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27 de agosto de 2022

Como indicar um procurador-geral da República

Modelo pode combinar fim da recondução, mandato mais longo e quarentena para outros cargos

Fábio Kerche



O procurador-geral da República é uma das figuras mais importantes do cenário político brasileiro. Com assento, literalmente, no Supremo Tribunal Federal, opina sobre matérias constitucionais levadas a julgamento, tem o monopólio da acusação criminal do presidente e dos políticos de alto escalão e é o procurador-geral eleitoral, o chefe do Ministério Público da União e o presidente do Conselho Nacional do Ministério Público. A entrada do PGR na pauta eleitoral, sendo um dos temas das entrevistas com presidenciáveis no Jornal Nacional, é bem-vinda.

Há dois modelos de indicação, e recondução, em disputa. Um, previsto na Constituição, diz que é o presidente que escolhe um integrante do Ministério Público da União para que seu nome seja aprovado pelo Senado para um mandato de dois anos. Não há limites para a renovação desse mandato, desde que o processo se repita. Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, reconduziu seu PGR por três vezes.

Modelo alternativo, adotado sem qualquer alteração na legislação por Luiz Inácio Lula da Lula e Dilma Rousseff, se baseava numa lista tríplice votada por pouco mais de mil procuradores da República. Os presidentes petistas indicavam para a sabatina no Senado o nome mais votado pelos colegas de Ministério Público Federal, deixando de lado os outros ramos do Ministério Público da União, como procuradores do Trabalho. Na prática, os presidentes petistas delegaram o direito de escolher o chefe do Ministério Público da União para servidores públicos não eleitos, estimulando uma pauta corporativa para aquele que é o Ministério Público mais caro do mundo em termos de PIB. Michel Temer (MDB), em sua rápida passagem pelo Planalto, escolheu o segundo nome mais votado da lista tríplice.

Os dois modelos de escolha são ruins e incentivam comportamentos questionáveis. Um estimula um PGR excessivamente atrelado ao presidente, e o outro, um chefe do Ministério Público que não presta contas à sociedade e que dificilmente poderá ser responsabilizado por seus atos. O maior problema, contudo, é a possibilidade da recondução.

No modelo constitucional, o PGR precisa agradar o presidente para ter seu mandato renovado ou até ser indicado para postos mais importantes, como o STF. O responsável por acusar o presidente e seus ministros junto à Suprema Corte para crimes comuns só terá sua recondução assegurada se agradar justamente àquele que deve ser fiscalizado. O engavetador-geral da República de FHC e o excessivamente cauteloso Augusto Aras são frutos desse modelo institucional.

No caso da lista tríplice, o procurador-geral, para ter o seu mandato renovado, deve agradar aos seus próprios colegas. O direito de que servidores públicos possam escolher uma figura central na República não assegura que o processo seja mais democrático do que aquela que passa pelo presidente eleito pelo voto popular. Um PGR poderoso e excessivamente independente da prestação de contas a terceiros é tão problemático quanto um excessivamente atrelado ao chefe do Executivo. Rodrigo Janot, o PGR da Lava Jato, fez tão mal a democracia brasileira quanto Aras.

É preciso buscar uma alternativa. Seria um ganho se conseguíssemos equilibrar autonomia do PGR, mas sem desconsiderar a legitimidade dos políticos eleitos. A saída pode ser um modelo que combine o fim da recondução, mandato mais longo e uma quarentena para outros cargos —tudo isso passando pela indicação do presidente e pela aprovação do Senado.

Essa fórmula não estimularia o PGR a agradar seu eleitor, seja o presidente, sejam os demais procuradores, justamente por não poder ser reconduzido ao cargo. A quarentena extensa desestimularia que o PGR buscasse uma recompensa para outras vagas no Executivo, Legislativo ou Judiciário. Um mandato longo e, talvez, de forma que um procurador-geral indicado em um mandato presidencial ainda sirva em uma parte do próximo, assegura tempo para a condução de investigações e de processos.

No laboratório da política, as experiências adotadas em diferentes momentos se mostraram equivocadas em relação à indicação do PGR. Que o futuro permita o debate sobre alternativas ao que não funcionou.

Sobre o autor

Doutor em ciência política pela USP, é professor da Unirio e membro do Observatório das Eleições INCT/IDDC; coautor do livro "A Política no Banco dos Réus: a Operação Lava Jato e a erosão da democracia no Brasil" (ed. Autêntica)

12 de maio de 2020

Fiquem de olho no procurador-geral da República

Augusto Aras é uma espécie de termômetro da crise política

Fábio Kerche
Marjorie Marona

Folha de S.Paulo

O presidente Jair Bolsonaro conversa com o procurador-geral da República, Augusto Aras. Lucio Tavora/Xinhua

Na terra arrasada em que se dá a disputa política atual, com parlamentares neófitos, evangélicos e militares conduzindo as articulações entre Executivo e Legislativo, eis que surge um jogador habilidoso: Augusto Aras, o procurador-geral da República.

Seu primeiro movimento foi perceber que Jair Bolsonaro iria ignorar os três nomes indicados pelos procuradores federais para escolher o seu novo chefe. A tradição de observar a lista constituída por meio de eleição pelos procuradores federais foi inaugurada por Lula, mantida por Dilma e parcialmente aceita por Temer, que escolheu a segunda mais votada. A prática incentivou o chefe do Ministério Público, buscando sua recondução, a observar mais atentamente os desejos de seus colegas do que os do chefe do Executivo. Exatamente o contrário do que fazia o chamado engavetador-geral da República na época de FHC, fiel protetor do ex-presidente.

Aras adaptou o discurso, adotando posições bem ao gosto dos conservadores e, correndo por fora, não participou do processo eleitoral do Ministério Público Federal. A bem-sucedida estratégia foi coroada com a indicação de Bolsonaro. O atual PGR sabe, portanto, que para ser reconduzido ao cargo no próximo ano ele deve agradar ao presidente —e não aos seus colegas.

Mas a atual crise política coloca ao PGR uma questão: continuará o presidente no cargo até o próximo ano? Se Aras proteger demais Bolsonaro, e este cair, ele corre o risco de ser associado ao presidente e não ser reconduzido. Se o presidente conseguir terminar seu mandato e Aras tiver ido para cima do ex-capitão, ele muito provavelmente não será indicado novamente. Esse é o cenário de incerteza que norteia a atuação do PGR nas últimas semanas, marcada pela dubiedade.

O inquérito sobre as manifestações antidemocráticas que contaram com a participação de Bolsonaro é um bom exemplo das habilidades do PGR. Seu pedido ao STF foi para investigar a organização dos eventos, e não a participação nos atos. Ou seja, atendia ao clamor de diversos segmentos da sociedade de que o Ministério Público teria que fazer em face das afrontas à democracia, ao mesmo tempo que protegia um presidente que compactuou com os pedidos de AI-5 e de fechamento do STF e do Congresso.

Movimento semelhante se deu no pedido de abertura de inquérito para investigar as acusações de Sergio Moro ao sair do Ministério da Justiça. O ex-juiz da Lava Jato, que ficou 16 meses no governo, acusou o presidente de tentar interferir indevidamente na PF. Aras, mais uma vez, buscando se equilibrar em duas canoas, pediu a apuração de eventuais crimes de Bolsonaro, mas também de Moro.

Muitas das acusações ao presidente, se comprovadas, levariam também o ex-ministro a ser implicado em crimes de prevaricação ou contravenção penal. Mesmo o requerimento de que o vídeo de uma reunião ministerial seja usado no inquérito pode servir aos dois lados da disputa político-jurídica. Há os que dizem que daí poderá se constituir prova cabal da interferência de Bolsonaro. Para outros, ao contrário, o vídeo pode evidenciar atividade política regular e legítima do presidente, buscando algum grau de ingerência numa instituição da estrutura do Poder Executivo.

E o PGR ainda guarda outra carta na manga: finalizado o inquérito, é ele quem decidirá se leva adiante a acusação —caso em que precisa, ainda, da aprovação da Câmara—ou a arquiva. Ou seja, Aras tem tempo para acompanhar os rumos da crise política sem que ninguém possa acusá-lo de impedir as apurações contra o chefe de governo.

Aras, portanto, segue como o último homem de Bolsonaro. Se ele atuar de forma agressiva contra o presidente, como faziam os PGRs escolhidos pelas listas tríplices, haverá um forte sinal de que percebeu que Bolsonaro não se segurará por muito tempo no cargo. Se ele o proteger, mantendo a tradição do engavetador-geral da República, há um indicador de que Bolsonaro ainda tem força para se manter na Presidência. Aras é uma espécie de termômetro da crise política: fiquem de olho nele.

Sobre os autores

Fábio Kerche

Doutor em ciência política pela USP e professor dos programas de pós-graduação da UniRio e do Iesp/Uerj; é autor de 'Virtude e Limites: autonomia e atribuições do Ministério Público no Brasil' (Edusp).

Marjorie Marona

Professora e doutora em ciência política pela UFMG; é uma das organizadoras de 'Justiça no Brasil: as margens da democracia' (Arraes, 2018).

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