14 de agosto de 2018

Lula na urna em 7 de outubro

Só uma violência jurídica pode impedir candidatura

Gleisi Hoffmann

Folha de S.Paulo

A presidente do PT e senadora Gleisi Hoffmann segura máscara do ex-presidente Lula na convenção do partido - Nelson Almeida - 4.ago.18/AFP

Milhares de pessoas estão mobilizadas para o ato de registro da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República, nesta quarta-feira (15), em Brasília. Muitos duvidaram que chegaríamos com o candidato do povo a essa data do calendário eleitoral. Pois chegamos e iremos além: até 7 de outubro, com o nome de Lula na urna eletrônica.

Chegamos mais fortes do que desejavam os adversários. Construímos uma coligação com o PC do B e com o Pros, fizemos uma aliança com o PSB que libera importantes setores do partido para apoiar Lula, teremos apoio de governadores de outros partidos e, o mais importante: a maioria da população.

Lula não ficará sem voz enquanto permanecer injustamente preso. Registramos como vice na chapa o ex-prefeito e ex-ministro Fernando Haddad, para representá-lo nesta fase da campanha. E, quando concluirmos com êxito os trâmites do registro, a ex-deputada Manuela D'Ávila será a vice de Lula.

Temos todas as razões para seguir defendendo o direito de Lula ser candidato e o direito de o povo brasileiro votar livremente, apesar dos abusos, arbitrariedades e armadilhas jurídicas que enfrentamos. Abusos confessados com desfaçatez, no último fim de semana, em entrevista do diretor da Polícia Federal ao jornal O Estado de S. Paulo.

Lula foi condenado pelas manchetes antes mesmo da ação penal. Foi processado por um juiz parcial, Sergio Moro, que nem sequer tinha jurisdição sobre o caso. Foi condenado sem provas, por "atos indeterminados", o que não existe no direito. Sua pena foi aumentada, num julgamento combinado no TRF-4, na conta exata para evitar a prescrição do crime. Foi preso ao arrepio da lei, atropelando prazos.

A cada ação contra o ex-presidente, a grande mídia alardeou o fim de sua candidatura e até de sua liderança política. Mas o que se viu nas pesquisas foi o crescimento sistemático do candidato, que representa a esperança de superação da profunda crise a que o país foi levado pelo governo de Temer e do PSDB. Tudo ao contrário do que previam.

O país percebeu que Lula não foi preso para expiar crimes que jamais cometeu, mas para impedir que o povo o eleja mais uma vez. Não esperem que sancionemos essa violência, abrindo mão da candidatura que não pertence mais ao PT: é do povo.

Votar em Lula é a reação do povo aos que mentiram —partidos e lideranças, analistas de mercado, comentaristas do Grupo Globo—, dizendo que tudo ia melhorar quando o PT fosse apeado do poder. Aconteceu o oposto: o país andou para trás, a economia parou, a fome voltou, direitos foram retirados, a soberania nacional foi entregue.

É por isso —e por trazer bem viva a memória das conquistas alcançadas nos governos do PT— que o Brasil confia em Lula para conduzir o país de volta ao desenvolvimento com inclusão. Nenhuma outra liderança encarna tão fortemente a possibilidade real de superar a crise econômica, social e política. De dar prioridade aos trabalhadores e aos mais pobres. E não se enganem os senhores da fortuna e do poder: só ele pode conduzir o país de volta à estabilidade perdida.

Ao registrarmos o companheiro Lula, oferecemos ao país uma saída pacífica e legítima. Os precedentes da Justiça Eleitoral confirmam a legitimidade da postulação. Por que não valeriam para Lula? Só por uma violência jurídica. Se negarem esse caminho à nação, estarão assumindo as responsabilidades e consequências por fraudar a soberania do voto.

As forças democráticas muitas vezes foram capazes de derrotar o arbítrio, até mesmo em eleições manipuladas. O PT não fugirá do compromisso com o povo. Lula é quem representa esse compromisso. Ele estará na urna em 7 de outubro.

Sobre a autora

Senadora e presidenta nacional do Partido dos Trabalhadores; eleita deputada federal pelo Paraná.

O Estado e a Revolução de Lenin

O ensaio definitivo sobre o clássico panfleto de Lenin

Ralph Miliband


Um encontro de trabalhadores em Petrogrado, julho de 1920. Wikimedia Commons

Tradução / Marx famosamente proclamou a necessidade de “esmagar” o estado burguês. Mas o que significa isso na prática? Se o nosso objetivo é um socialismo democrático e não burocrático então por que tipo de estado devemos nos esforçar?

Esta procura por respostas leva-nos frequentemente ao Estado e Revolução de Lenine, onde o famoso revolucionário fala convictamente em transformar o “estado de burocratas” em um “estado de trabalhadores armados.”

No seguinte ensaio, Ralph Miliband, o lendário marxista britânico, oferece uma avaliação crítica do pequeno livro de Lenine e explica o porquê “de o exercício do poder socialista continuar a ser o calcanhar de Aquiles do Marxismo.” Publicado pela primeira vez em 1970, este ensaio continua a ser a leitura mais incisiva disponível do Estado e Revolução.

O Estado e a Revolução é justificadamente considerada como uma das obras de Lenine mais importantes. Aborda questões de capital importância para a teoria e prática socialista e nenhuma destas perdeu alguma da sua relevância — antes pelo contrário. E como depoimento da teoria marxista de Estado, tanto antes e particularmente após a conquista do poder, tem, porque foi escrita por Lenine, gozado de um estatuto tão excepcionalmente confiável por gerações socialistas sucessivas, e nunca mais que nestes últimos anos, uma vez que o seu espírito e substância pode ser invocado imediatamente contra as experiências hiper-burocráticas de regimes de estilo russo como contra os partidos comunistas oficiais. De forma breve, por razões intrínsecas e circunstanciais é, de facto, um dos “textos sagrados” do pensamento marxista.

Sem embargo, “textos sagrados” não fazem parte do espírito marxista ou pelo menos não deveriam fazer; e isto só por si é razão suficiente para submeter O Estado e a Revolução a uma análise crítica. Mas há ainda uma outra e mais específica razão para levar a cabo tal análise, uma vez que esta obra de Lenine é comummente vista, dentro da tradição Marxista, como capaz de prover soluções teóricas e, certamente, práticas para todas as questões importantes do exercício de poder socialista.

A minha própria leitura sugere, se é que é importante, uma conclusão bastante diferente: ou seja que o Estado e a Revolução, além de estar longe de resolver os problemas com os quais diz trata, apenas serve para sublinhar a sua complexidade e enfatizar algo cuja experiência de mais de um século e meio tem, em todos os casos, fortemente — e tragicamente — servido para confirmar, nomeadamente que o exercício do poder socialista continua a ser o calcanhar de Aquiles do Marxismo. Este é o porquê, em um ano que irá testemunhar a legítima celebração do génio e proezas de Lenine, de não poder faltar uma apreciação crítica de O Estado e a Revolução. Porque é apenas sondando as falhas no argumento que este apresenta que a discussão das questões que são fundamentais ao projecto socialista pode avançar.

O ponto principal sobre o qual todo o argumento de Lenine assenta, e ao qual ele volta uma e outra vez, deriva de Marx e Engels. Uma vez que todas as revoluções anteriores haviam “aperfeiçoado” (i.e. reforçado) a máquina do estado, “a classe trabalhadora simplesmente não se pode agarrar à maquinaria do estado e usá-la para os seus propósitos”; mas sim, em vez disso, deve esmagar, partir, destruir essa maquinaria.

A crucial importância que Lenine cola a esta ideia tem sido geralmente associada a significar que o propósito de O Estado e a Revolução é contrapor uma revolução violenta a uma “transição pacífica”. Não é assim. A contraposição é certamente importante e Lenine acreditou (por acaso muito mais categoricamente que Marx) que a revolução proletária não se poderia lograr salvo por meios violentos. Mas como Lucio Collettti recentemente observou,

A polémica de Lenine não está dirigida contra aqueles que não desejam a tomada do poder. O objecto do seu ataque não é o reformismo. Pelo contrário, está dirigida contra aqueles que desejam a tomada do poder mas não, também, a destruição do velho Estado.

“Pelo contrário” na citação acima é demasiado forte: Lenine está também a arguir contra o reformismo. Mas é totalmente verdade que a sua principal preocupação no Estado e a Revolução é atacar e rejeitar qualquer conceito de revolução que não tome literalmente as ideias de Marx de que o estado burguês deve ser esmagado.

A pergunta crucial e óbvia que isto levanta é o tipo de estado pós-revolucionário que irá suceder ao estado burguês esmagado. Porque é, claro, um dos ensinamentos básicos do Marxismo e uma das diferenças básicas com o anarquismo, que enquanto a revolução proletária deve esmagar o velho estado, não abole o próprio estado: o estado continua a existir e ainda resiste por um longo tempo, embora comece imediatamente a “debilitar-se.” O que é mais notável na resposta que Lenine dá à questão da natureza do estado pós-revolucionário é o quão longe ele leva o conceito de “debilitação” do estado em O Estado e a Revolução: até agora, de facto, o estado, na manhã da revolução, não apenas começou a debilitar-se, mas está já em um estado avançado de decomposição.

Isto, deve ser assinalado imediatamente, não significa que o poder revolucionário deva ser fraco. Pelo contrário, Lenine nunca se esquece de insistir que este deve ser de facto bastante forte e que deve permanecer forte por um largo período de tempo. O que significa na verdade é que este poder não é exercido pelo estado no sentido comum da palavra, i.e. como um separado e distinto órgão de poder, mas é “democrático”; porém o “estado” passou de um “estado de burocratas” a um “estado de trabalhadores armados.” Isto, “apesar de tudo é uma máquina de estado”, mas “na forma de trabalhadores armados que avançam no sentido de criar uma milícia envolvendo toda a população.” Novamente, “todos os cidadãos são transformados em empregados contratados pelo estado, que consiste em trabalhadores armados”; e novamente, “o estado, que é o proletariado armado e organizado como classe governante.” Idênticas ou similares formulações ocorrem no trabalho.

Em A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky, escrita após a tomada do poder Bolchevique, Lenine rejeita ferozmente a visão de Kautsky de que a classe “pode apenas dominar mas não governar”: “Está igualmente tudo errado,” escreveu Lenin, “dizer que uma classe não pode governar. Tal absurdo pode apenas ser pronunciado por um parlamentário cretino que não vê nada além de parlamentos burgueses e que não reparou em nada além de “partidos de governo.”

O Estado e a Revolução é precisamente baseado na noção que o proletariado pode “governar”, e não apenas dominar, e assim o deve ser se a ditadura do proletariado é para ser mais que um slogan. “Revolução”, escreve Lenin, não consiste na nova classe comandando, governando com a ajuda da velha máquina do estado, mas na classe esmagando esta máquina e comandando, governando com a ajuda de uma nova máquina. Kautsky distorce esta básica ideia de Marxismo ou então não a entende de todo. “Esta nova máquina”, tal como aparece em O Estado e a Revolução é o estado dos trabalhadores armados. O que está envolvido aqui, em todas as suas aparências, é uma governação sem mediadores, uma noção muito mais intimamente associada com anarquismo que com Marxismo.

Isto precisa de ser analisado. Mas o que é surpreendente em O Estado e a Revolução é quão pouco é necessário analisar tal como eu me proponho mostrar.

Lenine ataca duramente os anarquistas e insiste na necessidade de manter o estado no período da ditadura do proletariado. “Não somos Utópicos,” escreve, “não 'sonhamos' em dispensar imediatamente toda a administração e subordinação.” Mas depois continua:

A subordinação, no entanto, deve ser a vanguarda armada de todos os explotados e trabalhadores, i.e. do proletariado. O começo pode e dever ser feito imediatamente, durante a noite, substituindo oficiais específicos do estado “mandões” pelas simples funções de capatazes e contabilistas, funções que estão já totalmente dentro das capacidades de um comum habitante de cidade e pode ser desempenhada por um salário de um trabalhador. Nós, trabalhadores, devemos organizar uma produção em grande escala na base do que o capitalismo já criou, confiando na nossa própria experiência como trabalhadores, estabelecendo uma disciplina severa e férrea suportada pelo estado dos trabalhadores armados. Devemos reduzir o papel dos oficiais de estado ao simples executar de forma responsável as nossas instruções, revogáveis, “capatazes e contabilistas moderadamente pagados (claro está com a ajuda de técnicos de todos tipos, classes e níveis).

Está claro que algum tipo de oficialismo continua a existir, mas está igualmente claro que funciona sob a mais rigorosa e contínua supervisão e controlo dos trabalhadores armados; e os oficiais do estado, tal como Lenin assinala repetidamente, são revogáveis em qualquer momento. Os burocratas, neste ponto de vista, não são abolidos totalmente; mas são reduzidos ao papel de subordinados na sua totalidade à execução da vontade popular, tal como esta é expressada pelos trabalhadores armados.

Quanto à segunda principal instituição do velho estado, o exército, é substituída, nas palavras citadas anteriormente, por trabalhadores armados que avançam no sentido de formar uma milícia que envolve toda a população.

Consequentemente, as duas instituições que Lenine via como “as mais características” da máquina de estado burguesa acabavam de ser radicalmente lidadas: uma delas, a burocracia, é drasticamente reduzida em tamanho e o que resta dela é totalmente subjugada pela supervisão directa popular, apoiada pelo poder da revogação imediata; enquanto a outra, o exército, é de facto abolido.

Mesmo assim, sublinha Lenine, o estado centralizado não é abolido. Mas toma a forma de “centralismo voluntário, do amalgamento voluntário das comunas na nação, da fusão voluntária das comunas proletárias com o propósito de destruir o governo burguês e a máquina de estado burguesa.”

Também aqui, as questões óbvias dizem respeito às instituições através das quais a ditadura do proletariado pode ser expressada. Pois Lenine fala em O Estado e Revolução “de uma “substituição gigantesca de certas instituições por outras instituições de um tipo radicalmente diferente.” Mas O Estado e a Revolução tem, na verdade, pouca coisa a dizer sobre as instituições, salvo algumas muito breves referências aos Sovietes de Deputados de Trabalhadores e Soldados.

Lenine reserva alguns dos seus especiais epítetos para uma forma de instituição representativa, nomeadamente “o podre e venal parlamentarismo da sociedade burguesa.” No entanto, “a saída do parlamentarismo não é, claro está, a abolição das instituições representativas nem do princípio da eleição, mas sim a conversão das instituições representativas de lojas de conversa em “corpos de trabalho.” As instituições que incorporam este princípio são, tal como já foi referido, os Sovietes de Deputados de Trabalhadores e Soldados.

Em uma ocasião, Lenine afirma que “a simples organização de pessoas armadas (tais como os Sovietes de Deputados de Trabalhadores e Soldados...); e em outra, “a conversão de todos cidadãos em trabalhadores e outros empregados a um “sindicato” gigantesco — todo o estado — e a total subordinação de todo o trabalho deste sindicato a um estado genuinamente democrático, o estado dos Sovietes de Deputados dos Trabalhadores e Soldados”; E a terceira referência é na forma de pergunta: “Kautsky revela uma 'reverência supersticiosa' aos 'ministros'; mas por que não podem estes ser substituídos, por exemplo, por comités de especialistas trabalhando sob a soberania de omnipotentes sovietes de deputados dos trabalhadores e soldados?”

Deve ser assinalado, no entanto, que os Sovietes são “soberanos e omnipotentes” em relação ao “comité” que Lenine refere. No que diz respeito aos seus constituintes, os deputados são, claro está, sujeitos a revogação a qualquer momento: a “representação” deve estar aqui concebida como operando dentro dos estreitos limites determinados pela governação popular.

O “estado” que Lenine fala em “O Estado e a Revolução” é portanto um estado em que o exército deixa de existir. Onde o que resta do oficialismo passa a estar totalmente subordinada aos trabalhadores armados; e onde todos os representantes desses trabalhadores armados estão similarmente subordinados a estes. É este “modelo” que parecia justificar a discórdia avançada anteriormente, que o “estado”, que expressa a ditadura do proletariado, esteja no dia seguinte à revolução em um estado avançado de decomposição.

Os problemas que isto levanta são enormes; e o facto de que estejam todos ignorados, em O Estado e a Revolução, não podem ficar fora de consideração em uma análise realista do assunto.

O primeiro destes problemas é o da mediação política do poder revolucionário. Com isto quero dizer que a ditadura do proletariado é obviamente inconcebível sem algum tipo de grau ou pelo menos de articulação política e liderança e isto implica organização política. Mas o facto extraordinário, dada a estrutura de pensamento de Lenine, é que o elemento político que ocupa um lugar tão crucial no seu pensamento, ou seja, o partido, receba tão escassa atenção em O Estado e a Revolução.

Há três referências ao partido na obra, duas das quais sem relação directa sobre a questão da ditadura do proletariado. Uma destas é uma observação casual relativamente à necessidade do partido se envolver na luta “contra a religião que estupidifica as pessoas”; a segunda, igualmente casual, assinala que “ao revisar o programa do nosso Partido, devemos por todos os meios ter em consideração os conselhos de Engels e Marx de maneira a chegar mais perto da verdade, para restaurar o Marxismo, livrando-o das suas distorções e para guiar a luta da classe trabalhadora à sua emancipação de uma forma mais correcta.” A terceira e mais relevante referência é como se segue: “Ao educar os trabalhadores do partido, o Marxismo educa a vanguarda do proletariado, capaz de assumir o poder e liderar todo o povo em direcção ao socialismo, de dirigir e organizar o novo sistema, de ser o professor, o guia e o líder de todos os trabalhadores e explotados e de organizar a sua vida social sem a burguesia e contra a burguesia.”

Não fica inteiramente clara com esta passagem se é o proletariado que é capaz de assumir o poder, liderar, dirigir, organizar etc.; ou se é a vanguarda do proletariado, i.e. o partido dos trabalhadores, que é aqui designado. Ambas interpretações são possíveis.

Por um lado, a questão da liderança política é deixada totalmente em suspenso. Deve ser recordado que também foi deixada por Marx nas suas considerações sobre a Comuna de Paris e da ditadura do proletariado. Mas não é algo que pode, para mim, ser deixado em suspenso na discussão da governação revolucionária — salvo em termos de uma teoria de espontaneidade que constitui uma evasão do problema em vez da sua resolução.

Por outro lado, a segunda interpretação, que encaixa melhor com tudo o que sabemos da análise de Lenine da importância do partido, serve apenas para levantar a questão sem lidar com ela. Essa questão é obviamente absolutamente primordial para que se entenda totalmente o sentido do conceito de ditadura do proletariado: qual é a relação entre o proletariado, cuja ditadura a revolução está sentenciada a estabelecer, e o partido que educa, lidera, dirige, organiza etc.?

É apenas na base da assumpção de uma relação simbiótica e orgânica entre os dois que a questão desaparece completamente; mas apesar de tal relação possa ter existido entre o Partido Bolchevique e o proletariado russo nos meses que precedem à Revolução de Outubro, i.e. quando Lenine escreveu O Estado e a Revolução, a assumpção de que este tipo de relacionamento possa ser tomada como um facto automático e permanente pertence apenas à retórica de poder e não à sua realidade.

Se é o partido ou o proletariado que é, na passagem acima citada, designada para liderar toda a população em direcção ao socialismo, o facto é que Lenine afirmou, está claro, o papel central do primeiro assim que os Bolcheviques tomaram o poder. Na verdade, em 1919 estava impondo a sua orientação política de forma exclusiva. “Sim, a ditadura de um partido!” disse ele na altura: “Estamos baseados [no partido] e não nos podemos afastar desta base, uma vez que este partido ao longo de décadas ganhou para si mesmo a posição de vanguarda de todo o proletariado fabril e industrial.” De facto, “a ditadura da classe trabalhadora e levado a cabo pelo partido dos bolcheviques que, desde 1905 ou ainda antes, se vem unindo a todo proletariado revolucionário.”

Mais tarde, tal como E. H. Carr igualmente assinala, descreve uma tentativa de distinção entre a ditadura da classe e a ditadura do partido como prova de uma “inacreditável e inextricável confusão de pensamento”; e em 1921, declarava-se abertamente contra os criticismos da Oposição Operária afirmando que “... a ditadura do proletariado é impossível excepto através do Partido Comunista.”

Qual é a relação entre o proletariado, cuja ditadura a revolução está sentenciada a estabelecer, e o partido que educa, lidera, dirige, organiza?

Este pode bem ter sido o caso mas é óbvio de um “modelo” totalmente diferente no exercício de poder revolucionário daquele apresentado em O Estado e a Revolução e que transforma radicalmente o significado associado à “ditadura do proletariado.” No mínimo dos mínimos levanta da forma mais acentuada possível a questão da relação entre o partido governante e o proletariado. Tampouco é o partido que está aqui em questão, mas sim a liderança do partido, de acordo com aquela grande dinâmica que Trotsky tinha profeticamente sublinhado após a cisão no Partido [Operário] Social Democrata Russo entre os Bolcheviques e Mencheviques, nomeadamente que “a organização do partido [o caucus] inicialmente substitui-se ao partido como um todo; depois o Comité Central substitui-se à organização; e finalmente um único “ditador” substitui-se ao Comité Central...”

Durante um tempo após a revolução, Lenin conseguiu crer e declarar que não havia conflito entre a ditadura do proletariado e a ditadura do partido; e Estaline viria a fazer dessa declaração a base e legitimação da sua própria governação absoluta. No caso de Lenine, muito poucas coisas são uma medida tão significativa de sua grandeza como a que teve, enquanto estava no poder, para questionar essa identificação e estar obcecado pela ideia de que esta não pode ser assumida como garantida. Ele podia muito bem, como os seus sucessores o fizeram, tentado esconder de si mesmo a dimensão da disparidade entre a afirmação e a realidade: que ele não o fez e que morreu bastante perturbado não é a parte menos importante do seu legado, no entanto não é a parte do seu legado que é mais provável de ser evocado e muito menos celebrado, no país da Revolução Bolchevique.

Claro que é muito tentador atribuir a transformação da ditadura do proletariado, tal como apresentada em “O Estado e a Revolução em uma ditadura do partido, ou melhor dos seus líderes, às circunstancias particulares da Rússia após 1917 — ao atraso, guerra civil, intervenções estrangeiras, devastação, privações massivas, insatisfação popular e o malogro de outros países para apelar à revolução.

A meu ver, tem que se resistir a essa tentação. Claro que as circunstancias adversas com que os Bolcheviques tiveram que lidar foram reais e bastante opressivas. Mas iria argumentar que estas circunstancias apenas agravaram, ainda que certamente a um grau extremo, um problema que em qualquer caso é inerente ao conceito de ditadura do proletariado.

O problema levanta-se porque essa ditadura, mesmo nas circunstancias mais favoráveis, não é realizável sem mediação política; e porque a necessária introdução da noção de mediação política no “modelo” afecta consideravelmente este último, para dizer o menos. Este é particularmente o caso se a mediação política é concebida em termos de uma governação de um único partido. Para tal governação, mesmo que o “centralismo democrático” seja muito mais flexível do que alguma vez o tenha sido na prática, torna muito mais difícil, e pode excluir, a institucionalização do que pode ser chamado, de forma inexacta, pluralismo socialista.

Isto pode ser excepcionalmente difícil de alcançar e pode até ser impossível na maioria das situações revolucionárias. Mas é igualmente o reconhecer que a não ser que se faça a adequada provisão para canais alternativos de expressão e articulação política, cujo conceito de governação de partido único exclui por definição, qualquer conversa sobre democracia socialista é apenas conversa fiada.

Um governo de partido único postula uma vontade proletária revolucionária e indivisível da qual é a sua expressão natural. Mas este não é um postulado razoável sobre o qual se deve basear a “ditadura do proletariado”: em nenhuma sociedade, seja lá como esta estiver constituída, há uma única e indivisível vontade popular. É precisamente por isto que o problema da mediação política se levanta. Não temos que pensar que este problema é insuperável. Mas a sua resolução requer, para começar, que este seja pelo menos reconhecido.

A questão do partido, no entanto, traz de volta a questão do estado. Quando Lenine disse, no caso da Rússia, que a ditadura do proletariado era impossível excepto através do Partido Comunista, o que ele estava também a insinuar era que o partido deve infundir a sua vontade e assegurar o seu domínio sobre as instituições que haviam sido designadas, em O Estado e a Revolução, como representativas dos trabalhadores armados.

Em 1921 apontou que “como partido de governo não podemos deixar de fundir as 'autoridades' dos Sovietes com as 'autoridades' do partido — estão fundidas connosco e continuarão a estar”; e em um dos seus últimos artigos no Pravda, escrito nos inícios de 1923, sugeriu que “a união flexível dos Sovietes com o elemento partido, que tinha sido uma 'fonte de enorme força' na política externa, será pelo menos de igual força (penso que com muito mais força) se aplicada a todo o aparato estatal.”

Mas isto significa que se o partido deve ser forte também o deve ser o estado, que serve como órgão da sua governação. E de facto, já em Março de 1918, Lenine dizia que “de momento defendemos incondicionalmente o estado”; E para a questão que ele próprio se colocou:”Quando é que o estado se começará a desvanecer?” deu a resposta: “ Devemos ter tempo para realizar mais que dois congressos antes que possamos dizer, vejam como o nosso estado se está a desvanecer. Até lá é muito cedo. Proclamar antes do tempo o desvanecimento do estado será uma violação de perspectiva histórica.”

Em nenhuma sociedade, seja lá como esta estiver constituída, há uma única e indivisível vontade popular.

Há um sentido em que isto é perfeitamente consistente com O Estado e a Revolução; e outro, mais importante, em que não é. É consistente no sentido em Lenine sempre contemplou a existência de um poder forte após a revolução ser alcançada. Mas é inconsistente no sentido em que ele também, em O Estado e a Revolução, contemplou que este poder seria exercido, não pelo estado como é comummente entendido, mas pelo “estado” de trabalhadores armados. Certo é que o estado que ele falava após a revolução não era o estado que ele falava quando escreveu O Estado e a Revolução.

Também aqui, creio que atribuir a inconsistência simplesmente às razões particulares russas que os bolcheviques enfrentaram é insuficiente. Porque me parece que o tipo de poder popular directo que Lenine descreve na obra pertence de facto, em quaisquer circunstancias que a revolução ocorra, a um futuro razoavelmente distante, em que, tal como Lenine o colocou, “a necessidade de violência contra a população em geral, da subordinação de um homem pelo outro e de uma secção da população por outra irá desaparecer totalmente assim que as pessoas se acostumem a observar as condições básicas da vida social sem violência e sem subordinação.” Até essa altura, o estado subsiste, mas não é provável que seja o tipo de estado que Lenine falava em O Estado e a Revolução: é um estado sobre o qual não é necessário que se use aspas.

Na maneira de Lenine lidar com o assunto, pelo menos em O Estado e a Revolução, dois “modelos” estão contrapostos da maneira mais vincada possível: ou há o “velho estado”, como o seu aparato militar-burocrático, i.e. o estado burguês; ou há o estado de tipo “transitório” da ditadura do proletariado que, como eu argumentei, quase não é estado nenhum. Mas se, como eu acredito, este último tipo de “estado” representa, na manhã da revolução e por um posterior longo período, um atalho que a vida real não permite, as formulações de Lenine servem para evitar em vez de encontrar a questão fundamental eque está no centro do projecto socialista, nomeadamente qual seria o tipo de estado, sem aspas, congruente com o exercício do poder socialista.

A este respeito, é preciso que seja dito que o legado de Marx e Engels é ainda mais incerto do que o de Lenine permite. Ambos homens conceberam-no, sem qualquer dúvida, como uma das tarefas principais, e de facto a principal tarefa da revolução do proletariado é “esmagar” o velho estado; e é também totalmente verdade o que Marx disse sobre a Comuna de Paris — que esta era “a forma política, finalmente descoberta, sob a qual se deve desenvolver a emancipação económica do trabalho.” Mas não é irrelevante notar que, dez anos após a comuna, Marx também escreveu que “além do facto de que isto foi apenas o levantamento de uma cidade sob condições excepcionais, a maioria da Comuna não era socialista, nem o podia ser.”

Nem, claro, alguma vez Marx descreveu a comuna como a ditadura do proletariado. Somente Engels o disse, no prefácio de 1891 de A Guerra Civil em França:

Ultimamente, a filisteia social-democracia uma vez mais se encheu com o terror total nas palavras: Ditadura do proletariado. Bom, cavalheiros, sabem a que esta ditadura se parece? Olhem para a Comuna de Paris. Essa era a Ditadura do Proletariado.

Mas no mesmo ano, 1891, Engels também disse, em Para a Crítica do Projecto de Programa Social-Democrata de 1891, que “se uma coisa é certa é que o nosso partido e a classe trabalhadora somente pode chegar ao poder na forma de uma república democrática. Esta é mesmo a forma específica para a ditadura do proletariado tal como a Grande Revolução Francesa já demonstrou...”

Comentado sobre isto, Lenin declara que “Engels repetiu aqui de uma forma particularmente notável a ideia fundamental que corre em todos os trabalhos de Marx, nomeadamente que a república democrática é a abordagem mais próxima da ditadura do proletariado.” Mas a “abordagem mais próxima” não é “forma específica”; e pode ser duvidável que a noção da república democrática como a abordagem mais próxima para a ditadura do proletariado seja uma ideia fundamental que corre por todos os trabalhos de Marx. Também, no prefácio de A Guerra Civil em França, Engels disse que o estado que

no melhor dos casos, é um mal que é legado ao proletariado vitorioso na luta pela dominação de classe e cujos piores aspectos este não poderá deixar de cortar, imediatamente, o mais possível, tal como a Comuna teve que fazer, até que uma geração crescida em novas e livres condições sociais se torne capaz de se desfazer de todo o lixo do Estado.

É com base em tais excertos que o líder Menchevique, Julius Martov, seguindo Kautsky, escreveu após a Revolução Bolchevique que Engels ao falar na ditadura do proletariado não está a usar o termo “para indicar uma forma de governo, mas para designar a estrutura do poder estatal.”

Isto, parece-me ser uma leitura errada de Engels e também de Marx. Pois ambos homens certamente pensaram que a ditadura do proletariado significava não apenas “a estrutura social do poder estatal” mas também e bastante enfaticamente “uma forma de governo”; Lenine está muito mais perto deles quando afirma em O Estado e a Revolução de “uma substituição gigantesca de certas instituições por instituições de um tipo totalmente diferente.”

O ponto, no entanto, é que mesmo tendo plenamente em conta o que Marx e Engels têm a dizer sobre a comuna, estes deixaram estas instituições de tipo totalmente diferente para ser desenvolvidas por novas gerações; E assim o fez Lenine, apesar de O Estado e a Revolução.

Isto, no entanto, não diminui a importância desta obra. Apesar de todas as questões que deixa por resolver, carrega uma mensagem cuja importância a passagem do tempo só serviu para demonstrar: é que o projecto socialista é um projecto anti-burocrático e que no seu centro está uma visão de uma sociedade em que

Pela primeira vez na história da sociedade civilizada, a massa da população se irá levantar para tomar um papel independente, não apenas em votações e eleições, mas também na administração diária do estado. Baixo o socialismo todos irão governar à vez e rapidamente se habituarão a que ninguém governe.

Esta era também a visão de Marx; e um dos méritos históricos de Estado e a Revolução é tê-la trazido de volta à posição que merece na agenda socialista. O seu segundo mérito histórico é o de ter insistido que isto não pode ser permitido ficar em uma longínqua distância, cintilando uma esperança que poderia ser ignorada facilmente no presente; mas a sua actualização deve ser considerada como uma parte imediata da teoria e prática revolucionária.

Argumentei aqui que, em O Estado e a Revolução, Lenine sobrestimou até onde o estado poderia ser levado a “desvanecer” em qualquer situação pós-revolucionária concebível. Mas é bem possível que a integração desse tipo de sobreavaliação no pensamento socialista seja a condição necessária para a transcendência do “pragmatismo” cinzento e burocrático que infestou tão profundamente a experiência socialista do último meio século.

Sobre o autor

Ralph Miliband was a prominent Marxist sociologist and the author of numerous books on socialism and politics, including Parliamentary Socialism and The State in Capitalist Society.

"Economia de mercado" ou capitalismo financeiro oligopólico?

Mitologia de mercado e realidade capitalista

Samir Amin



Tradução / “Capitalismo” e “economia de mercado” não são sinônimos, como o discurso político dominante e economistas convencionais teriam um dia acreditado. A característica específica do capitalismo, como um sistema, é a de que se baseia na propriedade privada dos meios de produção; uma propriedade que por definição é de uma minoria privilegiada. Essa propriedade privada (diferentemente da propriedade da terra) tomou a forma de direitos exclusivos sobre equipamentos importantes ligados às modernas tecnologias de produção, da primeira revolução industrial do final do século XVIII aos dias atuais. A maioria dos não-proprietários é obrigada a vender a sua força de trabalho: o capital emprega trabalho; o qual não tem livre-arbítrio sobre os meios de produção. A divisão burguesia/proletariado define o capitalismo; o mercado é somente a forma administrativa da economia social do capital.

Essa definição coloca a especificidade do capitalismo não “dentro do mercado”, mas “além do mercado”, no “monopólio” que a propriedade privada representa. Para Marx, e, após dele, Braudel e até Keynes em alguma medida, isso era um fato totalmente notório. Entretanto, hoje, a ideologia dominante pretende ignorar essa importância decisiva, ideologicamente substituindo-a pela noção abstrata de “mercado”.

A burguesia se modificou no curso do desenvolvimento do capitalismo. Embora essa classe sempre tenha exercitado coletivamente o poder dominante econômico, social e político em todos os períodos da história moderna, facilitando sua reprodução e desenvolvimento, também tem sido fortemente hierarquizada internamente. Sempre existiram facções que governaram as esferas dominantes do sistema econômico, capazes de exercer o poder hegemônico sobre a classe durante algum tempo e que, em tais casos, cobram uma taxa sobre o lucro coletivo produzido pela exploração do trabalho; uma decisiva “renda monopolista”. Aparentemente, essa cobrança tem se dado por mecanismos de mercado. Mas isso é só uma aparência, sendo o próprio monopólio social e político a verdadeira forma pela qual a apropriação dos recursos se apresenta.

Em certas condições, o poder desse monopólio foi reduzido pela intervenção política dos estratos de “médios” (e até de “pequenos”) proprietários, com a conseqüente emergência de uma ampla aliança burguesa – necessária, entre outras coisas, pelo imperativo de enfrentar as classes populares. Esse tem sido o caso em alguns períodos no qual a busca por uma ampla aliança para estabilizar o sistema tem surgido em bases momentâneas para um “compromisso social capital/trabalho” menos desconfortável aos trabalhadores. Tal foi o caso do capitalismo do Estado de Bem-Estar Social, após a Segunda Guerra Mundial. Isso é ainda importante para situar os conflitos sociais e políticos nas específicas condições relativas à cada uma das fases da história concreta do capitalismo atualmente existente. As características intrínsecas de uma determinada fase são produtos complexos das transformações internas do sistema produtivo (tecnologias, grau de descentralização do capital etc.) e da correlação de forças sociais e políticas do momento em consideração.

O estrato dominante do capital deveria ser caracterizado como “capital financeiro oligopólico”, não no sentido de se referir aos capitalistas operando no setor financeiro do sistema (bancos e outros), mas no sentido dos capitalistas que têm acesso privilegiado ao capital necessário para o desenvolvimento de suas atividades, algo que pode se referir a vários setores da economia (produção industrial, comercialização, serviços financeiros, pesquisa e desenvolvimento). Esse acesso privilegiado lhes dá uma autoridade poderosa e particular no delineamento dos mercados que eles regulam para o seu lucro. São especificamente esses grupos oligopolistas da burguesia que, na presente fase, dominam o mercado financeiro (principalmente, as taxas de juros) e a economia global (especialmente, a taxa de câmbio). Eles comandam os instrumentos decisivos nos setores dominantes da economia: investimentos externos, o grande comércio internacional das commodities, pesquisa de alta tecnologia e fusões.

O poder do capital financeiro oligopólico é tamanho que compete e contrapõe seus próprios interesses aos do Estado – o representante coletivo do capital e o administrador do bloco social hegemônico. É esse bloco social hegemônico, sob a direção do Estado, que assegura a valorização e acumulação do capital. Foi esse bloco que, sob algumas circunstâncias (de Bem-Estar Social), chegou tão longe a ponto de considerar as necessidades do compromisso capital/trabalho.

Em algumas circunstâncias, o Estado intervém para restringir os poderes das altas finanças. Isso pode lhe dar os meios para regular os mercados financeiros. O banco central, então, exerce decisiva autoridade para determinar taxas de juros, controlar relações internacionais através do poder de variar a cotação da taxa de câmbio etc. O Estado algumas vezes vai além e impõe sua tutelagem sobre pesquisa e decisões acerca dos grandes investimentos. Essas práticas podem ultrapassar as meras regulamentações dos gastos públicos e do endividamento, assim como das chamadas políticas monetárias. O “velho” Keynes lutou para encorajar tais práticas.

Todavia, em outras circunstâncias, como no atual neoliberalismo, as altas finanças conseguem domesticar o Estado e reduzi-lo à condição de instrumento a seu serviço. As privatizações sem limites, a “desregulamentação” de mercados (entendida como a abolição das intervenções reguladoras do Estado, abdicando do controle dos mercados em benefício das altas finanças) e a retirada do Estado são então orquestradas e organizadas em um efetivo cluster doutrinal e ideológico.

Nós estamos vivendo esse tipo de era. A razão para tal evolução não reside nas transformações objetivas do sistema produtivo relacionadas à concentração e à centralização do capital, às revoluções tecnológicas correntes etc. Essas transformações são reais e expressam seu poder na forma pela qual a autoridade de comando das altas finanças é exercida. No entanto, essencialmente as causas sociais e políticas são as origens da reviravolta na correlação de forças que tem permitido o controle direto do Estado pelas altas finanças. Nesse ponto, nós temos que olhar a erosão e exaustão das formas de regulação da reprodução social e econômica típica do período pós-Segunda Guerra. Essas formas – o Estado de Bem-Estar no Ocidente desenvolvido, o socialismo atualmente existente no bloco oriental, nacional-populismo no terceiro mundo – ditaram as relações sociais no interior das três constelações geopolíticas em consideração e suas relações internacionais. Esse capítulo da história ficou para trás. A exaustão – ou mesmo o colapso – dos sistemas do pós-guerra reverteu a correlação de forças, e resultou em vantagens diretas para o capital. As altas finanças encontraram-se capazes de agarrar os postos de comando.

Financeirização e poder

A “financeirização do sistema” é nada menos que a expressão da nova política econômica governada pelos interesses do capital financeiro oligopólico. Nós devemos a melhor análise dessa estratégia – porque é uma estratégia e não uma “necessidade objetiva” das altas finanças – a François Morin (ver: Le nouveau mur de l’argent, Seuil, 2006). Eu apresentarei a seguir os pontos essenciais da sua análise.

Há um grandioso oligopólio composto de cerca de dez bancos internacionais (seguidos por cerca de vinte outros com menor capacidade), uma rede de investidores institucionais (fundos de pensão e fundos de investimentos coletivos, entre outros) administrados por subsidiárias ou associadas a esses bancos, companhias de seguro e grupos de grandes firmas, também em grande medida ligadas aos bancos dominantes. Esse oligopólio financeiro é o chefe efetivo dos cinqüenta ou cem maiores grupos financeiros, industriais, do agronegócio, comércio e transporte.

O oligopólio não é governado pelas leis da “competição”, mas por uma combinação de competição e acordos oligopolistas – freqüentemente chamados de “consensos” – que são por si próprios instáveis no sentido de que um momento dominado por consenso (o uso do “nosso”) pode ser seguido por umoutro de competição feroz. Isso tomaria a forma de conflito entre Estados já que, embora cada uma das unidades que compõe o oligopólio opere na base transnacional da economia mundial, cada um deles continua nacional pela aderência ao seu comando superior à burguesia de um Estado particular.

O quase-monopólio que isso representa permitiu que as altas finanças da tríade (EUA, Europa e Japão) tomassem o controle do mercado financeiro global, privando os ministros das finanças e bancos centrais de suas funções como autoridades capazes de fixar taxas de juros, segundo seu julgamento. Na fase precedente do capitalismo (o pós-guerra), políticas de Estado, via bancos centrais, determinaram que as taxas de juros fossem geralmente negativas em termos reais (abaixo da inflação). Decisões de investimento, amplamente livres das estruturas de endividamento financeiro, foram administradas diferentemente e de outras formas: a expansão do volume de atividades e produção de uma firma por autofinanciamento, acesso aos empréstimos bancários (em sua maioria públicos) e auxílio estatal. Hoje dizem que aquelas formas não permitiam a “ótima alocação” do capital. O que as autoridades econômicas deliberadamente não disseram é que o sistema que o substituiu – o controle dos mercados pelas altas finanças – não é mais capaz de garantir essa “ótima alocação”. Invariavelmente, é um conceito falso, uma dedução de uma doutrina (disfarçada de teoria) que afirma as propriedades atribuídas a um “mercado” abstrato. A teoria daquela abstração generalizada de mercado é de um capitalismo imaginário que substitui o existente.

As altas finanças dominantes, então, definiram como objetivo determinar as taxas de juros em um nível alto (positivo) – o que têm conseguido. A meta é, por meio do controle do mercado financeiro exercido pelo oligopólio, impor uma significativa taxa no lucro (o ganho de valor – grosseiramente o PIB menos salários e outras remunerações do trabalho) para beneficiar as altas finanças. Essa taxa não garante minimamente uma alocação de capital como economistas convencionais fazem acreditar. Tampouco propicia um crescimento elevado. O que ocorre é exatamente o oposto: trata-se da fonte primária da relativa letargia da economia produtiva. Nós sabemos que as taxas de crescimento atual estão em níveis que dificilmente atingem metade daquelas do Estado de Bem-Estar.

Por outro lado, a crescente intervenção das altas finanças nos países do Sul foi imposta a Estados mais ou menos relutantes pelo FMI [Fundo Monetário Internacional] e pela OMC [Organização Mundial do Comércio], entre outros, como instrumentos do imperialismo coletivo da tríade. Os meios das conquistas eram: dívida, promessas (raramente cumpridas) de abertura dos mercados do Norte aos produtos do Sul, e a abertura das contas de capital nacional para as altas finanças, além da submissão aos mercados de câmbios pseudoflutuantes. As intervenções das altas finanças nesses mercados de câmbios eliminaram, praticamente, os recursos dos Estados nacionais no Sul e permitiram que as finanças transnacionais determinassem as taxas de câmbio, as quais elevaram ao máximo suas taxações sobre a produção da periferia.


Tabela resumida (valores em trilhões de dólares, 2002)
Transações de bens e serviços (PIB mundial)32,3
Transações internacionais384,4
Transações de comércio internacional8,0
Transações de instrumentos derivativos financeiros699,0

Os números acima obviamente não são rigorosamente comparáveis. (Essa é a razão da linha separando o PIB mundial das transações financeiras mundiais.) Transações internacionais (das quais apenas uma pequena porção se refere ao comércio internacional) e transações de instrumentos derivativos financeiros são apresentadas em termos nominais. Elas não têm clara relação com o cálculo do PIB mundial. Entretanto, o encolhimento das transações associadas ao PIB mundial em relação às transações financeiras mundiais é, ao menos intuitivamente, óbvio.

As transações de bens e serviços (PIB mundial) representaram 3% das operações monetárias e financeiras em 2002. Transações referentes ao comércio internacional, dificilmente, chegaram a 2% das operações internacionais. Negociações de compras e vendas de cotas e ações em mercados organizados (operações que supostamente demonstrariam a excelência dos mercados de capitais) totalizam apenas 3,4% das negociações monetárias! São as transações de produtos securitários – demandados para cobrir os riscos do operador – que “literalmente explodiram”. Morin, acertadamente, chama nossa atenção para esse fato importante.

Catástrofe financeira iminente

A “financeirização” da economia mundial descrita anteriormente (tomada de Morim) não é o meio de garantir a melhor alocação de recursos, nem de encorajar o crescimento. Entretanto, seria ao menos “viável” no sentido restrito da vantagem de reduzir o risco de uma catástrofe financeira?

Morim demonstrou que isso é muito ilusório. As altas finanças têm inventado meios que permitem aos operadores de mercados financeiros protegerem-se individualmente de muitos dos riscos em consideração. A invenção dos “instrumentos financeiros derivativos”, dos quais numerosas e complexas técnicas são somente conhecidas por aqueles operadores, responde parcialmente a essa necessidade. Tal invenção tem estimulado fluxos financeiros na escala mencionada acima. A taxa das operações de securitização em relação à produção e ao comércio internacional era de 28 para 1 em 2002 – desproporção que vinha crescendo rapidamente nos últimos 20 anos de forma nunca antes verificada em toda a história do capitalismo. Mas a aparente redução para capitais individuais tem se transformado em um aumento do risco coletivo, que ultimamente atinge as unidades individuais do sistema. O indicador do crescimento daquele risco é dado pela expansão sem fim do setor financeiro, volume que foi multiplicado por dez na década de 1993-2003.

Diante da evidência do crescente risco de uma crise financeira mundial de escala incontrolável, as políticas econômicas e sociais aplicadas pelos Estados, seguindo a linha de dominação das altas finanças, são de transferir o risco do capital para o trabalho. Aqui, novamente, os meios são conhecidos: a reconstrução de um significante exército de reserva de desempregados, insegurança trabalhista, redução dos direitos e dos benefícios sociais dos trabalhadores e substituição das pensões indexadas por vários esquemas de investimentos financeiros. Esses meios são acompanhados por uma política de pseudo-solidariedade entre os setores da classe média, empregadores em geral e as altas finanças. Com o estímulo à poupança na forma de ações privadas e mercado de bônus, esperam criar uma aparente solidariedade. A “teoria” do capitalismo patrimonial – um capitalismo que, de alguma forma, seria propriedade de todos – tem sido construída para dar aparente credibilidade e legitimidade para a transferência desproporcional de risco aos “pequenos acionistas” e trabalhadores.

O sistema sob consideração, visto globalmente, se apresenta como um grande ídolo, mas com pés de barro. Ele certamente vai colapsar. Mas quando? Sob o efeito de quais maiores causas? Para o benefício de qual alternativa?

Instabilidade financeira – cuja ocorrência é sempre inesperada – não constitui, na minha opinião, a maior razão para a insustentabilidade do sistema cujas raízes são de natureza política e social. As políticas que acompanham a dominação das altas finanças levam a um indefinido crescimento da desigualdade na distribuição de renda. Além das conseqüências estritamente econômicas da evolução nessa direção que é estável e permanente – isto é, a tendência à estagnação do crescimento pela falta de demanda efetiva –, o modelo do capital financeiro oligopólico é socialmente intolerável e, provavelmente, será também politicamente intolerável. Em termos globais, o sistema leva a uma polarização acentuada, permanente dependência dos países do Sul ditos “emergentes” (China, Índia, Sudeste Asiático e América Latina) e a destruição (quase genocida) dos países ditos “marginalizados” (África em particular), atingindo os povos que perderam a sua utilidade para o processo de acumulação de capital e onde os recursos naturais (petróleo, minerais, madeira e água) interessam ao capital dominante. São muitos os motivos para acreditar que os conflitos sociais e políticos em todas as regiões do mundo, tanto no Norte como do Sul, e os confrontos internacionais (Norte contra o Sul) devem levar ao fim da atual dominação das altas finanças.
Altas finanças plutocráticas e poder monopolista

O capitalismo atualmente existente não é mais o que conhecíamos há apenas três décadas. Nós atingimos hoje uma fase de centralização do capital sem comparação, com aquela característica do capitalismo histórico durante os cinco séculos de seu desenvolvimento.

Monopólios têm sempre existido, desde sua origem na era mercantilista (companhias de navegação) passando pelo século XIX dominado pela ampla industrialização (no setor financeiro as “200 famílias” na França) e pelo fim daquele século com a emergência dos “monopólios” corporativos gigantes (como descrito por Hobson, Hilferding e Lenin). Todavia, não importa quão decisiva tenha sido a sua intervenção no plano econômico para a evolução global do sistema – e de fato sempre foi –, o capitalismo como um todo foi organizado na forma de milhões de companhias industriais e comerciais de médio porte e camponeses. Os fazendeiros ricos eram regulados por uma variedade de mercados (apesar de não serem “puros e perfeitos”, eram realmente competitivos) que em grande medida escapavam das intervenções dos monopólios. Estes operavam em certos setores reservados – grande comércio mercantilista, financiamento estatal, comércio internacional de commodities básicas, empréstimos internacionais e, mais tarde, alguns importantes setores de massa de produção industrial e comércio, banco e seguros. Essas áreas privilegiadas com monopólio de poder eram em grande maioria nacionais, apesar da sua expansão além das fronteiras. Tal situação deu às políticas de Estado verdadeira eficácia na administração da economia como um todo.

O capitalismo hoje é totalmente diferente. Somente um punhado de oligopólios ocupa todas as esferas dominantes na condução dos negócios nacionais e mundiais. Não são estritamente oligopólios financeiros, mas “grupos” com as atividades produtivas industriais, comerciais, de serviços e agronegócio, evidentemente, agregados pelas atividades financeiras. As finanças governam principalmente no sentido que o sistema é globalmente “financeirizado”, ou seja, dominado pela lógica financeira. São poucos grupos: ao redor de 30 gigantes, uns outros mil, e não mais. Nesse sentido, alguém pode falar sobre uma “plutocracia”, mesmo se aquela palavra pode preocupar aqueles que lembram seu abusivo uso pelos demagogos do fascismo.

Aquele grupo plutocrático domina a globalização corrente, formada (para não dizer “construída”) para servir somente aos seus estreitos interesses. Substituiu a antiga “divisão internacional (desigual) do trabalho”, baseada na contraposição centro/periferia, em uma geografia financeira – uma integração de “territórios” transnacionais. Essa geografia é produto de estratégias dos conglomerados, e não uma realidade externa a eles. Ele, por sua vezMolda o que se mostra como “comércio internacional” assim como o que se tornou realidade e em uma proporção crescente a transferência de riquezas em benefício de alguns grupos plutocráticos. O deslocamento, como analisada em suas várias maneiras por Charles Albert Michalet (ver La mondialisation, la grande rupture; Paris, La Découverte, 2007), constitui as formas de modelar o mundo.

Essa mesma plutocracia governa os mercados financeiros globalizados e é capaz de determinar as taxas de juros mais favoráveis para sua operação, constituindo uma massiva margem sobre o valor produzido pelo trabalho social – como diferenciais na taxa de câmbio também servem aos seus propósitos

Nesse contexto, milhões de companhias privadas ditas de “médio porte” (e até muitas “grandes”) e fazendeiros capitalistas não desfrutam mais de uma verdadeira autonomia em suas decisões. Eles são, de certa maneira, permanentemente forçados a se ajustarem às estratégias determinadas pela plutocracia. Essa situação é nova, qualitativamente diferente daquela que caracterizou o capitalismo histórico nas fases prévias do seu desenvolvimento. O mercado evocado pelos economistas convencionais não mais existe. É agora uma completa farsa.

Essa análise não é apenas minha; é amplamente compartilhada entre aqueles analistas críticos que recusam a se alinhar com o discurso convencional da economia dominante. A questão que mereceria ser colocada no centro da discussão seria saber se essa transformação é “final” ou, ao contrário, “insustentável”. A resposta a essa pergunta determina os pontos-chaves para nós.

Alguns – talvez muitos – consideram essa transformação como final, mesmo se ela é “desagradável”. A única coisa possível é ajustar, ou melhor, submeter esse movimento para dar algum espaço para novas considerações sociais, mas nada mais. A dominação seguida das estratégias desses grupos e o perfil baixo dos Estados no contexto da globalização de mercado devem ser aceitos. Isso está no centro da perspectiva dos socialdemocratas que se tornaram social-liberais. Alguns ainda vêem nessa alteração uma transformação “positiva” que, em si, indica um bom futuro. É discutido se o capitalismo constitui um horizonte insuperável (uma concepção que sublinha a opção social-liberal) ou se ele vai se superar através próprio do movimento globalizador (identificamos Negri nesse ponto). Ambas as perspectivas chegam ao mesmo ponto: não há necessidade de agir contra a transformação em consideração. Adeus socialismo, uma ultrapassada utopia do século XIX. Adeus marxismo.

Solidariedade entre todos os trabalhadores do planeta

Minha análise se distancia dessa. A transformação corrente é evidência do obsoleto (“senil”) estágio no qual o capitalismo se encontra; não apenas porque ele se tornou o inimigo da humanidade (e deve então ser revertido através de ação política consciente, se nós queremos escapar do pior), mas também porque aquela transformação é insustentável. Isso não é para ser entendido no sentido que os regulamentos impostos pelos grupos plutocráticos falharam em reduzir o “risco” de um colapso financeiro, mas, de algum modo, no sentido que eles inevitavelmente o agravaram. Em um sentido político geral, sua regulação é insuportável: socialmente, pelas classes trabalhadoras de todas as regiões do mundo; e, politicamente, pelos povos, nações e Estados da periferia (em particular países ditos “emergentes”). O retorno de um Estado afirmativo não deve ser, portanto, excluído como uma possibilidade (até uma probabilidade).

O maior paradoxo, para mim, é que análises que se crêem como sendo sinceramente democráticas não vêem a flagrante contradição entre a governança do mundo pela plutocracia agora vigente e os princípios fundamentais da democracia. De fato, o novo capitalismo plutocrático dos oligopólios financeirizados é o inimigo da democracia, esvaziando-a de conteúdo substantivo. A destruição corrente da democracia burguesa está sendo desenvolvida de modo sistemático pela classe política dominante, em particular em um “projeto” Europeu, que foi elaborado pelos seus fundadores, para tais propósitos. O discurso sobre o “indivíduo como sujeito da história” é mera fachada e legitimação de uma prática antidemocrática. Isso deveria ser imediatamente óbvio, que as estruturas econômicas administradas por grupos dominados pelo capital financeiro oligopólico de fato constituem “bens sociais”, ou seja, deveriam ser a “propriedade da nação” e administrados por ela. Nossos autodenominados democratas, supostamente representando os interesses daqueles abaixo na hierarquia social, correm para substituir a administração privada – como se os poderosos interesses financeiros realmente respeitassem a santidade da propriedade privada, que não a sua. Não é uma ilusão pensar que a administração dessas estruturas poderia ser assumida por um coletivo de acionistas pequenos? Somos nós tão inocentes para engolir a crença na superior eficácia da administração privada e o futuro fatalmente burocrático do Estado – como se suas realidades fossem o capitalismo racionalizado de Weber?

A realidade deveria abrir os olhos daqueles inocentes democratas. Poderiam suas admirações pelos grandes inovadores (Rockefeller, no passado, e Bill Gates, hoje) causar o esquecimento de que a maioria dos plutocratas é sua sucessora? Por qual racionalidade social eles deveriam ser permitidos a descartar tão exorbitantes poderes? Não existiria uma “burocracia privada” que não seria necessariamente menos esclerosada que a dos Estados? O Estado não teria também seus grandes inovadores (Colbert, no passado, e, hoje, os engenheiros que colocaram a empresa pública CFNF – Companhia Francesa Nacional Ferroviária – na vanguarda das ferrovias do mundo)?

Os democratas verdadeiros têm que entender que o grau atual de concentração do capital demanda a sua socialização. É fato que os termos nos quais os trabalhadores participarão na administração da economia nacional ainda ficaram para ser pensado. É verdade que a socialização democrática fora do mercado não exclui (ainda por um longo prazo) a iniciativa e propriedade de milhões de pequenas e médias empresas. A socialização dos altos comandos criaria as condições para uma verdadeira economia de mercado, para tais empresas pequenas e médias. Diversas formas de administração podem ser pensadas: propriedade privada, mas também cooperativas de trabalhadores (a cooperativa Lip na França demonstrou sua eficiência, sua “falência” foi um deliberado e planejado assassinato pelo Estado de um modelo ameaçante), permitindo a emergência de formas de socialização, além dos limites do mercado capitalista.

O obstáculo para esse possível e necessário futuro está inteiramente situado na cultura política dominante, na forma da corrente Americanização da Europa. Análises críticas dessa vertente ideológica e política não faltam; análises que têm focado as muitas facetas da degradação que ocorrem e que apontam para “um outro mundo” emergente ainda pior do que conhecemos. Negri ignora essas análises. Seu otimismo é usado para justificar a inação.

Uma multiplicidade de conflitos está para surgir da ditadura do capital financeiro atual, com os povos e Estados do Sul liderando o caminho na oposição da lógica da governança globalizada plutocrática. Sobre isso, a oposição do Sul tende a crescer muito mais rápido que a oposição dos povos da tríade imperialista. Assim, eu imagino que as primeiras tempestades vão emergir no Sul; embora de diversas formas, como nós podemos ver já na América Latina e, por outro lado, na Ásia.

Essa última observação não é de um “militante terceiro-mundista”. É de um internacionalista clamando por solidariedade entre os trabalhadores do planeta. Quanto mais solidariedade nós conseguirmos, melhores serão as oportunidades oferecidas para os avanços revolucionários, tanto no Sul como no Norte.

10 de agosto de 2018

Uma saída para o Brasil

É preciso garantir participação de Lula nas eleições

João Pedro Stédile


O coordenador do MST, João Pedro Stedile, em foto de janeiro deste ano. Marlene Bergamo/Folhapress

O Brasil vive grave crise econômica, política, social e ambiental. Muitos fatores contribuíram para sua eclosão, principalmente a subordinação da nossa economia ao capital financeiro e internacional, que extorque toda a sociedade.

O golpe de 2016 foi a tentativa de a burguesia se salvar sozinha da crise, jogando todo o peso sobre a classe trabalhadora. Para isso, mobilizou seu poder midiático, judicial e parlamentar. O plano era assaltar recursos públicos, retirar direitos, subordinar o país totalmente aos interesses internacionais, entregar os recursos naturais —como o pré-sal, os minérios e a água— e empresas como Petrobras, Eletrobras e Embraer.

Começaram a fazer o serviço sujo contra o povo da forma mais rápida e sorrateira possível. E qual foi o resultado? A crise econômica se agravou. A crise social chegou a patamares de barbárie, com 66 milhões de trabalhadores à margem da economia, enquanto as seis famílias mais ricas ganham mais do que 104 milhões de brasileiros. A crise política também se aprofundou: o governo golpista amarga a maior impopularidade da história republicana. E ninguém mais acredita nos políticos!

A lógica reinante no Judiciário, que vive da soberba e da empáfia, inverte o princípio constitucional: agora todos são culpados até que provem o contrário. O Power Point do "não temos as provas, mas temos a convicção" ganhou status de lei.

Enquanto milhares de pesquisadores correm o risco de perder suas bolsas, juízes como Sergio Moro usurpam recursos públicos, recebendo auxílio-moradia e vivendo em sua própria casa, além de outros privilégios inaceitáveis pagos pelo povo.

O Movimento Sem Terra, assim como as 80 organizações que integram a Frente Brasil Popular, acredita que o país necessita de novo projeto de desenvolvimento, soberano e popular. Mais subordinação, submissão e exploração do povo não representam uma saída para o Brasil.

O povo expressa em todas as pesquisas de intenção de voto e defende como alternativa eleitoral Luiz Inácio Lula da Silva, por sua trajetória e representatividade —e também em solidariedade, por perceber a perseguição em curso que os poderes midiático e Judiciário executam para obstruir a possibilidade de uma saída popular para a crise.

Se Lula não for candidato, as eleições serão uma fraude, pois impedirão que a maior parte do povo tenha o direito de escolher quem deseja para a Presidência. E as crises se aprofundarão e teremos mais quatro anos de conflitos, violência e agravamento das desigualdades sociais.

Para construirmos um novo projeto para o país, com reformas estruturais na política, no Judiciário, nos meios de comunicação e na economia, é necessário garantir a participação de Lula nas eleições.

Por isso, integrantes dos movimentos populares estão em greve de fome desde o dia 31 de julho por tempo indeterminado. Nesta sexta (10), haverá uma mobilização nacional dos trabalhadores, convocada por todas as centrais sindicais. Os movimentos do campo farão uma marcha nacional rumo a Brasília até quarta-feira (15), quando será registrada a candidatura de Lula.

Esperamos que o Poder Judiciário lembre que, acima de suas vaidades e interesses, está a Constituição, que já foi suficientemente violada e desprezada nos últimos anos. Que os juízes se submetam à vontade popular e à Carta Magna, e não aos interesses da Rede Globo e do projeto golpista do grande capital.

Sobre o autor
Economista, coordenador nacional do MST e da Frente Brasil Popular

Como a Turquia vê a crise com os Estados Unidos

As ações unilaterais dos Estados Unidos contra a Turquia minarão os interesses americanos e obrigarão a Turquia a procurar outros amigos e aliados

Recep Tayyip Erdoğan

New York Times

O presidente Recep Tayyip Erdogan da Turquia se reuniu com o presidente Trump no ano passado em Nova York, como mostra uma foto divulgada pelo governo turco. Kayhan Ozer/Anadolu Agency, via Getty Images

Tradução / Nas últimas seis décadas, a Turquia e os Estados Unidos têm sido parceiros estratégicos e aliados da OTAN. Nossos dois países ficaram lado a lado contra desafios comuns durante a Guerra Fria e em seus desdobramentos.



Ao longo dos anos, a Turquia sempre correu para ajudar os americanos quando necessário. Nossos homens e mulheres militares derramam sangue juntos na Coreia. Em 1962, o governo Kennedy conseguiu que os soviéticos removessem mísseis de Cuba retirando os seus próprios mísseis Júpiter da Itália e da Turquia. Na esteira dos ataques terroristas de 11 de setembro, quando Washington precisava de seus amigos e aliados para revidar a agressão, enviamos nossas tropas ao Afeganistão para ajudar no sucesso da missão da Otan lá.


No entanto, os Estados Unidos, repetida e consistentemente, falharam em entender e respeitar as preocupações do povo turco. E nossa aliança, nos últimos anos, vem sendo posta à prova por divergências. Infelizmente, nossos esforços para reverter essa tendência perigosa se mostraram inúteis. A menos que os Estados Unidos comecem a respeitar a soberania turca e demonstrem compreender os perigos que nossa nação enfrenta, nossa parceria pode estar ameaçada.

Em 15 de julho de 2016, a Turquia foi atacada por membros de um grupo tenebroso liderado por Fethullah Gülen, cabeça dessa organização oficialmente descrita por meu governo como Grupo Terrorista Fethullah, desde uma área rural da Pensilvânia. Os gulenistas tentaram armar um golpe de Estado sangrento contra o meu governo. Naquela noite, milhões de cidadãos comuns foram às ruas movidos por um sentimento de patriotismo semelhante ao que o povo americano, sem dúvida, experimentou depois de Pearl Harbor e dos ataques de 11 de setembro.

Duzentos e cinquenta e uma pessoas inocentes, incluindo Erol Olcok, meu antigo coordenador de campanha e amigo querido, e seu filho, Abdullah Tayyip Olcok, pagaram o preço máximo pela liberdade da nossa nação. Se o esquadrão da morte que veio atrás de mim e da minha família fosse bem-sucedido, eu teria me juntado a eles.

O povo turco esperava que os Estados Unidos condenassem veementemente o ataque e expressassem solidariedade aos líderes eleitos da Turquia. Isso não aconteceu. A reação dos Estados Unidos foi muito aquém do esperado. Em vez de se posicionarem claramente ao lado da democracia turca, as autoridades norte-americanas timidamente clamaram por “estabilidade, paz e continuidade na Turquia”. Para piorar a situação, não tem havido qualquer evolução em relação ao pedido da Turquia quanto à extradição de Fethullah Gülen, conforme o tratado bilateral entre os dois países.

Outra fonte de frustração está relacionada à aliança entre os Estados Unidos e o Partido de União Democrática (PYD/YPG), o braço sírio do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), grupo armado responsável pela morte de milhares de cidadãos turcos desde 1984 e que é considerado uma organização terrorista pelo governo norte-americano. Segundo estimativas das autoridades turcas, Washington usou 5.000 caminhões e 2.000 aviões de carga para entregar armas ao PYD/YPG nos últimos anos.

Meu governo tem constantemente reiterado às autoridades americanas nossas preocupações sobre essa sua decisão de treinar e equipar os aliados do PKK na Síria. Infelizmente, nossas palavras não foram ouvidas e armas americanas acabaram sendo usadas contra alvos civis e membros de nossas forças de segurança na Síria, no Iraque e na própria Turquia.

Nas últimas semanas, os Estados Unidos tomaram uma série de medidas que aumentaram ainda mais as tensões entre os dois países, por conta da prisão pela polícia turca de um cidadão americano, Andrew Brunson, acusado de ajudar uma organização terrorista. Em vez de respeitar o curso natural do processo judicial, como solicitei ao presidente Trump em nossas muitas reuniões e conversas, os Estados Unidos preferiram ameaçar abertamente uma nação amiga e impor sanções a vários membros do meu gabinete. Além de inaceitável e irracional, essa decisão foi, em última análise, prejudicial à amizade de longa data entre os dois países.

Para deixar claro que a Turquia não cede a ameaças, nós retaliamos aplicando sanções a vários funcionários americanos também. Seguindo adiante, nós respeitaremos o mesmo princípio: a tentativa de forçar meu governo a intervir no processo judicial não está de acordo com a nossa Constituição ou com nossos valores democráticos compartilhados.

A Turquia já afirmou repetidas vezes que saberá cuidar de seus próprios assuntos se os Estados Unidos se recusarem a ouvir. Na década de 1970, o governo turco interveio para impedir o massacre de pessoas de etnia turca pelos cipriotas gregos, apesar das objeções de Washington. Mais recentemente, o fracasso de Washington em compreender a gravidade de nossas preocupações em relação às ameaças à segurança nacional provenientes do norte da Síria resultou em duas incursões militares que cortaram o acesso do chamado Estado Islâmico às fronteiras da OTAN e removeram os militantes do PYD/YPG da cidade de Afrin. Como nesses dois casos, nós tomaremos as medidas necessárias para proteger nossos interesses nacionais.

Numa época em que o mal continua a espreitar pelo mundo, ações unilaterais dos Estados Unidos, nosso aliado de décadas, contra a Turquia só servirão para minar os interesses e a segurança norte-americanos. Antes que seja tarde demais, Washington deve abdicar da ideia equivocada de que nosso relacionamento pode ser assimétrico e entender que a Turquia tem alternativas. O fracasso em reverter essa tendência de unilateralismo e desrespeito exigirá que procuremos novos amigos e aliados.

Recep Tayyip Erdogan é o presidente da Turquia.

9 de agosto de 2018

O crime do anticomunismo

Um livro recém-lançado mostra como o exército indonésio foi responsável pelo massacre sistemático de comunistas e esquerdistas no genocídio de 1965-66 - e que as ordens vieram diretamente de cima.

Max Lane


Um visitante passa por uma foto de Suharto, o ex-ditador indonésio, no Museu Suharto em 6 de maio de 2016 em Yogyakarta. Ulet Ifansasti / Getty

Resenha de The Army and the Indonesian Genocide: Mechanics of Mass Murder (Routledge, 2018)

O novo livro de Jess Melvin, The Army and the Indonesian Genocide, foi corretamente saudado como um avanço, revelando os atores por trás do assassinato em massa de centenas de milhares de esquerdistas indonésios (e de membros da minoria étnica chinesa no país). Melvin abre uma brecha na história dominante sobre o genocídio de 1965-66 na Indonésia.

O Estado indonésio sempre alegou que os assassinatos de comunistas ou esquerdistas foi limitado, e que resultou de uma raiva anticomunista espontânea entre pessoas comuns. Não foram, insistiram as autoridades, sistemáticos nem realizados pelo Exército.

A maioria dos estudos acadêmicos, embora muito variados e diferenciados em relação à versão oficial, deu credibilidade a ela. No relato dominante, o presidente Sukarno, um reformista autocrático de esquerda, tentava equilibrar o Partido Comunista da Indonésia (que era seu aliado) e o exército (que era hostil ao Partido Comunista). Mas as coisas ficaram desequilibradas e saíram do o controle. Os assassinatos em massa podem ter sido lamentáveis, mas teriam resultado da incapacidade de Sukarno de se manter nessa perigosa corda bamba.

Melvin despedaça metodicamente essa mitologia, com base em documentos internos do exército. Mostra que os assassinatos foram de fato organizados pelo exército, seguindo ordens que vieram de cima.

Melvin não é a primeira a compreender a dinâmica subjacente ao genocídio. Escritores de direita, nos anos 1960, como Justus van de Kroef e o jornalista anticomunista Arnold Brackman, entenderam que havia uma verdadeira batalha pelo poder entre o exército, o Partido Comunista e outros grupos de esquerda e Sukarno.

No mundo acadêmico, estudos recentes de John Roosa (autor do livro publicado em 2006, Pretext for Mass Murder – Pretexto para assassinato em massa) e Geoffrey Robinson (cujo livro foi publicado em 2018, The Killing Season – Tempo de matar) também mostraram que a explosão de violência foi premeditada e ideologicamente preparada. Mas Melvin, uma estudiosa da Universidade de Yale, dá o golpe de misericórdia na mitologia de direita, e refuta decisivamente a apologia dos militares indonésios.

O genocídio
O livro de Jess Melvin, The Army and the Indonesian Genocide, é um avanço de pelo menos duas maneiras.

Primeiro, usando documentos do exército - que descobriu ao pesquisar num arquivo na província indonésia de Aceh – ela pode mostrar, sem qualquer sombra de dúvida, que foi o Alto Comando do Exército, tomado pelo general anticomunista Suharto, que iniciou e supervisionou o assassinato em massa, as prisões, expurgos e torturas em 1965/1966. Ela fornece documentos internos, tanto a nível nacional (como telegramas da sede do exército na capital, Jacarta) quanto a nível local (material do exército e do governo civil) que revelam a brutalidade cuidadosa e deliberada dos assassinatos. Talvez o instrumento mais fumegante sejam documentos indicando que as ordens para aniquilar o Partido Comunista (PKI) vieram do próprio Suharto.

Os assassinatos em massa passaram por quatro etapas organizadas: uma fase de iniciação, uma fase de violência pública, uma fase de assassinatos em massa sistemáticos e uma fase final de consolidação, que também incluiu expurgos. O derramamento de sangue irrompeu depois de uma conspiração fracassada de membros do PKI, que tentavam substituir o Alto Comando do Exército por figuras mais amigáveis. Foi uma tentativa mal organizada, prematura - e realizado sem o conhecimento de seus companheiros e apoiadores de massa. Os militares usaram isso como pretexto para lançar um contra-ataque devastador.

Mais de um milhão de pessoas foram mortas, a maioria no final de 1965 e 1966. Depois de uma onda inicial de execuções públicas, a maioria das execuções ocorreu à noite, em segredo. Unidades do exército se moviam de uma área para outra, ensangüentando o país com massacres em massa. Milícias civis anticomunistas participaram da matança. Mesmo aqueles que escaparam com vida não saíram impunes. Dezenas de milhares de pessoas foram jogadas em prisões. Em última análise, pelo menos quinze mil foram presas por até 14 anos.

A missão genocida teve êxito. O PKI foi riscado do cenário político, Suharto assumiu o poder, e a esquerda indonésia, desde então ficou praticamente inexistente.

É impossível acreditar, deve-se acrescentar, que os governos dos Estados Unidos, do Reino Unido e da Austrália não estavam cientes dos preparativos de longo prazo feitos pelas forças anti-comunistas. Os três governos davam apoio concreto às unidades do exército de direita e grupos políticos já nos anos 50. E saudaram o violento esmagamento da esquerda organizada da Indonésia em 1965-66.

Uma segunda parte importante da análise de Melvin é o detalhamento da infraestrutura usada para erradicar o PKI e tomar o poder. Melvin mostra como as estruturas de comando militar anteriormente exercidas para implementar a lei marcial e campanhas militares (primeiro para expulsar os holandeses da Papua Ocidental colonizada e depois para perturbar a formação da Malásia), combinadas com a estrutura territorial das Forças Armadas indonésias, foram usadas para apoiar assassinatos, expurgos e repressão sistemática.

Ao enquadrar os eventos de 1965 como o clímax de uma “luta pelo estado indonésio”, Melvin refuta as antigas alegações de raiva espontânea da massa ou processos políticos descontrolados. Ao fazê-lo, ela destaca outros eventos importantes no período que antecedeu o genocídio.

Crucialmente, seu enfoque detalha o leque de forças reunidas na província de Aceh e mostra a dinâmica no terreno de uma luta política em curso - uma luta que vinha evoluindo durante um longo período e estava enraizada na sociedade como um todo.

Em Aceh, a força do PKI aumentou ao longo dos anos 1950 e início dos anos 1960. O resultado foi a extrema polarização. Um abismo se abriu entre o PKI e a coalizão de elite civil, incluindo figuras religiosas e o Exército. Em 1965, o PKI e as organizações a ele ligadas tinham cerca de 20 milhões de membros em todo o país. A maioria era de camponeses num país predominantemente rural; mas trabalhadores urbanos também se juntaram ao partido. E em 1965 seus filiados aumentaram ainda mais. Ao mesmo tempo, o Partido Nacional Indonésio (PNI) também desenvolveu um programa de esquerda que conquistou a adesão de milhões de membros.

Para as elites civis e militares anticomunistas, isso era simplesmente inaceitável. “A luta pelo estado indonésio” foi, portanto, uma luta em defesa de sua ação contra a insurgência política crescente - desarmada, legal e aberta, mas à margem da elite. Que desenvolveu uma infra-estrutura de contra-revolução que implementou com uma brutalidade implacável. Além do massacre de membros do PKI, muitos dos principais ativistas do PNI foram mortos. Artistas e intelectuais associados ao PKI e PNI foram presos. Partidos de esquerda menores, como o Partido da Indonésia e o Angkatan Komunis Muda também tiveram membros mortos ou presos.

O futuro
Nos últimos anos, tanto dentro quanto fora da Indonésia, houve várias iniciativas envolvendo acadêmicos, artistas e ativistas democráticos cujo objetivo é acabar com o silêncio em torno do genocídio indonésio.

Jovens indonésios - estudantes universitários em particular - estão mais livres para ler livros e artigos sobre o assunto, bem como acessar a internet. Intelectuais e ativistas enfrentam ameaças de grupos de direita e se recusam a ceder à indiferença do atual governo em buscar justiça.
O livro de Melvin, especialmente quando estiver disponível em indonésio, será um grande impulso para esses esforços.

A luta pelo estado indonésio cresceu a partir das forças concorrentes na sociedade indonésia. 1965 representou a vitória mais ou menos total de um lado, consolidada pelo genocídio, terror, expurgos e repressão nacional e centralmente organizados. As tentativas crescentes de expor essa verdade, por modestas que sejam, podem ser parte dos passos iniciais de uma esquerda revivida. E talvez até mesmo a faísca para lutas sociais mais amplas.

Sobre o autor

Há mais de cinquenta anos Max Lane é socialista na Austrália, autor dos livros Nação inacabada: a Indonésia antes e depois de Suharto, e Catástrofe na Indonésia .

8 de agosto de 2018

O falso martírio de Tommy Robinson

Tommy Robinson quer que você acredite que ele é um oprimido valente que foi injustamente reprimido. Mas o líder da extrema direita britânica não é um mártir - apenas um fascista inteligente com sangue nas mãos.

Richard Seymour

Jacobin

Tommy Robinson é escoltado pela polícia durante um protesto em 1 de abril de 2017 em Londres. Chris J Ratcliffe / Getty

Tradução / No mês passado, um exaltado Steve Bannon bradou contra a "elite liberal" da Grã-Bretanha e insistiu que Tommy Robinson era "a espinha dorsal deste país".

Os comentários de Bannon surgiram depois de uma entrevista de Nigel Farage, ex-líder do Partido da Independência do Reino Unido (UKIP), à rádio. Foi Farage, de todas as pessoas, aquele que esclareceu que, longe de ser a espinha dorsal do país, "toda a gente detesta o Tommy Robinson".

Farage não está muito errado. Embora seja uma causa querida aos reacionários de Trump, Robinson continua profundamente impopular na Grã-Bretanha. A cumprir a sua quinta pena aquando das declarações de Bannon, ele é a espinha dorsal de uma subcultura de extrema-direita violenta e cismática.

No entanto, um diplomata nomeado por Trump pressionou o governo britânico em nome de Robinson, alegando estar preocupado com sua segurança na prisão. O governo deu voz à propaganda de auto comiseração de Robinson e dos seus defensores nas redes sociais. Robinson afirma através das redes sociais que fora colocado numa prisão com 71 por cento de população muçulmana, numa cela oposta à "mesquita" onde os prisioneiros muçulmanos poderiam cuspir ou atirar-lhe fezes. Isto foi reiterado no Breitbart por James Delingpole, jornalista do Telegraph. Após a sua libertação, Robinson lamentou a sua “tortura mental” em condições supostamente comparáveis às de Guantánamo, uma alegação que Moazzam Begg, ex-preso em Guantánamo, criticou educadamente.

O melodrama patético de Robinson

As mentiras do pequeno culto de Robinson, se isto não for um eufemismo, desmoronam rapidamente. Robinson passou um curto período na HMP Onley, uma prisão de “categoria C(link is external)”. A prisão não tem mesquita e menos de um terço dos detidos são muçulmanos. Robinson esteve sob proteção o tempo todo. As suas queixas enquanto esteve na prisão indicam que protestou contra a "tortura mental" em parte para que ele pudesse exigir "despesas extra" e um “melhor” estatuto e privilégios.

Ainda assim, as plataformas mainstream deram eco ao martírio de Robinson. O provocador de extrema-direita Raheem Kassam passeou-se pelos programas de informação graças à agência de relações públicas CapitalHQ. Apareceu na BBC, tal como Ezra Levant, chefe da Rebel Media. Tal como Owen Jones refere, se estas entrevistas foram supostamente para desafiar os porta-vozes da extrema-direita, falharam de forma abismal. Kassam pôde apresentar-se como comentador de direito e a sua ligação ao Breitbart e à extrema direita não foi mencionada.

A ironia é que os apoiantes de Robinson são exatamente o tipo de pessoas que classificam as prisões britânicas como sendo “campos de férias”. Aqui compararam uma pequena área de uma prisão de baixa segurança aos casos de sequestro e tortura associados a Guantánamo. Para um homem que cumpriu várias penas de prisão, geralmente por crimes violentos, isto é estranhamente melodramático. As prisões da Grã-Bretanha podem ser duras e estar sobrelotadas, mas esta conversão em massa à luta da reforma das prisões seria talvez menos absurda se admitissem honestamente por que motivo foi Robinson preso.

Numa entrevista feita a Robinson após sua libertação, Tucker Carlson, da Fox News, afirmou que este foi preso por “tentar cobrir o julgamento de uma gangue de predadores sexuais no Reino Unido, por falar alto nas ruas.” Bannon também alegou que ele fora preso injustamente, numa aplicação exagerada de um aspecto técnico sobre restrições de relatórios judiciais. Rod Liddle, do The Spectator, disse estar “longe de ser um fã” de Robinson, mas afirmou que ele havia sido preso "apenas por ser o Robinson".

Muitos dos seus apoiantes são mais cuidadosos. O líder do UKIP, Gerard Batten, que partilha as obsessões islamofóbicas de Robinson, disse ao Infowars que Robinson estava a tentar proteger "as vítimas dos gangues violadores que temos a operar por todo o país”.

Mas até ele fez uma discreta declaração sobre Robinson ter infringido a lei. Douglas Murray, no National Review, afirmou que Robinson havia sido "perseguido" devido ao seu jornalismo cidadão "excecionalmente corajoso", mas admitiu que este cometeu um crime.

A realidade é bastante patética. Robinson ameaçou de forma consciente os julgamentos de indivíduos potencialmente culpados de agressão sexual grave a menores de idade. No primeiro caso, em maio de 2017, trouxe uma câmara para o tribunal. Os tribunais britânicos não permitem fotografias ou filmagens, a fim de garantir julgamentos justos e impedir a intimidação do júri.

O interesse de Robinson nos julgamentos não se deveu a uma profunda preocupação com a violência sexual contra crianças. Quando o membro da English Defence League (EDL), Richard Price, foi preso por acusações de pornografia infantil, Robinson ficou a seu lado, e os membros da EDL organizaram uma campanha em sua defesa. Mas neste caso os suspeitos eram asiáticos - e muitos eram muçulmanos.

Robinson há muito tempo se agarra à teoria lunática da direita islamofóbica que identifica "ligações" entre o Islão e a pedofilia. Tentou tornar os julgamentos em propaganda racista para a Rebel Media, meio de comunicação da extrema direita canadiana. O juiz deu-lhe uma pena suspensa. No ano seguinte, ainda a cumprir a sentença suspensa, cometeu o mesmo delito, sabendo muito bem que seria preso.

Tal como o Sun, a principal fonte de racismo populista da Grã-Bretanha, apontou a disposição para Robinson de destruir esses julgamentos não o tornou um herói, mas num "bandido e um enorme idiota". Surpreendentemente - talvez demonstrando alguma preocupação com a propriedade da sua própria retórica racista - o Sun foi o único órgão a sair-se com uma posição tão firme.

Uma longa história de organização fascista

Os jornalistas fazem agora fila para dar eco aos lamentos de “Tommy” - como os jornalistas da BBC agora o chamam -, mas isso não é inteiramente novo. Há muito tempo existe uma curiosa simpatia por Robinson em partes dos media britânicos. Ele é, em grande parte, uma criação dos media.

O principal contributo político de Robinson foi ser co-fundador da EDL, um gangue de rua antimuçulmanos que existiu efetivamente entre junho de 2009 e outubro de 2013. A EDL surgiu a meio de uma grande disputa na extrema direita, cuja principal força à época era o British National Party (BNP).

O BNP havia deixado transparecer as suas simpatias neo-nazis como parte da estratégia eleitoral media-friendly de Nick Griffin. Extremamente bem-sucedido nos seus próprios termos, isso garantiu a Griffin aparições na TV, incluindo no Newsnight e no Question Timeda BBC, recolhendo quase um milhão de votos entre 2000 e 2009.

Esse sucesso dependeu, porém, de uma divisão tácita do trabalho na extrema direita. Tal como Lee Barnes, ativista do BNP, explicou, a Frente Nacional ficaria a organizar “aqueles nacionalistas que não estão interessados em campanhas eleitorais políticas, mas no ativismo de rua.” Soldados de infantaria moldados pelo antigo líder do BNP, John Tyndall, lembraram que Griffin já foi um grande defensor da estratégia de Tyndall de apoiar "direitos para os brancos" com "botas e punhos bem direcionados".

Em 2008, mesmo quando o desvio tático de Griffin trouxe votos e cobertura mediática, algumas fações do BNP indicavam querer regressar ao ideal fascista mais puro de controlo das ruas. Desconfiavam também do papel de Griffin como representante bem pago num Parlamento Europeu que consideravam uma abominação e lidavam com alegações de corrupção financeira. Estes primeiros movimentos de fação contra Griffin ocorreram ao mesmo tempo que a formação da EDL.

A EDL nasceu em parte a partir de um pequeno grupo de hooligans violentos (“casuals”) em Luton. Estes homens eram conhecidos por seu ódio à minoria muçulmana local. O principal fundador, Stephen Yaxley-Lennon, adotou o pseudónimo de “Tommy Robinson” a partir de um dos famosos casuals locais. O grupo fundiu-se com um grupo antimuçulmano de direita chamado "March for England", organizado por Paul Ray, um YouTuber de extrema-direita.

Mas Ray afirma ter-se afastado devido a uma afluência de membros do BNP. Tanto Robinson quanto o seu braço direito, Kevin Carroll, eram ex membros do BNP com condenações por crimes violentos. O principal organizador da EDL, Chris Renton, era um conhecido ativista do BNP. Davy Cooling, ativista da “divisão” de Luton, era membro do BNP e da MIG. Sean Corrigan, que dirigia o fórum online da EDL, era um ativista do BNP de St. Albans. Alan Spence, organizador regional no nordeste, era um ex-candidato do BNP.

Com a sua principal estrutura vinda da extrema direita, os membros foram recrutados entre os casuals de futebol de direita e organizados em “divisões” locais. Alan Lake, um dos financiadores e estrategas do grupo, explicou que este era um cálculo deliberado. Os hooligans tinham motivação, viajavam por sua conta para assistir aos jogos e eram violentos.

Esta velha tática imitava a infiltração da Frente Nacional nos gangues de futebol nos anos 70, em parte para organizar ataques contra negros, asiáticos, sindicalistas e esquerdistas. Em 2009, usaram a força física para atacar muçulmanos e qualquer pessoa que pudesse passar por muçulmana. Por último, retiraram alguma inspiração ideológica do Ulster Loyalism. O lema “No Surrender”, muitas vezes encurtado para “NS” em fóruns de extrema-direita (ou “NFSE” para “No Fucking Surrender Ever”) foi retirado da ideologia dos paramilitares loyalistas. Associado a isto estava o forte tema dos cruzados na ideologia EDL; recordando a sangrenta luta medieval contra o Islão, o principal ícone visual era a cruz de São Jorge num escudo.

Com esta coligação mobilizada por uma entusiasmante ideologia de luta violenta, Robinson e seus aliados deram uma nova imagem a uma velha estratégia de extrema-direita: "marcha e cresce". As grandes mobilizações de rua visam atrair a atenção dos media e estimular potenciais apoiantes.

Como os acadêmicos Paul Jackson e Martin Feldman documentaram, a principal inovação da EDL é vincular isto a uma estratégia de sucesso no Facebook. Este era o veículo de comunicação para organizadores fascistas, casuals, vários neonazis e um vasto leque de jovens brancos vestidos com roupas da Stone Island.

Mas como nasce uma estrela mediática a partir de material tão pouco promissor?

Robinson, a estrela

Nesta altura não existia o culto do “Tommy”. Robinson não aparecia em público sem ser com o rosto tapado e as informações sobre ele eram escassas.

Foi só em junho de 2010 que sua verdadeira identidade, passado de extrema-direita e história da violência no futebol foram reveladas pela revista antifascista Searchlight. Naquele momento, a liderança estava sob o ataque de uma estranha aliança entre Paul Ray, o líder do Ulster Freedom Fighter, Johnny Adair, apoiante dos Combat-18, e Nick Greger, neonazi alemão e apoiante das Forças de Defesa de Israel. Nas mudanças organizacionais subsequentes que procuraram pôr fim aos ataques, foi consolidado o papel do líder e foram nomeados uma série de novos organizadores regionais.

Isto significou duas coisas. Em primeiro lugar, os organizadores locais poderiam complementar as mobilizações nacionais com iniciativas locais como graffitis contra muçulmanos, manifestações violentas (em Oldham), a colocação de cabeças de porcos perto de mesquitas ou futuras mesquitas (em Nottingham), invasão de restaurantes de fast foodpara alertar contra a venda de carne halal (em Blackburn), ou atacando casas de pessoas asiáticas (em Nuneaton).

Em segundo lugar, Robinson tornou-se no líder indiscutível e principal porta-voz da EDL.

Foi então que a persona pública de Robinson foi desenvolvida. Provou ser extremamente apto nas entrevistas e tinha um certo carisma de miúdo. A sua forma de falar não polida ajudou na sua auto-representação enquanto underdog que lutava contra os profissionais.

A justificação para dar uma plataforma a uma figura tão violenta e marginal era que isso iria “expô-lo”. Isso já havia falhado com o BNP, e a maioria dos jornalistas parecia saber muito pouco sobre a história de Robinson, a política que este defendia ou até mesmo como contestar as suas afirmações mais ofensivas. Enquanto isso, Robinson seguiu cuidadosamente as linhas ensaiadas: reiterando, por exemplo, que ele não era contra todos os muçulmanos, apesar de investigar de forma obcecada todos os alegados crimes cometidos por pessoas muçulmanas.

Um exemplo foi a sua aparição na Radio 4 da BBC, quando foi educadamente entrevistado por Sarah Montague, que se recusou a fazer as perguntas óbvias. Surpreendentemente, a única ocasião em que Robinson foi desafiado foi quando o rapper Akala o demoliu na BBC. No entanto, as televisões continuaram a considerá-lo interessante. No dia a seguir à sua aparição numa reunião europeia anti-jihad na Dinamarca, a BBC pagou-lhe a viagem de avião de regresso para o levar ao programa “The Big Questions”, apresentado pela locutora de direita Nicky Campbell.

Os media mantiveram-se firmes no apoio. Em 2011, após dois anos de violentas mobilizações, ataques racistas e muitas revelações sobre presença fascista na EDL, o Star ainda se sentiu confiante o suficiente para publicar material promocional para mobilizações da EDL, dar entrevistas que favoreciam Robinson nos seus planos para a criação de um novo partido, e de entusiasmo para com a EDL e o seu “apoio visivelmente crescente”, “atraindo pessoas em toda a Grã-Bretanha”. Citou sem qualquer crítica as afirmações de Robinson quando este disse que a EDL não tem “nenhum problema com raça” e mostrou esperar que se tornasse “uma força política” que as pessoas teriam que levar "muito a sério".

À medida que a organização se desenvolvia e começava a enfrentar com frequência contra-mobilizações lideradas pela esquerda, começou também a ampliar os seus objetivos. Logo no início, o site da organização detetava a ameaça do "comunismo" no Partido Trabalhista e no movimento sindical. Como o Instituto de Relações Raciais relatou, além do catálogo de ataques racistas, a EDL atacou eventos de esquerda, bancas socialistas e pró-Palestina, uma livraria sindical e reuniões antifascistas.

Em 2011, em resposta a protestos estudantis contra o aumento das propinas, Robinson ameaçou que, da próxima vez que ocorresse um protesto semelhante, a EDL estaria lá para impedir ataques à polícia. Esses alunos, disse, viviam “dos cartões de crédito dos seus pais” e não podiam “entender o que é ser um membro da classe trabalhadora desta comunidade”. Mais tarde, auto nomeou-se protetor de bairros durante os motins ingleses no verão de 2011. A este respeito, começou a assemelhar-se a um movimento fascista clássico.

No entanto, os protestos estudantis acabaram e a EDL não conseguiu aumentar a sua base de apoio com os motins. A sua imagem foi também manchada pela sua suposta associação com Anders Behring Breivik, que matou 69 estudantes noruegueses em 2011. A EDL continuou os seus protestos contra muçulmanos, incluindo duas tentativas de manifestação em Tower Hamlets (um bairro de Londres com uma grande população muçulmana) em 2011 e 2013. Em julho de 2013, um protesto da EDL em Birmingham transformou-se num motim, tendo sido detidas cinquenta pessoas. Mas os protestos começaram a diminuir e foram constantemente minados pela oposição, tal como em Walthamstow em 2012.

Renascido

Ao abandonar a EDL em outubro de 2013, Robinson foi subitamente apelidado de herói anti-racista renascido. Apareceu numa plataforma ao lado de Kevin Carroll e de Maajid Nawaz, ex islamita e atual crítico do Islão.

Robinson e Carroll alegaram ter abandonado a EDL por causa da crescente infiltração de extrema-direita. A Fundação Quilliam, que Nawaz fundou em conjunto com Ed Husain, assumiu os créditos por esse avanço nas relações raciais, alegando que Robinson tinha visto o erro do seu percurso anterior. Surgiu um ano após o financiamento governamental à fundação ter sido cortado. Desde então, tem sido financiado por grupos de direita antimuçulmanos nos Estados Unidos. Imediatamente após a declaração sobre a salvação de Robinson, Nawaz lançou pedidos de financiamento do governo para ajudar na reabilitação em curso.

Havia razão para ceticismo quanto a esta aparente conversão. A Fundação Quilliam já havia encenado uma suposta conversão dos ativistas da EDL Leighton Evans e Harry Burns. Quilliam arranjou uma entrevista de Evans ao Guardian, tendo ficado claro que nenhuma conversão havia ocorrido. Robinson tinha afirmado que era da "EDL até morrer", numa entrevista a Andrew Neil da BBC poucos meses antes.

Não havia qualquer evidência de que Robinson tivesse mudado sua opinião sobre muçulmanos. Ele continuava a marcar presença em protestos anti-mesquitas e, até à véspera do anúncio, continuou a fazer os mesmos discursos de extrema-direita. Ainda gostava de intimidar fisicamente seus críticos.

Robinson alegou mais tarde que a Fundação lhe pagou 2 mil libras por mês para deixar a EDL de forma a poderem receber os créditos pela sua conversão. Mas Robinson já estava de saída, estando à procura de uma plataforma mais respeitável. Tinha piscado o olho à criação de um novo partido ou à adesão ao UKIP. Depois de desistir, o seu assistente pessoal deixou claro que estava à procura formar uma nova organização que não tivesse a sua base nas ruas. Não houve qualquer conversão. Diz muito sobre o movimento anti-jihad no Reino Unido, do próprio Tommy Robinson e dos media britânicos, que todos eles estivessem tão dispostos a desempenhar esta farsa.

Partes dos media, sobretudo os comentadores de esquerda, aumentaram parcialmente o seu ceticismo para com a conversão de Robinson. Mas muitos engoliram a sua “contrição” por inteiro, tendo ele sido rapidamente convidado para o Newsnight da BBC para uma entrevista com um Jeremy Paxman anormalmente meigo. Tendo a oportunidade de repudiar o seu racismo, evitou o assunto.

O comediante Omar Hamdi teve uma conversa informal e amistosa com Robinson, tendo concluido que “o novo e mais maduro Tommy Robinson tem umas coisas importantes a dizer”. A BBC produziu um documentário com Robinson e Mo Ansar, tendo sugerido que o encontro entre os dois no programa da BBC The Big Questions tinha motivado a mudança de opinião de Robinson. Ao ver a posição de Robinson nos media, e claramente impressionado com a capacidade de capitalizar de Quilliam, o candidato Tory Afzal Amin tentou o seu próprio golpe publicitário, oferecendo dinheiro aos membros da EDL para fazerem uma falsa manifestação e posterior cancelamento pelo qual ele poderia reivindicar os créditos.

Esta limpeza de imagem persistiu mesmo após o assumido regresso de Robinson ao ativismo islamofóbico. Em 2015, quando lançou o Pegida UK (imitando o movimento de extrema-direita alemão), foi novamente convidado a participar em telejornais para explicar sua nova agenda moderada. Disse ao Channel 4 que havia mantido a mensagem “justa” da EDL, mas que rejeitava “os elementos de álcool e hooliganismo”. No Spectator, James Delingpole insistiu que “o homem mais odiado da Grã-Bretanha não é tão odioso. "

Delingpole - um reacionário arrogante e posh - parece ter se encontrado com Robinson e ficado encantado com o seu ar de rufia mundano, declarando que ele fora injustamente transformado num pária. Engolindo o mito do herói criado pelo próprio Robinson, Jamie Bartlett, do The Telegraph, considerou-o uma voz marginalizada, vítima de "táticas de policiamento muito agressivas" e de violações dos direitos civis.

O fato de os jornalistas continuarem a dizer que Robinson é um “pobre coitado” e uma vítima deveria certamente fazê-los pensar sobre se não estarão a ser manipulados.

Um fascista, não alguém oprimido

Porém, o mito do pobre oprimido persiste em parte por causa de uma outra ideia: que este tipo representa as “queixas legítimas” da “classe trabalhadora branca”.

Este mito é ecoado pelos seus apoiantes, como Delingpole e Douglas Murray. Mas aparece frequentemente nos principais jornais. Aparentemente, os jornalistas querem que ele seja a representação da sua fantasia da "classe trabalhadora branca": um tipo sem educação, meio que uma personagem com um passado colorido que pode, com indulgência, crescer e ser educado para alcançar uma posição mais madura.

Este discurso que atribui um sucesso de extrema-direita às “queixas legítimas” da “classe trabalhadora branca” tem um historial desgraçado e desastroso. O culto da vitimização é a linguagem clássica de extrema-direita. Na medida em que tem sido ecoado por especialistas e políticos oportunistas, resultou em tentativas de acalmar a extrema direita com políticas racistas. Mais recentemente, foi usado por Robinson e seus acólitos para racionalizar o homicídio.

Mas de que tipo de queixas estamos a falar? O último a aderir a este argumento não é outro senão Maajid Nawaz, atualmente locutor de rádio.

Ao invés de se retratar pela promoção que deu a Robinson, ele usa essa plataforma para chamar a atenção para o que chama de “queixas legítimas” que estão por trás do apoio a este. Ele alega que essas queixas incluem um “fechar de olhos cultural ao extremismo vindo de minorias étnicas”, acrescentando que “os gangues violadores” eram “permitidos” nos municípios do Partido Trabalhista “em nome do anti-racismo”. E por isso, conclui, Robinson está apenas a tentar dizer o que não pode ser dito nos media britânicos.

Nawaz, crédito lhe seja dado, é um oportunista inteligente. Seria surpreendente se ele não soubesse que surgem quase diariamente notícias sobre o "extremismo vindo de pessoas de cor". Nem ele desconhece a participação do Reino Unido em extradições, sequestros, detenções, prisões secretas, assassinatos, ataques de drones e guerra foram todos justificados pelo "extremismo vindo de minorias étnicas".

De igual modo, seja qual for o conteúdo incendiário, impreciso e digno de capa que a Fundação Quilliam tenha publicado sobre os gangues violadores do norte de Inglaterra, não existe nenhuma ligação clara entre a indignação com a exploração sexual de crianças e ser-se um racista anti-muçulmanos. A não ser que se faça uma ligação racista, esta não existe.

A repetição de Nawaz da teoria da conspiração e de extrema-direita que diz que o município de Rotherham encobriu os casos de abuso sexual para defender a sua agenda politicamente correta deveria ser lida como o exemplo de cinismo que é. E a imprensa britânica tem sido tudo menos reticente em cobrir esse escândalo e em culpar as “pessoas de cor” por aquilo que aconteceu.

É também importante notar como a linguagem das "queixas" funciona na prática. Considere-se a raiva de Darren Osborne, que atropelou com uma carrinha uma multidão de pessoas à porta da mesquita de Finsbury Park.

De que se queixava ele? A polícia alega que Osborne foi motivado pelas publicações e vídeos de Tommy Robinson. Provas do tribunal sugerem que bastou um mês a digerir o seu material para ele ficar obcecado com muçulmanos. É provável que isto seja uma simplificação do que aconteceu. Não obstante, é significativo que Robinson tenha denominado o ataque assassino de Osborne como um “ataque motivado por vingança” e tenha culpado a mesquita por “criar terroristas e jihadistas radicais e promover o ódio e a segregação”.

Robinson estava a racionalizar o homicídio. E fê-lo de uma forma que é característica da sua retórica.

Entre 1997 e 2003, a mesquita de Finsbury Park esteve sob a liderança de Abu Hamza, contra a vontade de seus administradores e apesar da ação legal da parte destes. Durante esse tempo, foram formados vários quadros jihadistas na mesquita. Uma combinação de ação policial e intervenção de organizações muçulmanas e da Charity Commission permitiu reabrir a mesquita sob uma nova liderança em 2005.

A ideia de que essa mesquita, muito menos os fiéis e qualquer um que estivesse à porta da mesma, desse ao galês desempregado qualquer coisa para vingar, só faz sentido se se fizer a suposição racista, como Robinson fez, que o Islão é extremista e que todos os muçulmanos são extremistas.

Não obstante, os media continuaram a desejar as opiniões de Robinson, como o “Good Morning Britain” da ITV que lhe deu uma plataforma no dia seguinte ao ataque para dizer que o Corão incentivava à violência. Não apesar do fato de um homem inspirado pela ideologia de Robinson ter acabado de ser preso por homicídio, mas por causa disso.

E novamente no dia em que Osborne foi considerado culpado, a BBC achou por bem convidar Robinson para o Newsnight para mais uma entrevista sem contraditório. Novamente, não apesar do facto de um homem inspirado pela sua ideologia ter acabado de ser preso por homicídio, mas por causa disso. Sem fazer perguntas difíceis - algo ainda mais grotesco dadas as circunstâncias - deram a Robinson uma plataforma para se fazer de mártir.

O facto extraordinário sobre Tommy Robinson, portanto, não é o facto de ter sido atormentado por uma nação perversa, mas sim que ele receba esta dócil boa vontade de uma variedade de quadrantes, sobretudo de meios de comunicação, apesar de tudo o que ele disse e fez.

Mas ele não é nenhum mártir, é um fascista esperto. E aquilo não são chagas, é sangue nas suas mãos.

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