10 de outubro de 2017

O espírito do capitalismo tardio

O pentecostalismo prega uma mensagem sedutora aos marginalizados: que a oração, e não a ação política, é a solução para seus problemas terrenos.

Hettie O'Brien

Jacobin

Seguidores do Pentecostalismo em um serviço de 2012 organizado pelos Jovens da Igreja Cristã Redimida de Deus na Nigéria. Marathon Praise / Flickr

“Miséria, pobreza, desemprego! Vocês sabem - tudo é terrível! Mas esses problemas não são causados pelas coisas aí. Eles são causados por espíritos.”

Assim diz o Bispo Formigioni. Ele veio de longe, voando de São Paulo para presidir um culto de quatro mil fiéis em uma igreja pentecostal no norte de Londres. Seu sermão extático passa da pregação didática para a cura prática. Então ele leva a congregação ao clímax.

Silêncio, ele diz para eles. Alguém começa a gemer, e a multidão logo se torna um mar contorcido e corpos. O “possuído” começou a se “manifestar”. Assistentes uniformizados da igreja rapidamente abrem caminho e livram as pessoas dos maus espíritos, colocando as mãos nas suas cabeças e prendendo seus corpos no chão.

O pentecostalismo é um dos movimentos religiosos de mais rápido crescimento no mundo. Em 2011 um número estimado de 279 milhões se definiram como fiéis pentecostais; no fim dessa década o centro de estudo global do cristianismo projeta que o número vai aumentar para 800 milhões.

Enquanto os missionários do norte transportaram o cristianismo para o sul e para o leste, os pentecostalistas modernos reverteram a trajetória. Recém chegados da América Latina e África Ocidental levaram sua fé para as cidades ocidentais, enfrentando novos demônios em igrejas de garagem e ambientes urbanos degradados onde os espíritos fluem.

A congregação de Formigioni pertence à igreja Universal do Reino de Deus (IURD), uma igreja brasileira que se gaba de ter milhões de seguidores em 134 países. Algumas pessoas ligam esse ministério global a fraude espiritual ou esquemas de pirâmide que coletam dinheiro de dízimo de suas congregações em troca de promessas ecumênicas de prosperidade.

Mas há mais no pentecostalismo que a busca de lucro. Depois de colocar os cheques nos envelopes para o dízimo, os fiéis no culto de Formigioni dão testemunhos detalhados de suas dificuldades financeiras. Sua prosperidade parece perpetuamente adiada. Mas o que os faz voltar?

A resposta está na “guerra espiritual” da religião, que molda os problemas materiais na linguagem do combate religioso. Ela diz às pessoas que sua fé é uma panaceia contra injustiça - uma mensagem tentadora para aqueles que estão cansados das falsas promessas da política.

A congregação usa camuflagem

Como o saguão de um aeroporto ou um shopping, a igreja de Formigioni no norte de Londres não é projetada para se parecer com sua vizinhança. Cada igreja da IURD é igual: um Menorá de sete braços, um altar e palavras iluminadas atrás do palco proclamando “Jesus Cristo é o Senhor”. Todas seguem um programa homogêneo de cultos voltados a razões práticas - dinheiro, saúde, família, carreira - com cura espiritual.

Quando Formigioni entrou na igreja como um usuário de drogas em recuperação, ele se alistou em uma guerra com os espíritos maniqueístas que tanto curam quanto causam esses males. Agora que ele é pastor, ele ensina seus fiéis a enfrentar suas próprias batalhas.

“Nós sempre chamamos Formigioni de homem do desafio porque ele é forte enfrentando os demônios”, Daniela, uma assistente da igreja, diz pra mim enquanto nós nos sentamos nos bancos após o culto. “Mas, alguns dos outros pastores são tão fortes quando ele, de verdade”, ela acrescenta. “Você deveria vê-los nas reuniões da sexta-feira”

Às sextas-feiras, a congregação usa camuflagem. Folhetos brilhantes da igreja anunciam os serviços: Linha de frente: arregacem suas mangas e aprendam a lutar.

Uma manhã de sexta, eu fiz uma viagem de 30 minutos de metrô até a igreja para o culto das 10 da manhã (um dos 4 de cada sexta). A entrada estava quieta e o único som vinha da fonte. Um elaborado hexágono no meio do saguão escuro e limpo. Depois de algum tempo eu encontrei um dos vários assistentes da igreja, que me apontou os degraus acarpetados que normalmente estão reservados para os cultos em língua portuguesa e espanhola.

No andar de cima, os assistentes seguravam a testa dos fiéis e amaldiçoavam os espíritos na raiz de seus problemas terrenos. Como Daniela prometeu, o que ali pregava “forte”, segurando o corpo de um homem dobrado enquanto se curvava como um tampo de mesa e exigia que o espírito dentro dele saísse.

A guerra espiritual projeta uma batalha bíblica entre as forças demoníacas e divinas na experiência humana, dando aos crentes um vocabulário militarizado para explicar assuntos complexos. Muitas vezes, esses assuntos são profundamente políticos. Ainda que o ritual não distinga práticas religiosas e problemas estruturais, ele vê a mudança social como resultado da fé mais que da ação política.

A atratividade dessa cosmologia está em uma promessa sedutora: esses demônios - e não a política - são os culpados dos problemas do mundo. E eles podem ser derrotados com a oração.

Cidade da Redenção

Na periferia de Lagos, na Nigéria, um hangar de um quilômetro quadrado abriga o Campo da Redenção, a igreja modelo da Igreja Cristã Resgatada por Deus, um ministério pentecostal global que começou na Nigéria e agora tem filiais por todo o mundo. Alguns a chamam de Cidade da Redenção; peregrinos reúnem-se lá em massa.

Adedamola Osinulu, professor da universidade de Nova York e especialista em pentecostalismo global, explica o significado do Campo da Redenção: ela oferece, segundo ele, uma alternativa espiritual - um lugar onde os desfavorecidos politicamente podem fazer ouvir sua voz.

O pentecostalismo chegou na Nigéria no meio dos anos 90, quando a ditadura brutal de Sani Abacha indicava que “ não há espaços políticos em que se possa agir.” Nesse ambiente repressivo, fiéis abraçaram o ritual religioso como forma de oposição sem se arriscar à supressão ou à morte.

Em muitos outros países em desenvolvimento, o pentecostalismo renasceu nos anos 80 contra o cenário de políticas de ajustamento estrutural e aprofundamento das privatizações. Acadêmicos afixaram o prefixo “neo” a ele criando uma conexão apropriada entre o movimento religioso e a economia neoliberal.

E claro, a despolitização que marca o pentecostalismo é uma das respostas religiosas à expropriação política e a marginalização econômica. Por volta de 1960 e dos anos 70, seguidores da teologia da libertação insistiam que a Igreja Católica devia fazer mais que receber os pobres e oferecer a fé como um alívio pessoal. Descrevendo o mundo em termos de “pecado estrutural”, eles viam a religião como um instrumento para combater a desigualdade e outras injustiças sociais. Em países da América Latina a teologia da libertação fez das igrejas um baluarte vital contra a ditadura e a opressão.

Em contraste, algumas instâncias contemporâneas do pentecostalismo se aventuraram na arena política, e isso foi feito com fins conservadores. Nos anos 90 a IURD denunciou o líder do Partido dos trabalhadores (e finalmente presidente) Luiz Inácio Lula da Silva, chamando-o de “demônio” e encorajando seus fiéis a votarem em seu rival. (A igreja mais adiante aliviou sua abordagem em relação a Lula e sua sucessora, Dilma Rousseff, que publicamente participou de cultos com o fundador da IURD, Edir Macedo, em 2014.)

Os sermões realçaram o poder institucional que igrejas pentecostais podem exercer. Mas o Brasil é a exceção e a ofensiva da IURD na política eleitoral é mais um reflexo das ambições de suas lideranças que qualquer coisa.

Na maior parte do tempo, existe a política, e existe o pentecostalismo - e os dois nunca se encontrarão. Como o acadêmico Martin Lindart nota, a separação ideológica entre “esse” mundo e o mundo pentecostal do ritual religioso significa que eventos políticos são vistos como irrelevantes para o que importa: ação espiritual.

Osinulu diz que os fiéis no Campo da Redenção, “não estão tentando mudar a sociedade ou criar uma alternativa”. Da mesma forma que o clero da IURD em Londres. O pastor Fernando, um dos pastores mais novos, diz aos fiéis que “a justiça” não “está aqui”, onde as pessoas estão lutando ou “segurando cartazes” mas em seus corações, onde eles solidificam sua relação com Deus.

Em lugares onde a ação política rudimentar pode acarretar riscos enormes e as forças econômicas atingem trabalhadores e pobres, mudar o mundo mudando a si mesmo pode ser uma alternativa convincente. Afinal, porque você perderia seu tempo enfrentando estruturas de poder hostis se você pode alcançar as recompensas do espírito aqui e agora?

Big Society

O pentecostalismo cresce nas falhas sísmicas do capitalismo tardio, onde as injustiças estruturais são psicologizadas e individualizadas.

Se ouvirmos Daniela, as pessoas são pobres porque estão "se entregando ao diabo". O caminho para a prosperidade passa pelo alistamento no exército de guerreiros espirituais de Deus, que são fiéis o suficiente para resistir a essas forças demoníacas.

Como outras apologias similares - o mito da meritocracia vem a mente - a guerra espiritual ofusca a raiz do problema: as pessoas são pobres no mundo do capitalismo avançado porque o dinheiro foi distribuído para cima. A riqueza concentrada, não a insuficiente fé, explica os horríveis estragos econômicos em que se encontram muitos congressistas pentecostais.

Como o antropólogo Kevin O’Neill argumenta, a guerra espiritual permite que “problemas complexos com raízes históricas profundas sejam moralizados - sejam definidos como questões de caráter, falha individual, ou pecado.” Ao fazê-loa, ele desorienta os fiéis, canalizando sua energia para lutas individuais por reconhecimento e redenção e longe das lutas coletivas por redistribuição e emancipação.

Isso não quer dizer que o pentecostalismo não beneficie alguns de seus fiéis. Pessoas na IURD insistem com entusiasmo no poder transformador da fé, e muitos afirmam ter subido dos degraus mais baixos da escala social até a riqueza e envolvimento cívico. Eles contam histórias de combate contra drogas, abandono e pobreza. Para as mulheres lidando com violência doméstica e machismo, as igrejas cultivam habilidades importantes de liderança e competências sociais. No fim das contas, o pentecostalismo pode fazer problemas esmagadores - pobreza, marginalização política - parecerem mais controláveis.

Ainda que a crença no empoderamento individual possa remediar problemas estruturais, inevitavelmente resultam em benefício para o capital - a mesma força responsável por sua marginalização.

Acadêmicos já apontaram a muito tempo que o estado neoliberal patologiza os mais marginalizados - castigando-os como “welfare queens”(nos EUA) ou como parasitas de benefícios (no Reino Unido)-  e corta de serviços estatais enquanto usa a linguagem do empoderamento. A Big society de David Cameron exemplifica essa combinação: ele argumentou que se a sociedade pudesse tomar conta de seus próprios problemas, o Estado se tornaria menos incômodo, menos preocupado com intervenções desnecessárias. Na verdade, a “Big Society” era o thatcherismo com um nome diferente: políticas de austeridade e privatização simplesmente transferiram a responsabilidade de prover benefícios vitais do Estado para o indivíduo e a sociedade civil.

Organizações cristãs antes tinham sopões; na Grã-Bretanha,  agora elas tocam bancos de alimentos. As igrejas pentecostais estão entre aquelas que avançaram assim que o Estado deu um passo atrás. Na IURD os fiéis se empurram para ter seus currículos abençoados pelos pastores e conseguir ajuda para navegar pelas frustrações burocráticas da papelada do dia a dia. O próprio Cameron pareceu ver a conexão: durante a campanha de 2015 visitou a Igreja Cristã Resgatada por Deus, onde ele evangelizou as visões de sua Big Society e pregou sobre a importância da ambição.

Em países como a Nigéria, onde governos implementaram políticas neoliberais sob pressão de instituições internacionais, igrejas pentecostais cumpriram um papel similar.

Os cidadãos tiveram que lidar com um Estado em que não poderiam confiar para providenciar bens básicos. O pentecostalismo surgiu, com seu roteiro sedutor para mobilidade social e espiritual. No mínimo, ofereceu para seus seguidores um atalho para as inadequações do Estado, permitindo a eles que façam “mais com menos”.

Mas tanto na Nigéria quanto na Grã-Bretanha, o empoderamento genuíno não pode ser encontrado em lugar nenhum. Isso não é nada além de um jogo de cartas marcadas infectado pela fé.

Que tipo de religião?

O capitalismo e a religião já estiveram ligados por muito tempo. Max Weber argumentou que o “espírito do capitalismo” estava fundamentado em uma “ética protestante”- uma propensão calvinista para colher os benefícios do trabalho árduo. Talvez o pentecostalismo tenha florescido porque ele mexe com o espírito do capitalismo tardio, um sistema que justifica profundas injustiças estruturais com a retórica do empoderamento, inovação e responsabilidade individual.

Independentemente disso, o crescimento massivo do pentecostalismo mostra que o capitalismo e a urbanização não trouxeram a secularidade.

Em seu livro de 1965, The Secular City, o teólogo de Harvard, Harvey Cox, previu uma era “pós-religiosa”. Depois de estudar o movimento pentecostal, ele se retratou. “Hoje é a secularidade, e não a espiritualidade, que está fadada à extinção”, escreveu Cox.

Essa afirmação provavelmente é exagerada. Mas, contrariamente às expectativas das gerações anteriores, que viram a modernidade como a morte da religião, a fé está aqui para ficar. A única questão é de que forma.

A história de Colombo

Este Dia de Colombo nos propicia um momento para construir algo em que Colombo se manteve firmemente contra: uma sociedade baseada na humanidade fundamental de todos.

Marley-Vincent Lindsey

Cristóvão Colombo e sua equipe deixam o porto de Palos, Espanha, para o "Novo Mundo". Biblioteca do Congresso

Lá se foram os dias em que um historiador como Howard Zinn poderia simplesmente apontar que os europeus exploravam, saqueavam e escravizavam os nativos americanos em busca de ouro, especiarias e uma conexão com a Ásia.

Agora, muitas concepções populares insistem que o que aconteceu é mais complicado. Eles argumentam que ambientes, doenças e tecnologia - em vez da avareza expansionista de Colombo e seu bando de exploradores rapaces - devem ser identificadas como as principais causas do extermínio dos índios americanos. E quando eles introduzem a agência humana em suas análises, muitas vezes é em nome de atores de elite.

Em Guns, Germs e Steel de Jared Diamond, ganhador do Prêmio Pulitzer, por exemplo, os fatores ambientais são elevados à "causalidade final" ao explicar por que Colombo e outros europeus varreram o continente.

Diamond nunca pergunta por que as reuniões iniciais entre europeus e nativos americanos levaram à violência e à escravização. Supondo que encontros entre dois grupos distintos de pessoas inevitavelmente produzam conflitos, ele se concentra nos tipos de culturas, animais e recursos geograficamente disponíveis para as populações euro-asiáticas (em oposição às populações americanas e africanas). Com base em antigas vantagens, ele argumenta que obtemos uma espécie de imperialismo igualitário: qualquer grupo de pessoas que começasse na Eurásia, a longo prazo, se sairiam muito melhor e provavelmente dominariam qualquer outro grupo de pessoas que começasse na não-Eurasia.

Para ser justo, o livro de Diamand ataca o papel pretendido do determinismo biológico na formação de eventos históricos. No entanto, ele ainda se recusa a ver os seres humanos como sujeitos políticos, tratando-os como agentes de profecia ambiental. Onde estava a invasão de Colombo, as motivações políticas das pessoas envolvidas aparentemente não tinham influência.

Uma tendência semelhante está em ação no livro do jornalista Charles Mann, de 1491, que narra uma história sobre os nativos americanos moldando os ambientes em que viviam. Enquanto sua intenção é mostrar que as civilizações das Américas eram muito mais avançadas do que imaginadas popularmente, Mann é ainda mais forte em sua rejeição de cumplicidade moral pela violência e destruição que os europeus logo realizaram.

Examinando os dados demográficos, Mann conclui que a taxa de morte coincidente - por meio de doenças que os europeus não conseguiram controlar - ultrapassou em muito a taxa de morte por violência deliberada. "Como eles podem", Mann pergunta, "ser culpado por isso (as mortes de centenas de milhares)".

Diamond e Mann fazem parte de uma onda de escritores que abraçaram as explicações relacionadas ao meio ambiente e à doença, precisamente quando os historiadores concluíram que o registro escrito havia confirmado as delitentes feridas de Colombo e seus confederados.

Para esses contrários, 1492 marcou o início de uma era em que grupos de pessoas em todo o mundo começaram a criar um sistema mundial global. Ou pelo menos as classes dominantes o fizeram. A antiga narrativa de conquista, violência e atrocidade foi assim transformada em uma história em que as elites fizeram a modernidade, e as lutas populares contra elas recuaram para o fundo.

Alterar as percepções sobre as sociedades nativas americanas desempenhou um papel interessante no desenvolvimento desta narrativa da globalização.

Até meados do século XX, a falta de interesse na história dos nativos americanos ajudou a perpetuar mitos sobre a sociedade e a cultura indígenas como um Eden romântico, posteriormente corrompido pelos pecados da Europa.

No entanto, as sociedades indígenas eram bastante estratificadas - especialmente as dos astecas e dos incans. Longe dos paraísos igualitários, tais sociedades possuíam uma clara classe de elite que explorava grupos subordinados.

Os mitos sobre um Éden nativo americano vieram menos dos escritos de pessoas que viviam em 1492 e mais de naturalistas, filósofos e cientistas do século XIX, que pintaram uma imagem bem-vinda do "índio" como inelutavelmente em sintonia com a natureza, perdida para aqueles que eram "civilizados".

Mas, à medida que aquela visão cor-de-rosa começava a desmoronar, as representações mais feias ocuparam seu lugar. Agora, alguns historiadores descrevem os astecas como uma "cultura obcecada com a morte". Mesmo historiadores mais astutos confundem as ações grotescas e os comportamentos da classe dominante da elite como representantes das sociedades nativas americanas como um todo.

Ao mesmo tempo, aos espanhóis cruzados são cada vez mais oferecidos uma apologética, ou mesmo saudados por sua ostensiva benevolência.

O principal exemplo é Bartolomé de las Casas - "Defensor das Índias". Enquanto de las Casas libertou seus escravos - e dedicou quase meio século a lutar pelos nativos americanos nos tribunais de Valladolid, Barcelona e Sevilha - manteve suas críticas de empreendimentos coloniais confinados a surtos violentos. Ele ainda se apegava a uma crença na autoridade cristã, cuja supremacia os nativos americanos desafiaram quando perguntaram por que as cruzes vieram com os estoques de armas. Mesmo o historiador mais responsável pelo nosso conhecimento atual e pesquisador de de Las Casas - Lewis Hanke - viu o Bispo representar os elementos mais benevolentes da conquista hispânica.

Em resumo, em vez de fornecer uma visão mais matizada da conquista espanhola, a recuperação dos escritos intelectuais de Las Casas tem obscurecido as questões de brutalidade real.

Termos humanos, participações políticas

Se a narrativa prevalecente é falha, qual seria, então, a descrição mais precisa?

Deixe-me oferecer uma contra-síntese: em 1492, Cristóvão Colombo navegou pelo Caribe, com a intenção de parar na parte mais rica da Ásia. Achando erroneamente que ele havia cumprido sua tarefa, Columbo informou que era apenas uma questão de tempo até que a Coroa pudesse cobrar seu investimento.

Em sua jornada de retorno, Colombo trouxe de volta seis escravos nativos americanos, inaugurando uma rede de escravidão nativa americana em todo o mundo espanhol (e replicando o que os europeus fizeram no Mediterrâneo por séculos).

Percebendo que os espanhóis pretendiam estabelecer uma presença permanente e explorá-los brutalmente, grupos nativos americanos como o Taíno e os caribes combateram, unidos por escravos africanos trazidos para o Caribe. O fracasso em encontrar ouro na Hispaniola, agravado pela crescente dívida e um abastecimento cada vez mais escasso, levou os colonos ao desespero. E os nativos americanos pagaram o preço. Enquanto as doenças exacerbavam o número de baixas, a principal causa de morte para os nativos americanos, especialmente entre 1492 e 1550, foi a escravização, a fome e a exaustão.

Este poderia ter sido o fim da história: uma falha em colonizar o Caribe. Mas Hernan Cortés, desafiando o governador cubano Diego Velázquez, navegou do Caribe para Veracruz, onde ancorou - e depois afundou - os navios que trouxeram sua equipe. Com apenas um caminho a seguir, o grupo de Cortés, flanqueado e subsumido por um exército independente tlaxcalteca, invadiu Tenochtitlan. O coração do império asteca caiu sob o domínio espanhol.

Mais do que prováveis, as sociedades asteca e inca foram elas próprias baseadas na estratificação social entre as classes de elite e comuns, com as últimas pagando impostos e tributos às primeiras. Essa estrutura foi em grande parte cooptada pelos espanhóis, que se tornaram benfeitores do sistema.

Embora a conexão direta desse momento com o desenvolvimento de um sistema mundial de capital seja difícil, a luta violenta entre conquistadores e intelectuais espanhóis e ingleses indubitavelmente sustentou os países em suas guerras no continente europeu. Além disso, essa exploração deu à Europa o tempo e o espaço necessários para finalmente alcançar regiões como a China e afastar as cidades nativas como Tenochtitlan e Cuzco. O custo, no entanto, foi milhões de vidas nativas americanas e um regime de escravidão expansiva e racializada, como a que o mundo nunca tinha visto.

Partes dessa narrativa são discutíveis; não é para ser a história das Américas. Mas é uma narrativa discutível em termos humanos, com participações políticas. A doença, os ambientes e a tecnologia fazem parte da história, mas cada uma exige uma vontade política particular para aspectos serem potentes.

É uma narrativa de culpa moral e motivações políticas. E se ela leva a discussões políticas modernas, isso acontece somente quando perguntamos quais as decisões tomadas pelos humanos para ajudar ou prejudicar um ao outro.

Feliz dia de Colombo. Doe seu tempo e energia hoje para construir algo em que Columbo permaneceu firmemente contra: uma sociedade baseada na humanidade fundamental de todos.

9 de outubro de 2017

O que acabou com a promessa do comunismo muçulmano?

Os ativistas bolchevistas e islâmicos juntaram forças após a Primeira Guerra Mundial para construir o maior movimento de massas no Sudeste Asiático. Não durou.

John T. Sidel

The New York Times

Corbis, via Getty Images

Por um breve momento após as revoltas bolcheviques de 1917, parecia que a revolução poderia ser travada em vastas partes do mundo sob a bandeira conjunta do comunismo e do islamismo. 

O Pan-Islamismo surgiu nas últimas décadas do Império Otomano, com os esforços do sultão Abdulhamid II para reivindicar o título de califa entre os muçulmanos. Novas formas de escolaridade islâmica e associações começaram a surgir em todo o mundo árabe e além. Do Egito e do Iraque à Índia e ao arquipélago indonésio, o Islã tornou-se um chamado de protesto contra o colonialismo e o imperialismo europeus.

O poder de mobilização do Islã atraiu ativistas comunistas nas décadas de 1910 e 1920. Os bolcheviques, que careciam de infra-estrutura organizacional nas vastas terras muçulmanas do antigo império russo, aliaram-se com reformadores islâmicos nessas áreas. Eles criaram um Comissariado especial para os Assuntos Muçulmanos sob o controle do bolchevique tártaro Mirsaid Sultan-Galiev, prometendo estabelecer um "comunismo muçulmano" distinto no Cáucaso e na Ásia Central. Durante o Congresso de 1920 dos Povos do Oriente em Bacu, no atual Azerbaijão, o presidente do Comintern, Grigory Zinoviev, um judeu ucraniano, conclamou a se travar uma guerra "sagrada" contra o imperialismo ocidental.

Mas, como sabemos agora, o comunismo e o islamismo não conseguiram unir-se em uma aliança duradoura. No início da Guerra Fria, eles pareciam irrevogavelmente opostos. Diferentes pontos de vista sobre o comunismo dividiram os muçulmanos em toda a Ásia, África e Oriente Médio em suas lutas pela independência e emancipação durante a segunda metade do século XX. Uma jihad anti-comunista rejeitou fundamentalmente o Afeganistão na década de 1980 e ajudou a preparar o cenário para o surgimento da Al Qaeda e de uma nova forma de terrorismo islâmico.

No entanto, em torno da época da Revolução Russa, as perspectivas do comunismo e do Islã que juntaram forças pareciam muito brilhantes. Elas talvez não fossem mais brilhantes do que no arquipélago indonésio, então sob o domínio holandês: em 1918-21, os organizadores sindicais de esquerda atuando em conjunto com intelectuais islâmicos e comerciantes muçulmanos piedosos construíram o maior movimento de massas no Sudeste Asiático.

Ao longo da década anterior, ativistas sindicais indonésios já haviam estabelecido uma forte união representando os trabalhadores na extensa rede ferroviária que atendia a vasta economia de plantação de Java e Sumatra. Em 1914, a Indische Sociaal-Democratische Vereeniging, ou União Social-Democrática dos Indígenas, expandiu-se da organização sindical entre trabalhadores ferroviários para formas mais amplas de ativismo social e ação política contra o domínio colonial.

Em particular, os membros começaram a se juntar ao Islã Sarekat, uma organização fundada em 1912 como uma associação muçulmana de comerciantes de batik que se transformou em um movimento popular mais amplo e estava organizando manifestações em massa e ataques em Java. A influência socialista no islamismo de Sarekat já havia ficado evidente no congresso do movimento em 1916, onde o Profeta Muhammad foi proclamado "pai do socialismo e pioneiro da democracia" e "o socialista por excelência".

A Revolução Russa inspirou ainda mais o Islã Sarekat. No final de 1917, ativistas da União Social-Democrata das Índias começaram a agitar e a se organizar entre as fileiras inferiores das forças armadas holandesas nas Índias. Tomando emprestado as táticas bem-sucedidas dos bolcheviques na Rússia, foram recrutados centenas de marinheiros e soldados na esperança de desencadear motins e revoltas. As autoridades coloniais holandesas imediatamente detiveram e prenderam os ativistas e ordenaram sua expulsão das Índias.

Mas em 1920, a União Social-Democrata das Índias se renomeou como União Comunista das Índias, tornando-se o primeiro partido comunista na Ásia a se juntar ao Comintern. Novos sindicatos foram formados em Java e Sumatra. Aldeões camponeses se mobilizaram contra os proprietários. Um ataque ferroviário paralisou paralisou o cinturão de plantação no leste de Sumatra.

Foi nesse contexto que a lendária figura de Tan Malaka apareceu pela primeira vez. O descendente de uma família aristocrática do oeste de Sumatra, Tan Malaka passou a Primeira Guerra Mundial como estudante na Holanda. Ele entrou em contato com ativistas e ideias socialistas e testemunhou a revolução Troelstra de curta duração no final de 1918, durante a qual os social-democratas holandeses tentaram brevemente imitar uma revolta revolucionária em curso na Alemanha. No início de 1919, Tan Malaka voltou para a Indonésia, onde logo foi levado à organização sindical. Ele se juntou ao embrionário Partido Comunista local, ascendendo rapidamente à sua liderança - antes que o governo colonial o forçasse a se exiliar de volta aos Países Baixos, no início de 1922.

E foi assim com a experiência inicial do potencial revolucionário de combinar comunismo e islamismo que Tan Malaka apareceu no Quarto Congresso do Comintern em Moscou e Petrogrado em 1922. Lá, ele apresentou um discurso memorável sobre as semelhanças entre o Pan-Islamismo e o Comunismo. O Pan-Islamismo não era religioso per se, argumentou, mas sim "a fraternidade de todos os povos muçulmanos e a luta de libertação não só do árabe, mas também do índio, dos javaneses e de todos os povos muçulmanos oprimidos".

"Esta fraternidade", acrescentou, "significa luta de libertação prática não só contra o holandês, mas também contra o capitalismo inglês, francês e italiano, portanto, contra o capitalismo mundial como um todo".

O registro oficial dos procedimentos observa que o apaixonado apelo de Tan Malaka para uma aliança entre o comunismo e o Pan-Islamismo foi recebido com "aplausos animados". Mas suas memórias recordam que depois de três dias de acalorado debate após seu discurso, ele foi formalmente proibido de continuar contribuindo para o processo. As conclusões oficiais do quarto Congresso das províncias, incluindo as "Teses sobre a questão oriental", são particularmente ambíguas na questão do Pan-Islamismo e surpreendentemente silenciosa sobre a Indonésia, embora o movimento tenha sido muito mais bem sucedido do que qualquer outra mobilização comunista no chamado Oriente na época.

Uma aliança entre comunismo e islamismo não poderia se dar, nem na Indonésia nem em outros lugares. A força do comunismo, como movimento, foi a sua capacidade de mobilizar trabalhadores para lutar por melhores salários e condições de trabalho através de sindicatos, seja nas torres de petróleo de Bacu ou nas plantações de Java e Sumatra. Mas, como forma de governo, o comunismo significava o controle do partido único, uma economia de comando com agricultura coletivista e controle partidário de todas as esferas da vida social - incluindo a religião.

O islamismo, ao contrário, era uma base muito mais ampla e persistentemente mais aberta e ambígua para o engajamento político. Em Java e em outros lugares, o "Islã" proporcionou uma bandeira para os comerciantes muçulmanos contestar a invasão econômica por não-muçulmanos e construir uma infra-estrutura para a organização no campo, principalmente através de escolas islâmicas. Politicamente, era uma noção flexível: intelectuais e ativistas islâmicos poderiam ser para o colonialismo, o comunismo ou o capitalismo.

Na Indonésia, as tensões entre comunistas e líderes islâmicos já começaram a dividir o Islã Sarekat no início da década de 1920. Os comunistas pediram a escalada de greves e protestos, enquanto os líderes islâmicos defendiam a acomodação com as autoridades coloniais holandesas. O Islã Sarekat se dissolveu diante da repressão holandesa após rebeliões fracassadas em 1926-7.

No final da década de 1940, partidos islâmicos se opuseram ao Partai Komunis Indonesia (P.K.I.), ou ao Partido Comunista Indonésio, durante a luta pela independência. Os partidos islâmicos ficaram desconfortáveis com a insistência dos comunistas de que a independência do domínio colonial holandês também suspenderia os privilégios aristocráticos e provocaria o estabelecimento de formas de propriedade socialistas sobre a terra e a indústria. Esse conflito se estendeu até o início do período pós-independência. As organizações islâmicas participaram ativamente dos pogroms anticomunistas de 1965-66, que destruíram o P.K.I. e deixaram centenas de milhares de vítimas na Indonésia.

Por essa altura, o padrão de antagonismo estava bem estabelecido em todo o mundo muçulmano e persistiu durante toda a Guerra Fria. Os limites institucionais e ideológicos do comunismo e do islamismo se endureceram, provocando perspectivas de experiências renovadas na construção de alianças políticas.

Nas áreas muçulmanas da União Soviética, o Estado-partido reprimiu instituições de culto, educação, associação e peregrinação islâmicas, que eram vistos como obstáculos à transformação ideológica e social de acordo com a orientação comunista. Onde os estados islâmicos foram estabelecidos, a política de esquerda foi freqüentemente associada à blasfêmia e proibida. Em países como Sudão, Iêmen, Síria, Iraque e Irã, os partidos comunistas e outros partidos de esquerda encontraram-se em uma amarga competição pelo poder com os islâmicos.

Um dos efeitos do fracasso das forças revolucionárias em se mobilizar sob a bandeira conjunta do comunismo e do islamismo foi dividir profundamente os muçulmanos, enfraquecendo sua capacidade de lutar contra o colonialismo durante a primeira metade do século 20 e depois resistir ao surgimento do autoritarismo em todo o mundo muçulmano. Outro efeito foi estimular novas formas de mobilização islâmica anti-soviética durante a Guerra Fria - incluindo alguns que se transformaram em grupos terroristas anti-ocidentais virulentos que definem parcialmente o mundo de hoje.

As divisões entre esquerdistas e islâmicos no Egito após a queda do presidente Hosni Mubarak em 2011 também ajudaram a preparar o cenário para o retorno do país ao governo militar em meados de 2013. Tensões semelhantes dividiram a oposição ao presidente Bashar al-Assad na Síria, preparando o caminho para a caída do país em uma guerra civil há mais de seis anos. Um século inteiro após a Revolução Russa, a fraca aliança entre comunismo e islamismo continua a moldar a política do mundo muçulmano.

John T. Sidel é o professor Sir Patrick Gillam de Política Internacional e Comparada na London School of Economics and Political Science e o autor do livro a ser lançado em breve "Republicanismo, Comunismo, Islamismo: Origens Cosmopolitas da Revolução no Sudeste Asiático".

Como Wallace Shawn encontrou sua voz

Uma entrevista com o ator, dramaturgo e socialista Wallace Shawn.

Uma entrevista com
Wallace Shawn

Still de The Princess Bride.

Entrevista de
Jason Farbman

À primeira vista, o rosto de Wallace Shawn transporta você. Se você assistiu a filmes ou televisão nos últimos quarenta anos, certamente há algum marco cultural que você ama profundamente, no qual Shawn desempenhou um papel inesquecível. Dependendo da sua idade, pode ser Gossip Girl, Star Trek: Deep Space Nine, Clueless, The Princess Bride, ou My Dinner with Andre, filme que ele também escreveu. Na rua, crianças que o ouvem falar imediatamente reconhecem a voz do Rex, o dinossauro de Toy Story.

Shawn também é dramaturgo, e seu trabalho sempre ultrapassou os limites da zona de conforto dos ricos e abastados para expor sua cumplicidade na degradação da sociedade. Apenas alguns meses após o início do governo Trump, duas de suas obras antigas sobre a vida sob regimes totalitários ganharam novas montagens: Evening at the Talk House, em Nova York, e The Designated Mourner, em Los Angeles. Cada uma delas recebeu muito mais atenção da imprensa hoje do que quando foram encenadas pela primeira vez sob governos democratas (Obama, em 2015, e Clinton, em 1996, respectivamente).

Além de peças teatrais, Shawn é ensaísta e acaba de publicar seu segundo livro, "Night Thoughts", que explora o capitalismo, o extremismo, a revolução e a punição, entre outros temas. Ele é um socialista declarado, tendo participado dos primeiros esforços para libertar Chelsea Manning, sendo um defensor ativo dos palestinos e membro do conselho consultivo da organização Jewish Voice for Peace.

Jason Farbman, da revista Jacobin, conversou com Wallace Shawn sobre o papel que a arte e os artistas podem — e não podem — desempenhar na construção de movimentos políticos, e sobre como um ator famoso se tornou um socialista declarado.

"Night Thoughts"

Jason Farbman

Em "Night Thoughts", você deixa muito claro que a humanidade precisa desesperadamente de um sistema social completamente diferente. Em um tema que parece ser recorrente em sua obra, você dedica um tempo a discutir o potencial tragicamente inexplorado de tantas pessoas.

Wallace Shawn

O fato mais negligenciado sobre o mundo é que todas as pessoas que vemos quando caminhamos por aí todos os dias, ou quando ligamos a televisão, não estavam inevitavelmente destinadas a ser como são hoje. Partimos do princípio de que, seja como for, as pessoas nasceram assim e jamais poderiam ter sido diferentes. Encontramos pessoas que parecem terrivelmente limitadas de diversas maneiras e pensamos: "Que pena", mas, em um sistema social diferente, elas não seriam assim.

Você pode dizer: "Nem todo bebê nasce com o potencial para ser um gênio como Noam Chomsky". Não sei se isso é verdade ou não. Mas certamente todos que vemos poderiam ter sido muito, muito diferentes do que são, e até mais do que são.

A dura realidade é que pessoas privilegiadas veem aqueles que nasceram sem privilégios, que não tiveram uma criação e educação privilegiadas, como pertencentes essencialmente a uma espécie diferente. Para ser franco, pessoas privilegiadas enxergam a maioria das pessoas que veem e conhecem, os não privilegiados, como criaturas que nasceram com um grau de inteligência inferior ao delas, simplesmente porque os não privilegiados falam de forma diferente, se vestem de forma diferente, consomem produtos culturais diferentes, etc.

Pessoas privilegiadas presumem que os menos privilegiados são menos privilegiados justamente por terem nascido com um nível de inteligência inferior. Essa é a análise sociológica inconsciente delas. Mesmo aquelas pessoas privilegiadas que refletiram sobre o assunto e sabem que isso não é verdade são incapazes de manter essa consciência no dia a dia. Não é algo em que tenham tempo para pensar. Pessoas privilegiadas pensam: “Eu nasci inteligente. É por isso que sou advogado ou dramaturgo. O cara que faz meu sanduíche nasceu menos inteligente. É por isso que ele faz sanduíches, trafica drogas e acaba na prisão.”

Jason Farbman

Night Thoughts é um livro sobre capitalismo, classe e revolução. E, no entanto, você não usa uma única vez as palavras “trabalhador” ou “capitalista”. Isso me lembrou seu ensaio anterior, “Why I Call Myself a Socialist”, que não apresenta uma única menção às palavras “capitalismo” ou “socialista”. E, no entanto, essas são duas obras profundamente impactantes sobre as vidas, as oportunidades e os talentos negados a tantas pessoas sob o capitalismo.

Wallace Shawn

Bem, você precisa perguntar: o que é um escritor? Para mim, o papel social de um escritor é, em parte, tentar evitar o descuido e a preguiça na forma como usamos as palavras, porque vivemos em um mundo de grande confusão intelectual. As pessoas intimidam e manipulam umas às outras usando uma linguagem muito vaga e tentando, na prática, enganar as pessoas para que concordem com elas. Portanto, para mim, os escritores devem tentar ter certeza de que tanto seus leitores quanto eles próprios realmente entendam o que estão dizendo. Para mim, ajuda usar palavras simples, tentar evitar clichês e ficar longe de palavras e frases cujos significados são controversos ou obscuros. Não é útil usar frases indefinidas que podem significar muitas coisas diferentes. A maioria das pessoas não sabe o que significa a palavra "capitalismo". E entre aqueles que sabem, a definição é controversa.

Acho que, se tenho algum talento, provavelmente reside em explicar certas coisas para pessoas que ainda não as compreendem. Não acho impossível que eu diga algumas coisas que possam influenciar alguém — pelo menos alguém que seja parecido com o que eu era — a seguir o caminho que trilho hoje. Então, não quero começar alienando essas pessoas. Não quero usar frases que façam as pessoas pensarem: "Bem, ele é membro de um clube exclusivo ao qual eu não pertenço".

Também não é assim que eu falo. Estou tentando falar com a minha própria voz. "Pensamentos Noturnos" é bem curto porque contém tudo o que penso, tudo o que acredito poder expressar com clareza e sobre o que acho que estou certo. Se houvesse mais coisas, provavelmente estariam no livro, que talvez tivesse 650 páginas.

Jason Farbman

Você usa as palavras "os sortudos" e "os azarados".

Wallace Shawn

Dizer "sortudos" e "azarados" é uma descrição bastante precisa das pessoas do mundo. Também não uso palavras que me identifiquem com uma seita específica. Claro, sou de esquerda e poderia usar termos de esquerda. Mas por que deveria? Também venho de uma família judaica. Poderia salpicar meus textos com expressões em iídiche, mas não é meu estilo. Se você faz isso demais, está dizendo: "Isto foi escrito para um determinado grupo de pessoas, por um deles".

Jason Farbman

Throughout the book, you are making structural arguments, and about people being compelled in certain directions. It was interesting to me how you traced this line of thinking to a discussion of punishment, about what to do with capitalists after the revolution.

Why are you thinking about what to do with the rich after the revolution?


Wallace Shawn

Well, I believe in radical change. I don’t think the rich should rule the world, as they do now. But if a different system should replace the current one, the character of the new system will be determined to an important degree by how it treats those over whom it would then have power, the former rulers. I don’t believe in revenge or even really in punishment, and I think that people who take revenge against formerly powerful monsters become at that moment powerful monsters themselves. Of course I’m a member of the bourgeoisie, and so are most of the people I know and love, so you might suspect my motives when I say these things. You could say I’m trying to protect the asses of the bourgeoisie, and my own ass is one of the ones I’m protecting. But I can’t deny my own beliefs simply because someone might suspect my motives. Those are my beliefs.

I don’t believe in punishing the poor. And I don’t believe in punishing the rich, either. I don’t believe in punishing the innocent. And I don’t really believe in punishing the guilty. I realize that leaves a lot of questions on the table that I don’t resolve in the book. For instance, what do we do with serial killers, who are driven to commit murder again and again? There must be some way we can cope with those people. We don’t want them to kill everyone.

Punishment of some kind is a very articulate way for society to express its disapproval of certain actions. There should be some way that society can express its disapproval of what was done. But I don’t really believe in punishment, because I think it’s based on an erroneous idea of how people make decisions. Person A decides to murder Person B. Well, a lot of forces go into what we call “a decision,” and a lot of those forces are unconscious and not under the control of the person making the decision. Blaming the murderer assumes that he could have behaved differently. It’s hard to prove that.

Jason Farbman

You discuss a revolution that can upend capitalism, globally. It’s a task so enormous it can be impossible to imagine: conquering the greatest military powers the world has ever seen; taking control of the running of society; and the organization of working people across the world to cooperate in these tasks. These more practical aspects are what most consume the attentions of people on the left. Where does culture fit into all of this?

Wallace Shawn

We need emotional depth and sensitivity. Particularly if you’re imagining, as I do in the book, “What if the Left succeeds?” Let’s be frank. Sometimes people with wonderful motivations have disappointed everyone when they came into power, because of a lack of emotional depth and sensitivity and compassion. Just to overcome global warming alone requires brains! To try to guide society, that requires emotional depth and sensitivity.

People need the wisdom, or the imagination, of others. Who do you learn from? You might have a wise and compassionate friend. But very few people, maybe no people, can invent their own menu of possibilities. Don’t great works of art have something to teach you? Maybe Tolstoy has something to teach you. Maybe Debussy. Maybe many others. No one would deny that Noam Chomsky has special intellectual capacities. Beethoven has special capacities, Ibsen had great insight into the psychology of human beings. If we’re imagining that a better world could be created, don’t we need their help?

Jason Farbman

We were talking about the neglect of higher culture. Then there’s the way the Left understands mass culture, which can be brainless or even have terrible political conclusions. But millions of people see it, the entertainment industry makes millions and millions of dollars. Quite a few people draw pessimistic conclusions from this, about what that says about people. As if that’s just sort of a static fact about people, that Hollywood is giving them what they already want. What do you think about the popularity of mass culture?

Wallace Shawn

I grew up on a book called the Blue Fairy Book by Andrew Lang, which was a collection of fairy tales written by nineteenth century writers. These were folk tales that were told and passed on and then transcribed and re-imagined by some rather sophisticated storytellers.

Yes, I have participated in the creation of some very popular, commercial works, quite a few of which contain fairy tale or folk tale elements. But from my point of view, most American storytelling films are quite reduced — less refined, less complicated, and less profound than the fairy tales I grew up on. If people had been exposed to the earlier versions, they would have understood and loved them, but most people have not been exposed to the earlier versions.

A diet of sugar can addict you to sugar. You can become addicted to chicken fingers to the point that you would reject a delicious plate of pasta in favor of chicken fingers, but if you were to overcome the addiction, you would actually enjoy the pasta more than you ever enjoyed the chicken fingers.

People have a great hunger for stories, for imaginative expression, for insight, so if there’s no way they can access Charles Dickens or Verdi or other very popular but slightly complicated artists, they’ll gorge themselves on things that aren’t really worthy of their attention. Do I think that makes people less smart? Yes, I do. And I definitely think that it makes you smarter to read a smart book or listen to a smart piece of music. I totally believe that.

Jason Farbman

It’s important to emphasize how little people have access to art that might provide more emotional depth and sensitivity. The movie industry repeatedly claims it isn’t to blame for what gets produced, because studios are just making films to satisfy people’s demand.

Wallace Shawn

Well, that’s just not true. They do believe that, and there is short-term evidence for that. But this is very crude. Trump says “nobody is interested in seeing my tax forms, and the proof is that I won the election.” People in Hollywood would say, “the public’s favorite thing is to see people’s heads being blown up, and the proof is that my movie about people’s heads being blown up made five hundred million dollars.” That’s just not proof.

Jason Farbman

You’ve had a very successful career. Millions of people can easily recognize your face, your voice, your work. And you’re an open socialist. There are sections of the Left that criticize liberal celebrities who make statements, or who take roles deemed insufficiently radical. Is it fair to expect that celebrities ought to be militant leftists?

Wallace Shawn

A good actor can present a believable imitation of a real person, so by definition a good actor has to have some kind of insight into people — and probably into society too, as a good actor can believably imitate how a person interacts with others. A good actor also has to be very intelligent, as good acting requires the actor to read a line in a script and grasp not only its full meaning but also its many implications and undercurrents — something that most people can’t do. So you’d think every good actor would be left-wing, but that’s not quite true. Many good actors do lean that way, many supported Bernie Sanders, for example, but Jon Voigt is a good actor, and he’s quite conservative. Psychological factors can cause intelligent and insightful people to cling to absurd beliefs.

As for very successful actors or so-called celebrities, well, success can make a person much less likely to see what’s going on in the real world than they were before. If you’re privileged, there’s a lot you need to not see, to deny. So I’m not shocked that all celebrities aren’t militant leftists.

Jason Farbman

Is there such a thing as left culture? Should there be?

Wallace Shawn

It’s like dreaming at night. Dreams don’t tend to be left wing or right wing. They’re something else.

When I write plays, I don’t start with the intellect. I don’t think I could sit here and say, “I am vehemently opposed to capital punishment, and I am going to write a play to show why capital punishment is wrong.” For me, things that are interesting come out of my unconscious.

There’s also a limitation on what I can write, based on what I know. If I wrote about things I don’t know anything about, it would be lame. Could there be leftist art? There might be art that shows the suffering of humanity because the writer has seen that, and cares about that, and it comes out. I would be pretty reluctant to try to write a play about the suffering of workers in the garment industry in China — because I just can’t believe that the product of my ignorance would be a profound play. If you have someone with deep left-wing convictions and an understanding of life, some of that could come out in their work. It might come out, or it might not. In principle, I’m not opposed to someone trying to create a work of art that makes a point. I don’t know how J. B. Priestley went about writing it, but I really liked the play “An Inspector Calls,” for example. But great works of art tend to surprise you, even shock you, and that probably means that the artist also has to be surprised. So that might be why it’s hard to write something great if you already know the point you’re going to make.

Why Wallace Shawn Became a Socialist

Jason Farbman

I’d like to turn to your specific biography, because it would be good to know what incidents informed your art — and your radicalization, particularly as someone from a well-off family.

In Night Thoughts you describe your childhood in some detail, especially the training you received to grow into an adult member of the ruling class.

Wallace Shawn

My parents were not the 1 percent, and I am not the 1 percent. But let’s say the 10 percent. The complexities of my family’s class positions are quite interesting. My father’s father was a peddler and became prosperous. He was really a self-made man who went from having a junk wagon to having a very successful store. He ran away from home when he was fourteen or maybe younger. His wife, my grandmother, was barely literate and only went to school through the third grade. So my father grew up prosperous, but with parents who had been poor.

My mother’s mother grew up in a prosperous family, but then her husband died when she was in her early twenties. She became quite poor. My mother grew up poor, with a mother who had once been prosperous.

Then my father, rising up the ranks at the New Yorker, had a good salary. My parents were doing nicely. My mother always seemed to take it for granted that we were prosperous. As a boy I had a certain awareness of it, a certain feeling of shame about it. I remember a friend, who was poor, came to our home — a quite nice place on Fifth Avenue — and the friend commented on the intricate molding on the ceilings in our apartment. I had never even noticed it! It was an incredibly upsetting moment for me.

Jason Farbman

So politically, were your parents liberals?

Wallace Shawn

Even through the late sixties, my father and mother were both classic FDR-loving Democrats. They had no comprehension of socialism, or anything outside the realm of the American system. They went from thinking the government wouldn’t lie to the public — that Lyndon Johnson couldn’t possibly be lying, because he was the president — to being militantly antiwar.

My father’s opposition to the Vietnam War really split the staff of the New Yorker. Once he was opposed to the war and believed the government was lying, he was open to other types of possibilities regarding what the US government might do. He published things that alienated large portions of the staff, many of whom were veterans of World War II, people like JD Salinger, who, having been soldiers themselves, were not happy at all at the thought of opposing what the American soldiers were doing.

Jason Farbman

Your father ran the New Yorker for decades — to stay on top of a magazine like that, in such a competitive publishing world, for so long, doesn’t seem like a particularly happy model from which to work.

Wallace Shawn

I don’t think my father would’ve said he achieved a great deal of happiness. He wanted to be a writer. But he was trapped in the Depression. My mother got him a job at the New Yorker. He was a socially awkward and sensitive person, who perhaps could never have gotten a job on his own. But my mother had been a successful journalist in Chicago, where they both grew up, and she got him a job at the New Yorker, as a reporter. She got the job for herself, and then said, “Would you mind if my husband helps me?” They said, “Why not?”

She eventually left, but he stayed. He only had one job in his life — from 1933 to 1987. I think, in those later decades, he felt very trapped in his job. He was, perhaps tragically, very identified with the institution of the New Yorker. He wanted to give it a future that was in keeping with what it was like at the time, an impossible aspiration really.

When I showed interest in being a writer myself, he was very into the idea that I not be trapped in a job.

Jason Farbman

A lot of your writing is quite conversational, quintessentially, My Dinner with André. It seems that as your characters work out their thoughts, the audience is invited to do so as well. And over time, your works seem to have become increasingly more political. What was your own process of working out your ideas about the world? How did someone — whose chief responsibility was to make himself happy — become an anticapitalist?

Wallace Shawn

I was not as radical as my own father until I was about forty. I was more of a centrist than he was, in a way. In 1974, my father published a piece that influenced me, by Richard Goodwin, who had worked for President Kennedy. He adapted Marx for the conditions of the United States in the mid-1970s. This was a stretch for my father, who for all his life believed America was basically a good nation, but we just kept making these terrible mistakes. He thought if you voted the right people into office, then everything would be great. Goodwin’s piece was about the structural reasons why there were problems in America.

I missed the sixties. It happened, but I wasn’t there. I began to change just after I’d turned forty, when I went through a crisis. I realized that I, myself, was involved in the way the world was. That my role was not as an observer, as I had thought for the first forty years of my life. I wasn’t in the audience, I was in the drama. And I was one of the beneficiaries of what I already knew to be imperial behavior on the part of my country. Once I realized that I was in the drama, I started reading more about the things that the United States had done. I haven’t read many books in my life, partly because I read very slowly, but I’m proud to say I have read volume one of Capital by Karl Marx, all the way through.

My girlfriend [writer Deborah Eisenberg], had always been a leftist by temperament. She didn’t impose her beliefs on her boyfriend or anyone else. But we did have some discussions, when we first met in the early 1970s, in which she propounded radical ideas that shocked me. One of them is captured in Night Thoughts, where she raises the possibility that civilization might on the whole have been a bad thing. She’d been a student of anthropology and had thought about a lot of things that had never crossed my mind.

Jason Farbman

Your radicalization came during a rather unlikely period. Socialism was not at all popular in the Reagan/Thatcher 1980s, and when the Soviet Union collapsed it was extremely rare to find anyone who thought there could be any alternative to capitalism. At the same time as alternatives to capitalism were taken off the table for a generation, you found socialism.

Wallace Shawn

This was in a period when I had fallen, by chance, into becoming an actor, and had become rather successful as an amusing character actor. I had received some rather large checks, and had gone from being someone with no prospects, an avant garde playwright with no plan for making a living, to suddenly becoming someone who was getting these big checks. I was paid much, much better than I am today.

Someone coming from my background has to struggle not to succeed, in one field or another. Throughout the mid-1980s I was doing quite nicely, so it was brought home to me, and quite vividly, that I was a beneficiary of the world’s status quo. If I went into a restaurant and saw people of my own class, I would feel such hatred for those people I would feel ill. And every time I’d get sick I’d realize that I was just like them. I felt a loathing for myself as someone responsible for the suffering of humanity. I thought, “The United States is the enemy of humanity, and I’m one of the people they’re doing this for.”

Jason Farbman

And then you traveled to Latin America in a volatile period — the late 1980s — to see the Sandanista revolution.

Wallace Shawn

I wanted to go to Nicaragua, to see if there could be a different way of organizing society that would be better. I had always been an incredible physical coward — and I would say I am one again now. But at the time I was in such a state, because I had come to hate myself. We were told, “You can’t just go to Nicaragua, you have to go to El Salvador and Honduras to see what Nicaragua used to be like, and what the differences are.” I was very motivated, and I rather aggressively collected phone numbers of people in Central America whom we could meet. We also went to Guatemala, three times. That all fed into my point of view becoming really different from the point of view of a lot of my friends.

Jason Farbman

Você mencionou o nojo que sentia ao entrar em restaurantes cheios de pessoas privilegiadas. Diante dessa animosidade, é interessante que esse mesmo grupo pareça ser o principal público das suas peças.

Para as primeiras apresentações de "The Fever", por exemplo, você se apresentava nas salas de estar de amigos ricos, atuando diretamente para e diante dos sortudos — o que incutia um sentimento de culpa no seu personagem. Seus filmes tiveram um apelo enorme e amplo, mas suas peças parecem ser direcionadas aos ricos. Por quê?

Wallace Shawn

Eu me apaixonei pelo teatro porque me sinto atraído por ele — tenho esse gene peculiar para o teatro e sempre gostei muito. Houve um período em que ninguém queria produzir minhas peças, mas quando as pessoas começaram a encená-las, percebi que o público era muito hostil. Naquela época, eu não tinha nenhuma análise de classe sobre isso. Em meados dos anos 80, quando terminei "Aunt Dan and Lemon", percebi com mais clareza que o teatro tem um público mais de classe média. Não é como o público do cinema, onde qualquer um pode ir.

Comecei a tentar fazer com que o público se tornasse parte da peça. Em "Aunt Dan and Lemon", apresentei alguns pontos de vista de direita e até fascistas, deixando a cargo do público a forma como reagiriam. Há um personagem vagamente liberal na peça, que é obliterado pelos personagens conservadores e abertamente fascistas.

Meu objetivo era provocar uma reação do público, e dessa forma eles se tornam parte da peça. Em qualquer peça, o público forma sua própria opinião sobre os personagens, mas há um espaço maior para o público em algumas das minhas peças. Se eles não refletirem sobre o que estão vendo e tentarem chegar à sua própria conclusão, não há peça. O drama acontece na mente individual de cada espectador. Esse é o campo de batalha.

Ao escrever minhas peças posteriores, comecei a perceber que estava falando diretamente com a burguesia. É ela que frequenta as peças. Então, vou falar com eles. E eu os conheço, porque sou um deles. Então, "The Fever" é como uma reunião secreta da burguesia, na qual um membro conversa com os outros. Mas não posso partir do pressuposto de que as pessoas que assistem às minhas peças sabem menos do que eu. Se eu me sentisse assim em relação ao meu público, ficaria muito deprimido. Parto do princípio de que eles são como eu e, então, tento apresentar coisas que eu mesmo consideraria inesperadas e imprevistas — coisas em que eu não havia pensado antes. Muitas das minhas peças têm a intenção de perturbar, e se eu não me sinto perturbado enquanto as escrevo, percebo que ainda não estão terminadas.

Colaboradores

Wallace Shawn é um ator, dublador, dramaturgo, ensaísta e comediante americano.

Jason Farbman é editor associado da Jacobin.

5 de outubro de 2017

Referendos: Sim ou Não?

Neal Ascherson

The New York Review of Books

Pessoas acenam uma bandeira separatista catalã após o referendo da independência proibido em Barcelona, 2 de outubro, 2017. Créditos: Susana Vera/Reuters

Tradução / Quando é um referendo, e quando é um plebiscito?

A semana passada nos trouxe duas apaixonadas e dramáticas votações populares pela independência, no Curdistão iraquiano e na Catalunha, na Espanha. Todos, mesmo aqueles que descartaram ambas as votações como ilegais e sem sentido, as chamaram de "referendos". Mas elas eram? Na prática, os dois termos - "referendo" e "plebiscito" - estão irremediavelmente enredados.

Minha jovem amiga Joan (um nome masculino em seu país) acabou de votar Sim para a pergunta: "A Catalunha deveria se tornar uma república independente?" Ela me manda um e-mail: "Eu matei [sic] minha cédula com os olhos umedecidos", e uma foto a mostra sorrindo para conter as lágrimas quando ela coloca seu voto na urna. Isso ela chama de referendo.

Meu antigo e mais velho amigo Willy, que era um estudante alemão em 1921, teve uma baioneta francesa na parte de trás durante um plebiscito. A Alemanha e o estado polonês ressuscitado estavam reivindicando a bacia de carvão e aço da Alta Silésia. Duas revoltas sangrentas não resolveram nada. Assim, os Poderes Aliados em Versalhes organizaram um plebiscito, distrito por distrito, para determinar as fronteiras.

Seria monitorado pelas tropas aliadas. Mas os soldados franceses favoreceram abertamente os polacos. Assim, no auge da campanha do plebiscito, Willy e um grupo de crianças de escola alemãs de Gleiwitz (Gliwice) se burlaram de uma patrulha francesa, que os acusou com baionetas fixas. O resultado do plebiscito foi rejeitado pelos polacos, que reclamaram que centenas de milhares de alemães, com pouca conexão com a Silésia, foram convocados para votar. Foi só depois de uma terceira insurreição e uma brutal batalha em Annaberg que uma nova fronteira, não aceita por ninguém, foi estabelecida.

Na Irlanda, uma votação para aceitar uma nova Constituição é um plebiscito, mas uma votação para modificá-la (como o votação do próximo que vem para eliminar a cláusula anti-aborto da Constituição) é um referendo. Na Austrália, um plebiscito é uma consulta não vinculativa, projetada para testar a opinião pública sobre algumas questões e avaliar se há uma maioria para mudanças. Os australianos estão tendo um plebiscito postal nesse momento sobre o casamento homossexual. Um referendo, ao contrário, é um voto vinculativo sobre uma mudança constitucional.

Mas a maior parte do mundo, hoje em dia, chama qualquer decisão por voto popular direto de um referendo. Os Estados-nação democráticos não gostam deles, sentindo que confessam o fracasso da democracia representativa. A França é um país que tentou domar o referendo. Em primeiro lugar, os republicanos franceses o condenaram como uma ferramenta do bonapartismo, já que foi usado por Napoleão III no século XIX para ignorar os parlamentos e basear sua ditadura no "povo". Mais tarde, os republicanos inseriram a medida em suas curiosas regras para ordenar uma mudança de regime: primeiro uma revolução, então um governo provisório para preparar eleições para uma assembléia constituinte para elaborar uma nova Constituição; em seguida vem um referendo para aprovar a Constituição; e, finalmente, as primeiras eleições parlamentares da nova República.

Alguns sábios pensam que um referendo só deve ser considerado para ratificar ou rejeitar uma decisão já tomada por uma legislatura. Outros, incluindo Adolf Hitler, realizaram os chamados referendos retrospectivos para aprovar algo que já havia sido feito e, certamente, não seria desfeito, seja qual fosse o resultado da votação. Às vezes, o eleitorado é tão cretino e hipnotizado que marcha, cantando e carregando flores, para a mesa de votação, como no referendo nazista para aprovar o Anschluss da Áustria ao Reich em 1938. Às vezes, alguns adversários tiveram que desaparecer e os resultados "ajustados". É muito lembrada é a sátira pré-guerra de David Low de um referendo nazista: "Obtenha seu JA aqui! Coloque seu JA aqui!"

Meu primeiro referendo foi em 1979, realizado para implementar ou rejeitar a proposta de um governo trabalhista por uma Assembléia Escocesa descentralizada. Mas no último momento, o votação foi atrapalhada. Uma emenda hostil decretou que um voto Sim só seria válido se fosse entregue por 40% do eleitorado registrado. Isso era típico das muitas maneiras pelas quais os referendos podem ser torcidos. Pode ser razoável exigir que, digamos, 75 por cento dos que votam devem concordar com uma proposta importante. Mas esse alvo de 40 por cento de todo o eleitorado, calculado em um cadastro eleitoral muito desatualizado, significava que os abstêmios e os mortos, na verdade, votaram Não. No caso, havia uma pequena maioria sim, mas participação estava longe do limiar de 40 por cento. Decorreram décadas de amargura.

O próximo referendo para um Parlamento escocês veio em 1997: feito com imparcialidade e calmamente disputado, ele emitiu um forte veredicto de Sim. Então, em 2014, veio o referendo sobre a independência total. A pesquisa rejeitou a independência, por uma margem de 10%. Mas os nacionalistas catalães ainda o invejam.

Tudo o que o governo espanhol está errando em 2017, o britânico fez certo em 2014. Londres aceitou que os escoceses poderiam deixar o Reino Unido se eles mostrasse inequivocamente que eles queriam. O governo britânico fez uma campanha feroz contra a secessão, mas não contestou o direito final dos escoceses de decidir seu futuro. Um acordo de Edimburgo entre o então primeiro-ministro, David Cameron, e o primeiro ministro escocês, Alex Salmond, legalizaram o referendo e elaboraram os seus termos com antecedência. O resultado do Não foi doloroso para o Partido Nacional Escocês e para o movimento de independência mais amplo, mas ninguém contestou seriamente a justiça do referendo. Não foram enviados "bobbies" ingleses para destruir as assembleias de votação em Edimburgo ou as anciãs senhoras tentando votar.

Por trás dos referendos e dos plebiscitos está a ideia de soberania popular. Mas isso legitima um "direito à autodeterminação", quando é uma votação sobre deixar um Estado-nação existente? Esse direito é, de qualquer forma, um direito coletivo bem parecido, que é quase impossível de definir, e muito menos de impor. Pode-se significar quase qualquer coisa: por exemplo, os "expulsados" alemães do pós-guerra da Europa Central alegaram que isso significava o direito de retornar à sua pátria e expulsar os colonos poloneses e checos que os haviam substituído.

Ainda menos existe um direito geralmente reconhecido de se separar. (Eu acredito que uma das Constituições soviéticas incluiu tal cláusula, mas ninguém teria ousado invocá-la.) Até o Tratado de Maastricht de 1992 introduzir a política regional, convidando os membros da União Europeia a transferir amplos poderes de autogoverno para suas províncias e periferias, alguns membros da união europeia ainda consideravam a autonomia local como um desafio à integridade do Estado. Juristicamente, a maioria dos movimentos de independência equivale a traição.

Mas, é claro, movimentos de independência surgem dentro de estados-nação antigos, e alguns deles são completamente justificados, e alguns deles - o Catalão, de fato - se tornam tão forte que os apelos legais a uma Constituição ou os disparos de balas de borracha não podem suprimi-los. Então, apenas o sóbrio pragmatismo ajuda. Foi realmente tão trágico para a Grã-Bretanha quando a Irlanda ganhou sua independência? Não é o caso que a partida da Eslováquia da Checoslováquia fez as relações entre Praga e Bratislava realmente mais quentes e fáceis do que antes? É difícil imaginar qualquer maneira pior de lidar com o desafio catalão do que o acosso legalista e a contundente repressão adotada pelo primeiro-ministro Mariano Rajoy.

É tentador dizer que os governos britânicos acharam mais fácil lidar com a Escócia porque a Grã-Bretanha não possui uma Constituição. Mas, dois anos depois, veio o desastre do referendo Brexit. Foi chamado por duas razões ruins: resolver as fendas dentro do partido Tory, e porque David Cameron estava confiante de que ele ganharia e a Grã-Bretanha ficaria na União Européia.

Ele perdeu os dois lados. O cisma sobre a Europa ainda aflige seu partido até hoje. E os ingleses, embora não os escoceses, votaram para sair. Deixem. De uma vez, o caiu chão do que se passa por tradição constitucional. A Grã-Bretanha deve operar sobre a arcaica doutrina da soberania parlamentar. Em síntese, no final do século XVII, o poder absoluto foi retirado da monarquia e transferido para o Parlamento: nenhuma lei ou governante pode estar acima da liberdade absoluta do Parlamento para legislar como quiser. Não há sugestão de soberania popular.

Em 2016, a maioria dos membros eleitos do Parlamento britânico era favorável a permanecer na União Européia. Mas, nesse momento, esse resultado inesperado foi referendado, proclamando que a vontade do povo era Deixar e deve ser obedecida. Incrivelmente, ninguém sabia o que era a lei de Estado da Grã-Bretanha. A soberania sagrada do Parlamento deveria prevalecer, ou a doutrina não inglesa da soberania popular expressa através desse referendo modernoso? Mas o pânico moral e intelectual em Westminster foi logo superado pelo pânico político: membros do Parlamento que desafiassem seus eleitores na Europa arriscariam perder seus assentos. Assim, a maioria dos legisladores engoliu seus princípios e respaldaram a marcha da primeiro-ministra Theresa May para o Brexit.

O dogma da soberania parlamentar foi consagrado pelo grande jurista vitoriano A.V. Dicey. Mas, curiosamente, Dicey mudou de ideia sobre referendos no final de sua vida. Ele temia que seus ensinamentos criassem um Leviatã: um gabinete enraizado pela maioria parlamentar que poderia agir sem qualquer controle. Então ele propôs referendos "negativos". Os eleitores não propunham nada, mas poderiam vetar uma medida do governo que os cidadãos não gostassem. Mas ninguém tomou o velho a sério. Eles sugeriram que ele simplesmente queria que a opinião pública bloqueasse duas reformas que ele temia: a autonomia para a Irlanda e votos para as mulheres.

O fator central nos referendos é quem tem o direito de convocá-los. Formalmente, os referendos curdos e catalães eram ambos ilegais porque nem o governo iraquiano nem o espanhol os licenciavam. (Mas a União Européia mostrou uma hipocrisia desprezível ao desprezar os catalães, já que mais da metade dos membros da UE só existem porque se separaram de estados maiores sem permissão ou referendo prévio). Alguns lugares - a Califórnia e a Suíça entre eles - concederam por muitos anos a um mínimo específico de peticionários o direito de convocar um referendo. Mas agora, as mídias sociais globalizadas estão transformando toda a questão da iniciativa de votação. Uma torrente incessante de demandas organizadas de mudança está espalhando o hábito da democracia direta, o que já está ultrapassando as legislaturas tradicionais. Os referendos, vulneráveis ​​a demagogos e mentiras como certamente são, parecem estar preparados para veicular as políticas do futuro.

2 de outubro de 2017

Os festeiros do Partido Comunista

O conto de advertência da "Herdeira em Flagrante" e como os comunistas foram traídos pela história em 1945.

Alessandra Stanley

The New York Times

Bettmann Archive/Getty Images

Alessandra Stanley The New York Times (Imagem: Bettmann Archive/Getty Images) Nunca houve momento nem lugar melhor para ser comunista do que em São Francisco na primavera de 1945.

O mundo estava preparado para tomar um novo rumo, e o ponto de partida foi a criação das Nações Unidas em São Francisco. Conforme os delegados ocupavam seus lugares, o Exército Vermelho lutava para tomar Berlim. A história parecia estar se curvando a favor de Moscou. No entanto, até mesmo os conservadores esperavam que as Nações Unidas pudessem forjar uma paz global duradoura. As expectativas eram tão altas que um colunista classificou a conferência como "a reunião humana mais importante desde a Última Ceia".

Esse evento seria um divisor de águas muito mais crucial do que qualquer um dos participantes poderia antecipar. A Guerra Fria começou em São Francisco assim que os combates na Europa terminaram.

Em 25 de abril, dia da abertura da conferência, os exércitos americano e soviético se encontraram no rio Elba. Os soldados do Exército Vermelho hastearam a bandeira soviética sobre o Reichstag em 2 de maio, e a Alemanha se rendeu em 7 de maio.

Os americanos tinham as melhores suítes do Hotel Fairmont, mas o St. Francis, sede da delegação soviética, era o convite mais disputado da cidade. Em todos os quatro salões de festas do hotel, os russos ofereciam recepções regadas a vodca, muitas delas organizadas por uma atraente herdeira de São Francisco que amava tanto a causa socialista que transformou o chefe local da K.G.B. em seu amante.

Os russos eram aliados fiéis dos Estados Unidos, de modo que Viacheslav Molotov — o obstinado vice de Stalin, um apparatchik tão insípido que Lenin outrora o chamou de "o melhor escrivão de cartório" — era o homem do momento, paparicado como uma estrela de cinema e caçado por autógrafos. Até mesmo Hedda Hopper, a colunista de fofocas que mais tarde aterrorizaria as estrelas de Hollywood com a lista negra, caiu sob o seu feitiço, chamando Molotov de "encantador" e comparando-o em sua coluna a Teddy Roosevelt (provavelmente porque ambos usavam pince-nez).

A conferência transformou-se em um verdadeiro "Grand Hotel" à beira da baía. Todos os que importavam, na época ou mais tarde, cruzaram aquelas portas giratórias: além de Molotov, o enviado de Winston Churchill e futuro primeiro-ministro britânico, Anthony Eden, e o secretário de Estado do presidente Harry Truman, Edward R. Stettinius, dividiam o espaço com a nata do show business — celebridades como Rita Hayworth, Lana Turner, Jack Benny, Paul Robeson e Orson Welles.

A recém-viúva Eleanor Roosevelt, que mais tarde seria uma das principais autoras da Declaração Universal dos Direitos Humanos, conversava com políticos e tomadores de decisão como Nelson Rockefeller, Adlai Stevenson, Averell Harriman e John Foster Dulles. O filósofo Isaiah Berlin estava lá, assim como Carmen Miranda.

O secretário-geral da conferência, responsável por conseguir todos esses cargos de destaque e acomodações em hotéis, era um respeitado veterano do governo do New Deal de Roosevelt chamado Alger Hiss.

Para trazer a perspectiva do soldado combatente comum, os jornais da rede Hearst enviaram um oficial da Marinha de 27 anos que havia retornado recentemente do Pacífico: John F. Kennedy. Os despachos de Kennedy eram um tanto atrevidos, assim como ele próprio: em um baile formal, o jovem repórter não hesitou em tirar a parceira de Anthony Eden para dançar.

Como Charles Bohlen, conhecido como "Chip" — que mais tarde se tornaria embaixador dos EUA em Moscou —, escreveu em suas memórias: "São Francisco era tão hospitaleira que os participantes da conferência dedicavam-se ao lazer com o mesmo vigor que aplicavam ao trabalho".

A esquerda intelectual e rica da cidade também marcou presença. Jessica Mitford, escritora comunista e rebelde da aristocracia britânica, morava em São Francisco. Uma amiga de Mitford, Claud Cockburn, cobria o evento para o jornal comunista britânico The Daily Worker. Entre um drinque e outro em uma tarde, Mitford doou sua cota de um sexto de uma ilha escocesa — uma herança de família — como presente ao Partido Comunista Britânico.

Outra figura carimbada do circuito de festas era a amiga de Mitford, Louise Bransten, uma socialite da região que gastava parte de sua fortuna na causa comunista e ajudava a organizar as festas para os russos no St. Francis. Rica, charmosa e divorciada, Bransten era um excelente chamariz (o futuro senador de Nova York, Jacob Javits, que participou da conferência como observador, chegou a ir a um encontro às cegas com ela).

Dois amigos de Bransten vindos de Berkeley, que logo desempenhariam um papel crucial em sua vida, conheceram-se em uma dessas festas: Haakon Chevalier, um professor de literatura que serviu como intérprete na conferência, e George Eltenton, um cientista britânico que trabalhava para a Shell.

Embora não soubessem, a festa estava prestes a acabar. Em 12 de maio, Churchill enviou a Truman um telegrama expressando suas preocupações com as ações soviéticas: "Uma cortina de ferro desceu diante deles". Foi o primeiro registro do uso da frase que ele mais tarde tornaria famosa. Antes do fim daquele ano, o futuro diretor da C.I.A., Allen Dulles, também já a utilizava.

Mesmo ao lado da vitória e em meio às celebrações do nascimento das Nações Unidas, poucos sentiram o calafrio — mas a Guerra Fria havia começado. O F.B.I. colocou Bransten e seus amigos sob vigilância.

Os caçadores de comunistas em Washington eram desesperadamente paranoicos por uma razão: nem todos os comunistas americanos eram espiões, mas alguns eram. Embora muitas pessoas inocentes tenham sido incluídas na lista negra e desonradas sob o macartismo, alguns que de fato trabalharam para a União Soviética saíram ilesos.

Louise Bransten era um pouco de cada coisa.

Bransten era famosa por suas festas e eventos de arrecadação de fundos durante a guerra. Um de seus convidados frequentes era Grigori Kheifets, vice-cônsul do consulado russo em São Francisco. Kheifets também era seu amante — e o chefe local da K.G.B. Bransten o ajudou a se aproximar de Chevalier e Eltenton.

O círculo social de Bransten também incluía o físico J. Robert Oppenheimer, que realizava pesquisas para o governo no Laboratório de Radiação de Berkeley. Para chegar a Oppenheimer, Kheifets mirou em Eltenton, que havia trabalhado em um instituto de pesquisa na Rússia na década de 1930 e nunca perdera a fé na revolução — mesmo quando amigos e colegas desapareceram durante os expurgos de Stalin (sua esposa, Dorothea, escreveu um livro de memórias sobre a estadia, "Risos em Leningrado", que, por razões óbvias, teve publicação independente).

No outono de 1942, o Exército Vermelho enfrentava situações desesperadoras: Leningrado continuava sob cerco e a devastadora Batalha de Stalingrado mal havia começado. Os esquerdistas queriam ajudar os soviéticos e temiam que o governo americano estivesse retendo informações.

Pelo menos essa foi a explicação que Eltenton deu aos investigadores sobre o motivo de ter concordado em pedir a Oppenheimer que repassasse segredos atômicos à Rússia. Para isso, ele recorreu a Chevalier, que compartilhava das visões políticas de Eltenton e era um dos amigos mais próximos de Oppenheimer. Entre martinis em Berkeley, Chevalier disse a Oppenheimer que Eltenton conhecia uma maneira de contrabandear pesquisas secretas para as mãos dos russos sem ser detectado.

Oppenheimer, que logo partiria para Los Alamos, recusou a proposta indignado. A abordagem foi engavetada. Kheifets e seus comparsas partiram para outros alvos.

Quando Bransten, Chevalier e Eltenton brindavam ao futuro no hotel St. Francis em 1945, seus esforços de espionagem do período da guerra pareciam águas passadas. E assim teria permanecido, se Oppenheimer não tivesse, eventualmente, relatado a abordagem de Chevalier — embora em versões confusas e contraditórias que ele mais tarde desmentiu ao ser interrogado pelo F.B.I. em 1946.

A partir daquele momento, porém, os piores temores dos investigadores sobre a infiltração da K.G.B. foram confirmados. Entre agosto e setembro de 1945, uma onda de desertores, russos e americanos, informou o F.B.I. sobre os infiltrados em Washington e os espiões em Los Alamos. Oppenheimer acabou perdendo sua credencial de segurança após novas investigações em 1954, devido ao que ficou conhecido como "o incidente Chevalier".

Chevalier perdeu seu cargo de professor em Berkeley e mudou-se para Paris, onde passou a escrever livros e traduzir obras de André Malraux e Louis Aragon. Em 1947, Eltenton retornou à Inglaterra para trabalhar em uma unidade da Shell. O F.B.I. queria que o MI5 investigasse Eltenton, mas, em sua terra natal, o esnobismo de classe funcionou a seu favor. O chefe do MI5, Sir Percy Sillitoe, respondeu que o compatriota formado em Cambridge havia "deixado uma boa impressão". O chefe de Eltenton na Shell descartou as acusações americanas como "bobagens e absurdos".

Bransten foi intimada a depor perante o Comitê de Atividades Antiamericanas da Câmara em 1948, mas recusou-se a responder às perguntas, invocando a Quinta Emenda. Em vez disso, distribuiu uma declaração preparada que dizia, em parte: "Acredito em um mundo único e concordo com Franklin Roosevelt que a paz mundial deve se basear na cooperação entre os Estados Unidos e a União Soviética no âmbito das Nações Unidas".

Bransten foi acusada de desacato ao Congresso em 1949, mas teve sorte: a juíza Burnita S. Matthews, a primeira mulher nomeada para um Tribunal Distrital Federal, decidiu a seu favor. Um jornal apelidou Bransten de a "Herdeira em Flagrante" (Red-Handed Heiress), e sua reputação tornou-se tão radioativa que até mesmo o republicano liberal Javits teve de prestar contas ao Congresso por sua breve associação com ela.

Em 1948, Hiss foi denunciado ao Comitê de Atividades Antiamericanas da Câmara como espião. Após uma investigação de um subcomitê do Congresso para apurar se ele havia cometido perjúrio ao negar as acusações, ele foi julgado duas vezes e condenado em 1950. No final daquele ano, o presidente do subcomitê que havia desmascarado o depoimento de Hiss elegeu-se senador; em 1953, ele seria vice-presidente dos EUA. Seu nome era Richard Nixon.

A conferência de São Francisco deve ter parecido um triunfo brilhante para os comunistas americanos. Na verdade, foi o seu último suspiro.

Alessandra Stanley, ex-repórter e crítica do The New York Times, está trabalhando em um livro sobre a Guerra Fria.

Colônia do intelecto

Gavin O'Toole

The Latin American Review of Books


Disciplinary Conquest: U.S. Scholars in South America, 1900–1945
Ricardo D Salvatore
2016, Duke University Press
329 páginas, livro de bolso

Houve pelo menos três "conquistas" no que agora é chamado de América Latina. A primeira foi, é claro, a Conquista propriamente dita, um exercício militar europeu abertamente imperial que seguiu as viagens de Colombo e deu origem à modernidade.

A "segunda conquista" da América Latina foi ecológica, referindo-se tanto ao impacto sobre a paisagem, a flora e a fauna da conquista européia na região, como também do subsequente desenvolvimento da economia de exportação extrativista (café, henequen, borracha, óleo etc. ), talvez melhor capturado em um livro com esse título por Steven Topik e Allen Wells.

A terceira conquista, no entanto, é uma que é muito menos historicamente discernível, mas mais abrangente em quase todos os sentidos por ter moldado as formas em que entendemos as conquistas anteriores e a região atual em quase todos os aspectos. Isto é o que Ricardo Salvatore se refere como a "conquista intelectual" da América Latina pela tradição intelectual dos EUA e a íntima relação dessa tradição com o império informal estabelecido nesta região pela hegemonia do norte.

Disciplinary Conquest é um importante contributo para a historiografia dos próprios Estudos Latino-Americanos, fornecendo ideias convincentes sobre as origens desta disciplina na primeira metade do século 20, e como elas não podem ser separadas da busca de Washington por dominação neocolonial na América do Sul naquela período.

Como observa o autor, a consolidação dos estudos latino-americanos tem sido erroneamente datada do início da década de 1960 e entendida como subproduto da Revolução Cubana. É fácil retrospectivamente ver por que: a dinâmica da Guerra Fria passou a dominar todas as trocas e intervenções na geopolítica da região por várias gerações, e ainda estamos vivendo suas conseqüências.

Mas Salvatore argumenta de forma convincente, ao explorar o trabalho de cinco pesquisadores importantes e influentes no período 1900-45, que o aparelho intelectual deste campo já estava bem estabelecido no tempo da Revolução Cubana. O autor está interessado em particular na relação entre o crescente envolvimento acadêmico dos EUA com a América Latina durante o longo período de "panamericanismo" antes da segunda guerra mundial e política externa.

Se os motivos dos próprios pesquisadores possam ter sido puramente intelectuais e não reforçaram, por si só, as maiores metanarrativas de evolução e progresso, o conhecimento que criaram e o quadro resultante de compreensão que isso impôs sobre a disciplina emergente dos Estudos latino-americanos foram de primordial valor aos diplomatas e empresários dos EUA, na medida em que procuraram ampliar sua influência em toda a região. No entanto, o autor também observa que alguns dos pesquisadores que ele examina tendem a articular o conhecimento especializado como útil para a hegemonia imperial.

O principal argumento de Salvatore é relativamente direto, e associa um corpus existente de literatura teórica sobre o relacionamento mais amplo entre o conhecimento e o exercício do poder. Ele argumenta que o aumento do conhecimento em uma variedade de disciplinas supostamente desenvolveu a base de uma visão científica do subcontinente que empresários e especialistas em política externa julgaram necessários para os EUA como um poder emergente: "O conhecimento regional era uma condição prévia para a construção da influência e do poder no hemisfério." [p 5]

Ele também faz uma observação para apoiar esta perspectiva: que, embora a existência de um vasto aparelho institucional dedicado a aprender sobre a América Latina seja notável nos EUA, simplesmente não há reciprocidade na própria América Latina, onde as instituições de ensino superior não fizeram um proporção investimento no desenvolvimento de estudos norte-americanos.

Paralelamente à sua relevância direta nas Américas, este livro contribui de forma valiosa para uma compreensão mais ampla da relação entre o império e o conhecimento. O que torna o caso dos EUA instrutivo é a forma de hegemonia que estabeleceu nas Américas, acomodando as modalidades do império formal e informal em que o controle direto e a colonização - na América do Sul pelo menos - estava em grande parte fora de questão.

Esta sub-região foi considerada uma "terra de oportunidade" pelas classes comerciais e diplomáticas dos EUA, e as intervenções eram imperiais em grande parte no sentido de que eles representavam o desejo de superioridade cultural dos EUA.

Salvatore escreve: "Os pesquisadores tem examinado a relação entre conhecimento e império, principalmente no contexto dos impérios territoriais, mostrando que o conhecimento fornece serviços valiosos na governabilidade das situações coloniais. Menos atenção tem sido dedicada à formação de conhecimento regional em situações neocoloniais, onde a hegemonia assume a forma de supremacia econômica, tecnológica e cultural" [p. 15].

Para qualquer latino-americanista frustrado com a influência omnipresente, os quadros acadêmicos dos EUA continuam a exercer sobre tantas áreas de estudos latino-americanos - da teoria política à bolsa de segurança, e geralmente começando e terminando com uma noção de "modernidade americana" - este livro oferece uma maneira sincera de abordar esse estrangulamento através de uma abordagem construtiva e historiográfica. Oferece comida muito positiva para o pensamento falando verdade ao poder.

Talvez, como resultado, a melhor mensagem que possamos enviar aos estudiosos mais inovadores e enérgicos da América Latina seja: não fique brava, fique com calma.

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