2 de julho de 2015

A cultura não é gratuita

Esperar que os artistas trabalhem de graça entregam as rédeas da produção cultural às elites dominantes.

Miranda Campbell

Jacobin

Um músico de rua em New York City. Sergio Cruz / Flickr.


A lista dos artistas com dificuldades financeiras continua crescendo. Os cineastas mostram seu trabalho em festivais de cinema renomados, mas ainda recorrem ao financiamento coletivo para pagar a conta do veterinário. Escritores agonizam com a forma como os agentes das hipotecas receberão os pagamentos acumulados com contratos de ensino e eventos freelance. Músicos fazem turnês bem-sucedidas, mas voltam para casa com enormes dívidas, enquanto suas músicas amplamente transmitidas ganham uma ninharia.

Em 2012, uma das bandas indie mais populares do mundo, Grizzly Bear, compartilhou o quão pouco suas vidas mudaram desde o seu sucesso – um membro da banda permaneceu no mesmo apartamento de 42 metros quadrados, enquanto o restante ainda não tinha plano de saúde. Como as vendas de discos caíram, a banda passou a ganhar seu sustento por meio de licenças e turnês, mas, como o cantor Ed Droste explica, as vezes não tem como pagar aluguel por alguns meses.

Em uma era pós-Napster, artistas de todas os tipos enfrentam a expectativa de que os frutos de seu trabalho devem circular gratuitamente, tanto online quanto off-line, e quando as receitas do trabalho criativo escorrem, raramente chegam a um salário decente.

A vergonha persistente e o estigma sobre a pobreza fizeram com que alguns artistas tivessem cautela para admitir sua dificuldade em pagar suas contas. Uma blogueira graduada em escrita criativa escreveu: “Eu não tenho falado sobre o quão pobre eu estou, de maneira séria, ou quão aterrorizante é estar à beira do meu 30º aniversário imaginando quando terei moedas suficientes para lavar roupa novamente.”

No entanto, hoje em dia, cada vez mais artistas estão desafiando a postura boêmia de que os artistas devem evitar o capital econômico em favor da arte pela arte. Artistas e trabalhadores da cultura lambem cada vez mais as feridas dos boletos publicamente e desabafam sobre a elaborada dança da autorreinvenção na Era digital. Tornou-se moda discutir e até mesmo quantificar exatamente o pouco dinheiro ganho por projetos criativos. A matemática nunca esteve tão descolada.

Essas confissões vêm do desejo de conscientizar sobre os meios de subsistência dos artistas e chamar a atenção para os desafios contemporâneos de ganhar a vida com o trabalho criativo. Histórias como a do Grizzly Bear trazem imediatismo e detalhes para realidades econômicas amplas e duras e podem ser veículos para a empatia, construindo pontes para o leitor se compadecer com seus semelhantes.

Mas além da compaixão, não está claro se essas histórias desempenham algum papel que instiga mudanças ou cria condições de trabalho mais favoráveis. Histórias de luta se tornaram uma maneira normalizada de falar sobre a dificuldade de ganhar a vida com o trabalho criativo em uma economia pós-crise; mas contar essas histórias faz algum bem, ou desempenha algum papel em ajudar os artistas a encontrar seus pares em tempos economicamente estagnados?

Estamos vivendo em uma Era na qual a fama não significa fortuna, apesar das percepções dominantes de que alcançar visibilidade equivale ao sucesso financeiro. O ensaísta David Rakoff satirizou a “velha fantasia do caos carnal de panos manchados de tinta, cavaletes, terebintina, garrafas de vinho importado embrulhadas com palha segurando gotas de velas, e modelos nus rebolando”, destacando o quão doloroso, tedioso e solitário o trabalho artístico pode ser.

Fazer arte “requer o oposto de sair” e muitas vezes é “uma tarefa profundamente solitária e sem graça tolerar a si mesmo tempo suficiente para colocar algo para fora”, caracterizado por uma “falta de segurança financeira e horas necessárias de solidão gastas se fodendo repetidamente”.

Mas a maioria das pessoas ainda considera fazer arte um privilégio, demonstrada pela reação imediata às conversas sobre artistas sendo pagos de forma justa por seu trabalho, particularmente quando o artista é, ou parece ser, rico. O lançamento do Tidal — um site de streaming de música desenvolvido por artistas, embora longe de ser uma panaceia, busca distribuir mais igualmente os ganhos aos criadores — foi recebido com uma revirada de olhos, e alguns comentários ironizaram a ideia de artistas ricos ficarem mais ricos.

Quando David Byrne, do Talking Heads, declarou recentemente que estava retirando seu catálogo do Spotify por causa das míseras receitas do serviço, além de preocupações com a sustentabilidade desse método de distribuição para artistas emergentes, os comentários não foram nada simpáticos. “As pessoas verdadeiramente criativas têm prazer em compartilhar seu trabalho e ideias gratuitamente”, alguém escreveu. Outro comentário dizia: “Se você está apenas sendo criativo para ficar rico, então eu dispenso a sua merda de arte e espero que você vá à falência.”

Da mesma forma, grande parte da resposta volumosa e acalorada aos desafios pós-fama do Grizzly Bear buscou tirar o crédito da história de luta da banda. Os comentários citavam o pedigree da família de Droste – incluindo um primo que fundou o Hooter’s – e os restaurantes da moda onde ele foi visto.

O célebre autor britânico Rupert Thomson recentemente falou sobre os efeitos esmagadores da Grande Recessão na capacidade dos escritores de ganhar a vida a partir de seu ofício. Aos 60 anos, ele não tem mais condições de alugar um escritório para escrever. Em vez disso, Thompson decidiu transformar um pequeno canto de seu sótão – uma área tão pequena que ele mal pode ficar em pé – em um espaço de trabalho. “Eu não tenho renda privada, nenhuma esposa rica, nenhuma herança, nenhuma pensão. Não tenho nenhuma rede de segurança”, disse ele.

Ainda assim, os comentários online debateram o mérito de dar a Thompson qualquer apoio. Alguns sugeriram que ele deveria ser grato por estar fazendo algo que ama, que ele possui uma casa, que é capaz de converter seu sótão em um pequeno espaço de trabalho. Outros sugeriram que esperar sobreviver da escrita foi imprudente, para começo de conversa.

É difícil imaginar essa reação a histórias de trabalhadores de outras profissões lamentando sua capacidade vacilante de ganhar a vida com um trabalho bem remunerado.

Quando histórias de luta de artistas estão enraizadas na experiência individual de artistas ou bandas, o público muitas vezes reage mal e desmerece, encontrando falhas na história ou sugerindo que o indivíduo não seja um porta-voz confiável para o problema que está sendo articulado. Mas debater até que ponto os membros do Grizzly Bear, Rupert Thompson, ou qualquer outro artista lutam ou não financeiramente é inútil e não aborda por que os artistas lutam, quais lições podem ser aprendidas com suas histórias e quais soluções podem ser desenvolvidas.

Não é uma questão de desenterrar um garoto propaganda mais apropriado para a causa dos artistas passando necessidade. Se quisermos melhorar o lote de artistas, precisamos mudar as engrenagens de um discurso “coitado do artista” para um sobre a importância da arte e a necessidade de apoiar a criação da arte a nível social.

Essa nova conversa dependerá, em parte, do desenvolvimento de novas formas de pensar as lutas dos artistas e da direção do foco da produção cultural para longe dos praticantes individuais. Há alguns trabalhos recentes em particular que nos ajudam a conceituar esses problemas.

Em seu livro The Public Platform: Taking Back Power and Culture in the Digital Age, a autora Astra Taylor primeiro pergunta qual importância dos artistas ganharem dinheiro. Ao responder a esta pergunta, ela se baseia em histórias de dificuldades individuais de artistas, citando até mesmo sua própria experiência de receber US$ 20.000 por uma produtora independente por dois anos de trabalho intenso para fazer seu documentário Examined Life, apenas para ter o filme disponibilizado em sites de torrents logo após sua estreia.

Taylor conta essas histórias não apenas para mostrar os desafios da produção de arte na economia atual, mas também para fazer um argumento mais amplo sobre o papel da arte e da cultura no fomento de uma esfera pública democrática informada e engajada. Para ela, a cultura democrática significa o acesso amplo e igualitário tanto aos instrumentos de criação quanto aos meios de disseminação.

Se artistas não podem ganhar a vida com seu trabalho criativo, eles eventualmente jogarão a toalha. Assim, Taylor afirma que a intervenção política é necessária para garantir que as grandes corporações não monopolizem a esfera cultural. “Nossas vidas são melhoradas pelas externalidades positivas que a arte e as ideias produzem; nosso mundo fica mais bonito, mais interessante, mais ambicioso.”

Em Culture Crash: The Killing of the Creative Class, Scott Timberg também enfatiza o papel das instituições no apoio ao trabalho criativo. Ele observa que, desde a Grande Recessão, não são apenas artistas ou criadores que foram afetados — pessoas que desempenham papéis de apoio, como DJs, atendentes de livrarias, cenógrafos e editores também foram duramente atingidas.

E as instituições não desempenham apenas um papel incubador para a produção cultural — elas também fornecem emprego para uma ampla parcela da população. Então, quando os discos não vendem, não são só os artistas que sofrem. Timberg afirma que não importa se alguém trabalha como artista ou em um papel coadjuvante, “estamos todos juntos nisso.”

Como fomentar esse sentimento de solidariedade, não apenas entre os trabalhadores da cultura e aqueles cujo trabalho acaba sendo um apoio, mas também entre o público em geral?

O primeiro passo importante é enquadrar a produção da arte como obra, não como um privilégio. Apesar do suposto glamour de ser um artista, a maioria ganha uma renda que chega perto ou até abaixo da linha de pobreza.

Além de desafiar essas percepções, precisamos recapturar a ideia de que a arte e a cultura podem desempenhar funções públicas: a arte educa, a arte provoca, a arte transforma, a arte eleva, a arte acalma, a arte imagina outros mundos. O perigo de não apoiar artistas e trabalhadores da cultura é que essas funções são deixadas nas mãos das elites.

Também precisamos ampliar o acesso à criação da arte, como parte de um esforço mais amplo para apoiar o ciclo de produção artística desde a criação até sua disseminação. Isso envolverá a mudança de doação de subsídios individuais para artistas individuais e, em vez disso, o financiamento de instituições públicas — como espaços de trabalho compartilhados e moradias acessíveis — além de garantir que pequenos espaços possam continuar operando e apresentando trabalhos criativos.

A discussão dos detalhes também é essencial – lutar por licenças, licenciamento e zoneamento para a produção cultural poderia impedir o despejo de artistas devido à escalada da especulação imobiliária, reclamações de barulho ou multas por colocar cartazes em espaços públicos quando as áreas forem rezoneadas. Uma enorme parte dos trabalhadores da cultura não têm acesso à plano de saúde, licenças parentais, previdência e outras proteções. Desenvolver uma cultura sustentável também significa abordar essas questões.

Taylor sugere que momentos históricos particulares incentivem novas iniciativas de apoio cultural. A Grande Depressão viu o nascimento da Workers Progress Administration, como parte do New Deal, que empregou músicos, escritores, artistas visuais, atores e diretores em um Projeto Federal.

A Guerra Fria deu origem ao National Endowment for the Arts, após o Congresso decidir que “embora nenhum governo possa criar um grande artista ou estudioso, é necessário e apropriado para o governo federal criar e sustentar não apenas um clima encorajador da liberdade de pensamento, imaginação e investigação, mas também condições materiais que facilitem a liberação deste talento criativo.”

Neste momento econômico, é hora de um novo New Deal. Muitos tipos de trabalhadores sofrem um estresse material substancial, mas precisamos incluir artistas nesses trabalhadores em dificuldades, em vez de descartar suas histórias como o choro desnecessário de pessoas que têm o privilégio de fazer o que amam.

Em vez de assumir que a capacidade de produzir arte é um luxo, podemos apoiar o trabalho criativo para que seja mais acessível e para que mais pessoas possam continuar em suas profissões criativas em vez de ter que desistir dela para encontrar um emprego mais estável.

A teórica da cultura Angela McRobbie sugere que o subemprego estrutural generalizado significa que é hora de reimaginar o trabalho criativo desenvolvendo estruturas para “estratégias de cooperação social” para que as energias criativas dos jovens possam ser direcionadas para o bem comum de maneiras que vão além do voluntariado. A renda básica universal, por exemplo, poderia permitir que os artistas desenvolvessem projetos criativos direcionados para um maior envolvimento da comunidade.

McRobbie pede a renovação de cooperativas e empreendimentos sociais radicais, incluindo programas de alfabetização e educação de rua, oficinas de fotografia ou outros projetos de melhoria urbana e ambiental. Os artistas têm a capacidade de fazer intervenções em problemas sociais prevalentes, mas essa capacidade não pode ser deixada apenas para o mercado ditá-la.

Resta saber como reunir apoio público para tais iniciativas. Quando o problema de ganhar a vida é apresentado como uma história individual, é fácil descartá-lo como fracasso individual.

Espera-se que os artistas se reinventem, recorram ao crowdfunding (financiamento coletivo) e se espremam para sair de suas dificuldades. Mas não podemos depender de crowdfundings para ter um amplo apoio público à cultura ou para abordagens mais sustentáveis da produção cultural. Precisamos deixar de narrar lutas individuais e passar a discutir desafios para toda comunidade com soluções coletivas.

Histórias de luta importam, mas precisamos começar a discutir por que essas histórias importam e o que será perdido se apenas os ricos puderem seguir uma carreira cultural.

Sobre o autor

Miranda Campbell é professora assistente na School of Creative Industries da Universidade Ryerson e autora de Out of the Basement: Youth Cultural Production in Practice and in Policy.

1 de julho de 2015

O imperialismo no século XXI

A globalização da produção e sua mudança para países de baixos salários é a transformação mais significativa e dinâmica da era neoliberal. Sua força motriz fundamental é o que alguns economistas chamam de “arbitragem global de trabalho”: os esforços de empresas na Europa, América do Norte e Japão para cortar custos e aumentar os lucros substituindo mão de obra doméstica de salários mais altos por mão de obra estrangeira mais barata, alcançada por meio da emigração da produção (“terceirização”, como usado aqui) ou por meio da imigração de trabalhadores. A redução de tarifas e a remoção de barreiras aos fluxos de capital estimularam a migração da produção para países de baixos salários, mas a militarização das fronteiras e a crescente xenofobia tiveram o efeito oposto na migração de trabalhadores desses países — não a interrompendo completamente, mas inibindo seu fluxo e reforçando o status vulnerável e de segunda classe dos migrantes.

John Smith


Monthly Review Vol. 67 (2015–2016), No. 03 (July-August 2015)

Introdução

Tradução /  A globalização da produção e a sua mudança para países de baixos salários é a transformação mais significativa e dinâmica da era neoliberal. A sua força motriz fundamental é aquilo a que alguns economistas chamam "traficância laboral global": os esforços das empresas na Europa, América do Norte e Japão para cortar custos e aumentar os lucros através da substituição da força de trabalho doméstica, de salários mais elevados, por mão-de-obra estrangeira mais barata, conseguida quer através da emigração da produção (deslocalização ou "outsourcing", no sentido aqui utilizado), quer através da imigração de trabalhadores. A redução de tarifas e a remoção de barreiras aos fluxos de capital estimularam a migração da produção para países de baixos salários, mas a militarização das fronteiras e o aumento da xenofobia tiveram o efeito oposto na migração de trabalhadores destes países - não a impedindo totalmente, mas inibindo o seu fluxo e reforçando o estatuto vulnerável e de segunda classe dos migrantes. Como resultado, as fábricas atravessam livremente a fronteira E.U.A.-México e passam com facilidade para lá dos muros da Fortaleza Europa, tal como as mercadorias nelas produzidas e os capitalistas que as possuem, mas os seres humanos que nelas trabalham não têm direito de passagem. Isto é uma farsa de globalização - um mundo sem fronteiras para tudo e para todos, exceto para as pessoas trabalhadoras.

As diferenças salariais globais, em grande medida resultantes da supressão da livre circulação dos trabalhadores, proporcionam um reflexo distorcido das diferenças globais na taxa de exploração (simplesmente, a diferença entre o valor gerado pelos trabalhadores e o que lhes é pago). O desvio da produção para sul significa que os lucros das empresas com sede na Europa, América do Norte e Japão, o valor de todo o tipo de ativos financeiros derivados destes lucros, e o nível de vida dos cidadãos destas nações tornaram-se altamente dependentes das taxas mais elevadas de exploração dos trabalhadores nas chamadas "nações emergentes". A globalização neoliberal deve, portanto, ser reconhecida como uma nova etapa, imperialista, do desenvolvimento capitalista, onde o "imperialismo" é definido pela sua essência econômica: a exploração da mão-de-obra viva do Sul pelos capitalistas do Norte.

A Parte I apresenta os resultados da análise empírica da mudança global da produção para nações de baixos salários, e identifica a sua característica chave: a superexploração imperialista (1); A Parte II procura explicar isto em termos da teoria do valor de Marx, primeiro visitando o debate nos anos 1960 e 70 entre a teoria da dependência e os seus críticos marxistas "ortodoxos", depois refletindo sobre a teoria do imperialismo de V.I. Lenine, e concluindo com uma releitura crítica de O Capital de Marx.

Primeira Parte: Globalização e Imperialismo

A Globalização da produção e dos produtores

A globalização da produção reflete-se numa enorme expansão do poder e do alcance das empresas transnacionais, sendo a grande maioria detida por capitalistas residentes em países imperialistas. A UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) estima que "cerca de 80% do comércio global... está ligado às redes internacionais de produção das empresas transnacionais", quer como investimento direto estrangeiro (IDE), quer como relações ditas de “concorrência plena” (“arm’s-length”) entre "empresas líderes" e os seus fornecedores formalmente independentes (2).

A industrialização orientada para a exportação (ou, de uma perspetiva nortista, para a "externalização") é a única opção capitalista para os países pobres não dotados de recursos naturais abundantes. Sob a sua égide, a quota das "nações em desenvolvimento" nas exportações globais de produtos manufaturados aumentou de cerca de 5% no período pré-globalização para cerca de 30% na viragem do milénio (ver Gráfico 1), enquanto a quota de produtos manufaturados nas exportações do Sul triplicou em apenas dez anos, estabilizando no início dos anos 1990 em mais de 60%. O Gráfico 2 mostra esta transformação dramática da perspetiva dos países imperialistas. Em 1970, apenas 10% das suas importações de produtos manufaturados provinham do que então era chamado Terceiro Mundo; na viragem do milénio, essa quota - de um total muito expandido de produtos manufaturados – quintuplicou (3).

Quadro 1. Quota das Nações em Desenvolvimento nas exportações mundiais de bens manufaturados

Fontes: UNCTAD Statistical Handbook, http://unctadstat.unctad.org . Os dados de 1955-1995 são de UNCTAD, “Handbook of Statistics - Archive: Network of Exports by Region and Commodity Group - Historical Series, http://unctadstat.unctad.org ; acessado em 18 de julho de 2009, já não está em linha (os dados estão na posse do autor).

Quadro 2. Quota das Nações em Desenvolvimento na Importação de Bens Transformados de Nações Desenvolvidas

Fontes: UNCTAD Statistical Handbook, http://unctadstat.unctad.org . Os dados de 1955 - 1995 são de UNCTAD, “Handbook of Statistics - Archive: Network of Exports by Region and Commodity Group - Historical Series”, http://unctadstat.unctad.org ; acessado a 18 de julho de 2009, já não está em linha (os dados estão na posse do autor).

A indústria automóvel dos Estados Unidos da América ilustra isto de forma viva. Em 1995 importou do Canadá quatro vezes mais valor acrescentado relacionado com automóveis do que do México, apenas mais 10% em 2005, e, em 2009, o México foi a fonte de 48% mais valor acrescentado do que o Canadá (4). A deslocalização dos processos de produção para países de baixos salários tem sido, pelo menos, tão importante para as empresas europeias e japonesas como para as suas rivais norte-americanas. Um estudo do comércio UE-Chinês concluiu que "a possibilidade de deslocalizar para a China as atividades de produção e montagem mais intensivas em mão-de-obra constitui uma oportunidade para as nossas próprias empresas sobreviverem e crescerem num ambiente cada vez mais competitivo", enquanto "as empresas japonesas de eletrónica continuam a florescer nos mercados norte-americanos precisamente porque deslocalizaram as suas linhas de montagem para a China" (5).

O resultado é uma estrutura altamente peculiar do comércio mundial, em que as empresas do Norte competem com outras empresas do Norte, o seu sucesso dependendo da sua capacidade de cortar custos através da externalização da produção; e as empresas em países de baixos salários competem ferozmente umas com as outras, todas procurando exercer a mesma "vantagem comparativa", nomeadamente o seu excesso de trabalhadores desempregados desesperados por trabalho. Mas as empresas do Norte não competem geralmente com as empresas do Sul (6). Este facto simples, frequentemente ignorado, é obviamente verdadeiro nas relações entre as empresas-mãe e as suas filiais a 100% (ou seja, produto de IDE), mas não menos assim na cada vez mais favorecida relação dita de “concorrência plena": entre a Primark e os seus fornecedores do Bangladesh, e entre a General Motors e as empresas mexicanas que fabricam cada vez mais dos seus componentes, a relação é complementar, não competitiva, mesmo que seja altamente desigual. Existem exceções importantes, e de facto esta estrutura peculiar está repleta de contradições, mas o padrão geral é claro: existe rivalidade Norte-Norte, e a concorrência de cortar gargantas Sul-Sul atinge proporções de corrida para o fundo, mas existe uma ausência geral de concorrência Norte-Sul cabeça a cabeça - isto é, entre empresas. Entretanto, os trabalhadores enfrentam a concorrência através da divisão salarial global, a repressão salarial, e um declínio acelerado da participação do trabalho na partilha do PIB, em todos os países.

 A globalização da produção transformou não só a produção de mercadorias, mas também as relações sociais em geral, e especialmente a relação social que define o capitalismo: a relação capital-trabalho, que é cada vez mais uma relação entre capital do Norte e trabalho do Sul. O enorme crescimento da mão-de-obra industrial nas nações "em desenvolvimento" é retratado no Quadro 3, que revela que, em 2010, 79 por cento, ou 541 milhões, dos trabalhadores industriais do mundo viviam em "regiões menos desenvolvidas". Isto é superior aos 34 por cento em 1950 e aos 53 por cento em 1980 – comparando-se com os 145 milhões de trabalhadores industriais, ou 21 por cento do total, que em 2010 viviam em países imperialistas.

Quadro 3. Força de trabalho industrial global

Fontes: Os dados de 1995 a 2008 foram obtidos em LABORSTA, http://laborsta.ilo.org , e em Key Indicators of the Labour Market (KILM), 5ª e 6ª edições, http://ilo.org . O primeiro forneceu os números para a população economicamente ativa total, o segundo os rácios sectoriais que permitem calcular o número de trabalhadores industriais; os dados de 2010 foram obtidos por extrapolação. Os dados de 1950-1990 são da OIT, “Population and Economically Active Population”, acedidos em 2004, já não estão em linha (os dados estão na posse do autor). As categorias da OIT referentes a regiões "mais" e "menos" desenvolvidas correspondem aproximadamente às categorias contemporâneas de economias "desenvolvidas" e "em desenvolvimento", respetivamente.

Contudo, com a exceção parcial da China - um caso especial devido à sua política de "filho único", o seu crescimento extraordinariamente rápido e a transição ainda incompleta do socialismo para o capitalismo - nenhuma economia do Sul cresceu suficientemente depressa para proporcionar emprego aos milhões de jovens que entram no mercado de trabalho e aos milhões que fogem da pobreza rural.

"Traficância Laboral Global" (“Global Labor Arbitrage”) - Fator-chave da globalização da produção

Ao arrancar centenas de milhões de trabalhadores e agricultores das nações do Sul das suas ligações à terra e aos seus empregos em indústrias nacionais protegidas, o capitalismo neoliberal acelerou a expansão de uma vasta reserva de trabalho superexplorável. A supressão da mobilidade do trabalho tem interagido com este enorme aumento da oferta para produzir um aumento dramático das diferenças salariais internacionais, que, segundo investigadores do Banco Mundial, "excedem quaisquer outras formas de diferença de preços induzidas por fronteiras nacionais por uma ordem de magnitude ou mais" (7). O acentuado declive salarial proporciona aos capitalistas do Norte duas formas diferentes para aumentar os seus lucros - através da emigração da produção para países de baixos salários, ou da imigração de trabalhadores desses países. O Fundo Monetário Internacional (FMI) estabeleceu esta ligação de forma bastante precisa: "A reserva global de trabalho pode ser acedida pelas economias avançadas através de importações e da imigração", observando significativamente que, "o comércio é o canal mais importante e de expansão mais rápida, em grande parte porque a imigração permanece muito restringida em muitos países" (8).

O que o FMI chama de "acesso à reserva global de trabalho", outros apelidaram de "traficância laboral global", cuja característica essencial, de acordo com Stephen Roach, é a substituição de "trabalhadores com salários altos aqui por trabalhadores de qualidade semelhante, com salários baixos, no estrangeiro" (9). Roach, então chefe das operações asiáticas da Morgan Stanley, argumentou que "uma confluência única e poderosa de três megatendências está a conduzir a traficância global". Estas são "a maturação das plataformas de externalização ao largo (“offshore”)... a conetividade baseada na eletrónica [e] o controlo de custos" (10). Destas, o "controlo de custos" - ou seja, os salários mais baixos - é "o catalisador que dá vida à traficância global do trabalho". Expandindo-se sobre isto, Roach explica que,

"Numa era de excesso de oferta, as empresas carecem de alavancagem de preços como nunca antes. Como tal, as empresas têm de ser implacáveis na sua busca de novas eficiências. Não surpreendentemente, o foco principal de tais esforços é o trabalho, que representa a maior parte dos custos de produção no mundo desenvolvido... Consequentemente, a externalização ao largo, que extrai produtos de trabalhadores com salários relativamente baixos, no mundo em desenvolvimento, tornou-se uma tática de sobrevivência cada vez mais urgente para as empresas nas economias desenvolvidas" (11).

Esta é uma descrição muito mais rica da força motriz da globalização neoliberal do que a oferecida mais acima pelos tecnocratas do FMI. Podemos perguntar, no entanto, por que razão Roach diz "extraindo produto" em vez de "extraindo valor" - os capitalistas, afinal, não estão interessados no produto do trabalho, mas no valor nele contido. A resposta, suspeitamos, é que "extrair valor" tornaria ainda mais explícito que estes trabalhadores com baixos salários criam mais riqueza do que a que recebem em salários, por outras palavras, que eles são explorados - uma noção herética para um economista convencional. A observação de Roach também levanta a questão - como é que "empresas em economias desenvolvidas" "extraem produtos" de trabalhadores no Bangladesh, na China e noutros lugares? A única contribuição visível destes trabalhadores para o resultado final das empresas situadas nas "economias desenvolvidas" é o fluxo de lucros repatriados de IDE, mas nem um cêntimo dos lucros da H&M ou da General Motors pode ser rastreado até aos seus fornecedores independentes no Bangladesh ou no México; todo esse lucro aparece, em vez disso, como valor acrescentado pelas suas próprias atividades. Este enigma, inexplicável para a teoria económica dominante, e, portanto, ignorado, só pode ser resolvido através da redefinição do valor acrescentado como valor capturado; por outras palavras, o "valor acrescentado" de uma empresa não representa o valor que ela produziu, mas a parte do valor total, em toda a economia, que consegue capturar através da troca, incluindo o valor extraído do trabalho vivo realizado em países longínquos. Não só a captura de valor não é idêntica à criação de valor, como sustenta a teoria dominante, como não há correlação alguma entre elas - os bancos, por exemplo, não geram qualquer valor, mas capturam uma grande parte dele. Uma vez que o PIB de um país não é mais do que a soma do valor acrescentado das suas empresas, as estatísticas do PIB diminuem sistematicamente a contribuição real das nações do Sul para a riqueza global e exageram a dos países "desenvolvidos", velando assim a relação cada vez mais parasitária, exploradora e imperialista existente entre eles. Chamo a isto a ilusão do PIB (12).

Segunda Parte: Teorias da Exploração

A Teoria da Dependência e os seus críticos

A primeira e última tentativa sustentada de fundar a teoria do imperialismo sobre a teoria do valor de Marx foi o debate da dependência nos anos 1960 e 70. A ascensão da "teoria da dependência", que procurou explicar a persistência da exploração imperialista após o desmantelamento dos impérios territoriais, foi inspirada pelas lutas anticoloniais e anti-imperialistas que varreram a África, a Ásia e a América Latina após a Segunda Guerra Mundial.

A Teoria da Dependência abrangeu um amplo espectro de autores, desde social-democratas e nacionalistas burgueses como Arghiri Emmanuel e Fernando Henrique Cardoso (mais tarde um presidente brasileiro neoliberal), que desejavam remover os obstáculos ao desenvolvimento capitalista independente no Sul, até marxistas como Samir Amin e Ruy Mauro Marini, que argumentaram, de diferentes maneiras, que o capitalismo, sendo intrinsecamente imperialista, é ele próprio o obstáculo. Alguns foram além da crítica teórica para liderar lutas revolucionárias contra o imperialismo e os seus lacaios domésticos, como foram os casos notórios de Fidel Castro e Che Guevara. O que este conglomerado diversificado de reformistas e revolucionários tinha em comum era, em primeiro lugar, o reconhecimento de que existia uma “troca desigual" entre as nações imperialistas desenvolvidas e o que era então conhecido como o Terceiro Mundo (a União Soviética e os seus aliados constituíam o segundo mundo) resultando numa transferência de riqueza em larga escala do último para as primeiras; e, em segundo lugar, que as grandes e crescentes diferenças salariais e de nível de vida entre os trabalhadores das nações imperialistas e das nações dominadas refletem uma grande divergência internacional na taxa de exploração. A contribuição teórica de Marini é especialmente importante no que diz respeito ao segundo destes postulados.

A implicação de tudo isto - que o locus da luta pelo socialismo se tinha afastado, pelo menos temporariamente, das metrópoles do imperialismo para as nações súbditas - levou à resistência dos marxistas "ortodoxos" sediados na Europa e na América do Norte, que argumentavam que a riqueza extraída da periferia era de importância periférica e que negavam completamente que os trabalhadores e os agricultores fossem mais intensamente explorados no Sul do que no Norte. Assim, na sua troca de pontos de vista de 1979 com Samir Amin, John Weeks e Elizabeth Dore argumentaram que, "uma vez que é nos países capitalistas desenvolvidos que a produtividade laboral é mais elevada, não é óbvio que um elevado nível de vida dos trabalhadores nesses países implique que o valor de troca das mercadorias que compõem esse nível de vida seja também mais elevado" (13). Charles Bettelheim foi ainda menos circunspeto, argumentando, na sua crítica ao livro Troca Desigual de Emmanuel, que "quanto mais as forças produtivas se desenvolvem, mais os proletários são explorados" (14). Nigel Harris argumentou igualmente que, "sendo todas as outras coisas iguais, quanto maior for a produtividade do trabalho, tanto maior é o rendimento pago ao trabalhador (uma vez que os seus custos de reprodução são mais elevados) e tanto mais explorado ele é - isto é, maior é a proporção da produção dos trabalhadores [que] é apropriada pelo empregador" (15).

A Teoria da Dependência ascendeu e caiu no período anterior à era neoliberal, uma época em que os "países em desenvolvimento" exportavam matérias-primas e importavam bens manufaturados e em que a globalização da produção ainda estava no ovo. Ironicamente, a incubação deste ovo - o rápido desenvolvimento industrial orientado para a exportação na Coreia do Sul e em Taiwan nos anos 1970 - explica em parte por que razão, nas palavras de Gary Howe, "a própria Teoria da Dependência começou a desvanecer-se", uma vez que estes primeiros exemplos de eclosão industrial pareciam refutar a sua insistência em que a dominação imperialista bloqueava o desenvolvimento industrial no Sul (16).

No entanto, a Teoria da Dependência continua a ser um ponto de referência essencial para os esforços de desenvolvimento de uma teoria do imperialismo contemporâneo. As transformações da era neoliberal minaram fatalmente o argumento euro-marxista. Não se pode argumentar seriamente que a mudança global da produção para países de baixos salários é de importância periférica, pelo que a resposta dos euro-marxistas tem sido ignorar completamente este assunto e deixar o estudo das cadeias de valor globais e das redes de produção para os cientistas sociais burgueses. Entretanto, o seu argumento de que uma maior produtividade no Norte significa que salários mais elevados são consistentes com taxas de exploração mais elevadas foi negado por um facto simples: os bens consumidos pelos trabalhadores do Norte são, numa medida cada vez maior, produzidos pelo trabalho com baixos salários do Sul. É a produtividade destes, os seus salários, que determinam substancialmente os níveis de consumo e a taxa de exploração nos países imperialistas.

Ainda assim, estes argumentos euro-marxistas continuam a ser avançados até aos dias de hoje. Desta forma, Alex Callinicos argumenta que o "erro crítico da Teoria da Dependência é não ter em conta o significado dos elevados níveis de produtividade laboral nas economias avançadas", enquanto Joseph Choonara acredita que "é um equívoco considerar que os trabalhadores em países como a Índia ou a China sejam mais explorados do que os de países como os E.U.A. ou a Grã-Bretanha" (17).

No entanto, as taxas extremas de exploração nas fábricas de vestuário do Bangladesh, nas linhas de produção chinesas, e nas minas de platina sul-africanas é um facto palpável, diretamente observável, que é experimentado todos os dias na carne por centenas de milhões de trabalhadores em países de baixos salários. "O comunismo não é uma doutrina, mas um movimento; procede não de princípios, mas de factos", disse Frederick Engels (18). As grandes diferenças internacionais na taxa de exploração, a enorme deslocação global da produção para onde esta taxa é mais elevada, e a tremenda deslocação para Sul do centro de gravidade da classe trabalhadora industrial são os novos e grandes factos a partir dos quais devemos proceder. Estas são as transformações que definem a era neoliberal, e elas são fundamentais para compreender a natureza e a dinâmica da crise global. Em vez de utilizar os comentários de Marx sobre a produção do século XIX para negar a realidade da superexploração do século XXI (e da ordem imperialista que repousa sobre ela), temos de testar a teoria de Marx contra estes novos factos, e usar e desenvolver criticamente a sua teoria para compreender esta última fase do desenvolvimento imperialista do capitalismo.

Lenine e o Imperialismo

A violação sistemática da igualdade entre proletários, decorrente da desigualdade sistemática entre nações, foi uma preocupação central de Lenine, que argumentou que "a divisão das nações em opressoras e oprimidas [é] a essência do imperialismo" (19). A obra de Lenine Imperialismo, Estádio Supremo do Capitalismo, escrita no meio da Primeira Guerra Mundial, foi um guia de ação, uma tentativa de expor as razões da capitulação dos partidos socialistas de massas na véspera da eclosão da guerra, para mostrar que a guerra, em si mesma, não foi uma aberração nem um acidente, e que provou a necessidade objetiva da revolução social mundial e da transição para um modo de produção comunista. Lenine identificou aquelas características essenciais da fase imperialista do capitalismo que eram evidentes no seu nascimento, em particular a concentração da riqueza e a ascensão do capital financeiro, a sua opressão e predação sobre nações fracas, e o seu militarismo desenfreado. Lenine não poderia ter incluído uma conceção de como o valor é produzido nos processos de produção globalizados, porque estes só viriam a emergir numa fase posterior do desenvolvimento capitalista. O resultado é uma inevitável desconexão, que persiste até hoje, entre a teoria do imperialismo de Lenine e a teoria do valor de Marx. Reconectá-las é uma tarefa considerável. Aqui temos apenas espaço para uma breve nota sobre o que Lenine considerava como duas características definidoras da fase imperialista do capitalismo: o monopólio e a exportação de capital.

Os marxistas nos países imperialistas ignoraram frequentemente a insistência de Lenine na centralidade económica e política da divisão do mundo em nações oprimidas e opressoras, demorando-se, em vez disso, nos seus argumentos sobre a rivalidade inter-imperialista e na sua afirmação de que "na sua essência económica, o imperialismo é o capitalismo monopolista" (20). O monopólio é utilizado de forma bastante promíscua, na literatura burguesa como na marxista, para descrever fenómenos relativos à produção, distribuição, lealdade à marca, finanças, concentração de capital, poder político e militar, e muito mais. A maioria destes fenómenos diz respeito à distribuição do valor, não à sua produção. Uma teoria do valor do imperialismo deve distinguir entre as duas, e, além disso, reconhecer que a fonte dos lucros imperialistas não se encontra em qualquer forma de monopólio – por maior que seja o papel que as empresas monopolistas possam desempenhar na ajuda à criação destas condições - mas na superexploração, o que nos leva de volta à opressão das nações.

No seu Imperialismo, Lenine argumentou que, "A exportação de capital, uma das bases económicas mais essenciais do imperialismo... coloca o selo do parasitismo em todo o país que vive da exploração do trabalho de vários países e colónias ultramarinas" (21). Isto ressoa poderosamente no capitalismo global contemporâneo, onde as empresas transnacionais imperialistas partilham os despojos da superexploração com miríades de prestadores de serviços e com os seus próprios empregados, sendo a maior fatia de todas tomada pelo próprio Estado imperialista. Existe, no entanto, um problema óbvio com a aplicação da visão cauterizadora de Lenine ao imperialismo contemporâneo. Empresas como a Apple e a H&M não exportam capital para o Bangladesh e a China - os seus iPhones e vestuário são produzidos em processos de produção “à distância” (22).

O enigma pode ser resolvido concentrando-nos na essência da matéria, não na forma (sendo a exportação de capital a forma). Os imperialistas, argumentou Lenine, foram obrigados a exportar parte do seu capital, para explorar o trabalho dos trabalhadores no estrangeiro, porque a riqueza acumulada dos imperialistas atingiu proporções tais que a gigantesca massa de mais-valia necessária para converter a sua riqueza em capital, ou seja, em riqueza auto-expansiva, ultrapassa de longe a quantidade de mais-valia que pode ser extraída da sua força de trabalho doméstica. Como defende Andy Higginbottom, a exportação de capital está intimamente ligada à opressão das nações: "A exportação de capital significa que deve haver um novo tipo de relação capital-trabalho, entre capital do Norte e trabalho do Sul, significa a exportação da relação capital-trabalho em termos de opressão nacional" (23). O que é novo é que a evolução do capitalismo, especialmente desde 1980, tem proporcionado às empresas transnacionais formas de capturarem mais-valia extraída dos trabalhadores dos países de baixos salários sem terem de "exportar" o seu capital para esses países.

Para concluir este breve debate sobre a contribuição de Lenine para a teoria do imperialismo, a tarefa pendente é a forja de um conceito que une a sua "essência económica" (capitalismo monopolista) e a sua essência política (a divisão do mundo em nações oprimidas e opressoras). Ambas devem ser expressas em termos da lei do valor desenvolvida por Karl Marx em O Capital. Este é o caminho para alcançar aquilo a que Higginbottom chamou uma nova síntese da teoria do valor de Marx e da teoria do imperialismo de Lenine. Para chegar ao ponto de partida necessário para uma tal síntese, viajemos agora mais meio século para trás, para fazer uma ligação segura com o grande trabalho de Marx.

O Capital de Marx e a teoria do imperialismo

Os críticos marxistas da Teoria da Dependência foram denominados "ortodoxos" porque basearam a sua rejeição da superexploração, e da "troca desigual" dela decorrente, em passagens de O Capital de Marx que, em leitura superficial, parecem apoiar o seu ponto de vista. Marx dedica um pequeno capítulo de O Capital a "Diferenças Nacionais em Salários", que conclui que, embora os trabalhadores ingleses recebam salários mais elevados do que os da Alemanha ou na Rússia, podem estar sujeitos a uma taxa de exploração mais elevada: "verificar-se-á frequentemente que o salário diário ou semanal na primeira nação é mais elevado do que na segunda, enquanto o preço relativo do trabalho, ou seja, o preço do trabalho em comparação tanto com a mais-valia como com o valor do produto, é mais elevado na segunda do que na primeira" (24). Este é exatamente o argumento utilizado por Weeks, Dore, Choonara e outros, mas há três razões pelas quais o argumento de Marx não se aplica às relações Norte-Sul contemporâneas.

Primeiro, cada uma das nações usadas por Marx para as suas comparações - Inglaterra, Alemanha e Rússia - eram nações opressoras rivais, cada uma delas ocupada a adquirir impérios coloniais próprios. As nações formalmente livres do Sul global de hoje não podem ser consideradas meramente como nações capitalistas "menos desenvolvidas", análogas à Alemanha e à Rússia no século XIX. Segundo, o comércio do final do século XX entre nações imperialistas e "em desenvolvimento" é qualitativamente diferente do comércio do final do século XIX entre a Inglaterra, a Alemanha e a Rússia. Nessa altura, não só cada trabalhador consumia bens produzidos domesticamente, como cada capitalista consumia força de trabalho criada domesticamente – isto foi numa era anterior à da "cadeia de valor", da subcontratação, da externalização, etc.. Terceiro, o exemplo de Marx assumiu que os capitalistas em países como a Alemanha e a Inglaterra competiam na produção de bens semelhantes, ao passo que, como acima foi já referido, isto não sucede assim no comércio Norte-Sul contemporâneo. O significado deste último ponto será discutido mais abaixo.

O Capital de Marx incumbiu-se com a tarefa de compreender a forma capitalista da relação de valor, a fim de descobrir a origem e a natureza da mais-valia, enquanto que a tarefa diante de nós é compreender teoricamente a sua fase atual de desenvolvimento imperialista. O nível de abstração exigido pelo projeto de Marx é evidente a partir da sua afirmação de que, "embora a equalização dos salários e das horas de trabalho entre uma esfera de produção e outra, ou entre capitais diferentes investidos na mesma esfera de produção, depare com todo o tipo de obstáculos locais, o avanço da produção capitalista e a progressiva subordinação de todas as relações económicas a este modo de produção tende, no entanto, a levar a cabo este processo" (25). Marx tratou a divergência de salários como sendo o resultado de fatores temporários ou contingentes que o capital e o trabalho, incessantemente móveis, iriam fazer erodir ao longo do tempo, e que poderiam, assim, ser seguramente excluídos da análise: "Importante como o estudo dos atritos ["obstáculos locais" que obstruem a equalização dos salários] é para qualquer trabalho especializado sobre salários, eles são, ainda assim, acidentais e inessenciais, no que diz respeito à investigação geral da produção capitalista e podem, portanto, ser ignorados" (26).

Um tal nível de abstração é claramente inadequado para a nossa tarefa; no mundo de hoje, horrivelmente dividido, a premissa da igualdade entre trabalhadores, assumida por Marx, é profundamente violada e isso não pode ser atribuído, com menoscabo, a meros "obstáculos locais".

"A terceira forma de aumento da mais-valia" (27)

No primeiro volume de O Capital, Marx analisou em profundidade duas formas pelas quais os capitalistas se esforçam por aumentar a taxa de exploração: prolongando o dia de trabalho, aumentando assim a "mais-valia absoluta"; e reduzindo o tempo de trabalho necessário através do aumento da produtividade dos trabalhadores que produzem bens de consumo, aumentando assim a "mais-valia relativa". Em vários locais alude a uma terceira forma: o tempo excedente de trabalho também pode ser prolongado "empurrando o salário do trabalhador para baixo do valor da sua força de trabalho", mas acrescenta, "apesar do importante papel que este método desempenha na prática, somos excluídos de o considerar aqui pela nossa suposição de que todas as mercadorias, incluindo a força de trabalho, são compradas e vendidas pelo seu valor total" (28).

"Empurrar o salário do trabalhador para baixo do valor da sua força de trabalho", é novamente mencionado dois capítulos mais à frente, durante uma discussão sobre as consequências para os trabalhadores quando "a maquinaria... gradualmente toma o controlo de todo um determinado campo de produção", com o resultado de que "uma secção da classe trabalhadora... é tornada supérflua... inunda o mercado de trabalho, e faz assim com que o preço da força de trabalho desça abaixo do seu valor” (29). A relevância contemporânea desta observação quase não precisa de ser realçada. Uma enorme secção da classe trabalhadora, no Sul global, tem sido "tornada supérflua" pela incapacidade dos métodos de produção modernos de absorver trabalho suficiente para evitar o aumento do desemprego, e só isto, mesmo antes de tomarmos em conta os regimes de trabalho muito mais duros prevalecentes nos países de baixos salários, exerce uma força poderosa que faz com que "o preço da sua força de trabalho caia abaixo do seu valor".

No terceiro volume de O Capital, enquanto discute "fatores contrários" inibidores da tendência da taxa de lucro para a queda, Marx faz outra breve referência a esta terceira forma de aumentar a mais-valia. Um destes fatores contrários, a "redução dos salários abaixo do seu valor", é abordado em apenas duas breves frases: "como muitas outras coisas que podem ser introduzidas, não tem nada a ver com a análise geral do capital, mas tem o seu lugar numa análise da concorrência, que não é tratada neste trabalho. No entanto, é um dos fatores mais importantes para travar a tendência para a queda da taxa de lucro" (30).

Marx não apenas deixou de lado a redução dos salários abaixo do valor da força de trabalho, como fez uma abstração adicional que, embora necessária para a sua "análise geral do capital", também deve ser relaxada se quisermos analisar o atual estádio de desenvolvimento do capitalismo: "A distinção entre taxas de mais-valia em diferentes países e, portanto, entre diferentes níveis nacionais de exploração do trabalho, está completamente fora do âmbito da nossa presente investigação" (31). No entanto, é precisamente isto que deve constituir o ponto de partida para uma teoria do imperialismo contemporâneo. A globalização da produção, orientada pela traficância salarial, não corresponde a uma mais-valia absoluta. As longas horas são endémicas em países de baixos salários, mas a duração do dia de trabalho não é a principal atração das empresas subcontratadas. Também não corresponde a uma mais-valia relativa. O trabalho necessário não está, no essencial, a ser reduzida através da aplicação de novas tecnologias. De facto, a externalização é muitas vezes vista como uma alternativa ao investimento em novas tecnologias. No entanto, aponta para a superexploração. Como Higginbottom argumenta, "A superexploração é... a essência comum oculta que define o imperialismo... Isto não sucede porque a classe trabalhadora do Sul produza menos valor, mas porque é mais oprimida e mais explorada" (32).

Conclusão

A análise dos dados empíricos da globalização neoliberal revela que a traficância laboral global, decorrente do maior grau de exploração prevalecente nas nações de baixos salários, é a sua força motriz fundamental. A conclusão central da nossa reanálise de O Capital de Marx é que isto corresponde à terceira forma de aumento de mais-valia, cuja importância foi salientada por Marx, mas que ele excluiu da sua teoria geral. Aqui está a única base sólida possível para um renascimento do marxismo à escala mundial. Esta descoberta central também nos permite ver o lugar da era neoliberal na história. Nos seus Grundrisse Marx comenta,

"Enquanto o capital for fraco, ele ainda depende das muletas dos modos de produção do passado... Assim que se sente forte, deita fora as muletas, e move-se de acordo com as suas próprias leis. Assim que começa a sentir-se e a tomar consciência de si próprio como uma barreira ao desenvolvimento, procura refúgio sob formas que, ao restringirem a livre concorrência, parecem tornar mais perfeita a dominação do capital, mas são ao mesmo tempo os arautos da sua dissolução e da dissolução do modo de produção que repousa sobre ele" (33).

Isto é espantosamente semelhante ao argumento de Lenine de que "o capitalismo só se tornou imperialismo capitalista numa fase definida e muito avançada do seu desenvolvimento, quando algumas das suas características fundamentais começaram a transformar-se nos seus opostos, quando as características da época de transição do capitalismo para um sistema social e económico mais elevado tinham tomado forma e se revelado em todas as esferas" (34). A ascensão do capitalismo dependia das formas mais bárbaras de "acumulação primitiva", tais como o transporte de milhões de escravos africanos, a pilhagem colonial e o tráfico de ópio. Quando o capitalismo atingiu a sua fase adulta e assumiu o controlo total sobre o processo de produção, a concorrência floresceu e as leis internas do capital passaram a ser mais plenamente expressas. Finalmente, na sua época de decadência, o capitalismo depende cada vez mais de outras formas para além da livre concorrência – o monopólio, a intervenção do Estado em todos os aspetos da vida económica, o imperialismo de "acumulação por despossessão" - para a sua sobrevivência, mas à custa de distorcer o funcionamento das suas leis e erguer novas barreiras à expansão das forças produtivas.

Como é que esta cronologia se relaciona com as três formas de aumento da mais-valia discutidas neste artigo? No capitalismo imaturo, o aumento da mais-valia absoluta - prolongando o dia de trabalho até e para além dos limites físicos - foi predominante. Uma vez que o capital assumiu o controlo do processo de produção, a mais-valia relativa - melhorias tecnológicas para reduzir o tempo necessário à produção de bens de consumo dos trabalhadores - foi a forma predominante, embora isto dependesse sempre da persistência de formas de dominação muito mais brutais e arcaicas, especialmente nas nações sujeitas. Na era neoliberal, a forma cada vez mais predominante da relação capital-trabalho é a traficância laboral global, ou seja, um meio de apropriação através do qual o capitalismo é capaz, por meio da opressão nacional, de forçar a diminuição do valor da força de trabalho nas "nações emergentes". Isto constitui a terceira forma de aumento de mais-valia que é agora a forma cada vez mais predominante da relação capital-trabalho. Os proletários dos países semicoloniais são as suas primeiras vítimas, mas as grandes massas de trabalhadores dos países imperialistas também enfrentam a miséria. A superexploração alargada de novos proletários, jovens e mulheres de países de baixos salários, resgatou o capitalismo do buraco em que se encontrava nos anos 1970. Agora, juntamente com trabalhadores dos países imperialistas, é sua missão cavar um outro buraco - a sepultura onde enterrar o capitalismo e assim assegurar o futuro da civilização humana.

Notas:

(1) Para os fins deste artigo, “superexploração” denota taxas de exploração superiores à média global. Estas últimas, argumenta-se aqui, são prevalentes em nações de baixos salários.

(2) UNCTAD, World Investment Report 2013 (Switzerland: United Nations, 2013).

(3) O rastreamento para a Europa, gerado pela subtração das importações intra-UE de produtos manufaturados do total da UE, começa em 1995, porque os dados só são contínuos desde o alargamento da UE ocorrido naquele ano.

(4) Dados recolhidos do banco de dados da OCDE “Trade in Value Added”, que relata o valor das exportações líquidas de insumos importados.

(5) Ari Van Assche, Chang Hong e Veerle Slootmaekers, “China’s International Competitiveness: Reassessing the Evidence”, LICOS Discussion Paper Series, Discussion Paper 205/2008, 15; “The Great Unbundling”, Economist, January 18, 2007.

(6) Para prova disso, leia-se Ricardo Hausmann, César Hidalgo, et al., The Atlas of Economic Complexity, 2011.

(7) Michael Clemens, Claudio Montenegro e Lant Pritchett, The Place Premium: Wage Differences for Identical Workers across the US Border, Policy Research Working Paper 4671 (New York: World Bank, 2008), 33.

(8) International Monetary Fund, World Economic Outlook, April 2007 (Washington, DC: IMF, 2007).

(9) Stephen Roach, “More Jobs, Worse Work”, The New York Times, July 22, 2004.

(10) Stephen Roach, Outsourcing, Protectionism, and the Global Labor Arbitrage, Morgan Stanley Special Economic Study, 2003, 6.

(11) Ibid, sublinhado meu.

(12) John Smith, “The GDP Illusion”, Monthly Review 64, n.º 3 (2012): 86-102.

(13) John Weeks e Elizabeth Dore, “International Exchange and the Causes of Backwardness”, Latin American Perspectives 6, n.º 2 (1979): 71.

(14) Charles Bettelheim, “Some Theoretical Comments”, appendix to Arghiri Emmanuel, Unequal Exchange: A Study in the Imperialism of Trade (London: NLB, 1972), 302.

(15) Nigel Harris, “Theories of Unequal Exchange”, International Socialism 2, n.º 33 (1986): 119–20.

(16) Gary Howe, “Dependency Theory, Imperialism, and the Production of Surplus Value on a World Scale”, Latin American Perspectives 8, n.os 3/4 (1981): 88.

(17) Alex Callinicos, Imperialism and Global Political Economy (Cambridge: Polity Press, 2009) 179–80; Joseph Choonara, Unravelling Capitalism (London: Bookmarks Publications, 2009), 34.

(18) Karl Marx e Frederick Engels, Collected Works (New York: International Publishers, 1975), vol. 6, 303.

(19) V.I. Lenin, “The Revolutionary Proletariat and the Right of Nations to Self-Determination”, in Collected Works, vol. 21 (Moscow: Progress Publishers, 1964; originalmente 1915), 407.

(20) V.I. Lenin, “Imperialism, the Highest Stage of Capitalism”, in Collected Works, vol. 22 (Moscow: Progress Publishers, 1964; originalmente 1916), 266.

(21) Ibid., 77.

(22) A exportação de capital assume três formas: IDE, investimento de carteira (em ações e títulos financeiros que, ao contrário do IDE, não conferem ao investidor uma influência controladora) e capital de empréstimo.

(23) Andy Higginbottom, “The System of Accumulation in South Africa: Theories of Imperialism and Capital”, Économies et Sociétés 45, n.º 2 (2011): 268.

(24) Marx, Capital, vol. 1, 702.

(25) Karl Marx, Capital, vol. 3 (London: Penguin, 1991; originalmente 1894), 241-42.

(26) Ibid.

(27) A redescoberta desta terceira forma de mais-valia é um grande avanço, e foi feito por Andy Higginbottom, “The Third Form of Surplus Value Increase”, comunicação à conferência da revista Historical Materialism, London, November 27-29, 2009.

(28) Marx, Capital, vol. 1, 430-31.

(29) Ibid., 557.

(30) Marx, Capital, vol. 3, 342; sublinhado meu.

(31) Ibid., 242.

(32) Higginbottom, ”The System of Accumulation in South Africa”, 284.

(33) Karl Marx, Grundrisse (London: Penguin, 1973), 651. Estou grato a Walter Daum por me ter apontado a relevância desta passagem.

(34) Lenin, “Imperialism, the Highest Stage of Capitalism”, 265.
 
John Smith leciona economia política internacional na Kingston University em Londres. Este artigo foi extraído de seu livro Imperialism in the Twenty-First Century, a ser lançado pela Monthly Review Press em 2016.

Imperialismo e a transformação de valores em preços

O artigo explora como o fenômeno do imperialismo global contemporâneo facilita e intensifica o processo pelo qual valores sociais do trabalho e produção — no sentido da teoria do valor-trabalho — são convertidos em preços sob a lógica do mercado capitalista, de modo a permitir extrações de excedente e redistribuição desigual entre centros e periferias. Lauesen e Cope argumentam que, numa economia mundial marcada por assimetrias estruturais, essa transformação de valores em preços é um mecanismo fundamental do imperialismo moderno, impulsionando a acumulação de capital nos países centrais e reproduzindo a dependência nos países periféricos.

Torkil Lauesen e Zak Cope

Monthly Review

Monthly Review Vol. 67 (2015–2016), No. 03 (July-August 2015)

Introdução

Tradução / Neste artigo, pretendemos demonstrar que os preços baixos de bens produzidos no Sul global e a contribuição de suas exportações ao Produto Interno Bruto (PIB) do Norte oculta a verdadeira dependência deste em relação à mão de obra barateada no Sul. Argumentamos que a realocação da indústria para o Sul global nas últimas três décadas resultou em um aumento massivo na transferência de valor para o Norte. Os principais mecanismos para essa transferência são a repatriação de mais-valia através de investimento estrangeiro direto, a troca desigual de produtos que incorporam diferentes quantidades de valor, e extorsão por encargo de dívidas.

A incorporação de grandes economias do Sul global em uma sistema mundial capitalista dominado por corporações transnacionais e instituições financeiras baseadas no Norte global estabeleceu essas economias como dependentes de exportação e socialmente desarticuladas. As taxas de remuneração miseravelmente baixas nessas economias se baseiam em (1) pressão imposta por suas importações terem que competir por parcelas limitadas do amplo mercado consumidor metropolitano; (2) drenagem de valor e recursos naturais que poderiam muito bem ser usados para reorganizar as forças produtivas da economia nacional; (3) a questão agrária não resolvida dilatando a oferta de mão de obra; (4) regimes entreguistas repressivos, que aceitam e se beneficiam diretamente da ordem neoliberal e são portanto incapazes ou indispostos a garantir aumentos salariais à sombra do temor de agitar as demandas da classe trabalhadora por mais poder político; e (5) fronteiras militarizadas que previnem a locomoção de trabalhadores ao Norte global e, consequentemente, uma equalização de retornos ao trabalho.

A Globalização Imperialista da Produção

O debate sobre transferência de valor e trocas desiguais não é novidade. Hoje em dia, porém, há uma proporção crescentemente grande de bens consumidos mundialmente que são produzidos no Sul global. Produção não é, como nos anos 1970, mais limitada a bens primários ou industriais simples, como petróleo, minerais, café e brinquedos. Ao invés disso, apesar do relativamente baixo acréscimo ao valor de produção (mais disso abaixo), virtualmente todos tipos de insumo e produção industriais são produzidos no Sul global: de produtos químicos, a bens de metal fabricado, maquinário elétrico e não elétrico, eletrônicos, mobília e equipamento de transporte, a bens têxteis, sapatos, roupas, tabaco e combustíveis. [1] Mas por que, e como, essa “transladação” do local de produção ocorreu?

A mudança na divisão internacional do trabalho é um produto da eterna busca do capital por maiores lucros e é baseada, primeiramente, em um enorme crescimento do número de proletários integrados ao sistema mundial capitalista e, em segundo, na industrialização substancial do Sul durante as últimas três décadas. Isso se fez possível com a dissolução das economias Soviética e de outras nações socialistas no Leste Europeu, a abertura da economia chinesa ao capitalismo global, e a terceirização da produção para India, Indonésia, Vietnã, Brasil, México, entre outras nações mais recém-industrializadas. O resultado foi um crescimento de ao menos um bilhão de proletários mal remunerados dentro do capitalismo global. Hoje, mais de 80% dos trabalhadores industriais estão localizados no Sul global, enquanto essa proporção diminui consistentemente no Norte (ver Gráfico 1). Podemos estar vivendo em sociedades pós-industriais no Norte, mas o mundo como um todo está mais industrializado que nunca.

Gráfico 1. Força de Trabalho Industrial Global, 1950-2010

Fontes: John Smith, “Imperialism and the Law of Value,” Global Discourse 2, no. 1 (2011): 20, https://globaldiscourse.files.wordpress.com. Os dados de 2010 acerca da força de trabalho industrial foi extrapolada da distribuição setorial de 2008 na 6ª edição dos Indicadores Chave do Mercado de Trabalho pela Organização Internacional do Trabalho (2010); População Economicamente Ativa (PEA) da base de dados Laborsta da OIT, http://laborsta.ilo.org/default.html; e projeção da força de trabalho industrial de “regiões mais desenvolvidas” inclui a estimativa da OIT de declínio induzido por recessão. As categorias da OIT para regiões “Mais” ou “Menos” desenvolvidas correspondem basicamente às categorias contemporâneas de economias “Desenvolvidas” e “Em Desenvolvimento,” respectivamente.

A industrialização do Sul global não foi antecipada pela teoria da dependência dos anos 1960 e 1970. Esta argumentava que o centro do capitalismo deve bloquear qualquer desenvolvimento industrial avançado na assim chamada periferia, para que essa permaneça como fornecedora de matérias-primas, produtos agrícolas tropicais, e produção industrial simples que usa mão de obra intensiva, que, porventura, deve ser trocada por produtos industriais avançados do centro. Poucos analistas haviam previsto a industrialização do Sul global enquanto orientada por comércio e investimento do capital metropolitano.

No entanto, a industrialização do Sul global acabou por providenciar uma solução (temporária) ao mal estar político e econômico do capitalismo nos anos 1970, manifestando-se por um lado pelo declínio das taxas de lucro, a crise do petróleo, e pressão de movimentos trabalhistas no Norte por salários ainda maiores por um lado, e por outro, lutas de libertação nacional no Sul global. Ainda assim a industrialização do Sul não foi uma concessão às suas demandas políticas; bem pelo contrário. Ao invés de um passo em direção a um mundo mais igual, caminhou-se a um aprofundamento das relações imperialistas em escala global.

Esta nova política econômica imperialista repousa sob duas fundações. Primeiro, o desenvolvimento de novas forças produtivas em eletrônicos, comunicação, transporte, logística, e gerenciamento: computação, a Internet, celulares, transporte de carga, e desenvolvimento de cadeias produtivas globalizadas com regimes administrativos recém-formados. Segundo, o desenvolvimento do neoliberalismo através da remoção de barreiras nacionais ao fluxo de capitais e bens, a privatização de esferas públicas e comuns, o estabelecimento de novas instituições globais como a Organização Mundial do Comércio (OMC), encontros mundiais de líderes (G7, G20, e assim por diante), entre outras formas de administração política global, e novas estratégias militares destinadas a conter e acuar a expansão do desenvolvimentismo nacional e socialista.

Neste novo regime de acumulação, não é apenas capital e comércio de bens acabados que tornaram-se transnacionais; a própria produção foi globalizada em cadeias de valor. Os sub-processos na cadeia produtiva estão localizados nos lugares onde o custo de produção, infraestrutura, e leis de taxação são ótimas ao capital. Um carro ou um computador é produzido usando insumos e componentes de centenas de firmas, situadas em vários países, e o produto pode ser montado em diferentes partes do mundo.

O neoliberalismo gestou uma nova divisão internacional do trabalho na qual o Sul global se tornou “a fábrica do mundo.” O capitalismo global cada vez mais polariza o mundo em “economias de produção” no Sul e “economias de consumo” no Norte. A principal força motriz por detrás desse processo é inquestionavelmente o baixo nível salarial no Sul. Como tal, a estrutura da economia global contemporânea foi profundamente moldada pela alocação do trabalho a setores industriais conforme taxas diferenciais de exploração no nível internacional.

A tentação do grande capital a terceirizar a produção ou investir em projetos Greenfield no Sul é considerável. Nos países ali localizados, a diferença em níveis salariais não é apenas um fator de um contra dois, mas muitas vezes de um contra dez ou até quinze. [2] Em 2010, da força de trabalho mundial de três bilhões de pessoas, aproximadamente 942 milhões foram classificadas pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) como “trabalhadores pobres” (cerca de um em três trabalhadores no mundo vive por menos de $2 ao dia). [3]

De acordo com o economista do Banco Mundial, Branko Milanović (ver Gráfico 2), em 1870 a desigualdade global entre cidadãos do mundo era consideravelmente menor do que é hoje. Mais impressionante ainda é como que de predominantemente orientada por classe (isto é, na concepção não-marxista de Milanović, a parcela da receita nacional), a desigualdade passou a ser orientada quase inteiramente pela localização, esse fator apenas contribuindo para quase 80% da desigualdade global. Assim, escreve ele, “é muito mais importante, no sentido global, se você tem sorte de nascer em um país rico do que se a classe à qual você pertence em um país rico é alta, média ou baixa.” [4] A coisa não dita é que a geografia da desigualdade é produto das políticas econômicas, legais, militares, além das estruturas políticas colonialistas e neocolonialistas de outrora. Esses fatores históricos formam a base para a luta de classes que determina aquilo a que Marx se referia como o aspecto “histórico e moral” dos níveis salariais.

Gráfico 2. Nível e Composição da Desigualdade Global em 1870 e 2000 (Decomposição Gini)

Fontes: Branko Milanović, The Haves and Have-Nots: A Brief and Idiosyncratic History of Global Inequality (New York: Basic Books, 2011), 112; Francois Bourguignon e Christian Morrison, “The Size Distribution of Income Among World Citizens, 1820–1990,” American Economic Review 92, no. 4 (set. 2002): 724–44; Branko Milanović, Worlds Apart: Measuring International and Global Inequality (Princeton: Princeton University Press, 2005), fig. II.3.

O nível baixo dos salários no Sul cria não apenas uma taxa global de lucro maior que se poderia obter caso assim não o fosse, como também afeta o preço de bens produzidos no Sul. Na economia dominante, a formação de preços de mercado para um computador pessoal através da cadeia de produção poderia ser descrita como uma “curva sorridente” para “valor” (sic) adicionado (ver Gráfico 3). [5] “Valor adicionado” – que na teoria dominante é simplesmente o equivalente à nova receita adicionada medida em termos convencionais de preço – é elevado na primeira parte da cadeia, em pesquisa e desenvolvimento, design, e gestão financeira volumosamente financiados, situados no Norte, enquanto a curva decresce no meio, com baixa remuneração durante a construção do produto físico. O valor adicionado/preço cresce novamente ao fim da curva com gestão de marca, marketing, e vendas ocorrendo no Norte global, apesar de os salários para trabalhadores de varejo estarem entre os menores nesses países.

Gráfico 3. Salários, Valor, e Formação de Preço conforme a Cadeia de Produção Global


Na lógica da “curva sorridente,” a maior parte do valor do produto é adicionada no Norte, enquanto o trabalho no Sul, que fabrica os bens, contribui apenas com uma porção mínima disso. Seguindo esse raciocínio, corporações multinacionais realizam um serviço público ao reduzir o preço de bens de consumo. Em verdade, no entanto, os preços de mercado baixos desses bens oculta o fato de que trabalhadores têm de viver em condições miseráveis devido à baixa remuneração e condições de trabalho extenuantes na parte Sul das cadeias de produção.

Em termos marxistas, em contraste, o valor é a soma do trabalho socialmente necessário direto e indireto que foi gasto na produção de uma mercadoria (na forma de trabalho atualmente realizado ou “trabalho vivo” e capital ou “trabalho morto,” respectivamente). Embora que, como veremos, o preço de uma mercadoria regularmente diverge de seu valor, ele é, em última análise, determinado pelo valor. Assim, se alguém desenhasse a curva seguindo o conceito marxista de valor adicionado, em uma cadeia de produção de computadores, ela assumiria uma forma um tanto oposta à curva sorridente – um certo “sorrisinho triste” (ver Gráfico 3). Mas se há uma correlação entre valor no sentido marxista e o preço de mercado, como acontece essa transformação de um sorrisinho triste do valor em uma curva sorridente feliz do preço de mercado?

A Transformação Valor-Preço

Independentemente das diferenças entre teorias econômicas, ambas tendem a concordar que o preço da produção de uma mercadoria é igual ao preço dos insumos materiais mais a remuneração daqueles a que são concedidas reivindicações na parte do valor de dita produção. Esta segunda parte sudvidide-se na parte pertinente a salários e na parte pertinente às demais reivindicações: lucro, renda, juros, etc.

Mas qual é a variável independente da economia que determina preços? Na economia neoclássica, o determinante último é “o mercado,” isto é, as necessidades e preferências subjetivas do consumidor. Essas necessidades e preferências determinam os preços dos bens finalizados e esses, em contrapartida, determinam custos salariais e margens de lucro. Portanto, preços servem ao propósito de medir demandas no mercado e ascender através do comércio entre partes concorrentes.

Em contraste, a teoria de valor marxista coloca a determinação de preços no lado da economia que diz respeito à produção. O custo de produção, ou preço de custo, é a pedra basilar na transição de valor a preço de mercado. O preço de custo de um produto consiste dos custos de capital “constante” (matérias-primas, maquinaria, inventário, etc) e capital “variável” (ou seja, salários). Juntamente ao preço de custo, o preço de mercado deve cobrir ao menos a taxa média de lucro. Isso se deve ao fato de mercadorias necessitarem produção e reprodução contínuas, e que se capitalistas não recuperam os custos de produção mais algum lucro quando vendem, a (re)produção pára. Portanto, na economia marxista, o preço de mercado reflete os custos de (re)produção.

Como mensuramos o custo de produção, isto é, os insumos necessários à produção de uma mercadoria? Não podemos utilizar preço em geral para medir insumos, já que preços são o que estamos tentando explicar em primeiro lugar. Todos os preços de mercado em uma economia capitalista são em última instância ligados à extensão do consumo de mão de obra. Seu preço – o salário – é determinado não apenas pelos custos de reprodução (seus próprios custos de produção: alimento, moradia, educação, e assim por diante), mas também pela luta política – luta de classes – refletindo relações de poder entre classes e grupos na sociedade. Assim, enquanto oferta e demanda podem dar uns toques finais, o fator básico ao preço de mercado é o custo de (re)produção, e com isso o preço da força de trabalho.

Para Marx, os preços de mercadorias convencionais são determinadas pelo seu valor. Ao competir com suas rivais pela participação nos lucros, as empresas devem reduzir o tempo de trabalho requerido para produzir mercadorias introduzindo novas tecnologias. Concorrência dentro de um setor leva à formação de preços padrão para commodities padrão, enquanto a competição entre setores industriais resulta na apropriação de uma taxa média de lucro por produtores comuns dentro de cada setor. Acrescentados ao custo de produção, essa taxa média de lucro gera os preços de produção como valores de mercado “modificados.” [6]

O preço de produção de um commodity específico, porém, não é o mesmo que o seu valor, ainda que o preço agregado de todas mercadorias seja o mesmo que o valor agregado. Trabalhadores de diferentes firmas que recebem as mesmas médias salariais e trabalham as mesmas horas por dia criam as mesmas somas de mais-valia, isto é, a diferença entre o tempo que o trabalhador passa reproduzindo sua própria força de trabalho e o total de tempo em que ele é empregado. Assim, pode-se esperar que empresas que usam mais mão de obra intensiva gerem taxas maiores de mais-valia e, portanto, comandem as maiores taxas de lucro. A movimentação de capital entre firmas e setores industriais, e as alterações resultantes nas oferta e demanda, no entanto, garante que níveis de preço ultimamente se acomodem no ponto em que a taxa de lucro é a mesma em todas as indústrias.

Enquanto capital é retirado de indústrias com taxas de lucro baixas e investido nas com taxas maiores, a produção (oferta) nas primeiras declina e os preços crescem acima das reais somas de valor com mais-valia que essa indústria particular gera, e também inversamente. Então capitais com diferentes composições orgânicas (a proporção entre capital constante e variável) acabam por vender mercadorias a preços medianos e a mais-valia é distribuída mais ou menos uniformemente por todos os ramos de produção conforme o total de capital – constante e variável – avançado. [7] Uma taxa média de lucro é formada pela busca contínua de capitais concorrentes por lucros maiores e a fuga de capitais de e para os setores industriais que produzem commodities em alta ou baixa demanda. No geral, a venda de uma mercadoria por menos que seu valor corresponde à venda de outra mercadoria por mais que seu valor.

É através da transformação em preços de mercado que valor e mais-valia são distribuídos entre capitalista dentre e entre setores. A distribuição desigual de valor ocorre em função de composições mais ou menos orgânicas e de valor do capital, renda extraído por monopólio e monopsônio, produtividade relativa, e a tendência à equalização das margens de lucro. Isso ocorre entre capital e mão de obra através dos ganhos das respectivas partes – lucros e salários – resultantes das relações de classe prevalentes. Crucialmente, isso também ocorre entre nações por causa de diferenças entre o preço de mercado nacional da força de trabalho (o salário) e o preço de mercado desse bens que a mão de obra consome (o pacote salarial).

A Estrutura Global

Hoje, os preços de produção são determinados em uma escala global na medida que o capital possui a habilidade de circular transnacionalmente com fim de garantir o maior lucro possível por seus investimentos. A mobilidade do capital para além de fronteiras nacionais e a tendência a uma equalização da taxa de lucro, apesar de taxas de exploração massivamente divergentes (a proporção entre o tempo de trabalho necessário à produção de capacidade laboral e o trabalho concreto gasto), é a pré-condição para a formação de preços globais de produção. Como o economista marxista Henryk Grossman notou:

Na prática a formação de preços no mercado mundial é governado pelos mesmos princípios que se aplicam sob um capitalismo conceitualmente isolado. Esse último, de qualquer forma, é meramente um modelo teórico; o mercado mundial, enquanto uma unidade de economias nacionais específicas, é algo real e concreto. Hoje os preços das matérias-primas e produtos finalizados mais importantes são determinados internacionalmente, no mercado mundial. Não somos mais confrontados por um nível nacional de preços mas por um nível determinado no mercado mundial. [8]

O acúmulo de capital ocorre em uma escala mundial ao ponto de não existirem impedimentos legais ou políticos aos livres comércio e investimento. À medida que relações capitalistas de produção avançam, o valor gerado pelo trabalho no nível mundial está ligado à “média” mundial de desenvolvimento das forças produtivas. De acordo com Nicholas:

Para Marx, assim que um bem se torna integral à reprodução de um sistema econômico baseado na troca, o trabalho gasto na sua produção se torna parte do trabalho necessário para a reprodução de todo o sistema e qualitativamente equivalente a todas outras formas de trabalho utilizadas na produção de todos outros bens que sejam similarmente integrais à reprodução do sistema econômico. [9]

Isso diz respeito tanto a economias nacionais como internacionais. No entanto, o preço da força de trabalho – o salário – se difere enormemente no nível global entre Norte e Sul.

Em um mundo onde preços de mercado de bens tendem a ser globais enquanto o preço de mercado da capacidade laboral varia em função da luta de classes – tanto histórica quanto contemporânea – o resultado é a redistribuição de valor, de países com baixo preço de mercado da capacidade laboral para países com preço de mercado maior dessa capacidade. Portanto, imperialismo deve ser explicado no contexto de transformação de valor em preço. Sugerir que isso muda o conceito de exploração da esfera de produção para a da circulação, no entanto, é falso.

É o trabalho humano que cria valor e a oferta de trabalho que cria mais-valia. Porém, (mais-valia) valor não é uma propriedade física que o trabalho acrescenta aos bens como uma molécula incorporada e armazenada no produto. Na verdade, valor e a transformação do valor em preço de mercado é resultado das relações sociais entre trabalho e capital e entre diferentes capitais. É a transformação de valor em preço de mercado que garante a continuidade do processo de acumulação em uma escala expandida. Este circuito expandido de capital envolve a transformação de valor e mais-valia em lucro, e a transferência de valor do Sul ao Norte conforme os preços baixos pagos por bens produzidos no Sul pelo Norte. A exploração não ocorre, portanto, em um setor particular de produção ou economia nacional; é o resultado do processo de acumulação capitalista global total.

Podemos agora deixar essas considerações teóricas e seguir a um exemplo mais específico dessa dinâmica, nominalmente, a produção globalizada do onipresente Apple iPad.

O Miolo da Maçã

Baseado em pesquisa detalhada feita por Kraemer, Linden e Dedrich [10] sobre as linhas de produção da Apple, Donald A. Clelland analisou o tamanho e transferência de valor no sistema mundial através do mecanismo de preço de mercado. [11]

O iPad é produzido pela Apple, uma companhia situada nos EUA. Entre meados de 2010 e de 2011, a Apple vendeu pouco mais de 100 milhões de iPads. É a instância exemplar de uma empresa “sem fábulas” – sem fabricação. A Apple desenvolve, projeta, patenteia, e vende computadores e equipamentos de comunicação enquanto terceiriza o verdadeiro processo de fabricação dos bens que vende. Todos iPads são montados na China. A Apple integrou 748 fornecedores de materiais e componentes na sua cadeia de produção, 82% deles situados na Ásia – 351 dos quais se encontram na China. [12]

A cada etapa na cadeia de produção, existem entradas de materiais às quais são adicionados salários, gerenciamento, custos fixos, e lucros. O preço monetizado total destes fatores, em todas as etapas da cadeia, se iguala ao preço de venda. Isso é o que Cleveland chama de “valor brilhante” em uma cadeia de commodities. [13]

O preço de mercado de um iPad em 2010-2011 era $499, com o preço de fábrica estipulado em $275. Do preço de fábrica, apenas cerca de $33 destinavam-se aos custos de produção no Sul global, enquanto bons $150 da margem de lucro bruta da Apple foram ao design de ponta, marketing, e salários administrativos, assim como pesquisa e desenvolvimento e custos operacionais mantidos principalmente no Norte global. [14] A distribuição desse “valor” em salário e lucros é bem representado pela “curva sorridente.”

No entanto, a economia mundial capitalista assume a forma de um iceberg. A parte mais estudada – o “valor brilhante” acima da superfície – é apoiada por uma imensa estrutura subjacente, fora de vista. Ao contrário do iceberg, a economia mundial é um sistema dinâmico baseado em fluxos de valor da parte debaixo à de cima – do Sul ao Norte. Esses fluxos incluem drenos que assumem duas formas: fluxos monetizados de valor brilhante visíveis e fluxos ocultos que carregam “valor escuro” gerado por um número incalculado de mão de obra barata e reprodução do trabalho pelo setor informal – não assalariado – e externalidades ecológicas não pagas. O termo “valor escuro” é inspirado no reconhecimento científico de que matéria e energia compõem apenas 5% do universo como o conhecemos, e “matéria escura” e “energia escura” compõem o restante. Assim como energia escura não contabilizada dirige a expansão do universo, o “valor escuro” é o trabalho ocultado e precarizado que dirige a expansão do sistema mundial capitalista. [15]

Se o iPad passasse a ser fabricado nos Estados Unidos, o custo salarial de produção não seria de $45 mas sim $442. E se dermos um passo adiante na estrutura de produção do iPad, até os subcomponentes e entrada de matérias-primas, aprendemos que a maioria desses insumos materiais são também produzidos no Sul com um custo-salário aproximado de $35 por iPad. Se essa produção se desse também nos Estados Unidos, o custo salarial seria de aproximadamente $210.

Os trabalhadores (do Sul) na linha de produção dos iPads da Apple não recebem menos porque sua produtividade é menor que a dos trabalhadores do Norte. Na verdade, eles são provavelmente mais produtivos. Os fornecedores da Apple são líderes mundiais na aplicação de tecnologia de ponta. Seu pessoal administrativo dirige trabalhadores se utilizando de métodos Tayloristas e semanas de trabalho mais longas que não são toleradas legalmente no Norte. Fornecedores organizam cronogramas que intensificam a produtividade de seus trabalhadores, com turnos diários de 12 horas e intensa supervisão sendo rotineiros. Semanas de trabalho ultrapassam 60 horas porque trabalhadores são obrigados a cumprir tempo extra, excedendo regulamentações legais. [16] Então não é surpreendente que em 2011 quando Steve Jobs, então CEO da Apple, foi questionado pelo Presidente Obama em um jantar na Casa Branca sobre “O que seria necessário para trazer a produção da Apple de volta para casa?” e respondeu: “Estes empregos não vão voltar.” [17]

No momento em que uma mercadoria passou por numerosas etapas de uma cadeia global e chegou à porta do consumidor, ela incorporou não apenas os insumos da força de trabalho mal remunerada como também as quantidades imensas de trabalho precarizado e não remunerado, além dos insumos ecológicos. Capitalistas drenam excedentes ocultos de atividades caseiras e do setor informal. Uma longa cadeia de valor escuro de produtores de alimento e atividades informais é necessária para gerar a capacidade produtiva e a sobrevivência de cada proletário remunerado. Esse fluxo de valor escuro diminui os custos de reprodução do trabalho periférico e, assim, o nível de salário que os capitalistas pagam. Esses setores domésticos e informais não estão fora do capitalismo, são de fato componentes intrínsecos das cadeias globais de commodities.

Degradação ecológica, poluição, e esgotamento dos recursos naturais compõem toda uma gama de externalidades pelas quais fornecedores da Apple extraem valor escuro. Cada iPad utiliza 33 quilos de minerais (alguns dos quais são raros e limitados em oferta), 79 galões de água, e energia movida a combustíveis fósseis suficiente para gerar quase 30 quilos de dióxido de carbono. No fim das contas, a produção de um iPad gera 105kg de gases de efeito estufa. [18] Todos esses fardos ecológicos são colocados nos ombros de China e outros países asiáticos, enquanto o produto é consumido no Norte global. Degradação ecológica é uma externalidade que está embutida no iPad como valor escuro. Observando apenas os custos de poluição, Clelland estima que a Apple dribla o custo de $190 por unidade que teria que pagar nos EUA por externalidades ecológicas. [19] O capitalismo é dependente de, e dirigido por, todas essas formas de valor escuro. Esses fatores nunca aparecem na contagem dos custos de produção; são “presentes” invisíveis para os capitalistas e para os compradores.

Marx aceditava que o valor da força de trabalho declinaria com a produtividade elevada da mão de obra, e onde isso não ocorresse, a queda tendencial na taxa geral de lucro assim ocasionada deveria se intensificar. Sob o imperialismo e o sistema global de opressão nacional agora estabelecido, no entanto, o capital monopolista é capaz de garantir custos baixos pelos bens de consumo dos trabalhadores produzidos por mão de obra superexplorada no Sul. Junto ao paralelo barateamento do capital constante através de importação de materiais intermediários e matérias-primas de baixo custo, a venda de bens de consumo a preços baixos para trabalhadores (superassalariados) dos países imperialistas barateia o valor da mão de obra, assim aumentando o nível de “mais-valia” produzida localmente. Assim, trabalhadores do Norte podem parecer mais produtivos em termos dos lucros que eles geram. Em termos de “produtividade,” no entanto, a principal forma de medir “produtividade” não é “valor adicionado” por hora de trabalho – isso depende dos preços de venda inflados por monopólio, preços de transferência, trocas desiguais, e intervenção estatal, militar, e policial para reprimir custos de trabalho no exterior – mas por custos de mão de obra horários relativos ao lucro gerado em nível global.

Ao contrário do que creem muitos ativistas trabalhistas metropolitanos, assim, não são apenas capitalistas ao Norte que se beneficiam materialmente da superexploração de mão de obra mal remunerada no Sul. “No caso do iPad, a maior parte do valor escuro extraído é realizado, não como lucro corporativo, mas como excedente do consumidor na forma de bens mais baratos. Consequentemente, o cidadão central se torna um beneficiário inconsciente desse sistema exploratório quando ele(a) utiliza o correspondente uma hora de seu salário para comprar um produto que incorpora muitas mais horas mal remuneradas, quando remuneradas, e muitos outros materiais subvalorizados e insumos ecológicos.” [20]

A Perspectiva Política

A perspectiva política estabelecida pela análise presente é que o potencial para mudança revolucionária no século 21 surge do Sul. Ali centenas de milhões de novos proletários industriais concentrados em fábricas sob severas condições de trabalho estão recebendo salários incrivelmente baixos, a privatização de terras no atacado está destituindo milhões de fazendeiros pobres de terra e renda (eles são então obrigados a buscar trabalhos extremamente árduos pela mais mísera remuneração), e a diferença de condições de vida que existem entre Norte e Sul estão a olhos vistos, graças à exposição da mídia e à globalização das informações. [21]

Esta contradição deve eventualmente manifestar-se em movimentos anti-capitalistas no caminho do socialismo (e além). No Sul global residem essas classes com ambos o interesse objetivo e a capacidade de resistir ao neoliberalismo global. Similar à onda de movimentos de libertação nacional anti-coloniais que irromperam pelo Terceiro Mundo de 1945 a 1975, prevemos a possibilidade de uma nova onda de movimentos anti-capitalistas nos anos por vir.

Devido à posição central do novo proletariado do Sul, sua força na economia global é muito maior do que era quando estava sob a onda de movimentos de libertação que varreram o mundo nos anos 1960 e 1970. No entanto, a realização política dessa força não é dada. As forças subjetivas não estão presentes no Sul ou no Norte. Portanto, a tarefa da esquerda global é enorme. Nos anos 1970, milhões lutaram e morreram pelo socialismo. Aqueles que lutam pelo comunismo hoje são poucos, se compararmos. Socialismo não é exatamente uma “marca” forte. A divisão do globo em Sul e Norte se reflete em uma divisão da classe trabalhadora global, para que uma parte dessa receba benefícios econômicos e políticos bastante consideráveis que auxiliem na estabilidade de sua aliança com o status quo imperialista. Essa aliança é, claramente, impulsionada pela aceitação dos consumidores para com a propaganda estatal e de grandes monopólios de mídia. É um dos problemas mais profundos a serem enfrentados pelos socialistas da atualidade, globalmente.

Para encarar esses problemas devemos primeiramente assumir uma perspectiva global na luta no interesse de a igualar à globalização do capital. Apenas a partir dessa perspectiva global poderemos elaborar táticas e estratégias locais efetivas. Tentar encontrar soluções lucrativas para a crise presente por meio de protecionismo nacional (seja ele social-democrático, “verde,” ou fascista) não é apenas anti-solidário, é também uma estratégia de perdedores – uma corrida inevitável ao fundo do poço.

Notas

[1] Organização de Desenvolvimento Industrial das Nações Unidas (UNIDO), “Table 8.4. Developing and Developed Countries’ Share of Global Manufacturing Value Added by Industry Sector, Selected Years, 1995–2009 (percent),” Industrial Development Report 2011 (New York: ONU, 2011), http://unido.org, 146; ver também “Table 8.7. Share of Manufacturing Employment for Developing and Developed Countries, by Industry Sector, Selected Periods Over 1993–2008 (percent),” 151.

[2] Zak Cope, Divided World Divided Class: Global Political Economy and the Stratification of Labor under Capitalism, segunda edição (Montréal, Quebec: Kersplebedeb, 2015), 378–82.

[3] Benjamin Selwyn, “Twenty-First-Century International Political Economy: A Class-Relational Perspective,” European Journal of International Relations (December 3, 2014): 1–25, http://academia.edu.

[4] Branko Milanović, The Haves and Have-Nots: A Brief and Idiosyncratic History of Global Inequality (New York: Basic Books, 2011), 113.

[5] A curva sorridente foi proposta por Stan Shih, fundador da Acer, em 1992.De acordo com a observação de Shih, na indústria de computadores pessoais, os dois fins da cadeia de valor comandam as maiores quantidades de valor adicional ao produto que o meio dela. Se esse fenômeno é apresentado em um gráfico com um eixo-Y como valor adicionado e um eixo-X como cadeia valor (estágio de produção), a curva resultante esboça um sorriso.

[6] Howard Nicholas, Marx’s Theory of Price and Its Modern Rivals (New York: Palgrave Macmillan, 2011), 30, 39–40.

[7] Marx se refere diversas vezes à composição técnica do capital, o valor, ou preço, composição de capital, e a composição orgânica do capital. Ele escreve: “Chamo de composição de valor, na medida em que [grifo nosso] é determinado por sua composição técnica e espelha as mudanças dessa última, a composição orgânica do capital.” Como escreveu Paul Zarembka, no entanto, o qualificador é significativo já que o valor da força de trabalho (capital variável) “pode mudar sem qualquer alteração na composição técnica em circunstâncias nas quais os próprios trabalhadores podem receber mais ou menos, enquanto produzem a mesma tecnologia.” Ver Paul Zarembka, “Materialized Composition of Capital and its Stability in the United States: Findings Stimulated by Paitaridis and Tsoulfidis (2012),” Review of Radical Political Economics 47, no. 1 (2015): 106–11. Para Marx, enquanto capital (trabalho morto) se acumula e é cada vez mais empregado em relação ao trabalho vivo, cresce a composição orgânica do capital e a taxa de lucro tende a cair.

[8] Henryk Grossman, The Law of Accumulation and Breakdown of the Capitalist System (London: Pluto Press, 1992; originalmente 1929), 170.

[9] Howard Nicholas, “Marx’s Theory of International Price and Money; An Interpretation,” em Immanuel Ness e Zak Cope, eds., Palgrave Encyclopaedia of Imperialism and Anti-Imperialism (New York: Palgrave Macmillan, 2015).

[10] Kenneth L. Kraemer, Greg Linden, e Jason Dedrick, “Capturing Value in the Global Networks: Apple´s iPad and Phone,” Universidade da Califórnia, jul. 2011, http://pcic.merage.uci.edu.

[11] Donald A. Clelland, “The Core of the Apple: Dark Value and Degrees of Monopoly in the Commodity Chains,” Journal of World-Systems Research 20, no. 1 (2014): 82–111.

[12] Ibid, 83.

[13] Ibid, 86.

[14] Ibid, 88, com números extraídos de análise de dados feita por Kenneth Kraemer, Greg Linden, e Jason Dedrick, em “Capturing Value in Global Networks,” Centro Industrial de Computação Pessoal, Universidade da Califórnia – Irvine, 2011, http://pcic.merage.uci.edu.

[15] Clelland, “The Core of the Apple,” 85.

[16] Ibid, 97.

[17] Ibid, 98.

[18] Ibid, 102.

[19] Ibid, 103.

[20] Ibid, 105.

[21] Em discussão acerca das descobertas no Relatório Global dos Salários 2014/2015 pela Organização Internacional do Trabalho, Patrick Belser nota: “aumento salarial em economias desenvolvidas se mantém em quase zero, e salários globais estão crescendo cerca 2%. Se você tira a China da equação, o aumento salarial global é basicamente cortado pela metade.” Ver Patrick Belser, “Fiscal Redistribution: Yes, but Inequality Starts in the Labor Market: Findings from the ILO Global Wage Report 2014/2015,” Global Labor Column, 2014, http://column.global-labor-university.org. Com esta taxa de crescimento, podemos generosamente assumir que níveis salariais no Sul global vão alcançar os mesmos níveis do Norte global, onde eles são em média dez vezes maiores, em cerca de 500 anos.

Torkil Lauesen é um ativista e escritor anti-imperialista desde o final dos anos 1960. Suas publicações em inglês incluem "It’s All About Politics", bem como uma entrevista - ambos podem ser encontrados em Turning Money into Rebellion, editado por Gabriel Kuhn (PM Press, 2014). Zak Cope é autor de "Divided World Divided Class: Global Political Economy and the Stratification of Labor under Capitalism" (Montreal, Canadá: Kersplebedeb, 2012 e 2015) e co-editor, junto a Immanuel Ness, da Palgrave Encyclopedia of Imperialism and Anti-Imperialism.

Um momento de grande decisões

Apesar de desinformação da mídia e chantagem da UE, as forças anti-austeridade na Grécia continuam fortes à frente do referendo de domingo.

Stathis Kouvelakis

Jacobin

Jacobin Mag

Meu “silêncio não característico” dos últimos dias, como alguém o descreveu em minha página do Facebook, deve-se simplesmente ao fato de que, desde que cheguei a Atenas para a campanha do “Não” no domingo [28 de junho], tenho dormido muito pouco e trabalhado muito. Hoje falei em duas concentrações (a estação central de trens em Atenas e o prédio central do metrô). Uma grande experiência. Minha agenda para amanhã [2 de julho] inclui discursos em várias concentrações na zona industrial de Moscato e um ato público em Petroupoli, na periferia oeste de Atenas..

Os trabalhadores sentem a pressão da situação criada pela histeria dos meios de comunicação e o fechamento dos bancos. Eles são bastante críticos às concessões feitas pelo governo durante aquelas exaustivas “negociações”, mas em geral estão confiantes na vitória do “Não”. Eles esperam que ela seja um novo começo para o governo de Syriza e que mais de seu programa seja implementado.

Gostaria de exortar todos os que acompanham o que está acontecendo na Grécia com a típica mistura de ansiedade e esperança a manter a cabeça o mais fria possível. A mídia grega está em um estado de histeria e a Ocidental não está muito diferente. Um de seus temas favoritos, no alto da atmosfera apocalíptica que estão propagando, é que o referendo não acontecerá, que o governo está de fato aceitando o plano Junker e deverá cancelar o referendo e assim por diante. Tenham cuidado com a desinformação.

É verdade que algumas iniciativas do governo são, para dizer o mínimo, ambíguas e contestáveis. Isso é particularmente verdadeiro para a proposta da última quarta-feira de um novo empréstimo do Mecanismo de Estabilidade Europeia e a carta do primeiro-ministro Alexis Tsipras para o Eurogrupo revelada hoje [1º de julho]. Seu objetivo é mostrar boa-fé e dar crédito à posição de que o que ocorrerá na próxima semana, depois de uma potencial vitória do “Não”, será um novo ciclo de “negociações”. Mas todos sabem que: a) isso é muito improvável que ocorra e b) que em qualquer caso não há propriamente nenhuma negociação em curso: Merkel deixou muito claro que nenhuma conversa é concebível antes de domingo.

Assim, há certa dimensão exagerada naquilo que os dois lados estão fazendo e de manobra tática do lado de Syriza, mas também é verdade que isso é um reflexo das contradições entre o governo e Syriza. Sua ala “realista”, liderada pelo vice-primeiro ministro Yannis Dragasakis, está tentando lançar a ideia de que o referendo é apenas um indesejável (e breve) parênteses no conflito e que as negociações recomeçarão novamente com base nas concessões muito graves que o governo aceitou pouco antes da interrupção nas negociações. A posição oficial, entretanto, é de que as negociações começarão a partir de uma “base zero”, o que significa que as propostas prévias do governo grego deverão agora ser consideradas obsoletas.

O discurso de Tsipiras hoje [dia 1º de julho] foi bem recebido e amplamente visto como desafiador, permitindo assim superar o impacto desmobilizador das últimas propostas. Mas, é claro, o melhor aliado do campo do “Não” é a atitude intransigente e arrogante dos credores, deixando pouco espaço para o “compromisso” mesmo aquele do pior tipo.

De acordo com as pesquisas de opinião publicadas hoje, o “Não” está na frente por 11% ou 13%, mas a distância está se estreitando desde segunda-feira devido ao fechamento dos bancos, as restrições para a retirada de dinheiro e os problemas que os pensionistas tiveram para receber seus pagamentos.

Isso tem criado inevitavelmente uma atmosfera de incerteza e medo, que é exatamente o que os líderes do Eurogrupo tinham em mente quando decidiram interromper qualquer provisão de liquidez. Entretanto também não é surpreendente que seja apenas entre pensionistas e donas-de-casa que o “sim” lidere ou esteja perto disso. Em todos os demais segmentos, inclusive entre pequenos empresários, o “Não” está an frente.

Muito dependerá da capacidade de mobilização de cada campo, particularmente do “Não”. As concentrações de votantes do “Sim” da terça-feira foram grandes e bem planejadas, mas quase exclusivamente de classe média alta e foram provavelmente o ápice daquilo que podem fazer em termos de mobilização. Levando em consideração que foi muito improvisado, o ato do “Não” de segunda-feira foi um bem sucedido começo. A campanha nas ruas começa hoje e será monopolizada quase inteiramente pelo campo do “Não”. O estado de espírito da sociedade grega é de um crescente polarização em nítidas linhas de classe nos centros urbanos e mais difusa no interior e nas pequenas cidades.

Falando qualitativamente as seções de Syriza estão galvanizando o processo e existe uma excelente relação com os camaradas de Antarsya. Outras forças, dos movimentos sociais e de várias campanhas, estão se unindo. Uma campanha do tipo de uma “frente única” está tomando forma, o que é uma excelente notícia.

Mas o grande passo atrás foi a atitude do Partido Comunista, a qual só pode ser qualificada como uma “traição”. (Geralmente eu não gosto desse termo, mas neste caso parece justificado.) Eles apresentarão sua própria cédula eleitoral afirmando um “duplo não” (ao plano da troika e ao governo, ambos vistos como “dois lados da mesma moeda”), uma cédula que obviamente será invalidada. Provavelmente farão sua própria contagem e, então, anunciarão o resultado como um tipo de “sucesso” de sua linha.

Se o “Não” vencer – o que parece provável mas não certo – e se vencer com uma clara maioria, o que ainda não se pode prever, é quase inevitável que ocorra uma escalada do confronto com a União europeia e a classe dominante interna. Grécia já se recusou a pagar o Fundo Monetário Internacional em junho e o default será declarado formalmente em trinta dias. As armas da liquidez e da moeda serão usadas de maneira cada vez mais pesada, com o Banco Central Europeu e o Fundo Europeu de Estabilização Financeira exigindo que seus empréstimos sejam pagos imediatamente. O momento das “grandes decisões” para Syriza virão inevitavelmente.

Uma vitória do campo do “Não” poderá galvanizar as forças populares. Mas este resultado não pode, sob circunstância alguma, ser considerado garantido. É o objeto de uma extraordinária batalha que está tendo lugar agora.

Colaborador

Stathis Kouvelakis é um pesquisador independente de teoria política. Membro do Comitê Central do Syriza entre 2012 e 2015, foi candidato pela MeRA25-Aliança pela Ruptura nas eleições gerais gregas de maio de 2023.

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