1 de outubro de 1981

Marxismo, estruturalismo e análise literária

Raymond Williams

New Left Review

NLR I/129 • Sept/Oct 1981

Tradução / Eventos recentes em Cambridge, sobre os quais alguns de vocês podem ter ouvido falar, convenceram-me a apresentar um pouco do material que eu estava preparando para um curso de outono de cinco aulas. Dado que esse material foi originalmente concebido com essa finalidade, a expectativa para este momento tão carregado pode ser considerada desanimadora. Mas me parece mais importante tentar estabelecer agora uma posição geral do que deixar no ar muitos desses temas, à espera do momento em que eles possam ser analisados de forma mais completa. Meu propósito principal é o de identificar e explicar brevemente algumas posições atuais controversas, para além dos rótulos que estão sendo tão livremente vinculados a elas, mas apresentando aqui um argumento bastante diferente, que me parece apontar para o centro da controvérsia. Há tendências diversas no interior tanto do marxismo como do estruturalismo e há mais diversidade em outras tendências em parte influenciadas por eles. Muitas dessas tendências estão em forte oposição umas em relação às outras. Isso tem de ser enfatizado não apenas para prevenir rotulações redutoras, mas por uma razão mais positiva, porque algumas delas são compatíveis com o paradigma dos estudos literários atualmente dominante, enquanto outras são incompatíveis, sendo, já há alguns anos, um desafio ao paradigma dominante – e, por conseguinte, à sua prática. Uso paradigma, de modo geral, no sentido de Kuhn de uma definição operacional de um campo apreendido de conhecimento, de fato, de um objeto de conhecimento, com base em certas hipóteses fundamentais e que carrega consigo definições de métodos apropriados para a descoberta e o estabelecimento de um conhecimento desse tipo. Ora, parece-me que o caso da literatura seja um paradigma exatamente nesse sentido. Além disso, como argumentou Kuhn, esses paradigmas nunca podem ser simplesmente abandonados. Ao contrário, eles acumulam anomalias até que haja, eventualmente, um ponto de ruptura, e, então, são feitas tentativas para mudar e substituir as hipóteses fundamentais, suas definições e aqueles que são, nessa etapa, os padrões profissionais e os métodos de investigação estabelecidos. Esse é, evidentemente, um momento de crise. Acredito que é nesse momento que nos encontramos, ainda que em um estágio relativamente bastante inicial, nos estudos literários em Cambridge.

Ora, é claro, a definição de um objeto do conhecimento que é apreendido de maneiras determinadas passa a ser, dentro de qualquer paradigma dominante, irremediavelmente confundida com o objeto em relação ao qual o conhecimento deve ser adquirido. Isso é nítido, atualmente, em alguns usos do termo “literatura”, que, embora não seja produzida por departamentos literários, é tida, afinal de contas, em seu sentido geral mais comum, como detida e defendida, em alguma medida, por eles. Isso assume formas variáveis. Assim, diz-se que é nossa tarefa ensinar o “cânone da literatura inglesa”. Esse uso de “cânone”, emprestado dos estudos bíblicos, em que ele significa uma relação de escritos sagrados aceitos como autênticos, é significativo, porque, obviamente, o “cânone da literatura inglesa” não está dado, é produzido. Ele é altamente selecionado e, de fato, re-selecionado. Em sua versão mais simples, ele foi decisivamente desafiado por Richards, em seus experimentos na crítica prática. Este mostrou que até mesmo estudantes altamente treinados poderiam ser iniciados no cânone, mas não poderiam, em sua maioria, produzir, para si mesmos, as avaliações implícitas a ele. De fato, eles geralmente preferiam escritos que estavam bem fora do cânone. Essas descobertas compeliram à redefinição moderna mais efetiva do paradigma, embora não o tenham substituído. Nessa redefinição, a literatura passou a ser equiparada à crítica, pois, desde que, em contraste com os estudos bíblicos, o conhecimento não poderia, por si só, estabelecer o cânone literário (embora pudesse fazer uma verificação local interna a ele), um novo processo – o julgamento crítico – teria de ser ensinado como condição para manter a ideia definidora de literatura.

Literatura significara outrora, pelo menos até o início do século 19, um corpo de escritos impressos; de fato, esse sentido vago sobrevive em contextos como o do “suplemente literário” ou o da “literatura de venda” [literature stall]. Esse uso, obviamente, teve o efeito de uma circunscrição do termo ao material impresso, e isso era, em geral, bastante adequado ao período entre o século 17 e o início do século 20, mas já nesse momento com algumas anomalias. Havia o drama, que era a escrita não para ser lida, mas para ser encenada. Havia o que era chamado, desde períodos anteriores, de “literatura oral” – uma classificação incomum e muitas vezes enganadora. Havia, eventualmente, o status problemático da escrita em suas formas modernas, como a radiodifusão, o filme e as formas revividas de produção oral. Mas, de forma crescente ao longo do século 19, houve mais uma especialização do termo, com base no que são, hoje, categorias evidentemente anômalas. A literatura passou a significar predominantemente os tipos da “escrita imaginativa” de romances e poemas, em uma complexa distinção em relação à escrita “factual” ou “discursiva”. Não que isso apenas tendesse a ocultar, nas áreas então excluídas (“discursiva” ou “factual”), o elemento da escrita, a composição linguística de fatos e argumentos; o fato era que as supostas relações entre “imaginação” e “fatos” para os outros casos “literários” eram, se em alguns momentos óbvias, em muitos casos o próprio problema a ser explicado. Isso seria suficientemente difícil. Mas havia então uma outra especialização na qual, por assim dizer, a categoria de “Literatura” desacreditava a si mesma. Nem toda literatura – romances, poemas, peças – era Literatura com maiúscula. Uma efetiva maioria de romances, poemas e peças era vista como não pertencendo à literatura, que era agora o grupo efetivamente selecionado, e não o “cânone” estabelecido pela crítica.

Assim, se agora alguém diz: “Literatura é mais importante do que todos os ismos”, esta pode parecer uma ideia persuasiva quando os ismos são, por exemplo, aqueles que são os mais distantes dela: marxismo e estruturalismo. Mas há um ismo que não é mencionado tão frequentemente: a crítica, que está agora, em decorrência dessa redefinição do paradigma, de fato incorporada na própria “Literatura” (como aquilo que, de fato, a define e que pode até mesmo vir a regê-la). Há muitas vezes, então, o paradoxo de que o que a maioria das pessoas está realmente fazendo nos departamentos de literatura é tido como crítica ou conhecimento crítico e de que isso é visto como uma atividade literária apropriada, embora seja algo tão distinto do que outros – escritores de romances, poemas, peças – estão fazendo, sempre em outras partes.

Assim, tem-se, na sequência, primeiro uma restrição a textos impressos, depois uma limitação àquilo que é chamado de obras “imaginativas” e, então, finalmente, uma circunscrição a uma minoria criticamente estabelecida de textos “canônicos”. Mas desenvolve-se também, em paralelo a isso, outra especialização, geralmente mais potente: não apenas a da Literatura, mas a da Literatura Inglesa. Por si só, essa é, historicamente, uma construção tardia, posto que, em relação aos escritos medievais, ao menos àqueles do século 17, ela é uma construção obviamente duvidosa. Seria o inglês, então, a linguagem ou o país? Se ele é a linguagem, há também quinze séculos de escrita nativa em outras linguagens: latim, galês, irlandês, inglês antigo, francês normando. Se não é a linguagem, mas o país, seria este apenas a Inglaterra ou seria também Irlanda, Gales, Escócia, América do Norte, os países antigos e novos do Commonwealth?

O paradigma dominante em crise

A ideia de uma “literatura nacional” é uma produção histórica de grande importância para um período determinado. O termo Nationalliteratur surgiu na Alemanha nos anos 1780, e histórias de “literaturas nacionais”, com perspectivas e ênfases consideravelmente novas em relação às ideias mais antigas e gerais das “letras humanas”, estavam sendo escritas em alemão, francês e inglês, no mesmo período em que havia uma grande mudança tanto nas ideias de “nação” como de “nacionalidade cultural”. Desenvolvimentos históricos subsequentes, especialmente em nosso próprio século, tornaram vagas essas especializações “nacionais” e criaram anomalias que têm de ser reguladas temporariamente ano após ano pelo método de exame, etc. “Tendo em vista os propósitos deste ensaio, o inglês deve ser entendido como significando...”. De fato, essa é uma anomalia bastante poderosa, uma vez que a questão da Englishness, tantas vezes referida nos estudos de literatura inglesa, está agora, por razões sociais e políticas óbvias e bastante críticas, repleta de problemas complexos e altamente emocionais de identidade tradicional e ameaça contemporânea. Considerem-se algumas atitudes correntes em relação a novos recentes trabalhos, como o “Francês” ou a “Paris fashion”. Esses não são apenas termos descritivos, mas são usados deliberadamente em um sentido de diferenciação. Parece que o que está sendo geralmente defendido não é apenas um corpo de escritos, mas uma projeção maior disso, na qual as obras, de fato muito diversas, dos escritores ingleses são integradas dentro de uma identidade nacional – muito mais potente porque derivando, em larga medida, do passado –, na qual um ânimo, um temperamento, um estilo ou um conjunto de “princípios” imediatos (os quais podem ser contrastados não apenas com a “teoria”, mas com todas as demais formas de raciocínio) estão sendo celebrados, ensinados e – quando possível – impostos administrativamente. Isso está muito distante da literatura no sentido de escrita ativa e diversa. Antes, isso é um suporte, um último bastião a partir do qual noções muito mais gerais de Englishness, de valores, de tradição são defendidas contra todo o resto; até mesmo dissidentes nativos (para não falar daqueles forasteiros) são vistos não apenas como diferentes, mas como estrangeiros – falando não a nossa linguagem, mas algum jargão incompreensível. Na medida em que isso diga respeito a todos os ingleses, não é assim como a maioria deles pensa e sente efetivamente, em face de problemas relacionados de identidade, tensão e mudança. Mas entre aqueles que podem ser chamados, com precisão, de intelectuais literários tradicionais ingleses, isso não é apenas uma prática; isto é, e soa como, uma vocação e uma cruzada. Em sua própria área, isso é congruente com as manifestações e as lutas muito mais gerais da classe dominante inglesa como um todo, cujos discurso e divulgação da “herança” cresceram em proporção a seus atuais fracassos práticos.

Ora, por diversas razões, tanto o marxismo como o estruturalismo, cada um a seu modo, influenciaram diretamente o paradigma e suas anomalias. De fato, o surpreendente é que, em muitas de suas tendências atuais, eles foram acomodados, ou acomodaram-se, dentro do paradigma, em que eles podem ser vistos como simples abordagens diversas do mesmo objeto de conhecimento. Assim, eles podem ser tidos como os hóspedes, embora ocasionalmente desordenados e indisciplinados, de um pluralismo apropriado. Contudo, certas outras tendências não são tão assimiláveis e são, de fato, consideravelmente incongruentes em relação a essa definição dada. São estas que estão envolvidas, não sem desordem e furor, na crise atual, pois essa crise é, acima de tudo, uma crise do paradigma dominante e de seus padrões e métodos profissionais estabelecidos. Ainda assim, por todas as razões dadas aqui, essa crise adquire uma ressonância que extravasa os termos de uma disputa profissional. Ela é, no sentido mais completo, uma das áreas-chave na qual uma crise cultural bastante geral está sendo definida e travada.

Passarei agora a uma descrição breve das principais e mais diversas tendências no marxismo, formalismo e estruturalismo, no que elas se referem àquilo que, por hábito, chamamos de estudos literários. Conhecer qualquer uma dessas tendências adequadamente exigiria muitos estudos subsequentes, mas desejo ao menos identificá-las e, então, brevemente indicar, porque este é, agora, o ponto crucial, quais dessas tendências são compatíveis com o paradigma – e, portanto, com os sistemas profissionais estabelecidos – e quais, na minha visão, não o são.

Marxismo e a teoria do reflexo

A primeira área a explorar no marxismo é aquela que está centrada na ideia de “reflexo”, em si mesma uma noção muito complexa e usada na tradição marxista de formas bastante diversas. Ela representa, historicamente, a primeira aplicação do marxismo aos estudos literários, mas de três modos interessantemente diferentes. Primeiro, há aquela proposição mais geral no marxismo de que todo o movimento da sociedade é governado por certas disposições dos meios de produção e de que, quando essas disposições – forças e relações em um modo de produção como um todo – mudam ao longo da operação de suas próprias leis e tendências, então as formas de consciência e as formas de produção intelectual e artística (formas que têm lugar, na definição marxista ortodoxa, na “superestrutura”) também mudam. Algumas mudam de modo relativamente direto, como a política e a lei; outras, de modos mais remotos e geralmente mais indiretos – os exemplos tradicionais são a religião, a filosofia e a estética. Segundo essa versão marxista da história da arte e do pensamento, mudanças nos níveis mais básicos da ordem social repercutem nas áreas mais distantes, na medida em que as pessoas se tornam conscientes desses conflitos e passam a se engajar neles sob várias formas.

Essa proposição tem sido longamente discutida, sobretudo na própria tradição marxista. Mas, em sua relação com os estudos literários, podemos distinguir duas versões dela: uma mais grosseira, embora ainda seja largamente conhecida (e, geralmente, tudo o que se conhece) como o marxismo nos estudos literários; a outra, muito mais sofisticada, ou aparentando ser mais sofisticada. A primeira versão grosseira é esta: se é verdade que a produção literária e intelectual é, no sentido mais geral, um reflexo de conflitos fundamentais na ordem social, então a tarefa do marxismo engajado nesses estudos é a de identificar as forças em conflito e, então, de distinguir (como era comumente feito nos anos 1930) tipos progressistas e reacionários de escrita, de tomar posição em relação a eles e, acima de tudo (já que a ênfase recaia muito mais na produção do que na crítica), de encontrar meios de produzir novos tipos de escrita que correspondessem às necessidades do conflito fundamental.

Esta é – e não apenas de forma caricata – uma posição bastante simples. Em seu aspecto mais débil, ela equivale a marcar certos tipos de literatura como bons ou maus, de acordo com suas presumidas tendências políticas ou históricas. De forma mais geral, o argumento literário é visto como dependendo de uma posição supostamente total ou de uma visão de mundo de classe. Ademais, essas verdades gerais são concebidas como vindas primeiro, em primeiro lugar, apenas então sendo demonstradas e ilustradas na literatura. Não surpreende que, quando essa variante de interpretação marxista encontrou, nos anos 1930, um tipo de interpretação muito mais afeito à análise literária, por exemplo, em Leavis (ele próprio engajado e envolvido em discriminações morais e culturais na literatura), ela tenha sofrido uma derrota consideravelmente decisiva. Ela foi vista como grosseira e reducionista ou, na melhor das hipóteses, como dogmaticamente seletiva.

E, mesmo assim, ainda diz-se que nenhum marxista, não obstante ele/ela redefina os termos dessa proposição geral da determinação social, poderá abandoná-la completamente sem abandonar a tradição marxista. Na verdade, as formas mais modernas desse argumento prescindem da ideia de reflexo, porque, mesmo depois de se admitir que há distâncias, de que há defasagens de tempo, etc., é evidente que se assumiu uma correspondência a priori excessivamente estreita e direta, entre coisas que poderiam ser historicamente identificadas como ocorrendo em outras partes da ordem social, entre elas, a própria produção literária. Assim, ao invés de olhar para essas conexões diretas e óbvias, que poderiam apoiar a simples rotulação de obras como politicamente boas ou más ou como representando essa ou aquela tendência ou classe, a posição mais geral foi mantida, mas com uma redefinição radical do que efetivamente são os variáveis processos literários e estéticos. Eventualmente, esta se tornou, em um momento posterior, uma posição bastante complexa; mas mencionei primeiro a versão antiga, tanto porque ela é a mais amplamente conhecida como porque, existindo tanto em formas grosseiras como em formas mais refinadas, ela ainda é complexa e desafiadora.

Ora, a segunda posição que foi construída ao redor da ideia de reflexo era, de fato, muito mais simples. Valendo-se de uma tradição bastante longa do pensamento literário, esta vem a ser uma das tendências mais adequadas da ideia geral de reflexo e, de fato, da versão mais ampla e passiva de mimesis (há um sentido consideravelmente diferente, ativo, de mimesis, que não é absolutamente reflexo, mas um processo de compreensão, interpretação e transformação). Essa tendência define literatura significativa como aquela que reflete a realidade social, e seu método predileto é o realismo: julgar obras de arte por sua fidelidade a ou pela elucidação da realidade social. E, se esse é o critério, então não deve haver nenhuma qualificação externa de obras progressistas ou reacionárias. Como Marx observara sobre Balzac (um homem no extremo político oposto a ele): Balzac é importante precisamente porque representa em seus romances a realidade da sociedade francesa. Ele teria sido um escritor muito inferior se tivesse tentado converter essa representação realística naquilo que tanto Marx como Engels atacaram continuamente como “tendency literature”, na qual, ao invés de refletir a realidade, tenta-se conformá-la a alguma pressuposição política pessoal. Era, portanto, crucial nessa tendência que a obra refletisse a realidade – a realidade tal como era, por mais indesejável que pudesse ser.

Mas temos de admitir algo, talvez muito, dado que o marxismo, enquanto uma posição geral, reivindica insights únicos acerca da natureza dessa realidade ou, melhor dizendo, de suas leis fundamentais. De fato, isso pode ser bastante diferente da ideia de refletir qualquer “realidade” que venha a existir de tempos em tempos. Ainda assim, essa diferença tende a concernir, principalmente, a questões de argumento histórico. O método da análise literária – a demonstração de um reflexo de um estado ou processo definido como a sua base, contexto ou pano de fundo – geralmente permanece adequado, pois esta é, no final das contas, uma posição bastante familiar a todos os estudos literários. As pessoas realmente perguntam, vezes e mais vezes, de modos mais ou menos sofisticados, como esse ou aquele romance relaciona-se a alguma realidade de outro modo observável. De fato, isso forma uma parte bastante grande das pesquisas mais ortodoxas em crítica e conhecimento. Assim, um tipo de posição “marxista”, defendida em seus próprios termos, é na prática quase sempre compatível com métodos muito mais largamente aprovados e comprovados.

Esse é o caso, creio eu, da terceira versão da teoria do reflexo, que se torna particularmente visível na obra de Lukács – as fases anteriores tendo sido representadas principalmente por Plekhanov. Lukács afirmava que podemos ter uma visão enganosamente simples da relação entre uma obra de arte e a realidade, posto que o reflexo da realidade, em sua forma imediatamente apreensível, pode ser ou insuficiente ou de fato ilusório. Donde a definição de realismo que Lukács finalmente abraçou: uma definição em alguns aspectos mais difícil de defender teoricamente do que as posições anteriores, pois diz que a tarefa do escritor é a de refletir movimentos subjacentes. É aqui que o ponto anterior, acerca dos insights privilegiados do marxismo, torna-se muito mais saliente, pois o “movimento subjacente” tende a pertencer às “leis”, às análises privilegiadas, e, assim, afasta-se bastante da citação de detalhes empíricos, seja na perspectiva marxista, seja em qualquer outra. Porém, essa também é uma tentativa de mover-se para além dessas simplicidades empíricas, de algum modo relacionadas a outras tentativas de revelar uma relação indireta ou penetrante ou ideal entre “o que aconteceu” e o que os escritores “fizeram disso”. Donde o ataque de Lukács ao naturalismo, o qual (dizia-se) simplesmente reflete a aparência das coisas tal como elas são, a realidade imediatamente acessível. A alternativa ao naturalismo é um realismo que, ainda que fiel à realidade contemporânea, que é seu tema, está interessado, acima de tudo, em discernir os movimentos subjacentes a ela. Assim, grande ênfase é colocada no realismo mais como uma categoria dinâmica do que estática. As considerações de Lukács sobre o romance histórico ou as formas mutantes do drama são moldadas nesses termos. Contudo, curiosamente, quando tipos bastante diferentes de escrita foram desenvolvidos no século 20 para representar, precisamente, movimentos dinâmicos – como, por exemplo, Brecht –, Lukács atacou-os: de fato, ele tendeu a permanecer profundamente ligado a essa versão antiga de realismo como reflexo e ilustração de uma realidade geral e largamente reconhecível.

A mediação literária da realidade

Assim, durante muito tempo, a contribuição marxista aos estudos literários – ao menos em obras disponíveis em inglês – estava representada na teoria do reflexo. Mas, já desde os anos 1920, uma definição bastante diferente da produção literária e de suas relações sociais se desenvolveu dentro do marxismo. Esta estava centrada não no “reflexo”, mas naquilo que parece ser o conceito consideravelmente diferente de “mediação”. De fato, o primeiro sentido de “mediação” não é nada mais do que um reconhecimento dos sentidos mais refinados de “reflexo”. Ele aceita que é enganoso procurar na literatura pelo “reflexo da realidade”. Necessariamente, por sua construção como literatura, a realidade se torna mediada em certos modos definidos. Esta é, além disso, uma proposição perfeitamente familiar aos estudos literários, até mesmo ortodoxa. Não está distante da noção de Eliot de um “correlativo objetivo”, embora partindo do outro extremo. Mas ela está comprometida, acima de tudo, com a refutação das versões redutivas das fases anteriores, nas quais se supunha possível olhar para conteúdos intocados. Significativamente, os principais argumentos sobre “mediação” assumiram Kafka como objeto, posto que havia aqui um tipo de escrita que ou deveria ser rejeitada a partir das premissas mais simples da teoria do reflexo – como as “fantasias doentias de uma classe decadente”; “elucubrações pessimistas e subjetivistas, distantes da vida ativa e vigorosa do povo” – ou interpretada por diferentes versões da ideia de mediação. Devo resistir à tentação de oferecer exemplos detalhados das diferentes leituras de Kafka – como ficção da alienação, da burocracia, do imperialismo em declínio, do judaísmo na diáspora, do complexo de Édipo, da doença fatal, etc. – que se originaram dessas diferentes versões de mediação, mas elas estão aqui registradas. Ainda assim, contudo, o primeiro sentido de mediação é apenas um refinamento da ideia de reflexo, e devo mencionar brevemente outros três sentidos.

Primeiramente, há a noção muito interessante desenvolvida por Walter Benjamin, nos anos 1930: a ideia de correspondências. Essa é uma mudança decisiva, porque Benjamin não argumenta que uma obra de literatura seja a transformação literária de algum elemento da realidade. Na verdade, há uma “correspondência” observável entre certos tipos de escrita e certas outras práticas sociais e econômicas contemporâneas. O exemplo mais famoso é sua longa análise de Baudelaire, em que ele argumenta que certas novas condições na cidade, conduzindo a novas formas da “multidão” e, dentro dessas, à redefinição do “individual”, produziram novas formas de escrita, incluindo a de Baudelaire. Aí a ênfase não está na realidade social outrora existente e observável, que a literatura “reflete” ou até mesmo “medeia”, mas no fato de haver uma correspondência observada entre a natureza e a forma da atividade literária e a natureza e a forma de outras práticas contemporâneas de um tipo mais geral.

Benjamim veio a se tornar bastante próximo das importantes ideias da Escola de Frankfurt, embora ele tenha, justamente nesse ponto, se desentendido com Adorno, o qual foi mais longe no uso da ideia de mediação. Adorno argumentava que correspondências de conteúdo, deixando de lado observações sobre mediações ou conteúdos, são basicamente irrelevantes para a arte. De fato, a presença de correspondências ou de reflexos desse tipo é virtualmente uma garantia de que a arte não é autêntica. A arte é produzida – e essa foi sua contribuição ao debate sobre Kafka – por um processo que ele chamava de descoberta de “imagens dialéticas”, as quais não tinham possibilidade de serem descobertas ou expressadas em nenhuma outra forma. A “imagem dialética” surge no processo artístico e, uma vez criada, nunca pode ser aberta ou diretamente descrita, embora ela possa ser, na análise, relacionada a toda a estrutura na qual ela foi formada. De fato, a condição de seu sucesso enquanto arte é de que ela alcance uma existência autônoma.

Esse é um sentido de mediação que eventualmente se conecta com formas do estruturalismo literário. Lucien Goldmann, primeiro em seus estudos do drama clássico francês, particularmente Racine, e depois em seu trabalho sobre o romance dos séculos 19 e 20, produziu uma posição que alargou ainda mais a categoria de mediação: correspondência não era uma relação de conteúdo, mas sempre de forma. Ele dizia, ademais, que é apenas na literatura secundária ou inferior que os sociólogos vulgares, como ele tendia a chamá-los, procuravam e encontravam suas relações simples entre literatura e sociedade ou realidade. Ao contrário, ele argumentava, o que está refletido nessas obras é meramente a consciência contraditória e não realizada da época. A consciência de época mais profunda é alcançada apenas em algumas grandes obras e é alcançada por elas em sua forma e não em seu conteúdo. Essa é toda a motivação de sua análise de Racine, embora eu deva dizer que ele nem sempre se mantenha fiel às suas próprias prescrições. Não obstante, a proposição é de que a correspondência, a mediação, é inteiramente uma questão de forma. Certa disposição de relações humanas está sempre presente como a consciência mais profunda de uma época particular, e essa disposição é homóloga a um ordenamento específico dos elementos da obra literária. Goldmann nomeou essa posição de “estruturalismo genético”. Isso estava em oposição deliberada ao estruturalismo ortodoxo, uma vez que ele argumentava que, se quisermos compreender essas formas, devemos compreendê-las em seus processos de constituição, estabilização e desmembramento; enquanto em outras tendências do estruturalismo havia uma rejeição de qualquer noção desse tipo de gênese e dissolução histórica.

Os formalistas russos

Agora talvez fosse conveniente passar imediatamente ao estruturalismo literário, mas, tendo em vista a história dessa temática, devemos fazer um desvio pelo formalismo, pois não resta dúvidas de que o formalismo – tanto as primeiras obras dos formalistas russos como os desenvolvimentos posteriores nos Estados Unidos e na França – teve um efeito prático maior nos estudos literários que são agora largamente agrupados como “estruturalistas” do que aquele estruturalismo mais geral, que é tão ativo em outras disciplinas, especialmente na Antropologia. Brevidade aqui é algo especialmente temerário, mas a principal determinação dos formalistas era uma nova definição do literário. De fato, eles estavam reagindo precisamente contra os modos de estudo, ou a maior parte dos modos de estudo, que eu descrevi anteriormente. A princípio, eles estavam reagindo dentro de um contexto especificamente russo, no qual essas teorias, tanto a marxista como as a ela relacionadas, estavam bastante ativas e em voga. Os formalistas diziam: a omissão crucial que vocês estão fazendo é daquela qualidade que faz de uma obra uma obra literária. Isso não será encontrado naquilo que vocês estão investigando, que é a relação de uma obra com alguma outra coisa. A questão central, necessariamente, é: o que faz dessa obra específica uma obra literária? Assim, foram os formalistas que começaram a usar, com uma ênfase consideravelmente nova, a noção de “linguagem literária”, que ainda se ouve tão frequentemente. Não há necessidade de enfatizar que há, é claro, também conceitos muito mais antigos de “linguagem literária”: seja de um tipo de linguagem apropriada aos processos elevados da literatura, seja de um padrão de correção pelo qual qualquer outro uso pode ser julgado. Essas são posições antigas e, atualmente, posições meramente conservadoras. Ademais, a primeira delas, nas formas fixas nas quais tendeu a se estabelecer, foi repetidamente desafiada e efetivamente desmantelada por escritores, que, em certos períodos, conscientemente rejeitaram estilos “literários” ou “poéticos” dados e tentaram restabelecer relações com a “linguagem viva” e popular. Devemos sempre, de fato, focar a evidência história acerca de formas de escrita efetivas e em transformação e suas relações sociais em mudança, se quisermos nos afastar da noção de uma “linguagem literária” como algo distinto dos usos mais gerais da linguagem. Isso pode ser o problema das relações entre a fala e a impressão ou entre formas nobres e populares ou, ainda, isso pode ser um problema inerente aos modos de qualquer composição consciente.

A ênfase formalista tinha muito pouco que ver com as posições mais familiares de conservação ou aperfeiçoamento. Ao contrário, o que os formalistas propunham era uma ruptura revolucionária, como condição para qualquer literatura autêntica (a posição mais influente) ou como uma condição necessária em sua própria época, à medida que os modos “clássicos” sucumbiam. Esses dois argumentos ainda precisam ser claramente distinguidos, mas o que os primeiros formalistas propunham era um afastamento consciente na linguagem, uma ruptura deliberada em relação ao uso ordinário da linguagem. Isso é o que, na prática, sempre acontece quando uma obra é anunciada como literária. Seja nos usos mais específicos das palavras, seja em alguma ruptura com as convenções e perspectivas a partir das quais um assunto é ordinariamente visto, ela dá o salto para a literatura, para o “literário”. E, então, a tarefa do analista é traçar precisamente essas rupturas que constituem a literariedade de uma obra.

Essa posição é bastante produtiva. A discussão entre os formalistas e os marxistas mais tradicionais foi, creio eu, muito importante. Ademais, desde aproximadamente 1925, há um desenvolvimento menos conhecido de um tipo de formalismo que elevou a discussão a um novo patamar. Ainda assim, quando comparado com as pessoas que conhecem o formalismo como as obras iniciais de Eichenbaum, Shklovsky, etc., há muito menos daqueles que estão familiarizados com Volosinov ou Bakhtin ou Mukarovsky. Mas foi a obra desses formalistas posteriores, com suas pesquisas acerca da “literariedade” geral ou universal, que transformou toda a discussão acerca do estudo da literatura e, ao final, o status do próprio paradigma. Essa fase posterior foi, de fato, um formalismo social e histórico, porque estava preocupado não apenas com uma definição geral da literariedade, mas com as condições em transformação nas quais a “literariedade” – agora, por sua vez, um conceito dinâmico – é alcançada por escritores particulares, assim como com processos mais gerais de desenvolvimento histórico e social.

Considere-se Volosinov, por exemplo. Sua obra permaneceu praticamente esquecida por cinquenta anos (ele estava escrevendo no final dos anos 1920, e são muitos os que acreditam que ele sempre foi apenas um pseudônimo de Bakhtin). Profundamente influenciado pela nova escola da linguística estrutural e aceitando a análise da linguagem como análise de um sistema de signos, Volosinov, não obstante, insistia que a linguagem é, ao mesmo tempo, um sistema de signos e um sistema socialmente produzido de signos. Ele argumentava, além disso, que signos verbais são sempre “multirrítmicos”. Assim, ele podia rejeitar aquelas concepções de “sistema” que estavam sendo oferecidas pela Linguística estrutural – assim como pela Psicanálise –, nas quais certas regras do sistema produziam significados e formas, pois, na vida histórica e social real, há produção sistemática constante, e, ainda assim, essa é também uma produção constantemente aberta. É, então, possível colocar a “literariedade” dentro do potencial aberto de uma linguagem, disponível tanto geral como especificamente.

Essa é uma ruptura decisiva com o formalismo anterior. Mesmo enfatizando o que os formalistas indicaram como distintivo na linguagem literária, ela não restringe a geração e regeneração linguística a obras de literatura. O processo da linguagem é, ele mesmo, uma possibilidade contínua de deslocamento e mudança e de iniciação de sentidos, e esse âmbito de possibilidades está incorporado nas “regras” tanto da Linguística como do sistema social. A obra do próprio Bakhtin, especialmente seu estudo sobre Rabelais, indicou o surgimento de um novo tipo de literariedade – e, assim, de uma literariedade histórica – pela observação da interação e da excelência criativa tanto dos modos da literatura popular, que estavam tradicionalmente presentes, e da literatura culta, que colapsara dentro de uma tradição social mais limitada e conservadora. Foi precisamente na interação dessas tradições dadas e diferentes que uma nova indicação do que significava ser literário se formou.

Tudo isso é muito diferente dos primeiros formalistas, com sua ênfase mais local no que torna a linguagem literária, como o uso local de “dispositivos”. É uma indicação histórica de como tipos específicos de literariedade integram-se à prática social. Há, então, Mukarovsky, que talvez seja o revisor mais sério das posições formalistas originais; de fato, sua obra aponta para alguns dos tipos posteriores mais incongruentes e incompatíveis de análise. Mukarovsky argumentou de forma devastadora (embora, ao final, não leve o argumento às últimas consequências) que a qualidade estética não é, nem mesmo principalmente, produzida dentro de uma obra de arte. Assim, ele se moveu para longe do formalismo estético, que olhara para dentro da obra atrás de indicações de que ela fosse literária ou de que fora planejada para uma resposta estética. Ao contrário, ele dizia, as indicações estéticas, e assim as normas estéticas e os valores estéticos, são, elas mesmas, sempre produzidas socialmente. Há indicações mutáveis do que deve e do que não deve ser visto como arte e do que deve e do que não deve ser visto como arte de certo tipo. Essas indicações, embora se refiram à organização interna da obra, são sempre muito mais amplamente operativas e têm uma história.

Estruturalismo: um primo a muito perdido?

Assim, é bastante significativo que, desde o final dos anos 1950, nos Estados Unidos e na França, o conjunto de obras que foi traduzido primeiro e que primeiro se tornou influente tenha sido a obra dos primeiros formalistas; a obra posterior mais social e histórica sendo comparativamente menos conhecida até muito mais tarde. Isso teve sérios efeitos na forma como certas posições formalistas foram desenvolvidas na análise literária. O tipo mais limitado (embora em termos locais, ainda impressionante) de análise formalista se tornou a forma dominante que se acreditou corresponder, na literatura, ao que era por essa época chamado de metodologia “estruturalista” em Antropologia, em Linguística e em Psicanálise. É por isso que ainda é difícil compreender as relações entre estruturalismo, em seu sentido geral mais completo, e o que são posições literárias frequentemente mais locais. Ainda assim, havia, obviamente, algumas relações.

Uma das tendências mais comuns no estruturalismo, de valor notável em Antropologia e em Linguística, é a de se recusar a interpretar um evento em seus próprios termos isolados ou em sua forma imediata de apresentação. Ela objetiva, isto sim, localizar um evento, uma relação ou um signo dentro de todo um sistema significante. Sistemas desse tipo são governados por suas próprias regras internas: posição essa que foi inicialmente alcançada como uma solução criativa aos problemas, nesse campo, no estudo de linguagens organizadas por noções de sintaxe bastante diferentes em relação a quaisquer noções que estivessem disponíveis na tradição indoeuropeia. Ao invés de apropriar o novo evento a um sistema já conhecido, o esforço era feito no sentido de encontrar seu sentido dentro de um sistema estrutural específico: na prática, pelas relações dessa unidade com outras e, então, pela descoberta das regras gerais internas do sistema específico.

O que um procedimento desse tipo implicaria nos estudos literários? Primeiro, há a possibilidade de alguma influência direta da Linguística estruturalista. De fato, isso fomentou certas técnicas refinadas de análise que estão sendo crescentemente praticadas, embora ainda sejam vistas com ceticismo pelos departamentos literários mais antigos. Há, por exemplo, a estilística, mas muito mais importante é a análise do discurso, geralmente afastada da linguagem ordinária da análise literária, mas também geralmente impondo um vocabulário mais preciso nas análises de formas sintáticas ou na identificação do narrador ou do falante e da relação entre falantes. Algo disso penetrou nos estudos literários alguns anos atrás e está disponível, como uma técnica entre as outras, em procedimentos completamente ordinários da análise literária.

Mais comumente, contudo, a noção de um sistema internamente regulado era facilmente aplicável; de fato, era, em alguma medida, diretamente congruente com uma posição que já havia sido alcançada dentro dos próprios estudos literários sem referência ao estruturalismo. De fato, quando essa tendência do estruturalismo literário apareceu como uma importação da França, nos anos 1960, arrisquei-me a dizer que ela parecia estranha apenas porque era um primo há muito perdido que emigrara de Cambridge no final dos anos 1920 e início dos 1930.

Na verdade, essa não era sua única origem. Contudo, há ao menos uma herança indireta do tipo de reflexão que Richards vinha fazendo sobre a organização interna isolada de um poema, e isso é especialmente aparente quando se atenta para onde o primo esteve: na Nova Crítica norte-americana. O que ocorrera em Cambridge fora, por contraste, uma associação confusa, mas ainda assim impressionante, de julgamentos morais e até mesmo normativos, com essas técnicas de análise interna isolada. Isso era visto, em outras partes, como uma lamentável impureza e um desvio da única disciplina relevante, que era a análise de uma organização verbal específica; de fato, o objeto como ele é realmente em si, um eco irônico nesse contexto. De todo modo, as técnicas formais eram ou poderiam se tornar rapidamente familiares à análise literária, em que elas eram dirigidas à análise da organização interna do texto, do poema.

Esse tipo de estruturalismo literário não é apenas congruente com o paradigma que eu comecei descrevendo. Ele é o próprio paradigma em sua forma moderna mais influente. E, de fato, se ele é genuinamente estruturalista é uma questão que tem de ser enfrentada. Em suas formas usuais, ele é tão marcadamente local e técnico, tão pouco interessado com quaisquer propriedades sistêmicas mais amplas ou gerais, que ele mal merece esse nome. O que pode muito mais razoavelmente ser chamado de “estruturalista”, nos estudos culturais, é aquela obra que analisa a organização interna não como um fim em si mesma – como a competência necessária para a leitura –, mas como a forma necessária de analisar, e assim distinguir, formas específicas ou sistêmicas. Assim, os estudos de Goldmann sobre as formas dramáticas, e muitos dos trabalhos atuais sobre formas narrativas, são tentativas de descobrir as regras, as regras estruturais, das formas gerais específicas do drama ou da ficção. Isso é muito diferente das análises técnicas mais locais derivadas da Linguística. É uma aplicação da ideia estruturalista fundamental a problemas de forma que foram, de fato, profundamente negligenciados nos estudos literários. No caso de Goldmann, tal análise é, ao mesmo tempo, formal e histórica – há formas historicamente mutáveis. Contudo, em intervenções estruturalistas muito mais centrais, tem-se acreditado, de modos que fazem lembrar teorias dos gêneros literários muito mais antigas, que há regras detectáveis da organização literária geral: da “Narrativa” como tal, do “Drama” como tal, e assim por diante. Trata-se de um tipo importante de projeto, mas, tipicamente, ele geralmente une um tecnicismo extremamente local, de análise interna, a categorias extremamente amplas – deliberadamente a-históricas e contidas entre abstrações estéticas ou psicológicas – como as “estruturas” às quais todo detalhe se relaciona.

Um terceiro tipo de “estruturalismo literário” é a obra influenciada pelos argumentos filosóficos de Louis Althusser. Eles penetraram na análise literária por meio de seu pupilo Pierre Macherey e são representados no país, por exemplo, por Criticism and Ideology, de Terry Eagleton. Esta é uma tendência consideravelmente diferente. Ela diz: certamente a sociedade, a ordem social, é um sistema internamente regulado, mas, acima de tudo, ela é um sistema dos sistemas, determinado em última instância pela economia. No quadro dessa determinação mais geral, cada prática – como a escrita – possui uma importante autonomia relativa. Contudo, ela ainda é uma parte e deve ser percebida no final das contas como uma parte de um sistema mais amplo, ao qual ela não pode ser reduzida, mas ao qual ela deve ser, no final das contas, relacionada. Como, na prática, essa relação é tratada e demonstrada? Ela o é por meio daquilo que é visto como a força vinculante de todo o sistema: a ideologia.

Aqui a ideologia é muito mais do que as ideias e crenças de classes ou grupos particulares. Ela é, com efeito, apenas com limitadas exceções, a condição de toda a vida consciente. Assim, a área à qual a maioria dos estudantes de literatura normalmente refere as suas leituras e seus julgamentos, aquela área condensada no decisivo termo “experiência”, deve, na verdade, ser vista como parte da esfera da ideologia. De fato, a experiência é vista como a forma mais comum de ideologia. É onde as estruturas mais profundas da sociedade efetivamente se reproduzem como vida consciente. A ideologia é, de fato, tão penetrante e tão impenetrável, nesse sentido, que se pergunta quem algum dia será capaz de analisá-la. Mas há um precedente, afinal, no caso do inconsciente, com o qual ela tem certas analogias e conexões próximas. Há um inconsciente absoluto, diz a Psicanálise, mas também há técnicas reconhecíveis de entendimento e compreensão. No caso de Althusser, a principal técnica de entendimento é a teoria. Apenas a teoria pode escapar completamente à ideologia. Mas há também, no caso da literatura, uma situação relativamente privilegiada. Literatura não é apenas um portador da ideologia, como na maior parte das formas da teoria do reflexo. Ela é inescapavelmente ideológica, mas sua autonomia relativa específica é tal que ela é uma forma de escrita, uma forma de prática, na qual a ideologia tanto existe como é, ou pode ser, internamente afastada e questionada. Portanto, o valor da literatura reside precisamente no fato de ela ser uma das áreas em que o domínio da ideologia é, ou pode ser, afrouxado porque, embora ela não possa escapar à construção ideológica, a questão de sua literariedade oferece um contínuo questionamento interno. Tem-se, assim, leituras que são muito similares a certas leituras semióticas recentes, em que se constrói um texto e um subtexto, em que se pode dizer “isso é o que é reproduzido a partir da ideologia”; mas também “isso é o que está ocorrendo no texto e que mina ou questiona ou, em certos casos, completamente a subverte”. Esse método tem sido usado em análises bastante circunstanciadas e interessantes.

Semiótica e desconstrução

Em seguida há, finalmente, uma tendência que, sem dúvida, tem uma relação com o estruturalismo, certamente com a Linguística estrutural, mas que – em minha opinião, de forma válida – nega que seja um estruturalismo. Trata-se do que é hoje chamado de Semiótica. Em geral, Semiótica é, sem dúvida, um filho legítimo do estruturalismo. Ela é uma ciência dos signos e uma ciência dos sistemas de signos (não confinados à linguagem). Os significados são interpretados não por seu conteúdo aparente, mas por suas relações dentro de um sistema geral de significação. Na Semiótica mais recente, esse tipo de análise tem sido rigorosamente estendido à propaganda, ao cinema, ao fotojornalismo e, no caso de Barthes, à moda. Quando se tem esse procedimento fundamental de leitura de um sistema de signos – em que os sentidos não se revelam simplesmente, mas devem ser construídos por meio da compreensão de seu lugar em um sistema que nunca está ele próprio revelado, que, de fato, sempre tem de ser lido –, então se tem algo que, embora surja dentro do estruturalismo, pode se tornar, em estudos posteriores, separável dele. Assim, ao invés de ver as obras literárias como sendo produzidas pelos sistemas de signos, o que tem sido a ênfase central do estruturalismo mais ortodoxo, essa Semiótica posterior tem enfatizado, ao contrário, que os sistemas produtivos têm sempre de ser, eles próprios, constituídos e reconstituídos, e que, por causa disso, há uma batalha permanente acerca do caráter fixo do signo e acerca dos sistemas que nós ordinariamente trazemos à apresentação e à interpretação. Um efeito dessa mudança é um novo sentido de “desconstrução”: não a análise técnica de uma organização interna para mostrar de onde vieram todas as partes, todos os componentes, mas um processo muito mais aberto e ativo que está continuamente desmantelando exemplos, como um modo de desmantelar seus próprios sistemas. Trata-se, nesse sentido, claramente de uma tendência muito mais explosiva do que quaisquer das outras tendências dentro do estruturalismo, que não está simplesmente demonstrando a operação de regras sistemáticas em maneiras que podem se estabelecer como competências dentro do paradigma. Ao contrário, analisando seja a literatura, a televisão, seja a representação física, está-se olhando não para o sistema academicamente explicativo, mas para o sistema como um modo de formação, que, à medida que se torna visível, pode ser colocado em questão ou, de fato, rejeitado. Nesse sentido, todo o impulso dessa Semiótica radical é muito diferente da versão estruturalista de produção e reprodução que tem sido muito mais largamente influente – muito mais bem-vinda e muito mais à vontade – nos estudos literários.

Agora quero dizer que, em anos recentes, tem havido um observável avanço em paralelo de duas posições que partiram de pontos distantes. Talvez eu possa melhor ilustrar isso com meu próprio caso. Muito do trabalho literário que eu fiz, feitas duas ou três exceções, pode ser lido como sendo compatível com o que eu chamei no início de o paradigma literário dominante. Isto é, são trabalhos que podem estar abordando a análise e a apreciação da literatura com uma consciência excepcionalmente forte dos determinantes sociais atuando sobre ela, mas o centro da atenção literária continua aí, e os procedimentos são apreciação, explicação, verificação, em termos da explicação histórica, e assim por diante. Um trabalho, contudo, do qual não se pode dizer isso é O campo e a cidade, que está, de fato, bastante próximo daquela primeira posição marxista que eu descrevi, porque nele pretendo identificar certas formas características de escrita sobre o campo e a cidade e, então, insisto em colocá-las não apenas em seu cenário histórico – o que faz parte do paradigma –, mas dentro de um processo ativo, conflitante, histórico, no qual as próprias formas são criadas por relações sociais que são algumas vezes evidentes e outras vezes, ocultas. Assim, isto é, sob qualquer leitura, uma ruptura.

Mas, é claro, houve outros estudos, remontando especialmente a The Long Revolution, que não foram percebidos, de qualquer modo, como próprios aos estudos literários, mas que agora podem ser vistos evidentemente como uma mudança de ênfase que redundaria na rejeição do paradigma dominante. Refiro-me especificamente aos estudos sobre a história social dos escritores ingleses, a história social das formas dramáticas, o advento do inglês padrão e também as novas posições acerca do que é necessário na análise da cultura. Uma mudança ulterior estava aparente nos estudos sobre comunicação, televisão, tecnologias e formas culturais e sobre a Sociologia da Cultura, embora estes fossem mais uma vez vistos como interesses separados, externos aos estudos de inglês ou literários. Ora, tudo isso se tornou claro para mim por volta dos anos 1970 e, a partir daí, desenvolvi uma posição teórica mais explícita, que descrevi finalmente em Marxismo e literatura como “materialismo cultural”. Essa posição está, é claro, completamente fora do paradigma, o que não significa que tenha se afastado da preocupação comum fundamental, dos estudos sobre os quais se trata de avançar. Essa posição avançou muito mais do que a literatura em seu sentido paradigmático, mas ainda inclui centralmente essas grandes formas de escrita, que estão sendo agora lidas, junto com outros tipos de escrita, sob uma perspectiva diferente. O materialismo cultural é a análise de todas as formas de significação, incluindo as formas mais centrais de escrita, dentro dos meios e das condições efetivos de sua produção.

Materialismo cultural e pós-estruturalismo

Foi aqui, talvez para nossa surpresa mútua, que meus estudos encontraram novos pontos de contato com alguns estudos na Semiótica mais recente. Ainda havia diferenças particulares bastante radicais, especialmente em sua confiança na Linguística estrutural e na Psicanálise; mas me lembro de ter dito que uma Semiótica plenamente histórica seria algo muito distinto de alguns dos mais limitados deslocamentos estruturalistas da história e praticamente o mesmo que o materialismo cultural, e eu estava satisfeito em ver certas tendências nessa direção. Podia ver também que algumas das posições mais simples da primeira Linguística estrutural poderiam ser modificadas por novas ênfases nas produções sociais e históricas de sistemas significantes, como em Volosinov e nos formalistas sociais. Restava o problema das bases da Psicanálise, em que ainda havia diferenças radicais, mas, por outro lado, eu sabia que o marxismo fora usualmente fraco nessa área dos problemas da subjetividade, e talvez haja hoje uma nova dimensão radical de pesquisas, testando evidências e proposições nessa área, que é tão evidentemente importante na produção de significados e valores. Assim, na verdade, dois tipos diferentes de estudos estavam agora em contato um com o outro e estavam se desenvolvendo, em alguns casos de forma bastante construtiva. Talvez estivéssemos tão envolvidos nisso em Cambridge que nos esquecemos de que, enquanto nós seguíamos nesses termos, o antigo paradigma ainda estava lá e ainda era institucionalmente poderoso, embora as anomalias estivessem, por essa época, desorganizando-o de forma consideravelmente evidente, até mesmo nos níveis mais práticos. Alguns novos estudos estavam sendo incluídos para contrabalançar as anomalias, mas o resultado já era incoerente, como se via a partir de muitos pontos de vista.

Assim, volto, por fim, ao meu argumento original. As tendências marxistas e estruturalistas mais atuais são e têm sido, embora pouco familiares localmente ou grosseiramente identificadas como estranhas e parciais, compatíveis ou até mesmo congruentes, em um sentido amplo, com o paradigma ortodoxo, especialmente em sua forma praticamente mais frouxa e ecleticamente incoerente. Alguns outros, contudo, não o são: mais especificamente, aquela primeira posição no marxismo, que, ao contrário de privilegiar uma literatura generalizada como uma fonte independente de valores, insiste em relacionar a real variedade da literatura a processos históricos nos quais conflitos fundamentais ocorreram necessariamente, e ainda estavam ocorrendo. Esse era o sentido e o desafio de O campo e a cidade. As outras posições que não são compatíveis com o paradigma e sua organização profissional são o materialismo cultural e a Semiótica radical, pois necessariamente incluem o próprio paradigma como tema de análise, antes do que como uma definição governadora do objeto de conhecimento.

É necessário insistir nessas distinções. Ainda é muito cedo para dizer quais podem ser suas consequências institucionais. Em algumas outras universidades e em algumas das novas instituições de educação superior, a mudança em relação ao antigo paradigma já ocorreu completamente ou em parte. Mesmo assim, ainda importa bastante o que acontece nas instituições mais antigas e estabelecidas. Especificamente em Cambridge, devemos colocar uma questão áspera: é possível que estudos radicalmente diferentes possam ser conduzidos sob uma única chefia ou departamento, quando não há apenas diversidade de abordagens, mas diferenças mais sérias e fundamentais acerca do objeto de conhecimento (apesar das tentativas de sobreposição ao material de estudo efetivo)? Ou deve haver uma reorganização mais ampla das divisões estabelecidas das humanidades, as ciências humanas, em arranjos recentemente definidos e mais colaborativos? Isso é o que agora precisa ser enfrentado no que é também, por outras razões, um clima gélido – de fato, aflitivo. Só podemos estar certos de que o que podemos e devemos fazer é esclarecer, com franqueza, as grandes questões intelectuais subjacentes.

Texto de conferência realizada na Faculdade de Inglês de Cambridge, em 13 de fevereiro de 1981.

1 de junho de 1981

A separação entre o econômico e o político no capitalismo

Um dos textos fundadores do marxismo político, no qual Ellen Meiksins Wood investiga como o capitalismo institui uma separação historicamente singular entre economia e política, ocultando relações de poder sob a aparência de mecanismos econômicos impessoais. A partir de uma releitura de Marx, Wood procura recuperar a dimensão política da exploração capitalista e suas implicações para a teoria e a prática socialistas.

Ellen Meiksins Wood





A intenção original do materialismo histórico era oferecer fundamentação teórica para se interpretar o mundo a fim de mudá-lo. Isso não era um slogan vazio. Tem – ou deve ter – sentido muito preciso. Significa que o marxismo busca um específico tipo de conhecimento capaz de iluminar mais que qualquer outro os princípios do movimento histórico e, pelo menos implicitamente, os pontos nos quais a ação política pode intervir com máximo efeito. Isso não quer dizer que o objeto da teoria marxista seria descobrir um programa 'científico' ou técnico de ação política. Não. O objetivo é prover um modo de analisar especialmente bem equipado para explorar o terreno no qual a ação política tem de ter lugar. Pode-se contudo argumentar que o marxismo desde Marx com frequência perdeu de vista esse projeto teórico e o caráter quintessencialmente político que esse projeto tem. Em particular, é o que acontece quando marxistas, sob várias formas, perpetuam a rígida separação conceitual entre 'o econômico' e 'o político' que tão bem serviu à ideologia burguesa desde que os economistas clássicos descobriram o 'econômico', assim, no abstrato, e puseram-se a esvaziar o capitalismo do que nele é conteúdo social e político.*

Dado contudo que esses aparelhos conceituais refletem – embora como espelho que deforma – uma realidade específica do capitalismo, qualquer separação-diferenciação real do 'econômico' e tentativa de extraí-lo da ideologia burguesa e conseguir que ilumine mais do que obscureça tem de começar por reexaminar as condições históricas que tornaram possíveis e plausíveis aquelas concepções. O objetivo desse reexame não será re-explicar a 'fragmentação' da vida social no capitalismo, mas compreender precisamente o que, na natureza histórica do capitalismo, aparece como 'esferas' que se diferenciam, que se separam –, especificamente no processo que separou 'o econômico' de 'o político'. Talvez se possa interpretar essa 'fragmentação' histórica de tal modo que o 'fetichismo' das categorias capitalistas possa ser superado, mas sem obscurecer as realidades históricas que aquelas categorias refletem.

Claro que a diferenciação do 'econômico' para um lado, e do 'político' para outro não é simplesmente problema teórico: é problema prático. Talvez não haja nenhum obstáculo maior para a prática socialista, que a separação entre lutas políticas, para um lado, e lutas econômicas, para o outro, que tipificou os movimentos da classe trabalhadora moderna. Se esse obstáculo fosse, como muitos socialistas revolucionários sugeriram com desdém, mero produto de uma consciência 'não desenvolvida', ou 'falsa' (e até 'errada', como há quem diga) na classe trabalhadora, seria mais fácil superá-lo. A persistência tenaz do 'economicismo' da classe trabalhadora porém, deriva precisamente de ele corresponder às realidades do capitalismo e aos modos pelos quais a apropriação e a exploração capitalistas realmente dividiram as arenas de ação econômica e de ação política, e realmente transformaram algumas questões políticas essenciais – lutas contra dominação e exploração que historicamente sempre foram inextrincavelmente entretecidas com o poder político –, em questões diferenciadamente 'econômicas'. Essa separação 'estrutural' pode, de fato, ser o mais efetivo mecanismo de defesa acessível ao capital.

Se, portanto, o objeto da teoria marxista é lançar luz sobre o terreno da ação política, ela não pode nem ignorar essas realidades históricas nem ratificá-las, reafirmando a separação entre economia e política que serviu tão bem ao capitalismo na teoria e na prática. Em vez disso, a teoria marxista deve explicar precisamente como e em que sentido o capitalismo abriu um fosso entre o econômico e o político – como e em que sentido questões essencialmente politicas como a disposição dos poderes para controlar produção e apropriação, ou a alocação de trabalho e recursos sociais, foram excluídas da arena política e deslocadas para uma 'esfera' separada.

Karl Marx apresentou o mundo nos aspectos políticos do mundo, não só nos trabalhos explicitamente políticos, mas até nos textos econômicos mais técnicos. Sua crítica da economia política foi, dentre outras coisas, orientada para revelar a face política da economia que economistas burgueses da economia política haviam obscurecido. O segredo fundamental da produção capitalista revelado por Marx – o segredo que a economia política tratou sistematicamente de ocultar, até que finalmente se tornou impotente para dar conta da acumulação capitalista – tem a ver com a relação social e o modo como o poder é distribuído entre o trabalhador e o capitalista para quem o trabalhador vende sua força de trabalho. Esse segredo tem um corolário: a distribuição do poder entre o capitalista individual e o trabalhador tem, como condição, a configuração política da sociedade como um todo – um determinado ponto de equilíbrio das forças de classe e dos poderes do estado, que permite que o produtor direto seja expropriado, que o capitalista mantenha para ele a propriedade privada absoluta e o controle sobre a produção e a apropriação. No volume 1 de O Capital Marx percorre o caminho desde a forma mercadoria, pela mais valia, até o 'segredo da acumulação primitiva', para no final revelar que 'o ponto de partida' da produção capitalista '(...) nada é senão o processo histórico de divorciar o produtor e os meios de produção' [1], processo de luta de classes e sangrenta intervenção pelo estado a serviço da classe que expropria. A própria estrutura do argumento sugere que, para Marx, o segredo último da produção capitalista é segredo político. O que distingue tão radicalmente a análise feita por Marx e a economia política clássica é que Marx não cria descontinuidades agudas entre as esferas econômica e política. E que ele consegue traçar as continuidades, porque trata a própria economia como um conjunto de relações sociais, não como rede de forças desencarnadas como faz a 'esfera' política'.

Mas não tem sido sempre assim e não se pode dizer o mesmo de todo o marxismo depois de Marx. Numa forma ou noutra e em graus variados, os marxistas em geral adotaram modos de análise que, explicitamente ou implicitamente, tratam a 'base' econômica e as 'superestruturas' legal, política e ideológica que 'refletem' ou 'correspondem' àquela 'base como se fossem qualitativamente diferentes, mais ou menos como esferas fechadas e 'regionalmente' separadas. É ainda mais obviamente verdade nas teorias ortodoxas de base/superestrutura. E também é verdade nas variantes delas que falam de 'fatores' econômicos, políticos e ideológicos, de 'níveis' ou 'instâncias', por mais que insistam na interação dos tais 'fatores' ou 'instâncias' ou em o quanto é sempre remota a "última instância" na qual a esfera econômica finalmente determina o resto. Na verdades, são formulações que, todas elas, apenas enfatizam a separação espacial das 'esferas'.

Outras escolas de marxismo mantiveram por outras vias a abstração e o fechamento das esferas. Por exemplo, ao abstrair a economia ou o circuito do capital, para construir alguma alternativa tecnicamente sofisticada à economia burguesa, enfrentada no território dela (e avançando até significativamente mais longe que o próprio Marx nesse aspecto, mas sem ancorar as abstrações econômicas em análises históricas e sociológicas como Marx fez). As relações sociais nas quais está incorporado esse mecanismo econômico – que de fato o constituem – são tratadas como coisa externa. No melhor dos casos, uma esfera política espacialmente separada pode intervir na economia, mas a própria economia já foi esvaziada de conteúdo social e é, como efetivamente foi, despolitizada. Em todos esses aspectos, há teorias marxistas que perpetuaram as próprias práticas ideológicas que Marx estava combatendo –, práticas que confirmaram para a burguesia que as relações de produção capitalistas seriam naturais e eternas.

A economia política burguesa, segundo Marx, universaliza as relações capitalistas de produção precisamente ao analisar a produção depois de ter já abstraído dela as específicas determinações sociais. A abordagem de Marx é diferente daquela abordagem burguesa precisamente ao insistir que um sistema de produção é formado de suas específicas determinações sociais – relações sociais específicas, modos específicos de propriedade e dominação e formas legais e políticas. Isso não significa meramente que a 'base' econômica é refletida e preservada por dadas instituições 'superestruturais', mas, isso sim, que a base produtiva existe, ela própria, no modelo de formas sociais, jurídicas e políticas – particularmente nas formas da propriedade e da dominação. Economistas burgueses da economia política conseguem demonstrar 'a eternidade e a harmonia das relações sociais existentes', porque divorciam, de seus específicos atributos sociais, o sistema de produção. Para Marx, produção é '(...) não só uma produção particular (...) mas sempre é um certo corpo social, um sujeito social, que é ativo numa totalidade maior ou mais esparsa de ramos de produção'. [2] A economia política burguesa, ao contrário, alcança seu objetivo ideológico ao lidar com a sociedade sempre em abstrato, tratando a produção como '(...) encaixada em leis naturais eternas independentes da história, para dentro das quais relações burguesas oportunistas são contrabandeadas silenciosamente, como se aquelas fossem leis naturais sobre as quais a sociedade em abstrato estaria erigida. Esse é o objetivo mais ou menos consciente de todo o procedimento.' [3] Embora economistas burguesas possam até reconhecer que algumas formas legais e políticas facilitam a produção, não as tratam como constituintes orgânicos de um sistema produtivo. Assim eles, põem "(...) em uma relação acidental, em relação meramente de reflexão" [4], coisas que são organicamente relacionadas. 

A distinção entre conexões 'orgânicas' e conexões 'meramente reflexivas' é especialmente significativa. Ela sugere que qualquer aplicação da metáfora base/superestrutura que destaque a separação e o fechamento estanque das esferas – por mais que alguém insista na conexão de uma à outra, e até a 'reflexão' de uma na outra – reproduz as mistificações da ideologia burguesa, dado que não trata a própria esfera da produção como definida por suas determinações sociais e, com efeito, lida com a sociedade 'no abstrato'. O princípio básico no que tenha a ver com o primado da produção, a pedra basilar do materialismo histórico, perde assim todo o gume crítico e acaba assimilado como ideologia burguesa.

Isso, claro, não significa dizer que Marx não viu valor algum na abordagem da economia política burguesa. Bem ao contrário, ele adotou as categorias dela como seu ponto de partida, precisamente porque expressam, não alguma verdade universal, mas uma realidade histórica na sociedade capitalista, pelo menos uma 'aparência real'. O ponto foi decifrar o real significado da 'aparência', para o que se requeria não alguma reprodução, mas a elaboração crítica das categorias burguesas.
Dessocializando a base material
Aquelas críticas precisamente foram usadas recentemente num livro importante de G. A. Cohen para apoiar um argumento contra uma interpretação social do materialismo; e dado que o argumento de Cohen é, em muitos pontos, a perfeita antítese do argumento que aqui desenvolvo, alguns comentários podem ser úteis. [5] Será impossível, é claro, considerar cada passo da argumentação densa e impressionante de Cohen, mas há um passo-pivô indispensável naquele argumento pelo qual se pode resumir o principal ponto em discussão entre nossas interpretações opostas do materialismo. É o ponto em que Cohen formula a distinção entre o 'material' e o 'social'. Há dois grandes aspectos a discutir aí: a própria distinção analítica feita por Cohen; e o deslizamento graças ao qual se torna possível que uma distinção analítica seja imperceptivelmente convertida não só num dualismo, mas numa separação historicamente real e numa relação causal.

Dado que o objeto de Cohen é estabelecer que o materialismo histórico seria um determinismo tecnológico, ele é obrigado não só a definir de modo estreito o 'substrato material' determinante, para só incluir forças técnicas de produção, mas, além disso, tem de identificar a esfera material com o 'natural', como algo separado por princípio e qualitativamente diferente do 'social' e do 'histórico'. Mesmo que, como ele concede, o 'material' nunca exista na história, exceto se 'envelopado' na forma social, esse argumento causal obriga Cohen, na verdade, a tratar o 'material' como se só se relacionasse externamente ao 'social' e como se tivesse vida própria, submetido a leis de movimento diferentes de princípios 'históricos'. O determinismo tecnológico de Cohen reduzido aos termos mais simples significa que os impulsos 'naturais' que propelem a esfera material – o desenvolvimento de forças técnicas – prevalece e, de um modo ou de outro, determina causalmente o desenvolvimento histórico das formas sociais. A premissa é que haveria um impulso natural e perene, independente de condições sociais e históricas, plantado na natureza humana e na racionalidade, rumo ao aprimoramento de forças tecnológicas. [6] Em qualquer dado estágio de desenvolvimento, então, aquelas relações sociais têm de emergir, o que facilitará o tal aprimoramento. E, por sua vez, virão a existir as formas legal e política que aquelas relações sociais exigem. Em resumo, Cohen nos oferece uma análise de tipo 'base/superestrutura (qualificada pela proposição de que 'bases carecem de superestruturas', que absolutamente não pode ser excluída de nenhuma das aplicações dessa metáfora mecânica), na qual as próprias relações de produção tornam-se 'superestruturais' na relação delas com a 'base' real, as forças técnicas de produção.

Para estabelecer as fundações conceituais para suas proposições causais sobre forças e relações de produção, Cohen cita a autoridade de Marx: 'Dizemos aqui que a distinção familiar entre forças e relações de produção é, em Marx, um contraste, dentre um conjunto de contrastes entre natureza e sociedade. Comentaristas passaram sem ver a frequência com que Marx usa "material" como antônimo de "social" e de "formal", como "natural" acompanha "material" contra "social" e como o que é descrito como material também contra como o "conteúdo" de alguma forma. (Outros termos do vocabulário material são "humano", "simples" e "real"; e "histórico" e "econômico" combinam com "social".) Fruto dessas oposições e identificações é que a matéria ou conteúdo da sociedade é a natureza, cuja forma é a forma social.' [7]

O argumento gira em torno da identificação de 'material' com 'natureza' e de desenvolvimento 'natural' em oposição a 'social' e 'histórico'; e para essa definição de 'material' Cohen depende de leituras de Marx tão dúbias, que toda sua interpretação de materialismo histórica passa a ter de ser questionada. O mais impressionante é que as passagens de Marx que Cohen cita em apoio da "abstração iluminadora" que separa o 'material', do 'social'; ou a 'produção material', de seus 'traços sociais' – ou, por exemplo, a 'matéria subjacente' da produção capitalista, da 'forma econômica capitalista' – são precisamente as passagens na qual Marx argumentava contra, não em defesa, desse tipo de abstração.

Cohen cita várias passagens de O Capital e dos Grundrisse as quais, de uma forma ou outra, fazem referência à 'atividade produtiva de seres humanos em geral' ou ao 'processo de produção em geral' ou produção material 'no abstrato' [8].

A distinção de que Marx se ocupa aqui não é entre 'material' e 'social' ou entre um 'processo material de produção' e um 'processo social de produção', mas entre produção 'como tal' ou 'em geral' e produção como realmente existe, como um processo social em formas socialmente e historicamente determinadas. (Na verdade, o mesmo contraste pode ser formulado em o 'processo social de produção em geral' e o processo social de produção em formas historicamente determinadas. [9]) Não se trata, por exemplo de distinguir a 'forma capitalista', de alguma sua 'matéria subjacente', mas de distinguir 'matéria' em forma capitalista, de 'matéria' em abstrato.
O objetivo de Marx é criticar as mistificações da economia política às quais se chega precisamente se se começa com 'produção material em geral' e daí se passa a tratar do processo de produzir capital abstratamente, como se existisse algum processo de produção desse tipo. [10] Está na natureza do capitalismo tornar tais mistificações particularmente plausíveis, porque a produção das condições da vida material no capitalismo é inseparável da produção de capital. Por exemplo, desde que a produção da mercadoria generalizou-se, toda produção de valores de uso é, ao mesmo tempo e indistinguivelmente, produção de valores de troca. Nos Grundrisse e no Capital Marx expõe as falsas aparências da produção capitalista, traçando os estágios da mistificação na produção do capital. Nos Grundrisse, ele sugere rapidamente que se deve começar por identificar os elementos "comuns" ou "gerais" de toda a produção; mas essa sugestão pouco ajuda a apoiar o argumento de Cohen, uma vez que, primeiro, não há razão para fazer equivalentes "comum" ou "geral", com o "material" em oposição ao "social"; e, sobretudo, porque Marx rejeita esse procedimento sob o argumento de que todas as proposições sobre "produção em geral" serão sempre vazias e formais, mesmo "banais" ou tautológicas, porque o real conteúdo desses "elementos comuns" eles mesmos depende precisamente das suas determinações sociais. [11]

O processo-trabalho pode, é verdade, ser reduzido a fatores "simples" ou "elementares" ou "comuns": a atividade pessoal do homem, o produtor; um objeto de trabalho ou material trabalhado; instrumentos. Visto desse modo, porém, como 'unicamente um processo entre homem e natureza', o processo-trabalho é tratado como se fosse feito por ser humano 'anormalmente isolado' (o infame Robinson Crusoe o qual, segundo Marx, tão frequentemente espreita por trás de mistificações da economia política), em vez de ser tratado como o que realmente é: processo social, no qual o relacionamento com a natureza é ao mesmo tempo e inseparavelmente uma relação social. [12] Os elementos 'simples' são comuns a toda produção – ao mesmo tempo 'anormalmente isolada' (ou imaginária) e social – e só são 'elementares' no sentido abstrato de que todos os tipos de produção terão de ter tais elementos, numa ou noutra forma. O conteúdo desses fatores 'elementares' como o dos fatores 'sociais' é socialmente e historicamente determinado. Além do mais, Marx não sugere que em formas normais de produção, que implicam 'assistência social', esse elemento social seria de algum modo menos fundamental ou até menos 'material' que os elementos 'simples' ou 'comuns'. Tampouco implica que os elementos simples nesses casos tenham prioridade alguma causal sobre o social. Assim, quando o próprio Marx isola o processo-trabalho 'simples' no 1º volume de O Capital (e só depois de analisar a forma mercadoria), seu objetivo não é separar os elementos 'simples' do processo-trabalho extraindo-o de suas determinações sociais, ou estabelecer a 'primazia' desses elementos. O que Marx quer é, isso sim, explicar o modo como a natureza particular do processo-trabalho capitalista, a particular natureza dos seus próprios elementos 'simples', está tão inextrincavelmente ligada com o fato 'social' e 'histórico' que o processo de produção no capitalismo é ao mesmo tempo (i) um processo de produzir mais-valia e (ii) a própria relação capitalista.

O objetivo de Marx então é destacar não o dualismo do 'material' e do 'social', mas definir o material pelo social; definir o processo material de produção não em oposição ao processo social de produção, mas como um processo social; focar a atenção não em 'matéria abstrata', mas na forma social que lhe dá realidade; indicar não a serventia, mas a vacuidade dessa abstração; e, dado que atrai nossa atenção para a abstração da produção material extraída de sua forma social particular, ele o faz para destacar não o que a abstração revela, mas o que ela esconde. A 'abstração iluminadora' de Cohen é, pois, a própria mistificação que Marx está atacando.

O objetivo do quadro conceitual de Cohen é servir de apoio ao seu argumento a favor do determinismo tecnológico. A força da fundação conceitual, então, pode ser julgada pelo peso do argumento que ela consegue suportar. Na análise final, as proposições de Cohen sobre as conexões causais entre forças e relações de produção provam-se sem substância. Aquelas proposições não implicam, como Cohen apressa-se a destacar, qualquer sequência temporal particular. Forças dinâmicas de produção podem irromper pelo integumento de relações sociais e compeli-las a mudar conformemente; ou forças estéreis podem, precisamente porque não se desenvolvem, compelir relações sociais a mudar para encorajar e acelerar o progresso tecnológico. Na verdade, a fórmula de Cohen pode acomodar os dois casos nos quais, nas palavras de Mar, as forças de produção estão 'petrificadas' [13] (o que pode ser a regra, não a exceção) e o caso radicalmente único do capitalismo, que se distingue precisamente por seu impulso para revolucionar constantemente as forças de produção. Essa flexibilidade torna desnecessário explicar evidência histórica e antropológica discrepante; mas deixa bastante vazia a proposição histórica básica de Cohen e a torna de pouca utilidade como ferramenta explicativa. A proposição é, com efeito, não falseável. Se for verdadeira, é trivial ou tautológica – como talvez qualquer 'lei' histórica de tal generalidade sempre será.

Num dado sentido, o que o determinismo tecnológico de Cohen faz é repetir o erro dos economistas da economia política: ele generaliza a experiência histórica particular do capitalismo, extraindo de suas específicas determinações sociais as leis da produção capitalista. O impulso para revolucionar as forças de produção, que, no capitalismo é gerado por um modo particular de extração de mais-valia – o mecanismo do valor excedente –, e pela relação social entre capital e trabalho que isso implica, torna-se assim uma lei natural plantada na natureza humana e reforçada pelas leis da razão. [14]

A particular definição de Cohen do 'material' e de sua relação com o social, assim, torna difícil dar conta da evolução do capitalismo e do efeito distintivo que suas relações sociais de produção tiveram no desenvolvimento tecnológico. De fato – e ainda mais fundamentalmente – a separação radical que ele faz do 'material' e do 'social' não dá conta, precisamente, dessas leis materialistas da contradição e da transição histórica que o próprio Cohen invoca para apoiar seu argumento. Se há algum significado em propor que contradições entre forças e relações de produção dão ímpeto ao movimento histórico, aquele significado só se salva se as 'forças' são consideradas em seu aspecto social. É precisamente porque o 'material' e o 'social' não estão mais em dois planos diferentes do ser, que faz sentido falar de 'contradições' entre eles. Por exemplo, a contradição crítica no capitalismo não é entre forças técnicas e relações sociais definidas estreitamente, mas entre dois princípios sociais potencialmente antagônicos: (i) a forma individualista, até antissocial, da propriedade capitalista e (ii) as formas altamente socializadas da produção capitalista. A 'força material' mais antagonista das relações sociais do capital e um proletariado unido e com consciência de classe. Nem Cohen diria que a geração dessa força seria mero reflexo de desenvolvimento tecnológico.

Vale também observar que Marx e Engels vão a ponto de sugerir que a própria possibilidade de separação e contradição entre forças e relações de produção depende de específicas condições sociais. Tal separação só se torna possível quando produção e consumo, trabalho e lazer, 'são atribuídos a diferentes indivíduos' na divisão social do trabalho. [15] Princípio similar aplica-se à separação de 'fatores' – econômico, político, etc. – e à 'relativa autonomia' deles. O alicerce último dessas separações é a divisão do trabalho que cria 'esferas novas e independentes', ao designar pessoas para desempenharem funções sociais novas e independentes. [16]

Em resumo, o 'material' sobre o qual repousa a estrutura do materialismo histórico é, desde o início, fenômeno 'social' e histórico. Pode-se até dizer que a essência desse materialismo – em contraste, digamos, com o materialismo de economistas da economia política – é precisamente que ele socializa e historiciza a base material. Não há, pois, disjunção radical entre 'material' e 'social', 'base' e 'superestrutura', 'estruturas objetivas' e especificidades históricas, que tornam difícil movimentar-se de uma à outra em teoria e movimentar-se entre teoria e prática.

[*] Meus agradecimentos devem ir a várias pessoas que leram e criticaram — muitas vezes veementemente — este ensaio em várias etapas: Perry Anderson, Robin Blackburn, Robert Brenner, Ralph Miliband, Neal Wood, Gregory Meiksins, Peter Meiksins e meus alunos da Universidade de York, em Toronto, especialmente Frances Abele e George Comninel.

[1] Karl Marx, Capital, Moscou vol. I, p. 668.

[2] Marx, Grundrisse, Harmondsworth 1973, p. 86.

[3] Ibid., p. 87.

[4] Ibid., p. 88.

[5] G. A. Cohen, Karl Marx's Theory of History: A Defense, Oxford 1978.

[6] Cohen, pp. 152–3.

[7] Cohen, p. 98.

[8] Por exemplo, na p. 99 ele cita Grundrisse, p. 304 e Capital III, p. 795 (Moscou, 1962. Na ed. Moscou, 1971, p. 815).

[9] Ver, por exemplo, Capital III, Moscou 1971, p. 818.

[10] e.g., Grundrisse, pp. 85–88.

[11] loc. cit.

[12] Capital III, pp. 883–4.

[13] Capital I, p. 456–7.

[14] Ver Robert Brenner, "The Origins of Capitalism", NLR, 304, para uma discussão de como as relações capitalistas de produção só exigem a transformação revolucionária das forças produtivas.

[15] Marx and Engels, German Ideology in Collected Works, New York 1976, vol. 5, p. 45.

[16] Engels, "Letter to Conrad Schmidt", 27/10/1890, in Marx and Engels, Selected Correspondence, Moscou 1965, p. 422.

18 de julho de 1980

A Social Democracia como fenômeno histórico

"Para não repetir erros passados: o ressurgimento repentino de um interesse simpático pela Social Democracia é uma resposta à necessidade urgente de tirar lições da história do movimento socialista." ...

Adam Przeworsk


NLR I/122 • July/Aug 1980

Tradução / Para não repetir erros passados: o ressurgimento repentino de um interesse simpático pela Social Democracia é uma resposta à necessidade urgente de tirar lições da história do movimento socialista. Após várias décadas de análises dignas de um avestruz, alguns fatos rudimentares estão finalmente sendo admitidos. A Social Democracia tem sido a maneira predominante de organização dos trabalhadores sob o capitalismo. Os partidos reformistas têm desfrutado do apoio dos trabalhadores. Talvez até mais: para o bem ou para o mal, a Social Democracia é a única força política da Esquerda que pode demonstrar um extenso histórico de reformas em favor dos trabalhadores. Qualquer movimento que busque transformar as condições históricas opera sob essas mesmas condições. O movimento pelo socialismo se desenvolve dentro do capitalismo e enfrenta escolhas definidas que surgem dessa mesma organização da sociedade. Essas escolhas têm sido triplas: (1) se buscar o avanço do socialismo por meio das instituições políticas da sociedade capitalista ou confrontar a burguesia diretamente, sem nenhuma mediação; (2) se devemos procurar o agente da transformação socialista exclusivamente na classe trabalhadora ou se devemos confiar no apoio multi-social e mesmo supraclassista; e (3) se devemos procurar melhorias, reformas, dentro dos limites do capitalismo ou dedicar todos os esforços e energias à sua transformação completa.

Os social-democratas escolhem participar, buscar alianças supraclasses e lutar por reformas. No entanto, essas decisões não são independentes umas das outras. O que é crucial entender é o desenvolvimento da social-democracia como um processo: a maneira pela qual a resposta a qualquer uma dessas alternativas abre e fecha as escolhas subsequentes. Pois pode ser que qualquer movimento que escolha participar de instituições burguesas, e especificamente em eleições, deva buscar apoio para a transformação socialista além da classe trabalhadora e deva lutar por todas as melhorias que sejam possíveis no curto prazo, sem levar em conta as consequências finais. As decisões de participar e a estratégia de apelo supraclasse estão inextricavelmente conectadas? A orientação para reformas imediatas é uma consequência necessária da ampliação da base de classe? Um partido eleitoral que seria baseado exclusivamente no apoio da classe trabalhadora e dedicado exclusivamente aos objetivos finais é possível? Esses são os tipos de perguntas que precisam ser respondidas se quisermos tirar lições da experiência social-democrata. O que precisamos saber é a lógica das escolhas enfrentadas por qualquer movimento pelo socialismo dentro da sociedade capitalista: as possibilidades históricas que são abertas e fechadas à medida que cada escolha é feita.

A decisão de participar

A razão porque o envolvimento no processo político representativo da sociedade burguesa nunca cessou de provocar controvérsia é que o próprio ato de "tomar parte" neste sistema particular modela o movimento para o socialismo e sua relação com os trabalhadores como uma classe. A questão recorrente é saber se o envolvimento no processo eleitoral pode resultar em socialismo ou deve fortalecer o existente, isto é, a ordem social capitalista. É possível para o movimento socialista achar a passagem entre os "dois recifes" mapeados por Rosa Luxemburgo: "renúncia do caráter de massa ou renúncia dos objetos finais"?1 A participação no processo eleitoral é necessária se o movimento para o socialismo quiser contar com o apoio das massas dos trabalhadores, contudo esta mesma participação parece obstaculizar a consecução dos objetivos finais. Trabalhar para o dia de hoje e trabalhar pensando no amanhã aparecem como as garras de um dilema.

A participação imprime uma estrutura particular sobre a organização dos trabalhadores como uma classe. O efeito da participação sobre as relações internas da classe foi bem analisada por Luxemburgo: "a divisão entre luta política e luta econômica e a separação entre as duas não é mais que um produto artificial, mesmo que historicamente entendível, do período parlamentar. De um lado, no desenvolvimento pacífico, "normal" para a sociedade burguesa, a luta econômica é fracionada, estilhaçada em uma variedade de lutas parciais limitadas a cada firma, a cada ramo de produção. De outro lado, a lula política é conduzida não pelas massas através da ação direta mas em conformidade com a estrutura do estado burguês, segundo o modelo representativo,,por pressão exercida sobre o corpo legislativo".2

O primeiro efeito da "estrutura de estado bugues" é, assim, que os assalariados formam-se como uma classe em um número de organizações independentes e muitas vezes competitivas entre si, mais freqüentemente os sindicatos e partidos políticos, mas também as cooperativas, associações de vizinhos, clubes, etc. Um traço característico da democracia capitalista é a individualização das relações de classe ao nível de processo político e ideologia.3 Pessoas que são capitalistas ou assalariados dentro do sistema de produção aparecem todas elas, indistintamente, como "indivíduos" ou "cidadãos". Daí que, mesmo se um partido político for bem sucedido ao formar uma classe no terreno de instituições políticas, as organizações políticas e econômicas jamais coincidem. Sindícatos e partidos variados, múltiplos muitas vezes, representam interesses diferentes e competem uns com os outros. Mais que isso, enquanto a base classista dos sindicatos limita-se a certos grupos de pessoas mais ou menos permanentemente empregadas, os partidos políticos que organizam assalariados precisam ainda mobilizar pessoas que não são membros de sindicatos. Portanto, há uma tensão permanente entre os interesses mais estreitos dos sindicatos e os interesses mais amplos representados pelos partidos. A classe organizada como uma participante não surge como um ator único em conflitos históricos concretos.4

O segundo efeito é que as relações dentro da classe tornam-se estruturadas como relações de representação. O parlamento é uma instituição representativa: recebe indivíduos, não massas. Uma relação de representação e assim imposta sobre a classe pela própria natureza das instituições capitalistas democráticas. As massas não agem diretamente na defesa de seus interesses; delegam essa defesa. Isso é verdade tanto para os sindicatos quanto para os partidos: o processo de barganha coletiva situa-se tão distante da experiência diária das massas quanto as eleições. Os líderes tornam-se representantes. Massas representadas por líderes: esse é o modo de organização da classe trabalhadora dentro das instituições capitalistas. Dessa maneira, a participação desmobiliza as massas.

O dilema organizacional estende-se para mais longe. A luta pelo socialismo resulta inevitalmente no "embourgeoisement" do movimento socialista esse é o ponto focal da clássica análise de Robert Michels. A luta requer organização; exige um aparato permanente, uma burocracia assalariada; leva o movimento a engajar-se em atividades econômicas de sua própria lavra. Daí que os militantes socialistas inevitalmente tornam-se burocratas, editores de jornais, gerentes de companhias de seguros, diretores de salas de funerais, e mesmo "parteibudiger" - atendentes de balcão de festa. Todas essas não passam de mesquinhas ocupações burguesas. "Imprimem", concluiu Michels, "...um marcadamente mesquinho selo burguês" (1962: 270). Como um dissidente francês escreveu recentemente, "A classe trabalhadora perde-se em si mesma administrando suas cidadelas imaginárias. Camaradas disfarçados de notáveis ocupam-se com depósitos municipais de lixo e cantinas escolares. Ou não estão, esses notáveis, disfarçados de camaradas? Já nem sei mais."6

Um partido que participa em eleições precisa abandonar algumas táticas alternativas: esse é o dilema tático freqüentemente diagnosticado. Enquanto os trabalhadores não tinham plenos direitos políticos, nenhuma escolha entre táticas revolucionárias e parlamentares era necessária. De fato, direitos políticos podiam ser conquistados por aqueles que não os tinham somente através de atividades extra-parlamentares. César de Paepe, o fundador do" Parti Socialiste Brabançon", escreveu em 1877 que "ao usar nosso direito constitucional e meios legais à nossa disposição não renunciamos ao direito à revolução".7 Essa afirmação era freqüentemente ecoada, notadamente por Engels em 1895. Alex Danielsson, da ala esquerda do Partido Socialista Sueco, dizia, numa disposição mais pragmática, que os social-democratas não deviam prender-se a "um dogma com respeito a táticas que obrigam o partido a agir do mesmo modo sob quaisquer circunstâncias" (Tingston, 1973: 362). Que uma greve de massa fosse o meio para alcançar o sufrágio (tratava-se de sufrágio masculino) universal não era questionado, e ambos os partidos belga e sueco realizaram bem sucedidas greves gerais que resultaram em extensões do sufrágio.

No entanto, assim que o sufrágio universal foi obtido, a escolha entre as táticas "legais" e "extraparlamentares" teve que ser feita. J. McGurk, o presidente do Partido Trabalhista, colocou isso de forma contundente em 1919: "Ou somos constitucionalistas ou não somos constitucionalistas. Se somos constitucionalistas, se acreditamos na eficácia da arma política (e acreditamos, ou por que temos um Partido Trabalhista?), então é imprudente e antidemocrático porque não conseguimos obter uma maioria nas urnas para nos virar e exigir que devêssemos substituir a ação industrial."9 O ponto de virada nas táticas de vários partidos ocorreu após os fracassos das greves gerais organizadas em torno de questões econômicas. Embora as greves orientadas para o sufrágio tenham sido geralmente bem-sucedidas, o uso de greves em massa para objetivos econômicos resultou em desastres políticos na Bélgica em 1902,10 na Suécia em 1909,11 na França em 1920,12 na Noruega em 1921,13 e na Grã-Bretanha em 1926.14 Todas essas greves foram derrotadas; no rescaldo, a filiação sindical foi dizimada e uma legislação repressiva foi aprovada. Essas experiências comuns de derrota e repressão direcionaram os partidos socialistas para uma dependência quase exclusiva de táticas eleitorais. A participação eleitoral era necessária para proteger o movimento da repressão: esta foi a lição tirada pelos líderes socialistas. Como Kautsky já escreveu em 1891, "A luta econômica exige direitos políticos e estes não cairão do céu".15

Para ganhar votos de outras pessoas que não os trabalhadores, em particular a pequena burguesia, formar alianças e coalizões, administrar o governo no interesse dos trabalhadores, um partido não pode dar a impressão de ser "irresponsável", dar qualquer indício de não ser totalmente sincero em sua submissão às regras e aos limites do jogo parlamentar. Às vezes o partido deve mesmo refrear os seus filiados contra ações que colocariam em risco o progresso eleitoral. Além do mais, um partido voltado para conquistas parciais, um partido em que seus líderes-representantes mantêm um estilo de vida pequeno-burguês, um partido que por anos tem se esquivado das ruas não pode "fluir através do buraco das trincheiras", conforme a colocação de Gramsci, mesmo quando esse buraco é forjado por uma crise. "A dificuldade da esquerda revolucionária nas sociedades industriais estáveis", observou Eric Hobsbawn, "não é que sua oportunidade nunca chegou, mas que as condições normais em que precisa agir impedem-na de desenvolver os movimentos a fim de aproveitar os raros momentos em que é conclamada a comportar-se como revolucionária... Ser um revolucionário em países como os nossos é simplesmente difícil".16
Esse compromisso tornou, no entanto, ainda mais crucial a questão de saber se, como Harold Laski colocou, a democracia capitalista irá ‘permitir que seu eleitorado tropece no socialismo pelo acidente do veredito nas urnas’.20 A reserva mais importante em relação a um compromisso exclusivo com o eleitoralismo decorreu da natureza tênue da legalidade burguesa. Pouco se ganha interpretando e reinterpretando cada palavra que Marx escreveu sobre a democracia burguesa pela simples razão de que o próprio Marx e as pessoas que lideraram os partidos recém-fundados nas batalhas eleitorais não tinham muita certeza do que esperar da competição eleitoral. A questão principal — uma que a história nunca resolveu porque não pode ser resolvida de uma vez por todas — era se a burguesia respeitaria sua própria ordem legal em caso de um triunfo eleitoral do socialismo. Se os socialistas usassem a instituição do sufrágio — estabelecida pela burguesia em sua luta contra o absolutismo — para vencer eleições e legislar uma sociedade em direção ao socialismo, a burguesia recorreria a meios ilegais para defender seus interesses? Foi o que aconteceu na França em 1851, e parecia provável que aconteceria novamente. Mas em várias ocasiões Marx entreteve a possibilidade de que na Inglaterra ou na Holanda a contrarrevolução não ocorreria se os trabalhadores ganhassem a maioria no parlamento. Assim, a questão essencial enfrentada pelos partidos socialistas era se, como Hjalmar Branting colocou em 1886, ‘a classe alta [respeitaria] a vontade popular mesmo quando ela exigisse a abolição de seus próprios privilégios’.21 Sterky, o líder da ala esquerda do partido sueco, estava entre aqueles que tinham uma visão claramente negativa: ‘Suponha que... a classe trabalhadora pudesse enviar uma maioria para a legislatura; nem mesmo fazendo isso obteria poder. Pode-se ter certeza de que a classe capitalista tomaria cuidado para não continuar seguindo um caminho parlamentar, mas recorreria às baionetas.’22 Essa foi eventualmente a posição defendida por Luxemburgo em 1900. 23 Ninguém poderia ter certeza absoluta: de acordo com Salvadori, Kautsky vacilava cada vez que abordava essa questão. 24 Os socialistas austríacos prometeram em seu programa de Linz de 1926 ‘governar em estrita conformidade com as regras do estado democrático’, mas ainda se sentiam compelidos a alertar que ‘se a burguesia, boicotando as forças revolucionárias, tentasse obstruir a mudança social que o movimento trabalhista, ao assumir o poder, prometeu realizar, então a social-democracia seria forçada a empregar meios ditatoriais para quebrar tal resistência.’25 A principal dúvida sobre a participação eleitoral era se a revolução não seria necessária em qualquer caso, como August Bebel colocou em 1905, como ‘uma medida puramente defensiva, projetada para salvaguardar o exercício do poder legitimamente adquirido por meio do voto.’26 Ditadura do proletariado, e a violência revolucionária, pode ser necessária mesmo que o partido cumpra rigorosamente seu compromisso eleitoral. O dualismo tático não pode ser facilmente abandonado.27

Portanto, os social-democratas enfrentaram um dilema, dramatizado por Gay em sua biografia de Bernstein. "O socialismo democrático, então é impossível? Ou pode ser alcançado apenas se o partido está pronto a abandonar o método democrático temporariamente para tomar o poder pela violência, na esperança de um retorno ao parlamentarismo tão logo o controle esteja assegurado? Certamente, a segunda alternativa contém possibilidades trágicas: um movimento democrático que se vale de métodos autoritários para conseguir seu objetivo pode não permanecer um movimento democrático por muito tempo. Ainda, a primeira alternativa - agarrar-se a procedimentos democráticos sob todas as circunstâncias - pode condenar o partido a uma contínua impotência política."28

A marcha para a frente da Social Democracia

A despeito de toda ambiguidade, a despeito da pressão de preocupações de curto prazo, os socialistas entraram na política burguesa para ganhar eleições, pára obter um mandato incontestável tendo em vista as transformações revolucionárias, e para legislar a sociedade dentro do socialismo. Este era o objetivo e esta era a esperança que tinham.

A participação eleitoral era baseada na crença de que a democracia não é apenas necessária mas é suficiente para alcançar o socialismo. "Se uma coisa é certa", Engels escreveu em uma carta em 1891 que deveria contar com a imediata desaprovação de Lenin, "é que nosso Partido e a classe trabalhadora somente podem chegar ao poder sob a forma de uma república democrática. Esta é mesmo a forma específica da ditadura do proletariado" (1935: 486). Jaurés viu na democracia "o mais amplo e o mais sólido terreno sobre o qual a classe trabalhadora pode erguer-se... o leito de pedra que a burguesia reacionária não pode dissolver sem abrir fissuras na terra e ser tragada por elas" (Derfler, 1973:59). Millerand foi, como sempre, mais incisivo: "Para realizar reformas imediatas capazes de suavizar a sorte da classe trabalhadora, e assim prepará-la para ganhar a sua própria liberdade, e para começar, conforme está condicionado pela natureza das coisas, a socialização dos meios de produção, e necessário e suficiente para o partido socialista esforçar-se para conquistar o governo através do sufrágio universal" (Ensor, 1908: 54).

Os socialistas participaram das eleições porque tinham que se preocupar com melhorias imediatas das condições dos trabalhadores. Contudo, entraram para fazer do socialismo uma realidade. Essa divergência entre causa e propósito é um sintoma de racionalização? Era o "pathos" dos objetivos finais apenas uma forma de autodecepção?

Tais questões devem ser deixadas para os psicólogos resolverem. Mas uma coisa é certa: aqueles que conduziram os partidos socialistas para as batalhas eleitorais acreditavam que as classes dominantes podiam ser "batidas em seu próprio terreno". Os socialistas estavam firmemente persuadidos que ganhariam as eleições, que obteriam para o socialismo o apoio de uma incontestável maioria numérica. Colocaram todas as suas esperanças e seus esforços na competição eleitoral porque estavam certos de que a vitória eleitoral estava próxima. Sua força estava nos números, e as eleições são uma expressão de força numérica. Daí que o sufrágio universal parecia garantir a vitória socialista, se não imediatamente, no futuro próximo. A revolução seria feita nas urnas. Entre as várias expressões dessa convicção está a impressionante apologia feita por Engels em 1895: "Os trabalhadores alemães... mostraram aos camaradas em todos os países como fazer uso do sufrágio universal... Com a bem sucedida utilização do sufrágio universal... um método inteiramente novo de luta proletária foi efetivado, e esse método desenvolveu-se ainda mais rapidamente. Constatou-se que as instituições de estado, em que o regime burguês está organizado, oferecem à classe trabalhadora oportunidades ainda mais amplas para combater essas mesmas instituições de estado". E Engels formulou uma previsão: "Se o progresso eleitoral continuar desta maneira, pelo fim do século cresceremos...como o poder decisivo na terra, ante o qual todos os outros poderes inclinar-se-ão, gostem ou não gostem" (1960: 22).

As bases desta convicção eram a um só tempo teóricas e práticas. Já no "Manifesto Comunista", Marx e Engels descreveram o socialismo como o movimento "da imensa maioria" (1967: 147). Em um artigo de 1850, "The Chartist", no "Daily Tribune", de Nova York, e novamente em 1867 no jornal polonês de emigrantes "Glos Wolny", Marx repetiu que "o sufrágio universal é equivalente ao poder político para a classe trabalhadora da Inglaterra, onde o proletariado forma a grande maioria da população..."." A Luta de Classe" de Kautsky, provavelmente a mais influente exposição teórica da primeira fase do movimento socialista, sustentava que o proletariado já constituía a maior classe "em todos os países civilizados" (1971:43). E mesmo se as primeiras batalhas eleitorais não terminassem em triunfo, mesmo se o proletariado não fosse ainda a maioria, a vitória eleitoral era apenas uma questão de tempo, já que o capitalismo estava inchando as fileiras do proletariado. O desenvolvimento da produção fabril e seu corolário, a concentração de capital e terras, iriam reduzir rapidamente à condição de proletários os artífices, artesãos, mercadores e pequenos proprietários agrícolas. Mesmo "o médico, o advogado, o padre, o poeta, o homem de ciência" também seriam reduzidos a proletários, segundo o "Manifesto Comunista". Este aumento do número de pessoas que vendem sua força de trabalho por um salário não era acidental , temporário ou reversível. Era visto como um traço necessário do desenvolvimento capitalista. Daí que seria apenas uma questão de tempo antes que quase todos, "exceto um punhado de exploradores", tornassem-se proletários. O socialismo responderia ao interesse de quase todos, e a arrasadora maioria das pessoas expressaria eleitoralmente seu desejo pelo socialismo. Um jovem teórico sueco formulou o seguinte silogismo em 1919: "A luta pelo estado é política. Seu desfecho - em grande medida contingencial - é, portanto, a possibilidade aberta aos membros da sociedade, tornados proletários devido ao processo capitalista, de exercer suas próprias influências ao nível da decisão política. Se a democracia é alcançada, o crescimento do capitalismo significa uma correspondente mobilização de vozes contra o próprio sistema capitalista. A democracia, portanto, possui um controle automático que aumenta a oposição ao capitalismo em proporção ao desenvolvimento do capitalismo." (Tingsten, 1973: 402).

De fato, enquanto aqueles que eventualmente tornaram-se comunistas viam na Revolução Russa a prova que uma bem sucedida revolução é sempre possível para os social-democratas a necessidade de confiar na revolução de uma minoria significa apenas que as condições para o socialismo ainda não estavam maduras (Kautsky, 1919). Enquanto Brantign, por exemplo, concordava com à primeira reação de Gramsci à Revolução de Outubro (ver Fiori, 1973: 112), quando sustentava que "toda a idéia desenvolvimentista do socialismo está anulada no Bolchevismo" , ele chegou precisamente à conclusão que os socialistas deveriam esperar até que as condições estivessem maduras a ponto de uma esmagadora maioria de pessoas expressarem eleitoralmente suas preferências pelas transformações socialistas (Tingsten, 1973: 405). Uma vez que estavam totalmente persuadidos que tais condições seriam trazidas pelo desenvolvimento do capitalismo, os social-democratas não se desapontavam com desastres eleitorais, que, segundo viam, somente significavam que o momento ainda não havia chegado. Mesmo quando tinham que renunciar ao controle sobre o governo, os social-democratas não se deixavam tentar pela possibilidade de mudar o curso da história. A história fala através das pessoas,as pessoas através das eleições, e ninguém duvidava que a história faria as pessoas expressarem seu desejo pelo socialismo.

Estas expectativas, baseadas na convicção sobre o curso futuro da historia, foram quase imediatamente asseguradas pelo progresso eleitoral dos partidos socialistas. O partido alemão - citado por Engels como modelo a ser seguido-, a despeito dos anos de depressão, cresceu de 125.000 votos em 1871 para 312.000 em 1881, para 1.427.000 em 1890, para 4.250.000 na véspera da Primeira Guerra Mundial. De fato, tão logo as leis anti-socialistas foram proscritas, o SPD tornou-se em 1890 o maior partido da Alemanha, com 19,7% dos votos. Em 1912 sua parcela de 34,8% era mais que o dobro daquela do segundo maior partido.; Não é de admirar que Bebei, em 1905 pode tornar "explícita a convicção mantida de modo geral por seus companheiros socialistas que a classe trabalhadora continuaria a crescer e que o partido iria um dia congregar a maioria da população..." (Schorske, 1955: 43). Vários partidos ingressaram ainda mais espetacularmente na disputa dos votos. Em 1907, os social-democratas finlandeses ganharam a maioria, 37%, na primeira eleição sob sufrágio universal. Os social-democratas austríacos ganharam 21 % depois que o direito a voto tornou-se universal em 1907, 25,4% em 1911, e a maioria de 40,8% em 1919.0 "Parti Ouvrier" belga ganhou 13,2% quando o "régime censitaire" foi abolido em 1894 e continuou a crescer em saltos para ganhar em 1925 a maioria de 39,4%, um sucesso que "estimulou a todos que a contínua industrialização produziria um crescente eleitorado operário socialista." (Mabille e Lorwin, 1977: 392). Mesmo naqueles países onde os primeiros passos não foram igualmente dramáticos, o progresso eleitoral parecia inexorável. Nos Países Baixos, religiosamente politizados, o socialismo marchou em grandes passos, de 3% em 1896 para 9,5%, 11,2%, 13,9% e 18,5%em 1913. O partido dinamarquês obteve 4,9% em 1884, a primeira eleição que disputou e somente 3,5% em 1889; deste momento em diante, o partido nunca deixou de aumentar seus votos até 1935, quando ganhou 46,1%. Outra vez; "houve uma expectativa geral que, como o único partido representando o movimento trabalhista, iria chegar ao poder através de uma absoluta maioria do eleitorado." (Thomas, 1977: 240). O partido sueco iniciou humildemente lançando candidatos em chapas conjuntas com os liberais: ganhou 3,5% em 1902,9,5% em 1905, 14,6% em 1908, saltou para 28,5% em 1911, depois da extensão do sufrágio, aumentou sua parcela para 30,1% e 36,4% nas duas eleições sucessivas de 1914, e juntamente com sua ala esquerda ganhou a maioria dos votos, 39,1%, em 1917. O Partido Trabalhista Norueguês cresceu cerca de 5% em cada eleição desde 1897, quando obteve 0,6%, até 1915, e aí sua participação alcançou 32,1%.

A prática confirmava a teoria. De eleição em eleição as forças do socialismo cresciam em vigor. Cada rodada era um novo sucesso De uns poucos milhares, quando muito, durante os primeiros momentos difíceis, os socialistas viram seu eleitorado aumentar para milhões. O progresso parecia inexorável; a maioria e o mandato para o socialismo implícito eram apenas uma questão de uns poucos anos, um par de eleições. Apenas um esforço a mais e a humanidade cruzaria o umbral de uma nova era, pela expressão esmagadora da vontade popular. "Estou convencido", Bebei declarou durante o Congresso Erfut, "que a realização de nossos objetivos acha-se tão próxima que há poucos nesse recinto que não estarão vivos nesse dia." (Derfler, 1973: 58).

Social-democracia e classe trabalhadora

O partido socialista deveria ser a classe trabalhadora organizada. Como Bergounioux e Manin (1979:27) observaram, "autonomia dos trabalhadores" fora do processo político ou em emancipação política que não seria especificamente de trabalhadores, essas eram as duas tendências no momento em que Marx e Engels contribuíram para a fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores. A influência decisiva de Marx foi uma síntese dessas duas posições: socialismo como um movimento da classe trabalhadora no processo político. A orientação que Marx advogava era nova: organizar um "partido" mas de tal maneira que fosse distintamente um partido de trabalhadores, independente e oposto a todas as outras classes. A organização de trabalhadores "como uma classe, e conseqüentemente como um partido político" (Marx e Engels, 1967:144) era necessária para os trabalhadores conquistarem o poder político e, na visão de Marx, não deveria afetar e não afetaria a autonomia da classe trabalhadora como uma força política. "A emancipação da classe trabalhadora deve ser", conforme a célebre frase, "tarefa da própria classe trabalhadora"

Sabemos porque Marx esperava que os trabalhadores chegassem a ser a força motriz do socialismo: em virtude de sua posição dentro da sociedade capitalista, os trabalhadores eram simultaneamente a classe que era explorada da maneira especificamente capitalista e a única que tinha a capacidade para organizar a produção por conta própria, uma vez que fossem abolidas as relações capitalistas (Mandel, 1971: 23). Contudo essa ênfase na "relação orgânica" entre o socialismo e a classe trabalhadora - relação entendida como uma identificação entre a missão histórica e o agente histórico - não explica por ela mesma por que os socialistas pretenderam durante o período inicial organizar somente trabalhadores e todos os trabalhadores. As razões para essa relação privilegiada entre partidos socialistas e a classe trabalhadora eram mais imediatas e mais práticas que aquelas que podiam ser encontradas na teoria da história de Marx.

Primeiro, o capitalismo é um sistema em que os trabalhadores competem uns com os outros, a menos que sejam organizados como uma classe. Igualdade de posição de classe não resulta necessariamente em solidariedade, uma vez que os interesses que os trabalhadores compartilham são precisamente aqueles que os colocam em competição uns com os outros, primeiramente quando rebaixam salários na procura de emprego. Interesse de classe é algo atribuído aos trabalhadores como uma coletividade e não como uma coleção de indivíduos, seus interesses de "grupo" muito mais que "de série" (Sartre, 1960). Um aumento geral de salários é do interesse de todos os trabalhadores, mas não afeta as relações entre eles. Por outro lado, uma lei estabelecendo um piso mínimo de salários, estendendo a educação compulsória, melhorando a idade de aposentadoria, ou limitando as horas de trabalho, afeta as relações entre os trabalhadores sem ser necessariamente do interesse de cada um deles. De fato, alguns trabalhadores preferiam trabalhar além de sua idade normal de aposentadoria, mesmo que estivessem excluindo outros trabalhadores do emprego; algumas pessoas que não conseguiam trabalho estavam prontas a aceitarem emprego por menos que o salário mínimo mesmo que isso rebaixasse o nível geral dos salários; alguns estavam prontos a preencher vagas de trabalhadores em greve, mesmo se a greve, com isso, fracassasse.



Interesse de classe não corresponde necessariamente ao interesse de cada trabalhador como indivíduo. Trabalhadores individuais, assim como aqueles de um setor ou firma específica têm um incentivo poderoso para assegurar o interesse particularístico de cada um em detrimento de outros trabalhadores, a menos que alguma organização - um sindicato, um partido, ou um estado diretamente - tenha os meios para obrigar a disciplina coletiva. Daí que, com o objetivo de superar a competição, os trabalhadores devem se organizar e agir como uma força coletiva. Conforme Marx disse, "a combinação sempre tem dois objetivos, aquele de parar a competição entre os trabalhadores para que possam levar adiante a competição com o capitalista" (n.d.: 194). Os partidos socialistas deveriam ser as organizações que limitariam a competição dentro da classe uma vez que se confrontavam cornos inimigos da classe. A mobilização de toda a classe era essencial precisamente para impedir grupos particulares de trabalhadores de corroerem a solidariedade de classe pela competição entre seus próprios membros organizados.



Segundo, a ênfase nos interesses distintos da classe trabalhadora era necessária para impedir a integração dos trabalhadores como indivíduos na sociedade burguesa. Sob o capitalismo, os capitalistas naturalmente surgem como condutores dos interesses universais futuros enquanto os interesses de todos os outros grupos surgem como hostil ao desenvolvimento futuro e, portanto, particularistico. Na medida em que as pessoas que vivem na mesma sociedade são passíveis de ter alguns interesses econômicos "gerais", "comuns" ou "públicos", o universalismo é a ideologia natural da burguesia que como classe se põe a representar estes interesses.



A nova sociedade que se institucionalizou na Europa Ocidental na esteira da revolução industrial foi a encarnação desse universalismo. Pela primeira vez na história a classe econômica dominante identificou-se com o futuro de toda a sociedade: esta foi a revolução que a burguesia introduziu no reino da ideologia (Gramsci, 1971:260). As normas legais burguesas estabeleceram o status universal de "indivíduos" que estavam em igualdade em suas relações com as coisas - independente de serem estes meios de produção ou de consumo - e estavam em igualdade em suas relações uns com os outros - novamente não importando se surgiam contratualmente como vendedores ou compradores de força de trabalho (Balibar, 1970). Ao mesmo tempo, a ideologia burguesa postulava uma básica harmonia de interesses entre os indivíduos-cidadãos.



As instituições políticas burguesas expressam esta visão da sociedade. O parlamento seria o fórum de deliberação racional em busca do bem geral. Enquanto o processo econômico era visto como o reino da paixão originada pelo estreito egoísmo, o processo político seria o reino autonomo da razão. Os partidos, assim como outras divisões baseadas em agrupamentos de interesses, eram considerados como perversos e perigosos. O processo político deveria permanecer acima das divisões econômicas da sociedade.



Se o movimento pelo socialismo não era para ser absorvido por esta ideologia e estas instituições, tornava-se necessário transformar a própria visão do processo político. Contra o abstrato racionalismo do "puro processo político" os socialistas justapunham uma imagem representando o conflito de interesses numa sociedade dividida em classes. No lugar do ideal de indivíduos racionais em busca do bem comum, os socialistas mostravam a "realidade" de homens que eram os condutores de seus interesses de classe. O próprio conceito de sociedade baseada na harmonia de interesses foi duramente negada pela ideologia do conflito de classe.



Os socialistas sustentavam que a burguesia tem não apenas interesses particularísticos mas também que estes estão em conflito com os interesses dos trabalhadores. Os trabalhadores não são "indivíduos" da sociedade burguesa: são uma classe distinta numa sociedade dividida em classes. Se os seus interesses surgem como particularísticos dentro da sociedade capitalista, é porque essa sociedade ergue-se sobre o conflito de interesses particularísticos de classes diferentes. Somente separando-se de outras classes podiam os trabalhadores assegurar seus direitos e conseqüentemente cumprir a missão histórica de emancipar a sociedade. Em seu "Discurso para a Liga Comunista" em 1850 (Marx e Engels, 1966,I: 117), Marx enfatizou que os trabalhadores "devem, eles próprios, fazer o máximo para a vitória final procurando uma definição clara para os seus interesses de classe, tomando uma posição como um partido independente o mais breve possível e não se deixando seduzir nem por um momento pelas frases hipócritas da mesquinha pequena burguesia democrática, de renunciar à organização independente do partido do proletariado". Rosemberg (1965: 161) assinala a tendência do socialismo alemão na década de 1860 a "isolar-se a si próprio e a enfatizar estas qualidades que o diferenciavam de todos os grupos e tendências das classes bem aquinhoadas." Nessa fase,o movimento proletário radical tendia particularmente a considerar a nobreza cós camponeses, os artesãos e os intelectuais como "uma só massa reacionária". O mesmo poderia ser dito dos primeiros candidatos trabalhistas que competiram na eleição de Paris de 1863 (Ibid.: 165). A noção de "uma Só massa reacionária" está subjacente no "Programa de Gotha" de 1875 e reapareceu no programa sueco de 1889 (Tirigsten, 1973: 357). Já em 1891, quando pediram a Engels um comentário sobre uma tiragem do Programa Erfurt, ele fez uma objeção à expressão "o povo em geral" perguntando "quem é'esse?"(n.d.: 56). E com sua típica eloqüência, Jules Guesde argumentava em Lirlle em 1890: "A Revolução a que vocês estão obrigados é possível apenas na medida em que vocês permanecerem autênticos, classe contra classe, não sabendo e não querendo saber sobre as divisões que possam existir no mundo capitalista" (Fiechtier, 1965: 258).



De fato, a dificuldade inicial que os socialistas enfrentaram reduzia-se a que os trabalhadores mostravam-se desconfiados de quaisquer influências oriundas fora de sua classe. O socialismo surgia para eles como uma ideologia abstraia e estranha em relação à experiência diária. Não estava claro para os trabalhadores que uma mudança para melhor de suas condições requeria que o próprio sistema de trabalho assalariado devia ser abolido. Bergounioux e Manin assinalam que de acordo com um estudo junto a trabalhadores franceses no começo da Terceira República, havia uma resistência entre os trabalhadores contra a mensagem socialista, uma ênfase ao conflito direto entre trabalhadores e patrões, e um desprezo ao processo político (1979: 25). Na Bélgica, um partido sob um rótulo socialista,"Parti Socialiste Belge", foi fundado em 1879 mas tinha dificuldades para persuadir as associações de trabalhadores de se filiarem. De acordo com Landauer (1959,1: 457-8) os trabalhadores mostravam-se arredios à propaganda socialista, e de Paepe dizia que "a palavra socialista assusta muitos trabalhadores". Assim, em 1885 apareceu o "Parti Ouvrier Belge": partido dos trabalhadores no lugar de socialista. Na Inglaterra, sindicalistas fizeram protestos e até o ano de 1918 conseguiram impedir a admissão no Partido Trabalhista de membros de outras classes em bases individuais. O partido dos socialistas, portanto, caso desejasse o sucesso, teria que ser um partido de trabalhadores. Na Suécia, as primeiras células locais do Partido Social Democrata foram de fato chamadas "Arbetarekommuner", Comunidade de Trabalhadores (Fusilier, 1954:29). Os socialistas estavam dispostos a enfatizar o caráter de classe do movimento e dispostos também a fazer concessões doutrinárias para implantar o socialismo entre os trabalhadores.

O dilema eleitoral

A maioria que os socialistas esperavam conseguir nas eleições deveria ser formada de trabalhadores. O proletariado - agindo a partir de seus interesses e consciente de sua missão - deveria ser a força social a impelir a sociedade para o socialismo. Mas esse proletariado não era e nunca tornou-se a maioria numérica dos eleitores de qualquer sociedade. A previsão, segundo a qual os membros desalojados das antigas classes médias iriam tornar-se proletários ou alistarem-se no exército dos desempregados, nunca confirmou-se.



As antigas classes médias, particularmente os proprietários agrícolas independentes, quase desapareceram como um grupo na maior parte dos países da Europa Ocidental, mas seus filhos e filhas tendiam mais facilmente a encontrar emprego em escritórios e lojas do que em fábricas. Além disso, enquanto a proporção da população adulta exercendo qualquer atividade fora do lar diminuiu drasticamente no decorrer do desenvolvimento capitalista, os que estavam excluídos de atividades remuneradas não se tornaram um proletariado de reserva. Educação compulsória extensiva, aposentadoria compulsória, grandes exércitos permanentes e impedimentos efetivos à participação econômica de mulheres - tudo levou à redução da entrada no proletariado. Como resultado, de 1890 a 1980 o proletariado continuou a ser a minoria do eleitorado. Na Bélgica, o primeiro país europeu a construir uma indústria substancial, a proporção de trabalhadores chegou a romper o mágico número da maioria quando alcançou 50,1% em 1912. Desde então, tem declinado sistematicamente, baixando para 19,1 % em 1971. Na Dinamarca, a proporção de trabalhadores no eleitorado nunca excedeu 29%. Na Finlândia, nunca foi além de 24%. Na França, essa proporção declinou de 39,4% em 1893, para 24,8% em 1968. Na Alemanha, os trabalhadores tiveram um aumento na proporção do eleitorado de 25,5% em 1871 para 36,9% em 1903 e desde então constituem cerca de um terço do eleitorado. Na Noruega, os trabalhadores constituíam 33% do eleitorado em 1894 e sua proporção alcançou o cume em 1900 com 34,1%. Na Suécia, a proporção de trabalhadores no eleitorado cresceu de 28,9% em 1908 para 40,4% em 1952; então declinou para 38,5% em



As regras do jogo democrático, enquanto universais e, às vezes, justas, não mostram compaixão. Para um partido governar sozinho, sem o óbice da influência moderadora de alianças e os débitos de concessões, deve obter alguma específica proporção de voto, não muito diferente de 50%. As instituições eleitorais precederam o nascimento dos partidos que procuram usá-las como veículos para chegar ao socialismo, e tais instituições abrigam a regra fundamental que torna impossível a vitória de uma minoria isolada. Um partido representando uma classe que tem um menor número de filiados que as outras classes combinadas não pode ganhar batalhas eleitorais.



A combinação do status de minoria com a regra da maioria constitui a condição histórica sob a qual os socialistas devem agir. Essa condição concreta impõe sobre os partidos socialistas uma escolha: os socialistas devem escolher entre um partido homogêneo em sua expressão classista mas condenado a perpétuas derrotas eleitorais e um partido que luta pelo sucesso eleitoral à custa da diluição de seu caráter de classe. Esta escolha não é entre revolução e reforma. Não há, a priori, nenhuma razão e nenhuma evidência histórica para supor que um partido eleitoralmente homogêneo em sua base classista seria muito mais revolucionário que um partido heterogêneo em sua base classista. De fato, partidos eleitoralmente homogêneos de trabalhadores, dos quais o SPD durante o período Weimar é provavelmente o primeiro exemplo (Hunt, 1970), podem ser totalmente comprometidos com a defesa de interesses particularísticos de trabalhadores dentro dos limites da sociedade capitalista. Tais partidos de classe podem facilmente tornar-se meros grupos eleitorais de interesse, pressionando por uma participação maior no produto nacional sem qualquer preocupação pela maneira como é produzido. Um partido homogêneo de trabalhadores que constituísse a maioria do eleitorado teria talvez mantido o seu compromisso básico sem uma concessão, conforme os socialistas disseram que fariam quando viam á classe trabalhadora como maioria. Mas continuar como um partido minoritário dedicado exclusivamente a objetivos básicos em um jogo em que â maioria é necessária - ou mais, um mandato incontestável - à realização desses objetivos, seria absurdo. Para ganhar influência eleitoral a fim de alcançar quaisquer objetivos, desde o básico ao mais imediato, os partidos da classe trabalhadora deveriam procurar apoio de membros de outras classes.



Dado o status de minoria dos trabalhadores dentro da estrutura de classe das sociedades capitalistas, a decisão de participar em eleições altera a própria lógica do problema da transformação revolucionária. O sistema democrático pregou uma peça perversa nas intenções socialistas: a emancipação da classe trabalhadora não podia ser uma tarefa dos próprios trabalhadores se essa emancipação fosse para ser realizada através de eleições. Restava saber se a maioria para o socialismo poderia ser conquistada com a busca de apoio eleitoral fora da classe trabalhadora.



Há uma tendência peculiar entre os observadores contemporâneos em ver na estratégia de recorrer a uma base classista heterogênea um efeito relativamente recente da "desradicalização" do movimento socialista. O "Mittleklass Strategie" alemão é visto como o protótipo desta nova orientação, e Kurt Schumacher, como o seu arquiteto (Paterson, 1977). Nesta interpretação, os partidos socialistas começam a aceitar apoio de outros grupos que não de trabalhadores somente depois que abandonam seus objetivos socialistas.



Esta visão é simplesmente errada. Os partidos socialistas buscaram apoio fora da classe trabalhadora tão logo a possibilidade de vitória eleitoral tornou-se uma realidade e desde então continuaram em zigue-zague entre uma busca por aliados e a ênfase na classe trabalhadora. A triunfante previsão feita por Engels em 1895 afirmando que os socialistas iriam tornar-se a força perante a qual "todos os poderes irão inclinar-se" condicionava-se ao sucesso do partido "cm conquistar a camada média da sociedade, baixa burguesia e pequenos camponeses". O seu conselho ao partido francês - conselho que os franceses não necessitavam, uma vez que já o colocavam em prática (Landauer, 1961) - era o mesmo: conquiste os pequenos camponeses. O Programa de Erfurt de 1891 deu o tom em que apelos para "as classes medias" eram expressos: seus interesses "eram paralelos" aos do proletariado; elas eram os "aliados naturais" do proletariado (Kautsky, 1971). Os Guesdistas na França começaram a aprovar alianças tão logo Guesde foi eleito para o Parlamento em 1893 (Derfler, 1973: 48). Na Bélgica, o primeiro programa adotado em 1894 pelo "Parti Ouvrier" fazia apelos à baixa classe média à intellingentsia (Landaur, 1959,I: 468). Na Suécia, unia estratégia de base classista múltipla foi debatida já no ano de 1889 e o partido continuou seguindo o rumo de uma orientação de classe heterogênea até a sua plena aceitação em 1920 (Tingsten, 1973), O Partido Trabalhista Inglês chegou a derrotar em 1912 a proposta permitindo a inscrição, em base individual, de "gerentes, diretores, (e) pessoas envolvidas em ocupações comerciais por sua própria conta" (McKibbin, 1974: 95). Mas em 1918, quando tomou um rumo programático para a esquerda, o Partido Trabalhista abriu suas fileiras aos "trabalhadores intelectuais", De fato, em sua polêmica com Beer (1969), McKibbin interpreta a própria ênfase sobre o socialismo no programa de 1918 como uma tentativa de aliciar "as classes médias profissionais" (1974:97). Os revisionistas de toda a parte asseveravam que os trabalhadores não eram a maioria e que o partido devia procurar apoio fora da classe trabalhadora. Bernstein, Jaurés e MacDonald chegaram à mesma conclusão independentemente: uma vez que um partido obrigou-se a uma competição eleitoral, eles tinham que abraçar esta conclusão. À altura de 1915, Michels já pode caracterizar a estratégia social-democrata da seguinte maneira:



"Por razões predominantemente eleitorais, o partido dos trabalhadores procura apoio dos elementos pequeno-burgueses da sociedade e isso provoca reações mais ou menos amplas dentro do próprio partido. O Partido Trabalhista converte-se em partido de todo o povo. Seus apelos se dirigem não só aos trabalhadores braçais, mas a todos os produtores, a toda população trabalhadora, a todas as classes, a todos os estratos da sociedade, com execção dos que não trabalham, que vivem de rendas de investimentos" (1962: 254).



A inclinação de diversos partidos social-democratas, no pós-guerra, na direção das camadas médias, não foi resultante de uma nova postura estratégica, mas um reflexo sobre a mudança da estrutura de classes na Europa Ocidental. A proporção da população engajada na agricultura declinou bastante durante o século XX, mais rapidamente nos anos 50 do que nas décadas precedentes. As "novas classes médias" quase que passaram a suplantar as "velhas", numericamente. As estratégias partidárias refletiam, embora com algum atraso, essa evolução numérica na estrutura de classes. O que é relativamente novo, no entanto, é apenas a indicação explícita de que os empregados assalariados em geral se constituem na principal base potencial de apoio ao socialismo. Foi Bernstein, e não Schumacher ou Brandt, quem introduziu a noção do " volkspartei". A busca de aliados é inerente ao eleitoralismo.

Dissolução do apelo de classe

Uma vez decididos a competir por votos de "aliados naturais", fossem eles das camadas médias velhas ou novas, os socialistas apelavam para a esmagadora maioria da população. A estimativa de Branting em 1889, de que o "povo" constituía 95% da sociedade sueca, estava, é provável, ligeiramente exagerada, dada a sua definição de "povo" (Tingsten, 1973:135). Buscando uma distribuição eqüitativa do peso da dívida da 1º Guerra Mundial, "Trabalho e Nova. Ordem Social", um documento programático do partido, asseverava que "desta forma, o Partido Trabalhista reivindica o apoio de quatro quintos de toda a nação" (Henderson, 1918: 125). Não há porque duvidar que hoje a classe operária, juntamente com seus aliados, compreenda cerca de 80% da população da França (Partido Comunista Francês, 1971) ou dos Estados Unidos (Wright, 1976). Se somarmos aos trabalhadores na indústria os empregados de colarinho-branco, pequenos-burgueses, donas de casa, aposentados e estudantes, quase ninguém representará os interesses antagônicos ao socialismo. Exploradores continuam a existir, mas em pequeno número: "o homem de negócio com conta de crédito não tributada, o especulador com ganhos de capital não tributados, o diretor de empresa aposentado com uma remuneração extra não tributada", nas palavras do manifesto eleitoral de 1959 do Partido Trabalhista (Craig, 1969: 130).



No entanto, os partidos social-democratas nunca obtiveram os votos de 4/5 do eleitorado em qualquer país. Só em alguns casos conseguiram o apoio da metade dás pessoas que realmente foram às urnas. Estão longe de obter votos de todos aqueles que asseguram representar. Além disso, não podem nem mesmo conseguir os votos de todos os trabalhadores - o proletariado, no sentido clássico da palavra. Em vários países, cerca de 1/3 dos trabalhadores braçais votam nos partidos burgueses. Na Bélgica, cerca de metade dos trabalhadores não votam nos socialistas (Hill, 1974: 83). No Reino Unido, o Partido Trabalhista perdeu 49% dos votos da classe trabalhadora na eleição de 1979. Os social-democratas parecem condenados à minoria quando são um partido de classes e parecem igualmente relegados quando procuram ser um partido de massas, da nação toda. Como um simples partido de trabalhadores, não conseguem o mandato para o socialismo, mas como um partido da nação como um todo, também nunca o conseguiram.



Algumas das razões porque nenhum partido político jamais conseguiu a maioria com um programa de transformação socialista são indubitavelmente externas ao sistema eleitoral. No entanto, os partidos social-democratas enfrentam um dilema puramente eleitoral. As classes expressam o comportamento político dos indivíduos somente quando trabalhadores são organizados politicamente como trabalhadores. Se os partidos políticos não mobilizam pessoas como trabalhadores, mas como "massas", "povo", "consumidores", "pagadores de impostos" ou simplesmente "cidadãos", então os trabalhadores irão se identificar menos ainda como trabalhadores. Estendendo seu apelo às "massas", os social-democratas enfraquecem a proeminência geral da classe como um determinante no comportamento político dos indivíduos.



As estratégias destinadas a alargar o apoio eleitoral tiveram efeito não somente sobre as relações entre trabalhadores e outras classes, mas primeiramente dentro da classe, sobre as relações entre os trabalhadores. De forma a ter êxito na competição eleitoral, os partidos social-democratas devem se apresentar aos diferentes grupos como um instrumento para a realização de seus interesses econômicos imediatos, no sentido de que estes interesses possam ser defendidos quando o partido for vitorioso na eleição futura. Alianças supra-classes devem ser baseadas numa convergência de interesses econômicos imediatos da classe trabalhadora e de outros grupos. Os social-democratas devem oferecer créditos à pequena burguesia, subsídios a empregados assalariados, salários mínimos aos trabalhadores, proteção aos consumidores, educação para os jovens, pensão familiar. Esta convergência não pode ser baseada em medidas que estreitam a coesão e combatividade dos trabalhadores contra outras classes. Quando os social-democratas estendem seu apelo, devem prometer lutar não por objetivos específicos dos trabalhadores como uma coletividade - aqueles que constituem os benefícios públicos para os trabalhadores enquanto classe -, mas apenas por aqueles que os trabalhadores dividem, enquanto indivíduos, com membros de outras classes. Os pontos comuns podem ser encontrados numa mudança de taxação indireta para direta, em leis de proteção ao consumidor, em melhorias no transporte público, etc. Estes são interesses que os trabalhadores, como indivíduos, dividem com outros que recebem baixas rendas, que adquirem produtos consumíveis, que viajam para o trabalho. Não são interesses de trabalhadores como classe, mas dos pobres, dos consumidores, etc.



Isso não significa que o partido não represente mais os trabalhadores quando apela às massas. Embora a convergência nunca seja perfeita e alguns interesses dos trabalhadores sejam freqüentemente comprometidos, o partido continua a representar aqueles interesses que os trabalhadores, como indivíduos, partilham com outras pessoas. Conseqüentemente, os partidos social-democratas, orientados em direção ao "povo", continuam a ser partidos de trabalhadores como indivíduos. O que deixam de ser é organização dos trabalhadores como classe, que disciplina os indivíduos na sua competição entre si colocando-os em luta contra as outras classes. É o próprio princípio do conflito de classe - o conflito entre coletividades inteiramente coesas - que fica comprometido quando partidos de trabalhadores convertem-se em partidos de massas.



A diluição do apelo de classe, no entanto, afeta não somente a organização dos trabalhadores como classe. Repercute agudamente na forma dos conflitos políticos nas sociedades capitalistas, uma vez que restabelece uma visão não classista da política. Quando os partidos social-democratas se convertem em partidos "de toda a nação", reforçam a visão da política como um processo de estabelecimento do bem estar coletivo, de "todos os membros da sociedade". A política, uma vez mais, é definida na dimensão indivíduo-nação, não em termos de classe.



Esta desenfatização do conflito de classe repercute entre os trabalhadores. A medida em que a identificação de classe torna-se menos evidente, os partidos socialistas perdem sua única atração perante os trabalhadores. Os partidos social-democratas não são muito diferentes, qualitativamente, de outros partidos: a lealdade de classe não é mais a principal base de auto-identificação. Os trabalhadores vêem a sociedade como composta por indivíduos; vêem-se a si mesmos como membros de coletividades e não de classes; comportam-se politicamente com base em afinidades religiosas, étnicas, regionais, ou outras. São católicos, sulistas, francófonos, ou simplesmente cidadãos.



Agora está claro que o dilema aparece com uma vingança do próprio sistema de competição eleitoral. A escolha entre pureza de classe e apoio amplo deve ser abandonada continuamente pelos partidos social-democratas porque, quando conseguem ampliar seu apoio eleitoral para além da classe operária, estes partidos reduzem sua capacidade de mobilizar os trabalhadores. Esta escolha não foi feita de uma vez por todas por nenhum partido, nem representa uma evolução unidirecional. De fato, se existe uma negociação eleitoral entre atrair as massas e recrutar trabalhadores, então mudanças estratégicas são imperativas do ponto de vista puramente eleitoral. As histórias de cada partido estão repletas de reviravoltas estratégicas, com drásticas mudanças de direção, controvérsias, cismas e cisões. O SPD, em 1905, voltou a enfatizar as classes sociais; os social-democratas suecos abandonaram temporariamente sua intenção de tornar-se um partido policlassista, primeiro em 1926 e de novo em 1953; o Partido Trabalhista Norueguês reforçou sua orientação classista em 1918; os jovens socialistas alemães lançaram um sério ataque à Mittlekiass Strategic uma década atrás; conflitos entre uma tendência obreirista e uma policlassista hoje atinge vários partidos. Em termos de considerações puramente eleitorais, os social-democratas enfrentam um dilema. São levados a hesitar entre enfatizar as classes ou agradar a nação. Parecem incapazes de acertar o caminho e comportam-se da mesma maneira que o fazem as pessoas racionais quando enfrentam problemas: se lastimam e se arrependem, mudam sua estratégia e de novo se lastímam e se arrependem.



Os social-democratas não tiveram êxito em transformar as eleições em um instrumento de transformação socialista. Para serem eficazes e vencerem as eleições, devem procurar aliados que se unam aos trabalhadores sob a bandeira socialista, ainda que, ao mesmo tempo, desgastem a teoria que está na origem de sua força junto aos trabalhadores. Não podem permanecer exclusivamente como um partido de trabalhadores, e tampouco deixam de ser um partido de trabalhadores.

Reforma e revolução

Os socialistas sempre participaram de eleições com objetivos finais. O Congresso de Haia da lº Internacional proclamava que "a organização do proletariado em partido político é necessária para assegurar a vitória da revolução social e seu objetivo final - a abolição das classes" (Chodak, 1962: 39). O primeiro programa sueco especificava que "a social-democracia difere dos outros partidos pelo fato que aspira a transformar completamente a organização econômica da sociedade burguesa e completar a libertação social da classe operária ..." (Tingsten, 1973: 118-19). Mesmo o mais reformista entre os revisionistas, Millerand, advertia que "quem quer que não admita a necessária e progressiva substituição da propriedade capitalista pela propriedade social, não é um socialista." (Ensor, 1908: 51).



Estas eram as metas que deveriam ser atingidas através da legislação, no mandato de uma maioria eleitoralmente manifestada, como resultado do sufrágio universal. Os socialistas aboliriam a exploração, superariam a divisão da sociedade em classes, removeriam todas as desigualdades econômicas e políticas, acabariam com o desperdício e a anarquia da produção capitalista, erradicariam todas as fontes de injustiça e preconceito. Emancipariam não apenas os trabalhadores, mas toda a humanidade, construiriam uma sociedade baseada na cooperação, orientariam racionalmente energias e recursos para a satisfação das necessidades humanas, criariam condições sociais, para um desenvolvimento ilimitado da personalidade. Razão, justiça e liberdade eram as metas-guias do movimento social-democrata.



Constituíam-se em objetivos finais: não podiam ser concretizadas imediatamente, por razões econômicas e políticas. E os social-democratas insistiam em esperar pelo dia em que estes objetivos pudessem ser finalmente atingidos. Sustentavam representar os interesses dos trabalhadores e outros grupos não apenas quanto ao futuro, mas também quanto ao seu presente cotidiano, capitalista. O Partido Socialista Francês, liderado por Jaurés, proclamava em seu Congresso de Tours, em 1902, que "o Partido Socialista, rejeitando a política do tudo ou nada, possuía um programa de reformas cuja realização persegue permamentemente" e enumerava 54 reivindicações específicas em relação à democratização, secularização e organização da justiça, da família, da educação,dos impostos, dás condições de trabalho, da segurança social, dá nacionalização das indústrias e da política exterior (Ensor, 1908: 345 ff). O primeiro programa dos social-democratas suecos, em 1897, pedia tributação direta, desenvolvimento de atividades produtivas estaduais e municipais, crédito público - incluindo o controle estatal direto do crédito fornecido aos fazendeiros -, legislação referente às condições de trabalho, velhice, doença, seguro contra acidentes, igualdade jurídica, liberdade de organização, de reunião, de manifestação e de imprensa (Tingsten, 1973: 119-20).



Esta orientação, dirigida a melhorias imediatas, nunca foi vista por seus arquitetos como um afastamento de seus objetivos finais. Uma vez que o socialismo era considerado como inevitável, não havia razões para que medidas imediatas não fossem defendidas pêlos partidos socialistas: não havia o perigo, nem mesmo a possibilidade, que tais medidas pudessem evitar o advento do inevitável. Como disse Kautsky, "seria um profundo erro imaginar que tais reformas pudessem atrasar a revolução social (1971:93). Os objetivos finais realizariam-se porque a história estava do lado do socialismo. Os revisionistas dentro do movimento eram, de fato, mais deterministas do que aqueles que defendiam táticas insurreicionalistas. Millerand, por exemplo, argumentava, no discurso de Saint-Mande, que "os homens não organizam e não organizarão o coletivismo; este organiza-se por si próprio, diariamente; vai sendo secretado, se assim podemos dizer, pelo regime capitalista." (Ensor, 1908: 50).



Mesmo quando os movimentos social-democratas deixaram a guarida da história para redescobrir a justificativa do socialismo em valores éticos, nenhum dilema apareceu na consciência dos seus líderes. A famosa renúncia de Bernstein em relação aos objetivos finais não significava que estes não seriam realizados, mas apenas que o caminho para atingi-los era a concentração nos objetivos imediatos. Jaurés, falando sobre a conquista do poder político pelos trabalhadores, dava a clássica imagem: "Não creio, tampouco, que haverá necessariamente um salto abrupto, o cruzamento do abismo; talvez venhamos a perceber que entramos na zona do Estado socialista como os navegadores percebem ter cruzado a linha de um hemisfério - não que eles tenham esticado uma corda sobre o oceano, para certificarem-se da sua passagem, mas foram, pouco a pouco, sendo conduzidos a um novo hemisfério pelo progresso de sua embarcação" (Ensor, 1908: 171). De fato, para os social-democratas, as reformas constituem "degraus", no sentido que gradualmente acumulam em direção a uma completa reestruturação da sociedade. Antecipando-se à argumentação de Bernstein, Georg von Vollmar, o líder da ala bavariana do SPD, declarou no Congresso de Erfurt: "Ao lado da meta geral ou final, vemos um objetivo mais próximo: a satisfação das necessidades mais imediatas do povo. Para mim, a realização das exigências imediatas é o mais importante, não só porque é de grande valor propagandístico e serve para ganhar a adesão das massas, mas também porque, na minha opinião, esse progresso gradual, essa socialização gradual, é o método mais indicado para uma transição progressista." (Gay, 970: 258).



Reforma e revolução, dentro da visão social-democrata, não são alternativas excludentes entre si. Para realizar a "revolução social" - conceito que, antes de 1917, denotava transformação das relações sociais, mas não necessariamente insurreição -, é suficiente seguir a trilha das reformas. Supõe-se que as reformas sejam cumulativas e irreversíveis: não havia nada de estranho no raciocínio de Jaurés de que,"precisamente porque é um partido da revolução ... o Partido Socialista é o mais ativamente reformista..." (Fiechtier, 1965: 163). Quanto mais reformas, quanto mais rapidamente são introduzidas, mais próxima estará a revolução social, mais cedo o navio socialista rumará em direção ao novo mundo. E mesmo quando os tempos não forem tão auspiciosos para galgar novos degraus, mesmo quando circunstâncias políticas ou econômicas exigirem que as reformas sejam adiadas, cada nova reforma eventual partirá das realizações do passado. Mitigando-se os efeitos do capitalismo e transformando-o passo a passo, chegar-se-ia finalmente a uma completa reestruturação da sociedade. Revisando o livro de Miliband (1969), Benjamim Barber foi quem melhor expressou esta perspectiva: "seguramente, a partir de um certo ponto a mitigação converte-se em transformação, a atenuação transforma-se em abolição; a partir de um certo ponto, as 'concessões' do capitalismo aniquilam o capitalismo... Não quer dizer que se atingiu tal ponto, mas que haverá este ponto." (1970: 929).

O bem-estar substitui a socialização

A "revolução social" visada pelos social-democratas era necessária porque o capitalismo era irracional e injusto. E a causa fundamental dessa ineficiência e iniqüidade era a propriedade privada dos meios de produção. Enquanto a propriedade privada era ocasionalmente vista como a fonte dos mais diferentes infortúnios - desde a prostituição e do alcoolismo até as guerras -, era sempre considerada como diretamente responsável pela irracionalidade do sistema capitalista, e pela injustiça e miséria que gerava.

Já em Socialismo Utópico e Científico, uma das mais importantes fontes do movimento socialista, Engels enfatizava que a racional idade crescente da produção capitalista dentro de cada empresa é acompanhada, fatalmente, pelo caos e pela anarquia da produção em escala social. "A contradição entre produção socializada e apropriação capitalista', escreveu Engels, "agora se apresenta como um antagonismo entre a organização da produção no trabalho do homem e a anarquia da produção da sociedade em geral." (1959: 97-8). Falando em 1920, Brating repetiu que, "nas premissas básicas da presente organização social, não há garantias satisfatórias até mesmo para que à produção como um todo seja dada uma orientação a mais racional possível, ou então para que os lucros dos diversos ramos sejam aplicados da melhor maneira, do ponto de vista nacional, econômico e social." (Tingsten, 1973: 239).



A segunda conseqüência da propriedade privada é a distribuição injusta das riquezas materiais por ela gerada. "A condição econômica para o socialismo", escreveu um teórico do Partido Trabalhista, "está amplamente baseada na inviabilidade do capitalismo em efetuar qualquer distribuição eqüitativa ou mesmo praticável das mercadorias, numa era de mecanização e produção em massa" (Cripps, 1933:475). Mesmo o programa de Bad Godesberg, de 1959, marco do mais drástico rompimento com a tradição marxista, mantinha que "na economia de mercado não se assegura uma justa distribuição de rendas e propriedades".



Dada esta análise, a socialização ou a nacionalização dos meios de produção eram a principal forma de se alcançar os objetivos socialistas e conseqüentemente a primeira tarefa a ser cumprida pelos social-democratas depois da conquista do poder. "A revolução social", escreve Tingsten(1973, 131)" foi sempre entendida como socialização sistemática, encaminhada sob a liderança da classe trabalhadora social-democrata". Socialização ou nacionalização - uma ambigüidade terminológica significativa - era a forma pela qual a revolução socialista poderia ser realizada.



Até a Primeira Guerra Mundial, enquanto os partidos socialistas concentravam seus esforços vencendo eleições e organizando os trabalhadores como uma classe, pouco do pensamento efetivo era voltado aos meios pelos quais se conquistaria a socialização. A própria possibilidade de estar em reais condições de levar a cabo um programa de socialização pegou todos os partidos socialistas de surpresa quando a guerra destruiu a ordem estabelecida, desatrelou movimentos espontâneos de ocupação de fábricas e abriu as portas à participação governamental. De fato, a onda de ocupação das fábricas que ocorreu na Áustria, Alemanha, Finlândia, Itália e Suécia pareceu, aos partidos socialistas estabelecidos e aos sindicatos, uma ameaça à sua própria autoridade e organização, assim como à ordem capitalista (Maier, 1975:63; Spriano, 1967: 50-61; Williams, 1975: 121-45; Wigforss, 1924: 672).



Enquanto estes movimentos espontâneos eram reprimidos ou esvaziados, alógica do parlamentarismo voltava a agarrar o movimento social-democrata. Esforços de nacionalização tornaram-se tão similares em vários países, que sua história pode ser resumida rapidamente. A socialização foi imediatamente colocada na agenda dos partidos social-democratas da Áustria, Finlândia, Alemanha, Grã-Bretanha, Holanda, Itália e Suécia e da CGT francesa. Em diversos países, especialmente na Alemanha, Grã-Bretanha e Suécia, os "comitês de socialização" foram formados pelos respectivos parlamentos, enquanto na França, Léon Blum introduziu na Câmara um projeto de lei para nacionalizara indústria ferroviária. Das comissões esperava-se a preparação de programas detalhados de socialização - em alguns casos para todas as indústrias de base e em outros para todas as indústrias específicas, tipicamente as de carvão. A comissão britânica terminou rapidamente sua carreira quando Lloyd George simplesmente ignorou suas recomendações; na Alemanha, o surgimento da nacionalização do carvão foi. protelado após a demissão da primeira comissão; e, na Suécia, o comite de socialização trabalhou dezesseis anos, gastando a maior parte do seu tempo estudando esforços similares em outros lugares e expirou sem fazer qualquer recomendação. Embora os social-democratas formassem ou participassem de governos em vários países, o resultado global destas primeiras tentativas de socialização foi nulo: com exceção da indústria de armamentos da França, em 1936, nem uma única companhia foi nacionalizada na Europa Ocidental por um governo social-democrata durante todo o período entre guerras.



Como se explica que o movimento que se propôs revolucionar a sociedade mudando a própria base de sua organização produtiva terminou o período integrando-se a instituições políticas capitalistas, sem nunca pôr em causa seus fundamentos? Quando Marx descreveu, em 1850, a anatomia.da democracia capitalista, estava certo que, salvo por um recuo, o sufrágio universal levaria "da emancipação política à social"; que, uma vez presenteados com direitos políticos, os trabalhadores começariam ¡mediatamente a destruir o "poder social" dos capitalistas, socializando os meios de produção (1952a: 62). Ainda em 1928,: Wigforss viu este resultado como inevitável: "O sufrágio universal é incompatível com uma sociedade dividida entre uma pequena classe de proprietários e uma grande classe sem propriedade. Tampouco o rico e o proprietário irão ignorar o sufrágio universal, ou o pobre, com a ajuda de seu direito ao voto, irá conseguir por si mesmo uma parte das riquezas acumuladas" (Tingsten, 1973:274-5). E ainda, enquanto os social-democratas conseguiam poder na Áustria, Bélgica, Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha, Grã-Bretanha, Noruega e Suécia, a riqueza permanecia quase intacta e com certeza a propriedade privada dos meios de produção não era incomodada.



Pode-se citar várias razões. À ambigüidade teórica dos próprios projetos de "expropriação dos expropriadores" não é negligenciável. Uma dificuldade reside na ambígua relação entre "socialização" - a posse das indústrias por seus empregados - e a estatização "nacionalização" - sua direção geral pelo estado. De um lado, como apontaram Korsch (1975:68), Wigforss (Tingsten, 1973: 208) e outros, o controle direto de empresas particulares pelos próprios produtores removeriam o antogonismo entre produtores e consumidores, ou seja, trabalhadores de outras empresas. Por outro lado, o controle centralizado do estado teria o efeito de substituir a autoridade privada do capital pela autoridade burocrática do governo, e o exemplo soviético logo aparecia como um exemplo negativo. A tendencia "gestionária" dominou na Alemanha, onde os princípios eram até incorporados à Constituição, e na Suécia; a tendência "planista" encontrou sua articulação mais importante na Bélgica e na. França, sob a influência de Henri de Man.



Uma verdadeira onda constituinte ocorreu após a Primeira Guerra Mundial: Otto Bauer na Áustria (1919), Karl Kautsky na Alemanha (1925), G. D. H. Cole na Grã-Bretanha (1919), Henri de Man na Bélgica - todos buscaram a elaboração de um modo de combinar a racionalização da sociedade com todo o controle do operariado sobre a produção.



Entretanto, esta explosão de atividade teórica chegou com atraso em relação às exigências da prática política. Mas o fato, freqüentemente admitido pelos políticos social-democratas, é que não sabiam como proceder para realizar seu programa. A escolha de quais as indústrias deviam ser nacionalizadas, método de financiamento, técnicas administrativas e as relações mútuas entre os setores tornaram-se problemas técnicos para os quais os social-democratas estavam despreparados. Então formaram grupos de estudo e esperaram..



Entretanto, a causa da inércia da Social Democracia era muito mais profunda do que a ambigüidade dos seus planos. Em nenhum lugar os socialistas obtiveram maioria parlamentar para que pudessem legislar sem o apoio, ou pelos menos o consentimento, de outros partidos. Surpreendentemente, os partidos socialistas, em diversos países, foram convidados a assumir como governos minoritários ou a entrar em governo de coligações multi-partidárias. O problema do que fazer como governo minoritário apresentava-se com as seguintes opções: ou o partido perseguia seus objetivos socialistas, sendo prontamente derrotado, ou se comportava como qualquer outro partido, administrando o sistema e introduzindo somente aquelas reformas para as quais podia obter maioria parlamentar.



Cada estratégia foi analisada pelos seus efeitos a longo prazo. Os defensores dá estratégia maximalista argurmentavam que o partido educaria o eleitorado para o programa socialista e exporia o caráter reacionário dos partidos burgueses. Alegavam que o povo responderia outorgando-lhes o poder com maioria e com mandato para implantar seu programa socialista. Esta estratégia foi adotada somente na Noruega; lá, o governo durou apenas três dias, em 1928.O partido voltou ao poder somente quatro anos depois quando moderou seus objetivos socialistas.



Os que propunham um programa mínimo defendiam que a tarefa mais importante de um partido seria demonstrar que é "competente para governar", que é um partido de governo. "Não assumiremos o poder para preparar Eleições Gerais", disse MacDonald em 1924, "assumiremos o poder a fim de trabalhar" (Miliband, 1975:101). Em contrapartida, sua expectativa repousava na crença de que as reformas eram irreversíveis e cumulativas. Como colocou Layman:



"Os gradualistas imaginavam que o socialismo pudesse ser alcançado através de reformas graduais, cada reforma sendo aceita sem obstruções mais sérias por parte dos conservadores do que aquelas que a oposição trabalhista dava aos governos Tory. Cada reforma permaneceria intocável mesmo com a volta dos 'tones', prontos para serem a base no qual o próximo governo trabalhista reassumiria a construção do Estado Socialista." (1965,142-3).



Assim, o partido assumiria o poder introduzindo aquelas reformas para as quais conseguiria maioria parlamentar, sairia do poder, retornando comum novo mandato delegado pelo eleitorado. "Não esperamos permanecer no poder por muito tempo, mas certamente pelo tempo suficiente para efetuar um bom trabalho que remova muito dos obstáculos que sabemos enfrentar e que restringiriam governos futuros": esta era a intenção do Partido Trabalhista em 1924 (MacDonald, citado por Lyman, 1957:106; para a declaração similar por Branting em 1920, veja Tingsten, 1973: 238). Blum introduziu uma distinção entre "exercício de poder" e "conquista de poder" da seguinte forma: como minoria os socialistas podiam apenas exercer o poder, mas deveriam exercê-lo de uma forma tal que resultaria na sua conquista (Colton, 1953).



O compromisso



Se os socialistas não podiam seguir com um programa imediato de nacionalização, o que fazer nesse ínterim? Poderiam buscar e buscaram medidas "ad hoc" destinadas a melhorar as condições de vida dos trabalhadores: desenvolver programas habitacionais, introduzir o salário mínimo, instituir formas de amparo aos desempregados, impostos sobre a renda e herança, aposentadoria. Tais medidas, favoráveis aos trabalhadores, eram politicamente praticáveis e não causariam choque econômico - davam continuidade à tradição das reformas de Bismarck, Disraeli e Giolitti. Também não modificariam a estrutura da economia nem o equilíbrio das forças políticas.



O fato é que os social-democratas, até a década de 30, não tinham uma política econômica própria. A teoria enconomica da esquerda era de crítica ao capitalismo, de afirmação da superioridade do socialismo; e conduzia a um programa de nacionalização dos meios de produção. Uma vez suspenso este programa - ainda não fora abandonado - não sobrou nenhum programa econômico socialista (Bergounioux e Manin, 1979: 110). O partido socialista comportava-se como todos os outros partidos: com a tendência de beneficiar seu eleitorado, respeitando, porém, os princípios do equilíbrio orçamentário, políticas deflacionárias anticrise, padrão-ouro, e assim por diante. A caracterização do Partido Trabalhista feita por Skidelky é de validade geral: "A cultura política inglesa era relativamente homogênea. Haviam cenas idéias, ou padrões dé pensamento dominantes e que todos os homens sensatos aceitavam. Isto aplicava-se principalmente ao pensamento econômico. Na década de 20, os politicos desenvolviam um saber econômico que era uma espécie de codificação daquilo que assumiriam ter sido uma prática bem sucedida no século 19..." (1970: 6). Sobre Blum é dito que ele "não podia imaginar qualquer estágio intermediário entre a pura doutrina socialista e o livre jogo do capitalismo..." (Wael, 1970: 541) e, ao que parece, sobre ninguém mais. A única teoria conhecida de reformas era a que pregava a nacionalização; nenhuma outra alternativa coerente existia.



Tal alternativa surgiu em resposta à Grande Depressão. Na Suécia, Noruega e, em menor extensão na França, os governos socialistas responderam ao desemprego com uma série de políticas anticíclicas que quebraram a ortodoxia econômica existente. E ainda matéria de controvérsia se as políticas suecas foram desenvolvidas autonomamente, a partir de Marx via Wicksell, ou se foram uma aplicação das idéias já conhecidas de Keynes (Gustafsson, 1973).O fato é que os social-democratas logo descobriram nas idéias de Keynes, particularmente após o aparecimento de sua Teoria Geral, algo que necessitavam urgentemente: uma política distinta para a administração da economia capitalista. A revolução Keynesiana - e isto é o que foi - muniu os social-democratas com uma meta e conseqüentemente com a justificativa do seu papel governamental, e ao mesmo tempo transformou o significado ideológico das políticas distributivas que favoreciam a classe trabalhadora.



De vítima passiva dos ciclos econômicos, o Estado transformou-se, quase da noite para o dia, numa instituição pela qual a sociedade poderia regular as crises, mantendo o pleno emprego. Gustav Moller, o arquiteto do programa para o desemprego, descrevendo a política do governo sueco de 1932, enfatizou que anteriormente a assistência ao desemprego era um "sistema destinado somente a suprir as necessidades mínimas dos desempregados, e não tinha o propósito de impedir a depressão... Dizia-se que os ciclos econômicos seguem leis econômicas naturais, e que a interferência governamental e, no mínimo, inútil e, do ponto de vista econômico, perigosa a longo prazo." (1938: 49). Tanto Moller como Wigforss (1938) descreveram como os social-democratas suecos descobriram que o desemprego pode ser reduzido e a economia estimulada se o estado seguir políticas anticíclicas, permitindo que o crescimento do déficit financiasse a produção pública durante a depressão, sendo que o pagamento das dívidas ocorreria durante os períodos de expansão. A sociedade pode não ficar impotente perante os caprichos do mercado capitalista, a economia pode ser controlada, e o bem estar dos cidadãos pode ser continuamente elevado através do papel ativo do estado: esta foi a nova descoberta dos social-democratas.



E mais: o Keynesianismo não era apenas uma teoria que justificava a participação socialista no governo como também, de maneira ainda mais fortuita do ponto de vista social-democrata, era uma teoria que repentinamente garantia um status universal para os interesses dos trabalhadores, Anteriormente, as demandas para o incremento do consumo eram encaradas como prejudiciais aos interesses nacionais: salários mais altos significavam lucros menores, reduzindo a oportunidade de investimentos e o desenvolvimento futuro. A única resposta concebível à crise seria cortar os custos de produção, isto é, os salários. Em 1929 esta ainda era a visão do Partido Trabalhista. Más, pela lógica da teoria de Keynes, maiores salários, particularmente se a massa salarial aumenta preferencialmente através do aumento da taxas de emprego e não dos níveis salariais (que na Suécia não aumentou até 1936), significavam um aumento da demanda agregada, o que implicaria um incremento das expectativas de lucro, maiores investimentos e, portanto, estímulo econômico..



Influenciada ou não pela obra de Keynes (Collon, 1969:198), a "Front Populaire" da França introduziu, em 1936, uma política onde "Através do aumento salarial, diminuição da jornada semanal de trabalho, um programa de empregos públicos e gastos com viagens e férias... o poder aquisitivo e o consumo aumentariam, a indústria elevaria a produção para atender o aumento da demanda... e a depressão seria superada" (Collon, 1969:190). O aumento salarial deixou de ser visto como impedimento ao desenvolvimento econômico e passou a ser considerado como estimulador. Interesses particulares de curto prazo dos trabalhadores e outros que consumiam a maior parte de sua renda podiam, agora, ser considerados coincidentes com os interesses de longo prazo da sociedade. A defesa corporativista dos interesses dos trabalhadores, uma política social perseguida pelos social-democratas na década de 20, e a estratégia eleitoral para o "povo" encontravam agora numa teoria econômica técnica sua justificativa ideológica. Transformou-se o discurso ideológico; "os custos do serviço de saúde", escreveu Bertil Ohlin (1938: 5),"rcpresentavam investimento no mais valioso dos instrumentos produtivos, o povo. Em anos recentes tornou-se óbvio que isso também é verdadeiro para muitas outras formas de 'consumo' - alimentação, vestuário, habitação, lazer. Desta forma, dá-se ênfase à política social produtiva..." Também houve outra implicação: "A tendência", continua Ohlin, "se dá na direção da nacionalização do consumo, em oposição à nacionalização dos meios de produção do socialismo marxista".



A virada keynesiana logo levou os social-democratas a desenvolver uma ideologia abrangente do "estado do bem estar" (Briggs, 1961). Os social-democratas definiram seu papel como o de modificadores do jogo das forças do mercado, resultando no total abandono do projeto de nacionalização O bom êxito da aplicação dos instrumentos keynesianos era encara como uma demonstração de que a nacionalização - tão cheia de problemas e incertezas como provou ser - não somente era impossível de ser alcancada por via parlamentar mas era simplesmente desnecessária. Keynes escreveu que "ao estado o importante não é assumir a propriedade dos instrumentos de produção. Se o estado é capaz de determinar o montante de recursos destinado a ampliar os instrumentos e a taxa básica de retorno àqueles que os detém, terá cumprido todo o necessário" (1964:378). Wigforss (Lervin, 1975; 286) completa essa argumentação dizendo que a estatização de certas indústrias apenas levaria o governo socialista a se comportar como uma empresa capitalista, sujeito ao "caos do mercado", quando, em contrapartida, um controle indireto peio estado poderia racionalizar a economia como um todo e orientá-la para o bem estar geral.



O suporte teórico dessa nova perspectiva foi a distinção entre o conceito de propriedade Como atividade administrativa e o de propriedade como possessão legal. Bernstein já dizia que "a base da socialização é colocar a produção, o processo econômico, sob o controle público" (citado por Korsch, 1975:65). Em vez do controle direto, o estado poderia atingir todos os objetivos socialistas influenciando o setor privado a se comportar de acordo com os interesses gerais. "A essência da nacionalização", escreveu Man em 1934 (Bergouhioux e Manin, 1979:114), "é menos a transferência da propriedade do que a transferência da autoridade...". Se o estado pudesse, quando necessário, regular a indústria privada e se pudesse atenuar os efeitos do livre jogo das forças do mercado, então a estatização seria desnecessária e desaconselhável: este tornou-se o lema dos social-democratas, após a revolução keynesiana.



Concluindo, como governos de minoria incapazes de implantar o programa socialista, em meados da década de 30,,a social democracia encontrou uma política econômica distinta que justificava o seu papel no governo, que especificava um conjunto de reformas intermediárias que podiam ser efetuadas com sucesso nos marcos do capitalismo, e que municiavam diversos países com uma plataforma eleitoral eficaz. Arrebatados nos anos 20 por uma posição de "tudo-ou-nada", os social-democratas descobriram um novo caminho para as reformas, abandonando o projeto de nacionalização pelo do bem estar geral. O novo projeto envolvia um compromisso fundamental com os que ainda eram denunciados como explorados, considerado economicamente viável, socialmente benéfico, e, talvez o mais importante, politicamente praticável sob condições democráticas.

O abandono do reformismo

O abandono do programa de nacionalização dos bens de produção não implicou que o estado nunca se envolvesse em atividades econômicas. Em países ocidentais contemporâneos, de 5 a 20% do produto bruto tem sido produzido por empresas nas quais o estado de alguma forma é proprietário único (Le Monde, 1977). As formas como este "setor público" desenvolveu-se são variadas demais para serem descritas aqui. Na Itália e Espanha o setor público é principalmente um legado fascista; na Áustria consiste predominantemente no confisco de propriedades alemãs; na Grã-Bretanha e França uma onda de nacionalização seguiu a Segunda Guerra Mundial. Nacionalizações radicais - transferência de companhias privadas já existentes para as mãos do estado - foram muito raras, mas em diversos países o estado desenvolveu atividades econômicas próprias. Em muitos países as empresas públicas têm o mesmo status legal e operam com a mesma lógica das empresas privadas; o estado é simples acionista. Na Itália, Grã-Bretanha e França as empresas estatais têm sido usadas ocasionalmente como instrumentos de política econômica. Apesar destas variações, a base filosófica da propriedade pública é a mesma: os social-democratas estão comprometidos com a livre empresa sempre que possível e com a propriedade pública quando necessário.



É característico que as empresas estatais estejam limitadas a instituições de crédito, carvão, ferro e aço, produção e distribuição de energia, transporte e comunicação. Fora esses setores, apenas as companhias ameaçadas de falência, com conseqüente diminuição de empregos, passam às mãos públicas. Casos em que o estado esteja envolvido na produção e venda de produtos de consumo final são extremamente raros e parecem estar limitados à indústria automobilística. O estado ocupa-se das atividades econômicas necessárias à economia como um todo e vende seus produtos e serviços principalmente para empresas privadas. Estas, por sua vez, vendem aos consumidores. Assim, o estado não compete com o capital privado e sim fornece os inputs necessários ao funcionamento lucrativo da economia como um todo.



Esta divisão entre o estado e o mercado tem sido cultivada pela "teoria do estado dos bens públicos" (Samuelson, 1966; Musgrave, 1971). Esta teoria assume que o mercado capitalista é uma forma natural de atividade econômica; aceita-se o mercado existente e suas leis tal como são. Supõe-se que o papel do estado fique limitado a prover os chamados "bens públicos"; aqueles que são indivisíveis e que, se fornecidos, os são para todos. É apropriado ao estado construir vias públicas e treinar a mão-de-obra: empresários privados racionais não fornecerão tais coisas pois não podem impedir o uso público de vias públicas ou as pessoas de venderem aos concorrentes suas novas aptidões. Assim, supõe-se que o papel do estado fique limitado às atividades que não são lucrativas para empresários privados, mas necessárias ao conjunto da economia. É verdade que em diversos países o estado envolve-se na produção de bens privados - carvão e aço - mas também aqui ocorreu, com raras exceções, â transferência ao setor público quando e porque estas indústrias eram deficitárias, sob as condições da concorrência internacional. De fato, estas eram as indústrias de mais fácil nacionalização e manutenção pelo setor público, visto que seus proprietários não tinham razões para lutar contra a nacionalização de uma indústria deficitária.



Desta forma, a estrutura do sistema capitalista construída pelos social-democratas revelou o seguinte: (1) o estado opera aquelas atividades não lucrativas porém necessárias à economia como um todo; (2) o estado regula, principalmente através de medidas anticíclicas, a operação do setor privado; e (3) o estado atenua, através de medidas sociais, os efeitos de distribuição da operação do mercado.



As atividades regulativas do estado baseiam-se na crença de que os capitalistas privados podem ser induzidos a alocar recursos da maneira desejada pelos cidadãos e expressa pelo eleitorado. A concepção básica é que na democracia capitalista os recursos são alocados através de dois mecanismos: o "mercado", no qual o peso das preferências de quem decide é proporcional aos recursos que controlam, e o estado, no qual o peso das preferências é distribuído igualmente entre os cidadãos. A essência da social-democracia contemporânea é a convicção de que o mercado pode ser direcionado para alocar aqueles bens, públicos ou privados, que são preferidos pelos cidadãos e que, ao racionalizar gradativamente a economia, o estado pode transformar os capitalistas em funcionários privados do público sem alterar o status jurídico da propriedade privada.



A intervenção do estado na economia deve ser guiada pelos critérios de eficiência, que são muito distintos de um interesse pela justiça. A noção de eficiência é independente de quaisquer considerações de ordem distributiva. Uma eficiente alocação de recursos - à luz do critério entendido como técnico, que está acima de diretrizes políticas - é aquela na qual ninguém pode ser favorecido sem que haja o prejudicado. Sob tal situação algumas pessoas podem estar em melhores condições do que as outras, porém o problema da distribuição é, deste ponto de vista, melhor administrado quando tratado ex-post. Assim a política social dos social-democratas consiste, geralmente, em mitigar os efeitos da distribuição dos recursos, guiada pelo critério da eficiência. Esta política não visa transformar o sistema econômico mas sim corrigir os efeitos de sua operação.



Tendo assumido-o compromisso de manter a propriedade privada dos meios de produção, para assegurar a eficácia e atenuar os efeitos distributivos, a Social Democracia deixou de ser um movimento reformista (veja as posições de Brandt em Brandt, Kreisky e Palme, 1976). O reformismo sempre significou um progresso gradual em direção às transformações estruturais; tradicionalmente o reformismo era justificado pela crença de que reformas eram cumulativas, que constituem passos, que levam a algum lugar. A política atual dos social-democratas pela sua própria lógica não permite mais a acumulação de reformas.



O abandono do reformismo é conseqüência direta das próprias reformas executadas. Desde que o estado está envolvido quase exclusivamente nas atividades não lucrativas, do ponto de vista capitalista, está privado dos recursos necessários à continuidade do processo de nacionalização: se as indústrias de propriedade pública fossem as mais rentáveis, então o lucro poderia ser empregado para a aquisição ou desenvolvimento de outras indústrias. Mas tendo se envolvido com setores deficitários, os social-democratas minaram sua própria capacidade de estender gradualmente o domínio do setor público. Ainda, os efeitos ideológicos não podem ser negligenciados. Criou-se uma situação em que o setor público é notoriamente ineficiente, pelo critério capitalista, e o resultado foi o impedimento da expansão do Estado. Isto é, as empresas que entraram para o setor público foram as mais ineficientes dentro do critério capitalista e agora aparentam ser ineficientes justamente por serem públicas. Assim, a principal preocupação de todos os governos, socialistas ou não, é a redução dos custos, o que por sua vez significa que as indústrias públicas sequer podem ser utilizadas como instrumentos de política macroeconômica - contendo, por exemplo, os preços do aço para reduzir pressões inflacionárias.



Ao mesmo tempo, tendo fortalecido o mercado, os social-democratas perpetuam a necessidade de atenuar os efeitos distributivos da sua operação. As reformas sociais sequer precisam ser "desfeitas" pelos governos burgueses. Basta permitir que o mercado opere por si mesmo durante um período qualquer de tempo em que as desigualdades crescem, o desemprego flutua, as mudanças de demanda no mercado de trabalho expõem novos grupos ao empobrecimento, etc. Como Martin observou sobre a Grã-Bretanha, "a estrutura básica do estado de pleno emprego' não provou ser tão duradoura confio previam as análises de Crosland. Entretanto, isto não ocorreu à ação desarticuladora dos governos conservadores entre os anos 1951 e 1964. Para desmantelar o estado de pleno emprego; bastou ao governo conservador nada fazer para impedir tais processos" (1975:28). A mitigação não se converte em transformação: de fato, sem transformação o ato de mitigar se perpetua. Os social-democratas encontram-se na mesma situação que Marx atribuiu a Louis Bonaparte: suas políticas parecem contraditórias, desde que são coagidas a fortalecer a capacidade produtiva do capital e, ao mesmo tempo, contra-atacar seus efeitos.



O resultado final desta orientação é que os social-democratas acham-se outra vez sem uma alternativa própria, distinta, para enfrentar a crise do sistema internacional. Quando estão no poder são forçados a se comportar como qualquer outro partido, confiando nas medidas anti-inflacionárias e de corte de custos para assegurar a lucratividade do setor privado e a capacidade de investimento. Não é surpreendente que medidas visando a ampliação da democracia no local de trabalho - a mais recente redescoberta dos social-democratas (Brandt, Kreisky e Palme, 1976) - façam eco à postura do movimento nos anos 20, período em que a esquerda também carecia de uma concepção econômica própria. Essas medidas não resolverão os problemas econômicos mais candentes. Resta saber se a atual crise internacional não prejudicará seriamente as bases eleitorais da social democracia.

As bases econômicas da conciliação de classe

Tão logo compuseram governos - depois que a Primeira Guerra Mundial acabou - os social-democratas descobriram que a preocupação com a justiça não era imediatamente compatível com o objetivo de aumentar a produtividade. Nas palavras de Wigforss: "Porque a Social Democracia trabalha por uma distribuição mais igualitária e mais justa da propriedade e da renda, não deve nunca esquecer que há que produzir antes de ter o que distribuir" (Tilton, 1979: 516). A preocupação em restaurar e ampliar rapidamente a capacidade industrial dominou os primeiros debates na Alemanha e Suécia sobre a socialização da indústria (Maier, 1979: 194; Tingsten, 1973: 230). A justa distribuição da pobreza não era certamente o que os socialistas prometiam, e para elevar a riqueza geral os social-democratas tinham que concentrar seus esforços no incremento da produtividade.

Entretanto, sem a nacionalização dos meios de produção, aumentos de produtividade requerem a lucratividade da empresa privada. Enquanto o processo de acumulação for privado, toda a sociedade depende da manutenção dos lucros e do destino que o capitalista dá a estes lucros. Assim, a eficiência dos social-democratas - e de qualquer outro partido -, em controlar a economia e atenuar os efeitos sociais, depende da lucratividade do setor privado e da cooperação dos capitalistas. A própria capacidade dos social-democratas regularem a economia depende dos lucros do capital. Esta é a barreira estrutural que não pode ser quebrada: o limite de qualquer política é que, a longo prazo, os investimentos - e portanto os lucros - devem ser protegidos. Como os lucros são privados, a decisão dos capitalistas quanto ao volume e à direção dos investimentos condicionam a eficiência das intervenções do estado e devem ser previstas. O estado que intervém na economia depende da ação capitalista para seus recursos fiscais, para informações, para ser capaz de elaborar políticas e planos, para ser capaz de oferecer serviços sociais, e assim por diante. Além disso, o próprio apoio eleitoral de qualquer governo depende da ação dos capitalistas. Quando vota em um partido, o povo não vota exclusivamente por "bens públicos": vota contra o governo quando sua renda pessoal cai ou quando sobe a taxa de desemprego (Kramer, 1971; Stigler, 1973). Assim, qualquer partido depende do capital privado até mesmo para sua sobrevivência eleitoral.

Qualquer governo numa sociedade capitalista depende do capital (Off e Runge, 1975:140). A natureza das forças políticas que sobem ao poder não afeta essa dependência, pois ela é estrutural: uma característica do sistema e não dos ocupantes do governo, os vencedores das eleições. Estar "no poder" dá pouco poder: os social-democratas estão sujeitos à mesma dependência estrutural, tanto quanto os outros partidos.

O compromisso dos social-democratas com o capital é, portanto, uma expressão da própria estrutura da sociedade capitalista. Uma vez que a propriedade privada dos meios de produção permaneceu intacta, a apropriação dos lucros pelos capitalistas tomou-se algo do interesse dos assalariados. No capitalismo os lucros de hoje são a condição para os investimentos e, portanto, para a produção, o emprego e o consunto de amanhã. Como colocou o primeiro-ministro Schmidt, "os lucros das empresas hoje são os investimentos de amanhã, e os investimentos de amanhã são os empregos de depois de amanhã." (Le Monde, 6 de julho de 1976). Esta expectativa - que os lucros correntes pudessem ser transformados em melhorias futuras dos assalariados - tornou-se o fundamento da adesão dos social-democratas ao capitalismo. Os social-democratas consentem no direito dos capitalistas em se apropriarem de parte da produção social porque espera-se que os lucros aquinhoados pelo capital sejam poupados, investidos, transformados em capacidade produtiva, e parcialmente distribuídos para outros grupos sociais. Assim, tal consentimento tem uma base econômica: é reflexo dos interesses materiais dos assalariados dentro da sociedade capitalista.

Os social-democratas protegem os lucros das demandas das massas porque políticas redistributivas extremas são contrárias aos interesses dos assalariados. Não havendo reprodução, o sistema capitalista é projetado de tal forma que se os lucros são insuficientes, então os níveis de salário ou emprego devem cair. As crises do capitalismo não interessam a ninguém materialmente: são uma ameaça aos assalariados, uma vez que o capitalismo é um sistema no qual as crises recaem sobre suas costas.

É por isto que os social-democratas trocam a abolição da propriedade privada dos meios de produção pela cooperação dos capitalistas em aumentar a produtividade e distribuir os ganhos. É por isto que os social-democratas tentam hão apenas reproduzir o capitalismo como também esforçam-se por melhorá-lo, mesmo contra a vontade dos capitalistas. A nacionalização dos meios de produção provou ser eleitoralmente impraticável; políticas redistributivas radicais resultam em crises econômicas, que por sua vez não interessam aos assalariados; e a riqueza global pode ser aumentada, se se convence os capitalistas a cooperar e se se educa continuamente os assalariados a esperar.

Crise e o governo dos trabalhadores

Os social-democratas não conduzirão as sociedades européias ao socialismo. Mesmo que os trabalhadores preferissem viver sob o socialismo, o processo de transição necessariamente levaria a uma crise antes que o socialismo pudesse ser organizado. Para alcançar picos mais elevados tem-se de atravessar um vale, e esta descida não pode ser completada sob condições democráticas.

Suponha que os social-democratas vençam as eleições e tentem usar sua posição para uma transição democrática ao socialismo. Dada a estrutura da sociedade capitalista, tal vitória eleitoral é possível somente com a obtenção do apoio de diversos grupos: trabalhadores da indústria, funcionários não-produtivos, pequena burguesia, produtores rurais, donas de casa, aposentados e estudantes. Assim, pressões por melhorias materiais significativas irrompem de diversos setores. Salários, principalmente os salários mínimos (sueldo vital no Chile, SMIC na França), devem ser elevados. Deve haver diminuição do desemprego. O crédito para pequenas empresas e propriedades rurais produtivas deve tornar-se mais barato e exposto a um risco maior. Estas demandas podem ser financiadas por: (1) redistribuição de renda (através de taxações diretas e da redução das disparidades salariais); (2) utilização da capacidade ociosa; (3) gastos das reservas de divisas estrangeiras ou empréstimos; e/ou (4) redução da taxa de lucro (Kolm, 1977). A soma das três primeiras medidas serão insuficientes para atender a demanda. Redistribuição das altas rendas tem pouco efeito quantitativo e não pode descer muito na escala salarial sem ameaçar o apoio eleitoral dos assalariados. Quando a capacidade ociosa é repentinamente ativada ocorre um estrangulamento, e esta rapidamente se esgota. Recursos externos devem ser gastos com cuidado para não deixar a moeda à mercê dos credores estrangeiros. Ainda, mesmo que as contas estejam equilibradas em termos monetários, uma economia organizada para produzir certos bens e serviços não pode ser transformada abruptamente para atender novas demandas de bens de consumo.

Forçados a pagar salários mais altos e manter o nível de emprego acima do nível de eficiência, os capitalistas podem responder apenas com aumento nos preços dos bens de consumo. A inflação também é alimentada pelas dificuldades da balança de pagamentos resultantes da necessidade de importar bens de consumo e de pressões especulativas. Assim ocorre inflação ou, se os preços são controlados, escassez; o mercado negro se organiza, e assim por diante. Eventualmente os aumentos nominais de salário são corroídos, como na França em 1936 (Kalecki, 1936), Chile e Portugal.

Em circunstancias normais pode-se esperar que o aumento da demanda agregada estimule o investimento e o nível de emprego. Medidas de redistribuição, mesmo que incluam emissão inorgânica, são geralmente em basadas não só por intenções de justiça mas também de eficiência. Com a elevação do poder aquisitivo das faixas mais baixas de renda, há o aumento da demanda por bens de consumo. A utilização da capacidade ociosa e de reservas estrangeiras são vistos como um modo de estabilizar os preços frente à elevação da demanda durante o curto período anterior à retomada de investimentos e de uma previsível expansão do abastecimento. É de se esperar que os lucros provenientes de um volume maior de vendas sejam reinvestidos e que, assim, a economia seja estimulada a crescer com mais velocidade. Este foi, por exemplo, o programa Vuskovic no Chile - até razoável em circunstâncias normais.

Tal programa, no entanto, não pode ser bem sucedido quando demandas econômicas crescem espontaneamente e são acompanhadas de transformações estruturais. Nestas circunstâncias, reivindicações salariais tendem a se tornar confiscatórias, e os capitalistas, a temer que estas sejam atendidas, ou no mínimo, toleradas pelo govemo. Como colocou Bevin,"estaremos na situação de ter que ouvir os apelos do nosso próprio povo" (Lyman; 1957:219), O aumento da intervenção governamental significa que uma racional idade não característica do mercado é imposta ao processo de acumulação, isto é, os capitalistas são forçados, a fazer alocações de recursos fora da lógica do lucra Medidas de nacionalização, distribuição de terras e monopolização do crédito e da taxa de câmbio pelo Estado ameaçam a instituição do lucro privado. Sob tais circunstâncias, um capitalista racional não fará investimentos. São desnecessárias articulações políticas ou conspirações: empresários racionais não investem se o retorno esperado for nulo ou negativo e quando o risco é alto.

No entanto, a produção deve continuar: nas palavras de Kautsky, "se a produção não continuar a sociedade inteira perecerá, incluindo o proletariado". "O proletariado vitorioso", continua Kautsky, "não somente tem todas as razões para facilitar a continuidade da produção capitalista, quando a imediata socialização for desaconselhável, como também deve impedir que a socialização provoque uma crise econômica" (1925: 273). Mas capitalistas cujos meios de produção estejam a salvo da socialização durante um determinado tempo não investirão por receio de que o momento da socialização virá. É por isso que Lange (1964: 125) pensava que a nacionalização deveria ser feita de "um só golpe": "um governo socialista que pretenda de fato o socialismo tem que aplicar seu programa de socialização de uma só vez, ou abandoná-lo inteiramente. A própria tomada de poder por tal governo causará pânico financeiro e colapso econômico. Assim, o governo socialista deve garantira imunidade da propriedade e da empresa privada para permitir o funcionamento normal da economia capitalista, abandonando seu objetivo socialista, ou seguir com seu programa de socialização à máxima velocidade."

Mesmo que o governo socialista seja resoluto, fazendo inclusive todas as tentativas para tranqüilizar pequenos empresários e proprietários, como recomenda Lange, a transformação das relações de produção será acompanhada por uma crise econômica. A pressão da demanda opera tanto em relação às empresas públicas quanto privadas. Mesmo que aquelas empresas sejam autogeridas, para ambas será ainda melhor cobrar altos preços pelos seus produtos. A rigidez que impede o deslocamento repentino para a produção de bens de consumo é física, não meramente organizacional. Além do mais, a nacionalização gera problemas econômicos por si mesma. Se era ou não uma estratégia política deliberada, como sustentam Bologna (1972) e Marglin (1974), o fato é que a produção capitalista reorganizou-se na esteira do movimento dos conselhos, na medida em que os produtores imediatos enquanto classe perderam a capacidade de dirigir por sua própria conta o sistema de produção. A classe operária era caracterizada por Marx não apenas por sua exploração mas também por sua capacidade dê organizar, em escala social, o sistema socialista de produção.

Mas, ainda que isso seja verdade, não é mais possível aos produtores imediatos assumirem automaticamente o controle sobre o processo de produção social: talvez qualquer cozinheira possa ser ensinada como administrar a sociedade socialista, porém um longo período de aprendizado é necessário. A transformação socialista exige uma capacidade administrativa e organizativa que não pode ser adquirida da noite para o dia. Não existem modelos e a experiência é limitada. Aprender por tentativa e erro, com todos os tropeços envolvidos, é inevitável.

Uma transição ao socialismo forçosamente gerará uma crise econômica. Os investimentos caem acentuadamente, preços aumentam, e os ganhos nominais de salários são corroídos, com possível queda da produção, retração da demanda e o ressurgimento do desemprego como principal problema. O que não é factível, portanto, é o programa enunciado por Allende, quando diz que "o modelo político para a transição ao socialismo que meu governo está aplicando requer que a revolução sócio-econômica realize-se simultaneamente com uma expansão econômica ininterrupta" (De Vylder, 1976:53). O que não é possível é a concretização da crença de Blum "que uma melhor distribuição... reanimaria a produção e ao mesmo tempo realizaria a justiça" (Weill e Raynal, 1956:54). O que não é possível é uma transição ao socialismo que comece com "une argumentation substantielle des salaires et traitement..." (Parti Socialiste Français, Parti Communiste Français, 1972:III).

Defrontados com uma crise econômica, ameaçados com a perda de apoio eleitoral, preocupados com a possibilidade de uma contra-revolução fascista, os social-democratas abandonam o projeto de transição ou ao menos ficam à espera de tempos mais auspiciosos. Encontram coragem para explicar aos trabalhadores que é melhor ser explorado do que criar uma situação que contém riscos que podem se virar contra eles. Recusam-se a empenhar seu futuro numa piora da crise. Dispõem-se ao compromisso, e a defenderem-no perante os trabalhadores. A questão que permanece é saber se existe um caminho de escapar à alternativa traçada por Olof Palme: "Retornar a Stalin e Lenin ou tomar o rumo da tradição social-democrata"(Brandi, Dreisky, Palme, 1976: 120).

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