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10 de maio de 2026

Um futuro para além do genocídio israelense na Palestina

É difícil imaginar um futuro na região para além dos horrores do genocídio e do deslocamento que não envolva uma responsabilização do Estado de Israel, apoiado por uma grande maioria dos seus cidadãos judeus.

Raz Segal e Sonia Boulos

Jacobin

Seria de esperar que o reconhecimento do genocídio perpetrado por Israel contra os palestinos fosse seguido por um apelo à justiça e à responsabilização. Isso inclui o direito das vítimas da violência de verem os responsáveis ​​pelos ataques contra seus entes queridos e contra a sociedade levados à justiça. (Ahmed Al Arini/Middle East Images/AFP via Getty Images)

Nos últimos dois anos e meio, Israel intensificou seu projeto central de concretizar uma “Grande Israel”. Sua campanha contínua para eliminar os palestinos desde a Nakba de 1948 escalou para uma violência genocida em larga escala em Gaza. A intensificação da violência colonial israelense também incluiu uma campanha de deslocamento forçado na Cisjordânia sem precedentes desde a guerra de 1967, um ataque renovado aos direitos políticos dos palestinos em Israel e a transformação das prisões israelenses em uma rede de campos de tortura onde uma indescritível crueldade é a ordem do dia.

Os ataques em larga escala de Israel contra o Líbano e o Irã, e o uso da “doutrina de Gaza” — particularmente no Líbano — tornaram o ataque sistemático a civis, bairros inteiros, escolas e hospitais, e a imposição de destruição em massa, sofrimento e morte, uma realidade regional. Ao mesmo tempo, a guerra entre EUA e Israel contra o Irã causou uma crise econômica internacional que evidencia como regimes genocidas representam uma ameaça em escala global.

É difícil imaginar um futuro na região para além desta realidade horrível sem que o Estado de Israel, apoiado por uma grande maioria dos seus cidadãos judeus, seja responsabilizado. A responsabilização exige que se dê prioridade às experiências e ao conhecimento dos palestinos que enfrentam a perseguição israelense, mas a supremacia judaica e o racismo anti-palestino que alimentam o genocídio também impulsionam o silenciamento dos palestinos e do seu ativismo para pôr fim a ele. O resultado é que vozes predominantemente judaicas críticas a Israel conseguem ganhar atenção através das brechas dessa censura e silenciamento, embora ofereçam pouco em termos de reflexão sobre uma real responsabilização.

É o caso, mais recentemente, do último livro do estudioso israelense-estadunidense do Holocausto, Omer Bartov, intitulado Israel: What went wrong? [Israel: O que deu errado?]. Recém-lançado em inglês e com previsão de publicação em diversos outros idiomas, o livro convida os leitores a refletirem sobre o genocídio em curso perpetrado por Israel em Gaza, a partir de uma narrativa que começa com o Holocausto e o antissemitismo. Bartov argumenta que o sionismo surgiu como um projeto de libertação dos judeus da perseguição e da destruição, mas se transformou com a criação do Estado de Israel em 1948, quando se tornou uma ideologia oficial, tornando-se cada vez mais excludente e violentamente etnonacionalista, culminando, em última instância, em genocídio.

Na verdade, palestinos e até mesmo sionistas entendiam o sionismo como uma ideologia etnonacionalista excludente, colonialista e violenta muito antes de 1948. Sabemos disso, por exemplo, pelo trabalho de acadêmicos palestinos como a socióloga Areej Sabbagh-Khoury, que demonstra em seu livro Colonizing Palestine: The sionist left and the making of the palestinian Nakba [Colonizando a Palestina: A esquerda sionista e a criação da Nakba palestina] como sionistas de esquerda, sob os auspícios coloniais britânicos, desempenharam um papel ativo na desapropriação dos palestinos por meio do estabelecimento de colônias de kibutzim na região fronteiriça do Vale de Jezreel/Marj Ibn Amer nas décadas de 1920 e 1930.

É impossível compreender a Nakba de 1948 sem considerar o consenso sionista eliminacionista formado nas três décadas anteriores e que influenciou os assentamentos e as ações sionistas muito antes do Holocausto.

Se os sionistas de esquerda falavam em coexistência com os palestinos mesmo enquanto os expulsavam, os sionistas de direita abandonaram esse discurso desde cedo. O conhecido ensaio de Ze’ev Jabotinsky, de 1923, “A muralha de ferro”, estabeleceu o tom com um reconhecimento explícito do sionismo como um movimento colonialista de povoamento que visa remover os árabes palestinos nativos para criar um Estado judeu.

É impossível compreender a Nakba de 1948 sem considerar o consenso sionista eliminacionista formado nas três décadas anteriores e que influenciou os assentamentos e as ações sionistas muito antes do Holocausto. A Nakba de 1948 marcou, além disso, o nascimento do Estado de Israel como um ente claramente excludente, racista e violento; parafraseando o título de Bartov, o Estado de Israel já surgiu fundamentalmente errado.

Bartov, que se inclui entre os antigos sionistas liberais, rejeita essa posição. Seu argumento sobre o genocídio em Gaza funciona de maneira semelhante ao seu argumento sobre o sionismo. Ele acabou tendo dificuldades, durante o genocídio transmitido ao vivo por Israel, em descartar a acusação de genocídio. Para ele, a invasão de Rafah em maio de 2024 sinalizou a transição de Israel para o genocídio de fato. Isso significa que a campanha israelense em seus meses iniciais — sua fase mais letal — não foi genocida, segundo Bartov, mesmo reconhecendo que líderes políticos e militares israelenses expressaram clara intenção genocida na época. Essa qualificação da determinação de genocídio reflete a visão otimista de Bartov sobre o sionismo pré-estatal, pois visa ocultar a continuidade histórica entre a lógica eliminatória do sionismo e da Nakba e a violência genocida que se desenrola em Gaza desde outubro de 2023.

Bartov argumenta, portanto, que “o foco na realidade funcional dos assentamentos [sionistas] na Palestina ignora em grande parte as motivações ideológicas e emocionais desse movimento [sionista], bem como a autopercepção subjacente de gerações de ativistas e apoiadores sionistas”. Dentro dessa narrativa, as vítimas do sionismo — agora em sua fase genocida — erraram ao julgar o sionismo por meio de sua experiência vivida de desapropriação e violência; em vez disso, deveriam ter estado suficientemente “sintonizadas com as aspirações dos refugiados judeus da Europa”. Essa perspectiva transforma a luta anticolonial palestina e árabe — que começou com a Revolta Árabe de 1936, ou mesmo antes — em um ato hostil de agressão contra os colonos judeus na Palestina, criando assim uma falsa equivalência entre colonizados e colonizadores.

O Estado de Israel já surgiu fundamentalmente errado.

Sabemos também que, enquanto os refugiados judeus buscavam asilo, o movimento sionista que os encaminhava para a Palestina visava criar uma maioria demográfica judaica que, eventualmente, facilitaria o controle sionista do país. Os sionistas, portanto, transformaram refugiados em colonos. Além disso, pelo menos alguns dos refugiados judeus europeus que chegaram à Palestina durante ou imediatamente após a guerra de 1948 compreenderam isso e perceberam que o recém-criado Estado judeu reproduzia o tipo de violência excludente que haviam vivenciado na Europa. Foi uma libertação muito amarga para eles, se é que a perceberam dessa forma.

Independentemente de como se compreenda as múltiplas perspectivas dos refugiados judeus em 1948, a abordagem de Bartov afirma hierarquias epistêmicas racializadas, marginalizando as perspectivas, o conhecimento e as vozes dos palestinos que enfrentaram a violência colonial e eliminatória de Israel antes e depois de 1948, incluindo aqueles que identificaram o ataque de Israel a Gaza como genocídio desde o início.

Reconhecimento sem responsabilização?

Hierarquias socializadas moldam não apenas a forma como as causas do genocídio em Gaza são discutidas, mas também como os desdobramentos a seguir são imaginados. Seria de se esperar que o reconhecimento do genocídio fosse seguido por um claro apelo por justiça e responsabilização. Isso inclui o direito das vítimas da violência colonial e do genocídio de verem levados à justiça aqueles que atacaram seus entes queridos e a sociedade: aqueles que cometeram os crimes, aqueles que os ordenaram e aqueles que os incitaram. As vítimas também têm direito a um relato oficial do ocorrido. O próprio Estado deve ser responsabilizado por esses graves crimes.

Assim, fica o questionamento de por que o livro de Bartov não contém um apelo claro por responsabilização legal, especialmente à luz do recente desvelamento da impunidade que por muito tempo protegeu Israel da responsabilização por crimes cometidos contra o povo palestino.

Por que ele não apoia explicitamente os esforços de responsabilização perante o Tribunal Penal Internacional? Bartov menciona o Parecer Consultivo de 2024 emitido pela Corte Internacional de Justiça (CIJ) sobre a ilegalidade da presença de Israel na Cisjordânia e em Gaza, mas o faz sem explicar que o documento insta terceiros Estados a não reconhecerem, nem auxiliarem ou contribuírem para a manutenção dessa situação ilegal — abrindo, assim, uma janela de oportunidade para a imposição de medidas eficazes que pressionem Israel a cessar e remediar suas violações das normas imperativas do direito internacional. Em vez disso, Bartov adverte que, se Israel não mudar de rumo, enfrentará um isolamento semelhante ao sofrido pela África do Sul do apartheid.

Fica o questionamento: por que o livro de Bartov não contém um apelo claro por responsabilização legal?

Muitos sionistas liberais compartilham a preocupação de Bartov. O renomado escritor israelense David Grossman, por exemplo, declarou ao jornal italiano La Repubblica, no início de agosto de 2025, que “a maldição de Israel começou com a ocupação dos territórios palestinos após 1967” — apagando, assim, a Nakba de 1948 — e que permanece “desesperadamente comprometido” com a solução de dois Estados; ou seja, um Estado judeu e um Estado palestino “sem armas”. A grande mídia liberal também parece desesperadamente comprometida com a negação da Nakba e com o estabelecimento de um Estado judeu, mesmo que amaldiçoado, o que explica o espaço que concede a pessoas como Bartov em suas colunas de opinião, enquanto suas reportagens, em grande parte, reproduzem o racismo anti-palestino.

Bartov vai além de outros sionistas liberais em suas críticas a Israel e ao sionismo. Ele agora não vê futuro para o sionismo, pois este se tornou uma ideologia de genocídio, embora rejeite o rótulo de “antissionista”. Consequentemente, ele não consegue imaginar um futuro sem um Estado judeu, ainda que diferente do atual. Por esse tipo de crítica e pelo seu reconhecimento tardio do genocídio em Gaza, Bartov enfrentou intensa hostilidade, incluindo ser chamado de “judeu traidor” e outros epítetos comumente lançados contra judeus que se recusam a repetir os discursos do Estado israelense e das principais organizações comunitárias judaicas.

Contudo, suas visões para a Palestina/Israel se concentram, em grande parte, em salvar Israel como um Estado de maioria judaica de um temido futuro ou “pesadelo”, marcado pelo êxodo de pessoas instruídas e qualificadas, pelo crescente isolamento internacional e pela perspectiva de sanções. O que permanece sem resposta é o imperativo moral e político da responsabilização pelas injustiças históricas e estruturais infligidas aos palestinos pelo regime colonial sionista desde a sua criação.

A “revisão fundamental da relação entre os sete milhões de judeus e os sete milhões de palestinos que vivem entre o rio e o mar”, proposta por Bartov, implica principalmente em pôr fim à guerra em Gaza, reconstruí-la e substituir o controle do Hamas sobre a Faixa, com o objetivo final de criar um Estado palestino na Cisjordânia e em Gaza que seria viável apenas como parte de uma confederação com Israel. Nesse cenário, baseado nos escritos de Dahlia Scheindlin, Gaza poderia se tornar “a Dubai do Mediterrâneo”, e um modelo de confederação é apresentado como uma alternativa à lógica fracassada de Oslo, que defendia a solução de dois Estados.

De acordo com essa visão, os refugiados palestinos deslocados à força durante a Nakba em curso podem retornar como cidadãos palestinos à Cisjordânia ou à Faixa de Gaza, enquanto que em Israel só lhes seriam concedidos direitos de residência. Seus “direitos” dentro de Israel seriam análogos aos concedidos aos colonizadores judeus israelenses que vivem na Cisjordânia: eles manteriam sua cidadania israelense e teriam permissão para residir na Cisjordânia não como cidadãos, mas como residentes, desde que aceitassem a soberania palestina.

Assim, os refugiados palestinos expulsos à força de sua terra natal recebem, dentro de Israel, o mesmo pacote de direitos garantido aos colonos da Cisjordânia em um futuro Estado palestino. De acordo com essa visão, os refugiados palestinos podem retornar a Haifa, Jafa, Safad e Lida como hóspedes tolerados, não como beneficiários do direito à autodeterminação na terra natal da qual Israel os expulsou. Embora possam ter permissão para residir nesses locais e votar nas eleições municipais, não teriam o direito de usufruir das terras e recursos que lhes pertenciam antes da Nakba para o desenvolvimento de suas comunidades. Tampouco seriam reconhecidos como parte da comunidade política encarregada de determinar o futuro político, econômico e cultural de sua própria terra natal.

Bartov não percebe como relegar os refugiados palestinos a um status comparável ao dos colonos da Cisjordânia — participantes ativos de uma política criminosa de assentamentos — reafirma uma lógica colonial, especialmente quando essa visão nada diz sobre restituição ou reparações.

É difícil escapar à conclusão de que a indignação expressa por Bartov sobre o que Israel se tornou não está, de fato, centrada nos palestinos.

É revelador que Bartov se baseie em um plano recente formulado por Scheindlin, um judeu israelense que cresceu nos Estados Unidos, mesmo existindo uma alternativa palestina: o plano da Sociedade Palestina da Terra, sob a liderança de Salman Abu Sitta. Esse plano contém diretrizes detalhadas e viáveis ​​para o retorno de refugiados, desenvolvidas em consulta com refugiados e seus descendentes, que permitem o retorno dentro da Linha Verde sem exigir qualquer realocação significativa de israelenses.

“Aliviar o medo dos desequilíbrios demográficos”, como afirma Bartov, está no cerne do plano que ele apoia. Na prática, isso significa que mais de treze milhões de palestinos receberiam 22% do território da Palestina que esteve sob Mandato Britânico para exercer suas aspirações e direitos nacionais coletivos, enquanto aproximadamente dois milhões de palestinos com cidadania israelense seriam reduzidos a uma minoria, e não a um grupo indígena com direito à autodeterminação.

Uma posição semelhante foi adotada pelo movimento político Terra para Todos. Em seu programa, o movimento afirma que o Estado da Palestina teria o poder soberano de conceder cidadania aos refugiados palestinos. Ao receberem a cidadania palestina, os refugiados poderiam viajar livremente para Israel “para trabalho, turismo e residência”. Mais importante ainda, para evitar a “inundação”, seria alcançado um acordo sobre o número de refugiados palestinos elegíveis para residência em Israel.

Tais arranjos assegurariam um corpo político onde os judeus israelenses permaneceriam maioria em 78% da Palestina histórica, controlando seus recursos naturais. Esse esquema reproduz a lógica da supremacia judaica que os sionistas há muito invocam para justificar o deslocamento forçado e a eliminação política e física dos palestinos. A linguagem da demografia é a linguagem da dominação.

Estruturas de supremacia judaica

Não é surpreendente, portanto, que Bartov considere a Declaração de Independência de Israel uma oportunidade perdida, sem perceber como ela estabeleceu oficialmente um regime de supremacia judaica ao excluir os palestinos de seu lema “Nós, o povo”. Ela reconhece apenas o direito natural exclusivo do povo judeu à terra, como se a Palestina sob Mandato Britânico fosse terra nullius. Os palestinos que sobreviveram à Nakba e permaneceram no território que se tornou Israel são tratados meramente como “minorias”, nominalmente com direito não a direitos nacionais ou soberanos coletivos, mas apenas à “completa igualdade de direitos sociais e políticos a todos os seus habitantes, independentemente de religião, raça ou sexo”.

Era de se esperar que a escalada genocida do projeto colonial sionista expusesse as implicações catastróficas dessa lógica de supremacia, levando os críticos de Israel a abandoná-la de vez. Em vez disso, somos novamente confrontados com tentativas de priorizar as preocupações de segurança dos colonizadores em detrimento dos colonizados, agora articuladas pela linguagem da demografia. As preocupações de segurança dos colonizados — e o imperativo de fornecer às vítimas da violência genocida colonial as garantias legais internacionais de não repetição — estão totalmente ausentes ou, na melhor das hipóteses, relegadas à margem.

Bartov conclui sua discussão sobre essa visão com um comentário um tanto peculiar sobre como, na ausência de uma pressão significativa dos EUA sobre Israel, a Alemanha poderia servir como a principal força a impulsionar Israel nessa direção. A realidade é que a Alemanha tem trabalhado principalmente para empurrar Israel na direção do genocídio — fornecendo apoio militar a Israel, retratando os palestinos como nazistas e silenciando e reprimindo violentamente o ativismo pró-Palestina, incluindo a violência policial contra palestinos e judeus antissionistas nas ruas das cidades alemãs. O processo em curso no Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) que a Nicarágua moveu contra a Alemanha em março de 2024 por cumplicidade com o genocídio israelense em Gaza (que Bartov menciona) torna seu comentário particularmente problemático.

Diante desse reconhecimento condicional do genocídio em Gaza, marcado pela ausência de qualquer apelo por responsabilização legal e de uma visão política capaz de abordar de forma abrangente os danos contínuos da Nakba, é difícil escapar à conclusão de que a indignação expressa por Bartov e outros liberais sobre o que Israel se tornou não está, de fato, centrada nos palestinos. Em vez disso, permanece como um esforço para salvar Israel, dentro de uma estrutura de supremacia judaica, daquilo que os sionistas liberais, independentemente de como se autodenominem, consideram um caminho autodestrutivo.

Colaboradores

Raz Segal é professor associado de estudos sobre o Holocausto e genocídio na Universidade de Stockton, onde também dirige o programa de mestrado em estudos sobre o Holocausto e genocídio.

Sonia Boulos é professora associada de direito internacional dos direitos humanos na Universidade Nebrija.

27 de janeiro de 2025

Negação do genocídio nos estudos do Holocausto

O acadêmico Raz Segal relata a estranha experiência de ser atacado como antissemita, apesar de ser judeu e estudar o Holocausto e outros genocídios, pelo alto crime de se opor ao massacre de Israel em Gaza.

Raz Segal


Palestinos deslocados voltam para a parte norte da Faixa de Gaza em 19 de janeiro de 2025. (Omar al-Qattaa/AFP via Getty Images)

O que está no cerne do apoio incondicional que a Alemanha estende a Israel, incluindo nos últimos dezesseis meses do ataque genocida de Israel a Gaza? Esta questão continua relevante mesmo que o cessar-fogo atual ponha fim ao genocídio: abordá-la lança luz sobre o processo de décadas de colonialismo de colonos israelenses que levou ao genocídio, uma Nakba em andamento que continua a se desenrolar independentemente do cessar-fogo. De fato, o ataque de Israel aos palestinos não terminou, e na Cisjordânia ocupada ele realmente aumentou desde que o cessar-fogo em Gaza começou, com ataques mortais de colonos israelenses e do exército israelense.

Uma parceria próxima entre estudiosos israelenses e alemães do Holocausto oferece algumas respostas preocupantes a esta questão. Em um evento online organizado pelo Programa de Estudos do Holocausto no Israeli Western Galilee College (WGC) em 19 de dezembro de 2024, três palestrantes — Alvin Rosenfeld, professor de Inglês e Estudos Judaicos na Universidade de Indiana; Verena Buser, historiadora alemã que leciona online no WGC; e Lars Rensmann, professor de ciência política na Universidade de Passau, na Alemanha — atacaram acadêmicos de estudos do Holocausto e genocídio que escreveram e falaram sobre o genocídio de Israel em Gaza, incluindo eu.

Embora o evento tenha sido organizado em homenagem a Yehuda Bauer, uma figura fundadora dos estudos do Holocausto que faleceu em 18 de outubro de 2024, aos 98 anos, os palestrantes mal mencionaram Bauer ou seu trabalho. Eles também não avaliaram a montanha de evidências do genocídio em andamento em Gaza desde 7 de outubro de 2023. Em vez disso, eles optaram pela negação total do genocídio.

Buser, por exemplo, alegou que acadêmicos que caracterizam as ações de Israel em Gaza como genocídio ignoram "críticas internacionais extensas" à validade dos números de vítimas palestinas que, ela acrescentou, "não distinguem entre combatentes e civis". A verdade é que há um amplo consenso internacional de que Israel matou mais de 46.000 palestinos. Os números reais, além disso, são provavelmente muito maiores: um artigo recente no Lancet argumenta que Israel matou mais de 64.000 palestinos até o final de junho de 2024, a maioria deles não combatentes, incluindo milhares de crianças. De acordo com a Save the Children, “o território palestino ocupado agora é classificado como o lugar mais mortal do mundo para crianças: cerca de 30% das 11.300 crianças identificadas mortas em Gaza [entre outubro de 2023 e agosto de 2024] eram menores de cinco anos”. Israel matou, além disso, quase três mil crianças palestinas em Gaza que permaneceram não identificadas até o final de agosto de 2024.

A negação do genocídio de Buser se estendeu além da minimização típica do número de vítimas, que também caracterizou a negação do Holocausto; ela também se referiu a "relatórios que mostram que não há fome [em Gaza] ou que ela é causada pelos desafios logísticos da guerra". Ela não apontou nenhum relatório específico e não deu nenhum exemplo específico de desafios logísticos. Isso não é surpreendente, pois também há amplo consenso internacional sobre as políticas de fome bem documentadas de Israel, que os líderes militares israelenses discutiram abertamente. Acusar-nos de antissemitismo pela maneira como nos identificamos como judeus reproduz a visão antissemita que nega identidades judaicas plurais para lançar todos os judeus como um e o mesmo, 'os judeus'.

A maioria dos acadêmicos na mira dos painelistas do evento do WGC são judeus, incluindo eu, visados ​​pela maneira como entendemos e expressamos nossas críticas às atrocidades em massa israelenses através do prisma de nossas identidades judaicas. Aparentemente, somos o tipo errado de judeus. Mas acusar-nos de antissemitismo pela forma como nos identificamos como judeus reproduz a visão antissemita que nega identidades judaicas plurais para lançar todos os judeus como um e o mesmo, "os judeus". Como tal, os ataques contra acadêmicos judeus são parte da visão de mundo racista mais ampla dos palestrantes no evento do WGC, visando principalmente denegrir os palestinos.

O mais escandaloso é que o historiador israelense Dan Michman, que atua como chefe do Instituto Internacional de Pesquisa do Holocausto em Yad Vashem, chamou ninguém menos que Adolf Hitler para dar peso aos ataques dos palestrantes:

Ninguém encontra problema com o termo palestino. ... Mas se você voltar um século, para Mein Kampf, por exemplo... Hitler diz em um certo ponto que os sionistas querem estabelecer um estado palestino para ter uma base para suas atividades criminosas. Agora, um estado palestino há um século era um estado judeu. E o fato é que durante o período do Mandato [Britânico] na Palestina, os habitantes judeus eram chamados de judeus palestinos, os árabes eram árabes palestinos. ... Em 1948, Israel foi estabelecido, e os judeus palestinos se tornaram israelenses, então o termo [palestino] foi deixado em aberto, e somente a partir da década de 1950 [é que] começamos a ouvir sobre palestinos.

Parece que Michman pretendia ecoar Rensmann, que afirmou em sua palestra no início do evento que “os nazistas eram aberta e agressivamente, desde suas próprias raízes, desde Hitler em 1920... abertamente anti-sionistas e atacaram o potencial estado sionista”. A lógica em ação aqui é que se Hitler era um anti-sionista, o anti-sionismo só pode ser antissemitismo — uma afirmação que os palestrantes fizeram repetidamente. Ao fazer isso, eles ignoram a rica história dos judeus anti-sionistas e das organizações e partidos políticos judeus anti-sionistas, bem como dos muitos judeus anti-sionistas e organizações judaicas ao redor do mundo hoje. Eles oferecem, em vez disso, uma situação bizarra em que um professor alemão afirma determinar para os judeus a legitimidade ou ilegitimidade de suas identidades judaicas, reforçado por um estudioso israelense do Holocausto que acaba reproduzindo a lógica do racismo de Hitler.

Michman e Rensmann, além disso, direcionam suas críticas não aos neonazistas e grupos relacionados novamente em ascensão na Alemanha e em outros lugares, mas aos judeus anti-sionistas. Michman e Rensmann se empurraram para esse canto paradoxal por um motivo. Eles não podem tolerar judeus anti-sionistas, incluindo estudiosos judeus anti-sionistas do Holocausto e do genocídio que ousam argumentar que o ataque de Israel a Gaza desde outubro de 2023 se enquadra no crime de genocídio no direito internacional.

No entanto, esses estudiosos judeus não estão sozinhos. William Schabas, um dos mais importantes especialistas em direito internacional sobre genocídio, que vem de uma família de sobreviventes do Holocausto, explicou em uma entrevista no final de novembro de 2024 que

em Gaza... a infraestrutura foi massivamente destruída, as pessoas não conseguiram escapar — e então houve as declarações terríveis feitas por [o ex-ministro da defesa israelense] Yoav Gallant... As declarações vieram de ministros, porta-vozes do governo e líderes militares, todos os quais têm influência sobre as tropas. Elas são mais frequentes e mais sérias do que em qualquer outro caso perante [a Corte Internacional de Justiça] que eu tenha conhecimento... Junto com a fome e a falta de acesso à água e higiene, a destruição sistemática de casas, escolas e hospitais, surge uma imagem que poderia ser interpretada como sendo o resultado de intenção genocida.

Para Rensmann, no entanto, a “alegação de genocídio [contra Israel] é parte integrante da história do antissemitismo do século XX e agora do século XXI”.

Buser baseou-se em Rensmann para afastar os acadêmicos do Holocausto e dos estudos sobre genocídio, principalmente judeus, cujo trabalho se baseia no vasto e crescente corpo de fontes sobre o genocídio de Israel em Gaza. Isso inclui material da acusação de genocídio que a África do Sul apresentou contra Israel na Corte Internacional de Justiça; os muitos mapas, depoimentos de palestinos, fotos aéreas e outras fontes nos relatórios da Anistia Internacional, Human Rights Watch, Forensic Architecture e da relatora especial da ONU Francesca Albanese sobre a situação dos direitos humanos nos territórios palestinos ocupados desde 1967; e os milhares de vídeos orgulhosamente carregados nas mídias sociais por soldados e oficiais israelenses nos quais eles documentaram sua própria violência e crimes.

Negando essa realidade muito documentada, Buser postula que os acadêmicos dos estudos sobre o Holocausto e o genocídio que ela pretende desacreditar usam a Declaração de Jerusalém sobre o Antissemitismo (JDA), que “absolve o antissionismo e as comparações nazistas de acusações de antissemitismo”. A JDA, ela continuou, portanto, permite que esses acadêmicos façam declarações antissionistas ou sugiram comparações históricas que ela vê como antissemitas, incluindo, em suas palavras, que “o estado de Israel é um estado branco, colonizador e de apartheid que está cometendo genocídio em Gaza”.

A JDA de fato determina que “criticar ou se opor ao sionismo como uma forma de nacionalismo” não é antissemita”, pois “em geral, as mesmas normas de debate que se aplicam a outros estados e a outros conflitos sobre autodeterminação nacional se aplicam no caso de Israel e Palestina”. Em outras palavras, se é legítimo criticar qualquer ideologia política ou política de um estado — um direito constitucional protegido nos Estados Unidos — também é legítimo no caso do sionismo e de Israel.

A JDA, portanto, conclui corretamente que "mesmo que controverso, não é antissemita, em si, comparar Israel com outros casos históricos, incluindo colonialismo de povoamento ou apartheid". Buser, no entanto, como seus colegas painelistas no evento WGC, equipara antissionismo com antissemitismo, tornando aos seus olhos os acadêmicos que ela almeja antissemitas. Seus slides listam os onze mais proeminentes deles em sua visão, oito deles judeus, incluindo eu.

A ideia da singularidade do Holocausto

O que fazer com essa parceria de estudiosos israelenses e alemães do Holocausto que atacam os judeus para negar o genocídio israelense, ao mesmo tempo em que reproduzem o racismo antipalestino eliminatório que impulsiona esse genocídio? Podemos começar a destrinchar essa questão lembrando que o evento do WGC teve como objetivo homenagear Bauer, o estudioso do Holocausto mais associado à ideia de que o Holocausto é único na história humana. Essa ideia, que também orientou o trabalho de Rosenfeld e Michman, desempenhou um papel fundamental na política e nas sociedades de Israel e da Alemanha. A ideia da singularidade do Holocausto reproduz, em vez de desafiar, o nacionalismo excludente e o colonialismo de assentamento que levaram ao Holocausto.

A ideia da singularidade do Holocausto na história humana foi facilitada pela formulação do conceito de genocídio na Convenção das Nações Unidas para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio em 1948, como resultado do que o que hoje chamamos de Holocausto (ninguém usava o termo naquela época) foi caracterizado como mais terrível do que genocídio. Essa hierarquia, que mais tarde veio a incorporar a essência do campo acadêmico Estudos sobre Holocausto e genocídio em seu título, serviu a um interesse crucial para os vencedores da Segunda Guerra Mundial: ela separou a violência em massa nazista da longa história de genocídios coloniais ocidentais e da história mais curta de genocídios soviéticos que a precederam.

Mais imediatamente, ela também desviou a atenção dos crimes de guerra em larga escala dos aliados ocidentais e dos soviéticos durante a Segunda Guerra Mundial, incluindo o lançamento de bombas atômicas no Japão pelos Estados Unidos, que o estudioso do genocídio Leo Kuper descreveu mais tarde em seu livro de 1981 Genocide: Its Political Use in the Twentieth Century como atos de genocídio. Os interesses compartilhados soviético-ocidentais sobre o novo crime de genocídio terminaram aí. No Ocidente, essa hierarquia tornou os judeus as vítimas mais puras, um movimento possibilitado pelo lugar fundamental dos judeus no mundo judaico-cristão. Como o falecido historiador do Holocausto Alon Confino argumentou em A World Without Jews, um livro brilhante de 2014, os nazistas viam a destruição dos judeus precisamente dessa forma, como essencial para a aniquilação da civilização judaico-cristã, a fim de criar uma civilização nazista em seu lugar. A singularidade do Holocausto, portanto, baseou-se e reforçou a ideia de que os judeus são um povo único.

A vitimização descomprometida então se transformou em moralidade superior e se juntou a um elemento central do projeto sionista: confundir um povo, os judeus, com um estado, Israel. Assim surgiu a visão comum em Israel e no Ocidente sobre o exército israelense como o exército mais moral do mundo. Consequentemente, tornou-se inimaginável que Israel pudesse perpetrar qualquer crime sob o direito internacional, muito menos genocídio. Essa impunidade para Israel no sistema jurídico internacional obscureceu a reprodução do nacionalismo excludente e do colonialismo de assentamento no estado israelense desde suas origens na Nakba de 1948, através da Nakba em andamento em décadas de violência em massa israelense contra palestinos, culminando agora no genocídio israelense em Gaza.

A ideia da singularidade do Holocausto também moldou o comprometimento da Alemanha com Israel, o que a ex-chanceler alemã Angela Merkel descreveu em um discurso no Knesset israelense (parlamento) em 2008 como a "razão de estado" da Alemanha. O falecido político social-democrata alemão Rudolf Dressler — que serviu como embaixador da Alemanha em Israel de 2000 a 2005 — foi o primeiro a usar essa formulação em um ensaio em 2005, e o atual chanceler alemão Olaf Scholz a repetiu em seu discurso no parlamento alemão em 12 de outubro de 2023. Cinco dias depois, agora em Israel, Scholz acrescentou que "a história da Alemanha e a responsabilidade que ela teve pelo Holocausto exigem que mantenhamos a segurança e a existência de Israel".

Mas um Holocausto único também funciona de forma mais profunda na política e na sociedade alemãs. Ele torna o nazismo único também e, portanto, desconecta o período nazista do resto da história alemã, tanto antes quanto depois do Holocausto.

Essa mágica obscurece as conexões entre o nazismo e o genocídio colonial alemão contra os herero e nama no sudoeste da África no início do século XX. Da mesma forma, o nacionalismo alemão excludente antes e depois dos nazistas, incluindo a explosão contemporânea de racismo contra migrantes e refugiados, também desaparece. No extremo, tal magia legitima o racismo contra os palestinos no exato momento em que Israel perpetra genocídio contra eles. A ideia da singularidade do Holocausto reproduz, em vez de desafiar, o nacionalismo excludente e o colonialismo de assentamento que levaram ao Holocausto e que continua a estruturar tanto o estado dos perpetradores quanto o estado dos sobreviventes até hoje.

O evento do WGC, então, refletiu o que Bauer expressou um ano antes de falecer, em novembro de 2023, em um artigo no Haaretz. Usando terminologia colonial, Bauer apresentou o ataque de Israel a Gaza como proteção de "uma sociedade mais ou menos civilizada" contra a "barbárie do Hamas", pedindo "uma luta implacável" entre "duas visões de mundo... [que] apelam a diferentes tipos do universo humano". A parceria de estudos do Holocausto israelense-alemão no WGC exerce precisamente essa visão de mundo profundamente racista, uma visão que colocou os judeus em perigo no passado e agora tem os judeus como alvo novamente — em apoio às atrocidades israelenses em Gaza, ao mesmo tempo em que nega que elas constituam genocídio.

Colaborador

Raz Segal é professor associado de estudos sobre o Holocausto e genocídio na Stockton University, onde também dirige o programa de mestrado em estudos sobre o Holocausto e genocídio.

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