesmo propósito ao longo do Eufrates. Qualquer água que potencialmente fluísse dos Rios Tigre e Eufrates para os pântanos era desviada para esses canais.

Em poucos meses, os pântanos começaram a secar. Mais de 90% deles desapareceram até 2000. Apenas o pântano Hawizeh, sustentado pela água que fluía do Irã, permaneceu intacto. A devastação ambiental desencadeou um êxodo em massa de árabes do pântano. Os estoques de peixes se esgotaram, os búfalos pereceram sem juncos para comer ou água para beber, e um modo de vida sustentado por milênios foi quase destruído.

Refugiados do pântano

O desvio de água também cortou o fornecimento para Chibayish, uma cidade nos Pântanos Centrais. A população de Chibayish caiu de sessenta e três mil em 1990 para apenas cinco mil em menos de uma década. Um relatório das Nações Unidas de 2003 estimou que apenas dez mil árabes permaneceram nos pântanos, com menos de 10% com capacidade de sustentar seu modo de vida tradicional.

Estima-se que de cem a duzentos mil árabes dos pântanos foram deslocados internamente, muitos migrando para o centro do Iraque, para cidades como Hilla, Samarra, Fallujah e Balad. Acredita-se que até cem mil tenham fugido do país como refugiados, alguns para países ocidentais, enquanto mais de quarenta mil fugiram para o vizinho Irã. Quase toda a população de árabes dos pântanos foi deslocada à força.Jassim al-Asadi, diretor da Nature Iraq, nasceu nos Pântanos Centrais e dedicou a maior parte da vida à sua restauração. (Jaclynn Ashly / Jacobin)

Em uma década, os pântanos foram reduzidos a terras áridas e o sustento dos Ma’dan se foi. “A maioria dos búfalos morreu e os que permaneceram vivos foram vendidos”, diz Al-Asadi, um ativista ambiental e diretor da Nature Iraq, o primeiro e único grupo de conservação do país. Asadi nasceu nos Pântanos Centrais e dedicou a maior parte de sua vida à sua restauração. “Outras famílias mantiveram apenas seis ou sete de seus búfalos e migraram para áreas úmidas em outras partes do Iraque.”

Omarah foi um dos muitos Ma’dan que fugiram em busca de água. Ele e sua família se estabeleceram ao lado do Rio Prosperidade, seguindo o caminho da água desviada dos pântanos. A destruição do bioma do pântano e do modo de vida Ma’dan levou a Agência de Refugiados da ONU a classificar os deslocados como refugiados ambientais. Observadores internacionais também sugeriram que a drenagem dos pântanos por Saddam constitui ecocídio com o propósito de genocídio.

O desastre perpetrado pelo governo iraquiano nos pântanos e seu povo “se destaca como uma das maiores catástrofes ambientais e humanitárias do século XX”, diz Lonergan. Por mais de uma década, os pântanos permaneceram como um deserto sancionado pelo Estado, despojados da biodiversidade e da vida que os sustentaram por milênios.

Esperança afogada

No final de março de 2003, uma coalizão de forças dos EUA, Grã-Bretanha, Austrália e Polônia invadiu o Iraque e derrubou o governo de Saddam. O país mergulhou no caos. Com a força policial desordenada, o crime e a corrupção se espalharam. Tensões tribais, regionais e religiosas há muito reprimidas transbordaram, e a raiva contra as forças de ocupação escalou de protestos para a violência. Ministérios do governo fecharam, seus prédios foram gravemente danificados nos bombardeios.

Mas em meio a esse caos, os árabes do pântano viram um vislumbre de esperança.

Menos de um mês após a invasão liderada pelos EUA, em 10 de abril, um grupo de jovens brandindo picaretas e pequenas bombas d’água demoliu as represas e diques que bloqueavam o fluxo de água para Abu Zareg, um pequeno pântano que já foi parte do maior Pântano Central. A notícia de seus esforços espontâneos se espalhou, e outros dentro e ao redor dos pântanos se juntaram, aproveitando a queda de Saddam para inundar novamente os pântanos. Asadi estava intimamente envolvido nesses esforços e convenceu o ministério de recursos hídricos a ajudar a desmantelar algumas das maiores represas e diques que exigiam equipamentos mais pesados.Os moradores restauraram cerca de 70% dos pântanos que foram drenados mais de uma década antes por Saddam Hussein. (Jaclynn Ashly / Jacobin)

“A água do Tigre e do Eufrates começou a fluir de volta para os pântanos”, Asadi me conta, sorrindo. “E a vida nos pântanos retornou. Semana após semana, mês após mês, a notícia se espalhou e as pessoas começaram a migrar de volta para os pântanos.” Atividades econômicas tradicionais, como pesca, fabricação de esteiras de junco, criação de búfalos e fabricação de queijo e iogurte de búfalo, retornaram depois que os pântanos foram inundados novamente.

Por meio dessas iniciativas, em sua maioria locais, os moradores restauraram cerca de 70% dos pântanos que haviam sido drenados mais de uma década antes. Apesar da desordem social aumentar no resto do país, foi um momento de esperança para os árabes dos pântanos.

Omarah estava entre aqueles que retornaram aos pântanos. Ele comprou vinte búfalos de água e suavemente recostou-se em sua vida tradicional. “A grama cresceu e se tornou abundante e saudável — mais do que suficiente para o búfalo”, ele me conta, sentado em uma esteira de junco em uma pequena sala de concreto em sua propriedade. Seus filhos timidamente espiam a sala de fora, rindo e correndo para longe cada vez que encontram meu olhar. “E a água chegou até a estrada principal.”

Mas essa esperança inicial já desapareceu. Omarah gesticula para fora, onde carros estão correndo por uma estrada pavimentada, ladeada por terra desertificada, onde apenas pequenas poças de água poluída permanecem.

“Durante Saddam, havia água suficiente no Tigre e no Eufrates, mas o problema foi sua decisão de drenar a água dos pântanos”, explica Asadi, sentado em um sofá em sua casa em Chibayish. “Agora não há Saddam, mas estamos enfrentando uma escassez de água no Tigre e no Eufrates por causa da represa [rio acima], juntamente com problemas na distribuição e gestão da água. A maior parte dela é alocada para terras agrícolas e muito pouco acaba nos pântanos.”

Mudanças climáticas e crise

Secas recorrentes e prolongadas devido às mudanças climáticas causaram estragos nos pântanos. Houve quatro grandes secas desde 2009, e sua gravidade foi maior do que nos anos anteriores. A frequência de secas na região continua a aumentar e representa uma ameaça existencial ao ecossistema. A seca prolongada que começou em 2021, ainda em andamento, foi a mais devastadora, de acordo com Asadi. As Nações Unidas relataram que em 2023, o Iraque enfrentou sua pior seca em quarenta anos.

As Nações Unidas identificaram o Iraque como um dos países mais vulneráveis ​​aos impactos das mudanças climáticas devido a uma combinação de altas temperaturas, falta de chuva, seca e escassez de água, e frequentes tempestades de areia e poeira. A chuva está se tornando cada vez mais rara, enquanto as temperaturas disparam. O Iraque registrou algumas das temperaturas mais altas do mundo — chegando a 50°C no verão passado — em suas cidades do sul.

A redução drástica de água da represa a montante na Turquia, Síria e Irã intensificou os impactos dessas secas, que foram muito além dos pântanos, afetando toda a região sul do Iraque. As extensas redes de represas da Turquia no Tigre e Eufrates cortaram a parcela de água do Iraque em 60%, enquanto o vizinho Irã desviou afluentes e outros rios. O aumento da temperatura também está causando um aumento na evaporação da água, contribuindo para o esgotamento dos reservatórios.Uma mulher coleta juncos para fazer esteiras tradicionais. (Jaclynn Ashly / Jacobin)

Naturalmente, quando os anos chuvosos traziam inundações para as áreas alagadas do Tigre e do Eufrates, os pântanos eram limpos de sais. Agora, no entanto, essa inundação natural não ocorre mais, resultando em um acúmulo de sais na água, afetando negativamente a produtividade de plantas e animais. Os pântanos, antes interconectados, agora existem como sistemas isolados, lutando para sobreviver de forma independente.

“O resultado disso é que a água restante [que chega aos pântanos] tem salinidade muito alta”, diz Najah Hussain, professor de ecologia na Universidade de Basra, no Iraque, especializado nos pântanos do sul. “Não podemos mais nem classificá-la como água doce. É uma mistura de água doce e salgada.” À medida que os pântanos secam, a alta concentração de sal na água mata os búfalos — junto com os peixes e as plantas. “Problemas em torno da quantidade e qualidade da água que chega aos pântanos afetaram todo o habitat”, Hussain me conta.

Ameaçado pela seca e pela política

A excitação inicial de Omarah em retornar aos pântanos se transformou em ansiedade sobre o futuro. Desde 2021, metade dos búfalos de água de Omarah morreram de doenças causadas por beber água salgada. Incapaz de comprar forragem para o resto, ele os vendeu e agora não tem nenhum.

“Quando você perde seu búfalo aquático, está perdendo uma grande parte de sua vida e identidade”, Omarah me conta, expressando o relacionamento único que os árabes do pântano têm com seus búfalos. “Eu crio búfalos há gerações e sempre pensei que passaria isso para meus filhos. Se eu soubesse fazer qualquer outra coisa, eu faria, mas a minha vida inteira eu não aprendi nada além de criar búfalos.”

De acordo com Asadi, hoje em dia os pântanos não podem depender do fluxo natural de água do Tigre e do Eufrates. Sustentá-los agora depende de fontes alternativas de água. Os pântanos não são mais fornecidos por sistemas naturais. Se a água chega aos pântanos ou não depende de decisões centralizadas feitas por autoridades iraquianas no ministério de recursos hídricos, o que impõe desafios próprios.

Este ministério em Bagdá determina a alocação de água para irrigação para cada província, com a agricultura consumindo a maior parte da água — quase 65%. As secas severas levaram a um aumento na competição, na qual os interesses de comunidades mais fracas, como os moradores dos pântanos, são sacrificados em prol dos interesses das mais poderosas.

“A prioridade no Iraque é primeiro a água potável, depois a agricultura e o petróleo, e somente quando sobra um pouco de água eles a liberam para os pântanos”, explica Asadi. “Não é a principal prioridade da administração.”

“Há alguns engenheiros trabalhando nos ministérios que acreditam que os pântanos são somente para serem inundados, podendo impedir inundações de cidades”, ele continua. “Mas eles não veem que os pântanos também existem para o meio ambiente, a economia e a cultura dos povos indígenas que vivem aqui. Eles veem isso como uma área baixa na qual podem dissipar água somente se houver quantidade suficiente. Se não, os pântanos não entram em suas mentes.”

"Com medo do futuro"

“Lembro-me de quando havia centenas de ilhas flutuantes, que foram construídas pelas próprias pessoas usando antigas técnicas sumérias”, conta Asadi, relembrando sua infância nos pântanos. “As ilhas subiam e desciam com a água. Cada família tinha pelo menos três barcos tradicionais, que usávamos para ir à escola e aos mercados.”

“Havia paz e amor entre os moradores e a natureza”, ele continua. “Durante todo o dia, você podia ouvir o canto das mulheres e homens nos pântanos que saíam para coletar grama e juncos. Esta área tinha um aspecto muito mais brilhante do que tem agora.”

As esperanças de restaurar esse passado encantador, no entanto, estão se afastando cada vez mais. Os impactos das secas recorrentes desde 2021 têm sido calamitosos. De acordo com Asadi, cerca de 33% dos búfalos aquáticos nos pântanos pereceram nos últimos quatro anos, enquanto 95% dos peixes morreram.O filho de Fallah Gzigron alimenta os búfalos aquáticos com forragem que eles precisam comprar para manter os animais vivos. (Jaclynn Ashly / Jacobin)

“Cada vez que você perde um búfalo, parece que está perdendo seus filhos”, explica Fallah Gzigron, de quarenta anos, criador de búfalos aquáticos e pai de nove crianças, de quatro a dezoito anos. “Então é muito doloroso cada vez que eles morrem ou sou forçado a vendê-los.” ​​Gzigron está sentado do lado de fora de seu mudhif construído ao lado de um canal raso que serpenteia pela terra amarelada e rachada.

Há apenas alguns meses, esta área do Pântano Central estava submersa em águas rasas. Mas quando secou, ​​as famílias a abandonaram em busca de água em outro lugar. Alguns retornaram depois que o Ministério de Recursos Hídricos cavou um canal e construiu uma estação de bombeamento entre Basra e Chibayish, permitindo que um fio de água doce do Tigre chegasse à área. No entanto, o fluxo está muito abaixo do que era antes.

Gzigron foi forçado a lamentar frequentemente as mortes de seus búfalos. Alguns anos atrás, ele possuía setenta. Mas agora tem apenas quinze restantes, com vinte e cinco que morreram há pouco tempo devido à má qualidade da água. Gzigron ganha a vida vendendo o leite de búfalo para um comerciante que o transporta para a cidade para comercializar. Aqueles que compram o leite fresco fazem queijo de búfalo e iogurte. Não há juncos ou gramíneas frescas para os búfalos comerem, então Gzigron agora é forçado a comprar forragem para alimentá-los.

“Ontem, comprei forragem no mercado por 160.000 dinares iraquianos [US$ 122], e isso só vai durar dois ou três dias”, Gzigron me conta, enquanto seu filho pequeno ordenha um búfalo atrás dele, preparando o leite que venderão mais tarde, naquele dia. “Todo o dinheiro que ganho vendendo leite vai para comprar forragem para os búfalos para mantê-los vivos.”

“Estou com muito medo do futuro”, ele continua. “Se as coisas piorarem, teremos muitos problemas. A água está ficando cada vez mais baixa. É difícil prever qualquer coisa. Nunca sei se no ano que vem a água ficará ainda mais baixa e o resto dos meus búfalos morrerá.”

Famílias em situação difícil

Haidar Waheed Hashim, um criador de búfalos de trinta anos e pai de treze, enfrenta dificuldades semelhantes. A desnutrição está afetando seus búfalos, reduzindo drasticamente sua produção de leite. “Normalmente, após vender o leite, eu deveria comprar mais búfalos e coisas para minha família”, ele diz enquanto seus búfalos d’água grunhem no canal estreito ao lado dele. “Agora estamos apenas perdendo, ano após ano. Sem água, não há vida nos pântanos.”Ahmad Udey Jabar é um dos pequenos comerciantes que compra leite dos criadores de búfalos e depois o vende nos mercados de Basra. (Jaclynn Ashly / Jacobin)

Ahmad Udey Jabar, também com trinta anos, é um pequeno comerciante que compra leite dos criadores de búfalos e depois o vende nos mercados de Basra. Antes de 2023, Jabar diz que ganhava 50.000 dinares iraquianos (US$ 38) por dia em lucros. Agora, ele ganha apenas 25.000 dinares (US$ 19) por dia. O suprimento de leite despencou — ele costumava coletar mais de 1.300 litros de leite por dia, mas agora coleta apenas 500 litros. “Até a qualidade do leite foi afetada devido à qualidade da água que os búfalos estão bebendo”, diz Jabar, que tem seis filhos pequenos.

Os meios de subsistência dos pescadores locais entraram em colapso por completo. “A vida agora não é mais como era antes”, diz Yasser Jeri, um pescador de quarenta anos e pai de duas filhas. Ele está sentado em seu barco de madeira em um curso de água alimentado pelo Rio Eufrates, jogando uma rede na água cristalina. “Você não consegue mais encontrar peixes grandes nesta água, apenas peixes pequenos.” Ele gesticula para alguns peixes pequenos no chão de seu barco que ele pescou naquele dia.O pescador Yasser Jeri sentado em seu barco de madeira em um curso de água alimentado pelo rio Eufrates. (Jaclynn Ashly / Jacobin)

“Isso é tudo que eu peguei hoje, e estou aqui há algumas horas”, ele continua. “Eu nem vou vender isso — é só para minha família. Nos anos anteriores, um peixe podia pesar cerca de seis quilos, mas o maior agora não tem mais do que meio quilo.” Hoje, Jeri diz que normalmente pega um quilo de peixe pequeno diariamente.

Perca os pântanos, perca a história

O futuro dos pântanos mesopotâmicos do Iraque é sombrio. Hussain diz que está “pessimista” sobre sua sobrevivência.

Não acho que possamos restaurar ou manter os pântanos como eram antes devido à escassez de água. Precisamos escolher certas áreas dos pântanos — cerca de cinco mil quilômetros quadrados — para cuidar e dar a eles água suficiente para revivê-los e mantê-los como um exemplo para as gerações futuras. Mas nada mais do que isso parece possível.

Asadi, que ainda sonha com os pântanos que conheceu quando criança, é mais otimista. Ele sugere que o Ministério de Recursos Hídricos poderia empreender projetos como a construção de diques de concreto e solo para gerenciar o fluxo de água e salvar os pântanos. No entanto, isso exigiria tornar os pântanos uma prioridade nacional, apoiada por recursos financeiros que o ministério atualmente não tem.

Em todo o Iraque, rios e lagos estão secando, e as reservas de água do país já foram reduzidas pela metade. O ministério de recursos hídricos estima que um quarto da água doce do Iraque será perdida na próxima década. Dada essa realidade, é difícil imaginar que os pântanos se tornem a prioridade do governo sem assistência internacional séria.

“Sempre terei esperança nos pântanos”, diz Asadi, enfatizando que sua restauração deve ser uma preocupação para o mundo inteiro. “Os pântanos são parte da cultura do Iraque e são de importância histórica para a civilização mundial”, ele me conta. “Ainda há aspectos da cultura suméria vivos aqui. O mudhif é, na verdade, uma estrutura suméria. Muito da civilização primitiva nasceu aqui nos pântanos.”

“Mas se perdermos os pântanos, então perderemos as pessoas. Elas migrarão para as cidades e ano após ano esquecerão sua cultura e história, suas lendas e canções. Se isso acontecer, uma cultura inteira que existe há milênios será completamente perdida.”

Colaborador

Jaclynn Ashly é uma jornalista independente atualmente baseada nos Estados Unidos.

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