A viagem de Lula (PT) a Araraquara (a 273 km de São Paulo) naquele 8 de janeiro estava toda esquematizada: roteiro definido, segurança reforçada e um pequeno grupo de bolsonaristas isolado do lado oposto de onde foi montada a estrutura para o presidente visitar os estragos das chuvas.
Só não estava na programação o que ocorria em Brasília enquanto Lula se deslocava do aeroporto da Embraer, em Gavião Peixoto, para Araraquara.
Foi pelo celular do prefeito Edinho Silva (PT), ex-ministro (Secom) no segundo governo de Dilma Rousseff (PT), que o presidente viu um vídeo da invasão ocorrida minutos antes no Congresso Nacional.
Lula é cercado por apoiadores em Araraquara após leitura do decreto de intervenção de segurança no Distrito Federal - Joel Silva - 8.jan.2023/Folhapress
Embora Lula tenha seguido o roteiro inicial, a tensão tomou conta daquele dia em que Araraquara se tornou uma sede improvisada do governo federal.
A prefeitura estava cercada por integrantes de grupos como o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e simpatizantes de Lula, mas não se sabia, naquele início de tarde, se efetivamente todos que estavam ali apoiavam o petista.
Por isso, policiais militares e membros da Polícia Federal observavam a movimentação nos prédios vizinhos e determinavam que as equipes subissem nos edifícios para visualizar melhor o que acontecia. Embaixo, gradis isolavam quadras ao redor. Até mesmo funcionários de confiança de Edinho tiveram dificuldade para se aproximar.
A visita de Lula, inesperada até a véspera, começou a ser articulada no dia 1º, quando Edinho foi a Brasília para a posse do petista e para conversar com os novos ministros sobre as chuvas em Araraquara. Na última semana de dezembro de 2022, uma ponte havia sido levada pela força das águas e um carro caíra na cratera que se formou. Seis pessoas morreram, todas da mesma família.
Quatro dias depois da posse de Lula, os ministros Jader Filho (Cidades) e Waldez Góes (Integração e Desenvolvimento Regional) desembarcaram na cidade e, no dia 7, Edinho recebeu ligação da assessoria da primeira-dama, Rosângela da Silva, a Janja, dizendo que ela gostaria de ir até lá no dia seguinte.
Enquanto convocava secretários para organizar a recepção, o prefeito recebeu uma ligação de Valmir Moraes, assessor de Lula. Era o presidente na linha para afirmar que também iria.
O anúncio se espalhou por Araraquara e bastou para grupos bolsonaristas organizarem uma manifestação.
Lula chegou pouco antes das 14h no aeroporto e seguiu imediatamente para a região da avenida 36, local da tragédia, num trajeto de cerca de 30 minutos. Além de Janja, Góes e Jader Filho, estavam Luiz Marinho (ministro do Trabalho e Emprego), Paulo Okamoto e outros homens de confiança de Lula.
No caminho, um deles, o fotógrafo Ricardo Stuckert, ligou para Edinho, que estava no carro com o presidente, e pediu que mostrasse a Lula um vídeo com imagens do Congresso invadido e sendo vandalizado por manifestantes.
Começaram os telefonemas e trocas de mensagens entre Araraquara, Brasília e Salvador, onde estava o ministro Rui Costa (Casa Civil).
A visita à região da cratera foi rápida. Os bolsonaristas protestaram a uma distância de cerca de 200 metros, o que evitou problemas, e Lula, após cumprimentar apoiadores, foi para a prefeitura, onde chegou por volta das 15h30.
"Num primeiro momento, ninguém tinha noção da dimensão que tomaria. Eram, a princípio, imagens do Congresso sendo depredado", disse Edinho à Folha.
"Foi durante a visita do presidente que nós fomos tendo dimensão do que estava acontecendo, quando mostra o Supremo, o palácio [do Planalto]. Claro que aquilo já se caracterizava como algo maior do que uma manifestação. Ali ficava nítido que tinha um objetivo golpista."
O coronel João Alberto Nogueira Júnior testemunhou a escalada de tensão de uma forma inusitada: como secretário de Cooperação dos Assuntos de Segurança Pública da prefeitura e responsável pela integridade de Lula na cidade, foi um dos últimos a deixar o local preparado para a visita do presidente.
Ao retornar à sede do governo municipal, foi barrado. "Tudo mudou, ficou muito restrito, porque virou um gabinete de crise nacional", disse o coronel.
Nogueira Junior –e outros secretários– entraram no prédio minutos depois. Ele ficou do lado de fora do gabinete, onde estavam apenas os aliados mais próximos. "A segurança partiu para grau máximo de proteção ao presidente. Todas as hipóteses passaram a ser consideradas naquele momento", disse.
O gabinete no sexto andar do edifício viveu uma intensa troca de telefonemas entre Lula e ministros. Os mais acionados eram Flávio Dino (Justiça), José Múcio (Defesa) e o general Gonçalves Dias (Gabinete de Segurança Institucional). Alexandre Padilha (Relações Institucionais) e Rui Costa também foram destinatários frequentes das ligações.
Parte daqueles momentos estão relatados no livro "Uma Cidade na Luta pela Vida" (Alere Editora), de Edinho, que percorre a trajetória de Araraquara da pandemia da Covid-19 até o 8 de janeiro.
Nele, Edinho narra o constrangimento que sentiu quando Lula pediu para ligarem a TV, pois queria acompanhar o noticiário sobre os ataques: o aparelho tinha queimado durante uma tempestade dois dias antes. Usar a TV do gabinete na visita do presidente não estava nos planos.
Um computador da sala cumpriu a função, e Lula, ao ver o estado da capital federal, subiu o tom. Passou a exigir dos ministros uma reação enérgica, segundo relatos à Folha, e afirmou que voltaria a Brasília. Foi contido pelo grupo, que temia os riscos de um retorno em meio ao caos.
"Se isso ocorresse, a cena mais provável seria a do avião presidencial tendo que decolar às pressas com milhares de golpistas tentando invadir o aeroporto da capital. Essa cena, se existisse, seria de derrota da democracia e de concretização do golpe", escreve Edinho no livro.
Em Araraquara, a situação era outra. Integrantes de movimentos sociais em frente à prefeitura gritavam o nome de Lula, e Edinho desceu para falar com eles.
Uma dessas pessoas era Giulia Conde, 24. Bacharel em ciências sociais, ela tinha ido à região em que a cratera se formou para ver o presidente e, ao saber que ele iria para a prefeitura, encaminhou-se para lá.
Ela percebeu certa tensão no ambiente, um medo de haver violência por parte de bolsonaristas. Mas não era o único sentimento. "Houve revolta com o que estavam fazendo [em Brasília], mas também o pessoal demorou um pouco para assimilar tudo o que estava acontecendo. Foi como se estivesse acompanhando a história ao vivo, na nossa frente", disse.
Enquanto Edinho conversava com dezenas de pessoas no local, Lula seguia nos telefonemas com lideranças do Congresso Nacional, do STF (Supremo Tribunal Federal) e do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
Numa coletiva, anunciou as primeiras medidas para conter os danos na Praça dos Três Poderes e, antes de ir para a garagem da prefeitura, para só então retornar a Brasília, saiu pela recepção do prédio para cumprimentar as pessoas que o aguardavam.
O coronel Nogueira Júnior disse que, apesar da tensão, não acredita ter havido risco real a Lula em Araraquara. Edinho usa como exemplo para isso o resultado das eleições.
"Mesmo durante a pandemia, nos momentos mais difíceis, eles [bolsonaristas] nunca conseguiram fazer grandes mobilizações aqui, eram coisas muito pequenas", disse o prefeito de uma cidade que, no segundo turno, depositou em Lula 50,5% dos votos válidos (no estado, o petista ficou com 44,76%) — um desempenho semelhante ao de Fernando Haddad: 50,39% ante 44,73% no resultado final em São Paulo.
Quanto aos estragos provocados pelas chuvas de dezembro de 2022, eles consumiram mais de R$ 5 milhões em investimentos do governo federal em obras emergenciais. Uma delas, a ponte da rua 9 de Julho sobre o córrego das Cruzes, foi inaugurada em dezembro, com a presença do ministro Waldez Góes.
Ministro indica que, com as eleições municipais, mudança na taxação da renda ficará para 2025. Regulamentar a Reforma Tributária e monitorar as medidas de arrecadação para cumprir a meta de déficit zero são prioridades neste ano
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, no gabinete do ministério em São Paulo — Foto: Maria Isabel Oliveira
Indicado ao Ministério da Fazenda após a derrota para o governo de São Paulo, e sob a desconfiança do mercado, Fernando Haddad terminou o seu primeiro ano na pasta contabilizando a aprovação de duas grandes reformas, a melhora do rating do governo brasileiro e com a vitória na disputa interna com o PT pelos rumos da política econômica.
Em sua primeira entrevista exclusiva de 2024, ele revela ao GLOBO as prioridades para o ano: regulamentar a Reforma Tributária, cumprir a meta fiscal e elaborar uma medida para diminuir a volatilidade do dólar. A reforma do Imposto de Renda (IR) será um desafio, porque há uma “janela” curta para aprovação, em função das eleições municipais, e por isso ela pode ficar para o ano que vem.
Ele revela a origem das rusgas entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, durante a transição, mas garante que as relações já ocorrem “sem problemas”.
Ministro, ainda na transição o senhor afirmou ao GLOBO que as prioridades para 2023 eram a Reforma Tributária e o novo marco fiscal. E agora, quais as principais metas para 2024?
Há a obrigação por lei de regulamentar a Reforma Tributária, que são 71 assuntos que podem constar até na mesma lei complementar. Também precisamos monitorar as medidas para cumprir o arcabouço fiscal e queremos implementar um projeto para diminuir a volatilidade do dólar, um instrumento do Tesouro para atrair investimentos externos, uma espécie de hedge cambial, associado a projetos de transformação ecológica.
Há uma agenda ampla nas nossas secretarias, tem o mercado de seguros, que está com uma lei para ser votada, tudo associado à pauta verde, a regulação do crédito que o secretário Marcos Pinto encaminhou ao Congresso, regular o marco das garantias. São muitas medidas em andamento.
Haddad fala em agenda ampla; reforma do Imposto de Renda ficaria para 2025 — Foto: Maria Isabel Oliveira
O senhor não falou da reforma do Imposto de Renda, isso também está na agenda?
Está, pela Reforma Tributária, que colocou prazo para a gente apresentar essa proposta. Nós temos uma carga tributária sobre o consumo desproporcionalmente maior do que sobre a renda e o patrimônio.
Do meu ponto de vista, essa reforma deve viabilizar a redução da carga sobre o consumo, o que permitiria uma alíquota de IVA menor. Tributa mais a renda, diminui o peso sobre o consumo, e o efeito fica neutro sobre a carga tributária total. Tudo com transição para que não seja de um ano para o outro, seja diluído no tempo.
A ideia seria tributar quem ganha mais com uma nova faixa de cobrança de IR?
Não chegamos nesse ponto da formulação, acabamos de aprovar a reforma do consumo. O desafio de aprovar em 2024 a reforma do IR é que, como temos eleições municipais, há um prolema de janela, que vai ter que ser avaliado pela política. A regulamentação do consumo precisa ser votada primeiro, até porque em 2026 ela já entra em vigor.
A equipe econômica tem sido criticada por focar em medidas de arrecadação, sem cortes de despesas. Essa agenda ficará restrita à redução de gastos tributários?
No que diz respeito ao Ministério da Fazenda, sim. No que diz respeito ao Planejamento, não. A execução orçamentária e a avaliação das políticas públicas são feitas pelo Planejamento, que inclui a secretaria criada para esse fim.
O arcabouço estabelece que o gasto vai crescer entre 0,6% e 1,7% em termos reais em 2024. Isso é abaixo da média histórica. Como a despesa vai crescer sempre 30% abaixo da receita, a tendência do gasto é cair como proporção do PIB.
Estamos tomando medidas para cumprir a meta. Agora, mexemos pela primeira vez com muitas leis e há projeções de receita que demandam tempo para se medir os efeitos. O arcabouço vai ser cumprido como planejado.
Ministro da Fazenda garante que o novo arcabouço fiscal será cumprido neste ano — Foto: Maria Isabel Oliveira
O bloqueio máximo de R$ 23 bilhões no Orçamento deste ano foi criticado até por aliados.
Essa crítica não é a opinião da Advocacia-Geral da União (AGU), não é a opinião da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) e não é a opinião do Congresso Nacional, que votou a LDO (lei de diretrizes orçamentárias) com esse teto. Então, não é opinião de ninguém.
Combinei com o Congresso, na mesa do presidente da Câmara, que as duas cláusulas anticíclicas do arcabouço deveriam funcionar.
Qual foi o argumento para convencer o presidente a não mexer na meta fiscal?
Disse que iria tomar providências em relação a isso. O objetivo da Fazenda é reorganizar o Orçamento, identificar o que está errado. Foi esse o argumento. Mostra as saídas e chega o momento que fala: “esse é o caminho, vamos por aqui que vai ser melhor”.
Às vezes me perguntam por que não mandar todas as medidas de uma vez. Porque cartela de antibiótico é de oito em oito horas. Você não toma a cartela inteira para se curar.
O presidente da Câmara, Arthur Lira, quer colocar em votação a reforma administrativa. O que falta para aprovar a proposta?
Quando fui candidato a presidente, defendi a reforma. O Ministério da Gestão está elaborando um projeto. Eu mudaria a natureza dos concursos públicos, o estágio probatório e as regras de progressão na carreira. E, obviamente, enfrentaria privilégios.
Infelizmente, a PEC 32, que foi encaminhada para o Congresso, não só não enfrenta, como piora o quadro. Minha impressão é que há um custo inicial com os regimes especiais. Estão falando de economia, mas não estou vendo isso. Na administrativa, os parâmetros ainda não estão bem fixados.
No início do ano, o presidente Lula ameaçou elevar a meta de inflação. Há quem entenda que isso postergou a queda da Selic.
Não acredito. Havia mesmo uma divergência técnica sobre quando iniciar os cortes. Creio que poderíamos estar com a taxa Selic (11,75%) um ponto abaixo da atual.
Os diretores que o senhor indicou ao BC têm votado como o presidente Roberto Campos Neto. As críticas a ele foram exageradas?
A transição foi atípica e delicada. E foi a primeira vez que um presidente do Banco Central foi indicado pelo governo anterior. Houve episódios que afastaram um pouco os atores envolvidos. Minha relação com o Roberto sempre foi profissional.
A do Lula, assisti ao primeiro encontro, em dezembro de 2022, e não foi um bom encontro, mas não quero entrar em detalhes. Já o segundo foi muito bom. A relação institucional da Fazenda com o BC nunca teve problemas. E a do Planalto passou a não ter.
Integrantes do governo sugerem mudar o mandato do presidente do BC. O senhor concorda?
Diria que um ano do mandato presidencial seguinte pode funcionar melhor do que dois anos, porque as decisões de política monetária têm efeito até 18 meses à frente. E há risco de um presidente indicado pelo governo anterior interferir na gestão do seguinte.
Também entendo que a quarentena (para voltar ao mercado) de seis meses no Brasil é curta. Poderia ser dois anos.
A última semana de 2023 foi marcada por um embate com o Congresso em torno da medida provisória (MP) que prevê novas ações para aumentar a arrecadação. No caso da limitação das compensações tributárias de empresas, a Fazenda não está dando um calote?
De forma alguma. Quem não quiser compensar pode ir para o precatório e receber de uma vez. A diferença é que fico sabendo um ano antes e consigo me planejar.
Essa MP já estava mais ou menos precificada com o Congresso. Conversei antes com os presidentes da Câmara (Arthur Lira/PP-AL) e do Senado (Rodrigo Pacheco/PSD-MG), uma vez que não estava prevista no Orçamento a renúncia da desoneração (sobre a folha salarial). Menos ainda a questão dos municípios (que passaram a ter novo regime de contribuição previdenciária).
Há entidades falando em contestação judicial, e o Pacheco diz que pode devolver a MP.
Contestação judicial é normal, tudo que a Fazenda faz é assim.
O ministro Fernando Haddad faz um balanço de seu primeiro ano na Fazenda — Foto: Maria Isabel Oliveira
Aprovação de reformas, boa relação com lideranças do Congresso e números da economia acima do esperado. O desempenho de Fernando Haddad à frente do Ministério da Fazenda o coloca como possível sucessor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na visão de economistas, parlamentares e cientistas políticos.
Indagado sobre o tema em entrevista exclusiva ao GLOBO, Haddad diz que o nome de Lula é consenso no PT para 2026, mas alerta que o partido precisa começar a se preparar para essa transição, porque o problema “vai se colocar” na eleição seguinte.
Ele nega que almeje o posto, diz que disputou a Presidência em 2018 por uma questão atípica, já que Lula estava preso, e rebate com ironia as críticas feitas por petistas em redes sociais à condução da política econômica: “Nos cards de Natal, o que aparece é assim: ‘A inflação caiu, o emprego subiu. Viva Lula!’ O meu nome não aparece. Haddad é um austericida”, afirma.
O senhor teve atuação decisiva para o governo este ano com a aprovação da agenda econômica no Congresso. Muita gente diz que isso o coloca como possível sucessor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Como avalia essa ideia?
Acredito que existe consenso dentro do PT e da base aliada sobre a candidatura do presidente Lula em 2026. Na minha opinião, é uma coisa que está bem pacificada. Não se discute.
O presidente Lula e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad — Foto: Cristiano Mariz/Agência O Globo
Mas em algum momento o presidente precisará de um sucessor.
O Lula foi três vezes presidente. Provavelmente, será uma quarta.
Ao mesmo tempo que é um trunfo ter uma figura política dessa estatura por 50 anos à disposição do PT, também é um desafio muito grande pensar o day after.
Eu não participo das reuniões internas sobre isso. Mas, excluído 2026, o fato é que a questão vai se colocar. E penso que deveria haver uma certa preocupação com isso.
Porque a natureza da liderança do Lula é diferente da de outros fenômenos eleitorais. O bolsonarismo tem uma dinâmica muito diferente.
O senhor pensa na possibilidade de um dia ser sucessor do presidente Lula?
Eu não penso. E só passou pela minha cabeça em 2018 porque era uma situação em que ninguém queria ser vice do Lula. E aí, um dia, ele falou: “Haddad, acho que vamos sobrar só nós dois”. Dentro da cadeia. Eu disse: “Pense bem antes de me convidar, porque vou aceitar”. E acabou acontecendo.
Mas era um momento particular. Eu próprio me engajei na sensibilização do Ciro Gomes e do Jaques Wagner para que eles fossem vice. Porque entendia que eram figuras mais consensuais. Sobretudo o Jaques Wagner dentro do PT.
O PT aprovou recentemente um documento que fala de ‘austericídio’ (suicídio econômico por políticas de cortes de gastos), de uma corrente encampada pela presidente Gleisi Hoffmann. Quem faz mais oposição hoje ao senhor, o PT ou o ministro da Casa Civil, Rui Costa?
Olha, é curioso ver os cards que estão sendo divulgados pelos meus críticos sobre a economia, agora por ocasião do Natal. O meu nome não aparece. O que aparece é assim: “A inflação caiu, o emprego subiu. Viva Lula!” E o Haddad é um austericida.
Então, ou está tudo errado ou está tudo certo. Tem uma questão que precisa ser resolvida, que não sou eu que preciso resolver.
Não dá para celebrar Bolsa, juros, câmbio, emprego, risco-país, PIB que passou o Canadá, essas coisas todas, e simultaneamente ter a resolução que fala “está tudo errado, tem que mudar tudo”.
Alguma coisa precisa ser pensada a respeito, mas não tenho problema com isso.
Mas isso atrapalha de alguma forma?
Eu fui criticado no MEC, mas virei o melhor ministro da Educação da história do país, depois que deixei o MEC. Melhor prefeito da história de São Paulo, depois que deixei a prefeitura. Tomara que aconteça a mesma coisa agora (como ministro da Fazenda).
Como o senhor avalia a sua agenda com a da Casa Civil, elas são conciliáveis?
Têm sido. Há debates, às vezes, mais acalorados, às vezes, menos acalorados. Mas há a noção de que primeiro tem um árbitro. Já leva a informação organizada e aguarda o presidente tomar a decisão.
Tem uma pessoa que já comandou o país por oito anos e está completamente apto a arbitrar as divergências. Não considero ruim que haja divergências. É natural.
Mas toda discussão é para organizar a informação da melhor maneira possível para que o governo tome a decisão. A minha experiência é que, quando a informação está bem organizada, o presidente dificilmente erra.
Agora, quando está mal organizada, pode acontecer. Mas, organizando bem, ele dá o caminho.
E a articulação política do governo, o senhor acha que está bem organizada?
No que diz respeito à Fazenda, minha parceria com o ministro Alexandre Padilha (Relações Institucionais) é antiga. Padilha trabalhou comigo na prefeitura, foi um colega de ministério. E as coisas estão acontecendo.
Não é fácil essa função. Falam que o pior emprego do mundo é o do ministro da Fazenda, mas tem concorrente, que é o do Padilha.
O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), recentemente ficou bravo e reclamou que tinham vazado uma informação do Planalto de que a relação entre vocês não estava tão boa.
Pois é, e nós nos falamos naquele dia. Então, não tinha procedência nenhuma.
O senhor acabou construindo uma relação muito boa com Lira. Como isso aconteceu?
Ela começou bem porque a transição de governo não foi feita pelo Executivo anterior, mas pelo Legislativo. O Executivo sumiu. Foi algo inédito. Tanto Arthur Lira quanto o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), foram fundamentais neste processo.
A relação começou numa situação de crise, em que as pessoas compreenderam o que estava em jogo. Teve um episódio em que estava uma discussão e eu falei: “Nós não estamos discutindo quem vai ganhar o campeonato. Nós estamos discutindo se vai ter campeonato, porque, se a gente não se entender, a gente não chega em junho”.
Era uma situação caótica. Governadores gritando, Bolsa Família fora do Orçamento, calote nos precatórios. A gente tinha R$ 200 bilhões de problema para resolver.
A Argentina passou por uma transição também difícil, e o senhor chegou a demonstrar preocupação com a vitória do candidato Javier Milei. Como vê o início deste governo?
A preocupação não era em relação à política interna da Argentina, que é um país soberano e escolhe democraticamente os seus presidentes. Eu estava preocupado com o Mercosul. E até agora não houve, do meu conhecimento, nenhuma sinalização a esse respeito.
Até porque estávamos, à época, negociando com a União Europeia, tinham muitas coisas encaminhadas que poderiam ser colocadas em risco. Mas tenho dúvidas sobre a eficácia de um pacote ultraortodoxo para a situação que a Argentina enfrenta hoje.
Se o povo vai aguentar e se vai produzir os resultados almejados. Mas é uma preocupação de um observador que deseja o bem do país vizinho. Estou acompanhando à distância e com os filtros, não estou lá vendo medida por medida.
Álvaro García Linera afirma que para derrotar a nova direita, o progressismo e a esquerda devem começar por resolver os problemas econômicos da maioria, compreendendo verdadeiramente o novo mapa da informalidade na América Latina.
Álvaro García Linera, Buenos Aires, 2020. (Ariel Feldman)
Entrevista de
Tamara Ospina Posse
Após sua viagem à Colômbia para inaugurar o ciclo de pensamento “Imagine o futuro a partir do Sul”, organizado com o apoio do Ministério da Cultura da Colômbia pela filósofa Luciana Cadahia, o ex-vice-presidente boliviano Álvaro García Linera conversou com a Jacobin sobre o cenário político que a América Latina atravessa e este “tempo liminar” ou interregno que teremos que atravessar durante os próximos 10 ou 15 anos, até a consolidação de uma nova ordem mundial. É claro que esta escuridão instável é o momento para a entrada em cena da mais monstruosa extrema-direita que, em certa medida, é consequência dos limites do progressismo. Na nova etapa, Linera propõe que o progressismo deve apostar numa maior audácia para, por um lado, responder com responsabilidade histórica às profundas reivindicações que estão na base do apoio popular e, por outro, neutralizar os cantos de sereia do novo direitos. Isto implica avançar em reformas profundas na propriedade, nos impostos, na justiça social, na distribuição da riqueza e na recuperação dos recursos comuns em favor da sociedade. Só assim, começando por resolver as exigências econômicas mais básicas da sociedade e avançando na democratização real, sugere Linera, a extrema-direita poderá ficar novamente confinada aos seus nichos.
Na região, o século XXI começou com uma onda de governos progressistas que reorientaram o rumo da América Latina, mas essa dinâmica começou a estagnar após o triunfo de Mauricio Macri na Argentina em 2015, o que levou muitos a prever o fim do progressismo regional. Assim, começou uma onda de governos conservadores, mas, em contrapartida, em países como Brasil, Honduras ou Bolívia, o progressismo regressou. E em outros, como México e Colômbia, conseguiu chegar ao poder pela primeira vez. Como você interpreta esta tensão atual entre governos populares ou progressistas e outros conservadores ou oligárquicos?
O que caracteriza o tempo histórico que vai de há 10 ou 15 anos até os próximos 10 ou 15 anos é o declínio lento, angustiante e contraditório de um modelo de organização da economia e de legitimação do capitalismo contemporâneo, bem como a ausência de um novo modelo sólido e estável que retome o crescimento econômico, a estabilidade econômica e a legitimação política. É um longo período, estamos falando de 20 ou 30 anos, dentro do qual reside o que chamamos de “tempo liminar” – o que Gramsci chamou de “interregno” – onde ocorrem ondas e contraondas de múltiplas tentativas de resolução desse impasse.
A América Latina – e agora o mundo, porque a América Latina antecipou o que mais tarde aconteceu em todos os lugares – viveu uma intensa e profunda onda progressista, mas que não conseguiu se consolidar, seguida por uma contraonda regressiva conservadora e depois por uma nova onda progressista. Possivelmente, nos próximos 5 ou 10 anos ainda veremos essas ondas e contraondas de vitórias curtas e derrotas curtas, de hegemonias curtas, até que o mundo redefina o novo modelo de acumulação e legitimação que devolverá ao mundo e à América Latina um ciclo de estabilidade para os próximos 30 anos.
Enquanto isso não acontecer, estaremos testemunhando esse turbilhão típico do tempo liminar. E, como disse, assistimos a ondas progressistas, ao seu esgotamento, contrarreformas conservadoras que também fracassam, uma nova onda progressista... E cada contrarreforma e cada onda progressista são diferentes uma da outra. Milei é diferente de Macri, embora inclua parte dele. Alberto Fernández, Gustavo Petro e Andrés Manuel López Obrador são diferentes dos líderes da primeira vaga, embora colecionem parte do seu patrimônio. E acredito que continuaremos a assistir a uma terceira onda e a uma terceira contraonda até que em algum momento a ordem do mundo esteja definida, porque esta instabilidade e esta angústia não podem ser perpétuas. Em última análise, tal como aconteceu nas décadas de 1930 e 1980, o que vemos é o declínio cíclico de um regime de acumulação econômica (liberal entre 1870 e 1920, capitalismo de estado entre 1940 e 1980 e neoliberal entre 1980 e 2010). O caos gerado por este declínio histórico e a luta para estabelecer um novo e duradouro modelo de acumulação-dominação que retome o crescimento econômico e a adesão social.
Podemos ver que a direita está mais uma vez implementando práticas que considerávamos ultrapassadas, incluindo golpes de estado, perseguições políticas e tentativas de assassinato... Até você mesmo sofreu um golpe de estado. Como você acha que essas práticas continuarão a evoluir? E como podemos resistir a eles a partir de projetos populares?
Algo típico do tempo liminar, do interregno, é a divergência das elites políticas. Quando as coisas vão bem, como estavam até a década de 2000, as elites convergem em torno de um modelo único de acumulação e legitimação e todos se tornam centristas. A própria esquerda é temperada e neoliberalizada, embora sempre haja uma esquerda radical, mas marginal, sem audiência. A direita também luta entre si, mas apenas por substituições e ajustes circunstanciais. Quando tudo isto entra no seu inevitável declínio histórico, começam as divergências e a direita divide-se em extrema-direita. A extrema-direita começa a comer a direita moderada. E a esquerda mais radicalizada emerge da sua marginalidade e insignificância política, começa a adquirir ressonância e audiência, cresce. No interregno, a divergência de projetos políticos é a norma, porque há buscas, dissidentes entre si, para resolver a crise da velha ordem, no meio de uma sociedade descontente, que já não confia, que já não acredita em os antigos deuses", nas receitas antigas, nas propostas antigas que garantiam a tolerância moral para com os governantes. E, então, os extremos começam a se fortalecer.
Veremos isso com as direitas. O centro-direita, que governou o continente e o mundo durante 30 ou 40 anos, já não tem respostas para os óbvios fracassos econômicos do globalismo liberal e, face às dúvidas e ansiedades das pessoas, emerge uma extrema-direita que continua a defender o capital, mas que acredita que os bons costumes de antigamente já não são suficientes e que as regras do mercado devem agora ser impostas pela força. Isto implica domesticar as pessoas, se necessário com espancamentos, para regressar a um mercado livre puro e imaculado, sem concessões ou ambiguidades, porque, segundo eles, essa foi a causa do fracasso. Então, essa extrema-direita tende a se consolidar e ganhar mais adeptos ao falar em “autoridade”, “choque de livre mercado” e “redução do Estado”. E se houver revoltas sociais, é apropriado usar a força e a coerção, e se necessário um golpe de Estado ou um massacre, para disciplinar as pessoas rebeldes que se opõem a este retorno moral aos “bons costumes” da livre iniciativa e da vida civilizada: com mulheres cozinhando, homens comandando, patrões decidindo e trabalhadores trabalhando em silêncio. Mais um sintoma do declínio liberal é evidente quando já não conseguem convencer ou seduzir e precisam de impor; o que implica que eles já estão no crepúsculo. Mas isso não significa que deixem de ser perigosos, devido à natureza radicalmente autoritária das suas imposições.
Diante disso, o progressismo e a esquerda não podem ter um comportamento condescendente, tentando agradar a todas as facções e setores sociais. A esquerda emerge da sua marginalidade num momento liminar porque se apresenta como uma alternativa popular ao desastre econômico que o neoliberalismo corporativo causou; e a sua função não pode ser implementar um neoliberalismo com “rosto humano”, “verde” ou “progressista”. As pessoas não saem às ruas e votam eleitoralmente à esquerda para enfeitar o neoliberalismo. Ela mobiliza e muda radicalmente as suas anteriores filiações políticas porque está farta do neoliberalismo, porque quer se livrar dele, pois só enriqueceu algumas famílias e algumas empresas. E se a esquerda não cumprir isso, e coexistir com um regime que empobrece o povo, é inevitável que as pessoas mudem drasticamente as suas preferências políticas para soluções de extrema-direita que oferecem uma solução (ilusória) para a grande agitação coletiva.
A esquerda, se quiser consolidar-se, deve responder às reivindicações para as quais surgiu e, se quiser verdadeiramente derrotar a extrema-direita, deve resolver estruturalmente a pobreza da sociedade, a desigualdade, a precariedade dos serviços, da educação, da saúde e da habitação. Para conseguirem isso materialmente, têm de ser radicais nas suas reformas sobre a propriedade, os impostos, a justiça social, a distribuição da riqueza, a recuperação dos recursos comuns em favor da sociedade. Parar neste trabalho alimentará a lei das crises sociais: qualquer atitude moderada face à gravidade da crise encoraja e alimenta os extremos. Se a direita faz isso, alimenta a esquerda, se a esquerda faz, alimenta a extrema-direita.
Portanto, o caminho para derrotar a extrema-direita, reduzindo-a a um nicho – que continuará a existir, mas sem irradiação social – reside na expansão de reformas econômicas e políticas que se traduzam em melhorias materiais visíveis e sustentadas nas condições de vida dos cidadãos, nas maiorias populares da sociedade, na maior democratização das decisões, numa maior democratização da riqueza e da propriedade, de tal forma que a contenção da extrema-direita não seja apenas um discurso, mas seja apoiada por uma série de ações práticas de distribuição de riqueza que resolvam os principais ansiedades e demandas populares (pobreza, inflação, precariedade, insegurança, injustiça...).
Porque, não devemos esquecer, que a extrema-direita é uma resposta pervertida a estas ansiedades. Quanto mais você distribui riqueza, mais certamente afeta os privilégios dos poderosos, mas eles se tornarão uma minoria na defesa fanática de seus privilégios, enquanto a esquerda se consolidará como quem cuida e resolve as necessidades básicas. Mas, quanto mais estes esquerdistas ou progressivismos se comportarem de forma medrosa, tímida e ambígua na resolução dos principais problemas da sociedade, mais crescerão os extremistas e o progressismo permanecerá isolado na impotência da desilusão. Então, nestes tempos, a extrema-direita é derrotada com mais democracia e com maior distribuição de riqueza; não com moderação ou conciliação.
Existem novos elementos nos novos direitos? É correto chamá-los de fascistas ou deveríamos chamá-los de outra forma? Estará a direita a organizar um laboratório pós-democrático para o continente (incluindo os Estados Unidos)?
Sem dúvida, a democracia liberal, como mera substituição das elites que decidem pelo povo, tende inevitavelmente para formas autoritárias. Se, por vezes, foi capaz de produzir os frutos da social-democratização, foi devido ao impulso de outras formas democráticas plebeias que foram implementadas simultaneamente – a forma sindical, a forma comunitária agrária, a forma plebeia da multidão urbana. Foram estas múltiplas e multiformes ações coletivas de democracia que deram à democracia liberal uma irradiação universalista. Isso poderia ter acontecido porque ela estava sempre sendo ultrapassada e puxada para frente. Mas se deixarmos a democracia liberal tal como está, como uma mera seleção de governantes, ela tenderá inevitavelmente para a concentração de decisões, para a sua conversão naquilo que Schumpeter chamou de democracia como uma mera eleição competitiva daqueles que vão decidir sobre a sociedade, que É uma forma autoritária de concentrar decisões.
E este monopólio de decisão por meios autoritários e, se necessário, acima do próprio processo de seleção da elite, é o que caracteriza a extrema-direita. Portanto, não há antagonismo entre a extrema-direita e a democracia liberal. Existe um conluio subjacente. A extrema-direita pode coexistir com este tipo de democratização meramente elitista que alimenta a democracia liberal. É por isso que é comum que cheguem ao governo através de eleições. Mas, o que a democracia liberal tolera marginalmente e com relutância, e a extrema-direita rejeita abertamente, são outras formas de democratização, que têm a ver com a presença de democracias de baixo (sindicatos, comunidades agrárias, assembleias de bairro, ações coletivas...). Eles se opõem a eles, rejeitam-nos e consideram-nos um obstáculo. Neste sentido, a atual extrema-direita é antidemocrática. Apenas aceitam que sejam escolhidos para governar, mas rejeitam outras formas de participação e democratização da riqueza, o que lhes parece um insulto, uma queixa ou um absurdo que deve ser combatido com a força da ordem e da disciplina coercitiva.
Agora, isso é fascismo? Difícil decidir. Há todo um debate acadêmico e político sobre que nome isto terá e se vale a pena evocar as terríveis ações do fascismo dos anos 30 e 40. Na preciosidade acadêmica talvez estas digressões valham a pena, mas têm muito pouco efeito político. Na América Latina, as pessoas com mais de 60 anos podem ter memórias de ditaduras militares fascistas e a definição pode ter efeitos sobre elas, mas para as novas gerações, falar sobre o fascismo não significa muito. Não me oponho a esse debate, mas não vejo que seja tão útil. No fim, a adesão social ou a rejeição das abordagens da extrema-direita não resultará dos antigos símbolos e imagens que evocam, mas da eficácia da resposta às atuais ansiedades sociais que a esquerda é impotente para resolver.
Talvez a melhor forma de qualificar estas extrema-direita, para além do rótulo, seja compreender a que tipo de procura respondem, que, claro, são exigências diferentes das dos anos 30 e 40, embora com certas semelhanças devido à crise econômica em ambos os períodos. Pessoalmente, prefiro falar de extrema-direita ou direita autoritária, mas se alguém usa o conceito de fascismo, não me oponho, embora também não esteja muito entusiasmado com isso. O problema pode surgir se, desde o início, forem descritos como fascistas e se deixar de lado a questão sobre a que tipo de exigência coletiva respondem ou face a que tipo de fracasso emergem. Portanto, antes de rotular e ter respostas sem perguntas, é melhor perguntar-se sobre as condições sociais do seu surgimento, o tipo de soluções que propõe e, com base nessas respostas, escolher o adjetivo correspondente: fascista, neofascista, autoritário...
Por exemplo, é correto dizer que Milei é fascista? Talvez, mas primeiro é preciso perguntar-se porque é que ele ganhou, com o voto de quem, respondendo a que tipo de ansiedades. Isso é o importante. E também me perguntando o que você fez para que isso acontecesse. Hoje é mais útil perguntar-nos isso do que dar-lhe um rótulo fácil que resolve o problema da rejeição moral, mas não ajuda a compreender a realidade nem a transformá-la. Porque se você responder que Milei convocou a angústia de uma sociedade empobrecida, então fica claro que a questão é a pobreza. Se Milei falou a um jovem que não tem direitos, então há uma geração de pessoas que não teve acesso aos direitos dos anos 50, 60 ou 2000. É aí que reside o problema que o progressismo e a esquerda devem enfrentar para deter os extremos direita e fascismo.
Devemos detectar os problemas com que a extrema-direita desafia a sociedade porque o seu crescimento é também um sintoma do fracasso da esquerda e do progressismo. Não surgem do nada, mas depois que o progressismo não ousou, não pôde, não quis, não viu, não compreendeu a classe e a juventude precária, não compreendeu o significado da pobreza e da economia acima dos direitos de identidade. Existe o núcleo do presente. Isso não significa que não se fale de identidade, mas que se hierarquize, entendendo que o problema fundamental é a economia, a inflação, o dinheiro que sai do seu bolso.
Não podemos esquecer que a identidade de uma pessoa tem uma dimensão de poder econômico e político, que é o que ancora a subalternidade. No caso da Bolívia, por exemplo, a identidade indígena ganhou reconhecimento ao assumir o poder político, primeiro e, gradualmente, o poder econômico dentro da sociedade. A relação social fundamental do mundo moderno é o dinheiro, alienado mas ainda uma relação social fundamental, que lhe escapa, que dilui todas as suas crenças e lealdades. Esse é o problema a ser resolvido pela esquerda e pelo progressismo. Acredito que a esquerda tem que aprender com os seus fracassos e deve ter uma pedagogia sobre si mesma para depois encontrar os qualificadores para denunciar ou rotular algum fenômeno político, como neste caso o da extrema-direita.
Voltando aos projetos populares, quais são os principais desafios do progressismo para superar essas crises, esses fracassos de que você fala? Será apenas porque não fomos capazes de compreender ou interpretar suficientemente as necessidades e exigências dos cidadãos que a extrema-direita agora assume?
Dinheiro é hoje o problema econômico e político elementar, básico, clássico, tradicional do presente. Em tempos de crise, a economia manda, ponto final. Resolva o primeiro problema e depois o resto. Estamos num momento histórico em que emergem o progressismo e a extrema-direita, e o clássico centro-direita neoliberal, tradicional e universalista declina. Por quê? A economia, senhores, ocupa o centro de comando da realidade. O progressismo, a esquerda e as propostas que partem do lado popular têm que resolver primeiro este problema. Mas a sociedade para a qual a velha esquerda dos anos 50 e 60, ou o progressismo da primeira vaga em alguns países, resolveu o problema econômico é diferente da atual.
A esquerda sempre trabalhou no setor da classe trabalhadora assalariada formal e hoje a classe trabalhadora não formal é um mistério para o progressismo. O mundo da informalidade agrupado sob o conceito de “economia popular” é um buraco negro para a esquerda que não o conhece, não o compreende e não tem propostas produtivas para o mesmo que não sejam meros cuidados paliativos. Na América Latina este setor cobre 60% da população. E não é uma presença transitória que depois desaparecerá na formalidade. Não, senhores, o futuro social vai ser informal, com aquele pequeno trabalhador, pequeno agricultor, pequeno empresário, assalariado informal, atravessado por relações familiares e por laços muito curiosos de lealdade local ou regional, subsumidos em instâncias onde as relações capital/trabalho não são tão claras como em uma empresa formal. Esse mundo existirá durante os próximos 50 anos e envolve a maioria da população latino-americana. O que você diria para essas pessoas? Como você se preocupa com a vida deles, com sua renda, com seu salário, com suas condições de vida, com seu consumo?
Estes dois temas são a chave do progressismo latino-americano contemporâneo e da esquerda: resolver a crise econômica tendo em conta o setor informal que constitui a maioria da população ativa na América Latina. Que significa isso? Com quais ferramentas isso é feito? Claro, com expropriações, nacionalizações, distribuição de riquezas, ampliação de direitos, etc. São ferramentas, mas o objetivo é melhorar as condições de vida e o tecido produtivo desses 80% da população, sindicalizada e não sindicalizada, formal e informal, que constitui o povo latino-americano. E também com maior participação da sociedade nas tomadas de decisão. As pessoas querem ser ouvidas, querem participar. O quarto tema é ambiental, justiça ambiental com justiça social e econômica, nunca separada e nunca à frente.
Você está aqui na Colômbia para participar de um Ciclo de Pensamentos coordenado pela filósofa Luciana Cadahia no Ministério da Cultura. Que mudanças você vê aqui com o triunfo do Pacto Histórico e a liderança de Gustavo Petro e Francia Márquez? Acha que a Colômbia tem um papel de liderança para o progressismo na região?
Tendo em conta o contexto histórico colombiano contemporâneo, em que pelo menos duas gerações de combatentes sociais e ativistas de esquerda foram assassinados ou exilados, em que formas de ação coletiva legal foram encurraladas pelo paramilitarismo e em que os EUA tentaram criar não apenas uma base militar em nível estatal, mas também um pivô de cooptação cultural, é extremamente heroico que um candidato de esquerda tenha vencido eleitoralmente o governo. E claro, quando se sente o poderoso sedimento da Colômbia profunda que brota nos bairros e comunidades, compreende-se a eclosão social de 2021 e a razão dessa vitória.
O fato de uma vitória eleitoral progressista ser precedida de mobilizações coletivas permite um espaço de disponibilidade social para reformas. E é por isso que, apesar das limitações parlamentares, o governo do presidente Petro é agora o mais radical desta segunda onda progressista continental.
Duas ações colocam a gestão do Petro na vanguarda dos demais presidentes de esquerda. Por um lado, a aplicação da reforma tributária é progressiva, ou seja, impõe impostos mais elevados a quem tem mais dinheiro. Na maioria dos outros países latino-americanos, a fonte mais importante de receitas fiscais é o IVA, o que claramente impõe uma maior tributação sobre aqueles que têm menos.
Em segundo lugar, progressos na transição energética. É evidente que nenhum país do mundo, nem mesmo os mais poluentes como os EUA, a Europa e a China, abandonou os combustíveis fósseis de um dia para o outro. Estão previstas algumas décadas de transição e até mais alguns anos de produção recorde destes combustíveis. No entanto, a Colômbia, juntamente com a Groenlândia, a Dinamarca, a Espanha e a Irlanda, são os únicos países do mundo que proibiram qualquer nova atividade de exploração de petróleo. O caso colombiano é mais relevante, porque para ele as exportações de petróleo representam mais de metade do total das suas exportações, o que torna esta decisão muito mais ousada e avançada em nível global.
São reformas que certamente olham para o futuro de uma forma comprometida com a vida e que iluminam o rumo do que outras experiências progressistas também deveriam realizar no curto prazo.
No entanto, para que estas decisões, e outras que ainda faltam para estabelecer condições de necessária igualdade econômica, sejam sustentáveis ao longo do tempo, a melhoria real contínua dos rendimentos das classes populares colombianas não deve ser negligenciada, uma vez que qualquer justiça climática sem justiça social, nada mais é do que ambientalismo liberal. Isto exigirá um acoplamento milimétrico entre as receitas que o Estado deixará de receber nos anos seguintes, com novas que deverá garantir através de outras exportações, impostos mais elevados sobre os ricos e melhorias palpáveis nas condições de vida das maiorias populares.
Gostaria de finalizar com sua leitura sobre o papel que a América Latina e o Caribe terão no mundo. Ou melhor, que papel político podemos desempenhar num cenário de transformações radicais como as que vivemos.
No início do século XXI, a América Latina foi quem tocou o primeiro sino do esgotamento do ciclo de reformas neoliberais que se estabelecera globalmente desde a década de 1980. Foi aqui que começou a procura de um regime híbrido entre protecionismo e comércio livre, que então, de 2018 até hoje, começou gradualmente a ser testado nos EUA e nos diferentes países da Europa. Neste ponto, apesar das ocasionais recaídas melancólicas num paleoliberalismo de pernas curtas, como no Brasil com Bolsonaro e na Argentina com Milei, o mundo está na transição para um novo regime de acumulação e legitimação que substituirá o globalismo neoliberal.
No entanto, neste momento, o continente está um pouco exausto para continuar a liderar as reformas globais. Parece que a transição pós-neoliberal deve agora avançar primeiro à escala global para que a América Latina renove as suas forças para retomar o impulso inicial. A possibilidade de reformas estruturais pós-neoliberais de segunda geração, ou mesmo mais radicais, que recuperem a força transformadora continental, deve esperar por maiores mudanças globais e, claro, por uma nova onda de ações coletivas plebeias que modifiquem o campo das transformações imaginadas... e possível. Enquanto isso não acontecer, o continente será um cenário intenso de disputas pendulares entre vitórias populares curtas e vitórias conservadoras curtas, entre derrotas populares curtas e derrotas oligárquicas igualmente curtas.
Colaboradores
Tamara Ospina Posse é cientista política, feminista e ativista da Colombia Humana e do Centro de Pensamento Colombia Humana (CPCH).
Álvaro García Linera é ex-vice-presidente da Bolívia (2006-2019) e membro do conselho consultivo da Jacobin Latin America.
Casas destruídas em Gaza, novembro de 2023 Abed Sabah / Reuters
Após quase três meses de guerra de Israel em Gaza, uma coisa é incontestável: o território há muito isolado retornou ao centro do conflito israelense-palestino. Durante grande parte das últimas duas décadas, enquanto Israel impunha um bloqueio aéreo, marítimo e terrestre a Gaza, os líderes e órgãos internacionais pareciam presumir que o denso enclave de 2,3 milhões de palestinos poderia ser indefinidamente excluído da equação regional. Pegando Israel e grande parte do mundo completamente desprevenidos, o ataque do Hamas em 7 de outubro expôs as enormes falhas nessa suposição. De fato, a guerra agora redefiniu toda a questão palestina, colocando Gaza e seu povo diretamente no centro de qualquer futura negociação israelense-palestina.
Mas a nova proeminência repentina de Gaza dificilmente deveria ser uma surpresa. Embora pouco disso seja lembrado hoje, a história de 4.000 anos do território deixa claro que os últimos 16 anos foram uma anomalia; a Faixa de Gaza quase sempre desempenhou um papel fundamental na dinâmica política da região, bem como em suas lutas antigas sobre religião e poder militar. Desde o período do Mandato Britânico no início do século XX, o território também está no centro do nacionalismo palestino.
Portanto, qualquer tentativa de reconstruir Gaza após uma guerra tão devastadora dificilmente terá sucesso se não levar em conta a posição estratégica do território na região. A desmilitarização deste enclave só pode ser alcançada levantando o cerco desastroso e apresentando uma visão positiva para seu desenvolvimento econômico. Em vez de tentar cortar o território ou isolá-lo politicamente, as potências internacionais devem trabalhar juntas para permitir que Gaza recupere seu papel histórico como um oásis florescente e uma encruzilhada próspera, conectando o Mediterrâneo com o Norte da África e o Levante. Os Estados Unidos e seus aliados devem reconhecer que Gaza precisará ter um papel central em qualquer solução duradoura para a luta palestina.
A JOIA DA COROA
Em forte contraste com sua realidade atual de empobrecimento, escassez extrema de água e miséria humana sem fim, o oásis de Gaza, ou Wadi Ghazza, foi celebrado por séculos pela exuberância de sua vegetação e o frescor de sua sombra. Tão importante, no entanto, foi seu valor estratégico, pois Gaza conecta o Egito ao Levante. Sua posição vantajosa fez com que a terra fosse disputada desde o século XVII a.C., quando os hicsos invadiram o delta do Nilo a partir de Gaza, apenas para serem posteriormente derrotados e repelidos por uma dinastia de faraós baseada em Tebas. Eventualmente, os faraós tiveram que abandonar Gaza para os povos do mar — conhecidos como filisteus — que no século XII a.C. estabeleceram uma federação de cinco cidades que incluía Gaza e as cidades agora israelenses de Ascalão, Asdode, Ecrom e Gate.
Tensões violentas irromperam sobre o acesso ao mar entre os filisteus e as tribos judaicas vizinhas e, em seguida, reinos. Assim, a história bíblica de Sansão, o lendário guerreiro israelita que parte para derrotar os filisteus. Como sua força formidável depende de seu cabelo nunca ser cortado, ele fica impotente quando cai sob o feitiço de Dalila, que tem sua cabeça raspada durante o sono, e acaba em uma prisão em Gaza. Enquanto em cativeiro, no entanto, seu cabelo cresce novamente, restaurando sua força, e quando ele é finalmente arrastado para fora de sua cela para ser ridicularizado em um templo filisteu, ele derruba os pilares do edifício, matando a si mesmo junto com seus inimigos. Em uma linha semelhante, é depois de matar o filisteu Golias que o jovem Davi começa seu esforço para unificar os reinos de Judá e Israel.
Na antiguidade tardia, a cobiçada geografia de Gaza fez dela um campo de batalha crucial entre alguns dos maiores hegemons da época. Depois de passar pelas mãos dos assírios e dos babilônios, Gaza foi capturada pela Pérsia de Ciro, o Grande, em meados do século VI. Mas o verdadeiro choque veio dois séculos depois, em 332 a.C., quando Alexandre, o Grande, da Macedônia, lançou um cerco devastador de cem dias a Gaza a caminho do Egito. Durante essa guerra horrível, ambos os lados fortificaram suas posições cavando vários túneis sob o solo solto de Gaza — fornecendo um antecedente histórico para a estratégia do Hamas contra Israel hoje. No final, as forças de Alexandre saíram vitoriosas, mas a um alto custo para todos os lados. Alexandre foi ferido durante o cerco e se vingou terrivelmente dos derrotados habitantes de Gaza: grande parte da população masculina foi massacrada, e as mulheres e crianças reduzidas à escravidão.
Mas a importância de Gaza se estendeu além de seu valor militar. Tendo se tornado uma cidade-estado durante o período helenístico, mais tarde se tornou um importante centro religioso nos primeiros séculos do cristianismo e depois do islamismo. Em 407 d.C., Porfírio, o bispo cristão de Gaza, conseguiu impor uma igreja nas ruínas do principal templo pagão de Zeus em Gaza. Ainda mais famoso foi outro santo local, Hilarion (291–371), que fundou uma importante comunidade monástica em Gaza e cujo túmulo se tornou um local de peregrinação extremamente popular. Um dos bisavós do profeta Maomé foi um comerciante de Meca chamado Hashem ibn Abd Manaf, que morreu em Gaza por volta de 525. Como resultado, depois que o território foi conquistado por exércitos muçulmanos no século VII, os muçulmanos respeitosamente se referiram a ele como "Gaza de Hashem". (No século XIX, os otomanos construíram a Mesquita de Hashem na Cidade de Gaza para marcar o local do mausoléu de Hashem.)
Entre o período medieval e o século XIX, Gaza continuou a servir como um prêmio cobiçado nas principais lutas de poder da região. Ela oscilou entre cruzados cristãos e defensores muçulmanos no século XII e generais mamelucos e invasores mongóis no século XIII. Durante dois séculos e meio sob os mamelucos — governantes turcos que controlavam o Egito e a Síria medievais — Gaza entrou em uma espécie de era de ouro. O território foi dotado de inúmeras mesquitas, bibliotecas e palácios, e prosperou com as renovadas rotas comerciais costeiras. Em 1387, um caravanseray ou khan fortificado, uma espécie de centro de comércio e mercado, foi estabelecido no extremo sul de Gaza e logo se tornou uma cidade própria, Khan Yunis.
Gaza foi absorvida pelo Império Otomano em 1517 e conquistada, brevemente, pelo exército de Napoleão Bonaparte, após invadir o Egito em 1798. Durante grande parte desse período, Gaza foi famosa por seu clima fértil, nativos simpáticos e alta qualidade de vida. Em 1659, um viajante francês a descreveu como "um lugar muito alegre e agradável"; dois séculos depois, outro, o escritor francês Pierre Loti, maravilhou-se com seus "vastos campos de cevada todos vestidos de verde".
Quando a fronteira foi traçada em 1906 para separar o Egito controlado pelos britânicos da Palestina otomana, ela passava pela cidade de Rafah para criar uma zona de livre comércio de fato entre os dois impérios. Mas durante a Primeira Guerra Mundial, a fronteira foi ferozmente contestada pelas forças britânicas e otomanas; após três tentativas, o Exército Britânico finalmente rompeu as linhas otomanas em 1917. O General Edmund Allenby entrou na cidade devastada de Gaza em 9 de novembro, o mesmo dia em que seu governo tornou pública a Declaração Balfour e seu compromisso com "o estabelecimento de um lar nacional para o povo judeu na Palestina". Esse endosso do programa sionista foi posteriormente incorporado ao mandato que a Liga das Nações concedeu à Grã-Bretanha para administrar a Palestina.
Embora Gaza tenha sido uma das áreas da Palestina menos visadas pelo assentamento sionista, ela se tornou um reduto do nacionalismo palestino, especialmente durante a Grande Revolta Árabe de 1936-39, na qual os árabes palestinos se levantaram contra os britânicos e lutaram sem sucesso por um estado árabe independente. Em vez disso, em novembro de 1947, as Nações Unidas endossaram um plano de partição no qual a Palestina seria dividida entre um estado árabe e um judeu — a solução original de dois estados — com Gaza se juntando ao estado árabe.
SEMENTES DA DISPUTA
Crucialmente, o que ficou conhecido como Faixa de Gaza foi moldado pelos traumas cruciais de 1948. Primeiro veio o fracasso do plano de partição da ONU, que, embora bem recebido pela liderança sionista, foi categoricamente rejeitado pelos nacionalistas palestinos e pelos estados árabes, desencadeando um conflito armado entre judeus e árabes. Logo, as primeiras ondas de refugiados árabes, principalmente da área de Jaffa, estavam chegando a Gaza; em uma amarga antecipação do dilema internacional de hoje, os britânicos sugeriram que a área teria melhor acesso à ajuda humanitária por terra do Cairo. Então, após a proclamação do estado de Israel pelo líder sionista David Ben-Gurion em maio de 1948, os estados árabes vizinhos atacaram, com 10.000 soldados egípcios se mudando para Gaza. Mas os egípcios nunca foram além de Ashdod, cerca de 20 milhas ao norte de Gaza, onde logo foram repelidos por uma ousada operação israelense.
Em janeiro de 1949, os israelenses não só derrotaram os exércitos árabes, mas também expulsaram cerca de 750.000 palestinos de suas casas, no que ficou conhecido como nakba, ou catástrofe. O armistício assinado entre Israel e Egito sob os auspícios da ONU em fevereiro daquele ano criou a Faixa de Gaza, um território sob administração egípcia e definido pelas linhas de cessar-fogo no norte e leste e pela fronteira de 1906 com o Egito no sul. Depois de séculos como uma encruzilhada estratégica e centro comercial vital para o comércio regional, Gaza foi reduzida a uma "faixa" de terra, encurralada pelo deserto e isolada do que havia sido a Palestina. Além disso, a população local de cerca de 80.000 agora estava sobrecarregada por cerca de 200.000 refugiados de toda a Palestina que então descreveram a Faixa de Gaza como sua "arca de Noé".
Não havia infraestrutura para acolher esses refugiados e, durante o primeiro inverno de 1948-49, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha estimou que dez crianças morriam todos os dias de frio, fome ou doença. A imensidão do Deserto do Sinai forçou os sobreviventes a permanecerem no enclave. De fato, 25% da população árabe da Palestina do Mandato Britânico estava agora confinada na Faixa de Gaza a apenas um por cento de seu antigo território, com Israel absorvendo 77% desse território e o Reino Hachemita da Jordânia outros 22%, por meio da anexação de Jerusalém Oriental e da Cisjordânia.
Tal foi a magnitude da nakba que as Nações Unidas criaram um órgão especial, o UN Relief for Palestinian Refugees (UNRPR), para lidar com a crise humanitária. Para os palestinos, a terrível revolta também plantou as sementes de uma nova luta que continuaria até os dias atuais. Em dezembro de 1948, a mesma Assembleia Geral da ONU que havia aprovado o plano de partição fracassado um ano antes consagrou o “direito de retorno” dos refugiados palestinos — seja por meio de repatriação real ou mera compensação monetária — um conceito que tem sido central para as aspirações palestinas desde então. Ele tinha um significado especial em Gaza, dado o número extraordinário de refugiados ali, e como o Egito não tinha reivindicação territorial na faixa, o enclave se tornou uma incubadora natural para o nacionalismo palestino.
Um homem pendura uma bandeira palestina nas ruínas de sua casa em Khan Younis, Faixa de Gaza, novembro de 2023Mohammed Salem / Reuters
Como primeiro líder de Israel, Ben-Gurion entendeu a ameaça de longo prazo que Gaza representava para quase todos os seus companheiros israelenses. Na conferência de paz da ONU em Lausanne, em 1949, ele propôs anexar a Faixa de Gaza e permitir que 100.000 refugiados palestinos entrassem em suas antigas casas em Israel. Mas o plano gerou um alvoroço tanto em Israel, onde havia enorme oposição a qualquer retorno de palestinos, quanto no Egito, onde a defesa de Gaza havia se tornado uma causa nacional. Como resultado, a ONU admitiu sua impotência para resolver a disputa árabe-israelense, encerrando a conferência de Lausanne e estabelecendo instituições "interinas" abertas em seu lugar. Assim, a UNRPR foi transformada na Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados e Trabalhadores (UNRWA), que desde então tem sido a principal empregadora e principal provedora de serviços sociais em Gaza. Oito campos de refugiados foram fundados no enclave, sendo os maiores Jabalya, no extremo norte, e o Beach Camp, na costa da Cidade de Gaza — os mesmos campos que agora foram destruídos pelo ataque israelense.
Na verdade, levou alguns anos até que os refugiados de Gaza se voltassem para o ativismo militante. No início, tanto Israel quanto o Egito conseguiram reprimir os chamados fedayeen — guerrilheiros vindos principalmente dos campos de Gaza que buscavam se infiltrar em Israel. Mas em meados da década de 1950, o líder egípcio Gamal Abdel Nasser começou a usá-los para ataques por procuração contra Israel, iniciando assim o ciclo de ataques e represálias que está tão intimamente associado ao território hoje. Em abril de 1956, o oficial de segurança de um kibutz perto do enclave palestino foi morto por infiltrados de Gaza, fazendo com que Moshe Dayan, o chefe de gabinete israelense, alertasse os israelenses sobre as queixas não resolvidas que ferviam no território: "Não vamos, hoje, jogar a culpa nos assassinos", disse Dayan. "Por oito anos, eles se sentaram nos campos de refugiados em Gaza, e diante de seus olhos transformamos suas terras e vilas, onde eles e seus pais moravam, em nosso lar."
Erradicar a presença fedayeen de Gaza se tornou uma prioridade para Ben-Gurion e Dayan. Em novembro de 1956, o exército israelense assumiu o controle da faixa como parte de uma ofensiva coordenada com a França e o Reino Unido contra o Egito de Nasser. Durante quatro meses de ocupação, cerca de mil palestinos foram mortos pelas forças israelenses (incluindo dois massacres documentados pela UNRWA nos quais pelo menos 275 foram executados em Khan Yunis e 111 em Rafah). O trauma foi tão profundo que, quando os israelenses se retiraram sob pressão dos EUA, a população palestina pediu o retorno do governo egípcio em vez da tutela da ONU que havia sido inicialmente prevista. Uma oportunidade histórica de construir uma entidade palestina que pudesse evoluir para um estado havia sido perdida. Enquanto isso, os fedayeen fugiram para o Kuwait, onde fundaram, em 1959, o Movimento de Libertação da Palestina, conhecido como Fatah, com Yasser Arafat como seu líder.
A segunda ocupação de Gaza por Israel começou em junho de 1967, após o triunfo israelense na Guerra dos Seis Dias. Dayan, agora ministro da defesa, com o futuro primeiro-ministro Yitzhak Rabin como seu chefe de gabinete, apagou qualquer vestígio da fronteira entre Gaza e Israel, apostando que a atração do mercado de trabalho israelense dissolveria o nacionalismo palestino. Mas a população local, no entanto, apoiou por quatro anos uma guerra de guerrilha de baixa intensidade, até que Ariel Sharon, o comandante israelense para a região (também mais tarde primeiro-ministro), destruiu partes dos campos de refugiados e quebrou a espinha dorsal da insurgência. Hoje, o exército israelense está usando o mesmo mapa que Sharon usou para distinguir as chamadas "áreas seguras" das zonas de combate na ofensiva em andamento.
GERANDO UM MONSTRO
Os líderes mais visionários de Israel reconheceram há muito tempo que o problema dos refugiados de Gaza não desapareceria. Em 1974 — seguindo Ben-Gurion — Sharon propôs reassentar dezenas de milhares de refugiados palestinos em Israel para resolver as queixas palestinas, pelo menos simbolicamente. Mas, mais uma vez, a ideia foi rejeitada. Em vez disso, Israel começou a jogar os Irmãos Muçulmanos em Gaza, liderados pelo Sheikh Yassin, contra os nacionalistas agora controlados pelo Fatah da principal Organização de Libertação da Palestina. Notavelmente, o governador militar israelense compareceu à inauguração da mesquita de Yassin em Gaza em 1973 e, seis anos depois, Israel permitiu que os islâmicos recebessem fundos estrangeiros enquanto reprimia qualquer conexão estabelecida com a OLP.
Por um tempo, essa política de dividir para conquistar pareceu funcionar bem para Israel em Gaza, com confrontos entre nacionalistas e islâmicos em 1980. Mas no final da década de 1980, uma geração inteira cresceu sob a pressão constante dos colonos israelenses que, embora contando apenas com poucos milhares, levaram o exército de ocupação a excluir a já apertada população de Gaza de um quarto do enclave. Foi no campo de refugiados de Jabalya, em Gaza, que a primeira intifada começou, em dezembro de 1987, da qual logo se espalhou para toda a faixa e depois para a Cisjordânia. Jovens palestinos desafiaram os militares israelenses com suas pedras e estilingues, mas também forçaram Arafat e a OLP a endossar a solução de dois estados. Em resposta, Yassin transformou sua organização no Hamas (uma sigla para o "Movimento pela Resistência Islâmica") acusando a OLP de ter traído o dever "sagrado" de "libertar a Palestina". Mais uma vez, a inteligência israelense aproveitou essas tensões para enfraquecer a intifada e esperou até maio de 1989 para prender Yassin. Mas a revolta popular continuou até que o apoio à paz em Israel levou Rabin ao cargo de primeiro-ministro, em julho de 1992.
Ao abrir conversas secretas com a OLP, a prioridade de Rabin era desvincular Israel da Faixa de Gaza, mas ainda proteger os colonos israelenses ali. Os acordos de Oslo, assinados em setembro de 1993, criaram uma Autoridade Palestina para assumir o controle dos territórios evacuados por Israel. Arafat mudou-se para Gaza dez meses depois, acreditando que ele próprio havia libertado o território, ou pelo menos a parte sob controle palestino, enquanto a população local estava convencida de que havia pago o preço mais alto por tal libertação. Esse mal-entendido, juntamente com a corrupção desenfreada da AP, jogou diretamente nas mãos do Hamas. Em 1997, uma operação fracassada da inteligência israelense contra o líder do Hamas Khalid Meshal na Jordânia levou à prisão de agentes israelenses. Para garantir sua libertação, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu foi forçado a entregar Yassin, que estava cumprindo pena perpétua em Israel e que retornou triunfantemente a Gaza.
A crescente agressividade do Hamas e a crise do processo de paz levaram à erupção da segunda intifada em setembro de 2000. A onda chocante de ataques suicidas ajudou a levar Sharon ao poder em uma vitória esmagadora em fevereiro de 2001. Depois de sitiar Arafat em Ramallah e matar Yassin em Gaza, Sharon acreditava que sua vitória seria completa somente após a evacuação israelense da Faixa de Gaza. Tal retirada unilateral tinha como objetivo garantir uma nova linha de defesa israelense ao redor do enclave e foi realizada sem nenhuma consulta a Mahmoud Abbas, que havia sucedido Arafat como chefe da OLP e da AP. Mas a aposta de Sharon arruinou o ambicioso plano de desenvolvimento de 3 mil milhões de dólares para Gaza que James Wolfensohn, o enviado especial do Quarteto para o Médio Oriente (Rússia, Estados Unidos, União Europeia e Nações Unidas) tinha concebido.
O Hamas naturalmente reivindicou a retirada israelense como uma vitória e venceu as eleições parlamentares patrocinadas internacionalmente alguns meses depois, em janeiro de 2006. Envergonhados pelo resultado imprevisto, os Estados Unidos e a União Europeia decidiram boicotar o Hamas até que ele reconhecesse Israel e renunciasse à violência. Mas no ano seguinte, o Hamas não reformado, tendo matado centenas de seus rivais, havia obtido controle total da faixa, que foi então colocada sob bloqueio israelense total (com a cooperação do Egito, que controla o ponto de passagem de Rafah no sul). De muitas maneiras, as políticas israelenses levaram o Hamas ao poder em Gaza, um poder que o bloqueio só consolidou desde então.
UM CAMINHO PARA A PAZ?
Um legado das políticas que foram seguidas desde 2006, a guerra atual entre Israel e o Hamas também é resultado da negação da rica identidade histórica de Gaza. Durante os últimos 16 anos, os líderes israelenses pensaram que tinham encontrado a fórmula ideal para marginalizar Gaza completamente: mais de dois milhões de palestinos poderiam ser excluídos da equação demográfica entre as populações judaica e árabe em Israel, Jerusalém Oriental e Cisjordânia; e a AP, cega por sua amarga rivalidade com o Hamas, resistiu a qualquer esforço para aliviar o bloqueio em Gaza, uma abordagem que minou ainda mais a legitimidade já minada da AP. Enquanto isso, a divisão da liderança palestina condenou qualquer esforço para reviver o processo de paz e permitiu que os assentamentos israelenses se expandissem constantemente na Cisjordânia. De tempos em tempos, Israel se envolvia no que especialistas em contraterrorismo descreviam como guerras de "corte de grama" em Gaza, com, do seu ponto de vista, uma proporção sustentável de baixas em grande parte militares, embora os palestinos mortos fossem principalmente civis. Em 2009, 13 soldados israelenses foram mortos, e 1.417 palestinos. Em 2012, a proporção era de seis israelenses para 166 palestinos. Em 2014, era de 72 israelenses para 2.251 palestinos, e em 2021, 15 para 256. Enquanto isso, a União Europeia e os estados do Golfo estavam sempre prontos para pagar a conta para reconstruir as ruínas na faixa.
Mas a ideia de que a terrível realidade humana de Gaza poderia ser simplesmente ignorada era uma ilusão. Em 7 de outubro de 2023, o status quo entrou em colapso na horrível onda de assassinatos do Hamas. A violência sem precedentes que Israel vem desencadeando em Gaza desde então, na qual mais de 21.000 palestinos foram mortos até agora — e, em uma repetição cruel das memórias da nakba, uma esmagadora maioria de seus 2,3 milhões de habitantes foram arrancados de suas casas — enviou ondas de choque pelo Oriente Médio e além. O objetivo de guerra declarado de Netanyahu — a "erradicação" do Hamas — ecoa aqueles de Ben-Gurion em 1956, só que em uma escala muito maior e com o mundo inteiro assistindo. Mesmo supondo que tal objetivo possa ser alcançado, não haverá Nasser para trazer ordem ao enclave após a retirada israelense. Então Israel parece destinado a ser assombrado pela própria "Faixa de Gaza" que criou em 1948, com o ciclo contínuo de guerras e ocupação levando apenas a um ativismo palestino mais radical.
Para que os israelenses e os palestinos finalmente desfrutem da paz e segurança que tanto merecem, Gaza deve mais uma vez retornar às suas raízes como a próspera encruzilhada que foi por séculos. Para começar, a política de cerco e bloqueio deve acabar, permitindo que o território finalmente se reconecte com o resto da região. Ao mesmo tempo, aproveitando o papel histórico de Gaza como um importante centro comercial, uma estratégia concertada de redesenvolvimento, ecoando o plano de Wolfensohn de 2005, deve ser colocada em prática para permitir que Gaza passe da assistência internacional para uma economia autosustentável. Esta é a chave para que o território seja desmilitarizado sob supervisão internacional e no quadro de uma solução de dois estados.
Claro, será extremamente difícil fazer qualquer coisa disso acontecer, particularmente depois de uma guerra implacável que ameaça gerar uma nova geração de militância palestina. Mas não há soluções fáceis restantes. Esta estratégia pode ser a única maneira de sair da atual espiral assassina. Como tem sido por séculos, Gaza está mais uma vez no centro de uma grande guerra, mas também é a chave para a paz e a prosperidade no Oriente Médio.
JEAN-PIERRE FILIU é professor de Estudos do Oriente Médio na Sciences Po em Paris e autor de Gaza: A History and The Middle East.
Teatrais em suas performances e marxistas em suas políticas, Floh de Cologne foi uma das bandas mais notáveis da cena Krautrock da Alemanha Ocidental. A banda conta à Jacobin sobre sua época como os únicos roqueiros progressivos comunistas da Europa.
Uma entrevista com Vridolin "Vitti" Enxing, Dieter Klemm
Vridolin Enxing, Hansi Frank e Dieter Klemm da banda de rock da Alemanha Ocidental Floh de Cologne em 1979. (Cortesia de Vridolin Enxing)
Entrevistada de Loren Balhorn
Na década de 1970, as cidades e cidades universitárias da Alemanha Ocidental foram palco de um despertar cultural. Apenas alguns anos antes, dezenas de milhares de jovens tinham saído às ruas por uma revolução que nunca aconteceu. Mas a energia que libertaram tinha de ir para algum lado e grande parte dela acabou por fluir para a indústria cultural. Inspiradas pelos novos sons emocionantes dos Estados Unidos, várias bandas da Alemanha Ocidental começaram a fundir rock psicodélico, jazz e os primórdios da música eletrônica. Eles criaram uma cena musical dinâmica que logo ficou conhecida como “Krautrock”.
No meio de tudo isto estava um grupo de esquerdistas cabeludos que se autodenominavam Floh de Cologne, um jogo de palavras que combina “eau de cologne” com a palavra alemã para pulga. Originalmente fundado como uma trupe de cabaré radical em 1966, no final da década eles se transformaram em uma banda de rock, e em 1970 acabaram tocando no mesmo palco que Jimi Hendrix após aquele que acabaria sendo seu último show. Como membros de carteirinha do Partido Comunista Alemão (DKP), “die Flöhe”, como seus fãs os chamavam, viajaram incansavelmente por mais de quinze anos, tocando sua marca única de rock progressivo teatral com um toque revolucionário para públicos entusiasmados de jovens socialistas e sindicalistas em toda a Alemanha e além.
Quando a banda percebeu que os ventos políticos e culturais tinham mudado, largaram os seus instrumentos em 1983, após um último concerto de oito horas cheio do que o Süddeutsche Zeitung chamou de “espírito de luta e ironia anárquica”, para nunca mais tocarem juntos no palco. Quarenta anos depois daquele último show, o empresário da banda e percussionista ocasional Dieter Klemm e o tecladista Vridolin “Vitti” Enxing conversaram com Loren Balhorn da Jacobin sobre sua música, sua política e seu show mais memorável.
Floh de Cologne se desfez há quarenta anos. Entre 1966 e 1983, você lançou dez discos, publicou três livros e realizou mais de 1.500 shows – um recorde impressionante. Como a banda realmente começou?
Eu não estava lá desde o início, mas entrei depois de um ano. Todos nós estudamos teatro. Gerd Wollschon, fundador da banda e durante muito tempo principal letrista, já havia tocado cabaré na escola. Na universidade, ele queria fundar um grupo de cabaré estudantil, então encontrou alguns camaradas de armas, e Floh de Cologne surgiu em janeiro de 1966, junto com Markus Schmidt e três outros que não permaneceram por muito tempo.
Como vocês dois entraram no grupo?
Eu era funcionário público em Hamburgo. Eles sabiam disso e pensaram: “Ele sabe lidar com números, vamos perguntar se ele quer ser diretor administrativo”. Desde o início eu disse que também queria estar no palco - mas, eu disse, “estudar vem primeiro!” Isso acabou sendo uma ilusão depois de alguns anos, porque tivemos muito sucesso.
Você acabou terminando sua graduação?
Não, nenhum de nós terminou.
E você, Vridolin?
Terminei o ensino médio em 1969, numa pequena cidade da Vestfália. Meu pai era o professor da aldeia e durante um ano eu não tinha nada em mente a não ser deixar meu cabelo comprido. Quando fui a Colônia para estudar na faculdade de música, encontrei a Liga Estudantil Marxista Spartacus [organização estudantil do DKP] e, através dela, ouvi falar dos concertos de Floh de Colônia. Eu os vi pela primeira vez na universidade; mil pessoas estavam lá. Fiquei impressionado. Inacreditável! Ainda hoje me dá arrepios.
Cerca de quatro meses antes de me formar, alguém veio até mim e disse: “Escute, os Flöhe estão procurando um cara novo; isso pode ser algo para você. Então liguei para Floh de Cologne, houve uma reunião com Gerd Wollschon e eu deveria me apresentar naquele momento. Acho que o mais importante, porém, foi que eu estava no Partido Comunista.
Vocês já eram comunistas antes de se tornarem membros da banda?
Bem, eu não era. Naqueles primeiros tempos tocávamos numa sala dos fundos de uma taberna em Colônia, a Franziskaner am Gürzenich. Depois do show, continuávamos conversando, discutindo e politizando uns aos outros. Já havia um grande despertar da esquerda, com ocupações de salas de aula e manifestações e ataques a professores de direita e assim por diante. Mas eu não vim como esquerdista, me tornei um.
No entanto, durante a maior parte do tempo vocês foram membros do DKP?
Sim, era foi um critério. Todos os outros aderiram ao DKP de forma independente. Não houve decisão conjunta do grupo; foi simplesmente a consequência lógica da nossa atividade. Os outros grupos de esquerda - os trotskistas, os maoistas, e assim por diante - eram todos demasiado malucos para nós.
Conhecemos todas as correntes políticas, mas evoluímos na direção do DKP - os "revisionistas", como era chamado na altura. Pareceu-nos ser a opção mais realista. Não se deve esquecer que o DKP foi fundado em 1968 e era muito respeitado na cena cultural de esquerda da época. Muitos autores [eram membros] que você não acreditaria hoje que faziam parte do DKP, junto com muitos artistas e músicos.
Era a tradição de Rosa Luxemburgo, de Karl Liebknecht, do Partido Comunista na década de 1920 - essa credibilidade! Admirei os veteranos que conheci lá e que falaram sobre a resistência. Naquela época, eu era da opinião de que só havia um tipo de alemão decente: aquele que emigrava ou era enviado para campos de concentração. Fui bastante agressivo, porque recebemos muitas críticas na rua: “Como você pode andar assim? Você pertence a um campo de trabalho! As pessoas ainda diziam coisas assim e isso me enfureceu.
Então, a rejeição do passado fascista e da sociedade alemã dominante foi um grande motivador?
Um grande problema. Comprei uma correntinha com foice e martelo e pendurei no pescoço para provocar as pessoas. Naquela época eu imaginava que era um alemão melhor, um revolucionário! Sempre tive a sensação de que encontraria companheiros onde quer que fosse. Isso me deu algo como uma segunda casa.
Eu não estava pensando principalmente na Alemanha Oriental e nunca tive a intenção de emigrar. Eu tinha saído em turnê com Floh de Cologne e, como esquerdista com fortes tendências anarquistas, não poderia estar satisfeito com isso. Dito isto, também houve grandes coisas na Alemanha Oriental - por exemplo, tínhamos a sensação de que o feminismo tinha surgido lá há muito tempo.
Suas apresentações já foram descritas como “revistas de agitação”, uma mistura de palestras políticas e rock experimental. Quais foram as questões que o preocuparam?
Já fizemos apresentações como a peça do Vietnã como grupo de cabaré, SimSAlabimbambaSAladUSAladim. Durou apenas meia hora, mas foi uma dura acusação aos crimes americanos na Guerra do Vietnã. As pessoas saíram em silêncio depois.
A grande questão na produção seguinte foi a sociedade de consumo. Havíamos percebido - ou pensávamos ter percebido - que cada vez mais consumo não levava a uma vida significativa e plena. O “terror do consumismo” foi um grande problema para nós nos primeiros anos.
Você pode ouvir isso em seu primeiro álbum de rock de verdade, Fließbandbabys Beat-Show, que ainda apresentava muito anticonsumismo, enquanto nos anos posteriores temas como luta de classes e anti-imperialismo dominavam. Seu estilo também mudou muito ao longo dos anos. Como você evoluiu do cabaré para o rock progressivo?
Éramos o auge da jovem cena de cabaré alemã da época. Tocamos durante quatro semanas no Rationaltheater de Munique, o cabaré de Reiner Uthoff em Schwabing, e em três dias todos os ingressos estavam esgotados – eles enlouqueceram. É claro que poderíamos ter continuado assim e talvez ficado ricos, mas não queríamos ganhar muito dinheiro – queríamos mudar o mundo!
Queríamos atingir um público diferente: escolares, aprendizes, universitários — porque eles estavam dispostos a pensar e mudar de vida. O Cabaret estava dentro de nós, mas tínhamos que fazer algo diferente; tivemos que fazer rock. Mas como fazer isso funcionar?
Vocês não eram músicos?
Não, eu pessoalmente, de jeito nenhum. Markus Schmidt já tocava piano e cantava violão no grupo de cabaré, e trouxemos Dick Städtler, que teve aulas de piano quando criança. Mas não tínhamos nada, nenhum equipamento nem nada, e nenhum instrumento. Até então, apenas Hansi Frank tocava bateria em uma caixa, que expandimos para uma bateria, e então ganhamos uma guitarra elétrica, construímos nossos próprios alto-falantes de madeira e começamos a desenvolver e praticar música.
Você teve algum modelo?
Frank Zappa nos Estados Unidos, por exemplo, ou Tuli Kupferberg and the Fugs. Nós os conhecemos no Dia Internacional da Canção de Essen, em 1968. Eles faziam bom rock, mas com letras políticas. Estávamos muito entusiasmados - tínhamos que ir nessa direção.
Sua música obviamente pretendia transmitir mensagens políticas; a intenção pedagógica é muito aparente. Você foi influenciado por certos conceitos ou teóricos?
Não, foi mais espontâneo, todos nós escrevemos e reescrevemos as letras juntos. Todos nós ficamos atrás de cada frase cantada no palco.
Seu primeiro álbum propriamente dito foi o primeiro lançado pelo lendário selo Krautrock Ohr, e as gravações posteriores foram produzidas por Conny Plank, um ícone da música experimental da Alemanha Ocidental na época. Você se viu como parte dessa cena? Você teve contato com outras bandas daquela época, como Can ou Guru Guru?
Estávamos mais na cena política de cantores e compositores. Éramos amigos de Franz Josef Degenhardt, Dieter Süverkrüp e Hannes Wader. Acho que uma vez tocamos junto com Guru Guru e é claro que conhecíamos Can; eles também eram de Colônia. Mas a cena musical sempre nos desprezou um pouco. Fizemos música, mas ela tinha um propósito. Não era apenas para soar bem, e é isso que nos diferencia das outras bandas.
Nos conhecíamos em festivais, nos conhecíamos, mas sempre tivemos a impressão de que os outros não nos levavam a sério como músicos, e tinham bons motivos para isso. Não éramos bons músicos – exceto eu, porque estudei música. Nenhum de nós poderia tocar um solo de guitarra do Deep Purple. Lembro-me de quando Udo Lindenberg e os Scorpions entraram em cena; aqueles eram músicos. Éramos artistas musicais. Nosso baterista costumava dizer: “Eu não sou baterista, eu toco baterista no palco”.
Mais tarde, fiz um grande esforço para transformar os outros em músicos melhores. Não foi fácil, mas eles aceitaram. Eles também notaram que recebemos mais elogios de colegas e músicos depois que entrei na banda.
Como foram seus shows?
Na verdade, era uma peça de teatro musical, com diálogos, multimídia, filmes, projetores e sons pré-gravados. Die Geyer-Symphonie é um ótimo exemplo disso. Também preparamos tudo sozinhos em cada show, duas horas e meia de trabalho árduo antes de cada apresentação.
Quando se tratava de grandes produções teatrais como Koslowsky, éramos um grupo de rock e um grupo de teatro ao mesmo tempo. Também fizemos e exibimos filmes. Em Koslowsky, por exemplo, houve uma foto minha em uma cabine telefônica, depois da qual subi ao palco usando a mesma fantasia.
E depois do concerto?
Sempre descíamos até a plateia. Tínhamos uma mesa do lado de fora onde vendíamos nossos pôsteres por 1 marco alemão. Também vendíamos nossos discos e discutíamos com o povo.
Você vendeu propaganda de esquerda como mercadoria da banda?
Tínhamos grandes cartazes, em tamanho A1 ou A0, nos quais a letra de toda a apresentação estava impressa como um livro didático, junto com apelos de agitação como “Passe isso!”; “Ocupe sua cantina!”; “Compre livros de esquerda!”; “Leia Marx!” e assim por diante. Eles eram como pães quentes.
Você festejava muito depois dos shows, como se imagina os astros do rock dos anos 1970?
Quando terminávamos tudo, geralmente já era bem tarde. Não havia muita festa. Tínhamos que acordar novamente às 7h da manhã seguinte. E que tipo de acomodação você acha que tínhamos? Sempre os hotéis mais baratos, sempre em quartos duplos, com pia na parede e chuveiro no corredor — foi assim que fizemos durante dez anos.
Essa foi uma decisão consciente?
Sim, poderíamos ter conseguido pagar alguns roadies, mas nem sonharíamos em deixar outras pessoas realizarem “trabalho braçal” para nós. Tínhamos princípios: não ganhávamos mais do que o salário de um trabalhador qualificado, não distinguímos entre trabalho braçal e trabalho significativo e montávamos e desmontávamos tudo nós próprios. Não poderíamos pregar sobre a classe trabalhadora sem sabermos o que significa ser trabalhador.
A “classe trabalhadora” realmente fazia parte do seu público?
Sim claro. Muitos estudantes íam, é claro – o pessoal da universidade, por assim dizer. Mas se o [sindicato dos metalúrgicos alemães] IG Metall organizasse o concerto, por exemplo, também vinham aprendizes e trabalhadores. Às vezes, o DKP ou a [organização juvenil social-democrata] Jovens Socialistas também organizavam concertos para nós - o que sempre os colocava em apuros.
Insistimos que a entrada não poderia ser mais cara do que um ingresso de cinema. Claro, isso assustava os promotores profissionais porque eles não poderiam ganhar muito dinheiro conosco. Ainda conseguimos sobreviver porque um número inacreditável de pessoas comparecia aos nossos shows. Em 1975, tínhamos ainda mais espectadores do que o [astro do rock alemão] Udo Jürgens!
Muitas pessoas sentiam o seu pensamento confirmado pela nossa música e pela forma como ela era apresentada, mas definitivamente também tivemos uma influência política em muitas pessoas. Ainda hoje acontece que alguém se aproxima de mim em algum lugar e diz: “Você esteve em Floh de Cologne. Sem você minha vida teria sido diferente.”
Há algum concerto de que você se lembra particularmente bem?
Definitivamente. O Instituto Goethe passou por momentos difíceis como instituição cultural alemã na Holanda, porque os alemães não eram tão populares lá, e decidiu: “Então, vamos pegar algo de esquerda, vamos pegar Floh de Cologne". Quando chegamos a Haia, subi brevemente ao palco para afinar as guitarras, olhei para a sala de concertos e vi que só havia pessoas muito idosas sentadas ali – todas de terno, gravata e assim por diante. Voltei e falei: “Gente, baixem tudo! Isso deve ser um erro, eles estão esperando outra coisa!”
Mas depois da última nota recebemos aplausos estrondosos! Não sabíamos o que nos atingiu. Saímos e pelo menos cinco pessoas pequenas e idosas já estavam amontoadas ao nosso redor. Eles me abraçaram: “É ótimo que tipo de jovem você é hoje! Somos todos emigrantes judeus que fugiram da Alemanha e queríamos ver o que a juventude alemã tem a dizer hoje.” Esses velhos nos arrastavam pela cidade até as cinco da manhã e até cozinhavam para nós à noite. Foi tão comovente. Você só experimentará algo assim se for Floh de Cologne.
Vocês fizeram seu último show em 1983 e nunca mais voltaram a formar banda. Por que você parou?
Por um lado, estávamos envelhecendo lentamente. A maioria de nós tinha cerca de quarenta anos e o público começou a se dirigir a nós com o formal Sie em vez de du. Depois, houve sinais de desgaste interpessoal dentro do grupo. Estávamos no palco até duzentas vezes por ano nos anos em que tivemos muito sucesso.
Mas penso que a terceira razão é que o cenário político mudou significativamente na segunda metade da década de 1970 e no início da década de 1980. Esse espírito de otimismo com o movimento estudantil e a oposição extraparlamentar já não existia. Foram os anos do [chanceler da Alemanha Ocidental] Helmut Kohl; tudo ficou tão petrificado que muitos jovens já não pensavam em mudar o mundo, mas apenas em garantir o seu rendimento e a aposentadoria.
Fiquei surpreso naquela época que ninguém disse: “Ah, vamos continuar mais um pouco”. Mas estava se tornando cada vez mais difícil ganhar dinheiro com apresentações, e dissemos a nós mesmos: “Antes de sermos forçados a visitar as sorveterias, vamos sair graciosamente”.
Você ainda é politicamente ativo? Sobrou alguma coisa da sua carreira como roqueiros revolucionários, por assim dizer?
Ainda tenho esperança política; você não pode viver sem esperança. Mas a minha socialização no “esquerdismo” tradicional deixa muito a desejar. Tornei-me muito cético e pensativo. Especialmente no que diz respeito à questão da industrialização e da destruição dos recursos naturais, temo que, numa espécie de sociedade socialista, as coisas continuem da mesma forma, apenas sob diferentes relações de propriedade. O marxismo não oferece uma solução para mim.
Voltei ao DKP há alguns meses, depois de ter estado afastado do partido durante vinte anos.
Eu nunca fui embora! Acontece que aqui na Alta Baviera, onde moro, havia uma filial em Weilheim com cerca de seis membros, que se desfez depois da queda do Muro de Berlim. Mas ainda tenho meus antigos cartões do partido na gaveta. Então, se alguém vasculhar depois da minha morte e disser: “Ah, ele foi comunista até o fim”, você sabe que isso não é verdade. Mas prefiro que alguém me chame de comunista do que de fantoche do sistema.
Colaboradores
Vridolin “Vitti” Enxing juntou-se ao Floh de Cologne em 1973 como “estagiário revolucionário”, tocando teclado, violoncelo, guitarra e baixo e compondo músicas até a banda se separar. Em seguida, trabalhou como compositor freelancer e, em 1998, fundou o International Munich Art Lab (IMAL), onde atuou como diretor artístico até 2022.
Dieter Klemm juntou-se ao Floh de Cologne em 1967 como “diretor administrativo” e permaneceu como empresário da banda até o fim. Depois disso, continuou a trabalhar na indústria cultural e participou da iniciativa “Artistas em Ação”.
Loren Balhorn é editor-chefe da edição em língua alemã da Jacobin.