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1 de setembro de 2023

O duplo objetivo do ecossocialismo democrático

A humanidade neste momento enfrenta duas grandes crises: uma ecológica, que se torna mais aguda a cada limite planetário ultrapassado; a outra social, que leva à privação e ao desespero em todo o globo. Uma abordagem ecossocialista eficaz para essas crises, escreve Jason Hickel, deve ter como objetivo resolver ambas de uma só vez.

Jason Hickel

Monthly Review

Volume 75, Number 04 (September 2023)

Tradução / Enfrentamos uma dupla crise à medida que o século XXI se vai desenrolando. Por um lado, trata-se de uma crise ecológica: as alterações climáticas e várias outras pressões do sistema terrestre estão a ultrapassar perigosamente os limites do planeta. Por outro lado, é também uma crise social: vários milhares de milhões de pessoas estão privadas do acesso a bens e serviços básicos. Mais de 40 por cento da população humana não tem acesso a alimentos nutritivos; 50 por cento não dispõe de instalações sanitárias geridas de forma segura; 70 por cento não tem acesso aos cuidados de saúde necessários.

A privação é mais extrema na periferia, onde a dinâmica imperialista do ajustamento estrutural e das trocas desiguais continua a perpetuar a pobreza e o subdesenvolvimento. Mas também é evidente no centro: nos Estados Unidos da América, quase metade da população não pode pagar os cuidados de saúde; no Reino Unido, 4,3 milhões de crianças vivem na pobreza; na União Europeia, 90 milhões de pessoas enfrentam a insegurança económica. Estes padrões de privação são atravessados por brutais desigualdades de raça e género.

Nenhum programa político que prometa analisar e resolver a crise ecológica pode esperar ser bem sucedido se não analisar e resolver simultaneamente - isto é, de um mesmo golpe - a crise social. A tentativa de resolver uma sem a outra deixa as contradições fundamentais enraizadas e acabará por dar origem a monstros. Na verdade, os monstros já estão a surgir.

É extremamente importante compreender que a dupla crise social-ecológica está a ser conduzida, em última análise, pelo sistema capitalista de produção. As duas dimensões são sintomas da mesma patologia subjacente. Por capitalismo não me refiro apenas aos mercados, ao comércio e às empresas, como as pessoas frequentemente assumem com ligeireza. Estas coisas já existiam há milhares de anos antes do capitalismo e são, por si sós, razoavelmente inocentes. A principal caraterística definidora do capitalismo que temos de enfrentar é o facto de ser, como condição da sua própria existência, fundamentalmente antidemocrático.

Sim, muitos de nós vivemos em sistemas políticos eleitorais - por mais corruptos e capturados que possam ser – no seio dos quais selecionamos os nossos dirigentes políticos, de tempos a tempos. Mas, mesmo assim, em quanto se trate do sistema de produção, nem sequer a mais superficial ilusão de democracia entra em conta. A produção é controlada esmagadoramente pelo capital: grandes corporações, grandes empresas financeiras e o 1% que detém a parte de leão dos ativos investíveis. O capital detém o poder de mobilizar o nosso trabalho coletivo e os recursos do nosso planeta para o que quiser, determinando o que produzimos, em que condições, e como o excedente que geramos deve ser usado e distribuído.

E sejamos claros: para o capital, o principal objetivo da produção não é satisfazer necessidades humanas específicas ou alcançar o progresso social, muito menos atingir quaisquer objetivos ecológicos concretos. Em vez disso, o seu objetivo primordial é a maximização e a acumulação de lucros.

O resultado disso é que o sistema mundial capitalista é caracterizado por formas perversas de produção. O capital direciona o financiamento para produtos altamente lucrativos, como os veículos utilitários desportivos, a carne industrial, a moda efémera, as armas, os combustíveis fósseis e a especulação imobiliária, ao mesmo tempo que reproduz a escassez crónica de bens e serviços necessários, como os transportes públicos, os cuidados de saúde públicos, os alimentos nutritivos, as energias renováveis e a habitação a preços acessíveis. Esta dinâmica ocorre no seio das economias nacionais, mas tem também claras dimensões imperialistas. A terra, o trabalho e as capacidades produtivas em todo o Sul Global são compelidos a abastecer cadeias globais de mercadorias dominadas por empresas do Norte - bananas para a Chiquita, algodão para a Zara, café para a Starbucks, telefones móveis para a Apple e coltan para a Tesla, tudo em benefício do núcleo central, tudo a preços artificialmente deprimidos - em vez de produzirem alimentos, habitação, cuidados de saúde, educação e bens industriais para satisfazer as necessidades nacionais. A acumulação de capital no centro depende da drenagem de mão de obra e recursos da periferia[1].

Por conseguinte, não é de surpreender que, apesar dos níveis extremamente elevados de produção agregada - e dos níveis de utilização de energia e de materiais que estão a conduzir as pressões ecológicas muito para além de limites seguros e sustentáveis -, a privação continue a ser generalizada na economia mundial capitalista. O capitalismo produz demasiado, é certo, mas também não produz o suficiente das coisas certas. O acesso a bens e serviços essenciais é limitado pela mercantilização; e porque o capital procura baratear o trabalho em todas as oportunidades, particularmente na periferia, o consumo das classes trabalhadoras é limitado.

Piotr Kropotkin apercebeu-se desta dinâmica há mais de 130 anos. Em A Conquista do Pão, observou que, apesar dos elevados níveis de produção na Europa, mesmo no século XIX, a maioria da população vivia na miséria. Porquê? Porque, no capitalismo, a produção é mobilizada em torno "daquilo que oferece os maiores lucros aos monopolistas". "Alguns homens ricos", escreveu, "manipulam as atividades económicas da nação". Enquanto isso, as massas, que são impedidas de produzir para suas próprias necessidades, "não têm os meios de subsistência para um mês, ou mesmo para uma semana, em antecedência".

Considere, instou Kropotkin, "todo o trabalho que é desperdiçado - aqui, para manter os estábulos, os canis e o séquito dos ricos; ali, para agradar aos caprichos da sociedade e aos gostos depravados da gente da moda; ali, novamente, para forçar o consumidor a comprar o que ele não precisa, ou para impingir-lhe um artigo inferior por meio da publididade, e para produzir, por outro lado, mercadorias que são absolutamente prejudiciais, mas lucrativas para o fabricante"[2].

Mas toda esta atividade produtiva poderia ser organizada para outros fins. "O que é desperdiçado desta maneira", escreveu Kropotkin, "seria suficiente para duplicar a produção de coisas úteis, ou para encher as nossas oficinas e fábricas com maquinaria, de tal forma que em breve inundariam as lojas com tudo o que agora falta a dois terços da nação". Se os trabalhadores e agricultores tivessem controlo coletivo sobre os meios de produção, facilmente conseguiriam assegurar aquilo a que Kropotkin se referia como "bem-estar para todos". A pobreza em massa, a privação e as escassezes artificiais, que caracterizam o capitalismo, poderiam acabar mais ou menos imediatamente.

O argumento de Kropotkin mantém-se atual. Não seria precisa uma grande parte da capacidade produtiva global total, para garantir vidas decentes para todos no planeta. Mas com a realidade da crise ecológica, temos também de enfrentar um segundo desafio, um que Kropotkin não podia ainda ter em conta no século XIX: alcançar o bem-estar para todos e, ao mesmo tempo, reduzir a utilização agregada de energia e materiais (especificamente nas metrópoles centrais) para permitir uma descarbonização suficientemente rápida e trazer a economia mundial de volta aos limites planetários (3). A inovação tecnológica e as melhorias de eficiência são cruciais para isso, mas os países de rendimento elevado também precisam de reduzir as formas de produção menos necessárias, a fim de reduzir diretamente os excessos de utilização de energia e de materiais (4).

Se o capitalismo sempre foi incapaz de atingir o primeiro objetivo (bem-estar para todos), não pode certamente atingir o segundo. Trata-se de uma impossibilidade estrutural, pois vai contra a lógica central da economia capitalista, que é a de aumentar indefinidamente a produção agregada, para manter as condições de acumulação perpétua.

É claro o que tem de ser feito: temos de alcançar o controlo democrático das finanças e da produção, como defendia Kropotkin, e agora organizá-lo em torno do duplo objetivo do bem-estar e da ecologia. Isto exige que façamos a distinção, como fez Kropotkin, entre a produção socialmente necessária, que precisa claramente de aumentar para o progresso social, e as formas de produção destrutivas e menos necessárias, que precisam urgentemente de ser reduzidas. É este o objetivo histórico-mundial revolucionário que se coloca à nossa geração.

Como seria uma tal economia? Há vários objetivos fundamentais que se destacam.

Para garantir o básico social, primeiro temos de expandir e desmercantilizar os serviços públicos universais (5). Refiro-me aos cuidados de saúde e à educação, sim, mas também à habitação, aos transportes públicos, à energia, à água, à internet, aos cuidados infantis, às instalações recreativas e à alimentação nutritiva para todos. Mobilizemos as nossas forças produtivas para garantir que todos têm acesso aos bens e serviços necessários ao bem-estar.

Em segundo lugar, devemos estabelecer programas ambiciosos de obras públicas, para construir capacidade de energia renovável, isolar casas, produzir e instalar aparelhos eficientes, restaurar ecossistemas e inovar tecnologias socialmente necessárias e ecologicamente eficientes. Estas são intervenções essenciais que devem ser efetuadas o mais rapidamente possível; não podemos esperar que o capital decida que vale a pena fazê-las.

Em terceiro lugar, temos de introduzir uma garantia pública de emprego, dando às pessoas a possibilidade de participarem nestes projetos coletivos vitais, fazendo um trabalho significativo e socialmente necessário, com democracia no local de trabalho e salários dignos. A garantia de emprego deve ser financiada pelo emissor da moeda, mas deve ser democraticamente governada ao nível local adequado.

Consideremos o poder desta abordagem. Permite-nos atingir objetivos ecologicamente necessários. Mas também acaba com o desemprego. Acaba com a insegurança económica. Garante uma vida boa para todos, independentemente das flutuações da produção agregada, desvinculando assim o bem-estar do crescimento. Quanto ao resto da economia, as empresas privadas devem ser democratizadas e colocadas sob o controlo dos trabalhadores e da comunidade, conforme apropriado, e a produção deve ser reorganizada em torno dos objetivos de bem-estar e da ecologia.

Em seguida, à medida que asseguramos e melhoramos os sectores social e ecologicamente necessários, temos também de reduzir as formas de produção socialmente menos necessárias. Os combustíveis fósseis são óbvios neste caso: precisamos de objetivos vinculativos para acabar com esta indústria, de uma forma justa e equitativa (6). Mas - tal como os estudos sobre o decrescimento indicam - também precisamos de reduzir a produção agregada noutras indústrias destrutivas (automóveis, companhias aéreas, mansões, carne industrial, moda efémera, publicidade, armas, etc.), ao mesmo tempo que prolongamos a vida útil dos produtos e proibimos a obsolescência planeada. Este processo deve ser determinado democraticamente, mas também assente na realidade material da ecologia e nos imperativos da justiça descolonializadora (7).

Por fim, precisamos urgentemente de reduzir o excesso de poder de compra dos ricos, através de impostos sobre a riqueza e de rácios de rendimento máximo (8). Neste momento, só os milionários estão a caminho de queimar 72% do orçamento de carbono que falta para manter o planeta abaixo de 1,5° C de aquecimento (9). Isto é um ataque flagrante à humanidade e ao mundo vivo, e nenhum de nós o deve aceitar. É irracional e injusto continuar a desviar a nossa energia e os nossos recursos para apoiar uma elite consumista no meio de uma emergência ecológica.

Se, depois de darmos estes passos, verificarmos que a nossa sociedade precisa de menos trabalho para produzir o que precisamos, podemos reduzir a semana de trabalho, dar mais tempo livre às pessoas e partilhar mais equitativamente o trabalho necessário, evitando assim permanentemente qualquer desemprego.

A dimensão internacionalista desta transição deve estar no centro das atenções. Os excessos de utilização de energia e de materiais têm de diminuir, nas metrópoles centrais, para se atingirem os objetivos ecológicos, enquanto, na periferia, as capacidades produtivas têm de ser recuperadas, reorganizadas e, em muitos casos, aumentadas, para satisfazer as necessidades humanas e alcançar o desenvolvimento, com a produção a convergir globalmente para níveis que sejam suficientes para o bem-estar universal e compatíveis com a estabilidade ecológica (10). Para o Sul Global, isto exige o fim dos programas de ajustamento estrutural, o cancelamento das dívidas externas, a garantia da disponibilidade universal das tecnologias necessárias e a possibilidade de os governos utilizarem políticas industriais e fiscais progressivas para melhorar a soberania económica. Na ausência de uma ação multilateral eficaz, os governos do Sul podem e devem tomar medidas unilaterais ou coletivas no sentido do desenvolvimento soberano e devem ser apoiados para esse fim (11).

Como tudo isto deve ter já tornado claro, o decrescimento – o quadro analítico que abriu a imaginação de cientistas e ativistas na última década - é melhor entendido como um elemento apenas, dentro de uma luta mais ampla pelo ecossocialismo e o anti-imperialismo.

O programa delineado acima é comportável? Sim. Por definição, sim. Como até mesmo o influente economista capitalista John Maynard Keynes reconheceu - e como os economistas socialistas sempre entenderam - tudo aquilo que podemos realmente fazer, em termos de capacidade produtiva, podemos pagá-lo. E quando se trata de capacidade produtiva, temos muito mais do que suficiente. Ao estabelecermos um controlo democrático sobre as finanças e a produção, podemos simplesmente desviar a utilização desta capacidade da produção esbanjadora e da acumulação de elite para atingir objetivos sociais e ecológicos.

Alguns dirão que isto parece utópico. Mas acontece que estas políticas são extremamente populares. Serviços públicos universais, garantia de emprego público, mais igualdade, uma economia centrada no bem-estar e na ecologia e não no crescimento - as sondagens e inquéritos mostram um forte apoio maioritário a estas ideias e as assembleias oficiais de cidadãos em vários países apelaram precisamente a este tipo de transição. Isto tem o potencial de se tornar uma agenda política popular e viável.

Mas nada disto acontecerá por si só. Será necessária uma grande luta política contra aqueles que beneficiam tão prodigiosamente do status quo. Este não é o momento para um reformismo brando, para ajustar as arestas de um sistema falhado. Este é um tempo de mudança revolucionária. É claro, no entanto, que o movimento ambientalista que se mobilizou nos últimos anos não pode servir como o único agente desta mudança. Embora o movimento tenha conseguido trazer os problemas ecológicos para o primeiro plano do discurso público, falta-lhe a análise estrutural e a influência política para conseguir a transição necessária. Os partidos verdes burgueses são um caso particularmente flagrante, com a sua perigosa desatenção à questão dos meios de subsistência da classe trabalhadora, da política social e da dinâmica imperialista. Para ultrapassar estas limitações, é urgentemente importante que os ambientalistas construam alianças com os sindicatos, os movimentos laborais e outras formações políticas da classe trabalhadora que têm muito mais influência política, incluindo o poder da greve.

Para conseguir isso, os ambientalistas devem colocar em primeiro plano as políticas sociais que enumerei acima, organizando-se para abolir a insegurança económica que leva as comunidades da classe trabalhadora e muitos sindicatos a temerem as ramificações negativas que uma ação ecológica radical pode ter nos seus meios de subsistência. Mas os sindicatos também precisam de se mexer. Digo isto não como um crítico externo, mas como um sindicalista de longa data. Como é que alguma vez deixámos que os horizontes políticos do movimento operário se reduzissem a batalhas específicas por salários e condições de trabalho, deixando intacta a estrutura geral da economia capitalista? Temos de reavivar as nossas ambições originais e unirmo-nos em todos os sectores - bem como com os desempregados - para garantir o básico social para todos e alcançar a democracia económica.

Finalmente, os movimentos progressistas nas metrópoles centrais devem unir-se, apoiar e defender os movimentos sociais radicais e anticoloniais do Sul Global. Os trabalhadores e camponeses da periferia contribuem com 90 por cento do trabalho que alimenta a economia mundial capitalista, e o Sul detém a maior parte da terra arável e dos recursos críticos do mundo, o que coloca uma influência substancial nas suas mãos. Qualquer filosofia política que não coloque em primeiro plano os trabalhadores e os movimentos políticos do Sul como agentes principais da mudança revolucionária está simplesmente a falhar o objetivo.

Isso requer o trabalho árduo de organizar, estabelecer solidariedades e unir-se em torno de reivindicações políticas comuns. Requer estratégia e requer coragem. Há esperança? Sim. Sabemos que é empiricamente possível alcançar uma economia mundial justa e sustentável. Mas a nossa esperança só pode ser tão forte quanto a nossa luta. Se quisermos ter esperança - se quisermos conquistar um mundo assim - temos de construir a luta.

Notas

[1] Jason Hickel, Christian Dorninger, Hanspeter Wieland e Intan Suwandi, “Imperialist Appropriation in the World Economy: Drain from the Global South through Unequal Exchange, 1990–2015,” Global Environmental Change 73 (2020): 102467.

[2] Peter Kropotkin, The Conquest of Bread (1892), marxists.org.

[3] Jason Hickel, Daniel W. O’Neill, Andrew L. Fanning e Huzaifa Zoomkawala, “National Responsibility for Ecological Breakdown: A Fair-Shares Assessment of Resource Use, 1970–2017”, Lancet Planetary Health 6, n.º 4 (2022): pp. e342–e349; Jason Hickel, “Quantifying National Responsibility for Climate Breakdown: An Equality-Based Attribution Approach for Carbon Dioxide Emissions in Excess of the Planetary Boundary”, Lancet Planetary Health 4, n.º 9 (2022): pp. e399–e404; Lorenz T. Keyßer e Manfred Lenzen, “1.5°C Degrowth Scenarios Suggest the Need for New Mitigation Pathways”, Nature Communications 12, n.º 1 (2021): p. 2676; Jason Hickel et al., “Urgent Need for Post-Growth Climate Mitigation Scenarios”, Nature Energy 6, n.º 8 (2021): pp. 766–68.

[4] Jason Hickel, “On Technology and Degrowth”, Monthly Review 75, n.º 3 (July–August 2023): pp. 44–50; Jefim Vogel e Jason Hickel, “Is Green Growth Happening?: Achieved vs. Paris-compliant CO2-GDP Decoupling in High-Income Countries”, Lancet Planetary Health (2023).

[5] Jason Hickel, “Universal Public Services: The Power of Decommodifying Survival”, MR Online, April 21, 2023.

[6] Ver, por exemplo, a Fossil Fuel Non-Proliferation Treaty Initiative.

[7] Sabemos, através de assembleias de cidadãos no Reino Unido, em França e em Espanha, que as pessoas conseguem identificar rapidamente formas de produção menos necessárias e chegar a acordo para as reduzir. Sabemos também que, em condições experimentais, as pessoas procuram gerir os recursos de forma justa e ecológica (confirmando a investigação de Eleanor Ostrom e outros sobre a gestão democrática dos bens comuns); ver Oliver P. Hauser, David G. Rand, Alexander Peysakhovich e Martin A. Nowak, “Cooperating with the Future”, Nature 511, n.º 7508 (2014): pp. 220–23. A democracia é um valor socialista fundamental, mas também o são a ciência (ou seja, as posições devem ser empiricamente robustas no que respeita à realidade material e ecológica), a justiça e a solidariedade. Se as pessoas no centro decidirem democraticamente aumentar a sua utilização de energia e materiais de forma a exacerbar o colapso ecológico e/ou prejudicar as pessoas na periferia, os socialistas devem opor-se e argumentar/organizar-se para uma mudança de rumo.

[8] Joel Millward-Hopkins e Yannick Oswald, “Reducing Global Inequality to Secure Human Wellbeing and Climate Safety”, Lancet Planetary Health 7, n.º 2 (2023): pp. e147–e154. Ver também Jason Hickel, “How Much Should Inequality Be Reduced?”, Al Jazeera, December 14, 2022.

[9] Stefan Gössling e Andreas Humpe, “Millionaire Spending Incompatible with 1.5°C Ambitions”, Cleaner Production Letters 4 (2023): 100027.

[10] Hickel, O’Neill, Fanning e Zoomkawala, “National Responsibility for Ecological Breakdown”; Hickel, “Quantifying National Responsibility for Climate Breakdown”; Keyßer and Lenzen, “1.5°C Degrowth Scenarios Suggest the Need for New Mitigation Pathways”; Jason Hickel e Dylan Sullivan, “Capitalism, Global Poverty, and the Case for Democratic Socialism”, Monthly Review 75, n.º 3 (July–August 2023): pp. 99–113.

[11] Jason Hickel, “How to Achieve Full Decolonization”, New Internationalist, October 15, 2021; Samir Amin, Delinking: Toward a Polycentric World (London: Zed Books, 1980).

Jason Hickel é professor no Instituto de Ciência e Tecnologia Ambiental (ICTA-UAB) e no Departamento de Antropologia Social e Cultural da Universidade Autônoma de Barcelona. Ele é autor de The Divide: A Brief Guide to Global Inequality and Its Solutions (Penguin, 2017) e Less Is More: How Degrowth Will Save the World (Penguin, 2020).

1 de julho de 2023

Sobre tecnologia e decrescimento

Há um equívoco comum entre os críticos de que os proponentes do decrescimento não se envolvem com a questão da tecnologia, deixando, em vez disso, a implementação de soluções tecnológicas para a crise planetária para os defensores do crescimento verde. Jason Hickel mostra que essa narrativa não só é falsa, como também obscurece as possibilidades de tecnologia sem restrições do capitalismo.

Jason Hickel

Volume 75, Number 03 (July-August 2023)

Tradução / Quero abordar um problema que parece surgir repetidamente nas discussões públicas sobre o crescimento verde e o decrescimento. Alguns comentadores proeminentes parecem assumir que o debate aqui é principalmente sobre a questão da tecnologia, com o crescimento verde a promover soluções tecnológicas para a crise ecológica, enquanto o decrescimento promove apenas soluções económicas e sociais (e nas mais flagrantes deturpações é apresentado como “anti-tecnologia”). Esta narrativa é imprecisa e mesmo uma revisão superficial da literatura é suficiente para deixar isso claro. Na verdade, os proponentes do decrescimento endorsam a mudança tecnológica e as melhorias de eficiência, na medida em que estas (crucialmente) sejam empiricamente viáveis, ecologicamente coerentes e socialmente justas. Mas também reconhecem que isto, por si só, não será suficiente: são ainda necessárias transformações económicas e sociais, incluindo uma transição para fora do capitalismo. O debate não é, portanto, principalmente sobre tecnologia, mas sobre ciência, justiça e a estrutura do sistema económico.

Está agora bem estabelecido que os cenários de crescimento verde enfrentam um problema difícil. Começam com o pressuposto de que os países ricos no “núcleo” do sistema mundial deveriam continuar a aumentar a produção e o consumo agregados (“crescimento”) durante o resto do século. Mas o crescimento não surge do nada. Requer energia. Os países ricos já se apropriam de níveis extremamente elevados de energia – muitas vezes mais do que o resto do mundo e muito acima do que seria necessário para proporcionar boas vidas a todos (1).

Este elevado consumo de energia é um problema, não só porque está a provocar o colapso climático e a contribuir para a ultrapassagem de outras fronteiras planetárias, mas também porque torna uma descarbonização suficientemente rápida (isto é, uma descarbonização consistente com quotas justas de orçamentos de carbono compatíveis com o Acordo de Paris) muito difícil de alcançar, mesmo com pressupostos otimistas sobre a velocidade da implantação das energias renováveis (2). Para resolver esta questão, os cenários de crescimento verde recorrem a vários pressupostos profundamente problemáticos (3).

Em primeiro lugar, assumem que podemos agora ultrapassar os limites do Acordo de Paris e contar com a implantação em massa no futuro da especulativa tecnologia de emissões negativas (principalmente bioenergia com captura e armazenamento de carbono, ou BECCS no acrónimo inglês), para retirar o excesso de carbono da atmosfera. Os cientistas levantaram grandes sinais de alerta sobre esta abordagem. A BECCS exigiria vastas extensões de terra para a monocultura de biocombustíveis, até três vezes o tamanho da Índia, apropriadas esmagadoramente no Sul global, exacerbando a desflorestação, o esgotamento do solo, o esgotamento da água, a perda de biodiversidade e outros danos aos ecossistemas, ao mesmo tempo que restringe a disponibilidade de alimentos. Confiar nesta abordagem é injusto e ecologicamente incoerente. É também arriscado, porque se, por quaisquer razões tecnológicas ou políticas, este esquema não puder ser escalado no futuro, ficaremos presos numa trajetória de altas temperaturas da qual será impossível escapar (4).

Um segundo pressuposto importante nos cenários de crescimento verde é que podem ser alcançadas melhorias de eficiência até um ponto que dissocie radicalmente o PIB da utilização de energia. O principal problema aqui é que as taxas de dissociação assumidas não são apoiadas na literatura empírica – estão muito longe mesmo das mais heroicas conquistas documentadas. Além disso, estudos empíricos revelam que, numa economia orientada para o crescimento, os ganhos provenientes de melhorias de eficiência tendem a ser aproveitados para expandir os processos de produção e consumo, o que tende a corroer as reduções absolutas na utilização de energia ou de materiais (5). Em suma, as melhorias de eficiência são importantes, mas numa economia organizada em torno do crescimento e da acumulação, eles não produzem os resultados de que necessitamos. O problema, portanto, não é primariamente a nossa tecnologia, mas antes os objetivos da economia.

Finalmente, os cenários de crescimento verde mantêm elevados níveis de utilização de energia em países de rendimento elevado, restringindo a utilização de energia e, portanto, o desenvolvimento, no Sul global – em alguns casos, a níveis que estão abaixo do que é necessário até mesmo para as necessidades básicas (6). Esta abordagem é, obviamente, imoral e injusta (o termo ecofascista vem à mente) e claramente inaceitável para os negociadores do Sul global. Vale a pena notar aqui, além disso, que alcançar e manter uma economia descarbonizada em países de rendimento elevado com os seus atuais níveis de utilização de energia (e utilização de automóveis) exigiria níveis extraordinários de extração de materiais para todas as suas infraestruturas energéticas e baterias. A maioria desses materiais será obtida no Sul global, através de cadeias de abastecimento que já são, em muitos casos, social e ecologicamente destrutivas. Sim, precisamos de uma transição para as energias renováveis. Mas o uso desnecessariamente elevado de energia nos países ricos significa que esta transição será mais lenta e os custos sociais e ecológicos serão mais elevados.

Em suma, os cenários de crescimento verde trapaceiam com a ciência, assumem acordos incrivelmente injustos e põem em jogo o futuro da humanidade – e de toda a vida na Terra – simplesmente para manter níveis cada vez maiores de produção agregada em países de rendimento elevado, que, como veremos, nem são necessários.

Os economistas ecológicos salientam que, quando reduzimos os nossos pressupostos sobre a mudança tecnológica para níveis que são, para citar a física e economista ecológica Julia Steinberger, “não insanos”, e quando rejeitamos a ideia de que o crescimento nos países ricos deve ser mantido à custa do Sul global, torna-se claro que confiar na mudança tecnológica não é suficiente, por si só, para resolver a crise ecológica. Sim, precisamos de uma implantação rápida de energias renováveis, de melhorias de eficiência e da disseminação de tecnologia avançada (fogões de indução, aparelhos eficientes, bombas de calor, comboios elétricos, etc.). Mas também precisamos que os países de rendimento elevado reduzam drasticamente a utilização agregada de energia e de materiais, a uma velocidade mais rápida do que as melhorias de eficiência, por si só, poderiam esperar proporcionar. Para conseguir isto, os países de rendimento elevado precisam de abandonar o crescimento como objetivo e reduzir ativamente as formas de produção menos necessárias, para reduzir diretamente o seu excesso de utilização de energia e de materiais (7).

Isso nos leva a um ponto extremamente importante. Devemos ser claros sobre o que é realmente o crescimento. Não é inovação, nem progresso social, nem melhorias no bem-estar. É definido de forma muito restrita como um aumento na produção agregada, medida em preços de mercado (PIB). O PIB não faz distinção entre 100 dólares em gás lacrimogéneo e 100 dólares em cuidados de saúde. Esta métrica não se destina a medir o que é importante para as pessoas, mas sim o que é importante para o capitalismo. É claro que o que é importante para o capitalismo não é satisfazer as necessidades humanas ou alcançar o progresso social, mas sim maximizar e acumular capital. Se o progresso social e o bem-estar são o nosso objetivo, não é o valor de mercado da produção agregada que importa, mas sim o que estamos a produzir (gás lacrimogéneo ou cuidados de saúde?), e se as pessoas têm acesso a bens e serviços essenciais (os cuidados de saúde estão privatizados ou são universais?). Isto é básico para o pensamento socialista.

Sob o capitalismo, os bens essenciais ou são subproduzidos (transportes públicos) ou mercantilizados e com preços fora do alcance das famílias da classe trabalhadora (habitação, cuidados de saúde, ensino superior, e assim por diante). Isto explica por que, mesmo nos países ricos, apesar dos seus elevados níveis de produção agregada, muitas pessoas não conseguem sobreviver. Nos Estados Unidos da América, um quarto da população vive em habitações precárias e quase metade não tem condições para pagar cuidados de saúde. No Reino Unido, 4,3 milhões de crianças vivem na pobreza. Porquê? Porque as forças produtivas estão organizadas em torno dos interesses do capital e não em torno dos interesses das pessoas.

O decrescimento não exige a redução de todas as formas de produção. Em vez disso, apela à redução de formas de produção ecologicamente destrutivas e socialmente menos necessárias, como veículos utilitários desportivos, jatos privados, mansões, modas fugazes, armas, carne industrial, cruzeiros, viagens aéreas comerciais, etc., ao mesmo tempo que corta a publicidade, prolonga a vida útil dos produtos (proibindo a obsolescência planeada e introduzindo garantias obrigatórias a longo prazo e direitos de reparação) e reduzindo drasticamente o poder de compra dos ricos. Por outras palavras, visa formas de produção que são organizadas principalmente em torno da acumulação de capital e do consumo da elite. No meio de uma emergência ecológica, deveríamos produzir veículos utilitários desportivos e mansões? Deveríamos desviar energia para apoiar o consumo obsceno e a acumulação da classe dominante? Não. Isso é uma irracionalidade que só o capitalismo pode apreciar.

Ao mesmo tempo, os proponentes do decrescimento insistem numa política social forte para garantir as necessidades humanas e o bem-estar, com serviços públicos universais, salários dignos, garantia de emprego público, redução do tempo de trabalho, democracia económica e a desigualdade radicalmente reduzida (8). Estas medidas abolem o desemprego e a insegurança económica, garantindo as condições materiais para uma vida universalmente decente – mais uma vez, princípios socialistas básicos. Estes mesmos paladinos apelam a melhorias de eficiência, sim, mas também a uma transição em direção à suficiência, à equidade e a uma economia pós-capitalista democrática, onde a produção é organizada em torno do bem-estar para todos, como disse Peter Kropotkin, em vez de em torno da acumulação de capital.

A virtude desta abordagem deveria ser imediatamente clara para os socialistas. O socialismo insiste em fundamentar a sua análise na realidade material da economia mundial. Insiste na ciência e na justiça. Sim, o socialismo abraça a tecnologia – e promete, de forma credível, gerir a tecnologia melhor do que o capitalismo – mas as visões socialistas da tecnologia devem ser empiricamente fundamentadas, ecologicamente coerentes e socialmente justas. Elas não deveriam, enfaticamente, confiar na especulação ou no pensamento mágico, muito menos na perpetuação das desigualdades coloniais. As visões do crescimento verde entram em conflito com estes valores socialistas fundamentais.

Podemos ver claramente o duplo movimento de eficiência mais suficiência, nos cenários macroeconómicos publicados de pós-crescimento e decrescimento. O modelo de decrescimento Euroverde, por exemplo, começa com um cenário de base de negócios como de costume (“business-as-usual”) e, em seguida, adiciona, primeiro medidas promotoras de eficiência (incluindo coisas como preços de carbono, melhorias de eficiência, inovação, eletrificação, transição para energias renováveis, e assim por diante), e depois, para além disso, acrescentam-se políticas económicas e sociais transformadoras (redução da produção menos necessária, semana de trabalho mais curta, garantia de emprego, impostos sobre a riqueza, etc.), para produzir os resultados (9). Esta mesma abordagem em duas partes é adotada pelo modelo LowGrow (10). Na verdade, isto é verdade até mesmo para o “cenário de estabilização” do MIT World3, da década de 1970: primeiro implementa as medidas do cenário de “tecnologia abrangente” e depois acrescenta, sobre isso, a estabilização da produção.

Podemos ver os mesmos princípios num estudo recente sobre a descarbonização do sector dos transportes em países de rendimento elevado publicado na revista Nature. Os autores escrevem: “Concluímos que, além da implementação de mudanças na conceção dos veículos que reduzam as suas emissões, é necessária uma redução rápida e em grande escala no uso do automóvel para cumprir orçamentos de carbono rigorosos e evitar a elevada procura de energia” (11). Por outras palavras, sim, precisamos de fazer a transição para veículos elétricos – mas também precisamos, simultaneamente, de reduzir a indústria automóvel, à medida que melhoramos e expandimos as opções de transporte público para garantir a mobilidade para todos. Eficiência, sim. Inovação tecnológica, sim. Mas suficiência e equidade também.

Esta abordagem também é adotada nos recentes cenários do modelo de “energia viva decente”, que se tornaram uma pedra de toque na investigação sobre o decrescimento (12). Estes cenários pressupõem fortes melhorias de eficiência e tecnologia avançada, ao mesmo tempo que organizam a produção em torno da suficiência e das necessidades humanas, e reduzem drasticamente a desigualdade (13). Os resultados indicam que, se adotarmos esta abordagem em duas partes (inovação tecnológica e suficiência), seria possível garantir padrões de vida dignos para uma população global de dez mil milhões de pessoas – mais do que o pico projetado para meados do século – reduzindo ao mesmo tempo o consumo de energia e descarbonizando de forma suficientemente rápida para limitar o aumento da temperatura a menos de 1,5° C até ao final do século. Uma breve nota: todos estes modelos têm as suas fraquezas e os investigadores estão a desenvolver uma nova geração deles para dar conta de uma gama mais abrangente de políticas de decrescimento, incluindo estratégias de descolonização e uma radical convergência Norte-Sul na economia mundial (14).

Assim, o debate público sobre o decrescimento assenta numa falsa dicotomia. O verdadeiro conflito não é entre tecnologia e antitecnologia. É sobre como é imaginada a tecnologia e as condições sob as quais ela é implementada. A investigação sobre o decrescimento reivindica fortemente uma abordagem mais científica (e mais justa) às visões tecnológicas.

E quanto à questão do progresso tecnológico? No discurso mediático, o crescimento capitalista é frequentemente confundido com – ou mesmo visto como necessário para – o progresso tecnológico. Mas também aqui, estamos perante um pensamento desleixado.

Sim, precisamos de inovação para resolver a crise ecológica. Precisamos de melhores painéis solares, melhor isolamento, melhores baterias, melhor reciclagem, melhores métodos de produção de aço, etc.. Mas não precisamos de crescimento agregado para conseguir estas coisas. Se o objetivo é alcançar tipos específicos de inovação, então visemos alcançá-los diretamente, em vez de fazer crescer toda a economia indiscriminadamente e esperar que isso proporcione magicamente a inovação de que necessitamos. Será realmente razoável fazer crescer a indústria dos plásticos, a indústria da carne bovina e a indústria da publicidade para obter comboios mais eficientes? Faz realmente sentido cultivar coisas sujas para obter coisas limpas? Devemos ser mais espertos do que isso. As inovações necessárias podem ser alcançadas diretamente – através do investimento público em investigação e desenvolvimento – ao mesmo tempo que se reduzem formas de produção menos necessárias. Na verdade, aquele alcançamento será possibilitado por meio desta redução. O talento de engenharia que está atualmente organizado em torno do desenvolvimento, por exemplo, de algoritmos publicitários, pode ser remobilizado para desenvolver melhores energias renováveis e sistemas de trânsito.

Além disso, devemos notar que os imperativos do crescimento capitalista limitam muitas vezes o progresso tecnológico. Sob o capitalismo, as empresas organizam a inovação, não em torno de objetivos socialmente necessários, mas sim em torno daquilo que serve o seu crescimento e lucros. Assim, obtemos inovações para maximizar a extração de combustíveis fósseis, ou maximizar a obsolescência planeada, mas muito pouco em áreas que são claramente necessárias, mas menos lucrativas (como as energias renováveis) ou nada lucrativas (como os transportes públicos, produtos reparáveis ou medicamentos para doenças tropicais negligenciadas) (15). Além disso, mesmo quando as inovações são socialmente benéficas, são frequentemente bloqueadas por patentes que impedem a sua rápida disseminação (como acontece com as vacinas contra a COVID-19 e a tecnologia de baterias).

Num cenário socialista democrático, estas limitações poderiam ser superadas. Poderíamos libertar a inovação para servir a sociedade e a ecologia em vez do lucro, investir diretamente nas inovações de que necessitamos tão urgentemente e assegurar a rápida disseminação das tecnologias necessárias.

Do que foi dito acima deveria ficar claro que o decrescimento é melhor entendido como um elemento dentro de uma luta mais ampla pela transformação ecossocialista (e anti-imperialista). Devemos alcançar o controlo democrático sobre as finanças, a produção e a inovação, bem como organizá-lo em torno de objetivos sociais e ecológicos. Isto requer garantir e melhorar as formas de produção social e ecologicamente necessárias, reduzindo ao mesmo tempo a produção destrutiva e menos necessária.

Finalmente, vale a pena salientar que a nossa compreensão do que conta como tecnologia não deve limitar-se a maquinaria complexa. Por vezes, tecnologias mais simples são mais eficazes, mais eficientes e mais democráticas: as bicicletas, por exemplo, são uma tecnologia incrivelmente poderosa para ajudar a descarbonizar o transporte urbano, e os métodos agroecológicos são vitais para restaurar a fertilidade do solo. Além disso, o poder das tecnologias sociais não deve ser subestimado. Para citar um exemplo clássico da literatura socialista feminista: as máquinas de lavar louça e de lavar roupa são fundamentais para libertar as pessoas (e especialmente as mulheres) do trabalho, mas também o são os cuidados infantis públicos e as cozinhas comunitárias. Devemos ter cuidado para garantir que as nossas visões da tecnologia não sejam poluídas e limitadas por pressupostos e visões do mundo capitalistas. Uma tecnologia melhor é possível.

Notas:

[1] Joel Millward-Hopkins, Julia K. Steinberger, Narashima D. Rao e Yannick Oswald, “Providing Decent Living with Minimum Energy,” Global Environmental Change 65 (2020).

[2] Jason Hickel, “Quantifying National Responsibility for Climate Breakdown: An Equality-Based Attribution Approach for Carbon Dioxide Emissions in Excess of the Planetary Boundary”, Lancet Planetary Health 4, n.º 9 (2020): pp. e399–e404.

[3] Jason Hickel et al., “Urgent Need for Post-Growth Climate Mitigation Scenarios”, Nature Energy 6, n.º 8 (2021): pp. 766–68.

[4] Para referências, ver citações em Hickel et al., "Urgent Need for Post-Growth Climate Mitigation Scenarios". Este texto também aborda os problemas de escalonamento da captura e armazenamento direto de carbono no ar.

[5] Para referências, vem citações em Hickel et al., “Urgent Need for Post-Growth Climate Mitigation Scenarios”. Ver também Anne Berner, Stephan Bruns, Alessio Moneta e David I. Stern, “Do Energy Efficiency Improvements Reduce Energy Use? Empirical Evidence on the Economy-wide Rebound Effect in Europe and the United States”, Energy Economics 110 (2022).

[6] Jason Hickel e Aljosa Slamersak, “Existing Climate Mitigation Scenarios Perpetuate Colonial Inequalities”, Lancet Planetary Health 6, n.º 7 (2022): pp. e628–e631.

[7] Lorenze Keyßer e Manfred Lenzen, “1.5 °C Degrowth Scenarios Suggest the Need for New Mitigation Pathways”, Nature Communications 12, n.º 1 (2021).

[8] Jefim Vogel et al., “Socio-Economic Conditions for Satisfying Human Needs at Low Energy Use”, Global Environmental Change 69 (2021).

[9] Simone D’Alessandro, André Cieplinski, Tiziano Distefano e Kristofer Dittmer, “Feasible Alternatives to Green Growth”, Nature Sustainability 3, n.º 4 (2020): pp. 329–35.

[10] Peter Victor, Managing without Growth (Cheltenham: Edward Elgar, 2018).

[11] Lisa Winkler, Drew Pearce, Jenny Nelson e Oytun Babacan, “The Effect of Sustainable Mobility Transition Policies on Cumulative Urban Transport Emissions and Energy Demand”, Nature Communications 14, n.º 1 (2023).

[12] Millward-Hopkins, Steinberger, Rao e Oswald, “Providing Decent Living with Minimum Energy”.

[13] Joel Millward-Hopkins e Yannic Oswald, “Reducing Global Inequality to Secure Human Wellbeing and Climate Safety”, Lancet Planetary Health 7, n.º 2 (2023): pp. e147–e154.

[14] Jason Hickel, “How to Achieve Full Decolonization”, New Internationalist, October 15, 2021.

[15] Brett Christophers, “Fossilised Capital: Price and Profit in the Energy Transition”, New Political Economy 27, n.º 1 (2021): pp. 146–59.

Jason Hickel é professor no Instituto de Ciência e Tecnologia Ambiental (ICTA-UAB) e no Departamento de Antropologia Social e Cultural da Universidade Autônoma de Barcelona. Ele é autor de The Divide: A Brief Guide to Global Inequality and Its Solutions (Penguin) e Less Is More: How Degrowth Will Save the World (Penguin).

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