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4 de janeiro de 2021

Guerra Fria da Grã-Bretanha na América Latina, antes e agora

Apesar de se autodenominar como um bastião da justiça internacional, documentos recentemente divulgados revelam o envolvimento da Grã-Bretanha em abusos e golpes em toda a América Latina - um envolvimento que continua até hoje.

Daniel Hunt, John McEvoy


Tribune

Tradução
/ Embora os Estados Unidos possuam um histórico notório de intervenções nas Américas, o envolvimento britânico na região permanece relativamente desconhecido, com sua política externa imune ao escrutínio público. Documentos recém-desclassificados dos Arquivos Nacionais do Reino Unido, entretanto, lançaram uma luz importante sobre a Guerra Fria da Grã-Bretanha contra a América Latina.

Apesar da perda considerável de comércio e influência da Grã-Bretanha na América Latina durante o século XX, a intervenção britânica durante o pós-guerra foi significativa. Entre as décadas de 1950 e 1970, a Grã-Bretanha interviu secretamente em diversos estados latino-americanos, com o objetivo de promover interesses comerciais e empresariais britânicos, apoiar os objetivos da política externa norte-americana e manter a região no “lado certo” da Guerra Fria.

Na prática, isso significou interferir em eleições e instituições democráticas, fornecer treinamento para a prática de tortura, patrocinar jornalistas e apoiar ditaduras militares.

Ofensiva de publicidade secreta

Em 1948, uma unidade secreta de propaganda – inocentemente chamada de Departamento de Pesquisa de Informações (DPI) – foi criada no Ministério das Relações Exteriores. De acordo com os primeiros documentos, o Departamento foi projetado para distribuir propaganda disfarçada, não atribuível ao Ministério, para “conter os avanços do comunismo, tomando a ofensiva contra o movimento”.

O trabalho do DPI na América Latina começou logo após sua criação, mas foi somente na década de 1960 que suas operações secretas “aumentaram consideravelmente” na região. A mudança foi motivada pela visita do diplomata Ronnie Burroughs em 1961 que, segundo o historiador Rory Cormac, nomeou Equador, Bolívia, Venezuela, Colômbia e Peru como prioridades estratégicas.

Três anos após a visita de Burroughs, um arquivo do Ministério apontava, novamente, que a América Latina havia se tornado “uma área vital na Guerra Fria” e que “impedir uma vitória comunista da região era um interesse tão importante quanto negociar comercialização e intensificação das exportações”.

Pare Allende

Conforme revelou o Desclassified UK, documentos oficiais recém-divulgados mostram que a Grã-Bretanha interferiu secretamente nas eleições presidenciais chilenas de 1964 e 1970.

Durante o início da década de 1960, o Chile entrou no radar do DPI com a ascensão da popularidade de Salvador Allende, um político socialista e líder da Frente de Acción Popular (Frente de Ação Popular).

Antes da eleição chilena de 1964, funcionários do Gabinete do Governo da Grã-Bretanha informaram ao DPI que “será importante prevenir ganhos significativos da extrema-esquerda” no Chile, “agora e no futuro”. Como tal, o DPI distribuiu seu “material mais sério para contatos confiáveis” e garantiu “a publicação de certos artigos na imprensa” no Chile, destinados a desacreditar Allende e favorecer seu então oponente democrata-cristão, Eduardo Frei.

Após a vitória convincente de Frei, a oficial sênior do DPI, Elizabeth Allot, declarou o Chile como uma prioridade, observando que “certamente há poucos locais que reivindicam melhor nossos recursos e onde há tanta oportunidade para nós”.

Em 1970, Allende – então líder da coalizão Unidade Popular do Chile – parecia provável de ganhar a presidência com um plano radical para uma reforma econômica estrutural. Os planejadores do DPI reagiram com preocupação, afirmando em 1969 que “o Chile está na linha de frente no que diz respeito ao avanço do comunismo na América do Sul”.

Nos meses que antecederam a eleição, Allott escreveu que o DPI estava, portanto, “concentrando-se em evitar que uma aliança da extrema-esquerda ganhasse poder […] e em ajudar organizações convenientes que provavelmente continuarão existindo, aconteça o que acontecer”.

A Grã-Bretanha também colaborou com a infame campanha de propaganda norte-americana no Chile, até mesmo auxiliando uma organização de imprensa fundada pela CIA que visitou o país em 1970. Depois que Allende foi derrubado por um golpe militar em 1973, o governo de Edward Heath agiu rapidamente para reconhecer o general Augusto Pinochet – uma relação fechada que foi notoriamente reacendida por Margaret Thatcher.

A Grã-Bretanha e a ditadura militar brasileira

Documentos recém descobertos também expõem as operações do DPI no Brasil durante a ditadura militar no país (1964-1985) e forneceram detalhes adicionais do treinamento britânico sobre tortura.

Além de trabalhar para manter as Forças Armadas brasileiras “informadas sobre as políticas e métodos comunistas, com o objetivo de tornar sua oposição ao comunismo mais racional e bem informada”, as autoridades britânicas tentaram moldar o panorama da mídia brasileira e até discutiram em transformar o presidente João Goulart em um alvo.

Assim, como Cormac descobriu, autoridades britânicas queriam fazer o presidente “temer que sua posição pessoal com o movimento sindical estivesse sendo minada. Isso poderia ser melhor feito sugerindo que o movimento estava sendo assumido por comunistas e pela extrema-esquerda ‘por meio de um’ documento ‘negro’ que tentaria provar que esse era o caso”.

Publicitários britânicos também tinham como alvo o Última Hora, um jornal brasileiro convencional e de esquerda fundado em 1951 pelo jornalista e autor Samuel Wainer. Em 1964, Última Hora era o único jornal brasileiro convencional a defender o governo de João Gourlart e se opor ao golpe militar.

Tentativas de influenciar o Última Hora começaram em seis meses antes do golpe. Em uma carta enviada do embaixador britânico RJD Evans ao funcionário do IRD JE Jackson, datada de 30 de setembro de 1964, Evans discute “acordos não oficiais” para reuniões do IRD com “os diretores do Jornal do Brasil e um vice-presidente e editor do Última Hora’.

Em 1968, autoridades britânicas no Brasil se gabavam de que o “estímulo” ao Última Hora já era um fato consumado. Como diz um arquivo do IRD: “Nosso material vai para altos membros das Forças Armadas, o Serviço Nacional de Inteligência, a imprensa incluindo o Última Hora de esquerda, cujo editor, Samuel Wainer, foi cultivado assiduamente pelo [oficial de informação] Sr. Welligton; a igreja, estudantes e líderes sindicais”.

Oficiais britânicos estavam triunfantes. “A transformação do Última Hora de um jornal quase-comunista de extrema-esquerda para um diário de oposição respeitável e respeitado”, diz outro documento desclassificado, foi ajudado pela relação especial entre o oficial do IRD e o fundador e presidente do jornal, Dr. Samuel Wainer.

Um arquivo acrescente que “o suplemento produzido por ocasião da visita de Sua Majestade a Rainha pelo Última Hora foi considerado o melhor produzido por qualquer jornal brasileiro — e os americanos até nos perguntaram quanto tínhamos pago ao jornal por ele. “Nem um centavo, é claro”, foi a resposta.

A situação degenerativa dos direitos humanos no Brasil ao final dos anos 1960 evidentemente não preocupava os britânicos.

Em sua revisão anual de dezembro de 1972, o embaixador do Reino Unido no Brasil, David Hunt, foi indiferente às questões de direitos humanos. Absolvendo a liderança, ele culpou o policiamento deficiente e a má imprensa estrangeira, organizações maliciosas como a Anistia Internacional e deu seu apoio entusiástico ao governo sangrento do ditador Médici, chamando-o de “um presidente genuinamente popular que é patentemente honesto e sincero em seu desejo de promover o bem-estar de todos os setores do povo brasileiro”.

Além de ajudar na propaganda, a Grã-Bretanha ofereceu “um curso de treinamento de quinze dias em junho de 1969 para dois membros de um grupo especial de inteligência dentro do Ministério de Relações Exteriores”, bem como conselhos sobre “métodos sofisticados de interrogatório [tortura]”.

Escrevendo em 1970, o adido de defesa britânico PB Winstanley concluiu: “Apesar da apatia obtusa do povo, o país está avançando tão rápido quanto, talvez, a natureza de seus milhões de mulatos permitir”.

Agenda Canning

Desde novembro de 2010, o relacionamento do Reino Unido com a América Latina tem sido direcionado por uma iniciativa de política externa chamada de Agenda Canning, lançado pelo então secretário de Relações Exteriores, William Hague. Dez anos depois, podemos avaliar a direção da política externa britânica, do Brasil à Bolívia, de Honduras à Venezuela, e notar que isso serviu para minar a democracia e ajudar os responsáveis pelos principais abusos dos direitos humanos.

Na Bolívia, o Reino Unido reconheceu e apoiou abertamente o regime liderado por Jeanine Añez, que chegou ao poder por meio de um golpe sangrento em 2019. No mesmo ano, a Grã-Bretanha também se apressou para reconhecer o autodeclarado presidente da Venezuela, Juan Guaidó, congelando mais tarde quase 2 bilhões de dólares de ouro venezuelano mantido no Banco da Inglaterra, estabelecendo uma “Unidade de Reconstrução da Venezuela” dentro do Ministério de Relações Exteriores, e financiando iniciativas anticorrupção e pró-oposição.

A Grã-Bretanha evidentemente teve um lado na própria crise democrática do Brasil. De acordo com arquivos obtidos sob o Freedom of Information Act, autoridades britânicas também mantiveram reuniões secretas com o candidato neofascista Jair Bolsonaro antes, durante e depois da campanha eleitoral brasileira de 2018. Meses antes da votação, por exemplo, o embaixador britânico Vijay Ringarajan enviou um convite a Bolsonaro sobre uma reunião secreta com os “Parceiros Estratégicos” britânicos – um lobby de empresas farmacêuticas, extrativas e de armas, incluindo BP, AstraZeneca e a gigante da mineração, Anglo American.

A Grã-Bretanha também mantém as Ilhas Malvinas e Belize como possessões imperiais. Como revelou o Declassified UK, o exército britânico ainda está “usando um sexto da massa terrestre total de Belize para treinamento de guerra na selva”.

Agora, como antes, a Grã-Bretanha vê a América Latina em termos geoestratégicos e comerciais. No contexto de uma nova Guerra Fria, com as potências do Atlântico Norte buscando afastar o continente das alianças com a Rússia e China, observamos que o relacionamento da Grã-Bretanha com a região está ainda mais parecido com os dias sombrios de meados do século XX do que se imagina.

Sobre os autores

Daniel Hunt é editor fundador da Brasil Wire.

John McEvoy é um jornalista independente, cujo trabalho foi publicado na Jacobin, Brasil Wire e na International History Review.

10 de dezembro de 2019

A guerra dos Tories contra a América Latina progressista

Preparando-se para Bolsonaro, apoiando o golpe de estado e facilitando a repressão aos direitos humanos - o histórico do Tory na América Latina hoje mostra por que eles estavam tão dispostos a fazer amizade com Pinochet.

John McEvoy, Daniel Hunt e Nathália Urban



Tradução / Em busca das riquezas oriundas do petróleo e da mineração, o Partido Conservador Britânico montou uma agenda há dez anos para defender o “livre comércio”. Hoje, está provado que ela serviu para intervir no Brasil, Venezuela, Bolívia, Honduras e Colômbia. As próximas eleições, com Jeremy Corbyn, abrem uma brecha para reverter esse cenário.

Tradução / No dia 9 de novembro de 2010, o novo secretário de Relações Exteriores do Partido Conservador Britânico, William Hague, fez um discurso na Canning House em Londres, lamentando a perda da influência e prestígio britânico na América Latina. Hague estabeleceu um plano, conhecido como Agenda de Canning, para restaurar essa influência.

A Agenda de Canning continha as sementes de um projeto neocolonial britânico, abrangendo as estratégias comerciais e de defesa, e com interesses petrolíferos e de mineração em seu cerne. Na época, esse projeto contrastava fortemente com os governos da “onda rosa” progressista e com o ressurgimento do nacionalismo de recursos no continente.

Nove anos após o discurso de Hague, podemos avaliar o impacto de sua agenda na região. Do Brasil à Bolívia, de Honduras à Colômbia, o efeito da política do governo britânico tem sido minar a democracia e ajudar os responsáveis por grandes violações dos direitos humanos.

Alavancando Bolsonaro

Na última década – principalmente desde o golpe que culminou no impeachment da presidente eleita Dilma Rousseff em 2016 e a subsequente escalada ao poder de Jair Bolsonaro – o governo do Reino Unido mostrou um grande interesse pelas matérias-primas do Brasil. Baseado no trabalho realizado por seu antecessor não-eleito, Michel Temer, Bolsonaro abriu os recursos brasileiros para o capital internacional como nunca antes.

Bolsonaro parabenizou publicamente Boris Johnson por sua eleição como líder Conservador e disse que seu governo poderia “contar com o Brasil na busca do livre comércio, na promoção da prosperidade para nossos povos e na defesa da liberdade e da democracia”.

Em 2019, o líder do Partido Trabalhista (Labour) Jeremy Corbyn e outros membros do gabinete chamaram a atenção para o relacionamento “acolhedor” dos Conservadores com o governo Bolsonaro. Caroline Lucas, do Partido Verde, também questionou Johnson sobre os incêndios que tomaram conta da Amazônia, sobre os quais o Primeiro Ministro respondeu: “Eu relutaria em incentivar qualquer medida no momento que fizesse algo para reduzir o comércio, e o livre mercado em todo o mundo, e é muito melhor apoiaremos o reflorestamento do Brasil da maneira que somos”. Ele reiterou a doação superficial de 10 milhões de libras para o Brasil, um país que tem $358 bilhões de dólares em reservas offshore.

O relacionamento do governo conservador com Jair Bolsonaro, no entanto, não começou com sua eleição. Temos informações em primeira mão de que o Ministério de Relações Exteriores e da Commonwealth (FCO) estava em contato com Bolsonaro e aliados desde 2014. O então embaixador Alex Ellis também apareceu em público com personalidades da mídia de extrema direita e pró-Bolsonaro, como o apresentador de TV Danilo Gentili.

O Ministério das Relações Exteriores e da Commonwealth (FCO) atrasou sua resposta ao pedido de acesso à informação sobre suas comunicações com Bolsonaro antes de sua eleição, bem como a correspondência com o Ministro da Economia, Paulo Guedes. Após meses de estagnação, essa resposta está prevista para 12 de dezembro, ou seja depois das Eleições Gerais do Reino Unido.

Bolsonaro, um misógino racista e homofóbico, que certa vez elogiou a cavalaria americana por ter cometido genocídio dos povos indígenas do continente, chegou ao poder em circunstâncias claramente duvidosas. O principal oponente de Bolsonaro, Luiz Inácio Lula da Silva, que estava a caminho de vencer, havia sido preso sob acusações forjadas para impedi-lo de concorrer à presidência.

O governo britânico não teve escrúpulo quanto a isso. Questionado sobre como planejavam lidar com Bolsonaro, o Ministro de Relações Exteriores Alan Duncan se mostrou muito entusiasmado:

“O primeiro-ministro escreveu ao presidente eleito Bolsonaro. Nosso embaixador no Brasil o viu, e também viu muitos dos futuros ministros e a equipe de transição, estamos ansiosos para trabalhar perto do Brasil no futuro.”

No mesmo mês, o parlamentar Daniel Kawczynski foi abordado por um constituinte sobre a Moção parlamentar de número 1854, pedindo-lhe que apoiasse o registro na Câmara dos Comuns, a moção era sobre o clima de apreensão com a eleição de Bolsonaro.

Kawczynski respondeu: “Reconheço suas preocupações, mas devo deixar claro que o presidente eleito Bolsonaro recebeu um mandato do povo brasileiro. Não cabe ao governo do Reino Unido interferir nos processos democráticos de outro país.” Enquanto 68 membros do parlamento assinaram a moção denunciando Bolsonaro, nenhum parlamentar conservador a apoiou.

O interesse de Kawcynski no Brasil, com sua enorme riqueza petrolífera, pareceu começar em 2013. Em janeiro daquele ano, Kawcynski perguntou a William Hague no Câmara dos Comuns sobre os “passos [que] as embaixadas britânicas estão tomando para pressionar os governos estrangeiros a criar mercados justos, ausente de corrupção “.

A operação “anticorrupção” falsa e agora completamente desacreditada, Lava Jato, foi a principal alavanca usada para expulsar Dilma Rousseff e impedir Lula de concorrer. O Ministério das Relações Exteriores e a indústria petrolífera do Reino Unido ajudaram a financiar a Transparency International, uma ONG que deu apoio constante a Lava Jato e ajudou a garantir visibilidade global. O FCO também doa cerca de $1 milhão de dólares por ano ao Atlantic Council, um grupo de especialistas em segurança que comemorou o impeachment de Dilma e a Operação Lava Jato.

Escritórios de advocacia britânicos como Hogan Lovells também desempenharam seu papel. O site da empresa se orgulha de “realizar uma auditoria interna da Eletrobras, a maior empresa de eletricidade do Brasil, e de alegações relacionadas ao escândalo da Petrobras na 'Lava Jato'”.

Colhendo as recompensas

Logo após o impeachment de Dilma Rousseff em 2016, Liam Fox na época o Secretário de Estado do Comércio Internacional saiu para conhecer o novo governo. O Reino Unido abriu um novo consulado em Belo Horizonte, onde as operações de mineração brasileiras estão historicamente localizadas. Outra parlamentar conservadora, Liz Truss, fez uma breve visita ao país em abril de 2018, seis meses antes da vitória de Bolsonaro, “falando sobre livre comércio, livre mercado e oportunidades pós-Brexit” (como ela mesmo disse).

Truss se reuniu com autoridades brasileiras para incentivar “uma economia aberta e privatizações”. Ela elogiou o instituto de pesquisa Milenium, dizendo que estavam verdadeiramente comprometido com “liberdade de expressão e livre mercado”. Paulo Guedes, Ministro da Economia de Bolsonaro, é um dos fundadores do Instituto Milenium. Ele liderou uma operação para vender ativos brasileiros a investidores estrangeiros a um preço ridículo. Submetemos outro pedido de acesso à informação sobre o que mais Truss estava fazendo em sua viagem ao Brasil, mas esse pedido também foi atrasado.

Alguns documentos vieram à tona, no entanto, devido a um vazamento acidental. O Ministro do Comércio, Greg Hands, foi pego pressionando o governo Temer em 2018, pedindo incentivos fiscais em nome da Shell e da BP. Hands também representou empresas britânicas em eventos separados de energia, mineração e água. Em agosto de 2019, outro Ministro do Comércio, Conor Burns, se reuniu com o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, para discutir projetos de segurança e vigilância. Os números divulgados em novembro mostraram que os agentes de segurança do Rio já haviam matado mais de 1.500 pessoas este ano, superando o total de 2018.

Todos os investimentos e condições de segurança oferecidos pelo Brasil parecem estar rendendo lucros aos negócios britânicos. Em 2018, a Shell e a BP – com quem embaixadores do Reino Unido no Brasil se reuniram mais de vinte vezes desde 2017 – já haviam acumulado 13,5 bilhões de barris de petróleo, mais que a própria Petrobras, e por uma fração do custo da mesma.

As empresas britânicas também investiram pesado em biocombustíveis. A BP possui a maior refinaria de biocombustível do Brasil, e a Shell possui muitos investimentos na área, como a joint venture Raízen. Há muito tempo descrita como supostamente ecológica, a produção de biocombustíveis é de fato responsável por muito desmatamento e poluição. O uso pesado de recursos nas plantações de cana de açúcar contribuiu para a crise hídrica que assolou São Paulo em 2014.

Intervenção humanitária?

Em setembro, o governo do Reino Unido prometeu 40 milhões de libras em “assistência humanitária” à Venezuela, dos quais 30 milhões seriam enviados para organizações de dentro do país. O anúncio parecia ter sido coordenado com uma promessa adicional de 120 milhões de dólares em “assistência humanitária” feito pelo Departamento de Estado dos EUA. No entanto, não há transparência sobre para onde esse dinheiro está indo. Em resposta a uma solicitação feita pela lei de acesso à informação, o Departamento do Reino Unido para o Desenvolvimento Internacional (DFID) declarou: “Estamos ocultando os detalhes das organizações que apoiamos na Venezuela”.

Isso é motivo de muita preocupação, uma vez que ONGs ostensivamente neutras estão envolvidas em operações de mudança de regime na Venezuela, financiadas por auxiliares do governo dos EUA, como o National Endowment for Democracy. Em contraste com os insignificantes 40 milhões de libras da suposta “assistência humanitária”, em fevereiro deste ano, o Banco da Inglaterra congelou 1,3 bilhão de libras em reservas venezuelanas de ouro – um sinal claro de que o governo britânico estava de fato tentando desestabilizar o governo de Nicolas Maduro.

O líder da oposição venezuelana Juan Guaidó nomeou a empresária Vanessa Neumann como sua representante embaixadora no Reino Unido. Em 2017, Neumann disse ao diretor da CIA Mike Pompeo que estava “interessada em sua avaliação honesta sobre os interesses americanos ou ameaças da Venezuela”, acrescentando que “a mudança de regime parece ser – esperamos que – iminente”. Ela recentemente descreveu o golpe militar contra o presidente boliviano Evo Morales como “uma grande inspiração”.

Em setembro de 2019 (alguns meses depois de ter sido nomeada embaixadora de Guaidó), uma gravação vazada mostrou Neumann “oferecendo-se para renunciar à reivindicação histórica da Venezuela [de Essequibo] em troca de apoio de Londres”. Na gravação, Neumann faz referência a conversas que teve com o FCO britânico e com o alto comissário da Guiana, afirmando que o Ministério das Relações Exteriores “não apoiará [os esforços de Guaidó para derrubar Maduro]”, a menos que sejam feitas concessões sobre a questão de Essequibo.

No entanto, quando perguntado em uma solicitação da lei de acesso à informação sobre reuniões com Neumann e discussões sobre Essequibo, o Ministério das Relações Exteriores respondeu que “as informações solicitadas não são mantidas por este Departamento”. Estaria Neumann exagerando sobre seus laços com o Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido, ou o Ministério das Relações Exteriores estava realizando reuniões secretas com membros da oposição venezuelana, discutindo reivindicações territoriais originárias da era colonial britânica?

Os interesses britânicos no petróleo venezuelano e a disputa de fronteira com Essequibo já vem de longa data. De acordo com documentos desclassificados do Ministério das Relações Exteriores de 1974, entre as principais prioridades da Grã-Bretanha na Venezuela estavam “a proteção do acesso da Shell ao petróleo venezuelano … Devemos proteger, tanto quanto o possível, o acesso contínuo da Shell ao petróleo venezuelano”. O Ministério das Relações Exteriores também observou com preocupação que “o efeito da legislação nacionalista venezuelana precisa de cuidadosa observação”.

Nesse mesmo momento, as autoridades britânicas também estavam observando de perto a disputa de fronteira com o Essequibo: “A briga sobre a fronteira da Guiana e a suspeita geral do Reino Unido como uma antiga potência colonial levou a Venezuela a se juntar aos nossos críticos na ONU e na Organização dos Estados Americanos . No entanto, deve ser um dos objetivos de nossa política suavizar a atitude venezuelana sobre a Guiana. ”

Em outras ocasiões, Neumann agradeceu ao ex-ministro de Relações Exteriores Alan Duncan por seu apoio. “Foi uma honra trabalhar com você, Sir Alan Duncan”, publicou Neumann. No entanto, de acordo com outro pedido de acesso à informação ao Ministério das Relações Exteriores, não há registro das reuniões de Neumann com Duncan. Em outras palavras, o Ministério das Relações Exteriores parece ter mantido zero registro de sua correspondência com uma suposta embaixadora.

Celebrando golpes de Estado

Em 10 de novembro, depois de alegações infundadas de fraude eleitoral e semanas de protestos violentos um golpe militar derrubou o presidente boliviano Evo Morales. A senadora não eleita Jeanine Áñez, cujo partido ganhou menos de 5% dos votos nas urnas, substituiu Morales, ela está representando uma coalizão de fundamentalistas cristãos, de extrema direita e facções separatistas de Santa Cruz.

A chefe do departamento de direitos humanos da ONU, Michelle Bachelet, denunciou o “uso desproporcional de força pelo exército e pela polícia”, após massacres de manifestantes anti-golpe e outros abusos das forças de segurança do estado em toda a Bolívia.

Mas o Ministério das Relações Exteriores Britânico apenas emitiu a seguinte declaração:

“O Reino Unido felicita Jeanine Áñez por assumir suas novas responsabilidades como presidente interina da Bolívia. Saudamos a nomeação de Áñez e sua intenção declarada de realizar eleições em breve. Eleições livres e justas que irão restabelecer a confiança na democracia com o povo boliviano. Esperamos que todos os partidos políticos apoiem os esforços para restaurar a calma após a violência recente e para organizar novas eleições presidenciais de acordo com a Constituição.”

A resposta de Jeremy Corbyn não poderia ter sido mais diferente:

“Ver [Evo Morales] que, juntamente com um movimento poderoso, trouxe tanto progresso social forçado a sair do cargo pelas forças armadas é assustador. Eu condeno esse golpe contra o povo boliviano e os apoio, pela democracia, justiça social e independência.”

Claro, essa não foi a primeira vez que o Reino Unido se viu caminhando do mesmo lado dos golpes de estado na América Latina. Após o golpe de 2009 apoiado pelos EUA, Honduras se tornou uma das nações mais perigosas do mundo para ativistas políticos. O regime pós-golpe tem sido implicado em violações maciças dos direitos humanos, incluindo o assassinato da ativista ambiental Berta Caceres.

No ano que antecedeu a eleição hondurenha de 2017, que foi amplamente denunciada como fraudulenta, o governo britânico aprovou a venda de softwares de spyware ao governo do país. As licenças de exportação de spyware, além da tecnologia de descriptografia e outros equipamentos associados à vigilância e à interceptação, foram seguidas por uma grande repressão aos protestos. Após a eleição, os serviços de segurança hondurenhos mataram, detiveram e intimidaram dezenas de ativistas.

O parlamentar do Partido Labour Lloyd Russell Moyle, que faz parte do comitê de Westminster para controle de exportação de armas, disse à Alborada Magazine:

“O governo britânico vendeu para Honduras uma tecnologia projetada expressamente para espionar seus cidadãos, meses antes de o estado reunir centenas de pessoas em uma operação de vigilância bem orquestrada. A lei britânica é explícita: Diz que o governo não pode licenciar armas para nações que reprimem seu próprio povo. Antes do governo licenciar essas armas, sabiam que os serviços de segurança de Honduras estavam matando ambientalistas, homossexuais e qualquer pessoa em geral que discordasse deles, com impunidade. O governo sabia que o país não tinha um judiciário independente e sabia que as prisões mortais de Honduras estão cheias de pessoas que não desrespeitaram a justiça , e muitas das quais não são livres devido a suas crenças políticas.”

Na Colômbia também, onde esquadrões da morte direitistas desempenham um papel notório na política há décadas, os Conservadores têm um histórico preocupante.

Em 2016, a primeira ministra Theresa May conversou em na residência oficial do governo em Downing Street com o então presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, sobre um acordo de livre comércio com o país após o Brexit. Durante seu período como Ministro da Defesa colombiano, Santos presidiu o escândalo dos “falsos positivos”: onde as forças de segurança do estado assassinaram cerca de 10.000 civis a sangue frio e vestiram seus corpos em uniformes de guerrilha para que pudessem ser apresentados como mortes em campo de batalha.

Em junho deste ano, May se reuniu com o atual presidente colombiano Iván Duque, para conversas sobre “fortalecer o comércio e o investimento”. Sob o controle de Duque, um extremista de direita, a Colômbia ainda tem um dos piores registros de direitos humanos do hemisfério sul.

Desde 1989, o apoio do governo britânico à Colômbia inclui treinamento do SAS e vendas substanciais de armas às forças militares responsáveis ​​por grandes atrocidades. Em 2011 um relatório do comitê de relações exteriores sobre o trabalho de direitos humanos do Ministério de Relações Exteriores concluiu que “a exploração e extração de petróleo em países não democráticos quase invariavelmente leva ao aumento dos abusos dos direitos humanos, à escalada de conflitos e repressão e à consolidação de regimes não democráticos”.

A Colômbia foi até usada como um exemplo. Até 2010, a BP tinha grandes investimentos em petróleo no país e demonstrou ter cooperado com uma unidade do exército colombiano responsável por massacrar civis.

Uma escolha fatal

A última década da política conservadora britânica em relação à América Latina mostra que nenhum golpe é violento demais, nenhum regime repressivo o suficiente e nenhum empreendimento comercial destrutivo demais para o governo britânico deixe de apoiá-los. Podemos assim identificar o desenvolvimento de uma política externa que contribuiu para a destruição dos direitos humanos, um clima habitável e soberania em todo o continente – remetendo a uma mentalidade colonial que se recusa a morrer nos corredores de Whitehall. O dano causado por essa política é inversamente proporcional à transparência oficial sobre ela.

Portanto, a próxima eleição, nos oferece uma escolha clara: cumplicidade em uma onda de sofrimento humano com os conservadores britânicos ou o potencial de uma política internacionalista e anti-imperialista com o Labour de Jeremy Corbyn. Certamente, vencer a eleição será apenas o começo da batalha pela política externa do Reino Unido. No entanto, para muitos, isso pode muito bem ser uma escolha fatal.

Sobre os autores

John McEvoy é um jornalista independente, cujo trabalho foi publicado na Jacobin, Brasil Wire e na International History Review. 

Daniel Hunt é editor fundador da Brasil Wire.

Nathália Urban é uma jornalista brasileira radicada na Escócia que escreve sobre a América Latina no site Ungagged.

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