12 de março de 2020

O golpe do "Foda-se" de Bolsonaro

Depois de mais de um ano do governo de Jair Bolsonaro no Brasil, o país está se aproximando do autoritarismo. Agora, o presidente pede aos seus partidários que saiam às ruas em uma "Marcha Foda-se" contra as instituições democráticas que estão no caminho de sua agenda de extrema-direita.

Benjamin Fogel

Jacobin

O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, exibe uma anotação na mão onde se lê "Beleza natural" durante a "Cerimônia do Novo Programa de Crédito à Habitação" no Palácio do Planalto em 20 de fevereiro de 2020 em Brasília, Brasil. Andressa Anholete / Getty

Tradução / Golpes militares têm sido uma característica periódica da política brasileira, desde o golpe que derrubou a monarquia em 1889 até o golpe militar em 1964 que encerrou a Segunda República do Brasil. Golpes no Brasil são geralmente retratados como defesas necessárias da democracia contra as ameaças de demagogos autoritários. O golpe de 1964 foi justificado como uma medida preventiva contra um suposto golpe apoiado pelos comunistas para instalar na presidência do João Goulart, um social-democrata moderado que propunha reformas básicas, uma “república sindicalista”. A situação para colocar os tanques nas ruas foi criado através da narrativa histórica simbolizada na “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, na qual centenas de milhares de brasileiros de classe média saíram às ruas contra o governo de Goulart.

Agora, mais uma vez, o Brasil está enfrentando uma ameaça contra sua frágil experiencia democrática. Desta vez, no entanto, é o presidente em exercício de extrema-direita, Jair Bolsonaro, que se juntou a mobilização de seus apoiadores na minúscula manifestação do “foda-se” contra contra os “vírus do STF, Congresso e álcool gel” em pleno surto global da pandemia do coronavírus, contrariando a recomendação do próprio Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde restringindo aglomerações de pessoas.

Os apoiadores on-line de Bolsonaro inundaram as redes sociais durante semanas com propaganda contra instituições e indivíduos vistos como hostis à agenda de extrema-direita do presidente, conforme o chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, general Augusto Helano, alegara em vídeo vazado na imprensa. Aliás, foi dele a expressão “foda-se o Congresso”. O chefe do Clube Militar também conclamou os “patriotas” à mobilização, alegando que “o Congresso não deixará o executivo governar!” Uma amostra dos alegres sentimentos democráticos nos cartazes dos manifestantes incluía pedidos de uma intervenção militar e a volta do AI-5. A campanha foi financiada por empresários pró-Bolsonaro, muitos dos quais foram flagrados no financiamento ilegal de campanhas de fake news durante a campanha eleitoral de 2018.

A retórica que emana dos bolsonaristas foca na sabotagem institucional contra a agenda do presidente e na necessidade de uma solução violenta contra o intratável problema da democracia corrupta. Enquanto encenava em TV aberta que talvez fosse desejável adiar as manifestações, Bolsonaro enviava vídeos para seus amigos no WhatsApp, pedindo que os apoiadores se mobilizassem contra o Congresso e o STF. O vídeo informava aos espectadores que Bolsonaro “está lutando contra a esquerda corrupta e assassina. Ele suporta manchas e mentiras porque está fazendo o melhor por nós... Vamos mostrar que apoiamos o BOLSONARO e rejeitamos os inimigos do Brasil”. Além disso, Bolsonaro chegou a afirmar que as eleições que ele próprio venceu em 2018 foram fraudulentas, sem oferecer um pingo de evidência.

Os filhos de Bolsonaro mobilizaram apoio para a marcha e estão na vanguarda dos ataques. O jovem fã de Donald Trump, deputado federal Eduardo Bolsonaro, foi ao Twitter perguntar: “Se uma bomba caísse no Congresso, você realmente acha que as pessoas derramariam lágrimas?” Ele usa essa retórica há anos. Durante as eleições de 2018, por exemplo, ele se gabou de que “nem seria necessário um jipe. Enviar um soldado e um cabo seria suficiente para fechar [o STF]”.

Esta não é a primeira vez na história do Brasil que um presidente em apuros tenta reunir sua base em uma tentativa desesperada para salvar sua presidência. Em 1992, o primeiro presidente playboy do Brasil, oligarca Fernando Collor de Mello, pediu que seus apoiadores marchassem com amarelo e verde para defendê-lo contra um possível impeachment.

O infeliz reinado de Collor estava em colapso após as revelações de que ele e seu marceneiro de campanha, ex-vendedor de carros usados ​​Paulo Cesar Farias (que também supostamente se envolveu em um grande esquema de narcotráfico), estavam turbinando empresas com milhões de dólares canalizados em um fundo secreto. Seu irmão, Pedro Collor, havia concedido uma entrevista à revista Veja, revelando o esquema de corrupção do presidente e o amor pela cocaína – um ato de vingança pela tentativa do presidente de seduzir sua esposa. Collor venceu a eleição de 1989 se passando por um intruso modernizador anticorrupção, mas sua jogada desesperada provou ser um desastre quando os brasileiros saíram às ruas vestindo preto. Enfrentando uma votação final por seu impeachment no Senado, Collor renunciou, mas sob pressão popular e o Senado prosseguiu com o julgamento e o condenou à perda do mandato e à inelegibilidade por oito anos por 76 votos contra 3.

Resta saber até que ponto a campanha de Bolsonaro será eficaz, mas o cenário está ficando cada vez mais próximo de Collor do que a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”. O movimento bolsonarista está mais concentrado em grupos do WhatsApp do que em organizações de base reais, e as manifestações pró-governo que aconteceram em 2019 falharam em mobilizar um número significativo de pessoas.

Isso faz parte de uma campanha crescente contra a democracia que se encontra cada vez mais frágil no país. Mais perigosos do que os fanáticos trolls on-line do presidente, são os apoiadores bolsonaristas dentro da Polícia Militar (PM) e e alguns militares.

O que Bolsonaro está fazendo?

Bolsonaro está atualmente desfrutando da aprovação de 30% de sua presidência, apesar do desempenho econômico sombrio e do histórico de idiotices e incompetência de seu governo. Ao aprovar a reforma da Previdência no ano passado, ele garantiu o apoio da elite. O presidente do Congresso, Rodrigo Maia – um dos principais alvos da campanha do “foda-se” – conseguiu reunir o apoio do Congresso para aprovar a reforma previdenciária, apesar da incompetência política de Bolsonaro, salvando sua presidência.

A posição relativamente forte de Bolsonaro fica ainda mais surpreendente pelo fato de ele ter deixado seu próprio partido no ano passado – o Partido Social Liberal (PSL) – e ainda estar tentando formar a Aliança, um novo partido de extrema direita que até o momento teve mais assinaturas negadas que aprovados pelo TSE. Uma das finalidades das manifestações bolsonaristas são a coleta de assinaturas.

Empresários e políticos investiram capital e energia para suavizar a imagem de Bolsonaro, transformando-o em um mal necessário protetor dos mercados e oponente da corrupção. Muitos disseram repetidamente que ele seria mais moderado depois de tomar o poder, mas Bolsonaro governou fabricando suas próprias crises no governo enquanto testava os limites da democracia. Até agora, isso só foi tolerado pela elite porque ele permitiu que seu Ministro da Economia, Paulo Guedes, implementasse sua agenda econômica.

A base de apoio de Bolsonaro entre as classes alta e média permanece firme. Alguns militares aparecem firmemente atrás dele, assim como as poderosas igrejas evangélicas e as instituições do capital financeiro. Grande parte da burguesia sempre viu com maus olhos o bolsonarismo, e se mantem relutante em dar 100% de apoio ao brutal ex-capitão do exército, mas para alimentar as fúrias do mercado sempre tolerou seu fanatismo e o desmantelamento das instituições públicas.

O presidente conta com o forte apoio de Wall Street, Faria Lima, e a mais importante associação industrial do país, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP). O grande capital ainda está unido atrás dele, mesmo que os investidores internacionais estejam cada vez mais cansados ​​das palhaçadas do presidente, como enviar um comediante para distribuir bananas a jornalistas que aguardam notícias sobre as previsões de crescimento para o próximo ano. Esse descaso já gerou a maior fuga de capitais dos últimos 38 anos com a evasão de US$ 64 bilhões em 2019.

A variedade de grosserias que povoam o governo Bolsonaro não pode ser dividida, como alguns apologistas gostam de afirmar, entre pragmatistas como o ministro chicago-boy, Paulo Guedes, e ideólogos como o Ministro da Educação Abraham Weintraub – um forte candidato ao ministro mais incompetente do mundo. Essas são, simplesmente, diferentes facções de ideólogos antidemocráticos. Apesar de ser o queridinho do capital financeiro, Guedes está lidando mal com os problemas econômicos, engajando-se nas teorias conspiratórias de seu chefe.

Longe de ser uma força para a modernização liberal e democrática, a histórica investigação anticorrupção da Lava Jato – junto com seu principal protagonista, o Ministro da Justiça Sérgio Moro – é, segundo uma das principais jornalista de Brasília Mônica Bergamo, o mais importante centro de apoio ao autoritarismo. Moro tem se situado o principal apoiador da tentativa de tornar a polícia imune à acusação por matar alguém que seja considerado uma ameaça. O promotor Delton Dallagnol, coordenador da Lava Jato, também tem atacado publicamente o Congresso, alegando que ali está o maior obstáculo na luta contra a corrupção no Brasil.

Eles também tem como alvo alguns jornalistas, principalmente Glenn Greenwald, por expor os segredos sujos de Lava Jato. Ele e jornalistas como Patrícia Campos Mello, da Folha de São Paulo, foram abertamente alvejados por Bolsonaro e seus filhos que mobilizam suas máquinas de bots e fake news – pagas por empresários pró-Bolsonaro – para assediar e ameaçar os críticos do presidente.

Embora o apoio de Bolsonaro se mantenha firme, ele enfrenta várias ameaças à sua presidência. A economia está em crise, o coronavírus está se espalhando rapidamente e ele enfrenta um possível desafio de impeachment. Pode ser que o cerco esteja se fechando porque as conexões de seu clã com o assassinato recente do miliciano e ex-capitão do BOPE, Adriano da Nóbrega, um dos líderes da maior organização miliciana do Rio de Janeiro conhecida por “Escritório de Crime”.

O capitão Adriano é suspeito de estar envolvido no assassinato da socialista Marielle Franco, e tinha conexões estreitas com o senador Flávio Bolsonaro, que empregava a esposa e a mãe do miliciano como funcionários fantasmas em seu gabinete, num esquema conhecido como “rachadinha”. Em fevereiro, o capitão Adriano foi morto pela Polícia Militar da Bahia, no que é amplamente considerado como “queima do arquivo”.

Embora até o momento essas denúncias e boatos permaneçam como suspeita, o Congresso deve discutir o possível impeachment de Bolsonaro em breve. O deputado Alexandre Frota, ex-aliado do governo, já preparou uma impeachment, alegando que Bolsonaro cometeu “crime de responsabilidade” ao mobilizar seus apoiadores contra as instituições democráticas. Janaina Paschoa e Miguel Reale Junior, que escreveram deflagraram o impeachment que golpeou Dilma Rousseff também estão pedindo a queda do presidente e os grandes jornais do país, como Folha de Sao Paulo e Estadão, começaram a endossar em seus editorias a necessidade de afastamento imediato.

Bolsonaro não está preparado para lidar com a crise do coronavírus, dobrando suas apostas em teoria da conspiração e ameaças grosseiras, declarando que a pandemia é “uma histeria da mídia”. No momento da redação deste artigo, existem mais de duzentos e trinta casos relatados do vírus no país, com uma pessoa morta e outras quatro mortes causadas por problemas respiratórios que estão sendo investigadas.

A situação econômica também está piorando rapidamente: as previsões de crescimento estão caindo semanalmente, o real brasileiro entrou em colapso e ultrapassou pela primeira vez na história os R$ 5 em relação ao dólar. Os mercados estão em queda livre à medida que os investidores estrangeiros estão saindo. Se houver alguma chance da população perder totalmente sua fé nesse tipo de política, pode ser quando estiver enfrentando uma crise econômica e uma pandemia global.

A aposta de Bolsonaro em mobilizar seus apoiadores contra o Congresso e o STF faz parte de uma estratégia deliberada de tentar consolidar sua posição ao fabricar crises políticas. Esse estilo de governança corresponde ao que Richard Seymour chama de “nacionalismo do desastre”, colocando Bolsonaro “contra o establishment”. Apostar na contínua radicalização do país até agora se mostrou uma estratégia vencedora para Bolsonaro e seus apoiadores – a onda de polarização desencadeada no país desde 2013 consumiu tudo em seu caminho até agora e ainda não desacelero.

A Polícia Militar vai às ruas

O movimento mais perigoso, no entanto, vem do interior do Estado. Existe um movimento insurgente entre a PM, que conta com 450.000 soldados, e busca construir um novo poder político através do cano do fuzil.

A PM sempre foi a vanguarda da criminalidade e repressão política no país. Desde que Bolsonaro assumiu o cargo, a PM vem matando em números recordes, enquanto as milícias – poderosas máfias paramilitares – vêm expandindo seu domínio para outros Estados. Em nenhum lugar isso está mais em evidência do que no Rio de Janeiro, a base do apoio de Bolsonaro.

Em uma tentativa de aumentar seu poder político, a PM – geralmente liderado por políticos alinhados com Bolsonaro – está lançando ataques ilegais em todo o país. As “greves”, inconstitucionais e portanto criminosas, não são tem como objetivo o aumento salarial, mas o uso da violência para estabelecer um poder político paralelo sobre políticos e civis. A PM foi transformada em uma força política com sua própria rede de políticos e agenda.

Uma recente greve de catorze dias no nordeste do Ceará, por exemplo, levou o PM a sair às ruas vestindo balaclavas e ameaçando os comércios locais, enquanto a violência aumentava em todo o Estado. Houve 241 pessoas mortas durante a greve, muitos desses assassinatos sendo obra de suspeitos de esquadrões da morte ligados à polícia. Em uma tentativa voraz de encerrar o motim policial, o senador Cid Gomes (irmão de Ciro Gomes) do Partido Trabalhista Brasileiro (PDT), de centro-esquerda, lançou uma retroescavadeira contra policiais mascarados e foi baleado duas vezes com uma pistola de calibre .40. Campanhas semelhantes ocorreram em todo o país, principalmente em Estados governados por partidos considerados hostis a Bolsonaro.

Como Matthew Richmond e eu argumentamos em um artigo à Jacobin no ano passado, a verdadeira ameaça de Bolsonaro reside possibilidade de promover uma forma paraestatal de autoritarismo que já é uma realidade em algumas cidades. Para entender a ameaça de Bolsonaro, “precisamos entender o fascismo não nos termos de seu protótipo europeu de meados do século XX, mas em sua aparência latino-americana contemporânea. Para identificar adequadamente a ameaça do autoritarismo violento no Brasil, precisamos olhar além do Estado e da mobilização popular, para o ‘para-estado’.”

As tentativas de Bolsonaro de mobilizar seus simpatizantes junto com o movimento da PM são mais evidenciais da ascensão do paraestado. Já vimos no assassinato de Marielle Franco e no motim que baleou Cid Gomes que o potencial aumento da violência contra a esquerda está à espreita por trás das multidões on-line que disseminam campanha de ódio e assédio direcionadas. Jornalistas e ativistas recebem cada vez mais ameaças de morte.

Os militares se revelaram defensores entusiasmados do projeto ideológico bolsonarista, em vez de protetores da ordem e da democracia, como muitos têm insistido que são. Desde que assumiu o cargo, Bolsonaro aumentou os gastos militares em 10% e nomeou nove militares para os vinte e dois ministérios – mais do que tivemos nos anos mais duros da ditadura militar. Longe de ser uma força moderadora, esses militares alimentaram jogaram mais gasolina nos incêndios do extremismo. Os militares e o capital não conseguiram moderar Bolsonaro e permitiram a contínua radicalização de seu governo.

Uma oposição fragmentada

A ironia nisso tudo é que cabe à esquerda se mobilizar em defesa das instituições democráticas – as mesmas instituições que derrubaram a presidente Dilma Rousseff no golpe de 2016 e prenderam o principal candidato nas eleições de 2018, o ex-presidente Lula da Silva, para abrir caminho para a eleição de Bolsonaro.

Por sua própria natureza, a oposição de esquerda é fragmentada, apesar da libertação de Lula da no ano passado e das grandes mobilizações em defesa da educação pública. A oposição política mais eficaz contra Bolsonaro surgiu das fileiras da classe política tradicional de centro-direita. Entre eles, o presidente do Congresso, Rodrigo Maia, o capo do Estado nordestino de Alagoas, senador Renan Calheiros, e o membro mais notório do STF, Gilmar Mendes – o maior defensor da imunidade do Congresso. O STF e o Congresso são, ocasionalmente, uma barreira ao avanço do governo de Bolsonaro. Por esse motivo que eles estão sendo ameaçados com uma “solução final”.

A esquerda brasileira recebeu a tarefa invejável de formar uma frente com as mesmas forças que abriram o caminho para a ascensão de Bolsonaro ao poder. Agora, ela precisa compartilhar as ruas e as redes para defender a democracia com nomes como o governador de São Paulo, João Doria, que fez campanha em 2018 para Bolsonaro e hoje se diz arrependido.

Essa frente de oposição ao Bolsonaro soma muito de seus ex-aliados, que vai desde o ex-astro pornô Alexandre Frota ao governador psicopata do Estado do Rio de Janeiro, Wilson Witzel. A oposição a Bolsonaro não deriva de nenhum princípio político, mas de ambições políticas próprias.

As eleições municipais de 2020 estão marcadas para o final deste ano, e a esquerda enfrenta não apenas a ameaça da extrema-direita, mas também da centro-direita, que está tentando consolidar a narrativa de moderada para justificar um retorno à normalidade.

Bolsonaro se mostrou um aliado não confiável, preparado para se voltar contra qualquer um que represente uma ameaça ou concorrência a ele e a seus filhos. Sua visão política está centrada nas perspectivas mimada de seus filhos e não em qualquer tipo de projeto coletivo. Sua oposição à corrupção é meramente moral; ele e seu clã há muito tempo se envolvem na corrupção sistêmica dos políticos do baixo clero.

Apesar do longo e consistente histórico de hostilidade à democracia de Bolsonaro, os centristas continuam descrevendo o social-democrata Partido dos Trabalhadores (PT) como uma ameaça igualmente perigosa à democracia. Lembremos o editorial do jornal Estado de São Paulo ao publicar o infame editorial dizendo que a eleição entre o candidato do moderado do PT, Fernando Haddad, e Bolsonaro, da extrema-direita autoritarismo, era “uma escolha difícil”. Isso foi demais para os liberais, que preferiram votar em branco ou votar secretamente em Bolsonaro.

Se o projeto antidemocrático de Bolsonaro se frustar, será necessária a mobilização coletiva da esquerda e a resiliência contínua da classe política. Os liberais provaram repetidas vezes que, se houver um empurrão, eles ficarão do lado de Bolsonaro.

A esquerda está enfraquecida e enfrenta um inimigo empenhado em sua extinção. As cordas que estão freando um autoritarismo total podem se romper – e não há garantias de que ela dure por muito tempo. Talvez agora, com o mundo entrando em uma nova crise, Bolsonaro perceba que teria sido melhor ter feito mais amigos do que inimigos após a eleição.

Sobre o autor

Benjamin é historiador e editor contribuinte de Africa is a Country e Jacobin.

"Não vamos trabalhar durante o coronavírus"

Itália, o país europeu mais atingido pelo coronavírus, anunciou o fechamento quase completo do comércio, mas muito locais de trabalho não essenciais continuam operando. Agora, os trabalhadores estão entrando em greve para impedir que os patrões arrisquem suas vidas.

David Broder


Mecânicos italianos Giacomo (à direita) e Alessandro fotografados na sua oficina em Roma, em 12 de março, quando o país fechou todas as lojas exceto farmácias e supermercados em uma tentativa desesperada de conter o avanço do coronavírus que já matou cerca de 6000. Alberto Pizzoli / AFP via Getty.

Tradução / “Não somos bucha de canhão”, relataram ao jornal La Repubblica os trabalhadores que se recusaram a cumprir seus turnos de trabalho durante a crise do coronavírus. Esta não é uma greve do tipo em que os trabalhadores se reúnem no portão da fábrica para fazer piquete. As pessoas estão com medo – e querem que o governo intervenha.

A Itália é o país europeu mais afetado pelo coronavírus, tendo cerca de 6.000 mortes no momento da escrita do texto. No entanto, ao mesmo tempo em que começava a implementar mais restrições de viagem, o governo permitia exceções por “motivos de trabalho”, sem deixar claro o que isto significava.

O governo de Giuseppe Conte fechou muitos negócios. Na quarta-feira à noite (11/03), todas as lojas “não-essenciais” (excluindo apenas supermercados e drogarias) foram informadas de que precisariam fechar, como bares, restaurantes, salões de beleza e outros locais que reúnem pessoas. No entanto, esta política ainda não foi aplicada aos locais de trabalho em geral – não importa o tamanho.

Alguns trabalhadores se recusaram a se arriscar. Na terça-feira, trabalhadores na planta da Fiat em Pomigliano, próximo a Nápoles, foram os primeiros a aparecer nas manchetes por terem entrado em greve. No dia seguinte, o grupo FCA (resultante da fusão da Fiat com a Chrysler) anunciou que estava fechando temporariamente a fábrica, além de outras três fábricas no sul do país, em Melfi, Cassino, e Atessa.

Em outra fábrica da FCA em Termoli, Molise, os trabalhadores estão em greve desde 14 de março. O sindicato declarou:

“As grandes fabricas são locais que juntam pessoas, do ônibus às linhas de montagem e o refeitório. É contra a lógica: o Estado fecha tudo, começando com as escolas, e proíbe o deslocamento – até mesmo emitindo sanções criminais contra as pessoas que ignoram os decretos. Mas, diferente da China, o governo italiano não fechou as fábricas; ele continua dizendo ‘fique em casa’, mas as linhas de montagem continuam produzindo, colocando os trabalhadores e suas famílias em risco.”

E assim como em outros pontos da história italiana, os trabalhadores nas famosas montadoras forneceram um exemplo. Na manhã do dia 12 de março, 450 trabalhadores entraram em greve na marca de roupas Corneliani, insistindo que “não há cidadãos Série A e Série B; saúde é o mesmo problema para todos.”

La Repubblica relatou mais greves nas metalúrgicas em Terni e nos estaleiros Marghera em Veneza; Il Secolo XIX relatou uma greve no porto de Genova onde os estivadores reclamaram que nada havia siso feito para limpar seus equipamentos. Junto com estas demanadas, os trabalhadores têm reivindicado uma paralisação parcial ou total das empresas até o final da crise.

Quem paga?

Mas as greves são apenas parte da resposta – até porque os próprios sindicatos temiam, até pouco tempo atrás, que uma reação “exagerada” poderia levar a Itália para uma recessão. O Ministro da Economia, Roberto Gualtieri (dos Democratas de centro-esquerda), insistiu que medidas também serão tomadas para que freelancers continuem recebendo algum pagamento.

Essas medidas são desejáveis, por mais limitadas que sejam, mas os sindicatos já denunciam o inicio de algumas demissões. Mais importante, a necessidade de um fechamento para conter o vírus faz com que não sejam os empregadores individualmente que vão decidir forçar seus trabalhadores a irem ao trabalho. O secretário da CGIL em Brescia, Francesco Bertoli, destacou que algumas empresas que trabalham com frete teriam dificuldades para parar e necessitariam de ajuda.

Há também casos claros de especulação com preços – e não apenas na venda de mascaras e álcool gel. Empresas de entrega de comida como a Deliveroo estão aproveitando da queda de clientes em restaurantes – e do fato de que mais pessoas estão presas em casa – mesmo que isto signifique que seus próprios trabalhadores estejam em risco e que possam até mesmo disseminar o vírus. Trabalhadores autônomos como eletricistas e encanadores também foram deixados para decidirem por conta própria se irão trabalhar.

No dia 3 de março, foi anunciado que haveria um pagamento mensal de € 500,00 durante 2 meses para aqueles em partite IVA (autônomos ou freelancers) nas “zonas vermelhas” mais atingidas e que estivessem sem conseguir trabalhar. Também foi anunciado que haveria uma ajuda de até € 1.000,00 por mês para trabalhadores demitidos durante a crise. Outras medidas prometiam a suspenção de pagamentos de hipotecas e contas – mas não de aluguéis.

O que resta ver é se os € 3,3 bilhões destinados a estes pagamentos vão sequer chegar a ser proporcionais a escala da crise, uma vez que se esperado cobrir quase um milhão de trabalhadores. Também há um outro problema espinhoso: se os trabalhadores terão que “compensar” o tempo perdido – Giorgio Gori, prefeito de Bergamo (um dos locais mais atingidos) sugeriu que os feriados de agosto fossem usados para compensar este período.

No país que há muito tempo vem sendo forçado por Bruxelas a cortar o gasto público (apesar de ter tido superávits primários por dois anos), há a inconveniente de falta de ajuda europeia. La Stampa apontou que o fundo de € 7,5 bilhões da União Europeia para as próximas semanas (parte de um pacote do total de € 25 bilhões) não vai fazer mais do que permitir aos governos usarem fundos que eles já tinham acesso, independentemente do quão afetado eles foram.

Os italianos, povo mais atingido na Europa, estão mostrando uma real resiliência, enquanto também se beneficiam de um sistema de saúde em que o direito a ser tratado não depende da sua capacidade de pagar. Ainda assim os efeitos econômicos da crise são reais – forçando os trabalhadores a se arriscarem mesmo quando os turistas são avisados para se manterem longe. As greves servem para insistir que a sociedade como um todo deve aguentar o peso, não aqueles que vivem de pagamento a pagamento.

Como disse um trabalhador na FCA de Termoli:

“Nós vamos recuar apenas quando o governo e a empresa decidirem parar tudo e nos pagar por esse tempo. Nós não podemos bancar a perda de mais dinheiro por um direito inalienável – fazer com que nossa saúde e segurança coletiva sejam a maior prioridade.”

Sobre o autor
David é historiador do comunismo francês e italiano. Ele está atualmente escrevendo um livro sobre a crise da democracia italiana no período pós-Guerra Fria.

Onde o liberalismo acerta - e erra

A tradição liberal é um complexo corpo de pensamento com o qual os socialistas devem lidar com seriedade. Mas hoje, preservar os ganhos do liberalismo - liberdades civis, liberdade de expressão e pluralismo social - significa rejeitar a defesa liberal dos direitos de propriedade privada capitalista.

Matt McManus


John Stuart Mill, um dos pensadores mais influentes da história do liberalismo clássico. (Foto: Universidade de Oxford)

Tradução / Irving Howe foi um dos escritores da esquerda americana mais adaptáveis de sua geração; era perfeitamente capaz de comentar desde a teoria da esquerda e salários dignos, mas também de refletir sobre sutilezas relacionadas a William Faulkner e à literatura americana. Um dos fundadores da revista Dissent, Howe morreu em 1993, aos 72 anos, tendo comprado brigas e abalado a devoção de esquerda quando achou necessário. Um exemplo marcante é seu artigo de 1977 “Socialism and Liberalism: Articles of Conciliation?” [Socialismo e Liberalismo: Artigos de Conciliação?] em que opina sobre a eterna disputa entre as duas principais doutrinas modernistas.

A esperança de Howe de que algum tipo de reaproximação pudesse ocorrer pareceria brevemente otimista demais, à medida que a era neoliberal se consolidou e o consenso keynesiano no qual ele se beseava se desintegrou. Olhando para trás, Howe também cedeu demais ao liberalismo, incluindo sua antipatia pela democracia direta.

Mas, nos dias de hoje, nos quais lutamos contra a ascensão da extrema direita, vale a pena revisitar os escritos de Howe sobre a afinidade entre liberalismo e socialismo.

O liberalismo e o socialismo podem se reconciliar?

Desde o início de “Socialismo e Liberalismo”, Howe reconhece um problema: o liberalismo é um conceito notoriamente escorregadio. Depois de percorrer várias definições – uma “corrente de opinião” na sociedade burguesa, um “sistema de ideias” que enfatiza as liberdades políticas e a tentativa de humanizar o capitalismo industrial, ele observa que, qualquer que seja sua definição, o liberalismo há muito é atacado pelos socialistas.

Os socialistas afirmavam que a noção liberal clássica da sociedade como uma coleção de competidores livres e iguais estava tão afastada da realidade que beirava a uma piada maliciosa. Os marxistas acusaram os liberais de elevar sua doutrina a uma “abstração supra-histórica”; acima de preocupações mesquinhas de poder e classe, e o próprio Karl Marx insistiu que o liberalismo deve ser tratado como a “superestrutura ideológica” de uma determinada época histórica, em grande parte provocada por mudanças materiais e relações tecnológicas.

Sendo ele próprio um socialista democrático, Howe endossa muitas dessas críticas. Mas ele insiste que os socialistas freqüentemente exageram – subestimando a afinidade entre liberalismo e socialismo e negligenciando as coisas que o liberalismo acertou. Por exemplo, em seu famoso debate com o anarquista Mikhail Bakunin, Marx rejeitou a objeção de que ele colocava muita fé no poder centralizado gradualmente que iria “murchando”, como é colocado nos propósitos comunistas. Isso se provou profundamente errado na prática. Howe aponta que muitos liberais podem ter alertado Marx para este potencial, uma vez que perceberam o problema “com maior profundidade, porque tinham um interesse mais genuíno” do que os socialistas.

O escritor e fundador da dissidência, Irving Howe. (Jose Mercado / Stanford News Service)
Howe também castiga os socialistas por espantarem a visão liberal da sociedade e sua teoria do poder supostamente inexistente. De acordo com os socialistas, os liberais concebiam a sociedade como estruturada por um individualismo atomístico e possessivo. Cada pessoa era um detentor de direitos privados, interagindo com seus pares puramente com base em trocas mutuamente benéficas. Esse liberalismo cegou os efeitos do poder econômico e as maneiras como o Estado liberal supostamente mínimo ajudou a entrincheirar o capitalismo em todo o mundo por meio do imperialismo e do colonialismo.

Howe argumenta que essa concepção presta um desserviço às nuances da teorização liberal. Liberais clássicos pensativos como John Stuart Mill – pode-se incluir Thomas Paine e Mary Wollstonecraft, entre outros – estavam bem cientes desses desafios e tinham maneiras específicas de lidar com eles, incluindo proteger as liberdades básicas e políticas, fomentar o pluralismo e impor controles para equilibrar o poder do Estado. Nem todas eram soluções que os socialistas prefeririam, mas eram soluções. Simplesmente descartá-los como “ideologia”, como se todos os liberais fossem ingenuamente inconscientes dos sistemas de poder, é historicamente incorreto.

Além disso, Howe escreve, há uma falha em reconhecer como os socialistas conseguiram fazer os pensadores liberais cederem e pensarem em como mitigar a influência do poder econômico e melhorar as condições dos pobres dentro da tradição liberal. Como ele diz:

Quase todas as sofisticadas análises (e portanto, em breve, não sofisticadas) da sociedade agora pressupõem que a política deve estar intimamente relacionada e mais ou menos vista como um reflexo do interesse social; que a sociedade forma uma totalidade na qual os vários domínios de atividade, embora separáveis analiticamente, estão entrelaçados na realidade; que nenhum segmento da população pode mais ser assumido como mudo ou passivo, e que apareceu uma força maior, a classe trabalhadora, que deve ser levada em consideração histórica; e que o racionalismo da maioria das teorias liberais, embora não (esperamos) simplesmente que seja descartado, deve ser complicado por um reconhecimento de motivos e fins no comportamento social que são muito mais ricos, mais complicados e profundamente perturbadores.

Os perigos de não democratizar

Howe é menos persuasivo ao exortar os socialistas a repensar sua afeição pela democracia direta.

De acordo com Howe, precisamos suspeitar dos esforços para estabelecer uma democracia mais direta, que tanto enfraquece as instituições representativas quanto deixa a porta aberta para “técnicas demagógicas”. As preocupações de Howe ecoam muitas das ansiedades liberais sobre o poder das massas e seu potencial de corroer o respeito pelos direitos individuais.

Howe está certo em alertar sobre a subestimação desse perigo, e ele está certo em criticar os socialistas democráticos por evitá-lo por meio de apelos retóricos “vagos”. Anos depois, Richard Rorty lamentaria a tendência na esquerda de buscar abstrações teóricas, como clamar por uma “democracia cada vez mais radical” sem fornecer detalhes sobre como algum sistema de substituição operaria ou evitar as armadilhas do puro majoritarismo. Muitas vezes, a resposta a essas perguntas era simplesmente desprezo ou denúncia, em vez de respostas claras.

No entanto, a era neoliberal mostrou de forma dramática os perigos de permitir que os céticos da democracia conduzam o navio. Com o ataque à social-democracia e ao estado de bem-estar, muitos programas e instituições importantes projetados para limitar o poder capitalista foram revertidos enquanto o próprio mercado estava cada vez mais “isolado” das pressões democráticas. Teóricos neoliberais como Friedrich Hayek e Gary Becker revelaram-se muito mais hábeis na dinâmica do poder social do que a esquerda poderia esperar.

Este processo foi tão bem-sucedido que muitos, de fato, agora pensam na sociedade como pouco mais do que um agrupamento sem poder de indivíduos atomizados em busca de seus próprios interesses puramente econômicos, talvez unidos por um resquício de liberdade ordenada pelas tradições. Ironicamente, a marcha do neoliberalismo gerou tanta raiva que, precisamente, as formas de política demagógica que preocupavam Howe e seus colegas liberais floresceram – exceto na direita, na forma do que chamei de “conservadorismo pós-moderno”.

A era neoliberal mostrou de forma dramática os perigos de permitir que os céticos da democracia conduzam o navio.

Pelo menos um dos motivos é conhecido há muito tempo pelos defensores da democracia participativa. Não basta que os cidadãos tenham seus pretensos ou reais interesses defendidos por partidos políticos representativos e associações. A democracia não é apenas um conjunto de processos ou instituições, mas um modo de vida. Permite-nos ter um interesse direto pela vida das pessoas ao nosso redor, gerando laços de vínculo cívico e amizade. Como Wendy Brown tem observado, quando os cidadãos passam a sentir que suas instituições políticas são pouco mais do que comitês de gestão trabalhando para as elites neoliberais, surge uma sensação de impotência política. Acrescente o aprofundamento da desigualdade econômica e uma mistura nociva de ressentimento que pode se formar, facilmente manipulável por populistas xenófobos como Donald Trump e Jair Bolsonaro.

Diante disso, e contra Howe, eu diria que os socialistas deveriam insistir mais do que nunca que preservar os ganhos do liberalismo (como liberdades civis, liberdade de expressão e pluralismo social) significa pressionar por mais democratização. Isso significa restringir o poder do tribunais, demolindo o Colégio Eleitoral e experimentando várias formas de democracia popular (não apenas referendos, que podem ser terrivelmente falhos, mas o orçamento participativo, conselhos de trabalhadores e iniciativas de cidadãos na legislação).

A afinidade entre liberalismo e socialismo

Em seu ensaio, Howe nos lembra que um dos pontos fortes da historiografia marxista – o que a torna dialética em vez de moralista – é o reconhecimento de que o liberalismo desempenhou um papel muitas vezes emancipatório em nome da humanidade em geral. Com muita frequência, os críticos de esquerda simplesmente condenaram o liberalismo como uma ideologia maliciosa a ser esmagada ou, ainda mais perniciosamente, criticada pela direita ao ridicularizar o atomismo e as qualidades alienantes do liberalismo.

Como diz Howe:

As tendências de esquerda mais extremistas, beirando o autoritário, foram tentadas a tomar emprestados alguns dos argumentos da direita, especialmente aqueles que desprezam a moderação flácida do liberalismo, seus alegados fracassos em confrontar realidades dolorosas da vida social e da natureza humana. Mas para os socialistas que aceitam amplamente as premissas de uma política liberal, existem outros problemas, notadamente o fato desconcertante de que a maior parte da crítica filosófico-existencial dirigida contra o liberalismo pode ser aplicada com igual força contra a social-democracia.

No entusiasmo da esquerda em ir além do liberalismo, podemos correr o risco de contorná-lo, adotando argumentos estranhamente conservadores sobre as virtudes do tradicionalismo comunitário, concebendo a existência como pouco mais do que várias formas de “vontade de poder”, lamentando nostalgicamente a inautenticidade ou artificialidade do presente alienante. Essas posições ignoram que a conquista histórica do liberalismo foi moderar a rigidez das hierarquias tradicionais e abrir caminho para uma sociedade onde todos eram, pelo menos em princípio, livres e iguais.

Como Karl Marx bem sabia, os liberais clássicos estavam errados ao presumir que havíamos ido tão longe quanto devíamos a esse respeito. Mas o caminho é para a frente, não para trás.

Talvez a lição mais importante que podemos tirar do ensaio seminal de Howe seja, como diria Rorty, sua impureza revigorante. Freqüentemente, ou gravitamos em torno de narrativas totalizantes sobre a transformação revolucionária do liberalismo e do capitalismo ou, desapontados, recuamos para uma micropolítica cética de resistência local às estruturas de opressão que cruzam o mundo.

Howe rejeitou esse binarismo, sabendo que fazia pouco sentido considerar a modernidade liberal como um pacote completo que precisava ser aceito ou rejeitado. Muitas características das sociedades liberais deveriam ser admiradas e até mesmo expandidas: seu reconhecimento de que o poder político deveria ser controlado poderia ser estendido à economia; o seu respeito demonstrado pelos direitos das minorias deve ser aprofundado num abraço genuíno do pluralismo social e cultural; seu secularismo deveria ser uma porta para investigar mais profundamente as necessidades existenciais das pessoas, em vez de compensar sua alienação por meio do consumo e do fetichismo da mercadoria.

Acima de tudo, o ensaio de Howe nos incentiva a sermos mais concientes com a mentalidade histórica. Quando descartamos as objeções de nossos oponentes como ideológicas, isso cria a impressão de que não estamos dispostos a enfrentar críticas de frente e explicar por que as soluções socialistas democráticas são melhores que as da direita. Mas, ao formular esses argumentos, também podemos reconhecer que os liberais também estavam certos sobre algumas coisas.

Sobre o autor

Matt McManus é professor visitante de política no Whitman College. Ele é o autor de "The Rise of Post-Modern Conservatism and Myth" e co-autor de "Mayhem: A Leftist Critique of Jordan Peterson.

11 de março de 2020

"A polícia não tem nada a ver com segurança pública"

O movimento pela abolição da polícia nos Estados Unidos encontra eco nos debates locais: contra os Carabineiros no Chile, nos distúrbios de setembro na Colômbia e nos debates sobre o uso da arma taser na Argentina. Conversamos com Alex S. Vitale, autor do best-seller "O Fim do Policiamento", sobre as propostas concretas para combater o crime fora do quadro repressivo.

Uma entrevista com
Alex S. Vitale

Entrevistado por
N. Roldán e I. Saffarano


La policía detiene gente de forma violenta en una protesta contra la brutalidad policial y el asesinato de George Floyd, el 31 de mayo de 2020 en Minneapolis, Minnesota. (Foto: Scott Olson / Getty Images)

Tradução / Em março de 2018, a polícia de Sacramento, Califórnia, matou brutalmente Stephon Clarke, um jovem negro de 22 anos de idade, desarmado. Na França, os protestos contra o assassinato policial de Adama Traoré, de nacionalidade franco-maliana, em 2016, ganharam novo ímpeto após os motins sobre a morte de George Floyd nos EUA. Em setembro do ano passado, em Bogotá, o uso de uma arma taser pela polícia levou à morte de Javier Ordóñez, provocando protestos em massa que resultaram na morte de dez manifestantes. Este é o pano de fundo da brutalidade policial e da militância contra a repressão contra a qual Alex Vitale escreveu seu livro O fim do policiamento.

Com os recentes protestos antirracistas ocorrendo no mundo todo, o livro de Vitale se tornou um best-seller e seu autor se tornou uma das vozes mais eloquentes do movimento para desafiar o sistema policial. Para seus oponentes no establishment liberal, Vitale é a figura mais visível e temida de uma nova onda de abolicionismo, enquanto seus leitores mais atentos o veem como a força motriz por trás de um novo modelo para lidar com o crime na sociedade.

“Policing“, termo preferido da Vitale, pode ser traduzido de duas maneiras: como “policiamento“ ou como “polícia“. Sem dúvida, o título do livro de Vitale tem muito mais impacto se pensarmos, como muitos já fizeram, no “fim do policiamento“. Mas, na verdade, é um erro interpretar o trabalho de Vitale como uma proposta abolicionista sem mais delongas. A tese principal do livro é diferente: pôr fim ao policiamento total e absoluto da sociedade. Antes de expandir as funções de intervenção policial, ou – como alguns setores progressistas propõem – melhorar sua formação para poder lidar com diversos problemas sociais, Vitale propõe que a ação policial seja radicalmente restrita e que eles deixem de lidar com questões que só podem ser tratadas através de políticas de transformação social.

Nahuel Roldán e Ignacio Saffarano conversaram com o autor do livro que muitos chamaram de “manual do movimento para desmantelar a polícia”, abordando temas como o surgimento histórico do policiamento moderno, o ressurgimento movimento antirracista no mundo e propostas concretas para enfrentar o crime fora do quadro repressivo.

IS / NR

O principal argumento de seu livro aponta para a ideia de abolir a polícia, ou pelo menos na forma em que ela existe hoje. Você poderia nos falar um pouco sobre este argumento geral?

AV

De certa forma, pode-se dizer que chegamos a aceitar a ideia de que o policiamento é um componente inevitável da civilização moderna. Mas, na verdade, sua forma moderna só existe há alguns séculos. O policiamento como instituição deriva da desigualdade. Os departamentos policiais foram criados, sobretudo durante o século XIX, em estreita conexão com realidades como a escravidão, o colonialismo e o controle na fábrica, por assim dizer, de uma classe trabalhadora industrial. Neste sentido, pode-se dizer que o policiamento é uma ferramenta para gerenciar as consequências de regimes exploratórios.

Hoje não somos necessariamente confrontados com a escravidão ou o colonialismo, pelo menos no sentido que estas palavras têm quando se referem ao período do século XVIII ao século XIX. Entretanto, ainda podemos observar que existem regimes baseados em exploração muito intensa, organizados em torno de realidades como o extrativismo, relações econômicas neoliberais, políticas de austeridade e ajustes estruturais. Os recursos econômicos são usados para subsidiar aqueles que são mais bem sucedidos na expectativa de que talvez alguns deles se reduzam magicamente ao resto. Evidentemente, em vez de gerar uma classe média crescente, tudo isso tem levado a uma desigualdade econômica permanente.

Na América Latina esta desigualdade se expressa na escala da miséria e da pobreza infantil, no fracasso das instituições educacionais, na escassez de recursos médicos, nos altos níveis de precariedade econômica e no crescimento ou continuação das economias informais, dos mercados clandestinos, e assim por diante.

Temos que levar em conta que a polícia é utilizada tanto para lidar com problemas cotidianos que costumamos chamar de “crimes de rua”, que certamente emergem destes problemas sociais e econômicos, quanto para a supressão de movimentos sociais que exigem uma mudança nesta situação. Penso que levar em conta esta análise da natureza funcional do policiamento nos impede de cair no erro de pensar que poderíamos resolver o problema com mais treinamento, câmeras no corpo, salários mais altos, diversificação de forças, mais treinamento e etc..

O que ouvimos com frequência na América Latina é que a polícia é mal paga e, portanto, corrupta, ou que não recebe treinamento suficiente, o que torna suas práticas muito brutais. Mas a verdade é que a corrupção e a brutalidade estão inscritas neste modelo de abordagem de problemas sociais através do policiamento quando, na verdade, o policiamento não é concebido para resolver estes problemas, mas para contê-los.

Em meu livro tento esboçar o que poderíamos fazer em vez de policiar para resolver este tipo de problemas. Acredito que muitos desses problemas são relevantes no caso da América Latina se levarmos em conta o crescimento da violência entre os jovens, o tráfico, a miséria, a criminalidade de rua e etc.. Meu objetivo é explorar estas alternativas no contexto de reivindicações mais amplas sobre justiça racial e econômica.

IS / NR

Em algumas resenhas do livro no The New York Times e Washington Post, há uma referência direta à abolição da polícia. No entanto, quando lemos seu livro tivemos a sensação de que era mais interessante interpretar a expressão “o fim da polícia” como “o fim do policiamento”, já que nos parece que uma de suas principais teses implica que a polícia não deve ser reformada para intervir em questões de saúde mental, sem-teto e etc., situações que não têm nada a ver com o controle do crime, mas que o objetivo deve ser o de dissociar a polícia dessas situações para que elas possam ser resolvidas por outras instituições.

Portanto, gostaríamos de lhe perguntar, em relação ao termo “policiamento”, se se trata de desvincular a polícia desses lugares ou se, como dizem seus críticos no The New York Times e no Washington Post, você argumenta que a polícia deveria ser abolida.

AV

]Em certo sentido, acho que o título pode ser tanto “o fim do policiamento” como “o fim da polícia”. O que também não seria o ideal, pois é preciso acabar com o policiamento. Mas meu livro não aborda muito a fundo esta questão. Talvez não seja suficientemente crítico quanto à extensão do policiamento a realidades como o trabalho social, agências de serviço social e etc.. Enquanto esses serviços forem oferecidos sob a lógica neoliberal de austeridade e responsabilidade individual, eles não constituirão uma solução real para o problema.

Agora, apesar dessas apreensões, o fato é que falo um pouco sobre isso no livro e é uma questão da qual estou muito consciente. Mas não é tão simples assim. O exemplo que discuto com mais detalhes sobre isso é quando trato da miséria, caso em que foi criada toda uma infraestrutura de serviços que não leva a lugar nenhum. As pessoas são obrigadas a passar por toda uma série de processos (abrigos de transição, treinamento profissional e etc.) que, no entanto, não lhes permitem jamais ter uma casa ou um emprego. Trata-se simplesmente de manipular as pessoas, mantendo-as sob controle e, embora isto seja certamente menos violento e coercitivo do que colocá-las na prisão, não é uma solução real.

Não estou interessado em reproduzir um tipo de Estado de bem-estar social que simplesmente sirva para propagar um capitalismo mais bondoso e mais gentil. Em vez disso, estou interessado em repensar esses regimes de exploração que estão no coração do capitalismo contemporâneo, e que são incentivados pelas práticas de policiamento, uma das quais é a polícia uniformizada.

IS / NR

Gostaríamos de falar um pouco sobre a gênese e as transformações históricas das instituições de policiamento, que você abordou brevemente. Quais são os pontos de referência que devemos ter em mente quando tentamos entender o policiamento e a polícia contemporâneo? Entendemos que é difícil abordar a situação global e o caso dos EUA simultaneamente, mas pensamos que existem algumas realidades comuns, como a “teoria das janelas quebradas”, que talvez nos permitam fazer algumas ligações.

AV

Primeiramente abordarei as origens históricas do policiamento, tal como entendemos hoje. Como disse anteriormente, ela tem suas raízes em realidades como a escravidão, o colonialismo e a industrialização. Tudo isso pode ser visto no caso da América Latina, onde as potências coloniais européias trouxeram pela primeira vez um modelo militar de controle social, utilizando forças armadas, criando sistemas de escravidão e colonialismo apoiados pela tortura e às vezes assassinatos e exterminações em massa. Mas acontece que esta abordagem é muito cara e ilegítima. Isso leva a constantes resistências, revoltas e, portanto, o que marca a história do colonialismo é a vontade de criar um sistema mais suave de controle social, menos violento, que tenha mais estabilidade e legitimidade. É isso que o policiamento civil está tentando alcançar.

Se prestarmos atenção à história dessas forças de ocupação colonial, a primeira coisa que vemos é que elas tentaram usar as populações locais para seu próprio projeto de poder. Isto talvez seja mais evidente na África e no Sul da Ásia, onde populações indígenas foram recrutadas para fazer parte da polícia, sendo o colonialismo branco seu núcleo continental. Isto, naturalmente, mina a obsessão norte-americana que temos com coisas como requisitos de residência e diversificação do policiamento.

A história do policiamento colonial é a história de como as populações locais foram recrutadas para usar contra seus vizinhos locais. E, de fato, o que costumava ser feito era pegar pessoas de uma área e atribuí-las serviços em uma área diferente para tentar evitar que qualquer tipo de simpatia se desenvolvesse. Portanto, esta ideia de que vamos consertar o policiamento com estas reformas é ridícula.

Os desenvolvimentos da forma mais moderna de policiamento surgiram na busca de legitimidade e estabilidade para facilitar a exploração. O policiamento não surgiu como um sistema para garantir a segurança pública. Ele surgiu como um sistema para produzir e manter a ordem social. Mas esta ordem não beneficia a todos igualmente. Esta ordem está sempre ancorada em regimes de exploração. Às vezes a busca pela ordem inclui coisas como manter o crime de rua à distância, do qual a maioria das pessoas provavelmente pode se beneficiar. Mas quando se trata disso, vê-se que a principal função da polícia não é garantir a segurança das pessoas, mas conter a resistência e qualquer coisa que interfira com os regimes de exploração.

IS / NR

Como se deve pensar sobre a interpenetração entre o sistema de justiça criminal e o policiamento? 

AV

É uma pergunta interessante. Durante os anos 60 nos EUA, experimentamos uma onda do que poderíamos chamar de “reforma policial” em resposta ao Movimento de Direitos Civis e à convulsão social daquela época. A necessidade de ajustar o policiamento foi sentida pelo establishment. O ajuste que estava disponível era realmente sobre uma nova concepção mais intensa do policiamento como uma extensão do sistema de justiça criminal. Antes disso, acho que era mais claro que o policiamento era principalmente uma ferramenta de controle. Mas a reforma dos anos 60, que tendeu à profissionalização, teve como objetivo integrar a polícia com os tribunais e assim por diante. Assim, começamos a pensar na polícia como o elo final no sistema de justiça criminal. E isto significa mais treinamento, treinamento jurídico, uma maior preocupação em reunir as provas apropriadas para os processos judiciais e etc..

Neste contexto, a polícia começou a pensar em si mesma como uma instituição “de combate ao crime”. É esta ideia que a polícia captura os criminosos certos reunindo as provas certas, que se expressa hoje com a loucura sobre tecnologia, provas forenses e programas de TV como C.S.I, onde toda a ênfase está em encontrar uma amostra de tinta que nos levará a algum assassino em série insuspeito. Mas tudo isso é um mito e não tem nada a ver com policiamento como ele realmente existe.

Tudo isso é ideologia e não realidade, porque a polícia permaneceu durante todo esse tempo um instrumento cuja função principal é a manutenção da ordem. A grande maioria do que eles fazem não está articulada com o resto do sistema de justiça criminal. Eles cobrem assuntos não-criminais e também tratam de assuntos criminais fora do sistema de justiça criminal.

Deixe-me dizer mais uma coisa sobre isto. Parte do que me motivou a escrever o livro foi o fato de ter testemunhado o surgimento de um discurso muito crítico sobre o encarceramento em massa. Tanto no meio acadêmico como nos movimentos sociais, o foco era o chamado complexo industrial penitenciário. E me pareceu que havia algo de estranho em toda esta abordagem. Em primeiro lugar, ninguém chega à prisão sem primeiro ter lidado com a polícia e, em segundo lugar, o policiamento cria muitos danos que estão completamente desconectados do resto do sistema de justiça criminal. As mortes extrajudiciais, a brutalidade, o assédio, mesmo fora de qualquer tipo de operação, e assim por diante. Portanto, achei importante acrescentar a este debate abolicionista uma crítica que se concentre explicitamente na natureza e no papel funcional do policiamento.

IS / NR

Que tipo de mudanças ou reformas você acha que deveriam ser implementadas no sistema de justiça criminal?

AV

Parte do problema é que, nos EUA (e em muitas outras partes do mundo), o sistema de justiça criminal não é tão eficaz quanto deveria ser. E, em muitas outras partes do mundo, transformamos o que são fundamentalmente problemas sociais e econômicos em problemas criminais. Isto foi feito para aumentar o escopo e a intensidade do policiamento e para expandir o escopo e a intensidade do direito penal e das prisões. A reforma geral, ou transformação radical, que é necessária, envolve o afastamento da definição dessas realidades como questões que devem ser tratadas pelo sistema de justiça criminal, do policiamento através dos tribunais para as prisões.

A miséria não é o resultado de falhas morais individuais expressas em violações da qualidade de vida que devem ser gerenciadas por um policiamento intensivo e um encarceramento rápido, nem por tribunais especializados. É um problema que tem a ver com o completo fracasso dos mercados imobiliário e de trabalho nos EUA e, internacionalmente, que terá que ser resolvido diretamente em última instância. Esta é basicamente a análise do ponto de vista do policiamento e do abolicionismo penal, que argumenta que estamos falando sobre profundas desigualdades, transformando-as em problemas criminais e gerenciando-as através do sistema de justiça criminal.

O policiamento não é o único neste sentido, nem as prisões. Tudo faz parte do mesmo processo que o professor de direito Jonathan Simon chamou de “governar através do crime”. É realmente isso que me impulsiona a fazer o trabalho que faço, a ideia de que temos que parar de governar através do crime. Minha esperança é que quando rompermos com esta lógica de governar através do crime, isso abrirá um espaço político para um debate muito mais amplo sobre o que realmente precisamos para alcançar a verdadeira justiça econômica e racial, sobre que tipo de transformações políticas e econômicas são necessárias a esse respeito.

IS / NR

Você poderia comentar brevemente o que pensa sobre a situação atual dos movimentos sociais?

AV

O que estamos vendo é uma espécie de convergência de toda uma série de movimentos sociais que compartilham análises muito profundas e radicais. E penso que, de certa forma, sua capacidade de convergir tem a ver com essa capacidade de análise.

Durante os últimos vinte ou trinta anos, o que vimos nos EUA foi o surgimento de muitos movimentos organizados em torno de uma única questão, mantendo em geral uma lente liberal em sua análise, com uma vontade de operar dentro da política geral para fazer algumas melhorias (sobre questões ambientais, sem-teto, direitos das mulheres e etc.). Em vez disso, o que estamos vendo agora são movimentos que têm uma análise socialista muito mais radical: há revoltas, pessoas que se consideram comunistas, movimentos anarquistas, análises profundas do que significaria alcançar a justiça racial, e assim por diante. O que estamos vendo é a aproximação de movimentos como o Occupy Wall Street, Black Lives Matter, o socialismo democrático, o movimento ambientalista radical, entre outros.

Os protestos do último verão foram caracterizados por sua diversidade. É uma diversidade racial, mas ao mesmo tempo uma diversidade política, no sentido de que as questões que reúnem esses movimentos geram muita fermentação. Em nível mais regional, estamos vendo isto se expressar mesmo em vitórias eleitorais. Estamos vendo a ascensão de um movimento político que é capaz de conquistar alguns lugares nos municípios e na legislatura. Entretanto, tudo isso ainda está muito longe da política nacional. Nenhuma dessas ideias está sendo levada a sério pelas lideranças dos principais partidos nos EUA, o que cria um profundo pessimismo sobre as eleições nacionais, pois é evidente que nenhum dos partidos políticos vai levar a sério essas questões. Mas esta construção subterrânea de base está em movimento e começa a ganhar visibilidade. Em todo caso, ainda temos um longo caminho a percorrer.

IS / NR

Você pode falar um pouco sobre a relação entre a polícia e outras instituições políticas. Para ser mais específico, o sindicato policial explicitou seu apoio a Donald Trump que, por sua vez, apropriou-se de um discurso feroz em favor da “lei e da ordem”.

AV

Nos EUA, fala-se muito sobre como os sindicatos policiais interferem na reforma policial e nas possíveis alternativas ao policiamento. É claro que há alguma verdade nisso. Mas, em última análise, é um diagnóstico incompleto do problema, porque as forças políticas que favorecem uma visão de mundo orientada para a polícia excedem em muito a instituição policial em termos específicos.

Os sindicatos policiais são simplesmente um ponto de convergência para toda uma gama de atores políticos, incluindo seguradoras imobiliárias, proprietários conservadores, proprietários de pequenas empresas, e assim por diante. Por exemplo, ganhar o apoio da polícia não é simplesmente uma questão de conseguir que os membros de um sindicato policial votem de uma certa maneira. Ao contrário, ela aponta para a existência de toda uma constelação de forças políticas de direita. E deve até mesmo ser dito que se de alguma forma fossemos neutralizar ou proibir os sindicatos policiais, isso não impediria a polícia de permanecer um ator político.

Podemos ver isso na América Latina, onde a polícia exerce influência política independentemente dos sindicatos formais. Eles se aliam a partidos de direita, exercem sua influência sobre partidos conservadores e até moderados, oferecem dinheiro e proteção, e fazem declarações políticas inflamadas. Uma análise mais ampla dessas forças de direita, que parecem aderir ao policiamento mas não estão de forma alguma limitadas à forma específica dos sindicatos, é, portanto, necessária.

IS / NR

É este policiamento que você aponta, que talvez possa ser definido como um processo de militarização, análogo nos países da América Latina e nos EUA?

AV

A militarização nunca é simplesmente uma questão de tecnologia e equipamento. Trata-se, fundamentalmente, de uma forma de pensar. Em geral, cometemos o erro de tentar separar artificialmente os militares da polícia. Esta separação é típica dos projetos liberais. Mas, na verdade, estas realidades sempre foram integradas. Em seu excelente livro Badges without borders, Stuart Schrader tenta minar esta ideia, como faz Micol Seigel em seu livro Violence Work.

O policiamento tem algumas formas destinadas a dar-lhe legitimidade e são bastante independentes. Mas a história dessas instituições é de diálogo constante, e à medida que os desafios à ordem crescem, o policiamento recorre a intervenções cada vez mais intensas, invasivas e militaristas. Em países com baixa legitimidade, alta desigualdade e alta resistência, o policiamento é mais violento e mais intenso, mais repressivo. Ao contrário, em países com níveis mais altos de legitimidade, menores níveis de desigualdade e menos resistência, o policiamento pode ser mais amigável, ter mais tato, podemos assim dizer.

Mas como vimos neste último verão nos EUA, quando a resistência irrompe, o policiamento imediatamente se torna mais violento, menos legítimo, porque a ordem fundamental está sendo ameaçada. E quando chega a hora da verdade, a polícia sempre escolhe a “ordem” em vez da lei, da justiça, dos direitos humanos ou qualquer outra coisa.

IS / NR

Uma crítica comum a seu livro é que ele propõe a abolição da polícia sem propor qualquer alternativa. Se não for este o caso, quais são as propostas concretas para reduzir a violência?

AV

Quero retomar aqui um ponto da pergunta anterior, que me permitirá passar ao assunto sobre o qual você está me perguntando. Nos últimos anos na América Latina, temos visto um ciclo de políticas de mão de ferro, onde o policiamento se torna mais intenso e militarizado. É o caso, por exemplo, no Uruguai, e mais recentemente na América Central. Esta intensificação do policiamento sob a mão de ferro é uma resposta a certos desafios profundos à ordem existente. Se observarmos a forma como este policiamento é conduzido, nunca se trata realmente de garantir a segurança pública ou a estabilidade social em termos gerais. Ao invés disso, trata-se de neutralizar estas ameaças à ordem. A polícia entra e ocupa uma favela ou uma vila para evitar que o tiroteio se propague nos bairros de classe média e alta. Mas as condições nestas comunidades nunca melhoram, nenhum novo emprego é criado e nenhuma estabilidade é gerada por estes processos.

Então, o que devemos fazer? Coisas muito interessantes estão acontecendo na América Latina. No Equador e em partes da América Central tem havido tentativas de abordar a violência juvenil, a violência de rua e a violência de gangues através de estratégias de inclusão social. Estas campanhas tentam legalizar as quadrilhas de rua e incluí-las em processos políticos, porque o que está impulsionando a violência é, em grande parte, uma profunda alienação econômica, social e política. No Equador eles disseram “bem, vamos parar de reprimir as gangues de rua, vamos tentar incluí-los em um processo político e de alguma forma melhorar sua situação econômica”.

Os jovens que vivem estas realidades muitas vezes sabem melhor do que ninguém quais são os impedimentos em suas comunidades e quais são os desafios. Portanto, a ideia é incluí-los em um processo político popular para identificar esses problemas e trabalhar em conjunto para encontrar soluções. E no mesmo processo, tentamos conter a violência. Acredito, como muitas pessoas, que não podemos esperar por alguma transformação política profunda para enfrentar a violência que se desenvolve dentro das comunidades, pois é precisamente essa violência que leva as pessoas à direita, deixando-as à mercê do policiamento e de políticas de mão de ferro.

Portanto, temos que abordar de alguma forma a questão da violência. Isto é parte de qualquer estratégia de mobilização política, e é exatamente o que as estratégias de inclusão social, que provaram funcionar. Da mesma forma, nos EUA temos programas como Cure Violence e Credible Messengers, que não estão resolvendo a pobreza em termos gerais, mas estão contendo a violência e abrindo algum espaço para a solidariedade nas comunidades, o que é necessário para qualquer tipo de programa de mobilização de massa.

IS / NR

Para encerrar: recentemente na Argentina, houve um caso que ganhou alguma visibilidade na mídia. Após ameaçar as pessoas de um bairro de Buenos Aires, uma pessoa que evidentemente tinha sérios problemas psicológicos acabou esfaqueando um policial até a morte, e depois morreu por ter sido baleada várias vezes por outros policiais no local. Isto tem sido usado para reforçar um discurso a favor do uso de tasers, que estava circulando antes deste acontecimento. Qual é a sua opinião sobre este debate?

AV

Eu diria duas coisas. A primeira é sempre perguntar se, ao responder a tais chamadas, a polícia não poderia ter agido de forma diferente, gerenciando a situação sem intervenção armada. A segunda é que estas armas “menos letais” são frequentemente vendidas para nós como uma forma de salvar vidas. Mas o que podemos ver é que na verdade acaba se tornando um processo de “escalada”, o que significa que os tasers não são usados apenas em situações onde uma arma poderia ter sido usada, mas eles começam a ser usados em todos os lugares e para todo tipo de coisa. Portanto, o resultado é um maior uso de força, sem mencionar o fato de que algumas pessoas são mortas por tasers. Portanto, deve ser dito que esta é uma resposta profundamente incompleta para o problema.

Sobre o entrevistador

ALEX S. VITALE é professor de sociologia e coordenador do Policing and Social Justice Project no Brooklyn College. Ele é o autor do livro "Abolindo a polícia" (Autonomia Literária 2021).

Sobre os entrevistados

NAHUEL ROLDÁN é pesquisador do CONICET, coautor de “Yuta” (2020) e professor da Universidade Nacional de Quilmes e da Universidade Nacional de La Plata (Argentina).

IGNACIO SAFFARANO Ignacio Saffarano es abolicionista penal, integrante del Área de Sociología de la Justicia Penal – Universidad Nacional de La Plata (Argentina).

10 de março de 2020

Leia o romance de Vivian Gornick sobre o comunismo americano

Baseado em entrevistas com ex-membros do Partido Comunista, o livro de Vivian Gornick, The Romance of American Communism, é um livro cheio de pessoas emocionadas que lutam para falar sobre suas emoções. Mostra como o compromisso do partido deu à vida cotidiana uma dimensão épica - e transformou as derrotas políticas em traumas pessoais.

Hannah Proctor

Jacobin

Um grupo de homens se reúne na sede do Partido Comunista dos EUA após um protesto exigindo aumento de salário e o fim da brutalidade policial, EUA, por volta de 1920. Hirz / Archive Photos / Getty


Resenha de The Romance of American Communism de Vivian Gornick (Verso, 2020).

No final dos anos 1960 e início dos anos 1970, a jornalista e crítica Vivian Gornick publicou vários artigos longos e apaixonados no Village Voice sobre suas experiências e impressões sobre o crescente movimento de libertação das mulheres. Refletindo sobre aquele período de revelação e agitação feminista em 2015, ela descreveu um conflito rejeitado “entre o ardor de nossa retórica revolucionária e os ditames da realidade de carne e osso... quase cada uma de nós se tornou uma personificação ambulante da lacuna entre teoria e prática. ” Esse mesmo tema inspirou sua obra de 1977, The Romance of American Communism, que reúne entrevistas realizadas em meados da década de 1970 com ex-membros do Partido Comunista dos EUA (CPUSA). Em sua nova introdução à reedição do livro pela Verso (lançado neste mês), Gornick lembra que testemunhar o surgimento de um comportamento dogmático em reuniões feministas a levou a revisitar o ambiente comunista de sua infância. Ao fazê-lo, ela procurou examinar as formas contraditórias como as pessoas viviam seus compromissos políticos dentro das limitações do Partido.

O relato de Gornick começa refletindo sobre as memórias dos membros do Partido e companheiros de viagem que se encontravam na mesa da cozinha de sua família no Bronx: "They spoke and thought within a context that had world-making properties." Começando com uma discussão sobre as comunidades judaicas de imigrantes em Nova York, ela então viaja pelos Estados Unidos, enfatizando as origens e trajetórias de vida variadas dos membros do Partido - “nos campos da Califórnia, nas fábricas de automóveis de Flint, nas siderúrgicas de Pittsburgh, nas minas de West Virginia, nas usinas elétricas de Schenectady. ” Alguns daqueles com quem ela fala foram expulsos do Partido, alguns foram julgados pelo Comitê de Atividades Não-Americanas da Câmara durante a era McCarthy, alguns foram para a clandestinidade quando a ameaça do fascismo parecia iminente. Outros saíram por conta própria - muitos após o "Discurso Secreto" de Nikita Khrushchev ao Vigésimo Congresso do Partido Comunista Soviético em 1956, embora alguns tenham resistido até a invasão da Tchecoslováquia pelo Pacto de Varsóvia em 1968.

O Romance of American Comminism explora o engajamento político através das lentes do "impulso, necessidade, medo, dúvida e anseio" - e a prosa de Gornick goteja emoção. Quando o livro foi publicado pela primeira vez, não foi recebido com entusiasmo nem pela esquerda nem pela direita. Em uma crítica na New York Review of Books, que Gornick afirma tê-la enviado "para a cama por uma semana", Irving Howe não fez rodeios:

Para ela, é tudo vibração, recordação de fraternidade, amontoados, "paixão". Ela não tem quase nada a dizer sobre o sindicalismo dual, o “fascismo social”, a Frente Popular, os Julgamentos de Moscou, o papel do NKVD, a expulsão de Browder, o julgamento de Slansky, a revolução húngara. Às vezes, é preciso lembrar que, em sua evocação de aconchego e calor, ela está escrevendo sobre o PC na época de Stalin e não sobre um acampamento de verão.

Em sua nova introdução à reedição, a própria Gornick é contundente com o estilo do livro: “Conceber a experiência de ter sido comunista como um romance era, pensei e ainda penso, legítimo; escrever sobre isso romanticamente não era.” Ela recusa a linguagem efusiva e ocasionalmente floreada do livro e recua diante do "emocionalismo tão forte que você poderia cortá-lo com uma faca". Certamente o tom do livro às vezes é exagerado. O compromisso político é descrito como uma energia, uma força, uma paixão, um “sentido elétrico da vida, um fogo - flui, brilha, voa, vibra, arde”. Existem infindáveis florações, florescer e chamas, enquanto os comunistas brilham, irradiam e brilham. Tudo está sempre “vivo”. Mas a profusão de metáforas vem tanto dos entrevistados de Gornick quanto dela - e parecem apropriados para as experiências afetivas expansivas que o livro procura transmitir.

Carne no esqueleto

Talvez Howe estivesse certo ao dizer que este não seria o melhor livro para ler para aprender sobre a história institucional do CPUSA, tal como relacionado à história dos Estados Unidos ou a história do comunismo globalmente. No entanto, Gornick deliberadamente decidiu escrever algo diferente dos relatos existentes sobre o Partido, que não conseguiram capturar a atmosfera apaixonada que ela lembra ter envolvido os comunistas de sua juventude. Em sua revisão das memórias de Howe, A Margin of Hope publicada no Nation em 1983, Gornick observou que, apesar de demonstrar "generosidade intelectual" ao discutir literatura, sua prosa tornou-se imediatamente "densa, obsessiva, inflexível e beligerante" quando se fala sobre política.

Gornick não descarta esses escritores por suas opiniões políticas tanto quanto por sua falta de curiosidade sobre o compromisso político de esquerda como experiência - algo que eles têm em comum com jornalistas liberais que escrevem sobre a renovação do socialismo hoje. O comunismo americano, ela insiste, foi uma “experiência vasta, extensa, fragmentada e intensamente variada” irredutível à violência do stalinismo soviético. Mas seus cronistas - muitas vezes ex-comunistas que se autopuniam - tendiam a “negar a vida abundante e contraditória” que a caracterizava, em favor da reprovação imparcial. Gornick esperava que, por meio de suas entrevistas, ela pudesse “colocar carne no esqueleto” - reconectando a história com as pessoas que a fizeram.

Solidão e isolamento são temas em grande parte do trabalho de Gornick - e em The Romance of American Communism, o engajamento político muitas vezes funciona como seu antídoto. Repetidamente, Gornick e seus entrevistados referem-se ao “contexto” fornecido pelo Partido, indicando tanto a força explicativa do marxismo quanto as experiências de envolvimento diário na organização política. Muitos de seus entrevistados descrevem seu isolamento antes de ingressar no Partido: “No fundo, eu era uma pessoa ferida e sem-teto”, lembra um ex-membro do Partido; “Havia uma raiva terrível o tempo todo e isso me deixava muito solitário”, opina outro. O Partido era uma fonte de camaradagem e convicção compartilhada que dava sentido à vida: “O que quer que fôssemos ou não, fomos comunistas, não éramos solitários. Esta doença que está matando lentamente todo mundo hoje, que está me matando, esta doença era desconhecida para nós como comunistas.”

O envolvimento com o Partido figura no livro como uma conexão com os outros e como uma conexão com o mundo como um todo: “desde o início me senti conectado ao mundo, estando no PC, e eu amei e precisava desse sentimento.” Muitas das histórias de vida contadas têm a estrutura de narrativas de conversão, descrevendo encontros iniciais com comunistas ou com “o estofo transformador” do pensamento marxista: “a conversa deles me hipnotizou ... não sabia o que significava, mas de alguma forma, eles estavam tocando aquela solidão em mim." Embora muitas das pessoas com quem Gornick fala reflitam amargamente sobre as falhas do Partido em compreender a realidade das classes trabalhadoras americanas, muitos foram politizados pela "presença agitada" da injustiça e da miséria nos Estados Unidos. E não apenas estavam lutando para criar a sociedade pós-revolucionária sem classes do futuro, mas também participaram da criação de um mundo social alternativo no presente, dentro do Partido: “Ele literalmente negou nossa privação. Era rico, quente, enérgico, uma densidade emocionante na qual nossas vidas estavam envolvidas. Ele nos alimentou quando nada mais nos alimentou. Não apenas nos manteve vivos, mas também nos tornou poderosos dentro de nós mesmos.”

Com os pés no chão

As entrevistas de Gornick captam a coexistência da camaradagem com o trabalho penoso do dia-a-dia dos mimeógrafos, da venda de jornais e de “reuniões intermináveis”. Ela também descreve como a vida no Partido se misturava com as experiências das pessoas nos locais de trabalho, sindicatos, cooperativas, bairros e famílias - "A teoria leninista-marxista está toda misturada com basebol, trepadas, dança, venda do Daily Worker, besteiras e vivendo a vida de rua judaico-americana". Um tema recorrente ao longo das entrevistas é a sensação de que a vida cotidiana foi varrida pela história global e, como resultado, adquiriu uma sensação de grandeza e interconexão: "O mundo estava ao seu redor o tempo todo. ... O sentido da história com a qual você convivia diariamente. A sensação de refazer o mundo."

Em "Communist Feelings", um artigo que co-escrevi com Larne Abse Gogarty, que discutiu o livro de Gornick juntamente com The Golden Notebook de Doris Lessing, estávamos interessados em saber como as confusões de escala descritas por Gornick são úteis para pensar sobre experiências em movimentos políticos hoje, reconhecendo

as implicações potencialmente prejudiciais das lutas políticas que parecem abranger todos os aspectos da vida e do eu dos ativistas (e, portanto, exigem que os indivíduos "mantenham as coisas em proporção" para o bem do seu próprio bem-estar), ao mesmo tempo que insistem na necessidade de as pessoas à esquerda a pensar e agir de forma desproporcional, a recusar ser intimidado pela enormidade dos obstáculos que enfrentamos.

Para Gornick, "a experiência comunista é de proporções épicas". As relações forjadas no Partido, tanto amizades como romances, estavam emaranhadas com a grandiosidade da visão comunista: "era como se tivéssemos terminado, estávamos a trair a revolução". Como escrevemos em "Communist Feelings":

O grande sonho do comunismo imbuiu as experiências do dia-a-dia, as amizades, as relações familiares e os romances com significado político e, assim, pareceu elevar, inflar ou intensificar essas experiências até que assumiram um aspecto quase histórico mundial. ... Mas quando o sonho "desabou", trouxe essas experiências interpessoais desabando, esvaziando-as.

A solidão não só precedeu o envolvimento das pessoas com o Partido, mas por vezes acompanhou-o ou seguiu-o: o isolamento desolador da vida subterrânea, a súbita frieza sentida por aqueles que foram expulsos, bem como o sentimento de perda descrito por muitos que optaram por partir. Ela conhece um casal que afirma ser mantido unido apenas pelas "feridas do passado".

Ela encontra pessoas em luto pela perda da sua comunidade política e, em alguns casos, dos seus compromissos políticos: "dentro deles a dor começou a fluir, a dor pura: a dor da perda, da morte, da paixão voltada para si mesma". Muitos ainda são incapazes de reconhecer ou explicar a crueldade que testemunharam e participaram. Gornick identifica em um entrevistado "um sentido despedaçado das coisas, uma totalidade anulada na qual caem as perplexidades miseráveis". Pessoas que outrora partilhavam uma visão do mundo coerente parecem agora perdidas, à deriva das certezas que as ligavam a uma luta global e isoladas dos seus antigos camaradas.

Remanescente humano

Gornick é especialista em extrair as contradições inerentes ao seu tema: a coexistência de coletividade e paranóia, solidariedade e vingança. O livro contrapõe uma imagem de consciência política vibrante com o tipo de "idiota árido e morto" que fala como a Pequena Biblioteca Lenin. Este é um livro sobre emoções cheio de pessoas emocionais que, no entanto, lutam para falar explicitamente sobre suas emoções. Os sentimentos apaixonados evocados pelo Partido e vividamente recordados pelos seus antigos membros permanecem em tensão com o desinteresse discursivo do Partido no sentimento apaixonado como força política: "faça-lhe uma pergunta política e ele terá uma vida instantânea e vibrante, faça-lhe uma pergunta tendo a ver com seus próprios sentimentos ou experiência emocional e ele fica em branco doloroso e interrogativo."

Alguns dos entrevistados refletem sobre o efeito psíquico da rejeição da psicologia individual pelo Partido - e há vários exemplos de antigos membros do Partido que acabaram por recorrer à psicanálise ou à psicoterapia: "O próprio fato de no Partido tudo o que era pessoal ter sido suprimido e desprezado começou a torna impossível para mim ignorar o pessoal." No entanto, para alguns, esta virada para o pessoal levantou tantos problemas quanto resolveu. Mesmo aqueles que confrontaram as brutalidades do stalinismo e se tornaram críticos da rigidez e do dogma da vida do Partido ainda lamentavam a perda dos laços sociais únicos que este tinha criado:

Todos estão em análise, todos confessam suas vidas uns aos outros dia e noite... E ainda assim, é realmente estranho. Não me sinto íntimo dessas pessoas. E eu sei que nunca serei. E com o pessoal do Partido me senti íntimo. Não pude contar nada a eles sobre o que chamamos de minha "vida pessoal", mas senti com eles uma intimidade que também sei que nunca mais sentirei com mais ninguém.

Gornick tinha trinta e poucos anos quando conduziu as entrevistas; a maioria das pessoas com quem ela conversou tinha então sessenta anos. Embora ela tenha encontrado pessoas que se tornaram nacionalistas negras ou feministas, muitos antigos membros do Partido ficaram perplexos - e por vezes ativamente hostis - com a política do "movimento" da Nova Esquerda do momento: "Eu queria ouvir... Mas não adiantou. .. Eles eram um bando de crianças anárquicas de classe média sem base, sem estrutura, sem senso de história, sem programa, sem partido, sem nada."

Stuart Hall observou que as diferenças entre as gerações políticas "não são de idade, mas de formação". Mas, apesar destas diferenças, Gornick conseguiu encontrar ressonâncias experienciais através das gerações - que continuam a ecoar no presente. Agora com oitenta anos, em uma entrevista recente, Gornick expressou ironicamente as suas reservas em relação a Bernie Sanders. No entanto, ela aborda o parágrafo final da sua nova introdução aos jovens "impulsionados" pelo socialismo de hoje. E para uma geração politizada após o chamado "fim da história", histórias como a de Gornick continuam sendo um recurso crucial.

Uma mulher entrevistada por Gornick expressou frustração ao ouvir de ativistas mais jovens que "refazer-se de dentro para fora é um ato político". No entanto, as entrevistas de Gornick demonstram que negligenciar totalmente as questões psicológicas pode ser igualmente prejudicial para os movimentos políticos. A visão duradoura de The Romance of American Communism está de acordo com os versos de um artigo de 1987 de Gornick sobre Rosa Luxemburgo: "os revolucionários devem permanecer humanos durante toda a sua luta. Caso contrário, que tipo de revolução estas pessoas iradas e reprimidas fariam? A quem serviria?"

Colaborador

Hannah Proctor é pesquisadora do Wellcome Trust na Universidade de Strathclyde em Glasgow, interessada em histórias e teorias da psiquiatria radical.

9 de março de 2020

O colapso econômico do coronavírus

O colapso do coronavírus de hoje no mercado de ações expôs a fragilidade do capitalismo global. Com os governos aproveitando a flexibilização quantitativa, apenas investimentos públicos significativos na escala de um New Deal Verde podem impedir uma queda maior.

Grace Blakeley


Patrick Beek / Flickr

Tradução / O pânico do investidor induzido por coronavírus continuou segunda-feira (9), levando a NYSE (Bolsa de Valores de Nova York) a uma queda superior a 8%, o FTSE, quase 7% e o índice Stoxx 600, das principais ações da UE, em 7,5%. Temendo o pior, os investidores estão fugindo de ações e títulos de curto prazo para a segurança do ouro, títulos de longo prazo e, em alguns casos, dinheiro.

O declínio vertiginoso dos preços das ações nos EUA vem do “maior período de alta da história” – os doze anos desde a crise financeira de 2008 foram um período quase ininterrupto de aumento dos preços das ações nos EUA. No Reino Unido e na Europa, os preços das ações foram impactados pelos movimentos do Brexit e da moeda, mas nas economias mais avançadas, os preços das ações permaneceram muito altos em relação às tendências prováveis ​​de rentabilidade das empresas nos próximos anos.

Enquanto isso, os rendimentos dos títulos do governo caíram para mínimos históricos com base em uma política monetária extraordinariamente frouxa. Alguns governos – principalmente na Alemanha – se beneficiaram de taxas de juros negativas, o que significa que os investidores pagam ao governo alemão pelo privilégio de manter sua dívida. A Alemanha, no entanto, manteve sua política de schwartze null, ou “zero preto”, que exige que o governo mantenha um superávit orçamentário.

Enquanto isso, a dívida das empresas cresceu. Com as taxas de juros baixas, as empresas conseguiram tomar grandes empréstimos a taxas muito baixas desde a crise financeira de 2008. E, à medida que os investidores “alcançam o rendimento” – buscam investimentos que proporcionam altos retornos – eles se reuniram em títulos empresariais de risco, o que significa que empresas com menos crédito têm se beneficiado com custos relativamente baixos dos empréstimos. Alguns analistas argumentam que há uma bolha na dívida empresarial nos EUA – o crédito total para as empresas americanas atingiu 75,3% do PIB no terceiro trimestre de 2019. No Reino Unido, o número é de 81,5%.

Enquanto isso, a economia real tem um desempenho ruim. Essa não é uma tendência recente induzida por coronavírus, mas uma estagnação de longa data evidente nas economias avançadas desde 2009. Após um fraco desempenho desde 2009, a produtividade nos EUA caiu 0,3% entre o segundo e o terceiro trimestres de 2019. O crescimento da produtividade na zona do euro não aumentou acima de 1,5% desde 2012. Enquanto isso, o Reino Unido passou pelo período mais longo de estagnação da produtividade desde a invenção da lâmpada.

A produtividade é o fator mais significativo para o crescimento do PIB per capita a longo prazo. Não admira que o crescimento econômico na maioria das grandes economias tenha sido tão fraco. A zona do euro, restringida por regras fiscais rígidas e prejudicada pela crise da dívida (ainda não resolvida), teve um desempenho particularmente fraco nas estimativas de crescimento desde a crise financeira, embora o crescimento no Reino Unido desde a votação para deixar a União Européia também tenha diminuído. Foi decepcionante. Os salários, que estão ligados à produtividade, estagnaram no Reino Unido e o trabalhador médio dos EUA não está muito melhor do que em 1979.

O que explica o enorme abismo entre as bolsas de valores e os fundamentos econômicos das economias avançadas? Duas palavras: flexibilização quantitativa.

Os quatro maiores bancos centrais do mundo investiram mais de 10 trilhões de dólares em dinheiro novo no sistema financeiro global desde 2010, e uma grande parte desse dinheiro encontrou seu caminho em ações e títulos. Parte dela entrou no mercado imobiliário, principalmente em Londres, contribuindo para a crise imobiliária.

A política monetária extremamente frouxa sustentou os preços dos ativos para os ricos, mesmo quando a economia real estagnou. Esta situação nunca foi sustentável a longo prazo. Por fim, os valores dos ativos devem basear-se em fundamentos econômicos – se todos desejam possuir uma determinada ação, deve ser porque esperam que a empresa tenha lucros altos no futuro. Os preços das moradias não devem divergir da renda a longo prazo. A flexibilização quantitativa inverteu essa lógica, elevando os preços dos ativos, mesmo quando os investidores esperam que a economia melhore no futuro próximo.

O pânico com o coronavírus catalisou uma correção há muito esperada nos preços dos ativos. A velocidade com que o vírus se espalhará é, neste ponto, desconhecida e a incerteza é o inimigo número um do investimento. Quando não tem certeza do futuro, as empresas e os investidores têm muito mais probabilidade de manter seu capital em dinheiro ou ativos seguros como ouro do que investir em ações, cujos retornos estão ligados ao crescimento econômico ou a títulos de curto prazo do governo, cujos rendimentos estão atrelados às taxas de juros.

É improvável que o colapso nos preços dos ativos tenha impacto no trabalhador comum, a não ser pela redução do valor de sua pensão, para aqueles que a recebem. Mas a volatilidade do mercado de ações simplesmente fornece uma amostra do provável impacto econômico a longo prazo do vírus. Se, como agora parece provável, o vírus se espalhar mais rápido fora da China do que dentro, o impacto no crescimento global será grande. Quarentena generalizada, cancelamento de grandes eventos e incerteza em curso – para não mencionar milhares de mortes – significarão um colapso na produção.

Os governos estão sem poder de fogo monetário. Se eles responderem, deve ser com a política fiscal. Programas coordenados de estímulo das principais economias do mundo podem ser suficientes para evitar uma desaceleração significativa – e os empréstimos estão agora mais baratos do que nunca. Dado que o vírus poderá ter um impacto maior nos países mais pobres e nos indivíduos mais vulneráveis, a resposta deve ser direcionada para proteger os menos favorecidos. E, como a crise climática representa uma ameaça à humanidade a longo prazo muito maior que o coronavírus, também deve promover a descarbonização.

Em outras palavras, agora é o momento perfeito para o Green New Deal. Resta ver se os governos liderados por Donald Trump, Boris Johnson e Angela Merkel aproveitarão a oportunidade.

Sobre a autora

Grace Blakeley é pesquisadora do Instituto de Pesquisa de Políticas Públicas (IPPR).

7 de março de 2020

"O movimento trabalhista precisa aprender sua história"

Com a sindicalização em níveis baixos, nós precisamos olhar para o passado para sair do presente. O radical liderado pelo Sindicato dos Trabalhadores em Equipamentos Agrícolas, que lutou por democracia no chão de fábrica e igualdade racial, é um guia.

Uma entrevista com
Toni Gilpin


Um trabalhador consertando uma ceifeira-debulhadora em uma fazenda nos Estados Unidos em 1956. (Wallace Kirkland / Getty Images)

Tradução / No apogeu do trabalho organizado nos anos de 1950, 28% dos trabalhadores americanos eram sindicalizados. Mas, depois de décadas de rebentamento de sindicatos, legislação de direito ao trabalho e a perda de trabalhos sindicais, a sindicalização agora afundou para apenas 10% dos trabalhadores, ou apenas 6% no setor privado.

Os últimos dois anos resistiram a essa tendência, contudo, e um ressurgimento na atividade sindical viu mais de quatrocentos mil trabalhadores, incluindo professores e enfermeiros, entrarem em greve em 2019. Como a militância trabalhista americana cresce de novo, é importante estudar os movimentos do passado. Na radical história dos sindicatos americanos, a história do Trabalhadores Unidos de Equipamentos Agrícolas da América (FE, na sigla em inglês) se destaca. Apesar de seu tamanho pequeno, a FE desafiou e venceu grandes concessões da International Harvester, uma gigante da fabricação, dirigida pelas oligarquias da família McCormick, ao longo dos anos de 1940.

Para aprender mais sobre a FE e suas lutas, e o que os organizadores hoje podem aprender de seus esforços, Jacobin falou com a historiadora trabalhista Toni Gilpin, autora de “The Long Deep Grudge: A Story of Big Capital, Radical Labor, and Class War in the American Heartland”.

TM: 

O que você sabia sobre a FE, e o que fez você decidir pesquisa-la de forma acadêmica?

TG: Quando eu estava crescendo nos anos de 1960 e 1970, meu pai, DeWitt Gilpin, era o diretor legislativo para a Região 4 da Trabalhadores de Automóveis Unidos (UAW, na sigla em inglês). Eu conhecia a UAW de acompanhar meu pai em banquetes políticos, ou linhas de piquete, ou programas de educação trabalhista, nos quais ele frequentemente estava envolvido, mas eu sabia apenas vagamente de que houvera esse outro sindicato que meu pai esteve envolvido antes de eu nascer – o Trabalhadores de Equipamentos Agrícolas. Ele claramente sentia que havia algo especial sobre esse sindicato e também acreditava – e isso é apoiado pelo que os analistas também dizem – que os contratos com a FE, que tinham originalmente sido gerados pelos trabalhadores rurais na UAW, eram os melhores que membros do sindicato tiveram em qualquer lugar.

Quando eu estava na faculdade, pouco depois que meu pai morreu, eu ia fazer uma tese sênior em história, e eu sabia que queria fazer algo em história trabalhista. Absolutamente nada havia sido escrito sobre a FE, então eu pensei que começaria a explorar essa história. Ela foi gerada como uma tese de faculdade para mim, lá atrás na década de 1970, e expandiu daí quando eu fui para a pós-graduação.

TM: Como o seu entendimento sobre o movimento trabalhista mudou desde aquela época?

TG: Depois da faculdade, eu fui para Yale estudar história trabalhista com David Montgomery, que era o preeminente historiador trabalhista americano, e eu tive a sorte de estar entre um grupo que estava revigorando esse campo, e olhando para a história trabalhista e da classe trabalhadora de baixo para cima.

Enquanto eu estava lá, os trabalhadores de escritório da Yale passaram por uma unidade de organização e então uma greve, então eu estive muito envolvida naquilo. Foi como eu conheci o meu marido, que estava na faculdade de direito, então. E não apenas eu estava estudando história trabalhista na Yale, mas eu estava verdadeiramente a testemunhando.

Aquela foi uma greve muito importante para as mulheres trabalhadoras, para os trabalhadores da Universidade. Meu marido e eu acabamos escrevendo juntos um livro sobre a greve da Yale, junto com dois outros acadêmicos da Yale.

Assistir o movimento de organização dos operários me informou o que eu sabia sobre organização e história trabalhista, mas era uma das poucas, ou talvez única, vitórias trabalhistas na minha jovem vida. Eu também estava na pós-graduação durante a greve da Organização Profissional de Controladores de Tráfego Aéreo (PATCO, na sigla em inglês), quando se tornou marcadamente óbvio que o movimento trabalhista estava realmente em problemas profundos.

Depois disso, nós estamos falando sobre os anos de 1990, quando o movimento trabalhista continuava seu declínio precipitante. Eu havia escrito uma dissertação sobre a FE, e eu acreditava que sua história era realmente relevante para compreender o que tinha acontecido e porque o movimento estava em declínio. Mas não parecia que houvesse muita audiência para essa história naquela época, quando o movimento trabalhista estava em aparentemente em queda livre, durante a era Reagan e então a era Clinton.

Foi somente durante a segunda administração de Obama, com a campanha de Bernie e o começo de algum renascimento do movimento trabalhista, que nós vimos um renovado interesse no socialismo. Era apenas fortuito que havia uma audiência para essa história sobre os trabalhadores de equipamentos agrícolas e as lições que isso podia trazer aqueles que estão olhando para descobrir como promover reviver e revigorar o movimento trabalhista hoje.

TM: Que lições você acha que as pessoas podem extrair dos Trabalhadores de Equipamentos Agrícolas?

TG: Para os socialistas, há muitas coisas importantes para pensar sobre quando nós estamos olhando para essa história. A primeira é quanto a ideologia de um líder sindical importa. Eu acredito que a orientação marxista de esquerda da liderança da FE afetou tudo o que o sindicato fez. Não apenas as posições políticas que o sindicato apostou, mas também o comportamento que aquela orientação encorajou entre os membros.

A crença, como um dos líderes diz, que a direção não tinha o direito de existir se incorpora até o fim para os operários e engendra esse tipo de confrontação diária com a direção, que significa finalmente boas proteções para os trabalhadores no chão de fábrica.

E então parte do que é realmente central nessa história é a insistência da FE de que a unidade racial era essencial para o avanço da classe trabalhadora, e que eles teriam que combater o racismo onde eles o vissem. Não apenas porque ele era moralmente errado, mas porque era prejudicial para os interesses da classe trabalhadora, e você não podia ter um sindicato forte a não ser que você fizesse os operários entenderem isso.

Eles fizeram isso onde era difícil – no Sul Americano pós Segunda Guerra Mundial. Foi uma luta difícil, mas importante, que não apenas afetou o que o sindicato fez em termos de sua estratégia, mas também as relações pessoais que se desenvolveram entre trabalhadores negros e brancos de maneiras inesperadas e realmente significativas.

TM: O livro tem um alcance amplo, e começa com o Cyrus McCormick’s Reaper Works (Ceifador de Cyrus McCormick), e cobre condições de trabalho em Chicago e o atentado à Haymarket. Porque você decidiu começar nesse ponto?

TG: O título vem do grande Nelson Algren, em “Chicago: City on the Make” (Chicago: cidade em jogo), que fala sobre esse rancor longo e profundo que foi gerado pela execução dos anarquistas da Haymarket.

Muitas pessoas que sabem apenas um pouco sobre história trabalhista sabem sobre a Haymarket. O que as pessoas não necessariamente sabem é essa conexão com o McCormick Reapers Works, em Chicago, e a particular evolução dessa fábrica na International Harvester.

Eu quis conectar isso porque, para a FE, sua conexão com os mártires da Haymarket é algo que eles nutriam. Essa longa história de luta foi algo que animou a liderança e que eles tentaram comunicar aos operários. Para os trabalhadores, as lutas continuam por décadas e séculos, e aqueles lutadores de mais cedo estão sempre informando o que nós estamos fazendo hoje, mesmo se nós podemos não o reconhecer.

Mas eu também quis mostrar as inovações e adaptações que a direção da International Harvester – amplamente a família McCormick – fez quando eles extinguiram a construção da organização sindical do século XIX e esmagaram o sindicato que existia na fábrica durante a revolta da Haymarket. A International Harvester se tornou uma inovadora em todos os tipos de estratégias do ato de evitar os sindicatos, que continuam importantes nas relações industriais hoje.

Era muito importante mostrar a longa luta da classe trabalhadora e a longa história do rebentamento de sindicatos e “tirar os maus elementos do jardim”, como Cyrus McCormick disse sobre se livrar dos radicais da classe trabalhadora e apoiantes do sindicato.

TM: Eu acho interessante quão efetiva a FE foi em traçar uma linha entre o que aconteceu na Haymarket e suas próprias lutas sessenta anos depois. Você acha que isso é algo que os sindicatos modernos são bons em comunicar?

TG: A maioria dos sindicatos fala muito sobre a importância de reconhecer essas lutas. Eu não acho que eles são especialmente bons em educação e história trabalhistas, o que é parte da razão pela qual eu escrevi esse livro.

Eu acho que nós precisamos fazer não é simplesmente comemorar com fotos de uma greve. O que o movimento trabalhista mais precisa é uma análise da história que pode informar lutas de trabalhadores, mas isso também é acessível, atraente para ler, e realmente luta com questões importantes. Não é apenas uma celebração dos sucessos que o trabalhismo teve. Nós estamos abaixo de 6% de sindicalização na força de trabalho do setor privado – o nível mais baixo de sindicalização desde que nós registramos – então nós precisamos chegar a um acordo sobre como isso aconteceu.

As pessoas gostam de olhar para os anos de 1930 – a era da turbulência e greves, e greves gerais, e confrontações entre o trabalho e a diretoria – mas os anos de 1920, que eu acredito ser de quietude e acomodação, é a era quando a Harvester introduz seus sindicatos, fazendo mais fácil para a empresa identificar ativistas e neutralizar qualquer tipo de sucesso sindical. Mas um organizador chamado John Becker tenta assumir isso e fala nesses encontros sindicais da empresa, e é onde o radicalismo dos trabalhadores é reacendido novamente nos anos de 1930.

Sem as pessoas lutando nesses períodos que parecem tranquilos, nós não teríamos tido as aparentemente espontâneas explosões dos anos de 1930. É por isso que é tão importante que os radicais da classe trabalhadora e ativistas reconheçam que o que eles estão fazendo agora em seus locais de trabalho e comunidades pode parecer pequeno, mas tem um efeito cascata que você nem pode começar a entender até que você tenha essa perspectiva histórica.

Não são apenas esses períodos ou momentos de grande revolta que tem significância para compreender a classe trabalhadora e conquistas sindicais. Pode ser nesses períodos quando não tem nada acontecendo que nós precisamos para olhar o mais de perto.

TM: 

Chegando no fim do livro, refletindo sobre o legado sindical, você discute não apenas o que os sindicatos conquistaram, mas também a energia que animou os sindicatos e fez esse trabalho cansativo suportável. Como você acha que os sindicatos podem conquistar e manter esse tipo de energia?

TG: Uma das coisas que aconteceram foi que os sindicatos decidiram, como a UAW fez, que a principal função de um sindicato era proporcionar bons salários e benefícios, e que o papel da liderança sindical era negociar essas coisas. Mas o resto do tempo o sindicato não é realmente tão crítico para a vida do trabalhador. Não é uma instituição integral do dia-a-dia para eles.

Uma das razões porque o FE manteve tal lealdade dos operários foi que ele acreditou em envolver os membros do sindicato 365 dias por ano em sua luta com a diretoria. O sindicato se torna algo que é parte de sua vida diária. Toda vez que você vai ao trabalho, você sabe que ele opera para proteger você. Você tinha trabalhadores engajados nessas batalhas constantes com a diretoria no chão de fábrica sobre quão rápido eles têm que trabalhar, e o quanto eles vão ser pagos pelo trabalho que estão fazendo. E você tinha o sindicato lá constantemente intervindo em nome dos trabalhadores para proteger seus interesses, não apenas no momento da negociação do contrato, mas todos os dias que você tem esse exército de administradores que estavam lá para proteger os interesses dos trabalhadores.

Sindicatos que acreditam que sua única função é entregar no momento do contrato e depois desaparecer são aqueles que podem ser facilmente minados e sobrecarregados por diretorias experientes.

Sobre o entrevistador

Toni Gilpin é uma historiadora trabalhista, ativista e autora de “The Long Deep Grudge: A Story of Big Capital, Radical Labor e Class War in the American Heartland”, (Haymarket Books, 2020)

Sobre a entrevistadora

Sobre a entrevistadora: Taylor Moore é uma ex-funcionária da Kickstarter

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